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7ª edição

© 2005 by Carlos Heitor Cony

Todos os direitos desta edição reservados à


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Disponibilização e Conversão PDF: Baixelivros.org

Arte-final de capa
J. A. Barros

Imagem de capa
Afresco de Pompéia (Vila dos mistérios), 80-70 a.C.
sob autorização do Ministério para
os Bens e Atividade Cultural –
Superintendência Arqueológica de Pompéia

Revisão
Umberto Figueiredo Pinto Sandra Pássaro Tereza da Rocha Damião Nascimento

Conversão para E-book Freitas Bastos


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

C784c

Cony, Carlos Heitor


A casa do poeta trágico [recurso eletrônico] : romance / Carlos Heitor Cony. - Rio de
Janeiro : Objetiva, 2011.
recurso digital

Requisitos do sistema:
Modo de acesso:
127p. ISBN 978-85-390-0188-0 (recurso eletrônico)

1. Romance brasileiro. 2. Livros eletrônicos. I. Título.

10-5619. CDD: 869.93


CDU: 821.134.3(81)-3
Primeira parte – o poeta
I

Mona estava ali, às suas costas, avaliando-o, antes de enfrentá-lo. Avisara que viria,
não a compreendesse mal, nem apressadamente: desejava ouvir o que já sabia. Era
pouco. Era muito. Talvez não fosse pouco nem muito, era o bastante.
Augusto a sentia, sempre a sentira. Sobretudo quando ela nada fazia. Fora assim
no dia em que a vira pela primeira vez, há vinte anos, no navio que se aproximava de
Nápoles, no final do verão de 1975.
Agora era início de inverno. Ela chegara na véspera, vinda de Milão, ficara na casa
de alguma amiga no Rio. Ele não a esperava tão cedo, só no fim de semana. A
passagem do tempo, que o tornara velho e doente, talvez a tivesse modificado. E não
mais fosse a adolescente enrustida que convivia com a mulher madura, de acordo com
um código que era a primeira a não compreender.
Ele na cadeira de rodas, com o seu uniforme dos últimos anos: a calça branca, o
blusão de xadrez azul e preto, a pequena almofada no colo, para descansar as mãos.
Ela num daqueles tailleurs que gostava de usar e que lhe davam a aparência
asséptica de uma executiva americana.
Não se mexeram, mas Segredo mexeu-se por ela e por ele. O cão estava deitado
junto à cadeira de rodas, na proximidade que os cães têm com o dono — não importa
que dono. Se Mona fosse uma estranha, Segredo teria se levantado, focinho cheirando
o ar, avisando que alguém chegara. Mona não era uma estranha ali. Tanto quanto o
dono, Segredo sabia disso.
Na varanda aberta para o jardim, no salão, nos quartos, em toda a casa, até
mesmo nas trilhas de pedra que cortavam o gramado e cercavam a piscina, em tudo
Mona ficara presente, impregnando o tempo com sua voz pausada que nunca rompia o
silêncio que havia dentro dela.
Augusto sabia: ela estava ali. Nem precisava reparar em Segredo, que apesar de
continuar deitado, levantara as orelhas. Sinal de reconhecimento e, ao mesmo tempo,
de perigo.
Montada a cena — ele, ela e o cão —, alguma coisa logo aconteceria, rompendo a
monotonia dos últimos meses, desde que ele aceitara — e exagerara — a condição de
enfermo e se submetera à cadeira de rodas cromada e fria que, primeiramente, andava
com ele, depois vivia por ele.
Mona percebeu que Segredo a acusara. Também conhecia o cão, que ela
acolhera, havia seis, sete anos, na complicada ninhada de nove filhotes da veterana
Brigite, a setter irlandesa que ganhara de Augusto no Natal de 1983. Ela queria um
filho, Augusto tivera um e bastara. Houve a cestinha de vime com a pequenina Brigite,
os olhinhos ainda fechados.
Dois anos depois, Brigite tivera a ninhada, distribuíram os filhotes entre amigos,
Mona escolhera Segredo — e também escolhera o nome. Para todos os efeitos,
haveria Segredo entre ambos.
Dono e cão sabiam que ela estava ali. Não se mexeram, nem era caso para
efusão, tampouco de receio. Eles procurariam o território neutro e comum do passado
— e Segredo, de muitas maneiras, podia ser a coisa mais neutra e comum do passado
que cada um, a seu modo, tentava esquecer.
A aragem vinha do jardim, dos pinheiros que cercavam a casa, dando-lhe sombra e
cheiro, cheiro que parecia um pouco com o cheiro de Mona, feita de carne quase
vegetal — em criança, ela gostava de se imaginar como não-gente, às vezes era água,
às vezes planta ou árvore —, daí a continuidade, a persistência de seu silêncio, de sua
sombra. Tudo isso (silêncio e sombra) estava ali, observando Augusto pelas costas, a
cabeça mais alta do que o encosto da cadeira, os cabelos mal cortados, grisalhos, as
mãos em posição junto às duas rodas cromadas e frias que, de repente, o moveriam à
direita e eles ficariam frente a frente.
Como nada acontecesse, Segredo baixou as orelhas, dispensando-se de continuar
emitindo o sinal que agora adivinhava inútil. Augusto olhava o jardim, o mais-que-olhado
jardim que havia cinco anos era não apenas a sua paisagem única, mas o caos em que
ele pairava como um Deus no início da Criação. Fiat Mona — e Mona foi feita. E
Augusto viu que Mona era boa. Façamos Mona à minha imagem e semelhança.
Ele rompera o caos, separara terras e águas, dias e noites, criara Mona e todos
os luzeiros do firmamento, os pássaros do céu e os peixes das águas. Infinitamente
imperfeito, tinha orgulho de sua Criação, amava-a, mas a condenava. Sobretudo, não a
perdoava.
Mona também pensava, mas em outra direção e com outro sentido: quem agora
cortava o cabelo de Augusto? Ele detestava os profissionais. Nos 17 anos de vida em
comum, ela é quem aparava os cabelos dele, cortando as pontas sempre de forma
incompleta, ele se impacientava, nunca a deixava terminar, parecia humilhado em
permanecer com a cabeça baixa, imóvel. De repente se levantava, com a toalha tirava
fios de cabelo que se grudavam ao pescoço ou haviam caído nos ombros, declarava-se
ótimo: “Está bem, está bem, mês que vem você corta mais.”
Segredo continuava imóvel, como o dono. Habituara-se às reações de Augusto,
sobretudo às não-reações — o que era mais freqüente nos últimos anos.
Mona viera de longe, de Milão a Itaipava tinha mil coisas para lembrar ou pensar.
Ridiculamente, se fixava naquela nuca vencida, coberta pelas pontas irregulares de um
cabelo fosco, sem vida. Fosse outra a situação, não pensaria em quem estaria
cortando o cabelo dele. Mesmo não querendo, pensaria: “Quem estaria amando o
homem que ela amara?”
A varanda tivera o piso mudado, era de cerâmica, lajes quadradas “da cor de
Roma” — como ele gostava de definir cada coisa de sua casa e de sua vida. O
assoalho agora era de tábuas de madeira, como as do salão. Por que ele trocara o
piso? Augusto nada fazia, não dava nem desatava um nó sem ter um motivo preciso,
um motivo que ele considerasse “histórico” para mudar um móvel de posição, para
vestir essa ou aquela camisa, para pedir um copo d’água ou de vinho.
— Recebi seu recado — disse ela, enfim, desconfiando que devia ser a primeira a
falar.
Segredo levantou novamente as orelhas, senha que transmitia ao dono para que
também ele rompesse o silêncio:
— Não mandei recado algum — respondeu Augusto, contrariado pela maneira com
que ela iniciava a conversa, dando a entender que estava fazendo um favor,
correspondendo a um pedido dele.
Mona se aproximou. Da cadeira — e do próprio Augusto — vinha um cheiro de
cama desfeita, cama de doente que se levantara para que a enfermeira arrumasse os
lençóis. Nos últimos meses da vida em comum, imaginava que Augusto terminaria numa
cadeira de rodas, e então seria somente dela, dependeria dela — e gostava de sonhar
com esse domínio total, transportando aquele homem pesado e doente de um lugar
para outro, sempre num corredor muito branco, branco como o tempo é branco quando
ainda não aconteceu.
Ao perceber que Mona continuaria às suas costas, Augusto movimentou a roda da
direita, fazendo freio na roda esquerda. A cadeira girou e os dois ficaram frente a
frente.
Mona perdeu a vontade de explicar aquele “recebi seu recado”. Olhava o homem
que amara, o homem que a amara e na certa ainda a amava. Se o amor é paciente e
laborioso, Augusto não mais tinha tempo para ser paciente e, agora, pouca vitalidade
para ser laborioso.
Não podia dizer que ele envelhecera. Quando se conheceram, já era velho, embora
não fosse “um velho”. Trinta anos de diferença, ela com 16 em vésperas de 17, ele se
aproximando dos cinqüenta.
Até que o tempo que passaram sem se ver — três anos — pouco o havia afetado.
Incrivelmente, ele não tinha rugas no rosto, os olhos eram os mesmos, vivos, inquietos,
embora houvesse, na órbita esquerda, o sinal da plástica que fora obrigado a fazer
quando se acidentara na briga com Otávio. Tentara impedir que o filho, já embriagado,
bebesse pelo gargalo o resto de vodca de uma garrafa. Pai e filho discutiam mais uma
vez, Otávio percebeu que não convenceria o pai a aceitá-lo tal como era, apanhou a
garrafa no pequenino bar do salão, Augusto tentou impedir, Otávio não teve força para
enfrentá-lo, soltou a garrafa de repente, o pai esperava maior resistência do filho, a
garrafa foi de encontro ao rosto, por pouco não o cegou. O canto da órbita sangrou,
teve de ir ao pronto-socorro, em Petrópolis, levou pontos, a cicatriz ficaria para
sempre.
Augusto percebeu que Mona o examinava. E, mesmo contra a vontade, também a
examinava, com assombro, como se aquele corpo longilíneo, previsível em seu tailleur
branco, um branco que parecia cinza muito claro, de caimento confortável, “caimento
europeu” — como ela gostava de se vestir —, nada tivesse com aquela Mona que ele
pegara adolescente e para ela contara a história do mundo.
Agora, Mona era a estranha que invadia seu espaço, contaminava a cadeira de
rodas, fazia Segredo erguer as orelhas, sinal que ainda não era de perigo mas de
cautela.
Olhavam-se com curiosidade, mais curiosidade do que respeito. Em três anos
acontecem coisas, mas tinham certeza de que nada de importante realmente
acontecera. Eram os mesmos — apesar da cadeira de rodas para um e da aliança de
casada que Augusto, num olhar desprevenido, descobrira na mão dela. Nos anos que
viveram juntos, mesmo depois de casados, eles nunca haviam usado alianças. Sim,
grandes mágicas do tempo.

Tempo.
Tempo não desejado por eles mas que se abriu para que ambos se olhassem, se
examinassem e, cada um à sua maneira, se reencontrassem na nudez e na verdade do
passado.
Houvera e não houvera o recado. Dependia do ponto de vista de um e do outro. O
advogado de Augusto, que refizera o último testamento, ligara para Milão, perguntando
se ela fazia questão do pequeno apartamento que nunca usara, não o alugando, não
pagando as taxas, como se não fosse dela ou não existisse.
Mona recebera a consulta como um recado para decidir se assumia o imóvel.
Podia ter dado procuração ao mesmo advogado para regularizar a situação, ou vendê-
lo, se fosse o caso. Dependendo do grau de seu interesse em assumir ou se desfazer
do apartamento, seria mais prudente se tratasse do assunto pessoalmente. O marido
dela estava dirigindo a filial de uma seguradora em Trieste, não podia viajar. Ela
trabalhava numa agência de marketing e publicidade, havia ganho o prêmio de melhor
agente da região norte da Itália, estava indicada para o prêmio nacional do ano, tinha
autonomia profissional e liberdade doméstica para viajar quando e para onde quisesse.
Decidiu vir. Primeiro, porque havia três anos que não vinha ao Brasil. Segundo,
porque se sentia protegida por aquele “recado”. Quanto ao apartamento, mal se
lembrava dele, era coisa pequena, embora não fosse mesquinha. Bem situado em
Ipanema, perto da praia, em edifício moderno, valeria uns 70 mil dólares — e ela não
era rica o suficiente para desprezá-los.
— Você pediu ao advogado para que eu decidisse sobre o apartamento. —
Augusto percebeu que Mona falava com ligeiro, impercebível sotaque, o que era
espantoso, ela vivera parte da infância e da adolescência na Itália, sobretudo em
Nápoles, onde a pronúncia é forte e reveladora. Nunca falara com aquela entoação
cantada, meio rascante.
Ia comentar o sotaque de Mona, mas se conteve, não queria ser o primeiro a
entrar no terreno pessoal, embora a inferioridade física tornasse inútil o orgulho. Disse
o que pensava:
— Você veio sondar o testamento. Saber se vai levar alguma coisa. Para ser bem
claro: você não vai receber nada, a não ser o apartamento que não é meu. É seu
mesmo.
A brutalidade da franqueza não perturbou Mona. Já a esperava. Apenas achava
que Augusto não iria se mostrar tão rude. O natural seria que ele quisesse saber dela,
pelo menos, ela queria saber dele.
— Não estou interessada em seu testamento.
Mona descobriu, num canto da boca de Augusto, o mesmo músculo que tremia de
forma descontrolada quando ele atingia o orgasmo. Por mais que parecesse ridículo,
ela se excitava com aquele tremor que fazia uma das pontas do bigode parecer maior
do que a outra.
O bigode agora está branco, totalmente branco. Quando se conheceram, o bigode
já embranquecia, mas Augusto o pintava com uma tinta japonesa que em certas
ocasiões dava a seu rosto alguma coisa de máscara. Por sugestão dela, passara a
escurecer o bigode com rímel, era mais suave, lavável. Depois da separação, ele
deixara o bigode ficar completamente branco, mas continuava farto, potente — e ela se
surpreende ao descobrir que ainda podia desejar aquele homem inválido, trinta anos
mais velho. Agora, parecia mil anos mais velho.
Augusto não percebeu que a voz de Mona tremera um pouco. Tentou ser claro:
— Se você veio brigar, perde seu tempo. Consultei vários advogados. Os anos em
que vivemos sob o mesmo teto dariam direitos, mas você saiu de um teto para viver
sob outro...
— Não é bem assim. Não vivo sob um mesmo teto com outro homem. Eu casei.
Casei mesmo. Casei com o homem que amo.
Ela ia mostrar o dedo com a aliança mas considerou o gesto vulgar. Vulgar e inútil:
ele já a devia ter visto.
Augusto insistiu:
— Você não iria deixar esse homem que ama se não tivesse um motivo... afinal, eu
sei como você ama...
— Pense o que quiser. Não vim brigar com você, nem na Justiça nem aqui. O
advogado foi claro quando me consultou a respeito do apartamento, falou exatamente o
que você acaba de dizer... que eu não receberei nada e que não terei direito a nada, a
não ser ao apartamento. E eu quero o apartamento.
— Você nunca pagou as taxas, o apartamento nunca foi usado, só deu despesa e
chateação...
— Se for o caso, reembolso o que gastou desde que nos separamos. Não pedi o
apartamento, foi você quem quis comprá-lo para que eu, se me aborrecesse de sua
companhia, me mudasse para lá. De alguma forma, você queria continuar mandando na
minha vida...
— Não foi bem isso. Se chegássemos a um ponto insustentável, gostaria que fosse
morar em outro lugar. Pensei que você ficasse no Brasil, não podia prever que teria a
oferta de emprego em Milão...
— Eu sou boa nisso, você sabe.
Augusto a olhou, então pela primeira vez, com curiosidade pessoal:
— Me disseram que você é ótima...
— Tive um bom mestre...
Os dois se olharam com surpresa. A conversa mudara de rumo e afinal sentiram
que estavam, efêmeros e sofridos, novamente juntos.
Com o olhar, Mona apontou a cadeira:
— Como tem agüentado isso aí?
— Não agüento. Simplesmente não agüento. Passo a maior parte do tempo
deitado na cama ou sentado na poltrona do salão. Só uso a cadeira para
deslocamentos — e cada vez me desloco menos... nem sinto necessidade disso. No
início da tarde, gosto de vir para a varanda, ver o jardim, os pinheiros... saio da cama
ou da poltrona para a cadeira, consigo dar uns passos... quando estou com alguma
coisa na cabeça, chego a esquecer a cadeira e caminho normalmente, Segredo me
acompanha, é o melhor momento do meu dia...
Mona evitou pensar naquele “alguma coisa na cabeça”. Sabia, por comentários de
amigos comuns, que Augusto não chegava a ser um paralítico. Depois da morte de
Otávio, coincidência ou não, começou a ter dores no joelho esquerdo. Dor que se
estenderia ao longo da perna. Sozinho, remoendo a solidão buscada e conseguida,
achou que era sintoma grave. E como gostava de queimar etapas, comprou a cadeira
de rodas, com o tempo habituou-se a ela, sentia-se protegido, agora que se
considerava um inválido. No fundo, ele sempre tivera muitas coisas na cabeça.
Mona olhou o jardim, que mal tinha reparado. Olhou também os pinheiros, que
pareciam maiores e mais compactos.
— Eu havia esquecido como eram bonitas essas tardes...
— Terei poucas tardes... e gosto de vir aqui...
A conversa com Mona o distraía de seu “melhor momento”. Acionou as duas rodas
cromadas, dirigindo-se para a varanda. Segredo levantou-se e foi atrás do dono,
tornando a deitar quando Augusto puxou o freio que travava as rodinhas de borracha
que deslizavam pelo assoalho.
Mona reparou nas tábuas que revestiam o chão da varanda. Fora dela a idéia de
colocar lajotas de cerâmica ali, ela mesma desenhara um tipo quadrangular, de bom
tamanho, que tinha pequenas estrias, pareciam letras de um alfabeto desconhecido.
— Por que tirou as lajotas? Eram mais bonitas do que essas tábuas corridas...
combinavam com a varanda...
— Mas não combinavam com essa cadeira... aquelas estrias que você desenhou
prendiam as rodinhas, eu precisava fazer força... acabei me aborrecendo e mandei
botar tábuas lisas, corridas, estou numa fase em que...
Augusto olhava os pinheiros que cresciam, num verde-escuro e civilizado, contra o
azul-arroxeado de um céu de inverno. Por um momento, ficou sem encontrar a palavra
que buscava, ele, que sempre usara com eficiência as palavras.
Olhando para os pinheiros em volta do jardim, sentiu — então pela primeira vez
naquele início de tarde — o cheiro forte que vinha de Mona.
Ela voltara.

II

O Eugenio C deixara Catânia e seguia para Nápoles, penúltima escala do cruzeiro


pelo Mediterrâneo. Augusto Richet tentava recomeçar a leitura do relatório que redigira
na véspera. A agência em que trabalhava pegara a conta de uma concorrente que
vendia pacotes turísticos, destacara aquele que o mercado considerava seu melhor
profissional para fazer um cruzeiro-padrão.
Com 46 anos, ele se destacava como homem de criação, depois comprara
algumas ações da agência, ganhara autonomia operacional, achou que a viagem seria
dispensável, fizera cruzeiros pelo Caribe e conhecia as principais escalas do
Mediterrâneo. A última havia sido com Teresa. Depois, tudo se precipitara. Sônia, a
mulher, ficara com Otávio. Teresa também quisera um filho, ou melhor, arrancara-lhe
um filho — que morreria três dias depois de nascido.
E como se sentia livre, sem retaguarda, sem futuro previsível, achou melhor topar a
viagem. Começava a desconfiar que não sentia falta de nada.
A agência escolhera o cruzeiro mais banal: Gênova, Sorrento/Capri, Palermo,
Túnis, Ibiza, Palma de Maiorca, Catânia, Nápoles. E Gênova, outra vez. Havia roteiros
mais brilhantes, embora tudo fosse mais ou menos a mesma coisa, a mesma rotina de
bordo, as mesmas caras, os mesmos passageiros. Em certos momentos, a mesma
chatice.
Foi com surpresa que descobriu grupos de jovens entre os passageiros.
Quebravam a monotonia dos dias em que o navio, em navegação, não parava em
nenhuma escala. Como sempre, havia de tudo e para todos os gostos. Em outra
situação, ele até que tentaria se aproximar de alguma mulher — e descobriu uma,
vagamente holandesa, que à noite desfilava um guarda-roupa suntuoso, de péssimo
gosto.
Viu-a na piscina — e uma mulher daquelas não viajaria sozinha. O navio estava
habilitado para divertir os passageiros, fossem quais fossem suas necessidades.
Espalhados pelos salões, havia homens especializados em fazer companhia àquele tipo
de mulher. No terceiro dia de viagem, a holandesa grudara-se num deles, tipo cafetão
internacional, um pouco parecido com Marlon Brando, orgulhoso de um bigode
compacto e negro.
Avaliou as mulheres disponíveis, havia outras igualmente solitárias, que à noite se
cobriam de jóias, eram velhas ou feias. Restavam as que viajavam acompanhadas.
Maridos ou amantes estavam sempre vigilantes, sabendo ou supondo que o clima de
bordo podia facilitar a traição.
No mais, era a turma jovem, moças impróprias para ele, os cabelos rareando, o
corpo ainda não estragado mas impossível de ser levado a sério.
Aproveitou a monotonia da viagem para colocar em dia algumas leituras,
basicamente sobre economia e situação internacional. Na rotina de cada dia, só tomava
conhecimento de releases que a agência distribuía.
Antes de embarcar, recebera as conclusões de um encontro de técnicos em
marketing sobre “Os Últimos 25 Anos do Século”. Os profissionais do ramo
preparavam-se para o futuro imediato e analisavam os acontecimentos na economia e
na política: Guerra do Yom Kippur, crise do petróleo, Opep, revolução em Portugal,
final da guerra no Vietnã, caso Watergate — 1975 era um ano como qualquer outro,
mas parecia anunciar mudanças, se não nas cabeças, no bolso dos consumidores de
todo mundo. Ele se lixava para a cabeça da humanidade, bastava-lhe a sua. Mas o
bolso dos potenciais clientes era o seu pão. A princípio, envergonhava-se de ter
descido tanto e a tanto, depois habituara-se.
De uma forma ou outra, o tempo ia passando, os doze dias de cruzeiro chegavam
ao fim. Muito branco e sereno, o Eugenio C passava pelo estreito de Messina. No dia
seguinte, atracaria em Nápoles.
Augusto atravessava o corredor onde estão situadas as lojas de bordo, obviamente
chamada de Via Veneto. Em frente a uma vitrine, diante de um enorme vidro de
perfume, verde e brilhante como gigantesca bola de árvore de Natal, havia a mocinha
que olhava para dentro, não exatamente para os perfumes arrumados nas prateleiras,
mas para o busto em gesso de uma deusa grega, podia ser Minerva ou Afrodite, ou
nenhuma delas. Olhava sem entusiasmo, como se nada tivesse a fazer no navio e na
vida a não ser olhar aquilo que ali estava para ser olhado.
Ela percebeu que a examinavam. Talvez notasse o homem refletido na vitrine que
protegia o frasco verde parecido com enfeite de Natal. Continuou olhando a deusa
grega, séria, talvez aborrecida por estar sendo olhada. Augusto já a havia reparado no
grupo do qual fazia parte, quatro moças na mesma faixa de idade e modos. Ela fazia e
ao mesmo tempo não fazia parte da turma. Ia aonde as outras iam para tornar mais
ostensiva e inexplicável a sua solidão.
Agora que estava sozinha, diante da loja de perfumes, parecia ligada ao mundo,
embora o mundo fosse a deusa grega — talvez nem fosse deusa nem grega, era um
busto vulgar que ali fora colocado para dar à vitrine uma solenidade de museu.
Augusto tinha a certeza de que não devia perder tempo olhando a moça. Pela
idade, ela não o interessava. Dirigiu-se ao bar próximo do restaurante. Mais um pouco,
o segundo turno do jantar seria chamado. Procurou o lugar de onde pudesse, protegido
pela distância, melhor observar a menina diante da vitrine. Na parte da frente do bar
havia um banco, dali teria ângulo para fiscalizar a Via Veneto, a loja de perfumes e a
moça.
O lugar estava ocupado por um senhor grosso, pelos 65 anos, malvestido, terno
amarrotado — já o tinha visto errando pelo navio, sempre sozinho, um intruso, corvo no
meio de pombos. No deque onde ficava a piscina, a nudez dos corpos mergulhada no
sol mediterrâneo, ele andava de um lado para outro, aparentemente sem rumo. Para
qualquer lugar que fosse, dava no mesmo, sempre com o mesmo terno desleixado,
óculos sujos em cima do rosto redondo e mal barbeado.
Dele saía, se não o cheiro, a impressão de que não era asseado. Augusto preferiu
sentar num banco distante do dele, perdeu a visão da moça e da Via Veneto — e
pouco se incomodou com isso. Tinha agora um tipo curioso para observar. O que faria
um homem como aquele num cruzeiro? Reparou que a mesma pergunta podia ser feita
a respeito dele próprio: o que fazia Augusto Richet naquele navio e naquele bar?
Bem, pelo menos para isso teria uma resposta: trabalhava. Naquele instante,
aguardava o anúncio para o segundo turno do jantar. Era tudo e bastava.
A garçonete (filipina, coreana, boliviana — o pessoal de serviço nesses cruzeiros é
recrutado entre emigrantes que tentam mudar de vida) perguntou o que ele ia beber.
Nada. À sua frente havia um pires com amendoins e amêndoas, ele selecionou as
amêndoas, colocou uma embaixo da língua e gostou da sensação salgada que o
obrigou a salivar.
Talvez pedisse mais tarde um Tio Pepe. No momento, distraía-se em olhar o
homem grosso e soturno. Sentado, mal equilibrado no pequenino tamborete, parecia
um urso razoavelmente amestrado que, entre outras capacidades, tinha a de beber
alguma coisa utilizando-se de copo.
Por cima dos óculos caídos sobre o nariz, o homem grosso e soturno olhava na
direção que Augusto gostaria de estar olhando.

Coincidência, talvez. Impossível que um homem daqueles perdesse tempo em olhar


meninas. Devia ter no que pensar e, com certeza, já passara da idade de se interessar
por mulheres.
Augusto tomou o Tio Pepe. Tentou se distrair com outras coisas. Quanto custaria
aos armadores fazer aqueles bares com tantos acrílicos e vitrais, quanto custaria
manter o navegador que conferia a rota do navio e o barman que sacudia martíni seco
e doce com gelo picado.
O alto-falante chamou para o segundo turno do jantar. Quando se dirigiu ao
restaurante, reparou que o homem grosso tinha ido embora. Olhou para trás, em
direção à Via Veneto. A moça não estava diante da vitrine.
“Bem, os dois devem jantar no mesmo turno. Como é que, durante dez dias
jantando no mesmo lugar e no mesmo horário, não reparei neles?”
A mesa de Augusto, para uma só pessoa, era seguramente a pior do salão.
Encostada a uma das divisórias que davam para a cozinha, só não era infame porque a
cadeira ficava voltada para a porção esquerda do navio. Tinha visão sobre metade do
restaurante.
Aproveitou o caminho para examinar o salão inteiro. Nem a moça nem o homem
grosso e soturno. De sua mesa também não conseguia ver os dois — e ele descobria
que nem chegava a se distrair com isso. Então, por que se preocupava com eles? Se
jantasse depressa e saísse antes dos outros, talvez pudesse olhar as mesas da outra
metade.
Ficou irritado. No penúltimo dia de viagem, uma viagem entediada e inútil, ele se
preocupava com dois passageiros que durante aqueles dias — dez ao todo — nada lhe
diziam. E se em vez de dez passassem mil, um milhão de dias, nada teriam a ver com
ele. Nem a moça em que mal reparara, muito menos o homem grosso e desalinhado.
Augusto comia com pressa, não sentia o gosto da comida, recusou um dos pratos
e amaldiçoou, pela primeira vez naqueles dias, a solidão em que se encontrava.
A agência — da qual já era um pequeno sócio — não se incomodaria se viajasse
acompanhado desde o Rio. Na alternativa, poderia ter-se relacionado naqueles dez
dias de navio, oportunidades não faltaram. Como prêmio — ou castigo —, ali estava
ele, mastigando com pressa uma bisteca com gorgonzola derretido. O garçom que o
servia insistiu em trazer a sobremesa, Augusto afastou a cumbuca com cerejas, tão
vermelhas que pareciam negras, boiando num licor dourado.
Levantou-se, caminhou com displicência para justificar a lentidão de seus passos.
Precisava de tempo para olhar o restaurante inteiro, onde todos agora devoravam a
mesma bisteca com gorgonzola. Localizar a moça era prioridade número um, o alvo A.
O homem grosso seria o alvo B — descartável. O importante era saber se a moça
sentava-se na mesa com as companheiras de viagem. Ou com quem sentava.
Por mais que andasse devagar, fingindo até que errara de caminho entre as mesas
redondas ou quadradas, por mais que olhasse em todas as direções, não viu o alvo A
nem o B.
Fingiu que deixara alguma coisa na mesa, cigarro, isqueiro, qualquer objeto
esquecível, voltou por outro caminho, o maître estava servindo um prato complicado em
outra mesa, precipitou-se em ajudá-lo, arrastaram a cadeira, levantaram a toalha,
Augusto bateu no bolso do paletó, “Desculpe, está aqui, ando meio distraído”, pediu
desculpas ao maître, “Não tem de quê”, de alguma forma chamara atenção, foi mais
sóbrio agora no caminhar entre as mesas redondas ou quadradas, olhava menos em
todas as direções.
Nem o alvo A nem o B.
Andou pelos corredores vazios, esperando que o segundo turno acabasse. Numa
das boates, a mais central, a turma do primeiro turno dançava foxes e boleros antigos.
Havia outra boate na popa, onde a turma jovem se concentrava. Embora detestasse o
som violento despejado pela aparelhagem, para lá se dirigiu.
Se o alvo A não fosse dormir — o que era improvável — , iria com a sua turma
para aquela boate. Hesitou antes de entrar, o som estridente, a confusão das luzes, o
conjunto tocava Love is in the air, era das poucas músicas de sucesso que ele
tolerava. Temeu que estranhassem a sua presença naquele universo jovem, mas
ninguém se incomodava com ele.
Escolheu a mesa que dava melhor visão para a pista de dança e, também, para as
duas entradas laterais. Recusou a bebida que a garçonete porto-riquenha lhe ofereceu.
Mais tarde, quem sabe, tomaria um uísque. Viu chegar o pessoal do segundo turno, a
moça não veio na turma.
Teria ido deitar? Ou passear nos tombadilhos? Saiu da boate, no primeiro acesso
abriu a pesada porta de ferro, recebeu a rajada de vento gelado, não, ninguém
agüentaria passear ali. Talvez estivesse lá na frente, na proa, onde às vezes
apresentavam-se um mágico e um trio de cordas. Rumou para lá. Teria de atravessar a
boate central, onde casais de meia-idade dançavam compenetradamente, Perfidia,
Samba do Orfeu, Can’t take my eyes off you.
Já estava saindo quando alguma coisa o obrigou a olhar para o lado onde
funcionava o bar. Lá estava ele, o alvo B, mal equilibrado no tamborete envernizado, o
imenso paletó aberto, os óculos na ponta do nariz. Não olhava em direção alguma,
olhava para dentro de si mesmo e esperava. Toda a sua figura era de espera. Augusto
sabia quem ou o que o homem grosso esperava.
Deu meia-volta, passou por trás do alvo B, que fixava uma garrafa de champanhe
na prateleira mais alta do bar. Pensou em sentar-se no tamborete vizinho, mas dali não
poderia fiscalizar as entradas da boate. Procurou outra mesa vazia, encontrou uma, lá
no fundo, na parte mais escura do salão. De lá teria sob controle o alvo B e duas das
quatro entradas da boate, por onde — segundo esperava — deveria entrar o alvo A.
Quinze minutos depois, o homem grosso assinou o vale da despesa e saiu, calmo,
desligado, num passo consciente, sabendo para onde devia ir. Augusto deu um tempo
para ir atrás. Era sua única pista, não o perderia de vista.
Mesmo assim perdeu.
Na quina do corredor onde começam as escadas, o homem grosso desapareceu.
Havia três portas ali. Abriu uma delas, era um toalete de senhoras. Abriu outra, dava
para um corredor exclusivo da tripulação. Desanimou. Ia voltar para a boate central
quando viu entrar no banheiro uma das moças que fazia parte da turma do alvo A.
Acendeu um cigarro e ficou esperando. Logo a moça saiu, havia refeito a
maquiagem, tomou a direção da boate da popa. Augusto seguiu-a, a distância.
Pronto, lá estava ela.
“Estava” seria exagero: estava e não estava. A turma dançava na pista, ela ficara
sozinha, um refletor jogava luzes coloridas no pessoal que ocupava a pista, a moça
pegava as sobras daquelas luzes, às vezes ficava vermelha, depois azul e amarela. Por
mais que as luzes variassem, ela continuava a mesma.
Havia a mesa vazia colada à dela. Dar um passo em sua direção seria avançar
demais. E ficaria recebendo aquelas luzes idiotas, seria ridículo, bastava o ridículo de
perseguir uma desconhecida. Preferiu o bar. De lá poderia fiscalizar ao mesmo tempo a
pista de dança e a moça.
Pediu com energia um uísque. Como se soubesse o que estava fazendo, exigiu
black label.
Por duas vezes as moças da turma tentaram levar o alvo A para a pista. Puxavam-
na pelas mãos, ela fazia um gesto de aborrecimento, que a deixassem em paz. A cada
vez que isso acontecia, Augusto respirava fundo, inchando o peito, como se a recusa
dela em ir para a pista de dança fosse uma vitória pessoal sua.
Até que a moça levantou-se. Com passadas rápidas saiu da boate e sumiu no
comprido corredor que praticamente liga popa e proa, o maior do navio. Augusto fez
sinal ao barman, voltaria logo, e saiu atrás. Imaginava que a moça já estivesse no final
do corredor, mas ela parara em frente aos painéis onde são colocadas, para exposição
e venda, as fotos tiradas durante a viagem pelos fotógrafos de bordo.
Ela ficara próxima demais e Augusto decidiu que também pararia para examinar as
fotos, sabendo que nenhuma delas era a sua. Deixou que a moça tomasse nova
dianteira. Já voltava a persegui-la com boa margem de segurança — se ela parasse e
se voltasse de repente, não saberia que estava sendo seguida.
Súbito, estancou, apavorado.
De uma das portas surgira o homem grosso. Num gesto cansado (ou aborrecido)
olhou o relógio, como se cobrasse o atraso de um compromisso. A moça parou,
começou a dar desculpas (só podia ser isso), o homem grosso era condescendente,
parecia compreender. E perdoar.
Augusto apressou o passo para se aproximar, quem sabe poderia ouvir o que
falavam. Não houve tempo. Estava a razoável distância quando os dois sumiram pela
porta que dava para as escadas. Escadas que desciam ou subiam para as diversas
pontes onde se situam as cabines.
Ele olhou as escadas. Seria o caso de tirar cara-coroa, escolher a que subia, podia
pegá-los no corredor que separa as cabines. E se eles, ao invés de terem subido,
tivessem descido?
Só então sentiu náusea, imensa náusea de tudo. Aos 46 anos, vivido e sofrido, ali
estava num final de viagem estúpida, correndo atrás de uma moça desconhecida, talvez
mais jovem do que seu filho. Pior: segundo tudo indicava, corneado por um homem
grosso, mais velho do que ele (“Deve ter uns setenta anos”, pensava Augusto). Da
miserabilidade de sua situação, ele descambou para a miséria geral de sua vida. O que
Augusto Richet fazia ali naquele navio idiota?
Regressou ao bar onde deixara o uísque e o barman preocupado, ele não assinara
a nota da despesa. “Vou lá, assino a nota e me meto na cama. Não tenho nada a fazer
na merda deste navio!”
Andou devagar, tentou distrair-se, examinou com atenção as fotos dos passageiros
que haviam descido em Catânia e tinham ido a Taormina, pensou em procurar a moça
nas fotos, talvez ela estivesse na excursão. Era muita gente, muitos grupos,
desanimou.
Chegou à boate, estava tão chateado que foi direto ao bar, ao tamborete vazio, à
dose de uísque pela metade. Esvaziou o copo à maneira dos mocinhos do faroeste,
queimando a garganta e pedindo mais. Nunca se sentiu tão valente em sua covardia.
O conjunto tocava um sucesso de Charles Aznavour, Old fashion way. Bateu com a
mão no bolso do paletó, para catar o cigarro. Na pressa de tirar o maço, deixou-o cair.
Agachou-se para apanhá-lo.
Sentiu que, em certa direção, havia um espaço novo, um espaço oco e magnético
que o chamava. As luzes coloridas haviam desaparecido. A mesa mais próxima da pista
estava na sombra. E na sombra, as pernas cruzadas, cotovelo apoiado num dos braços
da poltrona, a mão segurando o queixo, como se nada tivesse a fazer ali, o alvo A.

