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SEXO, NAMORO E

RELACIONAMENTOS

Uma nova abordagem


Num mundo de relacionamentos cibernéticos — alimentados por Facebook, torpedos e tweets — as questões relativas
a sexo, namoro e relacionamentos têm-se tornado cada vez mais complexas e desafiadoras para adolescentes, seus
amigos e seus pais. Este tratamento incisivo sobre o cenário em rápida mudança é leitura obrigatória para pais,
estudantes, conselheiros e pastores. Um grande obrigado a Gerald e a Jay por ajudar-nos a pensar de forma saudável,
em meio a essa mudança cultural intrigante, a partir de uma perspectiva realista e teologicamente perspicaz.

— Joe Stowell, presidente, Cornerstone University

Jay e Gerald escreveram um livro provocativo sobre uma das questões mais prementes da nossa geração — a pureza
sexual. Como mostram os autores, poucas coisas precisam ir tanto ao cerne do evangelho como o desejo da nossa
alma por realização sexual. Não há como pensar com cuidado excessivo sobre o que nosso Pai celestial nos disse.
Mesmo nos casos em que chego a conclusões divergentes das dos autores, sou grato por mais uma investigação sobre
o registro bíblico.

— J. D. Greear, pastor titular, The Summit Church, Durham,


Carolina do Norte

Simplicidade é a força desta nova abordagem sobre sexo, namoro e relacionamentos. Se a princípio você se exaspera
com a ideia de “amizades especiais”, considere se alguma outra alternativa traz maior glória a Deus, faz jus à
evidência bíblica e nos protege do sofrimento desnecessário.

— Collin Hansen, diretor editorial, The Gospel Coalition; autor,


Young, Restless, and Reformed

Que presente para homens e mulheres solteiros! Aqui, em pouco espaço, está um conselho claro e bem fundamentado
que é totalmente bíblico e cristocêntrico. Ele está permeado da graça que dá vida. Sexo, namoro e relacionamentos
será um marco da leitura para muitos nesta geração.

— R. Kent Hughes, autor, Disciplinas do homem cristão

Uma reflexão cristocêntrica sobre sexo, namoro e relacionamentos têm sido algo há muito esperado; felizmente, ela
chegou. Este volume é leitura obrigatória para qualquer um que ministre entre seres humanos.

— Chris Castaldo, diretor, Ministry of Gospel Renewal,


Billy Graham Center

Hiestand e Thomas não deram adeus ao namoro; que graça haveria nisso? Antes, o namoro é revelado por aquilo que
ele é, o que pode perturbar o leitor. A maior força do livro é a contribuição dos autores para um pensamento bíblico
sobre algo que não está na Bíblia, o que não é fácil fazer. Assim, é possível que alguns possam concordar com as
premissas e a trajetória dos seus argumentos, contudo diferir em algumas das conclusões específicas. Porém, todos
nós seremos desafiados e abençoados pela contribuição sábia dos autores a esse assunto vitalmente importante.

— Rick Hove, diretor executivo, Faculty Commons,


Campus Crusade for Christ
Quão revigorante! Gerald e Jay escreveram um livro biblicamente fundamentado e orientado pelo evangelho sobre
sexo, namoro e relacionamentos — cheio de instrução genuína, realista e prática. É exatamente o que os cristãos
precisam para contra-atacar as atitudes e ações mundanas tão prevalentes em nossas igrejas hoje. É imperativo
pensar nessas questões, e este é o melhor livro que já li que faz isso. Relacionamentos de namoro são tão cheios de
perigo que nenhum cristão deveria embarcar nessa jornada sem um guia. Recomendo fortemente este livro como tal
guia.

— Jim Samra, pastor titular, Calvary Church, Grand Rapids, Michigan

Gerald e Jay fornecem sabedoria sólida para adultos e pais emergentes sobre uma questão de extrema importância
nos nossos dias. Adultos jovens que desejam seguir a Jesus de todo o coração encaram todos os dias um ataque de
tentação sexual. E mais, eles são em grande parte mal equipados para lidar com a cultura saturada de sexo na qual
vivem. Creio que o ensino deste livro, se colocado em prática, levará a um casamento piedoso de paixão e pureza.

— Joel Willitts, professor associado de estudos bíblicos e teológicos,


North Park University; College Pastor, Christ Community Church,
St. Charles, Illinois

Eis um livro simples, mas provocativo. Nele você encontrará muita sabedoria prática, sadia e bíblica que irá demolir
várias das nossas suposições culturais sobre o namoro. Se você é solteiro ou se importa com alguém que o seja,
realmente deve ler este livro. O resultado pode ser nada menos que uma abordagem sobre namoro mais simples e
mais honrosa a Deus do que você jamais imaginou ser possível.

— Kevin DeYoung, autor, Brecha em nossa santidade

Finalmente! Respostas claras com sabedoria bíblica… As conclusões de Hiestand e Thomas sobre a natureza da
sexualidade, lascívia, namoro e pureza são profundas, convincentes e uma quebra de paradigma. Ouso dizer: “Eles
estão CERTOS!”. As ideias neste livro precisam da mais ampla circulação na Igreja — especialmente entre pais e
pastores.

— Jim Weidenaar, Westminster Bookstore, 2012

Em um período de tanta confusão sobre sexo, namoro e relacionamentos, este livro fornece conselhos úteis e
oportunos. Ele esclarece a natureza dos relacionamentos e serve como fonte de encorajamento, mostrando que a
pureza não se encontra fora do nosso alcance. Trata-se de um excelente livro que propõe o que os autores chamam de
“amizades especiais”.

— Tim Challies
Autor, Desintoxicação sexual

Quando combatemos erros e desvios teológicos, argumentamos que a Bíblia é nossa única regra de fé e prática, como
de fato ela é. Ao nos depararmos com heresias como o teísmo aberto, apresentamos sua refutação a partir da
Escritura. Ao aconselharmos casais com problemas, abrimos o santo Livro para lembrá-los de que o marido deve amar
a esposa como Cristo amou a igreja, e a mulher deve se submeter ao marido, como a igreja é submissa a Cristo.
Contudo, quando o tema é o relacionamento entre um homem e uma mulher não casados, em nossos dias, a Bíblia
estranhamente é deixada de lado. Neste livro, Gerald e Jay nos lembram de algo que já deveríamos saber: a Bíblia é o
padrão para tudo. Os autores apresentam uma perspectiva bíblica sobre o assunto, que se recusa a ceder à cultura. É
claramente uma mensagem contracultural, como o Sermão do Monte de nosso Senhor. Trata-se de uma leitura
obrigatória para todos os solteiros, de ambos os sexos, que desejam honrar a Deus.

— Felipe Sabino
Editor, Editora Monergismo
Copyright @ 2012, de Gerald Hiestand e Jay Thomas
Publicado originalmente em inglês sob o título
Sex, Dating, and Relationships: A Fresh Approach
pela Crossway Books – um ministério de publicações Good News Publishers,
Wheaton, Illinois, 60187, EUA.

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


EDITORA M ONERGISMO
Caixa Postal 2416
Brasília, DF, Brasil - CEP 70.842-970
Telefone: (61) 8116-7481 — Sítio: www.editoramonergismo.com.br

a
1 edição, 2016

1000 exemplares

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto e M arcelo Herberts


Revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto e M arcelo Herberts
Capa: Luís Henrique P. de Paula
PROIBIDA A REPRODUÇÃO POR QUAISQUER MEIOS,
SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.

Todas as citações bíblicas foram extraídas da


versão Almeida Século 21 (A21),
salvo indicação em contrário.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, S P, Brasil)

Hiestand, Gerald

Sexo, namoro e relacionamentos: uma nova abordagem / Gerald Hiestand e Jay Thomas, tradução Felipe Sabino de Araújo Neto e
M arcelo Herberts – Brasília, DF: Editora M onergismo, 2016.

?; 21cm.

Título original: Sex, Dating, and Relationships: A Fresh Approach

ISBN 978-85-69980-05-6

1. Solteiros — vida religiosa. 2. Sexo — aspectos religiosos — cristianismo. 3. Namoro (costumes sociais) —
aspectos religiosos — cristianismo I. Thomas, Jay. II. Título.

CDD 248
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
SEXO E O EVANGELHO
MAIS QUE UM PADRÃO SUBJETIVO
O DILEMA DO NAMORO, PARTE I
O DILEMA DO NAMORO, PARTE II
O CERNE DA QUESTÃO
SE APAIXONANDO APENAS UMA VEZ
AMIZADES ESPECIAIS
UMA VIDA INTEGRADA
UMA VISÃO DO CELIBATO CENTRADA EM DEUS
CONCLUSÃO
BIBLIOGRAFIA
INTRODUÇÃO
Em busca de clareza

Mas sede vós também santos em todo vosso procedimento, assim como é santo aquele que vos chamou,
pois está escrito: Sereis santos, porque eu sou santo.
O A P Ó ST O L O P E D R O ( 1 P E 1 . 1 5 - 1 6 )

A igreja anda um pouco confusa no que se refere à ética sexual, e os cristãos


solteiros estão arcando com o ônus disso. Sem dúvida as coisas poderiam ser piores
(basta ler 1 Coríntios 5.11). Mas certamente poderíamos estar agindo melhor. Muito
melhor. A cultura do “ficar”, tão comum no campus das faculdades (e agora até nas
nossas escolas primárias e secundárias), representa uma mudança radical nos costumes
sexuais dos últimos vinte anos. O sexo se tornou casual, destituído de qualquer
intimidade; ele não mais exige sequer uma aparência de compromisso contínuo.
Sem dúvida a igreja não endossa a nova ética sexual. E o fato de ter este livro
em mãos provavelmente significa que você também não a endossa. Mas o golpe
implacável do aríete da promiscuidade contra as portas da virtude cristã pode esgotar
até mesmo os solteiros mais devotos.
E o perigo é mais sutil que um ataque direto à virgindade da pessoa. Muitos
cristãos solteiros hoje carecem de uma visão clara e bíblica sobre pureza sexual e
relacionamentos que vá além do conceito truncado de pureza de “não fazer sexo”. O
que dizer do sexo oral? Das carícias? Do beijo apaixonado? Onde devem ser traçados
os limites? Talvez ainda mais importante: quem deve traçá-los? O céu deixou que cada
um de nós decidisse isso por conta própria? Para a maioria dos cristãos solteiros hoje,
os limites que separam a atividade física legítima da atividade sexual ilegítima são
porosos demais para ter um uso realmente significativo no calor do momento. Não
adianta muito barrar o portão da frente, mas deixar a porta dos fundos escancarada.
Certamente, Deus quer que reservemos mais do que o sexo para o casamento. Mas o
quê?
Essa é a questão básica que esperamos responder neste livro.

EU DISSE ADEUS AO BEIJO?


O lançamento do livro Eu disse adeus ao namoro, de Joshua Harris, foi um
divisor de águas para os cristãos solteiros na América do Norte.[1] Considerando o
número de cópias vendidas, é claro que a objeção e resistência de Harris ao cenário de
namoro evangélico contemporâneo foram recebidas favoravelmente por muitos. Mas
não por todos. Desde o lançamento do livro de Harris, tem havido um constante fluxo
de reações “pró-namoro”.[2] Aqueles que são críticos às conclusões de Harris (talvez
alguns dos nossos leitores) depreciam o que percebem ser uma abordagem simplista da
interpretação bíblica e uma visão anticriacional da sexualidade humana. Em particular,
a política de não beijar defendida por Harris tem estado frequentemente sob ataque. A
Bíblia realmente ensina que não deve haver beijo antes do casamento? Como disse um
crítico, essas conclusões rigorosas dependem de “pronunciamentos paulinos
descontextualizados” (isto é, de tomar a Bíblia fora do contexto), e se não manuseadas
com cuidado, podem levar a uma forma moderna de legalismo.[3] Além disso, muitos
desses autores têm questionado o que é visto como uma supressão não saudável da
sexualidade humana baseada no medo. É melhor, argumentam eles, explorar a
possibilidade do casamento num relacionamento que celebra o amor romântico e a
sexualidade humana do que num relacionamento baseado em regras e limites.
Quer as críticas ao livro de Harris sejam justas, quer não, as preocupações são
legítimas. O que quer que concluamos sobre o decoro sexual, é claro que o sexo é
glorioso e cheio de potencial para exaltar a Deus. Qualquer abordagem de padrões
sexuais que veja o sexo como um mal a ser evitado e não um dom a ser celebrado,
perde o marco e deixa de captar o ideal bíblico. Além disso, nunca é demais
estabelecer limites bíblicos para a conduta sexual pré-conjugal. Ensinar a partir da
nossa própria experiência é bom, mas não devemos impor nossa visão sobre os outros
em áreas em que a Bíblia silencia.
Mas Deus não tem estado silente nessa questão, ao contrário do que muitos
podem imaginar. Se você está buscando uma visão bíblica e robusta sobre
relacionamentos e pureza, permita-nos convidá-lo para uma jornada — uma jornada no
coração da pureza e da imagem de Deus. Não estaremos buscando um moralismo vazio
— uma lista farisaica e legalista de faça isso e não faça aquilo. Não estaremos
buscando uma obediência exterior destituída de uma submissão do coração. Não
estaremos buscando estabelecer mecanismos de autocontrole, como se o autocontrole
fosse um fim em si mesmo. Nesta jornada estaremos buscando o coração de Deus
revelado em sua plenitude na pessoa de Cristo. Estaremos buscando uma pureza que
exalta o Filho, que não é definida por aquilo que não é, mas por aquilo que é. Em
última análise — mesmo que você não tenha percebido —, estaremos buscando o
evangelho.
Como esperamos mostrar, o sexo, o namoro e os relacionamentos encontram seu
significado último no relacionamento de Jesus com o seu povo; o primeiro testifica o
último. Em outras palavras, o sexo e os relacionamentos remetem todos ao evangelho.
Ignorar essa verdade central, cremos, é não somente perder de vista a ideia central do
romance e da sexualidade, como é também confundir os limites claros de Deus para a
atividade sexual entre homens e mulheres solteiros.

ALGUNS ITENS INICIAIS DE ORGANIZAÇÃO ANTES DE COMEÇAR

Mas antes de você mergulhar de cabeça neste livro, deveríamos provavelmente


alertá-lo sobre algumas coisas. Primeiro, este livro não pretende ser abrangente sobre
todas as coisas relativas a “namoro”. Embora dois capítulos abordem a questão do
namoro (e o capítulo 7 ofereça uma alternativa aos modelos contemporâneos de
namoro), o foco do livro não estará de fato no namoro, na corte ou em como encontrar
um cônjuge. Seu foco estará limitado intencionalmente ao objetivo simples de
esclarecer e aplicar o ensino bíblico sobre a pureza sexual. Os demais tópicos apenas
serão abordados à medida que forem se relacionando a esse objetivo central. Assim, se
você está em busca de uma lista de “Os dez melhores primeiros encontros”, não é este o
livro.
Em segundo lugar, ao contrário de muitos livros sobre pureza sexual, este livro
não contém uma série de dados detalhando cuidadosamente as repercussões da
imoralidade sexual. Uma abordagem de pureza sexual que use o temor das doenças
sexualmente transmissíveis, da gravidez indesejada e das cicatrizes emocionais como
meio de motivar os solteiros a permanecer sexualmente puros é baseada na suposição
equivocada de que os mandamentos de Deus só existem para a nossa proteção. Embora
seja verdade que os mandamentos de Deus muitas vezes nos protegem de danos
(embora nem sempre), a Escritura deixa muito claro que os mandamentos divinos não
representam o que funciona melhor para nós, mas o que traz maior glória para Deus.
Por consequência, não nos fiaremos no elemento do medo enquanto buscamos ajudá-lo
a lutar por uma vida de pureza.
Terceiro, sabemos que muitos de vocês chegam a este livro com remorsos do
passado. Alguns nunca estiveram num relacionamento que não fosse maculado pelo
pecado sexual. Mas não é nossa intenção enchê-lo de culpa. O que oferecemos aqui é
um novo começo. A graça nunca pede que você volte no tempo e desfaça o que não
pode ser desfeito. Ela o chama a confiar em Cristo como aquele que é o que você não é,
aquele que fez o que você não pode fazer, e aquele que o ajudará a ser o que nunca
poderia por conta própria. Para aqueles que lutam com a camisa de força do remorso,
esperamos que este livro desencadeie uma fome pela liberdade cheia da graça da
pureza sexual. De fato, à medida que demonstrarmos a conexão entre a pureza, o sexo e
a imagem do evangelho, você verá que a pureza tem tudo a ver com a graça.
Quarto, não ignoramos que muitos solteiros hoje têm filhos ou estão bastante
envolvidos na vida de crianças (servindo ao ministério infantil da sua igreja, etc.).
Muito do que estaremos recomendando neste livro é melhor aprendido intuitiva e
organicamente por um processo de ensino e modelagem que começa na infância. Assim,
se você ler este livro e se vir concordando com suas conclusões, encorajamos a pensar
sobre como você poderia ser um agente de mudança na vida dos outros, particularmente
na vida de crianças jovens que olham para você em busca de orientação e liderança
nessa área. Quão melhor é fazer uma árvore crescer reta enquanto ainda é jovem do que
tentar endireitá-la quando já é velha e torta. É nossa oração que através deste livro —
ao ser lido e modelado —, a perspectiva de Deus sobre o sexo e a pureza se torne uma
vez mais normativa para a igreja.
E, finalmente, se este livro há de ter algum valor para você, você deve assumir
o compromisso de deixar que a Bíblia fale mais alto do que o zumbido e ruído de fundo
da nossa subcultura evangélica contemporânea. Vamos ser francos aqui: o que estamos
recomendando não se encaixa perfeitamente na cultura dominante da igreja, e tampouco
na cultura secular em sentido amplo. Mas embora nossa perspectiva esteja um pouco
fora de compasso com as normas culturais, o que oferecemos aqui é claro, bíblico e
produz vida. Assim, estimule sua coragem moral e siga adiante. Não cremos que você
ficará desapontado.

CONCLUSÃO

Por muito tempo, o pensamento distorcido da igreja tem permitido que solteiros
perambulem sem rumo atrás da pureza sexual. A estrada é longa — mais longa que
aquela que as gerações passadas tiveram de trilhar. Ela possui armadilhas e perigos
mortais que ameaçam com destruição e morte, literal e espiritualmente falando.
Contudo, o fato de ter este livro em mãos é um indício de que você deseja fazer sua
vida trilhar pelo caminho que Deus ordenou. Deus também deseja isso, e promete um
bom retorno ao seu investimento de fé. Podemos não estar corretos em tudo o que
escrevemos (mas quem escreve um livro pensando estar equivocado?). Porém, é nossa
oração que Deus use pelo menos algo do que aqui escrevemos para ajudar a esclarecer
o ensino bíblico sobre o sexo, os relacionamentos e a pureza — que a glória e a
imagem do evangelho possam ser vistas mais claramente na vida dos cristãos solteiros.
Que Deus torne nosso mundo extremamente cinza de subjetividade num mundo preto-e-
branco de pureza sexual, cheio de graça e que honre a Cristo!
SEXO E O EVANGELHO
Retratando nossa união com a natureza divina

[Cristo está] unido a você por uma união espiritual tão íntima a ponto de ser adequadamente representada
pela união da esposa ao marido.
J O N AT H A N E D WA R D S

Adão, … um tipo daquele que havia de vir.


O A P Ó ST O L O PA U L O ( R M 5 . 1 4 , N A SB )

Como um todo, os seres humanos são fascinados por sexo — homens e


mulheres, jovens e velhos, cristãos, ateus e todos que estão no meio. Em todas as
culturas, por toda a história, o desejo sexual tem sido um dos maiores motivadores da
vontade humana. Homens e mulheres jogam fora sua família, casa, dinheiro e terra para
alcançar a satisfação sexual. Alguns são viciados em sexo. Guerras foram travadas por
causa do sexo. Compomos músicas sobre sexo, fazemos filmes sobre sexo e
escrevemos histórias sobre sexo. E essa preocupação toda com sexo não é
simplesmente uma faceta da nossa natureza caída. Um livro inteiro da Bíblia (Cantares
de Salomão) é dedicado a celebrar a relação sexual entre marido e esposa.
Mas você já se perguntou por que toda essa confusão? Por que Deus nos criou
como pessoas sexuais, em primeiro lugar? Lembramo-nos de ter aprendido nas aulas de
ciência sobre a reprodução assexuada de organismos unicelulares e de sermos gratos
por Deus ter escolhido um método diferente de reprodução para os humanos. A ideia da
mitose não soava (e ainda não soa) atraente se comparada com o método de reprodução
dado a nós por Deus. Suspeitamos que você concorde com isso. Mas por que Deus
escolheu criar-nos como seres sexuais? Obviamente ele não estava preso a uma
necessidade de reprodução sexual para conseguir propagar as espécies. Com a mesma
facilidade ele poderia ter criado os seres humanos como criaturas assexuadas que se
reproduziriam como amebas.
Se não compreendermos por que Deus criou o sexo, nunca poderemos de fato
ver sentido nos seus mandamentos sobre a pureza sexual, pois os mandamentos de Deus
sempre se relacionam com os propósitos dele. Assim, para estabelecer um
entendimento da pureza sexual, este capítulo será dedicado a captar um entendimento
bíblico do sexo.
LANÇANDO O FUNDAMENTO: ENTENDENDO O PROPÓSITO DO SEXO

A razão primária por que muitos de nós não entendem adequadamente o sexo é
que muitos de nós não entendem adequadamente como o sexo se relaciona ao
evangelho. Você leu corretamente: o sexo e o evangelho estão intrinsecamente ligados.
De fato, entender um é dar sentido ao outro.
Embora possa parecer chocante, a Escritura declara expressamente que Deus
criou o sexo para servir como um retrato vívido da união espiritual, transformadora de
vida, que os crentes têm com Deus por meio de Cristo. Entender como o sexo serve
essa função é absolutamente essencial para entender não somente o porquê Deus nos
criou como seres sexuais, mas também o porquê Deus ordena o que o faz com respeito à
pureza sexual. Por fim, descobriremos que Deus criou a unidade física do sexo para
servir como uma imagem visível, ou tipo, da união espiritual que existe entre Cristo e a
igreja. Embora possa parecer a princípio que estamos nos afastando do tópico primário
da pureza sexual, você verá rapidamente a relevância da nossa discussão.

TIPOS NA BÍBLIA

Muitos dos maiores teólogos da história construíram sua teologia ao redor da


ideia de que a imagem de Deus e seus propósitos podem ser vistos em todas as facetas
da existência humana. Jonathan Edwards e Agostinho foram dois de tais teólogos.
Ambos acreditavam que Deus criou tudo da vida para servir como retratos visíveis de
realidades invisíveis. Ver o amor entre um pai e seu filho, por exemplo, era ver um
reflexo do amor entre Deus o Pai e Deus o Filho. Ver a destruição causada pelo fogo
era ver um retrato da ira de Deus. Ver a criatividade de um artista era ver um reflexo da
criatividade de Deus.[4]
Ver entidades terrenas como retratos de realidades futuras é prontamente
afirmado em muito da Escritura. Romanos 5.14, por exemplo, descreve Adão como um
tipo de Cristo. A palavra tipo vem da palavra grega tupos, que significa literalmente
“sopro” ou “impressão” e refere-se ao entalhe que um martelo cria após acertar uma
madeira ou metal. Assim como um entalhe representa aquilo que o fez, assim também
um tipo aponta para, ou representa, algo além de si mesmo. Frequentemente traduzido
no Novo Testamento como “exemplo”, um tipo bíblico é um modelo ou imagem de
Cristo e sua obra redentora. Adão, então, é uma sombra, ou uma imagem de Cristo.
Assim como a escolha de Adão no jardim do Éden teve ramificações para sua
posteridade, assim também a escolha de Cristo no jardim do Getsêmani teve
ramificações para sua posteridade. Dessa forma, a existência e ações de Adão
apontam-nos para aquilo que ele representa — a saber, Cristo e sua obra redentora.
Talvez o exemplo mais claro de um tipo encontrado na Bíblia é aquele do
cordeiro pascal. Um breve relato da história da Páscoa (encontrada em Êxodo 11-12)
nos ajudará a ter um senso claro de como os tipos funcionam na Escritura. Como você
pode lembrar, os filhos de Israel gastaram algum tempo na terra do Egito. As coisas não
estavam indo particularmente bem (escravidão, opressão, infanticídio forçado), e assim
Deus levantou Moisés para tirar o povo do Egito e ir para a terra prometida. Para
equipá-lo para a tarefa, Moisés recebeu a habilidade de realizar pragas grandes e
maravilhosas que tinham a intenção de persuadir Faraó a libertar os israelitas. Moisés
confrontou Faraó, que recusou a cooperar, e assim praga após praga foi derramada
sobre a terra do Egito. Finalmente, o Senhor disse a Moisés que uma praga final era
necessária — a morte de cada filho primogênito na terra do Egito — e que com essa
praga Faraó cederia. Mas essa praga seria diferente. Deus não mais trabalharia
indiretamente por meio de Moisés. Essa praga seria executada pelo próprio Deus (Ex
11.4). Boas novas, por um lado, mas problemáticas por outro. Povo de Deus ou não, os
israelitas não estavam melhor preparados do que os egípcios para encarar um Deus
santo. Ironicamente, eles estavam precisando ser libertos do seu Libertador. E assim,
Deus os instrui a sacrificar um cordeiro e tomar o sangue do cordeiro e passar nos
umbrais da casa.

Porque naquela noite passarei pela terra do Egito e ferirei de morte todos os primogênitos na terra
do Egito, tanto dos homens como dos animais; e executarei juízo sobre todos os deuses do Egito.
Eu sou o SENHOR. Mas o sangue servirá de sinal nas casas em que estiverdes. Se eu vir o sangue,
passarei adiante, e não haverá praga entre vós para vos destruir, quando eu ferir a terra do Egito.
(Êxodo 12.12-13)

E assim aconteceu. A ira de Deus caiu sobre a terra do Egito, mas os israelitas
foram poupados do justo julgamento de Deus por meio do sangue do cordeiro e libertos
do cativeiro da escravidão de Faraó para a terra prometida. As implicações tipológicas
são evidentes. Assim como os filhos de Israel foram libertos pelo sangue de um
cordeiro, assim também somos poupados do justo julgamento de Deus por meio do
sangue de Cristo e libertos do cativeiro da escravidão do pecado para a terra prometida
celestial.
E de grande importância para nossos propósitos é a intenção divina em tudo
isso. As similaridades entre a morte do cordeiro pascal e a morte de Cristo não são
mera feliz coincidência. Os filhos de Israel foram instruídos pelo Senhor a celebrar a
refeição pascal todo ano como um lembrete contínuo de sua libertação do Egito. Mas o
que eles não sabiam era que a refeição também apontava para frente — para o dia
quando o verdadeiro Cordeiro Pascal viria. A celebração do cordeiro pascal não era,
como vemos agora, realmente sobre a libertação de um tirano temporal. Não, era mais
fundamentalmente sobre Cristo. A morte do cordeiro pascal era um prenúncio
divinamente instituído da obra redentora de Cristo. Jesus mesmo, enquanto celebrando
a refeição pascal com os seus discípulos, conectou sua morte iminente com a morte do
cordeiro pascal (Mt 26.28). E João o Batista, ao ver Jesus em seu batismo, proclamou:
“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1.29). E mais
explicitamente, o apóstolo Paulo declarou ser Cristo “nosso Cordeiro pascal” (1Co
5.7).
Assim, um tipo serve como um apontador profético para uma realidade celestial
mais profunda. A Escritura é repleta de tais analogias. Hebreus 11.19 refere-se a Isaque
como um tipo de Cristo, pois assim como Abraão o recebeu de volta de certa morte,
assim também recebemos a Cristo de volta dos mortos. O sacerdócio de
Melquisedeque, o antigo rei-sacerdote de Jerusalém, era uma figura do sacerdócio
eterno de Cristo. Em Gálatas Paulo usa os dois filhos de Abraão, Isaque e Ismael, como
representantes de dois pactos contrastantes (o novo e o antigo). E, como veremos a
partir da Escritura, assim como o cordeiro pascal do Antigo Testamento serviu como
um tipo, ou sombra do sacrifício redentivo de Cristo, assim também o sexo foi criado
por Deus para servir como um testemunho vivo do evangelho. Em outras palavras,
quando pensamos em sexo, deveríamos em última instância pensar no evangelho.
Talvez alguns de vocês já estejam pensando: “Eu ouvi que o relacionamento
marital reflete Cristo e a igreja, mas o próprio ato do sexo? Sério?”.
Sério. Vamos mergulhar num texto chave.

POR ESSA RAZÃO

Efésios 5.24–32 descreve nitidamente a relação sexual dentro do casamento


como uma imagem da relação espiritual entre Cristo e a igreja. À medida que ler a
passagem, observe cuidadosamente a importância da última sentença (v. 32) dentro do
contexto:[5]
Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres sejam em tudo submissas ao marido.
Maridos, cada um de vós ame a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por
ela, a fim de santificá-la, tendo-a purificado com o lavar da água, pela palavra, para apresentá-la a si mesmo
como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.
Assim, o marido deve amar sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo.
Pois ninguém jamais odiou o próprio corpo; antes, alimenta-o e dele cuida; e assim também Cristo em
relação à igreja; porque somos membros do seu corpo. Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua
mulher, e os dois serão uma só carne. Esse mistério é grande, mas eu me refiro a Cristo e à igreja.

Nesta passagem Paulo está discutindo a dinâmica relacional do casamento


cristão. E à medida que instrui aos maridos e esposas sobre como devem tratar um ao
outro, ele traça um paralelo estreito entre o casamento cristão e o relacionamento de
Cristo com a igreja. A forma como Cristo trata a igreja, Paulo nos diz, serve como o
padrão para como um marido deve tratar a sua esposa. E a forma como a igreja se
relaciona com Cristo é a forma como uma esposa deve se relacionar com o seu esposo.
Mas por que isso? Mediante qual lógica Paulo pede a maridos e esposas que se
relacionem como Cristo e a igreja? A resposta encontra-se no versículo 32. O
casamento humano, Paulo nos diz, “refere-se a Cristo e a igreja”.[6] Em outras
palavras, o casamento é um tipo do relacionamento de Cristo com a igreja. Inspirando-
se na antiga fórmula de casamento de Gênesis 2.24, Paulo revela um mistério (i.e., um
verdadeiro anteriormente desconhecida): a unidade sexual dentro do casamento foi
criada por Deus para servir como prenúncio da unidade espiritual que existiria entre
Cristo e sua igreja. Como o grande pai da igreja Agostinho uma vez escreveu, “é sobre
Cristo e a igreja que mais verdadeiramente se diz, ‘os dois serão uma só carne’”.
A partir dos comentários de Paulo em Efésios podemos ver que quando um
homem e uma mulher se unem sexualmente, de alguma forma misteriosa, eles se tornam
um em sua carne (veja também 1Co 6.16). Algo profundo ocorre por meio do intercurso
sexual. A união marital não é simplesmente uma união legal ou social, uma união
funcional ou familiar, mas sim uma união de corpos, um compartilhar da vida física. Por
meio do sexo, os dois são unidos da forma mais profunda e maravilhosa — tanto que se
diz que eles se tornam um. Esse é o porquê se diz corretamente que o intercurso sexual
“consuma” um casamento.
O casamento é mais que sexo, mas não é menos que sexo. De fato, no mundo
bíblico antigo, a união sexual era o meio primário pelo qual um homem e uma mulher se
casavam (veja, por exemplo, o casamento de Isaque e Rebeca em Gn 24.67). Diferente
de hoje, o clero religioso do mundo antigo não criava um casamento por meio de um
pronunciamento formal; antes, o próprio ato do sexo criava o casamento.[7] Assim, um
relacionamento marital saudável é o viver da união que se estabelece por meio do
intercurso sexual. (É por isso que um relacionamento sexual que ocorre fora do
contexto de um relacionamento marital é tão emocionalmente destrutivo. O ato do sexo,
que tem o intuito de iniciar e sustentar uma união permanente de casamento, é
dissociado e divorciado de seu próprio propósito.)
Mas aqui reside a maior importância do sexo — não aquilo que ele realiza num
plano terreno, mas o que espelha num plano divino. Sexo não é um fim em si mesmo; é
um tipo de algo mais alto, apontando para a realidade mais profunda do evangelho.
Assim como o sacrifício do cordeiro pascal no Antigo Testamento prenunciava o
sacrifício expiatório de Cristo no Novo, assim também a unidade física estabelecida
por meio do sexo prenuncia a unidade espiritual que existirá (e que já existe) entre
Cristo e sua igreja nas bodas do Cordeiro. As muitas referências do Novo Testamento à
igreja como a “noiva” de Cristo e a Cristo como o “noivo” apontam adicionalmente
para esse paralelo entre a união terrena e celestial. Adicionalmente, muitas das
parábolas de Cristo usam o tema núpcias como uma ilustração do seu retorno e união
consumada com a igreja. E o livro de Apocalipse refere-se explicitamente às bodas do
Cordeiro como inaugurando o alvorecer da era eterna (Ap 19.7; 21.2, 9; 22.17; veja
também Mt 25.1-13).[8]
Mas é importante lembrar o que vem primeiro na mente de Deus. Deus não
modelou o casamento divino segundo o casamento humano, mas antes o casamento
humano é uma sombra do casamento divino. Não é como se Deus tivesse descoberto a
conexão entre sexo e o evangelho da forma como o pastor folheia o Wall Street Journal
em busca de ilustração para a pregação. Não, a conexão foi proposta antes da fundação
do mundo. Como Paulo nos diz, a unidade sexual do casamento refere-se a Cristo e a
igreja. Assim como Deus ordenou o cordeiro pascal da antiga aliança para testemunhar
profeticamente do sacrifício vindouro de Cristo, assim também Deus ordenou o
casamento humano — desde o próprio alvorecer da criação — para testificar do
casamento vindouro do Cordeiro.

