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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt. osb
(in memoriarn)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-LlNE
Diz 510 Pedro que devemos
estar preparados para dar a razão da
nossa esperança a todo aquele que no·la
pedir {I Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
vlSIO que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias ti fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crença calórica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
EiS o que neste sita Pergunte e
Responderemos propõe aos seus leilores:
aborda questoes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista crislAo a 11m de que as dúvidas se
....... "" _, dissipem e a vtvêncJa cat6Jica se fortaleça
- _1 - no Brasil e no rT'MJndo. Queira Deus

abençoar este trabalho assim como a


equipe de Verttatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Aio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
"-. E.tevlo 8ettencoutt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Célébramos convênio com d. Estevão Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o éxcelente e sempre atual
ronleúdo da revista teológico • filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conla com mais de 40 anos de publicaçAo.
A d. Estêvão Bettencourt agradecemos a conflaça
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zélo pastoral assim demonstrados.
·
Iodice
....
Um documento Imporl."I. :
CATOllCOS E JUDEUS EM DIALOGO 331
Or. nll. queslio:
NEUROSE E SANTIDAOe SE CONJUGAt-A?
Eatr.nh. 'Urp'UI :
:,.
OS SANTOS ATRAVM DA GRAFOLOGIA
U:n ••cl".cim.nto:
"'.
MA:S UMA VEZ IGREJA E MAÇONARIA . . . 312
LIVROS EM ESTANTE 375

COM APROVAÇ~O ECLESIASTICA

NO PRÓXIMO NOMERO:
Ciência e Fé se conciliam entre si'? - A gloriosa Paixão
de Jesus em São João. - "Eu estou OK. Você estA OK",
"Alphe.ville" no cinema .
x --
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS.
Asslnatural anual . ... .... . . .... . Cr$ 50,00
Númcro avulso de qua]c,uer m~s Cr$ 5.00
Volume encadernado ti", 1974 Cr$ 70,00
Indlcc Geral de 1957 a 1004 .. Cr$ 10,00

EDITORA LAUDES S. A.
RF.DAÇA.O DF. ru ADI\IINISmAÇAO
CAlxll Pmtal 2 .668 JtUA 810 ItAlaol, 38, ZCOD
ZOOO 20000 Rio de ".nelro IGBI
20.000 nl~ ele Janeiro IGR) TelL~ 268·9981 f! 261·2'798

No Rio, ü. nua Real Grandezn, 108, li. Ir. l\laria Rosa Porto
tem um depósito de PR e recebe pedidos de as.,lnatura da
revJsta. Tel.; 226-1822.
A EHERCiIA ATÔMICA EM FOCO
Tem-se comentado vivamente na imprensa a entrada do
Brasil na era nuclear. A perspectiva de que talvez se venham
a fabricar bombas atomicu em nosso pals, sugere a certas
observadores restrições ou condenação ao acordo BrasU·Al~
manha. Saberão os responsãveis pelos destinas da nação uti-
lizar a energia atômica unicamente para fins paciflcos e cons-
trutivos'!
lt diante desta questão que o cristão se vê hoje em cUa
colocado. Que posição assumirá ele, que deve ser portador do
Evangelho da paz para todos os homens'!
_ Pode-se dizer que, fundamentalmente, o cristão é oti-
mista em relação 80 mundo que o cerca. Este é criatura de
Deus, boa em si, entregue ao homem para que continue a obra
do Crl~dor, descobrindo as riquezas minerais, vegetais e ani-
mais contidas nas entranhas das criaturas; ao homem com-
pete imprimir 8 marca da sua Inteligência e da sua capaci-
dade de artesão à realidade sensivel em que vive; assim o ser
humano é chamado a consumar a bela obra que o Senhor
Deus quis iniciar, exercendo ele as funções de mediador entre
o mundo vlsivel e o Deus Invislve1. - Aliás, a BlbHa se abre
descrevendo o homem como cimagem e semelhança de Deus.
ou «lugB~tenente do Criador» (cf. Gn 1,28) e se encerra com
o Apocalipse, onde todas as criaturas são apresentadas ' na
corte celeste a dar glória ao Senhor (cf. Ap 4-5).
:t: nestes tennos que o CrIstianismo se distingue de qual-
quer filosofia pessimista ou dualista. Segundo estas, o esplrito
deve ser libertado da matéria considerada como má, ao passo
que o Cristianismo liberta a própria matéria.
Todavia a esta altura há quem acuse o Cristlanlsmo pre-
cisamente por ser otimista e sorridente em relacão às criatu-
ras materiais. Não seria a filosofia cristã um estimulo para
a corrida ao «ter mais» e à domInação iUe1ta? O pensador
Dennis L. Meadows, numa obra recente intitulada «Wachstum
bis zur Katastrophe?» (Crescimento até a catástrofe? Stutt-
gart 1974), julgava estarem na Biblla os premissas do desen-
volvImento técnico capaz de esmagar o próprio homem. Carl
Amery, em «La fin de la prévislon?:t. (1972). f82 semelhante
obsetvação. O famoso historiador inglês Arnold Toynbee, por
sua vez, fala da «responsabilidade do Cristianismo pela polui-
ção dos ambientes» (titulo, aliás, de um livro desse autor).
-329 -
Em suma, em circulos de sociólogos, antropOlogos e filósofos,
ouve-se não rero a queixa de que o Cristianismo faz uso insu-
ticlentemente crltlco das palavras do Gênesis: cCrescei ... e
dominai a terra. (1,28) .
Ora diant@ de tais comentArios deve-se propor a segulnt@
observação: segundo a Biblia, Deus quis confiar ao homem a
missão de transformar o mundo i por certo, . .. não, porém, à
semelhança de wn déspota e, sim, como continuador de um
modelo que se acha traçado na narração biblica. da crlação.
Essa transfonnação deve tomar rposslvel a habitação de Deus
entre OS homens. Não o homem, mas a mansáo de Deus entre
os homens é, confonne o texto sagrado, o objetivo da histó-
ria do mundo.
Por conseguinte, a. concepção btbllca. não hã de ser con-
fundida com a tese de que ao homem toca o direIto de explo-
rar o mundo segundo seu bel-pt82er. A técnica e a arte são
como que a prolongação da obra criadora de DeuS.
A perspectiva de fé confere à natureza e ao mundo tanto
o llUldamento como os limites do seu valor. Explicitando tal
visão, a Igreja apresenta uma concepção simultaneamente
grandiosa e humilde do homem e do seu papel na terra. A
nobre missão do gênero humano só serA dignamente desem-
penhada se os home ns não se esquecerem da ascese cristã.
Esta, longe de ser masoquismo ultrapassado, é, hoje em dia
mais do que nunca, atual e necessária em virtude de nova
motivação: saiba o homem recusar pretensões e sugestões
cuja satisfação degrade os sentimentos de fraternidade e soli-
dariedade dos homens entre si e, conseqUentemente, firam os
planos do Criador. Um desenfreado consumo de bens mate-
rla1.s reproduziria em nossos dias o que São Paulo em seu
tempo descrevia: as crlaturas irraclonais foram submetidas
pelo homem à vaidade (loucura) e gemem sob o jugo daquele
que deveria ser seu sacerdote e artífice (d. Rm 8,18-22) .
l!: à luz destas reflexões que o cristão considera o uso da
energia nuclear no Brasil. Esta pode servir não só A destruição,
mas também ao progresso prodigioso da medicina, da agricul-
tura, da genética animal, da computação matemática . . " em
suma ... ao ideal de humanizar o homem e o mundo. Assim
o homem feito mais homem, servindo-se das criaturas e por-
tador das riquezas do mundo vislvel, apresta-se a dar glórIa
ao Criador. O cristão faz votos para que isto se dê, sem que
jamais as torças portentosas da matéria aviltem a imagem e
semelhanza do Senhor Deus!
E. B.

-330 -
.PERCiUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XVI - Nt 188 - Agosto d, 1975

Mala um documento Importante:

católicos e judeus em diálogo


Em linte•• ; Ao Comlaelo di Santa S. pal1l U Relaç6n FleUgIOl"
com o Judalamo publicou. ,.'XIII7" um documento no qual traça namu
• pro~e IUge.,6e1 que vlaam a promover mal. e mar. o entendimento
enlre cltÓllcos 11 Judlus. Esta , Importante, pol. somente a partIr d,
Antiga Aliança" qUI" entendem a Nova Aliança li o mllllirro da Igreja.

Aa InatruçO•• promulgada. pala S. $11 dl.trlbuem .... sob quatro tltu-


101: OI&logo, Liturgia, Educaçlo • Ensino, AçAo social a comum. Uma
das nota. conll.ntes dia mlamas 6 • •llrmaçlo da que o Crlal/anllmo ,
o cumprimento da. prom..... I.'t•• ao. Patriarcal, Rei. I Prol".. de
Israel; por este motivo, lar••r merace estima I ·con.ldaraçlo d. paria dos
crtslllos. SarA nacesII4rlo, pois, pOr em espacial relevo, na catequese e na
liturGia calóllcal, OI textoa que Co.1Hrvlm valor perene e evitar etrlbulr
a todo o povo Judeu da outrora ou dtI hoje a responsabilidade da conde-
naçAo de Jelus; n. verd.d., 11,.el nol tampoa da Cristo era ,..lldade
complexa, qUI compreendia rirlu tandtnclas religiosas li culturall, da
modo que leria Impreciso falar do judalamo antigo como de um bloco
rlgldo e monolltlco. leva-u em conla lamWm que 8 história de I.,ael con-
IInua, depois d. Crbto, chel. de slgnlflc.do religioso: o povo judeu, por
. eu l uno .ntes da Crls lo e lua pera'sttnc:la dltPOls da Crllto, • um
IenOmeno que as cltnclas .oclals nlo axpllcam a que só como porlamo
Inltltuldo paio próprio Dtua poda a., eompreendlde.
o doc:umsnlo da Roma prevt d16log0S rallglosol antra grupos judeus
e católicos devldamanla prapa,.dos para tanto. , .. oraçOes falt.. em
comum , pllnelpalmenta em vlsl. dos problemas da lustrça e da paz, ...
colaboraçlo Jud.~aI6I1c. m6Jtlme nO$ .atoru d. justfça aoclal ·. da pu
entre 0$ homena: a a;lo loclal comum ' .ft blSaada ,obre o laia ds qua
Judeus a crlsllo. aprendam na BlbIF. a respeitar 11 amar a dlgnldada da
pBlloa humana, lalta .. Imagem 8 semelhança de Deus.

• • •
Comentário: Em janeiro pp. foi PUbUCBdB uma Instrução
da Santa Sé datada de 1·!XI1/74. referente às relacóes dos
católIcos com os judeus. Este documento provém da Comissão
Romana destinada a favorecer ElS relações rellgiosas com os

, - 331-
4 cPERGUNTE E RESPONDEREMOSp 188/ 1975

judeus. Comissão criada pelo S. Padre Paulo VI 80s 22/X/ 74


e presidida pelo Cardeal J oão WiIlebrands, tendo como Secre-
tário o Pe. Pedro-Maria de Contenson O. P. (ambos signatá-
rios do Documento).

o judalsmo não é notório apenas nos EE. 00. da América,


na Inglaterra, na França, na Europa Centrai, em Israel. . . No
Brasil a presença de Israelitas é sensível, principalmente nos
Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro ... Estuda ntes cris-
tãos e judeus se ladeiam mutuamente não raro no mesmo
colégio ou na mesma Facu1dade; em certas finnas e empresas,
funcionArias e técnicos católicos e israelitas também têm a
ocasião de se encontrar diariamente ,na procura das mesmas
metas profissionais e humanas. Ê o que dá ImportAncla para
o Brasil ao documento recém-oriundo de Roma. A1ém disto,
como frisa expUdtamente esse texto (titulo 4), mesmo onde
não há comunidade judaicB, o conhecimento e o estudo do
judalsmo são valiosos para os cristãos. pois co problema das
relações entre judeus e cristãos diz respeito 'à Igreja como
tab; com efeito. a Igreja não se pode entender a si mesma
sem levar em conta o mistério de Israel.

Mesmo no plano ecumênico o conhecimento do judaIsmo


ê sIgnificativo 1. pois impele os cristãos a voltar às (<lntes e
às origens da sua fé. Que eertamente se insere nos livros da
Antiga Aliança. Ora ê voltando às suas ori~ens que os cris-
tãos podem esperar reconstituir a sua umdade em Cristo,
pedra angular.

Tendo. pois, em vista o valor do Documento em foco. o


seu aspecto de novidade autêntica e as possiveis aplicações
práticas que ele possa sugerir no Brasil, vamos abalxo ofe-
recer urna slntese e breve comentário dessa Instrução da
Santa Sé,

I Por "ecumenl$fTIo" entende-se G movimento de festauflçlo da uni·


dade entre crlstlol (CltÓ!Ic:OS. protestantes e o rlO<1o~osl ou entre oa lIéls
que aceltlm Jesus Cristo como Deus. Homem Salvldor. PtlT conseguinte.
o ecumenlsmtl estritamente entendido nlo ablilnge os Judeus, l$tO. porém.
nlo quer dIze r Que a Igreja n10 tenha Interessa mullo vivo em estabelece,
um dIalogo religlo$o ctlm os ludeus. os muçulmanos, OI budlste. e as
demais crenças ou filosofias da humanidade.

-332 -
CÁ TOLICOS E JUDEUS EM DLUDGO 5

1. ln_u~ão

O Documento comeca por colocar-se sobre o fundo de cena


de. Declaracão cNostra Aetate. do Conclllo do Vaticano D
(25/X/ 19651, a qual aborda as relações da Igreja com as rell·
giões não-crlstAs.

Essa Declaracão, que no seu n' 4 teve em conalderação


particular os judeus, foi concebida pelos Padres ConclUares
como tenno final de longos séculos de distAncia entre católicos
e israelitas: daria Início a uma era de diãlogo e conhecImento
reciproco entre aqueles e estes. Pois bem: nove anos após 8
Declaracão conciliar, a Santa Sé houve por bem pronunciar-se
de novo sobre o assunto, a fim de propor sugestões aptas a
favorecer mais e mais as experiências jA realizadas. O anti-
-semitismo é de todo inoompatfvel não só com a mentalidade
cristã, mas também, e antes do mais, com o respeito à cUg:n1-
dade humana. Aos católicos toca a tarefa de procurar conhe-
cer sempre melhor os traços fundamentais da tradição judaica,
pois «o Crlstianismo nasceu no judaísmo e deste recebeu ele-
mentos essenciais da sua fé e do seu culto:..

Em vista disto, a Santa Sé propõe algumas orientacões


em quatro setores; Diãlogo, Liturgia, Educação e Enslno, Ação
Social.

2. Diálogo In' 11
Até agora as .relações entre judeus e cristãos, quando exis-
tiram, consistiram mais em monólogo do que em diálogo.

