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I R C U I T O F E C H A D O
Obras reunidas de Florestan Fernandes
Coordenação:
Maria Arminda do Nascimento Arruda

A FUNÇÃO SOCIAL DA GUERRA NA SOCIEDADE TUPINAM BÁ / O FOLCLORE EM QUESTÃO / FUNDAM ENTOS EM PÍRICOS DA EXPLICAÇÃO
SOCIOLÓGICA / A SOCIOLOGIA NUM A ERA DE REVOLUÇÃO SOCIAL / A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES / A
REVOLUÇÃO BURGUESA NO BRASIL / EDUCAÇÃO E SOCIEDADE NO BRASIL / CIRCUITO FECHADO / P ENSAM ENTO E AÇÃO / QUE TIPO DE
REPÚBLICA?
F l o r e s t a n F e r n a n d e s
C I R C U I T O F E C H A D O

Quatro ensaios sobre o “poder institucional”

prefácio:
Maria Arminda do Nascimento Arruda
Copyright © 2005 by herdeiros de Florestan Fernandes
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode
ser utilizada ou reproduzida – em qualquer meio ou forma, seja
mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc. – nem apropriada
ou estocada em sistema de bancos de dados, sem a expressa
autorização da editora.

Preparação: Ronald Polito


Revisão: Carmen T. S. Costa e Otacílio Nunes
Índice remissivo: Luciano Marchiori
Capa: Paula Astiz
Produção de ebook: S2 Books

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, S P, Brasil)

Fernandes, Florestan, 1920-1995.

Circuito fechado : quatro ensaios sobre o “poder institucional” / Florestan Fernandes ; prefácio M aria Arminda do Nascimento Arruda – São Paulo :
Globo, 2010.

ISBN 978-85-250-5621-4
1. América Latina – Condições sociais 2. América Latina – Política e governo 3. Brasil – Condiçõers sociais 4. Brasil – Política e governo 5.
Escravidão no Brasil 6. Intelectuais – América Latina 7. Negros – Condições sociais 8. Universidades e faculdades – América Latina I. Arruda, M aria
Arminda do Nascimento. II. Título.
10-00922 CDD-301

Índice para catálogo sistemático:


1. Poder institucional : Ensaios : Sociologia 301

Direitos de edição em língua portuguesa


adquiridos por Editora Globo S. A.
Av. Jaguaré, 1485 – 05346-902 – São Paulo, SP
www.globolivros.com.br
SUMÁRIO
Capa
Folha de rosto
Ficha catalográfica
Dedicatória
Prefácio: Uma Sociologia do Desterro Intelectual
Prefácio do Autor
Primeira Parte - Brasil: Passado e Presente
Capítulo 1 - A Sociedade Escravistano Brasil
A Produção Escravista e sua Evolução
A Ordem Social da Sociedade Escravocrata e Senhorial
Capítulo 2 - 25 Anos Depois: O Negro Na Era Atual
O Amadurecimento da Consciência Crítica
O Inconformismo Inócuo
As Transformações Visíveis
Segunda Parte - América Latina: Hoje
Capítulo 3 - A Ditadura Militar e os Papéis Políticos dos Intelectuais na América Latina
Nota Explicativa
Introdução
A Natureza Sociológica do Processo
Uso e Limites do “ Poder Militar”
Estado e Sociedade em Tensão
O Intelectual e a Ditadura Militar
Os Papéis Políticos dos Intelectuais
Capítulo 4 - A Universidade em uma Sociedade em Desenvolvimento
Nota Explicativa
Introdução
A Universidade Latino Americana e seu Contexto Histórico Social
Aspectos da Situação Atual do Ensino Superior
Universidade e Desenvolvimento
Sobre o autor
Índice Remissivo
A Atsuko Haga,
amiga infatigável e leitora crítica tão
paciente, que tem me ajudado,
resolutamente, a enfrentar os
momentos mais amargos sem perder
a fé na razão e a confiança no futuro.
P R E F Á C I O

U M A S O C I O L O G I A D O
D E S T E R R O I N T E L E C T U A L

JÁ É LUGAR-COMUM afirmar que toda reflexão é herdeira do seu tempo e raramente escapa à crítica
corrosiva dos anos. Poucas são as obras capazes de preservar o viço e conservar o vigor das ideias, a
despeito da época em que foram escritas e das motivações que as conceberam. Circuito fechado: quatro
ensaios sobre o “poder institucional” reúne textos de Florestan Fernandes, produzidos entre 1966-1976,
período de profundas transformações na sua vida intelectual e pessoal, correspondendo ao afastamento
compulsório da Universidade de São Paulo pelo arbítrio do governo militar, em 1969, à experiência
docente na Universidade de Toronto no Canadá, o retorno ao Brasil e a vivência da condição de exílio no
seu próprio país. O livro é composto por dois ensaios que versam sobre o tema da escravidão e da
condição social do negro, seguidos por outro par que trata do lugar dos intelectuais nos regimes
ditatoriais na América Latina e das universidades no contexto dessas sociedades em processo de
desenvolvimento. Circuito fechado distingue-se por conciliar, de forma rara, a têmpera dos anos com o
caráter de reflexão que conservou a força da sociologia de Florestan, intelectual marcante e autor
clássico na tradição do pensamento brasileiro.
O livro explicita, de outro lado, posição já assumida pelo sociólogo pelo menos desde A revolução
burguesa no Brasil, obra decisiva à compreensão da sua trajetória, publicada em 1975, ano anterior à
primeira edição de Circuito fechado, na qual afirmou no Prefácio:

É preciso que o leitor entenda que não projetava fazer obra de “Sociologia acadêmica”. Ao contrário, pretendia, na linguagem mais
simples possível, resumir as principais linhas da evolução do capitalismo e da sociedade de classes no Brasil. Trata-se de um ensaio livre,
que não poderia escrever se não fosse sociólogo. Mas que põe em primeiro plano as frustrações e as esperanças de um socialista
militante.

Na introdução da presente publicação, Florestan retoma o mesmo ponto de vista ao caracterizar os
quatro emsaios nela agrupados:

Circuito fechado reúne quatro ensaios, escritos sob propósitos diferentes e em momentos diversos da vida do autor. Todos se ligam à
minha atividade sociológica, como eu a entendo e pratico: um meio de relação crítica com a sociedade brasileira e de confronto com os
dilemas históricos de nossa época.

Engana-se o leitor, no entanto, se pensar os textos do ângulo de uma interpretação militante, na acepção
corrente do termo. As concepções críticas do autor não se separam das análises rigorosas sobre as quais
se debruçou; tampouco dão guarida a diagnósticos dominados por circunstâncias ligeiras. O livro revela
o quanto Florestan era mestre nesta capacidade rara de manejar a melhor sociologia no curso de um
pensamento intolerante com as iniquidades sociais, concebendo uma disciplina voltada à compreensão de
uma realidade débil para suplantar o abismo existente entre as classes em sociedades que reproduzem o
mesmo padrão de desigualdade e de domínio ao longo da história, como é o caso da brasileira e das
demais latino-americanas.
Se na obra A revolução burguesa no Brasil Florestan rejeitou a posição antes assumida sobre a
viabilidade de se “forjar nos trópicos este suporte de civilização moderna”, para retomar uma frase de
fecho de A integração do negro na sociedade de classes e que ainda encerrava um facho de esperança no
sentido de o Brasil realizar as promessas civilizatórias do moderno, em Circuito fechado todas as
apostas estão cristalizadas na força incoercível das classes populares para construir um futuro socialista
e democrático, negador da repetição contínua do passado.

O circuito fechado constitui uma equação metafórica de um dos ângulos da situação que prevalece graças aos tempos retardados da
revolução burguesa. A história nunca se fecha por si mesma e nunca se fecha para sempre. São os homens, em grupos e confrontando-se
como classes em conflito, que “fecham” ou “abrem” os circuitos da história. A América Latina conheceu longos períodos de circuito
fechado e curtos momentos de circuito aberto. No entanto, o modo pelo qual se dão as coisas, nos dias que correm, revela que “o
impasse de nossa era” não consiste mais no caráter perene da repressão e da opressão. Os que reprimem e oprimem, nestes dias, lutam
para impedir o curto-circuito final, que para eles vem a ser o desaparecimento de um Estado antagônico à Nação e ao Povo, ou seja, um
Estado que, como todo Estado elitista, tem sempre de “fechar a história” para os que não estão no poder.

O livro representa, a despeito das permanências perceptíveis no estilo costumeiro de construir as
reflexões e da manutenção das categorias fundamentais do seu pensamento, a superação da fase
caracteristicamente acadêmica de Florestan Fernandes, transcorrida entre 1945-1969, datas que medeiam
a admissão como professor de sociologia na Universidade de São Paulo e a aposentadoria compulsória
imposta pelo arbítrio do regime militar. A obra revela, de outro lado, o peso da sua experiência de
desterro civil na mudança de tonalidade das concepções do sociólogo sobre os processos de
transformação da sociedade brasileira, acontecida ao longo de uma década. Em A integração do negro
na sociedade de classes, que foi publicado em 1965, Florestan ainda propugnava pela construção de
políticas sociais, como a da universalização da escola pública, para romper o padrão social e étnico da
desigualdade; em A revolução burguesa no Brasil demonstrou a incompatibilidade do capitalismo
dependente e da burguesia no Brasil com os valores civilizatórios da modernidade; em Circuito fechado
defendeu a ultrapassagem do Estado autocrático burguês pelo conflito de classes. Como se percebe,
interpretações já desenvolvidas são retomadas para tratar de novos problemas, mas segundo outro
andamento reflexivo, deixando entrever uma espécie de arremate na trajetória pessoal e intelectual de
Florestan Fernandes.
A forte presença das suas concepções de sociologia não permite, por isso, classificar o livro no rol
das reflexões escritas à moda de um manifesto, tampouco com objetivos políticos imediatos, visão, aliás,
encontradiça em certas análises que compõem a já volumosa fortuna crítica a seu respeito. Autores do
porte de Florestan não se submetem a qualificações simplificadoras, tampouco podem ser exilados em
retratos esquemáticos, ou destituídos da complexidade tipicamente humana e característica daqueles que
são prisioneiros do exercício intelectual rigoroso, posto que voltado à construção de diagnósticos
consequentes. No mesmo ano em que publicou A revolução burguesa no Brasil, afirmou em entrevista
concedida à revista Transformação: “Não nos devemos esquecer que estávamos na década de 1940 e
1950 e que, então, o fundamental era construir a Sociologia como uma ciência empírica”. Acrescentando
mais à frente: “Não devemos exorcizar nem a palavra função, nem a análise causal resultantes de
elaborações interpretativas estruturais-funcionais. Elas são instrumentais. O que se deve exorcizar é uma
concepção naturalista de Ciências Sociais: esse é que é o busílis da questão”. Ou ainda: “Não se tratava
de ver Marx em termos de dogmatismos de uma escola política. Marx emergia diretamente de seus textos
e de seu impacto teórico na Sociologia”. Ou, em outras palavras, o tratamento analítico dos problemas de
pesquisa é ligado, mas ao mesmo tempo distinto, dos seus desdobramentos políticos.
Tais afirmações não elidiram os princípios de construção da sua problemática sociológica, centrada no
drama e na tragédia cotidianos vividos pelas camadas populares marginalizadas da participação nos
rumos do país e excluídas das conquistas civilizadas e que explicam os dilemas do Brasil no trânsito do
moderno. São os negros e os seus descendentes, os índios, os pobres, os trabalhadores explorados pelo
movimento predatório do capital, o povo segundo a sua denominação, os depositários das mais perversas
iniquidades. Exatamente por interpretar a história brasileira desse lugar de orfandade, conferiu
originalidade a sua obra, o que lhe permitiu conceber uma reflexão empenhada e potente, sem que para
isso fosse necessário subordinar as análises ao domínio de posições políticas adrede assumidas. O foco
nos deserdados conferiu coerência entre a sua obra e a sua origem social, permitindo-lhe revelar que, na
gênese dos impasses da história do Brasil moderno, se aloja a rejeição de integrar e atribuir cidadania
real às classes populares, preservando-se a desigualdade, prática que exige reproduzir uma estrutura
política autocrática e privatista com o poder, independentemente do regime político.
Na introdução de Circuito fechado, constatando que nas “nações pobres” a história segue ritmos
diversos, é imperioso “saber como eles se manifestam e aonde eles levam, para que a autocracia
burguesa possa ser denunciada e o Estado autocrático burguês destruído”. Percebe-se, assim, como
Florestan não se alforriou da necessidade de se empreender uma análise embasada nos cânones da
pesquisa rigorosamente concebida, rejeitando visões impressionistas, como explicita mais uma vez na
introdução: “No entanto, o sociólogo tem de aventurar-se às construções de longa duração e a vincular os
resultados da investigação histórica com as descobertas da pesquisa de campo. É seu dever
‘profissional’, mesmo que não seja socialista, ao contrário do que acontece comigo”... Apesar e por
causa de expor a sua filiação política, Florestan não confunde a natureza do métier com orientações
nitidamente valorativas, afirmando a universalidade do método e o seu compromisso com o
conhecimento. Até por isso, o livro ultrapassa perspectivas exclusivas na modelagem dos diagnósticos e
das posições que abraça, independentemente de rejeitar a crítica sociológica “impassível e neutra”.
O caráter de particular

complexidade dessa situação histórica sugere que não nos devemos contentar com a superficial hipótese do “colonialismo interno”. Não
nos defrontamos com algo tão simples. Porém, com uma história que se recompõe, simultaneamente a partir de dentro (pela dominação
burguesa) e a partir de fora (pela dominação imperialista), produzindo, constantemente, novos modelos de desenvolvimento capitalista
que exigem a conciliação do arcaico, do moderno e do ultramoderno, ou seja, a articulação de antigas “estruturas coloniais” bem visíveis a
novas “estruturas coloniais” disfarçadas.

Segundo essa avaliação, o capitalismo, em países como o Brasil, é duplamente determinado,
espessando ainda mais a opacidade inerente a essa formação histórica, complicando o entendimento do
modo como se configurou, na medida em que combinou formas não homólogas de desenvolvimento,
subordinadas aos ritmos diversos das esferas da economia, da política, do social, da cultura. Aprofunda-
se, portanto, a heterogeneidade existente nas sociedades periféricas que combinam formas arcaicas e
tradicionais ao moderno, obstando a realização de uma ordem social aberta e democrática, em um
processo em que a revolução burguesa constrangeu o raio de ação dos agentes modernizadores que se
limitou a certas esferas da vida social, sem a capacidade de atingir o conjunto da sociedade. Dito de
outra maneira: a revolução burguesa em países dependentes como o Brasil constrói um abismo entre as
intenções da ação social dos agentes frente aos efeitos que provoca. Uma burguesia débil não encarna a
utopia da nação e torna-se prisioneira do estamento oligárquico e da dominação externa; uma ordem
social competitiva fica restrita ao âmbito econômico-empresarial, atrelando-se ao domínio burguês
autocrático de transformação capitalista na periferia. Nesse andamento de imposição da ordem por via
antidemocrática, resta como alternativa à mudança romper o círculo de ferro do domínio das elites
refratárias aos valores civilizados. A sua avaliação dos rumos assumidos pelo capitalismo no Brasil,
sobretudo pós-1964, o leva a abandonar a postura de intervenção racional na promoção de reformas e a
propugnar pela criação da nova ordem por via radical. Circuito fechado elucida o caminho anterior e
posterior de Florestan Fernandes, que elegerá a classe trabalhadora como o interlocutor privilegiado,
filiando-se, posteriormente, ao Partido dos Trabalhadores.
É nessa quadra particular da sua vida que se inserem os quatro ensaios que compõem Circuito
fechado. Os dois primeiros revisitam os temas da escravidão, da problemática racial, do preconceito, da
marginalização dos negros e dos mulatos na sociedade brasileira. O primeiro — “A sociedade escravista
no Brasil” —, escrito para um simpósio internacional acontecido em Nova York, em 1976, pretende
examinar “as relações de produção, a estratificação da sociedade e a articulação das raças contidas nos
vários polos de dominação escravista”. De acordo com essa proposta, Florestan se propõe “esboçar uma
espécie de síntese, que procura pôr em relevo os elementos estruturais e dinâmicos invariantes, os
quais tornaram esse conjunto de diferenciações possível e, mesmo, necessário”. Retornar ao passado
escravista permite-lhe entender ao mesmo tempo a persistência de um padrão social de marginalização
recorrente dos negros e seus descendentes, representantes das formas mais desenvolvidas de exclusão e
de rejeição à incorporação das classes populares na história do Brasil moderno. “O que aconteceu
dentro da colônia e no rebento tardio, que vem a ser a eclosão modernizadora do capitalismo nas
sociedades de origem colonial?”
A pergunta lançada ao passado brasileiro dirige-se à compreensão do presente histórico das
sociedades latino-americanas. “No cenário da América Latina, o Brasil é um ‘caso ideal’ para o estudo
das conexões da escravidão com o desenvolvimento interno do capitalismo.” País no qual a
modernização capitalista realizou-se de modo mais típico, a experiência brasileira ilumina os trajetos
trilhados pelos países periféricos, em especial os do continente. O exame “da antiga ordem escravocrata
e senhorial” permite entender a permanência das mesmas condições estruturais na época da transição
neocolonial que, além de não perder impulso, dinamiza-se no contexto da formação da sociedade
nacional.

A vítima foi o “negro” como categoria social, isto é, o antigo agente do modo de produção escravista que, quer como escravo, quer como
liberto, movimentará a engrenagem econômica da sociedade estamental e de castas. Para ele não houve “alternativa histórica”. Ficou com
a poeira da estrada, submergindo na economia de subsistência, com as oportunidades medíocres de trabalho livre das regiões mais ou
menos estagnadas economicamente e nas grandes cidades em crescimento tumultuoso, ou perdendo-se nos escombros de sua própria
ruína, pois onde teve de competir com o trabalhador branco, especialmente o imigrante, viu-se refugiado e repelido para os porões, os
cortiços e a anomia social crônica.

A passagem acima sintetiza o conjunto das pesquisas e análises de Florestan sobre a escravidão, as
relações raciais, enfim, sobre as experiências dramáticas dos negros e descendentes após a Abolição, no
contexto de emergência da revolução burguesa, no qual A integração do negro na sociedade de classes é
obra irreparável.
No ensaio seguinte dessa edição — “25 anos depois: o negro na era atual” —, no qual realiza um
balanço das pesquisas realizadas em parceria com Roger Bastide para atender o chamado Projeto
UNESCO de investigação das relações raciais, no início dos anos 1950, o sociólogo escreveu:

Para que as coisas fossem diferentes, teria sido necessário que a revolução burguesa fosse, ao mesmo tempo, aberta às pressões
populares, democrática e nacionalista; e, de outro lado, que o próprio negro tivesse criado, depois da Abolição e, principalmente, da
“Revolução de 30”, legitimidade para o protesto racial (tido pelas camadas conservadoras como o pior tipo de protesto, depois do conflito
operário) — o que, sabidamente, não ocorreu, pois a população negra nunca reuniu condições para levar a democratização da ordem mais
longe que as classes operárias e o radicalismo burguês. Tudo isso significa que o inconformismo negro pode ser uma realidade psicológica,
cultural e moral, mas não pode tornar-se uma força social atuante e uma realidade política. Em uma sociedade de classes que preserva um
padrão de elitismo típico da dominação estamental, o conflito potencial de raça não tem como eclodir na cena histórica. No passado, ele
era expurgado da ordem legal e fortemente reprimido, como uma “ameaça às instituições e à civilização”. No presente, ele é
deliberadamente confundido com o conflito de classe ou com a “subversão comunista da ordem” — e exposto à solução policial.

O negro, dada a sua permanente marginalização, não pode alçar-se à condição de sujeito da sua
história, sendo expropriado do seu próprio estatuto de humanidade. A radicalidade à qual a análise chega
está expressa neste diagnóstico de perda da substância humana de seres sociais. Sem lugar, o problema
negro está sempre subsumido por outras demandas, seja porque a escravidão é desumanizadora, seja
porque se formou um tecido cultural tendente a rasurar o preconceito, em nome de uma democracia racial
que a todos atinge, apaziguando a consciência das elites e excluindo a legitimidade do protesto.
Nesse quadro de arremate dos estudos sobre a problemática racial, subjaz a análise realizada em A
integração do negro na sociedade de classes, que já revelou o amadurecimento da reflexão do sociólogo
sobre o processo de constituição do Brasil moderno e o seu franco recuo em relação às possibilidades
efetivas de se construir no país os princípios civilizatórios, raiz do tratamento que conferiu à revolução
burguesa e aos textos posteriores escritos sobre o tema. Situando a problemática do negro na passagem
da sociedade escravista para a sociedade de classes, Florestan analisou as relações raciais no prisma da
dinâmica global da modernização brasileira, acentuada na cidade de São Paulo. A rápida transformação
urbana, ocorrida entre o final do século XIX e o começo do século XX, impossibilitou a inserção do negro
e do mulato no estilo urbano de vida, por não possuírem recursos para enfrentar a concorrência dos
imigrantes. Ou, para acompanhar as suas categorias, a heteronomia presente na “situação de castas”
impediu aos negros assimilar as potencialidades oferecidas pela “situação de classes”. Resulta desse
processo o “desajustamento estrutural”, a “desorganização social”, típicas da condição dos descendentes
dos africanos, relegados a viver um estado de marginalidade social, verdadeiros proscritos das
conquistas civilizadas. O preconceito e outras expressões de discriminação exerceram a função “de
manter a distância social” e de reproduzir o “isolamento sociocultural”, tendo em vista a preservação das
“estruturas sociais arcaicas”. O ritmo intenso da história em São Paulo produziu forte descompasso entre
a ordem social (mais sincronizada com as transformações da estrutura econômica) e a ordem racial (de
ajustamento mais lento às mudanças), permanecendo como uma espécie de “resíduo do antigo regime”,
cuja eliminação futura adviria dos “efeitos indiretos da normalização progressiva do estilo democrático
de vida e da ordem social correspondente”, posição que é superada após 1969.
Explicita-se, nessas passagens, a origem do seu entendimento sobre o modo de realização da
sociedade moderna no Brasil, enquanto processo complexo e de resultados híbridos, uma vez que,
independentemente do ritmo das transformações, padece de uma sorte de fraqueza congênita,
comprometendo todo o seu desenvolvimento ulterior. As análises sobre a herança da escravidão
inseriam-se, dessa maneira, na busca de compreender como os fundamentos da sociedade brasileira
produziam bloqueios à plena consecução de princípios civilizados, verdadeiros anteparos à pura
modernidade capitalista. O projeto de investigar o papel das relações escravistas no Brasil na
constituição da sociedade nacional desdobrou-se nos trabalhos escritos por seus assistentes, como
Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, Maria Sylvia de Carvalho Franco, entre outros
colaboradores. A articulação dos temas de pesquisa rendeu frutos e produziu afinidades intelectuais ao
grupo reunido por Florestan, justificando a identificação posteriormente construída e sintetizada na
expressão Escola Paulista de Sociologia, apesar de a convivência não ter sido sempre apaziguada e
comportar diferenças internas entre os participantes.
Os estudos nessa área temática foram, portanto, essenciais na constituição do grupo de pesquisa e da
importância dos sociólogos da USP no cenário das ciências sociais no Brasil, na medida em que se
tornaram interlocutores privilegiados das gerações seguintes, sobretudo porque foram vocalizadores de
visões críticas sobre a modernização da sociedade brasileira, salientando as tensões existentes, das quais
as reflexões de Florestan e a chamada “teoria da dependência”, formulada posteriormente por Fernando
Henrique Cardoso, são paradigmáticas. Os sociólogos de São Paulo, diversamente dos intelectuais do
ISEB que fizeram do Estado o principal interlocutor, dirigiram prioritariamente as suas pesquisas para o
entendimento das questões, das mudanças e dos impasses sociais resultantes do processo acelerado de
transformações. Foram produzidas, naquela época, concepções diversas sobre a formação do capitalismo
no país que, embora tenham enriquecido o campo intelectual, tornaram-se alvo de disputas sobre as
modalidades mais legítimas de interpretação.
No curso dos debates, revelaram-se personalidades nucleadoras das posições e definidoras das
direções futuras da pesquisa, a exemplo de Florestan Fernandes, que se tornou o principal construtor do
cânone da sociologia brasileira, naturalmente em decorrência da envergadura da sua obra. Florestan foi,
por esse conjunto de motivos, o principal artífice da formação da moderna linguagem sociológica, se a
concebermos na acepção de uma disciplina ancorada em procedimentos rigorosos, realizada em moldes
científicos e desenvolvida no espaço acadêmico, mas que se voltou para os mais diferentes papéis afeitos
aos intelectuais no Brasil de então. A ênfase que conferiu à importância dos cientistas sociais na
discussão e definição das políticas públicas, em especial à necessidade desses profissionais
participarem da planificação social para corrigir distorções no processo de construção do moderno, foi
tributária da sociologia de Karl Mannheim, o formulador da condição do intelectual socialmente
desvinculado. O sociólogo, como se depreende das suas reflexões, ocupa lugar decisivo no tratamento
dos problemas erigindo-se em interlocutor qualificado pelo conhecimento científico. Por isso, Florestan
atribuiu lugar de relevo aos intelectuais comprometidos com os rumos da sociedade.
Os dois últimos ensaios de Circuito fechado — “A ditadura militar e os papéis políticos dos
intelectuais na América Latina” e “A universidade em uma sociedade em desenvolvimento” — são
sintomáticos da sua desilusão a respeito do significado do papel desses atores em sociedades periféricas.
Enquanto o primeiro, escrito entre 1969-1970 quando era professor na Universidade de Toronto, analisa
os intelectuais no contexto das ditaduras latino-americanas controladoras da liberdade de pensamento, o
segundo, produzido em 1966 para uma publicação no exterior, trata do tema de maneira indireta, pois
realiza um balanço da universidade nesses países do ponto de vista do significado que tiveram na
articulação “dos dilemas econômicos, sociais e culturais que pesam sobre os diferentes países da
América Latina”. Os dois estudos transpiram a sua irrecuperável desilusão com o papel desse atores,
com o fechamento dos espaços de atuação. Ao lado do diagnóstico sobre a traição de muitos intelectuais
que, ou aderiram diretamente à situação, ou assumiram posições de afastamento, em função das
frustrações que geraram “confusões morais e pessimismo sistemático, dando origem a uma
superavaliação das atividades intelectuais como refúgio e fim em si mesmas”, Florestan salienta a crise
da atividade. “O malogro da intelligentsia latino-americana reflete, de fato, o malogro de suas
sociedades, com respeito à sua organização interna e à sua evolução como sociedades competitivas”. A
derrota dos intelectuais foi tanto produto “estrutural e dinâmico de suas inter-relações com as elites
culturais existentes”, quanto consequência da própria origem de classe, dificultando a ruptura, “parcial
ou totalmente, com as classes dominantes e suas elites no poder”.
Circuito fechado é, em essência, uma densa reflexão sobre a perda de lugar da intelligentsia na
América Latina, a sua derrota, capitulação e o seu encerramento num circuito que se conclui. É um livro
que não isenta os intelectuais da responsabilidade com os rumos assumidos pela atividade: “os melhores
representantes do progresso da ciência e da tecnologia científica assumem atitudes ou comportamentos
que não correspondem à ética de responsabilidade intelectual, que deveria ter vigência numa sociedade
subdesenvolvida”. O movimento que se fecha refere-se aos caminhos que lhe foram impostos por ter sido
desterrado do seu país na dupla significação do cidadão destituído de direitos e do intelectual alijado da
realidade de onde retirou as suas perguntas e enraizou a sua obra. Não por casualidade, os quatro ensaios
foram construídos a partir de perguntas a serem respondidas e cujo equacionamento não enfraquece o
impulso de formular compulsivamente novas questões. Nos dois primeiros, Florestan Fernandes
enfrentou as suas próprias pesquisas, isto é, pôs em escrutínio a sua responsabilidade de cientista; nos
dois últimos, foi ao cerne do próprio métier, numa espécie de acerto de contas com o seu passado e de
busca de outro lugar de responsabilidade do conhecimento.
O subtítulo do livro — Quatro ensaios sobre o “poder institucional” — pode ser compreendido em
chave interpretativa ambígua, derivada das definições sociológicas de instituição, isto é, de orientações
de valor organizadas e estruturadas que possuem caráter duradouro. Em suma, como poder autocrático e
como valores fixados que só se alteram por conflitos profundos, com força para dilapidar antigas crenças
e afirmar outros princípios. O sociólogo, mesmo que eventualmente não tenha pretendido, está aludindo
às novas responsabilidades dos intelectuais na América Latina. Não é de se surpreender, portanto, que
ele as tenha perseguido.


MARIA ARMINDA DO NASCIMENTO ARRUDA
Professora titular do Departamento de Sociologia da USP
P R E F Á C I O D O A U T O R

CIRCUITO FECHADO reúne quatro ensaios, escritos sob propósitos diferentes e em momentos diversos da
vida do autor. Todos se ligam à minha atividade sociológica, como eu a entendo e pratico: um meio de
relação crítica com a sociedade brasileira e de confronto com os dilemas históricos de nossa época.
Somente o último ensaio, elaborado há dez anos, ficou definitivamente preso à órbita do “trabalho
acadêmico” stricto sensu. Como contribuição a uma coletânea organizada por J. Maier e R. W.
Weatherhead, a sua parte no diagnóstico da universidade na América Latina estava prefixada. Achávamo-
nos na década de 1960 e as pressões ativistas, estudantis ou dos intelectuais, iam em um crescendo.
Contudo, cabia-me fazer um corte que se limitasse a apanhar as conexões mais gerais da universidade
com “uma sociedade em mudança”. Dentro dos vários mundos que coexistem na América Latina, limitei-
me a ressaltar certas tendências que permitiam entender a reação recíproca — com frequência inibidora
— da universidade com o meio societário inclusivo.
Qualquer que seja minha presente insatisfação diante da postura teórica que assumi nesse ensaio, devo
confessar que ele me foi muito útil. De um lado, ele forçou-me a fazer um diagnóstico global da
universidade latino-americana um pouco antes da intensificação e do aprofundamento da crise da
universidade brasileira: os anos de 1967 e 1968 marcam o clímax da discussão da reforma universitária
no contexto mais amplo de um radicalismo democrático que iria levar, estudantes e professores, ao fundo
dos problemas solúveis e insolúveis. Aquele ensaio preparou-me intelectualmente para esse debate,
levando-me a situar-me diante dele de uma perspectiva mais geral e com uma visão relativa da posição
do Brasil no conjunto do ensino superior da América Latina, que poucos se lembraram de tomar em
conta. De outro lado, todo esse avanço da reflexão comparada coincidia com os progressos que eu
próprio vinha realizando no estudo da formação e evolução do capitalismo dependente na América
Latina. Ainda não havia chegado ao fulcro dos problemas suscitados por uma revolução burguesa em
retardamento, regulada por potencialidades internas muito mais fracas que os dinamismos do mercado
mundial e da eclosão do capitalismo monopolista, com seu padrão peculiar de imperialismo. Porém, já
conseguira apreender a teia principal de suas limitações intrínsecas. Podia, portanto, entender o que
vinha a ser a tão celebrada fórmula da “revolução pelo desenvolvimento” e perceber com realismo o que
ela reservava a todas as universidades da periferia do mundo capitalista contemporâneo, inclusive na
América Latina e, em particular, no Brasil. Isso cobriu-me diante das ilusões de outros colegas, que
viram no “poder jovem” e na “inquietação estudantil” um duplo avanço de destruição do arcaico e de
construção do moderno, o qual não era historicamente possível. Apoiei e participei dos movimentos
intelectuais e políticos dinamizados pelas organizações estudantis, orientando-me, quanto aos
diagnósticos, pelos resultados globais da análise sociológica, e, no plano político, pelas implicações de
um projeto de reforma que a própria sociedade brasileira, nas suas manifestações mais avançadas,
continha dentro dos limites do “radicalismo democrático”. Apesar de tudo, o pensamento conservador
transbordou, inclusive a partir de dentro da universidade brasileira, denunciando os adeptos da reforma
universitária como inimigos públicos do decoro intelectual e do equilíbrio interno das instituições do
ensino superior!... Não obstante, não fora esse ensaio, a contribuição que logrei dar, especialmente em A
universidade brasileira: reforma ou revolução?, seria muito mais pobre.
O terceiro ensaio nasceu de uma problemática mais complexa.
A coexistência de dois tempos históricos contraditórios e opostos, em conflito de vida e morte — os
tempos de uma revolução burguesa retardada, que iria se acelerar com o intervencionismo econômico do
Estado e com a irradiação do capitalismo monopolista através das Nações latino-americanas “mais
viáveis”; e os tempos de uma revolução socialista em avanço, que mostrou, em Cuba, como se desenha o
presente e o futuro da América Latina —, desencadeou um processo histórico de consolidação da
dominação burguesa Nacional e Imperial que mobilizou, em novo estilo, o famoso “braço armado da
burguesia”. Nesse ensaio, aparece a primeira manifestação da posição que tomei diante dessa típica
contrarrevolução a frio (iria tornar-se a quente, no Chile). O diagnóstico sociológico, nesse plano,
converte-se numa crítica de denúncia. De um lado, das forças e fatores históricos que criaram essa
necessidade “inelutável” de manter a ordem através da violência estatal. De outro, do papel que os
intelectuais assumiram nesse bouleversement. Muitos se lembram que não há revolução sem teoria
revolucionária. Contudo, também não há contrarrevolução sem teoria contrarrevolucionária. O mínimo
que se pode afirmar, sociológica e historicamente, é que os intelectuais — tanto os “liberais” quanto os
“conservadores” e “reacionários”, de mistura com muitos “reformistas” inconsequentes — colaboraram
ativa ou disfarçadamente com essa chamada “revolução institucional” (?!). Cumpria-me dar um balanço
e, ao mesmo tempo, sugerir os rumos de uma tomada de posição corretiva, que ressuscitasse ou o
radicalismo democrático, esquecido tão depressa, ou as esperanças verdadeiramente socialistas das
“transformações de estrutura”, que não podem eclodir sem a presença efetiva da maioria na condução dos
processos socioeconômicos e políticos fundamentais.
Os dois primeiros ensaios focalizam outros temas, na aparência “menos quentes”: a sociedade
escravista das épocas colonial e imperial; e a situação do negro em São Paulo vinte e cinco anos depois
da pesquisa R. Bastide-F. Fernandes. Mas, quem é que disse que teríamos “essa” universidade ou “este”
presente se de permeio não estivesse um passado colonial, que deixou sequelas que ainda não foram
absorvidas nem eliminadas? Além do mais, como escrevi algures, é a partir do negro que se deverá tentar
descobrir como “o Povo emerge na história” no Brasil. Muitos dirão que ele não emerge nem nunca
emergiu. Engano redondo. Se não estivesse emergindo, e com certa impetuosidade, nem “as revoluções
institucionais” nem o Estado autocrático burguês seriam uma imperiosa necessidade histórica. Além
disso, porque o Povo está emergindo na história, há perspectivas de um presente e de um futuro de
negação do passado. A história subterrânea é pouco visível e sistematicamente ignorada pelos
historiadores “profissionais”. Ela envolve o atual, aquilo que está ocorrendo ou está prestes a ocorrer.
As classes dominantes nunca gostaram desse tipo de pesquisa nos países em que a estabilidade parece
ameaçada. No entanto, o sociólogo tem de aventurar-se às construções de longa duração e a vincular os
resultados da investigação histórica com as descobertas da pesquisa de campo. É seu dever
“profissional”, mesmo que não seja socialista, ao contrário do que acontece comigo.
Por causa da escravidão mercantil, o negro não só aparece como o elo mais frágil e o polo mais
explorado de uma sociedade de alta concentração de riqueza, de poder e de prestígio social. Ele é,
também, queira ou não, o marco de referência da ruptura para a frente (como tentei assinalar em “Os
aspectos políticos do dilema racial brasileiro”). Através dele, portanto, não só o passado e o presente se
cruzam — o futuro nos diz o que ele nos reserva dentro da “democracia racial” de nossa ordem
institucional. O que pode fazer, pelo negro e pelo mulato, um capitalismo dependente que lança suas
raízes em um passado colonial e escravista tão recente, no qual a acumulação originária teve na
escravidão um dos seus fulcros principais? Tudo isso quer dizer que, postos lado a lado, os dois ensaios
evocam um ponto de partida e um ponto de chegada, sobre os quais é forçoso refletir com espírito crítico
objetivo. O leitor terá de colaborar amplamente comigo, para saturar os vazios de uma confrontação tão
ampla. O “negro rico” de São Paulo não ergue, apenas, a questão da “vez do negro”. Ele nos diz,
claramente, o que o capitalismo da periferia pode assegurar aos “oprimidos”, em geral, e às “raças
submetidas”, em particular. Há uma igualdade? Ou uma perspectiva de igualdade? Em que ela consiste?
Nas chamadas “nações pobres” a história possui outros ritmos. Impõe-se saber como eles se manifestam
e aonde eles levam, para que a autocracia burguesa possa ser denunciada e o Estado autocrático burguês
destruído.
Ambos os ensaios — embora, de modo mais pertinente e concentrado, especialmente o primeiro —
põem-nos diante da descolonização como processo histórico. Há tempo venho insistindo na necessidade
de dar-se maior atenção à investigação histórico-sociológica desse processo. O mau vezo de confundir-
se emancipação nacional, como processo histórico, com descolonização, como processo econômico,
sociocultural e político fez com que as ciências sociais ignorassem a realidade da América Latina. A
emancipação nacional ocorreu ao nível das estruturas de poder dos estamentos dominantes e exigiu, como
sua base material necessária, que a descolonização fosse contida e, ao mesmo tempo, se desenrolasse
sinuosamente, como um processo ultraprolongado. Ainda lutamos não só com as sequelas de estruturas
“herdadas” da era colonial ou da escravidão. Vemos como o capitalismo competitivo ou, em seguida, o
capitalismo monopolista revitalizam muitas dessas estruturas, requisito essencial para a intensidade da
acumulação de capital ou a continuidade de privilégios, que nunca desaparecem, e de uma exploração
externa, que sempre muda para pior. A complexidade dessa situação histórica sugere que não nos
devemos contentar com a superficial hipótese do “colonialismo interno”. Não nos defrontamos com algo
tão simples. Porém, com uma história que se recompõe, simultaneamente a partir de dentro (pela
dominação burguesa) e a partir de fora (pela dominação imperialista), produzindo, constantemente,
novos modelos de desenvolvimento capitalista que exigem a conciliação do arcaico, do moderno e do
ultramoderno, ou seja, a articulação de antigas “estruturas coloniais” bem visíveis a novas “estruturas
coloniais” disfarçadas. A existência de um Estado nacional independente apenas complica esse processo.
Porque ele supõe a existência de uma vontade nacional pela qual a dominação de classe significa,
sempre, esses dois florescimentos concomitantes do capitalismo da periferia. A crítica sociológica não
pode permanecer impassível e “neutra”, como vem fazendo, sistematicamente, a análise histórica. É
preciso desmitificar esse processo, desvendando o quantum de descolonização que não pode ser feito
simplesmente porque se restringe ou se toma impossível uma participação popular revolucionária nas
estruturas de poder da Nação e do Estado. Se não fui tão longe, pelo menos tive o mérito de mostrar o
que os investigadores precisam fazer no estudo do passado recente e da época contemporânea no Brasil.
O título deste pequeno livro não deve enganar ninguém. O circuito fechado constitui uma equação
metafórica de um dos ângulos da situação que prevalece graças aos tempos retardados da revolução
burguesa. A história nunca se fecha por si mesma e nunca se fecha para sempre. São os homens, em
grupos e confrontando-se como classes em conflito, que “fecham” ou “abrem” os circuitos da história. A
América Latina conheceu longos períodos de circuito fechado e curtos momentos de circuito aberto. No
entanto, o modo pelo qual se dão as coisas, nos dias que correm, revela que “o impasse de nossa era”
não consiste mais no caráter perene da repressão e da opressão. Os que reprimem e oprimem, nestes
dias, lutam para impedir o curto-circuito final, que para eles vem a ser o desaparecimento de um Estado
antagônico à Nação e ao Povo, ou seja, um Estado que, como todo o Estado elitista, tem sempre de
“fechar a história” para os que não estão no poder. Nesse sentido, vivemos a pior fase da transição,
aquela na qual a autodefesa do privilégio pela violência sistemática, organizada, institucionalizada e
“legitimada” através do poder concentrado do Estado, dá a impressão que o “passado é perene” e que
tenderá a reproduzir-se no futuro como se reproduzia socialmente no passado. Pura ilusão. A virulência
do processo não indica uma história em crescendo mas uma história em declínio. Enfim, a proximidade
do ponto morto do clímax de uma crise, que poderá durar ainda algumas décadas, mas como “o começo
de uma nova era”.



Resta-me agradecer o incentivo de um colega que fez tudo que pôde para animar-me a reunir ensaios tão
heterogêneos em um pequeno livro. Trata-se do professor Jaime Pinsky, a cujo convívio devo algumas
das poucas aberturas que tenho, atualmente, para o dia a dia brasileiro. Ao mesmo tempo queria
agradecer à Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia “Hucitec” Ltda., e especialmente a Adalgisa
Pereira da Silva e a Flávio George Aderaldo, a programação e a edição do livro.

FLORESTAN FERNANDES
São Paulo, 16 de março de 1976
PRIMEIRA PARTE

B R A S I L:
P A S S A D O E P R E S E N T E
Eu canto aos Palmares
odiando opressores
de todos os povos
de mão fechada
contra todas as tiranias!
SOLANO TRINDADE (Canto dos Palmares)
CAPÍTULO 1

A SOCIEDADE ESCRAVISTA
NO BRASIL[1]

O BRASIL CONHECEU, em sua história colonial e independente, várias formas de escravidão, as quais se
associaram à escravização de raças diferentes, com caracteres étnicos e culturais distintos, e a formações
socioeconômicas escravistas diversas. Em quase quatro séculos, em que a escravidão se constituiu e se
refez em conexão com as determinações diretas e indiretas dos vários “ciclos econômicos”, não foi só a
história que se alterou. Com ela se alteraram as relações de produção, a estratificação da sociedade e a
articulação das raças contidas nos vários polos da dominação escravista.
O propósito deste artigo não consiste em fazer um levantamento global sistemático de todas essas
diferenciações, ocorridas, de modo simultâneo, no espaço, ou de modo sucessivo, no tempo. Lembramos
em primeiro lugar as diferenciações para que se tenha em mente que não nos entregamos a uma
simplificação grosseira e para deixar claro que elas aparecem como o ponto de partida de qualquer
reflexão sociológica sobre o assunto. Contudo, o nosso objetivo central é outro. Propomo-nos a esboçar
uma espécie de síntese, que procura pôr em relevo os elementos estruturais e dinâmicos invariantes, os
quais tornaram esse conjunto de diferenciações possível e, mesmo, necessário. Portanto, vamos nos
concentrar naquilo que, na reconstrução e na explicação da realidade, Marx entendia como os “pontos de
chegada”. Infelizmente, os resultados prévios da pesquisa histórica, econômica e sociológica não nos
permitem trabalhar à vontade com as totalidades que nos interessam, que se encadeiam às “grandes
transformações históricas”, mas não são, apenas, “produtos da história”, pois também contam como “as
suas causas”.
A reflexão sociológica, concebida dessa maneira, converte-se numa espécie de “história interpretativa
de longa duração”. Não vamos nos penitenciar por isso. A tradição especulativa, que leva a uma
condenação da história, não nasce da sociologia clássica, mas de influências filosóficas que as principais
correntes da sociologia clássica já haviam superado, nos quadros intelectuais de sua formação e
consolidação. Tampouco concordamos com os que pensam que a reflexão sociológica, concentrada em
realidades históricas de longa duração, não leva a nada ou desemboca em uma história metafísica, “sem
fatos”. Numa época em que a sociologia diferencial (ou histórica) se reconstitui e recolhe o que há de
melhor nas diretrizes ontológicas, metodológicas e teóricas da análise dialética, esse nos parece, ao
contrário, o melhor caminho para estabelecer os “conhecimentos precisos”, que devem estar na raiz de
qualquer estudo comparado na investigação sociológica.
É pacífico que não se pode progredir muito, em qualquer campo de estudos comparados nas ciências
sociais, antes que se introduza um máximo de clarificação analítica, ao mesmo tempo conceitual e
teórica, na reconstrução, na descrição e na interpretação das realidades que se pretendam comparar. Em
um artigo tão pequeno como este não podíamos alimentar muitas pretensões. Porém, temos plena
consciência de que tentamos abrir uma perspectiva correta e frutífera, especialmente quando se tem em
mira a localização do Brasil escravista neste simpósio sobre o estudo comparado das sociedades de
plantação no Novo Mundo.
A PRODUÇÃO ESCRAVISTA E SUA EVOLUÇÃO

SE EXCETUARMOS ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES (e muitas delas devidas às peculiaridades dos Estados