RELEMBRANDO O EVANGELHO

Nossa união espiritual com Cristo é um aspecto essencial, mas muitas vezes
ignorado do evangelho. Esse lapso é, cremos, a razão primária de a igreja
contemporânea falhar grandemente em ver a relação ilustrativa entre sexo e salvação.
Uma breve reafirmação do evangelho é necessária.
As boas novas de salvação não é simplesmente que Deus nos perdoou, mas,
antes, que por meio da nossa união com Cristo nascemos de novo para sua própria vida
— tornamo-nos participantes de sua natureza (2 Pedro 1.4). O perdão é de fato um
aspecto importante da nossa salvação, mas não devemos reduzir a obra salvadora de
Deus a uma simples contabilidade no registro divino, limpando a conta dos nossos
pecados, mas de outra forma nos deixando intactos.[9] O perdão limpa o quadro negro,
mas o perdão não é suficiente para entrar no reino dos céus.
Essa última sentença merece ser repetida: apenas o perdão não é suficiente para
entrarmos no reino dos céus. É apenas quando entendemos que nossa principal
culpabilidade diante de Deus não está ligada às nossas ações pecaminosas mas, ainda
mais fundamentalmente, à nossa natureza pecaminosa — a fonte de nossas ações
pecaminosas — é que podemos começar a entender o porquê precisamos mais do que
perdão.
Não surpreendentemente, a principal exigência para entrar na vida eterna é que
alguém esteja de fato vivo. Jesus mesmo disse: “Ninguém pode ver [entrar no] o Reino
de Deus, se não nascer de novo” (João 3.3, NVI). Um componente chave da salvação do
Novo Testamento, portanto, é centrado em nossa conexão com a própria vida de Deus,
por meio de Jesus Cristo via a presença habitadora do Espírito Santo. É quando nos
tornamos espiritualmente um com o próprio Cristo que entramos no perdão e na vida.
Assim como um marido e esposa se tornam um em sua vida física, assim também Cristo
e o cristão, por meio da habitação do Espírito, se tornam um em sua vida espiritual. Por
meio da nossa união com Cristo, sua vida se torna nossa vida. Nascemos de novo
precisamente porque estamos unidos àquele que é a própria vida.
A habilidade de viver uma vida agradável a Deus, de fato, de herdar a vida
eterna, não procede de nossa dedicação a Deus ou votos de nossa vontade; antes, ela
flui até nós do poder da vida divina concedida a nós por meio da união sobrenatural
com Cristo. A própria vida de Deus por meio de Cristo via o Espírito Santo toma
residência dentro de nós. Estamos irremediavelmente unidos à natureza divina, e o
casamento humano é um retrato poderoso, ou símbolo, dessa união.
No fim, nossa esperança final de salvação é que estamos casados com Cristo.
Quando chegamos a Deus para salvação, ele nos torna um com Cristo — assim como
um homem e uma mulher se tornam um no casamento. Essa união com Cristo é a própria
coisa que fornece vida eterna. De fato, a vida eterna que começamos a viver agora é a
vida eterna que Cristo vive. A seiva da videira é a seiva do ramo. Por meio da nossa
união com ele, temos sido abençoados com toda bênção espiritual (Ef 1.3). Ele se
tornou nosso cabeça, e como sua noiva, seu trabalho é nos apresentar a “a si mesmo
como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e
inculpável” (Ef 5.27, NVI). E ele fará isso. Casamento e sexo são ilustrações poderosas
da união que existe entre Cristo e o cristão, e elas foram criadas especificamente para
esse propósito.

O PORQUÊ E COMO DA PUREZA SEXUAL

Agora que entendemos o porquê Deus criou o sexo, podemos começar a


entender as razões por detrás dos seus mandamentos com respeito à pureza sexual. Em
última instância, os mandamentos de Deus sempre se relacionam com sua imagem.
Como já observado, tendemos a crer que os mandamentos de Deus são nos
dados meramente por nossa causa. Mas isso não é verdade. Como aqueles criados à
imagem de Deus, nossa própria natureza como portadores da imagem explica as razões
por detrás dos mandamentos de Deus. Não somente o sexo é uma imagem divinamente
designada do evangelho, mas o próprio homem também é uma imagem de Deus (Gn
1.26-27; Rm 8.29-31; 1Co 11.7; 15.49). Somos ilustrações ambulantes de sermão, se
você preferir colocar assim. Portanto, visto que Deus nos criou para sermos imagens,
ou tipos, de si mesmo, revelando sua glória invisível ao mundo visível, é essencial que
todos nós estejamos alinhados com tudo o que Deus faz, pois glorificamos a Deus ao
manifestar sua bondade por meio da nossa própria bondade. Nossa glória é a sua
glória, pois a glória e bondade que possuímos não é inerente dentro de nós, mas vem
primeiro dele, testificando de sua bondade infinita.
Portanto, as formas nas quais Deus age, ama, pensa e sente, todas elas fornecem
a base para como devemos agir, amar, pensar e sentir. Somos chamados a agir
misericordiosamente porque ele é misericordioso (Lucas 6.36); somos chamados a
sermos perfeitos porque ele é perfeito (Mt 5.48); somos chamados a sermos bons para
com nossos inimigos pois ele é bom para com os seus (Mt 5.44-45); e somos chamados
a sermos santos porque ele é santo (1Pe 1.15-16). Embora o ser infinito e as ações do
Criador não podem ser equalizadas e identicamente refletidas numa criatura finita, o
paralelo permanece válido. Em última instância, cada ação a qual somos chamados,
cada função que ele nos criou para desempenhar, se relaciona com as ações e natureza
de Deus. Isso não é menos verdadeiro com respeito ao sexo e os mandamentos de Deus
para pureza sexual.
A principal intenção de Deus ao criar o sexo era que ele servisse como um
testemunho vivo da unidade espiritual entre Cristo e a igreja. O conhecimento dessa
realidade mais alta então nos ajuda a entender como deveríamos nos comportar dentro
da esfera da realidade terrena. Em outras palavras, nossas vidas sexuais deveriam ser
moldadas de acordo com a forma na qual Cristo e a igreja se relacionam
espiritualmente. Ver a sexualidade a partir dessa estrutura não somente explica como
deveríamos agir, mas também o porquê deveríamos agir de certa forma.
Por exemplo, em 1 Coríntios 6.15-17 os mandamentos que Paulo dá com
respeito à atividade sexual são baseados no relacionamento “um espírito” entre Cristo e
a igreja. Não devemos nos unir sexualmente a uma prostituta, Paulo argumenta, pois
estamos unidos espiritualmente a Cristo. Mas a proibição nessa passagem não é contra
sexo em geral, mas contra sexo com uma prostituta. Nossa unidade espiritual com
Cristo não nos impede de ter sexo com nossa cônjuge. Na verdade, Paulo ordena isso
em 1 Coríntios 7.5. Mas porquê o sexo com nosso cônjuge é legítimo e o sexo com uma
prostituta pecaminoso? Como é que nossa unidade espiritual com Cristo não se detém
no caminho de todos os relacionamentos sexuais?
Quando falando sobre a importância da pureza sexual, é tentador responder
perguntas como essas num nível estritamente humano. Poderíamos listar miríades de
doenças sexualmente transmissíveis que podem ser adquiridas. Poderíamos listar
efeitos psicológicos adversos da promiscuidade que foram documentados. Poderíamos
ainda falar sobre os efeitos negativos da licenciosidade sexual para o futuro cônjuge de
alguém ou a possibilidade de uma gravidez indesejada. Mas todas essas considerações
somente reforçam a ideia que o sexo é tudo sobre nós, como se os mandamentos de
Deus tivessem somente a ver com o que melhor funciona para a humanidade. Mesmo à
parte de tais efeitos colaterais, o sexo promíscuo ainda seria proibido porque nenhuma
das consequências, embora verdadeiras, vão à raiz do porquê Deus proíbe o sexo com
uma prostituta. A questão deve ser primeiro abordada num plano divino, antes de poder
ser abordada num plano humano.
Como vimos, os mandamentos de Deus se relacionam com a imagem de
realidades celestiais que ele pretende que nossas vidas espelhem. Sexo com uma
prostituta, então, é proibido pois quebra o retrato da conexão e devoção exclusiva de
Cristo à sua noiva. Assim como Cristo se reserva espiritualmente para a sua esposa (a
igreja), assim também somos chamados a nos reservarmos sexualmente para nosso
marido ou esposa. A forma como nos comportamos sexualmente deve se conformar
àquilo que Deus criou o sexo para ilustrar: a natureza transformadora de vida do
evangelho. A monogamia e a permanência são aspectos vitais dessa imagem. Cristo está
unido à igreja somente; assim, um homem deve estar unido à sua esposa somente. Cristo
não se divorcia de sua noiva; não devemos nos divorciar de nossos cônjuges. Você vê a
conexão? Nossa atividade sexual deve se alinhar com a forma como Cristo se relaciona
espiritualmente com a igreja.
Portanto, o homem que usa sua sexualidade de uma forma promíscua falha em
agir consistentemente com a imagem da espera monogâmica de Cristo por sua noiva.
Cristo propôs se tornar um com a igreja somente. Assim, os solteiros devem reservar
sua sexualidade para seus futuros cônjuges como uma expressão da devoção exclusiva
de Cristo à sua noiva. Deus nos chama para reservar nossa sexualidade para o
relacionamento marital, pois é somente no casamento que a imagem do relacionamento
de Cristo com a igreja pode ser vivida.
É fundamentalmente importante que desempenhemos nossa sexualidade de uma
maneira consistente com a imagem que ela foi criada para retratar. Exploraremos as
implicações plenas disto nos capítulos vindouros, particularmente no que se refere a
estabelecer uma definição objetiva de pureza sexual, mas por ora vamos recapitular.

RECAPITULAÇÃO

Fomos feitos para sermos semelhantes a Deus, existindo como retratos vivos de
sua bondade divina. Toda tarefa que Deus nos dá está centrada em seus próprios
propósitos e natureza. O governo humano, casamento, sexo, pais e os próprios cristãos
(para citar apenas alguns), tudo se relaciona com os propósitos e ações de Deus,
servindo como imagens de realidades celestiais superiores. Deus deseja glorificar a si
mesmo, e a forma como ele escolheu fazer isso em nossas vidas é por meio da nossa
existência em sua imagem gloriosa. Como um pai terreno que é glorificado por meio da
glória de seus filhos, assim também Deus é glorificado por meio da nossa glorificação
(Rm 8.30). Mas tal glória não pode ser alcançada à parte do nosso viver a imagem de
Deus, pois somente em Deus mesmo a verdadeira glória é encontrada.
Esse é o porquê nossas vidas não é acerca de nós somente. Não pertencemos a
nós mesmos. Portamos a imagem de outro, e a propriedade dessa imagem pertence a
ele. E visto que portamos a imagem de outro, não estamos livres para decidir por nós
mesmos o que é melhor para nós. Não devemos agir de formas que sejam inconsistentes
com o caráter daquele que espelhamos. É importante que vivamos cada faceta da nossa
vida como um testemunho correto da imagem de Deus. Tudo o que ele nos pede fazer é
que possamos ser confirmados à sua imagem. Colocando de outra forma, os
mandamentos da Bíblia com respeito ao sexo nunca são arbitrários — eles são dotados
de grande propósito.
Assim, à medida que estudamos a pureza sexual, devemos lembrar que cada
parte de nós, incluindo nossa sexualidade, tem um propósito mais alto que meramente
nosso próprio prazer, pois cada parte de nós foi criada primariamente para refletir a
glória de Deus. Quando aprendemos a ver o mundo como um espelho da natureza de
Deus e seus propósitos, somos salvos do fim mortal da auto-absorção; a vida tem um
propósito mais alto que nossa satisfação autônoma.
Não podemos deixar uma área tão importante da nossa vida ser guiada por mero
pragmatismo e argumentos antropocêntricos. Devemos sempre ver essa questão por
meio de lentes teocêntricas. Você não pertence a si mesmo; você foi comprado por um
alto preço e, portanto, deve honrar a Deus com o seu corpo. Ele deseja o seu melhor.
Ele deseja sua satisfação sexual mais do que você jamais desejará, pois por meio da
expressão apropriada de sua sexualidade, tanto você como o mundo terá uma janela
pela qual ver o cerne do evangelho. Mas se cairmos na mentira que o sexo é acerca de
felicidade somente, seremos roubados da alegria que Deus pretende trazer. É somente
quando vivemos a imagem de Deus que encontraremos a felicidade de Deus.
Agora que entendemos o porquê da pureza sexual, vamos ver o que a Bíblia tem
a dizer sobre o quê.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

1) O que é um tipo? Quais são alguns exemplos de tipos na Bíblia?

2) De acordo com Efésios 5.28-32, de que forma o sexo serve como um tipo, ou
imagem, do evangelho?
3) O que acontece quando um homem e uma mulher se unem sexualmente? De que forma
isso é semelhante ao relacionamento de Cristo com a igreja?
4) De que forma saber que Deus criou o sexo para servir como uma imagem viva da
nossa união espiritual com Cristo nos ajuda a entender a razão por detrás dos
mandamentos de Deus com respeito à pureza sexual?
5) Quais aplicações podem ser extraídas do fato que Deus criou o sexo para servir
como um tipo de Cristo e a igreja, particularmente na esfera da satisfação sexual e da
pureza sexual?
MAIS QUE UM PADRÃO SUBJETIVO
Pureza e as categorias ordenadas por Deus de relacionamentos homem-
mulher

Exorta… aos jovens, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães; às jovens, como a irmãs, com toda
pureza.
O A P Ó ST O L O PA U L O ( 1 T M 5 . 1 - 2 )

Você poderia dizer com certeza e clareza como homens e mulheres devem se
relacionar sexualmente com alguém do sexo oposto? À parte dos mandamentos bíblicos
gerais sobre sexo pré-conjugal e adultério, você saberia dizer com que a pureza
centrada em Deus se parece? Você seria sábio o bastante para responder — com
autoridade objetiva e bíblica — aquela antiga pergunta vexatória “Quão longe é longe
demais?”? Se não é capaz, não está sozinho nisso.
Como afirmado na introdução, a questão dos limites sexuais adequados serve de
eixo em torno do qual este livro gira; não porque o decoro sexual seja tudo o que existe
num relacionamento, mas porque o decoro sexual — até onde a união sexual serve de
retrato da união espiritual de Cristo com a igreja — é deveras central para tudo o que
Deus quer fazer através dos relacionamentos homem-mulher. Se você não capta direito
esse aspecto do seu relacionamento, há pouca esperança de que entenda direito
qualquer outra coisa.
Se a sua experiência é parecida com a nossa, provavelmente foi informado de
que a Bíblia não fala claramente sobre a questão dos limites físicos no namoro. Você
recebeu muitos conselhos, mas não muita Bíblia. Porém, como vamos ver neste
capítulo, a Bíblia tem muito mais a dizer sobre decoro sexual do que muitos pensam.
Ao contrário da opinião popular, a Bíblia fala com clareza — clareza objetiva — sobre
o que é fisicamente apropriado entre um homem e uma mulher não casados num
relacionamento pré-conjugal.
Como introdução ao nosso argumento principal, permita-nos apresentar-lhe
Sara, uma executiva hipotética de marketing de vinte e três anos de idade. Ela está
envolvida numa igreja que crê na Bíblia e ama ao Senhor e acabou de iniciar um novo
relacionamento de namoro. Vejamos como ela e seu pastor discutem os limites físicos
apropriados desse relacionamento.

Pastor: Ouvi dizer que você começou um novo namoro.


Sara: Sim. Tom e eu namoramos já fazem três semanas.
Pastor: Verdade? E como tem sido?
Sara: Tem sido ótimo. Ele tem 25 anos, é estudante de Direito na Universidade de Chicago, muito inteligente,
ama a Jesus, e temos muitas coisas em comum.
Pastor: Isso é bom. Importa-se se eu lhe fizer uma pergunta um pouco pessoal?
Sara: Claro. Quer dizer, acho que pode.
Pastor: Eu estava me perguntando como é o relacionamento físico entre vocês.
Sara: Bem, hmm… o que você quer dizer exatamente?
Pastor: Bem, por exemplo, o Tom lhe beija?
Sara: Uau! É meio estranho falar isso para o meu pastor… (ela olha para baixo, brinca com seu enorme
copo do Starbucks, fica vermelha e olha para cima)
Pastor: Por que tanta timidez sobre esse assunto? Há algo errado em beijar?
Sara: Não, não há nada de errado em beijar, em si. Quer dizer, poderia haver algo de errado em beijar se as
duas pessoas deixassem a coisa avançar.
Pastor: O que você quer dizer com “deixassem a coisa avançar”?
Sara: Bem, você sabe — elas fizerem coisas que não deveriam fazer.
Pastor: Como você determina que tipos de coisas elas não deveriam fazer?
Sara: Bem, acho que não estou absolutamente certa. Eu sei que devemos esperar até casar para ter
relações sexuais.
Pastor: Assim, não havendo sexo, tudo bem?
Sara: Sim. Quer dizer, não. Quer dizer, há coisas que você provavelmente não deveria estar fazendo, mesmo
que parasse um pouco antes do sexo.
Pastor: Ok, vamos então aprofundar um pouco e tentar ser honestos. E se Tom quisesse lhe dar um leve
beijo de boa noite?
Sara: Como estamos oficialmente namorando e comprometidos, seria tranquilo.
Pastor: Um beijo prolongado de boa noite, mas não um beijo francês?
Sara: Tranquilo.
Pastor: E o que dizer de um monte de beijos durante, digamos, quinze minutos, mas ainda assim sem beijo
francês?
Sara: Acho que isso é tranquilo num relacionamento sério, se não sair do controle.
Pastor: E o que dizer de um beijo francês?
Sara: Bem, talvez… mas só isso.
Pastor: Por quê?
Sara: Eu não me sentiria à vontade fazendo algo além disso.
Pastor: Então você determina o que é certo com base em como se sente?
Sara: Bem, acho que sim. Toda pessoa precisa orar sobre isso e chegar às suas próprias convicções sobre
quão longe é longe demais. Quanto a mim, simplesmente não me sentiria à vontade indo além disso.
Pastor: E se você tivesse uma amiga que se sente à vontade com beijo francês e carícias? Se ela se sentisse
à vontade, estaria tudo bem?
Sara: Bem, o cara com quem ela estivesse saindo poderia não se sentir à vontade. Talvez isso iria despertar
muita tentação nele e fazê-lo querer mais do que deveria.
Pastor: O que você quer dizer com “mais do que deveria”? Como você sabe quão longe é longe demais para
ele?
Sara: Ele precisa saber disso por conta própria, suponho.
Pastor: Ok, então. Digamos que tanto a garota como o rapaz se sintam à vontade com fortes carícias e beijo
francês. Está tudo bem, então, já que ambos se sentem à vontade com o que estão fazendo?
Sara: (Pausa) Bem, eu não acho que isso seria certo.
Pastor: Nem eu, mas como você os convenceria de que estão fazendo algo inapropriado?
Sara: Acho que não estou muito certa de como faria isso.

Assim, quão longe é longe demais? Se você está vivendo entre a puberdade e o
casamento, essa é uma pergunta cheia de grande significado. Eu (Gerald) posso me
lembrar dos tempos de jovem, sentado com meu pastor durante o café da manhã e
discutindo a questão da pureza entre casais namorados. Comigo estavam mais quatro ou
cinco rapazes, alguns tendo crescido na igreja, outros vindo de famílias sem igreja.
Todos acreditávamos que a Bíblia claramente proíbe o sexo antes do casamento, mas
nossas convicções não iam além disso.
Meu pastor concordava que a Bíblia de fato proíbe o sexo antes do casamento,
mas infelizmente, como o namoro não é especificamente mencionado na Bíblia,
precisamos chegar às nossas próprias conclusões sobre o que é fisicamente apropriado
num relacionamento de namoro. Assim, cada um de nós expressou o que a sabedoria da
nossa adolescência conseguira reunir. Nossas respostas variavam de “beijo
prolongado” a “conquanto as roupas não saiam do lugar”. (E antes que vocês, solteiros
mais velhos, baixem a cabeça torcendo o nariz para a minha ignorância de adolescente,
creio que, caso sejam honestos, vocês admitirão que a sabedoria de 30 anos não é de
todo melhor nessa questão.)
Lembro meu pastor nos advertindo contra os padrões mais liberais, usando o
argumento da ladeira escorregadia, isto é, que poderia ser difícil evitar o sexo quando
as coisas fossem longe demais. Ele também nos advertiu contra o perigo da luxúria, que
amiúde pode acompanhar até a interação sexual mais leve, e mencionou a necessidade
de ser puro. Mas no fim das contas ele não tinha nenhum padrão objetivo de pureza com
que nos aconselhar. Em vez disso, ele nos encorajava a chegar às nossas próprias
convicções, pela oração, sobre o que era fisicamente apropriado num relacionamento
de namoro, e a seguir a direção do Espírito Santo. Em última instância, fomos deixados
a seguir nossa própria sabedoria.
A abordagem seguida pelo pastor de Gerald parece ser a sabedoria
convencional encontrada em grande parte da literatura que lemos sobre o assunto. Sem
dúvida, você já deve ter ouvido algo parecido. Um autor resume isso afirmando o
seguinte:
Você pode querer que eu lhe diga, em muito mais detalhes, exatamente o que é certo
para você no que se refere aos limites seculares. Mas no fim você tem de estar perante
Deus. É por isso que você deve estabelecer seus próprios limites de acordo com a
direção divina para a sua vida… Para manter minha mente e meu corpo puros, escolhi
não beijar [minha esposa] até que estivéssemos noivos… Não estou dizendo que esse
também deve ser um dos seus limites. Mas quero que você construa sua própria lista de
padrões sexuais.[10]
Mas isso pode estar certo? Será que realmente achamos que Deus quer que
construamos nossas próprias listas de padrões sexuais? Adultos solteiros — mesmo
aqueles mais educados e sofisticados, de alto Q.I., — não estão qualificados para
construir suas próprias listas de padrões sexuais. Nós certamente não estávamos (e
continuamos a não estar) qualificados. Tem de haver um caminho melhor.

AS TRÊS CATEGORIAS ORDENADAS POR DEUS

Felizmente, Deus não nos deixou sem um conhecimento da sua vontade. Ao


contrário do que muitos creem, Deus definiu claramente o que espera de solteiros e
solteiras em relação à atividade sexual. Claro, você não descobrirá isso olhando “Quão
longe é longe demais?” no verso da sua Bíblia. Mas está ali para ser visto por todos
aqueles dispostos a pensar cuidadosamente sobre a teologia bíblica dos
relacionamentos homem-mulher.

Figura 2.1: As categorias ordenadas por Deus de relacionamentos homem-mulher


FAMÍLIA PRÓXIMO CASAMENTO
RELACIONAMENTOS RELACIONAMENTOS RELACIONAMENTOS
SEXUAIS SEXUAIS SEXUAIS
PROIBIDOS PROIBIDOS ORDENADOS

Como iremos ver, Deus agrupou os relacionamentos homem-mulher em três


categorias. Embora os títulos que atribuímos a cada categoria possam parecer um pouco
arbitrários, as próprias categorias não o são. Cada uma é baseada em padrões únicos
que Deus deu em relação à atividade sexual. Entender essas categorias distintas é a
chave para superar muito da subjetividade que cerca o decoro sexual, ajudando-nos a
construir limites adequados de expressão sexual.

O RELACIONAMENTO FAMILIAR

Comecemos com o relacionamento familiar. A diretriz de Deus para a expressão


sexual entre parentes sanguíneos evoluiu ao longo da história. Conforme mencionado
anteriormente, todos os mandamentos de Deus refletem a natureza e os propósitos
divinos. Isso também vale para as ordens de Deus sobre relações sexuais dentro das
famílias. Nos tempos bíblicos primitivos, Deus não proibia relações sexuais entre
parentes sanguíneos. Mas uma vez dada a lei do Antigo Testamento, Deus mudou o
padrão: “Nenhum homem se chegará a qualquer parenta da sua carne, para descobrir a
sua nudez. Eu sou o SENHOR” (Lv 18.6, ACF; neste versículo, a frase “descobrir a sua
nudez” é um eufemismo hebraico para relações sexuais).
Hoje não achamos esse mandamento de todo incomum ou mesmo necessário. A
ideia de se envolver em relações sexuais com alguém da nossa família imediata é
revoltante para a maioria de nós. Mas não foi sempre assim. Ao olhar para a história
bíblica anterior à lei, descobrimos que relações sexuais entre parentes sanguíneos não
era algo incomum. Abraão se casou com sua meia-irmã (Gn 20.11-12). As filhas de Ló
se aproximaram de seu pai enquanto ele estava bêbado e tiveram relações com ele (Gn
19.31-36). Jacó se casou com duas irmãs, uma prática mais tarde banida debaixo da lei
(Gn 29.23-28). Presumivelmente, Caim, Abel e Sete, bem como os filhos de Noé, se
casaram todos com parentes sanguíneos.
Deus não encorajou essa prática, e mais tarde aprendemos que ele a desaprovou
(Lv 18.26-28). Mas não a baniu até dar a lei. As razões para o banimento não estão
claramente detalhadas, mas parece que as relações sexuais entre parentes sanguíneos já
não se encaixavam com o novo relacionamento que Deus estabeleceu com seu povo por
meio da lei.[11] Independentemente da razão para essa proibição, a ordem de Deus
para as relações sexuais dentro do relacionamento familiar é clara: nenhuma atividade
sexual deve ocorrer entre parentes sanguíneos.

O RELACIONAMENTO CONJUGAL

Uma segunda categoria de relacionamentos homem-mulher ordenados por Deus


é o relacionamento conjugal. Embora Deus proíba relações sexuais entre parentes
sanguíneos, sua ordem é bem diferente quando se trata de homens e mulheres que estão
casados. No contexto do casamento, as relações sexuais não apenas são permitidas,
como também ordenadas. Em 1 Coríntios 7.3-5, Paulo ordena que os casados não se
abstenham das relações sexuais. Ele escreve:

O marido deve cumprir os seus deveres conjugais para com a sua mulher, e da mesma
forma a mulher para com o seu marido. A mulher não tem autoridade sobre o seu
próprio corpo, mas sim o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o
seu próprio corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo
consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de
novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio. (NVI)
Paulo segue para observar que um relacionamento sexual saudável dentro do
casamento é uma boa salvaguarda contra a infidelidade. E uma razão ainda mais
profunda para um relacionamento sexual saudável pode ser adquirida a partir da nossa
discussão no capítulo 1. A unicidade física que resulta do sexo entre marido e esposa é
uma imagem da unicidade espiritual que resulta de nossa união com Cristo. O sexo é
uma imagem do evangelho, e assim nosso deleite nele no contexto do casamento é
necessário como uma expressão da unicidade espiritual de Cristo com a igreja. Assim,
se por um lado Deus proíbe relações sexuais entre parentes sanguíneos, ele as ordena
no casamento. Até aqui tudo bem. As duas categorias acima são muito claras.

O RELACIONAMENTO COM O PRÓXIMO

A última categoria de relacionamento homem-mulher nós rotulamos, na falta de


um termo melhor, como “relacionamento com o próximo”. E é aqui que a Bíblia nos
esclarece muito da ambiguidade acerca da pureza sexual entre solteiros e solteiras.
Seguindo a definição inclusiva de Jesus sobre quem é o próximo, esta categoria inclui
todos aqueles que não são nem parentes sanguíneos, nem cônjuges (por ex., amigos,
estranhos, colegas de escola, de trabalho). Os mandamentos sobre pureza sexual no
relacionamento com o próximo estão espalhados por todo o Novo Testamento, e uma
das passagens mais notáveis nesse sentido é 1 Coríntios 7.7-9:

Desejaria que todos os homens estivessem na mesma condição em que estou. Mas cada
um tem o seu dom da parte de Deus, um de um modo, e outro de outro. Digo, porém, aos
solteiros e às viúvas que lhes seria bom se permanecessem na mesma condição em que
estou. Mas, se não conseguirem dominar-se, que se casem. Porque é melhor casar do
que arder de paixão.

Nessa passagem, Paulo está respondendo a uma série de questões colocadas a


ele pela igreja de Corinto. Muitos dos coríntios estavam sendo erroneamente
influenciados por uma forma de ascetismo dualista, uma cosmovisão que contrapunha o
mundo material ao mundo espiritual. Essa cosmovisão considerava o celibato a vida
cristã ideal e encorajava os outros a adotar esse estilo de vida. Nessa passagem, Paulo
observa seu próprio compromisso com o celibato e concorda que o celibato é de fato
ideal para aumentar a capacidade de alguém servir ao reino de Cristo. No entanto,
Paulo reconhece que a capacidade de viver uma vida casta e celibatária é um dom
exclusivo de Deus — um dom que Deus não concede a todas as pessoas.
Dada a imoralidade sexual generalizada dos seus dias, Paulo não encoraja todos
os crentes a abraçar um estilo de vida celibatário. Aqueles com um forte desejo por
intimidade sexual (isto é, que “ardem de paixão”) devem satisfazer esse desejo no
contexto do relacionamento conjugal. As implicações são claras: o relacionamento
matrimonial é o único contexto legítimo para as relações sexuais. O que é claramente
afirmado aqui nesta passagem é o padrão assumido do decoro sexual visto em todo o
Antigo e Novo Testamentos. Assim, a perspectiva bíblica sobre a pureza sexual dentro
do relacionamento com o próximo pode ser detalhada da seguinte forma: as relações
sexuais são proibidas nele.
Ora, nós sabemos o que você está pensando: “Nenhuma relação sexual fora do
casamento. Entendi. Mas disso eu já sabia. Como isso me ajuda a responder a questão
‘Quão longe é longe demais?’”. Ficamos felizes por você ter perguntado isso; continue
lendo.

O QUE CONSTITIU UMA RELAÇÃO SEXUAL?

Quase todos os cristãos devotos que levam a Bíblia a sério irão concordar que
as relações sexuais devem ser reservadas ao casamento. Mas é precisamente nesse
ponto que muitos de nós frequentemente não pensamos com cuidado sobre o significado
pleno da expressão relações sexuais. Com frequência restringimos nossa compreensão
das relações sexuais para incluírem apenas o intercurso sexual. Mas será que essa
compreensão estreita das relações sexuais é legítima? Pode-se lembrar aqui de um ex-
presidente que com firmeza afirmou “Eu não tive relações sexuais com essa mulher”.
Claro, o que ele realmente quis dizer é que ele não se envolveu em intercurso sexual.
Mas quantos de nós (sem esquecer sua esposa) se satisfizeram com essa definição
truncada de relações sexuais? Claramente, as relações sexuais vão além do intercurso
sexual. Sexo oral, carícia e masturbação mútua, por exemplo, são atividades sexuais.
Uma vez que abraçamos a verdade bíblica de que as relações sexuais devem ser
reservadas para o casamento, a velha pergunta “Quão longe é longe demais?” é
facilmente respondida. Se uma atividade é sexual, deve-se abster dela enquanto se está
num relacionamento com o próximo.
Mas para fins de clareza, enfatizemos um pouco mais esse ponto. Como
mencionado acima, quase todos os cristãos que levam a Bíblia a sério irão concordar
que a atividade sexual deve ser reservada ao casamento. E é duvidoso que alguém —
quer cristão, quer não — realmente tente argumentar que sexo oral e carícia não são
atividades sexuais. Assim, a linha é muito clara, até onde estão envolvidas essas
atividades. Mas o que dizer sobre o beijo? Muitos (talvez a maioria) dos casais
cristãos em namoro regularmente se envolvem em beijos apaixonados. O que devemos
pensar sobre essa prática?
Responder à questão do beijo não é tão difícil quanto se poderia pensar.
Claramente, algumas formas de beijar não são sexuais; nós beijamos nossos filhos e
nossa mãe. Mas há algumas formas de beijar que reservamos exclusivamente à nossa
esposa. E a razão de fazermos isso é precisamente porque essas formas de beijar são
sexuais.
Considerar uma atividade como sendo contrária ao pano de fundo do
relacionamento de família é imensamente útil para esclarecer quase toda a confusão que
cerca a pergunta “Quão longe é longe demais?”. Se um homem não se sente confortável
para agir de uma forma em particular com sua irmã porque fazê-lo seria sexualmente
inapropriado, essa ação é de natureza sexual, e deve ser reservada para o
relacionamento conjugal.[12]
Que nós muitas vezes deixamos de identificar certas atividades (como o beijo
apaixonado) como sexuais é visto em como muitos solteiros cristãos frequentemente
usam o termo relacionamento físico para descrever tais atividades. O uso do termo
físico sugere implicitamente que as ações do casal são qualquer coisa, menos sexuais.
Mas o beijo apaixonado não é meramente físico — é sexual. Ao contrário de um abraço
ou aperto de mãos, o beijo apaixonado está claramente fora do âmbito dos membros de
uma família biológica. E a razão por que está fora desse âmbito é que nós
intuitivamente sabemos que o beijo apaixonado é uma atividade sexual. Logo, nós
podemos concluir que:

1) As relações sexuais devem ser reservadas para o relacionamento conjugal.