O diálogo supõe o desejo de conhecimento mútuo cada


vez mais aprofundado. Ora é justamente esta uma das metas
prioritárias do contato entre judeus e cristãos. CondlçAo capi-
tal para o êxito do diálogo é o respeito mÍltuo dos Interlocuto-
res e das respectivas convicções religiosas.
O respeito assim concebido Implicará, para os fiéis cató--
1100$, Q necessidade de reconhecer a liberdade rellgiosa procla-
mada pelo Concilio do Vaticano II (Declaração «D1gnltatis
Humanae~) . Não há dúvida de que a Igreja deve, por encargo
divino (ao qual Ela jamais se poderá furtar), anunciar de
maneira lúcida e viva Jesus Cristo ao mundo; todavia Isto há
de se fazer de modo a evItar qualquer aparência de agressão
-333 -
6 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 188/ 1975

aos povos nlo católicos e, em especial, aos judeus. O arauto


de Jesus Cristo se lembrará de quanto é dlfIcil aos israelitas
- multo conscientes da transcendência de Deus - conceber o
mistério do Verbo Encarnado ou de Deus feito homem. Com
efeito, os israelitas, no decorrer dos séculos anteriores a Cristo,
foram exaltando sempre mais a sublimidade indizivel de Deus;
desejavam assim opor-se às grosseiras concepções que os pa-
gãos alimentavam a respeito de seus deuses, concebidos nAo
raro como grandéS homens. No limiar da era cristã, nem
ousavam pronunciar o santo nome de JBVirt a fim de não cor-
rer o risco de o profanar; compreende-se. pois, quanto lhes
podia parecer «escandalosa,. e. noeão de que Deus se manites-
tou na natureza humana do Senhor Jesus (cf. lCor 1,23) .
Em conseqüéncla ainda, os católicos se acautelarão con-
tra os resquiclos de suspeitas mútuas entre judeus e crlstAos,
que muito marcaram a. histórIa passada; litlgios em nome da
vertlade religiosa não têm justificativa nesta altura da hist6-
tia lD1lversal. A verdade do Evangelho que, sem dúvida, deve
ser apregoada com todo o empenho pelos fléis católicos, não
será abrilhantada, mas, ao contrãrl0, pode ser contratestemu-
nhada caso os seus arautos se dêem à polémica religiosa.
O diAlogo religioso poderá reallza.r-se em três diferentes
nlvels:
- colÓQuios fraternos entre católicos e judeus destitui·
dos de objeUv~ propriamente teolÓgicos;
- encontros entre peritos desejosos de estudar e apro-
fundar questões teológicas relacionadas com o judals mo e o
cristianismo. Esses encontros hão de decorrer em clima de
abertura e despojamento de preconceitos e prudência. a fim
de se evitar qualquer ferimento, ainda que involuntário. dos
interlocutores;
- reuniões de oração (desde que desejáveis pura ambas
as partes), em que dia nte de Deus os cspiritos C os corações
se abram e se aproximem. Poderão ser motivadas especial-
mente pelas grandes cauSQs. da humanidade, tais cOmo a jus·
tiça e a paz.
3. Ufurgia {n' 2'
A Liturgia cristã herdou do judaísmo alguns de seus ele·
mentos marcantes, inclusive o uso da Palavra de Deus e, de
modo especial, os salmos. Sejam recordadas outrossim as fes-
-334 -
CATÓLICOS E JUDEUS EM DIALOGO 7

tas de Páscoa e Pentecostes, às quaIs o Cristianismo deu um


sentidc novo e pleno.
Se o USO dos livros do Antigo Testamento é comum a
judeus e cristãos, vê-se que é multo lmportan~, para os crfs.
tãos, conhecer aquela parte da Escritura. principalmente os
textos e profecias que guardaram valor perene. Isto se torna
hoje e m dia assaz (ácJ] pelO fato de que a retonna Utúrglca
católica recorre freqUentemente ao Antigo TestamentD, pro-
pondo' reflexão dos cristãos, todos os domingos, as passagens
mais slgnlflcatJvas do mesmo. Compete aos comentadores dos
textos blbllcos mostrar a continuidade da fé cristã com a. An-
tiga Aliança e as promessas feitaS aos Patriarcas e reis de
Israel (embora o Cristianismo tenha trazido elementos novO!
e originais). Os cristãos, aliás, ainda esperam o pleno cumpri..
mento dessas promessas, Que se dará I,X)r ocasião da segunda
vinda de Cristo; é o que pennlte aos cristAos compreender mala
de perto as expectativas de Israel.
Merecem especial meneio as tradutões dos textos blbllCO!
do Novo Testamento. Verifica-se que certas passagens das
versões usuais podem ser entendidas de maneira tendenciosa
por cristãos mal informados. Em conseqllência, é para dese-
jar que essas passagens sejam devidamente explicitadas, de
acordo com os estudos dos exegetas e a fidelidade aos textos
originais (que náo é licito retocar). de modo a se evitar qual-
quer alusão desairosa aos judeus em geraI não contida nO
texto sagrado. 1: o qUê a~ontece por vezes no Evangelho
segundo SAo João; a f6nnula o:OS judeus:t por vezes ai designa
propriamente não o povo, mas os chefes. do povo cu os adver-
sários de Jesus (cf. Jo 7,1. 35; 8, 48. 52; 10, 31; 11, 8 •.• l.
A seguir, o Documento da Santa Sé traca normas aptas
a favorecer uma autêntlc::a catequese cató1ica, inspirada. por
perspectivas biblicas; pois que estas estão inseparavelmente
relacionadas com o judalsmo, torna-se necessArio pôr em evi-
dência Objetiva e serena esse relacionamento a fim de que nas
futuras gerações de cristãos não haja preconceitos indevidos
contra os israelitas, mas, antes, a estima decorrente de lúcida
compreensão do plano de Deus.

4. Educ.aSão e Ensino {n' 3'


A fim de suscitar sempre melhor compreensão do judalsmo
e do seu significado para os cristãos, torna-se oportuno levar
em conta os seguintes fetos:
-335 -
8 (PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 188/ 1975

1) O mesmo Deus falou aos homens através dos livros


da Antiga e da Nova Aliança; por conseguinte, judeus e cris·
tãos adoram o (mico e mesmo Deus, que se quis revelar pro-
gressivamente aos homens antes de Cristo e mediante a Pala·
vra de Cristo (cl. Consto (Dei Verbum:. 16).
2) O judaísmo dos tempos de Cristo e dos. ap6stodos era
uma realidade complexa, que compreendia um mundo de ten-
denclas, de valores espirituais, religiosos, sociais e culturais.
- Por conseguinte, devem·se evitar afirmacÕes generalizadas
a respeito dos judeus; nem sempre se pOdem atribuir ao povo
inteiro atitudes e comportamentos que se derivaram de uma
corrente apenas do judalsmo antigo.
~ notório, por exemplo, que Israel compreendia três prin-
cipaIs facções religiosas, que se comportavam diversamente no
tocante à política:
a) A mais numerosa era, sem dúvida, a dos Fa.rlseus,
herdeiros e continuadores da obra dos irmãos macabeus. Es--
tes no séc. TI a. C haviam defendido as tradições pátrias
(religiosas e nacionais) contra a perversão (helenização) que
os sírios lhes queriam Infligir. O zelo dos maeabeus pela Lei
de Moisés e as observâncias israelitas foí tão exagerado pelos
seus continuadores que estes foram designados como _Farl·
seus:. (separados) i apegavam·se à letra da Lei e ao forma·
Iismo legalista, a ponto de se 1ulgarem os únicos puros e
santos, separados dos demais homens (mesmo israelitas) por
sua d mpecáveb conduta. Os Fariseus constituiam o partido
mais numeroso e popular_
b) OS Saduccus se dístingulam por sua mentalidade Jibe-
cal, aberta ao pensamento helerústa ; não acreditavam na res-
surreição dos mortos nem na existência de anjos. Represen-
tavam uma elitc.
c) Os F.&sênJos se originaram em fins do séc. II a. C.
- Nessa época os dirigentes civis e religiosos de Israel se per-
vertiam, adotando mal:) e mais costumes helenistas. Os mo-
narcas de JUdá, semidependentes dos estrangeiros, comprnvam
destes o titulo de _Sumo Sacerdote>; cediam assim à ambição
e conculcavam a tradição segundo a qual a monarquia com-
petia à tribo de Judú e o sacerdócio à de Le....i. Esta situação
provocou em multas judeus piedosos a aversão às instituições
sacerdotais e civis de Israel; em conseqüência rctlnu·nm-sc
para os desertOs de Judá c da Síria, vivendo em comunidades
- 336-
.t ............. , -

.() u~ B\ l, ;~ 1i", ;';,-..&ATÓLICOS E JUDEUS EM DIALOGO


,~'L~' ~ ... ". j
9
\ ~ ;;.-
l ~ ~ . e -orBCão, na expectativa ardente da próxima vinda
""ãi, "MessIÍlS; este poria fim il. InlqUldade existente em Israel e
no mundo. Julga-se que eram essênios os habitantes da região
de Qumran, cu10s manuscritos foram encontrados em 1948,
constituindo precioso tesouro para o estudo critico do texto
blbllco.
Entre os essênios se cultivava a vida una, celibatária. que
era por eles estimada, ao cont:.rário do que se dera na tradi·
cão de Israel desde os tempos de Abraão (séc. XIX a.C.), Os
essênlos nutrJam, pois, uma e.spiritualldade multo diversa 'd a
dos fitriseus e saduceusj pareciam ter a intuição de certos
valores que os primeiros arautos do Cristianismo haveriam
de apregoar em altos termos (a iminência da vinda do Messias
e a necessidade de se preparar ardorosamente para o receber
em pureza de vida).
3) Em vista da complexidade de correntes e atitudes do
judaismo tulterior a Cristo, 'O Concllio do Vaticano n lembrou
que a condenação de Cdsto li. morte não pode ser atribulda
indisUntamente a todos os judeus que viviam nos tempos de
Jesus, como também não há de ser imputada aos judeus dos
tempos posteriores e atuais (Decl. «Nostra Aetate. 4). Isto
significa que náo se deve qualificat de deicida o povo de
Israel.
4) Não se estabeleça entre o Antigo e o Novo Testa-
mento uma distinção de antltese, como se na Antiga AUança
só houvesse temor, legalismo e justiça, sem incentivos ao amor
de Deus e do próximo. - Na verdade, encontram·se nas pági-
nas do Antigo Testamento belas renexões sobre esse tema,
pâginas às quais o própdo Jesus aludiu, mostrando que toda
a Lei de Moisés tendia ao duplo preceito do amor (cf. Dt 6,1·25;
Lv 19,16-18; Mt 22,34-40; GI 5,13s)" Certos salmos são tam-
bém ardentes cantos de amor a Deus, redigidos, sem dúvida,
na linguagem concreta dos semitas; cf. SI 62; 41; 83 . .. Aliás,
a Antiga Aliança é multas vezes ngurada pela allanca nupcial,
na qual Deus faz as vezes de esposo e Israel as de esposa ;
donde se vê que o principio íntimo das disposições sancionadas
por Javé a respeito de Israel era o amor, que tendia a suscitar
amor, embora ainda em termos esquemáticos e rudimentares.
Cf. Is 62,1-5; Jr 3,1-5; Ez 16,H3; Os 1-3.
5) Jesus, os apóstolos e grande número de discípulos
erum filhos do povo de Israel. Embora Jesus trouxesse um
- 337 -
10 (PERCUNTE E RESPONDEREMOS, 188/ 1975

ensinamento profundamente novo, Ele quis multas vezes


apoiá-lo sobre lInhas doutrinárias do Antigo Testamento; na
realidade, Jesus se apresentou como o Messias prometido pelos
Profetas e destinado a levar a termo ou à plenitude a Reve-
lação do Antigo Testamento. Note-se outrossim que Cristo
recorreu aos métodos de ensin'O usuais entre os rabinos do seu
tempo, como as parábolas (cf. Mt 13; Me 4) e a exegese Jlvre
de textos bibUcos (cf. Mt 22, 315. 41-46; 12,38-42).

6) A história do judaisrno não terminou com a destrui-


ção de Jerusalém, mas prolonga·se até hOje numa tradição
religiosa que, embora um tanto diferente da tradição anteri'Or
a Cristo, não deixa de ser rica em valores religiosos.
A guisa de comentário, pode-se observar o seguinte: o
povo de Israel é hoje em dia um dos sinais mais eloqüentes da
Revelação que Deus fez de si aOS homens. Com ercito, o surto
de Israel, povo monoteista em meio aos grandes impérios pa-
gãos da Assirla, da Babilônia, do Egito . . . ~ inexplicável. Sim;
pergunta-se: de quem aprendeu t'SSe povo uma tIIosofin reli-
giosa e uma fé tão elevadas? Esta pergunta se torna especial-
mente justificada se se leva em conta que Israel era Inferior
aos povos vizinhos em questões militares, industriais, comer-
ciais, cientificas, etc. - Note-se ulnda: o mon'Oteísmo de Israel
fol mantido durante seus dezenove séculos de história até
Cdsto, embora o povo de Israel tenha sido freqüentemente
tentado a adotar as crenças polltelstas dos povos vizinhos.
Donde n indaga Cão se põe: quem terá sustentado a fé mono-
telsta de Israel à revelia das s~ucOes que este povo experi·
rnentou? Estas interrogações ficam sem resposta caso não se
queira admitir que o próprio Senhor Deus é o autor e susten-
táculo da crença religiosa de Israel ~ só a Intervenção direta e
extraordlnãria de Deus explica o fenômeno religioso judaico
anterior a Cristo.
o mesmo se diga no tocante à história de Israel depois
de Crls~o . Em 70 Jerusalém foi tomada pelos romanos, e os
judeus tiveram Que se dispersar pela Europa, o norte da Arri-
ca, a Asla e a América, vivendo de então por diante sempre
em melo a estrangelrosj 'Ora é estranho que esse povo. sem
pátria, não tenha sido absorvido por outros povos, como, aliAs.
aconteceu com os QSs:rios, babilônios, lenlcios. tirios, etc. Quem
manteve Incólume ulé hoje a consciência da Identidade de
Israel no cenárIo dos demais povos? Não se pode entender
adequadamente este fenômeno caso n:lo se admita a extraor-
-338 -
CATOLICOS E JUDEUS EM DLUDGO 11

dinárla Intervencão de Deus, que assim sustenta Israel para


que este um dia reconheça o Messias e entre no Reino do
rneSJll{); como ensina São Paulo, Israel ainda tem uma m1ssão
religiosa a cwnprir, ou seja, deve dar testemunho explicito
ao Cristo Jesus; antes disto, o mundo não acabam (cf. Rm lI,
25-32).
Quem considera estes diversos aspectos da hirtórla de
Israel, não pode deixar de julgli-Ia altamente significativa;
é um dos mais eloqüentes indlcios da autenticidade da Reve-
Jacão iniciada por Deus em Israel e levada à plenitude em
Cristo Jesus.
7) Com os Profetas e o apóstolo São Paulo. a Igreja
espera o dia. conhecido por Deus s6. em que os povos todOll
invocarão o Senhor unanimemente e Lhe servlrio lado a. lado
(cf. Sf 3,9). Esse dia será, como se crê, o dia em que Israel
reconhecerá o Messias ou Salvador oriundo da Casa de Davi
há quase vinte séculos.
Após enumerar estes sete importantes pontos de lndole
catequética e doutrinária, o Documento da Santa Sé pede
sejam levados em oonsidera.;ão tanto nos manuais de cate-
quese COmO nos livros de história e nos programas de rãdlo,
imprensa, televlsAo, cinema, etc. Sejam preparados Catequis-
tas. professores e educadores que possam pautar seus ensina-
mentos por tais concepções. Os especialistas e estudiosos de
alto nivel (exegese, teologia, histórIa, sociologia . . . ) esfor-
cem-se por aprofundar a pesquisa a respeito dos mencionados
pontos; onde for posslvel, criar·se-io câtedras de estudos ju-
daicos e lncentlvar~á a colaboração 'de pesquisadores judeus
e peritos cristãos.
Reste. ainda um item a considerar :

S. AçÓG Social (n' 4)


Judeus e cristãos têm a consclênda. viva da dignidade da
pessoa humana, freqüentemente incutida pelas Escrituras Sa-
gradas desde a sua primeira página, onde se lê que Deus fez.
o homem >à. sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,28). O amor
ao mesmo Deus deve traduzir-se em ação eficaz em prol dos
homens. Ação eficaz que terá, entre os seus objetivos princi·
pais, 8 justiça social e a paz, desde o nível local até o plano
internacional.
-339 -
12 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 188/ 1975

Através da colaboração nestes setores é de crer que sejam


fomentados o conhecimento e a estima reciprocas entre judeus
e cristãos.
A guisa de comentário ao texto da Santa Sé, acrescen-
tamos:

Tal tipo de colaboração já se tem dado - e com freqUên-


eia crescente - entre católicos e protestantes. Por si não
afeta as verdades da fê nem implica relativismo religioso, desde
que a colaboração vise estritamente à promoção dos valores
humanos que os cristãos estimam Igualmente. - A mesma
cooperação veriticou·sc, em esca1a menor, entre católicos, pro-
testantes e judeus no pertodo do nacional-soclaUsmo (1933"-
-1945) ; v:timas da mesma sanha perseguidora, cristãos e ju-
deus se aproximaram e solidarizaram entre si sob vários as-
pectos tanto nos campos de concentração como em outros
ambientes; não poucas instituições católicas interessaram·se
vivamente por minorar o sofrimento dos judeus e livrá-los do
perseguidor.

