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O GIZ DA ESCOLA DA PERFORMANCE

The performance school's chalk

Naira Ciotti
Vicente Martos Moreira
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Resumo: Este artigo procura discutir algumas práticas de professor-


performer com base na ideia de abandono social, na formação de corpos
políticos em uma conexão afetiva. A relação entre política e artes é
problematizada. São táticas analíticas para identificar processos de
resistência contra apagamento na produção de performances em um contexto
de ensino.

Palavras-chave: Performance; Professor-performer; Sobrevivência nas artes


cênicas.

Abstract: This article intents to discuss some practices of professor-performer


(CIOTTI, 2014), based on the idea of social abandonment, the formation of
political bodies and an affective connection (SAFATLE, 2016). The relation
between politics and arts is problematized. It is analytical tactics to identify,
resistance process against erasure in the production of performances in a
teaching context. (SASSEN, 2016).

Keywords: Performance; Professor-Performer; Surviving in Performing Arts.

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Naira Ciotti
Vicente Martos Moreira
O samba não se aprende no colégio dá a possibilidade de certas visualidades
Sambar é chorar de alegria apagadas ao poderem ser novamente
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia presentes e poderem contar suas histórias.
(Noel Rosa)1 Mostrar as primeiras performances realizadas
em sala de aula agencia paradigmas não
O lugar de fala deste artigo é o estabelecidos, sem centralidade, atua nas
LabPERFORMANCE Laboratório de fronteiras do paradigma teatral e pedagógico
Performance e Teatro Performativo vinculado pois propõe micro-revoluções. Saskia Sassen
ao Departamento de Arte da Universidade levanta tais perguntas para discutir os
Federal do Rio Grande do Norte; isto significa processos de expulsão e apagamento cultural
que ele ecoa e também evoca diferentes (SASSEN, 2017). Essas perguntas podem
vozes. Uma parte foi baseada na conferência também ser feitas para as imagens dos
"Sobrevivência nas Artes Cênicas", processos: o que eu não vejo nelas se eu
apresentada por Naira Ciotti na VIII Jornada de invocar uma categoria muito poderosa? Sugiro
Pesquisa em Artes Cênicas - Edição que ao vê-las possamos nos perguntar sobre o
Internacional, e cuja temática/provocação foi: que nós não estamos vendo (ainda).
Sobrevivências em Artes Cênicas –
Articulação de conhecimentos e práticas O artigo finaliza de maneira a buscar uma
[im]possíveis, realizada em 2 de Novembro de interação com o leitor, quando levantamos um
2017, a convite do Departamento de Artes diálogo sobre a emergência dos conteúdos
Cênicas - DAC / Universidade Federal da autobiográficos na arte e a sua importância
Paraíba, e que pretendia discutir as relações política a partir da construção de referências
entre a prática de professor e a prática de fronteiras mais ambíguas, propondo a
artística. Esse assunto pode ser compreendido ocupação intelectual nas fronteiras sistêmicas
como eixo fundamental deste texto, que busca entre a arte e a política. O que não vemos ao
relacionar a polaridade entre o professor e o se construir e manifestar biografias pessoais,
artista. visões de mundo e formas de vida.

Este artigo também apresenta uma série de Sobrevivência


trabalhos em performance arte, contemplando
os primeiros trabalhos criados ou orientados Quando eu comecei a trabalhar com
isso lá no século passado, era uma
por Naira em colaboração com diversos
coisa meio estranha, era uma
artistas em processo de formação, condenação para um artista virar
relacionando práticas performativas de ensino professor de arte. Parecia que a gente
de Arte a teorias das ciências sociais e não ia nunca mais trabalhar com arte;
ou você era professor de arte ou
econômicas.
trabalhava com arte. Não havia tempo,
Finalmente, o artigo vai contemplar algumas não havia espaço, não havia corpo
que desse conta dessas duas
práticas do professor-performer enquanto atividades. (Informação verbal CIOTTI,
tática analítica. A partir da expansão da ordem 2017)
visual/material, em direção a observar como se
O primeiro trabalho que apresentamos neste
1 “Feitio de Oração, Noel Rosa”, Vadico, 1933.
estudo aconteceu ainda nos anos 1990 e