2) Há muito mais nas relações sexuais do que o intercurso sexual.
3) Qualquer atividade que seja de natureza sexual deve ser reservada para o
relacionamento conjugal.
4) Algumas formas de beijar são de natureza sexual.
5) As formas sexuais de beijar devem ser reservadas para o relacionamento
conjugal.

A lógica do exposto acima é, acreditamos, inescapável. Ademais, ver uma


atividade utilizando o pano de fundo do relacionamento familiar tem base bíblica. Em 1
Timóteo 5.2, Paulo sugestivamente vincula o tratamento familiar do sexo oposto à
pureza absoluta. Neste versículo frequentemente ignorado, ele escreve: “[Tratem] as
mulheres idosas como a mães; e as moças, como a irmãs, com toda a pureza”. De forma
bastante útil, Paulo liga aqui o tratamento familiar do sexo oposto à pureza sexual. No
contexto dessa passagem, Paulo está instruindo Timóteo — um jovem pastor — sobre
como deve interagir com as mulheres da sua igreja — em outras palavras, suas
próximas.
A principal preocupação de Paulo, nesse momento, é a conduta sexual de
Timóteo, como se pode ver no uso da frase “toda a pureza”. Notavelmente, Paulo instrui
Timóteo a interagir com as mulheres da sua igreja de uma forma que se assemelhe ao
relacionamento dele, Timóteo, com sua família biológica. Claro, Paulo não está
pedindo que Timóteo trate, em todas as circunstâncias, as mulheres de sua igreja como
se cada uma fosse literalmente sua mãe ou irmã (pense na quantidade de cartões de Dia
das Mães!). Nem tampouco está pedindo que Timóteo pense ou sinta exatamente o
mesmo sobre cada mulher. Antes, o que Paulo tem em mente é a conduta de Timóteo
para com as mulheres. Se Timóteo está comprometido a viver uma vida de absoluta
pureza, sua conduta para com as mulheres na igreja deve se dar numa estrutura familiar
de pureza.
Toda e qualquer atividade sexual, mesmo se interrompida antes de uma
expressão sexual mais intensa, está fora dos limites da ética sexual da Bíblia. Ela é
(podemos dizê-lo tão ousadamente?) pecaminosa. E não só é pecaminosa; essa
atividade inevitavelmente leva à frustração sexual e emocional, o que por sua vez leva
a uma maior tentação sexual. É uma tempestade perfeita apresentar nossos “membros…
em escravidão à impureza e à maldade que leva à maldade” (Rm 6.19). Essa é uma
realidade simples que sem dúvida muitos de vocês podem atestar a partir da sua
própria experiência; uma realidade que temos visto acontecer sempre de novo em
nossas respectivas igrejas entre adolescentes e adultos solteiros.
Mas embora o argumento da “ladeira escorregadia” seja viável, esse não é o
principal argumento que estamos desenvolvendo aqui. Mais uma vez, traduzindo em
miúdos, se uma atividade é sexual, não importa quão trivial, ela deve ser reservada
para o relacionamento conjugal — não por causa daquilo a que poderia levar, mas por
causa do que ela é em si mesma. Em suma, o padrão de pureza para o relacionamento
com o próximo é idêntico ao padrão de pureza para o relacionamento familiar: nenhuma
atividade sexual de qualquer tipo é permitida.
Isso é algo difícil de engolir. Sabemos disso — nós também já fomos solteiros
uma vez. Assim, talvez você esteja buscando um pouco mais de evidência bíblica antes
de renunciar por completo a toda atividade sexual fora do casamento. Sendo este o
caso, considere o seguinte.

CONFIRMAÇÃO A PARTIR DA CULTURA DO PRIMEIRO SÉCULO

Uma boa regra de interpretação da Bíblia é saber ao certo como o público


original da Bíblia teria entendido um determinado termo ou ideia. Por exemplo, para
compreender o que Paulo quer dizer em Colossenses 1.15, quando escreve que Jesus é
o “primogênito” de toda a criação, devemos primeiro entender o que o termo
significava para o seu público original. O termo primogênito era um título legal que se
referia ao filho — nem sempre ao mais velho — que herdaria a fortuna da família.
Assim, a designação de Cristo como “primogênito” de toda a criação não é uma
declaração sobre sua ordem de nascimento, mas uma declaração sobre seu direito legal
de ocupar o lugar de senhorio supremo no reino de Deus. Neste caso, um conhecimento
do contexto cultural nos dá a compreensão do termo “primogênito”.
O mesmo vale para o ensino da Bíblia sobre a imoralidade sexual. Se levamos
a sério a ideia de se abster da imoralidade sexual, é nossa incumbência saber o que a
Bíblia quer dizer com a expressão imoralidade sexual. Simplesmente não adianta
definir imoralidade sexual de formas que nos sejam convenientes, mas estranhas aos
autores bíblicos. Como veremos abaixo, a expressão imoralidade sexual carregava
mais sentido do que acontece hoje.

O QUE CONSTITUI IMORALIDADE SEXUAL?

Tanto no contexto judaico como greco-romano antigos, a imoralidade sexual


teria incluído qualquer tipo de atividade sexual entre um homem solteiro e uma mulher
solteira respeitável. De fato, a capacidade de uma jovem respeitável encontrar um
parceiro adequado para casamento era em grande parte condicionada à capacidade do
pai de provar a castidade dela. Desde que a contribuição de uma filha à sua família era
frequentemente realizada na capacidade dela de assegurar um casamento social ou
economicamente vantajoso, um pai no mundo antigo fazia tipicamente um grande
esforço para proteger a integridade moral da reputação de sua filha até o dia do
casamento dela. Assim, as mulheres jovens respeitáveis não saíam de casa sem escolta,
e a prática do enclausuramento (isto é, uma jovem era mantida em casa e longe de
quaisquer homens não parentes) era frequentemente empregada.
Desnecessário dizer, nossas práticas de namoro contemporâneas teriam sido
completamente estranhas ao contexto do primeiro século. Mesmo na cultura pagã,
mulheres jovens respeitáveis não passavam tempo sozinhas com homens que não faziam
parte da família, nem mesmo se envolviam em alguma atividade sexual leve antes do
casamento. Na verdade, em muitos aspectos não se proporcionava facilmente às
mulheres solteiras respeitáveis do mundo antigo oportunidades de se envolver em má
conduta sexual. (Isso explica por que os mandamentos na Bíblia sobre pureza sexual
são quase todos direcionados para os homens, que, ao contrário das jovens mulheres,
teriam tido mais licença social para visitar prostitutas ou ter uma amante.)
Consequentemente, na época do Novo Testamento a atividade sexual pré-
conjugal que intencionalmente parava logo antes do intercurso sexual não era algo
comum. Falando francamente, homens respeitáveis não se envolviam com mulheres
respeitáveis. Ou um homem se abstinha da atividade sexual por completo, ou se
envolvia nela plenamente com sua esposa (ou, no mundo pagão, com uma prostituta ou
amante).
Nosso ponto, ao fazer referência ao contexto do primeiro século, não é sugerir
que deveríamos simplesmente adotar os costumes sexuais do primeiro século.
Dificilmente seria o caso. Em vez disso, o ponto é mostrar como os leitores do Novo
Testamento teriam naturalmente entendido o ensino da Bíblia sobre a imoralidade
sexual. No Novo Testamento, a palavra comum mais frequentemente traduzida como
“imoralidade sexual” é o grego porneia. Porneia era uma palavra genérica usada para
se referir a qualquer tipo de atividade sexual fora dos limites da conduta sexual
adequada. Nos dias de Paulo, evitar porneia implicaria evitar qualquer tipo de
atividade sexual — mesmo atividade sexual leve — entre um homem solteiro e uma
mulher solteira respeitável.
Deixar de tomar a Bíblia nos seus próprios termos nessa área é deixar de aderir
à visão neotestamentária da pureza sexual. Talvez uma ilustração adicional fará
entender melhor o nosso ponto. Imagine que um homem volte para casa do trabalho à
noite e veja que sua esposa fez um bolo. Assim que anda pela cozinha, ela o vê
espiando o bolo, e explicitamente afirma: “Não coma o bolo; é para a nossa festa esta
noite”. Ele meneia a cabeça como quem entendeu, e ela sai da cozinha. Assim que sai,
ele corta para si uma grande fatia do bolo e o põe em seu prato. E então, mordida por
mordida, ele mastiga o bolo e o cospe de volta no prato. Tendo assim mastigado toda a
fatia (mas sem engolir, não esqueça), ele raspa o pedaço mastigado e o coloca de volta
no espaço vazio da forma de bolo. Nesse momento sua esposa volta para a cozinha e
olha para ele horrorizada: “O que está fazendo?!”, exclama ela. “Eu disse para você
não comer o bolo!” Ele olha para ela calmamente e diz com voz segura: “E de fato não
comi. Perceba, querida, eu defini ‘comer’ como ‘engolir’. E como não engoli o bolo,
não o comi. Em suma, eu não tive uma relação de ingestão com o bolo”.
Uma história boba, mas que esclarece o ponto. Quando a esposa diz para o
marido não comer o bolo, quer dizer: “Deixe o bolo — não toque nele”. E na vida real
ela não precisa ser mais explícita, pois ele sabe perfeitamente bem o que ela quis dizer.
É o mesmo com o ensino da Bíblia sobre imoralidade sexual. Quando os autores
bíblicos escreveram “Abstenham-se da imoralidade sexual”, seus ouvintes sabiam
exatamente o que eles queriam dizer. No contexto do primeiro século, uma conduta
adequada significava tratar os membros do sexo oposto de uma forma completamente
não sexual. O Novo Testamento simplesmente assume e afirma esse padrão de pureza
sexual. Em vista desse quadro histórico e cultural, nós podemos entender por que os
autores bíblicos não precisaram explicitar quão longe é longe demais. Eles podiam
simplesmente dizer “Evitem porneia”, e todo mundo sabia do que estavam falando. Em
suma, toda atividade sexual pré-conjugal — mesmo uma atividade sexual leve como o
beijo apaixonado — está fora dos limites da moralidade do Novo Testamento.[13]
Mas, espere. Estamos nós dizendo que o beijo apaixonado é imoralidade
sexual? De certo modo, sim. Mas não estamos sugerindo que o beijo apaixonado é o
mesmo que sexo mais do que Jesus, em seu ensino sobre luxúria e adultério, queria
dizer que a luxúria traz exatamente as mesmas consequências que o adultério (veja Mt
5.27). A luxúria, claro, é um pecado sexual. E neste sentido a luxúria é uma forma de
imoralidade sexual. Mas nós não invocamos a disciplina da igreja sobre cada pessoa
que comete luxúria. Não haveria igreja que pudesse fazê-lo! O ponto de Cristo não era
que aqueles que cometem luxúria deveriam ser tratados da mesma forma que aqueles
que cometem adultério. Antes, seu ponto era que a luxúria é a primeira expressão de um
grande pecado, e como tal é em si um pecado. Da mesma forma, o beijo apaixonado,
embora não sendo o mesmo que sexo pré-conjugal, é o começo do sexo pré-conjugal, e
como tal é em si um pecado. Expressões menores de grandes pecados ainda são
pecados. Era esse o ponto de Jesus sobre a luxúria, e é o nosso, sobre o beijo
apaixonado. Deus nos chama para a pureza absoluta. Que não coloquemos nem mesmo
um dedo nas águas da imoralidade sexual.

A IMAGEM DE DEUS PRESERVADA

Rapidamente se torna evidente que o padrão de pureza estabelecido em 1


Coríntios 7.7-9 se encaixa facilmente na ideia de que Deus ordenou que as relações
sexuais sirvam como imagem do relacionamento de Cristo com a igreja. Quando nos
lembramos de que Deus criou o sexo como um meio de comunicar nossa união
sobrenatural num só espírito com a vida divina de Cristo, podemos começar a entender
por que Deus espera que limitemos o uso do sexo ao relacionamento conjugal. Assim
como Cristo se reserva exclusivamente para a igreja, tornando-se um só espírito com
sua noiva somente, nós também somos chamados a reservar nossa sexualidade
exclusivamente para o nosso cônjuge.
Através da atividade sexual em geral e do intercurso sexual em particular, a
união numa só carne do relacionamento conjugal reflete a realidade da nossa
participação na “natureza divina” (2Pe 1.4). Porém, quando nossa sexualidade é
manifestada fora do contexto de um relacionamento conjugal permanente (seja por
relações sexuais pré-conjugais, seja por adultério), nós deixamos de retratar a imagem
da união de Cristo à igreja e da nossa devoção exclusiva a ela.
As restrições necessárias para viver esse ideal são grandes, particularmente
numa cultura que sequer pode começar a compreender a relação entre Cristo e sua
igreja. Mas devemos sempre lembrar para quem nossa sexualidade foi feita. Ela foi
feita primeiramente para o Senhor, como uma ilustração divina da natureza dele e dos
seus propósitos. Ignorar essa realidade e usá-la prematuramente para a nossa própria
gratificação é subtraí-la da sua importância e significado e, logo, do seu verdadeiro
prazer em nossa vida. Não devemos tomar o que Deus criou como sagrado e usar
prematuramente em relacionamentos comuns que ficam aquém da intenção divina.

CONCLUSÃO

Os padrões de Deus não são arbitrários, nem tampouco sua designação dos
diferentes tipos de relacionamentos homem-mulher. Cada relacionamento tem um
propósito dentro da imagem de Deus, e as diretrizes que Deus dá com respeito à
expressão sexual dentro dessas categorias estão ligadas a essa imagem. Se agimos em
conformidade com essas diretrizes, nossa sexualidade carrega adequadamente a
imagem de Deus e seu plano divino de salvação. Muito da confusão que surge em
relacionamentos com o sexo oposto, mesmo entre jovens adultos que levam a Bíblia a
sério, decorrem da incapacidade de compreender e aplicar as verdades desses
diferentes relacionamentos.
Em suma, toda atividade sexual pré-conjugal está fora dos limites da ética do
Novo Testamento. Mas como é que temos por tanto tempo compreendido mal o ensino
da Bíblia sobre a pureza sexual? Acreditamos que parte da razão por que solteiros não
conseguem aplicar esse padrão de pureza aos seus relacionamentos de namoro é que
eles veem essas relações como distintas do relacionamento com o próximo. Esse
equívoco é antibíblico e tem alimentado nossa incapacidade de discernir a verdade no
reino da pureza sexual. Como iremos ver, nós não podemos criar uma categoria
artificial de relacionamento homem-mulher que não seja governada pelos padrões
revelados por Deus na Escritura.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

1) Quais são as três categorias ordenadas por Deus de relacionamentos homem-mulher?

2) Quem está incluído no relacionamento com o próximo?

3) Qual é o mandamento de Deus com respeito à pureza sexual para o relacionamento


com o próximo?

4) Reveja as cinco proposições abaixo. Você concorda com cada uma delas? Por que
sim, ou por que não?

a) Os relacionamentos sexuais devem ser reservados para o relacionamento


conjugal.
b) Há mais nas relações sexuais do que o intercurso sexual.
c) Qualquer atividade que seja de natureza sexual deve ser reservada para o
relacionamento conjugal.
d) Algumas formas de beijar têm natureza sexual.
e) As formas sexuais de beijar devem ser reservadas para o relacionamento
conjugal.
O DILEMA DO NAMORO,
PARTE I
Por que temos de perguntar quão longe é longe demais?

Fronteiras pessoais são diretrizes, regras ou limites que uma pessoa cria para identificar para si mesma quais
as formas razoáveis, seguras e permissíveis de as outras pessoas se comportarem ao redor dela.
WIK EP ED IA

Namorar ou não namorar, eis a questão. Desde Joshua ter dado adeus ao namoro
no final dos anos 90 do século passado, a questão tem exaltado a mente de cristãos
solteiros por toda a América. E como você poderia esperar, nós temos uma opinião
sobre o assunto. Este capítulo irá explorar o assunto dos relacionamentos de namoro até
onde se relacionarem com o assunto da pureza sexual. É nossa observação que os
relacionamentos de namoro contemporâneos confundem os limites morais do
relacionamento com o próximo e têm a tendência de legitimar a atividade sexual fora do
casamento. Ou, para dizer novamente, os relacionamentos tomam os limites morais
fixos do relacionamento com o próximo e os transforma em limites pessoais.
Por favor, observe que nossas críticas a seguir são contra os relacionamentos
de namoro, não contra se encontrar com pessoas do sexo oposto. Em outras palavras,
nós estamos advertindo contra o namoro como uma categoria de relacionamento, não
contra a atividade de se encontrar com pessoas do sexo oposto. Essa é uma distinção
importante que se tornará mais clara à medida que avançarmos.
Mais uma vez, vejamos como Sara e seu pastor conversam sobre a lógica do
relacionamento de namoro:

Pastor: Então, quando diz que você e Tom estão “namorando”, o que quer dizer com isso?
Sara: Bem, é uma forma de dizer que somos atraídos um pelo outro e queremos ter uma relação especial,
em que nossa atração mútua seja explicitada.
Pastor: Mas, e quanto ao termo namoro? Quer dizer que vocês saem para se encontrar?[14]
Sara: É mais que isso. Quero dizer, você pode sair para se encontrar com alguém, mas não significa
necessariamente que estão namorando. Sabe, apenas saindo como amigos.
Pastor: Ah, me ajude a entender isso. Digamos que um rapaz e uma moça sejam apenas amigos e saem
bastante juntos. Isso não significa necessariamente que estão namorando, certo?
Sara: Certo. Quando dois amigos saem para um encontro, não estão saindo porque são atraídos um pelo
outro. São apenas amigos indo juntos num encontro um-a-um, algo não diferente de sair com um amigo do
mesmo sexo.
Pastor: Ok, então sair para encontros não é necessariamente a mesma coisa que namorar. Só é namoro real
quando as duas pessoas são atraídas uma pela outra — não só no sentido de amizade, mas no sentido
romântico.
Sara: Isso mesmo.
Pastor: Assim, digamos que duas pessoas gostem uma da outra mais do que como amigas, e duas outras
pessoas gostem uma da outra apenas como amigas. Se cada casal sai junto toda sexta-feira à noite e fala ao
telefone três vezes por semana, quais diferenças poderíamos ver entre esses dois relacionamentos que nos
ajudariam a distinguir qual é qual?
Sara: Bem, pastor, acho que sei o que você está tentando pescar, e você está certo. O casal que está
namorando vai ter algum tipo de relacionamento físico.
Pastor: Assim, uma diferença importante entre um casal namorando e um casal de amigos é se eles têm
algum tipo de relacionamento físico?
Sara: Sim.
Pastor: E se duas pessoas que são apenas amigas saírem juntas e se beijarem às vezes? Isso seria ruim?
Sara: Claro. Elas são apenas amigas. Isso significaria que ou elas realmente se gostam, ou têm uma relação
muito disfuncional.
Pastor: Mas por que seria disfuncional? Por que seria ruim duas pessoas que são apenas amigas e não têm
intenção de firmar uma relação de namoro formal se beijarem, se o beijo não for longe demais? E se elas
gostam de se beijar apenas por diversão?
Sara: Bem, isso certamente acontece, mas não acho que seja correto. O beijo é uma expressão íntima de
afeto, e creio que deveria ser reservado para pessoas que têm uma relação oficial. Do contrário, acho que o
tornaria menos especial — faria com que ele fosse banalizado.
Pastor: Então você está dizendo que seria errado duas pessoas que são apenas amigas se beijarem apenas
por diversão?
Sara: Sim.
Pastor: Então, digamos que você vá a um evento da igreja e encontre essa pessoa lá. Vocês não se
conhecem, mas você pode dizer que ele gosta de ti e você, dele. Após o evento, ele a leva para o seu carro,
e quando vocês ficam sozinhos no estacionamento, ele tenta beijá-la. Isso é apropriado?
Sara: Eu não iria gostar disso. Mesmo que gostasse dele, não acho que seria certo beijar qualquer um,
especialmente sem um compromisso.
Pastor: Assim, você está dizendo que seria errado você beijar alguém que realmente não conhece tão bem,
ou que acabou de conhecer?
Sara: Sim.
Pastor: Digamos, então, em vez disso, que ele lhe peça para saírem num encontro. Vocês saem várias vezes
e acabam se conhecendo muito bem; então ele lhe pede para ser sua namorada. Você diz “sim”, e tudo se
torna oficial. Então ele a beija. Isso é ruim?
Sara: Então estaria tudo bem, pois seria um relacionamento oficial. Não é como se fosse algo apressado, ou
você se envolvendo com qualquer um.
Pastor: Então vamos recapitular. Você acha que é errado beijar seus amigos apenas por diversão e beijar
pessoas que realmente não conhece bem. Entendi direito?
Sara: Sim.
Pastor: Mas você não vê problema em beijar um namorado, contanto não percam o controle ou deixem ir
longe demais — o que quer que isso signifique?
Sara: Sim.
Pastor: Então você tem um padrão conservador de pureza sexual para como se relaciona com homens que
são só amigos e com homens que não conhece tão bem, mas um padrão mais flexível para homens com
quem sai?
Sara: Hm… acho que sim.
Pastor: Nós tendemos a aplicar diferentes padrões a diferentes tipos de relacionamentos, mas deixe eu lhe
fazer uma pergunta: Você acha que Deus tem um padrão de pureza sexual para casais namorados que é
diferente daquele para os que apenas são amigos ou estranhos?
Sara: Bem, acho que nunca pensei realmente nisso.

A EVOLUÇÃO DO NAMORO: DA ATIVIDADE À CATEGORIA

O termo namoro evoluiu ao longo do tempo para significar algo diferente do


que costumava significar. No passado, namoro não denotava uma categoria de
relacionamento tanto quanto descrevia uma atividade. Ao contrário das gerações
anteriores, que entendiam namoro como referindo-se a algo que um rapaz e uma moça
faziam (isto é, saíam para um encontro), o conceito moderno de namoro amiúde se
refere a algo que eles são (ou seja, namorado e namorada).[15] Em outras palavras, o
termo é usado para distinguir os relacionamentos românticos dos relacionamentos não
românticos.
Essa mudança de significado é importante. À medida que nossa subcultura cristã
tem visto o namoro como uma categoria distinta de relacionamento separada dos
relacionamentos não românticos, nós inadvertidamente lhe demos a legitimidade que
intuitivamente damos aos três relacionamentos homem-mulher ordenados por Deus,
considerados no último capítulo. Nós criamos, à parte da Escritura, um quarto tipo de
relacionamento homem-mulher. E é aí que reside o potencial para uma grande confusão,
porque quando inventamos nossas próprias categorias de relacionamentos homem-
mulher, somos forçados a inventar nossas próprias diretrizes de pureza para essa
categoria. Mas inventar nossas próprias diretrizes morais nunca deu certo na
humanidade (lembre o que aconteceu quando Adão e Eva tentaram isso, em Gênesis 3,
por exemplo).
Na figura 3.1, note quão bem um relacionamento de namoro se encaixa, ou não,
nas três categorias de relacionamento ordenadas por Deus.

Figura 3.1: Como o namoro se encaixa nas categorias de relacionamento ordenadas por Deus
FAMÍLIA PRÓXIMO NAMORO CASAMENTO
RELACIONAMENTOS RELACIONAMENTOS RELACIONAMENTOS RELACIONAMENTOS
SEXUAIS SEXUAIS SEXUAIS SEXUAIS
PROIBIDOS PROIBIDOS ? ORDENADOS
INVENTANDO NOSSOS PRÓPRIOS ABSOLUTOS

As diretrizes para a expressão sexual dentro das categorias ordenadas por Deus
são claras. Mas nós inventamos nossa própria categoria de relacionamentos homem-
mulher e então questionamos a falta de direção divina sobre como deveríamos nos
portar dentro dessa categoria. Sentindo-nos desamparados em nossos próprios
artifícios, tentamos então criar padrões de pureza para esse relacionamento criado pelo
homem. Um relacionamento de namoro é mais que apenas um relacionamento com o
próximo, nós racionalizamos; assim, certamente, algum nível de expressão sexual é
permitido. Contudo, um relacionamento de namoro não está no mesmo nível de um
relacionamento conjugal; então, obviamente, o intercurso sexual está de fora.
Concluímos, portanto, que os padrões de pureza para um relacionamento de namoro
devem estar em algum lugar entre apenas amigos e apenas casados. Mas há uma grande
margem entre nenhuma expressão sexual e o intercurso sexual! (E, como vimos no
último capítulo, atividade sexual inclui tudo o que precede o intercurso sexual.) Nós
inventamos nossa própria categoria de relacionamento e então fizemos nossas próprias
regras.
É isto que queremos dizer: a Bíblia silencia sobre os limites sexuais dentro do
relacionamento de namoro precisamente porque Deus não vê o relacionamento de
namoro como algo distinto do relacionamento com o próximo. Além disso, o silêncio
da Bíblia sobre os relacionamentos de namoro não se deve à Bíblia ser silente sobre o
namoro porque ele não existia quando a Bíblia foi escrita, como se poderia argumentar
sobre carros ou computadores. Ao contrário, o decoro sexual é uma questão a que a
Bíblia dá grande atenção. Embora Deus não tenha explicitamente prescrito os meios
pelos quais devemos nos mover do relacionamento com o próximo para o
relacionamento conjugal (isto é, cortejo, namoro, casamentos arranjados), ele
claramente prescreveu como espera que todos os homens e mulheres ajam fora do
relacionamento conjugal. Longe esteja de nós inventar nossas próprias diretrizes de
decoro sexual com base em nossa forma relativamente moderna de conduzir as relações
pré-conjugais.
VINCULADO AO RELACIONAMENTO COM O PRÓXIMO

Toda pessoa não casada está vinculada aos padrões de pureza que Deus definiu
no relacionamento com o próximo. Esse é um ponto vital, e se você está disposto a
reconhecê-lo, mudará toda a sua forma de abordar o sexo oposto. Não estamos
sancionados a inventar uma nova categoria de relacionamentos homem-mulher, para
então nos afastarmos das diretrizes de Deus no processo. Independentemente de como
chamemos a pessoa por quem temos um sentimento (“namorado” ou “namorada”), ainda
estamos vinculados às diretrizes de pureza do relacionamento com o próximo. De
acordo com a Palavra de Deus, não devemos fazer nada com alguém do sexo oposto
que não faríamos com um parente de sangue. Isso esclarece dramaticamente as coisas e
dá uma resposta objetiva à pergunta “Quão longe é longe demais?”.
O próprio fato de fazermos a pergunta é um indicativo de que vemos o
relacionamento de namoro como distinto do relacionamento com o próximo. Nós não a
fazemos a respeito dos nossos irmãos ou primos. Nem a fazem, tipicamente, a maioria
dos cristãos solteiros acerca de membros do sexo oposto em geral. Quando se trata de
relacionamentos como esses, nós intuitivamente sabemos a resposta para “Quão longe é
longe demais?”. Mas quando levantamos a questão dentro do contexto de um
relacionamento de namoro, mostramos assumir que um relacionamento de namoro é
diferente desses outros relacionamentos. O padrão de pureza de Deus para um casal de
namorados é o mesmo que o padrão de Deus para o relacionamento com o próximo.

O ENGANO DO NAMORO

Cristãos solteiros não precisam saber como se portar num relacionamento de


namoro, nem precisam apenas se abster dele até que estejam mais velhos, como se a
idade trouxesse mais sabedoria sobre como agir num relacionamento pré-conjugal
semi-sexual. Os cristãos solteiros precisam entender que o relacionamento de namoro
é, na verdade, meramente um subconjunto do relacionamento com o próximo.
Devemos ter o cuidado de não vir a acreditar, com o mundo, que o
relacionamento de namoro é um relacionamento homem-mulher distinto, livre das
diretrizes de pureza sexual estabelecidas por Deus no relacionamento com o próximo.
Não obstante, muitos de nós têm sido arrastados por essa concepção equivocada,
crendo que Deus não forneceu padrões objetivos de pureza sexual para duas pessoas
romanticamente interessadas uma na outra. Deus tem falado claramente através de sua
Palavra. Vale a pena repetir que as diretrizes de decoro sexual para duas pessoas
romanticamente interessadas uma na outra são iguais àquelas para duas pessoas não
romanticamente interessadas uma na outra: essas pessoas devem tratar uma a outra
como se fosse parentes de sangue. Adicionar o rótulo namoro a um relacionamento não
o absolve dessas diretrizes.

CONCLUSÃO: A IMAGEM DE DEUS DESFEITA

Em última análise, Deus ordenou os limites do relacionamento com o próximo


por amor a Cristo e à igreja. Quando cristãos solteiros começam a se expressar
sexualmente (mesmo de forma reduzida) à parte do relacionamento conjugal, eles usam
sua sexualidade fora do contexto para o qual ele foi criado. Deus ordenou que nossa
sexualidade fosse uma imagem do relacionamento entre Cristo e sua igreja. Quebrar os
limites estabelecidos no relacionamento com o próximo faz essa imagem ficar
embaçada e confusa.
As pessoas são sexuais, sem dúvida. E o sexo é uma coisa maravilhosamente
poderosa — uma das dádivas mais poderosas, maravilhosas, que Deus concedeu à
humanidade. Mas o sexo não pertence a nós somente. Até que apreciemos a autoridade
de Deus sobre o sexo, e seu propósito para este, deixaremos de ver sentido no sexo e
lutaremos para administrá-lo. Não podemos deixar que as formas modernas de cortejo
deixem nebuloso o ideal de Deus para o sexo. Deus nos oferece muito mais. Podemos
lhe dar uma sugestão? Poderia repousar este livro ao seu lado e tirar um momento para
orar sobre o que temos discutido até aqui? Poderia pedir a Deus para lhe dar um novo
olhar enquanto vai refletindo sobre esse aspecto vital da humanidade em você? Poderia
pedir a Deus para lhe dar não só conhecimento, mas também a graça de obedecer à
imagem de Cristo e a igreja que sua sexualidade pode expressar?

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

1) Você acha que a discussão de abertura entre Sara e seu pastor consegue captar de
forma precisa nossa visão cristã contemporânea de namoro? Por que sim, ou por que
não?
2) Será que a maioria das pessoas, na sua opinião, considera os limites sexuais que
governam um relacionamento de namoro diferentes daqueles limites sexuais que
governam as amizades homem-mulher não românticas? O que você acha disso?
3) Se você está atualmente num relacionamento de namoro, de que forma precisaria
ajustar a maneira como está se expressando sexualmente? E se está pensando em iniciar
um relacionamento de namoro, como precisaria ajustar suas expectativas sobre o
decoro sexual?
O DILEMA DO NAMORO,
PARTE II
Paredes de papel e escalada sem ajuda

É permanente até agora.


AVA L I A Ç Ã O D E U M C A SA L D E H O L L YW O O D
SO B R E SE U N O VO R E L A C I O N A M E N T O

Afinal, o que exatamente é um relacionamento de namoro? Quando jovens,


pensávamos no conceito de namoro, mas não éramos capazes de defini-lo em termos
objetivos. Mas o casamento, a sabedoria da idade e muito tempo seguindo na direção
errada num beco sem saída tem uma maneira de dar clareza nessas coisas. Na verdade,
um relacionamento de namoro é nada mais que uma miragem, um relacionamento de
fumaça e imagens que promete ser algo mais do que é realmente. O capítulo anterior
lidou com o assunto do namoro do ponto de vista da pureza sexual. Neste capítulo,
queremos olhar para a noção de compromisso dentro dos relacionamentos de namoro.
Como iremos ver, usar um termo tal como compromisso no contexto de um
relacionamento de namoro expande o uso normal da palavra para além do ponto de
ruptura. A precipitação além disso é significativa. À medida que começamos, vejamos
novamente como Sara fala com seu pastor. Mais uma vez, vejamos como Sara e seu
pastor conversam sobre a lógica do relacionamento de namoro:

Pastor: Gostaria de passar mais um tempo falando sobre relacionamentos de namoro, se não tiver problema.
Sara: Claro, vá em frente.
Pastor: Certo, eis minha pergunta: O que há num relacionamento de namoro oficial que o distingue de duas
pessoas que se gostam romanticamente e saem para encontros?
Sara: Bem, no relacionamento oficial o rapaz e a moça estão comprometidos um ao outro.
Pastor: O que você quer dizer com “comprometidos”?
Sara: Significa que eles têm um entendimento mútuo de que estão namorando exclusivamente um ao outro.
É diferente de um encontro casual.
Pastor: O que você quer dizer com “encontro casual”?
Sara: Encontro casual é quando duas pessoas apenas saem para encontros, sem ter tornado seu
relacionamento exclusivo. Elas ainda podem sair com outra pessoa.
Pastor: Então no encontro casual você pode sair com quem quiser a qualquer momento?
Sara: Isso.
Pastor: Mas num relacionamento de namoro oficial isso não é possível, porque as duas pessoas estão
formalmente comprometidas uma com a outra?
Sara: Sim. Elas concordaram que a partir de então só podem ter encontros uma com a outra. É como uma
forma de monogamia pré-conjugal.
Pastor: Hmm. Então, qual é o prazo de validade dessa monogamia pré-conjugal? Quanto tempo irá durar?
Sara: Obviamente, não é para sempre. Ou o relacionamento terminará em casamento, ou o casal perceberá
que a relação não funciona para um, ou para o outro, e chegará ao fim.
Pastor: “Não funciona”? Você quer dizer quando alguém não gosta mais do outro?
Sara: Bem, sim, mas pode ser um pouco mais complexo do que isso. Eles ainda podem se gostar, mas
descobrir que têm valores diferentes. Ou talvez algum atrito tenha surgido dentro do relacionamento. Ou
talvez conheceram outra pessoa que as faz sentir muito melhor, e percebem então que a relação atual não é
realmente tão sólida e significativa quanto pensavam. E às vezes, depois de um tempo, as coisas
simplesmente envelhecem. Há uma série de razões para romper com uma pessoa.
Pastor: Então, num relacionamento de namoro comprometido, qualquer das partes pode terminar o
relacionamento por qualquer motivo a qualquer hora e sair com alguém outro?
Sara: Sim.
Pastor: E encontro casual é quando qualquer das partes é livre para sair com quem quiser a qualquer
momento?
Sara: Isso.
Pastor: Então, mais uma vez, qual é a diferença?