6. Conclusão
1. A Instrução da Santa Sê encerra-se lembrando que,
embora algo já tenha sido feito, ainda há longo caminho a per·
correr a fim de promover a fraternidade entre judeus e cristãos.
Esta tarefa interessa não SÓ a determinados grupos de católicos
que, a titulo particular, se queiram eproximar dos judeus, mas
interessa à Igreja Católica como tal, pois está intimamente
associada ao mistério da Igreja ou ao plano Que Deus conce-
beu desde toda a eternidade para salvar os homens.

Conscientes disto, os Srs. Bispos procurarão tomnr as ini·


cintivas pasto!'ais convenientes, dentro das normas do ensina-
mento e ela disciplina da I greja. Muito oportuna pa.l'ecc a crjn-
Cão dt> comissões nacionais ou regionais, destinadas a promover
o diálogo com o judalsmo, ou, em outra hipótese, a nomeação
de pessoa competente que no pais ou na região respectiva se
encarregue de pôr em prâtlca as dlretrlzl$ do Concilio do Vati-
cano II e as sugestões do novo documento de Roma concer-
nentes à aproximação dos judeus. No âmbito da Igreja uni·
versal estas funçõcs são preenchidas pela comissão destinada
a cultivar as relações l'eJigiosas com os judeus insUtuida por
Paulo VI aos 22!XI/ 74.
- 340-
CATóLICOS E JUDEUS EM DIALOGO 13

Em suma, a nova Instrução da Santa Sé referente aos


judeus constitui maJs um dos sinais da renovaçAo da Igreja,
que dilata cada vez mals os seus horizontes a fim de abranger
todos os novos desafios que os tempos lhe ()ferecem, e procura
encaminhar a solução respectiva. Uma boa formação bibliea e
doutrinária há de levar os fiéis católicos a reconhecer o valor
do diálogo entre judeus e cristãos e a assumir a parte de cola~
boração que a cada um possa tocar, dentro das sugestões pro-
postas no Documento que acabamos de analisar.
2. Vale a pena ainda salientar que, segundo a Imprensa,
o Comitê Judeu Internacional para Consultes Interreligiosas se
pronunciou a respeito do reierido documento do Vaticano, sa-
lientando como altamente positivo o convite a uma aeão social
de colaboração entre judeus e cristãos. O mesmo, porém, julga
que a oração comum mencionada nO documento, embora para
os católicos possa ser licita, para alguns setores da comunidade
judaica Wvez seja Inaceitável! Cf.• 0 Globo, 4/ 1/75. - Com-
preendenamos esta repulsa caso tal oração comum significasse
relativismo reUgioso e perda da Identidade de judeus e cristãos.
Em caso contrário, a repulsa não é compreensivel a um católico.
Alguns comentárIos da Imprensa Israelense observaram que
o Documento não faz alusão «ao vinculo que une o povo juCleu
li. sua terra ~ , e não meneiema. ca existência do Estado de IsraeJ~.
- Tal omissão foi, sem duvida, consciente e voluntária; à Santa
Sé interessa distinguir estritamente a face religiosa e o aspecto
polltico do judaIsmo, rim de encarar apenas aquela; o aspecto
polltlco da questão pode interessar à Teologia, mas, delicado
como é. mereceria ser tratado em documento à parte.

APrNDICE
E NO BRAS[L!

No Brasil as relações entre judeus e cristãos têm sido aJnis..


tosas e sinceras, che~ando mesmo 'ã constituição de Conselhos
de Fraternidade em São Paulo e no Rio de Janeiro.
1. &ri Sio PnuJo, o diálogo entre cristãos e judeus come-
çou a propôsito da proclamação e da defesa dos direitos huma-
nos; precisamente naquela cidade encontram-se não poucas vi"ti·
mas da perseguição anti-semita. Em 1962, após conversações
amigas, que visavam antes do mais à união dos caratões, foi
oficialmente fundado o Conselho de Fraternidade Crlstão~Ju-
-341-
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 188/1975

daica (CFCJ) de São Paulo (SP). Este não é urna associacão


reUgtosa, nem é organização politlca, mas, sim. uma entidade
de pessoas que desejam conjuntamente levar adiante no mundo
de hoje as exigências da convivência humana na justiça e na paz.
Do Conselho fazem parte judeus e cristãos, tanto católicos
como protestantes (estes. em número relativamente pequeno).
Os cristãos orientais ortodoxos foram convidados a participar
do Conselho; aceitaram a feliz Iniciativa, mas ainda não cola-
boram eficazmente para a vida do Conselho.

O denominador comum dos membros da Fraternidade é.


em primeira instância, o cultivo da justiça social, sem caráter
°
sectârio ou agressivo. Isto quer dizer que Conselho procura
esclarecer a opinião pública sobre os direitos humanos e aponta
a esta qualquer violação dos mesmos.

No tocante à religião, os membros da Fraternidade pro-


fessam o respeito às crenças uns dos outros e evitam qualquer
iniciativa, proselitlsta. Pertence mesmo ao programa da Frater-
nidade exortar judeus c cristãos a que aprofundem a sua fé
com sinceridade; unindo-se em Deus, cristãos e israelitas, unir-
-se-ão entre si não somente no amor, mas também na verdade.
Donde se vê também que são contrários ao esplrito da Frater-
nidade qualquer forma de relativismo ou de Indiferentismo re-
ligioso, como também qualquer tipo de sincretismo e ecleticismo
religioso. 1!; cultivando a pureza da própria fé com fervor e
lealdade absoluta que cristãos e judeus desejam encontrar--se
na presenca de Deus. Ele realizani seus desígnios sobre aqueles
que se lhe oferecem de coração sincero.
Os empreendimentos do Conselho de Fraternidade Cristão--
-Judaica têm sido vários e fecundos. Entre outros contam-se
- semanas de estudos para sacerdotes, Religiosas, leigos
e leigas:
- encontros de amizade e estudos em casas de farnilla,
onde se lê a B!blla C se promove o diálogo teológico, quando
oportuno. Tem sido focalizada especialmente a questão dos ca-
samen tos mistos entre judeus e cristãos - realidade cada vez
mais vultosa, embora nem sempre desejável;
, - dlvulgacão de notícias do próprio Conselho ou do rela·
clonamento entre judeus e cristãos no mundo - o que se faz
- 342-
CATOLICOS E JUDEUS EM DULOGO 15

principalmente mediante a revista «Encontro. Que o CFCJ


vem publicando regu.lannente. AJJ cotldas também !io editadas
através dos órgãos da imprensa de São Paulo, entre os quais
se destaca o semanário católico cO São Paulo • .

ExJstem igualmente estudos monogrâfieos publicados por


membros do CFCJ como resultados da aproximaçlo mútua.
Muito Interessantes são as obras de colaboracão do Pe. Hum-
berto Porto. do Or. Hugo SchIosInger (israelita) intituladas
«Os Papas e os judeus. (ed. Vozes 1973) e «Anatomia do Antl-
-semitismo. (Livraria Teixeira, São Paulo 1975).

O Conselho tem procurado outrossim manter boas relações


com as autoridades religiosas e civis do Brasil. Tem recebido o
apoio do Sr. Núncio ApostôUoo, do Cardeal D. Paulo Evarlsto
Aros de São Paulo, da Conferência Nacional dos Bispos, assim
como da Câmara Municipal de São Paulo e do Rotary Club.
Desta forma o Conselho de Fraternidade Cristão-Judaica
de São Paulo deve ser enumerado entre as mais notáveis ex:pres--
sOes que no mundo Inteiro existam de bom relacionamento entre
cristãos e judeus. A Secretaria da entidade atende a pedidos de
lrúormaçôes. documentos e publicações. tendo sede à Rua Mar-
tim Francisco, 748/ 1, Vlla Buarque, 01226 São Paulo (SP) ;
tel. : 52-5863.

o mesmo Conselho tende a se expandir para Porto Alegre,


Recife e Belo Horizonte, sendo especialmente beneméritas nesse
setor as Irmãs da Congregacão de Notre-Dame de 810n.
2. No Rio de Janeiro, existe desde 1963 a Fraternidade
Judeo-Cristã, que em seus primeiros meses de existência. rea-
lizou encontros e estudos de certo valor, mas entrou em recesso.
Deverá ser reavivada em breve, pois o clima para tanto é assaz
propicio na antiga Guanabara.

-343 -
Grande qUlstlo:

neurose e santidade se conjugam ?

Em Ilnl _ : Os conceitos de ..ucfe ., doe~ ,lo assaz ",Ia'!vot,


pois I maioria dos homens 6 portadora de alguma deficiência IIllel ou
p"qulca, qua, segundo os "peclallslls, a,16 conlldl dentro da faixa da
'·normaUdade". A cl6$$lc. dl,lInçAo enlra doe nças flslC85 8 doe nças psl-
quicas marece aer manUd.; conludo nlo ae deve esquecar que aI mo"s-
lias alo treqüenlemente pslcouom61Ic.s; muitas vezes as ralza, de deler-
minado mil fl.,co e.tlo em trauma! palqulcos.
Excluldos os casos di mol""I' que tirem por completo I con.-
ciência e a rllponsabllldade do paclenle respecUvo, pode-se dizer que
nenhum .,tado patológico é empecilho decisivo para que o cllstAo chegue
• santidade ou AI plena conlormaçlo com o Cristo Jesus_ Em abono desla
al/rmaçio, aponlam-s. numerosos casos da sanlo, que, à revelia das suas
dlsposlç~es pslcol6glcas, se tomeram ardentes no amOr a Deus ti ao pró-
ximo. O .egrldo dlSle 18aultado conslate em qua
1) tal, passoas nlo 5a complelCaram peta fato de serem IIml1adas:
2' nlo uptraram ao ImpOllslvel, mas aceitaram com humildade a
lua natureza como .r.; Im vez da se revoltarem contra a sua faalldade
pessoal. abraçaram-na aMoro,amente como uma cruz salula,.
Os aantos Unham conscl4ncla de que nlo é o homem IÓ, por lUIS
próprias forças, que ae lanllnca, mu 6 a graça de Deus que santifica
aqueles que lia lha oferecem com um eoraçio da pecador contrito e
humilde. Por conseguinte, consclenl" disto, nao d elxaram de recomeçar,
sempre que tomaram conscl'ncla de suas lalha, e IImitaçoas.
~ esta uma das grandes Ilçõas que 0& lentos deixaram a lodos os
homens, mesmo *quelal que nlo compartilham a mesma fé.

• • •
Comentârio: Todo homem que penetre 'd entro de si mesmo,
ver1Clca o mistério da sua personalidade: dotada de nobres aspi.
racões, nem sempre consegue ser coerente consigo mesma e pôr
em prática o que almeja. Esta contradição nem sempre se deve
apenas à covardia e à tlblêU da pessoa; parece motivada não
raro também por obstáculos de temperamento congênitos ou
por desequllibrlos psiqulcos, que irrompem na conduta do Indi-
vJduo, antedpanclo-se às acóes conscientes e dellberaclas do
mesmo.

-344 -
NEUROSE E SANTIDADE 17

Em nossos dias mais do que nunca sã.o freqUentes as


doenças nervosas ou, 80 menos. a intranqlli1idade psiquica
devida 'à trepidação da vida contemporânea. Multas pessoas
dJzem ressentir-se de algum trauma que padeceram durante a
ln!ãncla ou a educação. Dal se origina com freqUêncla a ques.-
tão: poderão as pessoas pslqwcamente afetadas aspirar à san-
tidade, realizando o ideal a que se sabem chamadas pelo pró-
prio Deus? Poderão sair da mediocridade a que julgam estar
condenadas, à reveUa sua. e a.pesar dos seus anseiOs mal!: legl-
timos?
1'; para estas questões que as páginas seguintes se volta-
rão, analisando os conceItos de saúde, doença em gera1, neu-
rose e santificação.

1. Saúde e doença em geral


Não é fâcll expllcltar o que comumente se entende por
«saude, e (doença:t. Como quer que seja, torna-se Indispen-
sável tentá-lo.

I .I• Saúdo

A Organização Mundial da Saúde descreve esta última


como sendo «o estado de perfeIto bem-estar corporal, espiri-
tual e social». Esta conceItuação, falando de cperfelto bem-
-estar:t, é mais teórica do que correspondente à realidade;
serve como ponto de referencia Ideal; na prática. mesmo as
pessoas csadiasl'.l muitas vezes sofrem de elguma perturbação
física ou pslQuIca, Que todavia não ch~a a impedir um rela~
tivo bem-estar.

Observe-se que não se pode entender a saúde apenas em


função do metabolismo corpóreo ou biológico da pessoa; é
necessário levar em conta o ser humano em todas as suas face-
tas, das quais algumas são psiquicas e espirituais. Por isto a
noção de saúde exige harmonia entre todas as virtualldades
existentes no ser humano; donde se pode também dizer Que
saúde é cO mais perfei ta espiritualização do carnal e a mais
profunda encarnação do êSplrltuo.1:t. Fa.2endo ~ a este con-
ceito, o Papa Pio xn dizia: cA Igreja, longe de considerar 8
saúde como objeto de ordem exclusivamente biológica, subll-
-345 -
18 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS, 188/1975

nhou sempre B importância das forcas .religiosas e morais


para mantê-la~ (REB, vol. 9, dez. 1949, p. 767).
Com outras palavras, deve-se dizer: €I. saúde da pessoa
depende grandemente das suas disposições psiquicas; é um
estado psJcossomãtico. Nos últimos decênios verificou·se expe-
rimentalmente que até a saúde dos animais irracionais é psl.
cossomá.tlca; também o animal pode adoecer corporalmente
por motivos decorrentes do seu psiquismo (prisão, soUdão,
escuridão . . . ) . Quanto ao ser humano, sabe-se Que as suas
disposições psiq uicas estão muitas vezes em função das res·
pectivas condições sociaIs ou do ambiente: monotonia, isola·
mento, desespero ou falta de perspectivas favorãveis deprl·
mem fortemente a pessoa, ao passo que o êxito social ou pro-
fissional e a esperança levantam as faculdades pslquicas. t:
em vista destes fenômenos que se fala de doenças sócio·somá,..
tica.s õ as neuroses e psicoses estão freqUentemente associadas
às condlcÕes de vida social do paciente.

1 . 2. A doensa
Pode-se descrever a doença como um mal que afeta o
equlllbrio psicossomático do paciente e ameaça destruir o
organismo do mesmo. Como o nome o diz, a doença geral·
mente se caracteriza por dores, que não são apenas corporais,
mas também psiquicas: receio de um desenlace próximo e
angustiante, consciência de depender dos serviços e préstimos
de outras pessoas, sentimento de inutilidade, fracasso. Em
Suma, o doente é um cpaclente:. (do verbo latino lJati, sofrer).
Embora o ser humano seia uma unidade resultante de
corpo e alma, costuma-se falar (e com razão) de doenças llSÍ·
quicas e de moléstias corporais ou físicas, Aquelas afetam os
sentimentos, a memória, a fa ntasia e todo o domin lo do incons-
ciente, ao passo que estas dizem respeito aos órgãos e às fun·
ções orgãnicas do paciente. Esta habitual distinção dos tipos
de moléstias toma·se relativa, desde que se leve em conta o
influxo mútuo do fisico e do psiquico e a unidade real do
paciente. :t o Que Caz que tanto a saúde como a doença
tenham as dimensões do homem todo. Cada doença tem to.m·
bem seu caráter pessoal; é a doença «deste paciente:. ; por
isto se diz que não há doenças, mas doentes.
A propósito vêm as palavras do Dr. Viktor von Wciz·
saecker:
-346 -
NEUROSE E SANTIDADE 19

" Em conslder6.,,11 número de doer.ç8e, como, por exemplo, perturb.


96es clrculalÓlles ou dlgestlv.. , manll•• ta·" evidente retaçlo com cri...
afeUvas e mOlal. " ("0IeuII15 und Jenselts der Medlzln". Sluttglrt p. 10.).

liA doença se nos Imp6e como uma censure conlra I. nossa alual
vida humana 1 soclll I nadl mal. nos re,la .enlo ,nclt'·le como ume
pedra ele toque da conduta I do comportamento humlno" (Ib.).