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O giz da escola da performance

chama-se “A Conversa Entre Lygia Clark e apresentações artísticas, com iluminação e


Hélio Oiticica”, desenvolvido a partir da todo o aparato cênico.
proposta de criar um grupo de estudos práticos
Uma segunda ação desenvolvida na faculdade
de Performance na faculdade de Arquitetura.
de Arquitetura foi a Oficina de Performance.
Esse grupo de estudos pretendeu colocar
"Nós começamos a fazer alguns trabalhos no
alunos de Arquitetura em contato com outras
espaço, trabalhos de travessia, trabalhos que
formas de espacialização e percepção do
eu estava desenvolvendo com Renato Cohen3
espaço, do corpo e dos estudos das
na época" (informação verbal CIOTTI, 2017).
sensações, a partir das obras dos dois artistas
Durante o ano das comemorações dos
citados. Por ocorrer numa região conhecida
quinhentos anos de descoberta do Brasil, a
pelas grandes manifestações sindicais, a
oficina desenvolveu um trabalho ligado à
formação do Partido dos Trabalhadores e de
identidade da região do ABC, que, apesar de
grande parte do que hoje identificamos como a
ter essa característica de politização, convive
esquerda política do país, pressupõe-se o viés
diariamente com a ausência do que
político desse território e de seus habitantes.
poderíamos chamar de um “mito de origem”.
A importância em abordar as obras citadas,
Segundo essa inquietação, o grupo se
bem como dos estudos da Performance de
deparou com a história de João Ramalho, um
uma maneira geral, apontava para a
dos primeiros bandeirantes que chegaram no
necessidade de uma abordagem mais
Brasil. Segundo consta na literatura, o
sensível em relação às políticas do corpo. "No
aventureiro sofreu um naufrágio em São
curso de Arquitetura, [os alunos] eram pessoas
Vicente e lá foi resgatado e abrigado pelo
que para ter aula eu tinha que convencer, por
império Tupiniquim. Por ser bem acolhido,
20 minutos da aula, que se podia tirar os
aprendeu a língua dos nativos e casou-se com
sapatos, que era normal, que tudo bem ficar
a princesa desse império, a índia Bartira. Logo
sem sapatos" (informação verbal CIOTTI,
depois, construiu a primeira vila no Brasil, que
2017). A performance resultante das práticas
seria Santo André da Borda do Campo, uma
foi apresentada nas dependências da
região que hoje em dia pode ser acessada a
Universidade em que já trabalhava, e também
partir do caminho que leva os paulistas à
no Congresso da COMPÓS - Associação
cidade de São Vicente. É uma das primeiras
Nacional dos Programas de Pós-Graduação
regiões habitáveis, há abundância de água e
em Comunicação2, fundada em 16 junho de
os terrenos se tornam mais planos, facilitando
1991, em Belo Horizonte, com o apoio da
a sobrevivência. A cidade, fundada por João
Capes e do CNPq, a partir da iniciativa de
Ramalho, recebeu de Portugal o Pelourinho,
alguns pesquisadores e representantes dos
construindo também a Casa de Câmara e
cursos de Pós-Graduação: PUC-SP, UFBA,
Cadeia, organizando e viabilizando todo o
UFRJ, UnB, UNICAMP, UMESP, onde
aparato legislativo do local.
aconteceu em um palco, ou seja, um espaço
construído especificamente para
3 Renato Cohen (1956 - 2003), foi um ator, diretor,
performer, teórico e pesquisador brasileiro, autor dos
livros “Performance como Linguagem” (1989) e “Work in
2 Conf. <http://www.compos.org.br/a_compos.php>. progress na cena contemporânea” (2002).

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Vicente Martos Moreira
Na segunda expedição da coroa portuguesa seguida da frase “Brasil 500 anos. João
ao Brasil, foram enviados os padres jesuítas Ramalho, o europeu à deriva”.
para catequização dos povos nativos. Ao
chegarem, esses mesmos padres
encontraram, nas novas terras, portugueses e
tupis convivendo em harmonia. Isso não foi
muito bem aceito e então, após resolução da
Coroa, a fundação da cidade orignal tornou-se
uma espécie de proibição, pois o Pelourinho foi
enviado para a vila de Santa Cruz, onde
permanece até os dias de hoje em exposição4.