COMPROMETIDO A QUÊ? COMPROMETIDO ATÉ QUANDO?

De muitas maneiras, duas pessoas que namoram parecem ter um relacionamento


estabelecido e real. Elas têm um título para o seu conhecido importante (namorado ou
namorada). Espera-se que se lembrem de aniversários, feriados e datas de nascimento.
Elas colocam uma sobre a outra certas obrigações e restrições a respeito de
com quem podem, ou não, passar tempo. Na superfície, isso realmente dá uma
impressão de compromisso. Mas será que o compromisso do relacionamento de namoro
realmente é um compromisso com alguma essência? Cremos que não.
Muito provavelmente, vários casais que namoram não têm realmente pensado no
que querem dizer ao usar palavras como compromisso no contexto do seu
relacionamento. Se pressionados, porém, eles geralmente atribuem a ideia de
compromisso ao fato de terem concordado em sair apenas um com o outro. Em outras
palavras, um homem que está namorando uma mulher não pode sair com outra ao
mesmo tempo. Ele está ligado à sua namorada e concordou em expressar seus interesses
românticos somente nela. Assim, essa é a natureza exclusiva do relacionamento que o
separa do encontro casual e de outros relacionamentos homem-mulher. Mas como
observado acima, o assim chamado compromisso de namoro pode acabar a qualquer
momento por qualquer razão que seja.
A verdadeira natureza do compromisso num relacionamento de namoro pode ser
vista claramente quando este é contrastado com o compromisso de um relacionamento
conjugal. Ao contrário do relacionamento de namoro, o compromisso e a exclusividade
do casamento são involuntários. Como um legítimo relacionamento homem-mulher
ordenado por Deus, a relação conjugal acarreta certas obrigações e responsabilidades
que são irrevogáveis. Quando um homem se casa com sua noiva, ele abre mão do seu
direito de escolher qualquer outra mulher. Antes do seu casamento, no entanto, ele não
tinha nenhuma obrigação moral de se casar com ela. Uma vez casado, é imposta uma
obrigação moral sobre o homem pelos mandamentos de relacionamento conjugal dados
por Deus. Moralmente, ele tem de amar fielmente a sua esposa. Para o bem ou para o
mal, a sorte está lançada. É um compromisso irrevogável.
Para o nosso mal, tendemos a dar à exclusividade de um relacionamento de
namoro um peso parecido. Mas embora um relacionamento de namoro possa parecer
implicar a exclusividade involuntária do casamento, sua exclusividade de fato não é
nem um pouco diferente da exclusividade de um relacionamento de encontro casual. Ao
contrário do relacionamento conjugal, não há nada no acordo contratual de um
relacionamento de namoro que impeça um homem de romper com sua namorada na
quinta-feira e ver uma mulher diferente na sexta. Apesar de uma aparente exclusividade
do relacionamento de namoro, ambas as partes são livres para sair com quem quiserem,
sempre que quiserem. Assim, a aparente exclusividade involuntária do relacionamento
de namoro é apenas na verdade uma exclusividade voluntária disfarçada. Como uma
casa feita de papel, um relacionamento de namoro tem a aparência de segurança e
estabilidade, mas carece de qualquer verdadeiro meio de alcançá-la.
No fim, o compromisso de um relacionamento de namoro é simplesmente o
compromisso de informar a outra pessoa da própria intenção de terminar o
compromisso antes de realmente fazê-lo. Não tanto um compromisso. À parte do
casamento (ou noivado), não pode haver nenhuma promessa real, nenhuma segurança de
proteção mútua e nenhuma garantia real de permanente confiança; nenhuma das partes
num relacionamento de namoro prometeu qualquer coisa permanente. Uma avaliação de
um casal de Hollywood sobre seu mais novo relacionamento captura bem a ideia; ao
ser inquiridos sobre seu novo relacionamento, eles responderam: “É permanente até
agora”. Inspirador, não?

ESCALADA LIVRE E O PERIGO DA FALSA SEGURANÇA

Nossa intenção em apontar o uso indevido da palavra compromisso nos


relacionamentos de namoro não é simplesmente alcançar uma precisão linguística, mas
destacar o perigo inerente que muitas vezes acompanha tal uso indevido. Muitos
solteiros dependem indevidamente de relacionamentos de namoro como se estes
implicassem alguma medida de segurança real, e se tornam assim suscetíveis a todo
tipo de desgostos quando a natureza temporária do relacionamento se torna evidente.
Quando eu (Gerald) pela primeira vez aprendi a escalar, meu instrutor
cuidadosamente explicou todos os procedimentos de segurança, enfatizando a suprema
importância da corda, que funcionaria como minha segurança se eu caísse. Essa corda
fora cuidadosamente amarrada ao meu arnês ou cinta, e então cuidadosamente amarrada
ao meu instrutor. Saber que a corda estava presente me dava confiança para escalar de
maneiras que de outra forma não o faria. De fato, muitas vezes eu teria caído e me
ferido gravemente se a corda não tivesse me sustentado. Mas embora eu estivesse muito
ciente da corda, e sua presença me desse segurança, não era a corda sozinha na verdade
que me salvara dos ferimentos. Minha verdadeira segurança vinha do fato de a corda
estar amarrada de forma segura a um instrutor que se comprometera a permanecer em
seu posto até que eu chegasse ao chão com segurança. A corda, em si, pouco teria
ajudado sem o compromisso da pessoa que a segurava.
Quão tolo seria um montanhista ter uma sensação de segurança a partir de uma
corda que não estivesse presa de forma segura. Um amigo meu certa vez terminou uma
escalada difícil apenas para descobrir que sua corda estava presa de forma indevida.
Ao ter completado sua última manobra, ele viu horrorizado que os pinos de ancoragem
haviam caído para as rochas abaixo. Apesar de a corda proporcionar um senso de
segurança ao longo de toda a sua escalada, esse senso de segurança não estava baseado
na realidade. Tivesse ele caído durante a sua escalada, ficaria gravemente ferido ou até
mesmo morreria.
Da mesma forma, o assim chamado compromisso do relacionamento de namoro
dá muitas vezes uma ilusão de segurança. Mas esse compromisso é essencialmente
inexistente. A escalada sem ajuda é uma atividade perigosa. E a escalada sem ajuda,
quando você equivocadamente pensa que sua corda de segurança está presa de forma
segura, é ainda mais perigosa. Isso, acreditamos, é essencialmente o que muitos
relacionamentos de namoro são: uma escalada sem ajuda que se disfarça de escalada
com ajuda. Por consequência, os solteiros muitas vezes não estão totalmente cientes do
perigo que enfrentam.

A VULNERABILIDADE EM PARTICULAR DAS MULHERES NOS


RELACIONAMENTOS DE NAMORO

As mulheres em particular são vulneráveis à dor-de-cabeça que resulta de


confiar em uma noção truncada de compromisso. Isso é especialmente verdade quando
se trata de limites sexuais. A maioria das mulheres cristãs não entrará em um
relacionamento físico com um homem a menos que ele se comprometa a ser seu
namorado (embora mesmo esse padrão esteja cada vez mais caindo em esquecimento).
Por causa da percepção de segurança proporcionada por um relacionamento de namoro,
a mulher é inclinada a se dar sexualmente (mesmo quando isso pare logo antes do
intercurso) de maneiras que de outra forma não faria com outros homens por quem
pudesse se sentir atraída. Mas quando entendemos a verdadeira natureza do
compromisso dentro de um relacionamento de namoro, vemos que essa doação de si
mesma é equivocada e baseada num falso senso de segurança. No fim das contas, seu
namorado não estará mais comprometido a ela do que qualquer outro homem que goste
dela.
De muitas formas, um relacionamento de namoro tem tudo a favor do homem e
nada a favor da mulher. A mulher dá a parte mais valiosa de si mesma apenas para
receber uma ilusão de segurança. Sem dúvida muitas das nossas leitoras femininas
podem testemunhar da dor e do sofrimento por se terem entregado a um homem que não
fez nenhuma promessa real. Como observou um conselheiro sobre uma mulher
perturbada que ele estava ajudando: “Ela lida com a dor de um divórcio sem nunca ter
estado casada”. Muito triste. Como pastores, temos ouvido essa música ser tocada
sempre de novo.
Um amigo nosso nos contou dos seus sentimentos pouco antes de terminar um
relacionamento de namoro com sua namorada. “Eu temia fazê-lo”, disse ele. “Sentia
como se estivesse traindo a confiança dela em mim.” E, de fato, é como sua namorada
se sentia quando ele finalmente rompeu com ela. Que ambos reconhecessem a
legitimidade de romper, mesmo ficando com uma sensação de traição (como se uma
relação de confiança estivesse sendo rompida), mostra que estamos confusos sobre a
natureza do compromisso dentro dos relacionamentos de namoro. Nós parecemos estar
inconscientemente falando dos dois lados da nossa boca, usando palavras como
compromisso e confiança, ao mesmo tempo reconhecendo a liberdade de romper esse
compromisso e essa confiança a qualquer momento, por qualquer motivo.
Na superfície, a maioria das mulheres percebe intelectualmente que o
compromisso de um relacionamento de namoro é apenas temporário. Mas começam a
responder emocionalmente como se o relacionamento realmente implicasse alguma
medida de permanência; como se o compromisso de um relacionamento de namoro
estivesse em algum lugar entre o não compromisso da pura amizade e o compromisso
total do casamento. Mas ou um homem está comprometido a uma mulher, ou não está.
Estar temporariamente comprometido não é essencialmente diferente de não estar
comprometido.
Em anos passados, um homem cortejaria uma mulher para ser sua esposa. Mas
em nossos dias, um homem corteja uma mulher para ser sua namorada. Quão
convincente isso pode ser? As mulheres são deixadas na ponta curta da vara, confiando
seu coração a homens que ainda não declararam suas intenções, e na maioria dos casos
sequer sabem no que elas consistem. Em nosso ensino público sobre esse assunto,
frequentemente dizemos às mulheres: “Não entregue seu coração até saber o que ele
planeja fazer com ele (o coração)”. E aos homens dizemos: “Parem de ser
irresponsáveis. Não tentem ganhar o coração de uma mulher a menos que planejem
guardá-lo”. Assim, mulheres, por favor escutem: um homem não tem nada de
permanente para lhes oferecer além de uma proposta de casamento. Não se contentem
com coisas de segunda categoria!

CONFUNDINDO ATRAÇÃO COM COMPROMISSO

Em última análise, cremos que muitos solteiros confundem atração com


compromisso. Que duas pessoas sejam atraídas uma pela outra hoje não significa
essencialmente nada sobre como vão se sentir amanhã. Elas não se prometeram nada
sobre o futuro. Quando as duas partes entenderem claramente essa verdade, serão
capazes de escolher com sabedoria quanto investimento emocional devem fazer no
relacionamento. Mas quando começamos a colocar rótulos num relacionamento, tais
como “namorado” e “namorada”, e a usar palavras como compromisso, corremos o
risco de criar uma sensação de que o relacionamento está construído em cima de algo
real e sólido. Mas tudo que de fato existe é uma atração mútua atual. Uma declaração
de atração não é uma base de segurança. Conhecemos certa vez um rapaz que insistiu
com sua namorada para que eles deixassem de lado os rótulos “namorado” e
“namorada” e reiniciassem seu relacionamento dentro dos limites do relacionamento
com o próximo. Sua namorada, no entanto, não gostou da ideia de ser classificada como
qualquer outra garota. Ela resistiu bastante à ideia e afirmou que isso a faria se sentir
insegura sobre a afeição dele por ela. Mas esse era precisamente o ponto! Ela não tinha
nenhum motivo para se sentir segura nas afeições dele até ele ter feito a proposta. Ele
não fizera nenhuma promessa. Quaisquer sentimentos de segurança que ela tinha no
relacionamento haviam sido construídos sobre uma base de atração de areia em vez de
na base duradoura do compromisso. Ela pensava que sua corda estava seguramente
amarrada a uma âncora. Não estava, e esse jovem estava simplesmente tentando ser
claro sobre isso.

CONCLUSÃO: NÃO SIGNIFICA NADA SEM A ALIANÇA!

Em última análise, não há verdadeira segurança à parte da promessa de


casamento. Muitos solteiros hoje estão entregando seu coração sem perceber a natureza
transitória dos relacionamentos de namoro contemporâneos. Palavras como segurança,
compromisso e promessa não têm verdadeiro lugar nos relacionamentos românticos
fora do casamento. Nenhuma das partes prometeu ser exclusiva para sempre, mas
apenas até quando isso for conveniente para os desejos pessoais dele ou dela. A
natureza insegura dos relacionamentos de namoro não deve ser escondida, pois pode
levar a uma confiança inadequada e a sofrimentos desnecessários.
É por isso que nós desencorajamos fortemente os solteiros de
indiscriminadamente formar relações de namoro sem primeiro pensar com clareza
sobre todas as questões envolvidas. Os relacionamentos de namoro não proporcionam
bases legítimas para a expressão sexual prematura, nem implicam qualquer medida de
segurança real. No fim das contas, a verdadeira questão não é se você tem um
namorado ou uma namorada. A verdadeira questão é se você entende que, a despeito do
rótulo que possa colocar em outra pessoa, nenhum compromisso ou segurança real lhe
dá a liberdade de agir fora das diretrizes do relacionamento com o próximo.
Porque acreditamos que o nosso sistema atual de namoro facilmente cria uma
ilusão de segurança, vamos sugerir no capítulo 7 um método alternativo para encontrar
um cônjuge. Mas antes de fazer isso, é necessário ter uma compreensão sólida do que
Deus espera sobre a pureza romântica entre um homem e uma mulher solteiros. Como
veremos nos próximos capítulos, Deus não só coloca restrições na expressão sexual de
homens e mulheres solteiros, como também na expressão romântica. Tentar manter
esses limites adequados num relacionamento de namoro é, acreditamos, quase
impossível. Tudo que envolve esse tipo de relacionamento tem como foco atiçar a
chama precisamente naquilo que Deus espera que reservemos para o casamento.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

1) É justo dizer que um namorado e uma namorada estão comprometidos um com o


outro?

2) Qual a diferença entre o compromisso num casamento e o compromisso num


relacionamento de namoro?

3) Duas perguntas complementares que podem ajudar a esclarecer o tipo de


compromisso existente nos relacionamentos pré-noivado são:

a) Pode um homem romper de forma legítima com sua namorada e sair com
outra mulher?
b) Pode uma homem casado romper de forma legítima com sua esposa e sair
com outra mulher?

4) Por que pode ser emocionalmente prejudicial usar termos como compromisso
quando se trata de um relacionamento de namoro?

5) É seguro uma mulher se entregar sexualmente a um homem só porque ele se


comprometeu a ser seu namorado?
O CERNE DA QUESTÃO
Entendendo a perspectiva bíblica sobre o desejo sexual

E, de fato, isso já é pecado, o desejar aquelas coisas que a lei de Deus proíbe.
A G O ST I N H O , A C I D A D E D E D E U S

Espero que já esteja ficando claro que nós devemos formular um novo método
de buscar um cônjuge. Mas antes de tentarmos fazer tal formulação, uma palavra
importante ainda precisa ser dita sobre o momento e o contexto mais apropriados para a
liberação do desejo sexual. Pouquíssimos cristãos realmente entendem o ensino da
Escritura sobre esse importante tópico. Como vamos ver neste capítulo, precisamos
voltar ao cerne da questão.
A Escritura diz que o desejo sexual é controlável e não deve ser liberado
indiscriminadamente com qualquer pessoa. Essa verdade está em direto contraste com a
nossa cultura. Como veremos, Deus pede que controlemos não apenas nossa atividade
sexual, mas também nosso desejo sexual, fazendo com que estes aflorem somente no
contexto do casamento. Essa orientação também resulta diretamente do fato de que Deus
criou o relacionamento sexual entre homem e mulher como um tipo do relacionamento
de Cristo com a igreja.

ENTENDENDO A NATUREZA DA LUXÚRIA: UMA CHAVE PARA A PUREZA


EMOCIONAL

Será que o desejo sexual se origina do nosso corpo ou coração? Pode ele ser
controlado — e caso sim, de que forma? O desejo sexual é diferente da luxúria? Se o
desejo sexual é bom porque é de Deus, quando é que ele se torna luxúria?
Quando entendemos de forma correta as características da luxúria bem como a
maneira de controlá-la, passamos a ter um fundamento adequado sobre o qual
desenvolver uma vida de pureza sexual. Em última análise, precisamos entender que,
antes de ser mental ou físico, o desejo sexual é emocional, e que os pecados do coração
podem ser tão destrutivos para a imagem de Deus quanto os pecados da carne.
Mateus 5.28: “No seu coração”

Para começarmos a explorar essa questão, analisemos primeiro Mateus 5.27-28.


Essa passagem fornecerá a base para tudo o que vamos dizer neste capítulo sobre
luxúria e desejo sexual.

Vocês ouviram o que foi dito: “Não adulterarás”. Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para
uma mulher para desejá-la,[16] já cometeu adultério com ela no seu coração. (NVI)

A palavra grega traduzida nessa passagem como “desejá-la” é epithumeō, sendo


amiúde traduzida em nossas Bíblias como “desejar”, no sentido positivo, ou “luxuriar”
ou “cobiçar”, no sentido negativo. A mesma palavra grega pode transmitir ambos os
significados. Considere estes exemplos de como os autores bíblicos usaram a mesma
palavra num contexto positivo:

Pois em verdade vos digo que muitos profetas e justos desejaram[17] [epithumeō] ver o
que vedes, e não viram; e ouvir o que ouvis, e não ouviram. (Mt 13.17)

E lhes disse: Tenho desejado [epithumeō] muito comer esta Páscoa convosco, antes do
meu sofrimento. (Lc 22.15)

A neutralidade do desejo

Nessas duas passagens epithumeō é traduzido num sentido positivo, inclusive


em referência a Cristo e aos profetas. Assim, a mesma palavra bíblica é usada para
descrever o anseio santo que Cristo e os profetas tinham pelas coisas de Deus e o
anseio pecaminoso que um homem pode ter por uma mulher que não é sua esposa. Qual
é o ponto? Simplesmente este: pela perspectiva bíblica o desejo em si é amoral. Ele
não é nem certo, nem errado. É como disparar uma arma — tudo depende contra o que
você está disparando. Leia novamente a nossa primeira passagem. Ela poderia ser
facilmente traduzida como “Eu lhes digo que qualquer que olhar para uma mulher com
desejo por ela já cometeu adultério com ela no seu coração”. Assim, quando Cristo nos
instrui a não olharmos para outra mulher “luxuriosamente”, está simplesmente dizendo
para não “desejarmos sexualmente” outra mulher.[18] Ele está essencialmente
afirmando a lei veterotestamentária “Não cobiçarás[19] [epithumeō] a mulher do teu
próximo” (Dt 5.21).
O desejo sexual legítimo e o ilegítimo podem ser sentidos da mesma forma. A
intensa excitação sexual que um homem sente por sua esposa pode ser pouco diferente
da excitação sexual que um homem sente por sua amante. Embora haja pouca diferença
nos sentimentos sexuais em si, no primeiro caso os desejos dele são puros, e no
segundo, pecaminosos. Não é errado desejar um relacionamento sexual com a esposa
ou desejar um relacionamento sexual de modo geral. Ambos os desejos têm objetos
legítimos como sua meta. Mas quando direcionamos nosso desejo sexual para alguém
que não é nosso cônjuge, movemo-nos para o pecado, pois agora desejamos algo que
não nos é devido possuir.
Suponha que seu vizinho (“próximo”) chegue em casa com um tapete da China
único, feito a mão, e o convide para vê-lo. Esse tapete poderia atiçar em você tanto um
desejo legítimo como um ilegítimo. Se ao olhar esse tapete você se enche de um desejo
invejoso por ele (afinal, seu vizinho não o merece tanto quanto você), seu desejo é
pecaminoso, pois o tapete é para ser possuído pelo vizinho, não por você. Mas se ao
ver o tapete você está feliz pelo vizinho e é movido por um desejo de sair e comprar
seu próprio tapete único, seu desejo é puro. É isso o que a lei queria dizer quando os
israelitas foram instruídos a não cobiçar (epithumeō, ou “desejar”) a esposa, os servos,
burros ou bois do próximo. Não era errado eles desejarem seus próprios burros ou
servos. Mas quando invejosamente desejavam possuir o que alguém outro
adequadamente já reivindicara ser seu, eles pecavam.

O objeto apropriado de desejo

Veja novamente Mateus 5.27-28. Um princípio importante pode ser colhido das
palavras de Cristo. Embora tenhamos muitas vezes a tendência de definir pecado como
um ato do corpo, Cristo revela que o próprio desejo de cometer um pecado é em si
pecado. Não basta que nossas ações se alinhem com a Palavra de Deus. Nosso coração
também deve fazê-lo. Só porque não batemos realmente em nosso irmão quando
desejamos muito fazê-lo, não significa que estamos livres do pecado. O homem que se
refreia do assassinato, mas de coração odeia seu irmão, é culpado de assassinato (Mt
5.21-22). Da mesma forma, o homem que deseja cometer adultério, mas se refreia,
ainda é culpado de adultério em seu coração. Claro, é melhor se refrear de um desejo
pecaminoso do que se entregar a ele; mas ainda melhor é não desejar pecar. Esta, então,
é a soma total do sermão de Cristo e a forma como ele define a verdadeira justiça: nós
devemos não somente escolher o que é certo, mas também desejar o que é certo.
Significativamente, devemos entender que Cristo não direcionou seus
comentários sobre luxúria apenas aos homens e mulheres casados. O homem que olha
com luxúria para uma mulher que não é sua esposa deseja algo que não é do seu direito
possuir. Como ela não é sua esposa, não tem o direito de usá-la como um meio de
despertar suas paixões sexuais. Assim como é errado um homem se envolver em
atividade sexual com uma mulher que não é sua esposa, é errado desejar se envolver
em atividade sexual com essa mulher.
A proibição contra a luxúria não é para o bem do cônjuge, mas da própria
pureza sexual, em que remete à imagem de Deus, especificamente a Cristo e à igreja.
Quando direcionamos nosso desejo sexual para alguém outro que não nosso cônjuge
(quer estejamos casados, quer não), usamos nossa sexualidade de uma forma que é
inconsistente com a devoção e o compromisso sinceros de Cristo para com sua igreja.
A única situação em que nos é permitido despertar nosso desejo sexual por outra
pessoa é quando essa pessoa é nosso marido ou esposa.

Luxúria no coração, não na mente

No entendimento da visão bíblica sobre a luxúria, devemos também estar


cientes da sua localização. Demasiadas vezes confundimos onde exatamente ocorre a
luxúria. Veja novamente as palavras de Cristo em Mateus 5.28 e note a localização da
luxúria: “[…] qualquer que olhar para uma mulher para desejá-la, já cometeu adultério
com ela no seu coração” (NVI).
A luxúria não ocorre na mente, mas no coração. Isso faz sentido, claro, quando
entendemos que luxúria é apenas outra palavra para desejo. Muitas pessoas têm a falsa
ideia de que a luxúria envolve algum tipo de fantasia sexual ou exercício da mente. Mas
segundo Cristo, a luxúria tem lugar no coração, não na mente, e uma pessoa pode
cometer luxúria sem colocar a fantasia sexual em prática.
O ímpeto indiscriminado de excitação e desejo sexual que sentimos por um
indivíduo do sexo oposto é precisamente aquilo a que Cristo está se referindo. Essa
verdade é muito convincente. Até mesmo os não regenerados podem controlar seus
pensamentos. Isso não requer o poder do Espírito Santo mais que se abster do adultério.
Mas só um cristão pode ter um coração governado por Deus que só deseja o que deve
desejar. Sejamos muito claros sobre o que Cristo está dizendo. Só porque uma pessoa
não se deixa afundar em fantasias sexuais com o sexo oposto não significa, de forma
alguma, que ela está livre do pecado da luxúria. Cometer luxúria é simplesmente
desejar sexualmente alguém que não deve ser desejado. Sempre que alguém que não é
nosso cônjuge desperta em nós um desejo sexual, caímos no pecado da luxúria.

O DESEJO SEXUAL PODE SER CONTROLADO?

Muitos comentaristas tentam suavizar a força de Mateus 5.27-28 alegando que é


nossa intenção de olhar (isto é, olhar para uma mulher com a intenção de despertar o
desejo sexual), e não nosso desejo em si, que Cristo está condenando. Logo, afirmam
eles, Cristo não está neste contexto condenando o desejo sexual inadvertido, que
desperta espontaneamente ao vermos alguém atraente do sexo oposto.
Essa interpretação, no nosso entender, não é exigida pelo texto grego subjacente
nem está em consonância com o espírito da passagem.[20] Esses comentaristas parecem
implicar que se não estamos olhando outra pessoa com a intenção de luxúria, isso não
conta como luxúria, mesmo se acabarmos cometendo luxúria. Mas todo o ponto de
Cristo no Sermão da Montanha (do qual este mandamento faz parte) era que o nosso
desejo de cometer pecado (no caso, desejar um relacionamento sexual com alguém que
não é nosso cônjuge), e não apenas o desejo colocado em prática, constitui pecado.
Raiva, ódio e condenação — assim como o desejo sexual — também parecem
brotar espontaneamente, em particular quando somos subitamente confrontados com
circunstâncias difíceis. Contudo, em nenhum lugar no Sermão da Montanha Cristo exime
essas reações emocionais só porque não são premeditadas ou requeridas. Antes, ele as
condena (Mt 5.22). As respostas emocionais espontâneas não são moralmente neutras;
elas revelam a condição do nosso coração. Quando espontaneamente respondemos com
raiva ao motorista rude, em condenação a um crente que caiu ou com luxúria por uma
mulher atraente, revelamos que a agenda do nosso coração não está alinhada com Deus,
tal como deveria.
Não nos enganemos. Se espontaneamente desejamos alguém do sexo oposto,
entramos no domínio da luxúria, ainda que não continuemos a nutrir esse desejo ou
seguir com ele. Nós estamos, nesse momento, desejando o que é ilegítimo. É melhor
superar a luxúria do que se entregar a ela, mas ainda melhor é não cometer luxúria de
forma alguma.
As interpretações mais liberais de Mateus 5.27-28 estão em sintonia com uma
era que cada vez mais vê o desejo sexual como um apetite do corpo, tão incontrolável
quanto a fome e a sede. Mesmo nós, cristãos, temos cometido esse equívoco. Não
devemos definir excitação sexual como um ato estritamente do corpo; ela é uma paixão
do coração. É verdade que nenhuma quantidade de ordens da nossa vontade pode fazer
o nosso corpo cessar de sentir fome, sede ou dor. Mas o desejo sexual é mais do que
apenas um apetite corporal. O fato de se dizer que nós devemos controlá-lo é um claro
indicativo de que nós podemos de fato controlá-lo (veja Cantares 2.7). Se tal não fosse
o caso, o mandamento de Cristo seria essencialmente sem sentido.

QUEM CONTROLA O DESEJO?

Nosso desejo sexual é o lugar em que nosso corpo e nossa alma se unem. Tal
desejo é sentido tanto na parte material como imaterial de quem somos. Mas embora o
desejo sexual seja sentido no corpo, seu centro de comando está na nossa vontade, na
nossa pessoa. Nós, não nosso corpo, estamos no controle do desejo sexual. Quando
falamos de controle do desejo, não queremos simplesmente dizer uma pessoa não agir
de acordo com os seus desejos, mas ela realmente escolher aquilo que deseja. Porém,
temo que muitos de nós cristãos tenhamos nos esquecido dessa verdade fundamental.
Nós prontamente afirmamos que uma pessoa pode controlar sua atividade sexual, mas
nem sempre afirmamos que ela pode controlar seu desejo sexual.
A autora Dannah Gresh, por exemplo, embora forneça muitas percepções úteis
na área da pureza sexual, defende erroneamente que a excitação sexual é resultado de
uma reação química no corpo e, portanto, é incontrolável. Afirma ela:

Muitas das respostas do nosso corpo são ativadas pelo Sistema Nervoso Autônomo
(SNA). Esse sistema não é controlado pela vontade, mas pelo ambiente. Você já sofreu
um acidente de carro de pequena avaria? Lembra aquela sensação de mal-estar no
estômago e pulso rápido? Você se sentiu fisicamente diferente por causa da mudança
ambiental. Você não pode controlar essas reações por opção. O SNA obriga o organismo
a responder ao ambiente.

A excitação sexual funciona da mesma forma. As coisas no ambiente — o que vemos,


ouvimos e sentimos — criam uma resposta sexual. Isso é particularmente forte no homem,
visto que Deus o criou para ser estimulado visualmente. Se ele vê uma mulher usando
roupas sensuais, o que acontece com o corpo dele? Ele pode notar a mudança no pulso, a
elevação na temperatura corporal e o sangue começando a ser bombeado rapidamente
pelo corpo… Embora o homem possa escolher como responder a essa excitação, não pode
controlar sua ocorrência.[21]

A partir da experiência pessoal, nós podemos falar que essa visão simplesmente
não é precisa. Embora Gresh esteja correta sobre os fatores biológicos da excitação
sexual, ela os fundamenta incorretamente. Ao contrário da conclusão de Gresh, o
Sistema Nervoso Autônomo (SNA) não é controlado pelo nosso ambiente, mas por
nossa percepção do efeito do ambiente sobre o nosso bem-estar. A diferença é
significativa. Num acidente de carro de pequena avaria não é o acidente em si que faz o
SNA responder, mas sim, nosso SNA responde à percepção de que o acidente iminente
pode ameaçar potencialmente nossa integridade. Quando percebemos que a situação
que estamos enfrentando é perigosa, nosso corpo responde em conformidade com isso.
Consideremos um exemplo. Suponha que você esteja num veículo sendo
conduzido por um dublê de piloto profissional. Você se agarra à vida enquanto o carro
passa cambaleando por uma pista de corrida sinuosa a velocidades que você sequer
imaginaria possíveis. Como passageiro de primeira viagem, você não está convencido
da habilidade do motorista de evitar uma colisão, e assim sua percepção do evento
como sendo perigoso à sua integridade faz seu SNA despejar adrenalina no seu sistema.
Seu pulso acelera, sua respiração se torna mais rápida, seu estômago embrulha. Mas o
piloto dublê, por outro lado, já correu tantas vezes por essa pista que poderia fazê-lo
até dormindo. Muito diferente de nós, sua percepção do mesmo ambiente tem um efeito
muito diferente sobre o seu SNA. Seu corpo não responde com a mesma descarga de
adrenalina, pois não percebe o ambiente como uma ameaça ao seu bem-estar.
Se de maneira segura você fosse andar muito mais vezes nesse mesmo circuito
com o piloto dublê, seu SNA responderia de uma forma bastante diferente, pois você
não perceberia mais a corrida como uma ameaça à sua integridade. Assim, mais uma
vez, não é o ambiente (um passeio violento de carro) que estimulou o nosso SNA, mas
sim nossa percepção dos efeitos do ambiente sobre o nosso bem-estar.
Em última análise, nosso SNA é acionado com base nas convicções que
mantemos acerca de tudo na vida. Porque cremos firmemente que armas de fogo,
acidentes de carro, doenças terminais e cachorros rosnando são prejudiciais ao nosso
bem-estar é que o nosso SNA responde quando recebemos esses estímulos.
Nosso corpo não responde automaticamente apenas à percepção de ambientes
negativos, mas também de ambientes positivos. Isso é visto na resposta do corpo a
estímulos sexuais. Mas não é o ambiente (homens ou mulheres seminus, pôsteres
sensuais, etc.) que aciona o nosso SNA, e sim nossa percepção de que o objeto é
extremamente benéfico ao nosso bem-estar.
Que a excitação sexual é desencadeada pela nossa percepção de um objeto e
não pelo objeto em si é visto no declínio do desejo sexual quando um relacionamento
sexual azeda. Ao ver sua amante pela primeira vez, um homem casado fica
extremamente excitado. Erradamente ele a enxerga como a melhor coisa para o seu
bem-estar. Só de pensar nela seu pulso acelera e seu corpo responde em excitação
sexual. Mas à medida que o relacionamento segue adiante, ele descobre que a amante
não é como ele imaginava. Em pouco tempo ela o estará chantageando, ameaçando
tornar o relacionamento deles conhecido, a menos que ele lhe pague alguma coisa.
Agora, subitamente, esse homem não enxerga mais a mulher como benéfica ao seu bem-
estar. Só de pensar nela (sem falar em vê-la) ele já fica com dor de estômago. Ele
sequer pode se imaginar atraído sexualmente por ela. Ele a odeia com toda a força.
Em tal caso, o mesmo estímulo tem dois efeitos muito diferentes no homem com
base na percepção de como ele afetará seu bem-estar. Essa transição de desejo sexual
para ódio também é ilustrada na Bíblia. O filho de Davi, Amnom, seguiu um caminho
quase idêntico quando seu desejo sexual por sua meia-irmã Tamar se transformou em
forte aversão por ela (veja 2Sm 13.1-17). Assim, no domínio da excitação sexual, não é
o ambiente, mas sim a percepção do benefício do ambiente para o nosso bem-estar que
estimula o nosso SNA.