Merecem especial atenção as neuroses. "Por neurose


entende--se o esCcrtO mal sucedido para vencer uma dilicul·
dade da vida. A neurose resulta de má elaboração de uma
experiência~ (H. Thw'n, cPsychohygieneit. em cSt1mmen der
Zelb 148 [1951) , p. 278). Carl Jung diz que cem última
análise a psiconeurose é o tormento de wna alma que nio
encontrou o sentido de sua existência. (citado em cAnlma.
5 [1950] p.23). A neurose parece surgir em função de uma
consciência contrariada ou do mal-estar de consciência de
alguém Que se reconh~e incapaz de aceitar ou suportar uma
perda, um fracasso, uma dificuldade da vida... Tal pessoa
facilmente cai doente no plano psicosscrnátioo.
De modo geral, a enfermidade náo deve ser considerada
algo de estranho na vida de alguém; ela pode fazer parte da
realidade mesma do homem que se sinta mais realizado. Em
muitos casos, ela é uma etapa para a consumação da perso-
nalidade, e concorre positivamente para que esta se torne
grande e santa. Donde as palavras do Dr. V. von Weiz·
saecker:
" De mtUrma Importanclo é compreender que Q aparecimento e o d8-
senvolvlmento da doença no homem &ao modatldades da exIstêncIa humlna;
o homem nlo apenas lem a doença, mas deu-lhe origem e a doença tem
a lgo que '191" com R sua tealldade e a Bua 8ll1ltêncla" {Ib. p. 651.

Importa-nos agora Indagar: pode uma pessoa vítima de


estado psicopatológico aspirar à. santidade e tornar-se real·
mente santa?

2. Saúde mental e santifica~õo

Antes de abordannos a questão em si, Impõem·se duas


observações:
1) Por SlUltulcncão entendemos o processo de adesão
crescente à vontade de Deus, em virtude do qual a pessoa é
cada vez mais penetrada pelo amor do Senhor e vive mais e
-347 -
20 crPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 188/1975

mais desse amor. Tal processo não tnclui necessariamente


fenômenos extraordinârlos, mas pode desenrolar·se discreta·
mente no Intimo e no comportamento da pessoa. l!: preciso
notar enfaticamente que todos os cristãos são chamados à
santidade, embora cada qual tenha sua vocação própria na
vida presente: através do ceUbato ou do casamento, mediante
as mais diversas proCissões e atividades, Deus Pai quer que
todos se cncamlnhem para a mesma meta que é a perfeição
cristã ou a santidade.

2) Compreende-se que uma pessoa afetada de moléstia


preponderantemente fIslca possa gozar de lucidez mental e,
conseqüentemente, dizer um Sim generoso ao Senhor Deus;
santificar-se--é. através da doença mesma, - Compreende-se,
porém, que se !pergunte se um paciente afetado de desequlll-
brio nervoso ou de neurose pode também santificar-se; as per-
t urbações pslquicas não tomar iam a pessoa condenada à me-
diocridade e ao desatino de comportamento? Não a Impedi-
riam de amar rea lmente a Deus e ao próximo?

EstA claro que não vêm ao caso os pacientes cujos distúr-


bios são tão graves e continuos que se tornem habitualmente
irresponsáveis.
Consideremos agora a questão proposta:

2 . 1. A re$~olta dOI fotos

A história apon ta numerosos casos de pessoas que, em·


bora tenham t!ncontrado em si sérios obstáculos psicológicos,
chegaram à. santidade ou à plena reaUzação de si mesmas.
Sejam enunciadas ns seguintes ocorrências:

São Pedro Dn.mUio (1006-1072) era originário de famillo


tão numerosa Que sua mãe, cansada de criar tantos filhos,
rejeitou o meninoj este teria morrido se uma ama não o
tivesse recolhido. A rejeição afetiva continuou durante toda
a infância do menino, pois Pedro sofreu os maus tratos de
um irmâo mais velho. Ora o jovem tornou-se agressivo, mas
soube orientar a sua agresslvldade em direção construtiva ou
a. serviço do Reino de Deus; COm efeito, como monge e bispo,
pôs·se a combater os erros doutrinários e morais que assola-
vam a sua época; tornou-se intrépido arauto da boa causa.
-348 -
NEUROSE E SANTIDADE 21

NO exerclcio d@SSa tarefa, deve ter causado sofrimento a si


mesmo e outras pessoas, mas soube colocar o seu ministério
sob o signo do zelo puro pellJ. verdade e pelo bem.

S. Luis Bertrando (t 1581), domlnicano, sofria de tem·


peramento depressivo. Diz o seu biógrafo Schiamonl:
NA sua alma acnav. ... lIempre numa eterna agonia . .. 'Juntos com..

Essa lei.,.
mos e conversamos: todavIa nlo ser S8 nlo .stou alemamenca condenado'.
o alormenlav. em sonhos e repetidamente 8YOCeva as palavras
da Jó : 'No horror de uma vllllo noturna. quando o sono costuma apoda-
rar..e dos homenll, assalteram·me o m-edo e o tremor, -e lodoe os meus
osses esrremeceram' (JO 4.138)".
Embora Casse assim acometido pelo pavor da perda eterna.
esse homem perseverava na procura de Deus e na prática do
bem, tornando-se reconhecidamente um herói na fidelidade aos
planos do Senhor.
Sio l\lartinho de LIma (t 1639) foi alguém Que enfren-
tou os mais ponderosos obstáculos a um equllibIio psiqulco
normal. Era tUho natural de um fidalgo espanhol, que se
uniu a uma escrava negra Jiberta; o pai não o reconheceu
como filho por causa da cor de sua pele. A mãe do menino
ganhava a vida como lavadeira. Aos oito anos de idade, foi
retirado do convivio materno pelo pai, que tencionava dar-lhe
educação. Todavia dois anOs mais tarde foi devolvido ao am·
biente materno. Aprendeu o oficio de barbeiro. Aos quinze
anos, entrou no convento dominicano de Lima. Todavia os
Superiores não lhe permitiram estudar porque naquela época
não se entendia que um jovem de cor pudesse ter 8teSSO aos
estudos. Feito irmão leigo, Martlnho trabalhou nas mais hu·
mUdes funções, servindo a Deus e aos irmãos com a mAxima
caridade; mareado por tantas rejeições, não se fechou em sl
nem se comp1exou, mas entregou-se generosamente aos sinais
de Deus e tornou-se um santo heróico.
Merece atenção também o caso de loharmes Heinrlcb
PostalozzJ (1746-1827), cujo nome caracteriza sociedades edu-
caUvas dedicadas a crianças excepcionais. Do ponto de vista
psicológico, era multo marcado, pois sofria da dncapacidade
de coexistência_; além do que, tinha um físico de impressio-
nante feiúra. Tornou-se um desajustado no seu ambiente
social. Em conseqüência, foi vitima de malogros diversos tanto
em seus empreendimentos publicos como no âmbito particular;
o seu próprio casamento se desfez. Era considerado por mui·
-349 -
22 ot: PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 188/1915

tos contemporAneos como semi-idiota. Não obstante, esse ho-


mem, fjsica e psiquicamente desfavorecido, tinha um coração
enonne, que ele quis aplicar ao cultivo do amor na educação.
São palavras suas: «Não quero outra coisa senão imolar meu
coração ao mundo e formar homens que procurem justamente
isso e nada mals ~ (citado por W. Nigg, «Der christliche Narr~
1956. p. 344). Atualmente o nome de Pestalozzi é o de um
dos grandes benfeitores da humanidade, símbolo de valores
universalmente reconhecidos. Todavia poucos dos que hoje lhe
prestam homenagam, sabem quanto n vida foi dificil e ator·
mentada para esse homem.
Poder·se-Iam mUltiplicar exemplos de pessoas que, à reve-
lia do que indicavam as suas caracterlsticas psicológicas, se
tornaram grandes benfeitores e modelos da humanidade. :E::
o que leva D. Valfredo Tepe a dizer:

"Santos trlstu e benleltores da Humnnldo.de desequilibrados obrlg am-


·nos a usar com cHuleia os concenos de 'normalidade' e 'saude menlal'.
A sollde, mesmo a saúde mental, nlo é o supremo valor do homom. Muitas
grandes ,eatizaç6es da humanidade devam·se a Individuo, que, no escru-
IInlo dos tesle, psiCOlógicos e de él'llrevlstaa clinicas, lerl3m sido desclas-
sificados ou marcados com o rótulo! ·deaaJuatadOs.'" ("Prazor ou arnor?"
p.3&3).

Perguntamo-nos agora: qual o segredo da realização hu-


mana e cristã das pessoas psiquicamente marcadas?

2 .2 . Os porquês

Enunciaremos alguns tópicos importantes à guisa de res-


posta à qu~t.ão acima.

2 .2 . 1. At.ltaf-H MI'I'I tomplaxo,

Os santos não se deixaram complexar pelos traumas que


sofreram, ou pelas lImitações que descobriram em si mesmos.
Aceitaram-se como eram. Isto quer diur: aceitaram suas
deficiências temperamentais congênitas, mas não aceitaram o
pecado. Olharam mais para Deus do que para si própriOS.
sabendo que o Senhor a ninguém chamou para a mediocri-
dade. mas, sim, a todos chama pare. a perfeição e a santi-
dade; além disto, Ele não deixa de dar a cada criatura a
graça necessária para que atinja essa meta ou a santidade.
-350 -
NEUROSE E SANTIDADE 23

2 .2.2 . Humlldad.

A atitude acima descrita requer humildade. Observa


S. Agostinho Que, quanto mais elevada hâ de ser uma cons-
trução, tanto mais fundo se deve cavar para lançar alicerces
seguros. Ora, paralelamente (dizem os mestres), quando Deus
chama alguém a elevados cumes de santidade, aluda essa. pes-
soa e. se alicerçar na humildade; as angústias de uma neu-
rose, a perccpeão das próprias deficiências, os desajustes emo-
cionais podem vir a ser, no plano de Deus, os meios dos quais
a Providénclll se serve para excitar a humildade do paciente.
Este, ao verificar suas JimitaCÕ6, pode talvez começar B
duvidar de suas capacidades, sentindo-se inseguro, juJgando-se
Inútil ou pior do que os outros homens. Em vez de se deixar
magoar ou «melindrar» por este estado de coisas, o santo o
reconhece e se oferece ao Senhor Deus, pedlndo-Lhe, com
mais convicção de que nunca, faça Ele o que 8 própria cria-
tura não consegue fazer: purlflque-o, santlfique-o, ajudando-o
a superar 8S más inclinações e praticar o amor. Deus pode-se
servir das moléstias para levar uma crIatura a heróica santi-
dade. O servo de Deus lutará incessantemente contra o desâ-
nimo e o amor próprio magoado; b'!rá por Ve2es que renun-
ciar a ver os frutos dessa luta, mas nem por isto desistirá da
mesma.

Em suma, o cristão sabe que não é ele mesmo que, por


suas capacidades pessoais, se santifica 1, mas é a graça de
Deus que o c<lnverte e transfigura - graça. que é dada gracio-
samente na medida em que o cristão se dispõe a recebê-la
com humildade.
Acontece às vezes que é justamente quando a pessoa se
dispõe a mudar de vida ou a ~ovar o seu fervor que mais
sente os assaltos da carne (Impetos sexuais ou sentimentos
egoistas) e o desequlllbrlo das emocõcs; descobre em seu intimo
propensões para o mal Que ela ignorava e que a humilham
profundamente. Diante disto, hâ os que desanimam e desis-
tem de seus propósltosj outros, porém, resolvem perseverar,

10 anllgo estóico grego. sim, diria 'lua o homem mesmo. exclusiva-


mente pela IQrça de sua vontade, se loma cepaz: de superar todas as vlels-
eltudes. O eslóleo • o "aUela asplrltua l" que por suas próprias foIças te
fa:r. allela.

-351-
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS' 188/1975

aceitando o desafio da luta (é nesses momentos que os amI-


gos têm importan te papel a realizar, ajudando o companheiro
a nâo recuar).

2 .2 .3. Dois tIpos cI. santos

Em conseqUéncia de quanto tem sido dito até aqui, pode-se


afirmar que existem duas espkies dê santos.
Há os de psiquismo dificll, que durante a vida inteira são
sujeitos à angUstia e aos impelos indeliberados de sua pró-
pria natureza; tais pessoas até o fim da vida terão que pran-
tear gestos ou atitudes que não se conciliam com os seus pro-
pósitos de generosidade e amor. Não obstante, perseveram
tenazmente a tlm de núo trair a vocação cristã; alimentam em
seu íntimo um amor ardente a Deus e ao próximo; todavia
esse amor jamais transparece plenamente no comportamento
visível de tais pessoas, porque o psiquismo não as ajuda;
dlr-se-Ia que são pessoas de tacetas quase antitéticas e parado-
xais: or8 brusca e Indellberadamente agressivas, ora surpreen-
dentemente generosas c dedicadas. - Na medida em que esses
cristãos são vitimas mais do que réus coniventes com seus
paradoxos, podem ser santos; são santos que não trazem o
respectivo nome.

Ao Jado destes, há os santos de psiquismo naturalmente


hannonioso e sistemático, santos preservados de graves tre-
pidações da carne; por sua própria índole estão predispostos a
cantar a glória de Deus como uma harpa suave; a graça do
Senhor neles encontra meios congênitos de expressão, de tal
modo que Quem os vê quase dirá que encontrou a hwnanidade
transfigurada pela graça. São santos reconhecidos pelos pós-
teros, que deIxaram marcas palpáveis na história da humani·
dade.

Dir-se-ia que estes últimos, tendo menos que lutar contra


si mesmos, têm menos méritos e menos valor t embora mais
brilho visivel. Eneanar-se-ja quem assim pensasse. Uns e
outros - os de psiquismo difícil como os de lndole natural-
mente harmoniosa - têm que lutar, e lutar arduamente. A
condição de todo homem é rigorosamente e sempre a mesma.
Os que dispõem de indole propensa à. harmonia, deverão sem-
pre resistir à tentação de se gloriar de seu equilíbrio e de sua
- 352-
\ i: ,'., ~' .. r I i .
: :~
) ... \._,_.",-_.,-:,;,:-~·_ _ NE=U,"R",O"S"E:..!E!:...:!SA~NTID~~A=:D:!::E_ _ _ _ _--=25
\

cperfelcãoll, como se fossem conquistas do próprio sujeito;


. . não é fác1l à crJatura reconhecer a verdade, isto é, reconhecer
que o homem nada pode sem a graça de Deus j não é fácil ti.
quem se sente bem sucedido, evitar a vã complacência e o
orgulho secreto. - Quanto àqueles que se sentem natura1~
mente fracos. não lhes é fê.cil: 1) vencer a tentação do desânimo,
2) consentir em que outrem os santifique, sem que cedam à
revolta. Em suma, uns e outros têm que passar pela mesma
c:morte. intima, dolorosa. e penetrante, pois em ambos os casos
se trata de renunciar a algo que está. profundamente arrai·
gado em todo e qualquer homem: o orgulho e 8 auto--suf1~
ciência.
A vitória sobre e. soberba e a auto-suficiênc.ia é sempre
uma das caracterlsticas da santificação da pessoa. 1: neces--
&árlo que o crisUo veja sua situação e sua vocação como Deus
as vê, e não como ele, com seu «bom senso» meramente
humano, seria inclinado e. ve-la. O trecho de carta abaixo dá
t-estemunho desse novo modo de ver: l! da pena de um homem
que passou por terríveis agonias psíquicas e finalmente a1can~
çou profunda paz:
"Nlo ·6 .. toa que elltou nellla IIltuaçlo. 0111$0 estou definitivamente
convencido. Por outro tado. e.tou ainda mais convencido de que nlo li
Deus, multo menos, quem , dlretam.nt. tesponsA....1 por ela. Esta , li
parte que me cabe, pllaaoalmente, no sofrimento h\lmano, e foi ela t.I....;z:
que me deu a oportunidade de descobrir li unl...ersalldade do lofrlmanlo.
de modo dlferenle do que le o Ilusu por melo de slmplas conaldera'
ç68s Intelectuais .. . Ct'tIlo no Cristo, com lodo o meu ser rerldo. E, para
ser sincero: com mal, profundidade do que 11 profundidade de mInha.
crll el - aI' u mais tntensall - ex"'" em mIm a 'pu que o mundo
nlo pode dar' ..• Nlo espero uma l oluçAo natural. mas tentlo a Espe-
rança ... Em cartu noite, de calma li de r.".xlo, eu mil pergunlo se.
no lundo, nlo 6 uma graça _te drama terrfvel1 &Im tsto, teria eu ..no
lido bem a profundau do ml. l6t1o humano'" (citado por Valfrado Tape.
" PrllHr ou amorT ' , p. 367).