A história da fundação da cidade e a formação


social que se experimentou por aquele curto
período foi abandonada, apagada. "Em Figura 1: Alunos da UNIABC na Represea Billings. Foto: Naira Ciotti.

performance nós temos condições de


reperformar os arquivos, de ir atrás das coisas Práticas performativas em Artes Cênicas
e incorporar isso, enactuar, trazer para o
corpo, e foi o que nós fizemos" (informação Em 1999 foi criado na PUC/SP o curso de
verbal CIOTTI, 2017). Os participantes da Comunicação das Artes do Corpo, Naira
oficina reconstruíram o mito, com o intuito de Ciotti, juntamente com a coordenação, ou
aproximar a região com esse sitio fundador. O seja, Christine Greiner, e os professores-
primeiro passo foi estabelecer o território, a artistas Renato Cohen, Lúcio Agra, Samira
geografia imaginária dessa cidade ancestral. BR e João André da Rocha projetaram
Trabalhamos com a ideia de que essa cidade alguns anos depois um curso de
de João Ramalho teria permanecido submersa performance composto por práticas e
na represa Billings, que é um dos mais discussões teórico-estéticas. Na hibridação
importante corpos de água da região com as linguagens do corpo foram
metropolitana da cidade de São Paulo, elaborados laboratórios de criação de
representando um papel estratégico no performances relacionais em Work In
abastecimento de água numa área de pressão Progress.
pela urbanização do seu entorno. Ao longo dos últimos dez anos, no curso de
Não havia público, era uma ação onde todos Licenciatura em Teatro da Universidade
participavam como performers para recomeçar Federal do Rio Grande do Norte, seguimos
o Brasil 500 anos depois. A imagem a seguir é disseminando o pensamento acerca da arte
extraída do resultado desta ação, e foi da performance, tentando e errando, para
posteriormente inserida em um outdoor, incluir nos conteúdos específicos da arte
teatral, as táticas performativas. Com o
passar dos anos, agora com maior
4Solar da Marquesa fica localizado na rua Roberto Simonsen, 136 -
participação dos discentes, estamos
Centro – São Paulo/SP (próximo ao metrô Sé) e oferece visitação experimentando novos espaços de
monitorada e gratuita de terça-feira a domingo, das 9 às 17h. In:
www.museudacidade.sp.gov.br/solardamarquesadesantos.php compartilhamento pedagógico para dar

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O giz da escola da performance

conta da complexidade teórica dos estudos entre “arte pura” e “arte engajada” não
da Performance, porém sem abrir mão de passa de mal entendido. Toda arte, se
for arte, é pura no ato. E toda arte, se
insistir nos processos e conteúdos for arte, é engajada no efeito do ato. A
emergentes. política é o resultado não pretendido,
mas necessário, da arte. (FLUSSER,
É notável que o estado atual do ensino da 1972, p. 87)
performance, ou ao menos da preocupação
das escolas de arte do Brasil com esse Na atualidade, quando falamos de
assunto, só tem aumentado. Cada dia é performance estamos falando em
possível perceber mais pessoas, profissionais, intervenção urbana, “em dançar na cidade”,
artistas ou alunos interessados em em manifestações políticas, em ações
performance. A performance, por sua vez, pedagógicas, em direção a paradigmas
assim como as outras linguagens artísticas sociais e estéticos. Um dos entendimentos
contemporâneas, evoluiu ao longo desse do conceito de paradigma é de que trata-se
tempo, o que significa que essa linguagem não de uma constelação de crenças, valores,
estagnou-se em conceitos originais que técnicas etc., partilhada pelos membros de
guiaram artistas como Joseph Beuys, Hélio uma comunidade determinada. O
Oiticica e Lygia Clark. paradigma é um lugar onde esta ideia pode
ser compartilhada por uma comunidade
Performance é um termo amplo, também
científica. Segundo o seu criador, Thomas
se transformou ao longo deste nosso novo
Kuhn (2011, p. 249), não é um objeto de
século. Após a revolução das redes de
estudo, mas uma constelação de pessoas
comunicação a palavra, que remetia a uma
praticantes de uma ciência, uma inscrição
linguagem das Artes do Corpo, passou a
disciplinar. Nesse sentido, vive-se uma
significar experiências de hibridação de
mudança de paradigma em relação a arte
meios com ênfases em explorações
da performance e, consequentemente, do
conceituais.
seu estudo e pesquisa. Os artistas que
No limiar do século XXI, a performance foi trabalham com conteúdos autobiográficos,
atravessada pela tecnologia. Daí pra frente na atualidade, relacionam-se ao mesmo
todo o nosso cotidiano contém traços de tempo com motivações políticas, respostas
performance. Nas conexões com as à circuitações afetivas provenientes de
máquinas, na produção de imagens. O diversas fontes.
teatro, a literatura e a dança consumiram-
se nas virtualidades e possibilidades de Havia antes uma relação entre arte e
política, sempre houve, mas ela não
interação, intervenção e compartilhamento
era profundamente discutida nem
de afecções subjetivas. profundamente investigada,
principalmente por quem trabalhava
Sobre Performance, Arte e Política com relatos autobiográficos, com
histórias de vida, com questões
A obra é, queira eu conscientemente pessoais. Sempre foi uma questão
ou não, “ para o outro”. Portanto, a meio paralela: todo mundo tinha as
aparente e tão discutida oposição suas posições políticas mas não
necessariamente isso entrava na