SATISFAÇÃO SEXUAL E A PAZ DE DEUS


Agostinho ensina que o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em
Deus. Nosso SNA é disparado tão prontamente pelo sexo oposto porque nada mais na
vida parece saciar tão naturalmente o profundo senso de inquietação que se esconde no
coração humano. Como criaturas feitas à imagem de Deus, nada chega mais perto de
uma genuína experiência de Deus plenamente satisfatória do que um relacionamento
íntimo com alguém também feito à imagem dele. É essa mesma ideia que já levou uma
pessoa a dizer que um homem que bate à porta de um bordel é um homem à procura de
Deus. Nada chega mais perto de satisfazer nossa necessidade incansável de uma união
espiritual com Deus que a união física do relacionamento sexual.
Quando ignoramos que a verdadeira satisfação só pode ser encontrada em Deus,
frequentemente pulamos de um relacionamento sexual romântico para outro, assumindo
incorretamente que a falta de satisfação e excitação sexual que sentimos no
relacionamento atual será suprida no próximo. A cada nova relação, assim, partimos da
promessa de uma satisfação definitiva, e o SNA responde em conformidade com isso.
Mas à medida que o novo relacionamento segue adiante, a promessa de realização
profunda não é cumprida, e assim não o vemos mais como benéfico para o nosso bem-
estar. Então nosso SNA não desencadeia a excitação sexual com a mesma intensidade.
Em cada caso, o estímulo (o relacionamento sexual) não mudou; o que mudou foi nossa
percepção da capacidade de o relacionamento atender às nossas necessidades mais
profundas.[22]

CRENDO NA VERDADE SOBRE A IMORALIDADE SEXUAL

Quando estamos firmemente convencidos de que a imoralidade sexual é


prejudicial ao nosso bem-estar, ela perde seu controle sobre nós e não desperta dentro
de nós o desejo sexual. Embora sejamos pessoas caídas para quem uma convicção
como essa vem com grande dificuldade, ela pode de fato vir. Tal convicção requer
bastante fé, mas cresce à medida que abraçamos a realidade invisível de Cristo acima e
além daquilo que parece ser tão imediatamente satisfatório. Pela fé, devemos agarrar
firmemente, e com profunda convicção, as verdades de Deus.
Nós realmente cremos que o caminho da mulher adúltera leva à morte (Pv 7.10,
27), que Deus julgará o sexualmente imoral que não se arrepende (Hb 13.4; Ap 21.8) e
que nenhuma satisfação sexual existe além de viver à imagem da união de Cristo com a
sua esposa? Nosso SNA será o indicador.
Ainda assim, nunca ficaremos convencidos da verdade de Cristo enquanto não
estivermos profundamente unidos à sua pessoa. Devemos conhecer o próprio Cristo —
seu coração, seu caráter — antes que possamos ter fé em seus mandamentos. Não basta
apenas acreditar que os caminhos de Cristo são os melhores; também devemos saber
que seus caminhos são os melhores. Esse conhecimento só vem pela nossa experiência
pessoal com o próprio Cristo. E essa experiência vem da nossa profunda união
espiritual com ele através do Espírito Santo.
Em última análise, à medida que participamos da realidade invisível de Cristo,
experimentando sua própria presença em nossa vida dia após dia, crescemos em nossa
convicção de que as afirmações de Cristo são de fato verdadeiras, que seus caminhos
são de fato os melhores e que nada pode trazer satisfação à parte dele.
Cremos nós que é possível um homem ver uma mulher bonita, talvez vestida
inapropriadamente, talvez até mesmo tentando seduzi-lo, e ainda assim não desejá-la
em seu coração ou ficar sexualmente excitado por ela? Será que somos meras vítimas
das nossas circunstâncias, precisando nos esconder do mundo para não encontrar nada
que nos force à luxúria? Devemos estar firmemente convencidos de que é, de fato,
possível controlar e aproveitar nossos desejos, não meramente nossas ações. A bem da
verdade, o desejo sexual não é controlado da mesma forma que controlamos nossos
braços e pernas; é necessário mais que uma mera decisão da vontade. Mas nós
podemos controlar o desejo sexual indiretamente por meio do que acreditamos sobre a
realidade de Cristo, a imoralidade sexual e a verdade de Deus. À medida que nos
tornarmos absolutamente convencidos em nosso coração e nossa alma de que os
caminhos de Deus são de fato os melhores, dominaremos nosso desejo sexual.
Nosso corpo responde apenas de acordo com as nossas convicções, e a forma
como espontaneamente reagimos às circunstâncias da vida revelará em que
acreditamos. Assim como é possível se tornar espontaneamente um motorista mais
paciente e instintivamente um crente mais gracioso em Cristo, é possível se tornar
reflexivamente mais puro em nossos encontros casuais com o sexo oposto. Com a
crença central de que em última análise o desejo sexual está sob nosso controle, nós
podemos começar a desenvolver uma vida de pureza interior.

CONCLUSÃO

É importante entender o que torna pecaminoso o desejo. Luxúria (isto é, desejo


pecaminoso) é “desejar algo que não nos cabe possuir”. Isso tem uma aplicação
significativa nos aspectos sexual e romântico da nossa sexualidade. Toda vez que
desejarmos algo que não nos cabe possuir, estaremos pecando. No próximo capítulo,
vamos ver que Deus nos instrui a controlar nosso desejo romântico até que ele possa
ser adequadamente expresso dentro do contexto do casamento.
Embora possa estar de pleno acordo até aqui, você pode estar se perguntando
sobre a praticidade dessa perspectiva quando se trata de buscar um cônjuge. “Não
deveria eu desejar de fato alguém do sexo oposto?” “Como posso ir atrás de um
cônjuge?” Boas perguntas! Mas em vez de respondê-las agora, vamos guardá-las para o
próximo capítulo.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

Leia Mateus 5.27-28.

1) O que faz com que alguns desejos sejam pecaminosos e outros, puros?
2) Quão confiante você está de que pode controlar não só sua atividade sexual, mas
também seu desejo sexual?
3) Pense numa época de sua vida em que sua resposta emocional, visceral, para um
ambiente mudou, mesmo que o ambiente em si não tenha mudado. Como isso se
relaciona com a excitação sexual?
4) Quando um desejo por um homem ou uma mulher é pecaminoso?

5) Quando um desejo por um homem ou uma mulher não é pecaminoso?


SE APAIXONANDO APENAS UMA
VEZ
A necessidade de guardar seu coração

Não despertem nem provoquem o amor enquanto ele não o quiser.


A N O I VA D E SA L O M Ã O ( C A N T A R E S 2 . 7 ; 3 . 5 , N VI )

Nos capítulos precedentes, discutimos o padrão de Deus para a pureza sexual


(para desespero dos homens, sem dúvida). Neste, vamos explorar a sabedoria de Deus
para se manter a integridade emocional e romântica (para desespero das mulheres, mais
provavelmente). Senhoritas, se parece que somos apenas uns maridos de longa data
rabugentos procurando afundar o próximo encontro de vocês com o Sr. Certinho, nos
concedam uma atenção e aguardem até chegarmos ao próximo capítulo. Nós temos os
melhores interesses de vocês em mente, isso podemos garantir. Fazer escolhas sábias
sobre como e quando entregar seu coração — ou como e quando conquistar o coração
de alguém outro —, não só lhe capacita a usar sua sexualidade de um modo que honre a
Deus, como também lhe concede a liberdade e a segurança que procedem de viver o
ideal de Deus.
Como veremos, a Escritura ensina que nós devemos guardar o nosso coração,
não despertar o amor romântico em nós mesmos ou em outra pessoa até que esse amor
possa achar uma consumação legítima dentro do relacionamento conjugal. Há um tempo
para despertar paixões românticas e um tempo para moderá-las. Saber a diferença entre
ambos é essencial para se fazer escolhas sábias e piedosas em matéria de
relacionamentos. Neste capítulo, vamos discutir as ocasiões mais adequadas para
moderar as paixões românticas, e no próximo, discutiremos qual é o contexto mais
adequado para trazer rosas e chocolate.

AS LIÇÕES DA NOIVA DE SALOMÃO

O livro Cantares de Salomão do Antigo Testamento é uma espécie de diário


romântico, detalhando o namoro entre o rei Salomão e sua noiva. É uma declaração
clara sobre a beleza e o valor do amor romântico. Nesse livro breve e sensual, os dois
amantes exaltam abertamente a glória de seu relacionamento sexual, romântico. Embora
muito do imaginário no livro seja estranho para o leitor moderno, nós somos de
imediato capazes de discernir importantes verdades sobre o momento e o contexto mais
adequados para a liberação do desejo romântico.
Os versículos de abertura do segundo capítulo são particularmente úteis. Note a
linguagem apaixonada com que a noiva de Salomão descreve seu desejo pelo marido:

Como uma macieira entre as árvores da floresta


é o meu amado entre os jovens.
Tenho prazer em sentar-me à sua sombra;
o seu fruto é doce ao meu paladar.
Ele me levou ao salão de banquetes,
e o seu estandarte sobre mim é o amor.
Por favor, sustentem-me com passas,
revigorem-me com maçãs
pois estou doente de amor.
O seu braço esquerdo esteja debaixo da minha cabeça,
e o seu braço direito me abrace.
Mulheres de Jerusalém, eu as faço jurar
pelas gazelas e pelas corças do campo:
não despertem nem provoquem o amor
enquanto ele não o quiser. (Cantares 2.3-7, NVI)

O contexto da passagem se foca na noiva e na consumação de seu


relacionamento com Salomão. Aparentemente sendo a véspera do casamento, ela se
descreve como “doente de amor” a ponto de precisar ser revigorada com comida. Ela
está claramente desfalecendo e se deleitando com isso. Mas note a cobrança que a
noiva de Salomão faz às jovens donzelas que lhe assistem: “Não despertem nem
provoquem o amor”, diz, “enquanto ele não o quiser”.
Temendo que a excitação da sua paixão também despertasse o sentimento de
paixão nas jovens mulheres que lhe assistiam, a noiva de Salomão as exorta a não
despertarem ou provocarem paixões românticas enquanto “ele não o quiser”. A frase é
impressionante. A noiva de Salomão não está meramente dizendo “Não despertem nem
provoquem o amor enquanto vocês não o quiserem”. Não. A abstenção dessa cobrança
será quando o amor, e não a pessoa, o desejar. O amor é personificado nessa passagem
como o guardião e detentor de si próprio. Ele não quer ser despertado antes da ocasião
para a qual foi criado. No caso da noiva de Salomão, o amor deu obviamente
permissão para ser despertado, porque a noiva chegara a um momento na vida em que o
amor romântico e sexual poderia ser adequadamente consumado. As donzelas, no
entanto, não estavam numa circunstância da vida em que as núpcias estavam iminentes.
Consequentemente elas são informadas a evitar de despertar o amor romântico. As
implicações são claras: o amor romântico só deve ser despertado dentro do contexto de
um relacionamento conjugal (ou relacionamento conjugal pendente).
Vale a pena observar que em nenhum lugar aqui somos orientados a suprimir ou
negar os nossos desejos por sexo e romance dados por Deus. Antes, somos instruídos a
nos abster de excitar essas paixões. A imagem é muito parecida com a de atiçar fogo em
carvões que já estão em brasas. Já há no carvão o potencial para um incêndio violento,
bastando que se dê o gatilho adequado. E em se tratando de desejos românticos sexuais
pré-maritais, isso é precisamente o que nós não devemos fazer.
E, claro, isso faz bastante sentido quando consideramos mais uma vez a natureza
tênue dos relacionamentos pré-noivados. Como já observamos no capítulo 4, não pode
haver um compromisso verdadeiro à parte de uma proposta de casamento. Assim,
despertar nossas paixões românticas sexuais dentro de um relacionamento que não
tenciona expressamente se mover para um casamento é um desvio. É como gastar todos
os finais de semana numa concessionária sem ter dinheiro algum. E ter apenas doze
anos. O ponto é muito simples: você não deve se comprometer romântica ou
sexualmente a um relacionamento que não esteja explicitamente se movendo para um
casamento. Isso não apenas seria emocionalmente tolo, como também moralmente
irresponsável.

UMA FIXAÇÃO ERRADA EM DESEJOS CORRETOS

Em cada área da vida há uma necessidade de regularmos os nossos desejos.


Fantasias e devaneios podem trazer-nos problemas. O homem que se fixa em posses
materiais com as quais não pode arcar se coloca num estado de insatisfação e/ou com o
limite de seu cartão de crédito “estourado”. A mulher com sobrepeso que deseja perder
peso, mas passa os dias assistindo a um canal de culinária, não está tornando a sua vida
mais fácil. O gozo pelo alimento e por bens materiais é algo bom, até certo ponto. Mas
muito de algo bom, ou algo bom no momento errado, se torna algo ruim. O mesmo vale
para as nossas paixões românticas. O desejo romântico foi designado por Deus para
nos impelir ao desejo sexual, e o desejo sexual foi designado para nos impelir à
atividade sexual. Uma fixação excessiva sobre o desejo romântico desvinculado do
contexto em que tal desejo pode ser adequadamente expresso frequentemente levará a
escolhas erradas. O homem que busca desenvolver a castidade, mas tem romance com
cada mulher com que se envolve, está em contradição consigo mesmo.
A atenção romântica é na sua essência um convite para se mover para um nível
mais profundo de intimidade. E não pode haver dúvida de que a atenção romântica —
por sua própria natureza — busca a intimidade sexual. Talvez você nunca tenha pensado
nisso dessa forma, mas é verdade. Quando um homem tem romance com uma mulher,
está buscando acesso a essa parte específica que ela tem reservado exclusivamente a
quem ama. Quando ele lhe traz flores, chocolate e joias e diz o quanto ela é bonita, não
está apenas buscando amizade com ela. O fim natural (e adequado) do romance é a
cama.
Ora, nós não temos nenhum problema com um homem que namore uma mulher
com vistas à intimidade sexual (como você verá no próximo capítulo). Mas temos
problema com um homem que namore uma mulher fora do contexto em que a intimidade
sexual pode ser devidamente manifestada. Nossas paixões sexuais já são
suficientemente difíceis de controlar quando não são atiçadas. Por que tornar a vida
mais difícil do que ela já é? O romance é algo maravilhoso quando situado dentro do
contexto conjugal. Mas quando desconectada da trajetória do casamento, uma
preocupação excessiva com o namoro tem a tendência de nos levar a caminhos que
ainda não estamos prontos para trilhar.
Essa verdade tem implicações óbvias sobre a forma como conduzimos um
relacionamento pré-noivado. Vamos analisar esse ponto mais detalhadamente no
próximo capítulo, mas dificilmente podemos deixar de constatar que os
relacionamentos de namoro contemporâneos não nos ajudam a guardar o coração. A
maioria dos namoros são — se nada mais que isso — ocasiões explícitas para a
intimidade romântica. Essa preocupação com o romance empurra sutilmente (e amiúde
não sutilmente) o relacionamento na direção sexual. O resultado final é, muitas vezes,
uma profunda dor emocional tanto para o homem como para a mulher.

MACHUCADO, MAS NÃO PARTIDO

Um amor não correspondido pode ser uma parte inevitável da vida, mas um
coração machucado é melhor do que um coração partido. Os relacionamentos de
namoro se tornam inapropriados quando servem de contexto para um homem e uma
mulher atiçarem intencionalmente a intimidade romântica e sexual um no outro. Sobre
que fundamento tem um homem ou uma mulher o direito de atiçar paixões no outro que
não pode de forma legítima satisfazer? Assim, muitas relações de namoro são pouco
mais que um envolvimento romântico em que um homem convida uma mulher a dar seu
coração (e muitas vezes seu corpo) sem ter, em momento algum, firmado qualquer
compromisso real com ela e não ter nenhuma ideia real de seus planos de longo prazo
para o relacionamento.
Claro, somos realistas aqui. Nós também já fomos jovens e estivemos
apaixonados uma vez. Não é que a pessoa deveria tentar reprimir seus sentimentos
românticos, ou que ser atraído por um membro do sexo oposto é errado. A cobrança
feita pela noiva de Salomão é que deliberadamente busquemos evitar, fora do
relacionamento conjugal, de fazer coisas que são explicitamente designadas a atiçar e
despertar o desejo sexual. É natural se sentir atraído por uma pessoa que você vê como
um(a) parceiro(a) em potencial. Isso é muito bom. Você deve fazê-lo. Mas sentir uma
atração e “abanar” essa atração até às chamas são duas coisas diferentes.
Jackie e Mike começaram a se conhecer pra valer nos últimos quatro meses.
Jackie é divorciada (seu marido teve um caso e a deixou, a despeito das tentativas dela
de reconciliação) e Mike teve um passado “antes de Cristo” marcado por más escolhas
em matéria de relacionamentos. Ambos cresceram muito nos últimos anos, e ambos
estão interessados em casamento. Mas Jackie e Mike estão indo com calma. Mais do
que tudo, eles querem descobrir sobre o outro o que realmente importa — o caráter, as
prioridades da vida, o amor pelo Senhor. Esses são os tipos de coisas que fazem um
casamento durar. Mike não traz rosas para Jackie. Não a leva para jantares caros. Não
lhe compra joias ou elogia sua aparência de uma forma sexualmente peculiar. Não
segura a mão dela e olha em seus olhos para lhe dizer o quanto é bonita. Eles são um
casal de amigos que estão se conhecendo. Claro, esse é um tipo especial de amizade:
ambos sabem que o casamento é uma possibilidade. Mas Mike não decidiu se Jackie é
a pessoa certa, e Jackie ainda não se decidiu sobre Mike, de forma que nem um, nem
outro, quer se precipitar na relação.
Só Deus sabe o que o futuro reserva para Mike e Jackie. E indubitavelmente, se
um deles redirecionar a amizade para que não tenha mais em vista o casamento, para
decepção do outro, haverá certamente alguma dor emocional. Mas a dor será
substancialmente menor do que se tivesse sido um namoro contemporâneo. Como
expressou Jackie, “Não importa o que aconteça, nós não teremos feito nada de que nos
arrepender. Se ele se casar com outra mulher, serei capaz de olhar Mike e sua esposa
nos olhos sem sentir vergonha”.
Ao contrário da opinião popular, corações partidos não precisam ser um
elemento padrão nas relações pré-conjugais. A bem da verdade, nenhum relacionamento
pode ser totalmente livre de dor de cabeça. Mas, certamente, é menos doloroso se
livrar emocionalmente de um relacionamento que se manteve essencialmente platônico
que de um relacionamento que foi profundamente romântico.

CONCLUSÃO

A necessidade de uma responsabilidade romântica remete à imagem de Cristo e


a igreja. Cortejar romanticamente uma mulher ou entregar seu coração a um homem
antes de um compromisso matrimonial é pintar um retrato confuso de Cristo e a igreja.
Desde os primórdios, Cristo reservou seus desejos e sentimentos mais profundos para a
igreja, antes sequer de conhecê-la. E desde os primeiros dias da criação, os santos têm
aguardado com anseio monogâmico a vinda do Prometido. Essa imagem deve ser
expressa dentro de nossa própria espera pelo casamento. Cristo foi fiel de corpo e alma
a uma noiva que ele ainda não tinha conhecido. Ele reservou seus sentimentos mais
profundos para aquela que Deus lhe daria, e nós somos assim também chamados a ter
essa mesma fidelidade.
Em última análise, portanto, não devemos atiçar um amor romântico e sexual em
nosso coração (ou no de outra pessoa) fora do contexto de um relacionamento conjugal.
Devemos nos refrear de fazer coisas — seja em termos relacionais, ou não — que
despertem um amor romântico em nosso coração antes de sermos capazes de consumar
adequadamente esse amor num relacionamento conjugal.
Mas, você pode se perguntar: é sempre certo atiçar as brasas do romance e da
paixão? Na verdade, é. E é disso que trata o próximo capítulo.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

1) De acordo com o Livro de Cantares 2.3-7, qual é o momento mais adequado de


atiçar e despertar nosso desejo por alguém?
2) Quais são as formas pelas quais nós podemos atiçar ou despertar inapropriadamente
o amor?
3) Por que Deus nos ordena a não atiçar nossas paixões românticas e sexuais até que
estejamos casados?
AMIZADES ESPECIAIS[23]
Mudando de categorias sem criar novas

A vontade de Deus para vós é esta: a vossa santificação; por isso, afastai-vos da imoralidade sexual.
O A P Ó ST O L O PA U L O ( 1 T S 4 . 3 )

Jennifer se debruçou sobre a mesa e fechou o menu de Tom. “Eles vêm mais
rápido quando sabem que você já terminou de ler o menu”, disse ela.
Tom riu. “Quem é você, tão sábia em matéria de pedidos?”
Jennifer riu. “Eu tenho muitos segredos.”
“Falando em segredos…”, Tom fez uma pausa e olhou para baixo. Dobrou seu
guardanapo ao meio e então o desdobrou novamente. “Eu gostaria de conhecer alguns
deles”, disse, olhando para cima.
O olhar de Jennifer não foi desencorajador, mas nem convidativo. Ele tomou um
ar.
Tom era pastor de jovens na sua igreja, e Jennifer, voluntária num grupo de
ensino médio escolar. Os dois grupos se encontravam na mesma noite, e assim Tom e
Jennifer se viam com frequência, mas geralmente só de passagem. Eles já tinham
chegado a se conhecer um pouco durante reuniões de equipe e em retiros de lideranças
de finais de semana organizados todo ano para as pessoas que trabalhavam com jovens
e adultos. Os dois nunca haviam realmente tido muito tempo para se conhecer
pessoalmente, mas Tom se via cada vez mais observando as idas e vindas dela. Após
orar sobre sua crescente atração por ela, ele finalmente decidiu que era hora de ver
aonde tudo isso poderia levar.
Jennifer correu os olhos pela sala e, então, de volta para Tom. A expressão de
seu rosto era gentil, mas também de desculpa. “Não quero de forma alguma parecer
presunçosa, mas apenas ser direta com você. Eu saí de uma relação muito áspera há
seis meses. Não tenho certeza se estou interessada em qualquer tipo de relacionamento
já agora. Só não quero que você desperdice seu tempo e sua energia. Isso não seria
justo.”
Tom sorriu e se recostou na cadeira. Levantou suas mãos como que sinalizando
para ela se acalmar. “Entendo perfeitamente. Eu deveria ter explicado a minha intenção.
Também não estou interessado num relacionamento, se por relacionamento você se
refere ao que a maioria das pessoas entende. Se trata apenas que não a conheço muito
bem, e que nós não temos muitas oportunidades de nos conhecer; assim, achei que seria
legal gastar algum tempo para nos conhecer um ao outro. Não estou atrás de namorada.”
Jennifer fitou Tom com um olhar perplexo. “Você quer me conhecer, mas não
está atrás de uma namorada… Acho que não estou entendendo.”
Tom meneou a cabeça, compreendendo. “Bem, para ser realmente franco, não
estou atrás de uma namorada; estou atrás de uma esposa. E…”, logo acrescentou
sentindo seu rosto corar, “… não quero dizer que essa pessoa é necessariamente você”.
E levantou os ombros: “Quem sabe? Mas é por isso que eu quero conhecê-la. Veja, é
assim: fazer toda essa história de relação namorado-namorada parecer irrelevante.
Quero dizer: aonde tudo isso levaria? Seriam apenas duas pessoas concordando em
gostar uma da outra até sentir que não se gostam mais. Não há nisso nenhum
compromisso real envolvido; as pessoas acabam entregando seu coração, e então a
coisa toda desmorona. Eu prefiro simplesmente sair e permanecer amigo de uma garota
até chegarmos a um compromisso; já que, de qualquer forma, esse é o único
compromisso real que duas pessoas poderiam fazer. Dessa forma, se as coisas não
derem certo, ninguém se sentirá muito mal. E se o relacionamento levar ao casamento,
nós não teremos perdido nada. Assim, eu não quero pedi-la — ou quem quer que seja,
no caso — para qualquer tipo de compromisso. Quero apenas conhecê-la melhor”.
Jennifer ficou calada por um momento e então disse: “Eu não consigo perceber
se isso acaba sendo uma pressão maior ou menor. Ao que parece você não está pedindo
para entrar em qualquer tipo de relacionamento formal comigo, o que, para ser honesta,
no momento parece ser a melhor coisa. Mas, ao mesmo tempo, você está querendo me
conhecer para ver se me quer como esposa”.
Tom sorriu timidamente. “Sim, eu sei que é algo pouco convencional. Pense
nisso como uma ‘amizade especial’, em vez de relacionamento de namoro tradicional;
amigos que saem juntos para se conhecer um ao outro, mas que não tentam ser nada
mais do que amigos até estarem convencidos de que sabem o que querem”.
Jennifer fitou Tom com um olhar interrogativo: “O que vai acontecer quando
você finalmente decidir o que quer? Levará isso para uma relação namorado-
namorada?”.
“Não. Se chegar à conclusão de que quero casar com a garota — e é isso o que
eu quero dizer com ‘sabem o que querem’ —, pedirei para ela casar comigo, não para
ser minha namorada. Como eu disse antes, não vejo muito uso em toda essa história de
relacionamento de namoro. Apenas vou direto da amizade para o compromisso — isto
é, se ela também quiser isso, claro”, acrescentou com um sorriso.
Jennifer não disse nada, e assim Tom continuou: “Realmente não há pressão
nenhuma. Eu só quero que nos tornemos mais amigos. Sair algumas vezes; conhecer um
ao outro. Se em algum momento você chegar à conclusão de que nunca poderá haver
algo além de uma amizade entre nós, apenas me diga, e isso será tudo. E eu farei o
mesmo com você. Enquanto isso, sinta-se livre para sair com quem quiser, fazer o que
quiser, seja o que for. Eu não quero ter mais direito de ditar o que você faz com sua
vida do que tive ontem. Sejamos apenas amigos, e vejamos o que acontece”.
Após uma longa pausa, Jennifer falou: “Acho que gosto de como isso soa. E
sobretudo depois de sair do meu último relacionamento, isso começa a fazer muito
sentido. Mas não tenho certeza se já consegui entender tudo. E como vamos ser amigos,
a primeira coisa que eu gostaria é que você continuasse me explicando como essas
‘amizades especiais’ funcionam. Isso pode me ser útil algum dia”.

AMIZADE ESPECIAL: A ALTERNATIVA AO RELACIONAMENTO DE


NAMORO

Então, como se faz para encontrar um cônjuge que não pelo método típico de
relacionamento de namoro? O que propomos neste capítulo não é nem complexo, nem
particularmente inovador. Mas a simplicidade, cremos, é a sua maior força. Nós
propomos que um homem e uma mulher que tenham o casamento em vista estabeleçam
uma amizade especial. Nossa ideia de amizade especial é bastante simples. Definimos
amizade especial como “dois amigos que vão se conhecendo em vistas ao casamento”.
É isso. Não é muito complicado, é?
Pense numa amizade especial como um precursor da proposta de casamento,
mas sem todas aquelas conotações românticas e sexuais que tão frequentemente
acompanham o típico relacionamento de namoro. Um casal em amizade especial,
independentemente da atração um pelo outro, não finge que existe mais no
relacionamento do que o justificado. Eles conscientemente se refreiam da atividade
sexual e abertamente romântica, não se tornando ingenuamente otimistas sobre o nível
de comprometimento da amizade. Assim, a principal meta de uma amizade especial é
explorar a viabilidade do casamento, preservando as diretrizes da pureza romântica e
sexual exigidas no relacionamento com o próximo (veja o capítulo 1).
E então, o que acontecerá quando uma amizade especial atingir o objetivo?
Assim que uma amizade especial trouxer clareza sobre o relacionamento, o casal
desfará a relação, voltando para uma amizade “normal”, ou ele — convencido de que
quer casar com a mulher — a pedirá em casamento. Se ela continuar indecisa, ele usará
de todo o seu arsenal romântico para convencê-la de que ele é a pessoa certa. (Mais
sobre isso daqui a pouco).

DISTINTIVOS DA AMIZADE ESPECIAL


Embora creiamos que a Bíblia permite uma grande flexibilidade quando se trata
de relacionamentos pré-conjugais, quatro elementos são cruciais para qualquer casal
que explore a possibilidade do casamento: (1) manter as diretrizes da pureza romântica
e sexual encontradas no relacionamento com o próximo; (2) falar claramente sobre suas
próprias intenções; (3) ver o namoro como uma atividade, em vez de categoria de
relacionamento; e (4) considerar a exclusividade do relacionamento como algo
voluntário. A amizade especial é especificamente projetada para incorporar todos esses
quatros elementos. Analisemos, então, cada um deles.

Manter os limites do relacionamento com o próximo

Talvez o mais significativo é que uma amizade especial está comprometida em


manter as diretrizes de pureza sexual do relacionamento com o próximo. Ambas as
partes têm um acordo de não cruzar esses limites e de que os requisitos de pureza para
o relacionamento não são diferentes dos de qualquer outro relacionamento. Muitas das
nossas práticas de namoro atuais não levam a sério os mandatos bíblicos de pureza
romântica e sexual encontrados em 1 Coríntios 7.1-9 e Cantares de Salomão 2.1-7. Mas
não é assim com a amizade especial.
É claro, deve ser feita uma reflexão cuidadosa sobre as balizas morais que
ajudarão a proteger a amizade especial para ela não se dissolver em relacionamento
sexual. O compromisso de não se abrasar — por mais que envolva em si algo bom —
não fará uma pessoa ir muito longe se ela optar por se embeber em gasolina e brincar
com fósforos. O que seguem são algumas sugestões de como um casal pode estruturar
seu relacionamento de uma forma que faça da pureza uma meta alcançável.
Assumam uma prestação de contas. Uma prestação de contas piedosa
desempenhará um grande papel em manter a pureza de uma amizade especial. O pecado
prospera no isolamento, e alguém que se importe com você — e que você respeite —
olhando e orando por você irá percorrer um longo caminho em assegurar que a amizade
especial se mantenha nos trilhos. Nós encorajamos o homem e a mulher a terem
parceiros de prestação de contas separados. Os parceiros de prestação de contas
devem ser pessoas piedosas e sábias que entendam a perspectiva bíblica sobre a pureza
(deem-lhes uma cópia deste livro!) e não temam cutucar sua vida com questões
incisivas. Buscar uma prestação de contas piedosa, cheia de graça, coloca você em
submissão à comunidade cristã e permite que cristãos piedosos avaliem sua amizade
especial à luz do evangelho.
Evitem tempo sozinhos. Em Romanos 13.14 somos instruídos a não ficar
“premeditando como satisfazer os desejos da carne”. Como você sem dúvida sabe, sua
carne não precisa de muita ajuda quando se trata de comportamento pecaminoso. E essa
é exatamente a razão pela qual uma amizade especial deve evitar contextos de encontro
que os empurrem para a intimidade. Evitem gastar tempo sozinhos no apartamento um
do outro. Não permaneçam sozinhos no carro. Mantenham as luzes acesas. Tanto quanto
possível, mantenham seu relacionamento em público. E procurem pensar de antemão
como vocês gastam o tempo juntos. O que pode ser fácil fazer no início do
relacionamento (gastarem tempo sozinhos no apartamento dela) se tornará cada vez
mais difícil à medida que o relacionamento progredir. Estabeleçam padrões saudáveis
de relacionamento no início da amizade. Acreditem em nós quando dizemos que vocês
não se arrependerão por terem sido cautelosos.
Sejam voltados para fora. Uma marca do relacionamento saudável é que ele
não é voltado apenas para dentro. Claro, é apropriado uma amizade especial ter um
foco interior em parte do tempo; afinal, vocês estão se conhecendo com vistas ao
casamento. Mas evitem ter somente — ou mesmo principalmente — um foco interior.
Um relacionamento saudável olha para além de si mesmo e envolve o mundo ao redor.
É confortável para um relacionamento saudável estar em comunidade. Essa postura de
ser voltado para fora lhes ajudará a cultivar um aspecto missionário, que é importante
para um casamento saudável. Seu casamento deveria poder ser usado algum dia em
benefício dos outros. Comece a viver dessa maneira desde o início.
Comecem na hora certa. Iniciem uma amizade especial somente quando
souberem que estão (ou em breve estarão) em condições de se casar. Muitos solteiros
começam muito cedo, e se colocam assim numa situação difícil. Por exemplo, muitos
estudantes universitários começam a namorar no início da faculdade, tendo pouca ideia
sobre os rumos do relacionamento. Então, passado não muito tempo de relacionamento
de namoro, eles percebem que querem se casar com a pessoa que estão namorando.
Essa é a parte boa da história. A parte ruim é que eles não estão em uma etapa da vida
em que o casamento é uma possibilidade real. Então, lá estão eles, um pé no freio e
outro no acelerador, com vários anos pela frente. O amor foi despertado antes de haver
desejado, trazendo tensão ao coração e ao corpo dessas pessoas de formas não
tencionados por Deus.
É claro, em nossa cultura de namoro moderna essa tensão é aliviada pela
atividade sexual prematura. Casais são capazes de namorar anos a fio precisamente
porque já mergulharam na atividade sexual; o jantar pode esperar, porque os aperitivos
estão sendo servidos. Facilmente podemos ver por que a nossa cultura de namoro atual
é ambivalente com os relacionamentos de namoro de longo prazo. Os casais tomam os
benefícios do casamento enquanto evitam as responsabilidades dele. Mas uma amizade
especial visa a algo maior que uma relação de namoro tradicional.
Todavia, mesmo numa amizade especial — onde a atividade romântica e sexual
foi intencionalmente evitada — a atração emocional e sexual podem se tornar
problemáticas se o relacionamento durar muito tempo. Assim, nós recomendamos que
você adie o início de uma amizade especial até estar numa etapa da vida em que o
casamento é uma possibilidade real. Não podemos imaginar nenhuma boa razão por que
um típico estudante de ensino médio já deveria iniciar uma amizade especial, tanto
menos um relacionamento de namoro. Sejam amigos. Saiam em grupos. Tenham bons
momentos! Mas confiem no plano de Deus para os relacionamentos e esperem até estar
prontos para o casamento antes de começarem a procurar um cônjuge.
Mantenham a relação breve. Na sequência do último ponto, uma vez tendo
iniciado uma amizade especial, não a façam durar mais tempo do que o necessário. E o
que significa bastante tempo? Isso varia de pessoa para pessoa, mas assumindo que
ambos estão numa etapa da vida em que é conveniente se casar, 6 a 18 meses parece ser
um bom tempo. Esperem mais, e a pureza se tornará cada vez mais desafiadora.
Busquem conhecer um ao outro, orem pela amizade, busquem conselhos piedosos e
então tomem uma decisão. Se após 18 meses vocês ainda estão incertos, isso é
provavelmente um indicativo de que algo anda errado no relacionamento.
Façam o caminho mais curto para o altar. E uma última palavra sobre o
calendário: se as coisas funcionarem e vocês começarem a noivar, mantenham o
noivado curto. O noivado existe para um único propósito — planejar o casamento. Ele
não é um processo final de verificação ou tentativa de ganhar tempo enquanto seus pais
se acostumam com a ideia. Muitos casais cristãos sacrificam sua pureza no altar do dia
do casamento perfeito. Assim, não pensem no noivado como um namoro com
privilégios especiais, em que vocês ganham um tempinho a mais e têm o benefício de
um negócio fechado. O noivado existe para planejar o casamento. Uma vez que ela
disse “sim”, é hora de seguir o caminho mais curto.