III

Custou a encontrar a cabine. Perdera o hábito de se embriagar. Estava quente ali


dentro, apesar do ar refrigerado. Pensou em tomar uma ducha, mas o banheiro era
apertado. Ficou nu e deitou na cama. Se o navio começasse a jogar, ele seria capaz de
vomitar — estava sentindo a náusea dentro dele e não era pelo navio (os
estabilizadores o faziam macio, imperturbável). Tampouco pela bebida, tinha fígado
para suportar grandes porres. Entre os amigos, era elogiado porque sabia beber —
embora isso não fizesse sentido: o que é saber beber?
A náusea era a de se descobrir confuso, sem saber ao certo o que se passava
com ele. Como acontecera isso se nada acontecera realmente? Passara dez dias no
navio, com mais de mil passageiros, fizera apontamentos para o relatório da agência —
uma imbecilidade a que se acostumara e pela qual recebia salário. O fluxo do turismo
da classe média estava se deslocando para os cruzeiros marítimos na mesma
proporção em que os aviões acabavam com os transatlânticos.
Os estaleiros da Inglaterra, da Holanda, da Itália e da União Soviética começavam
a construir navios de casco apropriado para entrar em enseadas de águas menos
profundas, modificara-se o ritual do lazer, criaram-se inesperadas necessidades de
bordo. Mais dez, quinze anos, e os mares estariam coalhados de navios desenhados
especialmente para essas viagens em carrossel, haveria o barateamento dos custos
tanto para os armadores quanto para os passageiros, era preciso prever e estabelecer
uma estratégia para absorver as duas pontas da corda: o novo conceito de turismo e o
novo conceito de navio.
A agência o destacara para elaborar um relatório. Antes que uma concorrente se
antecipasse, era urgente pegar a conta das principais linhas de navegação
especializadas em cruzeiros, o negócio ainda era pequeno, mais alguns anos e poderia
se transformar no maior filão da indústria do turismo.
Fosse como fosse, pelo lado profissional Augusto Richet fazia uma tarefa
convencional, sem brilho e sem interesse pessoal no assunto. Era como se estudasse o
lançamento de uma campanha para vender um novo absorvente feminino.
E justamente no fim da viagem, quando meia dúzia de apontamentos pedia a
redação de um relatório, sentia o Grande Nojo e, ao mesmo tempo, para espanto seu,
a Grande Verdade: precisara de dez dias para descobrir que havia em sua vida um alvo
A e um alvo B.
Alvo A: a moça que nunca olhara para ele, que aliás não olhava para ninguém.
Estava e não estava em uma porção de lugares e em lugar algum. Viajava com amigas
mas era como se viajasse sozinha, não apenas no navio mas no mundo.
Alvo B: o homem grosso, grosso e repugnante, com o paletó aberto deixando à
mostra o ventre obsceno, os óculos ordinários caídos no nariz, a vulgaridade do
provinciano de qualquer parte do mundo, a calva amarelada, opaca.
Os dois alvos, A e B, numa equação absurda, entravam dentro do porre que ele
não procurara, que acontecera sem querer, embora soubesse que em sua vida nada
era sem querer.
Augusto Richet considerava-se normal, mas tinha momentos — sobretudo quando
exagerava na bebida — em que se sentia um desgraçado.
Então, era isso: um desgraçado.
Contra seus hábitos, dormiu nu, sonhou que estava doente e tinha calafrios,
acordou com sede, abriu o frigobar da cabine e ia tomando uma cerveja — mas
detestava as cervejas italianas —, acabou abrindo uma soda-limonada, vestiu o pijama,
tentou dormir o resto do sono e do porre. Antigamente, quando acordava durante a
noite e queria voltar a dormir, pensava em mulheres que desejara e não possuíra,
recitava poemas que decorara nos tempos de estudante, em times de futebol que
admirara.
Impossível fixar-se em lembranças distantes, impessoais. Estava possuído pelo
Nojo. Nojo em perseguir uma desconhecida, uma adolescente mais próxima da criança
que havia sido do que da mulher que seria. Nojo em perseguir um homem grosso e
repugnante, que lhe bloqueava o passado e tornava imundo o presente.
Olhou o relógio: três e meia da madrugada do penúltimo dia de viagem. Agora, o
navio deveria estar deserto, todos dormindo em suas cabines refrigeradas.
Lavou o rosto. Vestiu-se. Sentia-se inconfortável ali, em qualquer outro lugar
estaria melhor.
Encontrou os corredores vazios, vazios os salões — um hotel de luxo rolando no
meio da noite. Fantasma vagando no ventre de outro fantasma — isso era ele. Para se
distrair — e para ter a certeza de que não era um fantasma incoerente —, procurou
refazer, com vagar e cuidado, os roteiros daquela noite absurda.
Olhou a vitrine da perfumaria na Via Veneto. Ficou na mesma posição da moça,
examinou o busto da deusa que ele não conhecia. E se fosse de Minerva, como no
poema de Edgar Allan Poe?
O corvo entraria e nela pousaria: nunca mais!
Nunca mais o quê? Pior do que o corvo seria o homem grosso e repugnante em
cima daquela deusa branca e enigmática, anônima, dizendo: “Nunca mais!” Dizendo ou
não dizendo qualquer coisa, a idéia do homem grosso e repugnante em cima da deusa
branca, além de assustadora, dava a Augusto Richet a certeza de que atravessava
uma emergência que o distraía.
Afastou-se da loja e foi ao bar, onde ficou imaginando que esperava por ela.
Observou com severidade o tamborete onde o homem grosso sentara: parecia agora
um lugar sagrado, o posto de observação de um general que vence a batalha, um deus
que administra o mundo.
Ocupou-o por um tempo, adotou a mesma posição do homem gordo, estufou a
barriga para tentar ficar obeso, olhou em direção à Via Veneto, evidente que, daquele
ângulo, o Alvo B fartara-se de olhar o Alvo A.
Foi ao restaurante. Fingiu que perdia o maço de cigarros, andou pelas mesas
desertas buscando adivinhar onde a moça sentava e onde sentaria o homem grosso,
que em sua onipotência, em sua onipresença, parecia estar sempre no lugar exato para
observá-la.
E desde quando? Desde o início da viagem? Ou tudo teria começado nos últimos
dias?
Atravessou o corredor onde havia a mostra das fotografias. Reconstituiu a
surpresa ao ver o homem grosso aparecer lá no fundo, de uma das portas que dava
para o hall dos elevadores. E o jeito da moça em parar e dar explicações. Foi lá, olhou
o hall dos elevadores, o lance das escadas que subiam e desciam.
A moça e o homem grosso haviam subido ou descido? Era muito problema e, ao
mesmo tempo, problema nenhum. Descobriu que o porre acabara, a meia hora em que
cochilara e a soda-limonada haviam cortado o pifão: sentia-se lúcido e vingado.
Voltou à cabine, tomou uma ducha, vestiu o pijama. O banho e o pijama o
reconciliavam com o próprio corpo. E ele teve condições, assim redimido, de prometer-
se que desistiria do alvo A. Por exclusão, o alvo B não mais o incomodaria. Fora uma
demência, estava ficando velho, só podia ser isso. Nunca apreciara adolescentes, nos
primeiros dias de viagem, passara por ela diversas vezes, nem reparara, nada havia
que a tornasse especial.
Sentiu-se melhor, reconciliado consigo mesmo. Perdoou a agência que o fazia
cumprir a tarefa, a mais idiota de sua vida profissional. Perdoou o navio, que agora
balançava um pouco.
Antes de cair no sono, perdoou a moça e o homem grosso e repugnante.
Só não conseguiu perdoar-se a si mesmo.

IV

Acordou fazendo duas descobertas que considerou importantíssimas.


Primeiro: o navio diminuíra a velocidade, sinal de que se aproximava de um porto e
que esse porto só podia ser Nápoles. Segundo: alguns passageiros saltariam na
penúltima escala do cruzeiro. Talvez a moça encerrasse a viagem ali mesmo. Não se
lembrava de tê-la visto em Gênova, só começara a prestar atenção nela a partir de
Catânia, ou talvez numa escala anterior — e ele nem se lembrava em que cidade fora a
escala anterior.
Fosse qual fosse, parar nas escalas era obrigação do navio e dele, que estava a
trabalho. Perseguir adolescentes pelos corredores nem chegava a ser uma
extravagância: era uma demência. Até a véspera, até encontrá-la sozinha, olhando a
vitrine na Via Veneto, ele se sentira como num escritório, numa pedreira, numa
cerimônia qualquer cumprindo uma tarefa na qual não se envolvia e, no fundo,
desdenhava.
Caiu na ducha complicada da cabine, um cilindro comprido de plástico que mal
dava para caber um corpo como o dele, que não chegava a ser gordo mas também
não era magro.
Pensou no homem grosso e repugnante. Era bem mais gordo do que ele, deveria
ter dificuldade em tomar banho naquele cilindro comprido e exíguo. Talvez nem
tomasse banho — e não seria pela exigüidade da ducha. Devia ter outras prioridades
na vida e no corpo. Além de grosso e amarfanhado, dava a impressão de estar com o
banho da véspera, a barba da véspera, a roupa da véspera. O homem todo, em si, era
uma véspera. Não merecia ocupar espaço no hoje. Menos ainda, no amanhã.
Apesar de tanta e tamanha véspera, aquele homem grosso e desprezível
conseguira armar um esquema, um código diabólico com a moça que era toda o seu
contrário. Tanto na idade como nas circunstâncias, parecia não ter véspera, ela nascia
de repente, onde quer que estivesse. E ao constatar que entre os dois — moça e
homem grosso — deveria haver um código, diabólico ou não, teve um sobressalto: e se
os dois ficassem em Nápoles?
Ele continuaria a viagem até Gênova, poderia se rodear de um milhão de moças
iguais, de homens grossos e mal lavados. De nada adiantaria, ele se sentiria sozinho.
Até certo ponto, abandonado.
Haveria uma vantagem: o caso estaria encerrado antes de ter começado. Quando
o navio largasse o cais de Nápoles, ele se sentiria livre, o navio continuaria flutuando no
mar, aliviado da dupla — diabólica ou não — que lhe tirara a tranqüilidade de um
cruzeiro chato. E poderia terminar o raio do relatório que, se antes não tinha sentido,
agora tinha menos.
Com a idéia de que tudo poderia terminar naquela parada, ele se vestiu, correu ao
jardim-de-inverno onde serviam o café-da-manhã. Nenhum sinal da moça, nenhum sinal
de suas companheiras. Nenhum sinal, também, do homem grosso.
O dia seria complicado. Talvez nem fosse doloroso, mas complicadíssimo. Para
não perder tempo, renunciou ao café-da-manhã, tomou um suco de laranja, em pé
mesmo, era urgente fiscalizar todas as saídas do navio para saber se ela desceria ou
não, se o homem grosso também desceria. Os dois poderiam ter planejado um passeio
pela cidade, depois voltariam para bordo. Poderiam descer definitivamente, poderiam
tudo — e ele nada poderia.
Subiu à ponte superior, de onde teria melhor ponto de observação do portaló do
navio e de quase todo o porto. De quebra, teria o Vesúvio lá longe, azulado e inerte,
fechando um dos lados do horizonte. Se o vulcão entrasse em erupção — pensou —,
as coisas se precipitariam. Na confusão ele tiraria, se não alguma vantagem, pelo
menos algumas conclusões.
O cais ainda estava longe, o navio manobrava, lentidão de paquiderme buscando
onde encostar o corpo fatigado. Da ponte superior, Augusto sentia-se responsável por
tudo, desde o Vesúvio lá longe até os passageiros que se preparavam para
desembarcar.
Precisou de algum tempo — sentia os reflexos lentos e embaralhados — para
deduzir que os passageiros ali na mesma ponte não deveriam descer em Nápoles.
Continuariam a viagem até Gênova. Seria tranqüilizador se a moça — ou o homem
gordo — ali estivesse.
Desceu então duas pontes, até o salão principal, onde se reuniam aqueles que
desceriam em terra, fosse para passear e depois retornar ao navio, fosse para
desembarcar.
Umas cinqüenta pessoas, em torno de pequenas malas de mão, esperavam o aviso
da tripulação. Começou a sentir um pavor abominável, pânico de achar a moça naquele
grupo.
Não a encontrou. Ia voltar para a ponte superior, de lá teria a visão completa sobre
o cais. Começara a subir o último lance de escadas quando duas moças se
aproximaram, trazendo pesada sacola de mão que dividiam pelas alças, cada uma
ficando com parte do peso. Pareciam apressadas, afogueadas pelo esforço, pelas
arrumações de última hora.
Augusto reconheceu-as: eram da turma. Uma delas, mais alta e mais madura,
podia ser irmã da moça, não que fossem parecidas, mas porque geralmente estavam
juntas, como se dividissem a mesma cabine. Era um sinal. Se elas desembarcavam, a
moça também desembarcaria.
As duas chegaram ao ponto de reunião, largaram a sacola no chão, ficaram
esperando o aviso para descer.
Pela janela panorâmica, Augusto Richet viu a estação marítima de Nápoles: parecia
uma continuação, uma parte suplementar do próprio navio. O Eugenio C atracara.
A chefe das comissárias — alta, atlética, excelentes pernas — apareceu com a
lista, começou a conferir os passageiros.
Augusto olhava o corredor por onde a moça, caso desembarcasse em Nápoles,
deveria descer. Como contrapeso, o homem grosso também poderia aparecer — mas
foda-se, o que interessava era saber se ela desembarcaria ou não.
Quando os passageiros começaram a se movimentar em direção à saída, ele
sentiu o gosto azedo em algum lugar do peito, da boca, do estômago. Náusea e fadiga
como se fosse, ginasial ainda, fazer um exame para o qual não estava preparado.
O salão ficou vazio. As duas moças desceram, levando a sacola que parecia uma
salsicha enorme e gorda. Augusto acompanhou-as, de ponte em ponte chegou ao local
onde dois oficiais distribuíam senhas àqueles que voltariam ao navio.
Ao passarem pelos oficiais, elas não receberam nenhum cartão — evidente que
desembarcavam, a sacola era uma prova. Apesar disso, ele se sentia obrigado a
buscar uma segurança máxima, certeza absoluta de que não seguiriam viagem.
Distraído em acompanhá-las, nem percebera que se aproximara dos oficiais, como
se estivesse na fila daqueles que desembarcariam. Perguntaram-lhe se desceria ou
não, ou se desejava senha, forma gentil de pedir definição e desimpedir a porta que
dava para a escada cuja extremidade se apoiava no cais.
Pensou em descer, em esperar pelos acontecimentos lá embaixo, precisava ter a
certeza de que ela desembarcava. Não haveria paz dentro dele enquanto
permanecesse em dúvida. Era o funil, o gargalo inesperado que secava em sua boca.
Tentou dizer aos oficiais que não desembarcaria nem queria senha, confundiu-se, não
sabia se falava em italiano ou inglês, só conseguiu olhar para eles como se não tivesse
entendido a pergunta ou não soubesse em que língua deveria responder.
A escala seria demorada, impossível permanecer tanto tempo lá embaixo. Se
conseguisse dominar a agitação em que, de forma brutal, vivia desde a véspera,
poderia ficar passeando no cais, fiscalizando a escada. Saísse a moça para passear
em Nápoles ou para desembarcar, teria de passar por ele.
Em ambos os casos, com ou sem homem grosso atrás dela, ele a seguiria, depois
pensaria no que fazer. Se ela voltasse ao navio, teria mais um dia e uma noite junto
dela, ou naquilo que poderia chamar, com razão, de “mesmo barco”.
Não queria perder tempo — embora soubesse que perder tempo era o que fazia
nas últimas 24 horas. Precisava se antecipar: em vez de perder, era urgente ganhar.
Subiu os dois lances de escada que o devolveram ao salão principal, onde alguns
passageiros se despediam dos companheiros que ficavam.
Rodeou diversos grupos, fiscalizando ao mesmo tempo os corredores que ligavam
o salão ao resto do navio. Houve o momento em que pareceu ver o homem grosso
atravessar o deque lateralmente, indo de uma porta a outra e logo sumindo. Foi lá
conferir, esbarrou com um homem também grosso mas que não era aquilo que ele já
podia chamar de “meu”. Por sinal, era um médico de São Paulo, por duas ou três vezes
haviam trocado cumprimentos durante a viagem. Ao contrário do “seu” homem, este era
apenas grosso mas bem-vestido, asseado, ar próspero de provinciano.
Voltou ao salão, apressado, com medo de que na curta ausência ela tivesse
aparecido e desaparecido. Seria um puto azar dele.
Conferiu mais uma vez os grupos e, súbito, um clarão explodiu dentro do peito.
Entre o salão e a porta que dava para o local de desembarque, havia uma ponte
intermediária. Parte dela era exclusiva da tripulação, a outra destinava-se aos
passageiros das cabines internas. Como não descobrira aquela plataforma antes? A
moça poderia ter descido sem que ele a visse.
“Se andar depressa, recebo a senha dos oficiais, vou até a estação de
passageiros, se ela já desceu deve estar fazendo a alfândega, apanhando as malas,
terei tempo de encontrá-la.”
Ele conhecia a estação, os corredores altos e iluminados, construção dos tempos
de Mussolini, a arquitetura fascista que os italianos agora maldizem mas continua
funcional e, até certo ponto, confortável.
Encaminhava-se para a saída quando descobriu, ao lado do salão, num trecho
curto que dava para o corredor onde ficam penduradas as lanchas de salvamento, o
pequenino deque. Podia ser considerado o prolongamento do corredor das lanchas e,
ao mesmo tempo, o prolongamento do próprio salão.
Não viu nada, inicialmente. Percebeu no ar um elemento novo e adocicado, quase
putrefato. Como se o vento varresse uma praia imensa e deserta, trazendo o cheiro de
conchas e peixes apodrecidos.
Dirigiu-se para lá. Pousadas no chão, havia duas pequenas sacolas, cor castanha,
com frisos vermelhos. Encostado na parede de aço, o homem grosso e abominável,
mais abominável que nunca. Estava com a mesma roupa, os mesmos óculos caídos no
nariz, o mesmo aspecto sujo e decadente da véspera, como se não tivesse dormido. O
Homem-Véspera.
Augusto aproximou-se, meio de banda, como um cavalo que se recusa a andar em
frente. Para ter alguma coisa a fazer ali, puxou o maço de cigarros. Em câmera
lentíssima, escolheu um dos cigarros, como se, no meio de um baralho infinito,
selecionasse uma carta impossível. Ia acender o cigarro, mas havia uma aragem, a
mesma que lhe trazia o cheiro putrefato do homem abominável.
Evidente que o Homem-Véspera tomava conta das duas sacolas pousadas no
chão. Mais: tinha a aparência de dono delas. Evidente, também, que não eram dele.
Eram um anúncio dela. Sabendo que a moça ali apareceria, previsível, fatal como as
marés e os cometas (ela já estava presente ali, presença da ausência que ele podia
mastigar com os dentes cheios de ódio), Augusto preparou-se para a grande chegada.
Desanimou de acender o cigarro. Havia um ângulo morto no final de corredor ou de
princípio de salão. De lá poderia ver sem ser visto. Ali, ele se tornaria invisível e aéreo,
duende, anjo decaído, demônio assumido. Se puxasse o cigarro e o acendesse, a
fumaça o denunciaria.
O tempo.
Tempo que rolava desde antes da criação do universo, o tempo de repente parou.
Não saberia dizer se esperou cinco ou cinqüenta minutos, cinco horas ou cinqüenta
séculos — sim, ele se conhecia nesses momentos, penetrava numa dimensão estranha
e incontornável, a dimensão que antecede o tempo — ou o faz nascer. Veio devagar,
de um lugar impossível. Muitas vezes, depois de tudo, Augusto tentou precisar o lado
pelo qual ela chegara, ficava confuso, sem um resultado.
Impossível que ela tivesse vindo do deque inferior, era local impedido à circulação
dos passageiros, somente os tripulantes usavam aquele corredor.
Impossível também que viesse do salão, teria de passar primeiramente por ele —
e o descobriria no covil que escolhera para vigiar a presa.
Do lado do mar seria impossível, precisaria vir, alada e absurda, como o cheiro das
conchas na praia deserta.
Sobrava a própria parede de aço pintada de branco, onde não havia portas,
nenhum acesso para qualquer outra parte do navio e do mundo.
Deixou o detalhe para pensar mais tarde, desconfiando que nunca chegaria a uma
conclusão.
A moça não tinha pressa nem calma. Vinha de algum lugar, deixara as sacolas no
chão, pedira ao homem grosso para tomar conta delas. Ou nem precisara pedir isso.
Fora fazer qualquer coisa, alguma providência antes de desembarcar. E voltava, no
ritmo de sempre, como se nada tivesse importância. Ficara implícito que o homem
tomaria conta das sacolas, era coisa que não precisaria ser pedida.
Ela se aproximou, ia pegá-las e desaparecer pelo corredor que a levaria ao cais.
Ficou parada perto das sacolas, não se incomodara com a presença do homem
grosso, como se ali não estivesse ninguém — e Augusto notou que ela dava a
impressão de viver sem contato com nada, num mundo à parte, em que cada coisa não
tinha lugar algum.
Não houve diálogo — ou, se houve, era impossível ouvi-lo. A moça ficara de lado,
Augusto não lhe via a boca, nem poderia dizer se ela realmente falava alguma coisa. A
cabeça dela tampava o rosto do homem, de maneira que também não poderia saber se
ele falava. A aragem, que soprara até há pouco, e que poderia lhe trazer o possível
diálogo, parara subitamente, numa cumplicidade a favor deles. Ou numa conspiração
contra ele.
Mais uma vez, ele não poderia precisar se passaram cinco minutos, cinqüenta
horas, cinco anos ou cinqüenta séculos. O homem grosso tirou do bolso externo do
paletó, paletó amarfanhado, sempre aberto e revelando a pança abominável, o
jornalzinho de bordo com a programação daquele dia, o penúltimo de viagem. Estava
dobrado em dois. Metade dele sobrava do bolso, vasto bolso do paletó aberto,
parecendo maior e mais grosso do que o próprio homem grosso.
A moça pegou o jornalzinho, evidente que não ia lê-lo, a programação de bordo que
ali constava era referente àquele dia e ela não mais estaria no navio.
Agora, a moça tinha na mão uma caneta. Escreveu na margem branca do jornal.
Depois, como se tivesse cumprido uma missão, guardou a caneta na pequenina bolsa
que trazia a tiracolo.
Abaixou-se, apanhou as sacolas, uma em cada mão. Augusto firmava a vista para
não perder nenhum detalhe. Aquela cena seria uma despedida, e era importante saber
tudo. E ainda que nada soubesse, pelo menos tentaria adivinhar o que fosse possível.
Tinha a certeza: ela nada falara. Abaixara-se, pegara as sacolas. Nem um gesto
de cabeça, nem uma palavra. E se afastara.
Tampouco o homem grosso disse qualquer coisa. Entre os dois, o entendimento —
ou fosse lá o que fosse — era antigo. A Augusto parecia inexplicável.
A moça agora tinha de passar rente a Augusto — e foi como se ele não estivesse
ali. Tendo consciência disso, nada fez para disfarçar, para evitar a revelação de que
vira tudo — embora nada houvesse para ver.
Ela passou naquele andar que era um prolongamento dela, de sua carne, de seu
silêncio. Passou e desapareceu no meio de outras pessoas, em busca da escada que a
levaria ao cais.
Augusto pensou em ir atrás, dando-lhe vantagem na dianteira. Não saberia dizer,
agora, se o mais importante era ela ou o homem grosso, que ficara onde estava, como
se lá tivesse de ficar para sempre, e ali fosse passar o resto da viagem, o resto de
toda a eternidade.
Por simetria, ou como se dançasse um balé improvável, com parceiros imaginários,
Augusto também ficou no mesmo lugar, como se tomasse parte num jogo que não
entendia e no qual não mais se considerava intruso. A moça, o homem grosso e ele
faziam parte de uma teia formidável. Bem mais do que uma situação ocasional, era
uma seqüência buscada, como no pôquer.
Voltava a medir o tempo. Dois minutos depois de a moça ter saído, o homem
grosso, vagarosamente, o jornal dobrado em dois no bolso do paletó aberto,
aproximou-se da amurada e foi olhar o cais. Augusto fez o mesmo. Sabia que a moça
apareceria lá embaixo. Sentia-se guiado pela mão de um diretor de cena invisível que o
obrigava a fazer os mesmos gestos do homem grosso.
E na amurada estava quando viu a moça descendo as escadas que ligavam o navio
ao cais. Vista de cima, parecia menor e mais insignificante. As duas sacolas haviam
diminuído de tamanho, pareciam agora fazer parte dela. Passou pelos dois oficiais em
silêncio, sem pressa e sem calma, como se não lhe importasse sair ou ficar.
Augusto acompanhou-a pelo breve trecho que separava o cais da Estação
Marítima, onde a imensa porta dos tempos fascistas anunciava a alfândega.
Esperou para ver se a moça olhava para trás, para o navio onde passara dez dias
e dez noites. Ou, quem sabe, para o homem grosso que tinha no bolso um papel onde
ela escrevera o roteiro do qual ele, Augusto Richet, se sentia expulso.

Ela deveria ter olhado para trás. Deveria ter virado o rosto para se despedir do navio
ou para se despedir do homem grosso. Talvez nem de um nem de outro. Além do navio
e do homem grosso, havia ele. Nada fizera para participar da vida dela, mas se julgava
no direito de se considerar importante. Afinal, ele sofria.
Sentiu pena e remorso. Nunca mais a veria. Tão unilateral a dor — ela nunca o vira
— que dava apenas para ter a certeza de sua insignificância.
Tanta insignificância que achou significante o homem grosso que agora passava
por ele, levando no bolso do paletó a mensagem dela.
Um endereço, só podia ser isso. E se não fosse?
Quis correr atrás do homem. Afinal, ele ficaria a bordo. Teria um dia inteiro para
fiscalizá-lo, policial seguindo a pista de um suspeito que, além de ter cometido um
crime, prepara-se para cometer outro.
Naquele momento, o importante era continuar vigiando o cais, a porta da Estação
Marítima por onde a moça sumira. Talvez ela voltasse, talvez tivesse esquecido
qualquer coisa a bordo. Depois de ter passado pela alfândega e liberado a bagagem,
viesse enfim se despedir do navio, dar um aceno para o homem grosso. Augusto se
surpreendeu, torcendo para que isso acontecesse.

Não se afastou da amurada. Olhava a Estação Marítima, os portões monumentais dos


tempos fascistas, os dois cavalos de bronze encimando a fachada principal.
Atrás do edifício, pedaços da cidade, o tráfego em volta do Castelo do Ovo.
Depois, o Vesúvio. No dia 24 de agosto do ano 79 da Era Comum, pouco depois do
meio-dia, saíra fogo, cinza e pedra daquela montanha. Sepultou cidades e gentes, o
casal que estava trepando, o soldado que montava guarda na Porta Marina.
Seria ótimo se o Vesúvio, sem aviso prévio, vomitasse novamente fogo, cinza e
pedras que amortalhassem a moça onde quer que ela estivesse, com quem e como
estivesse. E a imobilizasse no tempo com as duas sacolas, uma de cada lado, a
abominável caneta com que escrevera para o homem grosso.
E imobilizasse, também, onde estivesse, o homem grosso com seu paletó aberto, o
jornalzinho de bordo dobrado em dois dentro do bolso. Daqui a vinte séculos
escavariam aquela cidade e, espantados, descobririam o bilhete deixado por ela,
procurariam o significado das poucas palavras que ela tivera tempo de escrever. Um
endereço, certamente. Ou um telefone. Impossível que fosse uma declaração de amor,
uma promessa, uma esperança.
Os sábios do futuro, a menos que a Terra fosse o cadáver insepulto de um mundo
rolando pelo espaço, levariam outros vinte séculos para chegar a uma conclusão sobre
esses fatos miúdos que, por ora, somente ele, Augusto Richet, sabia e sofria.
Por cima do teto da Estação Marítima podia-se ver uma praça, carros passando,
ônibus, uma charrete puxada por um cavalo enfeitado com flores e penachos na
cabeça, como na Cavalaria Rusticana. A moça devia ter sumido por ali, tomado um
táxi, ou talvez tivesse alguém esperando por ela. Não um namorado, era muito jovem
para isso. Mas um pai, um irmão, um amigo.
Só então reparou que a turma da moça ainda não descera. Eram cinco, estavam
sempre juntas. Duas já haviam ido na frente, carregando pelas alças repartidas a
comprida sacola, gorda como uma salsicha.
Depois descera ela, sozinha.
Duas ainda restavam. Era uma pista, agora bem mais valiosa do que o homem
grosso.
Voltou ao salão quase vazio. Quem tinha de descer já o fizera. Os grupos esparsos
não ficariam em Nápoles, talvez descessem para fazer compras ou conhecer a cidade.
Augusto rolou pelos corredores, esbarrou com retardatários que vinham com as
bolsas pesadas de lembranças compradas em Catânia, em Túnis, em Ibiza, em Palma
de Maiorca.
Olhou o relógio: passava de meio-dia. Ele nem tomara o café-da-manhã.
O bar do salão estava fechado. Subiu para a ponte superior, onde ficava o bar da
piscina. Ali serviam expressos e cappuccinos. Abriu a porta que protegia o ar-
refrigerado e esbarrou nas duas moças restantes. Eram da turma, daquele sabá de
bruxas que ele detestava porque dele não tomava parte. Turma da sua moça — ou
melhor, da moça do homem grosso e abominável.
Não tinham pressa. O navio ficaria atracado mais três horas. Aproveitavam os
últimos instantes e agora se enxugavam com as toalhas azuis da Costa Line, riam para
o sol e se despediam de dois rapazes que continuavam na piscina. Eram italianas.
Augusto imaginava que a sua moça devia ser italiana também, embora nunca a tivesse
ouvido falar.
Usavam gíria, um dialeto quase gritado. Era uma despedida, elas iriam à cabine,
mudariam a roupa e logo desceriam para o cais. Soltavam frases que soavam brutas
no som e incompreensíveis no sentido. Deu para ouvir a palavra “Praiano”. Pouco
depois a mesma palavra foi repetida por um dos rapazes dentro da piscina.
Praiano. Vilazinha perto de Positano, ali mesmo, na Costa Amalfitana. Ele
conhecera a região em viagens antigas. Tinha agora uma nova pista. Elas deviam ser
de Praiano, ou estariam em Praiano nos próximos dias ou em algum dia.
Os rapazes seguiriam até Gênova e depois voltariam, inevitavelmente voltariam e
iriam para Praiano ou para o diabo. E se encontrariam outra vez, ele se sentiu velho
nos seus 46 anos, nos seus 460 anos, nos seus mil anos, que haviam passado e
terminavam naquele ridículo labirinto de encontros e desencontros. Encontros e
desencontros dos outros.
Perdeu a vontade de ir atrás das moças. Sabia que elas desceriam, iriam a seus
destinos, que talvez fossem os mesmos da moça.
Podia ter arranjado um pretexto para abordá-las. Estava ali a trabalho, não
entrevistara nenhum passageiro durante a viagem, conversara informalmente com o
capitão sobre detalhes técnicos do navio, aqui e ali se informara sobre o cruzeiro.
Tinha um motivo para falar com elas. Apresentar-se-ia como profissional de
marketing, o que era verdade. Desejava obter impressões, não seria nada de mais,
ainda que elas não quisessem dar impressões, compreenderiam o pedido.
Dirigiu-se a uma delas, que deixara cair a toalha. Augusto abaixou-se para apanhá-
la, a moça foi mais rápida. Percebendo que ele fizera um movimento, agradeceu:
— Grazie.
Ele nada respondeu. Sorriu e foi tomar o expresso no bar da piscina. Pediu o café
e logo o alto-falante de bordo chamou para o almoço no jardim-de-inverno. Cancelou o
café. Estava sem fome.
“Estou perdendo a fome e a calma.”
Do bar, tinha visão completa da ponte superior, as duas chaminés amarelas do
Eugenio C, a piscina, a pista forrada com um tapete de plástico azul onde, pelas
manhãs, ele correra durante quarenta minutos. Detestara aquela viagem, e a detestava
sobretudo agora, quando sabia que ela não mais estava ali. Vinte e quatro horas atrás,
a moça também não estava, ou melhor, estava, mas ele não sabia que ela estava e, de
certa forma, o esperava.
Esperava para quê?
Esperava para aquilo mesmo: criar nele o vazio, o deserto em que o navio se
transformara, cheio de gente mas não cheio dela.
“Bem, o melhor que faço é almoçar, o navio ficará atracado mais três horas, posso
descer e ir almoçar naquele restaurante em que fui tantas vezes com Sônia, ela
gostava daqui, preferia Nápoles a Florença, a Veneza, a Verona — sempre me meti
com mulheres erradas.”
A recordação de Sônia desanimou-o de descer. Lembrava-se agora do
restaurante, La Bersagliera, perto do porto, cinco minutos de táxi, bom de peixes e
frutos do mar.
“Vou comer qualquer coisa aqui mesmo, depois quero dormir, estou agitado, talvez
tome uma bebida forte antes do almoço, estou fora de forma por dentro e por fora”,
pensou Augusto Richet, 46 anos, profissional de marketing, ex-casado, pai, e de
repente mergulhado numa convulsão adolescente, provocada por uma desconhecida de
quem nem sabia a voz e o gosto. Dela, restara apenas o vulto, o clima tenso, o amargo
na boca quando a via e mais amargo quando não a via. E o cheiro de conchas marinhas
na praia deserta. Talvez nem isso.
“Vou beber, durmo a tarde toda e à noite estarei curado. Fim do que não houve. É
o pior fim.”