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Naira Ciotti
Vicente Martos Moreira
ação, na sala de ensaio ou no muitas dinâmicas pedagógicas alteradas
espetáculo que a gente estava nesse momento, fazendo eclodir encontros
montando. (Informação verbal CIOTTI,
2017) e práticas de compartilhamento entre
docentes e discentes, instaurando novas
Depois de 2016 - num processo que na ordens no campo do ensino e também do
verdade pode ter se iniciado como uma ensino de arte5.
tendência que veio de 2013, mas que mais
Em Natal, de tempos em tempos, reunimos
recentemente se configurou de forma mais
no Laboratório de Pesquisa em
clara, tornou-se impossível, do nosso ponto
Performance e Teatro Performativo os
de vista, separar arte e política. Não existe
pesquisadores de pós-graduação e alunos
mais possibilidades em se falar de arte no
da graduação interessados em discutir
Brasil, e em muitos lugares do mundo, sem
alguns temas ou inquietações que temos
falar de política. O artista, à medida em que
percebido serem importantes campos de
investiga a própria biografia em relação
reflexão para o trabalho artístico. Dentro
com a coletividade, a universalidade,
dessa busca encontramos a ideia de
enraiza-se cada vez mais nas suas
“expulsão”, apresentada por Saskia Sassen
circunstâncias sociais e políticas.
em seus estudos6. Nosso desejo aqui não
Este estudo compreende e propõe a é fazer uma explanação complexa dos
importância da uma melhor elaboração conceitos levantados por essa autora, mas
científica e artística acerca do tema traçar um paralelo entre seus
“sobrevivência” nas Artes Cênicas porque apontamentos e possíveis práticas que
sobreviver tem se tornado uma questão temos investigado no campo da
bastante recorrente na produção dos performance em interface com a educação.
artistas da performance. O que é pensar na expulsão? O que é
pensar em uma desigualdade social que
Assim como a Arte, a Educação pública
não pára de crescer e que acaba por
vem sofrendo recorrentes ataques
expulsar as pessoas dos seus lugares, seja
orçamentários, congelamentos de
ele o país, o emprego, a sala de aula, a
investimentos e privatizações. Tivemos, em
cidade propriamente dita, as suas casas.
2016, as manifestações estudantis dos
alunos secundaristas com a ocupação de Se a desigualdade (global) continuar
mais de cem escolas de ensino crescendo, em algum momento
fundamental e médio, seguida sempre de poderá ser descrita, mais
precisamente, como uma forma de
forte repressão pelos Estados. No segundo
expulsão. Para aqueles que estão na
semestre do mesmo ano, após o anúncio
da Proposta de Emenda Constitucional
5
PEC 241, estudantes e docentes das Em 2016, em paralelo à ocupação da reitoria da UFRN pelos
coletivos de resistência estudantis contra a PEC 241, alunos de
Universidades Federais em todo território Licenciatura em Teatro, pesquisadores do Laboratório de
Pesquisa em Performance e Teatro Performativo e artistas
nacional ocuparam as reitorias e outros convidados realizaram a primeira edição do evento Reperformar
espaços das instituições. As aulas, o Afeto, maiores informações e demais conteúdos relacionados
podem ser obitidos no endereço:
transferidas para esses locais, tiveram suas <http://vicentemartos.wixsite.com/reperformaroafeto >.
6 Ver “Expulsões”, de Sassia Sasken, 2017