Comunicação clara

Um segundo elemento crucial da amizade especial, dada a sua singularidade, é a


comunicação clara e direta entre as partes. É provável que uma das partes não entenda
bem o conceito de amizade especial; assim, é importante que a pessoa transmita seus
propósitos e intenções desde o início (como fizemos na chamada de abertura). Por
exemplo, uma mulher que está agindo sob a mentalidade tradicional de namoro ficará
provavelmente confusa com as ações de um homem que não deixou claro o seu
compromisso com o formato da amizade especial.
Em sintonia com a imagem de Cristo buscando a igreja, parece ser da
responsabilidade do homem declarar seu interesse por uma mulher como parceira
conjugal em potencial. Se ela sabe com certeza que não tem qualquer interesse em ir
além de um relacionamento com o próximo, ela pode deixá-lo a par disso o quanto
antes.
Mas, senhoritas, o que vocês farão se ele não estiver deixando suas intenções
claras? A mulher está no pleno direito de saber as intenções de um homem. Em algum
momento ele lhe deverá uma explicação sobre as suas investidas. Estaria ele apenas
atrás de uma amiga com quem passear? Estaria tentando conhecê-la com vistas a um
casamento? Estaria ele apenas buscando um relacionamento de namoro tradicional, o
casamento sendo um objetivo bem distante? Qualquer que seja o caso, é uma atitude
sábia a mulher buscar clareza desde o início do relacionamento. Sem essa informação
ela será incapaz de determinar quão sábio é investir no relacionamento.

Namoro como atividade em vez de categoria de relacionamento

Nós já discutimos a diferença entre namoro como atividade e como categoria de


relacionamento; assim, não precisamos detalhar esse ponto aqui. Basta dizer, no
entanto, que duas pessoas que se veem como potenciais cônjuges num casamento não
têm, com base na atração mútua, qualquer fundamento para estabelecer uma categoria
de relacionamento que seja distinta do relacionamento com o próximo. Assim, um casal
que esteja numa amizade especial verá o namoro como uma atividade, não como uma
categoria de relacionamento. Em outras palavras, namoro é algo que elas fazem em vez
de algo que elas são. Essa distinção entre namoro como atividade e como categoria
ajuda a preservar a verdade de que todo homem e toda mulher não casados deve se
relacionar sob as diretrizes de pureza estabelecidos no relacionamento com o próximo.

Amizade especial e exclusividade voluntária

Visto que nenhuma nova categoria de relacionamento foi criada, a exclusividade


do relacionamento só pode ser voluntária (auto-imposta), não exigida pelo próprio
relacionamento. Verdadeira exclusividade não é possível à parte do casamento ou
noivado. Pensar diferente disso é uma receita para a dor-de-cabeça.
Isso não significa, porém, que um homem e uma mulher não possam
voluntariamente escolher limitar sua interação com o sexo oposto. Isso não apenas é
permitido, como também recomendado por nós. Por exemplo, se um jovem está
particularmente interessado numa dada mulher, provavelmente não irá querer gastar
tempo e energia em relacionamentos significativos com outras mulheres.
Assim também, uma mulher pode decidir recusar encontros com outros homens
se souber que seus interesses estão em outro lugar. Mas novamente, é importante
lembrar que nenhuma promessa real de exclusividade pode existir à parte do casamento
ou noivado. Assim, numa amizade especial cada parte é livre para escolher se é
exclusiva, ou não, no curso do relacionamento. O relacionamento em si pode não
demandar isso. E pode até acontecer de um homem limitar suas atividades de namoro a
uma mulher específica, mas ela não agir assim com ele (ou vice-versa). Mais sobre a
ideia de exclusividade voluntária será abordado na seção “Objeções” abaixo.
Essa falta de exclusividade forçada é bastante útil para estilhaçar a fachada de
compromisso dos relacionamentos pré-noivado. Como argumentamos extensivamente
no capítulo 6, nenhum compromisso real pode existir à parte de uma proposta de
casamento. Assim, parece sensato que um homem e uma mulher tentem evitar usar
termos como promessa e compromisso. Recusar-se a usar tais termos num
relacionamento pré-noivado ajuda a manter uma perspectiva adequada sobre a
verdadeira natureza do relacionamento. Até que uma proposta de casamento seja feita
ou aceita, não pode haver verdadeiro compromisso entre um homem e uma mulher
solteiros.

VANTAGENS DA AMIZADE ESPECIAL

A amizade especial tem muitas vantagens sobre o relacionamento de namoro


tradicional, a primeira sendo sua capacidade de deixar claro os limites do
relacionamento com o próximo. Isso ajuda a proteger as pessoas da dor que pode advir
de uma expressão romântica e sexual prematuras. Também permite duas pessoas se
conhecerem sem as distrações de um relacionamento físico e romântico, que de muitas
formas poderia mascarar as verdadeiras qualidades do relacionamento. Ademais, a
amizade especial é totalmente consistente com a Escritura. Por fim, e o mais importante,
a amizade especial ajuda a preservar a imagem que Deus pretende ver retratada em
nossa sexualidade. A seguir vamos analisar cada uma dessas vantagens.

O relacionamento com o próximo é preservado

A principal vantagem da amizade especial é que ela em nada confunde os


limites da relação com o próximo. Como nenhuma nova categoria de relacionamento é
criada ou assumida, o aspecto não sexual do relacionamento com o próximo é mais
claramente reconhecido e, dessa forma, mantido. Mesmo à parte da revelação bíblica, a
maioria dos cristãos (e até alguns não cristãos) sabe que a expressão de afeição
romântica e sexual está fora do âmbito do relacionamento com o próximo. Entender que
até o casamento duas pessoas são chamadas a permanecer nos limites do
relacionamento com o próximo é fundamental para uma vida de pureza romântica e
sexual. Permanecer como amigos até o noivado torna claro esse limite tanto para o
homem como para a mulher.

Livre de distrações

Não há nada que uma pessoa possa descobrir num relacionamento de namoro ou
cortejo que não possa ser igualmente descoberto numa amizade especial. Sonhos da
vida, prioridades, valores, origens e qualidades do caráter podem ser todos
descobertos pela amizade. Não se precisa estabelecer uma categoria separada de
relacionamento para discernir essas coisas. Na verdade, nosso argumento é que essas
importantes qualidades do caráter e metas da vida podem ser discernidos até mais
facilmente no contexto de uma amizade especial.
Muitos relacionamentos de namoro são baseados quase que exclusivamente na
mútua atração romântica e sexual do casal. Mas tire isso do caminho, e eles
descobrirão que não têm quase nada em comum e nada realmente do que falar. Se um
casal não pode desenvolver uma amizade à parte de um relacionamento de namoro
marcado pela sexualidade, o casamento será um próximo passo insensato. Mas uma
amizade que é livre das distrações do relacionamento romântico e sexual tem a
oportunidade de permanecer ou cair pelos seus próprios méritos, ao invés de estar
meramente apoiada no fluxo das paixões e desejos.

Mais livre de sofrimentos

Embora nenhum relacionamento possa estar totalmente livre de sofrimentos,


uma amizade especial ajuda a tornar o sofrimento menos provável. Certa vez, um amigo
nosso foi apresentado a uma mulher através de um amigo em comum, e os dois
inicialmente se deram bem. Comprometido com os princípios básicos da amizade
especial, ele nos expressou o sentimento incomum que teve à medida que a relação
progredia. Acostumado a entrar em relacionamentos com os dois pés, ele descobriu que
era relaxante e confortável conhecer uma mulher sem as distrações do romance e do
relacionamento físico. E depois de namorarem casualmente por alguns meses, ficou
evidente para ambos que nenhum desejava ir além de um relacionamento com o
próximo.
Eles continuaram apenas como amigos e se viam eventualmente, mas sem aquele
arrependimento que teria resultado de um relacionamento íntimo e romântico abortado.
Mais tarde ele nos confidenciou que, tivessem os dois se envolvido romântica e
fisicamente (como acontecera nos relacionamentos anteriores dele), ele teria levado
muito mais tempo para perceber que não havia futuro na relação, e esta teria terminado
de maneira dolorosa para um deles, ou até para ambos.
Com isso não queremos dizer que os sentimentos de decepção podem ser
totalmente eliminados. Se uma amizade não resulta em casamento, ainda assim pode
haver sofrimento para uma das partes. Desapontamento e tristeza são sentimentos
legítimos que acompanham a perda de qualquer coisa boa. Mas, tudo o mais constante,
a dor da perda numa amizade especial será consideravelmente menor que a dor
resultante de relacionamentos de namoro tradicionais, já que a amizade especial
conscientemente preserva tanto a pureza física como a romântica.

Consistente com a Escritura

De forma não surpreendente, a amizade especial se encaixa bem no silêncio da


Bíblia sobre a busca de um cônjuge. Se fosse da vontade de Deus desenvolvermos um
sistema oficial pelo qual nos moveríamos de uma categoria de relacionamento para
outra, parece provável que Deus nos teria informado. Talvez devêssemos interpretar o
silêncio de Deus como um indicativo de que ele não deseja que criemos esse sistema.
Como a Bíblia não prescreve um estágio intermediário entre o relacionamento
com o próximo e o relacionamento conjugal, devemos ir com calma nessa elaboração.
Manter a amizade com um cônjuge em potencial até o noivado não impede de forma
alguma o futuro casamento, e se encaixa facilmente nas expectativas bíblicas colocadas
por Deus sobre homens e mulheres no relacionamento com o próximo.

Protege a imagem de Deus

Mais importante, a amizade especial ajuda a preservar a imagem de Deus que a


sexualidade humana visa a expressar. Quando compreendemos que ao entrar numa
amizade especial nenhuma categoria de relacionamento foi trocada, a tentação de se
tornar romanticamente dependente e sexualmente envolvido é reduzida. Não há uma
sombra de relacionamento de namoro em que se pode cair na falsa suposição de que é
seguro e adequado começar a se entregar. E isso, claro, encontra seu significado último
na verdade da devoção e afeição sinceras de Cristo pela igreja. Cristo esperou
fielmente por sua noiva, e assim devemos nós esperar pela nossa. Cristo se apaixonou
uma vez; nós nos apaixonamos uma vez.
A imagem de Deus que reside na nossa sexualidade é de grande valor, e nosso
desejo de protegê-la será grandemente auxiliado se nos recusarmos a criar categorias
de relacionamento que pareçam ser distintas do relacionamento com o próximo, e assim
aparentemente livres dos seus comandos de pureza sexual.

OBJEÇÕES À AMIZADE ESPECIAL

Ao comunicar essa abordagem, temos encontrado uma série de objeções.


Embora de nenhuma forma exaustivas, as seguintes objeções tipificam as preocupações
gerais que alguns solteiros têm com a nossa ideia de amizade especial.
Objeção 1: A amizade especial é algo muito vulnerável, pois não envolve um
compromisso.

Uma jovem expressou sua preocupação com as amizades especiais dizendo:


“Procurar um cônjuge exige que você se abra e se torne vulnerável. Eu não estou a fim
de abrir minha alma para um homem que não fez qualquer compromisso comigo e que
pode até estar saindo com outras mulheres”.
Nós concordamos totalmente com a sua preocupação. Uma mulher não seria de
fato sábia se se tornasse vulnerável a um homem que não tem certeza do que quer.
Qualquer homem que for sério sobre uma determinada mulher irá limitar sua interação
com as outras mulheres. Mas a mulher em quem ele está interessado deve se lembrar de
que, independentemente de ele vir a ser, ou não, seu namorado, qualquer exclusividade
só poderá ser algo auto-imposto. Pensar o contrário é agir contra o bom senso. Pouco
bem pode fazer à mulher ela desejar a segurança que vem de um relacionamento
aparentemente exclusivo quando essa segurança de fato não existe.
Os solteiros devem entrar num relacionamento com os olhos abertos,
plenamente cientes de que rótulos como “namorado” e “namorada”, criados pelo
homem, não fornecem qualquer medida de segurança real. O fato de duas pessoas
reconhecerem abertamente sua atração uma pela outra não garante que a atração será
permanente.
É verdade que uma amizade especial não oferece nenhuma segurança, mas sua
principal vantagem é que, ao contrário dos relacionamentos de namoro tradicionais, ela
não finge oferecê-la. Entendemos que isso faz dela um método muito mais seguro. Por
não exigir exclusividade, os riscos de encontrar um cônjuge ficam totalmente expostos.
Num relacionamento de namoro tradicional, o homem ou a mulher pode ir embora a
qualquer momento. Fazer isso não romperia qualquer compromisso. O homem não
prometeu se casar com a mulher, e ela não tem o direito de esperar o contrário.
Uma mulher sentir que um relacionamento de namoro tradicional oferece um
contexto em que é seguro se tornar vulnerável é um sentimento baseado na falsidade.
Nada é inerentemente mais seguro num relacionamento de cortejo ou namoro tradicional
que uma amizade especial. Quanto mais estivermos cientes disso, mais poderemos
tomar decisões informadas e acertadas sobre a pessoa que vamos escolher para lhe
sermos vulneráveis — e mais cuidadosamente vamos guardar o nosso coração.
Na verdade, poderíamos argumentar que a exclusividade auto-imposta de uma
amizade especial é motivo de maior segurança do que a exclusividade de um
relacionamento de namoro tradicional. Na amizade especial, um homem opta por
limitar sua interação com o sexo oposto porque assim o deseja. Quando uma mulher vê
essa exclusividade, sabe que ela é sincera, espontânea e de coração. Em contraste,
como poderia ser mais seguro para uma mulher acreditar que a razão de o seu
namorado estar exclusivamente com ela é que a relação exige isso dele? Quando a
exclusividade é reconhecida como voluntária, a mulher está plenamente ciente da
atração do homem por ela, bem como da atual indisposição dele de fazer um
compromisso permanente. A partir dessa perspectiva ela tem agora a possibilidade de
fazer escolhas sábias sobre quão vulnerável pode ser com ele.

Objeção 2: Uma amizade especial é incapaz de dar informação suficiente sobre a


conveniência de um futuro casamento.

“Como posso saber se quero ficar noivo(a) de uma determinada pessoa”,


alguém poderia argumentar, “sem primeiro desenvolver um relacionamento de
namoro?”. Mas em que sentido firmar um pseudocompromisso e ativamente se envolver
sexualmente podem de fato ajudar um homem e uma mulher a descobrir se serão um
bom marido e uma boa esposa?
Expressar uma paixão romântica e sexual não fornece qualquer informação útil
para determinar a viabilidade de um cônjuge em potencial; ao contrário, pode até
obscurecer a capacidade de pensar com sabedoria sobre a questão. Tudo que uma
pessoa precisa saber sobre outra pode ser aprendido numa amizade especial. Não é
preciso dar ou receber uma expressão sexual para a pessoa saber se quer ou não seguir
adiante no relacionamento. A ideia de que se deve firmar um relacionamento de namoro
tradicional para realmente conhecer uma pessoa é falsa.

Objeção 3: Não é razoável pensar que podemos tratar como “mero amigo” alguém
que consideramos para o casamento.

Alguns solteiros com quem temos falado sobre amizades especiais


frequentemente acham difícil considerar de início como “mero amigo” alguém que estão
considerando para o casamento. E, de fato, numa amizade especial as duas pessoas não
são meras amigas. Como um homem solteiro certa vez disse, “Quando peço uma garota
em namoro, estou na verdade atrás de algo nela que não encontro em minhas outras
amigas”.
Não contestaríamos de todo essa observação. Evidentemente, há muitos sub-
relacionamentos dentro da categoria mais ampla de relacionamento com o próximo.
Muitos desses relacionamentos têm agendas, propósitos e níveis de envolvimento
emocional muito diferentes entre si. Relacionamentos de negócios, bons amigos,
melhores amigos, meros conhecidos, futuros cônjuges e mesmo relacionamentos
pastorais — todos eles exigem diferentes tipos de interação, intimidade e envolvimento
emocional. No entanto, todos eles entram na categoria mais ampla de relacionamento
com o próximo.
O relacionamento com o próximo não insiste em que todos os relacionamentos
dentro dele são iguais, mas apenas que as diretrizes de pureza sexual e romântica são as
mesmas para cada relacionamento. Por exemplo, embora a interação entre um pastor e
um congregante e entre um futuro marido e uma futura esposa envolvam diferentes tipos
de interação, os dois relacionamentos são chamados a manter sua interação sob as
diretrizes de pureza estabelecidos pelo relacionamento com o próximo.
Assim, o objetivo de uma amizade especial não é fingir que não existem
distinções dentro do relacionamento com o próximo (e esperanças de casamento), mas
sim ajudar ambas as partes a manter uma perspectiva clara sobre o que esse
relacionamento envolve e não envolve. Ele envolve duas pessoas que buscam um
cônjuge. Ele não envolve duas pessoas que já o encontraram.

Objeção 4: A amizade especial não é prática na sociedade de hoje.

Mas desde quando determinamos a verdade a partir da praticidade? Embora


seja a menos falada, esta é provavelmente a objeção mais básica levantada por muitos
detratores da amizade especial. Frequentemente ao falar com solteiros, nós não
encontramos nenhuma resistência ao conteúdo do que estamos dizendo, mas ainda
encontramos resistência às conclusões que desenvolvemos. É como se eles
concordassem conosco e até mesmo concordassem que Bíblia parece ensinar o que
dizemos, mas a ideia de realmente buscar viver esse ideal na sociedade contemporânea
parecesse tão impossível quanto fora de alcance.
Jesus encontrou essa mesma situação quando ensinou sobre o divórcio. Quando
seus discípulos foram informados de que o divórcio só era permitido em caso de
infidelidade conjugal, eles ficaram espantados e exclamaram: “Se esta é a situação
entre o homem e sua mulher, é melhor não casar” (Mt 19.10). Nos dias de Jesus, as leis
sobre o divórcio eram tão frouxas que um homem poderia se divorciar de sua esposa
por quase qualquer motivo. O ensino de Jesus era tão restritivo, dado o contexto social
da sua época, que sua ordem parecia quase negar a própria ideia de casamento. Mas a
consternação dos discípulos surgiu da sua falta de fé na possibilidade de guardarem os
mandamentos de Cristo.
Alguns podem não concordar que a Bíblia ensine o que estamos dizendo. Se
você é uma dessas pessoas, tem a liberdade de consciência para seguir por um caminho
diferente. Mas aqueles de nós que foram convencidos do contrário, estão ligados àquilo
que acreditamos ser o ensino bíblico. Nós não podemos simplesmente dizer que a
Escritura é impraticável e então deixá-la de lado em favor de algo mais conveniente.

QUANDO SEGUIR ADIANTE

Em algum momento a amizade especial terá cumprido o seu fim. O homem e a


mulher terão clareza sobre a sabedoria de optarem ou não pelo casamento. Como já
observamos, é irresponsável um homem tentar ganhar o coração de uma mulher antes de
saber o que planeja fazer com ele. E é irresponsável uma mulher entregar seu coração a
um homem que não se comprometeu a guardá-lo. Tudo muda, no entanto, quando se
chega a uma clareza sobre o casamento. Tão logo um homem tenha decidido que deseja
uma mulher em particular como sua esposa (e não só como namorada!), nós esperamos
que ele tenha sucesso em cortejá-la. Pode ser que ela aceite desde já o pedido de
casamento. Mas pode ser que ela precise de mais tempo. Qualquer dos casos é válido.
Se ele está convencido de que quer casar com ela, mas ela não, é hora de ele
adotar uma nova postura no relacionamento. Quando a amizade especial começou,
nenhuma das partes estava certa sobre a viabilidade do relacionamento no longo prazo.
Mas agora que sabe com certeza que quer casar com a mulher, ele não deve ser
econômico na conquista do seu afeto. Ele deve lhe comprar flores, dizer o quanto o
cabelo dela é bonito, levá-la para um jantar chique e, o mais importante, presenteá-la
com uma aliança. Em suma, a hora de entrar no romance é quando você está pronto
para trazer a aliança!
A busca ousada (mas convenientemente sensível) por uma esposa se encaixa
perfeitamente bem na imagem de Cristo e da igreja. Num sentido muito real, Cristo não
poupou gastos na conquista da nossa afeição. Ele disse toda a verdade. E deixou claro
desde o início que não estava brincando. Um candidato a noivo faz bem em seguir o
pretendente mestre. Assim, é apropriado um homem buscar despertar os afetos
românticos de uma mulher precisamente porque ele pretende — se ela consentir —
satisfazer essas afeições no contexto do casamento. Mas ouçam, homens (e fiquem na
escuta, mulheres). Quando o assunto é conquistar os afetos de uma mulher, por favor
tenham em mente três coisas importantes. Primeiro, vocês estão tentando conquistá-la
como sua esposa, não como sua namorada. Ela deve saber desde o início que você está
jogando pra valer. E a forma mais clara — na verdade, a única forma — de ela saber
disso é você pedi-la em casamento. Isso muda completamente a dinâmica do
relacionamento e define a coisa toda como estando em rota de colisão com o
casamento. Assim que a proposta de casamento foi oferecida, não é mais irresponsável
da sua parte tentar conquistar o coração dela, e não é mais irresponsável ela lhe
entregá-lo.
Em segundo lugar, sua tentativa de conquistar o coração de uma mulher deve ser
feita respeitando as diretrizes de pureza sexual do relacionamento com o próximo. O
fato de querer casar com uma mulher não significa que você já casou com ela. Assim,
você não tem o direito de ter acesso à sexualidade dela, mesmo de formas sutis. Afinal,
ela pode vir a dizer “não” ao seu pedido de casamento, em cujo caso você tem a
responsabilidade de preservar a integridade sexual dela para aquele com quem ela irá
se casar. Não tome para si o que não é do seu direito. O teste irmão-irmã ainda é o teste
decisivo para a pureza.
E finalmente, parte do seu trabalho é ajudar a mulher que você almeja a tomar
uma boa decisão sobre seu pedido de casamento. Não assuma que o seu julgamento é o
único que conta. Ao externar o romance, não deixe isso chegar a um nível em que ela
seja incapaz de ver a realidade só por causa das rosas. Ela pode precisar de algum
tempo para pensar com sobriedade, com cuidado e em espírito de oração sobre o que
Deus quer para ela (e para você). Em última análise, você quer que ela diga “sim”
porque ela está em paz com o Senhor e não porque você lhe disse o quanto ela é bonita
sob uma noite de luar. (Mulheres, nós sabemos que a maioria de vocês é esperta demais
para cair na conversa do “seu cabelo é bonito”. Só estamos tentando ajudar os homens
a ganhar um senso adequado de responsabilidade.)
Essa forma de fazer as coisas, claro, coloca o homem numa posição de
vulnerabilidade. Ele está fazendo uma proposta de casamento sem qualquer garantia de
ela lhe dizer “sim”. Mas é assim que deve ser. Pessoal, é hora de o homem começar a
se preparar em matéria de proposta de casamento. Não faça a mulher dizer “sim” antes
de lhe ter feito uma proposta. Isso colocaria a mulher numa posição de vulnerabilidade
— ela põe as cartas na mesa, mesmo as suas ainda estando dentro do colete. Em
sintonia com a imagem de Cristo buscando a igreja, o homem deve estar disposto a ser
o primeiro a declarar suas afeições, carregando o peso da vulnerabilidade no
relacionamento.

CONCLUSÃO

Bem, aí está. Se o retrato de uma amizade especial não parece envolver muito
romance ou segurança, tenha em mente que experimentar romance e segurança não são
objetivos dessa amizade. Seu único objetivo é determinar a viabilidade do casamento.
Todo o romance, a paixão, intimidade e segurança que almeja estão esperando você no
casamento. Os relacionamentos tradicionais de namoro, embora aparentemente possam
fornecer essas coisas, são, na verdade, apenas sombras de relacionamentos que não
oferecem nada de concreto. Visto que nenhuma promessa pode ser feita à parte do
noivado, é prudente estabelecer relacionamentos que estejam baseados nessa realidade.
Uma amizade especial protege a sexualidade e permite que o fruto amadureça na
videira, para que seja então apreciado na sua plenitude no contexto do casamento. Ele
não é de relacionamento em relacionamento lentamente mordiscado, tornando obscura a
natureza singular do relacionamento de Cristo com a igreja.
Independentemente do método que você use para ir atrás de uma esposa, tenha
em mente as diretrizes fundamentais do relacionamento com o próximo. Qualquer
sistema que pareça remover as duas pessoas dos limites desse tipo de relacionamento é
equivocado, e pode potencialmente criar um grande dano para elas bem como para a
imagem de Deus.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

1) Como você explicaria a amizade especial para um amigo? Qual é o principal


objetivo dela?
2) Quais são os 4 elementos cruciais em qualquer relação homem-mulher onde o casal
está explorando a possibilidade do casamento?
3) Quais são as vantagens que a amizade especial tem sobre os relacionamentos de
namoro tradicionais?
4) Como você responderia a alguém que argumenta que a amizade especial não oferece
nenhuma segurança ao casal?
UMA VIDA INTEGRADA
Pureza como estilo de vida, não só como coisa de namoro

Todas as coisas me são permitidas, mas nem todas são proveitosas.


Todas as coisas me são permitidas, mas eu não me deixarei
dominar por nenhuma delas.

O A P Ó ST O L O PA U L O ( 1 C O 6 . 1 2 )

Seria muito mais fácil restringirmos nossa discussão sobre a pureza ao tópico
do namoro. Embora o propósito do livro esteja sobre esse campo mais específico, este
capítulo remeterá ao assunto da pureza sexual num sentido mais amplo. Mas primeiro,
uma rápida recapitulação sobre onde estamos. Nos capítulos iniciais, articulamos uma
teologia bíblica sobre o sexo que busca vincular a sexualidade humana ao
relacionamento espiritual entre Cristo e a igreja. A sexualidade, argumentamos, foi
ordenada por Deus como uma maneira de refletir o evangelho; ela deve, portanto, ser
manifestada em conformidade com a lógica, os ritmos e a função do evangelho. Cristo é
espiritualmente fiel à igreja; o marido deve ser sexualmente fiel à sua esposa. Cristo se
une espiritualmente à igreja somente; um homem se une sexualmente à sua esposa
somente. Cristo tem uma noiva; um homem tem uma esposa. A realidade celestial serve
de padrão para a prática terrena.
De fato, quando estudamos a Escritura, não deve nos surpreender que o
evangelho informe não só nosso entendimento da sexualidade e dos relacionamentos
humanos, como também todas as coisas da vida. Deus criou o mundo para ser um
reflexo — um teatro vivo, se preferir — do evangelho. Assim, todas as facetas da vida
humana estão organicamente conectadas por meio do evangelho. Assim como nossa
cabeça está ligada aos pés pelo sistema nervoso, nossa sexualidade está ligada a todas
as outras partes da vida pela participação mútua no evangelho. Este é o ponto: você
provavelmente não manterá a pureza no seu relacionamento pré-conjugal se não deixar
o evangelho transformá-lo em todas as áreas da vida — na sua visão sobre tempo e
dinheiro, na forma como se relaciona com a sua família, no uso que faz dos seus
talentos. O evangelho deve ser a peça central funcional da sua vida, o eixo em torno do
qual todas as coisas giram!
Por isso é que temos feito todo esse tema da pureza sexual navegar na balsa do
evangelho, na esperança de que, acima de tudo, pudéssemos lhe recomendar o
evangelho mais uma vez. É o que os bons pastores fazem. Eles sempre retornam ao
evangelho. Todas as semanas nos sermões, todas às vezes em que aconselham uma
pessoa ferida, todas às vezes em que conduzem uma reunião — tudo se resume ao
evangelho. Amigo, se realizarmos bem o nosso trabalho, teremos lhe dado não só uma
visão prática do evangelho que lhe possibilitará honrar a Deus em seu namoro, como
também uma visão do evangelho que o ajudará a conduzir toda a sua vida para a glória
de Deus. Nós não pretendemos ser dissimulados, e por isso, aqui está: nosso objetivo
neste livro é pregar o evangelho pelas lentes da pureza sexual. E esperamos estar
atingindo esse propósito.
Em sintonia com esse objetivo, o presente capítulo começará discutindo a
importância de uma vida integrada — na qual o evangelho informe todas as áreas. Além
disso, vamos cobrir tópicos como modéstia, masturbação, flerte, opções de
entretenimento e uso da internet. Nós somos da crença de que uma vida na qual a pureza
do evangelho está integrada num todo não só irá reforçar a forma como você lida com o
namoro, como também irá lembrá-lo de que o namoro é só uma das áreas da vida em
que você é chamado a viver perante Deus com as mãos limpas e o coração puro (Sl
24.3-4).

PRÉ-PUREZA: COMEÇANDO NO LUGAR CERTO

Então, com que uma vida integrada ao evangelho se parece? O que significa
fazer de Jesus a dobradiça pela qual a vida de uma pessoa se move?
Em primeiro lugar, significa que nós devemos reconhecer — na verdade,
comoventemente confessar — o fato de que somos desesperadamente pecadores, por
completo. “Quem pode dizer: Purifiquei meu coração, estou limpo do meu pecado?”
(Pv 20.9). A resposta é: ninguém. Nós precisamos da graça. E como!
Em segundo lugar, significa que aceitamos o fato de que somos justificados
perante Deus unicamente no mérito de Jesus Cristo, que morreu na cruz em nosso lugar
pelos nossos pecados e ressuscitou dos mortos ao terceiro dia para termos uma vida
redimida (1Co 15.1-3). E não se trata apenas de algo em que cremos para nos tornar
cristãos; isso deve ser a música da nossa alma, todos os dias.
Em terceiro lugar, significa que devemos pedir a Deus para nos convencer nas
áreas da vida onde a graça ainda precisa fazer o seu trabalho. Mas não tente descobrir
seu pecado sozinho. Ore como Davi:

Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração;


prova-me e conhece os meus pensamentos;
vê se há em mim algum caminho mau
e guia-me pelo caminho eterno. (Sl 139.23-24)
Acredite — Deus é melhor em apontar quais pecados precisam ir embora, e em
qual ordem, do que você jamais o será.
Em quarto lugar, significa que devemos perceber que o crescimento na
santidade é impossível por meio do nosso próprio esforço. Mas o que é impossível
para o homem é possível para Deus. A graça que nos justifica é mais do que mera
limpeza legal; ela também nos santifica, “ensinando-nos para que, renunciando à
impiedade e às paixões mundanas, vivamos neste mundo de maneira sóbria, justa e
piedosa” (Tt 2.12) Busque a graça de Deus através da sua Palavra, através da oração,
dos sacramentos e da comunhão no corpo de Cristo, agarrando-se à promessa de que “o
pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da
graça” (Rm 6.14).
Em quinto e último lugar, tornar Jesus o centro da sua vida significa pedir
diariamente a Deus pela graça da humildade. O orgulho é a fonte da qual todos os
pecados emanam. O orgulho é a mentira de que nós não precisamos da graça. No
entanto, a pobreza de espírito é o ponto de partida da herança do reino dos céus (Mt
5.1-3). Pobreza de espírito é concordar com o Espírito Santo em que não trazemos
nada, exceto pecado, diante de Deus. Nós não temos nada a recomendar sobre nós. Nós
precisamos da graça. Isso é humildade. Os humildes verão a Deus. Os humildes verão a
pureza de Deus. Os humildes são feitos à semelhança de Deus quando o adoram. E os
humildes experimentam uma mudança em sua vida.
Devemos nos esforçar para ter uma vida integrada ao evangelho, onde o
evangelho seja mais do que um conjunto de crenças — seja um estilo de vida. Sem
dúvida, essa é a nossa melhor defesa contra o pecado sexual. Dito isso, estamos agora
preparados para voltar nossa atenção a algumas outras áreas da vida às quais quase
todo homem e toda mulher preocupados com a pureza devem dar atenção.