Para chegar ao restaurante teria de passar pelo salão principal. O bar agora estava
aberto, e para lá se dirigiu, pediria gim, dose dupla. O primeiro pifão de sua vida fora
na base de gim, ganhara a garrafa de um cliente da agência, bebera até perder os
sentidos. Nesse tempo — que ele poderia considerar glorioso —, andava fugindo de
uma mulher e perseguindo outra.
Tudo ia bem quando, num pacto diabólico que só com ele acontecia (durante anos
acreditara nesse pacto diabólico), as duas mulheres se encontraram e tramaram
contra: ficou sozinho, sem o consolo de estar sendo perseguido e sem o prêmio de
perseguir.
Fazia tempo. Adquirira o treino que na verdade não passava de um truque. Dos 25
anos de idade até a véspera, não tinha do que se queixar nem do que, precisamente,
se orgulhar. Nenhuma humilhação como aquela, andar atrás de uma moça que não
conhecia, que certamente nunca mais veria. Crise que explodira dentro dele,
extravagante, compactada nas últimas 24 horas.
Precisava iniciar o tortuoso caminho do esquecimento — e nada havia a esquecer.
O que era uma vantagem, embora fosse também um fracasso.
O bar abrira havia pouco. Havia o casal numa das pontas do balcão tomando uma
bebida vermelha. Na outra ponta, cinzento em seu terno amarfanhado, lá estava ele: o
homem grosso, com seus óculos caídos no nariz, o paletó aberto. Apesar da distância,
Augusto via o jornalzinho de bordo dobrado em dois, a margem branca sobressaindo do
imenso bolso.
Com cautela para não ser percebido, sentou-se no tamborete vizinho. O homem
estava de costas para ele. Como o paletó parecia duas vezes maior do que o corpo, o
bolso ficara jogado para trás, fora da visão do dono. Tinha diante dele uma cerveja, as
detestáveis cervejas italianas. E examinava com enfado o bloco de papel que parecia, a
distância, anotações de despesas.
Augusto pediu o gim, duplo, com dois dedos de tônica, sem limão e com pouco
gelo. Pediu em voz baixa, mas, mesmo se gritasse, o homem grosso não tomaria
conhecimento de sua presença. Aliás, se tomasse, daria na mesma. Tal como a moça,
o homem grosso nunca reparara nele.
Veio o gim. Tomou o gole comprido, gostou do perfume da bebida, sempre a
considerara enjoativa. Desta vez, dentro do enjôo maior, parecia agradável, ele podia
ter a impressão de que o tempo voltara atrás, vinte, 25 anos, e tudo poderia acontecer,
tudo mesmo, até aquilo.
A agitação era prova de que dentro dele alguma coisa não amadurecera. Seria
essa a melhor explicação para o tumulto das últimas 24 horas que nem a bebida e o
sono conseguiram interromper.
O homem grosso fez um movimento para virar a página do bloco em que anotava
números. O paletó abriu-se mais ainda e o bolso, com o jornalzinho dobrado em dois,
ofereceu-se em silêncio, pedindo que Augusto o roubasse.
Olhou para os lados. Ninguém o observava. O navio estava quase vazio, muitos
passageiros já haviam desembarcado, outros preferiram ir comer na cidade. Tirante o
homem do bar, que agora passava na caixa o cartão eletrônico do casal que ia
embora, ninguém mais.
Tomou outro gole. Ao mesmo tempo que com a mão direita colocava o copo no
balcão, estendeu o braço esquerdo em direção ao paletó do homem gordo. Foi um
movimento rápido, preciso, como se durante anos houvesse treinado o golpe.
Como o bolso do homem fosse enorme, folgado, e o jornalzinho dobrado em dois
boiasse dentro, não houve dificuldade.
Surpreendeu-se com a rapidez do bote, parecia coisa de profissional, de batedor
de carteira nos trens do metrô, nos ônibus do subúrbio.
Só então Augusto descobriu que não tinha onde esconder o que acabara de
roubar. Os bolsos de sua calça eram pequenos, não podia enfiá-lo em nenhum deles. A
camisa pólo que usava, no lugar do bolso, tinha o escudo indecifrável, encimado por
uma torre de duque ou coisa equivalente, devia ser de um fabricante de cigarros. Ou de
algum clube náutico.
Colocou o jornal do lado oposto ao do homem grosso. Com o próprio corpo
poderia esconder o roubo, ao menos por um tempo. Teve vontade de dar uma espiada
no bilhete que a moça deixara escrito. Dava para ver a letra, clara e vertical, como a de
uma universitária, ainda sem o cansaço da mão e das coisas. Era cedo para tomar
conhecimento daquela mensagem, não precisaria se afobar, ele teria todo o resto da
viagem, todo o resto do dia e da eternidade para ler o bilhete, decifrá-lo.
Sem tirar a vista do papel onde anotava números ou os corrigia, o homem grosso
pediu outra cerveja. Tinha a placidez bovina de quem sabia ter no bolso o mapa do
tesouro, a Tábua da Lei ou o que quer lá que aquilo fosse.
Augusto aproveitou a passagem do barman, deu-lhe o cartão para registrar,
dobrou o jornalzinho em quatro, tornando-o menor. Afastou-se do homem grosso com
cuidado, como se, a qualquer movimento brusco, detonasse uma bomba. Assinou a
nota que a máquina eletrônica despejou na bandeja, dirigiu-se para o restaurante.
Desistiu de almoçar. Perdera a fome. Para sair do bar teria de passar rente às
costas do homem grosso. Exagerou: quase esbarrou nele. Queria que ele soubesse,
soubesse de tudo, que o bilhete da moça agora estava com ele. A perícia com que lhe
roubara o jornalzinho, em vez de alegrá-lo, parecia frustrá-lo.
Procurou o lance de escadas que o levaria à ponte onde tinha a cabine. Por duas
ou três vezes ia abrindo o jornal para ver o que nele estaria escrito. Não, não o leria
pelos corredores. Abriria espaço próprio, que a mensagem ficasse intacta, somente
dentro dele. O que quer que estivesse escrito ali, seriam as primeiras palavras que
ambos trocariam. Bem verdade que eram palavras roubadas, não dirigidas a ele. E
para as quais, fossem quais fossem, ele não teria resposta.
Abriu a porta da cabine. Antes de fechá-la, colocou do lado de fora o cartão
vermelho: Non disturbare. Achou o cartão insuficiente, deveriam fazê-lo maior, do
tamanho da porta, num vermelho profundo, cor de sangue, para que todos os que
passassem pelo corredor soubessem que alguém não podia ser perturbado. Oh, vós
todos que passais, aqui dentro repousa um homem cansado de enfrentar o nada, um
caminhante que perdeu o caminho e agora não tem a alternativa de andar para trás.
Atirou-se na cama. Pegou o jornalzinho, mas antes de ler o bilhete olhou o teto:
“Se o ladrão que rouba o Banco da Inglaterra, as jóias da Coroa, sente o mesmo
prazer que estou sentindo, roubar até que é uma grande coisa!”, pensou Augusto
Richet.
O jornalzinho de bordo estava amassado, já parecia velho, velho de dias, meses e
anos, embora fosse o daquele dia, lá estava o título, “Escala em Nápoles” — e a data,
9 de setembro de 1975.
Um jornal velho, velho como ele próprio se sentia velho. Não agora, quando tinha
em suas mãos a possibilidade de uma esperança.

VI

– Você já imaginou o que sente o ladrão que rouba o Banco da Inglaterra, as jóias da
Coroa?
Mona continuava atrás dele. Tivera vontade de empurrar a cadeira, mas Augusto
desenvolvera habilidade própria em manobrar com as duas rodas cromadas que lhe
davam tração e direção. Ela adivinhava que o ofenderia se tomasse a iniciativa de
empurrá-lo.
— Fique tranqüilo, não vim roubar nada — respondeu Mona, sem compreender a
pergunta que lhe pareceu de mau gosto. Ela respeitava Augusto porque, apesar das
turbulências tidas e havidas, reconhecia nele a elegância natural, talvez uma elegância
tática, de qualquer forma, uma elegância.
Para mudar de assunto, apontou os pinheiros e repetiu:
— Engraçado, eu não esqueci nada, mas não lembrava como isto aqui é bonito!
Augusto a olhou, surpreendido.
— Você já disse isso!
E depois, com um pouco de raiva:
— Acho que não há nada a dizer. Você está aqui por causa do testamento. Já falei
sobre a parte que lhe diz respeito. Decida se fica ou não com o apartamento. Não é
problema meu. Se quiser usar o meu novo advogado, disponha. Ele terá prazer em
ajudar...
Augusto acabou a frase olhando para as pernas de Mona. Ela percebeu o olhar e
perdeu a vontade de perguntar: “Você está me mandando embora?”
— Posso descer, dar uma volta aqui em frente?
Embora nada tenha respondido, Mona entendeu que ele consentia. Era um jeito de
olhar Augusto, de vê-lo por dentro. Sempre o dominara quando ele era poderoso,
orgulhoso de sua fortaleza, dono dele e dela.
E ela, menina órfã, vivendo com tios e primas, não compreendendo o que
acontecera com ela, principalmente depois que lhe aparecera aquele homem saído de
uma névoa do Mediterrâneo, o tédio da viagem que ela não desejara, o assalto brutal
numa rua de Nápoles, a noite em Pompéia, aquele homem trinta anos mais velho, com
um gosto esquisito na boca e nas palavras, fantasma que vinha de outro tempo,
fantasma que a transformara em Mona, Mona sem Lisa, apenas Mona — e como esse
nome a definia, definindo também o homem agora derrotado pela idade, ela sabia que
a doença dele era um disfarce, derradeira malcriação contra o mundo e, de certa
forma, contra ela, ei-lo, finalmente consumado, no disfarce final e inútil, imobilizado na
cadeira de rodas, seu último truque, agarrado à última herança de sua potência: a
banalidade de um testamento — que, afinal, pouco lhe interessava.
Desceu os quatro degraus que separavam a varanda do jardim, um jardim bem
tratado pelo jardineiro que só obedecia às ordens do dono da casa. Pessoalmente, ela
gostaria de ter plantado mais flores ali. Augusto preferia plantas, vários tons de verde,
uma ou outra folhagem na cor daquela âncora abandonada que haviam encontrado
numa praia da Sardenha.
Ele ficara parado diante da âncora, olhou-a com carinho e encanto, mostrou-lhe
como aquela cor era verdadeira, somente âncoras abandonadas podiam ter o tom
opaco do ouro quando deixa de ser ouro e ainda não é ferrugem, cor viva, pulsante,
que se transforma não mais à ação do tempo, e sim à ação do vento salgado das
praias desertas.
Andando em direção aos pinheiros, que iniciavam a parte compacta do jardim,
cinco fileiras de boas espécies vindas do Paraná, Mona lembrou o dia em que,
comprado o terreno, com os pés de eucalipto em volta, Augusto decidira derrubá-los.
Ela estranhara:
— Não vai dizer que é por causa da lenda...
— Que lenda? Você acredita que o cheiro do eucalipto torna o homem impotente?
Acha que eu preciso temer?
— Não. Sinceramente não. Você não tem nada a temer, nem mesmo se uma
floresta de eucaliptos for plantada em volta de sua cama. Se não é por isso, que que
tem você contra eles? São bonitos, dão sombra à casa... e gosto desse cheiro...
— Vou derrubar tudo... prefiro pinheiros, mandei comprar mudas no Paraná...
Mona atingia a primeira fila de pinheiros. Lembrava como aquilo ficara desolado, o
chão calvo, a casa violentada, com vergonha de sua nudez, sem a sombra e o cheiro
dos eucaliptos.
Depois vieram os pinheiros em pequeninos vasos de plástico, ela estava junto dele
quando o jardineiro acabou a tarefa e avisou:
— Esses pinheiros são bons, e o clima vai ajudar. Só há uma coisa que não se
deve esquecer: eles demoram quinze anos para crescer.
Augusto olhou o chão revolvido, o cheiro de terra estrumada, as pequeninas mudas
da altura de um anão. Disse, com decisão:
— Eu espero.
Tinha confiança em si mesmo, em tudo o que não dependia dele. Se entrava num
avião, sabia que nada lhe aconteceria. Gostava de repetir: “César vai a bordo!”, e o
avião, o navio, o trem, o carro, o mundo — nada podiam contra ele. Só tinha medo
daquilo que dependia dele, desde escolher uma gravata ou uma mulher — tremia,
tremia e se agoniava, sabendo que, escolhesse isso ou aquilo, mais cedo ou mais tarde
se arrependeria. Pior: mais cedo ou mais tarde a gravata ou a mulher se voltaria contra
ele.
Mona chegara ao trecho em que havia tinhorões vermelhos — uma das raras
concessões que, em matéria de jardim, Augusto fazia à cor.
Voltou-se e, sabendo que da varanda a olhavam, também olhou firme naquela
direção.
Lá estava Augusto, nome de imperador, do jeito que sentava na cadeira não
parecia doente mas um imperador de verdade, num trono de verdade, dominando com
o olhar suas terras. Terras que não eram tantas assim, Mona chegara ao fim dos
pinheiros e do jardim.
Ele poderia ter comprado terreno maior, vizinho ao seu, estava em negociações
com a imobiliária, a morte de Otávio cortou o projeto. Pensou em abandonar a casa em
Itaipava, voltar para o Rio, com algumas reformas o apartamento de Ipanema ficaria
confortável. Pensou também em ir para a Itália, para a Espanha, para qualquer lugar
longe daquela parede em que sacudira o filho em crise. Precisava fugir de um tempo
que ele não considerava perdido mas desperdiçado.

Mona recomeçou a andar. Agora que voltava à varanda, observava como, à medida
que ela se aproximava, Augusto se transformava. Ao longe, ele parecera um
imperador, dominando com o seu silêncio aquele chão que era dele — mas do qual,
pouco a pouco, se despedia.
Quanto mais próxima, mais Augusto voltava a ser o que era, o enfermo em sua
cadeira de rodas, a calça clara, o blusão xadrez, os cabelos mal cortados. Nunca fora
bonito, mas imponente, transmitia força, poder, ela o amara com tudo o que podia,
talvez ainda o amasse, porque nunca se libertara dele, do gosto áspero de suas mãos
— e como amara aquelas mãos, que muito cedo começaram a tremer, e tremiam
sempre porque, já nos primeiros tempos, eram as primeiras a se espantar com a
violência do prazer que ela sabia lhe dar.
E a sua voz, o ritmo ao contar a história do mundo — um mundo que não apreciava
mas a obrigava a gostar porque, no mundo que a ensinava, era raio e flecha —, enfim,
lá estava ele, olhando-a com provocação, como se perguntasse pela hora em que ela
iria embora.
Ou pela hora em que ficaria para sempre.

— Péssima notícia para você. Vou ficar para dormir — disse ela, quando chegou à
varanda.
Augusto desviou o olhar que mais uma vez buscara as pernas de Mona. Não
respondeu, dando a impressão de que não compreendera o que ela falara.
Ela percebeu e acrescentou:
— Está tarde para voltar, estranhei o carro que aluguei, há muito não dirijo nessas
estradas, não quero pegar a noite na serra...
Augusto continuou em silêncio, aparentemente olhando para além dos pinheiros, no
fundo, para dentro de si mesmo, procurando descobrir se a notícia o irritava ou o
alegrava.
— Estou com a maleta no carro. Só precisarei de um jantar e de um sofá. Amanhã
retorno ao Rio. Desço bem cedo, terei de ir ao advogado, ver essa droga do
apartamento, depois terei de entregar o carro, pego o vôo à noite, preciso voltar logo
para Milão, a feira da moda este ano está fraca, mas a agência pegou bons
contratos...
Desconfiou que Augusto não se importou com a notícia de que ela dormiria ali. E,
muito menos, que em Milão ela estava cheia de trabalho.
Mona o conhecia bem, podia esperar indiferença, até mesmo hostilidade. Tinha a
certeza de que ele jamais perderia a pose de quem sabia que, no mundo que ensinara
a ela, ele era o dono.
Iria apanhar a maleta, seria uma forma de tornar irreversível o autoconvite de
passar a noite ali. Ficou intrigada com o silêncio dele, um silêncio que, naquela medida
e seriedade, Mona não conhecia.
— Em que você está pensando? — perguntou, depois de ter a certeza de que ele
não a ouvira. E, se tivesse ouvido, não dera importância, tanto lhe fazia que ela fosse
embora ou ficasse por uma noite, por mais uma noite ou para todas as noites.
— Estou pensando na baleia... — disse ele depois que Mona decidiu responder ao
silêncio dele com o próprio silêncio.
E continuou:
— Você estava ali, no meio dos pinheiros, e eu sabia que você ficaria esta noite...
A baleia...
— Não, Augusto, desta vez você errou, não é a baleia...
Foi o primeiro momento em que os dois sentiram que tinham um código comum,
ainda que o usassem às avessas.
A teoria da baleia. Ou, na versão que Augusto preferia, o Grande Truque de Caçar
Baleias Assassinas.
Fora há muito tempo, ele estava bêbado, uma das poucas vezes em que vira
Augusto bêbado, assumidamente bêbado. Houve época em que bebia muito, mas
nunca exagerava, e mesmo quando exagerava, tinha um truque (era cheio de truques)
para dar a impressão de que continuava sóbrio, apenas mais lúcido do que o habitual.
Quando bebia, ficava insuportavelmente lógico.
Viviam os primeiros meses juntos, ela atordoada com tudo o que lhe acontecia,
aquele homem que aparecera em sua vida, que a raptara, ou, para ser honesta, que
ela obrigara a raptá-la — e nem sequer o amava, ainda.
E ela fugiria da casa do tio e o acompanharia. No início de uma noite de verão,
olhando as luzes de Praiano, no pátio do Hotel San Pietro, em Positano, ele explicara
como se caçavam as baleias assassinas, o canhão que atirava o arpão, a corda que ia
se desenrolando, serpente e algema, o ferro penetrando na carne da baleia pela fenda
aberta em seu corpo formidável.
Apesar da dor, não perceberia que o oceano inteiro, que até então lhe pertencera,
teria agora o tamanho de sua chaga: ela fugia com a fúria das colossais nadadeiras e
sua ira era tão violenta que logo se afastava e se afastava, muito, sem saber que, além
do ferro e da corda-algema, havia dois olhos vivos do homem que a cobiçava e tinha a
certeza de que ela seria dele.
E por saber que a baleia assassina estava marcada, o homem adivinhava o que ela
estaria sentindo, julgando-se livre, senhora das águas todas. Depois era a fadiga, a
derrota da fera que trazia em sua carne o emblema vermelho da fenda ensangüentada.
Ela chegava, afinal, mansamente, acreditando que estava apenas cansada de lutar.
Encostava o corpo no casco enferrujado do navio — aquela ferrugem cor de ouro velho
que o sangue dela manchava. Teria forças para lutar, seu enorme corpo ainda estava
quente, boiando na água que o próprio sangue fazia morna. Agora ela sabia que o seu
destino — ela, senhora das águas, assassina dos mares — era ser possuída pela gula
do homem que a desejara.
Com pequena variante de palavras e aplicações, esse era um dos temas
recorrentes de Augusto. Os símbolos da fábula eram tão óbvios que ele nem fazia
questão de modificá-la, tornando-a mais sutil.
Tão recorrente que Mona também absorvera o Grande Truque de Caçar Baleias
Assassinas. Até que ponto ela seria uma baleia assassina? No caso dela, a fábula
tivera uma versão surpreendente: como presa, ela soubera cortar a corda e expelir o
arpão de ferro. E se a ferida da penetração não cicatrizara, a realidade da chaga, do
rombo que mutilava sua carne, não fora bastante para impedir que ela fosse livre no
resto do oceano que lhe sobrara.

Augusto olhava os pinheiros, como se Mona não estivesse ao lado. Encostada ao


casco, a baleia assassina, monstro vencido, aprendera a dominar a espera. O homem
somente a teria se ela o quisesse.

VII

OLinate-Milano ameaçava fechar. A neblina vinda do rio Pó escondia as pistas e nem


todas as companhias apreciavam operar naquelas condições. Um ou outro avião
executivo se aventurava. A alternativa seria Malpense, ainda em obras, a 100
quilômetros do centro da cidade.
Augusto Richet ia de um balcão a outro, batendo os guichês em busca de um vôo
para Nápoles. Olhava o relógio e verificava que cometera um erro. Em Gênova, deixara
o Eugenio C às dez horas. Se tivesse tomado um trem para Roma e de lá para
Nápoles, já teria chegado a seu destino. Preferira vir para Milão, pegar um vôo para o
sul, acreditava que ao cair da noite poderia estar hospedado no Excelsior.
Pela manhã, ainda no navio, fizera a reserva do hotel. O único vôo direto entre
Gênova e Nápoles era no final da tarde. A alternativa seria pegar o trem, com escala
em Roma. Foi o que fez.
Na estação Príncipe, descobriu que havia um expresso de partida para Milão. E o
trem para Nápoles era parador, chegaria tarde em Roma e mais tarde ainda em
Nápoles. Indo para Milão, ele poderia pegar um vôo e, antes mesmo de escurecer, já
estaria vendo a baía, Santa Lucia e o Vesúvio. No dia seguinte, veria a moça — era
mais que uma certeza, era uma missão. Só precisava se apressar, o expresso para
Milão estava de partida, ele nem comprou o bilhete, pagaria a passagem no trem,
embora com multa.
Ao fazer a curva num dos corredores que levam às plataformas, esbarrou num
homem grosso que vinha em sentido contrário, mas sem pressa, como se o trem —
qualquer trem — o esperasse.
Era “ele” e não podia deixar de ser ele. Para espanto de Augusto, o homem grosso
continuava o mesmo, paletó aberto sobre a imensa pança, os óculos, a aparência de
não ter dormido nem tomado banho. Não trazia mala, nenhuma bagagem. Vinha com as
mãos abanando, como se remasse o espaço, abrindo vácuo para nele introduzir o
corpo mal-ajambrado.
Augusto hesitou. Pegar o trem ou ir atrás daquele homem? De alguma forma,
aquele homem sempre o levava a ela, embora, algumas vezes, ela é quem levasse a
ele.
Preferiu o caminho mais difícil. Daria ao azar a oportunidade de esquecer a moça.
Não seguiu o homem grosso, que fosse ao diabo. Ele, Augusto Richet, tinha um
destino: tomar o expresso que o levaria a Milão. De lá teria vôos para Nápoles. Na gare
monumental que Mussolini mandara erguer para confrontar com o Duomo, ele soube
que o Linate passara a parte da manhã fechado. Talvez só abrisse no meio da tarde.
Com essa esperança, chegou ao aeroporto. À medida que a tarde caía, a nebbia
descia, compacta — e Augusto iniciou o assédio, de balcão em balcão, sem rumo e
sem vôo. Já eram oito horas da noite quando conseguiu furar a fila numa lista de
espera para um avião que viria de Zurique e partiria para Roma. Era mais do que a
única alternativa: era a esperança.
Sentou-se perto da mala que ainda não conseguira despachar. Tinha diante de si o
painel eletrônico, que o avisaria das alterações nos vôos. Viu, ao longe, um homem
grosso, mas que não era o seu.
Resolvido o problema imediato, teve tempo e espaço para pensar: “Àquela hora,
onde estaria o seu homem grosso?” Talvez tivesse ido de trem para Nápoles, e com
certeza já deveria ter chegado. Talvez... talvez tivesse arranjado um vôo alternativo
entre Gênova e Nápoles sem obrigação de fazer escala em Milão ou Roma. Sendo
assim, o que estaria fazendo na estação ferroviária Príncipe, onde os dois se
esbarraram por acaso? A estação fica no lado oposto ao aeroporto de Gênova. Ora,
se estava na ferroviária, ele tomara outro trem, mas para onde?
Augusto já enfrentara situações parecidas, esperando conexão para qualquer lugar.
E sempre tinha tempo e até mesmo gosto em examinar as pessoas que passavam à
sua frente. Tentava adivinhar como elas viviam, o que pensavam, o que precisavam e,
principalmente, o que elas pensavam que precisavam.
Olhar as pessoas era o laboratório que ele preferia para bolar uma campanha,
chegar a um slogan, ou, na pior das hipóteses, a uma idéia que mais tarde
desenvolveria com as equipes de criação e produção.
Na convulsão das últimas horas, fora-lhe impossível qualquer concentração que o
distraísse do Alvo B, o homem grosso e repugnante, abanando o espaço com suas
mãos gordas, indo para algum lugar. Nápoles, por exemplo.
“Ele deve ter apanhado o expresso para Roma, são seis, sete horas de viagem. De
lá, teria os trens mais rápidos da Itália. E em duas horas estaria em Nápoles. Pegaria o
primeiro telefone e ligaria para...”
Augusto tirou do bolso o jornalzinho de bordo onde a letra clara, absurdamente
vertical, deixara um nome e o que parecia ser o número de um telefone:

Francesca — 44 4141 — B
Só então, ali no aeroporto, cercado de gente cansada e mal-humorada, Augusto
reparou o que, na sofreguidão de ler o bilhete na cabine — e o lera mil vezes —, não
tinha percebido. Aquele B destacado, depois do nome e do número, que só podia ser o
de um telefone.
“Bê de quê? De baci? De bimba?”
As duas hipóteses eram letais. Na primeira, ela mandaria beijos para o homem
repugnante. Na segunda, mil vezes pior, ela se considerava “menina” daquele homem.
Não, era cruel demais, era nojento, era vil.
O alto-falante chamou um vôo para Londres. Bom sinal, o aeroporto abria. Augusto
correu ao balcão onde ficara na lista de espera. Pelo caminho, ouviu outra chamada
para Palermo com escala em Roma e Nápoles — ainda que tivesse de vender a alma,
teria de pegar aquele vôo.
Pegou. Houvera uma desistência nas reservas e outra na lista de espera. Augusto
Richet recebeu o cartão de embarque, roxo de um lado, verde de outro.
Despachou a mala. Dirigiu-se ao setor da alfândega, passou pelo arco que
detectava metais, viu de longe, no fundo do corredor, a aeromoça que recolhia os
cartões de embarque. Atrás dela, pela parede de vidro, apareciam as listas verde e
vermelha da fuselagem do DC 9 da Alitalia. Mais 20 metros e estaria lá dentro.
De repente, todos os passageiros pararam e olharam para trás. O arco que
detectava metais apitava em volume alto, estridência proposital para chamar atenção.
Augusto também olhou para trás. E deveria cair para trás, se fosse realmente um
animal racional e lógico.
Estatelado sob o arco, braços abertos em cruz para melhor ser apalpado, o
homem grosso nem parecia estar ali. Com os óculos caídos no nariz, com o mesmo
terno, o mesmo suor de um dia difícil, lá estava ele, como se não estivesse.
O guarda apalpou-lhe as pernas, o tronco e a barriga, examinou-lhe os bolsos da
calça e do paletó. De um deles tirou uma latinha. O homem grosso passou novamente
pelo arco, o alarme não tocou, o guarda segurava a latinha esperando pelo término da
operação.
Augusto aproximou-se do guarda, olhou a latinha que estava sendo devolvida ao
homem grosso: eram pastilhas contra dor de garganta.

Procurou lugar na última fila dos assentos da classe única. Onde quer que o homem
grosso sentasse, ele poderia fiscalizá-lo, tê-lo sob domínio. Para facilitar, o homem
grosso sentou-se quatro fileiras à frente.
E como transbordasse do assento, os passageiros retardatários chegavam,
examinavam aquele corpo enorme vazando da poltrona, procuravam outros lugares. O
homem grosso ficou sozinho, e parecia ocupar um espaço maior do que merecia e
precisava.
O vôo foi tranqüilo. Augusto não tirava os olhos da calva que sobressaía do
encosto que em nenhum momento fora inclinado. Pouco antes da escala em Roma, o
homem grosso levantou-se, o banheiro mais próximo era o da cauda, Augusto colocou
a cabeça quase no meio do corredor, para que ele o visse.
O homem grosso passou por ele, não fez qualquer esforço para se desviar. A aba
de seu largo paletó chegou a bater no rosto de Augusto, bofetada leve e impessoal,
que nem era de advertência.
Não pediu desculpas, nem reparou que o atingira. Apenas o olhou vagamente,
como se estivesse pensando em coisa mais importante. Por um instante encarou
Augusto neutramente, sem reconhecer nele um companheiro de viagem. Nem podia de
fato reconhecê-lo: nunca o vira a bordo nem em lugar algum.
Depois da escala em Roma, embora tentando não abaixar a vigilância, Augusto
cochilou até perceber que o avião começava a operação de pouso em Nápoles.
Ele e o homem grosso desceram juntos. Fazia um pouco de frio. Augusto fechou as
abas do paletó para proteger o peito, o homem grosso não sentia frio da mesma forma
que não sentira calor durante a viagem de navio, quando, ao redor da piscina, andava
ao sol do Mediterrâneo de terno e gravata, num desalinho que certamente lhe
aumentava o calor e lhe provocava o suor.
Sem passarem pela alfândega, foram apanhar as malas. Mais uma vez espantado,
Augusto viu que o homem não levava mala e se dirigia para fora do aeroporto, onde
logo tomou um ônibus — o primeiro que passava. Dava a impressão de ir a um lugar
tão preciso que qualquer condução lhe serviria.
Não era caso para Augusto ir atrás daquela pista que agora não era mais única.
Tinha o jornalzinho de bordo com um nome e o número de um telefone. Ele saberia se
virar sem a ajuda daquele homem abominável que, no início, odiara, e agora
simplesmente desprezava.
Além disso, começava a ter a certeza idiota: houvesse o que houvesse, não
precisaria fazer esforço para esbarrar outra vez naquele homem grosso. Há dois dias
que ele sempre surgia do nada, tornando-se visível, disponível para ser esbarrado.
Tomou o táxi, deu o nome do hotel. Sentia-se cansado. No trajeto até o Excelsior
descobria que nunca, nunca mesmo, gostara de Nápoles, apesar das vezes em que ali
viera com Sônia, ela, sim, adorava aquelas ruelas, o cheiro de porto, cheiro de peixes
descamados.
No quarto, colocou o jornalzinho em cima da mesinha-de-cabeceira. Abriu a janela.
O cheiro de pão, peixe e de mar era forte.
Deitou na cama para pensar no que faria no dia seguinte. Nem tirou os sapatos e
dormiu.
– AQUI TUDO É POSSIVEL
Augusto tomava o café-da-manhã na varanda do Excelsior e olhava o outdoor na
parede de um prédio do outro lado da rua. Devia ser uma campanha publicitária da
Prefeitura, garantindo aos visitantes que a velha cidade era capaz de tudo, inclusive de
realizar o impossível. Um slogan bolado, quem sabe, para substituir o tradicional e
ambíguo Ver Nápoles e depois morrer.
Ele bem que precisava de estímulo assim. Nunca vivera aquela humilhação, a
absurda caça a um objetivo que talvez nem lhe interessasse. Nem mesmo na
adolescência, quando pagara o preço da timidez que o tempo transformara em
agressividade às vezes cínica. Nem mesmo na crise dos quarenta anos, quando Sônia,
depois de uma discussão que ele achara irrelevante, olhara-o com determinação e
avisara:
“Está bem. É o fim!”
Fizera muitas besteiras depois, para tentar salvar o casamento, afinal, não fosse
Sônia, que sentido tivera a sua vida até então? Perseguiu-a a seu modo, fazendo uso
da exausta teoria da baleia. Sônia conhecia todos os truques dele — e de alguma
forma Augusto era obrigado a concordar com ela: nada mais fazia sentido entre os
dois. Mesmo assim, houve o dia em que cismou de encontrar Sônia no Calipso, mistura
de bar e botequim na Visconde de Pirajá. Terminavam as noites ali, evitavam o
Jangadeiros, que ficava ao lado, sempre cheio de gente para eles desagradável.
O Calipso era pequeno, a porta única dando para a rua, cinco, seis mesas, um
garçom imemorial que Sônia achava parecido com ele, chamado Américo. E uns
bolinhos de bacalhau que combinavam com o vinho que lembrava os spumanti que
haviam tomado todos os dias nos dois anos em que moravam em Veneza, no início do
casamento.
Augusto ficava parte da noite no Calipso, sozinho, esperando que alguma coisa
parecida com Sônia chegasse ou passasse, seria um consolo. Sentia-se ridículo na
solidão que Américo acabava decifrando todas as noites. Mesmo sem ser perguntado,
o garçom informava, não, ela não apareceu, há muito tempo que ela não aparecia.
Augusto agradecia, olhava desesperado para Américo, recusava os bolinhos, o vinho
espumante, enfrentava o uísque, puro e sem gelo, para mais depressa perder a
memória e a vergonha.
E depois pedia que Américo colocasse a fita que ele transformara em hino oficial
de seu abandono:

e por falar em saudade...


na rotina dos bares
que apesar dos pesares
me trazem você...

Um tempo ridículo que ele jurara nunca repetir — e agora, a 10 mil quilômetros do
Calipso, preparava-se para iniciar guerra maior e mais sem sentido. Ainda bem que, em
Nápoles, segundo o cartaz da Prefeitura colocado diante do Excelsior, tudo era
possível. Inclusive Augusto Richet ter a certeza de que encontraria a moça mais que
impossível.
Deixou a varanda e foi à gerência, queria passar um telex para a agência, a
sinopse sobre a viagem, a política dos cruzeiros marítimos, as possibilidades que se
abriam para o turismo da classe média.
Como ainda não redigira o relatório, juntou os apontamentos, a entrevista com o
comandante do navio, algumas impressões pessoais — e deu àquela mixórdia o título
acomodado de Considerações gerais. Prometia apresentar pessoalmente o texto
definitivo.

O gerente levou-o à pequena sala ao lado da portaria onde estavam instaladas duas
máquinas de telex. Desculpou-se:
— Por favor, não estranhe o equipamento, isso tudo está superado, mas funciona.
Brevemente teremos um moderno serviço de fax, vi um em funcionamento em Londres,
será mais prático e rápido. Por ora, é usar o que temos.
Augusto estranhava o teclado europeu, diferente do padrão estandardizado a que
estava habituado. Não tinha pressa.
— Preciso de ajuda — disse, sem querer.

O gerente entendeu que ele desejava um operador, lamentou muito, não tinha
ninguém habilitado para operar o telex, cada funcionário da portaria e da gerência
operava suas próprias mensagens, talvez mais tarde...
— Não, não é isso... preciso de uma informação, evidente que confidencial...
O gerente formalizou-se. Se tivesse de fazer o papel de homem morto, utilizando-
se apenas da cara, ele era realmente um cadáver, e, ao mesmo tempo, um túmulo.
Augusto tirou o papel do bolso.
— Isso aqui... este número... pode ser o de um telefone na cidade?
Com técnica apuradíssima, sem ao menos se inclinar em direção ao papel, o
gerente disse que sim. Podia ser o número de um telefone de muitas cidades, inclusive
de Nápoles.
Para Augusto vinha agora a parte mais difícil. Sem ter certeza do que dizia,
aventurou uma jogada:
— Lá no Brasil, pelo menos no Rio e em São Paulo, há um serviço que fornece o
endereço de uma pessoa a partir do número do telefone. Aqui em Nápoles tem alguma
coisa parecida?
— Não sei se temos um serviço desses, mas estamos em Nápoles. Com algumas
liras o senhor consegue o que quiser... isso e... e muito mais...
— Pode me apresentar a alguém?
O gerente pareceu ofendido. Abaixou a voz, embora não houvesse ninguém por
perto:
— Sou gerente do hotel mais respeitável de Nápoles. Não poderei apresentar
alguém que não conheço.
Fez uma pausa, enquanto ligava o aparelho de telex para que Augusto começasse
a operar.
— O senhor será procurado por alguém...
E retirou-se, como se o hotel estivesse pegando fogo e dependesse dele para ser
salvo.
Augusto levou mais de meia hora para transmitir os apontamentos. Não fosse a
demora na linha e o teclado diferente, gastaria metade desse tempo.
No último parágrafo, colocou o bilhete:

Semana que vem, mais tardar na outra, mando o relatório definitivo, com
alguns artigos da imprensa européia sobre o desenvolvimento da construção
naval em face da nova demanda do mercado. Ficarei algum tempo em
Nápoles.
Aqui, tudo é possível.