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O giz da escola da performance

parte mais baixa da escala, ou em sua Para falarmos de expulsão, apagamento e


metade pobre, isso significa a desamparo é preciso entender alguns
expulsão de um espaço de vida. Para
os que estão no topo, parece ter dados da economia mundial. A questão
significado o fim das geral, segundo Sassen, aquela que causa
responsabilidades como membros da e sustenta as crises financeiras ao redor do
sociedade por meio da auto mundo, é que todos os estados já estão
superação, a extrema concentração de
riqueza disponível numa sociedade e a endividados. Essas dívidas foram
falta de inclinação a distribuir essa contraídas não porque as pessoas
riqueza. (SASSEN, 2016, p. 24) estouraram o limite dos seus cartões de
crédito e não conseguiram pagar, tornando-
No Laboratório de Performance, em se inadimplentes. A dívida existe por
consonância com essas ideias, podemos razões como o alto número de isenções
recortar alguns dos experimentos. fiscais e subsídios para que as empresas
A Imagem abaixo mostra uma aula da se instalem em uma cidade ou outra. As
disciplina de Estudos da Performance, dívidas dos bancos tornaram-se
oferecida na graduação em Teatro no impraticáveis, chegando a níveis jamais
segundo semestre de 2017. Na imagem a vistos antes e, paradoxalmente, perdoadas
aluna Badu Morais experimenta performar pelos estados, ou porque Donald Trump
com todo o seu aparato de mãe recente - não pagou a UNESCO o que os EUA
mamadeiras, fraldas, brinquedinhos, deviam no ano anterior, para citar alguns
remédios etc., que deixam de ser apenas exemplos.7
utilitários para se tornarem um peso a ser
suportado; a performer, nos propõe A medida em que várias empresas pura e
pensarmos nos corpos, práticas e simplesmente se recusam a pagar as suas
processos que seguem desamparados pelo dívidas, isso vai tornando os estados
sistema capitalista neo-liberal. endividados. O que nos afeta diretamente
porque o que os estados fazem para
regular suas economias é reduzir os
direitos civis.

O que afirmo aqui é que caímos sob a


influência de um conceito perigoso e
limitado de crescimento econômico. O
crescimento, claro, era essencial para
o projeto do Estado de bem-estar

7 Em outubro de 2017 o presidente dos estados Unidos Donald


Trump anunciou que seu país se retirará da UNESCO por
discordar das posições políticas da entidade em relação à
questão palestina em Israel, mas o Jornal do Brasil informa que
“muitos periódicos como o Foreign Policy, por exemplo,
especulam que também tenha pesado para a decisão a dívida
de US$ 500 milhões dos EUA com a Unesco. Disponível em:
Figura 2: Aluna Badu Morais em processo criativo. Foto: Naira Ciotti. <http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2017/10/12/governo-
trump-retira-estados-unidos-da-unesco/>. Acesso em
30/04/2018.