MODÉSTIA NO VESTIR

É indiscutível que nossa sociedade tem cada vez mais sexualizado as roupas
femininas. Muitas roupas femininas hoje em dia têm o propósito de destacar — e em
certo sentido mostrar — a sexualidade da mulher. Dadas as tendências da moda
contemporânea, a modéstia não existirá se não o for intencionalmente. Nós, homens,
precisamos, é claro, desenvolver uma fortaleza interna necessária para navegar nessa
cultura sexualmente carregada. E pela graça de Deus nós podemos. Mas certamente
apreciamos quando uma mulher tem o cuidado de se vestir de uma forma que honre a si
mesma e os homens ao redor.
Assim, mulheres, uma forma de vocês poderem ajudar o corpo de Cristo a lutar
pela pureza é pensarem cuidadosamente na forma como se vestem. Modéstia não
significa vestir-se como freira nem parecer que acabou de sair do metrô superlotado. A
modéstia e a beleza podem andar de mãos dadas. De fato, algumas mulheres são
simplesmente bonitas. Você poderia colocá-las num barril, mas elas continuariam
deslumbrantes. Nós estamos, em vez disso, falando de se evitar roupas que foram
projetadas para realçar a sexualidade de uma mulher.
Uma palavra-chave a considerar é sedução. Ao comprar roupas, você costuma
ir deliberadamente atrás daquelas que são especificamente projetadas para atrair a
atenção dos homens? Você é motivada pelo desejo de ser sexy? Tem um homem
específico em mente que você tenta seduzir? Se for esse o caso, pense duas vezes. Não
estamos tentando ser legalistas aqui, mas querendo que você dê mais importância a
zelar pela imagem de Deus dentro de si do que a atrair homens. Portanto, esteja ciente
das suas motivações.
Claro, os estilos mudam. O que era imodesto há 50 anos pode ser considerado
agora modesto, dado o nosso contexto cultural. Nós reconhecemos as sutilezas do estilo
e o fato de que, até certo ponto, a modéstia pode ser um alvo em movimento. Se você
tem certa dificuldade para decifrar se uma roupa específica é imodesta ou se costuma
se vestir de forma apropriada, peça ajuda a uma mulher mais velha e piedosa. Pergunte
o que ela pensa sobre como você se veste. Peça para ela ver seu guarda-roupa com
você. Senhoras, talvez essa pudesse ser uma boa hora para vocês fazerem um
levantamento do seu guarda-roupa e orar sobre uma eventual mudança em certos tipos
de roupa. Abaixo, seguem algumas questões úteis para começarem a refletir sobre como
se vestem.

Será que a minha roupa chama atenção demais para a minha sexualidade?
Será que a minha roupa ajuda a proteger a imagem de Deus em mim?
Usar esta roupa específica contradiz meu comprometimento verbal com a
pureza sexual?
Será que esta roupa específica não tornará difícil a mim ou àqueles ao meu
redor “não despertar ou provocar o amor” antes da hora certa?

ENTRETENIMENTO

A mídia pode ser uma área significativa de tentação sexual. Mídia, no sentido
literal do termo, é o instrumento ou meio de disseminação ou expressão de alguma
coisa. Muito do que a mídia contemporânea dissemina vale a pena e é bom. Mas muita
coisa não. Um bom discernimento nas suas escolhas de mídia lhe será de grande
utilidade para manter a pureza com o sexo oposto. Claro, sempre haverá debate (entre
vocês, tipos sofisticados, sem dúvida) sobre arte versus pornografia, ou sobre até que
ponto o conteúdo sexual de um filme no cinema pode ter um papel adequado na
comunicação de um retrato realista da “vida como ela é”. Nós compreendemos isso.
Mas pedimos que você dê mais importância para sua integridade moral do que para sua
sofisticação cultural e intelectual. Talvez estejamos soando como um pastor de jovens
batista xiita; mas seguidas vezes temos aconselhado jovens que aparentemente não
conseguem fazer uma conexão lógica entre o material erótico a que se expõem na mídia
e a incapacidade deles de manter limites sexuais adequados com o sexo oposto.
Façamos uma pausa para considerar três dos mais poderosos tipos de mídia:
música, televisão e cinema.

Música

Nossa cultura tem substituído a imagem de Deus pela da humanidade, e isso é


amiúde facilmente visto na indústria da música secular. Não é preciso ouvir uma rádio
por muito tempo para perceber a idolatria para com os relacionamentos românticos.
Recentemente, eu (Gerald) ouvi um homem expressar numa música romântica sua
profunda necessidade de uma mulher, assegurando-lhe que se ele tivesse seu amor, a
vida dele teria propósito e significado. Ele não temeria a morte, pois saberia que ela
estaria ao seu lado. Ele chegava ao ponto de confessar que não era nada sem ela, e que
o amor dela o havia restaurado.
De imediato, deveria chamar nossa atenção que um cristão não poderia
verdadeiramente cantar essas palavras para alguém outro que não o próprio Deus. O
propósito do relacionamento entre um homem e uma mulher é ser uma imagem do
relacionamento entre Deus e seu povo, mas o mundo tem permitido a imagem eclipsar o
sentido real disso.
Se escutarmos atentamente a letra de muitas músicas contemporâneas, veremos
que muitas delas não falam de amor e romance de uma forma consistente com a imagem
de Cristo e a igreja. Os cantores estão adorando um ao outro ao invés de Deus. Até
mesmo canções simples de amor sem natureza explicitamente sexual são amiúde
contrárias à imagem que Deus quer ver mostrada através da nossa vida romântica. E
certamente, músicas que celebram o sexo antes do casamento e o comportamento
licencioso não têm, obviamente, espaço na vida de um cristão.
Se não tivermos cuidado, a mensagem dessas músicas não só será implantada
em nossa mente, como também ficará sutilmente embutida em nosso coração. Se
diuturnamente ficarmos impensadamente enchendo nossa mente de mensagens
inconsistentes com o ideal de Deus, provavelmente seremos negativamente
influenciados por elas. As mensagens de muitas músicas são contrárias a uma vida de
pureza romântica e sexual. Será que temos refletido com suficiente cuidado na
mensagem das músicas que ouvimos?

Cinema e televisão

Em nossa cultura contemporânea, o conteúdo sexual gráfico de muitos


programas de televisão e filmes é notável no seu alcance. Alguém poderia se perguntar
o que aconteceu com o nosso senso nacional de vergonha. Lamentavelmente, nós
desaprendemos a nos ruborizar. E a despeito de a violência como entretenimento
também aumentar na nossa cultura, o sexo e a nudez na tela são, na nossa mente, mais
contrários ao ideal de Deus do que a violência gratuita. A violência na tela é um faz de
conta. O sexo na tela é real.
A violência que vemos na tela é uma representação. Ninguém está sendo
realmente mutilado ou morto. Mas a nudez na tela é algo diferente. Quando vemos
atores nus ou seminus, eles não estão apenas fingindo. Eles realmente estão nus ou
seminus. Da mesma forma, quando vemos uma cena explícita de sexo, os atores não
estão apenas fingindo se beijar e se acariciar; eles realmente estão se beijando e se
acariciando.
É impossível ver essas atividades e se justificar dizendo que é o que
simplesmente aparece na tela. Se alguém sentasse num quarto para ver um casal fazendo
amor, mesmo com a permissão deles, chamaríamos essa pessoa de voyeur e acharíamos
que está agindo errado. Mas seria menos errado se o casal aparecesse na tela do
cinema ou da televisão?
E além das cenas explícitas de sexo, muitos filmes e programas são a tal ponto
ligados a conteúdo sexual (na maneira como os atores se vestem, falam, etc.) que seria
impossível descartar o conteúdo inapropriado sem perder com isso metade do filme.
Nosso desejo de evitar assistir a tais filmes não é de simplesmente evitar a luxúria, mas
de ter respeito pela imagem de Deus que reside nos atores. Muito embora eles não
respeitem a sexualidade deles, nosso respeito por Cristo nos deve levar a respeitá-la.
Assim como respeitosamente desviaríamos o olhar de uma mulher cuja blusa
acidentalmente se rasgou, nós deveríamos desviar o olhar de um homem ou de uma
mulher que decide se expor na tela. Em última análise, o que valorizamos em ambos os
casos é a imagem de Deus que reside na sexualidade da pessoa. Como cristãos,
devemos pensar cuidadosamente sobre os limites do nosso entretenimento.
Conteúdo sexual gráfico à parte, talvez seja um tanto simplista restringir nossa
visão tendo como base unicamente se determinado programa ou filme inclui, ou não,
cenas de sexo. Conforme já observamos no caso da música, uma mensagem é
transmitida em cada filme e programa de televisão. Até agora, sitcoms[24] que passam
à noite não têm mostrado nudez completa. Contudo, muitos programas seguidamente
retratam a sexualidade de uma forma inconsistente com o ideal de Deus. Devemos ser
muito cuidadosos para não permitir que o nosso desejo de nos divertir esteja acima do
desejo de crescer em nossa sensibilidade para com a verdade de Deus.
É interessante o que acontece quando você se torna pai. De uma hora para outra,
a forma como você dirige, seu humor e a mídia que você aceita na sua vida mudam por
completo. Por quê? Porque agora você tem pequenos ouvidos, olhos e coração em sua
casa. Mesmo quando a criança não está por perto, você age com um novo nível de
cuidado e discernimento. Você pensa consigo: O que significará se meu filho souber
que assisti a isso, ouvi isso ou dei valor a isso? Se precisamos restringir nossa vida
assim que passamos a ter a responsabilidade de um filho nos ombros, pensamos, isso
deve sugerir alguma coisa. Talvez pensar como pai antes mesmo de ser pai seja uma
forma de ajudá-lo a pensar sobre que tipos de mídia você aceita em sua vida. Abaixo
seguem algumas questões úteis para orientar sua reflexão sobre opções de mídia que
honrem a Deus.

Será que estou disposto a fazer sacrifícios em prol da minha pureza, ainda
que isso signifique abrir mão das minhas músicas, filmes ou programas de
televisão favoritos?
Quais benefícios irei obter por assistir a tais programas ou filmes ou ouvir
tais músicas?
Que potenciais armadilhas para a minha pureza sexual eu poderia encontrar
se ouvisse tais músicas ou assistisse a tais programas ou filmes?
Será que tais músicas, filmes ou programas não vão atrapalhar meus
esforços de não “atiçar ou despertar o amor” antes da hora certa?
Será que tais músicas, filmes ou programas não estão criando em mim
expectativas erradas sobre o relacionamento com o sexo oposto?

A INTERNET

Escolhemos abordar a internet em separado porque ela se tornou uma realidade


de mídia independente. De fato, filmes, televisão e música são cada vez mais
absorvidos pela internet. Não estamos muito longe de um mundo em que um dispositivo
com várias aplicações irá conter toda a nossa realidade de mídia. Um acesso a todas as
informações está se abrindo a todos, em todos os lugares na maioria das novas
tecnologias num ritmo extraordinário. Em breve seu forno será mais esperto do que seu
computador atual.
A internet tem permitido alguns avanços realmente incríveis, da pesquisa, da
velocidade de acesso a recursos de estudo da Bíblia. Se o seu pastor não é capaz de
pregar num certo domingo pela manhã, não se preocupe; uma rápida pesquisa na
internet lhe dará Martyn Lloyd-Jones para tapar o buraco. Mas além de nos ligar à
imensidão de informações úteis na velocidade da luz, a internet também abriu uma
janela para o inferno. A maior parte da pornografia hoje é acessada pela internet,
permitindo-nos evitar a vergonha e o constrangimento de comprar pornografia em
papel. E a internet fica à caça daqueles de nós que não estão em busca de problemas.
Anunciantes ativamente correm atrás do usuário, frequentemente rastreando nosso
histórico de pesquisas para ajudar a nos categorizar e rotular. Isso é bastante benigno se
estamos falando de meias. Mas é absolutamente maligno quando o assunto é pornografia
e as presas são pessoas jovens, até mesmo crianças.
Nós poderíamos arrolar uma lista de formas de ajudá-lo a permanecer puro no
domínio cada vez mais inevitável da internet. Existem muitos outros livros e sítios da
internet que podem listar, explicar e recomendar redes de segurança como filtros e
programas de rastreamento.[25] Por favor, utilize esses recursos. Mas você precisará
mais que uma cobertura externa para preservar sua pureza na internet. Se a única
muralha que você tem é uma peça inanimada de tecnologia, você eventualmente irá
contemporizar. Simplesmente há muito lixo lá fora; e não existe nenhum pedaço de
tecnologia que conseguirá apanhar tudo isso. Conforme discutimos no capítulo 5, você
precisará desenvolver alguma fortaleza interna. E isso só virá através de uma real
mudança de coração. Encontre alguém para orar com você, para encorajá-lo e mantê-lo
responsável. E então suplique a Deus para mudar você de dentro para fora. Esteja
disposto a tomar quaisquer medidas necessárias para encarnar a graça de Deus —
mesmo que isso signifique se desplugar por completo.
Torne o evangelho central no seu uso da internet. Se seu olho direito o faz
tropeçar nessa área, e a responsabilidade e o software de proteção não o estão
ajudando, arranque-o fora! Viva sem internet e peça a amigos para utilizá-la por você
se algum dia vir a precisar. Ataque o problema com seriedade, seriedade comprada
com sangue. Viva uma vida integral — viva na integridade da pureza!
Abaixo estão algumas questões a considerar sobre como você usa a internet.

Com que frequência eu me vejo olhando coisas que me fazem tropeçar na


área da pureza sexual?
Será que tenho adequadamente pensado se realmente preciso ter acesso à
internet? Preciso dela para o trabalho? Preciso tê-la em casa?
Eu já estabeleci limites adequados para quanto tempo gasto na internet?
Será que preciso instalar softwares de filtro e/ou rastreamento nos
computadores que utilizo? Caso sim, já os tenho?
Há alguma pessoa para a qual presto contas do meu uso da internet?
Os computadores em casa ou no trabalho estão instalados em lugares que
mais provavelmente desencorajam seu uso indevido?

MASTURBAÇÃO

Há várias opiniões entre os cristãos sobre a questão da masturbação. Em geral,


não há muitos cristãos que advogam agressivamente em favor da masturbação. Há
muitos que são fortemente contrários a ela, e muitos que a veem como uma atividade
bastante benigna. A questão passa a ser então: existe liberdade para um homem ou
mulher solteiros usarem a masturbação como um meio normal de liberação sexual?
Aqueles que são mais abertos à masturbação argumentam que, quando usada
com moderação, a masturbação pode proporcionar uma liberação sexual sem se tornar
viciante, que a luxúria pecaminosa não precisa acompanhar a masturbação, e que a
masturbação pode prevenir contra a luxúria pecaminosa na medida em que impede o
acúmulo de vontade sexual. E talvez mais significativamente, aqueles que são abertos à
masturbação argumentam que a Bíblia não é clara o bastante sobre o assunto para
sermos dogmáticos em declarar que ela é pecado. Aqueles que argumentam contra a
masturbação tendem a focar a caixa de Pandora que se abre com a masturbação — que
a luxúria pecaminosa no mais das vezes (se não sempre) acompanha o ato da
masturbação, que ela muitas vezes leva a um comportamento frequente e viciante, que
ela pode aprofundar e acender um ciclo de luxúria e pecado, e que ela abranda o
chamado bíblico para o autocontrole.
Nós não queremos entrar num debate farisaico. E reconhecemos que a Bíblia
não é explícita sobre a questão. Tendo dito isso, nos inclinamos à ala do “é melhor não
ir por aí”. Uma série de fatores nos inclinam nesse sentido.
Primeiro, a masturbação geralmente nasce a partir de pensamentos e desejos
lascivos. Quando a masturbação é feita dentro desse contexto, está claramente
desagradando a Deus. Mas o verdadeiro pecado aqui é o pecado da luxúria que dá
origem à, e é aumentado pela, autogratificação. Como mencionado antes, precisamos
aprender a canalizar e controlar nosso apetite sexual e não despertar e expressá-lo fora
do relacionamento conjugal. A masturbação não ajuda a fomentar um senso de
autocontrole, mas faz um curto-circuito no processo pelo qual aprendemos a dominar e
controlar nossas paixões.
Em segundo lugar, a masturbação é pecaminosa quando se torna uma forma de
vício sexual, uma maneira de lidar com um sentimento de insatisfação na vida. Não
podemos existir como um vácuo. Somos criaturas finitas que anseiam ser preenchidas, e
faz parte da nossa natureza buscar incansavelmente um alívio. Quando não somos
preenchidos com o próprio Cristo, buscamos nos preencher de outras coisas. Para
muitas pessoas, a masturbação fornece um senso imediato de alívio para essa sensação
de desejo insatisfeito. Mas o alívio que ela traz é apenas temporário. Uma dependência
prolongada da masturbação pode servir como um indicador de que algo está faltando na
nossa vida. Em última análise, todos os pecados são sintomáticos de um problema mais
profundo. O vício com a masturbação não é diferente. A pessoa viciada em
masturbação busca satisfazer necessidades relacionais profundas que só podem ser
satisfeitas em Deus. Se você estivesse viciado em masturbação, seu problema estaria
além desse comportamento. Pouco adiantaria você simplesmente dizer a si mesmo que
iria parar (como, sem dúvida, já teria percebido). Em vez disso, você teria de se
empenhar para ter um relacionamento significativo com Cristo que afastasse o desejo
de buscar satisfação em coisas que não podem realmente satisfazer.
Finalmente, e talvez o mais importante, a masturbação não se encaixa bem com
a imagem de Cristo e da igreja que Deus pretende ver retratada em nossa sexualidade.
Como observamos no capítulo 1, Deus ordenou a unicidade física do relacionamento
sexual para representar a unicidade espiritual da união de Cristo com a igreja. Como
um tipo, então, a masturbação está aquém dessa realidade, pois é um ato que é
desprovido de relacionamento. Ela usa o sexo como um meio de autogratificação à
parte da gratificação do outro. É uma relação inerentemente autocentrada. A atividade
sexual nesses moldes não pode servir como um tipo terreno da realidade celestial. Usar
a nossa sexualidade à parte do contexto em que Deus a criou é usá-la de maneira
inadequada. A masturbação jamais pode satisfazer sexual ou espiritualmente, pois não
encontra seu significado na realidade superior de Cristo e da igreja.
Se você sucumbe nessa área, significa que sua vida acabou? Não. Essa é uma
área que pode causar muita culpa doentia. Nós certamente não queremos pregar a lei
aqui. Mas como pastores que amam o povo de Deus, queremos ajudá-lo a ter uma
sexualidade saudável, centrada em Deus. Portanto, não fique chafurdando na culpa, mas
também não seja indiferente ou acrítico sobre esse assunto.

FLERTE

Flerte é uma forma universalmente aceita de interação entre os sexos. Mesmo


em desenhos animados infantis como Aladim, a linda princesa bater seus esquisitos e
longos cílios para Aladim é algo trivial. Até mesmo em Bambi há flerte! Mas antes que
proteste e pense que agora oficialmente estamos sendo bem cafonas com você, continue
lendo. Não estamos sugerindo que não há espaço para uma dança de interação
romântica entre duas pessoas mutuamente atraídas. Parte de uma amizade especial terá
esse elemento. Mas todos nós sabemos de homens e mulheres que parecem incapazes de
se relacionar com o sexo oposto sem também flertar. O que queremos alertar é contra
uma cultura de galanteio onde o flerte se torna um meio normal e frequente de se
relacionar com o sexo oposto, independentemente da sinceridade — flerte em série, se
aceita chamarmos assim. Galanteadores seriais não só flertam com frequência, como
também flertam com dezenas de pessoas diferentes. A seguir está uma série de razões
por que rejeitamos a cultura do flerte serial tão prevalente entre os solteiros.
Em primeiro lugar, o flerte serial não é sincero. Existem formas saudáveis, que
honram a Deus, de tornar seus sentimentos conhecidos a alguém do sexo oposto. Não é
preciso adotar uma postura passiva sob o pretexto de pureza. (Se você é passivo, mais
provavelmente é apenas um covarde). Mas você se deixar conduzir de uma forma que
chame ou desperte a atenção sexual de cada membro do sexo oposto que encontra não é
algo que faz com vistas ao amor e à pureza. Sinceridade e flerte serial não andam de
mãos dadas.
Em segundo lugar, o flerte serial anda na contramão da monogamia que é mais
tarde exigida no casamento cristão. O flerte serial é uma forma de distribuir
prematuramente sua sexualidade a múltiplos parceiros. Toda essa forma de se
relacionar com o sexo oposto é incrivelmente ofensiva à monogamia retratada pelo
evangelho. Os galanteadores seriais frequentemente acham muito difícil deixar de se
relacionar com o sexo oposto dessa maneira mesmo depois de casados. Essa é uma
receita para o desastre e um profundo ponto de apoio para o diabo.
Em terceiro lugar, o flerte serial frequentemente atrai de forma irresponsável a
sinceridade de atração de outra pessoa. O galanteador pode se dar conta disso, ou não;
e continua a flertar, atraindo a pessoa cada vez mais, sujeitando-a a um futuro
sofrimento e decepção. Mas como costuma acontecer na maior parte dos casos, o
galanteador serial sabe muito bem o que está fazendo — atordoando a outra pessoa
como um marlim azul, vendo-a apenas como mais um troféu de caça. Agir assim é uma
terrível falta de amor; entretanto, nós testemunhamos cristãos solteiros fazerem isso o
tempo todo. Flertar com qualquer um ou com todo mundo não passa então de um jogo de
poder e uma busca egoísta por autoestima à custa dos outros.
Em quarto lugar, como mencionado acima, o flerte serial é muitas vezes fruto da
insegurança. O galanteador serial esquece (ou talvez nunca aprendeu) que Cristo é
suficiente para todas as necessidades. A conexão entre a pureza e o evangelho deveria
estar clara aqui. Quando alguém não está seguro no amor de Cristo, frequentemente usa
o flerte como um meio de alcançar um senso de valor e propósito através da interação
sexualizada com o sexo oposto.

CONCLUSÃO
Deus lhe chama para a pureza em cada área de sua vida. Se você leva a sério a
manutenção de limites sexuais apropriados numa amizade especial, terá de levar a sério
a manutenção da pureza em cada área de sua vida. Nós sabemos que muitos dos tópicos
que cobrimos neste capítulo não são novos. Mas esperamos tê-los conectado a um
retrato holístico da pureza. Esforce-se para agradar ao Senhor com toda a sua vida.
Sabemos que você não irá se decepcionar.

PERGUNTAS PARA DISCUSSÃO

1) Quais tópicos abordados neste capítulo mais chamaram sua atenção como áreas em
sua vida que precisam ser realinhadas?
2) Quais etapas de ação prática você precisa colocar em ação para promover um
crescimento nessas áreas?
3) Há outras áreas em sua vida, além da sexualidade, em que você tende a
contemporizar? Como ter essas áreas em ordem poderia ajudá-lo a colocar em ordem
sua sexualidade?
UMA VISÃO DO CELIBATO
CENTRADA EM DEUS
De modo que, quem se casa com sua noiva faz bem;
mas quem não se casa faz melhor.
O A P Ó ST O L O PA U L O ( 1 C O 7 . 3 8 )

Se você tem acompanhado o argumento deste livro, a seguinte declaração


sumária deverá estar clara: as pessoas solteiras são chamadas ao celibato. Não um
celibato parcial, mas completo. Baseamos essa declaração nos ensinos explícitos da
Escritura (1Co 7.1-9; 1Tm 5.2), bem como na forma como a Escritura revela a relação
tipológica entre a sexualidade humana e o evangelho (Ef 5.21-33). A união espiritual
íntima e exclusiva de Deus com a igreja é tornada conhecida na, e através da, união
sexual íntima e exclusiva do casamento; assim, a sexualidade deve ser reservada
exclusivamente para o casamento como um retrato dessa união espiritual superior.
Mas o que você faz com tudo isso se o casamento lhe parece uma possibilidade
cada vez mais remota? E se potenciais cônjuges estão se tornando raros como o condor
da Califórnia? Sem dúvida, muitos de nossos leitores gostariam de estar casados, mas
qualquer que seja o motivo, Deus na sua providência não lhes deu um cônjuge. O
sentimento de carência e sofrimento que muitos solteiros sentem é algo com que só
outros solteiros podem realmente se identificar. Como disse Salomão, “Cada coração
conhece a sua própria amargura, e não há quem possa partilhar sua alegria” (Pv 14.10).
Nós não temos nenhuma pretensão de entender em primeira mão a solidão e o
sofrimento do celibato indesejado. Mas queremos dar o nosso melhor para fornecer
uma orientação pastoral nessa área. A graça de Deus é profunda o bastante para cada
tipo de dor, inclusive (em especial) a dor infligida pela providência.
Ao iniciar nossa discussão sobre o celibato, precisamos desfazer a ideia de que
o celibato é sempre uma tragédia. Nossa cultura evangélica geralmente pensa no
celibato como uma condição não almejada. De fato, em muitos aspectos uma pessoa só
pode ser classificada como solteira depois de uma certa idade. Quando você é solteiro
e está na casa dos vinte, é considerado um adulto jovem. Mas se estando na casa dos
trinta você ainda não está casado, é oficialmente rotulado como solteiro. Muitos temem
pensar nisso; para muitos esse é o Vale da Morte da felicidade relacional.
Mas essa perspectiva é consistente com o que a Escritura ensina sobre o
celibato? De modo algum. Como já veremos, o Novo Testamento tem muito a dizer
sobre o celibato. Existem dois tipos distintos de solteiro — aqueles que são solteiros
por opção e aqueles que não o são. A Palavra de Deus tem algo a dizer para os dois
grupos. Mais: a Palavra de Deus tem algo a dizer para aqueles que não se consideram
pertencentes a nenhum dos grupos. Quem sabe Deus o(a) esteja chamando para o
celibato. “Não”, você diz? Mas você perguntou isso a ele? Se não, continue lendo.

SOLTEIRO POR OPÇÃO

Sem dúvida a passagem mais importante da Bíblia sobre o celibato é 1


Coríntios 7.25-40. É uma longa passagem, mas se você nunca a leu antes, é hora de
fazê-lo. Tome um momento para considerar o que o apóstolo Paulo, sob a inspiração do
Espírito Santo, tem a dizer sobre o celibato.

Quanto aos solteiros, não tenho mandamento do Senhor. Dou, porém, o meu parecer,
como alguém que, pela misericórdia do Senhor, tem sido fiel. Considero, pois, que é bom,
por causa da dificuldade do momento, que a pessoa permaneça em sua atual condição.
Estás casado? Não procures separação. Estás solteiro? Não procures casamento. Mas,
se te casares, não pecaste. E, se uma virgem se casar, também não pecou. Entretanto,
os que se casam enfrentarão dificuldades na vida terrena; e eu gostaria de poupar-vos.
Irmãos, digo-vos, porém, isto: O tempo se abrevia. Assim, os que têm mulher vivam
como se não tivessem; os que choram, como se não chorassem; os que se alegram,
como se não se alegrassem; os que compram, como se nada possuíssem; e os que usam
as coisas deste mundo, como se dele nada usassem, porque a forma deste mundo passa.
Pois quero que estejais livres de preocupações. Quem não é casado se ocupa das coisas
do Senhor e de como irá agradá-lo. Mas quem é casado se ocupa das coisas do mundo e
de como irá agradar sua mulher; e fica dividido. A mulher que não é casada e a virgem
se ocupam das coisas do Senhor para serem santas, tanto no corpo como no espírito. A
mulher casada, porém, ocupa-se das coisas do mundo e de como irá agradar o marido. E
digo isso para o vosso benefício, não para vos limitar, mas para que vos dediqueis ao
Senhor naquilo que é honroso, sem distração alguma. Mas, se alguém julgar que está
agindo de forma desonrosa para com sua noiva, se ela estiver passando da idade de se
casar, e se for necessário, faça o que quiser. Ele não peca por isso; que se casem.
Entretanto, quem está firme no coração, não tendo necessidade, mas domínio sobre a
própria vontade, se resolver no coração não se casar com sua noiva, fará bem. De modo
que, quem se casa com sua noiva faz bem; mas quem não se casa faz melhor. A mulher
está ligada ao marido enquanto ele vive. Mas se o marido morrer, ela ficará livre para se
casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor. Contudo, segundo meu parecer, ela
será mais feliz se permanecer como está. E penso que também tenho o Espírito de
Deus.

As palavras de Paulo aqui tendem a ser uma parte da Bíblia que muitos
solteiros que almejam se casar preferem pular. Mas todos nós precisamos considerar
cuidadosamente o que Paulo diz aqui. Ele não está denegrindo o casamento. Lembre-se,
ele é o mesmo homem que nos mostrou que o casamento é designado para ser uma
imagem do relacionamento de Jesus com a igreja. Mas aqui, na passagem de Coríntios,
Paulo está colocando o casamento no devido contexto. Ele está nos lembrando de que o
casamento é apenas um tipo e sombra, um retrato de uma realidade superior. O
casamento entre um homem e uma mulher é penúltimo: o casamento com Cristo é
último. Por mais elevado que o conceito de Paulo sobre o casamento humano seja (e de
fato é), ainda mais elevado é seu conceito do que o casamento representa — a saber, o
evangelho. Existe, assim, um chamado do evangelho que é ainda mais elevado do que o
casamento — o chamado ao celibato para o avanço do evangelho.
Note em particular como a consciência paulina dos tempos influencia sua
perspectiva sobre o casamento e o celibato (vv. 29-31). A época em que vivemos está
cheia de urgência pelo evangelho. E ninguém sabe quando isso terminará. Paulo quer
que vivamos à luz da realidade do retorno iminente do Senhor. O evangelho precisa
avançar, as nações devem conhecê-lo e a hora se aproxima cada vez mais. Assim, diz o
apóstolo, nós devemos viajar com calma. Paulo sabe que um casamento toma energia,
tempo e recursos materiais. De fato, se bem conduzido, toma a vida da pessoa. Mas
isso significa que há menos energia, tempo e recursos para dedicar de forma mais
direta, nesta era, a viver estrategicamente em dedicação ao Senhor (vv. 32-35).
Se a passagem de Coríntios é lida à parte dos comentários paulinos sobre o
casamento feitos em outro lugar, pode-se equivocadamente concluir que ele tem um
conceito baixo sobre o casamento. Mas seu ponto aqui não é que o casamento
compromete a relação de uma pessoa com Cristo. Antes, Paulo está simplesmente
constatando a realidade de que o casamento e a família absorvem tempo e energia que
poderiam ser gastos na realização da Grande Comissão. Claro, o casamento e a
paternidade, se exercidos debaixo da soberania do senhorio de Cristo, são eles
próprios atividades da Grande Comissão. Mas o tipo de atividade da Grande Comissão
a que Paulo se refere aqui é o tipo em que ele mesmo se envolveu — de um missionário
itinerante que é livre para viajar aonde o evangelho mais precise ser ouvido. O
casamento e a família não permitem esse tipo de flexibilidade. Não é coincidência que
Paulo, um apóstolo celibatário, tenha feito mais para avançar a causa de Cristo por todo
o Império Romano do que qualquer outro apóstolo.
Além do investimento de tempo no casamento, as preocupações temporais que
inevitavelmente acompanham a vida familiar também afastam as pessoas casadas de
uma perspectiva eterna. Aqueles que são casados sabem exatamente do que estamos
falando. E para aqueles de nós no ministério, é um exercício de equilíbrio tentarmos
nos entregar totalmente à obra do evangelho sem sacrificar os filhos e o cônjuge (e
vice-versa). Paulo está desafiando seus leitores a pensar cuidadosamente sobre a
possibilidade de aliviarem essa tensão abandonando o casamento pela causa do avanço
do evangelho.
O resultado é que a Palavra de Deus recomenda aqui o celibato como um estilo
de vida preferido e não simplesmente como um plano de emergência para o caso de as
esperanças de alguém casar não se concretizarem. O celibato pela causa do evangelho
não é uma condição inferior. De fato, se escolhido por motivos piedosos, o celibato é
valioso, estratégico e louvável. Esse é um ensino radical, até mesmo para os padrões
bíblicos. No Antigo Testamento, até Cristo vir, o celibato (e, portanto, a esterilidade)
era considerado uma maldição, especialmente para a mulher. Mas na nova aliança, o
celibato não só é aceitável, como é também uma condição abençoada da existência,
onde Cristo é honrado como o noivo definitivo e os filhos espirituais são produzidos
como a descendência do pacto por meio do discipulado.[26] Se o que Paulo está
dizendo é verdade (e é!), o celibato deveria ser algo que todo cristão solteiro deveria
considerar em oração como uma forma de servir a Cristo.