Ele conhecia dos italianos o bastante para saber que são eficientes quando
convocados a prestar certo tipo de trabalho. Decidiu ficar por ali mesmo. Passado o
telex, nada tinha a fazer na cidade naquele dia e nos próximos. A não ser esperar que
um desconhecido o abordasse, com a cara cúmplice, como se fossem assassinar o
papa.
Nem precisou esperar muito. Um sujeito que parecia hóspede, mas devia ser
qualquer coisa relacionada com a segurança do hotel, passou duas vezes por ele, uma
à sua frente, outra atrás. Depois, sim, apresentou-se. Era amigo do gerente. Em que
podia servi-lo?
Augusto levou-o a uma das salas da recepção e mostrou o número que já copiara
num papel impresso do próprio hotel. Com isso, evitava mostrar o nome dela e o
misterioso B. Por ora, o que lhe interessava era descobrir a moça. O resto viria depois,
ou não viria nunca. Procurá-la, gastar todas as possibilidades para encontrá-la, já era
missão suficiente. Se a perdesse, teria o consolo de ter tentado tudo.
O homem olhou o número. Augusto percebeu que, em questão de segundos,
memorizou-o para o resto da vida. Houvesse o que houvesse, ele guardaria aquele
número até o dia do Juízo Final. Devia ser, realmente, um profissional.
— Senhor, isto é o número de um telefone.
— Obrigado pela informação. O gerente já suspeitava disso. E, aqui entre nós, eu
também. O que desejo é, através deste número, localizar o endereço e, se possível,
uma pessoa. É difícil?
— Ma come? È troppo facile... basta soltanto telefonare e domandare...
— É justamente isto que não quero fazer. Não quero e não posso telefonar e
perguntar.
Olhou-o sério, compreendendo que o hóspede tinha um interesse especial naquele
pedido.
— Capisco... capisco moltissimo bene...
Consultou o relógio. Dez horas da manhã. Prometeu que antes do meio-dia traria o
endereço relativo àquele número.
Com um tom grave, como se tivesse encomendado a um terrorista o roubo do
sangue de São Genaro, Augusto perguntou:
— Quanto?
Nada. Pedido tão insignificante não podia custar nada. Que pagasse um aperitivo
no bar, bastava. O homem ia se retirando. Teve breve hesitação e tomou coragem:
— É uma coisa tão simples... por que o senhor mesmo não telefona, inventa um
pretexto, uma encomenda para entregar, um convite para enviar...
— Sou estrangeiro. O sotaque me denunciaria...
Era verdade, embora não fosse toda a verdade. O sotaque era real, mas nem
sempre chamava atenção, a fluência era mais do que razoável, mas haveria palavras,
construção de frases que denunciariam um estrangeiro. O melhor era não arriscar.
Meia hora depois, como se lhe passasse a senha para o assalto ao Banco da
Inglaterra, para o roubo das jóias da Coroa, ele recebeu o papel com um endereço, um
número e uma informação suplementar: ali morava uma família que vivera no Brasil.

VIII

Nos últimos meses, Augusto não mais jantava. Ao cair da noite, pedia a Erika que lhe
preparasse a ceia leve, uma sopa, um sanduíche de carne assada, um chá, um doce
com chantilly — raramente jantava.
E como nada avisara sobre Mona, a governanta não se sentiu autorizada a quebrar
a rotina. Colocou na mesa apenas um prato e uma xícara a mais, se o patrão
ordenasse, ela providenciaria uma refeição.
Erika estranhava a presença da visitante, trabalhava com Augusto há ano e meio,
ouvira falar da ex-mulher, podia ser ela, também não podia, o patrão recebia poucas
visitas, mas quando recebia, eram invariavelmente de mulheres assim, na mesma faixa
de idade, do mesmo tipo, quase que com as mesmas roupas.
Perguntou quando e onde serviria a ceia. Augusto ia responder, Mona se
antecipou:
— Aqui mesmo, na varanda. E pode servir já, não almocei, comi alguma coisa na
estrada...
Erika ficou insultada com o desembaraço da visitante, mas controlou-se. Voltou a
perguntar, como se não a tivesse escutado:
— O senhor não vai sentir frio? Daqui a pouco vem aquela aragem... semana
passada andou resfriado...
— Não, Erika, pode servir a ceia aqui mesmo... para duas pessoas.
E lembrando-se de alguma coisa:
— Você hoje dorme fora, não?
— Sim, hoje dormirei fora...
Augusto falou em tom neutro, como se não fosse uma ordem:
— Então deixe o quarto preparado...
E olhando em cheio para Mona, procurando-lhe os olhos:
— Temos alguém para uma noite...
Erika se retirou, e Mona, pela primeira vez naquele dia, sentiu que estava na casa
em que já fora senhora.
— Vou lá embaixo apanhar a maleta que deixei no carro...
Ela sabia que, ao dar-lhe as costas, Augusto olharia firme e fundo para suas
pernas. Fora — ou seria ainda — sua obsessão, desde o início, quando ele ainda nem
fizera cinqüenta anos. Notara nele uma tendência ao fetichismo, a princípio discreto, às
vezes normal nos homens de meia-idade. Aos poucos, avassalador, total. Nos últimos
tempos, depois dos sessenta anos, só conseguia o orgasmo quando concentrava mãos
e boca em determinada parte do corpo dela, geralmente as mãos, os dedos muito
compridos e ossudos, ou em certa curva do quadril, gostava de vê-la de costas, na
posição em que a cintura ficava mais fina e o quadril mais violento.
Para obter esses ângulos, ele se tornara amante atento. As posições que buscava
eram complicadas e, por sua vez, ela reagia bem, aderindo. Na preocupação de
satisfazê-lo, chegava ao orgasmo repetidas vezes.
Havia, inclusive, o detalhe pelo qual ela podia adivinhar se alguma mulher o
interessava. Na rua, na praia, numa festa social, na sala de espera de um aeroporto,
ela sabia quando e como Augusto se fixava numa mulher. Era dissimulado para
demonstrar emoção. Fingia não ver, ou ver e não ligar.
Apesar disso, Mona descobria nele uma inflexão fria na boca, um tom opaco no
olhar, que geralmente, e apesar da idade, era sempre quente e vivo. Uma placa que
parecia líquida cobria seus olhos, como se neles houvessem pingado um colírio
brilhante. Tinha então a certeza de que, se olhasse as mãos dele, veria que tremiam
fracamente. Algumas vezes, ela primeiro notava-lhe o leve tremor nas mãos, a película
brilhante nos olhos, o caimento da boca para um dos cantos. Era então levantar os
olhos, pesquisar em torno. E descobriria no salão, na rua, na praia, a mulher que
provocara aquelas reações.
Outras vezes era ao contrário. Primeiro ela via um tipo de mulher passar à frente,
nem precisava olhar para saber que ele se encrespara. Por mais que disfarçasse,
adquiria alguma coisa de animal com vontade de dar o bote. Mona sabia que, se não
estivesse ali, ele se entregaria àquele tipo de contemplação, que podia ser em alguns
casos estética, mas era sempre depravada.
Ao descer a escada que a levaria ao jardim onde deixara o carro, ela sentia que
Augusto a olhava daquele modo. Aquelas pupilas duras, fortes, de alguma forma a
perturbavam. Nos 17 anos em que viveram juntos, era esse olhar que anunciava o
começo da excitação que, seguindo trilhas inesperadas, explodiria na posse.
Os três anos de separação, a crise nervosa que o fazia semiparalítico, a vida
retraída que ali levava podiam ter alterado os acidentes, mas não o modificaram na
essência. E a essência — ele sempre dizia — era a urgência do desejo, urgência e
desejo que o haviam levado a ela, obrigando-o a seguir — ou perseguir — uma
adolescente pelos corredores de um navio, depois pelas ruas de Nápoles, cumprindo
em parte um destino, em parte uma condenação.

IX

Era longe, no início da estrada que vai a Torre Anunziata. Rua típ ica daquela zona da
cidade, nem estreita nem larga, prédios antigos, da mesma época, as paredes
descascadas ou encardidas. Um dos lados da rua terminava na baía. O outro dava
vista para o Vesúvio, que, apesar de distante, fechava a linha do horizonte.
Havia carros estacionados junto ao meio-fio das duas calçadas, criando o corredor
no meio, irregular e estreito, um caminhão que por ali passasse teria de se espremer
para não causar problemas, era uma daquelas ruas que mereciam a classificação de
spremuta — como as laranjadas e limonadas. Ao contrário do aspecto decadente das
casas, os carros ali parados eram novos, bem cuidados, alguns deles suntuosos, sinal
de que os moradores pertenciam ao escalão mais abonado da classe média. E além
dos carros, dezenas de lambretas e vespas de diferentes cores e feitios ocupavam os
espaços entre os carros e as paredes.
No caos de lambretas e carros, Augusto podia permanecer sem despertar
suspeitas. Era um forasteiro, sem dúvida, todos ali deviam se conhecer, a região
estava longe de pertencer a qualquer itinerário turístico.
Para sorte dele, mais ou menos no meio da rua havia o pequeno bar com o
emblema do lado de fora, o T enorme que anuncia a venda de cigarros. Da porta do
bar, ele teria visão sobre todas as portarias do lado oposto da rua, inclusive sobre o
número 43, que o homem do hotel indicara como residência de uma família “que vivera
no Brasil”.
Olhou o relógio, quase três horas. E ele ali estava há duas, esquecera de almoçar,
comeu dois tramezzinis, tomou uma taça de cappuccino, fumou dois, três cigarros, não
sentia cansaço porque tinha certeza de que ela apareceria de repente.
Levou um susto quando, meia hora depois, viu passar pela rua, saído de uma casa
do lado par, um vulto gordo que, por um momento, visto de costas, parecia com o
homem grosso e repugnante do navio.
Ficou assustado, não havia previsto aquela possibilidade. Pesou a hipótese: e se
ele aparecer? O que isso significaria?
O homem grosso e repugnante não apareceu. Nem a moça. Caiu a noite, era
setembro, o sol ainda se punha tarde, a luz avermelhada ficou iluminando as fachadas
sujas, Augusto andou de um lado para outro, depois do lanche tomara dois, três
expressos, o homem do bar — e principalmente a mulher, que vendia cigarros —
olhava para ele, estranhando-o.
Foi embora, ou melhor, fingiu que ia embora várias vezes. Quando mais tarde as
luzes das casas se acenderam, alguns moradores chegaram do trabalho, outros
saíram. Não podia ficar ali, indo e vindo numa rua que afinal não era grande. Nem se
instalar no bar pelo resto da noite. Voltaria no dia seguinte, depois de alugar um carro,
o menor que encontrasse, para facilitar o estacionamento.
Tomou o último expresso, o homem que o serviu olhou-o com reprovação, avisou
que café demais estragava o estômago, Augusto sorriu, disse que estava habituado. E
como o homem já suspeitara que ele era estrangeiro, confessou que no Brasil tomava
dez, vinte, cinqüenta, mil cafezinhos por dia. Comprou mais um maço de Muratti, fumara
muito durante o dia. Despediu-se, como se fosse mais do que um freguês, mas um
amigo, um íntimo do bar.
Para buscar um táxi na pequena praça em que a rua terminava, ele teria de
caminhar em sentido contrário ao do número 43. Como não tinha pressa de voltar ao
hotel, desanimou de ir em direção à praça e seguiu o caminho oposto, que dava para
um labirinto de pequenas ruas. Andaria até encontrar o táxi, não perderia aquela última
possibilidade de ver a moça.
Caminhou devagar, retardando o momento em que passaria pelo número 43.
Estava a dois, três metros da portaria quando teve de se espremer junto à parede para
deixar passar um pequeno ônibus caindo aos pedaços. Ficou no ar a fumaça negra
espirrada pelo cano de descarga, ridiculamente colocado acima da carroceria do
ônibus. Nisso, a porta do 43 se abriu e uma velha apareceu. Levava bolsa, guarda-
chuva e lenço na cabeça.
Augusto tomou coragem:
— Scusi, lei è brasiliana?
A velha parecia ter vivido toda uma vida dentro de uma regra fundamental: não se
deve confiar em estranhos, e, muito menos, em estrangeiros. Alarmou-se. Mais do que
isso, insultou-se com a abordagem. Olhou Augusto com firmeza e desagrado.
— Io? Brasiliana io?
Resmungou meia dúzia de palavras que Augusto não entendeu. Acabou de fechar a
porta, e o fez com o dobro de cuidado, um estranho ali representava ameaça.
Começou a andar como se não percebesse que havia alguém que a acompanhava.
Augusto se esforçou para convencê-la, disse que era brasileiro, procurava uma
família, tinha recado importante que envolvia saúde e dinheiro. A velha ou acreditou ou
se cansou de ter perdido uma oportunidade para falar.
Disse pouco, mas bastante. Morava no terceiro andar, a família de brasileiros
morava no segundo andar — e deu a entender que não gostava dos vizinhos. Seguiu
seu caminho, tinha fretta, muita pressa.
Augusto agradeceu, deu um tempo e voltou ao número 43. Atravessou a rua e
examinou o prédio. As janelas do segundo andar estavam acesas, um lustre murano,
branco, dos mais vulgares, iluminava as vidraças das janelas protegidas por cortinas
rendadas.
E estava olhando as janelas quando a porta novamente se abriu. Não parecia ela.
Ainda havia um resto de luz da tarde, pouca, mas bastante para reconhecê-la. A última
vez que a vira, no cais, ela parecia uma menina, não uma mulher. Agora, era uma
mulher que ainda tinha alguma coisa de menina, mas pouco.
O cabelo era o mesmo. O rosto — sempre sério — também. Estava mais alta, em
apenas dois dias que haviam-se passado (do navio até aquela rua em Nápoles) ela
parecia ter crescido pelo menos um palmo. E sozinha, separada da turma que viajara
com ela, parecia menos solitária. No navio, dava a impressão de que nada tinha a fazer
ali, não ia para nenhum lugar, embora fosse sempre em direção a um homem grosso
que esperava por ela ou que ela esperava encontrar.
Ali, fechando a porta do prédio onde morava, no início de uma das últimas noites
de verão, ela ia a um lugar determinado. Mesmo que ficasse a noite parada na porta,
ela estaria indo para algum lugar.
Tomou a direção da praça. Augusto acompanhou-a, guardando quatro, cinco
metros de distância. Ao passar pelo bar, o dono estava na porta, conversando com um
guarda. Reconheceu-o, teve o espanto apropriado, como a dizer: “O senhor aí?!”
Tamanha a estupefação do homem que Augusto sentiu-se obrigado a cumprimentá-
lo, buona sera, como se fosse um conhecido antigo, talvez um amigo.

— Três anos morando em Nápoles e você nunca foi a Pompéia? Que tipo de gente é
sua família?
A moça pareceu não gostar. Morava com o tio que a abrigara depois que ela
perdera os pais num desastre de carro em São Paulo, na estrada de Santos. Não
ficara sozinha no mundo porque o pai tinha esse irmão em Nápoles, um bom sujeito que
aos vinte anos decidira tentar a vida na Itália, terra de seus avós. Ali se casara, tinha
três filhas, quando soube que havia uma sobrinha de catorze anos sozinha no mundo,
sem ter para onde ir, tomou um avião, gastou tempo e dinheiro com papéis, Juizado de
Menores, três meses depois do acidente desembarcaram em Roma, a mulher e as
filhas foram esperá-los em Fiumicino, a apresentação foi sumária, não se tratava de
aceitar ou ser aceita, eram de um mesmo sangue, e isso funcionava na família.
Afora o calor humano, ela não podia cobrar mais nada. O tio abrira espaço para
recebê-la, as economias deixadas pelo pai serviram para abrir um fundo que destinava-
se a pagar os estudos básicos, depois se pensaria no que fazer com ela ou dela.
Homem rude, o tio: começara de baixo, chegara a diretor e agora era dono de uma
firma de transportes que tinha o porto como base. A tia viera da Lombardia, queixava-
se de Nápoles, achava tudo imundo e complicado, aprendera a se submeter, perdera
toda a família na guerra, o casamento era ao mesmo tempo uma vida e um emprego.
As primas a receberam bem, pertenciam à mesma faixa de interesses, colégio,
namorados, mas logo perceberam que jamais seria igual a elas. Sem hostilidade, até
mesmo com amizade, a suportavam.
Ficava difícil, no primeiro encontro com aquele estranho que brotara subitamente
em seu caminho, explicar isso tudo. A pergunta dele fora direta (“Que tipo de gente é
sua família?”) — ela preferiu entrar no detalhe (por que nunca tinha ido a Pompéia)
desde que não fosse obrigada a falar sobre o resto.
Os alunos de todos os colégios, habitualmente, logo nos primeiros anos de escola,
eram levados em excursões a Pompéia e Herculano, a cratera do Vesúvio. Ela chegara
tarde, matriculara-se em curso médio. Para o pessoal de sua turma, o fato mais
importante da cidade pertencia a um mundo antigo demais. Viviam e conviviam em
torno de outros interesses e compromissos.
Prometeram-lhe um passeio às ruínas nascidas da erupção do Vesúvio, a
montanha azulada, duplicada em outra montanha quase igual, que era vista de qualquer
ângulo da cidade. Ninguém mais dava importância à história, não passava de um tema
escolar que ela aprendia como a regra de três, o plural das palavras, os nomes das
capitais e dos rios da Europa.
Augusto ouvia a explicação enquanto pensava: de certa forma, ele estava indo
depressa demais. Na véspera, seguira aquela moça pela rua até a praça, ela precisava
de um caderno e ia a uma papelaria que já estava para cerrar as portas. Apesar de
Augusto ter mantido pequena distância, ela percebeu que estava sendo seguida.
Continuou com seu passo firme, tal como nos corredores do navio, sem dar importância
ao que existia em torno. Era, decididamente, mais alta do que antes, talvez por causa
do sapato que usava. Talvez pela expressão corporal entediada que adotara durante a
viagem. No pequeno mundo de todos os dias, parecia ser mais ela mesma.
Entrou na papelaria, foi atendida por uma jovem de óculos, magra e pálida. Elas se
conheciam. Trocaram algumas palavras. Augusto esperou-a do lado de fora. Ela ia
saindo, chegou-se à porta, que era em nível mais alto do que o da calçada. Guardava o
troco na bolsa, escorando entre o braço e o corpo o caderno que acabara de comprar.
Talvez por desconfiança — devia ter sido educada para tomar cuidado quando
estivesse com a bolsa aberta —, olhou em volta e viu o desconhecido que parecia
esperar por ela.
— Mona?
Não respondeu. Achou impossível que um desconhecido se dirigisse a ela. Guardou
o troco na pequenina sacola de níqueis, fechou a bolsa. Como o homem não saía de
sua frente, ela o encarou e respondeu:
— Não.
Foi a primeira palavra que Augusto ouviu dela.
— Seu nome é Francesca. Mas não gosto dele. Prefiro que seja Mona.
— Como sabe meu nome? — falou em italiano, com a entonação indignada de uma
napolitana.
Augusto respondeu em português, na certeza de que seria entendido:
— Sei também que você chegou de viagem, fez um cruzeiro no Eugenio C, é
brasileira e vai se chamar Mona daqui em diante.
Ela ouviu e ficou admirada de ter ouvido. Não pelo que ouvira, mas pelo fato de ter
aceitado ouvir.
Permaneceu muda um tempo, sem coragem para descer o degrau e enfrentar o
desconhecido no nível da rua. Na soleira da porta, teria a impressão de estar acima
dele. E em caso de agressão física, poderia recuar, pedir proteção à moça que lhe
vendera o caderno.
Olhou bem a cara de Augusto, buscando algum indício de conhecimento.
— O senhor também estava no cruzeiro? — Ela continuou falando em italiano, era
uma forma de não se sentir tocada.
— Sim. Pode não acreditar, mas acompanhei-a até aqui.
A moça encarou Augusto com seriedade. Finalmente, abandonou o italiano,
admitindo o diálogo:
— Não me lembro de ter visto o senhor durante a viagem... e foram doze dias...
— Onze. Você saltou em Nápoles e eu segui até Gênova. Tomei um avião em
Milão, cheguei ontem, passei o dia aqui na rua, esperando vê-la.
Não deu importância ao que ouvira. Fez a cara neutra, que nela era a mais natural.
Pediu licença para passar. Augusto ficara à sua frente: não estava disposto a perdê-la.
— Dá licença?
Desceu o degrau. Augusto sentiu que ela ia embora. Apesar de ter sido a
abordagem mais violenta de sua vida — não se lembrava de ter feito nada igual em
qualquer outra situação ou com qualquer outra mulher —, ele sabia que não tinha nada
a perder se fosse até o fim. Ou ganhava tudo ou perdia o suficiente para ir embora e
procurar esquecer.
— Olha, vê se reconhece isso...
Tirou do bolso o jornalzinho de bordo, a letra dela, clara, vertical, o nome e o
número, o B enigmático no fim.
A moça parou. Examinou o papel. A luz que vinha da loja não chegava até onde
estava, ela recuou e fez Augusto recuar com o jornal dobrado em dois, deixando bem
destacada a parte em branco onde ela escrevera o nome e o número de seu telefone.
Olhou assustada para Augusto:
— Onde arranjou isso? Quem é o senhor?
Olhou o jornalzinho mais uma vez, não acreditando no que via:
— Aonde o senhor quer chegar?
— Já cheguei. Agora preste atenção: estou cansado, muito cansado mesmo, não
almocei, passei o dia em pé esperando por você... meu nome é Augusto, Augusto
Richet, moro no Rio, tenho 46 anos, sou desquitado, tenho um filho quase de sua idade,
quero que você venha amanhã se encontrar comigo, marque hora e local, não posso
perder essa oportunidade, lá no navio tentei me aproximar mas... foi impossível, você
desaparecia...
Os dois caminhavam lado a lado, ela com a cabeça baixa e, como sempre,
parecendo saber aonde ia. Ao chegar à esquina da rua onde morava, os dois pararam
ao mesmo tempo. Tanto ele como ela sabiam que ali terminava o encontro, que poderia
ser o último.
Ela olhava o chão, para não encarar o homem que a abordara. Ficaram um tempo
sem falar. Augusto descobria que a moça tinha a sua altura, com outro tipo de sapato
ficaria até mais alta — como isso pudera acontecer, ela que no navio parecia miudinha,
quase insignificante?!
E como a noite caíra de vez, ele só podia adivinhar a testa baixa que continuava
tranqüila, como se o encontro não lhe importasse. E o que fosse dizer também não
importasse.
— Está bem. Amanhã, ao meio-dia, em frente ao Museu Nacional.
E sem dar tempo a que Augusto estendesse a mão para tocá-la, ela o deixou.
Dia seguinte, no barzinho próximo à Galeria Nacional, diante de um prato de massa
e de uma jarra de vinho branco, ele estranhou que Mona, morando há dois anos em
Nápoles, ainda não tivesse ido a Pompéia.

— Antigamente, havia uma placa proibindo menores de 18 anos de entrarem aqui.


Augusto deixou que Mona fosse a primeira a passar pela porta. O sol estava forte
lá fora e ela procurara sempre o lado da sombra. Ali dentro havia umidade, cheiro de
terra e cinza. Entrou como entrara em outras casas, sem curiosidade especial pelo que
ia ver. E viu, sem emoção, os quatro leitos de pedra encimados por gravuras que
representavam as atrações oferecidas pelo lupanar.
Não demorou o olhar em nenhum dos quadros, mulheres volumosas em cima ou
embaixo de homens rudes, marinheiros vindos de todos os pontos do Mediterrâneo que
ali compensavam os meses de abstinência. Parecia mais interessada em examinar os
leitos de pedra que serviam de apoio às posições sugeridas.
Não disse nada, mas Augusto percebeu que ela examinava a nudez dos leitos.
Procurou quebrar o constrangimento que, na realidade, não sentia:
— Eles deviam ter alguma coisa parecida com colchão para colocar em cima da
pedra...
— Eles quem? — perguntou Mona.
— Bem, os marinheiros que vinham das ilhas gregas, da Sardenha, da Sicília, do
norte da África... não acredito que os romanos que vinham passar o verão em Pompéia
freqüentassem isto aqui, deviam ter programas melhores...
— Como é que sabe?
— Não sei, suponho. Eles tinham a mania dos frigidários, dos tepidários... os
romanos tomavam tanto banho que foram amolecendo... e nesses lugares valia tudo...
— E como sabia que havia isto aqui... estes leitos de pedra... estes quadros?
Mona sentia-se abafada ali, no pequeno cubo de pedra que forma o núcleo da
maioria das casas de Pompéia. Já tinha ido para fora, preferindo o sol áspero do final
da manhã.
Augusto riu:
— Vim aqui algumas vezes e já li sobre o assunto...
Os dois procuravam o lado da sombra e se orientavam para chegar à Via
dell’Abbondanza, a main street da cidade sepultada e rediviva. Pararam numa esquina,
e só então Mona reparou:
— Que é aquilo? Será o que estou pensando? — E apontou para o quadro de
pedra no canto de uma casa de esquina.
— É exatamente isso que está pensando. Os romanos chamavam a isso de fálus...
havia outros nomes também, mas este acho que era o oficial... a posição dele indicava
o caminho do lupanar, os forasteiros falavam diversas línguas, havia necessidade de
sinalização. Este é, seguramente, um dos primeiros sinais de trânsito do mundo...
Mona colocou os óculos escuros. Ficava parecida com uma artista de cinema que
Augusto não sabia qual.
— Por que você não me conta a história do mundo?
— Eu? Por que eu?
— E por que não você?
— Há professores por aí, a Itália tem alguns dos melhores professores nessa
coisa de história do mundo. Não seria um brasileiro, um sujeito preocupado em saber
se um sabão vende mais do que outro, que seria o indicado.
— Eu gosto do modo que você fala das coisas... Essa história de Mona, por
exemplo... já estava habituada a ser Francesca para o resto da vida, na minha família
os nomes são assim, italianados, houve tempo em que eu desejava ser Francisca,
quando me perguntavam eu dizia: Francisca. Não deu certo. Era Francesca e
Francesca fiquei. Até ontem.

Ontem.
No bar em frente ao Museu Nacional, diante de um prato de massa, uma jarra de
vinho branco, segurou a mão daquela menina que fora pontual e ali se apresentava,
diante do desconhecido que a abordara na rua. Ele confessara que a seguira pela
metade da Itália, mil séculos passados já. Ela viera com a mesma indiferença com que,
no navio, ia ao encontro do homem grosso e repugnante cuja memória Augusto fazia
esforço para esquecer.
A primeira reação dele foi agradecer o fato de ela ter vindo. Poderia parecer
fraqueza, revelar a aflição em que vivera os últimos dias. Além disso, o que ele
desejava, desse ou não desse certo o encontro, era uma troca, dar e receber — não
sabia ainda o que e como.
A conversa resumiu-se a dois pontos: o nome dela (que envolvia o passado) e o dia
seguinte (que envolveria o futuro). Os rostos estavam próximos, a mesa era pequena,
quase se tocavam nos pés, ele aproveitava a proximidade para examinar aquele rosto
do qual sabia apenas as linhas básicas, mas ignorava os detalhes, os olhos negros,
mais para grandes, os dentes que apareciam nas poucas vezes em que ela sorria
contra a vontade. Depois de examiná-la bem, e surpreendido porque, no fundo, era
mais bonita do que parecia, assumiu o comando da conversa:
— Não gosto do Francisca e muito menos do Francesca. Há duas Francescas na
história da Itália. Uma, que era de Rimini, cometeu adultério, e Dante a colocou no
inferno. Acredito que não foi pensando nela que o seu pai escolheu esse nome. A outra
Francesca é nebulosa, deve ser mais lenda do que história. Houve um jovem chamado
Francesco, Leonardo da Vinci apaixonou-se por ele, pintou-o como mulher, ficou sendo
um símbolo de coisas enigmáticas, diziam que era mulher mesmo, uma tal de
Francesca, filha, esposa ou amante de um tal Giocondo...
— Você me acha com cara de Gioconda?
— Não sei o que venha a ser uma cara de Gioconda.... se você se refere ao
quadro de Leonardo, bem, não há nada dele em seu rosto, nem o sorriso, nem os
cabelos, nem o jeito de olhar... nem as mãos, veja... suas mãos são longas, os dedos
ossudos, a Mona Lisa tem mãos serenas, macias, recheadas de carne... se a intenção
foi homenagear o artista que seu pai admirava, ele escolheu errado, devia ser Mona...
aliás, para mim, você será Mona, aconteça o que acontecer, você será Mona...
— E se nada acontecer?
— Você ficará sabendo que um homem a chamou de Mona e para ele você será
Mona, com uma porção de sentidos...
Ela não respondeu. Olhava para o prato onde a penne al pomodoro era vermelha e
tentava. Depois de algum tempo, como se fizesse esforço, admitiu.
— Gostei.
O segundo assunto foi o dia seguinte. Resolvida — ao menos para ele — a
transformação de Francesca em Mona, comeram em silêncio, beberam em silêncio.
Quando não mais tinham o que comer e beber, se despediram.
— Amanhã vamos a Pompéia. Alugo um carro, passo lá na sua casa às nove
horas...
— Não, não passe lá em casa, me apanhe na praça... perto da papelaria.
Augusto pensou: “Tem treino nessas coisas!” — e logo se lembrou do homem
grosso. Quantas vezes não marcaram encontro na papelaria? Ou em outro lugar?
Estava tão certo de que ela não faltaria ao encontro que despediu-se friamente,
como se fossem conhecidos há muito, como se não fosse aquela uma primeira vez e
como se a próxima fosse inexorável.
No dia seguinte, tomando cuidado para não tropeçar nas pedras irregulares que
pavimentam a Via dell’Abbondanza, Mona pedira que lhe contasse a história do mundo.
— Fome?
— Ainda não — respondeu Mona. — Tenho sede.
Havia a lanchonete, modernosa, um escárnio no meio de ruínas assépticas e
ordenadas. O ar refrigerado estava forte.
Mona avisou:
— Só vou sair daqui quando o sol abaixar. Tá um inferno lá fora.
Tomaram refrigerantes, depois comeram sanduíches. Pouco falaram, distraíam-se
em ver os turistas esbaforidos, os nórdicos com as bochechas em fogo, de um
vermelho doentio, os japoneses mais pálidos do que o habitual, todos avançavam nos
sorvetes, faziam um programa e o cumpriam, tinham pago para isso, tirariam muitas
fotos com suas máquinas pequeninas e eficientes, esperariam serem reveladas para
saberem se tinham ou não gostado do passeio.
O ar refrigerado penetrara na pele de Mona e ela sentia um pouco de frio. Augusto
olhou lá fora, o sol já não estava tão forte.
— Falta muita coisa para ver. E os portões da cidade fecham às cinco horas...
vamos andando...
Mona colocou novamente os óculos escuros e teve a impressão de que já era
íntima, talvez habitante de uma cidade morta.
Por distração, de repente ele se sentiu perdido no labirinto de ruas iguais. Teve
vergonha de consultar o mapa que comprara para Mona.
Ela percebeu:
— Você não está perdido?
— Eu? Acho que não. E se me perder, não serei eu o perdido. Seremos dois os
perdidos.
— Eu nunca me perco...
Apesar de já ter declinado, o sol ainda era forte, e os obrigava a andar no lado da
sombra. Houve um momento em que Mona declarou que aquele trecho era feio, não
tinha nada de interessante. Queria voltar pelo mesmo caminho, suspeitando que
Augusto perdera o ponto de referência que até então o orientara.
— Vamos parar aqui. Não adianta ir para a frente, não há nada mais...
Caminhamos muito.
Augusto olhou-a espantado.
— Sabe o que está dizendo?
— Sei. Vamos parar aqui. Não adianta ir para a frente, não há mais nada.
Caminhamos muito.
Augusto fechou os olhos.
— Que que há? — perguntou Mona.
— Estou guardando isso que você falou: Vamos parar aqui. Não adianta ir para a
frente, não há mais nada. Caminhamos muito.
— Não estou entendendo.
— Parece fim de caso. Um caso que ainda não houve.
— Nem haverá.
— Tem certeza?
— Tenho. Eu não darei retorno, e você não merece isso.
Augusto apontou o dedo numa direção:
— Sabe onde você está apoiada? Veja aquela placa ali em cima.
Mona virou o rosto e leu em voz alta:
— Casa del Poeta Tragico.
Tirou os óculos e olhou Augusto intrigada:
— O que é isso? Você não me falou sobre essa casa.
— Nem sabia que iria passar por aqui. Você parou, nós paramos, e você quis
voltar, achando que não adianta ir para a frente. Pois tá tudo aí... a casa do poeta
trágico...
— Não brinca! Quem foi esse poeta? E por que ele era trágico?
— Não sei. No mapa deve haver uma explicação. Só me lembro de uma coisa.
Venha ver.
Apanhou Mona pelo braço e levou-a à frente do portão.
— Olha!
E apontou o chão.
Mona olhou e viu o cão negro feito de pequeninas pedras que formavam o mosaico.
Depois, leu a inscrição abaixo do cão: Cave canem.
— Ao menos isso eu sei traduzir. Cuidado com o cão — disse Mona, satisfeita. —
Aqui na Itália estudamos latim desde cedo, essa frase é o exemplo para a regência dos
verbos que pedem o acusativo... — Depois, admirada de estar falando tanto,
perguntou: — Você sabe latim?
— Não muito. No meu tempo ainda se estudava latim no ginásio, mas eu não dava
importância, nem teria necessidade dele...
— E como se atreve a contar a história do mundo se não sabe nem isso: Cave
canem. Cuidado com o cão!
— Não me atrevi a contar a história do mundo. Foi você quem pediu.
— Bem, vamos voltar. — Augusto achava que o passeio terminava ali. Olhou o
relógio.
— Os portões fecharão daqui a pouco. É melhor ir andando, do contrário ficaremos
presos...
Deram alguns passos. Mona parou e prendeu Augusto pelo braço.
— Espere, quero voltar àquela casa...
— Pra quê? Não tem nada pra ver...
Mona sumira em outra rua, na direção da Casa do Poeta Trágico. De má vontade,
Augusto acompanhou-a. Quando chegou à esquina, viu Mona parada em frente ao
portão, olhando o mosaico.
Ele se aproximou:
— Olha o cão! — disse ela.
— Estou olhando — respondeu Augusto.
Enquanto Mona olhava o cão, ele se aproximou dela, ficou perto, tão perto que
sentia o cheiro do suor secando em sua pele adolescente. Pelo acaso de sua
disponibilidade, por isso ou aquilo, sentindo-lhe o suor secando no corpo jovem, pela
primeira vez a desejava.
O pensamento o aborreceu. Tornava vulgar a busca desesperada pelo navio, por
Nápoles, o passeio pela cidade sepultada em cinzas. Até então, imaginara estar diante
de um enigma que o desafiava, um destino que o forçava a enfrentá-lo. O desejo, a
pontada na carne amesquinhavam a caçada brutal que nem mesmo ele entendera.
Ficou desapontado consigo e um pouco com ela.
Mona continuava olhando o cão. Colado à moça, Augusto sentia mais próximo,
tocando suas narinas, o cheiro do suor adolescente secando na pele — e olhava aquela
pele, sobretudo nos ombros, que eram doces, com a curvatura suave que contrastava
com os dedos ossudos das mãos.
De repente, Mona se apoiou nele, deixando cair a cabeça em seu ombro:
— Você acha que eu vou ter medo à noite?
— Medo de quê?
— De tudo... dessa cidade morta, dessa casa triste, desse cão negro...
— Você dorme sozinha?
— Não. Durmo no mesmo quarto das primas... mas elas estão fora, aproveitando o
resto de férias em Praiano, com uns rapazes que conheceram no navio... vou dormir
sozinha e ter medo desse cão...
— Então vamos embora. Daqui a pouco fecham os portões...
Ao atingirem uma das ruas que dão para a Porta Marina, os guardas já haviam
feito a ronda, avisando aos visitantes que os portões se fechavam. Augusto tentou
correr em direção a eles, para que soubessem da existência de pelo menos dois
retardatários.
Mona o travou, segurando-o pelo braço.
— Não. Vamos ficar. Hoje não quero dormir sozinha.