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Naira Ciotti
Vicente Martos Moreira
social. Mas também era um meio de Essas expulsões ocorrem numa lógica
promover o interesse público, de fazer de apagamento que acontece na
aumentar uma prosperidade que seria ordem do visual e também do material;
compartilhada por muitos, embora elites econômicas tornam-se o norte
muito mais por alguns do que por visual - assim como seus modos de
outros. Em comparação, hoje nossas vida. E as populações que não
instituições e nossos pressupostos correspondem às dinâmicas
estão cada vez mais a serviço do econômicas das cidades
crescimento econômico corporativo. contemporâneas passam a ocupar um
Essa é a nova lógica sistêmica. Talvez estado de invisibilidade e,
não todas, mas um número suficiente consequentemente, de expulsão (...)
de empresas procurou se libertar de São indivíduos que constam em
quaisquer restrições, incluindo as de números estatísticos - a quantidade de
interesse público local, que interfiram desempregados no Brasil no último
na sua busca de lucro. Qualquer coisa ano, a quantidade de pessoas
ou qualquer pessoa, seja uma lei ou desabrigadas pela guerra no Oriente
um esforço cívico, que dificulte a Médio, a quantidade de refugiados que
obtenção de lucro corre o risco de ser a Alemanha recebeu em seu território
posta de lado, de ser expulsa nos últimos anos. Esses indivíduos
(SASSEN, 2016, p. 253) não fazem parte do norte ideológico,
aquele que compõe a lista dos desejos
O que interessa para a performance num permeantes, das prioridades em
estudo minucioso sobre dados financeiros nossas sociedades. (Informação
verbal CIOTTI, 2017)
e situações econômicas em torno do globo
terrestre é que essas expulsões, quando se Um exemplo apresentado por Saskia
trata de gente, se transformam em Sassen para ilustrar o absurdo de certos
apagamentos de arquivos, apagamentos sistemas neoliberais de expulsão é o fato
de histórias de vida, apagamentos de de que, até 2017, existem ao todo noventa
propostas vanguardistas de educação, e três pessoas no mundo sem nenhuma
apagamentos de experiências de identidade de estado e que não poderão
intervenção e, novamente, de dançar na voltar a tê-la. Essas pessoas perderam o
cidade. As populações e os seus país!
deslocamentos, geográficos ou culturais,
vão se apagando para se transformar em Em uma outra imagem que trazemos de
estatística. É sério? É. Os performers têm nossos estudos, da mesma disciplina de
que pensar nisso? Têm. Estudos da Performance, o aluno Bruno
Silva está fazendo um trabalho que de
Surge assim um norte visual com seus alguma forma dialoga com essa ideia do
modos de vida, e aqueles que não apagamento, de mostrar-se, de querer
correspondem à esse norte visual tornam- deixar de ser uma identidade não
se os excluídos, os refugiados, os representada.
imigrantes, os que ocuparam os prédios
abandonados, os que estão reivindicando
seus direitos perdidos sem nenhuma
esperança.

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O giz da escola da performance

e se desfaz na medida em que a


performance se faz presente num
determinado local com determinados
indivíduos e suas histórias.

Outro autor que ajuda a provocar estas


discussões é Vladimir Safatle, que traz o
conceito de circuito dos afetos (SAFATLE,
2016). Segundo esse estudo, as sociedades,
os sistemas econômicos e políticos produzem,
em seu nível fundamental, circuitos de afetos,
que as constituem. Isso vem sendo
problematizado em várias instâncias
acadêmicas que estão discutindo arte
Figura 3: Aluno Bruno Silva em processo criativo. Foto: Naira Ciotti.
contemporânea. Durante muito tempo
Corpo político / Afetos - a Performance deixamos não só a política de lado, mas toda a
no espaço do comum pulsão dos afetos, dos desejos, do amor.
Numa sociedade precisamos uns dos outros,
Para nos ajudar nessa construção no entanto, o que fazer dessas relações, que
trazemos também o autor Antonio Negri,
são de altíssima complexidade e que foram
com a ideia de uma realidade pós-
globalização. Negri aponta para a pura e simplesmente abandonadas?
possibilidade de descobrirmos uma:
Sabemos que as pessoas funcionam por
afeto. Por exemplo, quem está à frente de um
alternativa para o corpo político global no
reconhecimento da cooperação e elenco cujos atores não tem nenhuma ligação
comunicação, na produção de com o espetáculo, sabe que não vai conseguir
subjetividade que poderia engendrar um montar este espetáculo. De outro lado, se um
outro corpo, o corpo comum. [...] A carne
elenco está empolgado pelo que está fazendo,
produtiva comum da multidão adquiriu a
forma de corpo político global do capital, as vezes, não se tem um espetáculo, mas
dividido geograficamente por hierarquias existe um trabalho. É a mesma coisa com a
de trabalho e riqueza e governado por nossa sociedade, nós nos deixamos afetar o
uma estrutura multinivelada de poderes
tempo todo.
econômicos, jurídicos e políticos. (NEGRI
e HARDT, 2005, p. 247) Acordamos todas as manhãs e abrimos
nossos dispositivos para acessar redes
Em 2017, notamos que existe o espaço
sociais. Nem bem acordamos e já sabemos de
público, o espaço privado e a performance.
tudo, e já estamos todos afetados - “se o
Essa prática contemporâneas vai abrindo
Caetano não pode cantar eu já estou assim, se
zonas fronteiriças que estimulam a
o Caetano pode cantar eu já estou de outro
construção desse corpo comum. Não é um
jeito”8. Por consequência, nas instâncias do
corpo da comunidade, é um corpo que não
está nem no privado e nem no público.
Algo como um espaço efêmero que se cria 8Segundo o site G1”O cantor Caetano Veloso lamentou a
decisão da Justiça que impediu que ele fizesse um show