Unidos), os estudiosos da escravidão têm encarado suas relações com o capitalismo da perspectiva das
sociedades metropolitanas. Na verdade, como conexão imediata da escravidão, o capitalismo se
desenvolveu lá — e, em particular, não nas sociedades metropolitanas em geral, mas naquelas que
podiam preencher hegemonia através do poderio político-militar e financeiro-comercial. É preciso fazer
uma rotação nessa perspectiva. O que aconteceu dentro da colônia e no rebento tardio, que vem a ser a
eclosão modemizadora do capitalismo nas sociedades de origem colonial?
Essa pergunta é importante, quando se tem em vista os países da América Latina e, entre eles, o Brasil
em particular. As economias exportadoras de “gêneros coloniais ou de produtos tropicais” não só
nasceram profundamente especializadas: essa especialização foi imposta pelas antigas metrópoles e,
embora mantida pelo mercado mundial depois da emancipação nacional, nunca deixou de ser uma
especialização colonial propriamente dita. Daí temos um paradoxo: a emancipação nacional condiciona
e se alimenta da preservação de estruturas e dinamismos coloniais, que não poderiam ser destruídos sem
criar impossibilidades quer para a eclosão modernizadora, quer para a expansão inicial de um mercado
especificamente moderno e do capitalismo comercial que ele implicava, quer para a consolidação de
uma economia urbano-comercial capitalista nas cidades e sua irradiação para o campo. As pressões para
manter formas de produção e estruturas coloniais vinham, pois, simultaneamente, “a partir de dentro”
(dos grupos dominantes na economia e na sociedade) e “a partir de fora” (da expansão dos países
industriais e dos dinamismos do mercado mundial). No conjunto, a colonização formava, aí, a realidade-
matriz, profunda e duradoura; a descolonização surgia, com frequência, como uma realidade recente,
oscilante e superficial, incapaz de gerar, por si própria, as forças de autodestruição do “mundo colonial”
persistente ou de autopropulsão do “desenvolvimento capitalista moderno” incipiente. Portanto, atrás de
uma aparente ebulição capitalista, deparamos com estruturas coloniais que se fixam no mundo capitalista
emergente, através de amálgamas e composições que irão revelar duração secular ou semissecular, o que
as converte no “outro lado necessário” do capitalismo da periferia da Europa da revolução burguesa e do
nascente capitalismo industrial.
No cenário da América Latina, o Brasil é um “caso ideal” para o estudo das conexões da escravidão
com o desenvolvimento interno do capitalismo. Devido à importância e à universalidade da escravidão,
ela alcançou uma influência construtiva homogeneizadora, que nem sempre possuiu em outras partes, e
por ela tiveram de passar os momentos iniciais de constituição de um mercado interno não colonial, ou
seja, ela se insere, com relativa rapidez, entre os pré-requisitos tanto da eclosão capitalista
modernizadora, quanto da formação, consolidação e diferenciação do capitalismo comercial. Na etapa de
crise final da produção escravista-colonial, dela irrompe também a negação do regime escravocrata e
senhorial, se não através da atuação revolucionária das massas escravas, que não chegou a ocorrer como
“fator tópico” das transformações históricas, pelas cisões, rupturas e convulsões que converteram o
abolicionismo numa “revolução do branco para o branco” (ou seja, em uma irrupção revolucionária
“dentro da ordem”, que leva a descolonização à estrutura e aos dinamismos do mundo que o português
criou, ou seja, da ordem escravocrata e senhorial).
Tudo isso tem sido negligenciado, por uma razão bem simples. Ao contrário do que ocorreu nos
Estados Unidos, aqui não se poderia opor regiões contrastantes em termos de formas de produção e de
estruturas sociais ou de poder; e, de outro lado, os ritmos evolutivos foram descontínuos e muito lentos.
Perdeu-se de vista, assim, o que a escravidão, que aparecia de modo visível como o principal esteio de
perpetuação de tudo que era colonial e senhorial, representava para a emergência, a consolidação e a
irradiação do que era capitalista e moderno. As conexões estruturais e dinâmicas, muitas delas
institucionais, que surgiam nesta esfera, ocorriam ao longo de um gradiente diacrônico: não eram,
portanto, visíveis de maneira direta ou saliente. O que se pode descobrir comparando dois estilos de
vida coexistentes, nos Estados Unidos, no caso brasileiro só se percebe com nitidez estabelecendo-se as
sequências de uma evolução histórica de ritmos oscilantes, em zigue-zagues, e de sentido ambíguo.
Contudo, nem por isso a realidade é menos imperativa. O desaparecimento tardio da escravidão acaba
por convertê-la em um dos fatores da “acumulação originária” na cena histórica brasileira. Não se trata,
pura e simplesmente, de constatar que a escravidão desaparece e é enterrada com “a crise do regime
escravocrata e senhorial”. Ela alimentou essa crise, inclusive no plano construtivo, já que sem a
persistência da escravidão e a transferência do excedente econômico que ela gerava para as cidades
(segundo ritmos históricos lentos) a “história ocorrida” seria inexequível. Não advogamos, com isso, que
se ponha a imigração e outros fatores em um segundo plano. Mas, apenas, que não se conte a história tão
depressa e tão por cima a ponto de deixar-se na penumbra a verdadeira camada primária desse “mundo
moderno” de raízes tão arcaicas.
Se se adota este amplo ponto de vista descritivo e interpretativo, podem-se estabelecer dois tipos de
confronto. O primeiro, apanhando as fases socioeconômicas da evolução do sistema de produção e de
dominação econômica. Têm-se, aí, três períodos ou fases mais ou menos bem delimitados historicamente:
[2] 1º) a era colonial, que se caracteriza pelo controle direto da Coroa e pelos efeitos do antigo sistema
colonial na organização do espaço ecológico, econômico e social; 2º) a era de transição neocolonial, que
vai, grosso modo, do início do século XIX, com a chegada da familia imperial, a abertura dos portos e a
Independência, até a sexta década do século XIX, a qual é caracterizada pela eclosão institucional da
modernização capitalista e a formação de um “setor novo da economia”, ambas girando em torno da
constituição e irradiação de um mercado especificamente capitalista, implantado nas cidades com
funções comerciais dominantes (em consequência de suas conexões com o mercado mundial e por
começarem a funcionar como centros de concentração dos negócios ou de movimentação do excedente
econômico retido internamente); 3º) a era de emergência e expansão de um capitalismo dependente,
nascido do crescimento e consolidação do “setor novo da economia”, que primeiro se configura como
uma economia urbano-comercial com funções satelizadoras em relação ao campo e, em seguida, se
reorganiza, transfigura e redefine como uma economia urbano-industrial, com funções integrativas de
escala nacional e tendências de dominação metropolitanas, era esta que vai da sexta década do século XIX
aos nossos dias. O segundo confronto permite considerar as fases da evolução do sistema social de
poder. Têm-se, aí, o largo período colonial e as duas eras da emancipação nacional, a primeira
delimitada pela reintegração da ordem escravocrata e senhorial no Império e a última, pela emergência e
consolidação de uma ordem social competitiva.[3] Ou seja, uma era em que a continuidade da ordem
escravocrata e senhorial convertia o Estado nacional em um Estado senhorial e, portanto, escravista; e
outra era na qual a expansão da ordem social competitiva dá à luz um Estado burguês propriamente dito,
através de um prolongado e conturbado parto histórico. A evolução ocorrida indica que foi preciso mais
de meio século para que a descolonização atingisse, por fim, todas as estruturas de poder das classes
dominantes e a organização do Estado nacional.
De acordo com uma ou outra dessas perspectivas, o funcionamento e o rendimento da escravidão são
vistos como contraparte de um contexto histórico-estrutural regulador e determinante. Se se constrói o
contexto histórico-estrutural a partir do sistema de produção e de dominação econômica, o que ganha
saliência são as funções econômicas da escravidão, que variam ao longo da evolução apontada. Se se
constrói o contexto histórico-estrutural a partir do sistema social de poder (e, portanto de dominação
política), o que ganha saliência são as funções sociais da escravidão, que variam menos mas, ainda
assim, também sofrem transformações ao longo da evolução apontada. Em um tratamento analítico
exaustivo, a primeira modalidade de reconstrução teria de passar da base econômica para as estruturas
sociais de poder (ou “as superestruturas do sistema”), para que o quadro ficasse completo. E
reciprocamente, a segunda modalidade de reconstrução teria de abranger, forçosamente, as determinações
e as implicações da base econômica sobre o sistema social de poder e de dominação política. A nossa
exploração de ambas as perspectivas será naturalmente limitada pelo alcance deste artigo (a primeira,
com um pouco mais de extensão, nesta parte; a segunda, muito parcialmente, na parte subsequente). Os
materiais empíricos e a principal bibliografia de referência, que fundamentam essa excursão analítica,
encontram-se em obras já publicadas.[4]
Em termos da apropriação do homem pela violência, a “escravidão moderna” apresenta muitos pontos
de contato e de semelhança com a “escravidão antiga”. No entanto, a escravidão moderna é, em sua
essência, uma escravidão mercantil: não só o escravo constitui uma mercadoria, é a principal
mercadoria de uma vasta rede de negócios (que vai da captura e do tráfico, ao mercado de escravos e à
forma de trabalho), a qual conta, durante muito tempo, como um dos nervos ou a mola mestra da
acumulação do capital mercantil. De outro lado, embora o senhor comprasse o escravo, o que ele queria
era a energia humana, não como simples variedade ou equivalente da “energia animal em geral”, porém
como uma modalidade de energia que podia ser concentrada e utilizada intensivamente, através da
organização social do trabalho escravo, como se o organismo humano fosse uma máquina. O
inconveniente de que essa máquina não só se desgastava mas também perecia durante o processo de
produção apenas intensificava o circuito da circulação, tornando tal rede de negócios uma inexaurível
mina de ouro.
Aí temos as duas conexões fundamentais da escravidão com o capitalismo no período colonial, não se
indo de dentro para fora, mas ficando-se no eixo colonial do crescimento interno da economia. No nível
do “mercado das peças” a Colônia estava institucionalmente incorporada ao espaço econômico da
Metrópole e, também, dos centros econômicos a que esta se subordinava. Nesse plano, portanto, a
plantação e a mineração (com outras formas subsidiárias de produção) faziam parte, de fato, de uma
“periferia”. Por definição, uma colônia de exploração não pode ser, em sentido estrito, uma periferia. A
exclusão do espaço econômico metropolitano representa, aliás, um dos requisitos para que a colônia de
exploração possa funcionar com eficácia e com um mínimo de atritos. O inverso pode ocorrer (mas não é
necessário que ocorra, pelo menos nos estágios de implantação) com uma colônia de povoamento. A
instituição do trabalho escravo sublinha bem a extensão e a profundidade em que se dava a exclusão. No
entanto, a articulação entre a Colônia e a Metrópole se estabelecia na “rede de negócios” imposta pela
organização do comércio do escravo, em larga escala, o que impunha aparelhar a Colônia de meios
institucionais para dar vazão regular ao fluxo de compra e venda de escravos. Isso implicava uma
diferenciação do mercado colonial, pondo-o a funcionar, nesse nível, como extensão e em condições
similares ao mercado metropolitano (embora com uma flutuação do elemento especulativo que emanava
do caráter colonial do mercado, das práticas de extorsão que ele comportava e da escassez cíclica
daquela mercadoria, produto dos azares do negócio ou das incertezas do mercado colonial).
Ao mesmo tempo, através do caráter mercantil da escravidão, o capital mercantil penetrava as formas
de produção pré-capitalista a que ela se associava. É por essa razão que Marx sublinha que a plantação,
nos Estados Unidos, nada tinha de patriarcal. Como parte de uma economia patriarcal, embora possa
ocorrer a exploração econômica do escravo, este não conta como mercadoria e como fonte de uma
“indústria”. Mesmo que utilizasse escravos nativos, o senhor tinha de penetrar no circuito do capital
mercantil. Com o “tráfico africano” e a universalização do trabalho escravo de origem africana, essa
conexão se torna mais ampla e profunda. Assim como tinha de participar do circuito comercial para
negociar seus produtos, o senhor precisava incorporar-se a esse circuito para comprar (ou vender)
escravos. Apesar de o grosso dessas atividades envolver operações de crédito e pagamentos em espécie,
elas eram estimadas em termos monetários e requeriam um envolvimento da plantação e da mineração
(bem como das formas de produção subsidiárias) no âmago do circuito do capital mercantil. Quando
menos, o senhor convertia-se em um agente deste capital e o seu excedente — que era um excedente
produzido pelo trabalho escravo, de modo direto (quando o senhor explorava suas unidades de produção)
ou de modo indireto (quando o senhor se beneficiava da produção alheia, também operada por escravos)
— correspondia à parte que lhe ficava no complexo rateio da apropriação colonial, graças ao fato de ele
possuir e explorar o trabalho escravo. Portanto, a conexão do senhor com o capital mercantil se dava em
dois pontos relativamente débeis, o da negociação dos produtos e o da negociação dos escravos, que o
expunham à ganância dos agentes diretos desse capital e o tornavam, gostasse ou não, um “parceiro
menor” na repartição e no desfrutamento do butim colonial.[5] Contudo, por causa mesmo desses dois
pontos, o senhor fazia parte do “mundo de negócios” colonial-metropolitano e a própria escravidão
constituía o suporte material dos papéis econômicos daí resultantes, graças aos quais ele tinha acesso
regular e institucionalizado à acumulação de capital mercantil (pouco importando o resultado final do
processo: entesouramento; imobilização do excedente econômico sob a forma de escravos e/ou de novas
unidades de produção; troca de mercadorias; remessa de mercadorias ou de créditos para a Metrópole;
investimento no tráfico, no contrabando, em transações comerciais e na aquisição de propriedades na
Metrópole ou em operações financeiras visando aos transportes e ao comércio com outras colônias;
aquisições de títulos de nobilitação ou participação de empreendimentos da Coroa etc.). A vasta maioria
dos senhores e dos colonos não podia ir tão longe, condenando-se a uma inclusão marginal nessas
manifestações do capitalismo comercial, pouco consistente e vitalizado pelas estruturas e dinamismos da
economia colonial propriamente dita.
Portanto, a questão do que é uma “periferia” na constelação econômica de uma colônia de exploração
vem a ser algo deveras importante. Nem a Metrópole nem as nações que detinham a hegemonia do
comércio e das finanças no mercado mundial tinham interesse ou estavam empenhadas em imprimir à
produção e ao mercado coloniais do Brasil um padrão de organização e de crescimento análogo ao que
tinha vigência institucionalizada na Europa. Na verdade, esse padrão só se aplicava ao Brasil colonial de
modo muito restrito, rígido e segmentado — e por uma razão muito clara: para dar vazão às fases das
operações mercantis que tinham de se desenrolar aqui, através de agentes ou de prepostos da economia
metropolitana e sob seu controle direto. Essas fases de operações não eram muitas nem alcançavam
notável diferenciação, pois sob esse aspecto as conexões eram muito similares a de um entreposto de
grande porte. Portanto, era possível dar viabilidade, eficácia e continuidade a tais fases de operações,
que precisavam ser transplantadas e pelo menos parcial ou segmentarmente ativadas a partir de dentro
da economia colonial; sem criar-se o risco de que elas engendrassem um crescimento econômico que
transcendesse os limites da produção e do mercado coloniais (suscitando processos extra e anticoloniais
em nível econômico). Os autores que recorrem à tese de que a política econômica colonial da Coroa
evoluiu insensivelmente da “colônia de exploração” para a “colônia de povoamento” cometem um
terrível equívoco. A transplantação de núcleos imigrantes portugueses (e por vezes de elementos de outra
nacionalidade) não se prendia ao fato de engendrar, aqui, uma extensão demográfica, econômica,
sociocultural e política da sociedade metropolitana. Nem a lavoura nem a mineração nem os típos de
produção subsidiária que se desenvolveram através delas acarretaram esse desfecho. O povoamento
resultava da necessidade de produzir o butim. Este não existia pronto e acabado. Para colhê-lo era
preciso produzi-lo. E se o caráter das orientações da Colônia se alterou, isso não decorreu de uma
política deliberada e aplicada com certo afinco. Mas da lenta reação da população da sociedade
colonial, que descobriu que o antigo sistema colonial não reproduzia nem levava a outra coisa senão ao
próprio sistema colonial.
Por aí se vê como se põe (e como se deve interpretar sociologicamente) o problema da conexão do
capitalismo comercial com a escravidão colonial e mercantil. Esta dava suporte material a fortes fluxos
do capitalismo comercial na Europa (naturalmente, os que se articulavam à “exploração colonial”) e a
alguns dinamismos comerciais que eles tinham de infiltrar na estrutura e no funcionamento do “sistema
colonial”. Todavia, os setores privilegiados da economia e da sociedade coloniais não tinham como tirar
proveito e expandir esses “efeitos de infiltração”. Eles não viviam em um meio econômico como o
europeu: o sistema de produção e o mercado da Colônia não os arrastavam para a voragem da revolução
econômica desencadeada pelo capitalismo comercial na Europa. Suas funções especificamente
econômicas começavam e terminavam dentro de uma faixa estreita e estática, delimitada pela produção e
pela reprodução do sistema econômico colonial. É certo que algumas figuras tentaram ultrapassar esses
limites. Esses casos são elucidativos, já que revelam a tenacidade do bloqueio. Elas sentiram bem
depressa a mão pesada da Coroa, dos interesses metropolitanos ou ultrametropolitanos. De outro lado, a
própria escravidão colonial e mercantil não podia servir como ponto de apoio para alterar essa situação.
Por sua estrutura e dinamismo, ela era pré-capitalista e não tinha como expor, a partir de si mesma, o
mercado colonial a uma irradiação que revolucionasse o seu padrão de organização e de crescimento.
Como tentamos sugerir, ela era uma necessidade, mas não uma parte da periferia: o ponto onde o mundo
colonial se distinguia, se opunha e negava o mundo metropolitano. Ela só tinha existência como o meio
inevitável para criar-se uma riqueza ou um butim que não se encontrava pronto e acabado em estado
natural. Como conexão do capitalismo comercial, ela era um investimento de capital mercantil —
investimento, aliás, que não se dava apenas na escravaria — e, por vezes, de magnitude considerável.
Entretanto, esse capital nunca perdeu o seu caráter estritamente mercantil e, ao mesmo tempo, fechado
sobre si mesmo, o que somente poderia acontecer pela supressão da escravidão e pelo desaparecimento
da exclusão que o estatuto colonial impunha sobre a produção escravista.
Este modo de entender o assunto requer uma modificação da análise habitual. Impõe-se precisar a
categoria de apropriação no contexto histórico do sistema colonial. Na verdade, essa categoria envolvia
dois tipos de relação superpostas. De um lado, estava a apropriação realizada pelo senhor no nível da
produção escravista e da exploração do trabalho escravo. Contudo, essa apropriação não se esgotava em
si mesma: o proprietário do escravo, e, portanto, proprietário de sua força de trabalho e do seu produto,
não era proprietário exclusivo do excedente gerado pela produção escravista, cujo valor, nos setores de
maior significação econômica, se realizava, necessariamente, fora e acima da Colônia. Em termos
relativos (e não de uma comparação extemporânea com a produção capitalista), esse excedente não era
tão pequeno. Boa parte da análise de sua formação se funda na ideia de que ele resultava, pura e
simplesmente, da extensão da jornada de trabalho associada ao controle coercitivo do trabalho escravo.
No entanto, o que é específico da formação da mais-valia absoluta da produção escravista não são esses
dois elementos, quase sempre típicos das fases de implantação ou de escassez da força de trabalho
escravo. O elemento específico consiste no trabalho combinado, que sem criar exigências de intervenção
no nível técnico permitia aumentar a produtividade. O próprio uso do controle coercitivo da violência
não se prendia somente à necessidade de intensificar a jornada de trabalho. Ele procedia do fato que o
trabalho combinado acarretava uma disciplina que tirava da violência e da força bruta o caráter de um
fim em si.[6] Vendo-se as coisas desse ângulo, percebe-se que o trabalho escravo comportava uma vasta
gama de realização eficiente e inclusive de flexibilidade e de aperfeiçoamento do seu agente. Bem como
implicava certos intervalos, que, não sendo preenchidos pela técnica, tinham de ser saturados através do
trabalho semilivre ou, mesmo, do trabalho livre (embora, como regra, numa extensão superficial e
limitada). De outro lado, existia um circuito de apropriação, em parte legal, político e fiscal e em parte
econômico, que constituía a essência da apropriação colonial. O excedente econômico não era produzido
para o desfrute exclusivo do senhor, mas para entrar nesse circuito. Aí, senhor, Coroa e negociantes,
todos eram “escravos” do capital mercantil. Nessa relação, o poder político-legal e o poder econômico
determinavam desigualdades insuperáveis. Sob esse pano de fundo, o senhor não passava de um duplo
agente, em condição mistificada e ambígua, da Coroa e do capital comercial na economia colonial. A
Coroa extraía a sua alíquota por via de um extorsivo sistema de associação, concessões e tributação, que
não vem ao caso examinar aqui.
Os negociantes, metropolitanos ou dos centros econômicos hegemônicos, desvendavam o mistério da
relação, levando-a ao plano concreto do desdobramento do negócio como um todo. Algumas partes e
certas fases do negócio se desenrolavam no cenário comercial e financeiro da Metrópole; porém, a parte
substancial se encontrava nos núcleos estrangeiros, que manipulavam à distância e indiretamente os
nervos das economias coloniais e de sua articulação às economias e ao mercado mundial: a
mercantilização dos “produtos coloniais” e todas as operações ou resultados financeiros de vulto iam ter
nas suas mãos. Portanto, como o senhor, a Coroa e a Metrópole não ficavam com “a parte do leão”. O
capital mercantil tecia as redes que não deixavam escapar os peixes grandes e o seu apetite era
insaciável.
Essa superposição de formas de apropriação nunca foi estudada de modo conveniente: como se
ignoraram as implicações econômicas da natureza mercantil da escravidão moderna, também se deu
pouca importância ao fato de que a apropriação escravista não passava de uma das facetas da
apropriação colonial. Entre o senhor e o escravo havia uma relação econômica, embora ela não fosse
capitalista (a menos que se queira caracterizar toda aplicação de capital como capitalista e se esqueça
que a produção capitalista exige o aparecimento de uma categoria histórica, que se chama “mais-valia
relativa” em termos marxistas). O escravo era propriedade do senhor e também contava como a quase
totalidade do seu fundo de capital. E o senhor tinha a ilusão de que se apropriava de modo direto e
imediato tanto do produto do trabalho escravo, quanto do excedente econômico gerado pelos colonos
independentes ou dependentes, que lhe estivessem submetidos, em suas unidades de produção. Contudo, a
escravidão colonial e mercantil não fora erigida para ser um “negócio privado” no sentido estrito e
preciso do capitalismo industrial. Ela devia produzir e reproduzir um butim, a ser compartilhado pelo
senhor, pela Coroa e seus funcionários, pelos negociantes metropolitanos e ultrametropolitanos. Esse
butim, no plano em que se dava a partilha colonial dos frutos da pilhagem, perdia qualquer ligação com
as suas origens. Aí, nem a produção escravista nem a propriedade do senhor contavam para qualquer
efeito. O que importava eram as “mercadorias” e as “riquezas” que entravam, através desse singular
rateio — provavelmente o mais odioso tipo de pilhagem da história humana —, na circulação engendrada
pelo capital mercantil. É deste patamar que se desvenda o que era a escravidão colonial e mercantil
como uma totalidade, bem como quais eram seus laços com um capitalismo comercial de pilhagem, com
as irradiações que ele estabelecia na direção da economia colonial e no seio da economia metropolitana,
das economias comerciais hegemônicas e do mercado mundial.
Na evolução subsequente — na era de transição neocolonial e no período da era de formação do
capitalismo dependente durante o qual o trabalho escravo continuou a existir — a escravidão manteve o
seu caráter mercantil. Por isso, todas as ligações estruturais e dinâmicas apontadas acima não
desapareceram, mas se consolidaram, seja a partir de dentro, seja de fora para dentro ou de dentro para
fora. No entanto, nunca se entenderá convenientemente certos processos econômicos que afetaram a
organização da economia colonial, em sua base escravista, e a modificação da relação dinâmica da
escravidão com a acumulação de capital mercantil no Brasil, se se ignoram certos efeitos de
encadeamento do fim da mineração e, em particular, o que a crise do antigo sistema colonial representou
para a operação da escravidão mercantil como fator construtivo das transformações econômicas. A
investigação histórica, econômica e sociológica tem dado maior atenção a aspectos ou efeitos que se
relacionam com o eixo de gravitação da crise do próprio trabalho escravo, que iria enfrentar as pressões
inglesas, quanto à supressão do tráfico, ou as pressões internas das leis emancipacionistas, que dominam
historicamente as tendências gerais de um longo período, que poderia ser descrito como “o período de
crise final da instituição”. De outro lado, como ocorria no horizonte intelectual dos senhores e dos
negociantes, ao que parece os cientistas sociais também perfilharam a ideia de que o trabalho escravo
constituía um “fato natural” e tão natural que descrevem as últimas transformações da economia colonial
e os principais processos da constituição da lavoura do café e de sua irradiação econômica interna como
se a escravidão mercantil se perdesse nas fímbrias dos “fatores naturais da produção”. Contudo, até o
fim, apesar de incorporar-se ao capital fixo, o trabalho escravo sempre foi um fator humano e mesmo
depois que a imigração já contava como o eixo histórico da evolução do sistema de trabalho, o que só
ocorre na década de oitenta, ele representou a base material da revolução histórica que se dá na
economia interna.
Não nos é possível fazer uma exposição sistemática de todos os fatos que consideramos de
significação histórica explicativa. Vamos arrolar, tratando em conjunto as duas eras (mas deixando claro
o que ainda era típico da era colonial ou o que se prende especificamente a cada uma das outras duas
eras mencionadas), como a escravidão mercantil funciona, de um lado, como a base material da
revitalização da grande lavoura e de perpetuação das estruturas de produção coloniais, e, de outro, como
o fator sine qua non, o capital mercantil, não se concentraria nem cresceria nas cidades, o que quer dizer
que, sem o trabalho escravo, não teríamos a forma de revolução urbano-comercial que é típica da
evolução da economia brasileira ao longo do século XIX. Se essa revolução culmina no fim da década
desse século e atinge o seu apogeu sob o trabalho livre, isso não significa outra coisa senão que a
diferenciação alcançada sob o trabalho escravo pela economia interna exigia outra forma de trabalho —
e não que, sem a escravidão mercantil, o capitalismo comercial teria crescido sobre seus próprios pés
nas zonas urbanas e imposto à grande lavoura um novo padrão de organização e de crescimento
econômicos.[7] A nossa história tem sido contada de uma perspectiva branca e senhorial; por isso, ela
deixa o escravo, como agente humano e econômico, na penumbra, e quando não se lembra pura e
simplesmente de condenar a escravidão, descreve os processos econômicos de uma perspectiva tão
abstrata, que prescinde de um dos elos da “ação econômica” e da “produção agrícola”, que até a
penúltima década do século XIX foi o trabalho escravo.
A economia de plantação colonial-escravista articulou, entre si, várias formas de produção
subsidiárias e várias regiões da Colônia. Em muitas dessas formas de produção, o trabalho escravo
encontrava uma utilização meramente seletiva ou segmentar. Mas, isso não é importante. O que possui
importância é que essa irradiação da economia de plantação explica a generalização precoce da
escravidão mercantil na economia colonial, com o branco refugando o “trabalho mecânico” pela
existência do escravo e as oportunidades das “fronteiras abertas”. Contudo, foi o ciclo de mineração que
produziu os efeitos de encadeamento que, de um lado, suscitaram uma expansão da economia de
plantação “para o sul” e, de outro, puseram o escravo no âmago de “uma revolução econômica dentro da
ordem”. A mineração e a exploração diamantífera incorporaram uma vasta área do território colonial aos
setores produtivos da Colônia, provocando o aparecimento e a expansão de formas de troca, de produção
de mantimentos e de circulação de riquezas que só foram conhecidas anteriormente, na América Latina,
no México e no Peru. Apesar da curta duração desse período, os seus efeitos de longa duração foram
consideráveis. A Coroa com seus funcionários não puderam impedir várias modalidades de retenção do
ouro (e em escala menor mesmo dos diamantes) pelos operadores diretos ou pelos agentes econômicos
que controlavam tais atividades. Por isso, ao terminar o episódio, havia muita “gente rica”, pelo
entesouramento encoberto, pela posse de escravos, e como resultado das trocas comerciais. À retração
progressiva e à aniquilação de formas subsidiárias de produção e do comércio, segue-se um processo
quase simultâneo, em algumas regiões, ou relativamente lento, em outras, pelo qual o dinamismo da
economia colonial se revela em toda a plenitude — e isso pela primeira vez! Gente originária de Minas,
do Rio de Janeiro, do Nordeste, do Norte e de São Paulo aparece em vários empreendimentos que iriam
modificar a paisagem da antiga zona estagnada ou subdesenvolvida da economia colonial. O açúcar e
especialmente o café estão na base dessa expansão, que iria se consolidar e amadurecer como o ciclo do
café. Para se ver a função desempenhada pela escravidão mercantil nesse complexo processo, é preciso
deter-se na área onde a transição foi mais morosa e difícil.[8] No Oeste paulista, pessoas que se
ocupavam na mineração ou no comércio de alimentos e de muares, viam-se com uma riqueza imobilizada,
na forma de escravaria, que não podia ser negociada (por causa do estado geral da economia da Colônia
na época) e que não encontrava utilização reprodutiva nos quadros da economia de subsistência da
região. Inicia-se, então, uma cadeia de experiências sucessivas, pelas quais esses senhores tentaram
descobrir um “gênero colonial” que pudessem explorar e exportar. Por fim, fixaram-se no café e lograram
escapar ao círculo vicioso com que se defrontaram. Esse exemplo é característico. Como indica com
razão Caio Prado Júnior, a economia de plantação escravista tinha de crescer em sentido horizontal. Os
efeitos de encadeamento que consideramos mostra como se deu o que poderíamos chamar de
“incorporação de novas fronteiras” à economia de plantação colonial. A riqueza entesourada sob a forma
de ouro ou de diamantes não estava condenada a perecer. O mesmo não sucedia com a escravaria.
Portanto, quer nas áreas de desenvolvimento lento, quer nas áreas de desenvolvimento rápido, a
escravidão mercantil estava por trás de uma modificação tão substancial dos quadros históricos da
economia colonial. Indo-se ao fundo da análise, o que se descobre não é apenas que a escravidão
mercantil produzia e reproduzia a si própria. Ela também promovia a sua extensão e generalização, pois
estas condições estavam na própria raiz da produção e da reprodução do trabalho escravo pelo escravo.
Esse processo achava-se em pleno florescimento quando se dá a transplantação da família real para o
Brasil, ocorre a abertura dos portos e os episódios que levariam à Independência. O que significa que a
fase neocolonial, apesar de coincidir com o desenrolar do processo dominante da emancipação nacional,
cria um contexto histórico próprio, no qual o fato mais saliente é a vitalidade em crescendo da economia
de plantação. Essa vitalidade não só provinha da escravidão mercantil: ela só poderia manter-se e
aumentar pela perpetuação e fortalecimento da escravidão mercantil. As camadas senhoriais e os círculos
dos negociantes urbanos não precisavam “buscar alternativas econômicas novas”. O seu problema central
consistia em como dar continuidade ao tráfico africano e adaptar o uso da força de trabalho escravo às
condições que se criavam com esse deslocamento de fronteiras da economia de plantação. Em
consequência, os seus interesses levam diretamente a uma política ultraconservadora, pela qual, em nível
econômico, o essencial consistia em manter a produção escravista como a base material do sistema. Ou
seja, a escravidão mercantil seria o fulcro da continuidade da ordem senhorial e escravocrata. Em torno
dela e através dela as estruturas econômicas e sociais da economia de plantação ficariam intactas: o
Estado-nação em emergência teria de constituir-se sobre essa base material, que fazia da escravidão
mercantil a fonte da viabilidade econômica e política das novas estruturas sociais e políticas, que iriam
surgir nas cidades, nas relações dos estamentos senhoriais dominantes entre si e com os outros setores da
sociedade e na “comunidade nacional” em elaboração.
Não obstante, com a emancipação nacional começa a surgir um novo contexto histórico estrutural, que
irá consolidar-se gradualmente, mas que, desde o início, modifica a relação da escravidão mercantil com
a economia e com a sociedade. Os pontos centrais de tal transformação são dois: 1º) as consequências
econômicas do desaparecimento da apropriação colonial; 2º)o significado da escravidão mercantil para
o desenvolvimento do “setor novo da economia”, ou seja, da economia urbano-comercial.
Pelo que vimos, com a emancipação nacional, a economia colonial não entra em colapso. Para que
isso acontecesse, de imediato ou posteriormente, seria necessário que os escravos, os libertos e os vários
setores da população pobre livre estivessem envolvidos, em massa, no processo de descolonização. O
que entra em crise, portanto, é a parte política do antigo sistema colonial, que prendia e subordinava a
Colônia à dominação colonial metropolitana. O resto desse sistema apenas se redefine, com a
monopolização das funções administrativas, legais e políticas da Coroa pela aristocracia agrária e os
estamentos de que esta dependia para controlar o Estado senhorial e escravista. Entretanto, no conjunto
tal transformação constituía uma revolução política de profundas consequências econômicas. A questão
principal é óbvia. Essa revolução eliminava o controle direto e a mediação econômica da Metrópole: o
que quer dizer, ela acabava com aquilo que os setores dominantes da economia interna viam como “o
esbulho colonial”. Desaparecia a superposição da apropriação colonial sobre a apropriação escravista.
A apropriação do produto do trabalho escravo convertia-se numa relação econômica específica,
determinada a partir de dentro e regulada pelos interesses coletivos da aristocracia agrária. Isso não
impedia que o excedente econômico, gerado pela produção escravista, entrasse no sorvedouro do
mercado mundial em condições muito desvantajosas. Contudo, a Coroa, os seus funcionários e os
interesses do comércio metropolitano — que nunca puderam impedir que isto sucedesse — deixavam de
absorver alíquotas desse excedente, em grande parte abocanhado pelos próprios senhores. De outro lado,
com o controle do Estado, estes podiam montar a sua política econômica, ou seja, uma política de
autodefesa dos interesses escravocratas e de fortalecimento do setor escravista da emergente economia
nacional. Portanto, se a supressão do nexo colonial não se refletiu na condição do escravo nem afetou a
natureza da escravidão mercantil, ela alterou a situação econômica do senhor, que deixou de sofrer o
peso da “espoliação colonial” e passou a contar, por conseguinte, com todas as vantagens da “espoliação
escravista” que não fossem absorvidas indiretamente pelos mecanismos secularizados do comércio
internacional. Muitos dos “efeitos” que são atribuídos indiscriminadamente às consequências indiretas e
remotas do ciclo de mineração e de exploração diamantífera lançam aqui suas raízes. A escravidão
mercantil se desvencilha da “cadeia colonial” e o único beneficiário dessa rotação histórica é o setor
senhorial. A expansão da economia de plantação através do café iria mostrar a magnitude das diferenças
e o que representa economicamente, para o senhor, “dispor livremente” do produto do trabalho escravo.
Ao mesmo tempo, as “influências construtivas” diretas e indiretas da escravidão sobre o
desenvolvimento econômico deixavam de escoar-se para fora. Embora o mercado mundial atravessasse
por essa ponte, as estruturas escravistas da produção deixaram de ser um esteio quase exclusivo de
“desenvolvimento para fora”, isto é, para a Metrópole e os centros econômicos que controlavam a
economia metropolitana. Como os interesses comerciais e financeiros dos senhores se concentraram nas
cidades e a partir das cidades também se organizaram os “negócios de exportação”, a escravidão
mercantil passou a ser a base material última do crescimento do capital mercantil dentro do país. Aí, é
preciso que se leve em conta dois processos concomitantes, mas distintos. Um deles tem importância
excepcional apenas até os meados do século XIX, em que a supressão do tráfico se torna uma realidade,
embora o comércio com o escravo continuasse a ser alimentado a partir das migrações internas. A
questão é clara: a emancipação fez com que o Brasil também participasse do circuito do “mercado
triangular”. Ainda que se escoasse para fora uma boa parte dos lucros produzidos pelo tráfico, a partir da
abertura dos portos, do Vice-reinado e da Independência uma boa parte da riqueza que tinha essa origem
ficou em “praças brasileiras”. O aparecimento de um mercado especificamente moderno favoreceu essa
internalização dos “negócios negreiros” e o impacto que eles tinham sobre a acumulação de capital
mercantil, agora dentro do país. O outro processo se relaciona com a diferenciação dos papéis
econômicos dos senhores, seu engolfamento na vida econômica das cidades e da expansão relativa da
escravidão urbana. De um lado, o excedente econômico gerado pela produção escravista, na parte em que
ele ficava no Brasil e ia alimentar o crescimento do “setor novo da economia”, dinamizava e dava
maiores proporções à expansão interna do capitalismo comercial. De outro, a escravidão mercantil,
como fonte do uso do trabalho escravo ou da pessoa do escravo dentro da vida urbana, ganhava maiores
proporções, embora ela nunca alcançasse, nesse nível, importância análoga à que teve em algumas
cidades norte-americanas. Aparentemente, apenas o Rio de Janeiro, por abrigar a Corte e satelizar,
durante muito tempo, uma vasta hinterlândia agrícola, converteu essa fonte em algo digno de
consideração. De qualquer maneira, na fase neocolonial se estabelece um novo engate entre a escravidão
mercantil e a acumulação originária. Certas funções que a escravidão desempenhou para o
desenvolvimento capitalista da Europa apareceram aqui e determinaram os rumos, a intensidade e os
frutos do florescimento do capitalismo comercial como realidade histórica interna.
À medida em que isso sucedia, os senhores se viram apanhados de modo mais profundo pela conexão
capitalista de seu status. Duas evoluções merecem ser evocadas. A primeira, tão bem descrita por S. J.
Stein. Embora mantendo seu enquadramento econômico, sociocultural e político senhorial, houve
fazendeiros de café que procuraram “modernizar tecnologicamente” a produção escravista. Com isso,
pretendiam lutar contra a deterioração das terras e a baixa produtividade. No fundo, queriam salvar a
condição senhorial da ruína econômica. Contudo, aumentaram ainda mais o seu fundo de capital fixo,
ficando à mercê dos especuladores, acelerando e aprofundando a gravidade da crise que pretendiam
evitar. Outra, e esta deveras importante para os estudiosos da escravidão moderna, foi apontada por
Sergio Buarque de Holanda e o autor deste trabalho. Os fazendeiros de café do Oeste paulista
procuraram reduzir o uso do trabalho escravo em fins não produtivos. O principal elemento dessa
evolução aparece na separação entre domus e plantação. A escravaria doméstica se reduz e é
gradualmente substituída, enquanto o capataz assume encargos de gerência mais amplos. Vivendo na
cidade, o fazendeiro passava alguns períodos, com a família, na sede da fazenda: mas a família senhorial
vê seriamente reduzida ou eliminada a periferia de escravos e semilivres domésticos. Tal evolução não
afeta nem a estrutura nem a natureza da escravidão mercantil. Contudo, erige uma área de especialização
virtual compulsória do trabalho escravo e elimina vários fatores de desperdício, intrínsecos ao padrão
tradicional de produção escravista. Se ela não tem maior importância analítica, pelo menos indica que a
moderna plantação sob trabalho livre já começa a constituir-se sob a vigência da escravidão. O único
elemento paternalista que existia antes, que consistia no fato de a casa-grande ou a sede se implantar
socialmente, como unidade existencial, no seio da plantação, está em vias de desaparecer antes da crise
final do escravismo.
Por fim, para concluir este levantamento: qual é a relação da escravidão com o desenvolvimento
capitalista interno na fase inicial do capitalismo dependente no Brasil (e que é a fase de formação do
capitalismo competitivo)? Temos, entre a década de 1860 e a data da Abolição, quase três decênios.
Trata-se de um período curto e que foi, de fato, a era de “crise final irreversível da escravidão”. Os
autores mais atilados, no estudo desse período, inclusive os que descreviam o processo de visu, como
Couty, são unânimes em ressaltar como a escravidão se erigia em uma barreira intransponível. Ou ela ou
o capitalismo. Isso não deixava de ser verdadeiro. Nem por isso, porém, tal verdade excluía outra
realidade: chegara-se ali através e graças à escravidão mercantil. O que nos repõe na trilha do
pensamento hegeliano: ao desaparecer, em sua crise de morte, a escravidão deixava de produzir-se a si
própria para produzir o seu contrário, para gerar uma “vida nova”. A própria expansão da economia
urbano-comercial engendrava novos elos ou aprofundava os elos antigos entre a escravidão mercantil e o
desenvolvimento capitalista dentro do país. Agora, desdobra-se diante do observador o circuito total. O
que aparece, à primeira vista, como “o excedente econômico produzido pelo café” — e que é, ainda, em
larga medida, o excedente econômico resultante do trabalho escravo — está na raiz de todo processo
econômico de alguma importância. Nessa época, a acumulação originária sofre um desdobramento, pois a
imigração suscita uma evolução nova, de largo prazo. Não obstante, será dos meados da década de 1880
em diante que este fator irá prevalecer e determinar os ritmos históricos vinculados ao trabalho livre e à
sua exploração. Isso esclarece a nossa pergunta. Nesse período de três décadas não há apenas uma
repetição do passado, com o fortalecimento de certas tendências que já foram esclarecidas. O contexto
histórico-estrutural apresenta condições que permitem mudar a qualidade das relações da economia
urbano-comercial com uma escravidão em extinção. O grau de internalização institucionalizada de
complexas funções comerciais e financeiras é suficiente para garantir um aproveitamento mais amplo e,
mesmo, revolucionário do capital mercantil acumulado através da produção escravista. O que faz com
que ele ajude a financiar, juntamente com capital mercantil captado no Exterior, um vasto processo de
criação de infraestrutura econômica, de crescimento da grande lavoura, de modernização urbana, de
diferenciação econômica no sentido da industrialização e, até, de imigração, expansão da pequena
propriedade ou do trabalho livre etc. Nas convulsões finais, portanto, a escravidão mercantil exercia
influências construtivas que não preenchera antes, nem no período colonial nem no período de transição
neocolonial, pela simples razão de que antes não existia um meio capitalista consolidado, capaz de
ampliar e de aproveitar seus efeitos multiplicadores. Sob um capitalismo comercial plenamente
constituído e quase maduro, não se tratava mais de provocar certos deslanches. Mas, de pôr a
acumulação de capital mercantil gerada pela escravidão a serviço da revolução burguesa.[9]
A ORDEM SOCIAL DA SOCIEDADE
ESCRAVOCRATA E SENHORIAL

A ANÁLISE DA SOCIEDADE escravocrata e senhorial esbarra em muitas dificuldades. Assim como se


negligenciou a busca de conceitos e de categorias históricas adequados à compreensão, descrição e
interpretação da escravidão mercantil, também se tem negligenciado a procura de uma maior precisão no
uso de conceitos e categorias históricas apropriados à compreensão, descrição e interpretação da
sociedade escravocrata e senhorial, que se montou, desde o período colonial, sobre a base material da
produção escravista. Suscitaram-se falsos debates, resultantes de uma distorção mecanicista do
determinismo econômico ou da explicação dialética, como a tentativa de restabelecer a “sociedade
feudal” sobre a escravidão mercantil. Ou proscreveram-se conceitos, como o de casta e de estamento,
essenciais para a explicação de sociedades estratificadas nas quais a desigualdade econômica, social e
política não se vincula ao capital industrial (e, portanto, à institucionalização do trabalho livre e da mais-
valia relativa). Aqueles conceitos encontram largo uso entre os especialistas da sociologia histórica e da
sociologia comparada — e mesmo os criadores do marxismo, Marx e Engels, os utilizam quando
pretendem introduzir um máximo de saturação histórica no manejo de categorias gerais. Ao se evitar o
emprego simultâneo de conceitos e categorias históricas como “casta”, “estamento” e “classe” perde-se,
portanto, aquilo que seria a diferença específica na evolução da estratificação social no Brasil. Por fim,
a investigação empírica não se aprofundou tanto a ponto de forçar uma melhor exploração das teorias
existentes sobre as sociedades estratificadas e, em particular, para suscitar um quadro teórico integrativo,
capaz de render conta da complexa situação brasileira. Temos procurado evitar todos esses empecilhos,
mas é muito árduo e limitado o esforço de autores isolados ou de grupos de investigadores demasiado
pequenos. Sob esse aspecto, o paralelo com o avanço da investigação dos tipos de sociedades
estratificadas na Europa merece ser lembrado, pois ele põe em primeiro plano que é essencial a
colaboração crítica de gerações sucessivas de investigadores. O esboço que faremos a seguir constitui
um ponto de chegada que precisa, ainda, ser explorado de modo mais amplo e crítico pelos que vierem a
lidar, mais tarde, com os mesmos problemas com melhores perspectivas e maior base empírica. Trata-se
de um “conhecimento aproximado” muito imperfeito, que só tem um mérito inquestionável: o de colocar a
discussão desses problemas dentro de um ponto de vista rigorosamente sociológico.
As linhas gerais da evolução da estratificação social são as mesmas que as da produção escravista. Do
mesmo modo que a escravidão mercantil alcançou o seu apogeu depois da desagregação do Império
colonial, o sistema social que se monta sobre a produção escravista vai atingir o seu máximo de eficácia
e sua maturidade histórica depois da emancipação nacional. A escravidão mercantil serve de lastro a
esse giro histórico: ao restringir os limites e os ritmos da descolonização, ela condiciona não só a
persistência das estruturas sociais da Colônia, como também determina que elas alcancem, pela primeira
vez, todas as potencialidades sociodinâmicas que elas continham e não podiam emergir nem expandir-se
sob o Império colonial. O que quer dizer que, com base na escravidão mercantil, o “antigo sistema
colonial” deu origem a uma complexa ordem societária que transcendia a si própria e exigia, para
alcançar a sua plenitude histórica, a “liberdade do senhor” e a desagregação da dominação
metropolitana.
O esquema básico da sociedade estamental e de castas do período colonial repousa numa construção
muito simples. Os portugueses transplantaram, para cá, a ordem social que tinha vigência em Portugal na
época dos descobrimentos e da conquista. O que quer dizer que ocorreu uma formidável tentativa
deliberada de preservação e de adaptação de todo um corpo de instituições e de padrões organizatórios-
chaves, com vistas à criação de um “novo Portugal” (expressão empregada pelo padre Cardim com
referência a São Vicente) que deveria emergir das condições sociais de vida de uma colônia de
exploração. Todavia, os trópicos, a abundância de terras e o propósito colonial de pilhagem sistemática,
combinados às reduzidas potencialidades demográficas do colonizador, introduziram interferências que
não puderam ser eliminadas ou superadas dentro de uma estratificação estamental. O recurso para vencer
esse obstáculo consistiu numa superposição: a ordem estamental tinha validade para os brancos, na sua
grande maioria portugueses; os outros, no início as populações nativas, gravitavam fora dessa ordem e
logo foram convertidos em “aliados” e “submetidos”, todos com status virtual ou real de “escravos de
fato”. Na medida em que a coleta de pau-brasil e as feitorias cederam lugar à luta com os indígenas pela
posse e controle das terras e pela força de trabalho indígena, essa escravidão de fato foi rapidamente
formalizada e institucionalizada. Dada a abundância de povoações indígenas “inimigas”, a
mercantilização desse tipo de escravidão econômica (pois o que estava em jogo era o uso sistemático da
força de trabalho indígena ad libitum dos colonizadores) não se impôs como um imperativo imediato.
Contudo, mesmo sob o regime de feitorias a compra e venda de escravos indígenas podia ocorrer
amplamente. Com as donatárias, as transformações subsequentes do esforço de colonização e a fundação
ou expansão de povoações, o crescimento da grande lavoura e da produção do açúcar generalizaram a
mercantilização do escravo indígena e provocaram sua institucionalização. Portanto, a transplantação dos
escravos africanos em bases comerciais apenas aprofundou um arranjo global, no qual a estratificação
inter-racial e interétnica modificara profundamente o modelo original português de ordem societária.
A sociedade, no seu todo, compunha-se de um núcleo central, formado pela “raça branca” dominante, e
pelos conglomerados de escravos índios, negros ou mestiços. Entre esses dois extremos, situava-se uma
população livre de posição ambígua, predominantemente mestiça de brancos e indígenas, que se
identificava com o segmento dominante em termos de lealdade e de solidariedade, mas que nem sempre
se incluía na ordem estamental. Onde o crescimento da economia colonial foi mais intenso, esse setor
ficava largamente marginalizado, protegendo-se sob a lavoura de subsistência mas condenando-se a
condições permanentes de anomia social. Onde o conjunto da população branca e mestiça tinha de se
dedicar à lavoura de subsistência, complementando-a com formas de produção subsidiárias da grande
lavoura ou com a preação de índios, a consanguinidade garantia uma solidariedade de parentesco pela
qual pelo menos uma parte desses segmentos de “homens livres” se incorporava à ordem estamental. De
qualquer modo, com as populações indígenas “aliadas”, essa população livre pobre representava uma
espécie de “argamassa paramilitar”, usada como um aríete na defesa das povoações, na penetração dos
territórios desconhecidos e na conquista de novas fronteiras. Quaisquer que sejam os problemas
descritivos suscitados por esse amplo setor oscilante, o núcleo central (acrescido ou não de parcelas da
população livre pobre) abrangia os vários estamentos em que se dividia socialmente a “raça dominante”.
Os escravos indígenas, africanos e mestiços formavam, em relação a esse núcleo estamental, uma
subordem de castas. Com o tempo, os libertos ganharam o status legal que lhes conferia condição
estamental. No entanto, para efeitos práticos eles eram tratados como se pertencessem à subordem de
castas. Por fim, um código rígido regulava o tratamento recíproco dos membros dos vários estamentos
entre si e, mesmo, das “questões de hierarquia” envolvidas no tratamento recíproco de membros do
estamento dominante (esse código abrangia outras especificações, relativas ao vestuário, uso de armas,
de joias e emblemas, comportamento em público, certos direitos e deveres etc., que não vem ao caso
ventilar aqui). Com o tempo, ele se diluiu, incorporando-se aos usos e costumes (ou seja,
convencionalizando-se), e passou a fazer parte, no que restou sob essa forma, das expectativas de
tratamento e de comportamento tradicionais dos estamentos aristocráticos.
Está fora de propósito que façamos, aqui, uma descrição exaustiva dessa sociedade. Todavia, em vista
do objeto central deste seminário, conviria dar pelo menos alguma atenção às questões que entrelaçam a
economia de plantação com essa dupla ordem de estamentos e de castas. Entre essas questões,
selecionamos quatro, que parecem ser as mais importantes de um ângulo que combine história e teoria:
1º) as funções do patrimonialismo nas relações da Coroa com os vassalos e, por consequência, no
processo de colonização; 2º) os efeitos da escravidão sobre a eficácia e a flexibilidade da ordem
estamental; 3º) a variedade de formas de dominação que eram coordenadas e unificadas através da
superposição de estamentos e de castas dentro de uma mesma ordem societária compósita; 4º) as
inconsistências institucionais intrínsecas à escravidão mercantil ou resultantes da escravização segundo o
princípio do direito romano partus sequitur ventrem e como elas podiam se converter, não obstante, em
“funções úteis” naquela ordem societária compósita.
Quanto ao primeiro tópico, se tomarmos como ponto de referência teórica as conclusões de M. Weber
em seu estudo comparado do patrimonialismo e do feudalismo, o império colonial português da época
dos descobrimentos, da expansão marítima e da conquista organizava-se como um complexo Estado
patrimonial. A concentração de poder e de riqueza nas mãos do soberano representava a contraparte da
associação deste com a nobreza, o clero e os “homens de fortuna”, do país e do Exterior, em uma grande
empresa militar, econômica, política e religiosa comum. Essa relação não se constituíra como fruto da
expansão colonial; ela se formara anteriormente, por motivos que não vêm ao caso lembrar aqui, e foi
posta à prova, ampliada e aprofundada através da expansão colonial. Duas coisas nos interessam nessa
relação. Primeiro, o que a associação representa como uma forma de divisão de riscos e de
solidariedade político-legal e econômica. Uma Coroa pobre, mas ambiciosa em seus empreendimentos,
procura apoio nos vassalos, vinculando-os aos seus objetivos e enquadrando-os às malhas das estruturas
de poder e à burocracia do Estado patrimonial. Esse aspecto é deveras importante. Sem essa associação
não haveria nem império colonial português nem economia de plantação no Brasil. Por isso, o
“colonizador” ou o “colono” é sempre um vassalo, um agente da Coroa, e arca, por sua conta e risco,
embora com alguns privilégios ou vantagens e, por vezes, com algum suporte oficial, com a construção
do império na Colônia. Ele é o outro lado do Estado patrimonial, o que simplifica a tarefa da construção
do império, de sua defesa militar e do seu crescimento econômico. Os que só viram o lado frágil dessa
relação negligenciaram por que ela surgiu e o que ela significou em termos da criação de um imenso
sistema colonial. Segundo, convém que não se deixe na penumbra qual era a função da referida
associação nos quadros do emergente mundo colonial. Uma colônia de povoamento coloca problemas
especiais na expropriação e apropriação de terras, pois os espaços vazios eliminam a disposição de
“trabalhar para os outros” à meação, a pagamento etc. O que dizer de uma colônia de exploração? E o
que dizer de uma colônia de exploração no Brasil, com suas fronteiras abertas e sua disponibilidade de
terras? No caso, a relação patrimonial permitia condicionar a transferência da ordem estamental existente
em Portugal: as concessões de sesmarias demarcavam as estruturas de poder que não podiam nem deviam
ser destruídas, como condição histórica para manter a estratificação estamental que servia de base social
à existência e ao fortalecimento do Estado patrimonial. Portanto, as doações da Coroa (ou feitas em seu
nome) traduziam uma política de concentração social da propriedade da terra. Tal política não criou
apenas o latifúndio. Ela excluiu, ab initio, a massa da população livre, pertencente ou não à ordem
estamental, da posse da terra e, por aí, do controle do poder local e do direito de ter vínculos diretos
com o Estado. Em si mesma, a terra não era uma riqueza e iria demorar algum tempo para que ela
assumisse esse significado (mesmo como conexão do capital mercantil). Mas erigia-se na base material
da transferência e da perpetuação de uma arraigada estrutura de privilégios e da própria dominação
patrimonialista.
O segundo tópico leva-nos à dimensão esquecida do mundo colonial brasileiro. Se foi a propriedade
da terra — e não a escravidão, que constituía o eixo econômico do antigo sistema colonial — que
condicionou a persistência e o fortalecimento do patrimonialismo, quais foram, então, as consequências
da introdução da escravidão na ordem estamental transplantada? Na verdade, a escravidão esvaziara a
ordem estamental portuguesa de muitas de suas funções econômicas e sociais. Todavia, o
empreendimento colonial, especialmente sob um tipo de colônia de exploração que requeria uma variada
retaguarda demográfica, impunha de algum modo a reprodução social da sociedade metropolitana. Aí
voltamos ao problema da periferia. A economia de plantação exigia dois desenvolvimentos paralelos. De
um lado, uma comunidade local, que não abrangia somente “senhores” e “escravos”. Havia os colonos
que detinham, através de doações subestabelecidas pelo senhor, posse de lotes de terra e alguma
escravaria (de vinte, trinta ou quarenta peças). Havia também os colonos dependentes, que trabalhavam
sob meação e em outras condições, com a colaboração de um número menor de escravos. Por fim, havia
“oficiais mecânicos” e outros tipos de gente, sem os quais a supervisão do trabalho escravo, o
funcionamento do engenho e o transporte da matéria-prima seriam impraticáveis. Tudo isso significa que
o substrato humano da economia de plantação era heterogêneo e que a força de trabalho escravo não
existia no vácuo, mas em um mundo social no qual a presença do branco era imperativa em várias
posições estratégicas. De outro lado, a economia de plantação exigia algo mais que uma feitoria
comercial-militar. Era preciso criar, para essa massa de gente branca diferenciada e para o escoamento
da produção, certos povoados com um mínimo de funções urbanas, político-administrativas, militares e
religiosas. Desses povoados nasceram as vilas e as cidades do mundo colonial: eles cresceram em
função da economia de plantação e do circuito comercial da Metrópole com a Colônia (bem como de
outros circuitos, que surgiram dentro da Colônia ou através do contrabando). Os dois desenvolvimentos
paralelos conduziam ao mesmo resultado. A base demográfica branca do sistema colonial como um todo
tinha de estratificar-se segundo critérios estamentais, isto é, como uma “extensão da mãe pátria”, ou então
destruiria os fundamentos da dominação patrimonialista e do Estado patrimonial. Tudo isso é curioso,
porque muitos analistas ressaltam o “caráter anárquico” e “democrático” da sociedade colonial. No
entanto, se esses atributos fossem reais, a colônia de exploração geraria, por uma evolução espontânea e
incontida, uma colônia de povoamento em condições de lutar por sua autonomia. O que nos obriga a pôr a
escravidão nesse contexto, para verificar o que ela acarretava no plano do funcionamento e da
reprodução da ordem societária estamental. Em poucas palavras, ela provocava o seu empobrecimento e
o seu enrijecimento. Os artesãos e oficiais mecânicos, por exemplo, tornavam-se artesãos e oficiais
mecânicos titulares. Eles não transferiam para os escravos todas as suas obrigações. Porém, somente
saturavam os interstícios em que o seu trabalho “especializado” era insubstituível. Em suma, a
escravidão irradiou-se por toda a ordem estamental: todos os estamentos, dos nobres e dos homens bons
aos oficiais mecânicos viam nos escravos “os seus pés e as suas mãos”. O que nos interessa são os
dinamismos que deixam de aparecer ou que são sufocados. Os que não são nem escravos nem libertos
adotam, de uma forma ou de outra, a ótica senhorial. A apatia do “povo miúdo”, que prevalecia na
Metrópole, reproduzia-se numa escala ampliada, através de um conformismo sociopático, que não
provinha do “espaço cósmico” nem da pulverização do microcosmo social (supostamente fomentada pela
economia de plantação). Ela era um efeito da superposição de estamentos e de castas que convertia o
estamento dominante em árbitro da situação e estimulava os demais estamentos e os estratos socialmente
oscilantes a se converterem em caixa de ressonância dos interesses senhoriais.
O terceiro tópico é o único que despertou largo interesse entre os investigadores brasileiros e por isso
encontrou maior esclarecimento empírico e teórico. No entanto, é forçoso reconhecer que os
conhecimentos obtidos são unilaterais (pensamos principalmente nas contribuições mais significativas de
Oliveira Viana, Gilberto Freyre, Nestor Duarte e Fernando de Azevedo) e essa unilateralidade nasce da
redução do macrocosmo social inerente à ordem estamental e de castas ao microcosmo social inerente à
plantação ou ao engenho e à fazenda. Para uma análise sociológica que se volta para as totalidades, a
economia de plantação faz parte de um contexto histórico estrutural inclusivo e determinante; o problema
central não consiste em explicar uma ou outro, mas ambos. Portanto, temos de considerar a economia de
plantação em dois níveis simultâneos e interdependentes: todo um complexo de relações comunitárias e
societárias que a articulava a várias estruturas econômicas, sociais e de poder, ou seja, a várias formas
de dominação. De um lado, havia a comunidade local, que abrangia duas unidades distintas — o domus
ou o lar senhorial; e a senzala ou o confinamento dos escravos — e ambas existiam em um espaço
social mais amplo na localidade, dentro do qual viviam todos os agregados de gente branca ou mestiça e,
com frequência, uma ou mais povoações e vilas circunvizinhas. De outro lado, havia o macrocosmo
social, com o qual, em regra, só o senhor, a família senhorial e alguns dos colonos brancos tinham uma
relação funcional frequente e com o qual, no nível do “regime de governo colonial”, exclusivamente o
senhor ou seus prepostos tinham vínculos permanentes legítimos. Esse macrocosmo vinha a ser a cidade
que funcionasse como entreposto comercial e núcleo das instituições religiosas, jurídicas, administrativas
e políticas — e o mundo que se atingia através dela e dos seus canais institucionais, inclusive a
Metrópole e a Coroa. Ao se enumerar todos esses modos de relação deparamos com várias formas de
dominação (entre iguais ou com subordinados da mesma posição social e de posição social inferior, do
pater familias e do dominus, ou do vassalo preso nas malhas do poder colonial como correia de
transmissão das “necessidades” e da “vontade” da Coroa). Em termos de poder, a essa variação
corresponde o “poder doméstico”, o “poder senhorial” no sentido de um poder específico sobre o
escravo e de poder em geral sobre os “homens comuns” brancos ou mestiços, o “poder da aristocracia”,
no plano mais abstrato, dos que irradiavam, através da dominação tradicional e da dominação
patrimonialista, as funções paternalistas, burocráticas e políticas dos que tinham o direito de comandar,
em nome próprio e através de delegações locais do “poder do povo” ou em nome das autoridades
administrativas coloniais e da Coroa.
Quando se reduz tudo isso ao poder patriarcal, inerente ao pater familias e ao dominus, comete-se a
mesma simplificação e a mesma mistificação que se praticam ao reduzir a escravidão mercantil à
“escravidão antiga”. Não estamos diante do senhor de escravos grego ou romano nem do senhor feudal.
Há, aqui, uma irredutível complicação, que nos obriga a levar em conta vários elementos diversos e
contraditórios na relação de dominação — o que é tradicional e patrimonialista, o que é patriarcal e
paternalista, o que é burocrático e político, e o que nasce da relação do dono com a “coisa” quando essa
coisa é um ser humano que se compra e a fonte de toda a força de trabalho fundamental. O próprio Max
Weber, que distinguiu tão bem os vários tipos de dominação, recomendou que se procurasse reter, nas
situações concretas, as combinações históricas possíveis de todos esses elementos. Ora, essa regra de
observação e de interpretação impõe que se apanhe a economia de plantação nos dois níveis de relações
comunitárias e societárias. Em síntese, a superposição de estamentos de uma “raça” dominante e de
castas de “raças” dominadas punha a ordem societária correspondente sobre um vulcão. A força bruta,
em sua expressão mais selvagem, coexistia com a violência organizada institucionalmente e legitimada
pelo “caráter sagrado” das tradições, da moral católica, do código legal e da “razão de Estado”. O
mítico paraíso patriarcal escondia, pois, um mundo sombrio, no qual todos eram oprimidos, embora
muito poucos tivessem acesso, de uma maneira ou de outra, à condição de opressores. Aliás, a
escravidão mercantil só poderia implantar-se e desenvolver-se em uma ordem societária dessa natureza,
na qual se definia a figura legal do escravo, simultaneamente, como “um inimigo doméstico” e “um
inimigo público”.[10] O ponto de apoio estrutural e dinâmico desse tirânico estilo de acomodação
interétnica e inter-racial nascia de uma confluência e da conjugação de formas de repressão, de controle
armado e de despotismo generalizado (forjadas e mantidas pela superposição de estamentos e castas),
graças às quais uma rala minoria não só monopolizava socialmente todo o poder, como o aplicava a seu
bel-prazer. Essa monopolização permitia que, com relativa facilidade, as instituições-chaves pusessem
nas mãos dessa minoria, em qualquer momento e em qualquer nível das relações comunitárias e
societárias, os meios necessários para defender a ordem, impedindo qualquer evolução explosiva da
“anarquia reinante”, do “rancor do escravo” e dos possíveis “atropelos” da gente miúda branca e
mestiça.
A escravidão mercantil pressupunha uma inconsistência institucional medular: o fundamento monetário
da escravidão fazia com que “a liberdade do escravo” fosse, por sua vez, uma “questão de mercado”. De
outro lado, a superposição de estamentos e de castas em uma colônia de exploração onde existia
permanente escassez de mulheres da “raça branca” e extensa liberdade sexual incitava à miscigenação
em todos os sentidos possíveis.[11] Os filhos dessas uniões herdavam a posição das mães escravas e,
qualquer que fosse a sua cor e sua relação de parentesco com o senhor, ele nascia escravo, sendo tratado
e explorado como tal. Houve muita controvérsia a respeito das “funções integrativas e democratizadoras”
da miscigenação. Graças a Antonio Candido de Melo e Sousa, porém, tornou-se mais fácil descobrir
como a família patriarcal operava de fato. O acesso à posição de dominus só era possível aos que
pertencessem ao núcleo legal dessa família. A ampla miscigenação, ocorrida em sua periferia (com
referência à escravaria doméstica e até da senzala), nada tinha que ver com a estrutura da família
senhorial, protegida pelos laços do casamento legal. Por isso, onde a miscigenação transcorresse dentro
daquele núcleo, “pessoas de cor” (mesmo escuras) não só nasciam livres, como podiam ascender,
eventualmente, à condição de pater familias e de dominus. Contudo, essa era uma possibilidade e, ao
que se sabe, mais a “exceção” que a “regra”, nos centros coloniais de maior vitalidade da economia de
plantação. Os sociólogos costumam contar a frequência dos casos para depois generalizarem. Esse
procedimento metódico foi invertido e se esqueceu, quase por completo, que a exceção é fundamental
para o conhecimento analítico da regra (especialmente quando se pode estabelecer como “a exceção
confirma a regra”). O estrato dominante da minoria branca estava por demais empenhado na defesa
sistemática do monopólio da dominação racial e estamental — segundo uma estratégia de autoproteção
contra a “mácula de sangue” e a “mácula de ofícios mecânicos”, como o esclarecem frei Vicente da
Salvador e tantas outras fontes — para tolerar uma brecha no funcionamento da ordem escravocrata e
senhorial. Não obstante, o caráter mercantil da escravidão e a miscigenação abriam dois focos de
fissuras potenciais, que se aprofundaram com o tempo, introduzindo fortes tensões no padrão de
equilíbrio racial e estamental da sociedade escravista. Por isso mesmo, apesar do catolicismo e do
suposto efeito conciliador que lhe seria inerente, essas linhas de fissura caíam na esfera de consciência
crítica dos estamentos senhoriais; e as ações ou relações sociais, que poderiam intensificá-las, estavam
sujeitas a fortes controles externos. Em qualquer das duas direções a “fraqueza do senhor” submetia-se a
um código tradicionalista severo, que inclusive legitimava a burla de “últimas vontades”, expressas em
testamento, especialmente se poderiam ser tidas como lesivas ou perigosas (ou pura e simplesmente
demasiado lenientes). A crise da consciência cristã, portanto, se não impedia nem suavizava a
escravidão mercantil, tampouco protegia certos efeitos que deveriam ser “intocáveis” e “sagrados”.
Aí temos uma complexa situação histórica. Apesar do caráter mercantil da escravidão, o acesso do
escravo à liberdade acabava não sendo uma “questão puramente mercantil”. Várias barreiras e pressões
restringiam o processo de “liberação por compra”. O que estava em jogo eram a existência e a
reprodução do trabalho escravo, base material de toda a economia de plantação e da sociedade
correspondente. O mesmo sucedia com a mudança do status do cativo por vontade ou intervenção do
próprio pai (ou de alguém por ele nomeado). Se casos desta natureza se tornassem muito numerosos,
além do trabalho escravo estariam ameaçados a dominação da “raça branca” e o próprio princípio da
estratificação estamental. Por isso, às linhas de fratura da ordem escravocrata e senhorial correspondiam
outras linhas igualmente fortes de sua defesa e fortalecimento. Nenhuma “ética cristã” e muito menos o
duro catolicismo colonial português[12] poderiam transpor essa realidade histórica. Mas, em
consequência, a ordem que se fechava para o escravo criava duas alternativas. Primeiro, como em outras
economias e sociedades de plantação, as tensões do escravo desabrochavam de modo indireto (suicídio,
infanticídio, sabotagem do trabalho, destruição da propriedade do senhor, roubos, crimes etc.) ou através
das fugas, nem sempre bem-sucedidas, apesar do aparecimento e difusão dos quilombos e da tradição
que eles evocam da rebeldia do escravo. Segundo, a manipulação deliberada das fissuras em um “sentido
útil”. A liberação do escravo acabava sendo, muitas vezes, menos que uma demonstração de bondade e
de piedade cristãs (embora, muitas vezes e em toda parte, isso tenha ocorrido com certa regularidade).
Dois problemas práticos se abatiam sobre a ordem escravocrata e senhorial. Um, era de natureza
estrutural. O povo colonizador não era suficientemente numeroso para transplantar para a Colônia todo o
tipo de gente pobre e de oficiais mecânicos que ela requeria. Para saturar esse vazio inevitável, impunha-
se uma espécie de bombeamento demográfico, pelo qual uma parte da população escrava era transposta
para o setor livre, na condição de liberto. O outro, era de natureza conjuntural. Os momentos de crise do
mercado mundial se refletiam negativamente sobre a expansão da produção e o custeio de manutenção da
escravaria. O recurso mais empregado consistia em transferir o trabalho escravo da grande lavoura para
lavoura de subsistência, como sugere Celso Furtado. Mas essa solução envolvia outras manipulações,
entre as quais se salientam certas práticas bem conhecidas, como a manumissão dos escravos mais ou
menos inaptos para o trabalho produtivo de qualquer espécie (escravos velhos, doentes, aleijados etc.).
O que quer dizer que, nas duas direções, havia uma “racionalidade senhorial”, que governava o fluxo das
concessões sob o escravismo. Excetuados os casos de exceção, a regra era ditada pelo esforço de
preservar a estabilidade da ordem senhorial e escravocrata, bem como de fortalecer o seu padrão de
equilíbrio racial e estamental. O que estava em jogo era a defesa nua e crua do senhor e dos interesses
senhoriais. E se alguma vez as autoridades coloniais ou a Coroa interferiam com o intuito de resguardar o
escravo ou “os limites” da escravidão, o significado dessa interferência é patente: tratava-se de impedir
que a transgressão da violência institucional média, pelos próprios senhores e por seus prepostos, se
convertesse no fulcro de tensões raciais incontroláveis e de uma instabilidade que transcendesse o poder
conjunto de autodefesa armada dos senhores, das autoridades coloniais e da Coroa.
Em todos os tipos de sociedades estratificadas — seja a sociedade de castas, a sociedade estamental,
a sociedade de classes ou uma combinação delas — o padrão estrutural e dinâmico da ordem existente
possui vigência universal. Isso não quer dizer que a vida social, no plano comunitário ou no nível
societário, tenha a mesma intensidade em todos os pontos cobertos pela ordem social vigente. Do mesmo
modo, os ritmos históricos de funcionamento, autorreprodução e transformação da ordem social não se
impõem com a mesma intensidade em toda parte. No caso da ordem escravocrata e senhorial, engendrada
pela economia colonial de plantação, o produto principal no ciclo econômico, o volume e a facilidade do
seu escoamento para a Metrópole e o mercado mundial é que determinavam as áreas internas onde o
regime escravista e a sociedade estamental e de castas atingiam o seu máximo de saturação histórica.
Não podemos dar a essa questão todo o interesse que ela merece. Não obstante, é essencial lembrar, pelo
menos, dois de seus aspectos cruciais.
Primeiro, da implantação e desenvolvimento do antigo sistema colonial no Brasil à sua extinção
político-legal, as regiões que imprimiram maior vitalidade ao crescimento da ordem escravocrata e
senhorial foram, naturalmente, aquelas onde a produção de açúcar alcançou o seu apogeu ou aquelas nas
quais a mineração e a exploração diamantífera serviram como eixo à oscilação da esfera dominante da
produção escravista-colonial. É claro que as demais regiões se ordenavam, institucionalmente, pelos
mesmos requisitos econômicos, militares, jurídico-administrativos, políticos e religiosos. O que significa
que a ordem societária era a mesma e o mesmo, portanto; o relacionamento das “raças” e dos estamentos
sociais. Apenas, nessas regiões predominavam formas de produção secundárias (como o cacau, o fumo, o
algodão etc.) e formas subsidiárias de produção colonial (preação de índios, produção de charque e de
peles, fazendas de criação etc.), cuja extensão e vitalidade estavam “voltadas para dentro” — o que fazia
com que a base material da ordem societária reduzisse a proporção entre escravos africanos e indígenas
ou modificasse a relação numérica entre a população escrava e a população livre. Esta sempre era
minoritária mas nas áreas subdesenvolvidas da economia e da sociedade coloniais a minoria branca se
tornava ainda mais rala e tinha de exercer as várias modalidades de dominação, apontadas acima,
utilizando como ponto de apoio uma vasta retaguarda composta por elementos indígenas “aliados” ou
“submetidos” e por elementos mestiços dependentes. Por isso, essas minorias tinham de aprofundar os
ritmos históricos em outras direções, nem sempre “contidas pela ordem”, talando as populações nativas e
levando o terror inerente à ordem escravocrata e senhorial aos limites mais extremos (não poupando
sequer as ordens religiosas, como o demonstram os episódios das lutas contra os jesuítas, nem
respeitando as tentativas da Coroa de conter “a violência senhorial”, que poderia, potencialmente,
evoluir no sentido de alimentar processos especificamente anticoloniais). Nada disso levou a rupturas
mais profundas nem impediu que a universalização da ordem escravocrata e senhorial atingisse mesmo os
espaços onde era maior o “vazio histórico” em relação aos requisitos econômicos, demográficos, sociais
e políticos da ordem escravocrata e senhorial. Uma explicação superficial tenderia a levantar a hipótese
de uma supercompensação psicológica, como um “efeito de demonstração” possível em um mundo no
qual quem não tivesse dom comprovável acabaria suspeito de “mácula de sangue” e de “condição
mecânica” (ou, se fosse mestiço, poderia ser tomado como escravo ou liberto). Não se pode excluir o
valor de semelhantes hipóteses. Contudo, é evidente que elas apanham a órbita secundária das relações
humanas. A explicação fundamental, de uma perspectiva macrossociológica, está na própria organização
e viabilidade da economia e da sociedade coloniais. A associação entre o vassalo, como colono, e a
Coroa, diretamente e através das funções imediatas das autoridades coloniais, era o elemento básico do
sistema. Sem essa associação, da qual vinha como decorrência a própria ordem escravocrata e senhorial,
sobre a qual se assentava tanto a “possibilidade”, quanto o “futuro” da colônia de exploração, tudo se
tornaria inviável. Portanto, os efeitos de compensação entram em conta numa linha secundária de
interpretação dos fatos. E eles ajudam a entender como, em condições de extrema pobreza ou de
dificuldades inconcebíveis, o que aparecia era um zelo mais extremo pela “limpeza de sangue” e pelos
“atributos de fidalguia”, uma lealdade exaltada à Coroa e hipócrita à religião católica, bem como uma
saturação dos vazios históricos pela ação direta dos próprios colonos, que se tornavam, assim, “as mãos
e os pés” do antigo sistema colonial.
Segundo, é preciso pelo menos dar alguma atenção ao problema histórico do que poderia e deveria ser
uma ordem escravocrata e senhorial no seio de uma colônia de exploração do império lusitano. A
evolução das estruturas de poder, em Portugal, tendia a reduzir as prerrogativas da alta nobreza, embora
isso ocorresse de maneira oscilante. Na medida em que se fortalecia um Estado patrimonial e absolutista,
os vários estratos da alta e da média nobreza — e mesmo alguns estratos dos pequenos fidalgos de “dom
antigo” ou nobilitados pelos serviços prestados ao Império — tendiam a gravitar em torno do séquito do
soberano ou das oportunidades militares, econômicas, burocráticas e políticas abertas pela administração
estatal. Algumas famílias nobres mais ricas e poderosas demoraram para sentir os efeitos dessa evolução
ou tiveram oportunidades para remontar os ventos adversos. Contudo, em média, as oscilações não
impediam que o fortalecimento de um Estado patrimonial absolutista, que crescera demais para os
recursos financeiros de que dispunha ou poderia mobilizar, repercutisse de modo negativo sobre a
situação e as aspirações dos estamentos nobres. Essa tendência tinha, forçosamente, de refletir-se na
parte colonial do império e com maior intensidade no Brasil. De um lado, porque, à exceção de alguns
nobres que vieram para cá como mandatários ou altos funcionários da Coroa, a gente de dom que se
transplantou para o Brasil era predominantemente de terceira ou segunda grandeza. Os poucos que
poderiam, a partir da situação colonial, resistir com eficácia às tendências montantes à centralização do
poder estatal estavam destinados a circular pelo vasto império ou pretendiam voltar para Portugal tão
depressa quanto fosse possível. De outro lado, a base econômica, social e política da aristocracia
colonial — ou seja, do “rebento crioulo” da nobreza lusitana — não conferia aos estamentos senhoriais o
poder para contra-arrestar qualquer tendência que prejudicasse os estamentos nobres metropolitanos. Ao
contrário, a chamada aristocracia colonial era, em si mesma, um grave problema político dentro do
Império. Muito mais que à aristocracia metropolitana, a Coroa tinha, quisesse ou não, de anular as
potencialidades da aristocracia colonial, impedindo-a de constituir uma comunidade de interesses e de
alvos políticos capaz de unificar-se em um sentido especificamente estamental. Uma evolução dessa
natureza poderia culminar na criação de um Estado dentro do Estado, ou seja, em processos de
autonomização econômica e político-legal que a Coroa não teria meios para enfrentar e destruir.
A solução desse problema político foi, talvez, o traço mais fino da habilidade da Coroa e nela reside o
segredo da longa duração do antigo sistema colonial no Brasil e da “transição pacífica” pelo tope, da
fase colonial para a fase neocolonial, com uma emancipação política que transcorreu como uma autêntica
“revolução dentro da ordem”. É que, apesar de todas as tensões e conflitos, a Coroa soube manter a
associação do colono com o império numa escala tão ampla e íntima que ele nunca passou de um agente
privado instrumental da “política imperial”. O colono de status senhorial não só era o vassalo e o
representante da Coroa na Colônia: ele era, simultaneamente, a base material visível e a mão armada
invisível da existência do império colonial. Sem essa ligação, o governo colonial português, com todas
as suas instituições administrativas, militares, religiosas e políticas, entraria em colapso, pois teria de
enfrentar um vácuo total. Como explicar essa ligação, aparentemente paradoxal e contraditória? A Coroa
e os estamentos senhoriais eram o que hoje se poderia chamar de irmãos siameses. No Brasil, a
construção da colônia de exploração e o seu progresso deveram-se a essa correlação, em grande parte
fundada numa evolução interdependente, criada e fortalecida pelo patrimonialismo. Tanto a riqueza e o
poder da Coroa quanto a riqueza e o poder do colono privilegiado cresciam do mesmo modo e na mesma
direção, em termos de despotismo absolutista. Só que enquanto o poder da Coroa era canalizado por um
Estado nacional patrimonialista, tendo por fundamento o império colonial, o poder do colono
privilegiado era canalizado pela colônia de exploração, tendo por fundamento o domínio patrimonialista
com sua economia de plantação e o seu modo de produção escravista. Para que um pudesse crescer, o
outro também tinha de crescer. Enquanto a colônia de exploração se desenvolvesse em sentido horizontal,
sem modificar suas estruturas e sem revolucionar os seus ritmos históricos, esse paralelismo não
precisava ser destruído a partir do polo colonial. De outro lado, enquanto se mantivesse tal paralelismo,
a Coroa podia usar sua posição estratégica para preservar as coisas “nos devidos lugares”, isto é,
impedindo que o poder absolutista do senhor colonial transcendesse os focos de sua expansão natural,
isto é, o domínio colonial e as instituições coloniais de caráter local, em que se congregavam e
deliberavam os “homens bons”. Fora desse circuito, o senhor colonial podia exercer pressões diretas ou
indiretas sobre os vários níveis das autoridades coloniais e fazer petições à Coroa, diretamente ou por
agentes desta (civis e religiosos). Trata-se de uma montagem política perfeita, que ainda hoje aparece
como uma pequena obra-prima. Quisesse ou não, o senhor colonial era o “parceiro válido” da Coroa e,
em última instância, o verdadeiro sustentáculo do império no Brasil. Ao movimentar as contradições
inerentes ao antigo sistema colonial “dentro da ordem”, ele favorecia, inevitavelmente, e fortalecia a
Coroa. Por sua vez, a própria estrutura e as contradições inerentes à ordem escravocrata e senhorial
paralisavam o senhor colonial em tudo que dissesse respeito às contradições do mesmo sistema que só
pudessem ser enfrentadas e resolvidas “contra a ordem”. A massa de escravos, de libertos e de mestiços
pobres erguia o fantasma de uma rebelião geral, que poderia muito bem ter como estopim o “inimigo
doméstico” que era, ao mesmo tempo, o “inimigo público”. Em si mesmo, para os estamentos senhoriais
(ou para a chamada aristocracia colonial) esse risco era muito mais temível e indesejável que o pleno
funcionamento do antigo sistema colonial. O que quer dizer, em outras palavras, que o antigo sistema
colonial português gerou o agente principal de que carecia, com uma mentalidade tão ultraconservadora e
egoísta, que se tornava apto a pôr em primeiro plano e a satisfazer-se com os seus interesses mais
estreitos e imediatos. Portanto, se a ordem estamental, em Portugal, caminhava em crescente atraso com
referência à história da Europa da revolução capitalista, a ordem estamental e de castas, no Brasil,
impunha-se os padrões e os ritmos de uma história colonial. Tudo porque o senhor não transcendia à
Coroa, no plano histórico, e ao tornar-se escravo da produção escravista sucumbia à condição colonial.
Essa exposição das estruturas e dinamismos funcionais e históricos da antiga ordem escravocrata e
senhorial pode parecer muito longa. Mas, é preciso levar em conta duas coisas: 1º) aí está o período
mais longo da análise, pois abrange o tempo percorrido pela formação da colônia de exploração e sua
evolução até o limiar do último quartel do século XVIII; 2º) essa ordem não se alterará em sua substância,
posteriormente, em especial no período de transição neocolonial, em que ela atingirá sua plenitude
histórica e desabrochará todas as suas potencialidades ao nível das relações comunitárias e societárias.
A crise da ordem escravocrata e senhorial surgiu de baixo para cima, em termos estáticos, por causa do
problema da renovação da escravaria e da reprodução do trabalho escravo. E foi agravada pelas
pressões dinâmicas decorrentes da expansão do setor capitalista novo, que se irradiou das cidades para
as zonas rurais, expondo os senhores a um novo circuito histórico, através do qual a base material da
produção escravista e a própria reprodução do modo de produção escravista foram condenadas à
extinção paulatina, embora se mantivessem as demais condições de sua riqueza e do seu poder (como o
monopólio da terra, forte predomínio no controle das estruturas de poder político, constante e crescente
participação nas atividades econômicas nascidas do crescimento da economia urbano-comercial,
despotismo social em todos os planos da organização das instituições-chaves, das comunidades locais ou
da sociedade nacional etc.). Portanto, apogeu e crise aparecem como dados concomitantes. O senhor não
sai dessas transformações como era antes. Porém, se ele aproveita, agora em estilo tradicional-
patrimonialista e em estilo capitalista, o momento de apogeu, ele não se converte em vítima da crise final
dessa ordem. A vítima foi o “negro” como categoria social, isto é, o antigo agente do modo de produção
escravista que, quer como escravo, quer como liberto, movimentara a engrenagem econômica da
sociedade estamental e de castas. Para ele não houve “alternativa histórica”. Ficou com a poeira da
estrada, submergindo na economia de subsistência, com as oportunidades medíocres de trabalho livre
das regiões mais ou menos estagnadas economicamente e nas grandes cidades em crescimento
tumultuoso, ou perdendo-se nos escombros de sua própria ruína, pois onde teve de competir com o
trabalhador branco, especialmente o imigrante, viu-se refugado e repelido para os porões, os cortiços e a
anomia social crônica.
Já contamos demais essa história, para repeti-la aqui, de novo, em todos os seus pormenores. Apenas
para completar os quadros históricos desta exposição, conferindo-lhe um mínimo de unidade, vamos
ressaltar alguns aspectos centrais da revitalização da ordem escravocrata e senhorial na fase de transição
neocolonial bem como do complexo interdependente de causas e efeitos, os quais tornaram o modo de
produção escravista inviável e, com isso, fizeram o que a emancipação nacional não conseguira, levar a
descolonização às estruturas econômicas e sociais herdadas da “sociedade colonial” e mantidas na
“sociedade imperial”.
A descrição feita acima sugere, claramente, que a ordem escravocrata e senhorial, elaborada em uma
colônia de exploração, não tinha como dinamizar por si mesma, mantidas as condições existentes, as suas
contradições internas. Essas condições se alteraram mais a partir de fora para dentro que a partir de
dentro, mas assim mesmo nas duas direções. O fim do último quartel do século XVIII e todo o primeiro
quartel do século XIX formam uma época histórica de crise da consciência ultraconservadora do senhor
colonial.[13] O desfecho do ciclo de mineração e de exploração diamantífera desencadeou vários
processos concomitantes de mobilidade espacial e econômica, de deslocamento de fronteiras
econômicas, com diferentes tentativas de substituir a lavoura de subsistência pela grande lavoura e de
descobrir um novo eixo econômico para o modo de produção escravista. O principal elemento dessa
eclosão histórica dentro do mundo colonial era político. O senhor colonial começava a desatar suas
amarras com o regime colonial, ao mesmo tempo em que se propunha o problema de sua impotência
econômica e de sua inviabilidade política em termos da organização do império colonial. Por fim, o
significado da condição colonial, que atravessava sua posição dominante na sociedade e a neutralizava,
prevalece, então, sobre as compensações que o regime podia oferecer. Ao mesmo tempo, essa
transformação é apanhada pelas relações da Colônia com a Europa e sua posição dentro do império
colonial português. Em consequência da invasão de Portugal, a família real se refugia no Brasil e várias
ocorrências mudam a vinculação do país com o mercado externo. De um lado, ao converter o Rio de
Janeiro em centro político da Corte, a Coroa conferia ao Brasil a condição — por passageira que fosse
— de núcleo de irradiação do poder real e metropolitano. Isso equivalia a interiorizar o império colonial
sob nova condição: não mais a do antigo sistema colonial, mas das instituições necessárias à existência e
eficácia do poder imperial. Se isso garantia para as camadas senhoriais a base política para uma
“transição dentro da ordem”, isto é, através da família real e do poder imperial, ao mesmo tempo
significava que o “senhor colonial” iria pretender, daí por diante, ser apenas “senhor”. De outro lado, ao
abrir os portos e conceder à Inglaterra amplos privilégios econômicos, a Coroa inaugura um circuito
histórico novo: a economia de plantação e o comércio interno ganhavam vínculos diretos com o mercado
mundial. As funções econômicas da Metrópole teriam de ser, por sua vez, internalizadas, e isso
representou a base material para uma profunda rotação econômica. Pois é em torno dela que se iria dar a
eclosão do capitalismo comercial moderno, através do seu mercado, de suas instituições básicas e do
estilo de modernização econômica que ambos exigiam, no acanhado mundo urbano herdado da era
colonial.
Todas essas transformações simultâneas e inter-relacionadas através do “tempo histórico europeu”
continham o mesmo significado para a sobrevivência e o fortalecimento da ordem escravocrata e
senhorial. Esta não foi condenada juntamente com o antigo sistema colonial. Ao contrário, o destino dos
dois foi cuidadosamente separado, de acordo com os interesses em jogo inerentes às principais forças
históricas. As camadas senhoriais tinham natural interesse em resguardar a base material de seu poder
social e econômico, que era o monopólio da terra, a propriedade escrava e o regime de plantação; a
Coroa, em um momento tão dramático de derrocada, precisava ainda mais que os senhores proteger o que
antes se chamara a “sua vaca de leite”; a Inglaterra e os outros centros dominantes do comércio
internacional competiam duramente entre si pela partilha dos despojos coloniais de Portugal, mas tinham
o mesmo interesse pela continuidade da produção de “gêneros coloniais” no Brasil e de sua exportação
para o mercado europeu. No conjunto, pois, essa primeira etapa da transição neocolonial foi muito
favorável à persistência da ordem escravocrata e senhorial como ela existia anteriomente e, o que é
deveras mais importante, de tal confluência de fatores resulta que essa ordem ganha maior elasticidade
em dois níveis distintos. No plano puramente econômico, as funções centralizadoras da Metrópole entram
em crise irremediável e começam a ser rapidamente absorvidas a partir de dentro, um processo que se
iria consolidar e aprofundar com a emancipação nacional. Ao mesmo tempo, o arcaico e rígido mercado
colonial interno começa a esboroar-se, e em seu lugar começa a aparecer um mercado capitalista
especificamente moderno, que se desenvolverá aos poucos, de início nas cidades de maior porte, mas
segundo ritmos intensos (em virtude dos novos vínculos com o mercado mundial e o controle do
comércio de exportação e de importação predominantemente por firmas estrangeiras). Na evolução que
vai até a segunda década do século XIX essas transformações podem parecer acanhadas. E de fato, elas o
eram, pois é somente depois da Independência que todos esses processos atingirão seu clímax. Não
obstante, elas retiravam a economia de plantação do eixo do antigo sistema colonial, transferindo-a para
o eixo mais dinâmico do mercado mundial, e contribuíam para expor os papéis econômicos do senhor ou
dos intermediários do comércio de exportação a influências mais diretas e especificamente capitalistas.
No plano estritamente político, os efeitos da dinamização da ordem escravocrata e senhoriais são ainda
mais consideráveis. Os estamentos senhoriais começam a ganhar existência própria, fora e acima do
estreito palco fornecido pelo domínio patrimonialista e senhorial, do poder local e das pressões
canalizadas institucionalmente de modo indireto sobre a Coroa. Eles não só começam a tomar
consciência da comunidade de interesses econômicos, sociais e políticos numa linha integrativa
estamental. Surgem as primeiras manifestações coletivas, embora regionais ou “concentradas no tope”,
através dos figurões do Governo, de um “querer coletivo” que iria articular-se de modo muito rápido.
Tão rápido, que a Independência converteu-se numa transação senhorial: os senhores já tinham alcançado
solidariedade política estamental suficiente para poderem impor a própria posição social como
fundamento dos processos de emancipação de Portugal e para conterem essa radical transformação nos
limites de uma “revolução política dentro da ordem”, ou seja, com a preservação do monopólio da terra,
da propriedade do escravo e de todos os privilégios da aristocracia.[14]
O que se poderia designar como a “Idade de Ouro” da ordem escravocrata e senhorial vai da segunda
etapa da fase de transição neocolonial (mais ou menos da Independência até a década de 60) ao início do
último quartel do século XIX (portanto, uma fase em que a formação do capitalismo competitivo
dependente já alargara as bases do comércio interno e já atingira a primeira irradiação importante da
indústria de bens de consumo). Aqui, os problemas históricos da duração da ordem escravocrata e
senhorial passam para segundo plano. De fato, nos meados do século XIX já se tornam evidentes os
fatores e os efeitos estruturais de uma crise irreversível dessa ordem. Não obstante, ela revela nesse
período o seu máximo de eficácia histórica e de flexibilidade. Ambos os efeitos se prendem ao polo
senhorial. Os estamentos senhoriais lograram plena integração de seus interesses econômicos, sociais e
políticos numa escala horizontal e nacional, tornando-se o que se poderia descrever como um estamento
em si e para si, com condições de monopolizar o poder político estatal e de comandar a política
econômica interna. Isso não quer dizer que os estamentos intermediários estivessem anulados ou que não
lutassem contra a “organização oligárquica” do poder e da liderança política da aristocracia agrária. Mas
que o Império, no Brasil, foi um regime escravista e que tinha os seus limites nos marcos da ordem social
dominados pelos senhores de escravos. Em suma, a supressão dos liames coloniais com Portugal não
implicou desaparecimento do império colonial. Este se internalizou e se estabilizou, alimentando-se a
partir de dentro pelas funções econômicas, sociais e políticas do domínio senhorial, da economia de
plantação e do modo de produção escravista. O liberalismo senhorial era um liberalismo que começava e
terminava na “liberdade do senhor” — e cobria-se contra qualquer risco de uma revolução
verdadeiramente nacional, que tirasse o Estado nacional do seu controle estamental. O que ocorreu, teve
tão larga duração e deixou sequelas que vêm até hoje, permite corrigir a interpretação que cientistas
políticos fazem da formação do Estado representativo nas “nações emergentes” de origem colonial. Não
é verdadeiro, pelo menos no século XIX, que os estamentos dominantes e as suas elites usassem as
instituições representativas para excluir o Povo da participação política e das estruturas de poder. Na
verdade, o Povo, na situação brasileira, nunca teve tais regalias. O que era o Povo? Os estamentos
dominantes e intermediários, como queriam os parlamentares e os publicistas conservadores do Império?
Ou o conjunto da população brasileira, composta em sua quase totalidade de escravos ou de libertos e
“homens livres” completamente desvalidos, mesmo para se qualificarem para a representação política?
De modo que a adoção das instituições representativas não foi um passo para excluir o Povo do poder,
mas um artifício para manter a concentração social do poder nas mãos dos estamentos sociais dominantes
e intermediários. A constituição de uma sociedade civil ultrasseletiva permitia criar a base política de
um sistema nacional de poder estável, no qual todas as funções do Estado e do Governo podiam
transcorrer dentro dos “parâmetros da ordem”.
Em consequência, as funções que a Coroa portuguesa por vezes refugou na defesa dos interesses
escravistas senhoriais, o Império brasileiro preencheu com a desenvoltura e a eficácia necessárias. Ao
contrário do que afirmam alguns autores, que atribuem um caráter mitológico suprarracional à “política
econômica”, o Império teve uma política econômica, e esta gravitava em torno dos interesses da
aristocracia agrária e do comércio de importação e de exportação, largamente ligado (embora não
exclusivamente) àqueles interesses. As medidas que aprofundavam a crise da produção escravista,
vindas de fora (da pressão inglesa) ou de dentro (da pressão emancipacionista e abolicionista),
encontravam nela forte oposição e só logravam êxito a duras penas (para com frequência serem
adulteradas; ou para serem postas em prática nos limites do “consentimento senhorial”). A expansão do
café ofereceu, assim, uma evidência ideal dessa “Idade de Ouro” da ordem escravocrata e senhorial.[15]
Ela mostra até onde se poderia ir, dentro e através da economia de plantação, no fortalecimento da
sociedade de castas e de estamentos. Contudo, é preciso não esquecer que, ao lado da política, havia
outros fatores que explicam esse extremo de vitalidade e de flexibilidade, atingidas por uma ordem
social que estava condenada e poderia ter desaparecido com a Independência, se esta fosse, de fato, uma
revolução nacional de cunho popular. O crescimento das economias urbanas e o mundo de negócios
criados pelo café, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, serviram de eixo a um engolfamento
do senhor em outras esferas da vida econômica. Em uma sociedade na qual o capital ou era importado ou
estava concentrado nas mãos dos que realizavam a expropriação do trabalho escravo e participavam
internamente do seu rateio social entre os estamentos privilegiados, o senhor era um dos principais
candidatos a se converter em “homem de negócios” de estilo moderno. Isso começa a acontecer nos fins
do século XVIII e ao largo de toda a fase de transição neocolonial. Mas o apogeu desse processo é
alcançado com a fase de formação do capitalismo competitivo dependente. Os efeitos desse engolfamento
direto ou indireto do senhor nas transações capitalistas nas grandes cidades, onde ocorria nossa peculiar
revolução urbana,[16] em nada melhorava a condição e o destino do escravo. Os reflexos imediatos
dessa conexão, na medida em que ela já é mais ou menos conhecida, indicam que os senhores se
empenharam, de fato, em prolongar ao máximo a duração da escravidão, não só para ganhar tempo para
poderem substituir o escravo pelo trabalhador livre,[17] mas, principalmente, para explorar da forma
mais intensa possível e no prazo possível o trabalho do escravo. Em certas regiões, por sua vez, os
senhores não tinham alternativa. Com o desaparecimento do modo de produção escravista, ver-se-iam
condenados a perder qualquer viabilidade como agentes ativos da economia de plantação.
A crise da ordem social escravocrata e senhorial constitui um processo de extinção histórica
prolongada de um sistema econômico, social e político. É um caso concreto que aparece, no nível
interpretativo, como uma demonstração típico-ideal de que as formações sociais não podem ir além e
sobreviver à forma de produção correspondente. Muito do “antigo regime” iria existir além dessa crise,
graças à articulação de estruturas arcaicas e modernas imperantes no padrão de desenvolvimento das
economias capitalistas da periferia. Não obstante, o elemento que condicionou a crise e a levou ao
colapso final foi a impossibilidade de renovar a força de trabalho escravo e de reproduzir o modo de
produção escravista. Por isso, embora o escravo e o liberto não tivessem um palco histórico no qual
pudessem atuar abertamente como agentes de uma “revolução contra a ordem”, no substrato da história
eles desempenharam essa função capital. Foi nos núcleos mais dinâmicos de expansão da economia de
plantação[18] que esse efeito seria sentido com maior rapidez e nele se apelou, de maneira mais
organizada e intensa, à imigração e à substituição do trabalho escravo, pelo trabalho livre. A pequena
lavoura e a economia de plantação de áreas de menor vitalidade de crescimento poderiam enfrentar essa
lenta agonia por mais tempo. Porém, tal solução esbarrava com os interesses econômicos dos fazendeiros
de café do Oeste paulista, cujas figuras de proa ocupavam o centro do “mundo dos negócios” e vários
tipos de papéis econômicos, que iam do comércio de exportação e de importação às atividades
bancárias, às especulações imobiliárias, com terras ou com os transportes, e aos empreendimentos
industriais.[19] O elemento competitivo e a acumulação originária de capital em moldes capitalistas já
haviam penetrado, aliás, de modo tão profundo a condição do senhor, que ele já era pura e simplesmente
o “fazendeiro”, uma “versão burguesa” do senhor colonial ou do barão do café de Minas Gerais e do
Vale do Paraíba.[20] Ao abandonar a exploração do trabalho escravo e a espoliação do excedente
econômico gerado pela produção escravista, o senhor, portanto, volta as costas para a sua antiga
condição histórica, largando a si mesmos — em uma demonstração de “negra ingratidão”,
indignadamente apostrofada por Nabuco — a ordem escravocrata e senhorial e o Império. O que
comporta uma reflexão melancólica. Enquanto os escravos “são postos no olho da rua”, largados a si
mesmos, “os ratos abandonam o navio”. Mas levam consigo tudo o que tinham, pois aderindo à
República os antigos senhores resolveram o “problema dos braços para a lavoura”, bem como salvam o
monopólio da terra e o poder oligárquico, impondo à revolução burguesa em ascensão os seus próprios
ritmos históricos arcaicos e o padrão mandonista que iria minar e destruir a ordem republicana.[21]
Há, também, outro “lado moderno” mais humano nessa crise da ordem escravocrata e senhorial. Ele
vem do conflito irredutível e irrefreável que se estabeleceu entre o trabalho livre e o trabalho escravo. A
conciliação entre as duas formas de trabalho poderia ser feita nas fazendas, especialmente à custa de
certos artifícios, que não podem ser relatados aqui (como deixar aos escravos as lavouras mais duras e
os trabalhos mais penosos, usar o trabalho escravo nas “tarefas pioneiras” etc.). Porém, mesmo nas
fazendas os imigrantes se mostraram menos dóceis que os trabalhadores brancos ou mestiços nacionais.
Criaram conflitos conhecidos e forçaram uma gradual eliminação do trabalho escravo, em um processo
que não ia contra o agente humano do trabalho escravo, mas contra o modo escravista de produção. Este
rebaixava o valor do trabalho, suscitava a persistência generalizada de padrões de dominação
intoleráveis e tendia a impedir que as relações de contrato, tão essenciais para a existência do “trabalho
livre” e para o aparecimento de um verdadeiro mercado de trabalho, se institucionalizassem nas zonas
rurais nas quais a economia de plantação sob o trabalho livre tendia a crescer de maneira acelerada. Em
poucas palavras, enquanto perdurasse, o modo de produção escravista convertia o “imigrante” e o
“trabalhador livre” em geral em substituto e equivalente do “escravo”. E isso tinha consequências mais
nocivas e incontornáveis nas fazendas de café e nas pequenas cidades do interior. No entanto, é nas
cidades grandes, cujo comércio prosperava segundo ritmos nunca vistos anteriormente e nas quais a
diferenciação do sistema de produção levava a uma industrialização de tendências permanentes, com
perspectivas de crescimento constante, que a oposição à escravidão era particularmente mais violenta.
Não se tratava mais de algo como o que ocorria nos meados do século XIX, quando a “opinião pública
esclarecida” mostrava sua indignação moral contra as brutalidades dos “maus senhores” ou dos “vícios”
que a escravidão introduzia numa “sociedade civilizada”. Tampouco se tratava das reflexões, que iriam
se tornar tão absorventes a partir do início do último quartel desse século, sobre “como preparar o
escravo para o trabalho livre”. O fim da década de 1870 e toda a década de 1880 abrange uma época de
agitação apaixonada contra a escravidão, na qual o movimento abolicionista se tornou intrinsecamente
revolucionário e se fixaram os parâmetros de que capitalismo e escravidão não podiam coexistir.
Membros ilustres de famílias aristocráticas, como Nabuco ou o célebre dr. Antônio Bento, davam as
mãos a todos os que pretendessem participar da desagregação do trabalho escravo. Este último,
inclusive, indo mesmo mais longe que Patrocínio, levou a agitação para as senzalas, combatendo o poder
senhorial dentro de seu próprio bastião. A mitologia da campanha abolicionista foi muito engrandecida
depois da Abolição. Ainda assim, de modo direto ou indireto, dela participaram todos os setores sociais
importantes, em cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo e outras, embora o testemunho insuspeito de
Antônio Bento deixe bem claro: “A abolição foi feita pela pobreza, com o maior sacrifício que é possível
imaginar-se”.[22] E, no ato final, também pelo escravo!
Essa correlação entre desenvolvimento capitalista e extinção da escravidão, como diria Durkheim, é
“normal”. O modo de produção escravista serviu para construir as fortunas das aristocracias agrárias da
Colônia e do Império. Em termos de formação e de expansão do capitalismo como uma realidade
histórica interna, ele preencheu as funções de fator de acumulação originária de capital. Quando esse
fator se tornou historicamente inoperante e, além disso, passou a ser substituído por formas de
acumulação de capital especificamente capitalistas, foi definitivamente condenado ao desaparecimento.
De um lado, ele contribuiu para o crescimento interno de um mercado capitalista e de formas de
produção capitalista. De outro, ao se constituírem, estes acabaram eliminando, no plano histórico e no
nível estrutural simultaneamente, o modo de produção escravista e, com ele, todas as suas
superestruturas, da dominação senhorial na esfera do domínio patrimonial ao Estado monárquico.
Portanto, a ordem escravocrata e senhorial foi destruída a partir de dentro, através de desenvolvimentos
capitalistas direta ou indiretamente engendrados pela economia de plantação escravista; e foi, ao mesmo
tempo, suplantada e substituída a partir de fora, pelos desenvolvimentos capitalistas que se irradiaram
da economia urbano-comercial para a sua periferia agrária. Trata-se de um circuito histórico bem
conhecido. Apenas, no Brasil, ele não se deu de maneira completa. Como o polo senhorial do regime
monárquico logrou converter-se no polo oligárquico do regime republicano, graças a certas condições
materiais e políticas que permitiram essa rotação histórica, ao desaparecer, o trabalho escravo deixou
atrás de si várias formas de trabalho semilivre e de trabalho escravo disfarçado que continuam a existir
até hoje, mesmo em economias de plantação tidas como “especificamente modernas”.
CAPÍTULO 2