2 . 2.4 . Amblvolfnda

As pessoas que se entregam decididamente à ação da


graça de Deus, podem passar por traumas pslquicos e angús.
tias neuróticas sem que outros descolÚlem dessa cruz que elas
carregam, Muitas vezes chegam a ser estimadas e elogiadas
como equilibradas e compreensivas. Isto bem Se entende pelo
fato de que o próprio sofrimento ajuda o paciente a com·
preender e socorrer os que sofrem.
-353 -
21j cPERGUNTE E RESPONDEREMOS, 188/1975

Acontece, porém, que não rnro o conceito bom de Que


tais pessoas gozam se toma para elas motivo de novo tor-
mento. Com efeito, muitas concebem a idéia de que, pratI-
cando o bem (embora sofram Impulsos de agressividadc) I são
hipócrItas e farsantes; estão vivendo um estado de ambiva-
lência ou, ainda, estão colocando mAscaras, que deveriam sim-
plesmente retirar, deixando a sua agressividade vir à baila.
- A tais pessoas se deve dizer que não confundam «espontanei-
dade» e «autenticidade::. ; sim, alguém pode sentir espontanea-
mente tendências agressivas para com outrem; todavia não é
por seus Impulsos psíquicos que a pessoa se define, mas, sim,
pelas suas atitudes conscientes e voluntárias. Por conseguinte,
se a mesma pessoa procura tratar com afabilidade consciente
o próximo que ela espontaneamente odeia, não é hipócrita,
nem farsante; ela é autêntica, pois (como foi dito) a autenti-
cidade se define não no plano dos instintos pJ'é..deliberados,
mas, sim, no dos atos conscientes e voluntários. O estado
Ideal ê, sem dúvida. aquele em que se harmoni2:am os impulsos
espontâneos e os atos conscientes; desde que isto não seja pos-
slvel, o paciente sofre e sente-se atormentado; mas esse sofri-
mento não o transforma em hipócrita, nem impede a autentl 4

cidade humana e cristã do individuo.

2 .2 . 5 • Ancor.ado no Absollo110

Vimos que constituição depressiva e traços desequ111bra·


dos de caráter não impedem que uma pessoa se eleve 'às altu-
ras da santidade; ela se santificará talvez de maneira dl"amá-
tica, pela luta continua cOntra o desânimo e a revolta qUe a
sua cruz pessoal lhe suscita. Ê isto que nos leva a não estra-
nhar a existência de manlf~tat;ões neuróticas na vida de gran-
des santos.

Todavia afirmam os mestres que o santo acabado não


pode ser tido como neurótico; os seus recalques, ele os ultra-
passou, purificando-se deles à luz da fé e do amor de Deus.
Alguém que esteja totalmente «cristianizado», acha·se anco-
rado no Absoluto ou em Deus. Quem conseguiu isto, nâo é
neurótico, embora ainda carregue as conseqüências e as ma.r-
cas de uma herança psiquica deficiente ou de frustrações afe-
tivas anteriores. Tais marcas podem coexistir com a santl·
dade ou até mesmo com a normaHdade. Na verdade, normal
é o individuo que sabe Integrar os elementos de sua persana-
- 354-
NEUROSE E SANTIDADE

lidade. ainda que defeituosos ou negativos, numa síntese cons-


trutiva. A verificação de elementos neuróticos isolados não
prova a anormalidade ou o desajustamento dessa personali-
dade.

2.3 . CondUlÔo

Após estas ponderações, deve-se dizer que as doenças,


tanto as físicas como as psiqulcas, podem ter valor positivo na
vida de alguém. Se a doença é uma modalidade da existência
humana, ela se torna para muitos a oportunidade de encontra-
rem o sentido da sua existência; não constitui apenas um mal
a ser evitado a todo custo.
Um defeito físico ou um traumatismo psíquico nada dizem
n respeito do valor de um homem. ~te valor depende da atI-
lude que a pessoa toma diante da sua realidade ou da res-
posta à pergunta: que faz essa pessoa com o seu defeito? -
Se para uns a existência de traços neuróticos de caráter pode
ser motivo de constante revolta ou de totaI desânimo, para
outros pode assumir o valor de uma cruz pesada e humilhante
aceita por amor. a Cristo; tal cruz pode vir a ser penhor de
maior intimidade com Cristo e de crescimento na estatura
sobrenatural do cristão,
As reflexões deste artigo ainda serão ilustradas pelo con·
teúdo do que se segue,

BlbUotrana :
Val/redo Tepe, "Prazer ou amOf7", Salvador 1966.
leiam, "O SlIInUdo da vida", 5f ed., lb. 1966.
Idem, "Quero que "I"'*, 3' ed., lb. 1965.
B. Hi\;i.. ~, "A LeI de Crlslo", vol. 111. Slo Paulo 1961.
Louls Belnaert, "La aancllllcatlon d6pend-elle du paychlame1", em
"Eludes" I. 226, I . 93. 1950. pp. 58-85.
J. de TonquedltC, '\t\normaux", em "DlcUonnalre de Splrttuallt6
AscéUque el MyaUque" I, col. 678-689,
R. Broul1tard, "Anormaux", em "Calhollclame" I. col. 609-811.
PR ~7/1961, pp. 451-459: 460-468.

-355 -
Eltr.nha lurprel.:

os santos através da

Em Ilnl ... : A grafologia é o eatudo das careclerlstlcas pslqulca,


de uma pessoa mediante 8 escrita da mesma. Um dos pioneiros del se
tipo de estudo 6 o Pe. Glrolamo MOfeUl, Que tormulou oitenta e uma
re gras aptas a estabelecar a correlaçlo anlra as dNer!as modaUdadas.
de escrever a as IncllnaçOes Inat". qua pof" heVElr no ser humano, O
mesmo gl1l1610go, cuja autoridade , reconhecida, esludou numerosos.
manu.crllos de lenlos; a principio surpreendeu-se pel05 resultados a que
cheGOU, Depois, reso lvau publicar em tamoso livro 85 anéUsas gralolo--
gicas de Ilntoa por ela realll.ldll: o titulo originai Italiano da obra ,
"~I Sanll dana Scrlnuta", em Iranch "Copia non conlonne" (Caslerman,
Paris 1960J.

Desse livro elttralmos no pre..nle ar1lgo alguns dos mais sl9nl1l·


caU"'ol ,.Iralol haglogrâ!lcos; do confrontados OI dados grafológicos e
os traços blogrâfleos de vArlos IInlos. Enquanto a esc rUa ,evela mullea
vezes que OI aantos loram propensos a graves falhas de caraler ou de
'tlca, o. elementos blogréflco. mostram que os mesmes, por eleito da
graça da Deul. scuberam superar essas mAs tendências, translormando
em positiva 8 caroga negativa de suas Inclinações desregradas; neles o
amor 5ensual converteu·se em amor mlstlco a Deus: e obcecada cobiça
da bens tlmporars foi translormada em Il\lIeltl...al procura de bens aspl-
rltuai,: a prodigalidade perdul.rla mudouoSa em generosidade contInua
pari com Deus a o próximo, IIlç,

A conscl6ncla destes lat os , apta a desper1ar alento a .....Ivar em


lodo. os crlstâos a asplraçio à sanlidade, \locaçAo normal e comum de
tod05 ea tIIhos da Deus,

• • •
Comentário: Pode-se dizer Que a análise da escrita é apta
a revelar algo do t ipo de personalidade de quem escreve. ~er­
dade é que a grafologia somente nos ultimos decênIos vem
sendo cultivada de maneira científica; é por isto que certas
regras propostas pelos grafólogos ainda estão sujeitas a revi-
são. Como quer que seja, é interessante levar em conta a
obra de um dos mais abalizados grafólogos, o Pe. Frei Giro-
lama MoretU. da Ordem dos Franciscanos Conventuais, obra
intitulada d Santi dalla Scrittura, ou, em francês. «Copie non
conforme. Le vral visage des sainls révélé par leur écriture"
Paris, Casterman 1960. Este livro contém OS resultados dos

-356-
A GRAFOLOGIA E OS SANTOS 29

exames da escrita de trinta santos, desde São Franclsco de


Assis (t 1226) e S. Tomás de Aquin. (j 1274) até S. Pio X
(t 1914). E:rnbora jâ tenhamos comentado em PR algo das
aniillses e reflexões da obra de G. Morettl, voltamos ao assunto
nestas páginas, pois se trata de completar os dados do artigo
anterior; além do que, muitos leitores vêm pedindo a PR escla-
recimentos de tal gênero. Procederemos de modo a dar ini-
cialmente algumas noções sobre grafologia; ao Que se seguirão
as ponderacÕes referentes a algumas escritas de santos, que
não serão os mesmos já analisados em PR 45/ 1961, pp. 363-373.

1. Gr:ofologia: fundamentos filosóficos


A grafologlã. como ciência, supõe a antropologia. Consl-
dera o ser humano como um composto de corpo e alma A
alma é a parte detenninantej o corpo, a parte determinada.
O corpo é tal porque recebe da alma a sua ordem interior ou
o seu «plano arqultetOnico~. O ser humano, embora composto
de corpo e alma, constitui uma unidade; nessa unidade, o corpo
é o espelho da alma: o modo de ser do corpo é o espelho do
modo de ser da alma. Donde se segue que a linguagem exte-
rior e sensível de alguém é o espelho do modo como as idéias
e os afetos são concebidos no intimo dessa pessoa. Existem,
pois, relações bem definidas entre as modalldades da lingua-
gem exterior, gráfica, e o estilo íntimo ou o cariter próprio
da mesma pessoa. Aliás, pode-se dizer que qua1quer aspecto
de uma personalidade é sempre marcado pelo estilo gernl da
mesma; o modo de agir corresponde ao modo de ser do sujeito;
«agere sequitur esse~, diz 8. filosofia clássica.

Na base destas premissas, o Pe. Glrolamo Moretti dedi-


cou-se ao estudo criterioso da escrita e, após cinqüenta anos
de confronto e reflexão, estabeleceu 81 regras grafolÓgicas ou
regras de interpretação dos caracteres gráficos. cada regra
exprime a relacno existente entre determinado sinal grAflco e
eerta qualidade psicossomática do individuo. Essas regras,
s.ubmetidas a controle e experiências, obtiveram notável con-
firmação por parte do próprio sujeito cuja escrita fora anall-
sada, ou por parte de educadores, médicos, amigos ... que
conheciam tal sujeito. Diz o próprio Pe. Moretti: «Num total
de 300.00 análises. recebi 299.999 confirmações, (ob. clt.,
p. 241, ed. francesa) .
-357 -
30 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 188/1975

Os sinais gráficos são por Moretti distribuldos em subi·


tanci&J5, modHlcadores e aclden,ta.b, e enquadrados dentro de
um sistema próprio de classificação decimal.
A teoria se apresenta multo aprimorada e original. Con-
tudo os criticos se mostram cautelosos ao julgá-la. Consciente
de que a ciência grafológica ainda estll. em seus anos de infân-
cia, admitem que os estudos futuros possam levar a refonnar
certas conclusões do Pe. Morettl, no momento tidas como váli-
das, mas talvez Insuficientemente assentadas. Além disto, pro-
põem uma questão n50 desprezivcl: nos casos em que os grafó-
logos proferem diagnósticos certos, estarão sendo induzidos a
Jsto unicamente pelas regras da grafologia ou quem sabe se
não falam por efeito de um dom pessoal de clarividência (o
que não teria que ver com os pdnciplos da grafok>gja)?

Como quer que seja, o Pe. Moretti aplicou suas regras à


escrita dos santos, deixand<>-nos, em conseqüência, um livro
que multe tem impreSSionado o públiCO: «l Santi daUa Scrit-
tura •.

2. A grafologia aplicada aos SOíltoS

1 . :Há mais de cinqüenta e cinco anos, em 1914, Monse·


nhor CIementi, historiador em servlco no Vaticano, entregava
ao Pc. Glrolamo Morettl, já então conceituado grafõlogo, uma
carta de S. José de CuperUno (1603-1663), franciscano con-
ventual, que acabava de ser declarado padroeiro dos aviado-
res. Submetendo o documento à anúlise grafológica, Morcttl
se sUl'preendeu por descobl'ir na fisionomia do santo assim
expressa sinais de fraqueza de carâter e de espírito vingativo,
Contudo Mons. Clementi assegurou-lhe que a conclusão bem
correspOndia aos dados históricos : estes atestam que São Jose
de Cupertino teve de sustentar, durante toda a vida, ãrduas
lutas contra as más tendências dc sua nalureza.
A seguir, foram confiados ao Pc. Morettl espécimcns da
escrita de cerca de cinqüenta santos canonizados, cu10S nomes
não lhe eram revelados, a fim de que a anâlisc não sofresse
InHuênclas estranhas. Os resultados desses documentos de tal
modo surpreenderam Moretti que este por três anos renunciou
a praticar a grafologia; as pesquisas haviam-lhe dado a ver
de perto a humanidade dos santos, humanidade que, na maio--
-3õ8 -
A CRAFOLOClA E OS SANTOS 31

ria dos casos, lhe aparecia tecida de inclinações pouco con·


dizentes com e. santidade. Dal o espanto, à primelra vista,
desnorteador ..•
Moretti, porém, se refez do susto e decldiu-se a publicar,
no volwne citado, os resultados de seus estudos concernentes
a trinta santos. A dlsposlcão da matéria é a mesma em cada
caso: vê-se 1) uma pãgtna. de texto da lavra do respectivo
santo; 2) o exame da escrita, segundo a classificacão decimal
e a terminologia técnica de Morettl; 3) a interpretação clara
e minuciosa dos dados colhidos; 4) traÇOs biográficos do santo
que mostram a correspondência entre o julgamento do graf()..
logo e a realidade vivida pelo santo.
2. Qual a mensagem de tão meticulosos exames? Será
realmente desconcertante, levando a crer que, na verdade, não
há santos ou que é Impossivel chegar 'à santidade?
:€ o que vamos ponderar abaixo.
a) Antes do mais, leve-se em conta o fato 'de que a gra-
fologia apenas Indica o «lastro bruto» ou o «fundo bravio» do
qual se fez a figura do santo; ela só evidencia as tendências
inatas, sem dizer coisa alguma do trabalho que cada santo
empreendeu industriosamente com essa sua massa de argUa;
já não é da alçnda da grafologia enunciar as vitórias sobre as
paixôcs que cada santo logrou no decorrer da sua vida.
bl Assim a ciência da escrita apenas leva a concluir que
ninguém nasce santo, mas que também os santos comparti-
lharam o patrimônio de miséria nativa do comum dos homens.
Experimentaram impetos da natureza desregrada, como os
experimentaram os demais homens. Contudo o que os dife-
fenda dos restantes mortai.s. é que, embora possulssem esse
fundo de fraqueza, não se renderam à csina:. de ser medi~
cres por toda a vida, não se conformaram com a miséria
moral, mas empreenderam corajosamente a Juta que poucos
empreendem: oraram, pedindo a graca de Deus; cooperaram
com esta, lutando contra seus defeitos sem destalecer, sem
desanimar (desAnimo serIa expressão de amor próprio decep-
cionado ou magoado) . .. Em conseqüência, conquistaram as
virtudes contrArias às suas más tendências, tornando-se ver-
dadeiros heróIs; merecem assim o titulo de «autênticos homens
llvres:.; livres, sim, porque escaparam aos pretensos <detennI~
nismos:t da natureza e do ambiente, configurando-se total-
mente ao exemplar de perfeição que Deus lhes assinalou.
-359 -
32 ePERGUNfE E RESPONDEREMOS. 188/1975

Assim o exame grafológJco, longe de lançar descrédito


sobre os santos, contribui para que melhor se perceba o seu
verdadeiro va!Qr e mais estima se lhes tribute: os santos não
foram santos por possuirem uma natureza humana prlvile--
giada ou, de algum modo, diferente da nossa; ao contrário, a
partir do ponto mesmo em que todos começamos a vida na
terra, foram subindo para Deus; o segredo do seu êxito con·
sistiu simplesmente em delxar·se guiar pela graça, à qual infe·
tizmente tantos homens se subtraem.

c) A luz dos resultados grafol6glcos, ~ntende-se melhor


como todos possam ser (e. de fato, são) chamados à. santidn.d~
apesar das mAs tendências congênitas em cada ser humano.
Não é necessário que estas digam a última palavra no currl-
cuia terrestre de alguêm. Para suplantá-las, qualquer que seja.
a sua Intensidade, existem os recursos da oração e da grapa
de Deus indistintamente oferecidos a todos os homens.
Às vezes, pessoas particularmente favorecidas por suas
qualidades naturais ficam na mediocridade, justamente por
não terem ocasião freqüente de se humilhar diante de Deus
c de pedIr a graca do Altlsslmo. Bem~aventurados. antes,
aqueles que se colocam na atitude de humildes mendigos
diante de Deus (cf. Mt 5,3) ~

d) Ainda em outros termos: a análise da escrita per-


mite ver como a graça de Deus explorou a massa de argila
humana dos santos, trnnsfonnando em arroubo> para. Deus
cada. um& das baixas rendênci:as que eles tru.ia.m em ai
mesmos.
Assim o amor sensual veemente. apaixonado, foi, pela
graça, convertido em amor místico de Deus; a obcecada cobIça
de bens temporais foi transformada em inflexivel procura de
bens espirituais ou ardente sede de Deus e da vida eterna; a
prodigalidade perdulária, csbanjadora, mudou·se em generosi-
dade continua para com Deus e O próximo; a teimosia soberba
transfigurou-se em tenacidade inquebrantável no serviçO hu-
milde de Deus; a sandice lasciva passou a ser ausência de
todo respeito humano na procura do bem. .. Em conseqüên.
cia, vê-se também que a humildade de S. Antônio de Pádua,
por exemplo, não foi a humildade de S. Francisco de Sales,
nem O amor de S. Francisco de Assis foi o amar de S. Inãclo
de Loiola, pois cada santo oferecia à Reão da graca um lastro

-360 -
A GRAFOLOGIA E OS SANTOS 33

próprio. A propósito, pode-se citar o famoso adágio de S. To-


más de Aquino : «A graça não destrói a natureza hwnana..
mas a supõe e aperfeiçoa» (S. Teol. 1 quo 1, a. 8 ad 2).
Desta forma a obra de MoretU contribui para evidenciar
e exaltar as riquezas da graça de Deus entre os homens
(cf. Ef 1, 12).