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Naira Ciotti
Vicente Martos Moreira
poder, funciona da mesma maneira. Dentro do
conjunto de configurações: “Em sua
coletividade, os afetos configuram corpos
políticos, ou seja, massas de corpos que
representam determinados discursos e se
movem através deles, podendo por eles ser
expressos com uma noção arbitrária de
individualidade” (CIOTTI e MOREIRA, 2017, p.
17).

Então a nossa afetividade com relação a


um tema, não é simplesmente escolhida Figura 4: Os alunos Maria Flor e Francisco Júnior em processo criativo.
Foto: Naira Ciotti.
por nós; fazemos escolhas porque estamos
circuitados com essas questões, e esta Da mesma forma como foi mostrado na
circuitação é interessante para os primeira imagem deste texto, vemos nesse
performers no século XXI. trabalho, que relacionava biografias
pessoais de alunos do Rio Grande do Norte
Perguntas para uma proposta política de com o texto do autor austríaco uma
Autobiografia representação dessa ilusão de que somos
um indivíduo, ou seja, mais uma situação
Outra imagem também do nosso Laboratório geral de desamparo. Quais circuitações ela
trata-se do grupo da disciplina de Encenação nos provocam?
4, que trabalhou em 2017 com um texto do
Pensar na teoria do desamparo proposta
dramaturgo alemão Peter Handke, datado dos
por Safatle indica que somos coletivos, nos
anos 1960 e chamado “Autoacusação”
conectamos, nos aproximamos, nos
(HANDKE, 2015). Podemos perceber como
afastamos ou repelimos o tempo todo. O
funcionam essas circuitações numa situação
tempo todo, nós estamos em relação uns
de laboratório teatral, durante um dos ensaios,
com os outros. E esse é um material muito
no mês de setembro, tendo em vista a inclusão
interessante para a arte da performance.
de dramaturgias criadas a partir de
procedimentos biográficos/reais dos
Conclusão
performers envolvidos.

O que o performer, que está interessado


em arte, que trabalha com auto-biografia,
com estados corporais, com vários
na ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
(MTST) em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. princípios com o os quais somos totalmente
"Ser impedido de cantar não é bom. Mais do que nunca é favoráveis, como colocado anteriormente
preciso cantar, como diz a música de Vincius de Moraes
(Marcha de Quarta-feira de Cinzas). Porque há muita neste artigo, pode pensar? Que perguntas
dificuldade", disse Caetano, que foi ao terreno ocupado
por seis mil famílias.”. Disponível em:
poderíamos fazer para esses performers
<https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/caetano-e-a- ativistas? Diante desse jogo político, dessa
primeira-vez-que-sou-impedido-de-cantar-no-periodo-
democratico-diz-em-ocupacao-do-mtst.ghtml>. Acessado
estrutura toda, dessa circuitação dos afetos
em 30/04/2018.