25 ANOS DEPOIS:
O NEGRO NA ERA ATUAL[23]

O PROJETO DA PESQUISA sobre relações raciais foi publicado em 1951.[24] Escrito pelo autor deste
artigo, ele visava a estabelecer um consenso intelectual que nos permitisse, a mim e ao professor Roger
Bastide, entrar em acordo sobre os aspectos controvertidos da situação racial brasileira, apesar das
diferenças de pontos de vista que pudéssemos ter a respeito do assunto. Ao mesmo tempo, impunha-se
unificar, empírica e teoricamente, as técnicas e os métodos de observação, reconstrução e interpretação
da realidade, que devíamos explorar. Os dois objetivos foram alcançados de imediato, através de uma
discussão crítica que nos ofereceu a oportunidade de conhecermos melhor o pensamento um do outro.
Com pequenas retificações, o projeto passou a exprimir uma plataforma de trabalho comum, tornando-se
operacional tanto para as etapas de coleta e análise dos dados, quanto para a etapa mais complexa de
descrição e explicação dos processos de interação racial na cidade de São Paulo.
A pesquisa constituiu um êxito patente, apesar da severa limitação de recursos com que nos
defrontamos. Na história da pesquisa sociológica no Brasil, ela aparece como a primeira tentativa de
certo vulto de trabalho cooperativo[25] e de utilização da pesquisa empírica sistemática como “técnica
de consciência social” dos dilemas históricos da sociedade brasileira. Ela deu origem a vários estudos
importantes;[26] e encontrou ampla confirmação por outras pesquisas, que estavam sendo feitas na
mesma ocasião[27] ou que foram encetadas posteriormente, graças à sua influência.[28] Procuramos
buscar a colaboração direta e crítica dos sujeitos da investigação, especialmente do negro e do mulato,
cujos sentimentos, atitudes e orientações de comportamento eram mal conhecidos. A colaboração do
negro e do mulato foi maciça: nos seminários contávamos com uma afluência média de 130 ou 150
pessoas. Nessa massa, selecionamos intelectuais negros, para entrevistas em grupo focalizadas;
mulheres com maior consciência do “problema negro”, para seminários e entrevistas focalizadas; e
sujeitos para história de vida e entrevistas formais ou informais, de caráter pessoal. A colaboração do
branco se deu através da assistência de um grande número de estudantes de sociologia da Universidade
de São Paulo, de assistentes e auxiliares de ensino da cadeira de Sociologia I, e de pessoas que
ocupavam posições-chaves em diversos tipos de instituições, através das quais as “linhas de cor”
definiam sua vitalidade e funções, selecionadas para entrevistas formais e informais. Embora os
documentos pessoais constituíssem um dos eixos da investigação, as reuniões mensais representavam
uma técnica de observação em massa e os seminários com intelectuais ou mulheres abriam perspectivas à
análise de atitudes e comportamentos em pequenos grupos. É certo que não se tratava de entidades
sociais espontâneas, pois se formavam sob a motivação da pesquisa. Contudo, através da observação
direta procuramos colher materiais sobre as situações concretas de vida e de interação racial. Na medida
do necessário, tais dados foram complementados por informações censitárias e tratamento estatístico
descritivo de entrevistas focalizadas sobre aspirações e perfis de carreiras. De outro lado, para evitar o
obscurecimento das explicações que nascem da ignorância do passado, fizemos um amplo esforço de
sondagem histórica, para acompanhar a posição do negro e do mulato na evolução da economia e da
sociedade paulistanas, do século XVI à década de 1940 ou 1950 do século XX. Na verdade, a cidade de
São Paulo possui certas peculiaridades, algumas históricas (no período colonial, ela foi durante muito
tempo o que chamaríamos de uma “região subdesenvolvida” e permaneceu nessa condição até ao surto
cafeeiro), outras econômicas e étnicas (ela se tornou o eixo da revolução urbano-comercial e industrial
no Brasil, ao mesmo tempo em que se convertia no maior centro de concentração de imigrantes
estrangeiros), e outras propriamente sociais (a cidade se transformou em cidade regional e logo em
seguida em cidade metropolitana de modo rápido e acelerado). Por isso, o que se passou na cidade de
São Paulo, em termos de concentração, irradiação e aceleração da revolução burguesa, só iria se repetir
em outras cidades brasileiras posteriormente e com frequência através da satelização do
desenvolvimento socioeconômico brasileiro pelo eixo Rio de Janeiro-São Paulo. Em outras palavras, a
cidade de São Paulo viveu todo um processo histórico que se desencadeou no resto do Brasil sob a sua
hegemonia e como uma maturação “tardia”. Cumpria verificar se essa explosão histórica incluía o ex-
agente do trabalho escravo e se as novas estruturas econômicas, sociais e políticas destruíam o antigo
regime na esfera das relações raciais. O próprio “elemento negro” tentou tomar pé nesses processos,
através de movimentos de protesto e de crítica raciais (especialmente nas décadas de 1930 e de 1940), o
que exigia um desdobramento na observação e na análise sociológicas da contraideologia racial
elaborada no seio do “meio negro” (o que fizemos por meio de entrevistas, histórias de vida e do estudo
da documentação escrita, principalmente dos jornais negros). Sabíamos que nem tudo que iríamos
descrever ou descobrir se daria da mesma maneira em outras localidades brasileiras. Como não
incluímos essa convicção no planejamento da pesquisa, deixamos de lado suas consequências teóricas
(pois não dispúnhamos de recursos para ir além, procurando comparações com outras situações,
contrastantes ou similares). De qualquer modo, essa convicção nos impediu de generalizar de forma
afoita e foi com prazer que vimos surgir os primeiros tateios de reflexões voltados para a comparação.
[29] Mas, se se trata da cidade de São Paulo apenas, isso não quer dizer que o que se passava aí não
repetia algo mais ou menos geral (quanto à sociedade escravista) e que tende a acontecer em outras
partes da sociedade brasileira de nossos dias (nas condições imperantes de transição para a economia
urbano-industrial e para o capitalismo monopolista).
Hesitamos muito quanto à categoria descritiva privilegiada. Preferimos empregar os conceitos de
branco, negro e mulato entre aspas, para indicar os percalços de uma flutuação que não pode ser
efetivamente controlada pelos investigadores. Na época, apenas o conceito de meio negro foi explorado
com intenções inclusivas e totalizadoras. Não nos propúnhamos a estudar só os negros nem procuramos
descobrir em que a condição do mulato poderia ser peculiar (em face do “branco” e do “negro”). De
fato, ao descrevermos o que podíamos observar através das duas categorias, postas lado a lado,
estávamos tentando unificar as experiências e as orientações de comportamento do negro e do mulato.
Não nos atrevemos a fundir as observações numa mesma categoria, por respeito às ambiguidades da
situação e das patentes diferenças entre os dois agentes humanos. Apesar de nossas intenções
relativizadoras e unificativas, recebemos críticas especialmente dos ativistas do meio negro, que são
visceralmente contra todas as distinções e repelem, por igual, expressões como “elemento de cor”,
“pessoa de cor” etc., e palavras como “preto”, “mulato claro”, “mulato escuro” etc. Para eles, todos os
elementos que não são fenotipicamente brancos, são negros e a palavra negro surge, portanto, como um
símbolo de identidade psicológica e racial. Essa inclinação se fortaleceu ainda mais nos últimos anos,
como pudemos descobrir em um debate recente.[30] Os negros e mulatos que não são “racialmente
conscientes”, porém, mantêm as antigas descrições, que revelam, profundamente, categorias e critérios
perceptivos construídos pelo “branco” no passado. De qualquer forma, a nossa pesquisa ficou com duas
limitações. Se ela é totalizadora, ela não chega a operar com uma única categoria integrativa e exclusiva,
como pretendem os principais representantes das várias correntes do radicalismo e do ativismo afro-
brasileiro. Se ela é relativizadora, ela não separa o “negro” do “mulato”: se os distingue, o faz para
projetá-los no que possuem e sofrem em comum, o que desperta a crítica dos brancos que se identificam
com a ideologia da “democracia racial” e suscita reserva nos especialistas que se interessam mais pelo
que é peculiar à “condição do mulato”.[31] Todavia, não se pode fazer tudo de uma vez. A nossa
pesquisa não era isenta de valores — pois víamos nela uma contribuição à crítica objetiva a uma
situação histórica de preconceito e discriminação camuflada; e aceitávamos, abertamente, uma
identificação moral e política com o negro, como condição intelectual para que nossa contribuição se
inserisse no processo de criação de uma verdadeira democracia racial —, mas por mais que
pretendêssemos nos superar, tivemos de cair nas malhas do conhecimento científico circunscrito e
especializado. Dependemos de outras investigações, e particularmente de investigações que sejam feitas
por negros, para chegarmos a um conhecimento mais completo e inclusivo e, ao mesmo tempo,
suficientemente diferenciador.
Depois de 25 anos, em termos de datas-limites, o assunto que se coloca é claro. As transformações
recentes da cidade de São Paulo, tão profundas no nível da economia, da sociedade e da cultura, afetaram
radicalmente o quadro que nos foi dado observar e descrever? Aquele quadro ainda faz parte da
“realidade quotidiana” ou foi pulverizado? A questão, como indicamos em nossas hipóteses de trabalho,
é que o Brasil se transforma rapidamente mas, ao mesmo tempo, nem todas as suas estruturas entram em
jogo e fazem parte da história em processo. A desigualdade racial permanece um fato inquestionável.
Nem poderia ser diferente. O fracasso dos movimentos de protesto negro redundou na ausência do negro
na luta por seu destino na cena histórica. As alterações que ocorreram não revelam menos a presença do
negro na economia, na sociedade e na cultura. Porém como parte dos processos globais e dos dividendos
indiretos. A história seria diferente se aqueles movimentos tivessem persistido, se ampliado e
aperfeiçoado; aí, os principais interessados estariam lutando pela democracia racial e com toda a
probabilidade sua pressão sobre a desigualdade racial seria diversa. As notas que se seguem, sem
pretenderem ultrapassar o caráter de uma sondagem muito tosca e impressionista, retêm as imagens da
situação atual, do ângulo do negro e do mulato que participam de uma visão inconformista do “problema
racial”.[32] Eis os três pontos que comportam uma exposição de relativa consistência: 1º) o
aproveitamento crítico dos resultados da pesquisa (naturalmente, pelos setores mais ou menos ativistas
do meio negro; mas, também, pelo branco, onde isso se mostra sintomático); 2º) por que as
transformações recentes da sociedade brasileira não engendraram qualquer alteração profunda da
desigualdade racial nem de um tipo mais atuante, organizado e conflitante de inconformismo racial; 3º) os
aspectos nos quais são patentes transformações significativas do quadro de contato racial descrito
inicialmente (e válido para a década de 1950).
O AMADURECIMENTO DA CONSCIÊNCIA CRÍTICA

DESDE SUAS ORIGENS, a sociologia se constitui como uma “técnica de consciência social”, orientada para
a percepção e a explicação críticas do presente,[33] esfera na qual deveria ligar “o estado atual das
coisas” às transformações históricas em processo.[34] Essa função obliterou-se nos países em que a
profissionalização institucional dissociou a pesquisa sociológica dos grandes debates coletivos e isolou
os sociólogos dos movimentos sociais inconformistas.[35] Não é esse o caso no Brasil, apesar do caráter
repressivo do controle da investigação científica e do comportamento antidemocrático das elites
econômicas, culturais e políticas. Os intelectuais brasileiros mais ou menos atuantes continuam a formar
uma intelligentsia funcional para os grandes debates coletivos e para as transformações históricas em
processo, desempenhando papéis construtivos pelo menos quanto à verbalização e à difusão de várias
formas de inconformismo e de radicalismo. A própria opressão institucional faz com que essa
funcionalidade não desapareça, mesmo em condições de extrema repressão do “intelectual crítico” e da
“sociologia militante”. Na medida em que os vários grupos e classes sociais não possuem meios próprios
de autoconsciência e de autoexplicação das condições adversas do ambiente, eles têm de voltar-se para
os “intelectuais críticos”, em geral, e para a “sociologia militante”, em particular, na busca de uma visão
inconformista articulada, no que concerne seja ao radicalismo burguês, seja à contracultura e ao
socialismo revolucionário.
Essa conexão, condenada pelo pensamento conservador e temida pelos “intelectuais acomodados”,
beneficiou amplamente a avaliação positiva e a divulgação extracientífica dos resultados da pesquisa
Bastide-Fernandes. Embora um aproveitamento prático realmente eficiente não tenha ocorrido, mesmo
nos setores iletrados do meio negro ela teve um impacto inesperado. A ausência de racismo institucional,
por sua vez, contribuiu para que esses resultados: 1º) recebessem acolhida muito favorável por parte dos
radicais e ativistas negros, que viram neles um prolongamento e um aprofundamento das tentativas de
desmascaramento racial encetadas pelos principais mentores do “protesto negro” nas décadas de 1930 e
de 1940; 2º) fossem aceitos com simpatia e incorporados pelo branco inconformista, de personalidade
democrática e identificado com a mudança de mentalidade ou de costumes. Não obstante, tanto no meio
negro quanto no meio branco, foi nos setores abertamente radicais que o interesse pela contribuição
empírica e teórica da pesquisa alcançou maior intensidade e consistência. É que a avaliação produtiva e
o aproveitamento construtivo dos resultados da pesquisa exigiam um nível de secularização de atitudes e
comportamentos que não são comuns ou frequentes em uma sociedade de classes em formação; e a
incorporação de certas explicações ao horizonte intelectual médio exigia uma ruptura prévia com as
concepções conservadoras e tradicionalistas dominantes, pelo menos na esfera da ideologia racial. Por
isso, embora não sejam conhecidos contrastes relevantes a respeito, o meio negro revelou uma
sensibilidade maior às “verdades reveladas” ou “comprovadas”. De José Correia Leite, Raul Joviano do
Amaral, Fernando Goes, Oswaldo de Camargo, a S. Rodrigues Alves, José Pelegrini e Abdias do
Nascimento — sem enumerar todos os veteranos “mais conspícuos” e os jovens “mais promissores” —
partiram as avaliações reativas mais entusiásticas e apologéticas, que adquiriram, na prática, o
significado de um rito de adoção.[36] Através daquela pesquisa, portanto, a sociologia não só se
incorporou ao desmascaramento do mito da democracia racial — ela se inseriu, também, na confusa
situação presente e nos anseios daqueles que procuram redefinir o protesto negro em busca de “um
mundo melhor para os negros”, de uma “verdadeira confraternização racial” e de “igualdade sem
hipocrisia”.
Em um primeiro nível, a pesquisa Bastide-Fernandes não só “confirmou” os diagnósticos da situação
racial brasileira, que serviam de base à contraideologia e à contrautopia elaboradas através dos
movimentos sociais que abalaram o meio negro em São Paulo nas décadas de 1930 e 1940. Ela pôs em
evidência a dignidade histórica desses movimentos, que surgem atualmente, na verdade, como as únicas
manifestações autênticas e autônomas de populismo, ocorridas no passado recente. O protesto negro
falhou, por motivos intrínsecos e em virtude da falta de ressonância no mundo dominante dos brancos.
Mas, a sua herança intelectual e política, ignorada antes daquela pesquisa, ficou delimitada e
reconhecida, transcendendo aos limites em que ficou contida durante a sua eclosão e evolução. Em um
segundo nível, a pesquisa Bastide-Fernandes foi mais longe e penetrou mais fundo — como tinha, aliás,
de acontecer — tanto nas ambivalências e nas debilidades do protesto negro, quanto na miséria racial de
uma sociedade que se pretende democrática embora mantenha, indiferente, estruturas raciais herdadas do
passado colonial e escravista. O protesto negro estava condenado a morrer nas fronteiras do meio negro,
pois ele não podia debilitar os padrões existentes de dominação e de desigualdade raciais permanecendo
no âmbito institucional da ordem republicana. De outro lado, as estruturas raciais da sociedade brasileira
só poderão ser ameaçadas e destruídas quando a “massa de homens de cor”, ou seja, todo o elemento
negro, puder usar o conflito institucionalmente em condições de igualdade com o branco e sem nenhuma
discriminação de qualquer espécie, o que implicaria participação racial igualitária nas estruturas de
poder da comunidade política nacional. Os intelectuais negros revelaram um singular tropismo positivo
pelos resultados da pesquisa nos dois níveis mencionados: eles não se puseram em defesa estreita de
suas posições anteriores nem dos diagnósticos implícitos ou explícitos. Avançaram até onde conseguimos
chegar, levando com eles seus seguidores mais ou menos letrados e até iletrados, que não teriam
condições culturais para entender e aceitar as contribuições da sociologia crítica. Analistas apressados e
superficiais, especialmente quando tomam como ponto de referência a natureza do protesto negro nos
Estados Unidos da atualidade, veriam nessa evolução mais uma evidência da passividade do negro
brasileiro e de sua propensão a imitar o branco. Mas, tal apreciação seria malévola e inconsistente. Eles
perceberam muito bem em que plano se davam as convergências e as superações, e aonde o sociólogo
não pode chegar — e a sua tarefa especificamente anticonformista e de rebelião dos costumes precisa se
manter ou se renovar. Incorporaram as várias combinações que se podem fazer sociologicamente entre
“classe” e “raça”; e com isso lograram uma nova perspectiva prática para entender melhor as
inconsistências institucionais da propalada democracia racial e para conceber melhor a “Segunda
Abolição”, que não lograram desencadear como pretendiam.
É óbvio que o amadurecimento da consciência crítica, no meio negro, não caminhou unilateralmente e
em uma direção dominante. Os mesmos motivos que explicam o fracasso relativo e o impasse final dos
movimentos de protesto,[37] também explicam, ainda hoje, a pulverização da crítica reativa na
atualidade. Não se trata, apenas, do desnível socioeconômico, cultural e político do negro em face do
branco. O padrão brasileiro de dominação racial engendrou uma ambivalência inexorável no meio negro
— e esta não pode ser combatida e extirpada sem a eliminação prévia daquele. Isso quer dizer que,
enquanto o negro não romper com a visão mistificadora da realidade racial, dispondo-se a colocar o
branco no centro de um antagonismo que deve ser, inevitavelmente, de “classe” e de “raça”, ele será
vítima de várias confusões morais e da incapacidade de lutar, de fato, por posições coletivas nas
estruturas de poder. Os movimentos da década de 1930 e de 1940 atestam essa conclusão: até ao negar a
ordem, se não for ao fundo das coisas e da combinação brasileira de “classe” e “raça”, ele acabará
favorecendo, de um ou de outro modo, as ideologias e as formas de hegemonia de raça dominante. Aliás,
o mesmo raciocínio se aplica ao meio branco, mas por motivos inversos. O esforço de desmascaramento
e de superação da situação racial existente não pode partir do branco, por “inconformista”, “radical” ou
“revolucionário” que ele seja. O seu inconformismo, radicalismo ou revolucionarismo de classe só
parcial e incompletamente poderiam conter os componentes mais explosivos da igualdade racial. No
conjunto, por paradoxal que pareça, as reações positivas aos resultados da pesquisa refletem, de um lado
e de outro, impossibilidades crônicas e conjunturais. Por fim, cumpre mencionar que o negro encontrou
um ponto de apoio inesperado, que traz consigo mais que “uma confirmação pelo branco”, o prestígio da
ciência. Talvez tal avaliação traduza uma superestimação da pesquisa sociológica e do papel intelectual
do sociólogo. Não importa. Um limite é demarcado e transposto — e isso é o principal. O branco, por
sua vez, se for identificado com orientações verdadeiramente democráticas (quanto à organização da
personalidade, à concepção do mundo e à convivência inter-racial), descobre como alargar o âmbito de
seu ataque aos costumes anacrônicos e às sequelas raciais da escravidão. Para ele, será sempre uma
surpresa verificar que o próprio negro se antecipou às descrições sociológicas; mas a sociologia lhe
oferece uma oportunidade para transcender à ideologia racial dominante, já que seu critério de verdade
passa pelos fatos (não pela contraideologia do negro). O que significa que é através da crítica
sociológica da situação que o branco pode, mais facilmente, entender o protesto negro e apoiá-lo de
modo prático, indo da simpatia ocasional para a rejeição global. Contudo, nem o branco nem o negro
chegaram ao chamado “terreno da ação” à luz dos conhecimentos novos. Seu aproveitamento dos
resultados da pesquisa ficaram contidos em um limite prévio, a meio caminho entre a negação de uma
ordem social que dissimula seus fundamentos raciais e a vontade de alterar de alto a baixo as estruturas
raciais da sociedade brasileira. Em consequência, nem os conflitos de classe estimulam o
encaminhamento da crise racial, nem os conflitos de raça ajudam a configurar a revolução com base na
classe. Nesse ponto, a crítica sociológica foi mais longe e sua contribuição potencial continua
inexplorada.
Feito esse balanço geral convém indicar certas retificações evidentes. Muitas “atitudes esclarecidas”,
que apareceram simultaneamente entre negros e entre brancos, nada têm a ver com os resultados da
pesquisa e sua absorção pelo horizonte cultural médio. Ao contrário, elas foram induzidas pela alteração
dos estilos de vida e das mentalidades dos dois estoques raciais em presença. A industrialização maciça
e a convulsão metropolitana, a esse respeito, secretaram atitudes, padrões de comportamento e valores
que expõem a ordem racial herdada do passado ao que se poderia designar como o início da crise final.
No entanto, mesmo estabelecendo-se esse confronto e aceitando-se suas consequências, não ficam
comprometidos os efeitos úteis da pesquisa e dos seus resultados (os que podemos avaliar
sociologicamente; e os que resultam da elaboração histórica descrita acima). Pois eles não só reforçaram
propensões críticas preexistentes e ajudaram a criar outras novas. Também incluíram, de modo definido e
aparentemente durador, o dever de estar informado sobre a natureza e os efeitos nocivos do “preconceito
de cor” no ideal de personalidade do negro educado e esclarecido. A corrente nova, de negros e brancos
que ostentam atitudes raciais divergentes, autenticamente democráticas e igualitárias, encontra uma base
perceptiva e explicativa para a sua atuação racional e, ao servir de contrapeso às pressões
conservantistas, amplia o público aberto à “sociologia crítica e militante”. Hoje já não se poderia mais
pensar em “combate ao preconceito de cor” ou cogitar de medidas práticas de “controle do preconceito e
da discriminação raciais” sem pôr em primeiro plano a contribuição da sociologia e a colaboração dos
sociólogos. Ainda não se constituíram os meios institucionais que poderiam fazer o enlace da pesquisa
sociológica com as impulsões inconformistas e inovadoras do comportamento coletivo divergente. As
necessidades desse enlace existem e impõem ao negro inconformista um novo ponto de partida, que o
obriga a ser mais realista e, ao mesmo tempo, mais difícil de satisfazer. Em função do nível crítico da
percepção sociológica, a negação da ordem se abre simultaneamente para a “classe”, a “raça” e os seus
entrelaçamentos visíveis ou invisíveis. O que quer dizer que saltamos do ideal inconcretizável da
“Segunda Abolição” para a ideia da revolução de baixo para cima: o negro aí aparecendo como o Povo
que se torna agente da história.
O INCONFORMISMO INÓCUO

O PROJETO DE PESQUISA de 1951 insistia no conceito de “capitulação passiva”. Então, conhecíamos mal o
protesto negro, sua contraideologia racial e os ideais que orientaram as lutas pela frustrada “Segunda
Abolição”. Hoje, o conceito que merece preeminência é o reverso de inconformismo inócuo. Esse
conceito representa a imagem invertida daquilo que se entende, no meio negro, como “o complexo”. Todo
negro, quer ele caiba na categoria do “negro tradicional”, que transige com as expectativas do branco, de
acomodação espontaneamente passiva; quer ele seja o que os próprios negros designam como o “negro
trânsfuga”, que “foge ao problema” e, com cálculo ou sem ele, “sufoca o seu orgulho”, em troca de
compensações elementares e com frequência fugazes; quer ele corresponda ao que caracterizamos como
o “novo negro”,[38] firmemente disposto a competir e até a aceitar o conflito pessoal com o branco “para
subir socialmente”; quer ele corresponda ao que os brancos entendem como “negro racista”, pronto para
repelir o padrão de dominação racial assimétrica, a ideologia racial correspondente e as estigmatizações
resultantes, e para colocar no seu lugar a “beleza do negro”, com sua “superioridade biológica” e sua
“supremacia intelectual” e com um ideal retaliador de igualdade das raças e da democracia racial, mais
afro-brasileiro que “negro brasileiro” — enfim, todo negro, nessa variedade de tipos, quando se põe
diante do branco, revela alguma forma de inconformismo, por mais oculto e tosco que ele seja (embora,
nas áreas de tensão, de competição e de conflito, o inconformismo transpareça claramente, como o falo
ereto desproporcional, pintado por Abdias do Nascimento). Na verdade, “o complexo” trabalha em
várias direções opostas e contraditórias.
Da capitulação passiva à rebeldia ativa, com passagens pela “traição franca” diante dos “irmãos de
raça” e pelo comportamento estritamente racional com relação a fins ou a valores. Todavia, se se leva a
análise ao que é mais profundo e, em regra, parcial ou totalmente inconsciente, “o complexo” sempre
implica uma anuência tácita que é uma acusação, uma “alienação” que é uma “esperteza contra o branco”
ou, nos dois níveis mais complicados, a resistência calculista e a rebelião declarada, pelas quais se
inverte e se dá combate ao tradicionalismo nas relações raciais. Portanto, as mesmas reações que
engendram “o complexo” produzem o inconformismo (embora a elaboração psicológica e cultural deste
dependa do tipo de personalidade e das condições externas da situação social do sujeito e de sua
interação com os brancos). A base estrutural do comportamento racial do negro está intrinsecamente
mesclada a componentes psicodinâmicos e sociodinâmicos que negam o que ele “precisa” e “deve ser”
em termos das expectativas do branco e do padrão assimétrico de acomodação racial. Por aí se desenha
uma dialética das relações raciais que faz com que, por detrás do “complexo”, que inferioriza e
subalterniza o negro psicológica, cultural e socialmente, exista uma compensação, por vezes meramente
simbólica ou simplesmente subjetiva, pela qual o negro procura definir-se e afirmar-se como pessoa,
tentando impor a sua própria realidade moral, de modo discreto e dissimulado ou de modo agressivo e
retaliador. A lógica contestatória só aparece quando essa negação implícita ou explícita rejeita o mundo
dos brancos e o lugar nele destinado ao negro.
Estamos, pois, diante de um inconformismo básico, que assume várias formas e, com frequência, ilude
o próprio negro. Ele possui uma natureza larvar em nível de comportamento e de ajustamento raciais do
“negro tradicional”; já quando se trata do “negro trânsfuga”, o inconformismo surge “envenenado”, como
a maçã na história da Branca de Neve, pois a relação desse tipo de negro com o mundo dos brancos é
perversa e pervertida; o “novo negro” comporta ambiguidades, mas são ambiguidades que rendem juros e
o colocam na espiral do êxito, em detrimento do branco, de sua vontade e de seu ímpeto de dominação
dos outros; mas, se ele corrói a tendência à subalternização do negro, ele não se bate frontalmente contra
ela; o que faz o “negro racista”, que deixa de racionalizar o inconformismo, apresentando-o na forma
mais límpida de uma contestação da ordem racial e da posição subalterna do negro dentro dela. A
gradação implica um radicalismo progressivo, pelo qual o negro, de fato, elabora culturalmente “o
complexo”, projetando-o contra o branco, a sua dominação racial e as iniquidades especificamente
raciais da sociedade de classes, herdadas do passado ou não. Esse é um ponto que precisa ser retido com
cuidado. Nas análises iniciais, ficamos muito rente aos dados e mesmo nas descrições dos movimentos
de protesto negligenciamos esse explosivo componente psicodinâmico, com as várias elaborações
sociocuIturais que ele comporta. As insatisfações intrínsecas ao “complexo”, que são externamente
materiais e sociais, possuem um reverso psicológico e moral, que metamorfoseia a necessidade de ser
uma pessoa em uma incompatibilidade diante da ordem racial existente. Se essa incompatibilidade pode
ser absorvida onde o padrão de relação racial assimétrica se impõe por anuência tácita ou malícia, o
mesmo não pode suceder no nível de comportamentos raciais racionais com relação a fins e a valores.
Aí, a elaboração final é ou uma “má consciência” diante de uma ordem racial irremediavelmente
“injusta” diante do negro, eximindo-o de compromissos morais sólidos, ou a “denúncia” pura e simples,
de contraposição e radicalismo sistemático. Ora, os dois tipos de negro que estão nos limites de tais
orientações de comportamento e de ajustamento inter-racial são também os negros que podem manipular
suas insatisfações e seu radicalismo na arena histórica. Por pequeno que seja o espaço social que tenham
para preencher tais papéis, eles sentem a disposição de fazê-lo e são coagidos “a entrar na torrente”, por
motivos psicossociais egoísticos ou por alvos coletivos mais ou menos altruístas.
A questão é que a sociedade brasileira não se abre para quaisquer dessas elaborações do
inconformismo, do larvar ao radicalismo sistemático. Ele tem de ser sufocado dentro do meio negro (ou,
o que é pior, como “drama de consciência”, pela própria personalidade que o secrete). A sociedade
permanece fechada a essas impulsões de humanidade do negro, pois o uso aberto da tensão e do conflito
continua a ser um privilégio dos estratos sociais dominantes da “raça dominante”. Apesar de todas as
transformações ocorridas, nessa esfera há pouca diferença entre o presente, o passado recente e o
passado remoto; a escravidão desapareceu, porém subsiste um mandonismo estreito, que converte a
dominação de classe em equivalente da dominação estamental e de casta. Para que as coisas fossem
diferentes, teria sido necessário que a revolução burguesa fosse, ao mesmo tempo, aberta às pressões
populares, democrática e nacionalista;[39] e, de outro lado, que o próprio negro tivesse criado, depois
da Abolição e, principalmente, da “Revolução de 30”, legitimidade para o protesto racial (tido pelas
camadas conservadoras como o pior tipo de protesto, depois do conflito operário) — o que,
sabidamente, não ocorreu, pois a população negra nunca reuniu condições para levar a democratização
da ordem mais longe que as classes operárias e o radicalismo burguês.[40] Tudo isso significa que o
inconformismo negro pode ser uma realidade psicológica, cultural e moral, mas não pode tornar-se uma
força social atuante e uma realidade política. Em uma sociedade de classes que preserva um padrão de
elitismo típico da dominação estamental, o conflito potencial de raça não tem como eclodir na cena
histórica. No passado, ele era expurgado da ordem legal e fortemente reprimido, como uma “ameaça às
instituições e à civilização”. No presente, ele é deliberadamente confundido com o conflito de classe ou
com a “subversão comunista da ordem” — e exposto à solução policial. Só o branco poderia manipular
esse tipo de tensão, e o branco no caso vem a ser o branco das elites das classes dominantes, pouco
interessado em levar a democratização das estruturas econômicas, sociais e políticas aos “porões da
sociedade”. Assim como ele monopoliza as decisões sobre as mudanças que devem ser implementadas,
ele também seleciona e monopoliza as tensões que devem ser incrementadas.[41] Essas tensões não
passam pela revolução democrática da ordem, mas por sua consolidação e perpetuação como ela está,
uma ordem social que é de classes para as elites e para as classes dominantes, porém que é
semiestamental ou estamental para as classes operárias e o Povo em geral. Em consequência, poderíamos
concluir que, se a questão racial não é literalmente uma questão de polícia, isso se dá porque o próprio
negro não pode fomentar, material e politicamente, uma séria questão racial. A estrutura da sociedade
está preparada para reprimir qualquer pressão racial que se volte para a democratização da ordem social
(e, implicitamente, da ordem racial que ela absorve e retrata): a Abolição não aumentou em nada as
probabilidades de participação econômica, social, cultural e política do “elemento negro”. Ela foi uma
revolução do branco para o branco e, nesses limites, manteve intacto o padrão assimétrico de relação
racial e as desigualdades raciais, institucionalizadas ou não.[42] A única tentativa do negro para alterar
essa situação histórica, através dos movimentos de protesto das décadas de 1930 e de 1940, malograram.
O que quer dizer que a “ordem democrática” existente não é democrática para todos. E ela não é nada
democrática para o negro em geral, perdido no seio das populações mais ou menos pobres e
sistematicamente marginalizadas das estruturas de poder.
Os processos de “formação do Brasil moderno” sofreram uma profunda deflexão nos últimos trinta
anos. O desenvolvimento foi ampla e profundamente condicionado e dirigido do exterior, embora seu
patamar interno fossem as potencialidades de uma economia capitalista periférica dotada de um vasto
mercado interno e rica de matérias-primas ou produtos exportáveis. Esses dois polos dinâmicos
condicionaram uma forma de revolução capitalista especial, que conjuga três elos de decisão: as classes
burguesas “nacionais”, a comunidade “internacional” de negócios e o Estado brasileiro. Essa modalidade
de revolução capitalista forçou as elites das classes burguesas, privadamente e através do Estado, a
adotar formas de dominação econômica, sociocultural e política especificamente autocráticas e
ultraconservadoras. Em consequência, o movimento que em certos países da Europa e nos Estados
Unidos gerou uma ordem burguesa aberta e democrática, no Brasil produziu uma ordem burguesa fechada
e autocrática. O despotismo inerente à dominação burguesa se adaptou à forma possível de acumulação
capitalista, gerando um elitismo dotado de todos os recursos da modernização, inclusive de forte
concentração do poder político estatal. Com isso, os antigos e novos privilégios puderam ser defendidos
ao longo de várias fases sucessivas de transformação urbana e de transição industrial. As classes
dominantes lograram, assim, bloquear a pressão popular e manter, ao lado da concentração do poder
político, uma concentração paralela da riqueza e do prestígio social. Embora a massa de operários
aumentasse em número, de modo constante, e as migrações internas incrementassem sem cessar as
populações urbanas, a riqueza e o poder ficaram concentrados no tope (mais ao nível dos 1%, 5% e 10%
de maior renda e de melhores probabilidades de participação cultural, ainda que a faixa dos 30% de
maior renda tenha recebido, em grosso, compensações relativamente satisfatórias).
Esbatido sobre esse contexto histórico, o populismo se diluiu,[43] pois nenhuma modalidade de
demagogia burguesa e de radicalismo elitista poderia servir de enlace entre as classes privilegiadas e as
massas populares. Para se autodefender e se autoprivilegiar as classes burguesas precisaram amparar-se
em seus setores armados e tecnocráticos, utilizando o aparato estatal para comprimir a ordem legal e
restringir as garantias civis. Em tal clima, mesmo a liberdade das elites e das classes dominantes sofreu
uma drástica compressão. As massas populares, nas quais está inserida a maioria da população negra e
mestiça, ficaram reduzidas ao silêncio e à inatividade. Foram neutralizadas politicamente, embora
possam participar culturalmente do desenvolvimento socioeconômico e ritualmente do “processo
político”. O sentido desse duplo movimento contrastante precisa ser retido com cuidadosa atenção. Ao
ápice da revolução capitalista corresponde uma marginalização maciça do grosso da população,
convertida em uma maioria silenciosa dócil e intimidada. A chamada capacidade de negociação ou de
barganha das massas populares e das classes trabalhadoras foi reduzida a zero. O precário intercâmbio
com a plebe, consentido sob a demagogia populista, desapareceu e com ele o reduzido espaço político
que articulava o “diálogo” das massas com o despotismo conservador das classes dominantes.[44]
A elevação da “consciência crítica” do negro desemboca, portanto, em um vazio histórico. Ao
contrário do que se esperava, os movimentos de protesto das décadas de 1930 e de 1940 — silenciados
sob e pelo Estado Novo —, em vez de abrirem, encerram um ciclo histórico. Eles constituem a última
manifestação da luta contra os vestígios do “antigo regime”, tão nocivos para o negro e para as
populações destituídas em geral. No novo contexto histórico (pelo menos enquanto durar o regime de
despotismo instaurado pela autocracia burguesa), movimentos dessa espécie são impossíveis. Os
processos em curso favorecem o tipo de personalidade do “novo negro”, mas as condições imperantes
não são de molde a favorecer igualmente a prosperidade paralela de uma “burguesia negra” e de um
“capitalismo negro”, como aconteceu nos Estados Unidos e na África do Sul.[45] A “tolerância sob forte
desigualdade racial” restringe severamente o campo de oportunidades e regula o movimento de ascensão
econômica e social pelo modelo de infiltração, como se fosse um conta-gotas. O próprio negro acaba
rompendo os obstáculos identificando-se com os interesses e os valores dos estratos sociais dominantes
e de suas elites, aspirando a um elitismo precoce e deformador, que o separa irremediavelmente da
massa negra e de seus problemas. Por conseguinte, o único inconformismo que quebra as barreiras
históricas se transforma, no terrível processo de ascensão econômica, social e cultural do negro, em um
elemento de manipulação do negro pelo branco e pela ordem estabelecida. Apesar de tudo que tem de
importante esse processo, em termos da relação do negro com a sociedade brasileira e sua
transformação, ele resulta em uma reserva de tensões para o futuro mais ou menos remoto. De imediato, o
“novo negro” está enredado com o seu êxito pessoal, familiar e social, dentro do mundo fechado e elitista
em que pode viver. Ele não se dispõe a dinamizar as suas potencialidades de negação da ordem em
uma.perspectiva mais ampla e mais drástica, pois, se fizesse isso, correria o risco de sair do circuito e
não chegar ao tope permitido. O inconformismo aberto e radical, por sua vez, está banido
“institucionalmente” da ordem legal. O “negro racista” vê-se, portanto, condenado à impotência. Como o
“negro tradicional” e o “negro trânsfuga”, mas por outras razões, é compelido a “engolir sua vergonha”.
A frustração racial não dispõe de canais sociais, institucionalizados ou espontâneos, para achar a luz do
dia. Ela é comprimida para dentro das pessoas e armazenada no meio negro. Se isso será ou não útil no
futuro, é uma questão para as indagações históricas. Quanto ao presente, essa frustração racial
comprimida e armazenada não se converte nem em forças psicodinâmicas nem em forças sociodinâmicas
produtivas. Elas se destroem negativamente — ou destroem a personalidade do negro e o equilíbrio do
meio negro.
Esse fato é capital. Os que se preocupam com a mudança social, encarada abstratamente, e com a
revolução burguesa, vista nas conexões centrais para a evolução do capitalismo, têm naturalmente algo a
dizer. No entanto, até agora nem a aceleração da mudança social nem o auge da revolução burguesa, nas
condições predominantes no Brasil, ajudaram a quebrar os padrões preexistentes de desigualdade racial
ou impediram que eles se superpusessem às estruturas da sociedade de classes. Pode ser que os
desdobramentos dessa evolução contenham outras transformações e que a expansão do capitalismo traga
consigo novas modalidades de solapamento e desagregação da desigualdade racial. Por enquanto, o que
aconteceu nos últimos 30 anos evidencia o oposto: a incorporação de padrões e estruturas arcaicos, em
uma sociedade de classes em formação e expansão. E, em contraposição, a impotência do negro em fazer
valer os seus tipos de inconformismo, por falta de base material, psicológica e moral para suplantar “o
complexo” e convertê-lo em uma fonte de emulação na luta contra a desigualdade racial (que é,
implicitamente e inevitavelmente, uma luta contra o branco e contra a ordem existente).
Voltamos, de novo e por outra via, ao argumento central. A simples elevação da “consciência crítica”
do negro não leva a nada. Ou, antes, ela leva a uma nova forma de frustração, muito mais corrosiva e
perniciosa que as anteriores. Pois isso tudo convence o negro de que o “esclarecimento” e uma “nova
mentalidade” só são úteis ao percurso pessoal e individual do negro que “quer subir”. O que constitui um
forte reforço às avaliações que conduziram à convicção de que os movimentos de protesto “dão azar”,
vinculando o “novo negro” com uma espécie de oportunismo visceral e sistemático. Ora, tal ajustamento
afasta o negro do caminho certo: para alterar a atual combinação de “raça” e “classe” seria preciso que o
negro utilizasse politicamente essa “consciência crítica”, voltando-se contra os resíduos do passado,
expressos na tolerância ritual, no padrão assimétrico de relação racial e na ideologia racial
correspondente; e, principalmente, tentando construir as bases de novas formas reais de igualdade
progressiva entre as “raças” (ou seja, que a “raça” não interfira negativamente nos mecanismos de
“classe” e vice-versa). Estas necessidades psicossociais e histórico-sociais, que não são atendidas e não
encontram canais de encaminhamento e concretização, exigem que o inconformismo do negro adquira
outro caráter, em particular que possa ser absorvido pela rede de instituições e de estruturas sociais da
sociedade de classes. Existem limitadas perspectivas de integração efetiva do negro a essa sociedade
fora e acima de tais condições, pois o inconformismo do negro precisa encontrar oportunidades de
elaboração psicológica, social, cultural e política, já que é através dele que se poderá constituir e
perpetuar-se um novo padrão de relação racial igualitária e de ordenamento de “raça” e “classe” em
bases democráticas. Isso provocaria uma transformação sociodinâmica do inconformismo do negro; ao
converter-se numa força social construtiva e incorporada à rede de instituições e de estruturas sociais,
de início e durante um período de tempo de duração imprevisível tal força social teria de operar
mudanças profundas nos fundamentos raciais da sociedade brasileira, atuando como um fator histórico
tanto de “revolução dentro da ordem”, quanto de “revolução contra a ordem”. Pois, mesmo sob a
hipótese de continuidade do capitalismo, semelhante liberação sociodinâmica do inconformismo negro
levaria a descolonização até onde ela deveria ter chegado, quando da supressão do trabalho escravo e da
implantação do trabalho livre.
Pode-se admitir que tais reflexões envolvem conjecturas otimistas: nem sempre as sociedades realizam
as evoluções que deveriam completar seu ciclo histórico. E no que diz respeito à sociedade de classes,
sabe-se perfeitamente que o capitalismo libera certas forças revolucionárias, mas represa e reprime
outras. No caso, como a massa negra interessa mais como “massa trabalhadora”, é pouco provável (para
não dizer-se que é de todo improvável) que a sociedade de classes consiga, no Brasil, sob um
capitalismo dependente e subdesenvolvido, realizar uma façanha que o capitalismo não logrou nem
mesmo nos Estados Unidos. No entanto, conjecturas dessa natureza são muito úteis à análise e à
interpretação sociológicas. Elas possuem uma função heurística: põe-nos diante da realidade à luz de um
experimentum crucis ideal e simulado. De um lado, tais elaborações interpretativas sugerem que a
evolução mais plausível manterá o paralelismo de “raça” e “classe”, como sucedeu na sociedade
estamental e de castas sob a Colônia e o Império. Mantido semelhante paralelismo, qualquer padrão de
relação racial igualitária e todo ordenamento de “raça” e “classe” em bases democráticas serão
simplesmente inviáveis. Uma maior massa de negros se integrará nas várias classes existentes. Mas isso
não romperá com as contradições raciais herdadas do passado e incorporadas ao regime de classes.
Permitirá, sob a vigência da tolerância racial, que o mundo do negro se organize em moldes simétricos ao
dos brancos e, eventualmente, maior comunicação entre grupos raciais diferentes do mesmo nível social.
De outro lado, as mesmas conjecturas também deixam evidente que o “novo negro” constitui o rebento
viçoso do florescimento racial do capitalismo dependente e subdesenvolvido. É aí que se está
concentrando o real “aproveitamento das novas oportunidades”. Uma minoria negra se destaca da massa
negra trabalhadora e tende a alocar-se em várias posições de classe no espaço social da ordem existente.
Como se trata de um processo mecânico, que agrega novos grupos às estruturas de classes, sem alterar
em nada o paralelismo de “raça” e “classe” (ao revés, está adaptando o paralelismo às condições de
organização, funcionamento e evolução do regime de classes sob o capitalismo), o que se configura como
mais provável é o aprofundamento da formação de elites negras ao longo das linhas de classes (no nível
das classes médias, a classe média de cor já começa a deixar de ser uma “falsa classe média”, como
diagnosticara Bastide) e a consolidação de um elitismo negro que produzirá uma maior tolerância do
“negro de prol”, isto é, o “novo negro” diante do mencionado paralelismo de “raça” e “classe”. Pelo
menos enquanto as elites negras em formação e diferenciação não forem atingidas pela frustração dos
outros setores da população negra e por seus tipos de inconformismo, elas tenderão a se acomodar à
situação histórica e a evitar a adesão às pressões raciais mais radicais, “dentro da ordem” ou “contra a
ordem”.
Não obstante, no conjunto a alteração do panorama histórico será, ainda assim, considerável. Com as
tendências de elevação dos níveis de vida e de participação cultural, o novo paralelismo da “raça” e
“classe” significa uma revolução do meio negro. O “negro pobre” continuará largado à sua sina, isolado
da atuação das elites negras e ignorado pelo resto da sociedade, como tem acontecido até hoje. Contudo,
contará de fato com a eclosão de oportunidades que a industrialização maciça e a explosão metropolitana
estão abrindo, o que nos permite estender as conjecturas expostas acima: essa massa pobre é que fará, a
largo prazo, o papel de pião na transformação dos fundamentos raciais da sociedade brasileira.
Dificilmente ela contará com condições econômicas e culturais tão favoráveis que levem ao
anestesiamento e à ignorância dos problemas políticos mais profundos do negro. De outro lado, os novos
níveis de expectativas e o ressentimento que resultará da ascensão parcial de alguns setores da própria
população negra (além do mais, pouco sensíveis ao dilema racial do negro brasileiro, por causa de seu
elitismo) forçarão a reelaboração das frustrações reprimidas, associadas aos vários tipos de
inconformismo descritos. Mesmo que a violência possa ser e venha a ser evitada, nada impedirá uma
fermentação ignorada até hoje das tensões raciais. E quanto mais forte for a repressão conservadora, da
sociedade inclusiva e das elites negras, maior será a contradição entre “raça” e “classe” e menores serão
as probabilidades de eliminação do referido paralelismo dentro da ordem.
AS TRANSFORMAÇÕES VISÍVEIS