3. Alguns vultos relevantes


A fim de l1ustrar o fenômeno que acabamos de conside.-
rar, vão reproduzidos abaixo alguns tópiCOS significativos apre-
sentados pelo Pc. Moretti no seu livro.

3.1. S. João da Crv:r. (1542.1591)

1. Nascldo em Fonliveros (Castllha), empreendeu, por


Inspiração de S. Teresa de Ávila, a reforma da Ordem carm~
llte, à qual pertencia; a peste e o cisma havIam feIto declinar
a respectiva observância. Retirou-se, pois, para um eremitério
em companhIa de outros monges, que tomaram todos o nome
de «descalços :.. TIveram que suportar contradições e persegui·
ç6es, e mesmo o cárcere ; mas, por graça de Deus, conseguiram
superar os obstáculos e difundir largamente a reforma. S. João
da Cruz morreu relativamente jovem, após intensa vida de
oração e atividades.
2. O exame graf()16g1co mostra que João da Cruz podia
ter sido um homem sensual, requintado nas concessões à
carne; tera dissimulado a sensualidade sob o verniz dos sofis-
mas e do cumprimento do dever com esmero «artístico». Visto
que era sujeito a ser atormentado pelo remOrso, teria pro.
curado construir ésua» filosofia para sufocar a consciência.
baseando-se em criticas extremadas, no ceticismo e no pes.
sImismo.
Afirmam os estudiosos que houve muitos homens de tal
tipo entre os fundadores de seitas é de partidos subversivos:
ufanavam·se de Sér os pioneiros da verdade, enquanto bem
sabiam que não a conheciam, e deixavam-se ensurdecer pelas
paixões, a fim de não ouvirem as advertências da consciência.
3. A história mostra que João da Cruz. dotado de inte.-
ligência penetrante e lúcida, se aplIcou ao estudo da fIlosofia
e da metafislea a fim de chegar ao cume do saber, ou seja,
- 361-
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 188/1975

ao mais profundo conhecimento de Deus. Era um filósofo e


teólogo que vlvenciava em 51 e ensinava aos outros a vida
m(stica, isto é, o conhecimento experimental de Deus; a sua
inteligência a.pUcou.-se, pois, a preservar das falsas interpreta-
ções do raclonallsmo os tesouros da vida de oração.
Embora fosse propenso a elaborar «sua fIIosof[a:t sofisti-
cada, cética e super-critJt:a. ele transmUia aos jovens prlnd-
pios de fé ardente e de conduta de vida enérgica e santa.
Apesar de suscetível e sujeito ao amor próprio, sabia
estimar as humilhações mais penosas. Certa vez, pol" causa
da reforma empreendida, foi açoitado até o sangue; entremen-
tes, que fazia o santo? - Algo de muito simples: dava graças
a Deus. Seguir J esus em sua via dolorosa sempre aualra
aquele monge. Dizia: «Mereço mais. muito mais do que esses
castigos!:. Diante de censuras e ameaças. baixava a cabeça e
calava-se.
No tocante à sensualidade, soube ser inflexivel, guar-
dando absoluta fidelidade à sua Regra. Um epIsódio dá teste-
munho 'disto:
Certa noite, estando João da CM.l2 absorvido na or'8.ção,
a porta da sua cela abl"iu-se e uma jovem bela e ricamente
vestida aproximou-se; o monge já a conhecia. pois era peni-
tente dele; com palavras apaixonadas, ela lhe exprimiu a sua
admiraçâo e o seu amor. DIsse-lhe Que fugira da casa paterna,
porque já não podia resistir à paixão que a devorava. O santo
sentiu-se estN!mecer diante do perigo iminente. Certo de que
não venceria sem a graça de Deus, voltou o coração para o
Senhor em oração. E a sua prece foi atendida, pois não
somente João da Cruz escapou à tentação, mas também con~
seguiu reconduzir a jovem à consclêncla dos seus deveres.
Com S. Teresa de Ávila teve relacionamento Intenso, que
se dirigiu ardorosamente para o mesmo ideal: a reforma do
Carmelo. Assim, embora pudesse ter sido requln tadarnente
sensual, João da Cruz foi heróico em sua pureza, como, aliás,
nas demais expressões de sua rica personalidade.

3 .2 . S. Luí. Grignion d. MorWforf 11673-17161

1. Dedicou toda a sua vida à caridade, como missionário


dos pobres. Grande devoto de Maria SS., fundou a Congre-
-362 -
A GRAFOLOGIA E OS SANTOS 35

gaQão das Filhas da sabedoria e a Sociedade dos MIssioná-


rIos de Maria (tnQnfortanos).
2. A sua escrita manifesta a tendência à exterlçridade;
teria gostado de Impressionar os outros para ser admirado.
Era também lncUnadç 8 dissimular os seus defeitos, o que
o faria cair facIlmente na hipocrisIa. Não tendo grande talento
fi1()SÓfico, poôia dar-se ao plãgio, a fim de conquistar fama.
Ainda no intuIto de distinguir-se vaidosamente, era propenso
à sátira requintada mediante palavras e sorrisos oportunos.
sabia despertar a simpatIa do sexo feminino. pois tinha
certa penetração psicológica e distinção de porte. Isto o su,eJ·
tava constantemente à tentação da sensualidade.
Por conseguinte, se tal homem se dedicou à virtude, teve.
que visar principalmente à simplicidade e à pureza de Inten·
~ - qualidades estas que ele não possuia.

3. A biografIa. de S. Luis de Monfort nos mostra que 8


sua tendência à exterlor:ldade se concretizou no cultivo das
artes, para 8S quaIs tinha habilidade. 1t considerado o mais
prendado poeta religioso da sua época. Exen:eu também a
escultura, a fim de reproduzir com graça um pouco da beleza
Ideal de Jesus e Maria que, em sua mente, tinham forma viva
e atraente.

Embora tendesse a impressionar os outros a fim de sus·


citar admiração, Montfort cultivou a humildade, a paciência
e o esquecimento de sJ. - Certa vez, enquanto pregava, tol
insultado violentamente por um hereje jansenista. Desde que
ouviu a voz colérica do adversário, o santo desceu do púlpito,
caiu de joelhos e com a cabeça baba deixou que o jansenlsta
se desabafasse. sem dar sinal de Impaciência ou surpresa.
Quando este terminou a sua catillnárfa e voltou à viatura, o
missionário apenas disse estas palavras: cIrmãos, nós nos
dispúnhamos a plantar uma cruz diante da porta desta igreja.
Agora plantemo-Ja em nossos coraçóes, pois ai ela estará me-
lhor do que em qualquer outro lugar». E começou a recltar
o rosário.
Dado à sátira requintada, aconteceu-lhe o seguinte epi-
sódio:
-363 -
3G cPERGUNTE E RESPONDEREMOS) 188/1975

Por amor 'à pobreza e à humildade, gostava de viajar a


pé e incógnito. Um dia, 80 passar perto da abadIa de Fonte-
vrault. experimentou o desejo de rever sua innã, que era
membro da comunidade; movla-o a intenção de um colóquio
espiritual. Apresentando-se então à porta da abadia, pediu
hospitalidade pelo amor de Deus. Todavia a Irmã Porteira
começou, antes do mais, a pedir-lhe Inf(lrrnações (nome. ori-
gem, finalidade da via~em, etc.). O santo só tinha uma res-
posta: . Peço a hospitalidade pelo amor de Deus• . Exaspe-
rada, a Irmã foi chamar a abadessa, a qual por sua vez se pôs
a crivar de perguntas o desconhecido visitante; ao que Mont-
fort respondia constantemente: «Senhora, meu nome Importa
pouco; não é por mim, mas é pelo amor de Deus que lhe peço
a caridade». Minai, as suas Religiosas, Insatisfeitas, o despe·
diram como se fosse um vagabundo. Antes, porém, que a
porta se fechasse atrás dele, Montfort deixou escapar uma'l
palavras que haviam de excitar a curiosidade das Irmãs: c:Se
a Sra. soubesse quem sou eu, por certo não me recusaria n
caridade. . Estes dizeres foram esparsos de boca em boca na
comunidade, até que a Irmã Silvia compreendeu que se tra~
tava do seu lnnão. Já que este tinha fama de santo, a aba-
dessa logo enviou-lhe um mensageiro ao encalço, pedindo-lhe
que a desculpasse e voltasse a fim de se hospedar no mos·
teiro. Contudo o santo mandou pelo mesmo mensageiro a
seguinte resposta: «A Sra. Abadessa não me quis oferecer
hospitalidade por amor de Deus; agora, ela ma oferece em
vista de mim mesmo; agradcço-a . . E foi pousar em casa de
pobres campônios.

3 . 3. S. lnócio d. Loiola 11491 0\1 1495-1556J

1 . Oriundo de familia nobre, foi educado e instruído na


corte de C4stilha. Até os 26 anos, levou a vida habitual dos
jovens galantes da corte e do exército. Ferido no decorrer de
urna batalha, foi reduzido à imobilidade, Que Inácio apro-
veitou para consagrar-se à leitura religiosa. Foi então que
se deu e. sua conversão. Praticou severa penitência, associada
ao estudo. Após alguns anos de vida santa, fundou a Compa-
nhia de Jesus. 1':: o a.utor do livro dos «Exerciclos Espirituais•.
2, Graf-ologlcamenf.e falando, refere-se que tinha cará-
ter lrredutlvel, propenso ao comando despótico. Nã.o gostava
de que os subalternos se justificassem ou fizessem valer razões

- 364-
A GRAFOLOGIA E OS SANTOS

contrárias às suas. Tendia a se vingar de quem censurasse o


seu comportamento. Inclinava-se à ambição e ao desejo de
aparecer ostentivamente.
3. Os bl6gra1os narram que Inãdo soube dominar mara-
vilhosamente as suas tendências egocêntrlcas e auto-suficlente5.
Por exemplo, sabia ler no Intimo dos col"ações e, por con-
seguinte, percebia os meis de atender às necessidades de cada
um. Certa Vf!l, conseguiu, por uma série de artificios, deter um
desgraçado que planejava o suicldio; doutra feita, foi-se con·
fessar 6. um sacerdote que vivia mal, a fim de lhe dar o teste-
munho do seu arrependimento; ainda outra vez, deteve-se no
caminho de um homem adúltero, e sob o olhar do mesmo
mergulhou em água gelada, declarando-Ihe que ficaria assim
até Que ele desistisse dos seus maus propósitos _ objetIvo
este que Inácio realmente atingiu.

Propenso à vinganos, S. lnAcio não a exerceu. Aconteceu


que um cidadão lhe causara dano considerável Todavia esse
homem caiu gravemente enfermo, oprimido por triste2a que
se derivava dos males cometidos. Chamou então para junto
de si Inácio, a quem ele tanto prejudicara. O santo hesitou
um pouco, como se a viagem lhe fosse acarretar novos danos.
Mas finalmente decidiu-se. Visitou o enfermo, assistiu-lhe gene-
rosamente e tudo fez para que o seu desenlace fosse autentl~
camente cristão.

Sentia-se inclinado à arrogância. Todavia conseguiu .aomi~


nar-se. Certa vez, os colegas e mestres quiseram proibir a
Inácio e seus companheiros (fundadores da Companhia de
Jesus) que usassem hábito próprio. O estudante Inácio, que
era desinibido em suas respostas, explicou que, se Queriam
vê-lo usar outro traje. bastava que lho dessem de presente.
- Costumava falar de Jesus Cristo nas ruas 8.05 tran5eW1tes.
que paravam para ouvi-lo. Disseram-lhe então os mesmos cole-
gas e mestres que, embora Inácio nada proferisse de bhsfemo,
desejavam que se calasse e evitasse toda inovação. Ao que
respondeu Inácio: «Nunca pensei que entre crIstãos falar de
Jesus Cristo fosse inovação».

inácio, que sentia a am blção de se pôr em evidência, quis


morar num hospital e viver da caridade alheia, desde Que vol-
tou à sua pátria. Disto dissuadiam-no os amigos. Depois que

-365 -
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 188/1975

foi eleito Preposto Geral da Companhia de Jesus, empenhou-se


especialmente por duas linhas de programa: conservar sem 4

pre a simplicidade e a humildade, e 56 fazer uso da sua auto 4

rldade para a maior glória de Deus ... A pr1ncipio, quis exer 4

cer as funções de cozinheiro, às quais ainda acrescentou os


mais humildes serviços da casa.

3 .4 . S. filipe Néri (151541595)

1 . Nascido em Florença, deixou multo jovem a sua


cidade natal para ir morar em Roma, onde fundou com Per-
siana Rosa a Companhia da Trindade dos Peregrinos. Em
1551 foi ordenado presbitero. Depois, com a colaboração de
C8cclaguerra, fundou o Oratório de S. Jerônimo, InstItuto de
sacerdotes diocesanos que desejavam levar vlda oonventual.
2. Segundo a sua escrita, Filipe Unha carãter estranho;
gostava da contradição. Ria e fazia rir os outros, sujeitan-
do-os ao rldiculo. Tinha esplrito Inquieto e vingativo. Se
fosse deputado no P arlamento, terIa prazer em provocar dis-
sensões e mal-entendidos para rir e suscitar o riso alheio. Era
levemente predisposto ao sadismo; regozljar-se-Ia quando os
outros se atonnentassem ou fossem desfavoravelmente inter-
pretados.
Tendia à usura, podendo mesmo ser daqueles que se enri·
quecem à custa do próximo_ Quando, porém. a sua forte sen·
suaUdade se despertava, a avareza passava para segundo
plano: muito afetivo e atraente, podia servir-se destes predl·
cados para dar-se ao prazer sensual.
Era ainda propenso a dominar e não se deixar dominar.