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O giz da escola da performance

políticos, quem eu sou? Ou ainda: eu tenho O samba, a Arte, não se aprendem no colégio,
certeza de quem eu sou? é uma atividade emocional, que o colégio não
pode acessar. Nossa ideia de performance
As outras perguntas seriam: o que existe
vem da senzala da escravidão brasileira, vem
na política além de acusações? É possível
dos terreiros, partiu do samba e seus afetos. A
trabalharmos com as derrotas e as
performance também veio dos estudos sobre
performances, as manifestações contra a
as atividades humanas mais amplas e
Dilma, contra o PT, contra o Temer,
espontâneas. No teatro e suas teorias
desconstruindo arte-política do teatro, das
contemporâneas a performance expõe a
mídias e dos seus dispositivos?
condição reflexiva de sujeitos fragmentados e
O performer hoje pode contar sua biografia os corpos por eles engendrados: mutantes,
ultrapassando a sua vida pessoal? Ou transformers, performeros, artivistas,
como perguntou Rabih Mroué9: onde você tatuadores, produções de semiose e a-
estava quando estava acontecendo o semiose (GUATTARI, 2011). A performance
impeachment de Dilma Roussef? Ele fez escancara as subjetividades através das
essa pergunta para um grupo de mais ou estéticas do sul, latinidades, a descida
menos vinte performers que participavam antropofágica de Viveiros de Castro. Neste
de um workshop que ministrou na Mostra momento o século XX e XXI entram em
Internacional de Teatro de São Paulo10. As conexão, a performance entra no colégio pelas
respostas dos performers foram, em geral portas da Universidade. “Houve sim, uma
que: um tinha ido para casa da tia, o outro virada educativa no Brasil, que está em curso,
tinha ido para o metrô e ficou preso lá, nos somos resultado disso, a Unicamp, a
outro acompanhou manifestações pela UFRN a PUC todos temos a ver com este
internet ou até ao vivo, presencialmente investimento em abrir o campo das Artes para
nas ruas. O diretor apontava para o fato de os não especialistas e para a formação de
que essas histórias nunca são contadas, platéias e novos artistas” (informação verbal
esses pontos de vista seguem apagados. CIOTTI, 2017).
De uma forma bem brasileira, agora que
formamos diversos novos professores, a
9 Rabih Mroué é um dos proeminentes nomes das artes visuais e política de educação parece mudar
da performance no Líbano, participou das últimas edições da
Documenta, entre outros é fundador do Beirut Art Center. A drasticamente. Estamos atravessando o
narrativa de Mroué aproxima fatos reais e fantasiados com a contraponto disso, que pode encaminhar estas
mesma credibilidade. O trabalho dele se liga à trágica história do
período de conflitos políticos no Lìbano sem recorrer à iniciativas para o abismo. Como uma tática
reivindicação sentimental das vítimas ou a representação visceral para a sobrevivência nas Artes Cênicas e no
da violência, segundo Inti Guerrero, Rabih Mroué tem habilidade
para conectar histórias pessoais à história. Informações coletadas Ensino de Arte, precisamos nos indagar: como
no site http://site.videobrasil.org.br/news/1784545 construir uma ponte de professores híbridos?
10 Participei do Workshop BRASIL EM PIXELS, com Rabih

Mroué inspirado no processo de criação de seus últimos


espetáculos. Além de partilhar elementos de sua pesquisa cênica, Recebido em:18/04/2018
Rabih propôs aos participantes um trabalho criativo baseado em
fotos das manifestações brasileiras de 2016, a fim de estimular a Aceito em:15/05/2018
reflexão: que narrativa emerge dessas imagens? Mais
informações disponíveis em <http://mitsp.org/2017/acoes-
pedagogicas/#_workshop >.

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Naira Ciotti
Vicente Martos Moreira
Referências Bibliográficas Referências Orais:

CIOTTI, Naira. O professor-performer. Natal: CIOTTI, Naira. "Sobrevivência nas Artes


EDUFRN, 2014. Cênicas". Conferência apresentada durante
a VIII Jornada de Pesquisa em Artes
CIOTTI, Naira e MOREIRA, Vicente Martos. Cênicas - Edição Internacional:
Residência artística: corpos-políticos e táticas Sobrevivências em Artes Cênicas –
analíticas aos processos de apagamento. In: Articulação de conhecimentos e práticas
PIXO: Revista de arquitetura, cidade e [im]possíveis. João Pessoa: Departamento
contemporaneidade. V.1 N.2 2017. Disponível em: de Artes Cênicas, Universidade Federal da
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017/10/12/governo-trump-retira-estados-
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