O QUADRO GLOBAL descrito mostra que, mesmo agora, “ainda não chegou a vez do negro” — pois ainda
não chegou a vez do Povo. A situação histórica, porém, não é tão adversa à população negra, como o foi
durante o primeiro ciclo de prosperidade econômica da cidade, dos fins do século XIX à crise de 1929.
Então a população negra vivia dentro da cidade mas sem pertencer a ela; tratava-se de uma condição
extrema de isolamento cultural e de marginalização socioeconômica. As oportunidades iam para os
brancos, especialmente das famílias tradicionais ou imigrantes. O progresso estuante não existia para o
meio negro, mergulhado na mais extrema desorganização social, pauperismo e desalento,[46] uma fase
dramática e amarga, que suscitou a imagem do “emparedamento do negro”. Nos últimos 25 anos a
industrialização maciça e a convulsão metropolitana se alimentaram de “braços nacionais”: as migrações
internas desembocaram na cidade e delas saíram os contingentes de trabalhadores menos qualificados ou
desqualificados. Os setores pobres e dependentes da cidade participam por aí do crescimento
econômico. O negro de origem local ou estadual ou que vem nessas correntes humanas encontra com
maior facilidade uma avenida para a classificação social através do trabalho, por humilde e mal
remunerado que ele seja. O grande obstáculo, que vinha a ser a falta de trabalho ou a instabilidade do
trabalho, tende a se neutralizar. Com o “emprego”, o negro pode conquistar mais facilmente a base
material para a participação institucional, de que estava quase completamente excluído, e pode montar
novos projetos de vida. Doutro lado, as migrações internas carreiam para a cidade fortes contingentes de
mestiços, na maioria “mulatos claros” ou “mulatos escuros”, o que aumenta o setor de origem remota
afro-brasileira e, ao mesmo tempo, estimula a busca de novos estereótipos. O “baiano” tende a substituir
o “negro” na estereotipação negativa: uma variação semântica importante, que diminui uma visibilidade
incômoda e ajuda a quebrar certas resistências teimosas. Além disso, as favelas, os cortiços, a pobreza
ou a mendicância, a prostituição e a vagabundagem, os trabalhos braçais e “serviços por conta própria”
humildes continuam a implicar uma visibilidade desfavorável. Contudo, a convulsão urbana pulverizou o
meio negro, disseminando-o por várias regiões e concentrando-o na periferia da cidade. Em
consequência, essa visibilidade se dilui e é mais acessível ao branco pobre. De qualquer modo, ela é
fortemente compensada pelos efeitos visíveis da classificação ocupacional, da mobilidade profissional e,
por vezes, da ascensão social do negro. Ela já não se associa automaticamente, como no passado recente,
à estigmatização negativa. Os estereótipos raciais não desapareceram nem deixaram de produzir efeitos
devastadores sobre as aspirações e as ambições do negro. Mas, eles já não podem servir tão facilmente
de fundamento a certas rejeições, especialmente na esfera do trabalho: certas ocupações atrairiam poucos
pretendentes se o antigo crivo de seleção permanecesse intocável, o que acarretaria prejuízos
econômicos para o próprio branco. Se ainda prevalece a condição de marginal,[47] os jovens sem
trabalho e sem perspectiva, a mãe solteira, o menor abandonado, a desorganização familiar e a miséria, o
quadro global é menos tenebroso e apresenta aspectos compensadores, onde o trabalho, o emprego, a
classificação ocupacional e a mobilidade profissional incorporaram o negro à classe operária ou a
alguns dos setores das classes médias. O passado não ficou totalmente para trás. Ele revive em vários
pontos da cidade, em ilhas de desespero social, encravadas nas favelas ou no novo tipo de cortiço da
periferia. O “negro bem-sucedido”, por sua vez, aparece com maior frequência na vida social e no
horizonte cultural do branco. Seja guiando o seu automóvel, morando em casa própria de bairros
respeitáveis ou ostentando sua prosperidade pelo “traje impecável” e o “alto estalão de vida” (uma
tradição que não desapareceu no meio negro e que revela a forte necessidade da compensação de status).
Portanto, temos agora duas visibilidades: a “má”, que suscita no branco lembranças e estereótipos
negativos que deveriam desaparecer, e a “boa”, que obriga o branco a rever suas atitudes e convence o
negro de que “sua sorte está mudando”. Embora ainda seja cedo demais para tirar conclusões a respeito
dessa dupla visibilidade social, é evidente que ela está concorrendo para tirar o negro do limbo, do
opróbrio dos estereótipos infamantes dos brancos ou do próprio “recalque” e da condição deletéria de
“bode expiatório”. Graças à proletarização e à ascensão a estratos de classe média (em alguns casos,
também de classe alta; mas são pouquíssimos), constitui-se uma base material estável de participação —
e não de exclusão sistemática — e de uma nova relação do negro com a sociedade capitalista. Os pontos
de concentração das oportunidades econômicas, educacionais, intelectuais e políticas ainda são fracos
ou débeis demais para quebrar as linhas tradicionais de desigualdade racial ou para “fazer o branco
engolir o seu orgulho”. Todavia, o negro deixou de ser o espectador à margem da vida e da história.
Se a “boa visibilidade” ainda não se impõe, a “má visibilidade” está perdendo o caráter
autodesmoralizador que possuiu durante tanto tempo e começa a neutralizar-se como foco de
“desmoralização do negro” perante o branco. De fato, o negro com seus problemas não desaparece na
“sociedade de massas”. Essa seria uma simplificação grosseira. Contudo esta contém vários alçapões e
pode esconder dentro deles, ou pelo menos dissimular através deles, muitos aspectos desoladores da
“miséria humana” do negro, antes tão chocantemente visíveis numa escala universal. Onde existem
favelas — médias, pequenas ou grandes — nas orlas de bairros ricos ou no seio de bairros pobres, e
onde existem cortiços, a visibilidade negativa aumenta. Mas, nem sempre a forte participação de negros e
mulatos na população dessas favelas e cortiços aparece em associação com a miséria, o desemprego
sistemático, a desorganização familiar etc. O novo tipo de cortiço (especialmente nos bairros da
periferia) e várias favelas contêm, com frequência, uma vida interna autopoliciada e conspícua, na qual
mesmo a extrema pobreza requer um mínimo de participação institucional. O que significa que há pobreza
“com alguma esperança”, pois os padrões de organização doméstica impõem certa soma de obrigações
que favorecem a educação dos filhos e pressupõem alguma solidariedade social. O afluxo de migrantes
de origem rural parece ser o principal fator dessa alteração, que reduz ou elimina a “irresponsabilidade
do negro”; e ela é fortemente reforçada pelas oportunidades de trabalho regular e de estabilidade
ocupacional. De outro lado, a pobreza também se vincula aos resíduos do tradicionalismo, que não
desapareceram nesse primeiro arranque da explosão metropolitana. Alimentação, música, padrões de
entreajuda (familiar e vicinal) e formas de recreação dão, aqui e ali, um “colorido nordestino” e exótico
mas “altamente respeitável” — ao estilo emergente de “vida de pobre” na cidade. O negro que não está
preso aos resíduos da anomia que veio do passado se engolfou nesse estilo de vida, amparando-se nele
para lograr um modesto ponto de partida. No conjunto, é deveras importante a tendência básica, que
dissocia os velhos estereótipos e estigmas raciais da condição social do negro. A escravidão e a
Abolição já estão bastante longe — e o mesmo sucede com o doloroso período que vai até 1930, de
anomia social sistemática — para reforçar antigas compulsões dos brancos ou para gerar outras novas,
encerrando o negro no círculo de ferro de uma condenação irremediável e irremissível. Nesse plano, a
pulverização da miséria e a disseminação da pobreza, no imenso espaço geográfico da metrópole,
fizeram com que a “sociedade de massas” oferecesse, ao mesmo tempo, múltiplos refúgios e vários
pontos de partida à sua dispersa população negra. Se o passado não está extinto, as cicatrizes não
dominam nem governam mais a vida do negro; e tampouco o forçam a procurar o isolamento
autoprotetivo, pelo qual se destruía, e a converter a desorganização pessoal, familiar e social em um
multiplicador incontrolável de sua “desgraça coletiva”.
Tudo isso indica que seria aconselhável a realização de uma nova pesquisa sobre a matéria. Conhece-
se muito mal o que está ocorrendo nas várias áreas da Grande São Paulo quanto às relações de negros e
brancos e à transformação dos velhos padrões de acomodação e integração raciais. Percebe-se que a
proletarização do negro e a estabilidade ocupacional (ou, pelo menos, as oportunidades de trabalho)
alteraram por completo a base material de grande parte da população negra. De outro lado, esta tende a
defrontar-se com diversas situações de classe de modo mais ou menos definido e estável. Enquanto antes
a classificação era precária e minoritária, hoje pelo menos a proletarização alcança o grosso dessa
população enquanto alguns setores penetram certos estratos da pequena burguesia e da alta burguesia
urbanas. A expressão ecológica dessas tendências aparece na agregação de segmentos da população
negra em torno de bairros mais homogêneos, quanto aos meios de subsistência e aos níveis de vida, e na
ocupação predominante da periferia. Essa forma de apinhamento parece ter favorecido certas linhas de
concentração demográfica e ecológica, com pessoas e famílias mais ou menos ligadas entre si
procurando as mesmas áreas e nelas tentando manter tipos de solidariedade tradicional preexistentes.
Também se percebe que as migrações internas enriqueceram a população negra da cidade, trazendo para
cá negros mais ou menos aptos a competir profissionalmente com os brancos do mesmo nível social,
tanto na busca de colocações, quanto na luta pelo “trabalho melhor” e pelos “empregos que dão
dinheiro”. Até agora, a educação escolarizada favoreceu muito pouco o negro de origem local. Também
aí o adventício abre uma clareira ao pretender para o filho “uma educação melhor” e expondo seus
vizinhos a novas aspirações e aos valores sociais correspondentes. O que significa que novos padrões de
competição, quanto à ocupação, educação, moradia, nível de vida etc., estão se constituindo ou
consolidando e que eles desembocam na ideia de que a escola é essencial “para o futuro dos filhos”. E
de fato, o negro torna-se mais visível como estudante, do ensino primário ao ensino superior, e, agora,
sem a intervenção do mecenas branco.
Um processo que já estudamos, relacionado com a técnica de ascensão social, agora alcança um
contingente bem maior da população negra. A aceitação da infiltração como forma de competição
dissimulada e de mobilidade social vertical continua dominante. Ao que parece, com a dissolução do
protesto negro, desapareceu a esperança de uma ascensão coletiva do negro. As mesmas atitudes que
notamos no passado reaparecem no novo contexto histórico. O “negro que quer subir” repudia
abertamente o protesto racial e busca dentro da ordem, numa linha egoística e individualista (embora com
a cooperação eventual do branco e a solidariedade possível — mas nem sempre atuante e eficiente da
própria família), a “solução de seus problemas”. Isso não quer dizer que ele seja “neutro” com referência
ao preconceito e à discriminação. Como se lança à competição inter-racial, ela acumula uma experiência
esclarecedora. Ele condena apenas uma demonstração de “racismo” que poderia prejudicar sua ascensão;
pois está convencido de que o caminho para “combater o preconceito” é gradual e indireto (o que
representa uma elaboração original de uma contraideologia racial conservadora, ainda não estudada
sociologicamente). Por isso, repele o protesto coletivo e, do mesmo modo, as demonstrações de
“inferioridade”, que associa ao desalento, ao desleixo, à falta de educação e de ordem na família, às
várias manifestações de anomia no meio negro etc., das quais se torna um crítico severo. Como
contraponto do branco conservador, ele valoriza a instrução, a competência profissional, o caráter, o
trabalho, a acumulação de riqueza e a família, embora exagerando os vários traços que poderiam
caracterizar uma concepção elitista da vida e do mundo. Isso põe o novo negro a cavaleiro de duas
tendências. Primeiro, ele absorve um elitismo que é imitado do branco, mas ainda predominantemente
dos brancos dos antigos círculos dominantes das famílias tradicionais (portanto, o que ele valoriza não é
o elitismo do nouveau riche, porém o que se poderia chamar de “elitismo aristocrático”). Segundo; como
o imigrante, ele aceita qualquer ocupação, mas como “estágio inicial” e transitório, algo inevitável ou
necessário embora indesejável (o que o leva a repelir a condição operária e a proletarização como estilo
de vida, de alguma forma capazes de aprofundar a degradação do negro). Reproduz, com um atraso
considerável, as utopias dos antigos imigrantes, sem contar com os mesmos recursos materiais e
institucionais para combinar trabalho, solidariedade doméstica, mobilidade ocupacional, êxito
econômico e ascensão social. Essa combinação, aliás, hoje não é tão fácil quanto o foi no passado,
quando uma posição estratégica no sistema econômico era suficiente para garantir as melhores previsões.
As oportunidades econômicas reais são escassas e não podem ser aproveitadas com os recursos de que
dispunham os imigrantes pioneiros, muitas vezes melhores do que aqueles de que dispõe o “novo negro”
na atualidade. Ainda assim, a motivação é decisiva: ela mantém tendências complexas de competição
com o branco, força a elevação da participação institucional e fortalece propensões igualitárias sem as
quais o negro se condenaria à exclusão e à marginalização.
A insegurança ainda se faz sentir como um fator adverso. Ela ainda estimula a busca de uma
autoproteção destrutiva, através do isolamento social (na família e no nível social dentro do meio negro).
Ela não opera tão negativamente como no passado, pois a família tende a revelar maior estabilidade e a
estratificação em termos de nível social abrange maiores números (o que favorece os dinamismos sociais
e recreativos dos clubes, tornando mais fácil a consecução de um “nível conspícuo” mas protegido de
vida). No entanto, o grosso dessas compensações só é acessível aos setores de classe média ou alta da
população negra. E, mesmo nessas classes, isso reduz o universo social do negro. De um lado, ele gravita
dentro do “mundo do negro”, construído como uma réplica imaginária do “mundo dos brancos”. De outro,
ele confere alta nocividade ao processo de acefalização implícito. As elites negras são seccionadas e
dissociadas da massa negra. Toda solidariedade racial torna-se, assim, impossível e tem de ser
substituída por uma espécie de “solidariedade estamental” (dos negros que pertencem à mesma clique de
um mesmo estrato elitista). Por aí, o passado se reproduz ampla e destrutivamente. Mesmo os líderes que
se projetam mais acima de seu próprio nível social não rompem com as limitações resultantes. Ao
contrário, eles instituem no meio negro o tipo de relação clássica que, antigamente, estabelecia liames
entre o notável branco e seus clientes. A comunicação das elites com a massa ganha, assim, um
significado pouco criador, porque a massa negra é sempre um “elemento de manobra” ou um “meio para
certos fins”, que nunca preveem ideais de “redenção da raça negra” ou de protesto coletivo. Esse
clientelismo negro, em plena emergência e irradiação, precisaria ser estudado. Ele cria certas áreas de
contato, engendra algumas formas de participação cultural novas e põe as elites negras na mesma posição
das antigas elites dos imigrantes, preocupadas com várias modalidades de assistência social aos
conterrâneos. Porém, isso não é muita coisa, se se leva em conta a precariedade da situação da
população negra e as terríveis exigências da desigualdade racial. Na verdade, as obras assistenciais,
feitas até agora, têm servido mais para valorizar socialmente as “classes médias e altas de cor”, que para
suavizar os problemas de extrema carência da massa negra. Essas elites se lançam, naturalmente, em um
nível de competição sofisticada por consideração social, como fizeram, aliás, no passado, muitos
imigrantes, que sabiam o valor que as famílias tradicionais atribuíam a tais demonstrações de
solidariedade e de prestígio. O seu único resultado, que beneficia o negro em geral, diz respeito à “boa
visibilidade”. Por aí se evidencia, através do jornal, da televisão e da rádio, que o negro dispõe de uma
nova situação econômica, social e cultural, a ponto de cuidar da “gente desfavorecida” de sua
comunidade.
Esse efeito não é de menosprezar-se. O “novo negro” tenta, em vez de cobrar uma igualdade racial
coletiva que a sociedade brasileira não lhe daria, revolucionar indiretamente o horizonte cultural do
branco. No entanto, não usa a pressão econômica, cultural ou política nem a coerção psicológica, como
fizeram os negros norte-americanos na década de 1930. Emprega meios sutis e por vezes maliciosos,
como a ostentação do nível de vida “alto” e “aristocrático”, da “competência inexcedível”, do “caráter
irrepreensível”, da “vida organizada e responsável” etc. Como não tem liberdade nem base material para
usar o conflito, precisa contentar-se com a “reeducação do branco” na avaliação moral do negro. Ao
fazer isso, consegue algum êxito pelo que se vê, já que pressiona habilmente no sentido de dissociar os
“fracassos dos pretos” de razões estereotipadas e da condenação estigmatizadora. Procede como se
exigisse a igualdade no plano puramente pessoal e como se quisesse que o branco se convencesse que há
negros e negros, como entre os brancos há brancos e brancos, não havendo portanto sentido em avaliar o
negro através de uma imagem falsa, estereotipada e irreal. Essa tática se ajusta como uma luva ao
preconceito dissimulado e à discriminação assistemática: não só apanha o branco desarmado; explora o
terreno sempre virgem dos tateios iniciais, a confusão moral do branco (tão grande quanto a do negro,
pois a armadilha funciona dos dois lados) e a disposição frequente à abertura para “o negro de alma
branca” (o que converte a exceção que confirma a regra numa vantagem adicional para qualquer “negro
calculista”). São meandros tortuosos e é indiscutível que eles constituem uma forma refinada de tortura
mental, a qual os negros em ascensão deveriam recusar e combater. Todavia, eles não criaram esse jogo
e, muito menos, as suas regras. Armaram uma carapaça adaptativa, pela qual, em vez de se colocarem no
próprio lugar, forçam o branco a revisões que são cruéis para os dois lados. Na maioria das vezes
obtêm o que desejam ou esperam. Se é mais ou menos difícil localizar a casa de uma “família negra bem
colocada”, os vizinhos sabem muito bem se moram perto de um “negro rico” e “bem-educado” (e podem
presumir se ele pertence à classe média ou alta). É mais fácil ainda estabelecer avaliações corretas
diante de uma família negra “bem-vestida”, que viaja em automóvel próprio ou ostenta de uma ou de
outra maneira o seu status. O quadro subjetivo que se esboça não é mais o tradicional — “o negro
precisa do branco para vencer”; mas, o alternativo: “esse negro precisa ser muito importante para estar
nesse lugar”. Com ambiguidade e relutância, o branco repete uma aprendizagem histórica, que já teve de
enfrentar diante do português, do italiano, do sírio e libanês, do espanhol etc. Os estereótipos e os
estigmas esvaziam-se na medida em que as exceções que confirmam a regra se tornam muito numerosas.
Ou eles precisam ser refeitos e redefinidos ou perdem sua eficácia. No caso do negro, ao que parece, a
situação atual ainda não alimenta um limite histórico dessa natureza. Mas, qualquer que seja o desnível
entre os “mitos” alimentados pelo “novo negro” e as brechas reais na fortaleza do mundo dos brancos, é
patente um avanço considerável. Antes, “o negro de alma branca” servia de base para manipulações
simplistas, graças às quais o êxito do negro se tornava irrelevante para as avaliações concretas (ficando
sempre de pé que a mestiçagem ou a proteção de algum branco explicava, no fundo, “o milagre”). O
mecanismo da exceção que confirma a regra criava um ponto morto e uma cesura intransponível na
reavaliação social do negro. Hoje, o mecanismo continua a ser empregado. Entretanto, dentro de um
contexto diverso: à medida que cresce o setor de classe média e alta da população negra, surge uma
erosão inevitável do mecanismo, a qual tende a aumentar e a agravar-se com o tempo.
Os avanços descritos não introduzem uma liberação intelectual e moral do jovem negro. Este se
defronta com dramas reais ou falsos, como se evidencia pela literatura de ficção negra.[48] Os conflitos
entre as aspirações igualitárias e o padrão brasileiro de preconceito e discriminação raciais produzem
estragos devastadores no jovem. Este está no começo da aprendizagem, iniciando-se no adestramento do
que se poderia chamar de cinismo autodefensivo. Aos poucos, ele se predispõe a aceitar as duas
“verdades”, a que afirma e a que nega a democracia racial. No contexto atual, esses conflitos tornam-se,
ao mesmo tempo, mais agudos e dolorosos, suscitando reações contraditórias de ambivalência de atitudes
e de alienação, pelas quais a evasão ganha o caráter de uma técnica tosca de autoproteção psicológica e
moral. Se em vez do elitismo e da ascensão por infiltração tivesse prevalecido um novo estilo de
protesto racial coletivo, é provável que o jovem negro tivesse de procurar caminhos de autorrealização
menos tortuosos e ambíguos.[49] As propensões à autopiedade, à fabulação imaginária e à sublimação de
fantasias, ao desalento compensatório ou ao escapismo teriam de ser substituídas por outras formas de
crise da personalidade, como sucedeu, aliás, no passado, quando os jovens negros vararam a barreira
psicológica do enfrentamento com o branco nas lutas pela “Segunda Abolição”. Dentro da sociedade de
classes, ou contra ela, teria de iniciar uma busca mais realista de sua autoafirmação, sem o “carrossel de
ilusões” que destrói tão prematuramente o talento jovem no meio negro, principalmente nas classes
médias e altas. A opção por uma das duas “verdades”, porém, não se dá concretamente, menos por culpa
do jovem que da “estrutura da situação histórica” (na qual se mesclam as pressões da sociedade
brasileira e “a falta de orientação combativa” das famílias negras “bem-sucedidas”). Em consequência, o
jovem negro, que deveria ser o elo mais forte no aparecimento de um inconformismo militante e na
cadeia de uma revolução democrática, neutraliza-se e converte-se no equivalente humano do boêmio
negro das décadas de 1920 e de 1930, mas sem suas justificativas históricas. Os veteranos dos
movimentos de protesto coletivo criticam esse jovem, que eles não compreendem, e que pensam ser
“alienado” e “envenenado”. Uma condenação prematura e filha da fraqueza. Se aplicassem a esse jovem
as mesmas técnicas de desmascaramento que aplicaram ao branco, nas décadas de 1930 e de 1940,
descobririam em que sentido eles são também “vítimas” da situação racial brasileira. De outro lado, não
seria melhor que eles próprios fizessem uma revisão crítica e apontassem os fatores reais da sufocação
do talento jovem no meio negro, a qual segue paralela à desmoralização e ao esvaziamento de todo
radicalismo racial igualitário e libertário? Não seria melhor, em particular, que tentassem estabelecer
uma ponte entre as gerações, para que o protesto racial coletivo pudesse ser reciclado e voltasse à tona,
nas novas condições econômicas, sociais e culturais do país, como uma garantia de continuidade da luta
do negro para que a sociedade brasileira se torne, de fato, uma sociedade multirracial democrática?
SEGUNDA PARTE

AMÉRICA LATINA: HOJE


O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos
e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.
CARLOS DRUM M OND DE ANDRADE, (Nosso tempo)
CAPÍTULO 3

A DITADURA MILITAR
E OS PAPÉIS POLÍTICOS
DOS INTELECTUAIS NA
AMÉRICA LATINA[50]
NOTA EXPLICATIVA

ESTE ENSAIO FOI EDITADO como publicação avulsa da universidade de Toronto em 1969-1970, junto com
outro estudo e sob o título The Latin American in residence lectures (com prefácio do professor Kurt. L.
Levy; e a colaboração, na preparação do texto em inglês ou na revisão, do querido colega professor
Kenneth N. Walker e dos então estudantes pós-graduados Marion Blute e Craig McKie). Não cometi a
injúria de solicitar autorização para publicá-lo em português na presente edição.
O sociólogo não está livre de exercer suas funções e seus papéis intelectuais nas piores condições
para si próprio (e, quiçá, para a sociologia). Às vezes, se o que entra em conta é uma denúncia (expressa
ou velada), ele é limitado por sua profissão ou por suas vinculações acadêmicas dentro do mundo da
universidade. Os que lerem este ensaio não devem deixar de ter isso em mente — não para desculpar o
autor, que conhece e aceita os riscos que deveria correr, mas para ajudá-lo. Estamos num limite em que a
inteligência e a imaginação dos leitores são essenciais: ela permite saturar os vazios, colorir as omissões
e perceber o que nem sempre é óbvio.
Na ocasião em que foi escrito, entre fim de dezembro de 1969 e início de janeiro de 1970 (a versão
inicial do trabalho foi apresentada como conferência pública, sob patrocínio oficial, em um dos
auditórios da Universidade de Toronto em 20 de janeiro de 1970), os focos de referência implícitos da
discussão eram o Brasil, a Argentina, a Bolívia e o Peru. A explicitação dos casos que serviam de base
para a análise do novo estilo de golpe de Estado e de militarização do Estado capitalista era
simplesmente inócua. Os ouvintes, professores, estudantes e intelectuais tinham condições de acompanhar
uma formulação altamente abstrata, sem perder de vista do que se tratava, empiricamente; e, o que é mais
importante, de introduzir as gradações históricas inevitáveis, dadas as diferenças existentes entre esses
países.
A inclusão do Peru não se devia a qualquer animosidade pessoal ou a alguma ignorância dos aspectos
positivos que a militarização do poder estatal tenderia a assumir naquele país.[51] Embora o autor nunca
se tenha entusiasmado com a ideologia da “revolução peruana”, ambígua no seu aparente repúdio
concomitante do capitalismo e do comunismo, é evidente que, no Peru, o novo modelo de ditadura militar
tentou enfrentar e resolver problemas capitais, que vão da reforma agrária à proteção da Nação contra os
interesses ultraconservadores internos e contra os interesses imperialistas externos, articulados na prática
econômica e política. O caso peruano se incluiu no campo de observação e de exposição por motivos
formais. A impregnação tecnocrática-militar do Estado e o funcionamento do governo militarizado são
altamente similares em todos os quatro casos. O que varia são as funções históricas do Estado e as
identificações políticas do governo militarizado, pois em um plano se configura, em toda a plenitude, a
ditadura militar polarizada através da reação e da contrarrevolução burguesas; e, no outro, a ditadura
militar pretende configurar-se como uma espécie de bonapartismo acima das classes, polarizando-se
através de um nacionalismo revolucionário oscilante (embora, concretamente, tenha tentado medidas
exclusivas de “revolução dentro da ordem” e de “revolução contra a ordem”). Desde que tais diferenças
essenciais sejam tomadas em conta, é crucial considerar em conjunto os quatro casos: assim aparecem
com maior nitidez as linhas de demarcação, que separam a ditadura militar em nome das classes
possuidoras e de suas elites da ditadura militar “acima das classes”; e, o que é mais relevante, o que é
específico aos três casos que tendem para a situação típica no presente, na qual os interesses internos e
os interesses externos, articulados pelo capitalismo monopolista e unificados pela dominação burguesa,
fazem com que a ditadura militar das classes possuidoras seja instrumental para impedir a revolução
contra a ordem, tanto quanto para confinar a revolução dentro da ordem à modernização consentida,
imposta de fora para dentro e de cima para baixo. O leitor poderá, certamente, lamentar que esses filões
não tenham sido explorados explicitamente e de modo sistemático; eles estão, porém, mais do que
evidentes, já que iluminam o sentido global da análise e, em particular, a caracterização das evoluções
potenciais de curto e médio prazos (no tópico que focaliza o tema “Estado e sociedade em tensão” e,
posteriormente, numa passagem do debate sobre os papéis políticos dos intelectuais).
Naquele momento já eram evidentes os contrastes que permitiriam separar as características e as
prováveis linhas de evolução dos três casos que cabiam na ditadura militar de classe, com orientações
reacionárias e contrarrevolucionárias (definidos em termos da contradição com a “democracia burguesa”
e com o radicalismo burguês). No entanto, como o limite explicativo e crítico se oferecia na abstração de
traços comuns essenciais (em termos de instituições e de processos ou de comportamento de classes
dominantes), tais diferenças eram irrelevantes. Parecia, então, que o caso extremo já se havia dado.
Porém, só no Chile e em 1973, a América Latina tomaria conhecimento de que aquela realidade histórica
ainda não se esgotara e que, nas dobras da ditadura militar das classes possuidoras, havia uma conexão
histórica contrarrevolucionária permanente, suscetível de aprofundamento em função dos embates entre
capitalismo monopolista e o movimento socialista revolucionário. No fim da década de 1960, em suma,
uma análise de oposição frontal e que não se situava no âmbito de demonstrações especificamente
políticas podia limitar-se à enumeração abstrata de aspectos estruturais e dinâmicos comuns aos casos
conhecidos de maior significação histórico-sociológica.
Haveria pouco sentido em aproveitar esta nota explicativa para arrolar leituras complementares e, em
particular, para situar os desdobramentos da pesquisa sociológica sobre o assunto. As referências
bibliográficas originais não tinham significado “erudito”. Elas visavam, apenas, a sugerir as linhas de
informação do autor e a atualidade do tema na preocupação dos sociólogos, “comprometidos” ou
“neutros”, “pró” ou “contra”. Quanto à evolução do pensamento do autor, que continuou a aprofundar o
exame do tema e o seu envolvimento na oposição a esse tipo de regime, o leitor que estiver interessado
deve recorrer a Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina (Rio de Janeiro: Zahar,
1973, esp. pp. 102-115) e A revolução burguesa no Brasil (Rio de Janeiro: Zahar, 1975, toda a última
parte ou, esp., cap. 7). Aí se poderão patentear as linhas de compensação introduzida por descrições
mais balanceadas, que também pretendem participar da “sociologia crítica e militante”, mas atingem esse
propósito fora e acima de uma confrontação contingente ou condicionada por objetivos reduzidos de
relação com um público determinado.
Há, ainda, a considerar as críticas feitas a este trabalho (os elogios nem sempre chegam ao autor; e,
quando chegam, podem ser negligenciados na comunicação com o leitor). A crítica mais frequente
focalizou a falta de fundamentação empírica ou a ausência de um propósito formal de construir uma teoria
desses regimes. Ora, se fui claro, tanto no texto original quanto nesta breve nota explicativa, trata-se de
uma desorientação da crítica. Pretendia algo que não se enquadrava nem na descrição sistemática nem na
interpretação exaustiva, com pretensões classificatórias. Ou seja, uma apertada síntese de certos
conhecimentos sociológicos, além do mais de uma perspectiva de negação e de confrontação aberta,
quase uma “literatura de partido” (a qual não cheguei, por falta de um palco partidário e, ao mesmo
tempo, porque a Universidade de Toronto, e, posteriormente, outras universidades, ofereceram uma
“alternativa acadêmica” para o livre debate de cunho sociológico — embora sem ser estritamente
profissional). Não buscava beneficiar-me de nenhuma ambiguidade nem proteger-me por trás dos muros
acadêmicos. É que as circunstâncias eram aquelas e não me era dado escolher as condições em que
tentava sair à liça. Isso me impunha uma severa limitação. Todavia, qual foi o partido, organização
radical ou movimento político que me convidou para outro tipo de discussão? Só me foi dado discutir
francamente como “sociólogo engajado”: um debate que podia ser crítico, militante e contundente, mas
ficando sempre dentro da sociologia (pela natureza dos argumentos, os fins da exposição ou as
expectativas do público). Se o resultado desagrada os que só entendem a sociologia como descrição
empírica ou alta construção teórica mais ou menos “neutra”, o melhor é passar adiante. Para esses,
recomendo — não adianta comprar este livro e, muito menos, procurar no seu terceiro ensaio o que ele
não contém nem pretende oferecer.
Uma segunda crítica tem se voltado contra um pretenso “preconceito antimilitar” do autor. Como e
enquanto socialista, sempre fui e serei contra o militarismo; como e enquanto cientista, por outro lado,
não posso aceitar a violência dos poderosos como última via de decisão política e instrumento de
conformação da razão. Mas, ser antimilitarista não é o mesmo que ser contra o militar. O militar nunca
escolhe, individualmente ou como coletividade, os papéis que pode ou que tem de desempenhar na
história. Doutro lado, na própria sociedade capitalista há um amplo campo de utilização do militar a
favor ou contra a revolução democrática (isto é, em termos de preservação do status quo, de revolução
dentro da ordem ou de revolução contra a ordem). É um erro crasso querer transformar o militar,
individual ou coletivamente, em uma categoria pura e na ultima ratio dos processos históricos. Acredito
que antes já dei demonstrações concretas de que posso compartilhar com os militares aquilo que se pode
chamar de defesa da “boa causa” (tentei, de motu proprio e inutilmente, buscar o seu apoio para a
Campanha de Defesa da Escola Pública; e, ocasionalmente, tive alguns companheiros militares lúcidos
nas várias manifestações do radicalismo burguês nos últimos trinta anos). E, mesmo neste texto, indiquei
os vários caminhos que a presente crise abre ao uso político do militar e das forças militares como
“braço armado da burguesia” ou contra ela. Tenho a impressão de que a minha posição é clara e
coerente; e que não me coloco contra o militar em geral, pois aqui cuido do militarismo engendrado na
sociedade de classes capitalista dependente e subdesenvolvida, na era em que a sua crise interna e a
crise mundial do capitalismo ameaçam a dominação burguesa e a sobrevivência do estado capitalista.
A terceira crítica se concentrou no modo pelo qual tentei situar os papéis do intelectual no mesmo
processo de contrarrevolução burguesa e de militarização do poder estatal. Muitos julgam que não houve
nem capitulação passiva nem colaboração dissimulada nem solidariedade ativa por parte dos intelectuais
(seria melhor dizer-se: de grupos de intelectuais) a um odioso movimento contrarrevolucionário e a uma
férrea ditadura de classes privilegiadas. Ao mesmo tempo, os que afirmam isso continuam a usufruir,
imperturbavelmente, as vantagens que alcançaram ou a melhorá-las — como se o mundo criado pela
autocracia burguesa fosse o melhor dos mundos possíveis (salvo alguns inconvenientes, que atingem os
precipitados ou os renitentes). Essa não é sequer a linguagem ou o comportamento de um Pilatos. Não se
lavam as mãos. Come-se mesmo de mãos sujas. Admitindo que todos os argumentos têm uma base de
verdade — não é isso que me preocupa; e tampouco pretendi generalizar, pois também mencionei o
“maquis” da intelligentsia. O que fica, como papel crítico e negador da ordem para o intelectual, se ele
se acomoda sem “boa” ou “má” crise de consciência? Ou se ele se comporta como se o mister intelectual
fosse indiferente às transformações do mundo e da cultura? Não estava cuidando de casos concretos ou
de experiências individuais. E, de fato, se a exceção pode invalidar um princípio, a exceção também
confirma a regra. E era isto que tinha de ser posto a nu. A omissão, na área vital da produção do
pensamento, é a pior das fugas. E, como já pregava o clássico Vieira, pecar por omissão é o pior dos
pecados. O que esperar de uma sociedade ou de uma civilização nas quais os intelectuais assistem
impassíveis à brutalização do homem, enquanto desfrutam, com ou sem requinte mas sempre com afinco,
o seu “nível de vida” e os seus grandes ou pequenos privilégios?
F. F.
1º de setembro de 1975.
INTRODUÇÃO
A IDEIA DE QUE a América Latina é uma região na qual os golpes de Estado são uma rotina política
tornou-se comum. Tendo-se em vista a participação dos militares nesses golpes, o melhor estudo
sociológico sobre o fenômeno mostra que, de 1930 a 1965, os países latino-americanos sofreram cento e
um golpes militares de estado com êxito.[52]Somente o Uruguai e o México, por motivos diversos,
estiveram ausentes desse levantamento, no período acima mencionado. Apesar disso, os países latino-
americanos tiveram, no passado e no presente, períodos de relativa estabilidade, nos quais os setores
civis dominantes da sociedade foram capazes de controlar tanto o poder político quanto o militar.
O estilo do golpe de Estado, o envolvimento político dos militares e os tipos de ditadura militar
variam no tempo e no espaço, de acordo com as características demográficas, econômicas, sociais,
culturais e políticas dos países, e de acordo com a organização das Forças Armadas e de suas funções,
manifestas ou latentes, dentro do Estado e da sociedade nacional.[53] A discussão de um assunto de tal
complexidade torna-se impossível numa exposição breve.
Minha intenção é mais específica. Em alguns países da América Latina, atualmente emerge e se
expande, como um processo transitório, uma militarização definida do Estado e da política.
Este fenômeno pode ser descrito e interpretado, sociologicamente, sob muitos pontos de vista. Nesta
discussão, abordá-lo-ei em termos da situação total em que as forças armadas se converteram num
prolongamento da política mediante outros meios, e num fator contingente de contrarrevolução.
A NATUREZA SOCIOLÓGICA DO PROCESSO

ESTA TENDÊNCIA EM DIREÇÃO à militarização do Estado e da política não decorre da “modernização dos
exércitos” e tampouco é consequência de uma decisão interna dos militares imposta pela violência em
nome dos interesses das Forças Armadas. A ditadura militar surge ou está surgindo, em sua nova forma,
como um mecanismo de autodefesa política de uma complexa situação de interesses, criada pelo
capitalismo dependente, num período de crise e de reorganização na América Latina. O exército não é um
agente político, que trabalhe para si próprio (como uma categoria social), ou para um setor particular da
sociedade (como estrato burocrático das classes médias “tradicionais” ou “modernas”).
O Exército encontra-se envolvido nessa tendência em virtude das potencialidades institucionais
estratégicas de ação organizada e efetiva das Forças Armadas, num contexto onde a ordem social
estabelecida enfrenta diferentes tipos de fissuras, que se encadeiam às novas tendências da revolução
burguesa sob o “capitalismo monopolista”, os efeitos desintegradores da explosão demográfica, a
superconcentração nas cidades ou a inflação galopante e a inquietação popular nas áreas urbanas e rurais.
Como o envolvimento é de natureza institucional, o status quo e os interesses privados dominantes,
internos e externos, foram privilegiados, o que deu ao golpe de Estado militar, de fato, o caráter de uma
contrarrevolução.
Esta descrição sugere a necessidade de se levar em consideração três aspectos primordiais dos golpes
de Estado militar. Primeiramente, eles envolvem um tipo de ditadura militar que é, na realidade, uma
ditadura de classe. Considerando-se este aspecto, existe pequena diferença entre estes regimes e as
precedentes formas “democráticas” de governo. Na realidade, as formas “democráticas” de governo
precedentes sempre encorajaram, de modo dissimulado, ainda que ocasionalmente com apoio popular,
uma concentração de poder social extremamente elevada. Portanto, elas eram, realmente, um sistema
flexível de opressão e de dominação autoritária, através do qual as classes altas e alguns círculos
privilegiados das classes médias monopolizavam o poder politicamente organizado, o controle do Estado
e os benefícios do crescimento econômico e cultural. Sob a ditadura militar somente a concentração de
poder veio a ser mais rígida, violenta e sistemática, permanecendo iguais todas as demais condições. Por
outro lado, como efeito dessa mudança, a opressão tornou-se aberta e desmascarada. Qualquer
dissimulação ou flexibilidade “democrática” tornou-se desnecessária, pois a margem de tolerância para
com a dissensão ou mesmo o consenso “ritual” foi reduzida ao mínimo.
Em segundo lugar, a tomada institucional do poder político obrigou os militares, na condição de
categoria social, a um esforço deliberado de acomodação de suas divergências políticas. Em outras
palavras, as elites militares foram compelidas a uma composição interna, através da qual o controle do
poder tem o seu preço no próprio âmbito das Forças Armadas, impondo a neutralização calculada das
opções políticas divergentes e a eliminação dos intolerantes (sem outras razões políticas; ou qualquer
lealdade explícita para com uma “ética militar profissional”). Isto significa que as elites militares se
viram forçadas a adotar uma perspectiva tecnocrática; tornando-se mais ou menos cegas às orientações
políticas predominantes no meio interno das sociedades nacionais. Como um efeito natural dessa
polarização, duas coisas diferentes ocorreram. De um lado, a busca de consenso militar em termos
“neutros”, “profissionais” ou “tecnocráticos”. Isso foi conseguido através de uma nova ideologia,
construída sobre a concepção militar de “desenvolvimento com segurança”.[54] De outro lado, a
conjugação da ditadura militar com uma filosofia altamente tecnocrática implica um gradual
endurecimento de calibre direitista. A militarização do Estado e da política tende a mover-se facilmente
na pior direção, pois, como uma fonte visível de totalitarismo fascista.
Em terceiro lugar, o novo estilo de ditadura militar proclama-se a si mesmo como uma “revolução”,
extraindo sua legitimidade do seu próprio “poder revolucionário” e de sua capacidade de submeter todos
os ramos do Estado (inclusive o parlamento e a justiça) e todas as camadas da sociedade às ordenações
“institucionais” militares. De fato, o poder militar inverteu sua relação com o Estado e a sociedade,
assumindo abertamente, portanto, a condição de poder supremo e inquestionável, como a última fonte de
legitimidade da ordem política e legal. Isto implica mais do que a existência de um Estado dentro do
Estado: pois o Estado fica subordinado à “vontade revolucionária” das Forças Armadas, ou seja, é
transformado num Estado autoritário. No entanto, devido à natureza de classe da ditadura militar, o
processo mencionado se caracteriza mais como uma reserva de poder que como uma transição efetiva
para o despotismo militar. Os objetivos do processo são dois: substituir o consenso negociado pela
decisão vertical e impor como norma a submissão passiva. A distância na direção de um Estado
autoritário ativo só é vencida em áreas específicas, como na eliminação sistemática da oposição real ou
potencial válida ou no nível sombrio do terror permanente, que se volta contra os que defrontam a
ditadura militar pela força.
Por conseguinte, a ditadura militar não tenta absorver “todo o poder para as Forças Armadas”. Pelo
menos até agora, aparece como uma forma típica de tirania de classe, na qual os “homens de farda”
constituem-se no último recurso para a manutenção da ordem social estabelecida. Isso produz uma grande
ambiguidade: em que sentido os militares são a encarnação de uma “vontade revolucionária”? É a
palavra “revolução” usada como manipulação perversa ou tem ela algum significado objetivo, no
contexto histórico do pensamento político conservador das classes altas e médias? Os argumentos, neste
nível, são relativos, mesmo para os sociólogos. Do meu ponto de vista pessoal, convertendo-se na mão
armada de uma tirania de classe, os militares cometeram traição nacional. Mas tal convicção não exclui
meu dever de encontrar uma explicação objetiva para os motivos dos militares, como e enquanto
membros das classes sociais, que misturaram a opressão despótica com a mudança social politicamente
controlada.
A ideia de “revolução”, especialmente no seio das classes alta e média dos países .mais
desenvolvidos da América Latina, é uma extrapolação de uma experiência histórica recente. Estes países
absorveram, durante o recente período de dominação europeia, um modelo de desenvolvimento
econômico, social e cultural que deu às suas burguesias certas funções autônomas nos processos de
integração nacional. A Primeira Guerra Mundial, a crise de 1929 e, especialmente, a Segunda Guerra
Mundial favoreceram algumas tendências do desenvolvimento econômico, que criaram a ilusão de que o
estágio da industrialização seria conquistado através de esforços e decisões internos. Contudo, ao mesmo
tempo, o modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural, elaborado sob o imperialismo
europeu do século XIX e durante as três primeiras décadas deste século, entrou em colapso. Estrutural e
dinamicamente, os países da América Latina foram incorporados, pelas grandes empresas modernas e
por outros meios, ao espaço econômico, cultural e político dos Estados Unidos. Esta mudança rápida
produziu uma realidade inesperada. O último estágio da revolução burguesa coincide com a substituição
do modelo precedente de desenvolvimento econômico, social e cultural; e vem se efetuando sob profunda
iniciativa e controle externos.
O novo modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural requer mudanças rápidas e
complexas na infraestrutura da economia (na organização, tanto da produção quanto do mercado, em
níveis local, nacional e continental), na tecnologia, no sistema de educação, na organização e eficácia dos
serviços públicos, na contribuição do Estado para a segurança e a expansão dos setores privados, no
padrão de vida, no consumo e na comunicação de massa, e nas orientações de valor das camadas
dominantes das classes alta e média. O efeito básico do novo modelo de desenvolvimento econômico foi
um novo padrão de dependência, ao mesmo tempo assaz aguda e inevitável (sob a persistência da ordem
social vigente), interiorizada através de um processo típico de modernização, organizado, orientado e
controlado a partir de fora (pelos Estados Unidos da América mas, em certa escala, por outros países
capitalistas avançados da Europa e pelo Japão).
Outros efeitos, mais difusos mas fundamentais, são uma confusão moral e uma frustração econômica,
especialmente no nível dos setores dominantes das classes alta e média e de suas elites detentoras do
poder. As esperanças de autonomia nacional e de um brilhante estilo de vida burguês, experimentado
durante a primeira década deste século, nas grandes cidades, deram lugar a uma industrialização que
transforma o capitalismo dependente da América Latina numa associação colonial indireta disfarçada
com os Estados Unidos da América, a superpotência hegemônica capitalista, e com outras sociedades
capitalistas avançadas.
E, finalmente, como um efeito transitório, seria necessário considerar também a crise da ordem
econômica preexistente, agravada por tendências conjunturais de estagnação ou recessão, pela explosão
demográfica e migrações em massa para as cidades, pela inflação galopante, pelo “populismo”,
inquietação política e movimentos esquerdistas. Os setores dominantes das classes alta e média se
adaptaram rápida e cinicamente às condições oferecidas pela emergência do novo modelo de
dependência e desenvolvimento econômico. Contudo, eles sofreram uma convulsão nos seus padrões de
valor e de autoconfiança, herdados do passado recente, tornando-se socialmente confusos quanto ao
futuro e em necessidade crescente de um bode expiatório, para ocultar seus insucessos e para dar sentido
ao neocolonialismo indireto, aceito livremente.
Nesse amplo contexto histórico, a ideia de “revolução” foi retomada do passado, como uma
necessidade psicossocial, moral e política. Como uma revolução burguesa se achasse realmente em
processo, desde o último quartel do século XIX, os setores sociais dominantes tinham à sua disposição
uma situação de interesse de classe para recapturar a ideia de “revolução” e projetá-la, objetivamente,
no contexto histórico emergente. A ênfase na necessidade de desenvolvimento rápido, autossuficiente e
contínuo estendeu-se a todas as classes através da propaganda, dos escritos dos intelectuais ou dos
movimentos de massa e da influência de algumas agências internacionais, contribuindo para simplificar a
redefinição cultural da ideia de revolução. Ela foi mantida isolada do seu significado real, enquanto
concepção de classe e como “projeto de classe”.
Se considerarmos as ideias de “revolução”, que os militares tomaram aos interesses privados internos
e externos, em termos dos seus vínculos de classe, descobriremos tanto o seu significado real, quanto por
que, atrás da ideias de “revolução”, havia de fato uma contrarrevolução. Como um processo histórico e
social concreto, a “revolução” se operou como um mecanismo político. Os setores dominantes das
classes alta e média não tinham outro recurso, para se protegerem das consequências diretas ou indiretas
do novo modelo de desenvolvimento econômico, social e cultural, senão neutralizar as crescentes
pressões internas, favoráveis às reformas estruturais e democráticas. O uso calculado do Estado e a
utilização da violência organizada para alcançar determinados fins foram os meios de ação e de
autodefesa que encontraram à sua disposição.
Através da composição civil-militar e da delegação temporária do poder político às Forças Armadas,
esses meios foram, na realidade, mobilizados. Os setores dominantes das classes alta e média
alcançaram, assim, o monopólio da orientação política da sociedade, impondo seus próprios interesses
numa dramática situação de mudança. Agindo dessa forma, todos os outros interesses e valores de
integração nacional — mesmo sob o capitalismo, e essenciais para uma revolução burguesa autônoma —
foram esquecidos e abandonados. A democratização da renda, do prestígio social e do poder, o único
meio de integrar milhões de pessoas excluídas ou semimarginalizadas em relação ao mercado, à ordem
social vigente e à Nação, foi completamente ignorada. Nesse sentido, a “revolução” deu origem a um
golpe de Estado reacionário e nasceu como uma contrarrevolução, um assalto ao poder organizado pelos
e para os privilegiados, em sociedades nas quais os miseráveis constituem a maioria.
USO E LIMITES DO “ PODER MILITAR”

DE ACORDO COM A DESCRIÇÃO precedente, o novo tipo de golpe de Estado e de ditadura militar constitui
uma expressão compósita de uma realidade histórica complexa. Ambos estão imersos numa situação de
classes de face dupla. De um lado, eles representam a “burguesia nacional”, incluindo, nesta acepção, o
setor capitalista da classe alta (urbana e rural) e as diferentes camadas da classe média, mais ou menos
identificadas com o status quo. Nesta polarização, as Forças Armadas não são representativas de uma
determinada classe. Todos os setores são privilegiados politicamente como condição para se garantir a
concentração do poder político no tope e para se assegurar a estabilidade da ordem social existente. Por
outro lado, eles absorvem as expectativas de papéis e as orientações de valor dos interesses estrangeiros
privados e da potência hegemônica externa, os Estados Unidos. Na polarização decorrente, as Forças
Armadas desenvolvem duas funções bem definidas. Primeiramente, suportam algumas condições de
estabilidade, exigidas pelo novo padrão de dominação econômica, cultural e política externa. Segundo,
decidem, no nível do poder político, a opção de classe dominante, em face do conflito entre capitalismo
e socialismo em nossa época.
É evidente, sob tais polarizações, que as Forças Armadas não iniciaram o processo de militarização
do Estado e das estruturas políticas como e enquanto grupo ou categoria social em si e para si. Sua
orientação foi (e é) determinada pela composição dos interesses privados e públicos, internos e externos,
com vistas a certas condições de estabilidade econômica, social e política, impostas em nome de uma
“transição segura” para uma nova forma de desenvolvimento capitalista dependente.
Por causa do caráter desta nova forma de desenvolvimento, as Forças Armadas estão, de fato,
identificadas com a modernização. Mas esta modernização, por sua origem, natureza e funções, é uma
expressão dinâmica dos interesses mistos internos e externos envolvidos. Primeiro, é uma modernização
controlada de fora, como uma fonte de neutralização permanente de qualquer tendência de crescimento
autônomo. Segundo, é uma modernização politicamente controlada pelos setores dominantes das classes
alta e média, portanto uma modernização que rende dividendos somente para esses setores e suas elites
no poder.
Seria atrativo explicar a orientação adotada pelos “homens de farda” em termos da “perspectiva
profissional”, do “atraso cultural” em relação aos civis mais nacionalistas, às manipulações
tecnocráticas e ditatoriais etc. Porém, na realidade, explicações desse tipo são superficiais e parciais. Os
“homens de farda” são unicamente variações de outros homens das mesmas classes. As profissões
militares, além disso, formam partes das mesmas largas oportunidades ocupacionais, abertas para essas
classes. Por outro lado, a educação dos “homens de farda” organiza-se de acordo com as expectativas de
poder e as orientações de valor básicas predominantes naquelas classes.
Deste ponto de vista, o que se liga, de imediato, à opção política das Forças Armadas é o horizonte
cultural inerente à maneira conservadora de raciocínio e de ação, profundamente enraizada, nos países da
América Latina, nas classes privilegiadas (alta e média). Esta forma de raciocínio e de ação
conservadora explica, igualmente, tanto a orientação egoístico-autoritária, quanto a acomodação passiva
diante das expectativas e imposições externas. Poder-se-ia dizer que o capitalismo dependente possui sua
própria tradição, de acordo com a qual a ideologia das nações hegemônicas, como regra de fato, torna-se
a ideologia das nações dominadas. Isto é óbvio, particularmente, no caso da ideologia do
“desenvolvimento com segurança”, claramente absorvida de fora.
É inquestionável que esta ideologia possui seus próprios elementos de falsa consciência social. No
entanto, é sabido que tal ideologia propagou-se primeiramente entre os civis. Seus elementos de falsa
consciência social são, por sua vez, típicos da concepção burguesa conservadora do mundo sob o
capitalismo dependente.
Não obstante, tais aspectos são deveras importantes para a compreensão “da revolução imposta de
cima e através da ordem”, perfilhada e praticada pelos “homens de farda”. Atrás da fachada, o novo tipo
de ditadura militar é uma composição de interesses internos e externos, estando profundamente orientada
para fazer o jogo como o fulcro e a garantia da estabilidade do sistema. Assim nós temos duas questões,
que merecem atenção especial. Primeiro, o uso calculado das Forças Armadas como um fator transitório
de extrema concentração de poder e de autoritarismo político. Segundo, os limites do “poder político-
militar”.
Considerando-se a primeira questão, os “homens de farda” foram usados politicamente (mais do que
tiraram proveito) pelas elites no poder existentes. A discussão acima evidencia os tipos de uso
envolvidos. Contudo, seria aconselhável especificar as áreas de uso estratégico do poder militar para
fins políticos.
A área mais importante é naturalmente a relacionada com os problemas da “grande burguesia”.
Ameaçada de dentro, pelo “populismo”, pela inquietação social e pelo radicalismo de esquerda, e
pressionada de fora, pela competição com ou através da absorção pela grande empresa corporativa, a
“grande burguesia” esteve perto de um colapso. A crise desgastou especialmente seus setores rurais e sua
base financeira. A ditadura militar tentou reorganizar a economia em sua totalidade, a fim de solucionar
tais problemas de um modo estrutural (favorecendo a transição gradativa do empreendedor rural para
outros tipos de negócios e dotando o mercado financeiro de maior elasticidade). Em adição, juntamente
com a depressão dos salários dos trabalhadores, ela adotou políticas de deflação que preenchem a função
de transferir a riqueza, organizadamente, dos grupos de baixa renda para o Estado e, por meio deste, para
algumas empresas públicas e privadas de importância econômica estratégica.
As classes médias foram contempladas de maneira acessória (excetuando-se os militares e os
tecnocratas das empresas públicas e privadas). Todavia, os problemas das classes médias aparecem em
dois níveis intricados: 1. de manutenção e ampliação dos seus privilégios relativos de renda, prestígio e
poder; 2. de consolidação do status de classe média em termos de mobilidade social vertical e de linha
de sucessão familial. Por causa desses problemas, as classes médias são, ao mesmo tempo,
conservadoras, frustradas e ávidas por poder. Apesar de suas pressões radicais, feitas por pequenas
minorias, e de seu ardiloso conservantismo dominante, as classes médias receberam apenas as migalhas.
Suas vantagens tomaram caráter indireto, graças às posições ocupadas pelos militares, os burocratas, os
tecnocratas e os políticos, extraídos das classes médias, nas novas estruturas políticas e nas renovadas
elites no poder. Na verdade, a dinâmica da militarização do poder e da modernização do Estado deu a
esses círculos, especialmente quando comprometidos com o “regime”, consideráveis ganhos em prestígio
social, poder e facilidade de consolidação do status, quase sempre alimentados por agências públicas
(como na educação, em oportunidades profissionais etc.).
A grande empresa corporativa estrangeira constitui um capítulo à parte. Essa empresa levanta uma
série de problemas como problemas econômicos, resultantes do padrão monopolístico de organização, de
seus lucros excessivos, e em muitos casos, de sua falta de importância em vista dos fins globais de
crescimento econômico nacional; problemas políticos, ligados à natureza do novo modelo de
desenvolvimento dependente sob o industrialismo, a desnacionalização das empresas locais, a política da
reinversão e remessa de lucros, e o maior de todos, a intromissão financeira, legal e governamental
sistemática dos países hegemônicos, especialmente os Estados Unidos da América na conformação e
controle do novo modelo de desenvolvimento econômico; e, por fim, problemas sociais, provocados pela
absorção irrestrita de tecnologia avançada, que contribui para poupar trabalho em países necessitados de
rápido aumento dos empregos, e pelos impactos negativos do novo modelo de desenvolvimento
dependente sobre a integração nacional do sistema econômico. Os dois problemas estratégicos foram
naturalmente impostos pela dinâmica da grande empresa corporativa e pelos controles financeiros, legais
e políticos, que ficam por trás dela. Em todos os países da América Latina, a expansão deste tipo de
empresa está associada a grandes sacrifícios internos, muito bem conhecidos. Quando ela atinge seu
clímax e poderia tornar-se uma fonte de pressões internas na expansão e reorganização do mercado
nacional, ela se volta para os mercados externos de outros países da América Latina, pressionando em
direção a uma política de exportação e de “integração regional”. Isto implica novos sacrifícios
adicionais e perda imprevista de capacidade de crescimento diferenciado e integrado (em nível de
economias nacionais). A ditadura militar é decididamente favorável a essa política econômica e a encara
como uma vantagem promissora. De outro lado, a grande empresa corporativa é um problema em si
mesma. Ela é tão poderosa, que sua expansão externa é uma ameaça permanente para a hegemonia
econômica e cultural dos países aos quais ela pertence. Por causa disto, os Estados Unidos estão
envolvidos em um complicado sistema de controle legal e político, de natureza tipicamente
autodefensiva, para evitar uma futura realocação do centro estratégico de operação das grandes empresas
corporativas. Este é o aspecto mais notável do florescente “Império Norte-Americano”: o controle
econômico externo é seguido de um controle político externo ainda mais poderoso. Em regra, a ditadura
militar é muito condescendente com ambos os processos e tende a avaliar a intromissão externa,
extensiva e intensiva, em assuntos nacionais, como uma questão de segurança interna! Sob este aspecto,
ela é mais leal à nova teoria de “poder e cooperação interdependentes” do que à soberania de suas
próprias nações. Como o processo total é tão complicado, os países subdesenvolvidos e dependentes da
América Latina não têm meios efetivos de contrarreação, dentro da ordem econômica e social existente.
Os resultados da Missão Rockefeller mostram que os setores privados do país hegemônico
compreenderam claramente o processo em sua totalidade. Eles estão conscientes de que algumas
estruturas econômicas, herdadas do velho sistema colonial, não podem ser adaptadas aos novos padrões
de dominação econômica e cultural. Por isso, toleram e até dão apoio à eliminação progressiva ou rápida
dessas estruturas, que se tornaram obsoletas e constituem um obstáculo para a completa reorganização da
economia capitalista na América Latina. As ditaduras militares, à semelhança de suas burguesias, tiram
pouco proveito mesmo destas tendências de desenvolvimento dependente, numa era de crise e transição.
As pressões internas que visassem a reformas democráticas foram consideradas como fonte de
desordem e como uma ameaça à proclamada “civilização cristã”. Essa polarização negativa dos setores
dominantes das classes alta e média tem um valor estratégico. A inquietação das massas urbanas e rurais,
os movimentos estudantis, o protesto católico e o radicalismo intelectual forneceram, em conjunto, o
bode expiatório para uma contrarrevolução sacrossanta. Todas as manifestações rejeitadas e reprimidas
de não conformismo foram paradoxalmente alimentadas por orientações de valor e por expectativas
sociais do tipo “revolução dentro da ordem”. Por isto, elas servem de barômetro para definir o caráter
particular da tirania de classe, que se impôs a si própria como uma “revolução”, e para avaliar-se a
forma resultante da opressão, que suprimiu até o modelo “pequeno-burguês” e “ilustrado” de
radicalismo.
Finalmente, uma última área engloba movimentos e atividades de revolução social propriamente dita.
Nos países em que prevalecem desigualdades sociais tão chocantes, como na América Latina, tais
movimentos e atividades podem facilmente atingir um ponto explosivo. Não existe lealdade popular para
com a ordem social estabelecida e a explosão em potencial é uma questão de oportunidade política. Não
obstante, como os Estados Unidos aprenderam de modo errado as lições da revolução cubana, suas
influências sobre o pensamento conservador e as Forças Armadas da América Latina tomaram uma
direção negativa. Elas engrandeceram e difundiram um medo pânico e uma drástica contraviolência. E,
de outro lado, elas oferecem uma boa desculpa e uma saída oportunista para os civis e militares
conservadores, que puderam justificar facilmente os golpes de Estado, a ditadura militar, o terrorismo
direitista e uma terrível repressão obscurantista. No entanto, o risco corrido pelas “instituições” e pela
ordem social estabelecida era mais imaginário que real. O medo pânico, contudo, preencheu duas
funções: 1. promover a identificação da sociedade civil com a militarização do Estado e das estruturas
políticas;
2. justificar o uso sistemático da violência organizada contra quaisquer pessoas ou grupos suspeitos de
atividades subversivas. A contraviolência permite, por sua vez, o uso planejado de um duplo mecanismo
de associação entre os setores dominantes das classes alta e média, as tiranias por eles instituídas e o
poder hegemônico externo dominante, os Estados Unidos. A repressão dos movimentos de reforma
democrática foi de importância estratégica para as classes alta e média das sociedades latino-
americanas. Contudo, a organização de uma contrainsurreição, através dos recursos humanos dos Estados
latino-americanos, mas com a ajuda externa, era de importância estratégica para os Estados Unidos e, em
menor grau, para as outras nações capitalistas adiantadas, envolvidas nas novas tendências de
desenvolvimento dependente. Como resultado dinâmico e estrutural desse duplo mecanismo, a
dependência transferiu-se rapidamente das esferas econômicas e culturais para os níveis políticos,
burocráticos e militares.
Em relação à segunda questão, os limites do “poder político-militar”, é óbvio que, em termos da
composição descrita, a militarização do Estado é um fenômeno contingente. Ela pode durar alguns anos.
Mas está condenada a desaparecer tão logo se torne desnecessária. Para adquirir realidade política
substancial, as Forças Armadas necessitariam novos tipos de alianças sociais e novas orientações de
valor. Mantendo-se as condições presentes, o poder militar não tem meios para impor sua vontade além e
acima do momento deliberado de omissão dos setores dominantes das classes alta e média.
ESTADO E SOCIEDADE EM TENSÃO