– Quero dormir sozinha — disse Mona.


Augusto olhou-a, surpreendido.
— Evidente... você terá o quarto de Erika, ela já disse que passará a noite fora,
uma vez por semana vai dormir com a irmã...
Mona estava longe, pensando em outra coisa.
— Desculpe... eu não ouvi direito... pensei que fosse dormir no quarto dos
hóspedes...
— Está fechado. Não tenho mais hóspedes, nem recebo visitas.
O que os dois não se disseram é que o quarto agora ocupado por Erika era o de
Otávio. Sentindo-a preocupada, ele a tranqüilizou:
— Não a incomodarei, estou me virando sozinho... quando me sinto pior, Erika
transfere a noite da folga, mas hoje estou ótimo... há muito não me sinto tão bem...
Para provar que estava ótimo — suas crises eram cíclicas, dependiam de fatores
que nem os médicos nem ele próprio podiam prever ou explicar —, levantou-se da
cadeira de rodas. Apesar da solenidade com que se movimentou, era evidente que não
estava tão doente como aparentava.
Haviam terminado a ceia, era a hora em que ele preferia ouvir música ou ver um
filme da coleção de vídeos. Contudo, aquela não seria uma noite comum para ele.
Mona, novamente ali, era ao mesmo tempo uma companhia e uma platéia.
— Veja, estou cambaleando mas consigo andar. Já mudo de roupa para dormir e
não preciso do auxílio de ninguém. Até abotoar os botões da camisa consigo... quando
estou bem, ou melhor, quando quero realmente...
Fez uma pausa. Olhou Mona com tristeza:
— Acontece que, às vezes, não quero...
Mona sabia que a paralisia dele era uma espécie de truque. Começara a ter
dificuldades em certos movimentos. E como era covarde, logo se cercou de
enfermeiros que o ajudavam a tomar banho, a mudar de roupa. A cadeira de rodas fora
exagero, os médicos achavam que uma simples bengala, usada em momentos de crise,
lhe daria segurança.
Depois que ficara sozinho, tinha crises estranhas, considerava-se em perigo,
dependente de cuidados — temia acordar no meio da noite e não poder se levantar,
imobilizado por uma crise, ainda que passageira. Mona soubera por intermédio de
conhecidos comuns o que se passava com Augusto. Era o início de uma velhice
complicada.
Desde que ali chegara, habituara-se a vê-lo na cadeira de rodas. Daí que ficou
surpreendida, até assustada, quando Augusto levantou-se num lance teatral,
inadequado para o clima da ceia que transcorrera cordial, mas fria. Ele procurara ser
gentil até o limite do possível. Mais um pouco e seria uma ceia como antigamente.
Ao se erguer da cadeira, tentando exibir a vitalidade que nunca fora obrigado a
provar, ele cometia o primeiro gesto que revelava quão infantil estava se tornando.
A copeira retirou o serviço da ceia, colocando no centro da mesa a jarra de prata
com duas hortênsias colhidas há pouco do jardim. Perguntou se ela desejava alguma
coisa, Mona agradeceu. Augusto foi fumar o charuto na varanda. Ela ficou sozinha na
sala.
Tinha diante de si a cadeira de rodas vazia. Aproximou-se dela, rodou-a para lá e
para cá. Depois, como se quisesse experimentá-la, sentou-se e colocou os pés no
estribo que se abria em dois para facilitar a entrada ou a saída do corpo. Colocou as
mãos nas rodas cromadas que davam tração e direção à cadeira, mas não teve
vontade de dar uma volta completa. Ficou rodando, ora pra frente, ora pra trás, como a
criança que descobre um brinquedo novo do qual tem um pouco de medo.
Havia a manivela, também de aço cromado, que servia de trava. Ela experimentou
imobilizar a cadeira, mas não atingia o ponto exato em que deveria comprimir a
alavanca. A cadeira rodava, para a frente, para trás, para os lados.
Procurou fixar-se na posição correta, como se fosse uma paralítica de verdade.
Ela imaginou como ele deveria se sentir. Concentrou-se tanto que não percebeu:
Augusto estava à sua frente, não aborrecido, mas tenso.
Olhou-a sem reprovação, mas sem carinho, como se ela o tivesse ofendido.
Mona defendeu-se:
— Estou imaginando como é que você se sente... não sei a graça que acha em
passar o dia assim...
— Eu não acho graça alguma...
— Há muito tempo você não acha graça em nada...
Ele notou o tom irônico.
— Por quê? Alguém lhe disse que fiquei impotente?
O assunto era delicado. Mona soubera, logo depois da separação, que Augusto
começava a perder os movimentos. A atrofia, de fundo nervoso, teria afetado a
atividade sexual.
— Não, ninguém me disse. Eu é que imaginava... afinal, você foi tão radical em
assumir uma doença que não tinha, ou que não era tão grave quanto queria, enfim, tudo
seria possível, inclusive...
— Inclusive o quê?
Mona sentia-se desconfortável com o assunto e com a maneira pela qual ele
conduzia a conversa. Percebia que Augusto se aproximava, não lhe dando espaço para
levantar da cadeira.
— Inclusive... — Ela evitava encarar aquele homem que se aproximava com alguma
ameaça. Sentada como estava, com Augusto em pé, diante dela, só podia olhar um
ponto do seu corpo.
— Acho que pensei errado — disse de forma tão fria que ele recuou. Mona
aproveitou e ameaçou sair da cadeira.
— Não. Fique mais um pouco... estou me divertindo vendo você aí sentada... faz
certo sentido, ao menos para mim...
— Estou cansada. Vou deitar... trouxe um livro... adivinhe sobre o quê?...
Marketing e mercado... excitante, não? Você ainda se interessa?
— Perdi tudo, mas não sofro por isso... Antes de ficar doente já não pensava mais
nisso... é uma bobagem... e você sabe tanto quanto eu...
— Serve para ganhar dinheiro...
— Você gosta de dinheiro? Antes não dava importância...
— Gosto tanto quanto você gostou... que mal há nisso?
— Nenhum. Eu também ainda gosto de você... que mal há nisso?
— Nenhum também. Está me chamando?
— E se chamasse?
— Eu não iria.
Augusto olhava Mona para saber até que ponto estava sendo sincera. No geral,
sempre era sincera. Tinha, contudo, formidável capacidade de bloqueio. E isso vinha de
longe. De tão longe que, às vezes, nem ele acreditava ter acontecido.

XI

– Tem certeza de que é isso mesmo que você quer?


Mona estava mais séria do que o habitual — e isso inquietava Augusto. Afinal,
ficarem presos na cidade-morta fora uma atitude tão inesperada que, se havia medo, o
medo era dele.
Ela não respondeu. Augusto já decifrara alguma coisa daquela adolescente: o
silêncio era a forma para responder ao que não lhe interessava responder.
Ele insistiu:
— Os portões só vão abrir amanhã, você agüenta passar a noite aqui?
Ela continuou em silêncio. Caminharam para os fundos da cidade, em direção à
Porta di Sarno, perto do Anfiteatro. O sol ainda estava alto.
— Bem, se é para passar a noite, temos de nos esconder em algum canto... os
guardas fazem a ronda e será difícil explicar...
— O que não falta é lugar para a gente se esconder...
— E se você sentir fome?
— Não costumo sentir fome... afinal, você quer ou não quer ficar comigo?
Augusto percebeu o sentido da frase, evidente que ela falava em “ficar”, mas só
por aquela noite. Contudo, do jeito como falara, dava a impressão de que o “ficar” era
para sempre.
Respondeu olhando cheio nos olhos dela.
— Quero.
Então aconteceu: pela primeira vez, tomou a mão dele e o guiou por uma rua que
Augusto nem lembrava de ter passado antes. Dava a impressão de conhecer, de ter
nascido e se criado na cidade-morta.
Não foi difícil encontrar um canto não muito distante da Porta di Stabia, que estava
fechada. Havia o pedaço de muro cercando o que, aparentemente, havia sido um
jardim.
— Aqui ninguém nos encontra... — disse Mona, como se a situação se invertesse.
A partir daquele instante, ela é quem comandava o brinquedo ou lá o que fosse a
primeira noite que passariam juntos.
Noite que demorou a cair. O sol continuou por algum tempo, amarelando o céu, até
que tudo escureceu. Na cidade-morta, protegidos por ruínas que a treva fizera
desaparecer, eles sabiam que ali a noite seria mais longa.

Pouco se falaram. Mona pensava em alguma coisa que Augusto não alcançava nem
ousava perguntar. Que tipo de moça seria ela? Nunca teria coragem de passar uma
noite naquele local e naquela circunstância. Acreditava que, em dado momento, ela
desistiria daquele capricho, pediria para sair da cidade-fantasma, ele que explicasse a
situação aos guardas.
Augusto tentava distinguir um ponto que fosse daquelas ruínas, das árvores cujas
copas, antes de cair a noite, podiam ser vistas do lado de fora dos muros. Tinha a
sensação de estar numa imensa, numa escura bolha cujos contornos eram do tamanho
do mundo. Diante da imensidão em que o céu sem estrelas parecia tocar a Terra, o
único sinal de que ainda estava vivo era ouvir a respiração da moça, que pouco a pouco
se aproximara mais dele, até quase abraçá-lo.
Ela se levantou:
— Agora ninguém nos acha. Vamos procurar um lugar melhor...
Submisso, Augusto deixou-se levar. Passava o comando a ela. E ficava cada vez
mais espantado com a intimidade que a moça tinha com aqueles becos e esquinas.
Aprendera toda Pompéia, dela se fizera íntima. Viu a grande massa do estádio, sinal
que chegavam ao fim da cidade. Havia um gramado em volta.
Deitaram-se lado a lado. Augusto perguntou se ela não tinha fome.
— Não pense nisso. Estou é com sono. Fique a meu lado, não me deixe sozinha...
— Bem, ficarei a seu lado, mas estou sem sono... pelo contrário... nunca me senti
tão...
— Vamos combinar uma coisa? Eu fiz sua vontade, indo a seu encontro no bar,
vindo aqui a Pompéia. Faça agora a minha vontade. Fique quietinho.
A noite avançou. Mona colocara a cabeça numa pequena elevação do gramado,
logo dormiu, um sono tranqüilo, confiava em Augusto, sabia que ele estaria velando.
Bem mais tarde, soprou a aragem, vinda do mar.
Augusto percebeu que ela se encolhia, procurando alguma coisa para se cobrir. Ele
só tinha o corpo para abrigá-la.
Deixou-se abraçar. Mona gostou do calor que vinha do corpo dele. Continuou
dormindo, e em vez de moça, agora parecia uma menina. Uma menina dormindo.
Aos poucos, foi a vez dele de sentir não a aragem da noite, mas o calor que vinha
do corpo adolescente abraçado ao seu. O suor do dia de sol secara em sua roupa,
tinha um cheiro bom, tão bom que aumentava o calo, do corpo dela. E foi tanto o calor
que a abraçou com mais força, e com tamanha força que nem precisou despi-la
inteiramente, quando deu por si, a estava possuindo, sem pressa e sem fúria. Como
achava que ela merecia.
Acordaram quase ao mesmo tempo. A luz do sol batia num pequeno ângulo da
parede de pedra mais próxima. Augusto também conseguira dormir, e não estranhou
quando, ao acordar, ainda estivesse abraçado a Mona.
Ela acordara um pouco antes, e ficara olhando para ele — isso o incomodou. Não
gostava de ser olhado assim, na nudez do sono.
Percebendo que estava abraçado a ela, Augusto se afastou. Mona também se
afastou. Lado a lado, ainda estendidos na grama, ele achou que devia contar tudo:
— Mona... eu... eu possuí você... possuí mesmo... você estava dormindo...
— Não... eu não estava dormindo...
Segunda parte – o trágico
I

Sofria pouco, sempre imaginara que sofreria mais. O medo de perdê-la para sempre,
de viver sem ela, retardara em pelo menos um ano a decisão de acabar com a nossa
vida em comum, ou melhor, sob o teto comum, uma vez que nada tínhamos em comum,
nem mesmo na noite em que Mona, já preparada para deitar, usava aquela calcinha
amarela, muito justa, eu sempre me excitava quando a via assim, chegávamos à
perfeição da posse sem que ela precisasse tirá-la, a dificuldade na penetração dava-
lhe tesão e algumas vezes eu chegava ao orgasmo na tentativa de penetrá-la, ela não
reclamava, gozava também, ao mesmo tempo, essas coisas duraram anos, 17 ao todo,
havíamos esgotado a clemência que nos fizera viver mais um ano juntos, na esperança
de que alguma coisa aconteceria, por isso mesmo, naquela noite, toda branca e
pródiga na cama onde não mais dormíamos juntos, ela bateu palmas, como se eu
fosse uma criança e ela a mãe, chamando-me para ir comer ou deitar, chamando-me
para dentro — para dentro dela, estava em período fértil, queria ter um filho meu, e
tinha pressa, eu já fizera 65 anos, ela, com 35, achava que estava no limite, mais um
pouco e ficaria problemático ter um filho, um filho que, segundo ela, resolveria todas as
frustrações que eu lhe causara quando, desastradamente, engravidei Teresa, mulher
que nunca amara mas que odiava Mona e até certo ponto me odiava também, Teresa
marcou um encontro em seu apartamento para me devolver alguns livros, pedi que os
deixasse na portaria, mandaria apanhá-los, ela recusou, sabia que os livros tinham
importância para mim, alegou que na portaria poderiam sumir ou ser estragados, que
eu subisse, ela não me comeria — e quem a comeu fui eu, não suportei vê-la tão
próxima a mim, ela se maquilara como Anita Ekberg em A Doce Vida, os cabelos
louros e soltos na sua nuca terrivelmente branca e macia, quando cheguei ela deu um
jeito de mostrar a nudez daquela nuca — e fomos para a cama pela última vez, meses
depois eu ia com Mona para a Itália, estava no escritório terminando de arrumar uns
papéis, Teresa apareceu, disse que estava grávida, perguntou se eu queria ver o
resultado do teste que fizera, dispensei-a disso, e, honestamente, dispensei-me de
compreender a situação, achava que ela desejava abortar, por delicadeza não falei
nisso, apenas puxei o talão de cheques, não sabia quanto custava um aborto com
profissional responsável, em clínica decente, acreditei que o equivalente a 5 mil
dólares, em qualquer parte do mundo, daria para o gasto, estendi o cheque, não
percebi o olhar cínico com que ela o recebeu, viajei à noite, passei quarenta dias entre
Capri e Positano, evidente que íamos também a Nápoles, os parentes de Mona ainda
moravam lá, o tio morrera, mas as primas agarravam-se àquelas vielas irregulares,
àquele cheiro de pão e roupa molhada secando nas janelas, Mona detestava aquilo,
detestava Nápoles, detestava sobretudo Pompéia, nunca mais quisera voltar ali,
quando saíamos de Nápoles e passávamos ao largo de Pompéia, ela virava o rosto
para o mar e me proibia de fazer qualquer alusão àquela noite, e por coincidência foi
naquela viagem que Mona começou a gostar de Milão, passamos um fim de semana
em Verona, assistimos Turandot na Arena, depois seguimos para Milão, para pegar o
avião de volta, houve atraso, em vez de um dia ficamos três — e ela confessou que
perdera a fobia pela cidade, descobrira alguma coisa estranha ali, no mármore polido
da Galeria, no dourado da Madonnina, me fez subir duas vezes no teto do Duomo para
ver melhor a pequenina estátua que domina Milão, e pela primeira vez admitiu que
moraria ali, era uma pena que eu não gostasse de Milão, nem quisesse deixar o Brasil,
já podia viver sem a escravidão dos horários, não precisava apresentar serviço, um
palpite aqui, outro ali justificavam o salário mais as comissões que ganhava, e por isso
Mona insistia, trabalhava comigo, fazia contatos e mais tarde tornou-se gerente de
criação, também ela poderia viver em qualquer parte, mas eu ia adiando o projeto, mais
tarde, quem sabe, e tudo começara naquela passagem rápida por Milão no final dos
quarenta dias, quando começamos a viagem aproveitando o restinho daquele verão em
Positano, depois em Veneza, onde os músicos da Piazza San Marco, quando nos viam,
tocavam Portame tre fiori di lillà, versão italiana de When the white lilaces bloom
again, ou aquele delicioso foxe alemão dos anos 30, Ya ya Frauen sind meine
schwache seite, eu tinha esses discos, gravação da orquestra de Jack Hilton, na
Capitol, quando nos separamos, Mona levou-os consigo, deixando-me apenas com as
fitas que ela mesma gravara para que eu não esquecesse aquele clima da Piazza San
Marco, o violinista que parecia o irmão de Franco Zeffirelli sempre em primeiro plano,
tudo acontecera outra vez em Positano, em Veneza, em Verona, somente em Milão
haveria alguma coisa de novo, e eu não perceberia, e tanto não percebi que voltamos
para o Rio e eu me atirei ao trabalho, derrubei os eucaliptos que cercavam a casa em
Itaipava, mandei plantar mudas de pinheiro, advertiram-me que eles custariam a
crescer, demorariam quinze anos para darem sombra, eu disse que esperaria, Mona
estava a meu lado, olhei-a bem para ver se zombava de mim, não, ela não zombava,
olhava-me séria, talvez fizesse a si mesma a pergunta, se estaria comigo naqueles
quinze anos que os pinheiros demorariam a crescer, naquele instante nós poderíamos
esperar quinze, 150 anos, sim, estaríamos juntos, mas foi logo depois da hecatombe
dos eucaliptos, estava no meu escritório quando a secretária me avisou que uma moça
pedia para ser atendida, eu estava livre, não custava ver quem era, apenas não mandei
que ela entrasse, atendendo-a na recepção ficava fácil ouvi-la, prometer alguma coisa
e voltar à minha sala, era um recurso que eu usava habitualmente, pois nem reconheci
Teresa que ali estava, sentada na poltrona que a afogava por inteiro, somente quando
se levantou percebi que era ela e que estava grávida, enorme de grávida, tinha na mão
um papel que vi logo ser um cheque, o cheque que eu lhe havia dado sete meses atrás
para fazer o aborto, e ela me estendeu o cheque, não o usara, queria ter o filho, seria
problema meu reconhecê-lo ou não, passasse bem, comprasse um presente para
Mona com aquele dinheiro, e eu fiquei com o cheque do qual nem mais lembrava, como
nem mais lembrava de Teresa e de sua gravidez, e uma amiga dela me telefonaria de
São Paulo semanas depois, o filho nascera, mas houvera um problema respiratório,
morreria no terceiro dia, Teresa estava desesperada, eu nada podia fazer por ela a
não ser mandar um novo cheque, não, não era isso que ela precisava, uma palavra
minha pelo telefone bastava, obtive o número da clínica, falei coisas neutras, adivinhava
como ela se sentia, depois de tudo, era tempo de procurar um sentido para a vida, e
este sentido poderia ser o trabalho, Teresa formara-se em direito, era advogada, o pai
tinha escritório em São Paulo, o sonho acabara, aquela geração do final dos anos 60,
que gostara de Goddard, Resnais e do Paissandu, que fizera da estrada um projeto de
vida, que chegara ao exagero da maternidade solitária — a estrada estava cheia de
mães solteiras que se drogavam mas exigiam um futuro mais bonito para os filhos sem
pais —, tudo isso acabara, não haveria vergonha em ser como todo mundo, falei, falei,
perguntei se precisava de dinheiro, ela ficou insultada, tão insultada ou mais do que
estivera antes, e apesar da perda do filho, de estar realmente destroçada, não
esquecera de gravar o telefonema e mandaria a fita para Mona assim que lhe desse
vontade, vontade que ela teve, afinal, quando leu nos jornais que depois de anos de
vida em comum os publicitários Augusto Richet e Francesca de Angelis iam se casar no
civil.

II

Eu chegara cedo ao escritório, precisava terminar um projeto para a campanha que a


agência conseguira tirar da principal concorrente, o lançamento de um novo carro com
que duas montadoras (uma americana e outra alemã) tentavam desbancar o modelo
que mais vendia no mercado e que era da italiana Fiat.
Tudo correra bem, eu tomara parte nas negociações preliminares, deixaria a
campanha para Mona, que já se firmara como contato para as grandes jogadas. Tinha
luz própria. No início, talvez pela pouca idade e dependência de mim, não era levada a
sério. Ensinei-lhe todos os truques, todos os vícios daquele mundo estranho que eu
desprezava e ensinei-a a desprezar. Em pouco tempo foi reconhecida como primeiro
time. O fato de vivermos juntos, de ter sido seu protetor, foi esquecido.
Daí, talvez, viera a vontade do casamento. Mona sabia que nada mais me devia,
que o meio profissional reconhecia-lhe o peso, ninguém se atreveria a insinuar que as
boas campanhas que pegava e os bons clientes que confiavam nela estavam querendo,
no fundo, corromper o novo diretor de marketing da agência, uma agência que crescera
espantosamente e havia cinco anos apresentava o melhor faturamento do setor.
Para variar, achei o casamento uma besteira, Mona insistiu. Dava a impressão de
que era importante para ela. No meio do ano, precisei viajar aos Estados Unidos, coisa
rápida, apenas uma semana, perguntei se ela não queria ir, fazer compras, essas
coisas, Mona ficou séria, sempre que ficava séria voltava a ser a menina emburrada do
Eugenio C. Terminávamos na cama ou em qualquer lugar equivalente.
Não, ela não queria, até que podia ir, mas preferia ficar. Não gostava dos Estados
Unidos, nem de viagens curtas, achava que fazer malas para passar menos de uma
semana em qualquer lugar era perda de energia. E sua energia, agora, estava
concentrada num projeto: casar.
Eu não entendia aquele capricho inesperado, prometia vagamente, sim, vamos
casar um dia desses, já falei com o advogado, preciso antes me divorciar de Sônia, ela
não fará exigências, já estamos separados há tantos anos, não haverá problema, só
precisamos de tempo.
Nada providenciava, e os momentos em que Mona ficava séria eram mais
freqüentes. Viajei sozinho. No hotel em Nova York, ao abrir a bolsa para apanhar o
barbeador elétrico, caiu um cartão-postal já velho, amarrotado, não me lembrava de tê-
lo comprado ou recebido de alguém, mesmo porque nada estava escrito nele. Um
postal ordinário, de péssima reprodução gráfica: o cão negro, no velho mosaico de
Pompéia, com a inscrição que, havia dez anos, eu mostrara a Mona: Cave canem.
Tinha muito o que fazer naquele primeiro dia, somente à noite liguei para casa. Dei
os recados de praxe — ela ficara me substituindo na agência —, detalhei a situação
que encontrara junto ao cliente. Já ia desligando quando me lembrei do cartão:
— Por que colocou aquele cartão idiota na minha mala?
— O cartão não é idiota.
— Tá bem. Não é idiota. Por que o colocou?
— Me deu vontade.
— Você guardou o cartão todos esses anos?
— Guardei. O que tem isso de mal?
— Não me lembro de ter visto você comprar nenhum cartão...
— Naquele dia, não. Quando você foi a Roma tratar daqueles papéis, eu saí do
hotel em que você me meteu e fui lá outra vez... não foi nenhum crime...
— E por que botou na minha mala?
— Para você lembrar de mim.
— Não havia outro jeito?
— Queria o quê? Que eu botasse uma calcinha?
— Seria mais estimulante...
Antes que a conversa engrossasse, ela pediu:
— Traz o postal de volta, sim?
— Ele é importante para você?
— É.
Saí para jantar. Às pressas. Corri para o hotel. Deitado na cama, tentava pensar
em outra coisa, mas não conseguia me libertar daquele detalhe insignificante que, não
sei por que, me incomodava retroativamente: Mona voltara a Pompéia e nada me
dissera.
Eu a colocara no San Pietro de Positano, subornei o gerente, ela telefonou para o
tio dizendo que ia se encontrar com as primas em Praiano, sabia que não iriam checar,
durante as férias elas estavam sempre fora.
Precisara ir a Roma, conhecia o secretário da embaixada, ele me arranjaria um
visto ou até mesmo um novo passaporte para Mona, afinal, eu a estava seqüestrando,
bem verdade que a pedido dela. Era meio complicado, mas tudo podia se arranjar,
levei o secretário ao Tre Scalini, ali ao lado da embaixada, na Piazza Navona, convenci-
o a me dar o visto, Mona era menor, ainda não fizera 18 anos, nem tinha pais, o tutor
legal era o tio, que jamais consentiria que ela viajasse com um desconhecido, trinta
anos mais velho, com péssimas intenções.
Eu tinha a consciência de que, se desse azar, poderia ser enquadrado em caso de
sedução e seqüestro. Tanto pelas leis italianas como pela legislação brasileira, a
situação era delicada, precisava tomar cuidado.
Convenci o secretário. Afinal, estava habituado a convencer os outros, era o meu
ofício. Quando tinha uma tarefa pela frente, argumentava contra evidências, negava
fatos, inventava outros, enfim, era um profissional. Além do mais, e para me justificar
moralmente, eu negociava mais por Mona do que por mim. Ela é quem pedira que eu a
tirasse da casa do tio, que a tirasse de Nápoles, queria voltar para o Brasil, não fosse
comigo, seria com outro. Confiava em mim de forma até absurda, não me amava, mal
me conhecia, eu era a possibilidade da fuga — e ficava melhor para ela saber que tinha
um cúmplice interessado.
Tudo dera certo. Ela escreveu ao tio, explicou o que podia — e havia pouco a
explicar: ou eles promoviam uma ação legal que daria trabalho e despesa, ou
aceitariam a decisão dela. Deviam conhecer a sobrinha o suficiente para saber que não
se meteria numa aventura se não tivesse um apoio, um chão para pisar.
Mona veio comigo e fomos viver juntos. E vivíamos bem, até que lhe veio a idéia do
casamento. E esse cartão caindo da mala. Cave canem. Podia não ser, mas parecia
uma ameaça.
O mais estranho é que ela o guardara todo esse tempo, com ele saíra de Nápoles,
com ele viajara a meu lado. E eu já lhe contara a história do mundo, pelo menos a
história que conhecia, que até certo ponto era mais minha do que do mundo. Inclusive a
história daquele cão no pórtico de uma casa em Pompéia.
Mona fez do cartão um talismã, relíquia profana que, na opinião dela, lhe daria
sorte. Agora o talismã vinha na bolsa de uma viagem que ela se recusara a fazer
comigo. Devia ser mais do que um aviso.
Tentei dar pouca importância ao postal. Mesmo assim, no meio da noite, tive um
sobressalto. Levantei-me, acendi a luz, fui me certificar se no verso do cartão havia
alguma coisa escrita. Nada.
Demorei mais tempo do que esperava em Nova York, houve contratempo nas
negociações. Quando voltei, Mona tinha ido para Itaipava, encontrei o apartamento do
Rio fechado. Ao abrir a porta, evitei olhar o chão. De agora em diante, eu precisaria de
cautela, em algum lugar haveria a advertência para tomar cuidado.
Telefonei-lhe, não pedi explicações para o fato de ela não me ter esperado em
casa, ter ido para Itaipava no meio de uma semana de trabalho. Por conta própria,
Mona se explicou: não gostava de ficar sozinha. Perguntou se eu queria que ela
voltasse logo. Ou que esperasse o fim de semana.
— Não precisa. Subo no final da tarde...
Sem querer ser gentil, acrescentei:
— Olha, estou com vontade...
— Eu também.
Ela, sim, estava sendo gentil ao dizer aquilo. Afinal, se estivesse mesmo com
vontade, não teria ido para Itaipava, me esperaria como sempre me esperou, levando-
me para a cama, despindo-se pelo caminho, ela própria tirando minha roupa,
cheirando-me todo, explorava todos os sentidos, olhava, falava, queria ouvir minha voz,
cheirar era importante, tudo era importante, juntava pequeninos veios para formar o
caudal que desaguava no desmaio, e sentia-se toda dormente, levantava as mãos para
ver se os dedos ossudos ainda estavam ali, ela não os sentia, não mais sentia o
próprio corpo, inundado pelo orgasmo.
Era a primeira vez que, depois de uma ausência minha, sabendo que eu chegava,
de certa forma, ela fugia. A princípio, atribuí aquele distanciamento à minha indiferença
quanto ao casamento. Seria vulgar demais. A idéia de uma cerimônia formal, que nunca
antes lhe passara pela cabeça, começou a crescer dentro dela. Nada acontecera para
justificar ou explicar aquele capricho.
O projeto começou a nascer no dia em que cheguei em casa e encontrei-a
emburrada, fechada nela mesma, igualzinho à menina que andava de um lado para
outro num navio enorme e com um homem grosso e desalinhado atrás.
Como sempre acontecia quando me dava essa impressão, senti desejo por ela.
Era hábito nosso, vício meio perverso, meio infantil. Mona se entregava nessas
ocasiões, e sabendo-me especialmente excitado, também se excitava. Até que houve
um bloqueio da parte dela. Cortou o ritmo com que já chegávamos à penetração. Virou
o rosto que eu beijava.
Não foi preciso perguntar o que estava havendo. Depois de um silêncio que foi mais
doloroso para ela do que para mim, avisou:
— Recebi uma fita daquela mulher...
Quando ela falava “mulher” eu sabia que se referia a Teresa. Não sabia que fita
era. Mona levantou-se, apanhou um pequeno gravador, dele tirou a fita e me mostrou:
— Quer ouvir?
Ignorava o que podia ser aquilo. Impossível suspeitar que Teresa houvesse
gravado o telefonema que lhe dera quando ainda estava internada na clínica onde
perdera o filho. Eu procurara ser gentil, oferecera ajuda se ela precisasse, falara em
dinheiro. De tudo me esquecera, mas tudo estava ali na fita que Mona botou para rolar.
Minha voz aparecia fraca. Dava para concluir que estava realmente preocupado, ao
menos naquele instante em que ela perdia o filho que também era meu.
Mona desligou o gravador tão logo sentiu que eu me lembrava da conversa e da
circunstância. Poupou-me e poupou-se. Colocou o aparelho no chão, ao lado da cama,
virou-se para o outro lado. Puxou a colcha para cobrir o corpo ainda nu. Dela vinha o
cheiro e o gosto da fêmea contrariada no cio.
Eu ficara em silêncio, sem ter nada a dizer, ou melhor, tendo muito a dizer mas
preferindo que ela falasse alguma coisa. E ela falou o que não ficara muito claro na
gravação.
— Afinal, o filho que ela perdeu... era seu?
— Era.
Naquele “Era” devia estar a origem do cartão que, meses depois, sem que eu
percebesse, ela colocaria na minha mala.