SOLTEIRO POR DOM

Há, contudo, uma ressalva a tudo isso. O celibato, reconhece Paulo, não é para
todos. Aqueles que “ardem” com um forte desejo por intimidade sexual não devem
tentar um estilo de vida celibatário (1Co 7.9). É melhor que essas pessoas se casem e
satisfaçam suas paixões sexuais no âmbito legítimo do casamento. “Gostaria que todos
os homens fossem como eu [celibatários]”, diz Paulo aos coríntios. “… mas cada um
tem o seu próprio dom da parte de Deus; um de um modo, outro de outro” (v. 7). É
melhor permanecer solteiro pela causa do ministério do evangelho, diz Paulo; mas
apenas se suas paixões sexuais estão sob o controle de um dom especial.
Frequentemente ouvimos pessoas falarem sobre o “dom do celibato”
especificamente em referência a essa passagem. Mas contrariamente à forma como é
muitas vezes afirmado, o celibato em si não é um dom. Antes, o dom do celibato é a
capacidade de ser solteiro e não ficar incomodado com isso. Nenhum de nós dois (os
autores) tem esse dom, e assim não podemos realmente lhe falar por experiência
própria como é isso. Mas se você tem o dom, sabe como é. Suas paixões sexuais,
embora não completamente dormentes, não guiam sua vida da mesma forma que
acontece com seus outros amigos solteiros. Talvez você queira se casar, mas poderia
viver contente se não tivesse um cônjuge. O desejo sexual ilícito nunca foi uma luta
importante na sua vida. Isso, acreditamos, é um dom raro e especial — uma capacidade
divinamente dada de viver feliz sem a companhia e a gratificação sexual do casamento.
Se você tem esse dom, precisa pensar cuidadosamente sobre o que faz com ele. Você
pode usá-lo para o ministério do evangelho, ou pode usá-lo como um meio de servir a
si próprio.
Muitos hoje, mesmo dentro dos círculos evangélicos, têm evitado o casamento
por motivos pouco nobres. Essas pessoas não querem gastar tempo, energia e recursos
materiais com as demandas do casamento. Elas querem uma vida despreocupada, com
ampla liberdade para ir e vir conforme lhes apraz. Sua rejeição do casamento não é
para favorecer a causa do evangelho, mas para os próprios fins egoístas delas. O
celibato em favor do ego não receberá nenhum louvor de Deus. O celibato pela causa
de Cristo será ricamente recompensado. Assim, ao considerar o celibato, você deve vê-
lo como um caminho de abnegação em prol da glória de Deus. A vida do discipulado
radical é dura, não importa o caminho que você siga.
Qual caminho você sente que Deus o está chamando a trilhar? Como pastores,
achamos muito encorajador ver solteiros em nossas igrejas fazendo uso sábio do
celibato. Eles veem seu celibato como uma oportunidade de servir a Cristo, e usam-no
bem para a glória de Deus. Eles estão envolvidos na igreja, são rápidos em se
inscrever para viagens missionárias de curto prazo e oportunidades em cultos, rápidos
em formar comunidades atuantes e produzir filhos espirituais através do discipulado.
Seu celibato não é uma maldição; é uma oportunidade. Independentemente de o
casamento ser algo pelo qual esperam, ou algo com que pouco estão preocupados, eles
usam seu estilo de vida de solteiro para servir a Jesus. Essa é a visão de Paulo.
Assim, considere o que Deus gostaria que você fizesse em sua vida. Estaria ele
o chamando para um caminho de celibato por amor ao reino de Cristo? Se você tem o
dom, considere bem como o usa.

SOLTEIRO PELA ESCOLHA DE DEUS

Mas e se você é solteiro e não tem o dom? Em quase todos os aspectos, nossa
cultura contemporânea tem tornado a vida mais desafiadora nesse sentido do que o que
os leitores da época de Paulo tinham de enfrentar. Na época do Novo Testamento, o
casamento tinha menos a ver com amor e mais com utilidade. Ele era a opção padrão
para quase todas as pessoas. Assim como ter um emprego, todo mundo se casava. E
como um emprego, algumas pessoas desfrutavam de seu casamento, enquanto outras
não. Mas isso, de qualquer modo, não importava muito. Casar era simplesmente algo
que se fazia. Seus pais encontravam para você uma garota de uma família igual à sua, e
vocês uniam laços. Talvez você não se casasse com a garota mais bonita da cidade, mas
a menos que viesse de uma família de mendigos sem nenhum status social ou fonte de
renda, o casamento era uma conclusão inevitável. Era apenas uma questão de quem e
quando. Mas não é assim que funciona hoje.
Nossa cultura tem priorizado o amor sobre a utilidade (o que não é de todo
mau), e assim alguns que teriam sido compatíveis na época do Novo Testamento não
são considerados parceiros de casamento adequados hoje. Adicionalmente, a natureza
igualitária da nossa sociedade tem dado às mulheres um lugar em nossa cultura
independente da família e do lar (de novo, algo não de todo mau). Em nossa sociedade
tecnologicamente sofisticada e relativamente segura, as mulheres já não precisam de um
marido, como acontecia no mundo antigo. Tudo isso é para dizer o seguinte: nossa
cultura tem transformado a busca por um cônjuge em algo mais desafiador, e muitas
pessoas hoje estão sendo empurradas para um modo de vida para o qual não foram
dotadas. Ser solteiro sem o dom do celibato é duro de roer.
Talvez seja onde você se encontra. Você deseja profundamente estar casado.
Você anseia muito pela parceria, intimidade conjugal, e pela união sexual do casamento.
Você quer servir ao Senhor com todo o seu ser, e quer um(a) parceiro(a) para
acompanhá-lo(a) nisso. Mas por razões que parecem estar além do seu controle, o
casamento parece uma incógnita. E você é tentado(a) a sentir amargura e desespero. Ou,
talvez, a fazer escolhas tolas. Em cada casamento que você vai, sua suspeita de que
Deus tem algo preparado para você aumenta. Sua angústia é agravada quando seus
amigos começam a ter filhos. Você tem inclusive orado para Deus ajudá-lo(a) a aceitar
o celibato, mas sem efeito.
Como dito no início, não queremos fazer de conta que entendemos a dor
relacional que vem do celibato indesejado. Mas sabemos o que significa viver com
desejos não realizados. Ninguém passa a vida recebendo tudo o que quer, e sem dúvida
nós não somos uma exceção à regra. E se há uma coisa que temos aprendido das
decepções é que a paz vem somente quando reconhecemos a soberania de Deus. Ao
invés de ver seu celibato indesejado como uma má sorte ou punição divina, nós o
encorajamos a vê-lo como um jejum divinamente designado, que é dado para sua
benção.

CELIBATO COMO JEJUM

O jejum de comida é um meio biblicamente designado para elevar nosso senso


de dependência do Senhor. Em muitos aspectos, o jejum serve muito à mesma
finalidade de quando fechamos nossos olhos e curvamos nossa cabeça ao orar. Nós
fechamos nossos olhos para eliminar as distrações e curvamos nossa cabeça para
lembrar da nossa humildade perante o Senhor. Nossa postura corporal ajuda a focar o
espírito. O jejum funciona da mesma forma. A fome física que inevitavelmente surge
por causa do jejum serve como um lembrete corporal de que somos dependentes do
Senhor em cada necessidade. O jejum aumenta os nossos sentidos espirituais; ele
diminui o ruído de fundo da vida e traz à tona todas as coisas que podemos tomar por
certas. Nós nos lembramos de que precisamos de Deus a todo o momento e que somente
por sua graça é que temos nossos apetites verdadeiramente satisfeitos. Dizemos não à
comida com o propósito de que a nossa fome possa nos reorientar para Deus.
Contudo, temos apetites para mais do que comida. Alguns apetites, como fome e
sede, têm a ver com sobrevivência literal. Mas existem outros apetites que embora não
tenham a ver com vida e morte, são uma parte intrincada do que significa ser humano —
apetites por relacionamentos, significado, propósito e conforto físico (para citar apenas
alguns). Esses são apetites bons, dados por Deus. Mas nossos apetites, conquanto
legítimos, jamais podem ser plenamente satisfeitos pelas coisas terrenas. O desejo pelo
amor de um pai só pode ser verdadeiramente satisfeito pelo amor do Pai celestial. O
desejo pelo conforto físico só pode ser satisfeito na ressurreição dos mortos, quando o
perecível se tornará imperecível (1Co 15.42). O apetite por relacionamentos — o
profundo desejo de conhecer e ser conhecido — só pode ser satisfeito na comunhão dos
santos na glória, quando o corpo de Cristo será trazido para dentro da comunhão divina
da Santíssima Trindade. E o desejo de intimidade sexual entre marido e esposa só pode
ser verdadeiramente satisfeito no casamento espiritual de Cristo e sua igreja.
Nossos apetites terrenos nos lembram, mesmo quando saciados, de que temos
necessidade de algo mais, que as alegrias finitas jamais podem trazer satisfação
definitiva. Mas por vezes, o processo todo entra em curto-circuito. As boas e perfeitas
dádivas que vêm do Pai celestial, que servem para nos lembrar dele, se tornam um fim
em si mesmo. Esquecemos que há um doador por trás da dádiva; esquecemos que os
nossos apetites têm o objetivo de nos direcionar para algo maior do que o que este
mundo pode dar. E assim, de tempos em tempos, Deus fecha a torneira dos nossos
apetites para garantir que cheguemos ao ponto. Amizade é algo muito bom, mas amizade
com Deus é algo melhor. Prosperidade nesta era é algo bom, mas prosperidade na era
porvir é algo melhor. Casamento nesta era é algo bonito, mas casamento na era porvir é
algo ainda mais bonito. Assim como a fome física do jejum volta a nossa atenção para
Cristo, a negação dos nossos outros apetites também nos faz voltar para Cristo. Às
vezes Deus usa a solidão para chamar nossa atenção. Às vezes ele usa a dor física ou o
isolamento. Às vezes ele nos nega bênçãos materiais. Esses períodos de jejum
divinamente designados podem durar meses, anos ou até mesmo uma vida inteira. Mas a
chave em tudo isso é o conhecimento de que Deus procura a nossa bênção, não o nosso
mal. Deus não tira suas dádivas para nos deixar desamparados; ele tira suas dádivas
para no lugar nos dar a si próprio.
Eis o ponto pastoral: se você não tem uma teologia de jejum adequada, ficará
chateado com Deus quando ele deixar algum de seus apetites insaciado. Você pensará
que ele está querendo fazê-lo passar fome. Fome é algo ruim. É algo inútil, prejudicial
e destrutivo. Mas o jejum é algo totalmente diferente. Um jejum divinamente designado
é uma forma de Deus voltar nossa atenção para aquilo que verdadeiramente sacia — a
saber, o próprio Deus. Qual é a sua visão de Deus? Você crê que ele o está fazendo
passar fome, privando-o de algo que você precisa desesperadamente? Ou você acredita
que ele lhe designou um jejum a fim de lembrá-lo de que a verdadeira fonte de
esperança e alegria só pode ser encontrada nele?
De fato, Deus designa um jejum para cada um de seus filhos. Ele nos disciplina
porque nos ama (Hb 12.6). Se você carrega o jugo de um celibato indesejado, confie
que Deus tem algo melhor para você do que o casamento, pelo menos por ora. Ele não
sai para roubar sua alegria, mas para levá-lo até ela. Se o casamento estivesse entre os
seus maiores interesses, você estaria casado agora. Só Deus sabe a resposta de por que
você ainda está solteiro apesar de querer o contrário. Descanse na certeza de que ele
sabe a razão, em vez de tentar descobrir a razão. Deus não se esqueceu de você. O
Deus que se tornou homem, sofreu, morreu na cruz, foi sepultado e que então levantou
por você no terceiro dia é o Deus que está envolvido no, e no controle do, seu celibato.
Está envolvido na, e no controle da, sua sexualidade. Está envolvido em, e no controle
de, toda a sua vida.
Assim, se você é um solteiro infeliz, por favor lembre-se de que Deus é por
você em Cristo Jesus! Nem morte nem vida, nem qualquer outra coisa na criação —
mesmo o celibato — será capaz de separá-lo do amor de Deus que está em Cristo
Jesus, nosso Senhor (Rm 8.38-39). Sim, ele sabe que você está faminto. Sim, ele sabe
que você tem fome de algo bom. Mas ele escolheu, pelo menos por ora, não satisfazer
sua fome, e o fez por um motivo infinitamente bom — que você se volte a ele em
profunda dependência. O plano dele para você, neste momento, é seu celibato. E
embora Deus possa não lhe ter concedido o dom do celibato, sua graça é suficiente para
sustentá-lo no jejum. Deixe sua fome por intimidade conjugal voltar seu coração para o
único casamento que pode realmente satisfazer. Amigo, seu celibato pode ser
indesejado, mas se você se submeter ao jejum, ele, todavia, lhe será uma bênção.
CONCLUSÃO
E estou certo disto: aquele que começou a boa obra em vós irá aperfeiçoá-la
até o dia de Cristo Jesus.

O A P Ó ST O L O PA U L O ( F p 1 . 6 )

O tema da sexualidade está imerso em paixão e significado. Tem grande


importância para quase todo mundo. E as apostas são muito altas, não apenas no que se
refere à nossa própria felicidade, mas também no que concerne à glória e imagem de
Deus. O caminho do mundo é largo, e muitos trilham por ele. O caminho da cruz, no
entanto, é estreito, e poucos o encontram. Se você se convenceu da conexão entre a
sexualidade e a imagem de Deus e entende a necessidade de direcionar sua vida
diferentemente dos padrões do mundo, eu o exorto a permanecer firme na verdade da
Palavra de Deus. Isso não acontecerá sem um custo temporário, mas no final você
colherá bênçãos nesta vida e no porvir.
Sem dúvida, nem tudo o que escrevemos neste livro é plena sabedoria divina.
Confiamos, no entanto, que grande parte do que dissemos está bem próximo do ideal de
Deus que ele usará para socorrê-lo à medida que você se esforça para viver para Deus.

LIMITES DO RELACIONAMENTO COM O PRÓXIMO

Considerando a aplicação, reiteramos esta verdade importante: os limites do


relacionamento com o próximo são obrigatórios até o casamento. Se você está
convencido dessa verdade singular, a maior parte dos detalhes restantes acabará se
encaixando no devido lugar: o namoro, como categoria de relacionamento, deve ser
abandonado ou redefinido, os limites sexuais e românticos serão objetivamente
entendidos e o tempo e a pretensão dos relacionamentos românticos serão esclarecidos
desde o começo.
Contudo, se você vive sob a suposição equivocada de que um relacionamento
de namoro está isento do padrão bíblico de pureza absoluta, você se abre para um
mundo de subjetividades. Se vive dentro das categorias claramente definidas de
relacionamentos homem-mulher ordenados por Deus, você tem a verdade objetiva que
precisa para viver uma vida que honra a Deus.

O SEXO, O EVANGELHO E A IMAGEM DE DEUS: O PORQUÊ DOS


MANDAMENTOS DE DEUS

Se há uma mensagem que queremos mais do que nunca transmitir, é esta: o sexo
e o casamento dizem respeito ao evangelho. De fato, tudo na vida diz respeito ao
evangelho. Essa é a alegria e a esperança da humanidade. Tudo o que vemos, cada
pensamento que temos e cada ação que tomamos deve apontar-nos para um
conhecimento de Deus. E graças ao Filho de Deus, virá o dia em que este mundo inteiro
se conformará ao padrão pretendido por Deus. Viveremos num mundo que transmitirá
em todas as coisas, permanentemente, a bondade da glória e da natureza de Deus.
A sexualidade é só uma faceta dessa imagem. Na vida presente ela nos aponta
para muitos aspectos de Deus; proclama a esperança do evangelho, fala da nossa união
com Cristo e revela o objetivo da nossa salvação. Faça do viver a sua sexualidade de
forma consistente com a imagem de Cristo e a igreja o seu objetivo. Somente em Deus
há felicidade, pois ele é a essência da própria felicidade. Confie nessa felicidade, pois
só quando nossa vida é conformada à imagem dessa felicidade é que podemos conhecer
a verdadeira alegria.

A ESPERANÇA E O DESESPERO DO IDEAL DE DEUS

Finalmente, os mandamentos de Deus, particularmente aqueles no âmbito do


coração, devem quebrar nosso senso de autossuficiência. O caminho ao qual Deus nos
chama está fora do alcance do esforço humano; ele simplesmente não pode ser
alcançado à parte da assistência divina. Todavia, seus mandamentos deveriam inspirar
em nosso coração um senso de expectativa e esperança, pois revelam as alturas para as
quais Deus nos levará à medida que o tivermos em vista na fé.
Não podemos viver nossa sexualidade de uma forma agradável a Deus à parte
da graça. E essa graça é justamente o que Deus nos provê através de Cristo. Mesmo ao
terminar este livro, somos sobrecarregados novamente pelo padrão ao qual Deus nos
chama em todas as áreas da nossa vida e humilhados pelas muitas formas nas quais
parecemos sucumbir. Mas como orou Agostinho, “Concede-me o que me ordenas e
ordena-me o que quiseres”. Para o cristão, o Senhor não ordena aquilo para o que não
capacita.
Assim, se você acha a estrada muito longa, descanse tranquilo por ter
encontrado a estrada correta. Para a humanidade sozinha, essa jornada é impossível,
mas com Deus todas as coisas são possíveis. Ele se lembra da nossa estrutura, de que
somos pó. Sua misericórdia e graça são suficientes para suprir nossos fracassos ao
longo do caminho. Esforce-se de todo o coração nesse ideal, enquanto se apropria da
mesma graça que Deus lhe concedeu por meio de Cristo. E que cada um de nós possa
manter os olhos fitados nele em vez de nos nossos próprios tropeços, rumando ao
objetivo do ideal de Deus. Para o crente, a batalha já está ganha; ela só precisa ser
travada!
BIBLIOGRAFIA

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Post-Nicene Fathers of the Christian Church. Editado por Philip Schaff. Edinburgh: T&T Clark; Grand Rapids, MI:
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Willard, Dallas. The Divine Conspiracy: Rediscovering Our Hidden Life in God. San Francisco: HarperCollins,
1998.

[1] Veja Joshua Harris, I Kissed Dating Goodbye. O livro de Harris I Kissed Dating Goodbye e seu livro
subsequente, Boy Meets Girl, rejeita a cultura de namoro dominante entre os cristãos solteiros norte-americanos e
chama a um retorno à corte.
[2] Talvez o mais popular seja o livro de Jeramy Clark, I Gave Dating a Chance: A Biblical Perspective to
Balance the Extremes (Colorado Springs, CO: WaterBrook, 2000).
[3] Rob Marus, “Kissing Nonsense Goodbye”, Christianity Today, 11 de junho de 2001,
http://www.christianitytoday.com/ct/2001/june11/6.46.html?start=1.
[4] Jonathan Edwards, que via tudo da vida terrena como uma ilustração das realidades celestiais, também viu o
casamento como uma ilustração do nosso casamento espiritual com Cristo. Ele escreveu, “[Cristo está] unido a você
por uma união espiritual, tão íntima a ponto de ser apropriadamente representada pela união da esposa ao
marido, do ramo à videira, do membro à cabeça; sim, de modo a ser um só espírito” (ênfase adicionada). Cf. The
Sermons of Jonathan Edwards: A Reader, ed. Wilson H. Kimnach, Kenneth P. Minkema e Douglas A. Sweeney
(New Haven, CT: Yale University Press, 1999), p. 186. Agostinho também viu o casamento como um tipo apropriado
de Cristo e a igreja. Ele escreveu, “é de Cristo e a Igreja que isso é mais verdadeiramente entendido: ‘E eles serão
uma só carne’”. Cf. “On Forgiveness of Sins and Baptism”, em Anti-Pelagian Writings: A Select Library of the
Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, ed. Philip Schaff (Edinburgh: T&T Clark, 1997), p. 39.
[5] Decidimos seguir a tradução da English Standard Version deste versículo, que traduz a conjunção de (“e eu estou
dizendo”, v. 32) e “e” em vez de “mas” (como na NIV e NASB). O ponto que Paulo está fazendo aqui é que o mistério da
unidade é realmente sobre Cristo e seu relacionamento com a igreja, até mais do que sobre o casamento terreno. Não
é como se Paulo mudasse de assunto de Cristo e a igreja para um homem e sua esposa, mas subitamente se visse
dizendo, “Mas onde eu estava? Ah, sim. Eu estava falando sobre Cristo e a igreja”. Antes, ele está tentando
demonstrar que o relacionamento uma-carne que existe entre um homem e uma mulher (ordenado em Gn 2.24) é na
verdade sobre Cristo e a igreja. Em outras palavras, falar do casamento humano é falar de Cristo e a igreja. Em
suporte dessa interpretação, veja Peter T. O’Brien, The Letter to the Ephesians (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1999),
pp. 428-36.
[6] O fato que Paulo usa uma passagem de Gênesis para se referir a Cristo e a igreja não é inconsistente com seu
uso no contexto original. Muitas vezes ao longo da Escritura um versículo se aplica a muitas situações. Um exemplo
disso pode ser visto em Mateus 2.15, onde o apóstolo menciona que a jornada de Cristo para o Egito como uma
criança pequena é um cumprimento da profecia do Antigo Testamento em Oseias 11.1. No contexto do Antigo
Testamento, a passagem de Oseias teria sido entendida como uma referência ao êxodo. Mas Mateus vê nessa
passagem um cumprimento ainda mais profundo aplicado a Cristo. Paulo está usando a mesma técnica aqui,
mostrando que o propósito último do sexo e do casamento é visto com a vinda de Cristo. Em suporte dessa
interpretação, Ray Ortlund Jr escreve: “O conectivo ‘por essa razão’, embora parte da citação de Gênesis, e não uma
inserção de Paulo, dá a impressão, em seu novo contexto de Efésios, de uma articulação lógica com o argumento
contextual de Paulo”. Cf. God’s Unfaithful Wife: A Biblical Theology of Spiritual Adultery (Downers Grove, IL:
InterVarsity, 2002), p. 153.
[7] Contudo, mesmo no mundo antigo o casamento não se limitava ao sexo. Sexo com uma prostituta ou uma amante
não constituía um casamento legal (e.g., veja João 4.18 e a mulher no poço). Juntamente com sexo, casamento no
mundo antigo envolvia uma promessa pública de intenção, pagamento de um dote, ou algum tipo de acordo entre as
famílias da noiva e do noivo; somente então um relacionamento sexual era considerado resultar num casamento
juridicamente legítimo. A despeito disso, o sexo ainda era o meio pelo qual um homem e uma mulher que pretendiam
se casar formalizavam de fato esse comprometimento. Veja Ken M. Campbell, ed., Marriage and Family in the
Biblical World (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2003) para maiores informações sobre casamento no mundo antigo.
[8] 1Co 6.15-17 enfatiza a mesma verdade também. Assim como na passagem de Efésios, Paulo demonstra aqui que
o intercurso sexual serve como uma imagem viva da nossa união invisível com Cristo. O termo “uma carne” nesta
passagem é usado para se referir especificamente ao intercurso sexual. Além disso, o mandamento de Paulo com
respeito à pureza sexual é baseado na unidade que existe no relacionamento do cristão com Cristo. Somos chamados a
nos abster de nos tornarmos um com uma prostituta porque já nos tornamos um com Cristo (v. 17). Nos tornamos um
com ele num plano espiritual, assim como um homem e uma prostituta se tornam um num plano físico. A unidade física
então que resulta do sexo serve como uma imagem da unidade espiritual que resulta da nossa união com Cristo.
[9] Dallas Willard faz críticas similares com respeito ao entendimento do evangelho por parte dos evangélico de hoje
em seu livro The Divine Conspiracy: Rediscovering Our Hidden Life in God (San Francisco: HarperCollins, 1998),
pp. 35-50. Embora não concordamos com todas as suas soluções, nós afirmamos o seu reconhecimento do problema.
[10] Jeramy Clark, I Gave Dating a Chance: A Biblical Perspective to Balance the Extremes (Colorado Springs,
CO: WaterBrook, 2000), pp. 108-9.
[11] Deus não expôs claramente por que colocou um fim decisivo nas relações sexuais interfamiliares. Estamos
convencidos, no entanto, de que essa ordem também se refere especificamente à imagem de Deus. A lei do Antigo
Testamento (da qual a ordem em questão faz parte) foi estabelecida como meio pelo qual Deus poderia habitar em
meio ao seu povo de uma forma elevada. Antes da lei, Deus não habitava em meio ao seu povo em nenhum tipo de
posição permanente. A lei foi dada para que as pessoas pudessem saber como se portar de tal forma que Deus
poderia viver entre elas sem destruí-las por causa dos seus pecados. Assim, através da pureza externa proporcionada
pela lei, Deus tomou residência em meio ao seu povo de uma forma que nunca antes tinha feito. Esse novo
relacionamento servia, na verdade, como um prenúncio do relacionamento de Cristo com a igreja. Não é coincidência
que as ordens de Deus em matéria de relacionamentos interfamiliares foram dadas ao mesmo tempo em que essa
nova qualidade de relacionamento foi estabelecida. Possivelmente, então, a sexualidade humana de algum modo
refletia o estabelecimento desse relacionamento novo e único. Perceba em Lv 18.10 a razão por que Deus proibia o
sexo entre avós e netos: “A nudez da filha do teu filho, ou da filha de tua filha, a sua nudez não descobrirás; porque é
tua nudez” [ACF]. Em outras palavras, Deus proibia o sexo entre avós e netos porque isso é essencialmente como
ter sexo consigo mesmo. A frase “a sua nudez” no fim deste versículo poderia se referir ou ao filho do avô, ou
diretamente ao neto. Qualquer que seja o caso, o raciocínio é o mesmo. O filho de um homem é a sua própria imagem,
sua própria natureza. Assim, o filho de um homem é imagem tanto desse homem como do pai deste, em cuja imagem
o homem nasceu. Assim, ter relações sexuais com um filho ou neto é ter relações sexuais com a própria imagem, a
própria natureza. Mas por que Deus proibiu o homem de descobrir a própria nudez em conjunção com o novo
relacionamento que Deus estava estabelecendo com o seu povo por meio da lei? Quando parentes sanguíneos se
unem sexualmente, isso essencialmente mostra a união de naturezas iguais. Mas quando duas pessoas de diferentes
famílias se unem sexualmente, isso demonstra a união de duas naturezas diferentes. Em última análise, então, parece
que Deus aboliu o sexo entre parentes sanguíneos porque isso não retrata a imagem da união de duas naturezas
distintas, precisamente o que a lei prenunciou ser cumprido em Cristo.
[12] John Holzmann também argumenta em favor desse padrão de pureza em seu livro Dating with Integrity
(Dallas: Word, 1992), p. 79, como o faz Martha Ruppert em seu livro The Dating Trap: Helping Your Children
Make Wise Choices in Their Relationships (Chicago: Moody, 2000), pp. 58-60.
[13] Para uma discussão mais detalhada sobre o contexto cultural do Novo Testamento, veja Susan Treggiari,
“Marriage and the Family in Roman Society” e David W. Chapman, “Marriage and Family in Second Temple
Judaism”, ambos em Marriage and Family in the Biblical World, ed. Ken Campbell (Downers Grove, IL:
InterVarsity, 2003).
[14] Em inglês, dating pode significar encontro bem como namoro. Mais adiante os autores abordarão como a
palavra passou a significar algo completamente diferente com o passar dos anos. [N. do T.]
[15] Aparentemente, esse significado antigo nunca existiu no Brasil. Contudo, isso é de certa forma irrelevante, pois
estamos preocupados com o resgate do padrão bíblico, e não de um resgate meramente cultural. [N. do T.]
[16] A NIV, usada no original em inglês, traz “… olhar para uma mulher luxuriosamente”. [N. do T.]
[17] A NIV, usada no original em inglês, traz “ansiaram”. [N. do T.]
[18] O desejo a que Cristo estava se referindo é claramente sexual. Quando um homem tem desejo sexual por uma
mulher que não é sua esposa, comete o pecado da luxúria. No final do capítulo discutiremos como é possível desejar
uma mulher (ou homem) como futura(o) cônjuge sem cometer o pecado da luxúria.
[19] A NIV, usada no original em inglês, traz “desejarás”. [N. do T.]
[20] Veja Dallas Willard, The Divine Conspiracy: Rediscovering Our Hidden Life in God (San Francisco:
HarperCollins, 1998), pp. 164-65, e John MacArthur, The MacArthur New Testament Commentary: Matthew 1–7
(Chicago: Moody, 1985), pp. 302-3. Embora, no nosso entender, tanto Willard como MacArthur capturem corretamente
o espírito geral do Sermão da Montanha, eles não parecem aplicar seu ensino consistentemente na área do desejo
sexual. O principal ponto de debate envolve a preposição grega pros, que tanto Willard como MacArthur traduzem
como “em vista de” — logo a tradução “todo aquele que olha para uma mulher com a intenção de luxúria com ela”.
Nesta última tradução (a qual defendo), a ênfase está em certo tipo de olhar (o tipo que inclui o desejo sexual), não
prevendo uma cláusula de exceção no caso de o olhar não ser intencional. Mesmo se admitíssemos a tradução
afirmada por Willard e MacArthur, de modo algum restaria demonstrado que Cristo pretendia eximir a luxúria
espontânea, referindo-se apenas ao desejo sexual premeditado. O contexto nos afasta fortemente dessa visão.
[21] Dannah Gresh, The Fashion Battle: Is It One Worth Fighting? Christian Broadcasting Network, 1 de março
de 2004, http://theshepherdsvoice.org/news/the_fashion_battle-is_it_one_worth_fighting.html. Para ser justo com
Gresh, o contexto das suas declarações mostra que ela não busca desculpar os homens, mas informar as mulheres da
necessidade de modéstia e roupa adequada. Embora as intenções da autora sejam puras, sentimos que confiar nessa
linha de raciocínio minimiza o poder do Evangelho de mudar os desejos (e as vontades) de uma pessoa e negligencia
uma razão positiva para a modéstia. A motivação para a modéstia deveria vir principalmente de um desejo de proteger
a imagem de Deus dentro da sexualidade humana e não como basicamente um meio de ajudar os homens a se
absterem da luxúria. Mesmo as mulheres idosas devem se vestir com modéstia.
[22] Da mesma forma, mesmo em relacionamentos conjugais normais, saudáveis, os estímulos necessários para
despertar o desejo sexual devem ser aumentados à medida que o relacionamento progride. Um beijo prolongado não
produz necessariamente a mesma excitação sexual intensa que provavelmente fazia nos primeiros dias do
relacionamento. Inevitavelmente, nós nos tornamos cada vez mais cientes de que um relacionamento sexual com
nosso cônjuge não é a resposta plenamente satisfatória para os anseios últimos da nossa alma. Antes do intercurso
sexual, particularmente em nossa juventude, nós achávamos fácil supor, de forma equivocada, que tal encontro seria a
experiência definitiva — a vida plenamente vivida. Mas com o passar do tempo percebemos que, embora seja cheio de
significado, o relacionamento sexual não pode servir como o cumprimento definitivo dos nossos desejos mais
profundos. Ele é apenas uma sombra da coisa real. Depois de havermos bebido profundamente desse cálice, nossa
percepção da capacidade de o relacionamento sexual atender às nossas necessidades mais profundas começa a se
tornar um pouco mais realista. Logo, não gravitamos em torno de um encontro sexual com a mesma intensidade.
[23] Do original em inglês dating friendships (lit. “amizades de encontros”). A expressão não encontra tradução
exata no português. [N. do T.]
[24] Sitcom, abreviatura de situation comedy (“comédia de situação”, em tradução livre), designa uma série de
televisão com personagens comuns em que há uma ou mais histórias de humor encenadas em ambientes comuns
como família, grupo de amigos, local de trabalho. Em geral são gravados em frente a uma plateia ao vivo. [N. do T.]
[25] Dois programas de filtro/rastreamento da internet particularmente eficientes são XXXChurch.com
(http://xxxchurch.com), e K9 Web Protection (http://www1.k9webprotection.com).
[26] Um tratamento recente e convincente sobre isso é Barry Danylak’s Redeeming Singleness: How the
Storyline of Scripture Affirms the Single Life (Wheaton, IL: Crossway, 2010). Não concordamos com todos os
pontos que Danylak desenvolve, especialmente a tendência em sua obra de relativizar o casamento à luz das
realidades da nova aliança; mas ele de fato desenvolve um argumento sólido para a condição nova e redimida do
celibato na era pós-Pentecoste.