A ÚLTIMA QUESTÃO propõe os problemas políticos básicos. Seria impossível negar que a tendência
moderna descrita possui uma natureza verdadeiramente tradicional e profundamente enraizada. De fato,
ela é uma nova versão de um processo político, econômico e social arcaico. O novo tipo de tirania é a
forma assumida pela dominação, opressão e autoritarismo oligárquicos sob as condições históricas
presentes, nas quais alguns setores da classe média conseguem compartilhar dos privilégios e do poder
da classe alta. Talvez, uma melhor descrição sociológica seria um pouco mais complexa. O novo tipo de
tirania aparece como subproduto da transformação da dominação oligárquica em dominação plutocrática,
composta de interesses sociais, políticos e econômicos, públicos e privados, tanto internos quanto
externos. Contudo, a última descrição não muda a realidade do elemento arcaico, constituído pela
extrema concentração social da riqueza, do prestígio e do poder.
Os problemas que surgem da última questão estão relacionados com a dinâmica da ordem social
vigente, sob as condições que prevalecem na América Latina, e com a evolução das estruturas de poder
herdadas. De um modo amplo, temos duas realidades diferentes: um Estado lutando rigidamente para
estabilizar a ordem social existente, segundo certos interesses particularistas internos e externos; e uma
sociedade tentando destruir um Estado que se tomou uma camisa de força. Estas duas realidades estão em
irremediável conflito.
Sob este ponto de vista, a tirania oculta atrás da ditadura militar pode ser bem-sucedida e durar duas
ou três décadas (talvez mais, talvez menos, dependendo dos países da América Latina que se
considerem). Todavia, as posições militares e a natureza dos seus laços com a sociedade podem
transformar-se de maneiras diversas. De outro lado, os valores e as orientações políticas das classes
sociais, dos poderes hegemônicos externos e dos países socialistas em relação à América Latina podem
mudar, também, de maneiras diversas. A necessidade de articular interesses privados internos e externos,
de caráter divergente, e de lançar mão de golpes militares de Estado é, por si mesma, uma evidência
clara de que as pressões da sociedade contra a tirania estão se tornando muito “fortes para serem
enfrentadas por meios normais”. Não há razões para se admitir que essas pressões desaparecerão em
virtude da militarização do Estado e do poder político. Ao contrário, a rigidez de tal processo é
previsivelmente propícia ao fortalecimento de algumas tensões estruturais e ao aparecimento de conflitos
mais violentos.
Nem as Forças Armadas e os interesses privados externos e internos, nem os outros setores sociais da
sociedade (agora em silêncio ou subjugados), poderão permanecer continuamente em tal estado de
acomodação conflitante. Na realidade, o golpe de Estado pelas Forças Armadas é, por si mesmo, uma
mudança profunda, que está provocando o nascimento de novas formas de acomodação ou de conflito
grupal e de uma vasta socialização política dos militares. Então, poder-se-ia perguntar, quais seriam as
alternativas possíveis para o futuro, olhando-se as coisas a partir das composições de poder
predominantes? Aceitando distinções toscas, nós consideraríamos três arranjos típicos: 1. a estabilização
do novo padrão de opressão política e do novo regime autoritário; 2. a exacerbação do controle militar
do poder e, em consequência, das funções políticas e burocráticas do Estado; 3. uma revolução
socialista.
O primeiro arranjo atende aos requisitos políticos do modelo emergente de desenvolvimento
econômico e cultural dependente, vinculados ao capitalismo monopolista. O “desenvolvimento como
revolução”, dadas as presentes condições demográficas, econômicas, sociais, culturais e políticas da
América Latina, trabalha nessa direção. Portanto, se a composição dos interesses internos e externos
prevalecer a largo prazo, uma concentração social permanente do poder se imporá como uma condição
necessária. Nesse caso, o êxito do novo tipo de tirania dependeria de uma reação ativa dos setores civis,
com a substituição da antiga e exausta dominação oligárquica por uma dominação plutocrática, orientada
tecnocraticamente. Uma tal evolução produziria uma reorganização relativa do poder militar. Isto não
significa uma “devolução do poder” aos civis. Mas, talvez, um “aperfeiçoamento” do chamado modelo
mexicano, mediante uma adaptação da participação normal das Forças Armadas no núcleo das estruturas
de poder, especialmente no que respeita às exigências políticas, militares e policiais de repressão
contrainsurrecional. A combinação de um regime autoritário com a militarização de determinados
serviços públicos e de funções estratégicas do executivo é tão vantajosa para os interesses privados
internos e externos, que ela não será abandonada facilmente pelos setores dominantes das classes alta e
média ou pelos poderes hegemônicos externos. Portanto, a “restauração da democracia”, ou seja, o
restabelecimento do tipo anterior de opressão “liberal” é totalmente inviável. Isso exigiria um
crescimento econômico e cultural autônomo tão rápido e um controle tão completo de inquietação social
ou da insurreição política, que a “restauração da democracia” se torna impossível, enquanto “realidade
burguesa”. O grande dilema, para a elite no poder, militar e civil, é como conseguir participação e
suporte populares. O tão decantado e desejado modelo mexicano somente é realizável quando as massas
podem ser engoIfadas pelo fluxo de uma verdadeira revolução social.
O segundo arranjo é, de fato, muito complexo. Ele depende de fatores estruturais diferentes, dos quais
a reação dos “homens de farda” às mudanças em processo é apenas um dos elementos dinâmicos da
situação. Mas duas orientações extremas parecem ser mais ou menos imperativas, dado um malogro
definitivo na consecução do primeiro arranjo. Essas duas probabilidades são: a) um radicalismo
político-militar, seja como resposta à incapacidade de estabelecer-se o novo tipo de desenvolvimento
dependente sob o capitalismo monopolista, seja como um produto da predominância sectária de grupos
direitistas entre as Forças Armadas e os setores civis dominantes; b) a fermentação e a consolidação
graduais de um “nacionalismo revolucionário”, construído sob a proteção do poder militar.
Esses dois caminhos são tão antagônicos, que é difícil imaginar como eles podem ser produzidos pela
mesma situação histórica. Não obstante, os “homens de farda” foram projetados na arena do poder
político organizado. Suas atitudes, orientações de valor e comportamentos políticos sofrerão mudanças
dramáticas graças às experiências com o poder político e através de um conhecimento mais acurado de
seus países. Por causa disso, os setores sociais mais conservantistas e as influências externas estão
tentando intensificar algumas identificações morais dos militares com uma concepção pervertida de
“segurança nacional”. O objetivo é criar uma forte corrente para uma saída direitista, capaz de converter
rapidamente a militarização do poder político em um regime fascista acabado. As frustrações da
burguesia nacional e as fraquezas das massas poderiam contribuir, então, para uma espécie de
racionalização e modernização do antigo despotismo.
Entretanto, como os demais seres humanos, os “homens de farda” estão experimentando um processo
de ressocialização política. Eles estão aprendendo coisas novas não somente a respeito da “arte
política”, mas sobre iniquidades sociais que, de agora em diante, serão praticadas sob sua
responsabilidade política. Através da cooperação de técnicos e tecnocratas nacionais ou estrangeiros,
eles estão aprendendo novas técnicas sociais, novos modelos de organização institucional, e de mudança
planejada e controlada. Por outro lado, eles se viram moralmente envolvidos em “projetos nacionais” de
reforma social e politicamente expostos à corrupção, à crítica ou à aprovação dos setores populares etc.
Essas condições são favoráveis à emergência, aperfeiçoamento e difusão de um novo tipo de
“populismo”, um “populismo militar”. Desde que o “populismo militar” possa ser controlado pelos
interesses privados dominantes, internos e externos, ele é um mero fator de controle político autoritário a
partir de cima. Mas, como grupo social organizado e por causa de seu poder institucional, as Forças
Armadas têm maiores oportunidades de se esquivarem às pressões conservantistas. O processo pode se
iniciar como um processo típico de modernização do Estado e de suas funções; e pode terminar como
uma verdadeira revolução nacional. A evolução dessa polarização política depende de mudanças nas
identificações existentes dos militares com a lealdade conservadora, de mudanças de atitude dos setores
radicais, das classes alta e média diante dos “homens de farda” e da constituição de novas estruturas
políticas, capazes de integrar esse tipo de composição social. Pessoalmente, sou cético quanto a tal
perspectiva. Contudo, ela pode ser factível num contexto no qual algum progresso dos setores reformistas
e democráticos da sociedade pudesse liberar os assim chamados “setores nacionalistas” das Forças
Armadas. Nesse caso, ao invés de um “desenvolvimento dentro da segurança”, conservador ou direitista,
o “nacionalismo revolucionário”, sob a garantia do poder militar, poderia combinar desenvolvimento
autônomo com integração nacional. A questão é se o “populismo militar”, como aconteceu com o
“populismo civil”, não está condenado ao malogro, por falta de identificação com a revolução
democrática vinda de baixo.
O terceiro arranjo tem sido visto, depois das novas tendências de levantes militares, como um caminho
interceptado. Aceita-se geralmente que o uso político do poder militar, em combinação com a capacidade
dos Estados Unidos de intervenção maciça e imediata, em outros países, bloquearam qualquer evolução
para uma insurreição socialista na América Latina. De um ponto de vista objetivo, isto é um grosseiro
contrassenso, baseado em duas suposições falsas. A primeira, envolve um paralelismo superficial entre a
“Dominação Romana” e o “Império Norte-Americano”. Não existe fundamento para tal associação. Um
império alicerçado nos interesses capitalistas está por si mesmo condenado a mudar rapidamente e a ser
reconstruído de acordo com as transformações do próprio tipo de capitalismo. Desde o início, com
Veneza, Portugal, Espanha e Holanda, até os tempos mais recentes, com a Grã-Bretanha, França,
Alemanha ou Itália, as grandes reorganizações do capitalismo privilegiaram todas as formas de estruturas
políticas, inclusive a “nacional” e a “imperial”. Os Estados Unidos têm levado a vantagem de uma
tecnologia superavançada e de uma articulação capitalista internacional momentânea, catalisada pela sua
própria hegemonia dentro do “mundo capitalista” e pela duração do jogo de paciência russo dentro do
“mundo socialista”. Todavia, essas condições são condições históricas, instáveis pela sua própria
natureza. O que conta são os dinamismos intrínsecos do moderno capitalismo monopolista e os efeitos
estruturais da presente expansão do socialismo na organização do mercado internacional e na
sobrevivência do capitalismo. Negligenciando-se o último aspecto, é evidente que a dinâmica do
capitalismo monopolista é a mais perigosa ameaça enfrentada pelo “império norte-americano”, já que seu
poder e hegemonia se fundam no poder e hegemonia de umas poucas “grandes empresas corporativas”, os
verdadeiros “impérios”. Como estas “grandes. empresas” estão se espalhando e se internacionalizando,
seu futuro controle ecológico, econômico, legal e político é uma matéria imprevisível. Esta conclusão
mostra que alguns acontecimentos circunstanciais foram mal interpretados, talvez por causa da
inabilidade com que os Estados Unidos enfrentaram certos problemas internacionais e continentais,
dando prioridade à violência em ocasiões nas quais outros meios pacíficos deveriam merecer atenção
cuidadosa. No que se refere à América Latina, isto implica que os Estados Unidos serão crescentemente
forçados a uma política mais acomodativa e flexível.
O segundo contrassenso relaciona-se com a avaliação dos elementos básicos na constituição de uma
nova ordem social nos países da América Latina. Para os novos governos autoritários, o essencial é a
combinação da violência organizada com algumas mudanças estruturais, de interesse primário para os
setores dominantes das classes alta e média, para as empresas corporativas estrangeiras e para os
Estados Unidos. Não obstante, a violência organizada (mesmo sob condições de repressão brutal e de
opressão sistemática) não pode ser um fator permanente de equilíbrio social. Ela pode garantir um
período de extrema concentração social de poder e de controle político arbitrário da situação pelas elites
no poder. Entretanto, ela gera, por si mesma, fluxos reativos de contraviolência. O que é essencial, pois,
não é a violência em si mesma, mas o uso social das condições de estabilidade e de mudança controlada
durante o período de extrema concentração do poder. Sob as condições econômicas, sociais e políticas
predominantes, de privação absoluta ou relativa, o capitalismo seria favorecido pela negação da pobreza
e do desemprego aberto ou disfarçado. Oportunidades de trabalho estável assalariado, em grande escala,
e a integração à ordem social existente são exigências básicas da grande maioria silenciosa dos pobres,
nas áreas urbanas e rurais. Contudo, as reformas em processo, impostas pelo setor público sob liderança
militar ou realizadas pelos interesses privados internos e externos, por agências real ou supostamente
internacionais etc., estão primariamente relacionadas com objetivos particularistas dos setores
dominantes das classes alta e média das empresas corporativas estrangeiras, dos Estados Unidos e de
outras nações capitalistas avançadas. Essas reformas produziram, estão produzindo e produzirão alguns
efeitos indiretamente positivos nos setores populares. Porém, isto não é o bastante. As mudanças
requeridas pela situação são de caráter revolucionário (mesmo em termos de “uma revolução dentro da
ordem capitalista”). As mudanças em processo são de natureza contrarrevolucionária, como subprodutos
da predominância de uma composição de interesses particularistas internos e externos.
Isso significa que a extrema concentração de poder e o período de relativa estabilidade, produzidos
pela opressão ou pela repressão, não estão sendo utilizados de modo a conquistar, realmente, apoio e
participação permanentes da grande maioria silenciosa dos pobres. A frustração dessa maioria silenciosa
está aumentando rapidamente, mas em condições muito diferentes das do passado: o uso aberto da
violência pelos setores dominantes da sociedade, pelas organizações contrainsurrecionais conhecidas
como manipuladas do exterior, e pela tirania estabelecida criou uma nova realidade política. A maneira
tradicional de opressão foi desmascarada pelas elites no poder e a legitimidade da violência foi legal e
politicamente proclamada como um fim em si mesmo. Em poucos anos, os conservadores foram mais
úteis à causa da revolução socialista que todos os movimentos de esquerda, considerados em conjunto.
Os horizontes políticos das massas estão mudando de modo mais rápido que a ordem social. Se a
obstinação egoísta dos interesses particularistas predominantes permanecer cega às urgentes reformas
democráticas, necessariamente de grande escala, a explosão será uma realidade política nas próximas
décadas.
Sob tais circunstâncias, o poder militar confrontar-se-á com fissuras inteiramente novas. Agora, é fácil
distorcer o significado e as funções dos movimentos socialistas ou radicais. Eles são vistos como
“atividades antipatrióticas”, de grupos minoritários, financiados, orientados e controlados do exterior. E
eles continuam, na verdade, distanciados do apoio popular maciço. Sob outras condições, a distorção dos
fatos será inútil e a rebelião socialista ou radical se converterá em realidade histórica. Então, as Forças
Armadas não poderão manter-se tão fechadas e ao mesmo tempo tão protegidas diante da fermentação e
da explosão revolucionária. Sentimentos sociais e identificações nacionais pressionarão os “homens de
farda” primeiro em direção a uma “participação popular”; e muitos deles serão finalmente engajados na
revolução social, na construção de um mundo autônomo e democrático, negado aos países da América
Latina sob os tipos de colonialismo e neocolonialismo ligados aos vários estágios do capitalismo.
Esta discussão global mostra que não há sentido, quando consideramos a situação histórica como uma
realidade total, de pensar-se sobre o uso político do poder militar somente em termos de uma
determinada polarização. Especialmente quando o Estado e a sociedade estão numa tensão insuperável,
as polarizações políticas do poder militar podem tomar, rapidamente, diferentes direções. Mesmo nas
piores condições, os homens sempre têm possibilidades alternativas de escolha. Um controle militar
rígido do Estado e uma tirania de classe não são intangíveis. Ao contrário, eles forçam os “homens de
farda” a enfrentar problemas complexos e a tomar decisões difíceis. Ao enfrentar os problemas
complexos e ao tomar decisões difíceis, os “homens de farda” mudam suas identificações sociais, seu
horizonte cultural e o caráter de suas ações políticas. Sob esse aspecto, o assalto do poder pelos
militares não é o fim de um processo histórico, mas o começo de muitos outros processos históricos. Os
“homens de farda” veem-se engolfados nesses processos, através dos quais novas composições e
soluções surgem como uma necessidade social. Isso significa que eles não são os únicos agentes da
história. Porém, à semelhança dos outros homens, eles estão imersos nas formas existentes de
comportamento e de conflito grupais, das quais a história de uma sociedade emerge como produto da
atividade humana coletiva.
O INTELECTUAL E A DITADURA MILITAR

O INTELECTUAL NA AMÉRICA LATINA está tão intimamente ligado aos setores dominantes das classes alta e
média quanto o militar. Dependendo do país considerado, eles são primos, irmãos ou gêmeos. Por esta
razão, o “momento de omissão” da sociedade civil, que deu ao poder militar a dimensão política
descrita, foi claramente, também, um “momento de omissão” dos intelectuais. Eles estavam tão
identificados com o medo pânico e tão impregnados de ardor contrarrevolucionário quanto qualquer
outro círculo conservador das classes alta e média dominantes.
Poder-se-ia dizer que, como categoria social, os intelectuais pagaram um alto preço à nova forma de
tirania de classe e à repressão político-militar, e que um grande número de intelectuais esteve e está
envolvido na resistência política contra a existência e a consolidação do novo tipo de dominação
autoritária. Todavia, esta evidência revela uma dupla realidade. A exemplo dos “homens de farda”, os
intelectuais têm alguns segmentos radicais comprometidos com a democracia, as reformas estruturais e a
autonomia nacional. Por outro lado, a condição do intelectual ainda é um fator secundário de
diferenciação de papéis sociais, de ego-envolvimento e de orientações de valor. O intelectual é,
fundamentalmente, um “membro responsável” dos setores dominantes das classes alta e média, e quando
possível, um “cérebro pensante” leal e ativo da elite no poder.
Por isso, a militarização do poder encontrou (e vem encontrando) um apoio cada vez mais amplo e
forte, ao invés de oposição por parte dos intelectuais. Uma grande maioria estava (e continua a estar)
abertamente a favor da proclamada “revolução para salvar a ordem social”. Esse setor aproveitou a
situação para expandir a repressão militar e a opressão política, de modo aberto ou dissimulado, nas
esferas das atividades intelectuais. Outros setores mais ou menos largos gostariam de fazer as coisas de
“maneira civilizada”, sem violências e injustiças extremas, especialmente no nível da “liberdade
intelectual”. No entanto, esses setores também encaravam a situação em termos de “interesses de classe”
e de “lealdade de classe”, encarando as medidas excepcionais contra os intelectuais como um preço
necessário, aceitando mesmo alguns papéis repressivos para “preservar as instituições” ou para
“proteger aqueles que pudessem ser defendidos”!
Apenas uma minoria se opôs à militarização do poder em nome de orientações de valor intelectuais
especificamente abstratas. Uma pequena parte dessa minoria tinha uma autêntica orientação liberal-
conservadora. Alguns entre eles desafiaram o poder militar ou tentaram ativar, secretamente, uma espécie
de organização de autodefesa (em nome da “liberdade intelectual” clássica). Porém, um grande
contingente daquela minoria seguiu os radicais, a verdadeira intelligentsia da América Latina,
“oponentes do sistema” e, por esta razão, inimigos conscientes da ditadura militar e da florescente tirania
de classe. Eles foram (e estão sendo) esmagados através de várias formas de repressão policial, de
opressão política e de discriminação intelectual. Não foram, todavia, destruídos ou aniquilados. Ao
contrário, a crise expurgou esses intelectuais de seus elementos espúrios, aumentou sua solidariedade e
amadureceu sua percepção política da realidade.
A situação exposta poderia ser descrita e interpretada, sociologicamente, sob diferentes pontos de
vista. No entanto, estamos interessados nas conexões estruturais e dinâmicas existentes entre o regime
autoritário e os intelectuais. Por esta razão, discutiremos aqui somente três questões básicas: 1. os fatores
diretos e indiretos que produziram o autoenvolvimento e a orientação coletiva dos intelectuais na direção
das tendências assumidas pela militarização do poder; 2. o mecanismo de recrutamento e compensação
dos intelectuais comprometidos com a construção da “infra” e da “super” estruturas de um regime
autoritário; 3. as razões para o malogro dos intelectuais da América Latina, durante e depois do período
de crise.
A enumeração e a análise completas dos fatores relacionados com a primeira questão é impossível.
Grosso modo, os fatores mais importantes são indiretos: as posições e papéis intelectuais acham-se
ramificados através dos status privilegiados das classes alta e média. Em consequência, os intelectuais
ficam permanentemente expostos a interesses, a ideologias e a valores que, por sua própria natureza, são
intrinsecamente conservadores, no sentido de que fazem parte do horizonte cultural conservantista dos
setores dominantes das classes alta e média. Isso não significa que eles sejam contra a “modernização”
ou “inimigos da mudança social”, mas que a posição de classe e as orientações de classe dos intelectuais
tendem a ser mais uma função da estabilidade da ordem social existente, que das exigências específicas
de suas atividades culturais, diletantes ou profissionais. Eles podem estar engajados nos processos de
modernização e de mudança cultural. Mas tal engajamento possui limites restritos: 1. a preservação do
status quo, em períodos de estabilidade social; 2. o controle político da modernização e da mudança
social, pelos setores dominantes das classes alta e média, em períodos de crise. Por isso, os intelectuais
não representam uma força cultural de toda a sociedade. Exercem suas atividades construtivas na
qualidade de força cultural dos setores sociais que formam a sociedade civil na América Latina, ou seja,
a parte “integrada” das sociedades nacionais a que pertencem. Essa função dirige suas atividades
construtivas para objetivos intelectuais neutros ou para fins intelectuais positivamente ligados à
continuidade e ao fortalecimento dos privilégios das classes alta e média.
Esse fator indireto foi, na realidade, a fonte dinâmica do ajustamento dos intelectuais à “necessidade”
dos golpes de Estado militares e dos seus principais “motivos de reconhecimento” para com a
militarização do poder político. Entretanto, por detrás de suas atitudes, comportamentos e orientações de
valor predominantes, há uma situação estrutural que fragmenta as atividades intelectuais em posições e
papéis que carecem, como tais, de qualquer autonomia social e de qualquer poder político inerente de
autodeterminação. Essa situação estrutural engendra uma imagem específica dos “intelectuais”, na qual a
facilidade com que é conquistada a estima pública e um prestígio quase ritual, mediante a publicação de
obras escritas, e a impotência associada a mecanismos compensatórios de frustração e de sublimação
constituem os dois lados de uma mesma moeda. Suponho que é a situação estrutural — mais do que o
controle externo, imposto através e pelos setores dominantes da sociedade — que explica
sociodinamicamente o complexo padrão de conservantismo, inerente aos papéis intelectuais. O que é
importante considerar-se, desse ponto de vista, é que o isolamento dos intelectuais gera uma exclusão dos
papéis intelectuais na dinâmica da história, da cultura e da sociedade. A “tradição liberal” torna-se um
escudo, que os protege dos riscos de uma participação social aberta e responsável como intelectuais. O
isolamento origina uma “torre de marfim”, cuja função consiste em acomodar os intelectuais às
expectativas de papéis sociais e aos controles societários externos. Portanto, o isolamento não funciona
como uma fonte dinâmica de autoafirmação intelectual, de um poderoso pensamento abstrato
revolucionário (ou, pelo menos, crítico). Ele funciona, antes, como instrumento de autoneutralização e
autocastração, que organiza as atividades intelectuais como formas culturais do pensamento conservador.
Através desta situação estrutural, pois, uma sociedade civil conservadora conforma as atividades
intelectuais criadoras à sua própria realidade histórico-cultural.
Isso explica por que o pensamento conservador é um produto sociodinâmico da organização das
atividades intelectuais; e consequentemente, por que a grande maioria dos intelectuais está
substancialmente do lado dos golpes de Estado militares e da militarização do poder, em vez de se
acharem em oposição frontal às restrições ou à supressão da “liberdade intelectual”. Entrementes, o
sistema institucional, ligado à produção, transmissão e difusão de conhecimento, também está
subordinado aos privilégios sociais das classes alta e média e às suas orientações de valor
conservantistas. Há pouco interesse numa discussão ampla desse aspecto — a elite cultural conservadora
imprimiu uma estrutura conservadora e funções conservadoras às instituições ligadas aos meios de
comunicação de massa, à educação, à pesquisa científica ou tecnológica etc. Por isso, tão logo os golpes
de Estado se encontraram em preparação, um plano coerente, voltado para o uso estratégico daquele
sistema institucional, foi elaborado e posto em prática com êxito. O centro desse esforço baseou-se na
combinação, bastante complexa, dos serviços secretos das Forças Armadas, dos movimentos intelectuais
direitistas apoiados pelos interesses privados internos ou externos, das agências de contrainsurreição
norte-americanas, de algumas empresas de pesquisa social comercializada ou aplicada etc. O que
interessa à presente discussão é a conglomeração dos motivos intelectuais predominantes, que foram tão
decisivos para os desígnios dos serviços secretos e estados-maiores das Forças Armadas.
Em todos os níveis, o sistema institucional organizado em torno de objetivos intelectuais esteve, e está,
enfrentando uma crise interna. Em todas as instituições, um elemento comum de crise é a “diferença de
gerações”, que na América Latina assume um caráter dramático de conflito dos jovens contra formas
abertas ou disfarçadas de controle gerontocrático do poder. Foi verdadeiramente fácil unir os interesses
dissimulados das elites intelectuais neste nível, em nome da “defesa da ordem”. Um segundo conflito
importante apareceu nas universidades, nas quais os melhores representantes das profissões liberais
viram-se confrontados com as exigências de um novo padrão de trabalho de tempo integral. Neste nível,
de novo, os interesses dissimulados encontraram proteção sob a bandeira da “defesa da ordem”. Em
algumas instituições dedicadas à pesquisa científica e tecnológica há um conflito entre duas tendências
diferentes: a pesquisa considerada como um meio honorífico de se obter bons salários e prestígio, em
contraposição à pesquisa empenhada no avanço do conhecimento original. Aqui, os interesses
dissimulados triunfaram, rotulando a devoção ardente à pesquisa científica e tecnológica como “ameaça
comunista” aberta ou camuflada. De modo geral, a competição profissional e o conflito social
envolveram motivos intelectuais na zelosa “defesa da ordem”. Nessas circunstâncias, os interesses
dissimulados transformaram-se, no seio dos círculos intelectuais, em armas venenosas. Eles impediram,
ao mesmo tempo, qualquer espécie de resistência intelectual efetiva contra o obscurantismo ou qualquer
espécie de solidariedade intelectual genuína. Os três exemplos fornecem uma clara evidência de duas
coisas diferentes: 1. as instituições organizadas em torno das atividades intelectuais constituíram cenário
dos mesmos conflitos que impeliram os militares aos golpes de Estado e à militarização do poder
político; 2. essas instituições foram usadas em proveito dos interesses escusos predominantes, para
apoiar tanto os golpes de Estado militares, quanto a militarização do poder político. Consideradas em
seus níveis de atividades “profissionais” ou “culturais”, as elites intelectuais aparecem como agentes da
contrarrevolução burguesa e o “braço pensante” do poder militar.
A segunda questão, concernente aos mecanismos de recrutamento dos intelectuais envolvidos na
construção dos regimes autoritários emergentes, coloca dois problemas diversos. Um, relacionado com o
período de “conspiração”, no qual os intelectuais conservadores foram gradualmente absorvidos pelos
serviços secretos e os estados-maiores das Forças Armadas. O outro relaciona-se com o período de
organização e de consolidação da militarização do poder político.
As recentes mudanças da tecnologia bélica, do padrão de guerra e de envolvimento dos interesses
rnilitares na pesquisa científica e tecnológica deram origem a um processo mais complexo de
intelectualização dos militares. Sob o patrocínio dos Estados Unidos, esse processo teve uma influência
concentrada na América Latina: os militares tornaram-se os campeões de uma teoria simplificada de
“desenvolvimento dentro da segurança” e, também, os “policy-makers” de uma concepção pervertida de
“associação interdependente”, que desempenhou uma função básica na organização política de seus
países na década de 1960. À semelhança dos outros setores das elites civis no poder, os intelectuais
foram maciçamente absorvidos pelas agências culturais e pelos “contatos” militares durante o período de
“conspiração”. Através de tais processos, pelo menos os melhores representantes dos intelectuais
conservadores sofreram algum tipo de doutrinação militar e de ressocialização política autoritária. Além
disso, as chamadas elites culturais foram preparadas não só para dar sua aprovação aos golpes de
Estado militares, pois elas também estavam identificadas, politicamente, com a militarização do poder e
predispostas a aceitar a liderança política dos militares nos termos que estes propunham, isto é, sob
regime autoritário.
Por causa disso, o recrutamento de intelectuais para cooperar na construção de um novo regime
autoritário não enfrentou dificuldades. A realização desse objetivo seria, sob quaisquer condições, muito
fácil em países tão minados por um conservantismo obscurantista, fortes interesses particularistas de
classe e uma classe média ávida por poder. Por outro lado, a transição para o novo padrão de
industrialismo dependente criou sua própria esfera de racionalidade, na qual os intelectuais podem
encontrar diferentes áreas de realização criadora e uma arena de poder. O fluxo da cooperação
intelectual, leal e entusiasta ou fria e calculada, ultrapassou todas as expectativas (e mesmo as
probabilidades existentes de absorção útil). Alguns atritos surgiram, destruindo a ilusão de que “a
restauração da ordem” envolveria rápido restabelecimento do controle civil do poder político, e
provocando o retraimento dos intelectuais que fizeram o papel de “inocentes úteis” ou de “aliados
perigosos”. Mas, a massa dos intelectuais “conservadores” (“liberais” ou “neutros”) mostrou uma grande
tolerância, proclamando sua fé na “ordem revolucionária”.
Os atritos tiveram diferentes motivos. Para os intelectuais, o mais importante era (e é) a emergência,
entre os militares, de uma elite contraintelectual. Isso indica que os militares estão dispostos a criar seus
próprios intelectuais — para acabar com a competição intelectual em volta de posições de força e para
estimular o monopólio militar parcial das melhores oportunidades intelectuais. Outra causa importante de
atritos foi (e é) o estilo militar de controle e liderança. O mecanismo vertical de decisão imposta do tope
e de mando parece chocante e limitativo, mesmo para os intelectuais mais servis. Finalmente, os militares
esposaram uma visão sectária e puritana dos seus papéis como “policy-makers”. Eles fazem consultas
formais e informais em “alto nível”, ou seja, no nível das elites no poder (incluindo as elites culturais).
Mas, demonstram pouca flexibilidade em pontos já assentados por suas doutrinas preestabelecidas e não
revelam qualquer disposição para as “discussões acadêmicas”. Em conjunto, esses atritos dão um sabor
amargo à participação do poder político-militar. Não obstante, os militares conhecem as vantagens
básicas da especialização, da cooperação disciplinada, e da modernização do Estado. Sob sua
responsabilidade, o regime autoritário está se tornando um Estado tecnocrata de múltiplas faces. Isto
implica uma miríade de oportunidades para os intelectuais de “mentalidade aberta” e tolerantes. No fim,
eles perdem o sentido de dignidade, inerente à posição do intelectual na sociedade. Mas ganham poder
“vivo”, como lacaios do poder político-militar institucionalizado.
Os mecanismos de recompensa repousam, portanto, em oportunidades a serem mantidas ou em novas
vias de acesso aos diferentes níveis de poder. Os intelectuais “revolucionários” — aqueles que estão
identificados com os golpes de Estado militares e com a militarização do poder político — podem ter
uma desculpa. Eles olham a si próprios como agentes do novo tipo de leviatã, como os cérebros
pensantes das Forças Armadas, e como “a inteligência do regime”. O mesmo poderia ser dito em relação
aos técnicos e aos cientistas envolvidos na tecnocratização do poder político-militar (do Estado e das
Forças Armadas, à educação, a meios de comunicação de massa, à economia etc.). Eles se veem — e
são, realmente — a “verdadeira inteligência” daquele leviatã, a elite cultural que está emergindo com e
através do regime autoritário militar. Mas eles possuem, adicionalmente, uma ideia clara de que podem
sobreviver politicamente sem o poder militar. Os dois setores intelectuais mencionados estão
construindo, sob a dominação militar, com a cooperação dos interesses privados internos ou externos, e o
auxílio do poder continental hegemônico, os Estados Unidos, uma versão latino-americana aperfeiçoada
do salazarismo e do franquismo.
Por aí se vê que o antigo tipo de intelectual “liberal” e o tipo moderno de intelectual “tecnocrata”
estão unidos na mesma causa e são compensados pelos mesmos meios. Algumas vezes, contam com as
mesmas origens sociais ou culturais e alimentam interesses profissionais abertos ou dissimulados
similares. Contudo, o último setor tem mais em comum e identifica-se mais com os militares; sem contar
que um regime autoritário moderno pode produzir mais dividendos para ele, independentemente de
qualquer ônus moral ou político. Através de semelhante regime, os intelectuais do último setor estão
construindo mais do que as estruturas políticas e administrativas da ditadura militar. Eles estão tentando
construir o tipo de economia, de sociedade e de Estado nos quais poderão ser, sob o capitalismo
industrial dependente, uma poderosa elite cultural.
A terceira questão, as razões de malogro da intelligentsia latino-americana, levanta muitos problemas
que não podem ser discutidos aqui. Para evitar mal-entendidos: eu acredito que parte dos intelectuais
constituiu uma intelligentsia verdadeira, orientada na direção de uma percepção e de uma explicação
crítica da realidade e da construção de uma concepção negativa do mundo, oposta à ordem social
existente, baseada em extrema concentração da riqueza, do prestígio e do poder no tope, e numa grande
massa de iniquidades sociais e de miséria; e voltada para reformas democráticas ou para a revolução
social. A situação externa dessa intelligentsia explica sua falta de consistência, sua fraqueza intelectual,
e sua irracionalidade política. Ela é o produto de interesses de classe e de ideologias divergentes: os
intelectuais ilustrados, de origem “burguesa” ou “pequeno-burguesa”; a moral radical, de extração
católica ou de outras raízes religiosas e humanitárias; o jovem rebelde, em sintonização com os
diferentes movimentos modernos de protestos de geração; os intelectuais definidamente comprometidos
com atividades e ideologias de esquerda, do anarcossindicalismo e do socialismo às várias correntes
atuais do comunismo; os tecnocratas politizados, fascinados pela “revolução da ordem social” através do
poder político organizado e do capitalismo de Estado etc. Assim, devido à sua composição social,
padrões culturais e identificações políticas, a emergente intelligentsia latino-americana constitui mais
uma congérie que um todo diferenciado e articulado. Não obstante, apresenta certos laços de
solidariedade intelectual e de associação política. E, o que é mais importante, ela é um setor ativo dos
intelectuais, cuja influência vem crescendo rapidamente nas últimas quatro décadas graças à sua enorme
capacidade criadora, de fermentação e de produção intelectuais. Por essa razão, foi o único setor dos
intelectuais que tentou desenvolver, primeiro, a desobediência civil sistemática e, mais tarde, uma
oposição aberta contra golpes de Estado militares e a militarização do poder político.
As razões que explicam o apoio dado pelos intelectuais à contrarrevolução também explicam o
malogro da intelligentsia latino-americana. Na falta de condições para um envolvimento permanente dos
pobres no seio do poder organizado institucionalmente, nos processos culturais de integração nacional e
nos movimentos de protesto social, aquela intelligentsia não conta com o apoio social necessário. Os
chamados “setores radicais” da classe média podem oferecer um cenário, algumas condições de
comunicação de massa e uma estreita base política. Não obstante, como são uma minoria desorganizada e
instável, até agora mostram-se mais capazes de fazer face às frustrações da própria classe média, que de
abrir caminho para as reformas democráticas ou a revolução social. Por conseguinte, a intelligentsia
latino-americana usa o vácuo político e o tipo de liberdade criados pela ordem social existente para fins
conservadores e para a dominação autocrática. Assim que os setores dominantes das classes alta e média
perceberam os riscos inerentes à existência, ao crescimento e às atividades de tal intelligentsia, existiam
duas coisas que eles podiam fazer facilmente: 1. a supressão do vácuo político (através de uma
superconcentração do poder); 2. restrição da liberdade para os interesses e valores políticos da elite no
poder (mediante uma superestimulação dos mecanismos existentes de opressão de classe). Se a situação
histórica fosse diferente, essas duas medidas não seriam exequíveis (o que significa que os golpes de
Estado militares e a militarização do poder seriam impedidos através da ação social dos setores
“radicais” das classes médias e dos pobres). Mas na situação dada, ambas as medidas foram impostas
sucessivamente e a intelligentsia latino-americana perdeu, por algum tempo, seu débil sustentáculo
social e suas oportunidades para uma influência aberta.
A análise anterior demonstra que a fraqueza básica da intelligentsia latino-americana é um produto
estrutural e dinâmico de suas inter-relações com as elites culturais existentes. Para ser livre e
revolucionária, uma intelligentsia precisa romper, parcial ou totalmente, com as classes dominantes e
suas elites no poder. Mas a intelligentsia latino-americana é predominantemente composta de
profissionais ligados à ordem social através de posições de classe média (a grande maioria) e alta (uma
pequena minoria). Como as sociedades não possuem garantias de liberdade institucionalizadas e reais,
esse setor não pode empreender uma luta independente pela democracia, pela reforma social e mesmo
pela “revolução nacional”. As implicações negativas de tal situação são muito complexas, uma vez que
as identificações sociais e as orientações de valor das classes médias, dentro de uma sociedade
capitalista de consumo em massa subdesenvolvida, ultrapassam o nível político. O estilo de vida e as
expectativas sociais predominantes produzem um compromisso com o uso conspícuo do tempo e com
objetivos políticos ou culturais que estão em contradição com uma atitude de negação da ordem social.
Esta situação provoca algumas incongruências insuperáveis, tais como um radicalismo tipicamente
compensatório e outras irracionalidades, que resultam da ambiguidade do “esquerdismo” nas sociedades
capitalistas subdesenvolvidas. A “negação da ordem” toma simultaneamente formas diferentes, desde a
“consolidação da democracia” e da “revolução através do desenvolvimento” (ambas “revoluções dentro
da ordem”) até a revolução social. Tais alternativas confundem opções políticas, ideológicas e utópicas
exclusivas, dando origem a um pensamento não conformista politicamente ineficiente.
O malogro da intelligentsia latino-americana reflete, de fato, o malogro de suas sociedades, com
respeito à sua organização interna e à sua evolução como sociedades competitivas. A minoria dos
privilegiados controla o poder político através de uma sociedade cívica parcialmente fechada. A maioria
dos pobres e da gente marginalizada ou semimarginalizada constituem congéries destituídas de poder. A
intelligentsia foi incapaz de superar a brecha histórica e sua oposição à contrarrevolução apenas inicia o
caminho em direção a uma nova era. Na qualidade de único setor entre os intelectuais que opôs
resistência aos golpes de Estado militares e à militarização do poder político, ela foi parcialmente
esmagada e banida de suas funções culturais estratégicas. Em resumo, os intelectuais não constituíram
problema para a ditadura militar e para a nova tirania de classe. Eles deram apoio à nova tendência com
lealdade ou por interesse. Os que ficaram com a democracia e na oposição eram demasiado fracos para
organizar uma reação interna. Por isso, foram derrotados quase sem luta, embora não tenham se rendido,
até agora, diante da violência militar e da contrarrevolução “burguesa”.
OS PAPÉIS POLÍTICOS DOS INTELECTUAIS

A CARACTERÍSTICA POLÍTICA básica do novo tipo de ditadura militar e de tirania de classe é a supressão,
inibição ou controle legal e policial de todas as garantias e liberdades que são “normais” em uma
sociedade competitiva e eram consideradas “essenciais” pelos setores dominantes das classes alta e
média, nos países mais avançados da América Latina. Esse endurecimento do controle formal e esta
restrição ou extinção da liberdade não foram planejados para suprimir as condições da ação política
eficaz da elite no poder. Ao contrário, foram impostos como um mecanismo para impedir o uso possível
das garantias e liberdades preexistentes em termos dos interesses e orientações de valor de outras
classes, especialmente para evitar mudanças estruturais e reformas democráticas reclamadas pelos
“setores radicais” das classes média e baixa, urbanas ou rurais. Em consequência, a transição autoritária
tem uma função bem definida: instituir as condições sociais, culturais e políticas sob as quais aquelas
garantias e liberdades podem ser usadas “seguramente”, para os fins dos setores sociais dominantes e
suas elites no poder. Em termos sociológicos, isso significa que as elites culturais têm um campo seguro,
amplo e aprovado de atividades intelectuais. Essas atividades não foram (nem poderiam ser) abolidas.
Como requisito da transição para um novo padrão de desenvolvimento econômico e cultural dependente,
é necessário introduzir novas formas de atividades intelectuais e substituir ou mudar as formas antigas.
Assim, o regime autoritário aparece em conexão com uma inevitável ampliação e modernização das
atividades intelectuais, em um período de rápida diferenciação dos papéis dos intelectuais e de intensa
inovação na esfera cultural. Os regimes autoritários não são (nem poderiam ser) contrários a esses
processos. Eles são somente contra o controle de tais processos pelos intelectuais, porque isso poderia
significar a perda do controle da situação pelos setores sociais dominantes.
Enfim, a dominação militar e o novo tipo de tirania de classe modificaram as condições de
recrutamento, trabalho e influência dos intelectuais, impondo-lhes que adaptassem suas atividades e
papéis sociais às funções de uma elite cultural sob um regime autoritário. O objetivo consiste em integrar
os intelectuais às elites no poder, dentro dos limites e dos fins da tirania de classe existente. A
reorganização do mundo das atividades intelectuais é, assim, um dos aspectos dos processos mais amplos
de reorganização das estruturas econômicas, sociais e políticas. Isso põe duas questões básicas para a
nossa discussão: 1. que círculos intelectuais serão capazes de aceitar ou de desafiar manipulações tão
substanciais? 2. Quais são as linhas políticas alternativas de ação e opção abertas aos intelectuais?
Em referência à primeira questão, é necessário encarar a situação presente de uma perspectiva bem
ampla. Alguns sociólogos, por convicções ideológicas ou suposições teóricas, refutam a existência tanto
de uma revolução burguesa quanto de uma integração nacional como processo revolucionário nos países
da América Latina. Em minha opinião, nas sociedades capitalistas subdesenvolvidas, a revolução
burguesa ocorre como um padrão de evolução estrutural, seja do seu capitalismo dependente, seja de seu
sistema correspondente de classes. De outro lado, a integração nacional pode ser expandida dentro das
possibilidades estreitas de uma revolução burguesa controlada do exterior, já que ela pode ser a fonte de
tensões econômicas, sociais e políticas de caráter revolucionário (como uma “revolução dentro da
ordem”, que poderia associar alguma forma do “socialismo de acumulação” com um desenvolvimento
autônomo das estruturas nacionais, agora estranguladas sob o capitalismo dependente). O novo estilo dos
regimes autoritários surgiu (ou está surgindo), na América Latina, como requisito político para a
intensificação da revolução burguesa sob impulso e controle externo, na fase do industrialismo
financeiro. As atitudes e orientações de valor dos intelectuais diante desse regime são e serão,
crescentemente, uma função de suas polarizações de classe. As tendências em processo estão produzindo
um novo tipo de capitalismo industrial na América Latina. Mas, ao mesmo tempo, elas estão produzindo
novas formas de dependência externa e de neocolonialismo. As estruturas nacionais estão sofrendo e
sofrerão novas modalidades de estrangulamento e deterioração em proveito dos interesses privados
internos e externos.
O que poderia ser considerado a amplitude política do comportamento crítico dos intelectuais, nesta
dada situação histórica, não é nem determinada pelo próprio regime autoritário nem por qualquer virtude
inerente aos intelectuais como um todo. O regime autoritário é “instrumento político” de uma tirania de
classe e a militarização do poder constitui o único meio pelo qual ela poderia ser eficientemente
realizada. A reação política (positiva, negativa ou “neutra”) dos intelectuais a um regime autoritário,
como foi visto, é primordialmente uma questão de interesses de classe. Como os intelectuais estão
fragmentados em diversas congéries e sofrem um envolvimento moral e político predominante pelo status
quo, sua avaliação da ditadura militar é, sociodinamicamente, moldada pela estrutura dos interesses de
classe dos setores dominantes das classes alta e média, a curto ou a largo prazo. Da mesma forma, os
intelectuais carecem de autonomia social e de homogeneidade cultural, especialmente em questões
políticas decisivas. Os intelectuais desempenham seus papéis específicos de conformidade com “as
regras do jogo”, estabelecidas fora do mundo intelectual, por vezes até em termos extraintelectuais. Não
obstante, algumas instituições (especialmente as universidades) podem “proteger” algumas poucas
atividades intelectuais independentes, de significação política, ou com implicações políticas, em
diferentes níveis da cultura e da modernização.
A polarização de classe dos papéis dos intelectuais, despertada e fortalecida por controles políticos e
morais circunstanciais, de natureza extraintelectual, gera condições de frustração amarga, de
desorientação e desmoralização. Os setores intelectuais ligados às classes dominantes e à elite no poder
contam com possibilidades definidas para a sublimação de tais tensões. Através da identificação social,
cultural e política com os interesses de classe das classes dominantes, eles são capazes de absorver as
tensões e de assumir papéis políticos velhos ou novos no seio de um regime autoritário de dominação e
de governo. O mesmo processo é aberto a outros setores intelectuais, que operam nos campos “neutros”
das atividades intelectuais (ou que se consideram “comprometidos de modo puramente intelectual”).
Esses setores também são capazes de absorver as tensões e de assumir papéis políticos velhos ou novos
de uma maneira tipicamente racional (em termos de interesses calculados; ou em nome dos “interesses da
nação”, dos “interesses da ciência”, dos “interesses da educação” etc.) no seio do regime autoritário.
Nos diferentes casos, tais papéis políticos não estão isentos de exigências intelectuais específicas. Isso
significa que os círculos intelectuais, anteriormente mencionados, podem desempenhar alguns papéis
políticos construtivos — para a emergente tirania de classe e seu regime autoritário, mas também em um
sentido amplo, para o crescimento da cultura. Os setores intelectuais que estão ligados às classes
dominantes, mas se opõem à ditadura militar, embora pequenos em número e politicamente
insignificantes, estão na pior situação. Como abandonaram seus interesses de classe e seus papéis dentro
da elite no poder e carecem de uma linha de oposição consistente à ditadura militar, eles são destruídos
pela ambivalência de sua posição. As frustrações geram confusões morais e pessimismo sistemático,
dando origem a uma superavaliação das atividades intelectuais como refúgio e fim em si mesmas. Os
papéis políticos abertos a esses setores são indiretos (dentro do mundo “intelectual”: as universidades,
organizações de pesquisa, casas editoras, serviços técnicos públicos ou privados etc. e, como artifício
neurótico, a febre da produtividade intelectual).
Os setores que formam a intelligentsia, estritamente falando, estão numa posição mais difícil. Eles
carecem de meios de absorção de suas frustrações e são sobrecarregados com expectativas de controle e
de ação conflitantes, impostas pela ditadura militar ou pelos grupos radicais e por si próprios. A situação
global cria uma tempestade de fricções, desilusão e desorientação moral.
Aqueles que ainda se acham protegidos institucionalmente podem tentar uma “reversão neutra”,
envolvendo-se em atividades intelectuais de significado político apenas latente (de “importância” para
os estudantes, para a ciência, para o futuro da instituição, para o desenvolvimento da nação etc.). O
caráter compensatório dos ajustamentos não elimina a importância dessa orientação, como uma frente
silenciosa de resistência, tanto contra a tirania de classe, quanto contra o regime autoritário. Aqueles que
se viram engajados politicamente em movimentos organizados, radicais ou de esquerda, também estão
protegidos, em certo grau, pelo menos contra a autodesintegração e a desmoralização pessoal. Eles
podem preencher papéis políticos bem definidos e construtivos, negando e opondo-se à ditadura militar
através de atividades intelectuais clandestinas. Aqueles que perderam suas posições e agiam como
franco-atiradores enfrentam uma dura escolha: a solução oferecida por uma “reversão neutra”, sem
sustentação ou proteção institucional (a qual implica uma retratação dissimulada e a aceitação aberta de
uma acomodação política dentro do “sistema”); ou a solução oferecida pela “radicalização política”,
através da incorporação a movimentos radicais ou revolucionários subsistentes.
Essa enumeração demonstra que, nas presentes condições, a tirania de classe dominante: 1. possui
controle externo sobre as atividades intelectuais e sobre as funções políticas dos intelectuais na
sociedade; 2. tem controle interno dos papéis políticos dos intelectuais, requeridos pela
superconcentração do poder no nível dos setores dominantes das classes alta e média e pela
militarização do poder político. Em consequência, os regimes autoritários, sob a dominação militar,
possuem poder suficiente para produzir o tipo de intelectual de que necessitam. Sob esse aspecto, a
questão não é de “falta de papéis políticos” dos intelectuais, mas de uma sistemática corrupção, através
da qual os intelectuais estão sendo transformados em lacaios políticos de uma tirania de classe e de sua
ditadura militar. Em contrapartida, só poucos representantes da pequena mas estimulante intelligentsia
preservaram alguns papéis políticos tolerados ou proibidos, a um alto preço em sacrifícios pessoais, e
com pequena eficácia e sob riscos crescentes de marginalização. Eles não são capazes de desafiar e
destruir, por si mesmos, os novos regimes autoritários. Porém, podem desempenhar seus papéis políticos
em diversos níveis, desde as atividades intelectuais organizadas institucionalmente aos movimentos
clandestinos de oposição e rebelião. Sua força e influência políticas não são produto de números, mas da
qualidade e da necessidade. A fraqueza fundamental do tipo descrito de tirania de classe e a iniquidade
da ditadura militar, sua sustentação política exterior, estão dando (e darão cada vez mais) maior
importância aos papéis políticos da intelligentsia latino-americana.
Quanto à segunda questão, as linhas políticas alternativas de ação e de opção abertas aos intelectuais,
seria necessário considerar as diferentes probabilidades de evolução da presente situação política.
Alguns papéis específicos dos intelectuais e suas implicações políticas indiretas (para o
desenvolvimento da pesquisa científica, da educação, do planejamento etc., ou para empreendimentos
abstratos) não foram afetados. Eles sofreram uma mudança de orientação, em consequência do novo
padrão de dominação econômica e cultural externa. As esperanças de crescimento cultural autônomo e de
uma “revolução intelectual” através da ciência, da tecnologia avançada e da educação democrática serão
basicamente destruídas. Mas, aqueles papéis e suas implicações políticas indiretas são inerentes ao
sistema de instituições da “civilização tecnológica moderna”. Acham-se estrutural e dinamicamente
protegidos: aumentarão quantitativamente e qualitativamente, mediante um novo tipo de modernização
dependente, controlada do exterior. De outro lado, a tirania de classe e os regimes autoritários militares
não são contra “o homem de saber” em si mesmo. Apenas empenham-se em controlar ou destruir o assim
chamado homem de saber “rebelde” e o desenvolvimento do “conhecimento crítico” sobre a sociedade.
Porém, se a superconcentração e a militarização do poder atingirem seus objetivos políticos, sob o novo
modelo de dominação econômica e cultural externa, surgirá algum tipo de equilíbrio político, e com ele o
intelectual “rebelde” e o “conhecimento crítico” reaparecerão na cena histórica. Talvez “o homem de
saber” será um pouco mais cauteloso; e os setores dominantes da sociedade e de suas elites no poder um
pouco mais tolerantes. O essencial é o fato de que a “civilização ocidental moderna” não pode
sobreviver sem os intelectuais “rebeldes” e o “conhecimento crítico”. Eles fazem parte do seu padrão de
continuidade através de mudanças permanentes e rápidas. Isto também é verdadeiro para o presente e
para o futuro dos países da América Latina.
De toda a discussão precedente depreende-se que os golpes militares de Estado e a militarização do
poder só destruíram algumas condições históricas das atividades intelectuais. Não suprimiram nem os
intelectuais, enquanto categoria social, nem a intelligentsia, de modo particular. Como a revolução
burguesa está numa etapa crítica de transição, a integração nacional ainda se encontra ameaçada pela
dominação externa ou pervertida pelos efeitos estruturais do capitalismo dependente; a pobreza ou
miséria de milhões continuam a ser uma realidade crua; e a resposta a esse desafio social, o uso da
violência, atingiu o seu clímax ao nível do poder político organizado. Portanto, os papéis políticos dos
intelectuais estão adquirindo e adquirirão de maneira crescente uma nova dimensão histórica. Não
importa o tempo que durem, os regimes autoritários são somente instrumentos equivalentes ao Estado-
tampão — são governos-tampões. Eles estão criando maiores problemas econômicos, sociais e políticos
de que os que podem resolver, especialmente nas condições da América Latina. Por causa disso, os
“intelectuais não conformistas” serão chamados, talvez mesmo pelos militares, mas certamente pelas
novas composições do poder, para participar dos processos políticos necessários à revolução
democrática, requerida pelos países da América Latina.
Deve-se considerar, no entanto, que o significado, as funções e as manifestações sociais do
“radicalismo intelectual”, e o envolvimento dos intelectuais no uso político da violência sofrerão
algumas mudanças previsíveis. Até agora, o “radicalismo intelectual” foi uma simples expressão de
atritos absorvidos pelas elites no poder. Uma intelligentsia expurgada e marginalizada, nas condições de
crescimento e de proteção proporcionadas pelas atividades políticas clandestinas, afasta-se por sua
própria natureza da “normalidade” das elites culturais. Em relação ao uso da violência, os países da
América Latina estão agora alcançando um ponto crítico de transição na história: o monopólio da
violência pelos setores dominantes da sociedade, por meios institucionais mais ou menos dissimulados,
atingiu seu clímax num período em que a violência começou a ser moralmente combatida (inclusive por
“círculos conservadores” da Igreja católica) e ameaçada politicamente pela confrontação ativa. Sob tais
condições, o “radicalismo intelectual” defronta-se com a necessidade política da contraviolência e
converte-se em fonte do pensamento revolucionário sistemático. No cerne do dilema político, criado pela
tirania de classe e seus regimes militares autoritários, está um processo de radicalização política do
intelectual “não conformista” e o engajamento revolucionário da intelligentsia. A superconcentração do
poder político e o uso irracional da violência não deixam outra alternativa aos intelectuais envolvidos na
luta por uma democracia verdadeira. A derrota da tirania de classe e a destruição de seus regimes
autoritários, por quaisquer meios possíveis, converte-se em papel político primário não só dos
“intelectuais” — ou do seu setor comprometido politicamente com o não conformismo, a intelligentsia
— mas do homem comum.
Não obstante, as diferentes probabilidades políticas, mencionadas acima (cf. “Estado e sociedade em
tensão”), merecem alguma atenção nesta discussão. A presente situação é uma fase de transição
politicamente perigosa para os setores sociais dominantes, para os interesses externos privados e para o
poder hegemônico continental, os Estados Unidos. Como não existe possibilidade de “protesto popular”
e de “crítica livre”, as atividades terroristas e de guerrilha tornam-se, de modo crescente, um equivalente
funcional da democracia. Esta situação politicamente perigosa impõe alternativas contraditórias: a
radicalização da opressão e da repressão; e uma confusa busca da transição segura para um novo padrão
de desenvolvimento industrial dependente sob o capitalismo monopolista. O quadro criado por tal
situação, entre os intelectuais, acabou de ser descrito. Para os setores sociais dominantes, os interesses
privados externos e os Estados Unidos, o que realmente interessa é a segunda alternativa (a primeira é,
para eles, apenas um “mal necessário”). Não é fácil alcançá-la e ela não pode ser alcançada na mesma
extensão e do mesmo modo em todos os países da América Latina. Contudo, o que fica absolutamente
claro é que ela não pode ser atingida sob e através da violência organizada, mas somente por meio do
crescimento econômico rápido, da mudança social acelerada e da modernização cultural intensa.
Se esses fins puderem ser alcançados (através de uma cooperação competitiva vigorosa entre as
Estados Unidos, alguns países europeus e a Japão) os golpes de Estado e a militarização do poder
político lograrão êxito. Sob novas condições econômicas, sociais e culturais, a tirania de classe
adquirirá flexibilidade política e meios eficientes e indiretos para estabilizar, organizar e controlar o
poder, com uma grande margem de “participação política”, “mobilização de massa” e “governo
representativo”. Será uma realidade política onipresente, mas invisível. Dado que a transição significará
a aceitação de um estado de neocolonialismo moderno, os atuais fatores de tensões sociais internas e
externas subsistirão, alguns com uma força mais aguda e explosiva. Além do mais, todos os setores
intelectuais adquirirão papéis políticos. Os setores conservadores dos intelectuais, porque ver-se-ão
envolvidos no processo de “nativização” dos centros de decisão do poder; os setores inovadores dos
intelectuais, especialmente os técnicos, os tecnocratas e os cientistas “neutros”, porque estarão
interessados na “nacionalização” dos centros de decisão do poder. Ambos os setores desempenharão
papéis políticos normais dos intelectuais nos países dependentes: tentando ajustar politicamente a
“revolução nacional” às condições econômicas, sociais e culturais emergentes, com vistas a um estágio
mais complexo e avançado do capitalismo dependente. A intelligentsia, por seu turno, enfrentará os
mesmos problemas sociais e dilemas políticos da América Latina de hoje, porém em condições políticas
piores. A aceleração do crescimento econômico e cultural, sob o controle externo e a persistência de uma
extrema concentração social de riqueza, prestígio social e poder não serão de grande ajuda na solução
desses problemas. Todavia, mudanças simultâneas em diferentes aspectos de economia, da sociedade e
da cultura, com um aumento geral das oportunidades de trabalho (para as classes média e baixa),
provavelmente terão efeitos inibidores sobre as “tendências radicais” dos movimentos sociais. Não
obstante, a percepção social e o padrão de crítica da pobreza, da falta de participação popular, ou da
exploração externa serão mais refinados e exigentes. A intelligentsia deverá adquirir politicamente mais
do que o que está perdendo através da presente repressão e extermínio. Ela poderá ser melhor sucedida,
portanto, na aquisição de novos papéis políticos, em três níveis simultâneos: 1. as pressões em favor de
uma verdadeira democracia, em todas as esferas da vida social; 2. as pressões contra o impacto negativo
da extrema concentração da riqueza ou do poder, e da exploração externa na integração e autonomia
nacionais; 3. as pressões em favor de reformas estruturalmente igualitárias e da revolução social. O
“sistema” necessitará de tais tipos de manifestações do radicalismo político, como um artifício
adaptativo para pressionar, ao mesmo tempo, os interesses privados internos e os controles políticos
externos.
Parece que o malogro nessa direção, como vimos, poderá contribuir para uma inevitável exacerbação
do controle militar do poder político. As alternativas mencionadas — um extremo endurecimento
direitista da ditadura militar ou sua transformação num “populismo militar” — possuem significados
muito diferentes para o desempenho político dos intelectuais. Sob a primeira probabilidade, as
tendências seriam intensificadas. Os setores “velhos” e “modernos” dos intelectuais, em termos de
interesses dissimulados e de comportamento racional, estariam literalmente comprometidos na
construção de uma versão “colonial-fascista” dos regimes autoritários militares existentes. Certo uso
“nacional” e “radical” de ambos os setores poderia estar em harmonia com uma “política patriótica”
predatória. A intelligentsia, como tal, estaria condenada à destruição completa ou a ser “usada” para tais
fins “patrióticos”. Entretanto, essa alternativa possui um elemento positivo: uma radicalização extrema e
“profissional” das atividades políticas clandestinas da intelligentsia. Os intelectuais ativistas se
tornariam militantes revolucionários, lutando para a “restauração da democracia” ou para a “revolução
socialista”. Sob a segunda probabilidade, os papéis políticos dos intelectuais sofreriam alguma
convulsão. De fato, apesar do proclamado “nacionalismo revolucionário”, o populismo militar é uma
forma disfarçada e débil de concentração e organização direitistas do poder. Sua importância resulta de
certos compromissos abertos e sistemáticos em face da participação popular, da política nacionalista e
anti-imperialista, mudanças sociais estruturais e planificadas etc. Tais compromissos não só criam
tendências voltadas para a integração nacional; sob pressões de massa, eles podem impelir alguns
círculos das elites no poder (inclusive os militares) e a sociedade nacional na direção de um capitalismo
de Estado, do reformismo democrático, ou do socialismo. Grande parte do “velho” setor dos intelectuais
ficaria marginalizada, mas o seu setor “moderno”, imerso em processos de decisão nacional, como
componente de uma burocracia tecnocrática, voltar-se-ia para o “radicalismo” político e para a
“esquerda”. A intelligentsia se veria, então, congestionada pela elevação de aderentes e politicamente
solapada e pervertida. Mas teria diferentes probabilidades de desempenho político construtivo, e pelo
menos sua verdadeira esquerda poderia assumir algumas polarizações políticas decisivas.
A tendência para uma revolução socialista, no contexto histórico latino-americano, como em outros
países subdesenvolvidos, não é exatamente um “produto inerente às contradições do capitalismo”. Essa
seria uma imagem clássica, de um ponto de vista europeu ou alienado. Em todas as nações
subdesenvolvidas, e isso mesmo nas que são mais orientadas pelo capitalismo e relativamente mais
avançadas (a exemplo de alguns países latino-americanos), o que conta não são as “contradições
intrínsecas” do capitalismo, mas o fracasso relativo do capitalismo para enfrentar os problemas sociais e
os dilemas políticos dessas nações. O capitalismo dependente é incapaz de sobrepujar a pobreza crônica
e generalizada, a marginalização sistemática de milhões, a falta permanente de integração nacional, e a
exploração externa crescente. As razões para tal fracasso são estruturais. A “revolução dentro da ordem”,
através do desenvolvimento, é impossível: 1. sob a extrema concentração social da riqueza, do prestígio
social e do poder; 2. Sob o controle externo espoliativo do crescimento econômico, da modernização
cultural e da política “nacional”. As ditaduras militares atuais e seus possíveis sucedâneos não podem
evitar um colapso futuro (que poderia ser evitado unicamente se uma revolução burguesa autônoma
ocorresse, como sucedeu nos Estados Unidos e no Japão). A consciência política de tal situação histórica
não foi alcançada por todos os intelectuais. No entanto, os círculos intelectuais mais maduros e resolutos
da intelligentsia latino-americana estão aprendendo, através de experiências concretas.
De um lado, estão descobrindo os meios potenciais da revolução socialista na América Latina (tão
diversos dos outros modelos “clássicos”, já conhecidos). Por outro lado, estão acumulando novos
conhecimentos sobre a estrutura e a dinâmica do sistema de classe sob o capitalismo dependente, ou seja,
conhecimentos que constituirão a base para uma teoria viável da revolução socialista na América Latina.
Ambos os tipos de aprendizagem e de pensamentos revolucionários são muito importantes para esses
círculos da intelligentsia. Isso porque eles não irão concentrar os seus esforços exclusivamente em uma
oposição estreita e superficial contra os regimes autoritários militares: o alvo de seus ataques será a
tirania de classe, produzida por uma revolução burguesa permanentemente abortiva, incapaz de atingir os
caminhos e os fins de um desenvolvimento capitalista autossustentado e relativamente autônomo.
Enquanto os regimes autoritários militares podem se tornar instrumentais para outros intentos políticos,
sob condições históricas diversas, a influência política de uma intelligentsia verdadeiramente
revolucionária também pode contribuir para uma percepção melhor da realidade histórica e para a sua
transformação social pelo comportamento revolucionário da massa. Esse é, talvez, o papel político
específico de uma autêntica intelligentsia, que se ache disposta a participar do destino social e das lutas
de povos impiedosamente brutalizados.
Apesar do meu envolvimento pessoal e de minhas inclinações políticas ou ideológicas explícitas,
tentei traçar uma perspectiva objetiva da situação do intelectual diante dos golpes de Estado militares e
da militarização do poder. Por essa razão, todas as polarizações possíveis ou em potencial dos papéis
políticos dos intelectuais foram consideradas, seja em termos de defensores ou de opositores dos regimes
autoritários militares. Não obstante, a intelligentsia mereceu maior atenção. A razão de tal ênfase é fácil
de se entender. Um estudo sociológico engajado desse fenômeno deveria ser não só uma tentativa de
caracterizaçao empírica e de explicação teórica, mas também, acima de tudo, uma análise das condições
através das quais a ordem social, que gerou a necessidade histórica de coisas como a tirania de classe e
(em consequência) os regimes autoritários militares, pode ser destruída. A intelligentsia encontra-se, ao
mesmo tempo, sob a maior pressão e no centro da oposição política a tal ordem social. Seus papéis
políticos ativos, em seus aspectos negativos (como negação daquela ordem social), e em seus aspectos
positivos (como afirmação de uma ordem social igualitária e democrática), exigiram atenção cuidadosa.
Não só porque ela compreende os “rebeldes responsáveis”, mas porque ela está tentando se unir à
maioria silenciosa dos pobres e oprimidos, para a construção de um novo tipo de sociedade.
CAPÍTULO 4