III

Foi uma noite difícil. Nunca dormíramos separados, uma ou outra chateação dela ou
minha não chegava ao ponto banal de ir dormir no sofá ou no quarto ao lado. Sabíamos
que uma noite juntos punha fim a qualquer aborrecimento. Eu não a podia sentir perto
de mim, logo a abraçava, não para protegê-la, mas para proteger-me, ter certeza de
que ela estava ali e era minha.
E ela tinha um jeito de só dormir segurando minha mão. Sem necessidade de
palavras e muito menos de explicações ou desculpas, terminávamos começando tudo
de novo — e quanto maior e mais fundo havia sido o aborrecimento, mais funda e
prolongada era a posse.
Apesar de tudo, havia constrangimento agora. Ela soubera, pelo pior caminho, do
caso com Teresa. Afinal, era um problema anterior, que acabara com o meu
casamento, Sônia soubera daquele filho de maneira mais digna, eu próprio lhe revelara
não apenas a infidelidade mas sua conseqüência.
Em nenhum momento achei necessário comentar o mesmo episódio com Mona.
Bastava que ela soubesse por alto do meu passado, os pontos mais importantes,
afinal, eu lhe prometera contar a história do mundo e não exatamente a minha história.
Da mesma forma que pouco sabia de seu passado, curto mas misterioso. Sim,
tivemos aquela noite em Palma de Maiorca, logo depois fugira comigo. Eu conseguira o
visto para que ela, apesar da menoridade, saísse da Itália. Driblamos a exigência da
autorização formal do seu responsável, que era o tio.
Tudo fora rápido. Logo depois da ida a Pompéia, quando pediu que lhe contasse a
história do mundo. Adivinhando que era necessário espaço e tempo, que a levasse,
fosse para onde fosse, fosse como fosse.
A manhã ia alta e me sentia atordoado. Ficara surpreendido com aquela idéia de
dormir ao ar livre na cidade-morta, habitada por fantasmas.
Eu chegara a argumentar contra mim, os trinta anos de diferença. Para duas ou
três mulheres avulsas que me enchiam o tempo, que me exigiam uma definição,
argumentar com a idade era recurso fácil para me livrar de um compromisso. Não era o
caso de Mona. Menor de idade, a situação era mais complicada.
Mona estava decidida. Da parte dela, era aquilo mesmo: queria sair da casa do tio,
fugir daquilo que não escolhera. O problema passara a ser meu. Queria ou não queria
levá-la? E se tínhamos de ser felizes juntos, queríamos ser felizes já.
Nem Mona nem eu gostamos de pensar naquela primeira semana depois da noite
em Pompéia. Deixei-a em Positano, fui para Roma tentar o caminho menos ilegal
possível para sair pelo mundo com uma menor ao meu lado. Por mais besteira que eu
tivesse feito na vida, até então não havia ultrapassado a mediocridade do erro, não
chegara a atingir o estágio da alucinação.
Quanto a Mona, ela queria começar por cima, fazendo uma escolha radical. O pior
que poderia nos acontecer era não dar certo. Enquanto não chegasse o fim, valeria a
pena. Perguntei-lhe aonde queria ir. Ela falou que qualquer lugar serviria. Eu precisaria
de tempo para arrumar algumas coisas no Rio, o que poderia fazer por telex e telefone.
Da parte dela não haveria problema, ela deixara uma explicação para os tios. Tinha
consciência de que representava para eles uma responsabilidade não programada,
talvez não desejada.
Faltava pouco para que completasse 18 anos, e isso poderia modificar para pior o
relacionamento com os parentes. Apesar de não ter ainda recebido qualquer lição
minha, adivinhava que fazer é mais simples do que pensar. Ao pensar, dezenas de
hipóteses podem ser avaliadas. Ao fazer, tudo se reduz ao sim ou não, ao ficar ou
partir.
Ela queria partir.
A primeira idéia foi começar a história do mundo por e em Paris. Seria um roteiro
óbvio. Não encontrei vôo para aquele dia, e havia pressa em sair da Itália, antes que
surgisse uma complicação legal. Pegamos um vôo da Ibéria para Palma de Maiorca,
lugar bem diferente de Nápoles, e, principalmente, de Pompéia.
Em Palma começamos realmente a vida em comum. Detalhe que me deu, na hora,
uma alegria brutal foi ter ela, na primeira noite, usado a mesma roupa com que a notara
no navio, olhando a vitrine onde havia a estátua de uma deusa não identificada.
Noite difícil, apesar de tudo. Ela se deixava possuir, mas ainda não aprendera a
possuir. Mais ou menos como naquela primeira vez, no gramado de Pompéia, sob as
estrelas. E eu a possuí mal entramos no quarto do hotel que dava vista para a catedral
de Palma, uma luz amarelada realçando as agulhas de pedra destacadas de uma noite
quase azulada.
Excitado pelo cheiro que vinha do mar, a visão iluminada da catedral, a menina que
eu praticamente seqüestrara mais pela minha curiosidade do que pelo meu desejo,
agora enganchada nos meus braços, eu não conseguia esquecer a angústia de
semanas atrás, zonzo, alucinado, perseguindo-a pelos corredores do navio, tudo isso
misturado e ampliado na fadiga da posse recente — e súbito me veio a imagem do
homem grosso e desalinhado que também a perseguia, corvo no ninho onde eu
acalentava uma pomba.
Tive pudor em falar nele. Deveria tê-lo feito no primeiro encontro, na mesa do bar
em frente ao Museu Nacional de Nápoles, quando descobri que ela nunca tinha ido a
Pompéia — o início de tudo. Nada perguntara naquela ocasião, e não houvera tempo
nos dias seguintes, quando a prioridade passara a ser retirá-la dali, providenciar
pequeninas coisas e finalmente relaxar na varanda do hotel em Palma de Maiorca, a
catedral iluminada, a noite quase azulada, o cheiro de mar, Mona enroscada no meu
corpo, metade hera, metade mulher.
— Quem era aquele homem?
Ela nem se mexeu. Parecia não ter ouvido a pergunta tão inesperada como
imprópria. Não deu resposta. Tampouco insisti. Apertei-a cont ra mim, ela se deixou
apertar e, à sua maneira, apertava-me também, como se sentisse frio.
— Que homem? — perguntou ela, depois de algum tempo.
Dessa vez fui eu que tremi, e não exatamente de frio.
Estávamos tão unidos ali na varanda do hotel, tão unidos no mundo, nunca tivera
nada tão dependente de mim, ela não existiria se eu não a tivesse em meus braços e
no meu destino. Dependência que começava a ser comum.
Não podia voltar atrás. E a resposta dela fora em forma de outra pergunta. Avancei
um passo na direção errada:
— Aquele homem do navio... você se encontrava com ele... escreveu o número do
seu telefone no jornal de bordo...
Se ela tremesse, por mais levemente, eu perceberia. Mona parecia dormir, nem a
respiração dela mudou. Nem mudaria quando, depois de um silêncio que nada
significava, disse o resto:
— Era meu professor... ele queria me contar a história do mundo, mas eu não
queria que fosse ele... vivia atrás de mim, quando soube que eu ia com minhas primas
naquele cruzeiro, deu um jeito de ir também... é viúvo, tem uma filha que é freira em
Perugia, na Úmbria... queria me levar lá...
Eu ouvia aquilo sem sofrer, mas sem alegria. Ela podia ter dito que o homem não
era nada, seria talvez melhor, talvez pior.
— Tinha pena dele... e ele de mim... uma tarde, depois da aula, ele quis me
mostrar um livro na casa dele, eu sabia que era uma cilada, a cilada de sempre...
parecia um pouco comigo mesma... e...
— Ele foi o primeiro?
— Como é que sabe?
— Bem, naquela noite em Pompéia, pelo menos isso do seu passado eu fiquei
sabendo... você já havia tido outro, ou outros...
— Não... foi só ele... e... eu nem sabia direito como era, ele era impotente... mas
não fiquei arrependida... ele gostou e queria outras vezes...
— Tem certeza de que era mesmo impotente?
— Tenho.
— E... como conseguiu?
— Essas coisas acontecem... há sempre um jeito...
A conversa me incomodava. Mais a mim do que a ela.
— Está chateado? — perguntou num tom amistoso.
— Para falar a verdade, estou... Sabe, fica difícil imaginar...
— Não precisa imaginar...
Tomei coragem:
— Você me pediu para contar a história do mundo... estou tentando contar, aos
trancos... pois vou contar a história do sabugo de milho...
— Que história é essa? Você tem uma cabeça suja!
Fui em frente:
— É um romance americano. Deve haver tradução em italiano, não tenho certeza,
acho que do Cesare Pavese... um sujeito impotente deflora a moça com um sabugo de
milho...
— Fique tranqüilo, ele gosta mesmo de mim... eu sou importante para ele, mais do
que para você...
— E ele nem sabia o número de seu telefone...
— E por que saberia?
— Afinal ficou sabendo...
— Passou aqueles dias no navio me cercando, quando me despedi dele, senti-o
tão desamparado, tão infeliz, que prometi um encontro antes que começassem as
aulas... fora transferido para um colégio em Bolonha, está perto da aposentadoria e lá
se habilitaria a ganhar pensão melhor...
— Por isso ele seguiu viagem até Gênova, não saltou em Nápoles...
— Já havia se mudado no final do curso... mora sozinho, ia ficar mais perto da
filha, mas queria voltar a Nápoles antes que o ano letivo começasse... e queria me
ver... dei-lhe o telefone...
— E ele ligou?
— Ligou. Ligou de Gênova, disse que iria a Nápoles no final da semana...
Lembrei que esbarrara com ele num dos corredores da estação Príncipe, em
Gênova, quando ia tomar o trem para Milão. O homem era assombroso, tivera tempo
para telefonar avisando que iria vê-la no fim de semana. Devia ter mudado de idéia e
decidira pegar o mesmo trem que me levaria a Milão, mas só o vi no aeroporto, quando
embarcava para Nápoles.
— Ele viajou comigo no mesmo avião... chegamos juntos... ele deve ter ligado
logo...
— Não. Não ligou. Na certa esperou pelo fim de semana. Aí você apareceu e eu
estou aqui.
Tive vontade de dizer que ela não estava mais ali. Preferi ficar em silêncio. Ela me
acariciou o rosto:
— Vamos mudar de assunto?
Eu estava sério:
— Só existiu esse homem?
— Só.
— E os jovens... os rapazes de sua idade?
— Eles me olham, mas não me vêem.
— E eu?
— Você é diferente. Você me tem.
E depois de um silêncio:
— É tudo.
— Pode ser pouco.
Ela me beijou suavemente. Senti o cheiro que vinha dela, o cheiro de Mona
aninhada em meu colo, coelhinho quente, gostoso de apertar. Um avião passou por
cima da catedral iluminada e sumiu na noite sem estrelas.

IV

Complicados os primeiros tempos no Rio. Tive problemas na agência — eu perdera o


prazo para apresentar o maldito relatório —, mas o mundo não iria acabar nem
melhorar por causa da minha opinião sobre os cruzeiros no Mediterrâneo ou sobre o
novo desenho do casco dos navios. Bem ou mal, fizemos uma boa campanha,
aumentamos a demanda em quase 30% em relação ao ano anterior e — sorte minha
— pegamos a conta de uma indústria italiana de leite que pretendia entrar no mercado,
e entrou mesmo, em três anos seria a primeira no setor — e eu ganhei um bom
dinheiro.
Que gastava alucinadamente com Mona. Para falar a verdade, comigo próprio. Ela
fazia um gênero retraído, calado, inicialmente não se entusiasmava por roupas, tinha
um estilo sofisticado, bem europeu de se vestir, sóbrio, pouco variado, era comum
entrar numa loja e comprar duas ou três blusas iguais e na mesma cor. O mesmo
acontecia com os sapatos, a lingerie.
Nos restaurantes, pedia os pratos menos caros, seu gosto era simples, tão simples
que parecia refinado. Lembro sua cara de espanto, num restaurante à beira da
estrada, quando a levara a Ouro Preto para lhe mostrar o barroco mineiro, os tetos
pintados por Mestre Ataíde. Coloquei a salada no mesmo prato da comida. Ela
estranhou, e continuou a estranhar comidas misturadas, levou anos para conseguir
comer arroz e feijão, juntos.
O importante para ela era conhecer a história do mundo, e esse conhecimento, se
era modesto no trivial, tornava-se exigente no essencial. Não encontrara ninguém
melhor do que eu. O candidato anterior, além de mais velho do que eu, era impotente.
Daí que viajávamos muito, fiz um acordo com a agência que me garantia pequenas
viagens de três em três meses, além das férias anuais de trinta dias. Houve anos,
sobretudo nos primeiros tempos, em que manipulava a tabela e conseguia passar seis
meses fora — Mona não apenas conheceu a história do mundo que lhe contei, mas
conheceu o próprio mundo que eu lhe mostrei.
Tinha um jeito de ouvir e ver que sempre me lembrava a garota do navio: parecia
não estar ali, parecia não estar ouvindo, parecia não estar vendo. Assimilava
rapidamente, revirava tudo dentro dela, tirava conclusões e as guardava. Às vezes
olhava-me com espanto, suspeitando que eu inventava uma história ou um detalhe,
nunca achava graça nas minhas piadas, mas sentia-se segura a meu lado, confiava em
mim como um cão sem olhos confia em seu dono. Tanto confiava que eu gostava de
imaginar um absurdo: mandar que se atirasse pela janela. Certamente obedeceria,
sabendo que aquilo passaria a pertencer à história do mundo que eu criava para ela. E
que, de alguma forma, eu a salvaria.
Falava pouco, pouquíssimo, de seu passado. E não me fazia perguntas. Ficou
admirada ao conhecer Otávio, imaginava-o mais criança, quando viu que se tratava de
um jovem, um pouco mais velho do que ela, teve a reação estranha:
— Sabe que você é mesmo muito velho?
Foi essa a primeira — e uma das raras vezes — em que ela reparara na minha
idade, na diferença de trinta anos que nos separava. Nem mesmo quando tive
problemas, uma pneumonia que me dava acessos de calafrio durante a noite, ela se
referia à minha idade. No mais, na cama, no banheiro, nos gramados e nas praias onde
fazíamos amor, ela, que no início parecia passiva, assexuada, aos poucos foi tomando
iniciativas, tornou-se exigente, uma voracidade a que eu tinha de corresponder.
O encontro com Otávio não foi o primeiro pasmo de Mona com o meu passado.
Parecia não acreditar que fosse mais velho do que ela, uma forma oblíqua de esquecer
que eu podia ser pai dela.
Quanto a Sônia, minha ex-mulher, ela desconfiava que eu a amara. De certa forma,
também lhe contara a história do mundo. Foi com assombro que, no dia em que a
conheceu pessoalmente — no enterro de Otávio —, ela comentou em voz baixa, como
se falasse para si mesma:
— Todo mundo tem uma vergonha.
Eu estava abalado com o funeral do filho que não amara, do filho que se suicidara
em parte para se vingar de mim. Não dei importância a seu comentário. Só me lembrei
dele no dia seguinte, quando acordei depois de ter dormido doze horas à custa de um
comprimido que me receitaram.
“Todo mundo tem uma vergonha.” Eu dava muita importância ao que ela dizia, era a
forma inconsciente de retribuir a importância que ela dava a tudo o que eu lhe contava.
Pensava que ela se referia à difícil relação que eu mantivera com o meu filho.
Perguntei-lhe:
— Por que você acha que eu devia ter vergonha do suicídio de Otávio?
Ela se espantou:
— Eu não disse isso!
— Você falou que cada um tem a sua vergonha.
— A sua vergonha não é Otávio. É sua ex-mulher.
Dessa vez fui eu quem fiquei espantado:
— É tão repulsiva assim?
— Não se trata de repulsa. A vergonha é que você não devia se separar dela. Ela
combina com você. Tem a idade exata... a proporção ideal...
— Quando casamos, alguns amigos achavam que Sônia era muito nova para mim...
e eram apenas doze anos de diferença...
— O tipo exato, o clima exato.
— E qual é a vergonha dela?
— Não é a vergonha dela que me interessa. É a sua vergonha. Você deveria estar
amando aquela mulher até hoje...
— Se assim fosse, você não estaria aqui, a meu lado, agora.
Mona ficou séria. Depois de algum tempo, pensando em alguma coisa dentro dela,
disse:
— Eu também tive minha vergonha. Estava disposta a fugir com aquele professor...
ele também poderia me ensinar a história do mundo...
— Talvez melhor do que eu...
Mona se encrespou. Ela nunca se enfurecia. Contudo, tinha um jeito de ficar
crispada, pior do que a cólera.
— Eu queria sair daquela casa, daquela cidade, e olhe, não seja vulgar, não fale
mais nessa história... foi coisa minha, esqueça... eu agora sou sua.

Domingo, início de tarde.


Na véspera, Otávio aparecera em Itaipava, onde Mona e eu passávamos mais um
sábado sozinhos. Ele não costumava subir, eu lhe reservara um quarto na casa, ao lado
do nosso. Ele o usava pouco, suspeitava que a sua presença me desagradava. Só
aparecia quando precisava de alguma coisa, dinheiro principalmente. Dessa vez, nem
isso.
Almoçou conosco, durante a refeição nada falou, nem parecia ouvir. Nas tardes de
sábado, Mona e eu tínhamos os melhores momentos. Quando saímos do quarto, ele já
havia descido, sem se despedir, sem deixar recado. Sua vida não mais me importava,
por isso não estranhei nem lamentei.
Mona trabalhava comigo, o pessoal da agência a respeitava porque não dependia
de mim, tornara-se um dos melhores contatos da praça do Rio, recebera convites para
tentar São Paulo, ganharia mais e se livraria daquela casca que era a única a prejudicar
sua imagem, a de mulher e discípula de Augusto Richet.
Mantínhamos o ritmo de nosso desejo, embora eu estivesse mais velho agora.
Numa apreciação vulgar, a mocidade de Mona era o melhor estimulante para um
homem de minha idade.
Das histórias do mundo que lhe contei, houve uma que ela gostou, contra a qual
protestou no início, mas logo admitiu como verdadeira. Os velhos mandarins, quando
atingiam avançada idade (e mandarim vivia cem, 120 anos), amarravam cinco ou seis
adolescentes nuas em volta do corpo enregelado. Do calor daqueles corpos jovens
viviam e, eventualmente, gozavam.
Mona achou a história absurda, depois viu beleza nela. E quando o frio de Itaipava
era mais forte, ela sugeria brincar de mandarim, eu ficava imóvel e ela, nua, me cobria
com seu corpo aquecido por um vinho ou por um conhaque. Exigia que eu ficasse
quieto, mandarim imóvel que sugava o calor dela — e como eu não era exatamente um
mandarim tão velho assim, as nossas tardes de sábado entravam pela noite e a história
do mundo (e o próprio mundo) ficava resumida no calor que dela recebia. Aquecido por
ela, devolvia-lhe o calor que aspirara de sua carne jovem.
Vivia uma fase sadia, fumava pouquíssimo, apenas charutos depois das refeições,
fazia caminhadas regulares, nadava na piscina que fora a primeira obra a ficar pronta
quando comecei a fazer a casa de Itaipava.
Nessa época apareceram Brigite e, mais tarde, Segredo. Não pensamos em
mandar reproduzir, na entrada do portão que dá para o gramado onde a casa e a
piscina ficam recuadas, a figura de um cão com a legenda Cave canem. Nem Brigite
nem Segredo seriam adequados ao tipo, não eram cães de guarda, mas de
companhia, viviam dentro de casa, tomavam liberdades, muitas noites deixávamos a
porta do quarto aberta e eles vinham dormir ao lado da cama. Quando era pequenino,
Segredo gostava de pular para cima e diversas vezes acordei com ele dormindo colado
a mim, a patinha procurando minha mão.

Cinco em ponto da tarde.


Mona estava levando algumas coisas para o carro que eu já tirara da garagem.
Desceríamos antes que a noite caísse. Eu fechava o janelão da sala. Os caseiros, que
tomavam conta de tudo e moravam no anexo dos fundos, volta e meia deixavam o
janelão aberto e quando chovia havia estragos no salão.
Pouquíssimas pessoas sabiam do nosso telefone em Itaipava. Considerávamos o
aparelho um intruso, um inimigo cravado em nossa cidadela. Dele nos servíamos para
dar, nunca para receber recados.
Pensei em não atender, afinal, estávamos de saída, fosse quem fosse, julgaria que
já havíamos descido. Além disso, tivéramos semanas agitadas, compromissos de
trabalho congestionaram nossa agenda.
Deixei o aparelho tocar. Mona estava lá fora, os caseiros também. Desconfiei que
o telefone tocava para mim, adivinhando que somente eu o estaria ouvindo e que
somente eu poderia atendê-lo.
Quando se presta atenção aos sinais, os telefones têm um jeito de tocar
individualizado. Funcionam mecanicamente para conversas de trabalho, coisas neutras.
Comportam-se como intermediários, não chegam a ser mensageiros. Há momentos,
contudo, em que eles soam como o carteiro que sempre toca duas vezes, the postman
always rings twice. E deixam de ser intermediário ou mensageiro para se
transformarem num portador do destino.
O telefone soava, prepotente, no salão vazio e fechado. Não chamava: exigia que o
atendesse.
— Pronto.
Do outro lado, a voz de um homem. Parecia surpreendido ou embaraçado por eu
ter atendido:
— Augusto?
— Sim...
Houve uma pausa.
— Fala Belmiro Medeiros... pai do Alfredo... amigo de seu filho...
Lembrava-me desse Alfredo, Alfredo Medeiros, fora colega de Otávio no vestibular
de engenharia, ele passara no exame, Otávio fora reprovado, continuaram amigos.
Também conhecera vagamente esse Belmiro, era tabelião ou escrivão, tinha cartório no
Rio.
— Sim... algum problema?
A pausa dessa vez foi demorada, fácil adivinhar que esse Dr. Belmiro Medeiros,
homem mais ou menos da minha idade, devia fumar muito, tinha a respiração difícil,
enfisema pulmonar na certa.
Precisei repetir:
— Algum problema, Dr. Belmiro?
— O senhor já vai descer?
— Estava fechando a casa, vamos descer agora mesmo... alguma coisa?
— Meu filho deu o número de seu telefone em Itaipava e pediu que o avisasse...
houve um... problema... um problema com seu filho Otávio...
— Um problema? Que tipo de problema? Acidente?
— Não... não se trata de um acidente...
— Ele está bem?
Nova pausa.
— Não... não foi acidente... ele...
— Está morto?
A voz mudou de tom:
— Lamento muito... estamos chocados...
— Por favor... o que houve com ele?
— A polícia está investigando...
— A polícia? Mas por que a polícia?...
Do outro lado da linha vinha um silêncio que só podia significar o pior.
— A polícia... que que a polícia tem com o caso... mataram meu filho?
Novo silêncio, que dessa vez não tive coragem para romper. Finalmente, a notícia
completa:
— Não... não foi crime... creia... lamento muito... seu filho suicidou-se...
Mona entrou na sala nesse momento, queria saber por que eu demorava em fechar
o janelão. Quando me viu ao telefone, ficou surpreendida, ela captava as coisas no ar.
Olhou-me com apreensão. E vendo que eu ficara mudo, tomou-me o aparelho. Desabei
num sofá.
— Alô! Aqui é Mona, por favor, quem está falando?
Não ouvi mais nada. Só falei alguma coisa quando o carro, dirigido por Mona,
chegava às primeiras retas da Baixada. Ela conversara mais tempo com o pai do amigo
de Otávio:
— Como foi?
— Não importa como foi. Vamos manter a cabeça fria... estou do seu lado... confie
em mim...
— Você acha que...
— Não. Você não é o culpado de nada...

No dia seguinte, depois de a polícia ter liberado o corpo, o Dr. Belmiro Medeiros (como
eu suspeitava, era titular de um cartório), tinha influência administrativa, assumiu o ritual
que, além de doloroso, seria constrangedor para mim. Foi uma ajuda eficiente e
delicada. Durante o velório, cuidou especialmente de Sônia, que estava um escombro,
tão escombro que nem me culpou de nada. Afinal, se havia, depois de Otávio, alguém
que podia me acusar, seria Sônia.
Não tinha condições de passar a noite velando o corpo do filho que não pudera (ou
não soubera) amar. Pensei em subir para Itaipava. Foi uma reação inexplicável, afinal,
por mais culpado que eu me sentisse, por mais insensível que eu me julgasse, ficava
devendo a Sônia, a parentes e amigos comuns, uma companhia ao filho morto. Minha
presença no velório, no enterro, não chegava a ser o cumprimento de um ritual. Era
bem mais do que isso: uma despedida que começava a se transformar numa memória.
Não queria ficar no Rio. Preferia subir para Itaipava, precisava me isolar na casa
que sou eu (ou eu é que era a casa). Tanto num caso como noutro, agora deveria
colocar na entrada o aviso Cave canem — cuidado com o cão.
Tentava avaliar o desespero daquele filho gerado por mim, que me herdara o
pânico sem me herdar os truques. Era difícil lembrar o seu rosto, o tom de sua voz.
Escolhera morar com a mãe, eu seria imprestável para o diálogo que nunca haveria.
Quando ficava comigo uns dias, em Itaipava, bestamente estouravam conflitos que ele
provocava, ou que eu próprio provocava.
Dava-lhe a mesada imerecida, Otávio se recusava a continuar os estudos, tinha
horror à idéia de trabalhar. Considerei-o um caso sem solução sem saber que ele,
depois de algumas tentativas, chegara à mesma conclusão. Desisti de rastreá-lo. Com
o tempo, o nome dele passou a ser uma referência que eu colocava, duas vezes por
mês, no canhoto de um talão de cheques.
Se me desinteressara de sua vida, não me interessei em saber como morrera.
Somente aos poucos Mona me contou detalhes. Poucos, por sinal. Eu adivinhei o resto.
Daí que pensei em voltar para Itaipava. Ficar cercado pelos pinheiros que esperei
crescer. O homem — qualquer homem — é uma casa habitada por um poeta que,
sabendo ou não sabendo, tem um sentido trágico.
Poeta que inventa o seu próprio poema, poeta condenado a habitar a casa que é
ele próprio, e de repente as paredes se desmancham e não é mais casa, sobrando o
cão à porta, uma porta que não existe mais, o cão coberto de cinzas guardando o
nada.

Mona não me deixou subir. Ficou com as chaves do carro, não se desgrudou de mim.
No cemitério, reparou naquela mulher desabada. Perguntou se era Sônia. Não precisei
responder. Ela entendeu.
Olhou-a mais uma vez, depois olhou para mim, olhou para tudo e olhou para si
mesma.
Apático, a barba por fazer coçando no rosto, a vista enevoada pelo cansaço, não
dava importância a nada. Na cabeça ficara martelando a frase que rolava dentro de
mim na cadência de um trem alucinado: “Cuidado! Cuidado!”
Cuidado com o quê? Eu me agarrava ao braço de Mona e lembrava o desespero
com que a procurara pelo navio, pelas ruas de Nápoles, e ela estava ali, eu apenas a
buscara, ela é que pedira para cair em meu destino.
E tudo me acontecera mais ou menos assim. E ali estava eu, desabado,
comportando-me como devia, mas lá dentro desgrenhado, viúva grega em prantos.
Sentia, imprecisamente, que o mundo seria a véspera sem fim do meu próprio funeral.

VI
Não subi para Itaipava. Fui para o apartamento em Ipanema, tomei banho, fiz a barba
de dois dias, enchi-me de tranqüilizantes, procurei dormir. Mona me acompanhou,
também estava cansada. Respeitando o tranco que eu levara, ficou em silêncio. Era
uma das coisas que ela melhor sabia fazer.
Apesar do cansaço e do remédio que tomara, acordei no meio da noite, sem sono.
Como não jantara, fui à copa, fiz um sanduíche, abri duas latas de cerveja. Depois
fumei um charuto na varanda, olhando o trecho da praia, a mesma praia em que, anos
atrás, levava Otávio para os banhos de mar, no cedinho das manhãs.
Sem fazer esforço, conseguia esquecer aquelas últimas horas. Havia muito Otávio
era uma espécie de remorso que eu reduzia a uma anotação no canhoto dos cheques.
Ele escolhera a vida que levava, quando tentei interferir, foi um desastre, percebi que
só o atrapalhava.
Começou a se drogar, não que tivesse realmente um problema específico, ser filho
de pais separados de há muito deixara de ser drama, a maioria de seus amigos e
colegas estava na mesma situação. Ele se drogava — depois de breve estágio na
bebida — por prazer, por não achar no mundo nada melhor.
Tivera um amigo que cismara em ser ator, andavam sempre juntos, creio que
chegou a influenciar Otávio, houve época em que ele pensou na carreira teatral. Volta e
meia vinha um grupo passar o fim de semana em Itaipava, meu diálogo era difícil com
aqueles rapazes.
Um deles, que já integrava uma companhia semiprofissional, tentou me provar que
a vida real era uma merda, ele só conseguia viver, sentir a vida e o próprio corpo
naquela caixa iluminada que é o palco. Fora dali, nada tinha nem fazia sentido.
De alguma forma, a argumentação influiu em Otávio. Sem talento para o teatro (era
tímido e não gostava de nenhuma rotina), escolheu a droga, que lhe dava a sensação
de viver numa caixa multicolorida, em que podia, sem esforço, sem disciplina, ser
Hamlet e Édipo ao mesmo tempo.
Ele achava o mundo feio, não quis aprender os meus truques para torná-lo
tolerável. Julgava-se mais honesto do que eu. Tinha repugnância pela minha maneira de
viver — o que era recíproco. Quando apareci com Mona, mais moça do que ele, acho
que me odiou, ou, certamente, me desprezou.
Na clínica onde o internei, cinco anos antes, para tentar a cura com
acompanhamento técnico, criou casos, agrediu uma enfermeira, quebrou janelas, forçou
o dilema: ou o internávamos no inferno de um hospital psiquiátrico (Sônia foi contra e eu
também) ou o devolveríamos à liberdade. E a liberdade, para ele, era a droga.
Logo veio a crise que definitivamente nos afastou. Por sugestão de um especialista
que atendia a casos mais desesperados, passei a lhe dar menos dinheiro, apenas o
suficiente para as despesas essenciais. Ele morava com a mãe, que além da minha
pensão recebia o aluguel de dois apartamentos deixados por seu pai.
Viviam sem problemas. Nunca me pediam dinheiro, a não ser em emergências
específicas. Até que Otávio vendeu o carro que eu lhe dera. Depois vendeu jóias que
roubara da mãe. Descambando cada vez mais, falsificou minha assinatura em
promissórias que conseguia descontar num agiota.
Ele apareceu em Itaipava. A presença de Otávio era uma irritação para mim e um
constrangimento para Mona. Contrariando o que se podia esperar de um dependente
da droga, que muitas vezes passa a desprezar o álcool, estava bêbado. Com 32 anos,
tornara-se um destroço e, ao mesmo tempo, uma ameaça.
Queria que eu lhe desse dinheiro para limpar a barra, não era muita coisa então,
mas se eu afrouxasse, ele repetiria o achaque e desceríamos a ladeira. Não me
custaria dar os 4 ou 5 mil dólares com os quais ele pagaria as dívidas, resgataria as
promissórias e poderia recomprar as jóias da mãe.
Recusei. Só o ajudaria se ele quisesse reiniciar uma cura responsável. Alguém me
recomendara uma clínica nova, no interior do Paraná, com razoáveis índices de
recuperação.
Ele se exaltou. Mona tentou acalmá-lo. Voltou-se contra ela, ia agredi-la, eu o
impedi, empurrando-o contra a parede. Otávio me olhou esgazeado. Nunca o fizera
antes, nunca batera nele, nem mesmo na infância. O empurrão que lhe dei o deixou
assombrado.
Com a violência da cena, Segredo começou a latir, não estava habituado a assistir
cenas assim, a gestos bruscos, palavras gritadas. Irritado porque o cão latia, Otávio
tentou dar-lhe um chute. Como estava bêbado, não conseguiu. Apenas irritou o cão,
que apesar dos latidos, não o ameaçava.
A tentativa de agressão contra Segredo — mais doce do que qualquer ser humano
— me embruteceu. Segurei-o com força, sacudi-o duas ou três vezes contra a parede:
— Seu filho-da-puta!
Sentia-lhe o bafo da bebida ordinária que tomara pela estrada. Sem dinheiro para a
droga, tomava qualquer porcaria.
Quando o larguei, ele foi ao pequeno bar num dos cantos do salão. Pegou a
primeira garrafa de bebida — uma vodca — e, descoordenado nos movimentos, tentou
abri-la. Pulei em cima dele e tomei-lhe a garrafa. Esperava dele uma reação que não
houve. Com a força que usei, a garrafa veio em direção ao meu rosto, abriu um talho,
largo e profundo, no cílio esquerdo. Por pouco não me cegava.
O sangue espirrou, depois me explicaram por que sangra tanto um ferimento
naquela região. A impressão que eu tinha é que me esvaía em sangue, esfolado como
um porco.
Mona apanhou uma toalha, improvisou uma bolsa de gelo, levou-me ao pronto-
socorro, em Petrópolis, onde contou uma história decente para explicar o ferimento.
Deram-me pontos e uma injeção antitetânica.
Quando voltamos para casa, Segredo nos esperava na porta. O carro de Otávio
não mais estava no jardim. Ele descera. Apesar de bêbado, sabia que seria melhor ir
embora do que ficar. Não suportaria o meu desprezo. Nem eu suportaria o desprezo
por mim mesmo pela violência com que o desprezava.

Era nisso que pensava, na varanda do apartamento em Ipanema, fumando um Punch e


olhando a praia que volta e meia recebia o jato de luz de um carro retardatário. Tão
concentrado estava naquela recordação, que nem percebi Mona a meu lado.
— Estava dormindo, estendi a mão esperando encontrá-lo na cama, queria saber
se tudo estava bem... Não o encontrei. Fiquei preocupada.
Continuei olhando a praia, como se não a tivesse escutado, como se ela não
estivesse ali.
— Você está bem? Não tomou o remédio para dormir?
Fiz que sim com a cabeça. Um sim resignado, submisso, derrotado. Naquele
momento, eu não tive consciência de que chegara a um limite em minha relação com o
mundo, cuja história eu contara para Mona e que nos mantinha unidos e dependentes
um do outro. Ninguém — nem mesmo ela — teria necessidade ou interesse de
conhecer essa história da boca de um derrotado.
Até então, eu a protegera dela mesma, só não a protegia de mim.
Além de contar-lhe a história do mundo, ensinara-lhe os truques possíveis para se
colocar acima do mundo.
Fora desmascarado.
A partir daquele instante, invertiam-se os pólos, o eixo do mundo se modificava.
Ela, sim, se quisesse, poderia me contar uma história que cada vez me interessava
menos.

VII

Não tive consciência da mudança. Só a senti quando, um ano depois, encontrei Mona
lendo um romance de Stendhal. Nunca lia ficção, preferia livros sobre marketing,
propaganda, mercado e economia. Quando queria relaxar, ouvia música ou lia poetas.
O fato de estar lendo um romance já seria assombroso. E mais assombroso ficou
quando, naquela noite, deitados de mãos dadas, olhando o teto, ela perguntou:
— Você se casaria comigo?
Não respondi logo. Em mais de dez anos de vida em comum, depois de uma vida
semiclandestina pelo mundo, de nossa adaptação no Rio e no mercado de trabalho —
um mercado difícil e tumultuoso —, aquela idéia era estranha. Tinha um mistério que eu
não decifrava.
Como chegara àquele ponto?
O normal seria eu responder com outra pergunta, na base do “O que está
havendo?”, “Que idéia essa?”, coisa assim. Respondi com calma:
— Se for importante para você...
Ela não disse nada. Achei melhor acrescentar:
— Será melhor para nós?
Ela virou para o lado:
— Esquece, foi uma bobagem.
Tentei esquecer. Logo senti a respiração de Mona no sono profundo. Ela fizera o
favor de me despertar — e eu estava cansado, depois de um dia difícil. Não
conseguiria dormir naquela noite. Procurei associar a menina que eu seqüestrara, a
quem eu ensinara a história do mundo, a Francesca da rua de Nápoles, dos corredores
do Eugenio C, com a Mona atual, a Mona dos primeiros anos, possuindo-a nos jardins
de Pompéia, nas praias de Palma de Maiorca, na escadaria do Hotel Imperial, em
Viena, naquela noite em que voltávamos da Volksopera e as luzes se apagaram,
tivemos de subir a escadaria monumental, a mesma que Hitler subira a 14 de março de
1938, quando anexara a Áustria à Alemanha nazista — eu ensinara tudo isso a Mona,
estávamos alegres, havíamos bebido depois da exibição de O Morcego, eu havia
sugerido Os Mestres Cantores na Statsopera, Mona preferiu Strauss a Wagner, afinal,
estava na cidade de Strauss, ao chegarmos ao hotel as luzes se apagaram, teríamos
de subir três andares, começamos pela escadaria monumental, quando ali chegáramos,
dois dias antes, e ela achou a escadaria imponente demais, disse-lhe que Hitler subira
por ela, os olhos de Mona brilharam: “Seria bom trepar ali!”.
Foi o que fizemos, com o risco de as luzes se acenderem e os porteiros da noite
ficarem indignados com o casal de sul-americanos devassos, um homem de idade com
uma menina que podia ser sua filha, enfim, tudo isso foi Mona, tudo isso era Mona, e eu
fui eu durante anos, sem necessidade outra além da obrigação de lhe contar a história
do mundo e de ela acreditar nessa história, embora nem sempre acreditando em mim.