3 . Os biógrafos nos afirmam Que S. FIlipe Néri foi uma


personalidade original. Apresentava um misto de autoridade
e hilaridade, cuja dosagem dificilmente poderia ser analisada_
À primeira vista, a h11aridade parecia prevalecer; mas pe~
cebia-se Que a sua hilaridade estava a serviço de um plano
de renovacão da Igreja. Esta foi, sem dúvida, marcada pelo
cunho que lhe deu S. Filipe Néri.
A sua alegrIa Inata era muitas vezes o fator que equlU-
brava as suas emoções religiosas intimas e profundas. Estas

-366 -
A GRAFOLOGIA E OS SANTOS 39

repercutiam fortemente em seu fl$loo, Que em conseqüência


se agitava como se o santo já. não pudesse pennanecer no
corpo.
Penetrava o .intimo dos outros com facilidade. O seu con-
fessionário era freqUentado por pessoas 'de todo tlpo. Cada
uma tinha a impressão de ser precisamente aquela por Quem
o santo mais se interessava. Mesmo cidadãos despudorados
foram vivamente atingidos pelo olhar de Flllpe, como se este
ferisse o cofacão. Um oJhar bastava para que os pecadores
mais obstinados tomassem consciência de sua má vldaj da!
concebl&m a vergonha e o arrependimento.
Filipe Néri sabia descobrir o ponto vulnerável dos outros.
Mas, em vez de o explorar para a sAtira. e o sadismo, pro-
eurava dar-lhe o remédio oportuno: dissipava escrupulos e
dúvidas, levando os outros C':per angusta ad augusta:. (por
caminhos estreitos a pinoaros elevados). Era capaz de expd~
mlr observações e censuras em tom afetuosoj bastava que
exclamasse uma só vez «Que pena~:. após a confissão de um
pecador, para realizar mais milagres espirItuais do que se
fizesse qualquer outra observação.
Embora fosse propenso a criar mal~ntendidos para .-go-
zar> os outros, parece ter dito um dia que é quase impos-
s1veJ não anw.r todos os homens; em todo caso, é certo que
se pode experimentar amJzad"e e compaixão para com cada
um l em lugar de ócUo e cólera.
As suas atitudes exprimlam o contrário da suscetibill-
dade e da vinganca. Durante eerto tempo, Filipe e Caccla-
guerra, que, juntos, fundaram o Oratório, sofreram a oposi~
Cão de sacerdotes que os acompanhavam. Mas o efeito obtido
foI desconcertante, pois os dois fundadores se regozljarwn com
com o St:lfrimento e propuseram pagar o mal com o bem.
Por mais que tendesse a se alegrar com as afllç6es alheias,
era solicito para com o próximo e estava pronto ti acudir com
presteza quando sabia que seus jovens disclpulos corriam pe-
rigo; o seu coração o advertia a respeito.

3.5. S. José Cottolengo 0776-1842)

1. Nasceu em B1'a (Turim) Ordenado sacerdote, fun-


dou a Pequena casa da Divina Providência, que em seus ini-
-367 -
40 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 188/1975

cios só contava quatro leitos, mas se tornaria obra grandiosa,


hoje admirada no mundo Inteiro. Acolhia com amor os aban·
danados e Infelizes, dando-lhes assistência material e espiri-
tual. Fundou uma Congregação de ReUgiosas dedicadas à
caridade. Morreu após ter servido ao próximo durante a vida
inteira.

2 . A gratologl& ensina que Cottolengo tinha vontade


tenaz, que náo se dobrava nem diante de obstáculos práticos
nem frente II argumentacôcs filosóficas.

Tendia a distinguir nitidamente o que lhe pertencia, do


que era propriedade dos outros; dai B IncUnação fi não ceder
o que era seu; era naturalmente propenso a aproveitar do
a lheio para dar mais importâncla ao que era seu, Pensava
muito no dia seguinte; por isto era dado à poupança e à
economia.

Podia ter lances de generosidade e magnanimidade; mas


logo depois era inclinado a concentrar·se para examinar sua
situação financeira e remediar aos Inconvenientes da sua libe-
ralidade.

3 . Quem lê a vida. de Cotto1engo, observa que ai não


havIa traços de ganMcla, como não havia riqueza nem p0-
breza. Não se dizia : dsto é meu, isto é teu:., pois tudo per-
tencia à Divina Providência.

Longe de pensar em si ou em . se garantir:., Cottolengo


dava aos Indigentes o que tinha de melhor. Seus trajes eram
os de um sacerdote pobre, do mesmo pano que os trajes dos
doentes hospitalizados. Para defcndê-Io do frio, os amigos
muitas vezes tinham de confeccionar-lhe um manto, pois, a
sua roupa de lã, ele a dava nos pobres. Em casa. usava taman-
cos em vez de sapatos. Repetia freqüentemente: cSejamos
todos pobres, mas todos também alegres no Senhor!:. A sua
palavra de ordem era : «Esperança e alegria!:. Confiando na
Providência Divina, não receava desastres financeiros.

Além da pobreza material, CoUolengo praticava e e nsinava


a pobreza espiritual, exigindo que cada um dos seus discipulos
oferecesse a Deus c aos seus irmãos o mais rico tesouro que
alguém llOssa dar: o seu coracão dedicado 'à vontade do Se-
nhor e ao amor fraterno.
- 368 -
A GRAFOLOGIA E OS SANI'OS 41

Embora fosse finne e enérgico, sabia ser atâve] e jovial,


de modo a conquistar a simpatia dos outros. Gracejando e
humllhando-se, conseguia auxilio para os seus pobres. Um
dia, por exemplo, dlsse-lhe tun amigo: «Tu tens espáduas de
mula:.. Respondeu-lhe então Cottolengo: «Sou realmente um
mulo; se queres tentar carregar-me com duzentos ou trezentos
francos, verás como eu saberei levA-los aonde eles são real-
mente necessários».
Estes dados haglogrâficos concorrem para ilustrar elo-
qüentemente o fato de que os santos não nasceram de estirpe
diferente da dos demais homens, O que os distinguiu, foi a
sua Incondicional aceitação do plano de Deus a se real[zar
sobre eles. Com humildade e grande entrega a Deus, deixa-
ram que a graça fosse burilando a sua natureza e trocasse
em positivo o sinal negativo de suas propensões.

3 .6 . S. fama d. Usieux 11813-18971

1. Com especial autorização de S. S. Leão XTII, entrou


no CanneIo aos Quinze anos de Jdade. Distinguiu-se pela prA-
tica da cinfâncla espiritual:. ou da _pequena viu.
2 . O exame grafológico de S. Teresa de Lisieux revela
que o orgulho, a ambição e a vaidade teriam feito dela uma
pessoa rebelde, mas rebelde de maneira artistica e requIn M

tada. - Se tivesse vivido na miséria, como criatura pouco


lnstrulda, haveria levado uma existência medlocre, talvez de
manequim de altn costura ou de modelo de modas, simples·
mente para ganhar a vida. Teria gostado de ser a predlleta
e tudo haveria tentado a fim de o conseguir. Se tivesse nas-
cido rJcs, ter·se-Ia entregue a obras de beneficência, a fim de
gozar de manifestações de gratidão.
3. Ora é notória a humildade de S. Teresa de Lisieux.
Procurou seguir à risca o caminho da infância espiritual,
ocultando-se aos olhos de todos, e mesmo aos seus próprios
olhos, Procurava encobrir os seus atos de virtude ; estes,
embora aparentemente de pouco vulto, eram heróicos por não
serem sustentados por elogio nem reconhecimento da parte
das criaturas. Se Teresa de Lisieux aparece hoje como a santa
delicada ou a santa das rosaS, não se deve esquecer que ela
o foi para ocultar entre as pétalas os espinhos que levam tan-
tas pessoas a se afastar do árduo caminho da perfeição.
-369-
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOSt 188/1975

O Senhor Deus quis manifestar plenamente em nossos


tempos a forma de santidade dos pequeninos ou da cpequena
via». Ora Santa Teresa de Lisieux foI escolhida para ser o
mais belo exemplo e a grande «doutoraa dessa fonna de
santidade.

3.7 . S. Afonso Maria de Ug6riG (1695·17871

1 . Filho de famma nobre empobrecida, seguiu primei·


ramente a carrelra jurldlca. Compreendendo, porém, que I)
mundo não lhe podia satisfazer, resolveu, aos 26 anos, aban-
donar tudo e fazer~se sacerdote misslonârio. Fundou a Con-
gregação dos RedentoristAs e tornou·se grande Doutor da
Igreja principalmente em assuntos de Moral.
2 . A escrIta. de S. Monso, além de revelar notâvel tir--
meza, manifesta forte propensão ao orgulho e à ambição.
Tendia a adular os grandes, ceder 80S favoritismos e a intri-
gar finoriamente. Em suma, sabia ser hábil para atingir os
fins almejadas.
Era simpático ao sexo feminino, e gozava do poder de
sedução.
3 . Ora, se a história mostra S. Afonso fiel observante
das leis da M0I'81, isto nOs leva a. conslderã-Io um campeão da
virtude, pois, para chegar a tal ponto, deve ter lutado aspe-
ramente e sem trégua contra as suas inclinações.
Embora tendesse à ambição e à ostentação, os biógrafos
nos dizem que ofeteCeu detididamente a sua vida a Deus.
renunciando ao mundo e aos seus direitos de herdeIro de nome
famoso. Quando, idoso, foi nomeado bispo de santa Agueda.
sentiu-se como que fulminado; quis resistir suplicante, e só
se submeteu a contra·gosto.
Apesar de se inclinar ao favoritismo, acolhia a todos e
a cada um com benevolência, monnente os pequeninos, humil-
des e pobres. Em seus escri tos. deixou por nonna que cO
confesso r deve ocupar-se de uma mulher pobre. suja e mal-
trapilha, com tanto zelo como se tratasse com uma prínceza;
dê provas da máxima caridade, principalmente para com os
pecadores. Deve interessar-se por seus penitentes mais do que
um pai se interessaria por seus fIlhos».
Era extremamente austero consigo mesmo, passando mui-
tas vezes os noite deitado no chão quando não se entregava
à oração até a aurora na igreja ou no quarto. O seu espirlto
-370 -
A GRAFOWGIA E OS SANTOS 43

de sacrlficio e compaixão teve especial ocasião de se exercer


durante o inverno de 1763-1764, quando e. fome asso1ou o
Reino das Duas Slclllas, Não tendo mais provisões nem recur-
sos, S . .Afonso vendeu a carroça, os mulos, a pedra do seu
anel pastoral e reduziu ao mínimo as suas já modestas retel~
ç6es. Franqueou aos pobres a residência episcopal, dizendo:
cO que eles pedem, a eles pertence» . Chegado a ida.de pro-
vecta, escrevia: «Minha vida é uma morte que se prolonga • ..
Estou qUtLSê l'êduzIdo ao estado de cadãver" Dado que, a
contra-gosto, tivera que renunciar aos instrumentos de peni-
têncIa que ele outrora aplicara a 51, receava levar vida cômoda!
Estes dados hagiográficos concorrem para ilustrar elo-
QUentemente o tato de que os santos não nasceram de estirpe
dlterente da dos demais homens. O que os dist1ngu1u, foi a
lncondicional aceitação do plano de Deus a se realizar sobre
eles. Com humildade e grande entresa a Deus, deixaram que
e. graça fosse burilando a sua natureza e 'trOc8.$Se em posi-
tivo o sJnal negativo de suas propensões.

(Conllnua~lo da 3' cepa)


A campanha divorcista no primeiro semestre de 1975 I UlCltou entre
nós rica bibliografia, que nlo perdeu aua alualldade, pola a lemánca con-

I'
IInua em foco. Ora enlre oe melhores IIvrOl que aa lenham escrIto ulllma-
mente sobre tal .. aunlo, .. o do Oro L J. da Mesquita, advOgado tl1lb~
Ihl,le de 510 Paulo, que, ht dectnJoe, se Intare,u paio problema: em t951,
publicou o volume "Divórcio DI,18r~.do·': em t953, "Ainda o Divórcio Dls-
farç.ado"; em 1954, "A Famllla e do ClvlÓrclo"; em 19B2, "Novamenle o
OllJÓrclo Disfarçado". O autor 18 mnlre em dlsllngulr as autllezas dos pro-
jet08 brasileiros de divórcio camuflado. Analisa 08 recentes proletos de UI7S
com perspIcácia, procurando encamInhar o debate para uma soluçA0 mais
cor'ldlzente com o bem comum do povo br.. llalro: essa soluçA0 conalsllrl.
em ampliar os casos da ImpedImentos que tornam nulo o casamento dude
que • contr.aldo, pois na realidade hole em dia se conhecem fatorae
(outrora mais raros ou menos conslderadotl QUe Irnposslbllllam freqOent ....
menta uma pessoa da alaumlr as racponsabllldadn da vida conlug.l:
hom.ossexuallsmo, elcoollsmo Inveterado ou Incurivel, sadIsmo lIalco e
mórbido. Ilel"letalo e demência sexuaL .. Como se compreendll, a nova
laglslaçlo. esllpulando lals novos Impedimentos, daverla u!lar fórmulas exlre-
mamenle precisas que ."Vltas58m InlerpretaçOes ebual"Vas ou dúvidas ., am-
bigüidades que redundassem em conclSllo de divórcio camuflado.
·- l
Como advogado, o autor recorre principalmente a argumentos. da clOn-
clu humanas, sem dar grande Anfase a raz"" teológleas que nlo conven-
cerfam a nlo catóUcoI. O corpo do livro decorre li guisa de um debate
enlre razOes !.vor6vels e motivos conlrllrlos ao divorcIo, com. cllaçlo de
numer050S lextos d. Juristas e 11I6sol05 Que escreveram sobre o euunlo.
O Uvro merece ser lido fi emplamenle difundido nlo só entre católicos. mas
também entre lodos OI esludlosos honestos e alnceros.
E. B.

-371-
Um elClareclmento :

mais uma vez igreja e

Em PR 179/ 1974, pp. 415426, foi dada noticia de impor-


tante docwnento da santa Sé referente à Maçonaria e datado
de 19/ 07/74: doravante não seria mais tido como excomun-
gado da Igreja o maçom pertencente a uma Loja que não
trame contra a Igreja. Esta declaração de Roma atencüa a
uma situação que nos últimos tempos se tem verifIcado com
freqüência: não poucos maçons afirmam que nas respectivas
Lojas não se trata nem de religião nem de polltlc8j muito me-
nos hã ai tramas contra os inb~l'êSSes do Reino de Cristo. Em
numerosos casos, os homens se sentem atraidos à Maçonaria
pelo fato de Que esta lhes oferece apoio e auxilio humanitário
ou promocional, sem que nutram intenções antieclesiais. Ora,
levando em conta tal realidade, a S. Igreja hoje, sem suspen-
der o cinon 2.335, houve por bem definir com precisão o
significado deste em nossos dias: a excomunhão infligida aos
membros de Lojas Maçônicas que «maquinam contra a Igrejp,
não atingirá aqueles que se Inscrevam em uma Loja que não
trame contra a Igreja. t: mister, pois, distinguir entre Lojas
que tramem e Lojas que não tramem contra a Igreja.
Este documento da S. Congregação para a Doutrina da Fé
foi estudado pelo episcopado nacional reunido na sua 14. As·
sembléla Geral em Italci (SP) de 19 a 26 de novembro de
1974. Alguns bispos manifestaram então o desejo de esclare-
cimentos sobre dois pontos que lhes pareciam capitais a fim
de poderem aplicar a nova orientação da Igreja concernente
aos maçons:
l. Qual o critério a usar-se para se verificar Se uma
associação maçOnlca realmente não conspira contra a Igreja:
bastará. o depoimento de algum ou de alguns dos seus mem·
bros, ou será. necessé,rJa uma atitude oficial da própria LOja?

2. Que sentido e ex.tensão devem ser dados à expressão


«maquinar contra a Igreja.?

- 372-
AINDA IGREJA E MACONARIA 45

Estas duas perguntas (oram apresentadas à S. Congrega..


ção para a Doutrina da Fé, com o pedido de que se pronun-
classe oficialmente sobre tão deUcado assunto. A resposta
veio com a data de 12/ 03/ 75 através da Nunclatura. Apost6-
lica em Brasilla, tendo o seguinte teor:

"Ao Item 1: Seria talvez desejável (mas certamente nAo


sufíciente e não de se esperar) uma declaração pública por
parte da associação em questAo, na qual se dissesse que
nao entra nos Intentos dela combater a Igreja. Parece, entr.
tanto, que 58 poss~ dar fé àqueles que, Inscritos hA anos na
maçonaria, solicitam espontaneamente serem admitidos aos
sacramentos (o que lhes era antes negado por aSse motivo),
declarando - 'onerala Ipsoru m conseienUa' - que a asso-
ciaçãO (Lola) na qual eslAo Inscritos não persegue e nAo tem
mais exigido deles compromissos .contrários à sua reta cons-
ciência cristA.