A UNIVERSIDADE
EM UMA SOCIEDADE EM
DESENVOLVIMENTO
NOTA EXPLICATIVA

ESTE ENSAIO FOI ESCRITO em 1966 e destinava-se a um livro sobre A universidade na América Latina,
organizado por Joseph Maier e Richard W. Weatherhead.[55] Cabia-me discutir algumas relações da
situação do ensino superior e da organização da universidade com a transformação da sociedade
circundante. Outros temas ficaram a cargo de autores diferentes, o que explica a sua negligência ou
localização muito sumária no presente trabalho.
É obvio que os dados empíricos se referem aos materiais que me eram acessíveis no Brasil até 1966.
A atualização do quadro de referência empírica está, naturalmente, fora de cogitações. Isso implicaria a
redação de um trabalho novo. O tópico 2, sobre o que se poderia chamar de “a universidade tradicional e
sua transformação”, não exigiria qualquer alteração. Conviria agregar à leitura, em particular, um livro
de José Carlos Mariátegui (Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. Tradução de S. O. de
Preitas e C. Lagrasta. São Paulo: Alfa-Omega, 1975, pp. 95-105), recém-publicado em português (não só
para o leitor avaliar por si próprio o atraso com que o movimento de reforma universitária se
desencadeia no Brasil; também para que ele tome contato com a amplitude pedagógica, intelectual e
política daquele movimento na América Espanhola da década de 1920). É com relação ao tópico 3 que
os dados que servem de base à análise envelheceram. Todavia, a técnica analítica (que constitui uma
parte importante do trabalho) mantém sua atualidade; ela abriu margem a reflexões que ainda hoje são
úteis e que, por sua vez, não perderam consistência, quando se considera o período ao qual se aplicavam.
A alteração da posição do Brasil, naquele quadro global, se fez mais quantitativamente que
qualitativamente (veja-se F. Fernandes. A universidade brasileira: reforma ou revolução? São Paulo:
Alfa-Omega, 1975, esp. pp. 33-37). Pela natureza do assunto, o tópico 4 deveria ter envelhecido, pois as
relações entre universidade e desenvolvimento se alteraram, em virtude da expansão do capitalismo
monopolista. Não obstante, a contrarrevolução, que eclodiu em todos os países nos quais a “democracia
burguesa” parecia prestes a consolidar-se e expandir-se, abortou alterações de maior significado. O
ensaio, que pareceu “pessimista” a vários colegas que o leram (inclusive com referência às expectativas
reformistas e revolucionárias despertadas pela rebelião da juventude), hoje pode ser avaliado como
objetivamente crítico (evidenciando que o autor não se curvou às suas esperanças como e enquanto
socialista militante). Em seu livro acima citado se encontra matéria para aprofundar as reflexões com
material mais recente (esp. caps. 3, 4, 6 e 8). Não teria propósito atualizar a bibliografia utilizada.
Todavia, pelo menos alguns poucos livros merecem ser salientados: Darcy Ribeiro. A universidade
necessária (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969), La universidad peruana (Lima: CENTRO, 1974);
Tomás A. Vasconi e Inés Reca. Modernización y crisis en la universidad latinoamericana (Santiago:
CESO, 1971); François Bourricaud. La universidad a la deriva (Caracas: Fundación Eugenio Mendoza,
1971); Huascar Taborga. Mito y realidad de la universidad boliviana (La Paz: Cochabamba, 1970);
Marialice M. Foracchi. A juventude na sociedade moderna (São Paulo: Pioneira, 1972). É impraticável
fazer uma atualização da bibliografia sobre o papel da juventude radical e dos movimentos estudantis.
Pelo menos os seguintes artigos devem ser mencionados, como ponto de partida: Marialice Mencarini
Foracchi. “Ideologia estudantil e sociedade dependente” (Revista Mexicana de Sociologia, vol. XXXI, nº
3, 1969) e “Estudante e política no Brasil” (Aportes, Paris, nº 7, jan. 1968); Ian Weinberg e Kenneth N.
Walker. “Student politics and political systems” (The American Journal of Sociology, vol. 75, jul. 1969);
Ted Goertzel, “American imperialism and the Brazilian student movement” (Youth & Society, vol. 6, nº 2,
1974). Como um marco na descrição da violência na repressão do inconformismo estudantil: Salvador
Hernández, El PRI y el movimiento estudantil de 1968 (México: El Caballito, 1971).
A universidade sempre esteve em relação tensa com os estratos dominantes e com o obscurantismo na
América Latina. Mesmo a “universidade tradicional” não escapou à incompreensão e a algumas
represálias, que certas vezes atingiram seriamente os elementos mais representativos do corpo docente
ou as tentativas mais ousadas dos estudantes. No entanto, as crises que se inauguram no após-1930 e, em
especial, as repercussões da chamada “guerra fria” no continente, antes e particularmente depois da
revolução cubana, expuseram a universidade latino-americana a formas sistemáticas e institucionalizadas
de repressão e de opressão, malgrado as tendências conservadoras do corpo docente e sua propensão
suicida à capitulação passiva. Como consequência, a fermentação em processo no meio estudantil e entre
os intelectuais mais esclarecidos (e mais ou menos radicais) tornou-se um capítulo da ultraviolência,
sendo sufocada no nascedouro. Sempre me coloquei à frente dos que acham que a função do intelectual
consiste em negar a ordem, em nome do pensamento crítico e das forças de transformação revolucionária
da sociedade de classes. Se esses temas não comparecem na presente discussão ou só aparecem em
termos de certas conexões da mudança social com a seleção das funções sociais construtivas da
universidade, isso se deve aos aspectos do assunto que me cabia abordar. Minha participação no
movimento da reforma universitária iria intensificar-se e radicalizar-se somente em 1967 e 1968,
alterando toda a minha perspectiva do assunto. O ensaio, como um todo, no entanto, não foge a tudo que
tenho tentado fazer de minha vida, em constante confrontação com o pensamento conservador e o controle
externo da universidade.
F.F.
1º de setembro de 1975.
INTRODUÇÃO

A AMÉRICA LATINA não é um todo homogêneo. Nem econômica, nem social, nem culturalmente se poderia
falar numa “unidade histórica básica” das diferentes sociedades nacionais, que constituem o “mundo
latino-americano”. Em conjunto, como sucede com o “mundo europeu”, o “mundo africano” ou o “mundo
asiático”, ao se pensar sobre a América Latina como um todo fazemos uma simplificação, sobrepondo
certas semelhanças fundamentais a outras tantas diferenças, que não são menos fundamentais.
Se fizéssemos um balanço crítico, as semelhanças e as diferenças não se compensariam nem se
neutralizariam. Ao concretizar seu “destino nacional”, cada sociedade latino-americana forjou algo que
não pode ser diluído no patrimônio comum, embora lance nele suas raízes. Por conseguinte, cada
sociedade nacional possui a “sua” ou as “suas” universidades e não pretendemos omitir esse fato. Em
termos de organização, funcionamento e valores tais universidades dificilmente poderiam ser reduzidas a
uma mesma realidade, sem perderem o que as caracteriza nos respectivos cenários nacionais e o que lhes
dá o vigor que explica, a um tempo, as suas grandezas e as suas misérias.
Não obstante, vários fatores de natureza histórica e sociocultural dão sentido e justificam uma
discussão integrativa, desde que se tenha em conta que tal discussão deverá ser meramente preliminar e
exploratória. No estado atual dos nossos conhecimentos sobre a América Latina é inviável proceder a
análises comparadas verdadeiramente específicas e rigorosas. Isso não impede que se tente uma espécie
de “diagnóstico da situação global”, de caráter abstrato e geral, com fundamento naqueles fatores e em
razões analíticas que aconselhem a ignorar as diferenças que não sejam relevantes para o diagnóstico.
Atendo-nos ao essencial, três são os fatores que podem justificar tal intento com referência às
conexões porventura existentes entre universidade e desenvolvimento. Primeiro, há um elemento que, se
não é propriamente homogeneizador, pelo menos cria certa uniformidade histórico-cultural. Trata-se do
padrão de civilização vigente e de suas tendências de implantação e de evolução nas sociedades
nacionais da região. Através da conquista, da colonização e dos ideais políticos de emancipação
nacional, os diferentes países latino-americanos assimilaram a civilização ocidental moderna e
desenvolveram-se, organizatória e estruturalmente, em função de seus padrões de vida econômica, social
e política. Por esse motivo, em todos eles a universidade responde a necessidades psicológicas, sociais e
culturais altamente similares e tende a dar a mesma contribuição fundamental ao equilíbrio da ordem
social ou à sua evolução histórica. Segundo, malgrado seu êxito relativo na absorção e na expansão da
civilização ocidental moderna, em todos esses países os efeitos do passado colonial e da persistente
dependência econômica diante do exterior conduziram a uma escassez crônica de recursos materiais,
financeiros e humanos, que geraram e continuam a gerar dificuldades por assim dizer típicas na esfera
cultural do desenvolvimento econômico, social e político. Em consequência, embora a intensidade dos
sucessos e dos malogros marcantes sejam variáveis, todos os países se defrontam com dilemas
educacionais muito parecidos e com problemas universitários análogos. Terceiro, os modelos
institucionais vigentes, particularmente no setor educacional e com respeito ao ensino universitário,
possuem as mesmas origens e sofrem os mesmos percalços. Extraídos inicialmente do estoque cultural
ibérico, sofreram renovações durante o ciclo da emancipação política (sob a predominância da influência
francesa, ocasionalmente substituída ou suplementada pela influência alemã ou inglesa) e recebem, agora,
o impacto da posição hegemônica dos Estados Unidos. Em todos os casos, as instituições universitárias
transplantadas tiveram de adaptar-se, estrutural e dinamicamente, a situações histórico-sociais que
selecionaram positivamente apenas algumas de suas funções essenciais (aquelas que fossem compatíveis
com o estilo social de vida predominante). Essa circunstância histórica mas repetitiva limitou,
reconhecidamente, as potencialidades construtivas da educação escolarizada (inclusive e principalmente
ao nível do ensino superior) e restringiu o alcance de sua contribuição positiva para o desenvolvimento
econômico e sociocultural.
Essa breve enumeração sugere, por sua vez, que a análise sociológica do tema corre o risco, ao
concentrar-se nos elementos comuns, de desembocar em um quadro de “realismo pessimista”. As
limitações e as dificuldades avultam sobre as realizações produtivas e as facilidades. Isso nos aconselha
a deixar patente que não compartilhamos de nenhuma espécie de negativismo ou de derrotismo, na
apreciação dos dilemas econômicos, sociais e culturais da América Latina. No que concerne aos seus
problemas educacionais, pensamos não só que eles são normais, no melhor sentido sociológico dessa
noção. Estamos convictos de que eles poderão e deverão ser resolvidos gradualmente, dadas certas
condições econômicas, sociais e políticas que os diferentes países latino-americanos ganharão,
progressivamente, por vias capitalistas ou socialistas.
Em nosso entender, a herança cultural recebida da Europa possui dois aspectos contrastantes. De um
lado, ela foi altamente vantajosa, compensadora e estimulante, pois forneceu aos latino-americanos o
mais alto patamar civilizatório alcançado pelo “homem moderno”. Contudo, o fato de essa herança
cultural carecer de profunda e complexa adaptação às condições materiais e morais de vida existentes na
região, mais ou menos impróprias aos desígnios criadores do homem como “portador de cultura”,
ocasionou problemas de dinâmica cultural que ainda não foram suficientemente investigados. O homem
desgastou uma grande parcela de suas energias e de sua capacidade inventiva tentando criar condições
para a mera preservação de sua herança cultural. No fundo, o que se conseguiu, ao longo de uma
evolução secular, representa um marco na história cultural da humanidade; e merece ser avaliado como o
principal feito da “expansão do mundo ocidental moderno”, no que tange a essa parte do Novo Mundo.
Essas reflexões se aplicam especialmente às aspirações educacionais, aos padrões de socialização
escolarizada e às instituições de ensino superior. A esse respeito, seria recomendável e útil que se
abandonasse o vezo de se estabelecerem confrontos superficiais entre os avanços das nações adiantadas
da Europa ou dos Estados Unidos com os países da América Latina. O fato de aquelas aspirações,
padrões e instituições terem vingado, adquirindo condições locais ou regionais de autodesenvolvimento e
de aperfeiçoamento constante, é um índice que fala por si mesmo. O homem não só venceu a adversidade.
Logrou plantar profundamente as raízes mais delicadas e complexas de sua civilização nas árduas e
toscas condições de existência com que se defrontava. Não só ficou fiel a um ideal de vida e às suas
implicações educacionais. Ganhou, por esse caminho, o único meio pelo qual poderia converter-se em
senhor dos processos civilizatórios e lançar-se, com o correr do tempo, à conquista do futuro.
O critério de exposição adotado prende-se à natureza da análise, que concentra a atenção sobre certos
aspectos comuns, que podem ser abstraídos sem perder seu significado descritivo e interpretativo do
ponto de vista sociológico. Todavia, ele também se recomenda em termos de considerações empíricas,
pois a documentação acessível ainda não é suficiente para dar margem a tentativas de síntese mais
ambiciosas, especialmente no plano teórico. Na verdade, não pretendemos outra coisa senão projetar o
leitor dentro de um “logos cultural”. Por isso, procuramos caracterizá-lo, com o rigor possível, através
de atributos ou de tendências mais conhecidos atualmente, com a esperança de que a bibliografia
disponível (em parte resumida no fim deste livro) possa servir como ponto de partida para esclarecer a
sua curiosidade e aprofundar indagações que não podiam ser feitas nos limites da presente discussão.
A UNIVERSIDADE LATINO AMERICANA
E SEU CONTEXTO HISTÓRICO SOCIAL

AS INSTITUIÇÕES MAIS ANTIGAS, devotadas ao ensino superior, na América Latina (algumas vezes
organizadas como “seminários”, “escolas” ou “faculdades”, outras como “universidades”, no mundo
colonial ou depois da emancipação política),[56] têm sido submetidas a uma crítica implacável, mais
passional e indiscriminada que propriamente realista e relativista. O teor ultrassevero das críticas
explica-se facilmente. Elas surgiram numa época em que a organização e o rendimento daquelas
instituições estavam superados, ou seja, em que os seus modelos estavam condenados pelas exigências da
situação, embora isso não fosse geralmente reconhecido e aceito. Principalmente ao longo das duas
primeiras décadas do século XX, em que o problema da reforma universitária se impõe na escala de
movimento social, até a década de 1930, em que as influências da pedagogia moderna atingiram o seu
ápice, a crítica negativa e violenta da antiga universidade adquire o sentido de um estilo de pensamento
e de ação. Os analistas estrangeiros reforçaram essa tendência, na medida em que examinavam o ensino
superior latino-americano sem procurar as causas histórico-sociais e econômicas de suas insuficiências
ou deficiências e em que negligenciavam, generosamente, a existência de males análogos nos países que
contavam como doadores dos modelos vigentes de ensino superior. Se fizessem uma comparação
rigorosa, teriam descoberto que, na Europa, as limitações apontadas também existiam, ainda que em
outras proporções, e que seus efeitos negativos não eram sanados através da estrutura e funcionamento
das instituições de ensino superior, mas pelo modo através do qual a sociedade ambiente aproveitava o
talento e a contribuição positiva da universidade.
O fato é que se chegou a uma imagem da antiga universidade latino-americana que constitui uma
distorção e uma aberração, qualquer que seja a parcela de verdade contida nas proposições críticas mais
ou menos objetivas. Não podemos dar atenção ao processo intelectual pelo qual se chegou a essa
imagem, nem discutir o significado e as funções que ele preencheu, construtivamente, na renovação do
seu objeto. No entanto, é preciso que comecemos por assinalar a sua existência, pois isso é indispensável
para que se possa compreender, adequadamente, que as instituições de ensino superior da América Latina
nunca estiveram dissociadas dos contextos histórico-sociais em que se formaram e nos quais evoluíram.
As suas características, que passaram a ser impugnadas pelos setores mais avançados do corpo docente,
pelos intelectuais preeminentes e pelos estudantes, provinham em larga parte do condicionamento do
meio socioeconômico e cultural e tinham muito que ver com as atitudes de autocrítica e de renovação,
sustentadas pelos movimentos de “autonomia universitária”. Se elas não possuíssem nenhuma dimensão
positiva, é claro, o bloqueio da percepção crítica e das iniciativas inovadoras seria total; e o impasse
obrigaria a superar-se a situação pela criação de novas instituições (e não pela reforma das antigas).
Isso posto, parece evidente que adotamos uma perspectiva relativista e compreensiva, diante da
formação e da evolução das escolas superiores, faculdades e universidades latino-americanas. As
conclusões da análise efetuada não permitem esclarecer, de modo específico, quais foram as influências
qualitativas e quantitativas dessas instituições na transformação a largo prazo das sociedades de que
faziam parte. Que elas exerceram tais influências é patente, como se verá em seguida. Ao que parece,
porém, as influências de maior magnitude ou significado se deram, em nível histórico ou em nível
sociocultural, sob a forma de causação circular e torna-se impraticável dizer onde começa ou onde
termina a contribuição da universidade para a alteração dos costumes, a organização da mentalidade das
“pessoas cultas” ou dos “notáveis” e a graduação da “revolução dentro da ordem”, que se desenrolou em
todos os países depois da emancipação política e, principalmente, da consolidação dos estados nacionais
independentes. Todavia, o aspecto reverso, pelo qual as transformações do meio econômico, social e
político repercutiram na composição, no acesso, no funcionamento e na melhoria progressiva da
universidade, parece ser mais nítido e inquestionável. Apesar das técnicas sutis ou grosseiras de
resistência às inovações, a universidade latino-americana revelou uma notável maleabilidade, o que
facilitou os mecanismos mais ou menos dramáticos de autocrítica e de autorrenovação. O que fornece
aparentes evidências em contrário — a lentidão do esforço de mudança; a falta de objetivos precisos e
de eficácia nos propósitos renovadores; a animosidade dos círculos letrados conservadores, sejam ou
não universitários; a descontinuidade dos programas de renovação encetados etc. — não significa, em
termos sociológicos, “rigidez”, “imobilismo” ou “incapacidade de mudança”. Antes de fazer-se um
diagnóstico judicativo, deve-se proceder a uma avaliação rigorosa das relações entre meios e fins: as
influências inovadoras teriam sido bastante fortes e persistentes para atingir os objetivos proclamados de
“reforma universitária”? A inércia apenas vingou e venceu onde tais influências revelaram-se prematuras,
frágeis e incongruentes. Nesse caso, o que entra em jogo são as potencialidades materiais, intelectuais e
humanas do meio social e não a estrutura intrínseca das universidades e o poder de autodeterminação do
pessoal que elas envolvem. Em resumo, ao que parece as universidades acompanharam os processos de
transformação do contexto histórico-social. Por vezes, elas desempenharam funções construtivas
naqueles processos e, se aqui ou ali aparecem exemplos em contrário, eles devem ser devidamente
interpretados como a exceção que confirma a regra.
A primeira e principal fonte de confusão, na análise da antiga universidade (ou escola superior e
faculdade), consiste na sua alegada função de mera agência de difusão de conhecimentos e de técnicas,
elaborados originalmente no exterior. Outros caracteres, postos em relevo, dizem respeito à sua estrutura
fechada (pois era acessível a reduzido número de pretendentes), ao seu teor enciclopédico, pseudo-
humanístico e de segunda mão (pelo congestionamento da erudição de superfície), à natureza autocrática
e verbalista do ensino (em virtude do princípio do magister dixit), e, por fim, ao imobilismo da própria
instituição (que não entraria, como tal, em interação plástica com os dilemas humanos do seu meio social
e intelectual). Todas essas críticas possuem algum fundamento. Mas, cabe perguntar-se se, no contexto
histórico da sociedade colonial e no contexto histórico da sociedade nacional emergente, o ensino
superior poderia responder a outros requisitos organizatórios, tanto estruturais quanto funcionais. Na
verdade, a antiga universidade atendia, por sua organização, funcionamento e filosofia pedagógica, às
necessidades intelectuais do ambiente, aos valores educacionais que resultavam do estilo de vida social
dominante e ao modo pelo qual a mudança institucional se concretizava historicamente. Todo o processo
de absorção cultural, nas duas épocas históricas em questão, era regulado segundo as regras e os
mecanismos da modernização tipicamente “colonial” ou dependente. Tratava-se, sobretudo, de um
processo de transferência maciça e de assimilação compacta de técnicas sociais, valores e instituições
impostos pela civilização, através de interesses e controles econômicos, sociais e políticos das
metrópoles (no período colonial) e das nações que lançaram as bases do imperialismo moderno (no
período nacional). Em ambos os contextos histórico-sociais, portanto, cabia às instituições de ensino
superior a função que preencheram. Elas deviam ser e operar como uma ponte entre as colônias ou as
sociedades nacionais emergentes e o “mundo civilizado” europeu. O que se requeria delas não era que
fossem núcleos de produção de saber original e centros de invenção criadora. Mas, que elas
organizassem e mantivessem o fluxo mínimo de conhecimentos, técnicas sociais e valores, do qual
dependia: a implantação e o florescimento da “civilização ocidental” no Novo Mundo; a preparação das
elites de uma sociedade estratificada em castas e estamentos; a persistência e o refinamento dos padrões
de “cultura letrada”, que podiam ser cultivados e revalorizados socialmente.
A própria organização econômica dessa sociedade, vinculada de forma heteronômica às Metrópoles ou
às Nações europeias que controlavam o mercado mundial, fazia com que os recursos destinados à
educação fossem demasiado limitados (mesmo em termos das necessidades educacionais de uma ordem
social senhorial e para manter-se um “ensino para poucos”). Tanto sob o antigo sistema colonial, quanto
sob o neocolonialismo, grande parte do excedente econômico era canalizada normalmente para fora, para
alimentar o crescimento econômico e o desenvolvimento sociocultural das metrópoles ou das nações
europeias que detinham o controle do comércio mundial. Em consequência, os países da América Latina
não dispunham de condições materiais e sociais para expandirem a “civilização ocidental” segundo os
padrões europeus. Estes podiam ser imitados formalmente, mas sem um intenso crescimento econômico e
um desenvolvimento sociocultural paralelo jamais seria possível explorar plenamente as potencialidades
funcionais das instituições importadas (inclusive na esfera da educação escolarizada e, dentro dela,
principalmente com referência ao ensino superior, que só produz rendimentos efetivos a longo prazo). Se
as instituições escolares conheceram alguma expansão e atingiram certos padrões mínimos de qualidade
e eficácia, para os limitados fins mencionados, isso se deve ao fato de que a especialização profissional
e técnica se incluía entre as necessidades sociais prementes. Em particular depois da emancipação
política e da implantação de estados nacionais independentes, era preciso formar intelectuais capazes de
lidar com certos problemas práticos, dos quais dependia o funcionamento normal da economia, do
próprio Estado nacional e da administração pública, e das instituições que asseguravam às elites e a seus
estratos sociais os padrões de conforto e de segurança a que estavam acostumadas. Todavia, os
problemas práticos que surgiam nesses níveis não requeriam fortes ou complicados processos de
invenção cultural. Na época colonial ou na época da emancipação nacional e da consolidação do Estado
nacional independente, o grosso desses problemas podia ser resolvido através de conhecimentos,
técnicas sociais e valores incorporados à herança cultural transplantada ou transplantável. As
habilidades ou manipulações novas apareciam mais na área de adaptação desses conhecimentos, técnicas
e valores às situações nas quais emergiam e deviam ser resolvidos os problemas. Por isso, as escolas
(inclusive e principalmente as escolas superiores) não podiam encarregar-se, sozinhas, da socialização
completa dos aprendizes. O tirocínio requerido para formar-se o perito, levando-se em conta a
preparação formal e a habilidade efetiva, obrigava a amplas combinações entre um ensino por assim
dizer informativo e o amadurecimento por meio do uso das informações recebidas em condições práticas.
Esse aspecto tem sido negligenciado, como se a antiga universidade se destinasse a preencher, apenas,
as funções reguladoras de um rito de passagem: ao receber seu diploma, o “bacharel” estaria nobilitado e
em plena posse dos direitos conferidos pelas profissões liberais. Embora o título possuísse o significado
de um símbolo e esse símbolo fosse, de fato, nobilitante, o seu prestígio nascia da posição dos seus
portadores na estrutura da sociedade. Só mais tarde, e como um dos efeitos reativos dessa conexão, é que
ele passou a ser nobilitante independentemente do monopólio do poder e do prestígio social pelos
estamentos dominantes. O essencial, pois, não era o título. Mas, a qualificação para iniciar a parte
prática da aprendizagem, por meio da qual o aprendiz absorvia os “segredos da profissão” e, ao mesmo
tempo, obtinha condições fluidas de comunicação mais profunda com os avanços de sua profissão ou da
civilização no exterior e adquiria os papéis que possibilitariam a iniciação na “arte de dirigir-se”, como
parte de uma elite dominante.
Só existe um critério para avaliar-se até que ponto esse tipo de universidade (ou de escola superior)
preenchia a sua função “colonizadora”, “civilizadora”, “elitista” e “aristocratizante”, à qual se associou
um ideal espiritualista e humanístico, de natureza consumidora, da “cultura letrada”: ele consiste em
relacionarem-se os desígnios de tal ensino superior com as realizações dos homens que se formaram sob
sua inspiração. Se se fizer uma indagação dessa espécie, a eficácia da antiga universidade (ou escola
superior) patenteia-se, claramente, em três direções diferentes (nos limites, naturalmente, das exigências
ou das necessidades socioculturais dos seus contextos históricos). Primeiro, foi através dela que se
formaram as primeiras gerações que lutaram contra o sistema colonial, organizaram o Estado nacional
independente e lograram converter os estamentos privilegiados das ex-colônias em aristocracias. Pode-
se pôr em dúvida muitos dos valores e ideais dessas gerações e o seu liberalismo era antes uma filosofia
de igualdade social entre privilegiados que um autêntico rebento democrático. Mas, é inegável que
conseguiram, em condições tumultuosas, contraditórias e difíceis, um ritmo constante de modernização
progressiva de seus países, em todos os níveis da vida social e da cultura. Segundo, dada a correlação
apontada, entre estrutura da sociedade global, acesso à universidade e sentido técnico-profissional do
ensino superior, as instituições que transmitiam esse ensino possuíam uma ligação dinâmica com a
constituição e a preservação do padrão de equilíbrio requerido pela ordem social vigente. Semelhante
conexão imprimia um caráter conservador à antiga universidade, já que os interesses econômicos,
sociais e políticos, que definiam esse padrão de equilíbrio, emanavam dos estamentos sociais
dominantes. Entretanto, o pensamento conservador, principalmente depois da emancipação política e da
consolidação do Estado nacional independente, apresentava grande fluidez e não era avesso à mudança.
Como a posição daqueles estamentos na estrutura de poder não era nem podia ser ameaçada por
pretensões revolucionárias de outros círculos sociais, o liberalismo econômico, político e cultural,
embora pervertido em sua essência, representava mais que uma simples fachada. Especialmente em
matérias que interessavam às elites dos estamentos dominantes, ele inspirava ou suscitava variados
processos de modernização. Terceiro, no nível especificamente intelectual, o saber ou era ostentatório,
ou precisava demonstrar sua eficácia no plano técnico-profissional. Limitando-nos à última alternativa, é
claro que não foi a antiga universidade que impôs tal critério de reconhecimento de valor do saber à
sociedade. Ao contrário, foi esta que modelou a universidade para produzir os tipos de letrados, de
literatti e de homens de saber de que carecia. O advogado, o médico e o engenheiro, que se formavam e
socializavam sob o clima de excessiva valorização e de nobilitação de suas profissões, tendiam a
expandir a orientação especificamente técnico-profissional do saber proporcionado por suas respectivas
“ciências”. A “pesquisa” tinha escassa significação para eles, não lhes importando a não ser como meio
rudimentar de estabelecer ou verificar o diagnóstico de uma situação prática. Por isso, ela não chegava a
possuir, normalmente, qualquer envergadura, nem mesmo como “pesquisa tecnológica”, e reduzia-se a
uma auxiliar da razão em manipulações de natureza técnico-profissional. Contudo, levando-se em conta
que as sociedades nacionais emergentes estavam empenhadas em intensificar determinados processos de
modernização econômica, social e política, as atividades práticas assim desenvolvidas não eram
destituídas de amplo significado social. Doutro lado, no nível indicado, as formas de saber vinculadas à
advocacia, à medicina e à engenharia permitiam lidar com os problemas práticos em termos de equilíbrio
estático (pouco importando se as ficções que presidiam à sua definição procediam do “sistema legal”, do
“organismo” ou do “maquinismo”). Essa circunstância garante, indiretamente e pela base, uma grande
conformidade entre o horizonte intelectual dos letrados-profissionais, dos literatti e dos homens de saber
(ou “notáveis”), formados pela universidade (ou escola superior), e as orientações liberal-conservadoras
predominantes na sociedade global. A inteligência podia usufruir e beneficiar-se de uma consagração
honorífica e, ao mesmo tempo, realizar suas tarefas intelectuais ou suas atividades criadoras sem desafiar
interesses ou ideologias dos estamentos sociais dominantes e sem envolver-se em conflitos estruturais
com a ordem social vigente.
A discussão precedente sugere duas coisas, que são essenciais para caracterizar e situar o dilema
universitário latino-americano. De um lado, os modelos importados de organização do ensino superior
possuíam certas limitações pedagógicas bem conhecidas, que já foram patenteadas com referência aos
próprios países europeus, em que se originaram. Não obstante, é evidente que suas potencialidades
educacionais e intelectuais apenas chegaram a ser exploradas e mobilizadas de maneira muito incompleta
e superficial na América Latina. Isso indica que seus propalados “defeitos intrínsecos” possuem menor
importância, para explicar sociologicamente as referidas limitações, do que se imagina. De outro lado, o
fator de presumível “baixo rendimento” dado por aqueles modelos também parece claro. Suas
potencialidades educacionais e intelectuais nunca chegaram a ser devidamente exploradas e mobilizadas,
porque a sociedade inclusiva não lhes ofereceu bases materiais e socioculturais adequadas, além de
utilizar os seus produtos (e o talento em geral) de forma visivelmente contrafeita e inconsistente.
Portanto, foram limitações e inconsistências externas às instituições de ensino superior que forneceram
campo propício à exacerbação dos mencionados “defeitos intrínsecos”, agravando os seus efeitos diretos
contraproducentes e gerando os conhecidos caracteres negativos da antiga universidade latino-
americana.
Essa conclusão possui enorme interesse sociológico, na medida em que a evolução da nova
universidade[57] iria defrontar-se com as mesmas fontes de redução de sua eficácia e de sua capacidade
de expansão. Ao que parece, o dilema universitário latino-americano possui uma origem histórica (e
não uma origem puramente cultural). O grau de modernização relativa do sistema institucional é mais
avançado do que os graus paralelos ou concomitantes de crescimento econômico e de desenvolvimento
social. Essa circunstância explica-se facilmente. Os países da região participam direta e ativamente do
ciclo cultural da “civilização ocidental moderna” e das tendências mais significativas de sua renovação
no exterior. No entanto, sua economia dependente e suas estruturas sociais anulam ou reduzem tais
vantagens, fazendo com que, no conjunto, o progresso na absorção das instituições e dos seus valores
represente muito pouco para a intensificação da mudança progressiva global. A escassez de recursos
materiais e financeiros, bem como o estilo imperante de utilização social dos recursos humanos
disponíveis e de aproveitamento social do talento acarretam uma espécie de esvaziamento histórico das
instituições. Elas passam a render, naturalmente, não em função de suas potencialidades ideais,
pressupostas nos modelos institucionais importados; mas em função do modo pelo qual a sociedade
inclusiva relaciona, estrutural e funcionalmente, tais potencialidades com suas necessidades
socioculturais. Ou seja, do modo pelo qual a sociedade inclusiva mobiliza e explora socialmente as
referidas potencialidades, dinamizando-as como fator de autodesenvolvimento.
A época histórica mais recente permite estabelecer uma contraprova dessa interpretação. Durante a
última metade do século XIX, mas principalmente no último quartel desse século, o capitalismo começa a
converter-se numa realidade histórica na maioria dos países da América Latina. Todavia, as condições
que cercaram essa transformação imprimiram à “revolução burguesa” uma forma que pode ser
considerada típica das sociedades capitalistas subdesenvolvidas: à integração do capitalismo comercial
e financeiro seguiu-se um constante e relativamente intenso desenvolvimento urbano-industrial, sem que
se tornasse possível extinguir estruturas socioeconômicas pré-capitalistas e superar a posição
heteronômica das economias latino-americanas na organização do mercado mundial. Em consequência, a
“revolução burguesa” engendrou um sistema capitalista diferenciado mas dependente, desembocando num
impasse permanente, que impede que o crescimento econômico opere como um fator nacional de
autonomização socioeconômica, política e cultural. Sob a égide desse capitalismo dependente, a América
Latina continuou a produzir excedente econômico para fora, diferenciando e revitalizando, através de sua
peculiar “revolução burguesa”, os interesses internos que subordinam o seu desenvolvimento aos
dinamismos das nações capitalistas avançadas.
O que nos interessa, nesse vasto quadro, é o que sucedeu com a universidade latino-americana. A
“revolução burguesa” caracterizou-se, em todos os países, pelas transformações que afetaram a
composição e a organização da sociedade. Ocorreu um considerável e contínuo aumento da população. A
integração nacional das economias, em bases capitalistas, provocou mudanças também consideráveis e
contínuas na distribuição da renda, do prestígio social e do poder. Surgiram novas cidades, ampliou-se o
setor urbano das populações e nasceram as grandes metrópoles da região. Em conexão com esses
fenômenos, apareceram novos grupos sociais, embora a concentração social da riqueza e do poder
político conservasse as antigas elites em suas posições de dominação e de liderança. A educação perdeu,
aos poucos, o caráter de privilégio social e de prerrogativa dos estamentos dominantes. Os recursos
naturais, financeiros e humanos destinados à educação sofreram, por sua vez, uma constante elevação
progressiva, embora se mostrassem cronicamente insuficientes para fazer face ao crescimento
demográfico, à proporção dos elementos jovens na população e às expectativas de democratização das
oportunidades educacionais. Sob o impacto dos fatores quantitativos desse amplo processo de mudança
estrutural, as velhas instituições entraram em crise (e, com elas, as antigas instituições escolares). Nesse
contexto, os efeitos da modernização revelaram-se particularmente fecundos no plano intelectual. Em um
clima de tensão e de luta, as novas teorias pedagógicas, vindas da Europa e dos Estados Unidos,
permitiram aprofundar as críticas a todo o sistema escolar, herdado do passado. Elaborou-se uma sorte
de “idealismo pedagógico”, de conteúdo pragmático-racionalista, que propunha reformas educacionais
de inegável magnitude e que definia a nova universidade a partir de uma conjugação construtiva entre
novos modelos institucionais importados e necessidades potenciais do meio sociocultural latino-
americano.
Embora o fenômeno se iniciasse no fim do século passado, foi entre a primeira e a terceira década
deste século que ele adquiriu a consistência e a qualidade de processo histórico irreversível, nos países
em que logrou vingar. No que nos importa aqui, cumpre salientar que ele desencadeou um processo
positivo de crítica à antiga universidade (faculdade ou escola superior), propondo-se antes as funções
construtivas que as instituições de ensino superior deviam preencher, que as mazelas das velhas
instituições. Não se pretendia “destruir uma herança”, mas superar um passado tão cheio de
contingências. A contribuição positiva dos movimentos de “autonomia” e de “reforma” universitárias
dizia respeito, portanto, ao que se devia fazer para criar-se uma universidade capaz de preencher todas
as funções normais, que ela precisaria satisfazer à luz dos requisitos da civilização baseada na ciência e
na tecnologia científica. Supunha-se, pois, que o meio social inclusivo poderia dinamizar aquelas
funções, com os recursos materiais, financeiros e humanos acessíveis; e que ele não tolhia, por si mesmo
ou através da intromissão das forças conservadoras, a missão diretora que a universidade deveria
exercer na vida cultural e moral da sociedade. O acesso livre às oportunidades de educação superior, só
limitável pelas aptidões efetivas dos candidatos; a alta qualidade da aprendizagem; a introdução da
pesquisa científica e tecnológica e sua associação regular ao ensino; a produção de saber original;
interdependência em condições de autonomia intelectual com os centros estrangeiros de investigação e de
ensino (e, por conseguinte, autêntica cooperação com os centros de investigação mais avançados); a
representação e a participação dos estudantes na administração e na política universitárias; uma
vinculação dinâmica da universidade com os “problemas do Povo” e com as “necessidades nacionais”; e
uma renovação institucional bastante profunda e eficaz para suportar tais objetivos — eis as principais
reivindicações dos movimentos.
Embora os movimentos produzissem, por si mesmos, frutos parcos e inconstantes, seus objetivos se
viram parcialmente concretizados, a largo prazo, graças aos efeitos inevitáveis do crescimento
demográfico e do desenvolvimento socioeconômico.[58] A nova universidade firmou-se, em uns países
mais, em outros menos, mas sem atingir o êxito esperado. Não só atitudes, técnicas, valores e estruturas
tidos como “arcaicos” persistiram, dentro e fora da universidade, afetando o seu rendimento, restringindo
ou anulando a sua autonomia, e tolhendo a sua evolução progressiva. As melhores realizações no sentido
desta evolução entraram em relativo torpor precoce, estagnaram ou produziram efeitos incompatíveis
com as esperanças mais fundadas. Ficou patenteado que a inovação circunscrita, localizada e isolada não
constitui, em si e por si mesma, um caminho seguro para fazer-se a revolução cultural que a criação da
nova universidade pressupunha. Além disso, os diagnósticos mais penetrantes impuseram a conclusão de
que a “reforma puramente institucional” é regulada e controlada (mesmo que os agentes do processo
possuam clara consciência da relação entre meios e fins) pelas disposições, orientações e possibilidades
do meio social circundante. Aos poucos, fatores negligenciados ou inseridos na rede de efeitos nas
reflexões pedagógicas iniciais — como a estrutura da economia, a organização da sociedade e o
funcionamento do Estado — ganharam o centro do palco e dominaram as preocupações gerais.
Descobriu-se que uma sociedade nacional subdesenvolvida, mesmo sob o capitalismo dependente, está
sujeita a uma situação contraditória. Ela precisa da educação escolarizada como “fator de
desenvolvimento” e até de “revolução social”, tanto para conquistar autonomia de crescimento, quanto
para consolidar e fazer valer sua soberania. Não obstante, raramente ela dispõe, pelas vias normais, dos
recursos materiais, financeiros e humanos suscetíveis de converter as mudanças desejadas e necessárias
em fator de “salto histórico”. De um lado, porque são sociedades que não comandam o crescimento e a
aplicação marginal de suas próprias riquezas. De outro, porque são sociedades nas quais as parcelas de
riqueza, absorvidas e controladas nacionalmente, são em grande parte destruídas de forma improdutiva,
por causa de privilégios de classe arraigados e da expansão imoderada da economia de consumo.
Constatações desta espécie despertaram educadores, políticos e administradores para o “uso racional”
dos recursos materiais, financeiros e humanos disponíveis. Dados os limites dentro dos quais se
estabelece o nível de escassez dos recursos e a gravidade dos problemas educacionais, especialmente na
esfera do ensino superior, logo se evidenciou que esse tipo de “racionalidade possível” nunca passaria
de uma panaceia. Sem transformações profundas e persistentes da organização da economia, da
sociedade e da cultura, ele nada poderá fazer de crucial, mesmo a longo prazo.
No marco de tais reflexões, que superam o idealismo liberal e põem em questão o farisaísmo
conservador, o problema da nova universidade se projetou num contexto histórico-social conturbado.
Enquanto a própria instituição se deteriora lentamente, correndo o risco de repetir a sina da antiga
universidade (em alguns países), ou avança em zigue-zagues, ameaçando o próprio sentido da “reforma
universitária” e seus efeitos construtivos (em outros países), cresce e generaliza-se a convicção de que as
mudanças reais terão de ser procuradas e conquistadas, palmo a palmo, fora da universidade. A
concepção utópica, que presidiu à primeira fase dos movimentos de “autonomia” ou de “reforma” (e
segundo a qual a nova universidade poderia emergir de mudanças institucionais inteligentes,
convertendo-se em seguida no fulcro de canalização pacífica das alterações revolucionárias em
processo), cai em crescente descrédito. Seu lugar está sendo disputado por duas orientações de
comportamento social alternativas. A da acomodação realista, de acordo com a qual o “teto” da reforma
universitária, em sociedades subdesenvolvidas, é dado pela escassez dos recursos e as limitações
resultantes de possibilidades inevitavelmente estreitas de utilização social construtiva das universidades.
A única solução inteligente consistiria em associações de propósitos limitados com as sociedades
avançadas, que permitiriam concretizar uma interdependência corretiva e linhas de desenvolvimento
cooperativo de grande interesse para as sociedades subdesenvolvidas. E o da opção puramente
revolucionária, que põe em primeiro plano a transformação prévia das estruturas econômicas, sociais e
políticas existentes. Nada adiantaria mudar as universidades, se estas não possuem meios internos e
externos que as adaptem às funções que devem preencher, em nível do ensino ou da produção de
conhecimentos originais e em nível das exigências de uma sociedade subdesenvolvida, na era da ciência
e da tecnologia científica. A primeira alternativa praticamente trai o espírito dos movimentos de reforma
universitária, pois aceita que uma estagnação relativa da nova universidade constituiria um preço
razoável para a dependência cultural crônica, em relação ao exterior. A outra alternativa transcende
aquele espírito, mas sob o preço de pôr em segundo plano os problemas centrais da própria reforma
universitária, ofuscados por outros problemas de natureza econômica, social e política, vistos como
“estratégicos”. Isso quer dizer que a nova universidade se encontra diante de um impasse histórico, aliás,
um impasse análogo ao que pesa sobre o capitalismo dependente. Se a história do passado remoto não se
reproduzir, esse impasse poderá ser vencido ou pela aceleração e radicalização da “revolução burguesa”
(o que significaria: “solução pelo desenvolvimento”), ou pela destruição do próprio capitalismo (o que
significaria: “solução pela revolução social”).
Essas indicações são suficientes para sugerir que a nova universidade ainda não superou a crise de
que nasceu. Ela não mantém uma relação de equilíbrio dinâmico com a ordem social estabelecida,
malgrado as influências conservadoras ou radicais que se debatem dentro dela. Acha-se tão dividida
quanto a sociedade inclusiva e tão impotente quanto esta para encontrar um termo médio ou uma saída
unilateral de superação das tensões. Nesse clima, prevalecem a indecisão, a perplexidade e a frustração,
como se a atividade intelectual criadora estivesse de antemão condenada à negação de si mesma. Por
isso, os universitários (professores ou estudantes) e os intelectuais de formação universitária (os
chamados “antigos alunos”) podem percorrer qualquer dos três caminhos que se abrem como
“possibilidades históricas” diante deles: o da estagnação relativa; o do desenvolvimento acelerado; ou o
da revolução social. Seus ajustamentos futuros dependem mais da maneira pela qual a sociedade
inclusiva equacionar historicamente essas saídas, que de convicções íntimas, firmemente estabelecidas e
rígidas, que imponham tais saídas em termos ideológicos exclusivos — conservantistas, reformistas ou
revolucionários. Este retrato certamente define o drama que está por trás do dilema universitário latino-
americano. Como sucedeu com a antiga universidade, a nova universidade também não é uma
“instituição diretora”. Ela constitui uma amálgama em busca de reorganização e de reintegração totais e
não possui meios para forjar por si mesma o seu destino. Aguarda, em compasso de espera, os momentos
de decisão histórica, para compor a fisionomia que deverá ter no mundo do planejamento, da automação,
da energia nuclear, das integrações econômicas regionais e da hegemonia das superpotências.
ASPECTOS DA SITUAÇÃO ATUAL DO ENSINO SUPERIOR

A EVOLUÇÃO DA AMÉRICA LATINA, nos últimos dez anos, caracterizou-se pelo intenso crescimento
demográfico, estancamento ou baixo crescimento econômicos (pelo menos na média dos países) e fortes
tendências de deslocamento de população (seja de áreas rurais estagnadas ou em regressão para áreas
rurais com vitalidade econômica, seja do “campo” para as médias e grandes cidades). O sistema escolar,
sob esse pano de fundo, viu-se sob duas tensões contrárias. Uma, que nascia da pressão quantitativa,
desencadeada inexoravelmente pela “explosão demográfica” e agravada pela revolução das expectativas
educacionais e pela intensidade do movimento migratório campo-cidade. Outra, que procedia da
escassez crônica de recursos materiais e humanos destinados à educação, frequentemente agravada pela
má utilização dos fatores existentes e por disposições mais ou menos impróprias ao estabelecimento de
políticas eficientes de democratização do ensino. Os efeitos dos processos demográficos são
aparentemente positivos. Há quem pense que eles conduziram à deterioração dos padrões de ensino.
Contudo, se eles não alcançassem proporções “explosivas”, é duvidoso que os níveis educacionais
médios, predominantes na região, tivessem se alterado (pelo menos em suas expressões quantitativas), de
modo tão acentuado nas décadas de 1940-50 e 1950-60. As transformações econômicas, sociais e
culturais não concorreram, de fato, para uma efetiva democratização universal do ensino. Por isso, a
expansão quantitativa das matrículas e dos níveis educacionais representa um produto direto dos
dinamismos demográficos. Doutro lado, parece evidente que o agravamento das pressões demográficas,
que começam a afetar também os índices de participação do ensino pós-primário, e o dilema da
magnitude dos custos educacionais tendem a modificar as orientações tradicionais no uso dos recursos
materiais e humanos destinados à educação. Essa mudança, que mal se inicia, irá contribuir,
previsivelmente, para a alteração ou a proscrição de critérios irracionais, extrapedagógicos e
antidemocráticos de distribuição e aproveitamento das oportunidades educacionais.
O quadro 4 oferece uma visão global do nível de escolaridade na América Latina, em 1950. Sua
leitura demonstra que a maior parte da população (93,1%) incorporava-se, em média, em duas
categorias: os que não tinham nenhuma escolaridade ou menos de um ano de escolaridade; e os que
contavam de 1 a 3 anos de escolaridade. Apenas 6% se incluíam nas categorias dos que possuíam de 7 a
9 anos e de 10 a 12 anos de escolaridade. E somente 0,9% possuíam 13 anos e mais de escolaridade. Os
níveis médios de escolaridade, além de muito baixos, apresentavam forte contraste, entre as porcentagens
da população global e as da população escolarizada. O nível médio de escolaridade desta última era
exatamente o dobro da primeira (conforme o país, oscilava de duas vezes e meia até dez vezes mais:
como sucedia com o Brasil, Guatemala, El Salvador, Bolívia, República Dominicana ou Haiti). Esse
contraste sugere que a educação escolarizada ainda constituía um privilégio social. Por sua vez, o número
de pessoas com educação pós-primária (quase 16 pessoas por 100 habitantes) era um dos mais baixos do
mundo (comparem-se as indicações fornecidas naquele quadro sobre os Estados Unidos, o Japão e Porto
Rico). Isso significa, sociologicamente, que só ao acaso o peneiramento de tais pessoas poderia
corresponder às suas aptidões e às suas aspirações educacionais. Critérios econômicos, sociais e
provavelmente políticos decidiam o peneiramento, especialmente aos níveis do ensino secundário,
colegial e superior. Quanto a este último, é conhecida a predominância dos estratos superiores das
classes alta e média na população universitária:[59]






A década de 1950-60, apesar da relativa adversidade econômica, parece marcada por um crescimento
relativamente considerável do sistema escolar desses países, como evidenciam os seguintes dados:[60]


Como se pode constatar, os países que se aproximaram ou superaram essas médias atingiram ou estão
atingindo um patamar de alfabetização que lhes permite dedicar maiores esforços ao ensino médio e
superior. Ao que parece, os objetivos centrais de mudança da política educacional voltavam-se para este
último. Mas, dados o afunilamento do sistema escolar, as avaliações sociais dominantes e a maior
acessibilidade do ensino médio, isso acarretou uma elevação desproporcional do ensino médio (que teve
a sua matrícula aumentada em escala inesperada). Em consequência, a relação entre uma matrícula no
ensino superior e o total de matrículas correspondentes no ensino primário caiu de 57 para 50, de 1950-
60. No entanto, a mesma relação do ensino superior com o ensino médio subiu de 6 para 7. Informações
relativas a 1966 mostram, grosso modo, como as mencionadas características estão evoluindo:[61]


Por esses dados, a uma matrícula no ensino superior, em 1966, correspondia, aproximadamente: 42
matrículas no ensino primário; e 8 matrículas no ensino médio. A representação percentual demonstra
que, em conjunto, implantou-se uma tendência no sentido de diminuir paulatinamente o achatamento
estrutural do sistema escolar:


A correlação entre as matrículas nos três níveis de ensino sugere que não se processou nenhuma
alteração substancial nos critérios econômicos e socioculturais de distribuição das oportunidades
educacionais. Contudo, ela confere algum vigor à hipótese segundo a qual a pressão demográfica tem
operado como uma espécie de equivalente da influência dinâmica da democratização do ensino. Pois uma
parte considerável da população escolarizada no nível médio não contou com suficiente fluidez no
sistema escolar para poder passar ao nível ulterior. Esse efeito poderia explicar-se pela rigidez do
ensino superior, sujeito ao critério de número clausus em alguns países ou a crescimento moderado, por
falta de recursos, em outros. Todavia, o simples congestionamento das matrículas no ensino médio altera
a concorrência pelas oportunidades educacionais no nível imediato do ensino, introduzindo ou
aumentando a importância relativa do fator competição no rateio social das referidas oportunidades. Isso
não modifica, certamente, a qualidade de privilégio social que caracteriza, em maior ou menor grau, o
ensino médio e superior. Mas indica claramente que, graças aos dinamismos demográficos e aos
processos socioculturais correlatos, a sociedade tende a mudar sua relação com o sistema escolar.
Esta conclusão é deveras importante, porque sublinha que não é o sistema escolar, em si mesmo, que
se modifica em sua estrutura, em suas funções e em seu rendimento, como condição prévia para o
atendimento de parcelas crescentemente maiores da população. Ao inverso, são as transformações do
volume e da organização da população que compelem o sistema escolar a se abrir gradualmente à
avalanche, embora mantendo seus caracteres estruturais e funcionais “arcaicos”. A contraprova dessa
interpretação é fornecida pelo fato de que, na maioria dos países, o sistema escolar enfrenta o aumento
crescente das matrículas nos níveis do ensino médio e superior (para não se falar do ensino primário),
apenas em termos quantitativos: ele ingurgita, sem transformar-se estrutural e dinamicamente. De modo
geral, ainda não se constituíram (ou estão em elaboração lenta) novas orientações de política educacional
que permitam passar do crescimento quantitativo para a reorganização do sistema escolar.
A discussão precedente, tomando por pano de fundo o ano de 1950 ou a evolução ocorrida entre 1950-
60 e 1966, desemboca numa evidência melancólica. O ensino superior, embora não seja definido
legalmente como “privilégio”, na prática é monopolizado socialmente pelos estratos médios e altos da
população. Entretanto, até na prodigalização dos privilégios existe uma hierarquia. Os quadros 1 e 2
abrem margem para muitas conjecturas fundadas a esse respeito. É claro que países como o Brasil e o
México, ou a Colômbia e o Peru, possuem perspectivas que não se definem claramente nas estatísticas,
pois contam com potencialidades de crescimento econômico e de desenvolvimento social que ainda não
foram exploradas dentro dos limites da própria expansão do capitalismo dependente. Todavia, nas fases
de transição que estão atravessando, devem submeter-se a penosos sacrifícios, se quiserem garantir-se
tais perspectivas. Os países que já lograram o tipo de integração econômica permitido pelo capitalismo
dependente, ao contrário, ostentam maior progresso médio, mas, ao mesmo tempo, defrontam-se com
sérias dificuldades no que concerne à preservação e à elevação das vantagens acumuladas. Estariam
nesse caso países como a Argentina, o Uruguai ou o Chile, por exemplo. No contexto latino-americano,
somente Cuba poderá evoluir no sentido de neutralizar influências socioeconômicas e políticas que
interferem cronicamente na evolução do sistema escolar. Infelizmente, não podemos examinar a fundo as
questões que se colocam dessa perspectiva e somos forçados a considerar as diferenças relativas, com
frequências apreciáveis, de um ângulo mais limitado, que as dramatiza em termos do que elas
representam quantitativamente, em um momento determinado.
Uma aproximação grosseira da realidade é fornecida através do volume e variação da matrícula na
América Latina. Esse indicador é passível de críticas, pois alguns países (como a Argentina) aceitam
livremente os candidatos; outros, como o Chile ou o Brasil, levantam barreiras à promoção ou restringem
o número de vagas. Além disso, a evasão escolar no nível do ensino superior constitui uma realidade
desoladora, mais grave naturalmente nos países em que a transição do ensino médio ao superior é mais
fácil. No entanto, as informações comparáveis disponíveis dizem respeito à matrícula (ver quadro 2), não
nos restando outro recurso senão aproveitar os dados com o cuidado possível. Se tomarmos os países
que atingiram ou superaram a média da matrícula (em ordem decrescente: Argentina, Uruguai, Chile,
Panamá, Venezuela, Costa Rica, Cuba e México), descobriríamos: 1º) que o aumento percentual da
matrícula, no ensino superior, neles era de 5,1 em 1960 (e não 3,0); 2º) que a variação do aumento
percentual da matrícula, com referência a 1950, neles era da ordem de 222% (e não de 67%).
Inversamente, se tomarmos os países que não atingiram a média de matrícula (em ordem crescente da
diferença negativa: Peru, Equador, Paraguai, Colômbia, Brasil, Bolívia, República Dominicana, El
Salvador, Nicarágua, Honduras, Guatemala e Haiti), descobriríamos: 1º) que o aumento percentual da
matrícula, no ensino superior, neles era da ordem de 1,5 (e não de 3,0); 2º) que a variação do aumento
percentual da matrícula, com referência a 1950, neles foi da ordem de 37% (e não de 67%).[62] Se se
levar em conta que o aumento da taxa anual de crescimento da população foi, neste último grupo de
países, de 2,4 para 2,9 (no período 1945-55), reclamando um esforço adicional de 22% ao ano,
aproximadamente, pode-se avaliar as deficiências do seu crescimento real na esfera considerada. Doutro
lado, para romper o verdadeiro estado de estagnação invisível em que se encontram, e atingir
simplesmente a média da região, os doze países do segundo grupo teriam de realizar um incremento
adicional médio de matrículas no ensino superior no mínimo da ordem de 100% ao ano. Se se
propusessem alcançar os níveis atuais do primeiro grupo de países, então o referido incremento adicional
médio deveria ser da ordem de 240%!
Os dados coligidos no quadro 1 oferecem uma base razoável para se entender por que os países do
primeiro grupo conseguiram alcançar, antes de 1950 ou na década de 1950-60, condições para expandir
seu ensino superior. Excetuando-se o México e a Costa Rica, eles incluíam-se entre os países com mais
de US$ 300 per capita, em 1959; excetuando-se o Panamá e Costa Rica, eles contavam com uma
população urbana igual ou superior a 50% da população total; além disso, o que é mais importante, na
América Latina, excetuando-se Costa Rica, todos possuíam mais de 1/4 de sua população em cidades de
20.000 habitantes e mais, embora em alguns países (Costa Rica, Venezuela, México e Panamá) a
intensificação da urbanização seja fenômeno recente (como se pode inferir da porcentagem do
crescimento urbano na década de 1950-60). Ao inverso, no segundo grupo de países, excetuando-se a
Colômbia e o Brasil, os demais contavam com uma renda percapita inferior a US$ 250; todos
apresentavam menos de 50% de população urbana, com predominância de menos de 40%; excetuando-se
a Colômbia e o Brasil, nenhum país possuía 1/4 de sua população em cidades de 20.000 habitantes e
mais; e, com exceção da Colômbia, a intensidade do crescimento urbano, onde ela ocorreu, evidencia
mais “fuga do campo” que outra coisa.
A correlação positiva da situação socioeconômica do primeiro grupo de países com o
desenvolvimento do ensino superior torna-se evidente, quando se associam as condições apontadas com
a variação do aumento percentual de matrículas (conforme quadro 2). Excetuando-se Cuba, que mudou a
orientação de sua política educacional, e o Uruguai, sobre o qual não se dispõe de dados comparáveis,
[63] todos os países daquele grupo igualaram ou superaram porcentagens de crescimento da matrícula no
ensino superior que lhes permitiriam alcançar ou manter ritmos de aumento análogos ou superiores ao da
média da região. Os avanços mais impressionantes foram feitos pela Venezuela, México e Chile, que em
1950 não atingiam os níveis médios e os igualaram ou ultrapassaram em 1960. Contudo, o significado
vantajoso do desenvolvimento econômico, social e cultural anterior fica ainda mais patente com os casos
do Chile, Argentina e Uruguai. Apesar do estancamento econômico (e por vezes de crises sociais e de
agruras políticas), conseguiram preservar um ritmo de progressão constante do aumento da matrícula (o
que explica a proeza do Chile, que não é fruto da aceleração do crescimento econômico, como na
Venezuela e no México, e as tendências observadas nos outros dois países). O quadro 8 sugere que as
dificuldades econômicas se refletiram nos gastos orçamentários com a educação, tanto na Argentina,
quanto no Chile. É provável, pois, que a iniciativa privada, a ajuda externa e a racionalização do uso dos
recursos destinados à educação tenham compensado, de alguma maneira, quanto ao ensino superior, as
limitações dos recursos oficiais. A parte tomada pelos gastos com educação nos orçamentos do México,
Costa Rica e Venezuela demonstra que os governos desses países estão participando ativamente (e com
relativa disponibilidade de recursos financeiros) da elevação do esforço educacional no nível do ensino
superior. Ao que parece, o êxito das iniciativas oficiais é garantido pelas condições externas ao sistema
escolar, as quais garantem àquelas nações um aproveitamento construtivo do incremento de esforço
educacional (o que nem sempre se realiza com referência aos países do segundo grupo).
Os países do segundo grupo, por sua vez, comprovam que a ausência de certas condições econômicas,
socioculturais e políticas tanto dificulta ou impede a aceleração do crescimento do ensino superior,
quanto pode determinar fenômenos bem definidos de estagnação ou de retrocesso. Aparentemente, os
casos mais dramáticos seriam os dos países que evidenciariam a última condição (o Peru e a Bolívia, por
exemplo, em 1950 superavam a média da região; em 1960 decaíram e ficaram aquém da referida média).
Todavia, bem examinadas as coisas, os casos mais dramáticos não aparecem nitidamente como tais nas
estatísticas. A razão disso é simples. O que dificulta o crescimento da educação, no segundo grupo de
países, é o clima dentro do qual o esforço educacional se vê projetado. Os problemas educacionais são
focalizados socialmente com relativa negligência e resolvidos apenas nos limites em que sua solução
vem a ser importante para a perpetuação do statu quo. Daí resulta uma inércia cultural crônica diante das
exigências da educação, a qual reduz o esforço educacional desses países (colocando-o, com frequência,
muito abaixo do que eles poderiam efetivamente fazer, se fosse outra a ótica usada na esfera da política
educacional). Tomando-se esta perspectiva de avaliação, todos os países do segundo grupo ilustrariam,
de um modo ou de outro, o mesmo drama comum: a persistência, em nossos dias, de uma tradição cultural
imprópria às funções que a educação escolarizada preenche na organização da vida moderna. Entre eles,
talvez dois países (a Colômbia e o Brasil) mereçam ser tomados como casos exemplares, na medida em
que possuíam elementos para vencer a mencionada tradição cultural ou para realizar um esforço
educacional de maior amplitude, e não o fizeram.
A Colômbia alcançara vários requisitos econômicos e sociais, que permitiriam incluí-la, de fato, no
primeiro grupo, com um pouco mais de elasticidade no uso dos critérios descritivos empregados. Doutro
lado, ostenta uma variação do aumento percentual das matrículas no ensino superior da ordem de 100%.
No entanto, o quadro 8 deixa patente que a deliberação de intensificar o esforço educacional não chegou
a ser tão forte a ponto de conferir à educação uma alta participação nos gastos orçamentários (de 5,3%,
em 1950, passou a 9,1%, em 1960; outros países, do primeiro e do segundo grupos, privilegiaram a
educação como esfera de investimento produtiva, destinando-lhe acréscimos que envolviam uma
variação relativa superior a 9% e a 10% ou mais). Parece evidente, pois, que um dos países da América
Latina, que dispunha de condições mais propícias para acelerar o seu esforço educacional no ensino
superior, não se impôs, como o fez o México, por exemplo, alvos suficientemente ambiciosos para
levarem ao atendimento dos mínimos médios da região. Semelhante esforço teria exigido um aumento
percentual na variação das matrículas da ordem de 234%, com claras implicações quanto à orientação
programática e financeira da política educacional.
A situação brasileira é, sob todos os aspectos, porventura mais típica da condição do segundo grupo
de países que a da Colômbia. Não só porque o esforço educacional desenvolvido pelo Brasil, no mesmo
período, é visivelmente menor (com relação ao ensino superior e com referência à proporção dos gastos
orçamentários com a educação), mas ainda porque certos acontecimentos políticos recentes fizeram com
que ele se tornasse o principal representante do “farisaísmo educacional” tradicionalista na América
Latina. Esse farisaísmo consiste em proclamar uma ideologia educacional de conteúdo democrático e de
significado moderno; e em desenvolver uma prática educacional que corresponde à negação de tal
ideologia. O exemplo brasileiro também é típico à luz das implicações educacionais da militarismo.
Agora está em voga, especialmente nos Estados Unidos, uma literatura sociológica que valoriza o sentido
“racional” e “inovador” do militarismo nos países subdesenvolvidos. É provável que, por motivos de
segurança da política internacional dos Estados Unidos, o militarismo represente, do ponto de vista
norte-americano, o máximo de progresso com o mínimo de riscos. Para os países que sofrem os golpes
militares, porém (em particular, para os países da América Latina que estão no segundo grupo), se a ação
política desencadeada não tiver ligações profundas com movimentos civis de reconstrução da ordem
legal vigente (como sucedeu no Brasil com a revolução de 1930), o militarismo representa uma
preservação do statu quo por meios violentos (ou da presunção do uso da violência). Eles não se
dirigem apenas contra os riscos potenciais da democratização do poder: voltam-se contra todos os
símbolos ou mecanismos pelos quais a democracia pode estabelecer-se, como aspiração social, como
estilo de vida e como realidade política. Por isso, adquirem significados e funções reacionárias, que
irrompem de forma negativa na esfera da educação. É fácil avaliar tais efeitos, no que eles nos
interessam aqui. Apesar de serem figuras de confiança do governo militarista brasileiro (que tomou o
poder em 1964), os reitores das universidades federais do Brasil se viram compelidos a “denunciar”
publicamente: 1º) que a participação do Ministério de Educação e Cultura no orçamento da União vem
decaindo progressivamente: 11,0%, em 1965; 9,7%, em 1966; 8,7%, em 1967; 7,7%, na proposta
orçamentária de 1968; 2º) que as universidades federais receberam cortes que reduziram seus
orçamentos em 37%; 3º) que a participação das universidades federais nas dotações destinadas à
educação também vem decrescendo continuamente: 3,9%, em 1965; 3,5%, em 1966; 3,4%, em 1967;
2,8%, na proposta orçamentária de 1968.[64] Esse quadro é característico. A educação sofre um
processo de esvaziamento financeiro, como se não constituísse uma esfera de inversão produtiva e
necessária. Como, ao mesmo tempo, as medidas simplistas vão do corte das verbas ao aumento
compulsório das matrículas, pode-se imaginar qual é o resultado final do militarismo como ingrediente
da “política educacional” dos países subdesenvolvidos.
Não obstante, já na década de 1950-60, o crescimento da matrícula no ensino superior do Brasil estava
aquém de uma política deliberada, que visasse pelo menos equiparar o país aos progressos médios da
região. O aumento alcançado na variação percentual da matrícula representava, aproximadamente, 1/3 do
esforço que deveria ser feito para a consecução de semelhante objetivo global. O caso brasileiro ilustra,
pois, que é inerente às propensões de uma tradição cultural conservadora moderar a expansão do ensino,
contendo-a dentro de um ritmo que permita atender, especificamente, ao aumento potencial da procura
nos estratos superiores das classes médias e altas. Os golpes militares, em vez de destruir, fortalecem
essa orientação e agravam os seus efeitos perniciosos, exacerbando a conotação das oportunidades
educacionais, no nível do ensino médio e superior, como “privilégio de classe”. Dentro desse contexto, o
ensino superior fica permanentemente associado ao status e ao prestígio social das élites, com o
agravante de que ele não é concebido e usado como um fator de dinamização do crescimento econômico,
do desenvolvimento sociocultural, ou do progresso da pesquisa científica e tecnológica. Mas, como um
dos fatores da estrutura social que regulam a transmissão do status e do prestígio social, de uma geração
a outra, segundo os padrões da ordem social existente e das estruturas de poder que eles configuram. Por
aí se vê que a inércia cultural relativa, que afeta o desenvolvimento do ensino superior no segundo grupo
de países, constitui um produto crônico (e sob vários aspectos sociopático) da estrutura e funcionamento
da ordem social. Explicam-se, assim, o solapamento e a neutralização de todas as pressões favoráveis à
mudança, especialmente daquelas que afetem a qualidade do ensino e a distribuição das oportunidades
educacionais, e o amortecimento das tendências puramente quantitativas de crescimento global do
sistema escolar. A visão tradicionalista, que organiza a percepção e a inteligência da situação, converte o
ensino superior numa barreira social e resiste tenazmente contra a sua transformação em núcleo
institucional dinâmico do desenvolvimento da personalidade, da sociedade e da cultura.
Essa apreciação de conjunto precisa ser completada em dois pontos. Na discussão precedente foi
negligenciado um aspecto que agrava seriamente o esforço educacional do segundo grupo de países. Dez
deles apresentam uma população em idade escolar, de 20 a 24 anos, igual ou superior à média da região
(em ordem de diferença decrescente: República Dominicana, Guatemala, Nicarágua, Brasil, El Salvador,
Honduras, Peru, Costa Rica, Paraguai e Haiti). No entanto, nove desses países se encontravam, em seu
esforço de expansão do ensino superior, abaixo da média global (em ordem de diferença crescente: Peru,
Paraguai, República Dominicana, Brasil, El Salvador, Nicarágua, Honduras, Guatemala e Haiti). E
quatro entre esses países enfrentavam um retrocesso ou alguma estagnação nesse nível do seu esforço
educacional (respectivamente: Nicarágua e Peru; Guatemala e Haiti). Pensando-se em termos da massa
de população em idade escolar e dos padrões médios da região, excetuando-se o Peru (cujo caso não
possui, em termos relativos, a gravidade que aparenta) e o Haiti (que praticamente deveria começar da
estaca zero), sete dos países mencionados (na ordem das diferenças negativas crescentes: Nicarágua e
Paraguai; República Dominicana; Brasil e Guatemala; El Salvador; Honduras) não lograram crescimento
verdadeiramente compensador das matrículas no ensino superior. Para que isso tivesse ocorrido, o seu
esforço educacional, nesse nível, deveria ter sido duas, duas vezes e meia, três, cinco e até oito vezes
maior do que foi.
Outro aspecto negligenciado refere-se ao aumento da variação percentual aparentemente alto (da
ordem de 50%, 60%, 80% e até 100%) de seis países que estavam abaixo da média para a região, em
1950, e mantiveram essa posição, em 1960 (Honduras, El Salvador, República Dominicana, Brasil,
Colômbia e Equador). A discussão anterior já esclareceu suficientemente as proporções do malogro
relativo do esforço educacional dos quatro primeiros países. Restam, pois, os casos da Colômbia e do
Equador, que devem ser estimados em função dos padrões médios da região. Ambos são dois casos-
limites, pois a variação do aumento percentual das matrículas aparenta uma magnitude considerável
(100% e 80%, respectivamente). Contudo, apesar de ultrapassarem a média da região (67%), o esforço
educacional de ambos os países ficou, nesse nível do ensino, aquém do que deveria ser feito para
atingirem a média da região (para que isso ocorresse, a Colômbia deveria ter realizado um esforço quase
duas vezes e meia maior; e o Equador, pelo menos mais a metade do que conseguiu realizar). Isso
evidencia que mesmo as duas nações de maior êxito relativo no segundo grupo de países, na verdade,
perderam terreno quanto ao ritmo médio de desenvolvimento global da matrícula no ensino superior
(embora a perda relativa do Equador seja de magnitude quase insignificante). Os dois casos possuem um
interesse especial, porém, porque revelam até onde as aparências são enganadoras. Um crescimento
aparentemente intenso e compensador oculta, na realidade, a preservação de posições relativas
desvantajosas no conjunto da região. O que quer dizer que o segundo grupo de países não sairá da
estagnação real em que se acha, se não forem postas em prática medidas corretivas de natureza estrutural
e de longo alcance.
Os resultados dessa análise quantitativa apanham apenas aspectos da situação que são necessariamente
superficiais. Pelo que se sabe, através das investigações feitas por educadores e cientistas sociais, o
aspecto mais grave do ensino superior na América Latina é qualitativo. Portanto, haveria um paradoxo a
adicionar ao quadro descrito com tintas inevitavelmente sombrias. Ele consiste em que, além de
deficiente, a expansão quantitativa desenrola-se numa direção errada: o sistema escolar, ao crescer e
diferenciar-se, multiplica e difunde um tipo de ensino superior superado e, sob vários aspectos,
“disfuncional” numa sociedade competitiva em desenvolvimento. Desse prisma, o avanço do primeiro
grupo de países traduziria um progresso ingrato, porque eles estariam empregando maior soma de
recursos materiais e humanos na propagação e na expansão de um ensino superior que mereceria ser
posto à margem e superado. Não possuímos dados comparáveis que permitam discutir semelhantes
problemas; e na última parte deste estudo trataremos, sumariamente, dos aspectos qualitativos que
interessam mais à presente análise. Apenas para nos situarmos diante desse debate, gostaríamos de
assinalar que o fenômeno apontado não possui o caráter de um mal em si e de um drama insuperável. Era
preciso que os países da América Latina atingissem um nível de desenvolvimento socioeconômico que
provocasse o desnivelamento social do ensino superior, com a subsequente expansão das velhas escolas
e dos antigos padrões de escolarização. Só através desse processo histórico-social, que se acha em curso
em todos os países (embora com intensidade variável), é que se dará a lenta depuração e a fatal
superação de práticas educacionais envelhecidas ou arcaicas. Por isso, o esboço descritivo, que
pretendíamos realizar, abrangerá apenas mais duas questões. Uma, que diz respeito à distribuição das
matrículas pelos diferentes ramos de ensino. Outra, que se relaciona com o destino prático dos
graduados. No exame das duas questões pretendemos completar o diagnóstico sociológico já esboçado,
tentando desvendar se uma “sociedade subdesenvolvida”, nos marcos históricos do capitalismo
dependente, pode ou não imprimir à universidade as funções que ela deveria desempenhar para
constituir-se em “fator de desenvolvimento” (ou de aceleração e de autonomização do desenvolvimento).
Em 1965 graduaram-se, aproximadamente, 71.000 pessoas por universidades ou escolas superiores
latino-americanas. Eis a distribuição dos graduados, pelos diversos ramos do ensino:[65]