Não voltou ao assunto. Nem eu. A pergunta (“Você se casaria comigo?”) ficou em cima
de nós como a auréola na cabeça dos santos, boiando no espaço, indo aonde a gente
ia. Havia entre nós a pergunta dela (“Você se casaria comigo?”) e a pergunta que eu
fazia a mim mesmo: “Por que Mona pensara naquilo?”
Como concordara, embora de forma ambígua, passou a haver nos olhos dela uma
terceira pergunta: “Por que ele não pensara antes?”
Casamo-nos meses depois, numa cerimônia vulgar, no próprio cartório, com a
presença neutra de duas testemunhas que o próprio escrivão providenciou. O acordo
pré-nupcial previa a separação de bens, eu já lhe dera um pequeno apartamento para a
renda, ela nem ligara, eu o alugara e abrira uma poupança em nome dela, ali colocava
o dinheiro dos aluguéis.
Obriguei-a também a poupar as comissões mais altas que recebia.
Profissionalmente, atravessávamos uma boa fase, tão boa que, numa crise de caixa da
agência, sugeri comprar parte das ações. Vendi um terreno que tinha ao lado da casa
de Itaipava e que não me interessava, levantei algum dinheiro num banco e, sem
necessidade de me esbofar, tornei-me sócio da firma, patrão de mim mesmo. A
princípio, com um terço, dois anos depois com quase metade. Fiquei nos 49% de
praxe, isso me garantia uma renda sem a responsabilidade da gestão. Passei a viver
de retiradas, largando aos poucos a pedreira do mercado. Também aos poucos, fui
abrindo espaço para que Mona assumisse as contas e os clientes que eu abandonava.
Casando ou não casando, a nossa vida adquiria a rotina, a segurança, o cotidiano
banal de um casamento. Passamos a viajar menos, já víramos juntos o que nos
interessava. A casa de Itaipava tornara-se nossa cidade, chão nosso onde pisávamos
firme e tínhamos a certeza de que, finalmente, a história do mundo passava pela nossa
própria história.
Às vezes, planejávamos um giro pelos lugares que nos trariam recordações (já
vivíamos disso, também), mas acabávamos preferindo ficar em Itaipava.
Era ali que eu menos pensava em Otávio. Nem olhava para a parede contra a qual
o sacudira, na briga que me deixara a cicatriz no supercílio. (Dependendo do tempo, a
pele repuxa, dói um pouco e me faz lembrar dele.)
Em viagem, quanto mais eu me afastava de Itaipava, mais aquela parede me
acompanhava. Despertava do sono e via diante de mim a parede, o corpo de Otávio
jogado contra ela. Eu nunca o perdoaria por ter-me obrigado a ser violento com ele.
A serenidade de nossa vida, que era uma espécie de vazio depois da morte de
Otávio e do nosso casamento (pode parecer relação de causa e efeito, mas por mais
que eu examine a questão, não descubro nexo entre os dois acontecimentos), parecia
boa demais até que um dia, indo ao banheiro para fazer a barba, encontrei novamente
na moldura do espelho, meio enviesado, o cartão que eu julgara abandonado ou
perdido para sempre. Cave canem. O mosaico do cão, negro no fundo branco, em
atitude que podia ser de cautela ou de agressão.
A princípio, achei graça em Mona ter colocado aquilo ali. Pensando melhor, não
achei graça alguma. Era um recado que ela me passava. Um sinal que emitia e que eu
deveria decifrar, se não com pressa, com precisão.
Pela segunda vez ela usava o cartão-postal para me mandar uma mensagem que
eu continuava a não entender. Da primeira, quando viajara sozinho a Nova York, eu
achei que o cartão colocado na minha maleta fosse uma delicadeza dela, uma forma de
estar comigo. Agora, não. Parecia realmente uma ameaça. De quê?
Ela voltava a ser a menina do Eugenio C. Às vezes, olhava para mim como se eu
fosse a estátua da deusa grega da loja de perfumes da Via Veneto. Não era a deusa
grega que a interessava. Olhava porque era aquilo que havia para ser olhado.
A imagem de Mona parada diante da vitrine, no corredor do navio, trazia-me de
volta o homem grosso e desalinhado. Ele me antecipara. Só não tivera a coragem para
seqüestrar a menina que pedia para ser seqüestrada. Ou talvez a questão não fosse
de coragem, mas de lucidez. E Mona, ainda Francesca, o tolerou, na esperança de ser
raptada um dia, para caminhar pelo mundo cuja história ela queria conhecer.
O pensamento me inquietava: e se a seqüestrassem outra vez? Bem verdade que
agora, na faixa dos trinta anos, ela se seqüestraria a si mesma, iria com as próprias
pernas para outro mundo que não o meu, fugiria de mim tal como antes fugira de um
mundo que não era o dela.
Qual seria o mundo de Francesca, que eu transformara em Mona? Mundo que
podia ter como logotipo o cartão-postal que ela colocara na moldura do espelho, diante
do meu rosto ensaboado.
Cartão que ela nunca mandou para ninguém. E agora, de certa maneira, mandava
para mim, o cão negro em fundo branco, cão que guarda há vinte séculos a casa de um
poeta trágico.
Terceira parte – a casa
I

Abriu a janela que dava para o jardim. Ali começavam os pinheiros que cercavam a
casa. Vinha deles o cheiro vegetal, úmido, aquilo que ela chamava de cheiro de
Itaipava. Às vezes, em Milão, ela sentia aquele cheiro que vinha de dentro dela — era a
forma serena de se lembrar de Augusto.
Ele esperara quinze anos para que os pinheiros crescessem. Não tinha pressa
então. Confiava em si mesmo, em seu ritmo. César vai a bordo! E os remos voltavam a
funcionar. Os pinheiros cresceram realmente. Ela também.
Começara a se libertar do homem que se tornara poderoso para ela, do homem
que, na noite de Nápoles, aparecera súbito, demônio brotado do chão. E como um
demônio, a transformara em Mona. E a seqüestrara. E ensinara-lhe a história do
mundo.
Cumprida a tarefa, tanto ele como ela nada tinham a fazer juntos — por isso ela
aspirava o cheiro forte vindo dos pinheiros, cheiro de noite, cheiro dele. Não fora
convidada para ir a Itaipava, muito menos para dormir na casa que também já fora
dela. Depois de três anos de ausência, ela não se sentia uma estranha, mas uma
intrusa.
Não tinha sono. E sabia que, em seu quarto, Augusto permanecia pior do que
acordado: em vigília. A casa estava em silêncio, as empregadas dormiam no anexo.
Erika, a governanta austríaca e masculinizada, de peito forte e olhos azuis, naquela
noite dormiria fora.
Apesar da visita inesperada, ou talvez por isso mesmo, Augusto sentia-se bem,
abandonara a cadeira de rodas. Podia fingir para todo mundo, menos para ela.
Em tão boa forma estava que se aproximou dela, erecto, como nos velhos tempos.
Mona continuava sentada na cadeira, experimentando o que Augusto devia sentir
quando passava horas ali. Ela se assustou com aquele corpo que vinha em sua direção.
Olhando na horizontal, por mais que tentasse disfarçar, só o via abaixo da cintura. Não
foi impressão: alguma coisa se mexia ali, crescendo sob a calça apertada.
“Ele me deseja.”
E agora, sabendo que ele não conseguiria dormir com aquele desejo, afastou-se
da janela. Pouco adiantou: o cheiro dos pinheiros, o cheiro da noite, era também cheiro
dele.
Estirou-se na cama, com a certeza de que não dormiria logo. Havia o livro,
Marketing e Mercado, nem por todo o ouro do mercado e do marketing gostaria de
perder a tensão que a mantinha calma, mas insatisfeita. Arrependia-se de ter
comandado o encontro, vindo a Itaipava sob o pretexto de discutir o problema do
apartamento — admitia que estava curiosa em saber como ele estava, conferir a
devastação que provocara. E, também, em segundo plano, por que mudara o
testamento.
Casara-se em Milão, tinha dele notícias fragmentadas, amigos que iam às feiras
sempre a procuravam, traziam as novidades, depois iam jantar no Biffi e vinham as
conversas pessoais, falava-se de Augusto, ficara esquisito, vivia dos 49% das ações da
agência que continuava em alta, de velhos clientes que eram fiéis a ele, depois a crise,
a agência em dificuldade, Augusto perdera tudo, ficara com uma retirada insignificante,
isso o humilhava, não procurava ninguém, com o tempo deixou de ser procurado.
Diziam que enchia a solidão com estranhas manias, comprara uma cadeira de
rodas desnecessária, não tinha nada, apenas o endurecimento no joelho esquerdo,
coisa antiga, que na certa se agravara com a idade, com o cansaço de tudo. Enchera-
se de remédios, armara um esquema de doente terminal, com massagistas revezando-
se em sessões de fisioterapia, às vezes dando-lhe banho e colocando-o na cama,
como se estivesse incapacitado.
Diziam também que o velho fauno continuava com suas garras, cercava-se de
empregadas jovens, tinha uma governanta austríaca, forte, musculosa, era o seu tipo
final depois de um casamento longo com a moça trinta anos mais jovem, de ombros
doces e pele frágil. Desejava agora corpos violentos, posses maduras, devassidão
também terminal. O velho mandarim se amarrava em corpos atléticos e maduros, neles
buscava o calor que lhe dava a impressão de não sentir frio.
“Eu não devia ter vindo.”
Mona procurava pensar em outra coisa, o cheiro vegetal que vinha da noite úmida a
amolecia. Pior do que ter vindo foi ter decidido passar a noite ali. Uma noite longa,
cheia de oportunidades não desejadas. Tentava afastar aquela idéia que antes
parecera absurda, e agora, a noite estendida sobre o mundo como uma canção de
outro tempo, ela sentia a realidade contra a qual começava a não lutar:
“Vou me queimar de desejo a noite toda...”
Havia a questão da estrada, viajar na escuridão, os novos acessos a Petrópolis,
enormes e complicados contornos que levavam a Itaipava, não reconhecia a estrada
antiga que antes não tinha segredos para ela. E como enfrentá-la agora, com novos
traçados e viadutos, seria perigoso, estranhara o carro que alugara. Sempre que
enfrentava estrada à noite, pensava nos pais, no desastre da via Anchieta, a
orfandade, a ida para Nápoles, a casa do tio, a vontade da fuga, a necessidade de um
cúmplice que a tirasse dali.
Seria perigoso descer à noite. Mais fácil — e mais atraente — enfrentar o perigo
de ficar ali, naquele quarto, a janela aberta por onde entrava o cheiro vegetal da noite
— e ele tão perto, a desejando.
Como a desejara, três anos antes, quando ela se despediu dele. Não haviam
brigado, a história do mundo chegara ao fim, não ao fim da história propriamente dita,
mas do mundo que era deles.
Sempre que se separavam por alguns dias, uma viagem a trabalho ou um
compromisso em São Paulo ou na Europa, eles se abraçavam. Ela abaixava a mão em
direção ao sexo dele, alisando-o de leve, como a pedir que ficasse fiel e comportado. E
ele a beijava na testa, como a abençoá-la e, ao mesmo tempo, proibindo-a de pensar
em outra coisa que não nele.
Na despedida final, quando sabiam que nunca mais se abraçariam no ritual que
invocava o desejo e a proteção, repetiram os mesmos gestos. Apenas o beijo dele foi
mais breve e a mão dela foi mais rápida.

II

Seria uma noite longa, cheia de oportunidades. Em outra situação, em outro tempo,
ela poderia aproveitar a amplidão da noite e sua oportunidade para realizar aquele
desejo que, como o cheiro que vinha de fora, era úmido e a entontecia.
Reconhecia que estava enfrentando um momento novo e ao mesmo tempo final de
uma experiência. Viera conferir uma suspeita: ainda amava Augusto? Algum dia o
amara realmente? O que estava fazendo ali, naquela casa que não era mais dela,
naquele quarto que Otávio às vezes usava e no qual, com certeza, enfrentou os
fantasmas de um destino que a droga e o desprezo do pai tornaram tão breve e sem
sentido?
Como se descobrisse a chave de um enigma, ela podia localizar no suicídio de
Otávio o início de seu afastamento daquele homem cético e, às vezes, miserável.
Somente ele poderia assumir a loucura de seqüestrá-la, de ser o cúmplice de uma
menina que chegara a se deitar com um homem que a repugnava e que — nem sabia
como — fora o primeiro a usar de sua carne, uma carne que ainda não era dela.
O professor em Nápoles, que lhe cobrava a data da morte de Agripina, o discurso
de Cícero em defesa de Milone, a ordem direta da ode de Horácio dedicada a Virgílio,
ela fora obrigada a decorar todas as estrofes, Sic te diva potens Chipri, sic frates
Helenae lucida siderum, esse valor poético tão distante e improvável, que nada tinha a
ver com ela, e aquele velho do qual nunca olhara o rosto e os olhos, com seu cheiro de
sala de aula e de corpo suado, tudo isso de certa forma misturava-se ao corpo jovem e
rebelde de Otávio, fruto da mesma carne que, em estágio maduro e mais sofisticado,
ela encontrara em Augusto.
Seria lógico se ela sentisse repugnância por si mesma. Não podia ser julgada
assim. Que os outros a julgassem. Ela não se perdoava, porque nada tinha a ser
perdoado.
E havia a manhã que iniciara o fim. Augusto descera ao Rio para resolver um
problema na agência. Ela ficara até mais tarde na piscina, fazia calor. Ao sair da água,
vira Otávio na janela daquele mesmo quarto onde agora estava. Ele a olhava de modo
estranho. Evidente que se masturbava. A princípio, sentiu um prazer juvenil, sabendo
que era desejada por ele. Logo se aborreceu. Não estava ofendida mas repugnada.
Enrolou-se na toalha e saiu do ângulo em que podia ser vista.
Naquele dia, Otávio drogou-se furiosamente. À noite, quando Augusto regressou,
perguntou pelo filho.
— Não saiu do quarto. A mãe telefonou, ele não quis atender.
Augusto foi ver o filho, saber por que não atendera ao telefonema da mãe, afinal,
era com ela que Otávio vivia. A porta estava trancada. Foi preciso descobrir outra
chave para abrir o quarto. Otávio estava caído no chão, a língua para fora,
monstruosamente mais grossa do que a boca. Sinal de carência química, ele consumira
o estoque de que dispunha, o antebraço estava uma ruína, como se mosquitos o
tivessem picado.
A visão do rapaz estendido no chão, a espuma branca secando no lábio inferior —
e Mona perdeu o interesse em desprezá-lo. Tampouco o de comentar com Augusto a
cena da manhã.
Um mês depois, a briga com o pai, a garrafa de vodca, o sangue saindo do
supercílio, escorrendo pelo rosto de Augusto como se lhe tivessem arrancado os olhos,
depois a notícia, o enterro, a máscara de Sônia durante o velório, desabada numa
poltrona, a vergonha de cada um. Era um mundo que chegava ao fim. Mereciam uma
casa (ou um túmulo) numa cidade morta.

Augusto deixou de ser o narrador onisciente e poderoso de sua vida. Curiosamente,


passara a desejá-lo com mais freqüência. Por isso ou aquilo — na verdade, por tudo
—, era o seu homem e fora até então o seu mundo. Transferira para ele o encargo de
viver por ela e adquiria, enfim, a exaustão do prêmio alcançado.
A morte de Otávio o libertara. E ele, que sempre fora cioso e avaro em proteger
sua liberdade, descobria-se fatigado e inútil.
Preso por ato de vontade própria a uma cadeira de rodas, assumindo um fim que
não chegara, ele se tornava silencioso, de gestos mais espaçados, quase solenes.
Ainda sabia ser soberbo — e isso lhe dava um charme na voz e no gesto que a atraía e
ferozmente a excitava.

Impossível continuar deitada na cama, olhando o teto que não era mais dela. Lá fora, o
vento mudara de direção e não mais lhe trazia o cheiro vegetal da noite que a tonteava.
E ela não gostava de pensar naquele passado que, até certo ponto, como o teto e o
resto da casa, não era mais dela. Era dele, como também ela fora dele.
“Ele é esta casa. E eu novamente estou nela!”
Levantou-se, deu uma olhada no espelho do banheiro para ver se estava com a
cara devastada, abriu a porta. Ninguém no corredor, o quarto lá na frente aberto, ele
não estava lá.
Na varanda, escondido na escuridão, sentado na cadeira de rodas, parecia
invisível. A própria cadeira parecia vazia. Só tinha a certeza de que Augusto estava ali
porque Segredo, deitado no canto onde havia um pouco da luz vinda do corredor,
mexeu-se à sua aproximação.
Passou pelos dois, cão e dono. Sentou no banco de madeira que contorna a
varanda pelo lado de dentro. Sentiu um arrepio, a friagem não era muita, mas ela saíra
do calor de um quarto abafado. Esfregou as mãos para esquentá-las, passou-as pelo
rosto. Foi sensação boa, esquecera-se da friagem das noites de Itaipava. Em Milão o
frio era cortante, não poderia ser comparado a uma carícia.
— Não consegui dormir — disse ela, para dizer alguma coisa.
— Nem eu — respondeu Augusto, com voz pesada, falando contra a vontade.
— O vento mudou de direção — continuou ela, sem a intenção de buscar um
assunto. Qualquer um (ou nenhum) daria no mesmo.
— Você presta atenção ao vento?
— Me ensinaram a prestar atenção ao vento.
— Acho que ensinaram muita coisa inútil a você. Foi perda de tempo.
— Sim, foi perda de tempo. Mas eu gostei. Perdi tempo com você. Foi bom, sabe?
Ele se mexeu na cadeira, como se somente agora a percebesse ali.
— Ainda bem que sobrou tempo para você. Tudo se resume a ter ou não ter mais
tempo. Você tem. Eu não. Apesar de contraditório, isso ainda nos une... o tempo...
Mona conseguia agora distingui-lo na escuridão da varanda. Distingui-lo ou
adivinhá-lo. A silhueta, recortada na noite, era a mesma de dez, vinte anos atrás. Não
fosse a voz um pouco exausta — ela gostara tanto daquela voz — e poderia ser o
mesmo homem que lhe aparecera, a chamara de Mona e lhe contara a história do
mundo.
— Sabe, você assim, no escuro, parece como antigamente...
— Eu sou o antigamente. Não era velho mas era antigo quando a procurei em
Nápoles. E sempre fui antigo para você... lembra a história da caixa de fósforos? Você
tem muitos fósforos para queimar... eu só tenho um... preciso acendê-lo com cuidado...
Ia responder, mas preferiu ficar em silêncio. Para fazer alguma coisa, passou a
mão na cabeça de Segredo. O cão gostou daquela mão, emitiu alguma coisa parecida
com um suspiro.
— Com quantos anos está Segredo? — perguntou. Pelos cálculos dela, devia estar
com dez ou onze anos.
— Dez. Tão antigo como eu.
Mona fez a conta: os entendidos garantem que cada ano na vida de um cão
equivale a sete na vida humana. Sendo assim, Segredo estaria com setenta anos.
Augusto com 66. Ela, com 36. Distraiu-se com aquela idéia: o cão que eles viram
nascer era mais velho do que todos.
— Ficamos antigos... foi bom e foi mau... — comentou ela.
— Não, Mona, não foi bom. Foi péssimo. Só pode ser considerado bom diante da
alternativa...
— Por que cismou com essa alternativa? Testamento, cadeira de rodas, essa voz
pausada... você foi sempre um farsante...
— Você me chamou de farsante naquele dia em que decidimos a separação...
Mona havia se esquecido de que o chamara de farsante, havia três anos, quando
decidira ir embora. Quase que ia pedindo desculpas, mas acabou admitindo:
— Sim... um farsante... eu sempre soube que você era uma farsa... só mesmo um
farsante poderia fazer aquilo que eu lhe pedi...
— Quer dizer, no fundo foi você quem me usou...
— Não tinha chance então. Ou você queria que eu fugisse com aquele professor...
— Talvez desse no mesmo.
— De qualquer forma, não posso me queixar, tive a minha parte e... olhe... foi o
melhor da minha vida...
— Da minha também.

III

Pouco depois da morte de Otávio, ele sentiu uma pontada forte no joelho esquerdo —
sempre tivera problema com aquele joelho, desde rapaz, jogava futebol com amigos
num clube do Posto 2, em Copacabana, entrara numa bola dividida, recebera o tranco
com a perna em falso, houvera suspeita de esmagamento do menisco, esteve para ser
operado, mas não foi preciso, com fisioterapia melhorou, mesmo assim o joelho vez ou
outra o incomodava, mas não o suficiente para ficar pensando nele.
Preparando-se para mergulhar na piscina, sentiu a pontada, e ia perdendo o
equilíbrio. Assustou-se. Impressão ou neura, ao mesmo tempo que sentia dor no joelho,
a pontada no peito o obrigou a respirar fundo.
Venceu o susto, concentrou-se para obter a tranqüilidade que a dor ameaçara.
“Não, não foi nada, somente uma pontada, mau jeito muscular, nada mais, preciso de
calma.”
Recuperou-se, pensou em procurar um médico, seria aceitar que alguma coisa
anormal estava acontecendo com ele. E como não sentiu mais nada, procurou
esquecer.
Não foi possível. A partir daquele dia, os movimentos tornaram-se lentos,
permanecia semanas sem sair de casa, deixava as coisas rolarem. Precisou ir a
Petrópolis buscar uma encomenda, teve dificuldade em entrar e sair do carro, perdia o
controle do corpo até bem pouco tão domesticado. Comprou uma joelheira, passava as
manhãs na piscina. Com as mãos na borda, ele batia as pernas, achava que com o
exercício melhoraria.
Naquele dia ficara na piscina até mais tarde. Ouviu o barulho do carro de Mona que
chegava do Rio. Enxugava-se com a toalha quando Mona se aproximou:
— Novidades!
— Boas ou más?
— Boas. Acho que boas.
Uma agência italiana, com sede em Milão, iria promover um seminário de
reciclagem em nível internacional. Os anos 90 supervalorizavam o conceito de imagem;
governos, empresas, instituições e pessoas físicas dependeriam cada vez mais do
marketing. Na virada do século, quem não se atualizasse com os novos recursos
oferecidos pela informática, a TV a cabo, a Internet, a velocidade e a instantaneidade
das informações fatalmente entraria em declínio. O binômio meio-mensagem fora
substituído pela imagem. “Parecer era aparecer” — foi um lema lançado por uma
agência rival. Imagem era ao mesmo tempo meio e mensagem.
— Você quer ir? — Augusto nem esperou que ela acabasse.
— Evidente que nós iremos...
— Não, Mona, eu não irei... se quiser, vá. Mas vá sozinha.
Ela o olhou com espanto:
— Pense bem, essa viagem até que será ótima... sobretudo para você. Depois do
que houve, acho que precisa quebrar essa tensão... sei que não gosta do que vou
dizer, você passou por uma brutalidade...
— Sim, não é todo dia que um filho se mata porque não é aceito pelo pai... mas
isso não justifica uma viagem que não quero fazer... nem um trabalho que não me
interessa mais... vá você, sozinha, já lhe ensinei tudo o que sabia...
Mona percebeu que ele começara a blefar. Augusto não queria ir, isso era real.
Jogava com uma espécie de chantagem, vá sozinha, me deixe abandonado, com o meu
joelho arrebentado...
Decidiu enfrentá-lo:
— Gostaria que fôssemos juntos... sempre demos um jeito... e olhe que foi bom...
— Não disse o contrário. Apenas, desta vez, não me interessa uma semana com
aqueles italianos engravatados falando em inglês e pensando que tudo na vida é
imagem... não estou mais nessa, ganhei dinheiro fazendo a imagem dos outros, meu
joelho é mais importante do que a imagem do papa, a imagem dos vinhos franceses, da
eficiência alemã, do pragmatismo americano, do desenho italiano...
Mona olhou para o joelho de Augusto.
— É mais importante do que tudo, inclusive eu...
— Sim, em certo sentido...
— Em que sentido? — ela não se sentia insultada, mas queria aprofundar o
assunto.
Augusto acabara de enxugar os pés, até então parecia mais preocupado em se
enxugar bem do que em manter a conversa. Colocou o roupão branco que tinha um
selo nas costas, o hotel em Bergen onde se hospedaram, Mona gostou dos roupões a
que os hóspedes tinham direito para fazer sauna, pediu que Augusto comprasse dois, o
hotel ofereceu um de cortesia, compraram o outro, dez anos de uso e já estavam
velhos, puídos, sempre o usava, nas noites de frio, quando a temperatura baixava,
gostava de usar o roupão atoalhado, sentia-se confortável, imaculado, protegido.
Revestido da frágil armadura de um velho roupão de banho, percebendo que Mona
o desafiava, tomou o tom de quem recontava a história bem sabida de um mundo
terminal:
— Quer saber em que sentido o meu joelho é mais importante do que você? É
isso? Bem, nunca fomos de muitas perguntas nem de explicações, um dia você me
pediu que a levasse e eu a levei, sem fazer nenhuma pergunta, tampouco você me
explicou por que desejava aquela fuga. Essas coisas não se perguntam, nem se
explicam. São assim porque só funcionam se forem assim... acho que chegou a minha
vez... não estou pedindo nada, a não ser que me deixe quieto... sabe... são trinta anos
de diferença...
— Nunca sentimos essa diferença... nunca dei importância para ela...
Augusto olhou-a com atenção. Era verdade. Depois de algum tempo, em que a
fixou com interesse, e como se voltasse a contar uma história antiga, recomeçou:
— Sempre tive vontade de contar para você a história das salas de espera dos
cinemas. Naquela noite, em Pompéia, quando você pediu para ficar comigo, quase lhe
ia contando... faz parte da história do mundo. Durante esses anos em que estamos
juntos, muitas vezes tive essa vontade, mas achava que não era tempo... sabe... é
desfavorável para mim...
Mona deitou-se na espreguiçadeira branca onde costumava apanhar sol nas
manhãs de piscina. Sabia que Augusto, ao tomar o tom pausado, tranqüilo, era
fascinante, levemente cabotino, mas adorável. Por um momento, ela esqueceu o
seminário em Milão, o trabalho, a viagem.
— Não vamos a um cinema há um tempão, temos em casa os vídeos que nos
interessam, mas nos primeiros anos não perdíamos aquelas sessões das dez nas
sextas-feiras, lembra-se?
— Você sempre foi rotineiro, sexta-feira era o mesmo programa, o cinema às dez,
o jantar depois, naqueles restaurantes que se abriam na Barra...
— Bem, isso não faz parte da história. Ela se passa na sala de espera dos
cinemas. A turma da sessão das oito está saindo. Se o filme foi bom ou mau, se
provocou choro ou medo, se valeu ou não valeu a pena, a cara do pessoal que está
saindo revela isso. Pelo menos, é assim que a turma que vai entrar olha a turma que
sai. Por sua vez, os que estão saindo olham os que vão entrar com inveja, se o filme
valeu a pena. Olham com desprezo, se o filme foi uma porcaria.
— Você me chamava a atenção para isso... dizia: “Olha a cara desses idiotas!”...
— Depois de visto, descobre-se que geralmente o filme não mereceu a espera.
São dois momentos antagônicos: os que já viram e os que ainda não viram, os que
sabem e os que não sabem...
Augusto tirou do bolso do roupão um tubo de creme, espremeu a pasta amarelada
no joelho dolorido, começou a esfregá-lo mansamente, como se fizesse carinho nele
mesmo.
— É isso o que está acontecendo conosco. Estou saindo da sala escura. Na sala
de espera, vejo a voracidade dos que se preparam para ver a mesma coisa. Não vem
ao caso se o filme foi bom ou ruim... eu tive a minha vez, você terá a sua... lembra a
história do lorde e do mordomo?
Mona lembrava. O lorde sentado na poltrona diante da imponente vidraça que dava
para seus domínios. Ao lado, duro, hierático, passado a ferro, James, o mordomo, olha
o horizonte e diz: “Acho que teremos chuva, sir!” O lorde responde: “Não, meu caro
James, não teremos chuva. Eu terei a minha chuva. Você terá a sua!”
Mona gostava da história e teve de sorrir:
— Você fazia sucesso com ela... só não esperava que um dia fosse jogada contra
mim. Sempre acreditei que teríamos a mesma chuva...
— Elementar, meu caro James. Estou saindo e você está entrando... o filme teve
momentos excelentes, mas para mim começa a ficar enfadonho... a morte de Otávio...
esse joelho miserável...
— Você não tem nada nesse joelho! Pare de mistificar!
— Que não seja o joelho... pode ser outra coisa... pensando bem, a idade...
— Já disse que isso nunca interferiu, nunca pensamos nisso quando...
— Sei... sei... mas é você mesma que me traz a notícia, uma viagem, um trabalho,
a lengalenga de um tipo de vida que já provei e da qual já cansei...
Augusto fixou o olhar em Mona, como se somente agora a descobrisse a seu lado:
“O que ela está fazendo aqui?”
— Engraçado, há uma espécie de simetria nisso tudo. Com quantos anos você
está agora? Trinta e três. Mais quinze anos, como os pinheiros que plantei lá fora, e
estará com a idade que eu tinha naquela viagem no Eugenio C, quando passei dois
dias atrás da menina que olhava a estátua de uma deusa desconhecida...
— ... que estava fugindo de um professor. Não era dele que a moça desejava ouvir
a história do mundo... não, não é por aí, Augusto... não pretendo viajar de navio e já
passei do tempo em que ficava olhando uma estátua que não me interessava...
— Quem é que sabe?
— Eu sei! Ou iremos juntos ou não se fala mais nisso.
— Não, Mona, vamos continuar falando, tenho algum tempo, não é muito, mas é o
suficiente para que eu lhe conte um capítulo que pode ser o final da história do mundo...
pelo menos do meu mundo...
— Não seja trágico. O que sempre apreciei em você foi essa incapacidade de ser
trágico... às vezes é rabugento, mas nunca é trágico...
Acabara de passar a pomada no joelho e por um instante pareceu estar longe dali,
longe de Mona, da piscina, da casa. Depois de um silêncio, como se falasse consigo
mesmo:
— Para combinar, eu teria de ser poeta. Aí, sim, teríamos aqui uma casa do poeta
trágico... como é mesmo... Cave canem... você ainda tem aquele postal?
Mona levantou-se. Por um instante teve pena de Augusto, era a primeira vez que
admitia isso: tinha pena dele, de seu joelho lambuzado de creme, da recente tragédia
com o filho, do filme que ele havia visto e parecia não ter gostado.
— Tenho. E vou levar comigo.
Augusto não esperava aquela decisão dela. Em outras ocasiões, quando havia a
ameaça de um conflito, na maioria das vezes sem importância, ele sempre a convencia.
Agora, apesar da brusquidão com que comunicara a decisão de viajar, ele sabia que
nada mais a deteria. De certa forma, ela começava a fugir. Como fugira de Nápoles.
Sem olhar para trás. Era a sua especialidade. Quando deixou o navio e saltou no cais,
poderia ter olhado para trás. Havia, pelo menos, dois homens que esperavam isso dela.
O que ela precisava era de outro cúmplice, que não podia ser ele. Ainda que
Augusto quisesse e pudesse ser esse cúmplice, ele já tinha visto o filme, estava
cansado, uma fadiga que agora doía no joelho para não doer mais e mais fundo.

IV

Ocupou os últimos dias em fazer pesquisas e procurar clientes, catalogou resultados,


abasteceu-se de dados e estatísticas. Para representar a agência num encontro
internacional, não poderia fracassar.
Seria o seu primeiro vôo solo. No meio profissional, comentavam que Augusto
continuava em depressão, chocado pelo suicídio de Otávio. Os mais íntimos — que
eram raros — sabiam que
a relação entre pai e filho era difícil, lamentavam a tragédia com a mesma sinceridade
com que compreendiam a viagem de Mona.
Tampouco houve interesse da parte de Augusto em saber detalhes. Havia muito
que se isolara como sócio, deixara rastro no meio profissional, era uma voz a ser
ouvida numa emergência. No dia-a-dia do trabalho, tinha o derradeiro truque de deixar
os outros em paz. E também o deixavam em paz. Ele acreditava que saía ganhando.
Permaneceu em Itaipava, Mona desceu e ficou no apartamento de Ipanema. Na
manhã da viagem, subiu a serra para se despedir dele.
Não podia imaginar como seria recebida. Por instinto, sempre que decidia fazer
alguma coisa, achava que devia fazer logo, queimando as pontes atrás de si. Tal como
fizera, anos antes, quando abandonara a casa do tio com a roupa do corpo e ficara
com um estranho, um homem a quem conhecera dois dias antes, a quem não amava
nem admirava, apenas o usava para a fuga. Dezessete anos depois fugia outra vez,
agora do homem que ela aprendera a admirar. Pior: aprendera a amar.
Encontrou-o sentado na varanda, olhando os pinheiros, Segredo aos pés. Parecia
sozinho, mas não abandonado, embora, na realidade, estivesse sendo abandonado. Ele
não percebeu, ou fingiu que não percebera, a sua aproximação. Solidário com o dono,
Segredo nem se levantou para a saudar. Também ele estava sendo abandonado.
Ocupada com os preparativos, nem tempo tivera para pensar nisso: ela não estava
iniciando uma viagem de trabalho, rotina profissional de casais que, eventualmente,
precisam cumprir obrigações isoladas. Ela não estava apenas fugindo, como antes
fugira da casa do tio. Estava abandonando Augusto.
Tinha consciência desse abandono mas não tivera tempo — e talvez nem tivesse
vontade — para pensar na decisão que tomara.
Sem que estivesse apaixonada, fugira com ele. A paixão viera depois. Agora,
sentia-se desapaixonada. Ele fora perfeito: ensinara-lhe o que sabia. A própria fuga,
que inicialmente fora uma decisão dela, logo se transformou numa lição dele — a
última. E por mais que sofresse a separação, abrupta, sem causa precisa, Augusto
saberia que ela continuava a ser criação dele. Sem amarras, ela estava pronta para
exercer sozinha a liberdade que lhe ensinara.
Mais tarde — e se fosse o caso — ela pensaria nisso. Se pensasse muito, não
teria pedido para ficar com Augusto aquela noite em Pompéia, nem teria pedido que
ficasse com ela para sempre. O “para sempre” acabara — e durara muito, mais do que
o tempo de os pinheiros crescerem.
Em Nápoles, ela não se despedira de ninguém. Nem fora apanhar suas roupas.
Não era exatamente a aventura o que ela buscava. Na realidade, ela nem sabia o que
buscava. Só não queria ficar ali. Se escolher um caminho é desprezar todos os outros,
recusar um caminho podia ser a escolha de todos os caminhos.
Tudo dera certo, tão certo que agora doía dentro dela a separação. Ele não
reclamara, nada perguntara, sabendo que ela faria o que devia fazer, cumpriria o
roteiro que se traçara. Atirava-se sozinha no mundo, o “mundo” cuja história e,
sobretudo, cujo fim ele conhecia.
Precisou passar por cima de Segredo. Augusto não se voltou para ela. E não fazia
sentido Mona se despedir dele pelas costas, sem se olharem no rosto. Nem sabia
como iniciar a conversa. Arrependeu-se de ter ido, melhor seria partir sem cumprir
aquela cerimônia que a constrangia e, certamente, o irritaria.
Por acaso, reparara que o cabelo dele estava crescido. Desde a morte de Otávio
que ele não pedira para que o cortasse.
— Seu cabelo está crescido... — disse ela, procurando o tom cordial, tanto quanto
possível afetivo.
Augusto não se mexeu. Depois de algum tempo, passou a mão pela nuca,
verificando se o cabelo estava realmente crescido.
— Sim... não tive tempo...
Mona pensou: “Não teve tempo nem terá ninguém para cortá-lo!” Evitou ter pena
dele, não merecia isso. Por um momento, pensou em oferecer-se para uma última vez.
Preferiu deixá-lo como estava, Sansão derrotado, que o templo caísse sobre ele.
Seria, de certo modo, um fim glorioso.
— Bem, viajo à noite... vim apanhar algumas coisas, lá no Rio deixei tudo em
ordem, trouxe as chaves, estão na sua mesinha-de-cabeceira...
— Precisa de alguma coisa?
— Não. Quer dizer, preciso que você não me despreze...
— Eu seria incapaz de desprezar alguém como você. Afinal, isso faz parte de
nossa história. Teríamos de chegar a um momento assim. Só não estou alegre por tudo
ter dado certo para você porque, no fundo, estou triste...
— Eu também.
Ela se inclinou e o beijou no rosto. Ele não fazia a barba há alguns dias. Mona teve
vontade de pedir: “Se cuide!” Sabia que ele dispensaria uma despedida viscosa.
Augusto custou a retribuir o beijo. Hesitou ao escolher o local em que a beijaria.
Aproveitou estar tão próxima, tomou-lhe a mão, segurou-a um tempo, olhando-a com
atenção, como se a examinasse pela primeira vez. Depois, sim, num gesto formal,
galante — ele que detestava qualquer expressão de galanteria —, beijou-a com
respeito, como se tomasse a bênção.
Mona se afastou.
Teve breve indecisão, vontade de passar a mão na cabeça de Segredo, que
continuara deitado aos pés do dono, testemunha e cúmplice do fim. Lembrou que a sua
mão fora beijada por Augusto, não gostaria de usá-la para outra despedida.
Olhou para o cão, procurando-o nos olhos. Tremeu por dentro quando viu que
Segredo também olhava para ela, como o cão olha quando sabe que o dono está indo
embora.