Não parece, por oulro lado, conveniente que os Bispos


façam, ao menos na atual situação dos fatos, pUblicamente
declarações sobre esta ou aquela associação.

Ao Item 2 : Da frase 'maquinar contra a Igreja' pode-se


dizer. de modo geral, que se deva referir a 'delitos' <:ontra a
doutrina, as pessoas ou as Instituições eCleSiásticas; note-se
que Isso diz respeito il associação .como tal e não a cada
membro tomado singularmenté".
Destas declarações resulta que
1) Quando se trata de um maçom que jA há anos estA
matriculado na Maçonaria e quer voltar à comunhão da Igreja,
é o próprio interessado que fornece aos SI'S. Bispos e sacer-
dotes as indlcaÇÓ(!S necessArlas sobre a orientação da sua Loja
frente à . Igreja Católica. Su~se Que conheça. por longa
experiência as diretrizes filosó!lC(rreUgiosas da Loja. O ma-
çom deverá fornecer as mencionadas indicações com sinceri-
dade, de modo a assumir dJante de Deus a responsabilidade
das suas declarações: desde que procure a Deus nos sacra-
mentos da Igreja, procure-O com sinceridade, pois, se é pos-
sive] enganar aos homens (pastores da Igreja), a Deus não
se pode enganar.

A declaração feIta pelo Irmão maçom hã de ser corrolJo.


rada pelas atitudes públicas da Loja a que pertencei se esta

-373 -
46 ..PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 188/ 1975

realmente não di testemunho de combate à Igreja, os pastO'"


res da Igreja poderão prestar crédito 80 declarante.
Ainda que wn ou mais membros de determinada Loja
afinnem a lndole meramente hwnanltária (e não antl·relJ·
giosa) dessa Loja, nlo convém que os Srs. Bispos em público
dêem testemunho de apoio ou solidariedade a tal Loja ...
IDl:ta recusa há de ~r entendida. no nosso atual contexto his~
rico: a Maçonaria estA muito diversUicada; a seu respeito
ainda há opiniões divergentes, de tal modo Que o abono públiCO
dado por um BIspo a determinada Loja poderia provocar mal·
...entendidos e discórdias desnecessárias.
2) Verifica·se que o texto-resposta de Roma náo trata
dos candidatos que ainda não pertençam à maçonaria e nela
queiram Ingressar. Fica aberto então o problema: quem asse--
gurará Que a Loja maçOnica que eles não conhecem ou pouco
conhecem em seu fWlcionamento interno, não trama contra a
Igreja!
Valem o testemunho daqueles que, já tendo alguns anos
de Loja e sendo católicos em comunhão cOm a Igreja, ates-
tam a Inocuidade de tal Loja? OU bastará o contato Inicial
do candidato com a respectiva l.Dja para que possa atestar
legalmente 8. Inoculdade da mesma! - A resposta de Roma
não se pronW1c1a a respeito. Pareee que a experiência dos
maçons mais experimentados e católicos poderia legitimar o
ingresso de candidatos católicos na respectiva Loja. Ao con·
trãrio, a pouca experiência dos lnlciantes na Loja maçônica
não parece suficiente para tanto.
3 . ) Não trama contra a Igreja aquela Loja que não agrjde
publlcamente a doutrina oficial, as pessoas ou as instituições
da Igreja. Por conseguinte. não é necessârio haja .. complô.
secreto ou planejamento de ação hostil.
O texto de Roma responde empregando a palavra «dell-
tos~ em sentido pregnante, ou seja, no sentido que o Direito
CanônicO atribui a este vocãbulo. Ora no Direito Canônico
deUto é a violação exteriorizada e l1Ycalmente imputável de
uma lei eclesiástica, viOlação à qual se prende uma sanção
canônica determinada ou a ser determinada. Por exemplo.
impugnar publicamente a doutrina oficiaI da Igreja a respeito
do casamento ou do direito à vida vem a ser O mesmo que
defender uma heresIa; isto é delito no sentido do Direito
Canônico.
-374 -
AINDA IGREJA E MACONARIA 47

se uma loja realmente nio comete delitos do teor acima


enunc1ado, mas algum de seus membros os pratica, nAo se
estenda iI Loja Inteira a qualUiC8ção canônica que wca a tal
de seus membrosi pode um maçom ser contrário li Igreja nio
pelo fato mesmo de ser maçom, mas em virtude da sua fil()w
sofia pessoal. Nlo se diga, pois, que wna Loja maquina con~
tra a Igreja se as suas programações são lnócuas, mas algum
de seus membros é antlcristáQ no seu foro pessoal. Todavia é
certo Que uma Loja de programas sadios pode voltar-se con~
tra a Igreja pelo tato de que seus membros anticatóllcos QUef~
ram lnfiuir decisivamente na orientação dessa Loja; a Loja
então poderá tomar-se anUcatóUca enquanto estiver sujeita à
lnfluênc1a (talvez momentânea) deste ou daquele de seus com·
ponentes anticatóllcos.
Em suma, estes dados mostram que a questão das rela-
ções entre e. Maçonaria, os maçons e a Igre1a eatóUca ainda
é complexa e delicada. Todavta não é questão fechada ou Jnso..
lúvel. Pode-se admitir que, preenchidas as condições enuncia-
das e mmadas as necessárias cautelas, um macem de fonna-
ção católica pertencente a uma Loja inócua à Igreja. fre-
qUente os sacramentos e pertença à comW1háo ecles1al, sem
deixar de ser maçom.
Eot<ivio Beltonoourt 0.8.B.

• • •

livros em estante
Inlroduçlet • 8lblla 11/1: P.nl.tauea, por Teodorfeo Ballarfnl, Enrleo
Gl lbl"t! • Lulgl Moraldl, Traduçlo de Ephralm Ferreira Alves. - Ed. VOUI,
Pelrópolls 1975, 170x232mm, 387 pp.
E.II mal. um volume da obra "Introduçlo 111 Blblla" lançada na Itjlla
após o Concilio d<l Vallcano li, tendo como Olralor-Geral o P. Teodor/co
Ballarlnl e como co-dlrelores OS PP. Slalano V)fgulln e Slanlslu Lyonnel.
O"la obra J' .. Irem em portU'gul. OI 10mOl I (IntroduçAo Geral, 1968), IV
(Evengelho., 1972), VII (AI, 1/2 Ta, 1/ 2Cor, GI, Rm, 197<4) e V/2 (.plstola.
do cativeiro, pastorala, Webreu., Católicas, Apocalipse). Hoje Uludamos o
\/01. 11/1, que aborda o Pentateuco, enquenlo os demais volumes .. tio
.endo anunçladOl para 05 próximos lempos.
E.tla "Introduçlo 6. Blblla" 6, eo mesmo tempo, allamente erudlll e
didática (o que nem I8mpre ocorre). Esgota, na medida do passlval, 11
queate.. Inlrodutórlu gerais e a. eap8clllca. de cada livro; além do que.
apresenta sempre alguma. amostras de exegese. t: o que se dá com o
estudo do Penlateuco em loco.
-375 -
4.8 , PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 188/1975

o principal problema que sa põe ao exegeta nesle selar, li o des


lonl .. do Penta'auco. Ora OI autores do tomo 1111 expõem minuciosamente
o t'llstõrlco da quest!o, principalmente a partir de 1753 ; apresantam as
poslç!!GS do. dl...."OI criticas ai" data 1IlI:anla (1966). Concluam lem-
brando a Inconvenllnc:l. de red~lr a problemâllca a esquemaa de soluçlo
preconcebldoe segundo a5<:ol.. l1tosóllcas que Alo levem em conta a
realidade histórica do, "Ias ou a amblenlaçlo dos taxtos blbllcol. Admi-
tem - como, allta, nlo se pode delx.r da admitir - os quetro documento.
J E O P, cujas ceractarlsUcas oa autores do tomo descl1Ivem minuciosa-
mente. Todavia chamam a alançAo para o senUdo um tanto vago da
palavra "documento" no casO ! !tala-se de grupos ou famWas de textos, que
loram .nl.lx8d~ no Panlateuco; antea de Gerem aI Incluldos, pergunta-se,
erlm tradlç6es, estratos ou masmo documentos? CI. p. 7• . A aceltaçlo
da quatro lonles do Pantateuco .. hoje considerada uma hlpOtese da tra-
balho, que contém pontos sobre os quais a malolia dos cr lUcog eglá de
acordOi fica lindo úllI na medida em que concorre para melhor .e com-
preender o texlo aagrado. Restam, porém, numerosu questões abertas 110
locante ao sufio, 1 elaboraçlo e ao entrelaçamento de cada uma das 'ra~
dlÇões ollgln'rl.', Esla aUrmaçlo astá em plena co nsonAncla com o magis-
tério alual da IgteJa. Nas p'olna. 85·87 o Ilvro analisado trata da questlo
de "MOls,s escrltor", admitIndo qua o prOprlo Moisés tenha redIgido elgo
do acervo mais anllgo do Pentateuco.

510 merecadores de elençAo outrossim os espéclmens de exegeae


apresentados l i pp. 1.9-2•• a 301-359. Os autores fornecem Important"
dados para o eatudo da pré-hlslólla blbUca (origem do mundo, do homem,
pecado dos primeiro. pais, Calm e Abel, dllU\ilo, torre de Babel). No crua
conceme lO pollgenlsmo, 0$ aulores da Introduçlo citam documentos da
PIo Xli a Paulo VI que fazem reservas a tal doutrina; apresentam, por"'m,
ampla bibllogra11a em que o assunto é discutido; por fim, aduzem o.
nomes de exegeto e te610g01 abalizados, como Grelol. Rahner. Lavocat,
Blandlno, segundo os quais o pollgenlsmo nlo • Incompatf\l8l com o dogma
do pecado orlglnat 11 com o magistério da Igreia honestamente entendidO;
o estudioso slncaro de.... limitar-se a esta forrl'lulaçlCl neg.tlva, sem que
possa aUrmar outr~ dados em terreno da tio dlUcfl pesquise. A f.da
Igreja ensina, sim. a ele....ç.o do nomem ao estado sobrenalural fi a
queda dos prlmalros pais togo no tnlclo da história. Esta verdada de fé
nAo é contrad Jtada pele leorla do pollgenlsmo. mas salvHe mesmo em
tal hlpótes.; ora lato basla para que a " filo re jeite (o que n'o ah;lniflca
"abonar"J o pollo.nlsmo.

Quanto .0 p8c.do originai. os autores propõem e Interprataçao hls-


lórlco-relttlstlca e e hlstórlco-slmbOllc., pr.'arlndo e,te última : a narraçlo
de Gn 2-3 supõe um nuclao hlst6r1co levestldo de .Imbolos tlter'rlas (ser-
pente, Arvore do bam e do mal. Arvore de vida, querublns ... ); alude. por
carta. a um estado de elevaçAo sobrenatural. que o homem perdeu por
desobedtencla a um modelo de ...Ida apresentado pelo Senhor Deus. A
Inlarprelaçlo sexual do pecado dOI primeIros pala 6 colocada sob s6rlal
reaervas.

Em Ifuma, o novo livro de Batlarlnl, Galblatl e Moraldl • de alio ...elor


axegétlco e escolar. ServIr' grandemente a estudantes, professores e cete-
qulstas, ofarecendo-Ihes amplaa Inlormltç!!e s e crllérloa de Julgamento con-
unllneos com a rela fé.

-376 -
Em .pendlce perguntemos : li p. M, a dita Indicada no 11m da pAgina
nlo s,rla 538 a .C., am vu de 458 a . C. 1

Deus ou Nada. Re"exa.t, lebre o aleramo moderno, por Romano


FI,uk. Coleçlo "Homem ,m qlleslAo 1'19 11, - Ed, Paullnu, 510 Paulo
1915, 130 li 200 mm, 319 1'1'.
Esle livro, devido • um benedlllno húngaro de SAo Paulo. (,Iuma um
conjunto di conlerênclas reallzades em Facilidades de Silo Paulo, Sanloa.
Brasllla, Golanl., Cul.s do Sul. NOlla Vlne.zl. o aulor especlaUlou-ae n08
escritos de TeNllard d. Chardln 11 na problemallca do alelamo contempo-
rlneo. No livro em apreço aborda. em estilo comunlcallvc a multo aceul-
....1. I questAo do homem, de seu desUno, A sagulr, .stuele l i caracterls.
tlca, do alelemo moderno a dos principais r1Ipreaenlantes desta atltud. no.
lompos. aluals : Mlrx, Nlelllche. Sanra ... : ancera lambêm a poalçlo dOI
leólogos da "morte de Deus" (Bonholller, John Roblnson, Paul vln Buren,
Wltllam Hamilton, J. J . Alliz.r, HaIVay Co.). Ao mesmo tempo qUI prop6e
obJetivamente o penaamento desses auto rei. Aoma" Reze k r.llata sobre o
mesmo, confrontando·o com pAginas de Pascal, S. Anselmo, S. Tom" da
Aqulno, Tellharel de CII.relln, Oanlélou; donde se evidencia que o ".llmo,
.m (lllIma anAlla., ainda' uma demanda de Deu,. qtre do ,eu modo con-
Irt~t para depurar I "alorluf a aulênllca .. no Eterno.
Inter.ssanle é a antologia da textOl d. P,ascal, Garludy. oanl"ou e
TeUt;ard da Charelln que o l alor apresenta. Emborl Tellhlrd dev. ser
explicitado e complem.nlado. RlBtek soube escolher IS passegans maiS
I"cldas de"1B escritor, c.paU$ dê falar a Um ateu conternporlneo craUhard
r:llo ê propriamente um ',ólogo nam um IIIÓ5010. mas um ml,tlco, IQ\IO
1'11). I)OU aar o apÓslolo dos c/enllslas .teul • qua, como lal, consegui:.
algo do ..u objallvo). Tenha·se Itm ,,1st a I.mbém o vocabul'rlo '·.ar1tlill no"
oua Rezek propOe a explica , ajudando o leitor a compreendlr a lermlnologla
multo alngular d. Saftr. : ....I.te nclal, ••istenclal, exllt6ncla, ...Incla.
nada .. . H

O Il'<Iro ser' ull! a quem deseja conhlcer, em prlmelr. abordagem


ou em afntesl, alguns doa principais ellpotntal do ,Ialsmo moclarno, com
8 ra.pactlva refutaçlo; •• rvlra. com prOY1ltto a cursos d. fIIoaofla • fund.-
m.ntaçlo le(llóglca. da mall a mais que apres.nta bibliografia cuidadosa-
mente recenseada.
A Igreja da clrcunclslo. História e arqueOlogia do, judeu-crlltlos,
no, Belarmlno 3a911111. O. F.M. Traduçlo Cfe Ludovleo CIo""UI, O. F.M .
P'Iblicaç6es CID : Exagese/ 2. - Ed. Vozes, Petrópolis. 1975, 137 x 200 mm,
323 pp.
Eate lI... ro trata d. uma porçao da hlal6rla da Igreja qua até os últimos
ttmpos .ra assaz pouco conhecida: u comunidades de Judeus que abr.·
çarlm o Ev.ngelho • vlv.ram como crlsllos n~ três ou quatro prlm.lros
••culos do CrIstianismo. O Cerdea' Jean Oanl610u começou a Intarener"e
rec. ntemente por ,al faelt. da Igreja: ainda atualmanle oPa. Baga"l. pro-
feSsor no Estudo Blbllco Franciscano da J'rulllam, dedica-s. I tal estudo
na qualidade de arquaologo, lingüista e hlslorlador .mérlto.
O aulor Inallsa as varias comunidades }udeo-crlslb da antigüidade
81'11 Jerusalém, na Palestina, na TransjordAnla, na Slrla, na Alia Menor,
em Roma. no Egito; elluda sua organlzaçlo. auas .xpresseel de f6 • de
culto, seus monumento, reIIgIOt:<I', .tc .. pondo ,. lona uma riqueza do
dados que • mentalidade do! erlstlos ocidanlall mcdatnos cottuma Ignorar.
E nlslo que conslst. o Vllor do livro em 10<:0, cuja leltur. há d. aa:lsfazer
!li qu.m ,nocu'e cont.llcer m. lhor o C,I.Uanlzmo e sua~ ,elaçOe:) com o
ludallmo.

DlYÕrclo. A favo r ou con".1, por Lul' Josá d. ""elqulla. - EdlçOes


LT" 510' Pauto 197.5, 137. 210 mm. 128 1'1'.