O conjunto de ramos de ensino ligados com as profissões tidas como tradicionais (medicina, direito e
engenharia) concorre nada menos que com 52% do total. Doutro lado, setores tão vitais para o
desenvolvimento cultural de uma nação moderna, como o da educação e o das ciências naturais,
participam de modo relativa mente baixo ou ínfimo (21% e 4%, respectivamente). Além disso, somando-
se os totais de educação, direito, ciências sociais e econômicas, arquitetura e belas-artes, temos 37.000
graduados (ou 51%) contra os 14.000 graduados (ou 20%) de engenharia, ciências naturais e agricultura.
Ao que tudo indica, pois, a universidade latino-americana ainda não conseguiu superar as distorções
nascidas do antigo condicionamento técnico-profissional e socioeconômico, que inibia o seu
desenvolvimento como um fator cultural multifuncional.
Essas conclusões poderiam ser confirmadas e ampliadas, se usássemos os dados concernentes à
distribuição de matrículas em 11 países da América Latina (veja-se o quadro 3). Tais dados mostram
que, entre 1955-56 e 1960, havia a seguinte distribuição percentual das matrículas:[66]


Parece evidente que a antiga distorção técnico-profissional ainda prevalece nas universidades latino-
americanas, em termos que concorrem para preservar uma alta concentração da procura em torno de
ramos do ensino relativamente pouco significativos para a modernização da tecnologia, o crescimento
econômico e o desenvolvimento sociocultural. Razões econômicas e psicossociais, relacionadas com a
manutenção de status das famílias de classe média e alta ou com as pressões dinâmicas de uma estrutura
ocupacional deformada em alguns de seus níveis pelo congestionamento de profissionais liberais,
continuam a preponderar no ânimo dos jovens e em suas aspirações de “carreira intelectual”. O círculo
permanece tão fechado, que os jovens são permanentemente compelidos a fazer o reduzido grupo de
escolhas que prevaleciam no passado, mesmo em sociedades nas quais já existem novos recursos
educacionais, novas oportunidades de “empregos compensadores” e novas vias de aproveitamento
construtivo do talento.
Tende-se a condenar a universidade latino-americana por essa situação. Todavia, não é a universidade
que cria a estrutura de avaliações das carreiras, fundadas em requisitos universitários. Ao que parece,
ela se adaptou profundamente, ao longo de uma evolução secular, às exigências de uma sociedade que
atrelava estreitamente a universidade a uma organização do poder na qual só possuíam significação
interesses econômicos, sociais e culturais de uma estreita parcela da população. Isso produziu uma
espécie de vácuo social na configuração da universidade e de suas relações com a sociedade. Ela
interage estrutural e funcionalmente com esta, mas apenas no nível da organização de poder em que se
encontra inserida (ou seja, dos interesses materiais e morais das classes médias e altas, bem como de
suas élites econômicas, culturais e políticas). Daí resultou uma barreira invisível à diferenciação
progressiva das funções na universidade e uma tendência quase inexorável à concentração dominante das
escolhas em um número reduzido de ramos do ensino. Como a esse processo institucional sempre
correspondeu uma acentuada concentração dos graduados em algumas “carreiras condignas” (o que
continua a ocorrer com as oportunidades intelectuais, científicas ou técnicas emergentes), a universidade
ficou presa dentro de malhas pouco elásticas, que reduziam inevitavelmente o seu impulso criador e
restringiam fatalmente a sua contribuição para a alteração da estrutura, do significado e das funções das
“ocupações intelectuais”. Portanto, aprofundando-se a análise, descobre-se que a universidade não é
responsável pela situação existente e suas consequências mais ou menos negativas. O aparecimento, a
consolidação e a valorização positiva de novas “carreiras intelectuais” não se produzem como efeitos
secundários da modernização. É preciso que a própria estrutura da sociedade global se altere,
provocando transformações profundas na organização do sistema ocupacional, nos critérios de
peneiramento dos intelectuais e no aproveitamento socialmente construtivo do talento. Como nada disso
ocorreu, pelo menos dentro de uma escala sociologicamente significativa, as mudanças que afetaram a
organização, o funcionamento e o rendimento da universidade foram superficiais. Até as novas escolas ou
faculdades acabam se defrontando com uma realidade dramática. Por falta de suporte institucional
adequado e de dinamismos societários vigorosos, elas por assim dizer envelhecem precocemente. Em
vez de fazerem pressão no sentido de transformar as unidades preexistentes, elas se obsoletizam por
contágio ou graças a controles sociais indiretos, tornando-se totalmente impotentes diante das “estruturas
arcaicas”. Convertem-se às expectativas socioculturais predominantes no meio e logo ficam irrelevantes
como fator de mudanças substanciais nas formas possíveis de vida intelectual.
Os dados apresentados não comportam uma análise sistemática das orientações da procura de cursos
ou de suas implicações propriamente educacionais. Todavia, eles sugerem algumas conjecturas, úteis à
compreensão do estado atual do ensino superior na América Latina. Em primeiro lugar, não deixa de ser
impressionante a negligência de matérias tão essenciais para esses países, como a agronomia e a
veterinária. As pessoas que lidam praticamente com tais questões, em posições dominantes e de
liderança, formaram seu horizonte cultural através da rotina, do conhecimento de senso comum e, por
vezes, do folclore. Mesmo quando aceitam inovações de caráter técnico-científico ou quando admitem a
colaboração circunstancial e localizada dos especialistas, repelem o que chamam de “técnica formada” e
desmerecem de várias maneiras suas qualificações científicas “teóricas”. Os motivos que determinam
semelhantes atitudes e comportamentos ligam-se, provavelmente, à defesa de prerrogativas autoritárias
de status e de dominação incondicional, que poderiam ser minadas e destruídas juntamente com o
tradicionalismo.[67] Doutro lado, não é raro que a criação e a expansão de escolas de agronomia e de
veterinária (como acontece de modo universal também com outras faculdades, especialmente as de
direito, de farmácia e odontologia, de filosofia, ciências e letras etc.) exprimam mais o desejo de possuir
certos símbolos de civilização, que a decisão de enfrentar determinados problemas em escala racional.
Por isso, as escolas mais fáceis de montar encontram decidida preferência. Elas nada representam (e em
regra nada devem representar) como fontes de modificação da rotina ou de mobilização e de utilização
racionais dos recursos materiais e humanos do ambiente.
Em segundo lugar, é preciso notar-se que a alta concentração da procura em certos ramos do ensino
superior, como a arquitetura, a engenharia e a medicina (que alcançaram 42,5% das matrículas), não quer
dizer que as universidades da região estejam formando e preparando o pessoal especializado que seus
países necessitam nesses setores. Ao contrário, não só existe escassez de pessoal qualificado nessas
áreas, como são notórios tanto a sua má distribuição dentro dos diferentes países (em regra, os graduados
tendem a preferir as grandes cidades ou as metrópoles como núcleos de exercício de suas profissões),
quanto o seu subaproveitamento (com frequência em atividades bem remuneradas e de prestígio, mas que
não requerem as qualificações indicadas). Além disso, na maioria dos países, os médicos e os
engenheiros, principalmente, têm demonstrado que são mais sensíveis à defesa dos seus níveis de renda e
de prestígio que às necessidades mais ou menos prementes de seus povos. Fundados em razões
aparentemente louváveis, como a “alta qualidade do ensino” ou a “preparação rigorosa” para a vida
profissional, impedem, restringem ou inibem o aproveitamento da capacidade ociosa de suas escolas ou
faculdades. No que diz respeito à expansão do ensino de arquitetura, engenharia e química industrial, ao
que parece apenas o México está tentando realmente modificar, de maneira decisiva, os padrões
tradicionais. Em menor escala, o mesmo parece estar acontecendo na Colômbia e no Panamá. Merece
também consideração especial, por motivos inversos, a situação do Brasil. Apesar de carecer de uma
reviravolta nesse campo (não só pela extensão do país e do volume da população, mas por causa de ter a
industrialização atingido a fase de formação de indústrias de produção de bens de produção), o Brasil
está abaixo das médias globais e muito abaixo do esforço educacional dos países que estão enfrentando
com maior tenacidade as suas deficiências nesses setores. No que tange à farmácia, medicina e
odontologia, duas coisas chamam a atenção. De um lado, as deficiências flagrantes, que alcançam
proporções dramáticas em alguns países da América Latina. De outro, que alguns países estão
empenhados em corrigir, como podem, tais deficiências. O que acarreta, naturalmente, porcentagens que
são aparentemente altas para o grau de diferenciação e de desenvolvimento dos respectivos países. De
qualquer modo, seria bom não se perder de vista uma hipótese de conjunto. Os dados sugerem,
conclusivamente, que os onze países, representativos dos dois grupos analisados acima, em ramos do
ensino importantes para o desenvolvimento como a engenharia, a química industrial e as ciências
médicas, mal conseguem adaptar-se à pressão do aumento crescente das matrículas. Excetuando-se o
México, prevalece uma orientação passiva e inibidora, a qual impede que a universidade assuma a
iniciativa de romper os bloqueios tradicionais, forçando modificações urgentes na organização e
distribuição das matrículas.
Em terceiro lugar, cumpre-nos observar que nem sempre são justas as críticas feitas à preponderância
da procura em ramos do ensino como o direito, as ciências sociais e econômicas, a pedagogia etc. Tais
críticas fundam-se na alta participação do direito nessa procura (por si só, esse ramo do ensino entra com
uma quota de 25% a 30% ou mais das matrículas, na maioria dos países) e na presunção de que o direito
não possui mais a importância que teve no passado como fonte de recrutamento das élites culturais,
político-administrativas e econômicas. Na realidade, porém, a maioria dos países ainda depende dos
“bacharéis em direito” para compor suas élites. E a carência de cientistas sociais e de professores de
ensino médio, além das necessidades que impõem o uso maciço do planejamento, tornam as demais
escolas superiores tão úteis e necessárias quanto as de engenharia, química e medicina. Feitas essas
ressalvas, seria conveniente mencionar alguns traços sintomáticos do atual sistema de ensino, revelados
pelas indicações expostas. A maneira pela qual países tão diversamente desenvolvidos na esfera do
ensino superior (como Argentina, Brasil, El Salvador, Costa Rica, Panamá, Paraguai e Peru) oscilam em
torno ou acima da média global sugere o quanto a procura nesse nível reflete a persistência do padrão
tradicional. Essa implicação deve ser devidamente ponderada, pois ela assinala que, nesse plano, não
existem diferenças substanciais entre os dois grupos de países. Independentemente da magnitude do seu
esforço educacional e de sua pobreza ou riqueza relativas, todos tentaram e conseguiram um mínimo de
êxito na montagem do tipo de “ensino superior” que era encarado pelas élites tradicionais como o
próprio símbolo da “cultura refinada” e da qualificação para o exercício do poder. Os mesmos dados
apoiam uma observação importante. O México e a Colômbia são os dois únicos países cujo esforço
educacional está fortemente abaixo da média, quanto a esse nível do ensino superior. Como não se pode
presumir que isso resulte de uma escassez relativa de recursos para a educação, é provável que esteja
emergindo uma tendência definitiva no sentido de reorientar e reorganizar a procura das matrículas
universitárias. Não deixa de ser sintomático, porém, que apenas em dois países sobre onze apareça tal
tendência, tida em muitos círculos intelectuais como a pedra de toque para o início de transformações
verdadeiramente substanciais do ensino superior.
A segunda questão leva-nos à discussão do destino prático dos graduados. Apesar do muito que se
escreveu a respeito, não se dispõem de dados comparáveis, suficientemente consistentes, para toda a
América Latina. Faltam, especialmente, indicações mais ou menos precisas sobre os requisitos
intelectuais das ocupações em que os graduados são aproveitados. Em regra, pode-se afirmar que,
excetuando-se carreiras inerentes às “profissões liberais” ou técnicas, a preferência por graduados não
nasce de exigências intelectuais específicas, mas de questões de prestígio, tradição ou de pura
solidariedade social. Doutro lado, a emergência e a ascensão das classes médias não quebraram os
padrões tradicionais, como se tem interpretado tão generosamente. As classes médias não tinham meios
para privilegiar a riqueza, o prestígio social ou o poder em sua competição por status e por mobilidade
vertical. Tais fatores eram monopolizados pelas classes altas. Por isso, a acumulação de saber ou de
“cultura” erigiu-se em seu verdadeiro bastião nas relações competitivas com as demais classes, embora
isso não engendrasse nenhuma forma de monopolização do saber ou da “cultura” (pois as classes altas
preservaram suas antigas posições nesse nível, admitindo apenas um alargamento dos círculos sociais
que tinham acesso às formas privilegiadas de educação). Em consequência, as classes médias tenderam a
se acomodar aos padrões tradicionais, de supervalorização e de nobilitação tanto do título de bacharel,
quanto da preferência pelos setores da advocacia, medicina e engenharia. Onde e como puderam,
manipularam a ordem legal com vistas à criação de requisitos de exercício das profissões que impunham
(ou poderiam impor) qualificações universitárias. Dessa maneira, privilegiavam o fator através do qual
contavam com probabilidades de competir com as classes altas numa estrutura social eivada de
privilégios. Por aí se explica por que as transformações tão profundas, acarretadas pela “revolução
burguesa” no plano econômico, tecnológico e político, quase não afetaram a organização, o
funcionamento e o rendimento das universidades. Estas continuaram a ser uma espécie de “fábrica de
bacharéis”, no melhor estilo da antiga universidade.
Esse processo não impediu que as relações entre a universidade e a sociedade se alterassem em muitos
pontos. Graças à complicação da divisão social do trabalho, o sistema de ocupações inerente à economia
de mercado, à “grande cidade” e ao “Estado moderno”, surgiu em todos os países como uma realidade
histórica. Essa circunstância, combinada ao mecanismo pelo qual as classes médias privilegiaram
intelectualmente (e por vezes também legalmente) os requisitos universitários das profissões
“qualificadas” ou “altamente qualificadas”, determinaram a persistência e a redefinição social dos
padrões tradicionais no novo contexto histórico. Como no passado mais ou menos remoto, os graduados
visam a carreiras altamente compensadoras (em prestígio, em renda ou em ambas as coisas) de “natureza
intelectual”; e como então sucedia, várias dessas carreiras situam-se no âmbito de atuação do
profissional liberal, livre e independente, ou nos setores de atividades do “homem de ação” (da política
à administração pública e privada). Ao que parece, no entanto, as mudanças econômicas, tecnológicas e
políticas tendem a estabelecer uma nítida predominância do assalariamento do universitário. Pode-se
verificar essa tendência através das seguintes indicações, pertinentes a 1950, que evidenciam que a
proporção de profissionais, semiprofissionais e técnicos livres é, normalmente, 2, 3 ou 4 vezes menor (e
circunstancialmente é 5, 6 ou até 7 vezes menor) que a dos seus colegas assalariados:[68]


Está em curso, portanto, um processo de transformação do sistema ocupacional, com referência a
profissões com requisitos universitários, que se adapta às mudanças de estrutura da ordem econômica,
social e política. Infelizmente, não existem dados que permitam analisar as implicações educacionais
(especialmente no nível do ensino superior) desse processo. Até o presente, é possível avaliar apenas um
aspecto de suas consequências. Trata-se da dispersão (ou da polarização dispersiva) do pessoal com
formação universitária. É cada vez maior a amplitude e a diversificação de oportunidades de carreira que
a sociedade oferece aos graduados das universidades, tanto dentro de uma linha que respeita e aproveita
as potencialidades da especialização, quanto numa linha de intensificação crescente de duras
competições interprofissionais. Esse processo, todavia, não pode ser descrito com relação a todos os
países. Utilizando-nos de informações concernentes ao Brasil, contudo, podemos esboçar uma imagem
viva do que está acontecendo. Assim, dados relativos a pessoas ocupadas em profissões técnico-
científicas (no censo de 1/7/1950) revelam que, num total de 97.114 profissionais, semiprofissionais e
técnicos, 42.265 (ou seja, 47%) dedicavam-se às profissões liberais, enquanto 51.849 (ou seja, 53%)
dedicavam-se a outras atividades, por conta própria ou como assalariados. O quadro 9 fornece uma visão
de conjunto da situação brasileira, sob esse aspecto (note-se que várias profissões técnico-científicas não
foram computadas: economistas, sociólogos, psicólogos, orientadores educacionais, administradores
etc.). Por ele se verifica que algumas profissões técnico-científicas são mais suscetíveis que outras à
polarização dispersiva. Os dentistas e protéticos (com 92,9% em profissões liberais), os advogados
(com 75%) e os médicos (com 51,9%) estão entre os profissionais que logram o máximo de
autonomização numa estrutura ocupacional competitiva. Por sua vez, o inverso se revela com os químicos
(com 2,2% em profissões liberais), os agrônomos (com 9,8%), os engenheiros (com 10,4%), os
veterinários (com 16,8%) e os arquitetos (com 25,5%), os quais tendem a um máximo de irradiação
dispersiva. Com três exceções, que não vem ao caso discutir, essa irradiação envolve os profissionais de
formação universitária em todos os ramos de atividade econômica. É possível que as proporções
indicadas traduzam potencialidades de aproveitamento de pessoal de nível superior alcançadas pela
sociedade brasileira na década de 1950. Entretanto, presumimos que as tendências centrais possuem
caráter geral (em termos da organização da economia e da sociedade sob o capitalismo dependente),
aplicando-se pelo menos aos países da América Latina que conseguem formar internamente os
profissionais em questão.
O processo mencionado suscitou várias controvérsias. Há quem pense que a tendência a incorporar o
universitário a “élites culturais” de funções criadoras tão dispersivas e improdutivas seja uma
degradação do intelectual. Também se tem ventilado o problema de saber se a maneira indicada de
dispersar os graduados de diferentes ramos de ensino em carreiras tão variadas e disparatadas não seria
mera devastação de recursos humanos relativamente escassos (já que, no mínimo, haveria
subaproveitamento sistemático de pessoal de nível superior). Na verdade, semelhante irradiação
dispersiva de intelectuais com formação universitária não estimula a produção criadora e colide
abertamente com o que se poderia chamar de uso racional do talento pela sociedade. Mas, é preciso ter-
se em vista que os países latino-americanos estão incorporando, dessa maneira, novas formas de saber
artístico, científico ou técnico a uma massa crescentemente maior de indivíduos. Isso significa que se está
alterando, por uma via tão tumultuosa quão dispersiva e cara, os conteúdos e a organização do horizonte
cultural dos “intelectuais”. Aos poucos, a sociedade acabará contando, em quantidade e em qualidade,
com pessoal abundante para ocupações que exigem altas qualificações. Portanto, ao processo descrito
são inerentes pelo menos alguns significados positivos, que têm sido negligenciados. O nível de
qualificação dos diferentes tipos de profissionais, que controlam as posições-chaves da estrutura
ocupacional de uma sociedade moderna, constitui em si mesmo um dos fatores invisíveis mais
importantes da continuidade e da intensidade do desenvolvimento econômico e sociocultural. O que se
poderia e deveria pôr em causa, sob esse prisma, não seria a polarização dispersiva de “intelectuais”
com formação universitária, mas se eles obtêm (ou deixam de obter), nos cursos universitários, o mínimo
de qualificação requerida ou desejável. Posta nestes termos, a questão muda de aspecto. Pois as escolas
e faculdades que ministram ensino superior (inclusive nos países do primeiro grupo) raramente estão
adaptadas para preencher a função de preparar seus graduados para os diferentes tipos de carreira em
que eles são ou podem ser aproveitados. Eles sequer “aprendem a aprender” nas escolas e faculdades
mais deficientes. As instituições que absorvem os graduados, por sua vez, também raramente possuem
condições para complementar e aperfeiçoar a aprendizagem universitária (tanto no setor público, quanto
no setor privado). Estabelece-se, assim, um círculo vicioso, que redunda, de fato, no “mau uso” e no
“subemprego sistemático” de fatores humanos essenciais à criação de suportes psicoculturais do
desenvolvimento econômico e social.
O aspecto mais dramático da situação, do ponto de vista em que ela é colocada neste trabalho, consiste
em que o círculo vicioso apontado não encontra um fator de ruptura e de superação nem no crescimento
da estrutura ocupacional da sociedade nem em algum desequilíbrio súbito de origem especificamente
educacional. É sabido que o crescimento econômico tende a diluir, a longo prazo, as inconsistências
institucionais do sistema escolar. Doutro lado, em condições de ebulição social e política, o sistema
escolar por vezes consegue (através do egresso das universidades e independentemente do padrão e do
ritmo do crescimento econômico) imprimir à sociedade uma evolução revolucionária. Até o presente,
nenhuma das duas alternativas se configurou como uma saída histórica nos países da América Latina. O
impulso fornecido à mudança institucional pela “revolução burguesa”, sob o capitalismo dependente, é
descontínuo, fraco e dispersivo. Além disso, atingido certo patamar mais avançado, os efeitos
construtivos do crescimento econômico deixam de operar construtivamente em escala nacional, porque
em seguida aquele patamar se estabiliza (por falta de fatores de aceleração da mudança) e deixa de
funcionar como um simples elo na direção de uma organização econômica mais complexa. Em
semelhantes condições, o agente humano da mudança institucional redefine constantemente suas
motivações econômicas, sociais e políticas, imprimindo insensivelmente maior peso aos interesses
egoísticos que o prendem ao statu quo ante. Desse modo, esvazia de modo parcial ou total e perverte de
um jeito ou de outro o complexo processo de adaptação das instituições às suas funções econômicas,
sociais e políticas emergentes. Foi graças a uma progressão desse tipo que as universidades ficaram
permanentemente envolvidas pela situação de interesses e pela perspectiva social dos estratos superiores
das classes médias e altas. As ideologias e as utopias educacionais, que poderiam dar fundamento a uma
autêntica e profunda “reforma universitária”, em vez de serem usadas como forma de negação e de
superação da antiga universidade, serviram de biombo para ocultar a sua perpetuação sob novo figurino.
Em consequência, da universidade e dos seus egressos não partiu nenhum processo cultural de teor
revolucionário, suscetível de causar um impacto sobre a transformação da ordem legal e, através dela,
sobre o crescimento econômico e o desenvolvimento social.
Os quadros 6, 7 e 8[69] lançam, indiretamente, alguma luz sobre esses aspectos sombrios do impasse
que nasce da conjugação crônica de ritmos insuficientes de crescimento econômico com padrões débeis e
inconsistentes de mudança institucional. O que chama a atenção do analista, nos referidos quadros, é o
círculo vicioso quase perfeito que inibe, solapa ou destrói qualquer influência recíproca altamente
criadora nos sentidos economia Ü sociedade Ü ensino superior; ou ensino superior Ü sociedade Ü
economia. Como a inibição, o solapamento ou a neutralização das influências dinâmicas construtivas se
dá sob transformações quantitativas constantes, o aspecto sociopático da rigidez relativa do ensino
superior é perdido de vista. Contudo, a estrutura ocupacional e da renda, suportada pelo sistema
econômico, não alimenta um processo educativo suficientemente diferenciado e vigoroso para galvanizar
a universidade, erigindo-a em um fator real de ruptura da inércia cultural e do desenvolvimento. No
conjunto total de ocupações, apenas 1,4% das pessoas ocupadas dispõem de formação universitária
(completa ou incompleta). Elas concentram-se em algumas categorias ocupacionais (fornecem 23,6% dos
profissionais e técnicos, 9,9% dos administradores e gerentes, e 2,0% dos empregados e vendedores). É
esse número ínfimo que delimita a estrutura ocupacional das pessoas com formação universitária (na qual
62,3% se ocupam como profissionais e técnicos; 21,7%, como administradores e gerentes; e 16,0%,
como empregados e vendedores). Por aí se depreende o que a formação universitária pode representar,
estrutural e funcionalmente, como “força socioeconômica”. Em condições de crescimento econômico
contínuo e em aceleração crescente, essa minoria poderia agir como um elo dinâmico entre a ordem
social estabelecida e a transformação da economia, da tecnologia e do sistema de instituições (inclusive
as instituições educacionais e, entre elas, as universidades). Nas condições predominantes da América
Latina, de estancamento econômico e de crescimento econômico instável ou moderado, essa minoria
apenas opera como um elo dinâmico entre a ordem existente e a estabilidade social (ou a mudança sob o
máximo de segurança para os estratos superiores das classes médias e altas). Por sua própria situação
socioeconômica, tal minoria está condenada (pelo menos enquanto prevalecerem as condições
econômicas, sociais e culturais do presente) a canalizar o crescimento econômico e o desenvolvimento
educacional (especialmente do ensino médio e superior) no sentido da preservação e do fortalecimento
dos seus próprios níveis de renda, de prestígio social e de poder. Os sociólogos sabem que não existe
“lógica dos grandes números” que resista ao estancamento socioeconômico crônico ou ao
desenvolvimento socioeconômico moderado. Todavia, dadas e mantidas essas mesmas condições, a
alternativa da “lógica dos pequenos números” desemboca numa encruzilhada, na qual todos os
privilégios se unificam para a defesa do que garante a existência e a sobrevivência dos privilégios: a
ordem estabelecida. Atrás de uma mudança aparentemente contínua, profunda e avassaladora, esconde-se
a perpetuação do statu quo ante, porque o que está em jogo não é a negação e a extinção dos privilégios,
mas a sua continuidade sob novas formas.
Isso não significa, naturalmente, que tudo esteja ou permaneça como no passado. Se não ocorrer um
mínimo de mudança institucional e de crescimento econômico, de modo constante, a própria estrutura
ocupacional e de distribuição da renda, em que se fundam os privilégios econômicos, sociais e
educacionais vigentes, se veria ameaçada. Mas que, dependendo do impulso atual do crescimento
econômico e do ritmo da mudança institucional que resulte da atuação consciente das élites culturais, a
conjugação entre universidade e desenvolvimento tenderá a estabelecer-se dentro de níveis em que o
fundamental sempre virá a ser resguardar o padrão tradicional de aproveitamento dos graduados pela
sociedade. Se esse panorama não se alterar a partir da própria estrutura ocupacional e de distribuição da
renda, é mais que certo que ele não se modificará a partir da universidade. Pois ela não dispõe de
dinamismos bastante fortes para romper o terrível isolamento cultural a que se vê relegada, em virtude
dessa mesma estrutura ocupacional e de distribuição da renda, que privilegia os seus graduados.
UNIVERSIDADE E DESENVOLVIMENTO

A QUESTÃO DE SABER-SE qual é a importância estrutural e dinâmica das universidades como fator de
desenvolvimento, na América Latina, depende, naturalmente, do que se entenda por “desenvolvimento”.
Uma sociedade nacional pode transformar-se de maneira acelerada e tumultuosa, sem que se possa falar,
no entanto, que ela esteja se diferenciando no padrão organizatório de sua estrutura social, ou seja, que se
encontre em desenvolvimento. Isso significa que a universidade pode se ver projetada no contexto de uma
sociedade em mudança — e contribuir positivamente para o condicionamento, a orientação ou a
intensificação de determinadas mudanças — sem que mereça ser qualificada, sociologicamente, como
“fator de desenvolvimento”.
Atendo-nos apenas ao que nos interessa diretamente, na situação econômica, sociocultural e política,
imperante na América Latina, desenvolvimento significa alteração na posição através da qual suas
sociedades nacionais participam da civilização ocidental. O subdesenvolvimento dessas sociedades
decorre do modo pelo qual elas participam dessa civilização: através de uma posição heteronômica (ou
dependente), que não se altera pela simples manifestação do crescimento econômico e da mudança
sociocultural progressiva. Ambos são requisitos para que elas se mantenham numa posição heteronômica
em um mundo em mudança (isto é, são condições para que elas se adaptem, dinamicamente mas na
mesma posição dependente, às alterações ocorridas nas estruturas econômicas e de poder no plano
internacional). As universidades das nações subdesenvolvidas também estão inseridas nessas relações de
dependência e concorrem para preservar as formas de subordinação cultural existentes, servindo de elo à
assimilação de cultura produzida nas nações desenvolvidas e hegemônicas, que exercem o monopólio na
invenção e difusão das formas básicas de saber. Elas podem exercer influências ativas, diretas ou
indiretas, sobre o crescimento econômico e a mudança sociocultural, e, não obstante, tais influências
podem estar especificamente vinculadas à preservação do statu quo (no caso, a consolidação da ordem
social competitiva que emerge e se expande em conexão com o capitalismo dependente).
Dessa perspectiva, a universidade só aparece e se afirma historicamente como “fator de
desenvolvimento”, quando concorre para a negação e a superação desse statu quo. Realizada esta
condição estrutural-funcional, os seus dinamismos se caracterizam pela contribuição que ela dá,
institucionalmente, para a autonomização progressiva da respectiva sociedade nacional na esfera da
cultura. Nesse sentido, ela assume, desde o momento em que se coloca a negação e a superação do
subdesenvolvimento, funções de transição que possuem caráter revolucionário, ajudando a calibrar e a
orientar o tipo de revolução que é inerente ao desenvolvimento.
As duas partes precedentes deste estudo demonstram, conclusivamente, que isso não está ocorrendo (e
ao que parece está longe de ocorrer) na América Latina. Mesmo os países mais “ricos” e “avançados” da
região (com a exceção de Cuba) projetam o seu esforço educacional, em todos os níveis do ensino, numa
direção que preserva ou aumenta sua dependência cultural em relação ao exterior e que redunda no
fortalecimento da ordem social competitiva associada ao capitalismo dependente. Em consequência, suas
universidades obedecem a diretrizes que as convertem em fatores de progresso cultural, mas nas
condições crônicas, predominantes, de subdesenvolvimento. Suas funções socioculturais construtivas
estão voltadas para a consolidação do statu quo, cabendo-lhes imprimir a eficácia possível ao padrão de
integração da ordem social competitiva nascido da conjugação de hegemonia cultural externa,
capitalismo dependente e estratificação em classes sociais.
Essa conclusão choca-se com o que se afirma comumente sobre o assunto, com base em evidências
quantitativas ou qualitativas mal interpretadas. Na verdade, o pensamento corrente procede de políticos,
educadores e cientistas sociais que confundem sistematicamente “mudança sociocultural progressiva” e
“desenvolvimento”. Assim, qualquer evidência de alteração pode ser tomada como sintoma de
desenvolvimento, independentemente de suas relações dinâmicas com a preservação estrutural ou com a
transformação estrutural do statu quo. É óbvio que viciam a perspectiva de análise e acabam
descobrindo o que desejariam que acontecesse. O “progresso educacional” pode assumir várias
dimensões e possuir vários significados. Cabe à investigação sociológica determinar o que tais
dimensões e significados representam no contexto social. Até o presente, pelo menos, o “progresso
educacional” que se vem desenrolando nas universidades latino-americanas ainda parece insuficiente
sequer para servir de patamar à avalanche, que se desencadeia nas fases incipientes de negação do
subdesenvolvimento e de transição para formas mais ou menos autônomas de vida intelectual
fermentativamente criadora.
De acordo com essa compreensão do assunto, as universidades latino-americanas — mesmo as
melhores: em termos de pessoal, de equipamento, de orientação e de realizações — ainda não se
adaptaram, de fato, às funções que, embora contingentes e transitórias, são vitais para a negação e a
superação do subdesenvolvimento: a conquista de autonomia intelectual na organização do esforço
educacional e de criação intelectual, com vistas aos dilemas materiais, humanos e morais que deitam
raízes na falta de correspondência efetiva entre a ordem social vigente e a forma de integração da
sociedade nacional. Em todas as esferas cruciais de organização do esforço educacional e da criação
intelectual, prevalece uma acomodação mais ou menos passiva diante das soluções procedentes do
exterior (às vezes até postas em prática sob supervisão direta de agentes humanos vindos de fora), que
substitui o processo que seria “normal” nas nações avançadas — a descoberta das soluções necessárias à
luz do padrão de civilização vigente e do poder que ele confere ao homem de intervir consciente e
deliberadamente, na organização e na alteração da porção institucionalizada do meio social. Acresce que
a busca e o aproveitamento das vias possíveis de destruição das barreiras mais visíveis da heteronomia
cultural desenrolam-se em planos nos quais o irrealismo e as atitudes compensatórias (de cunho
individual, grupal ou nacional) importam mais que a realização eficaz, que possa servir de patamar para
a espiral da acumulação cultural progressiva, com verdadeiros ganhos na absorção e interiorização de
processos de invenção cultural. Essa situação cultural configura-se, do ponto de vista sociológico, como
inegavelmente sociopática. As universidades latino-americanas submetem-se, de maneira variável, ao
clima dominante de resistência à mudança progressiva, de solapamento sistemático das inovações
necessárias a um esforço educacional e de criação intelectual autonomizantes, e de desmoralização do
pensamento produtivo livre. Daí as conhecidas formas de derrotismo, de “mudança de fachada” e até de
charlatanismo intelectual que elas, com frequência, abrigam, favorecem e chegam a estimular. Em
consequência, dentro delas torna-se difícil e precária a mudança progressiva que acarrete
desenvolvimento: recursos materiais e humanos ultraescassos são mal aplicados ou dissipados
destrutivamente de maneira crônica. E o seu crescimento se processa em zigue-zagues, com constante
perda e reconquista das posições ganhas, como se o professor universitário responsável devesse lutar,
durante toda a sua vida, com os mesmos problemas instrumentais, relacionados com as condições
mínimas do seu labor intelectual. Poder-se-ia argumentar, em sentido contrário, com os “casos
excepcionais”. Eles, no entanto, apenas confirmam a regra. Na América Latina, como em qualquer parte,
eles rompem o seu caminho contra a adversidade, graças ao seu talento, à sua coragem e decisão ou ao
apoio também excepcional que às vezes atraem. Contudo, é evidente que eles não conseguem alterar as
condições rotineiras de trabalho, pois a realidade continua a mesma para os demais e, em seguida, para
os seus próprios sucessores.
Portanto, o aspecto institucional é deveras importante para entender-se o que ocorre com as
universidades latino-americanas. Só que é preciso fazer-se uma espécie de rotação macrossociológica,
para ver-se a instituição em suas relações estruturais e dinâmicas com a sociedade e a cultura, em escala
nacional. Parece evidente que a sociedade e a cultura não lhes deram o impulso que, em outras situações
históricas, conduziu os mesmos modelos institucionais às culminâncias de suas potencialidades
educacionais e intelectuais. Ao inverso do que se admite, a conclusão que se poderia tirar, do que tem
acontecido e do que está acontecendo, consiste em que tanto os modelos institucionais “antigos”, quanto
os “modernos” foram e continuarão a ser mal explorados, em grande parte, por causas extrínsecas à vida
universitária. Esta foi plasmada sob um clima permanente de baixas exigências e de apoio superficial e
irregular. Não é de admirar-se, por conseguinte, o baixo rendimento. Mas que, em tais condições, as
universidades funcionem, produzam alguns frutos e atinjam, aqui ou ali, resultados dignos de
consideração.
Na análise dessa questão, pelo menos enquanto prevalecerem as condições de subdesenvolvimento,
deve-se pôr de lado o tipo de abordagem sociológica usualmente empregado pelos sociólogos das nações
avançadas no estudo de suas universidades. As correlações entre certas condições da organização do
ambiente (como índices do crescimento econômico, da urbanização, da secularização do comportamento
político ou econômico etc.) e as tendências mensuráveis do “progresso educacional”, no nível do ensino
superior, apenas explicam os dinamismos que revelam o grau de adaptação dos modelos institucionais,
absorvidos pelas universidades, às condições histórico-sociais imperantes na América Latina. O que
quer dizer que explicam como e por que os dinamismos das universidades latino-americanas são os
dinamismos das universidades de nações subdesenvolvidas, que ainda não aprenderam ou mal começam
a aprender a utilizar seus recursos materiais e humanos para enfrentar o subdesenvolvimento. Elas só são
heuristicamente iluminadoras por uma razão: deixam irrefutavelmente claro que a uma sociedade
nacional subdesenvolvida correspondem, de modo fatal, universidades subdesenvolvidas. Os
professores, pesquisadores e estudantes universitários repudiam amargamente as injunções dessa ideia.
Doutro lado, a própria valorização e o cultivo sociais da universidade como “símbolo de civilidade”
(senão de civilização) chocam-se com essa constatação. Contudo, ambas devem ser admitidas como o
ponto zero de uma mudança de orientação diante do próprio uso estratégico da universidade como fonte
de autonomização cultural e fator de racionalização na utilização produtiva de recursos materiais ou
humanos escassos. Na verdade, nem o excedente criado pelo crescimento econômico, nem o uso social
desse excedente, nem o modo de empregar a parcela dele que é destinada às universidades permitem
configurar a realidade de outra maneira. O melhor parece ser a admissão pura e simples dessa
circularidade, como meio para conhecê-la positivamente e combatê-la com maior eficácia. Mantida na
penumbra, nada se altera; e a própria universidade fica à margem da história e da evolução cultural do
seu país, tendo valor efetivo e perene apenas como “símbolo civilizatório”.
Por isso, o foco da análise sociológica, a partir da situação de interesses de que compartilha o
investigador que pertence à sociedade subdesenvolvida, deve estar nos aspectos que permitam explicar a
persistência dos referidos dinamismos da “universidade de nação subdesenvolvida”. É presumível que
de algum ponto deveria esboçar-se e irromper uma ruptura com as acomodações sociais e intelectuais
que redundam nessa persistência. Ou de dentro da universidade; ou de fora, através do comportamento
inteligente das elites culturais ou então da ação de círculos sociais inconformistas; ou de todos esses
setores, conjugadamente. O conformismo diante dos padrões culturais e do horizonte intelectual médio
predominantes em tal tipo de universidade e, o que é pior, a aceitação e a valorização da “mediocridade
satisfeita”, que elas instituem como parte normal da vida acadêmica, são indicadores expressivos de que
nenhum círculo social e nem mesmo os intelectuais encastelados nas universidades se empenham
decisivamente na superação dessa conjuntura.
Na raiz de semelhante apatia não está nem o grau de crescimento econômico, nem a intensidade da
urbanização, nem os contrastes entre a “sociedade tradicional” e a “sociedade moderna”, nem tampouco
as inconsistências da secularização de atitudes e comportamentos sociais. Sem dúvida, efeitos de tais
processos se fazem sentir tanto na superfície, quanto no fundo da vida universitária. Todavia, o que
acontece nos países subdesenvolvidos é que esses e outros processos se equacionam dentro de limites
quantitativos e qualitativos que são insuficientes para alterar os rumos preestabelecidos das coisas. Estas
continuam praticamente como antes ou quase iguais depois da intensificação do crescimento econômico,
da urbanização, da modernização etc. De fato, o moderno arcaíza-se com a mesma facilidade com que o
arcaico se moderniza. Feitas as contas, a mudança real e substancial é muito menor do que se pensa. Por
isso, não opera como fator de precipitação e de coordenação de outras mudanças subsequentes. A razão
disso não está no homem, mas no tempo dentro do qual ele organiza socialmente suas atividades e
constrói a sua história.
De qualquer modo, valeria a pena fazer duas ponderações. Se existissem disposições coletivas
igualmente fortes, polarizadas em torno de opções culturais conflitantes e inconciliáveis, é provável que
surgissem círculos sociais empenhados em combater o subdesenvolvimento (como existem círculos
sociais que estão empenhados em preservá-lo indefinidamente). Nesse sentido, as limitações existentes
só são barreiras na medida em que não surgem forças sociais que atuem na direção oposta,
desencadeando formas realistas de consciência social da situação e de atuação social inteligente.
Segundo, é preciso evitar a tentação de converter tradicionalismo e modernização em encarnações
antitéticas do bem e do mal. Muitas das forças “modernizadoras”, ligadas a interesses sociais internos ou
externos, trabalham abertamente contra a autonomização econômica, social e cultural da América Latina.
Mesmo as classes médias, que já foram representadas como o fiat do “crescimento equilibrado”, são
propensas a comportamentos sociais tão egoísticos e destrutivos quanto os setores tradicionais das
classes altas (como se verifica através de suas tentativas de defender níveis de consumo incompatíveis
com o estancamento econômico ou no apoio sistemático que dispensam a regimes totalitários
disfarçados). As grandes organizações estrangeiras, que parecem provocar uma revolução tecnológica,
estão traduzindo os liames da dependência econômica e cultural para a lógica dos nossos dias. Elas
inauguram a era da tecnologia moderna, mas sob a dominação do mercado e da cultura pelos centros de
irradiação do capitalismo monopolista. Portanto, é ingênuo supor-se que se possam transferir precedentes
de países que transitaram da “sociedade tradicional” à “sociedade moderna” em bloco e sob processos
autossustentados para as nações subdesenvolvidas. Nestas, toda a realidade é diferente, e a verdadeira
força dinâmica emerge quando os conflitos de classe atingem as estruturas de poder e ameaçam
politicamente os interesses sociais “internos” ou “externos”, que sejam responsáveis pelo estado crônico
de subdesenvolvimento.
Se nos descartarmos das interpretações parciais e ilusórias, teremos de buscar os fatores topicamente
explicativos nos processos de formação e de diferenciação das sociedades latino-americanas, que
afetaram ou afetam a organização e o rendimento de suas universidades como instituições sociais. Sobre
três pontos já existem evidências conclusivas, que permitem entender melhor a situação e, talvez,
modificá-la no futuro próximo.
Em primeiro lugar, a emergência do Estado e a evolução posterior da “sociedade nacional” não
ocasionaram a extinção de velhas estruturas de poder. Ao contrário, estas se incrustaram nas instituições
emergentes e acabaram decidindo como elas deveriam funcionar. Esse processo nos interessa aqui em
virtude de suas evidentes implicações socioculturais dinâmicas. Ele levou a uma situação histórico-
social na qual Povo, como entidade social, e Povo, como entidade política, são coisas distintas e
exclusivas. Para as elites tradicionais, “Povo” tanto podia ser a ralé ignorante e desprezível (tomada a
palavra na primeira acepção), quanto o pequeno grupo de detentores privilegiados do poder (tomada a
palavra na segunda acepção). À nossa análise somente interessam algumas implicações desse
desdobramento de perspectivas. Ele significa que o Estado nacional surgiu e consolidou-se sem que
existisse um movimento paralelo de integração nacional, que abrangesse todas as classes sociais em
presença. Em consequência, a integração nacional iria refletir, a cada momento histórico, as constelações
de interesses econômicos, sociais e políticos que dominassem o rateio do poder organizado
institucionalmente. Ela nunca aparece como mero amálgama (pois em cada momento representa uma
composição articulada de interesses econômicos, sociais e políticos solidários ou convergentes), mas
também nunca traduz os elementos comuns e universais do querer coletivo. Configura-se como o poder de
coalizão das classes que encarnam o querer coletivo politicamente, falando e decidindo em nome dele.
A esse processo de formação societária nacional corresponderam formas típicas de nacionalismo e de
democratização do poder. O nacionalismo emergiu e evoluiu como uma força disciplinada, contida e
parcial, que respondia às modalidades de consciência social, de interesses e de valores dos estratos
sociais dominantes. Ele não adquiriu uma natureza explosiva e revolucionária nem assumiu poder
integrativo aglutinante, pois não devia exprimir a conciliação de concepções, de interesses e de valores
sociais em tensão e em conflito. Por isso, não se irradiou através do sistema institucional das sociedades
nacionais em formação nem captou a vontade profunda dos homens de status diferentes. Elaborou-se e
permaneceu como uma força social de superfície e de circunstância, mantendo-se perenamente incapaz de
identificar as diversas classes sociais com alvos coletivos que as transcendessem e as galvanizassem
acima de seus destinos históricos particulares. Não chegou sequer a invadir as instituições onde poderia
medrar com ímpeto construtivo insopitável, como as escolas ou os quartéis. Com a democratização do
poder sucedeu algo semelhante. Dada a estrutura econômica da sociedade e sua rápida evolução no
sentido do regime de classes, ela era uma fatalidade. Entretanto, também não adquiriu o caráter de um
processo que afetasse o status de todas as classes sociais em presença. Como o controle do poder
político garantia às classes dominantes toda a eficácia inerente à ordem legal estabelecida (e produzisse
o efeito inverso para as outras classes), a democratização do poder evoluiu como um processo
descontínuo e sinuoso. Ele se caracteriza profundamente por sucessivos desnivelamentos superficiais de
privilégios sociais e nada tem em comum com a universalização da equidade em face da ordem legal. Tal
estilo de democratização do poder significou (e continua a significar) que a democracia confere aos
estratos sociais localizados estrategicamente na estrutura de poder a faculdade de decidir e de comandar
em nome de todos. Em vez de pôr um paradeiro à privatização do poder politicamente organizado, ela
conduziu a novas formas de privatização desse poder, ampliando sucessivamente, através dos
desnivelamentos que generalizaram certos privilégios das elites tradicionais para os estratos mais ou
menos ativos das classes médias, o número dos que podem participar da eficácia da ordem legal.
Esse apertado bosquejo sugere como o background da formação e da expansão da sociedade nacional
condicionou a reelaboração cultural das instituições sociais-chaves. A universidade sempre esteve
imersa nos acontecimentos ou nos processos políticos socialmente relevantes. Apenas, não surgiram
condições favoráveis à ebulição de qualquer “nacionalismo cultural” construtivo, capaz de exercer
influências duradouras e profundas na autonomização da vida intelectual. A ciência, a tecnologia e os
próprios modelos institucionais de organização das universidades foram submetidos ao controle das
concepções, interesses e valores sociais dos estratos sociais que definiram, em cada momento histórico,
o sentido e a forma da integração nacional. Doutro lado, a universidade não se projetou, como instituição,
em um campo em que operassem as forças sociais que combatiam os privilégios, mesmo em nome do
simples desnivelamento progressivo das “prerrogativas dos poderosos”. Ela ficou jungida e
estreitamente incorporada à própria rede dos privilégios e dos privilegiados. Nos momentos de crise,
somente depois de consumada a transição, é que ela passava a atender clientelas sucessivamente mais
amplas, em termos de status de renda e de prestígio social. O importante a assinalar, sob esse aspecto, é
que ela não compartilhou frutiferamente dos benefícios das tensões que atuaram, de modo latente ou
explícito, como “fermentos revolucionários” das convulsões da ordem legal, provocadas pela
democratização parcial do poder. Por conseguinte, é uma das instituições fundamentais nas quais se
mantêm mais fortes (quase intocáveis, no nível do pessoal docente) as avaliações da mudança cultural
progressiva imperantes nos estratos superiores das classes médias e altas. Essas avaliações
caracterizam-se pelo frio egoísmo particularista e pela resistência sociopática a quaisquer inovações que
pareçam ameaçar a segurança desses estratos sociais. O teor urgente ou o grau de necessidade imperiosa
das inovações, em termos dos interesses da nação como um todo, não contam acima desse limite. É claro
que a ciência e a tecnologia científica incluem-se largamente entre tais inovações. No fundo do
diagnóstico encontramos, pois, uma realidade sombria. Nenhum movimento de efervescência nacional e
nenhuma classe social tomaram a si, até hoje, a tarefa histórica de moldar novas formas de consciência
social e de valores sociais suscetíveis de comunicar às universidades uma nova vitalidade cultural,
relacionando-as com o processo de integração nacional como influências dinâmicas construtivas de
alcance revolucionário.
Em segundo lugar, deve-se considerar outro conjunto de fatores, que tem sido negligenciado nas
interpretações correntes. Uma nação econômica, cultural e politicamente dependente não dispõe de meios
para organizar e expandir, com autonomia, o sistema institucional em que se funda o desenvolvimento
normal da ciência e da tecnologia científica. A universidade depende do sistema institucional básico que
se congrega em torno dela e que lhe infunde vitalidade de crescimento, independência diante das
pressões mais ou menos irracionais do meio e apego aos valores do pensamento inventivo sob quaisquer
contingências. Por mais que se escreva a respeito das repercussões da urbanização, da industrialização e
da modernização sobre o estilo de vida imperante nas metrópoles e grandes cidades da América Latina, a
verdade é que o sistema emergente de serviços científicos, técnicos e técnico-científicos ainda está longe
de provocar as pressões requeridas para que as universidades se tornem multifuncionais e atuantes, em
sentido criador. Por enquanto, essas pressões não chegaram sequer a abalar os padrões de organização e
de rendimento das universidades, que demonstram ser demasiado baixos e insatisfatórios. A razão disso
parece estar no fato de que o referido sistema institucional diferenciou-se e expandiu-se, de modo
realmente considerável, apenas nos setores da tecnologia importada (e, com frequência, controlada de
fora, como puro “negócio comercial”). Ele não depende ou depende muito pouco da capacidade criadora
das universidades e das iniciativas locais. Raramente chega a levantar problemas que desafiem ou
interessem os professores ou pesquisadores das universidades, não se refletindo, em regra, nos rumos
que imprimem às suas investigações puras ou aplicadas. Por enquanto, os segmentos mais vivos desse
sistema institucional devotam-se à pesquisa científica (embora, na maioria das vezes, com fins práticos).
Muitos deles constituem órgãos prestigiosos, até em escala internacional. Mas, mesmo esses segmentos
não interagem produtivamente com as universidades — ou porque vivam à sua sombra, ou porque contam
com terríveis limitações, nascidas de suas precárias condições de trabalho. Embora não exista uma
guerra surda entre eles e as universidades, na maioria dos casos são injustamente ignorados pelos
investigadores acadêmicos. Essa situação anômala explica-se pela falta de “tradição de pesquisa” nas
universidades. Contudo, a ela não são alheios outros motivos, menos impessoais ou contingentes.
O que devemos ressaltar, sob esse aspecto, é que a sociedade não dispõe de uma cultura com
dinamismos fundamentais independentes. Por isso, ela não pode sustentar e ampliar um sistema de
instituições básicas capaz de absorver gerações sucessivas de cientistas e de técnicos, com sólida
preparação universitária. E, o que é pior, ela não pode manter e melhorar o conjunto de motivações e de
controles sociais indiretos, de natureza especificamente intelectual, que poderiam fomentar um
verdadeiro clima de vida universitária inquieta e criadora. As universidades, como outras instituições,
abrigam gente que precisa ser continuamente provocada e constantemente satisfeita em suas necessidades
de reconhecimento de valor. Sem um sistema de instituições científicas e tecnológicas bastante
diferenciado e em crescimento permanente, é quase impraticável forjar tais motivações e controles de
forma produtiva. As universidades elaboram internamente seus próprios sucedâneos: mas eles não
produzem os mesmos efeitos. O paroquialismo e a autocomplacência misturam avaliações intelectuais
com relações congeniais e coleguismo. Não tendo com quem dialogar, com quem discutir e a quem
convencer, o professor e o pesquisador universitários convertem-se em criaturas altamente egocêntricas e
em planta de estufa. O lado dramático dessa situação aparece na cisão irremediável com o ambiente e
com suas necessidades culturais. Na ausência do mencionado suporte e do canal de comunicação que ele
engendra, a universidade fecha-se sobre si mesma. Termina por favorecer uma linha destrutiva de
trabalho intelectual, de purismos rígidos e dogmáticos, de avaliações compensatórias puramente
neuróticas, de virtuosismo estreito ou estéril e de rotina sufocante. Só o talento excepcional consegue
remar contra a corrente e evitar a autodestruição. Todavia, com frequência através de ajustamentos
intelectuais que supervalorizam as contribuições abstratas sobre temas abstratos, como se o pensamento
“teórico” pudesse compensar a ausência de comunicação frutífera com o meio cultural. Tudo se passa,
pois, como se as universidades existissem na sociedade e não para a sociedade. Elas não se engrenam,
por falta de mecanismos culturais adequados, com o fluxo da vida, que liga o pensamento inventivo aos
processos civilizatórios de crescimento autônomo da cultura.
Em terceiro lugar, situam-se os problemas de dinâmica cultural inerentes à organização e ao
funcionamento das universidades. Três questões são deveras importantes para a presente discussão: 1º) a
socialização para os papéis intelectuais relacionados com as funções socioculturais preenchidas
efetivamente pelas universidades nas respectivas sociedades nacionais; 2º) o grau de poder conferido
pela sociedade a professores e investigadores para desempenharem os papéis especificamente
intelectuais organizados através do status acadêmico, e o grau de autonomia de que dispõem as
universidades para realizar suas funções socioculturais; 3º)a estrutura e o funcionamento do sistema de
motivações, aspirações e controles intelectuais organizado em torno das atividades acadêmicas e das
carreiras universitárias (nos níveis do ensino, da pesquisa e da administração).
Em todos os três planos apontados ocorrem inconsistências e disfunções que decorrem da inexistência
de uma subcultura acadêmica propriamente dita (ou, como preferem outros, de um “estilo universitário de
vida intelectual”). A maneira pela qual o ensino superior se constituiu, desenvolveu e entrosou-se à
sociedade inclusiva, no passado remoto ou recente, reduziu fortemente a diferenciação de um setor
especial da cultura, diretamente vinculado às atividades e carreiras universitárias; e, ao mesmo tempo,
impediu que ele se desenvolvesse com um ritmo próprio. Por conseguinte, o universitário — professor,
investigador ou estudante — não possui o seu “mundo intelectual e moral”. Tem um pé na “vida
acadêmica” e outro fora dela. Isso acontece com os professores e pesquisadores, que na quase totalidade
combinam os papéis docentes com papéis ligados às profissões liberais ou com variadas ocupações
técnico-profissionais ou políticas (e com frequência o escritório, o consultório, a clínica, o jornal, a
administração ou a política etc. são mais importantes em suas carreiras, ambições e aspirações). E
também sucede com os estudantes que, na maioria dos países, além de estudar, trabalham em diversos
tipos de emprego (numa proporção que varia aproximadamente da metade a dois terços da população
estudantil). Poucas são as universidades da América Latina que possuem professores e pesquisadores em
regime de tempo integral, frequentemente repelido por causa dos seus reflexos sobre a redução da renda
e do prestígio social ou simplesmente impraticável por falta de recursos financeiros. Também são
poucas, dentro dessas universidades, as escolas que exigem tempo integral dos estudantes. O homem que
vive e trabalha na universidade, sob aspectos cruciais de seus centros de interesses profissionais, de suas
aspirações intelectuais e de suas preocupações sociais, é sobretudo o representante típico de sua classe
ou de seu nível social — e raramente deseja ser algo além disso. Se é verdade que leva para as suas
atividades profissionais extrauniversitárias e para o “grande mundo” o prestígio acadêmico, também é
verdade que traz para a universidade o seu prestígio profissional ou mundano. Poucas são as escolas,
entre as melhores universidades da América Latina, nas quais o eixo exclusivo e absorvente da vida
intelectual dos universitários gira em torno de suas ocupações docentes, de pesquisa ou de criação
original.
A inexistência de um “mundo intelectual universitário” poderia ser deveras importante e estimulante,
se os diversos centros de interesses profissionais, de aspirações intelectuais e de preocupações sociais
se intercruzassem, influenciando construtivamente o labor intelectual realizado nas universidades. Tal
circunstância, nessas condições, permitiria eliminar os inconvenientes da especialização e corrigir os
efeitos negativos do isolamento do “mundo acadêmico”. Todavia, na situação predominante na América
Latina, esse se não se concretiza nem como uma realidade fluida e contingente. Os centros de interesses
profissionais, as aspirações intelectuais e as preocupações sociais de cada setor ocupacional desdobram-
se segundo padrões divergentes, o que significa que o “acadêmico pela metade” possui uma vida
intelectual bifurcada ou trifurcada, raramente encontrando meios para fugir da esterilização que daí
resulta. No fundo, apenas resta um terrível e irreparável saldo negativo: a erosão permanente da
mentalidade universitária, que se mantém amorfa, débil e inoperante, sem qualquer vantagem para os
demais setores de atividades intelectuais ou para a sociedade.
A partir dessa situação global, são variados e incontroláveis os lapsos na socialização dos
universitários para os seus papéis especificamente intelectuais. O preparo rigoroso e intensivo é mais um
produto da chance que da institucionalização das atividades de ensino e de pesquisa. Doutro lado, as
instituições ficam indefesas diante do tipo de intelectuais a que estão entregues: elas deveriam socializá-
los para seus papéis intelectuais, mas eles as moldam segundo suas conveniências e determinam,
portanto, o alcance e a bitola da própria socialização. Assim, as debilidades e as inconsistências dos
acadêmicos condicionam as debilidades e as inconsistências da universidade, germinando um círculo
vicioso insanável. Tudo se passa como se uma imensa e interminável conspiração silenciosa fosse
conscientemente entretida para afastar tais instituições de suas funções construtivas normais e das funções
potenciais que as tendências da expansão da civilização exigem de forma crescente. Desse ângulo, parece
evidente que a soma de poder inerente ao status do acadêmico e o grau de autonomia das universidades
são regulados numa linha de controles sociais mínimos. Na medida em que aquele é apenas um
semiacadêmico, ele se desinteressa totalmente dos requisitos dinâmicos do seu status universitário e
prefere apelar para acomodações nas quais o poder de autodeterminação da própria universidade seja o
mais restrito possível. Nos momentos cruciais, onde e quando possam surgir crises incontornáveis por
meios rotineiros, recorre a seu prestígio extra-acadêmico ou a outros recursos. Mesmo que as soluções
obtidas não correspondam ao ideal, elas lhe parecem melhor que o risco de enfrentar um tipo de
autonomia que pode voltar-se para a limitação ou a eliminação de sua “liberdade”. A esse curioso
processo intelectual autodestrutivo corresponde, naturalmente, uma orientação mais ou menos tosca da
sociedade inclusiva. Como a maioria das grandes universidades são oficiais, elas se inserem no âmbito
da administração estatal. Mesmo onde os movimentos de reforma universitária tiveram maior êxito, eles
não conseguiram extinguir as pressões indiretas do financiamento oficial e a necessidade de empregarem-
se expedientes políticos (às vezes através das entidades estudantis), para compensar a falta de autonomia
real.
O que nos importa, nesse painel sumário, são as repercussões de semelhante estilo de vida acadêmica
sobre a dinâmica da universidade como instituição social. Ela se compõe, regularmente, de professores,
pesquisadores e estudantes que, mesmo em matérias de maior significado para a sua existência e
aperfeiçoamento, agem como “homens do seu meio” (o que quer dizer: “homens de seu nível social” e
apenas ocasionalmente “homens de sua época”). Eles ignoram e contrariam facilmente as imposições
mais simples e claras de seus papéis intelectuais como universitários ou os interesses legítimos da
própria universidade, onde enxerguem (ou pensem enxergar) qualquer ameaça efetiva ou fictícia e atual
ou remota ao complexo statu quo cultural, que permite manter e fortalecer a situação descrita. Dessa
perspectiva, a universidade é uma instituição desarmada e desorientada, incapaz de tomar consciência de
si mesma, das necessidades culturais que deveria atender e das atribuições que a converteriam numa
instituição educacional diretora. No passado, dados a estabilidade da ordem social e o equilíbrio
dinâmico que se estabeleceu entre ela e o funcionamento da universidade, isso não importava. O
“acadêmico” não era nem devia ser um “universitário”. Era um “notável”, cujo prestígio procedia da
conjugação de sua condição estamental com a qualidade de “homem de saber”. No presente, aí se acha o
próprio fulcro do drama em que se debatem os universitários e as universidades na América Latina.
Rompida a estabilidade da ordem social e quebrado o equilíbrio dinâmico que existia nas relações do
“acadêmico” com a sociedade, as tensões e os conflitos que irrompem no meio social eclodem
devastadoramente no seio da universidade, apanhando-a desprevenida para resguardar suas funções
socioculturais no clima de uma sociedade em mudança. O pior é que as inconsistências da instituição e
dos papéis intelectuais configurados em seu sistema de status condicionam a definição de lealdades em
direções centrífugas. Interesses, aspirações e valores sociais imanentes às posições dos universitários na
estrutura da sociedade é que determinam seus ajustamentos intelectuais, mesmo sob a quebra fragorosa de
obrigações ou deveres universitários imperiosos. A universidade perde, por conseguinte, em substância e
em capacidade estratégica. Em vez de adaptar-se rapidamente às condições de mudança da sociedade,
renovando-se para influenciar qualitativamente as direções e a intensidade das alterações socioculturais
em processo, lança-se à defesa obstinada de suas estruturas inoperantes (algumas “arcaicas”, mas outras
“modernas” e até “ultramodernas”) e das tendências de conservantismo cultural predominantes nos
estratos superiores das classes médias e altas. Em alguns países, ela chega a comprometer-se, pela
omissão e pela adesão mais ou menos disfarçada da maioria do corpo docente e discente, ao novo
modelo de opressão totalitária, que dissimula a exacerbação do conservantismo sob a capa de
“revolução”. Portanto, a universidade latino-americana não está apenas desarmada e desorientada numa
era de mudança. Ela se revela incapaz de absorver institucionalmente o impacto construtivo da mudança
sociocultural. Por isso, em vez de adaptar sua organização, estrutural e funcionalmente, às necessidades
histórico-sociais emergentes, ela se acomoda, pela opção consciente e pela ação deliberada,
principalmente ao nível do corpo de professores e de pesquisadores, às expectativas sociais dos círculos
conservadores. O observador estranho poderia pensar na fórmula consagrada da “traição dos
intelectuais”. Entretanto, nem isso acontece. Ninguém trai uma causa que não existe ou que não aceita. Em
um sentido preciso, a universidade como instituição integrativa das grandes ambições intelectuais e como
instituição culturalmente orientadora da sociedade está por constituir-se. Os universitários que optam
pelos caminhos políticos de suas classes sociais e agem de acordo com sua miopia histórica, mantêm-se
fiéis àquilo que aprenderam a acreditar, a respeitar e a servir. Pode-se lamentar a confusão e o drama
resultantes, pois a universidade concorre para fortalecer o bloqueio cultural do horizonte intelectual das
próprias elites. Mas, não se deve obscurecer o fato primordial: a universidade realiza, através da
maioria dos professores, investigadores e alunos, a missão que lhe é conferida por uma sociedade na
qual os interesses culturais da coletividade se subordinam aos interesses culturais “dos que mandam”. Se
não ocorrer nenhum outro tipo de alteração, ela só se converterá num fator de desenvolvimento quando a
mudança sociocultural progressiva entrar livremente na lógica do comportamento político dos estratos
superiores das classes médias e altas.
Essas duas conclusões são irrefutáveis. Os problemas de dinâmica cultural de qualquer instituição
precisam ser resolvidos a partir de dentro. As pressões externas podem dar um impulso inicial, exercer
uma influência fiscalizadora estimulante ou proporcionar alguns incentivos constantes. Todavia, os
professores, pesquisadores e administradores das universidades — para não se falar dos estudantes —
precisam assumir as responsabilidades impostas por uma era de desequilíbrio e de exigências radicais.
Precisam, pois, definir seus papéis intelectuais e os deveres morais correspondentes segundo limites
mais amplos e complexos. Sem essa redefinição, jamais poderão obrigar-se a si próprios e à sociedade a
uma nova orientação, no incremento dos recursos materiais e humanos destinados ao ensino superior ou à
pesquisa científica e na melhoria dos critérios de aplicação de tais recursos. Os chamados problemas do
ensino superior, de tão graves e crônicos, já pertencem ao consenso geral (pelo menos nos aspectos mais
visíveis e nas suas implicações quantitativas). Eis os principais tópicos do repertório usual: número
reduzido de vagas e sua má distribuição entre as escolas mais procuradas; privilegiamento de critérios
extraeducacionais na seleção dos candidatos; mecanismos impróprios de formação, recrutamento e
promoção de professores ou pesquisadores; predomínio do ensino livresco, verbal e dogmático; falta de
interação construtiva nas relações entre docentes e estudantes, inclusive no treinamento em pesquisa;
inexistência de meios adequados para a pesquisa, quer a vinculada ao ensino, quer a associada à
descoberta de conhecimentos originais; ausência de vitalidade financeira e de autonomia real das
universidades, incapazes de elaborar e pôr em prática os seus próprios orçamentos e suas políticas
educacionais; deficiência dos canais de comunicação regular com centros mais avançados de ensino e de
pesquisa, da região ou do exterior; incapacidade de manter a continuidade do crescimento quantitativo e
da melhoria qualitativa dos serviços de ensino e de pesquisa; a impossibilidade de converter o ensino
pós-graduado em via eficiente de seleção, especialização e aproveitamento constante dos talentos jovens;
dificuldades em instituir e em universalizar os requisitos acadêmicos da carreira universitária (mestrado,
doutoramento etc.) e em convertê-los na base do peneiramento e promoção do pessoal docente ou de
pesquisa; níveis baixos de retribuição financeira das ocupações docentes e de pesquisa, agravados por
fatores permanentes de insegurança intelectual e de coação suasória ou violenta, apontadas como os
fatores responsáveis pelo desinteresse diante das carreiras universitárias e pelo aumento crescente da
“evasão de cérebros” para a exterior; obstáculos à realização e desenvolvimento de grandes projetos de
pesquisa fundamental e aplicada, por motivos econômicos ou por outras razões, de natureza institucional,
cultural ou política. Sabe-se que enquanto problemas dessa envergadura não forem resolvidos, as
universidades permanecerão como um “símbolo civilizatório”, satisfazendo apenas parcialmente as
funções socioculturais que o meio já absorveu institucionalmente. Contudo, como eles poderão ser
resolvidos se a sociedade e a própria universidade não modificarem suas atitudes, avaliações e
comportamentos diante da mudança sociocultural progressiva e das funções do ensino superior, da
ciência e da tecnologia científica na civilização moderna? É pouco provável que, numa época em que até
nações avançadas perdem terreno na competição cultural pelo progresso da ciência e da tecnologia
científica, sociedades subdesenvolvidas consigam marcar tentos concretos sem aceitar transformações
profundas e radicais em suas instituições universitárias.
À luz dessas considerações, seria conveniente indagar-se quais são as perspectivas que se abrem, em
nossos dias, às universidades latino-americanas. Estão elas condenadas a uma espécie de hibernação
cultural precariamente dissimulada, ou podem, realmente, conquistar o terreno que as afastam de uma
autêntica fermentação intelectual criadora? É impossível responder a essa pergunta através de
prognósticos seguros. Não obstante, há margem para esperanças razoavelmente alentadoras e elas
delineiam um quadro de relativa confiança no futuro. Ao que parece, as perspectivas mais promissoras
não são para o presente ou para o futuro imediato. Além disso, dependem de mudanças de atitudes e de
comportamentos que não são automáticas e tampouco simples ou rápidas. No entanto, a cada dia que
passa a modificação de atitudes e de comportamentos, nas esferas centrais da dinâmica da cultura e da
sociedade, impõe-se, visivelmente, como matéria de pura sobrevivência. Queiram ou não, as novas
gerações terão de enfrentar os dilemas econômicos, sociais e culturais que pesam sobte os diferentes
países da América Latina, à luz de novos critérios morais e políticos. Desse ângulo, não só as coisas
terão de alterar-se em sua substância. Na escolha entre a estagnação e a sobrevivência a universidade se
encaminhará, voluntária ou involuntariamente, no sentido de saturar o vazio cultural em que ela se debate
na atualidade. Isso nos permite inferir que ela acabará assimilando e dominando o seu destino, que
consiste em transformar-se num centro dinâmico de produção autônoma de saber original.
Contra tais perspectivas de transformação revolucionária a largo prazo militam certas influências
ativas (que, presumivelmente, serão eliminadas ou neutralizadas sob a aceleração do crescimento
econômico e do desenvolvimento sociocultural). Entre essas influências, medularmente negativas,
cumpre-nos ressaltar: o caráter irracional e destrutivo da opressão conservadora; a escassez de recursos
(especialmente financeiros) para enfrentar os custos crescentes da expansão da pesquisa fundamental e
aplicada de relativa envergadura; as propensões individualistas e altamente irrealistas, predominantes
entre os cientistas e os técnicos de maior imaginação e talento criador.
A primeira influência erige-se, atualmente, na grande barreira invisível da luta surda das universidades
com um ponto de partida histórico-cultural desanimador. A opressão conservadora atua de forma
corrosiva, tanto no seio das universidades (graças ao número de professores, de pesquisadores e até de
estudantes que se identificam com o statu quo), quanto no meio social inclusivo (pois amplos círculos
sociais das classes altas, médias e baixas ligam os seus destinos ao capitalismo dependente). O que a
torna particularmente destrutiva e perniciosa é a técnica de desmascaramento total, de que lança mão
para resguardar-se de toda espécie de mudança que pareça ameaçar o statu quo. Essa técnica, descoberta
pelos socialistas e por eles aplicada na luta contra os ideólogos da burguesia, é explorada na América
Latina pelos elementos mais obstinadamente reacionários dos círculos conservadores. O procedimento
seguido é tosco e brutal: projetar as soluções ou opções consideradas “perigosas” (em termos dos
interesses conservadores e de sua hegemonia nas estruturas de poder), com as pessoas ou grupos sociais
que as representem, numa área de abominação ideológica. Assim, problemas de natureza técnica,
equacionados e resolvidos em bases estritamente técnicas, são convertidos em matéria ideológica e
manipulados como conflitos de natureza política. Forja-se, desse modo, o conjunto de verbalizações
simuladoras que dão base seja à repudiação das tentativas de mudança cultural, seja à repressão das
condutas inovadoras (ou de seus agentes humanos) por meios políticos, militares ou policiais.
Semelhante técnica rudimentar causou e está causando maiores danos ao desenvolvimento das
universidades latino-americanas que o estancamento econômico, a estagnação cultural ou a escassez de
recursos materiais e humanos, considerados em si mesmos.
A segunda influência negativa é de observação mais difícil. Por motivos aparentemente louváveis,
entre os quais se misturam o orgulho intelectual, o temor de incompreensões e o risco da perda de
prestígio, os líderes dos melhores grupos de cientistas e de técnicos tendem a esconder ou a camuflar os
aspectos mais precários de suas condições normais de trabalho. Todavia, desde os fins do século
passado, mas principalmente depois da Primeira Guerra Mundial, é fácil notar-se certos florescimentos
súbitos em alguns campos de pesquisas e, em seguida, o declínio paulatino, por vezes irrecuperável, dos
progressos obtidos. Essa curva tem sido vista e interpretada, especialmente por observadores
estrangeiros, como evidência de uma versatilidade intelectual insanável. De fato, porém, ela nasce de
fatores de natureza institucional. As universidades não possuem meios para captar recursos volumosos
segundo um ritmo multiplicativo. Em consequência, elas conseguem desencadear certos
desenvolvimentos do ensino ou da pesquisa que não podem ser mantidos ao longo de um período grande
de tempo. Os primeiros passos vão muito bem, sob a euforia de condições circunstanciais. O difícil é
preservar o terreno ganho e usá-lo para avançar regularmente nas direções previstas. Os cientistas e os
técnicos possuem plena consciência do que ocorre, fazendo com frequência terríveis esforços para se
garantirem continuidade de desenvolvimento em seus projetos mais ou menos ambiciosos. Como não
possuem controle dos recursos nem da administração, acabam sofrendo as frustrações resultantes e
ficando com a responsabilidade dos malogros. Acresce que nem sempre estes podem ser atribuídos a
causas financeiras visíveis: mudanças inesperadas e inevitáveis na direção política ou administrativa do
país ou da instituição acarretam o desenlace negativo com a proverbial dança de áreas aparentemente
privilegiadas na aplicação de recursos escassos. O que interessa, é que se estabelece, de maneira
crônica, um processo de vaivém. O terreno ganho em dez anos é perdido nos dez anos seguintes, o que faz
com que as relações de gerações sucessivas sejam insuficientes para a recuperação dos avanços que não
chegam a se incorporar, definitivamente, na rotina do trabalho intelectual institucionalizado. A “curva”
descrita parece ser uma fatalidade das sociedades subdesenvolvidas. Ao se atingir uma fase crucial, que
poderia servir de base para um esforço mais complexo e produtivo, o próprio processo global se esboroa
ou entra em deterioração, passando a dar um rendimento desencorajador. Tal fenômeno não é produto de
inépcia nem de versatilidade, pois tanto o início quanto a manutenção do processo exigem pensamento
criador, energias intelectuais incomuns e grande tenacidade. Porém, das condições materiais e culturais
ambientes, que não garantem, como ocorre nas sociedades desenvolvidas, uma evolução constante na
direção de patamares (ou picos) mais altos.
A terceira influência negativa transparece nas orientações dominantes nos campos mais dinâmicos da
ciência ou da tecnologia.
Os grupos de maior gabarito e de prestígio consolidado apegam-se, com frequência, a duas tendências
nocivas. Uma delas consiste em estimular-se especializações que respondem a progressos recentes da
ciência e da tecnologia nos centros mundiais mais avançados. Essa tendência leva à valorização
sistemática de áreas de trabalho que raramente podem ser cultivadas em países subdesenvolvidos. O seu
resultado mais funesto é bem conhecido. A preparação de cientistas ou de técnicos destinados,
fatalmente, ao inaproveitamento pelo meio social ou à imigração para o exterior. Há uma enorme
polêmica em torno da “evasão de cérebros” da América Latina. As estimativas existentes mostram que só
os Estados Unidos absorveram, de 1941 a 1963, numerosas ondas sucessivas de pessoal qualificado
dessa região.[70] O que não se analisa são os fatores intelectuais ocultos, que comprometem as
universidades nesse processo. Se excluirmos os baixos salários, os fatores de insegurança intelectual e
de repressão violenta, verificaremos que muitos grupos de cientistas e técnicos teimam em incentivar o
cultivo de áreas de trabalho que não encontram possibilidades de fomento e de expansão nas atuais
condições, o que significa que eles estão, consciente ou inconscientemente, estimulando a “evasão de
cérebros”. A outra tendência consiste em valorizar unilateralmente a pesquisa fundamental,
independentemente do significado que ela possa ter para os problemas práticos ou humanos do mundo
ambiente. Assim, cientistas e técnicos, cada qual a seu modo, voltam as costas para as implicações
intelectuais de suas investigações para a autonomização cultural de seus países. Os argumentos em que
essa orientação se funda não podem ser discutidos aqui. O que nos interessa são os seus efeitos: os
melhores representantes do progresso da ciência e da tecnologia científica assumem atitudes ou
comportamentos que não correspondem à ética de responsabilidade intelectual, que deveria ter vigência
numa sociedade subdesenvolvida. Omitindo-se diante dos problemas práticos e humanos do mundo
ambiente, nos setores de trabalho intelectual produtivo que procuram expandir, concorrem direta e
permanentemente para divorciar a pesquisa científica e a pesquisa tecnológica dos esforços de
desenvolvimento cultural autônomo.
A favor das perspectivas de uma revolução criadora no seio das universidades latino-americanas
contam outras influências: a emergência e a difusão de novas formas de percepção e de consciência da
realidade pelos universitários (professores, pesquisadores e estudantes); os efeitos construtivos do
ensino e da difusão da ciência ou das compulsões da tecnologia avançada; a crescente valorização e
utilização de técnicas racionais de captação e de aplicação dos recursos materiais e humanos
disponíveis. Essas influências são, frequentemente, solapadas ou neutralizadas. Todavia, o fato de que
elas existam e se fortaleçam dia a dia é, em si mesmo, um índice de que as próprias universidades
entraram em uma fase de desorganização da qual não poderão sair senão aceitando e absorvendo
inovações mais ou menos radicais.
Os estudos sociológicos sobre os estudantes, os professores e o uso das oportunidades educacionais
revelam que estão ocorrendo mudanças de grande significação em toda a América Latina e que essas
mudanças afetarão, profundamente, o futuro próximo e remoto das universidades. A dissidência e a
natureza da dissidência no seio do corpo docente e no meio estudantil não possuem os característicos
cataclísmicos que lhe são comumente imputados pelos círculos conservadores. Ao contrário do que se
afirma nesses círculos, trata-se de um inconformismo intelectual substancialmente construtivo, com
objetivos críticos patrióticos e altruísticos. Rala e inconstante entre os professores, a dissidência é,
porém, quase maciça entre os estudantes. Ameaçados em seu futuro pelo estancamento econômico e pelo
atraso cultural, os jovens se mostram mais propensos a um radicalismo utópico, pretendendo encontrar na
transformação estrutural das universidades respostas para problemas que só podem ser resolvidos
através da “revolução pelo desenvolvimento”. Em consequência, combinam, de uma forma ou de outra, a
filosofia do gradualismo à “crítica do sistema”. As conexões desse radicalismo utópico com as situações
sociais de classes médias é bem conhecida. Os membros dessas classes lutam com maiores dificuldades
de preservação do status na sucessão de gerações. Somente sob a condição de intensificação do
crescimento econômico e do desenvolvimento social é que podem privilegiar o saber técnico, científico
ou técnico-científico na competição por melhores posições na participação do rateio social da renda, do
prestígio social e do poder. Os círculos conservadores têm consciência disso e temem os movimentos
estudantis mais por causa de seus efeitos indiretos imprevisíveis e incontroláveis. O importante, para a
nossa análise, está nas alterações implícitas nessa mudança de perspectiva intelectual. A universidade
acaba abrigando uma população crescentemente vinculada a uma impostação pragmática das relações
entre conhecimento e sociedade ou entre universidade e desenvolvimento. Aos poucos, as áreas de
resistência às inovações essenciais restringem-se, diluem-se ou desmoralizam-se. Ao mesmo tempo,
cresce a consciência de que a universidade é um “investimento produtivo” e um meio para atingir fins de
significação nacional. Portanto, as manifestações de dissidência apontadas projetam a universidade no
próprio fluxo das mudanças econômicas, sociais e culturais que são vitais para desencadear a era de
transição numa sociedade subdesenvolvida. Elas suscitam os problemas da “reforma universitária” em
termos estruturais. E voltam-se, direta e conscientemente, para as funções potenciais irrealizadas da
instituição, procurando encontrar nelas a chave para a autonominação cultural e política do
desenvolvimento econômico. Assim, na crista de tensões reprimidas ou toleradas, as universidades
ganham o centro do palco e insinuam-se entre as forças históricas que tentam plasmar o futuro segundo
padrões especificamente nacionais.
O ensino da ciência em bases institucionais e os efeitos reflexos da absorção de tecnologia avançada
também estão provocando alterações radicais nas representações relacionadas com a organização e o
rendimento das universidades. Para o cientista, a universidade não é nem pode ser um fim em si, mas um
meio para atingir certos fins: cabe-lhe proporcionar ao jovem de talento uma preparação rigorosa, que o
torne apto a dedicar-se à investigação científica e ao progresso da ciência. Por isso, à expansão do
ensino da ciência se conjugou o aparecimento de novas atitudes na avaliação das universidades latino-
americanas, surgindo um processo de renovação institucional que colocou os problemas de reforma
universitária na linguagem objetiva mas revolucionária do conhecimento científico. Algo paralelo
desenrolou-se em conexão com a absorção de tecnologia avançada pelo ambiente. Surgiram grandes
organizações que não se interessam pela extração social ou pelo prestígio dos graduados, mas por sua
competência e qualificações profissionais. Elas não só necessitam crescentemente de maior número de
graduados; querem graduados aptos para as carreiras técnico-profissionais escolhidas. Em consequência,
também nessa esfera a universidade — símbolo e fim em si mesma — cede lugar à universidade como
meio para certos fins, avaliados em termos pragmáticos estritamente utilitários. A importância especial
desses dois desenvolvimentos procede do fato de que eles deram origem a processos de avaliação
objetiva que repercutiram, estão repercutindo e tendem a repercutir ainda mais na adoção de novos
critérios de organização das universidades e de melhoria do seu rendimento quantitativo e qualitativo. O
falso humanismo, que se alimentava de um ensino enciclopédico-dogmático estéril, colocou-se na
defensiva e passou a ser substituído por uma filosofia educacional pragmática, que procura fortalecer as
funções da universidade que são fundamentais para o florescimento da ciência e da tecnologia científica.
Um dos pontos nevrálgicos do impasse das universidades latino-americanas sempre residiu na
escassez de recursos materiais e humanos, agravada por sua má aplicação sistemática. O encravamento
cultural da instituição concorreu para que ela ignorasse, até hoje, os recursos de aprendizagem do
ambiente e, ao mesmo tempo, tornou-a pouco sensível às necessidades sociais emergentes, divorciando a
aplicação dos recursos disponíveis dos processos de mudança cultural alimentados pelo próprio meio.
Apesar das deficiências de tais recursos para o esforço educacional requerido, toda tentativa de
racionalização esbarrava nos vícios congênitos de uma estrutura institucional montada para converter o
ensino superior em um fim em si mesmo e em um bem de consumo. As controvérsias que eclodiram, em
toda parte, quando se introduziram novas ideias, que pretendiam instaurar critérios de avaliações de
custos e eficácia das universidades, indicam de maneira insofismável o quanto certos hábitos de
devastação improdutiva estavam e continuam a estar firmemente arraigados. No entanto, a explosão
demográfica, primeiro, e as pressões qualitativas sobre a diferenciação e a melhoria dos padrões de
ensino, em seguida, concorreram para impor certos procedimentos de racionalização do esforço
educacional como uma espécie de mal necessário. Por aí acabaram se esboçando novas tendências, que
foram fortalecidas e reorientadas por organismos internacionais (principalmente os instituídos pela
UNESCO), e que estão acentuando a importância multiplicativa do uso racional de recursos escassos.
Embora palavras como “racionalização escolar”, “programação educacional” e “planejamento
educacional” (e outras correlatas) ainda constituam mera fachada, para esconder ou disfarçar a realidade
antiga, o fato é que a absorção e a difusão de novas técnicas de avaliação e aproveitamento eficaz dos
recursos destinados à educação aumentam dia a dia. A grande dificuldade, que obstava esses processos
no passado, residia na falta de especialistas para lidar com os problemas de administração e de
supervisão do funcionamento do sistema escolar. Não só o número desses especialistas tem aumentado,
na esfera da educação e das ciências sociais, como também surgiram novos serviços (mantidos pelos
governos, pela iniciativa privada ou por organismos internacionais), nos quais a sua cooperação pode ser
explorada construtivamente. Esse desenvolvimento é significativo para todo o sistema escolar, mas
apresenta especial importância no que concerne ao ensino superior e à expansão da pesquisa científica ou
tecnológica através das universidades. Como o incremento dos recursos materiais e humanos está sujeito
a certos tetos relativamente rígidos, a elasticidade tem de ser obtida na esfera do modo de usar os
recursos. A introdução de critérios racionais contém implicações positivas em outros dois pontos. De um
lado, no da captação de recursos para a expansão e melhoria das universidades. Vários vícios e
deformações, herdados do passado, e que limitavam drasticamente a mobilização de recursos materiais
ou humanos disponíveis, estão sendo lentamente removidos. De outro, a questão do rendimento tende a
ser levantada dentro de uma linha de superação consciente e deliberada do subdesenvolvimento. As
universidades acordam para as necessidades econômicas, sociais e culturais emergentes, entrosando-se
lentamente às tentativas de associar a expansão da ciência e da tecnologia científica à intensificação do
crescimento econômico e do desenvolvimento social.
Esse sumário mostra, em traços largos, que existem influências que trabalham no sentido de adaptar as
universidades aos processos de mudança social progressiva e às funções que elas devem preencher, nos
períodos iniciais de transição, como fatores de autonomização cultural. As evidências comprováveis não
permitem falar que as transformações estão se dando de modo acelerado e em bloco. Ao contrário, trata-
se de um processo difícil, em que o próprio homem com frequência prejudica a si mesmo e aos objetivos
vitais de sua comunidade nacional. Todavia, as coisas não poderiam se desenrolar de outra maneira. As
sociedades subdesenvolvidas precisam percorrer um árduo caminho para vencerem suas barreiras
internas e a corrida de obstáculos com as sociedades avançadas. Aos poucos, à medida que aprendem a
lidar produtivamente com suas tensões e desequilíbrios sociais, é que descobrem que também podem
recorrer por conta própria às técnicas de invenção cultural ao seu alcance e que a utilização construtiva
dessas técnicas, nas condições permitidas por seus recursos materiais e humanos, pode se converter numa
rotina fecunda. Sob muitos aspectos, o fato de que esse processo esteja se desenrolando é muito mais
importante que as debilidades e as inconsistências que ele apresenta. Isso significa que, por fim, as
universidades latino-americanas estão modificando sua relação dinâmica com o próprio padrão da
civilização ocidental. Elas começam a desenvolver-se no sentido de saturar as funções potenciais que
deviam preencher institucionalmente e tendem a fazer isso numa escala que se adapta, progressivamente,
à negação e à superação do subdesenvolvimento. Portanto, as páginas da história estão virando. É
provável que ao desempenhar tais funções elas se convertam em instituições diretoras, despertando em
seus Povos a consciência do valor da liberdade para a construção de seus destinos nacionais.
SOBRE O AUTOR

FLORESTAN FERNANDES nasceu em São Paulo (SP ) no dia 22 de julho de 1920. Tendo abandonado o
primário na infância, frequentou o curso de madureza nos anos letivos de 1938 a 1940. Formou-se em
ciências sociais em 1943 pela Universidade de São Paulo, onde obteve a licenciatura em 1944 — ano em
que se casou com Myriam Rodrigues, com quem teve seis filhos. De 1945 a 1946 cursou a pós-graduação
na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, onde obteve o título de mestre em ciências
sociais (antropologia) com a dissertação A organização social dos Tupinambá (publicada em 1949).
Tornou-se doutor em ciências sociais (sociologia) pela USP em 1951 com a tese A função social da
guerra na sociedade tupinambá (publicada em 1952) e, em 1953, livre-docente da cadeira de
Sociologia I da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP com a tese Ensaio sobre o método de
interpretação funcionalista na sociologia. Em 1964 foi aprovado como professor titular de Sociologia I
da mesma faculdade com a tese A integração do negro na sociedade de classes (publicada em 1965).
Entre 1965 e 1966 foi visiting-scholar na Columbia University. Afastado da USP por aposentadoria
compulsória em 24 de abril de 1969, em decorrência do Ato Institucional nº 5, lecionou sociologia na
Universidade de Toronto, Canadá, de 1969 a 1972, regressando ao Brasil no final desse último ano. De
1976 a 1977 foi professor de cursos de extensão cultural no Instituto Sedes Sapientiae, sendo contratado
como professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo no último trimestre de 1977. Durante o
primeiro semestre desse ano foi visiting-professor na Yale University. Em 1978 torna-se professor titular
da PUC-SP . Foi eleito duas vezes deputado federal por São Paulo, pelo Partido dos Trabalhadores, nas
legislaturas de 1987 a 1990 e de 1991 a 1994. Entre os prêmios e distinções que recebeu, destacam-se:
Prêmio Temas Brasileiros, conferido pela USP (1944), Prêmio Fábio Prado (1948), Medalha Silvio
Romero, conferida pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro (1958), título de cidadão emérico
conferido pela Câmara Municipal de São Paulo (1961), Prêmio Jabuti de Ciências Sociais (1963),
Prêmio Sociedade Brasil-Israel (1966), The Anisfield-Wolf Award in Race Relations for 1969, conferido
pela Cleveland Foundation, professor emérito da USP (1985), doutor honoris causa pela Universidade de
Utrecht (1986), Prêmio Estácio de Sá conferido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro (1989),
doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra (1990), título de grande oficial da Ordem Nacional
do Mérito Educativo, conferido pelo Ministério da Educação (1993), Prêmio Almirante Álvaro Alberto /
Ciências Humanas, conferido pela Secretaria de Ciência e Tecnologia da Presidência da República
(1993), título de cidadão honorário conferido pela Câmara Municipal de São Carlos (1994), título de
grande oficial da Ordem do Rio Branco, conferido pelo Ministério das Relações Exteriores (1995) e
título póstumo de cidadão honorário conferido pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (1995).
Faleceu no dia 10 de agosto de 1995, em São Paulo, seis dias após ter sido submetido a transplante de
fígado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP .
Autor, organizador e tradutor de diversas obras, entre teses, ensaios, artigos, conferências,
monografias e prefácios, colaborou intensamente em jornais como O Estado de S. Paulo, Folha da
Manhã, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil e Jornal de Brasília. Entre seus inéditos e publicações no
Brasil e no exterior, destacam-se: Contribuição à crítica da economia política, de Karl Marx (tradução
e introdução, 1946); A organização social dos Tupinambá (1949); A função social da guerra na
sociedade tupinambá (1952); A etnologia e a sociedade no Brasil: ensaio sobre aspectos da formação
e desenvolvimento das ciências no Brasil (1958); Negros e brancos em São Paulo (em colaboração com
Roger Bastide, 1959); Mudanças sociais no Brasil (1960); Ensaios de sociologia geral e aplicada
(1960); Folclore e mudança social na cidade de São Paulo (1961); A sociologia numa era de revolução
social (1962); A integração do negro na sociedade de classes (1964); Educação e sociedade no Brasil
(1966); Fundamentos empíricos da explicação sociológica (1967); Sociedade de classes e
subdesenvolvimento (1968); The Latin American in Residence Lectures (1969/1970); Elementos de
sociologia teórica (1970); O negro no mundo dos brancos (1972); Comunidade e sociedade no Brasil
(organização, 1972); Comunidade e sociedade (organização, 1973); Comunidade e sociedade
(organização, tomos inéditos); Las clases sociales en América Latina (em colaboração com N.
Poulantzas e A. Touraine, 1973); Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina (1973); A
investigação etnológica no Brasil e outros ensaios (1975); A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de
interpretação sociológica (1975); A universidade brasileira: reforma ou revolução? (1975); Circuito
fechado: quatro ensaios sobre o “poder institucional” (1976); A sociologia no Brasil: contribuição
para o estudo de sua formação e desenvolvimento (1977); A condição de sociólogo (1978); O folclore
em questão (1978); Lênin (organização e introdução, 1978); Da guerrilha ao socialismo: a Revolução
Cubana (1979); Apontamentos sobre a “teoria do autoritarismo” (1979); Brasil: em compasso de
espera (l980); A natureza sociológica da sociologia (1980); Movimento socialista e partidos políticos
(1980); Poder e contrapoder na América Latina (1981); O que é revolução? (1981); A ditadura em
questão (1982); K. Marx, F. Engels: história (organização e introdução, 1983); A questão da USP
(1984); Que tipo de república? (1986); Nova República? (1986); O processo constituinte (1988); A
Constituição inacabada (1989); O desafio educacional (l989); Pensamento e ação: o PT e os rumos do
socialismo (1989); O significado do protesto negro (l989); A transição prolongada (1990); As lições da
eleição (1990); O PT em movimento: contribuição ao I Congresso do Partido dos Trabalhadores
(1991); Reflexão sobre o socialismo e a autoemancipação dos trabalhadores (1992);
Parlamentarismo: contexto e perspectivas (1992); LDB: impasses e contradições (1993); Democracia
e desenvolvimento: a transformação da periferia e o capitalismo monopolista da era atual (1994);
Consciência negra e transformação da realidade (1994); Tensões na educação (1995); A contestação
necessária (1995); Em busca do socialismo (1995); O colapso do governo Collor e outras reflexões
(em colaboração com Antônio Risério, inédito).
ÍNDICE REMISSIVO

abertura dos portos


abolição da escravatura
abolicionismo
açúcar
acumulação de capital
África do Sul
Alemanha
algodão
Alves, S. Rodrigues
Amaral, Raul Joviano do
América Latina
“American imperialism and the Brazilian student movement” (Goertzel)
anomia social
antigo regime
apropriação colonial
Argentina
aristocracia
artesãos
“atraso cultural”
autocracia burguesa
autonomização cultural
autoritarismo
Azevedo, Fernando de

“baiano”
Bastide, Roger
Bento, Antônio
Blute, Marion
Bolívia
Buarque de Holanda, Sergio ver Holanda, Sergio Buarque de burguesia
ver também revolução burguesa
burocracia

cacau
café
Camargo, Oswaldo de

Candido, Antonio
capital mercantil
capitalismo comercial
capitalismo competitivo
capitalismo da periferia ver periferia do capitalismo
capitalismo dependente
capitalismo industrial
Cardim, padre
Cardoso, Fernando Henrique, 20 castas
catolicismo
centros econômicos
Chile
civilização ocidental
classe alta
classe média
classe operária ver operários
classes sociais
ver também estratificação social
Colômbia
Colônia
colônia de exploração
colônia de povoamento
colonialismo
colonização
colonos
comércio
competição
comunismo
ver também socialismo
concentração de poder
concentração de riqueza
conformismo
consciência social
consumo
Coroa
cortiços
Costa Rica
Couty
crescimento econômico
ver também desenvolvimento econômico
crise da universidade brasileira
Cuba

democracia
“democracia racial”
descolonização
desenvolvimento econômico
ver também crescimento econômico
desenvolvimento social
desigualdade racial
ver também relações raciais
despotismo
direita política
ver também esquerda política discriminação racial
ditadura militar
dominação burguesa
dominação patrimonialista
Duarte, Nestor
Durkheim, Émile

economia colonial
economia de plantação
economia metropolitana
economia urbano-comercial
economia urbano-industrial
educação
ver também ensino médio; ensino superior; universidades latino-americanas
El Salvador
elites
elitismo
emancipação nacional
empresas
Engels, Friedrich
ensino médio
ensino superior
ver também universidades latino-americanas
Equador
era colonial
era de emergência
era de transição neocolonial
Escola Paulista de Sociologia
“escravidão antiga”
escravidão mercantil
“escravidão moderna”
escravos
escravos indígenas
Espanha
esquerda política
ver também direita política
Estado autocrático
Estado Novo
Estado patrimonial
Estados Unidos
estamentos sociais
estratificação social
ver também classes sociais
estruturas sociais
“Estudante e política no Brasil” (Foracchi)
estudantes
ver também educação; ensino médio; ensino superior; universidades latino-americanas
Europa
“evasão de cérebros”

família real portuguesa, transplantação da
família senhorial
favelas
fazenda
feudalismo
Foracchi, Marialice M.
Forças Armadas
França
Franco, Maria Sylvia de Carvalho
Freyre, Gilberto
Furtado, Celso

Goertzel, Ted
Goes, Fernando
golpes militares
Grã-Bretanha
Guatemala

Haiti
Hernández, Salvador
Holanda
Holanda, Sergio Buarque de
Honduras

Ianni, Octavio
“Ideologia estudantil e sociedade dependente” (Foracchi)
ideologias
Igreja católica
imigrantes
imperialismo
Império brasileiro
império colonial
importação
inconformismo
Independência do Brasil
industrialização
inflação
Inglaterra
Integração do negro na sociedade de classes, A (Florestan Fernandes),
integração nacional
intelligentsia latino-americana
interesses de classe
Itália

Japão
Juventude na sociedade moderna, A (Foracchi)

lavoura
Leite, José Correia, 104 liberalismo
liberdade intelectual
libertos
lucros

macrocosmo social
Maier, Joseph
Mannheim, Karl
Mariátegui, José Carlos
Marx, Karl
massa negra
massas
McKie, Craig
mercado colonial
mercado mundial
mestiços
Metrópole
México
microcosmo social
migrantes
militarismo
Minas Gerais
mineração
miscigenação
miséria
Missão Rockefeller
Mito y realidad de la universidad boliviana (Taborga)
mobilidade social
modernização
Modernización y crisis en la universidad latinoamericana (Vasconi & Rega), monarquia
monopólio da terra
mudança cultural
mudança social
mulatos

Nabuco, Joaquim
nacionalismo
Nascimento, Abdias do
neocolonialismo
Nicarágua
nobreza
Nordeste brasileiro
Novo Mundo

Oeste paulista
operários
opressão
ordem escravocrata
ordem racial
ordem social

Panamá
Paraguai
participação institucional
Partido dos Trabalhadores
paternalismo
patrimonialismo
Patrocínio, José do
Pelegrini, José
periferia do capitalismo
Peru

pesquisa científica
pesquisadores
pilhagem
pobreza
poder político
política econômica
população negra
populismo
Portugal
Prado Júnior, Caio
preconceito racial
prestígio social
PRI y el movimiento estudantil de 1968, El (Hernández)
Primeira Guerra Mundial
produção capitalista
produção escravista
professores
profissões
progresso educacional
prosperidade
protesto negro

racismo
ver também discriminação racial; preconceito racial “radicalismo democrático”
“radicalismo intelectual”
Reca, Inés
reforma universitária
relações raciais
ver também desigualdade racial
República brasileira
República Dominicana
revolução burguesa
ver também
burguesia
Revolução burguesa no Brasil, A (Florestan Fernandes)
revolução capitalista
“Revolução de 30”
revolução socialista
Ribeiro, Darcy
Rio de Janeiro

salários
São Paulo
São Vicente, 64 secularização
serviços públicos
Sete ensaios de interpretação da realidade peruana (Mariátegui)
sistema colonial

sistema escolar
socialismo
sociedade de classes
ver também classes sociais sociedade escravista
sociedade feudal
sociedade metropolitana
sociedades subdesenvolvidas
sociologia crítica
sociólogos
Sousa, Antonio Candido de Melo e ver
Candido, Antonio
Stein, S. J.
“Student politics and political systems” (Weinberg & Walker)
subdesenvolvimento

Taborga, Huascar
tecnologia
tirania de classe
trabalho escravo
trabalho livre
tradicionalismo
tráfico negreiro
transição neocolonial

Universidade brasileira: reforma ou revolução? (Florestan Fernandes)
Universidade de São Paulo
Universidade de Toronto
Universidade necessária, A (Darcy Ribeiro)
universidades latino-americanas
urbanização
Uruguai
utopias

Vale do Paraíba
Vasconi, A.
Veneza
Venezuela
Viana, Oliveira
Vicente do Salvador, frei
violência

Walker, Kenneth N.
Weatherhead, R. W.
Weber, Max
Weinberg, Ian
[1] Ensaio escrito para o simpósio sobre “Perspectivas comparadas sobre a escravidão nas sociedades de plantação do Novo Mundo”,
realizado em Nova York, de 24 a 27 de maio de 1976, sob os auspícios da New York Academy of Sciences.
[2] Para melhor entendimento dessa caracterização, veja-se, do autor: Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina, pp. 13
e segs., e esp., A revolução burguesa no Brasil, cap. 6.
[3] Essa caracterização foi explorada sinteticamente pelo autor em Sociedade de classes e subdesenvolvimento, p. 111 e segs. Alguns
aspectos centrais do solapamento da ordem escravocrata e senhorial pelo elemento competitivo são descritos em A revolução burguesa no
Brasil, cap. 4.
[4] Conforme R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, caps. 1 e 2, passim; e F. Fernandes, A integração do negro na
sociedade de classes, esp. vol. I, cap. 1. Quanto à interpretação das transformações da produção escravista e da transição para a
plantatação tropical moderna, ver A revolução burguesa no Brasil, pp. 103 e segs.; e O negro no mundo dos brancos, pp. 142 e segs.
[5] Em alguns casos excepcionais, essa debilidade não era tão forte ou podia ser compensada pelo recurso simultâneo a várias formas de
apropriação colonial e, em consequência, de acumulação de capital mercantil pelo senhor. Boxer, em A idade de ouro do Brasil, aponta
alguns desses casos e concentra-se em um deles, que permite ilustrar de modo quase limite o que era necessário para que isso ocorresse
(veja-se Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola. 1602-1686, passim).
[6] Esta interpretação, é óbvio, não colide com o que escreve F. H. Cardoso (Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, pp. 186-205).
Aqui, o que temos em vista é a importância estrutural e dinâmica do trabalho combinado sob a escravidão colonial e mercantil, elemento sem o
qual não se tem uma perspectiva para entender a própria localização e a função da extensão da jornada de trabalho e, em especial, o
acréscimo da produtividade através do trabalho cooperativo indiferenciado ou pouco diferenciado, mas sujeito a ritmos próprios e a uma
supervisão constante.
[7] Aliás, até ao nível da produção o trabalho escravo podia criar espaço econômico para o trabalho livre (cf. A. von der Straten-Ponthoz, Le
budget du Brésil. vol. III, pp. 112-113 e, esp., 117-118). Isso quer dizer que a relação geral, apontada por O. Ianni (Ensaio sobre a
escravidão e capitalismo), segundo a qual o aparecimento do operário deitava uma de suas raízes na existência do escravo, pode ser
generalizada e aplicada aos países da periferia. No Brasil, por exemplo, os fundos para custear a imigração nasceram do excedente econômico
gerado pela escravidão mercantil, quer eles proviessem da iniciativa privada (como na experiência da fazenda Ibicaba), quer do Estado
senhorial e escravista).
[8] Cf. R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, pp. 34 e segs.; F. Fernandes, O negro no mundo dos brancos, pp.
143-144.
[9] O negro, como escravo, liberto ou homem livre e semilivre, esteve excluído, na qualidade de agente histórico, do desencadeamento da
revolução burguesa; o mesmo não acontecia com a escravidão, que foi um dos eixos em torno no qual se processou a acumulação do capital
mercantil. Por isso, a protagonização histórica do processo ficou nas mãos do fazendeiro e do imigrante (cf. F. Fernandes, A revolução
burguesa no Brasil, cap. 3). Para um alargamento da descrição histórica do período: C. Prado Jr., História econômica do Brasil, caps. 16-
20; e S. Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, cap. VII.
[10] Cf. A. M. Perdigão Malheiros, A escravidão no Brasil, vol. I, p. 32.
[11] A respeito dessa inconsistência medular, cf. R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, pp. 82 e segs.
[12] Apesar de que, como se sabe, foram os sacerdotes os principais críticos do terror organizado, inerente à escravidão, no Brasil colonial
(veja-se, por exemplo, F. Mauro, Nova história e Novo Mundo, pp. 205-224).
[13] Para se avaliar, em profundidade, essa crise da consciência senhorial ultraconservadora, veja-se C. G. Mota, Atitudes de inovação no
Brasil: 1789-1801 e, principalmente, Nordeste 1817.
[14] A descrição foi contida na primeira etapa da transição neocolonial. O leitor que tiver interesse por uma interpretação mais ampla, em
função dos efeitos econômicos, sociais e políticos da Independência, deve recorrer a A revolução burguesa no Brasil, caps. 1 e 2.
[15] O leitor poderá ter uma ideia clara do que era o estadão de vida senhorial e da rede de articulações que prendiam o senhor ao circuito
econômico geral em S. J. Stein, Grandeza e decadência do café.
[16] Os marcos dessa revolução urbana aparecem caracterizados por R. M. Morse, Formação histórica de São Paulo. Sobre as conexões
do processo com a expansão interna do capitalismo, cf. F. Fernandes, A revolução burguesa no Brasil, cap. 3.
[17] Cf. esp. R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros de São Paulo, pp. 56 e segs.
[18] Cf. E. Viotti da Costa, Da senzala à colônia.
[19] Cf. F. Fernandes, A revolução burguesa no Brasil, cap. 3; F. Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, pp. 24 e
segs,; W. Dean, A industrialização de São Paulo, caps. I-V.
[20] F. Fernandes, A revolução burguesa no Brasil, cap. 4.
[21] Cf. esp. M. I. Pereira de Queiroz, O mandonismo local na vida política brasileira, e V. Nunes Leal, Coronelismo, enxada e voto.
Sobre a conexão do antigo elemento mandonista com o padrão de dominação burguesa, cf. F. Fernandes, A revolução burguesa no Brasil,
cap. 5.
[22] Cf. “Os abolicionistas” (A Redempção, 29 ago. 1897).
[23] Ensaio a ser publicado nos Estados Unidos e na França em livros de homenagem, respectivamente, a Charles Wagley e Roger Bastide.
[24] R. Bastide e F. Fernandes, O preconceito racial em São Paulo (reproduzido em R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São
Paulo, pp. 271-300).
[25] Veja-se a enumeração dos principais colaboradores em R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, pp. 16-17. A
investigação global, da qual o estudo das relações raciais na cidade de São Paulo era apenas uma parte, contava ainda com um estudo
sociológico das relações no município de Itapetininga, feito pelo dr. Oracy Nogueira, e de duas análises psicológicas, realizadas pelas dras.
Virgínia Leone Bicudo e Aniela Meyer Ginsberg (ver R. Bastide et alii, Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo.
[26] O principal grupo de contribuições consta dos seguintes trabalhos: R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo; F.
Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes; F. Fernandes, O negro no mundo dos brancos; R. Bastide, Le prochain et le
lointain, toda a primeira parte; R. Bastide, Les réligions africaines au Brésil, parte I, cap. IV.
[27] Vejam-se, especialmente: L. A. Costa Pinto, O negro no Rio de Janeiro; T. Azevedo, Les élites de couleur dans une ville brésilienne;
C. Wagley (org.), Races et classes dans le Brésil rural; R. Ribeiro, Religião e relações raciais.
[28] Vejam-se, especialmente: F. H. Cardoso e O. Ianni, Cor e mobilidade social em Florianópolis; F. H. Cardoso, Capitalismo e
escravidão no Brasil meridional; O. Ianni, As metamorfoses do escravo; J. B. Borges Pereira, Cor, profissão e mobilidade. Sobre a
bibliografia pertinente aos estudos das relações raciais no Brasil: O. Ianni, Raças e classes sociais no Brasil, cap. VIII.
[29] O desdobramento da pesquisa para o Sul do Brasil previa a elaboração posterior de um estudo comparativo. No entanto, não pudemos (F.
H. Cardoso, O. lanni e o autor deste artigo) realizar esse projeto. Tentativas de uso comparado dos materiais começaram a ser feitas mais
tarde: cf. F. Fernandes, O negro no mundo dos brancos, caps. II e III; T. Azevedo, Democracia racial, caps. II e III. Quanto à comparação
da situação racial brasileira oom outras situações raciais, cf. esp.: M. Harris, Patterns of race in the Americas; H. Hoetink, Caribbean race
relations; P. L. van den Berghe, Race and racismo.
[30] Várias conferências feitas em associações culturais negras permitiram ao autor acompanhar a evolução de múltiplos aspectos da situação
de contato racial e a influência que os resultados da pesquisa tiveram na qualidade da percepção da realidade e nas categorias de explicação
utilizadas pelos ativistas do meio negro. A última conferência, feita sob os auspícios do Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas, em
13/10/1975, sobre “A atual situação do negro no Brasil — perspectivas”, suscitou um longo debate e permitiu consolidar muitas das conclusões
a que o autor tinha chegado previamente, explorando sua condição de membro-adotivo e pesquisado-participante.
[31] Uma preocupação mais específica pelo mulato no mundo racial brasileiro aparece no estudo de C. N. Degler, Neither black nor white
(Sobre este livro, E. de Oliveira e Oliveira escreveu um comentário que merece atenção: “O mulato, um obstáculo epistemológico”, pp. 65-73);
T. de Queiroz Júnior, Preconceito de cor e a mulata na literatura brasileira.
[32] Essa ponderação é deveras importante. A maioria das conferências organizadas no meio negro são da iniciativa dos antigos líderes do
movimento de protesto coletivo ou de ativistas novos, que se formaram sob sua influência. O próprio autor se identifica com uma perspectiva
militante e radical, pois sem ela nunca se constituirá no Brasil uma democracia racial (ver, em especial, F. Fernandes: “Aspectos políticos do
dilema racial brasileiro”, em O negro no mundo dos brancos, pp. 259-283). Não obstante, os materiais aproveitados para análise, neste
artigo, foram cuidadosamente selecionados e criticados, para não apresentarem uma imagem distorcida da presente situação. No pensamento
negro moderno, a posição mais radical, de um “racismo antirracista”, tem sido tomada e defendida com envergadura por Abdias do
Nascimento (vejam-se seu depoimento, em Cadernos brasileiros, pp. 3-7; e, do livro que organizou, O negro revoltado, o capítulo
introdutório de sua autoria, pp. 13-63). Os estudos sociológicos já feitos permitem caracterizar a ideologia racial dominante e a contraideologia
negra (cf. notas 3, 4 e 5, referências a F. Fernandes, L. A. Costa Pinto, F. H. Cardoso e O. Ianni). Um balanço recente do que se poderia
chamar da “falsa consciência racial” no pensamento brasileiro foi feita por T. E. Skidmore, Black into white. Quaisquer que sejam as
limitações perceptivas e cognitivas das categorias críticas aplicadas pelos negros (nos movimentos de protesto coletivo, das décadas de 1930 e
1940; ou nas conferências de agitação das décadas de 1960 e 1970), o uso do desmascaramento como técnica de combate e a identificação
com impulsões raciais igualitárias e democráticas tornam o seu pensamento muito mais objetivo e penetrante que o do branco.
[33] Por motivos óbvios, eximimo-nos de arrolar uma bibliografia sociológica sobre o assunto. Quem estiver familiarizado com os estudos de
H. Freyer, K. Mannheim ou C. W. Mills sabe em que consiste a conexão mencionada da sociologia com a “consciência crítica da situação”.
[34] Cf. F. Tönnies, Princípios de Sociologia, pp. 349-357.
[35] C. W. Mills denuncia esse efeito em The sociological imagination.
[36] Em contraste, a avaliação do branco conservador foi, com frequência, muito mais moderada e restritiva. Houve, até, quem assinalasse
que estaríamos introduzindo “o problema racial” no Brasil!
[37] Ver F. Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, vol. 2, cap. 4. xxxvi Ver F. Fernandes, A integração do negro na
sociedade de classes, vol. 2, cap. 5.
[38] Ver F. Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, vol. 2, cap. 5.
[39] Para a caracterização sociológica da revolução burguesa no Brasil, ver F. Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (quanto ao
caráter que essa revolução assume em sua fase de apogeu, caps. 5, 6 e 7).
[40] Ver acima, referência da nota 14.
[41] Sobre o controle político conservador da mudança social: F. Fernandes, Sociedade de classes e subdesenvolvimento, pp. 101-111; Idem,
A sociologia numa era de revolução social, cap. 7; Idem, Mudanças sociais no Brasil, pp. 19-57; Idem, A revolução burguesa no
Brasil, cap. 7.
[42] Ver R. Bastide e F. Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, pp. 56 e segs.; F. Fernandes, A integração do negro na sociedade
de classes, vol. 1, pp. 24-38.
[43] Ver O. Ianni, O colapso do populismo no Brasil; e F. H. Cardoso, O modelo político brasileiro e outros ensaios, cap. III.
[44] Ver F. Fernandes, A revolução burguesa no Brasil, caps. 5 e esp. 7.
[45] Como vêm descritos, por exemplo, em F. Frazier, Bourgeoisie noire; e L. Kuper, An african bourgeoisie.
[46] Ver F. Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, vol. 1, cap. 2.
[47] Os atuais estudos sobre populações marginais não contêm referências às diferenças raciais. Ainda assim, eles são úteis não só para uma
sondagem dos processos de espoliação e de expansão da pobreza, mas também para estudar-se como a modernização e a industrialização se
refletem nos estratos mais pobres da população (ver esp. M. T. Berlinck, Marginalidade social e relações de classes em São Paulo; e,
apesar de referir-se à Baixada Santista, M. C. Pinheiro Machado Paoli, Desenvolvimento e marginalidade). Com a mesma ressalva, pode-se
aproveitar estudos recentes sobre as migrações para a cidade (E. R. Durhan, A caminho da cidade); e sobre a mobilização do trabalho (L.
Pereira, Trabalho e desenvolvimento no Brasil; L. Martins Rodrigues, Industrialização e atitudes operárias).
[48] Conforme, especialmente, Oswaldo de Camargo, O carro do êxito.
[49] Várias dessas propensões são muito bem apanhadas através dos contos de Oswaldo de Camargo.
[50] Tradução revista pelo autor.
[51] A versão apologética do regime peruano aparece em Carlos Delgado, A revolução peruana, 1972; a versão crítica mais contundente, em
Aníbal Quijano, Nationalism and capitalism in Peru, 1971. Ambas as posições precisam ser vistas com reservas. Carlos Delgado impregna a
“revolução peruana” de uma originalidade socialista que ainda não se concretizou; e Aníbal Quijano ignora dimensões populistas, reformistas e
anti-imperialistas notórias do regime.
[52] J. Nun, Latin America: the hegemonic crisis and the military coup, 1969.
[53] Alguns estudos a respeito dos golpes de Estado na América Latina são bem conhecidos, como os ensaios ou livros de V. Alba, G.
Germani e K. Silvert, Louis Higgs (ed.), I. L. Horowitz, J. J. Johnson, E. Lieuwen, G. Lupo, L. N. MacAlister, L. North etc. (ver L. N.
MacAlister, “Recent research on the role of the military in Latin America”, 1966). A esta bibliografia, seria necessário acrescentar os artigos
publicados pela Revista Latino-Americana de Sociologia (Buenos Aires) e o número especial de Apartes (nº 6, 1967, com artigos de V. R.
Beltran, A. Ciria, R. P. Case, F. C. Turner, M. C. Grondona, V. Alba e H. Jaguaribe). No IX Congresso Latino-Americano de Sociologia
(México, 1969) foram apresentadas importantes contribuições, também utilizadas nesta discussão: J. Cotler, Crisis política y populismo
militar en el Peru, 1969; J. Saxe-Fernandez, De “nation-building” a “empirebuilding”: hacia una estrategia militar hemisférica; E.
Valencia, Notas para una sociología de la guerrilla; F. L. Buitrago, Política y intervención militar en Colombia; A. Pearce, El
campesino en la revolución boliviana. Em relação à minha análise dos aspectos do desenvolvimento econômico, social e político na
América Latina, ver meu livro Sociedade de classes e subdesenvolvimento, esp. cap. I.
[54] Conforme, especialmente, os trabalhos citados de J. Saxe-Fernandez e R. P. Case; e E. Lieuwen, U. S. policy in Latin America, pp. 83-
125. As consequências da nova política metropolitana de “desenvolvimento com segurança” possuem desdobramentos que afetam
profundamente as ciências sociais (veja-se, a respeito, J. Saxe-Fernandez, “Ciencia social y contrarrevolución preventiva en Latinoamérica”,
pp. 53-81.
[55] Os organizadores autorizaram gentilmente a publicação do trabalho em português em sua versão original. Pediram para mencionar, porém,
que obtiveram os fundos para a organização da obra de The Midgard Foundation.
[56] A respeito da organização em “escolas”, “faculdades” e “universidades” existem diferenças notórias na orientação da administração
colonial portuguesa e espanhola, como na atuação dos respectivos cleros. Tais diferenças persistiram após a implantação dos Estados
nacionais e converteram-se em tradição cultural, que só recentemente começou a ser corrigida. Essa questão não pode ser debatida aqui e
pode ser facilmente esclarecida pelos estudos de história educacional e de educação comparada.
[57] Nesta parte do trabalho teremos de dar, forçosamente, pouca atenção ao desenvolvimento recente ou atual das instituições de ensino
superior. Adiante, teremos de voltar repetidamente ao assunto, focalizando essas instituições sob seus diferentes aspectos e sob prismas
diversos. O leitor que quiser esclarecimentos de ordem histórica sobre a antiga ou a nova universidade terá de socorrer-se dos estudos sobre
história educacional ou de educação comparada, que tomam por objeto o mundo latino-americano.
[58] Deve-se notar que o êxito dos movimentos de “autonomia” ou de “reforma” universitária foi mais rápido em países de língua espanhola e
que o Brasil só conhece a dinamização de tais movimentos em época posterior. Todavia, com frequência o terreno ganho em um momento
perdia-se no momento seguinte (como se poderia ilustrar com o caso da Argentina: a reforma da Universidade de Cordoba, em 1918,
consagrou uma situação que foi revogada pela ditadura peronista; estabelecida em novas bases, por uma lei sancionada em 30 de setembro de
1958, de iniciativa do reitor Risieri Frondizi, viu-se de novo ameaçada pela recente ditadura militar do general Ongania). A pressão quantitativa
e os dilemas políticos acabam tendo, em semelhante contexto de incompreensão e de opressão da inteligência, mais eficácia que as soluções
de pura origem racional.
[59] Compilação feita por Havighurst, com base nos resultados das pesquisas de Bertram Hutchinson (Universidade de São Paulo), Gino
Germani (Universidade de Buenos Aires) e Comissão Coordenadora da Reforma da Universidade Nacional de San Marcos, todas feitas na
década de 50 (veja-se Robert J. Havighurst et alii, La sociedad y la educación en América Latina, tabela XXII, p. 187).
[60] Dados extraídos de Situação social da América Latina, pp. 159-164.
[61] As informações concernentes a 1966 foram extraídas de Felipe Herrera, “América Latina se transforma” (O Estado de S. Paulo, p. 38,
28 jan. 1968).
[62] Os cálculos foram refeitos para cada grupo de países.
[63] No entanto, o estudo de Aldo Solari (Aproximaciones al problema de la educación y el desarrollo económico en el Uruguai) fornece
indicações que permitem concluir que, não obstante suas dificuldades econômicas, o Uruguai continuou a expandir todos os ramos do ensino,
na referida década.
[64] “M EC recebe menos”, O Estado de S. Paulo, 24 dez. 1967.
[65] UNESCO-M INEDECAL/9, La formación de recursos humanos en el desarrollo económico y social de América Latina, p. 45.
[66] Tivemos de adotar a classificação fornecida pela fonte utilizada, Não obstante, o leitor interessado poderá reagrupar os dados facilmente,
para compará-los com a enumeração anterior.
[67] Essa nos parece ser a hipótese de melhor valor heurístico para explicar a orientação de comportamento discutida, em termos sociológicos.
Fomos levados a essa interpretação pela análise de casos nos quais os fazendeiros encaminham seus filhos, terminantemente, para outras
carreiras e depois os reabsorvem nas administrações das fazendas; e de casos nos quais os próprios pais, que possuem grandes propriedades
rurais, não procuram aproveitar filhos ou sobrinhos, formados em agronomia e veterinária, na solução de problemas práticos relacionados com
a produtividade da terra ou com o tratamento dos rebanhos.
[68] Dados extraídos de Gino Germani, “Estrategia para estimular la movilidad social”, pp. 250-251.
[69] Seria importante que o leitor procurasse ler, na fonte citada, a parte relativa às projeções com referência a 1980 (cf. UNESCO-
M INEDECAL/9, La formación de recursos humanos en el desarrollo económico y social de América Latina, pp. 57 e segs. e esp. quadros
14, 15 e 16). A projeção, por levar em conta o futuro (embora o futuro próximo), focaliza melhor as deformações da estrutura ocupacional e as
dificuldades para corrigi-las. As implicações dessa projeção não foram incluídas no texto por causa da extensão que a análise tomaria.
[70] Vejam-se, a respeito, os dados fornecidos por UNESCO-M INEDECAL/9, La formación de recursos humanos en el desarrollo económico
y social de América Latina, pp. 51-53. Só da Argentina, entre 1950 e 1964, foram para os Estados Unidos mais de 5.000 professores e
técnicos, sendo que 60% desse pessoal eram constituídos por engenheiros, médicos e professores. Do Chile, por sua vez, só em 1963 foram
1.153 pessoas para os Estados Unidos, das quais a quarta parte era constituída de profissionais com qualificação universitária. Um inquérito
feito sobre o assunto pôs em evidência que 24% se declararam motivados a imigrar em busca de melhores salários; 29% por aspirações de
progresso profissional; 16% por maior reconhecimento de valor; e 13% por melhores oportunidades de investigação (as fontes dos dados
originais são indicadas na obra citada). Ao que parece, seria preciso investigar as relações existentes entre as orientações dominantes no
ensino e na pesquisa das melhores universidades da América Latina e essa imigração em massa. Por meio de entrevistas com alguns
cientistas de renome descobrimos, há vários anos, que incentivam, deliberadamente, especializações que acarretam trabalho permanente no
exterior dos melhores talentos. Pusemos à prova essa descoberta e constatamos que a tendência possui até uma filosofia própria, pois se alega
que não adiantaria trabalhar em áreas da ciência que não possuam “significado internacional”!