Os pinheiros haviam crescido. Fechavam, cerca viva, os limites do terreno onde antes
os eucaliptos pareciam estacas, deixando espaços sombrios entre os troncos. Augusto
lembrava da advertência do jardineiro: as mudas de pinheiro que estavam substituindo
os velhos pés de eucalipto demorariam quinze anos para crescer.
“Eu espero!”, dissera ele.
Mona estava a seu lado, era ainda o primeiro ano da aventura que se estabilizava.
Comprara o terreno e construíra a casa porque adquirira a certeza de que ele também
era uma espécie de casa, na qual habitava uma “coisa” que se chamava Augusto
Richet. E que essa “coisa” ficava mais completa, embora não mais justificada, tendo ao
lado a menina que ele raptara. Juntos, podiam esperar quinze, 150, 1.500 anos para
que os pinheiros crescessem. E não apenas os pinheiros.
Também cresceram. Cresceram tanto que se esgotaram. A casa ficou pequena
para abrigar os dois. Com a morte de Otávio, descobriu que dentro dele, dentro da
“coisa”, dentro da casa que era ele, havia agora um hóspede não convidado, com cuja
sombra seria obrigado a repartir cada espaço, pouco sobrando para ele. Seria
preferível que nada lhe sobrasse.
Além da sombra incômoda, vinda daquela parede onde sacudira Otávio, havia
Mona. Ele tinha o presssentimento, a quase certeza de que um dia a perderia. E perder
por perder, até que era melhor perder logo.
Nem notara quando começara a perder Mona. Ela também não percebera.
Conhecendo o mundo que Augusto lhe ensinara, ficara tão disponível quanto ele na
viagem pelo Mediterrâneo.
Lembrando os últimos dias no navio, ele admitia o sentimento do trágico na busca
absurda. Nem se preocupara em ler o sinal que o destino lhe oferecia, o homem grosso
e repugnante que o advertia, emissário do passado, cúmplice do presente, que o
alertava, inútil e silenciosamente.
Ele se recusara a ler os sinais. Em Pompéia, a recente Mona mostrou-lhe o
mosaico, Cave canem. Ela quisera ficar na cidade-morta, dormir na grama ao lado de
um estranho. Depois, a fuga, o perturbador mistério dos primeiros anos, quando o vigor
de sua carne era insaciável e a carne dela submissa.
No dia em que Augusto fez cinqüenta anos, eles estavam em Paris, no velho Hotel
Normandie, rue Échelle, o quarto imenso e branco, a lareira de mármore, as tábuas do
assoalho desalinhadas pelo tempo, nem os grossos tapetes impediam que o chão
rangesse como num velho castelo abandonado por exaustos fantasmas.
Naquela semana em que não saíam do hotel, tivera a sua melhor marca sexual,
manhã duas, tarde duas, noite duas. Mona o olhava, surpreendida e satisfeita, também
ela se abrira, inteira, para acolher o cio do homem que se recusava ao crepúsculo — e
por isso ela lhe oferecia tudo, com a generosidade e o cálculo de quem o viciava nela
para sempre.
Depois, e gradativamente, foi o suave dia-a-dia, o noite-a-noite de uma carne em
dois corpos. Como moravam em Ipanema e a agência era no centro da cidade,
Augusto alugou o pequeno escritório num edifício comercial, para lá mandou uma cama,
um aparelho de ar refrigerado, e no meio de reuniões com clientes ou diretores, eles se
olhavam, se compreendiam, davam um jeito de sumir, e se amavam às pressas,
preparando-se para mais tarde — que podia ser duas horas depois.
Houve a vez em que Mona reclamou. Há muito ele não contava a história do mundo,
ela gostava quando, a partir de um quadro, de uma música, de um trecho de filme que
viam na TV, ele começava a falar e ela fechava os olhos, a cabeça apoiada no ombro
dele, era uma forma de penetrá-lo, de engolir o esperma dele, essência do homem que
a criara e dela se apoderara.
Notara que na história do mundo havia sempre o momento em que tudo acabava.
Branca de Neve casou-se com o Príncipe e foram viver felizes para sempre. E depois
do sempre? A Bela Adormecida foi despertada pelo beijo de outro Príncipe, foram
felizes também para sempre. E depois? César atravessou o Rubicão, alea jacta est, e
depois? Cristo partiu o pão e deu-o a seus discípulos, dizendo que estaria com eles até
o final dos tempos. E depois? Napoleão garantiu que ainda não fora fundida a bala que
o mataria. O Titanic era insubmergível, boiaria sempre sobre os mares... e depois?
Nem adiantaria lamentar os idos de março, o vento castigando as pedras de Santa
Helena, muito menos chorar sobre os náufragos — todos os náufragos da história e da
lenda.
No cansaço de cada posse, ela ficava repetindo dentro de si mesma: “E depois?”
Às vezes, tinha a impressão de que Augusto fazia a mesma pergunta, sendo que, no
caso dele, haveria menos depois. Era com apreensão que ele prestava atenção ao
ritmo com que ela respirava. Avaliava o grau de prazer que lhe dera pelo ritmo do
depois, a mulher pode até fingir o orgasmo que não veio, impossível fingir o cansaço.
A pergunta que melhor se adequava àquele estágio que não era sono mas não
chegava a ser vigília era exatamente esta: E depois? E depois?
Como a chuva do lorde e do mordomo, cada um teria o seu depois. De olhos
fechados, o suor da posse secando em sua pele, Mona tinha um depois contra o qual
ele nada podia.
Se tivesse pensado com maior lucidez, ele teria adivinhado que o depois dele era a
cerca viva de pinheiros — pinheiros que ele esperara quinze anos para crescer —
fechando o horizonte. Tinha consciência de que, além dos pinheiros, havia alguma coisa
que não mais lhe importava.

Três dias depois que ela partira, no final da tarde, Augusto levantou-se da rede que
cortava em diagonal a varanda que acompanhava toda a frente da casa. A rede fora
exigência de Mona, ela gostava de ler ali, de ouvir música. Nas noites de verão, ela o
chamava e ficavam tão espremidos que terminavam na posse não programada,
gratuita, somente porque nada sabiam fazer de diferente quando estavam tão juntos.
Ao levantar da rede, Augusto sentiu o calafrio nas pernas. Como se tivesse tocado
numa tomada elétrica, o calafrio estendeu-se ao corpo inteiro. Não, não fazia tanto frio
assim, o inverno estava longe, em Itaipava os termômetros baixam no final de maio, em
junho faz frio, julho é o pique, o inverno profundo, o céu muito azul fazendo mais frio.
Não era o caso. Final de março, mesmo em Itaipava, ainda podia ser verão. Não
soprava aragem alguma. Por que o calafrio?
Foi ao salão, dirigiu-se ao canto onde havia o bar de vinhático com as bebidas que
ele gostava. Apanhou um conhaque, agora que estava sozinho podia beber pelo
gargalo, mas lembrou-se da cena com o filho. Quando estava embriagado ou drogado,
ele tinha pressa, nem procurava um copo, metia o gargalo na boca, bebia até perder a
respiração.
A lembrança obrigou-o a apanhar o copo. Despejou dois dedos de conhaque,
bebeu devagar, apreciando a ardência que lhe descia pela garganta. Foi instantâneo o
alívio. Nem pensou mais no calafrio. Devia ter sido a aragem repentina, vinda através
dos pinheiros.
O bem-estar que o conhaque lhe dera obrigou-o a uma segunda dose. Levantou o
copo para conferir se colocara a mesma quantidade da primeira. Tomou novo gole,
achou que fizera besteira em não ter bebido mais ao longo da vida, na verdade, só
bebera socialmente, raras vezes entregando-se, buscando o prazer que o conciliava
consigo mesmo. Ia tomando outro gole quando a pontada no braço direito obrigou-o a
passar o copo para a outra mão. Não adiantou: o copo caiu no chão.
A dor no braço fez com que ele se curvasse, como um feto. Tentou chamar
alguém, algum dos caseiros que moravam no anexo, no canto mais distante do jardim.
A voz ficou na garganta, que ardia tanto que ele não teve direito ao grito.

VI

Oteto era creme, as paredes eram creme, o chão estava revestido de placas em cor
amarelada que parecia creme. Uma caixa — nunca uma casa ou quarto — na qual tudo
era creme, menos o leito, branco, que se destacava como peça maior do complicado
labirinto de aparelhos que faziam um barulho suave mas irritante.
Na tela de pequenos monitores moviam-se pontos e linhas de luz, lacraias verdes e
trêmulas, números digitalizados apareciam e desapareciam, marcando as batidas do
coração, a temperatura do corpo, a pressão do sangue em suas veias adormecidas.
Augusto Richet sentia-se mais fatigado ao olhar aquele mundo creme, asséptico e
gelado, preferia se distrair com a ampola de plástico pendurada na haste também
creme, o fio também de plástico (ali, naquele mundo, tudo era “também”) onde o soro
escorria lentamente, penetrando gota a gota na artéria inchada de seu braço.
Pior do que o mundo creme, do que o ruído metálico dos aparelhos, era o tempo.
Tempo que não passava, se ele olhasse para o lado, veria o relógio redondo, ele
também creme — sempre o creme e sempre o também —, marcando com má vontade
um tempo que não passava. Ele se controlava para não olhar o relógio, só assim teria a
impressão de que o tempo andara. Não adiantava espaçar um olhar do outro,
imaginava que passara uma hora, olhava, o relógio andara cinco, dez minutos.
Eram esses os piores momentos daqueles dias e noites. Noites que eram iguais
aos dias, não havia diferença, o mundo estava sempre creme, a luz era sempre a
mesma, nem forte nem fraca, e o ruído dos aparelhos aumentava a eternidade do
tempo que não andava, cada minuto igual ao outro, como se fosse um único, um eterno
minuto.
Deveria estar satisfeito. Ele ainda podia perceber a eternidade dos minutos, ouvir o
barulhinho dos aparelhos, contemplar a imensidão creme de seu mundo: mais do que a
vida em si, isso representava consciência. Ver e ouvir eram sinais de que continuava
vivo.
Pela manhã, o médico o cumprimentara, examinara seus reflexos, seus músculos
comandavam os membros, tudo estava normal, o ataque que o tombara não deixaria
marcas, era só uma questão de tempo — um tempo eterno que não passava.
A parafernália eletrônica que o rodeava era apenas cautela, sinalização técnica de
que tudo estava bem, importava agora que ele repousasse, mais um dia ou dois e
voltaria para casa, tivera sorte, o coração reagira bem, as artérias estavam excelentes,
não precisaria de mais nada a não ser evitar emoções fortes, tensões.
No vazio que lhe sobrava do tempo imóvel, mesmo não querendo, acabava
lembrando os últimos instantes antes de ter perdido a consciência.
Três dias depois de Mona ter viajado para Milão, ele ficara na rede olhando os
pinheiros, sentira calafrios, procurou o bar num dos cantos do salão, bebeu um gole de
conhaque (sentia frio por dentro), gostou, quis tomar outra dose, sem sentir dor alguma
deu o grito que não chegou a ouvir, um grito que não era de dor, grito de espanto
porque nada sentia, nem o seu próprio gosto, o gosto daquela “coisa” que habitava o
seu corpo, a sua casa, o eu que morava dentro dele e que tinha um gosto, sim, o gosto
antigo e coerente de ser o habitante do corpo-casa que era ele.
Despertou no hospital. Apesar de adormecido pelos remédios, sentia que sua
casa-corpo voltara a ser habitada por ele, Augusto Richet, não, nada disso, Augusto
Richet era uma mistura imprecisa, um blended fabricado pelos outros, pelo Estado,
pelo Registro Civil, pela família, pelo mercado, quem habitava a casa-corpo era um “eu”
desconhecido — que agora teria pouco tempo para conhecer-se.
Viver é uma coisa. Ele não morrera, apenas isso. Tudo continuaria a ser o mesmo.
Mona em Milão — voltaria quando? E se não voltasse? Segredo em Itaipava, até certo
ponto devia a não-morte a Segredo, fora o cão que, ao vê-lo tombado, correra ao
anexo onde moravam os caseiros, latira e arranhara a porta até que estranharam e
foram ver o que poderia ter acontecido. Encontraram-no no chão, o copo partido, o
cheiro do conhaque derramado, chamaram a ambulância, não estava salvo, mas
continuaria vivo.
Augusto pensava em Segredo, sentia ternura por ele, era um pedaço de Mona
também, afinal, bem comum indisputável que possuíam, tudo era dela ou dele, somente
Segredo pertencia aos dois de igual modo.
Pensar em Mona não era pensar em Segredo, mas pensar em Segredo era um
pouco pensar nela. Onde estaria Mona? O que estaria fazendo? Até então, até ter
readquirido a consciência, Augusto não tinha qualquer dúvida de que ela voltaria. Ele
continuava detestando aquela viagem inesperada, estranhava a instantânea aceitação
por parte dela.
Devia encarar como normal a decisão dela, era uma profissional, seria um erro
alegar que não iria a Milão porque preferia ficar com ele. No ambiente em que viviam,
uma das regras não escritas proibia misturar vida pessoal com o trabalho. Não era uma
falta, era um crime. Nada de mais que viajasse, seriam duas ou três semanas, em
igualdade de situação, ele teria feito a mesma escolha.
Lembrava a intensidade dos calafrios ao sair da rede naquela tarde. Era o início de
uma dúvida, o embrião da certeza: ela não voltaria. Afinal, a Mona de 33 anos era a
mesma menina de 16 anos perdida nos corredores de um navio, numa rua de Nápoles,
que entre as ruínas de uma cidade morta pedira que ele a levasse e lhe contasse a
história do mundo.
A necessidade de abandonar uma realidade, mergulhando em outra, tivera
precedente. Conhecendo a história do mundo, tal como lhe fora contada, ela estava
pronta para fazer a escolha definitiva.
Augusto adivinhava que ela não voltaria. Contrariando o médico que pedira para
que relaxasse — ele sentia que a angústia de perdê-la, mais do que as lacraias verdes
e trêmulas na tela dos monitores, provava que ele vivia.

Não voltou logo para casa. Depois de três dias e três noites na unidade de terapia
intensiva, os médicos julgaram mais seguro mantê-lo num quarto comum, onde pudesse
andar, alimentar-se normalmente, atender telefonemas, receber visitas, voltar à vida
normal.
Como detestava telefone, pedira à enfermeira para anotar os recados, mais tarde
daria retorno. Recebeu telefonemas frios, formais, do pessoal da agência, de um ou
outro antigo cliente, há muito deixara o mercado, não fazia falta a ninguém.
Surpresa mesmo foi quando a porta do quarto se abriu e ele viu, parada, olhando
para ele, a mulher que custou a reconhecer. A enfermeira olhou a visitante, olhou para
ele, aguardando uma ordem.
— Sônia?
A pergunta foi feita em tom de dúvida. Augusto não via a ex-mulher há vários anos,
no velório e no enterro de Otávio nem reparara nela, lembrava apenas que Mona havia
comentado alguma coisa sobre a vergonha de cada um.
A enfermeira percebeu que Augusto desejava receber a visitante, levantou-se, fez o
gesto para que Sônia entrasse e saiu do quarto, deixando a porta encostada.
Sônia aproximou-se do leito:
— Você está bem?
Colocou a mão em cima do peito de Augusto. Ele segurou aquela mão e a apertou,
não com carinho, mas com gratidão. Era o primeiro contato físico com a memória de
seu mundo.
Sônia olhou em volta, como se procurasse alguém:
— Onde está Mona?
Augusto parecia esgotado. Na porta do quarto, o aviso do médico pedia que não
cansassem o doente. Apesar disso, sentiu
curioso bem-estar ao responder:
— Está viajando...
Houve o silêncio em que os dois se olharam. Sônia estava envelhecida, mas os
olhos ainda eram os mesmos. Haveria muita coisa para lembrar, o casamento de dez
anos, bem menos do que a sua relação com Mona. Com Sônia também viajara o
mundo, e se houvera momentos escuros, houvera claridades. Tirante os últimos
tempos, eles podiam não ter sido mas pensavam que eram felizes.
Não era isso que havia no olhar dela e na memória dele. Se Mona era
impenetrável, Sônia era transparente demais para o gosto dele.
Com a brutalidade que Augusto reprovava nela, desabafou:
— Depois de Otávio, eu não quero ficar sozinha!
Augusto poderia argumentar que ela não estava sozinha. Com ele ou sem ele, nada
se alteraria na vida dela. Afinal, estavam separados havia mais de vinte anos e pouco
se viam, pouco sabiam da vida de um e de outro.
O nome de Otávio ali lançado era o código, o acesso que trazia para o quarto
creme e pasteurizado uma carga de culpa, mais culpa do que dor.
Como resposta, Augusto apertou novamente a mão de Sônia. Que ficasse
tranqüila. Esforçou-se para ser gentil. Ao falar em Otávio, mesmo sem querer, a ex-
mulher tornava hostil a visita que, no início, parecia cordial.
Olhou-a com pena. Era a mesma Sônia, a Sônia de sempre que estragava tudo
com a incapacidade de entendê-lo.
Até que ponto ele fora capaz de entendê-la?
Controlou-se para não demonstrar irritação. Olhou para cima de sua cabeceira,
onde havia o botão que chamava a enfermeira. Sônia percebeu e ela própria tocou o
botão. A enfermeira entrou e bastou olhar os dois para saber o que devia fazer:
— A senhora me desculpe, o médico recomendou que não se cansasse o
paciente... as visitas não estão proibidas, mas devem ser breves...
Sônia fez que sim, com a cabeça. Perguntou se Augusto demoraria no hospital.
— Deve ter alta no fim da semana... está tudo bem... ele agora vai tomar
cuidado...
Ela procurou novamente a mão de Augusto:
— Mona vai demorar?
— Não... mais uns dias. Quando eu for para casa, ela deverá estar de volta...
— Se precisar de alguma coisa que eu possa...
Desta vez foi Augusto que apertou a mão dela. Apesar da desastrada lembrança
de Otávio, ela estava sendo gentil e procurava ser solidária. Olhou-a com carinho.
— Obrigado, Sônia.
Ia beijar-lhe a mão, mas ela, surpreendentemente, se antecipou e beijou a sua.
— Se cuida, Augusto.
A enfermeira acompanhou-a até a porta, Sônia se voltou, olhou mais uma vez
Augusto, acenou lentamente com a mão, Augusto respondeu ao aceno, procurando
sorrir. Sabia mais uma vez que ainda não era o fim.
Era, mais uma vez, o abandono.

VII

No final do ano recebeu o telegrama. Pensou que fosse de Mona, era da agência.
Solicitava seu comparecimento para uma reunião na semana seguinte. Assunto: a
incorporação da agência a uma multinacional que pretendia entrar no mercado. O
telegrama comunicava que a presença dele era “indispensável”.
Fazia mais de dois anos que Augusto não punha os pés na agência. Recebia os
relatórios mensais e, eventualmente, um contínuo subia a Itaipava com os livros da
contabilidade que ele assinava, sem examiná-los. Importava apenas que todos os
meses os bancos lhe remetiam o aviso dos depósitos feitos em seu nome —
bastava.
Como não lia mais os jornais, e jogava fora os boletins comerciais que lhe
remetiam, estava desatualizado. Considerava isso uma vitória. Com a ida de Mona à
reunião em Milão, ele chegava a amaldiçoar o ofício ao qual se dedicara durante anos
e que lhe dera, se não fortuna, ao menos uma situação confortável.
Logo depois da viagem de Mona, um jornalista o entrevistara por telefone, a
editoria de negócios do jornal paulista fazia uma enquete sobre marketing e publicidade,
pelos anos de estrada seu nome foi arrolado entre os que podiam fazer uma análise
das últimas transformações no mercado em confronto com os tempos pioneiros. Para
todos os efeitos, ele era considerado um pioneiro.
O que disse não foi publicado. Classificou a publicidade como “a mentira oficial de
um mundo mentiroso” e o marketing como “o cafetão do cabotinismo pessoal e da
vaidade empresarial”. Em sua opinião, de dez estrelas de Hollywood, a única que valia
alguma coisa era aquela que não usava o sabonete utilizado pelas nove restantes.
Com mais enfado do que aborrecimento, vestiu o uniforme protocolar (terno e
gravata) e desceu ao Rio. Segredo levou-o ao carro, estranhando que o dono viajasse
sem ele. Augusto fez um carinho na cabeça do cão — e lembrando-se que Mona, ao
partir, evitara fazer carinho igual, avisou:
— Eu volto.
A reunião era mesmo importante. Sentados na mesa raramente usada — a maior
do escritório, a mais solene —, os diretores, os contadores, os advogados e os
executivos mais importantes. Formalmente, Augusto foi bem recebido. Afinal, era um
pioneiro. E, além do mais, detinha 49% das ações. Não conhecia pessoalmente os
diretores mais jovens, sentia neles uma curiosidade que o lisonjeava.
Já fazia um ano que Mona viajara e ninguém perguntou por ela. Desligara-se da
agência, negociara uma indenização razoável e tratava da própria vida em Milão. Volta
e meia escrevia para algum amigo e dava a impressão de que, embora separada de
Augusto, com ele mantinha relações de afeto.
Em meia hora de reunião Augusto entendeu por que a presença dele era
“indispensável”. A agência tivera dois exercícios negativos, com prejuízos que afetaram
o capital da firma. As dívidas subiram matematicamente com a inflação e
geometricamente com os juros. As ações de Augusto estavam hipotecadas, na
realidade perdidas, deveriam ser vendidas.
Ele olhou com surpresa o advogado que detinha sua procuração, cobrando-lhe a
falta de informações. O advogado abaixou a cabeça.
— Bem, está tudo perdido? — perguntou ele.
— Não. A solução da venda foi transformada numa associação com a
multinacional, evidente que o patrimônio acionário será remanejado, você ficará sem
nenhuma ação, mas terá garantida, na própria escritura da encampação, uma retirada
mensal de 10 mil dólares. E você teve uma vantagem suplementar: alguns acionistas
que compunham a diretoria, na hora do sufoco, para salvar o que fosse possível,
tiveram de hipotecar ou vender bens pessoais... ficamos sem caixa, tentamos a
concordata, mas isso arrebentaria com a nossa imagem — e somos profisissionais da
imagem —, houve duas ou três ameaças de credores, estaríamos liquidados se um
deles pedisse nossa falência... para evitar isso, tivemos de tapar buracos em cima da
hora, apagar incêndios... você foi poupado... ninguém pensou em pedir que você
entrasse com uma cota pessoal... seu apartamento no Rio... sua casa em Itaipava... só
perdeu mesmo as ações... dentro do desastre, achamos que você até que se saiu
bem...
A reunião demorou pouco, logo o livro de atas e as novas escrituras passaram pela
mesa, Augusto assinou mecanicamente, prometeram-lhe enviar cópias das escrituras
que formariam a nova agência. Um dos novos diretores fez questão de mostrar para
ele a cláusula que garantia ao ex-sócio Augusto Richet a retirada mensal de 10 mil
dólares “enquanto vivo fosse”.
Ignorou o advogado que fora seu procurador. De duas, uma: ou o acusava de
improbidade ou dava-lhe um soco na cara. Seria ridículo, na sua idade, partir para uma
luta corporal. Nem era caso. Achou melhor desdenhá-lo. A um outro sócio, dos mais
antigos e com quem eventualmente se relacionava, perguntou se podia arranjar-lhe um
novo advogado, fora da agência, que cuidasse de seus negócios.
Meio sem jeito, confessou:
— E preciso também refazer o testamento... depois de tudo isso... e tenho Mona
que continua casada comigo...
— Mas ela já casou outra vez! — disse o sócio.
— Tem certeza?
— Estive em Milão no mês passado... almoçamos juntos na Mondadori...
Tentou esconder a estupefação, mas foi inútil. Teve de admitir:
— O último a saber... como sempre...
O sócio percebeu que o constrangera.
— Bem... acredito que ela não tenha casado oficialmente...
— Evidente, ela não pediu separação... tanto na Itália como no Brasil, o divórcio é
lei recente, ela não faria a burrice de cometer uma bigamia... só casei com ela depois
de quase quinze anos... ela pode esperar outros quinze anos... eu esperei...
Achou idiotice continuar dando explicações. Nem havia o que explicar. Há 18 anos,
depois de um cruzeiro pelo Mediterrâneo, Mona mandara tudo para o espaço e se unira
a ele, deixando-o responsável pelo risco de levar pelo mundo uma adolescente. Fora
perfeita por instinto. Teria agora mais experiência em repetir a fuga.
Não ficaria surpreendido se soubesse que, mais uma vez, ela encontrara alguém
para servir de cúmplice. Inclusive para continuar contando a história de um mundo que
não era mais dele. Somente um ponto mantinha intacto o seu orgulho: “Podem lhe
contar mais, não contarão tanto!” Havia também uma variante: “Quem a levaria ao
pórtico da casa de um poeta trágico?”
Era uma boa pergunta, cuja resposta nada tinha a ver com ele.
Tinha pressa, isso sim, em voltar para Itaipava. Apertou a mão do recente ex-
sócio, que lhe prometeu arranjar um novo advogado. Que Augusto preparasse a minuta
com as alterações que desejava fazer no testamento, em uma semana estaria tudo
resolvido.
Despediu-se com um aceno geral, dando a entender que a decisão tomada não lhe
agradara, mas também não iria abrir as veias em sinal de protesto ou desespero.
Incluiu nesse aceno o advogado que funcionara até então como seu procurador, o qual,
temendo ser interpelado, afastara-se do grupo, colocando-se junto à porta de serviço.
A Augusto bastou a maneira com que o olhou. Legalmente, poderia abrir uma ação
contra ele. Preferiu nada fazer. Sentia-se cansado para enfrentar uma briga judicial.
Além do mais, achava um desperdício gastar o tempo que lhe restava numa demanda
vulgar, cujo lucro — se houvesse — demoraria anos.
Ao dirigir-se para o hall dos elevadores, encontrou outro ex-sócio, mais ou menos
na mesma situação, integrara com suas ações a maioria acionária responsável pela
gestão fracassada. Augusto apertou o botão do elevador, o outro avisou que já
apertara antes. Para dizer alguma coisa, tentou ser amável:
— Lamento o que houve... não tive culpa de nada... também perdi tudo... só fiquei
com algumas ações da nova agência...
— Com quantos anos você está? — Augusto forçou o tom jovial para compensar a
brutalidade da pergunta.
— Cinqüenta e três — respondeu o outro. — Já estou mesmo na idade de parar...
— Nada disso! — Augusto se surpreendia com a repentina loquacidade, agora que
acabara a reunião na qual fora indispensável, mas que determinara a sua
dispensabilidade. E, de quebra, ficara sabendo que Mona não voltaria mais. Sentia-se
falido e traído. Teria tempo para pensar em tudo, agora continuava falando, não mais
forçando a jovialidade, mas tornando-a natural.
Segurou no braço dele, afetuosamente:
— Com a sua idade, eu estava a mil...
O outro retribuiu:
— Você era uma fera...
— Talvez... mas, veja, estou na idade em que os cardeais costumam ser eleitos
papa... e levo um chute desses... bem, podia ser avisado, pelo menos isso... uma
consideração...
— Você ainda salvou os dedos... eu votei a favor... houve alguns que eram contra
essa retirada, diziam que você fora poupado no arresto dos bens... ficou com o
apartamento do Rio e a casa em Itaipava... e mais 10 mil dólares todos os meses para
o resto da vida... não vai ficar embaixo da ponte...
Augusto se espantou da idéia que lhe veio:
— Vou vender o apartamento... se conhecer alguém interessado, dou-lhe a
comissão...
O elevador chegara. Havia mais pessoas em volta. Augusto voltou ao silêncio. No
andar térreo, dirigiu-se ao estacionamento dos diretores. O manobreiro, que não o via
há muito tempo, puxou conversa, Augusto abriu a carteira, deu-lhe um dinheiro.
— Tchau, Jacaré.
— Apareça, doutor! Tem andado sumido!
Já ligara o motor quando teve uma idéia:
— Você gostaria de ter um cachorro? Cuidaria bem dele?
Jacaré estranhou a pergunta:
— Gostar, gostaria, doutor. Já tive um, vira-lata mesmo, um vizinho deu bola...
comida envenenada... minha mulher jurou nunca mais... é fácil matar, doutor...
“É fácil morrer!”, pensou Augusto.

O escrivão fechou o livro do cartório.


— Tudo bem, eu arranjo as duas testemunhas com o tabelião.
O advogado que lhe fora indicado fez o gesto de que tudo estava bem e terminado.
— Telefonarei amanhã para Milão, falarei com sua mulher...
— Não é mais minha mulher... seria melhor mandar uma cópia para ela...
— De jeito algum! Não faz sentido que outra pessoa tenha cópia de um documento
tão especial... tão particular... basta que eu lhe dê um telefonema... ou mande um
telegrama... ela só precisa tomar conhecimento de sua nova situação... e de que o seu
testamento foi alterado...
— Bem, faça o que for melhor, e que seja legal... aquele apartamento que comprei
para ela... até agora paguei os impostos, o condomínio, os extras... ela nunca o usou
nem o alugou... precisa ser avisada para assumir o que é dela...
— Farei isso amanhã. Primeiro telefonarei, depois mandarei uma carta detalhando
o que precisa fazer... ela nem precisa vir ao Brasil, pode dar a procuração no
Consulado em Milão...
Os dois se despediam, Augusto acompanhou-os até a varanda.
— E quanto a dona Sônia? Deseja que eu a comunique logo?
— Não. Por ora, não. Do contrário, ela vai atrapalhar a venda do apartamento de
Ipanema que deixo para ela. Coloque o dinheiro em ações na Bolsa, me consulte antes,
estou meio por fora, mas posso tomar informações, não quero muita rentabilidade, vou
jogar na segurança... depois, sim, avise que deixo o apartamento e a casa... é tudo o
que me resta... deixo tudo para ela.
Segredo estava ao lado. Sempre ia atrás do dono, recebia e levava as visitas.
Augusto tinha a mão no pescoço dele:
— Menos isso aqui...
O advogado pareceu aprovar.
— Eu tive um pastor... foi envenenado por um vizinho...
Augusto lembrou o manobreiro do prédio da agência.
— Em poucos dias, é o segundo caso que me contam... como é que se envenena
um cão?
— Como se envenena qualquer pessoa... um pouco de veneno na comida ou na
bebida...
Augusto acariciava a cabeça de Segredo. O advogado estranhou:
— Não vai me dizer que pretende sacrificar...
— Muito dono, quando sente o fim próximo, manda sacrificar o cão... eu entendo
por que... Hitler fez isso, matou ou mandou matar a sua cadela. Não é exemplo que se
cite, mas é uma idéia... passe bem, doutor, sim, sim, telefone para Milão e...
Levou o advogado até o portão do jardim. Adivinhando que haviam falado nele,
Segredo ficou perto do dono, encostado às suas pernas, Augusto sentia orgulho de ter
o cão roçando seus joelhos.
— Não tenho nada contra os setters — disse o advogado —, mas para tomar
conta de casa assim, piscina, gramado, jardins, um pastor seria mais apropriado...
— Não preciso. Não preciso que ele tome conta da casa. O importante é que tome
conta de mim.
VIII

Soprou a aragem fria, vinda da cerca viva formada pelos pinheiros que agora, com
a noite sem estrelas, era apenas adivinhada. Como as ruínas de Pompéia, quando a
tarde caíra e tudo sumira na muralha escura que abrigaria a primeira noite que
passariam juntos.
A casa estava em silêncio, silêncio pesado, que não levava ao sono. Mona e
Augusto continuavam na varanda, pareciam ter desistido de dormir e conversar.
Ela saíra do quarto. Ele nem fora deitar. Já haviam dito todas as palavras, as
necessárias e as supérfluas. Cada qual sentiu que o silêncio seria a última oportunidade
de estarem juntos. Quando clareasse, Mona iria embora. Voltaria para Milão mais forte
do que antes, sabendo que dera a Augusto e a si mesma a chance de um clarão que
não houvera.
Augusto percebia isso. Ela não teria vindo apenas para tomar conhecimento do que
já sabia. Olhando-a na varanda, tantos anos passados, ele se lembrou da ida a
Pompéia, mostrou-lhe a Casa do Poeta Trágico, pensou que ela não dera importância,
no entanto sumira de repente, ele a procurara e foi encontrá-la sozinha, espiando pela
grade o mosaico do cão. Espiando só isso ou alguma coisa mais?
Ela repetira, de alguma forma, em diversas ocasiões, aquele “olhar mais uma vez”.
Fazia isso para ter certeza do que via ou sabia? Era uma forma de se despedir ou de
voltar?
Não mais havia amargura entre os dois, mas também não havia amizade. Mona
tinha agora a vida articulada, Augusto tinha a experiência destroçada. Na sala de
espera do cinema, Mona sabia que o mundo ainda tinha uma história para ser contada
— Augusto queimara as pupilas, desanimara de dar, nada tinha a receber.
No silêncio da noite sem estrelas, eram duas sombras, e só não eram espectros
porque Augusto sabia que ela ainda estava ali, e isso o redimia, ele deixava de ser um
espectro, ele era alguém, Augusto Richet, que aceitara seqüestrar uma menina e com
ela repartira uma aventura, com ela tornara o seu mundo mais vivo e perdoável.
Sabendo que já a perdera, que tão logo amanhecesse a perderia mais uma vez, e para
sempre, ele esgotava a capacidade de merecer o perdão. Era o que estava sendo: o
homem terminal, o homem finito nos dois sentidos: findo e acabado.
No silêncio da noite sem estrelas... Dans le vieux parc solitaire et glacé, deux
formes ont tout à l’heure passé (era um poema de Verlaine que ele ensinara a Mona),
duas sombras esperavam o tempo passar sabendo que o presente já era passado — e
se isso os juntava, também os separava.
— Está cansado? — perguntou Mona quando julgou ter ouvido um pequeno
gemido.
— Não. Não estou cansado.
Mona descobriu que o gemido fora um suspiro de Segredo. O cão dormia
solidamente, entre os dois, na segurança de tê-los ali, sentindo-lhes o cheiro de donos.
— Foi Segredo... ele deve estar sonhando... não sei por quê, acho que os cães,
quando sonham, têm sempre sonhos bonitos...
Augusto tateou com a mão até encontrar a cabeça de Segredo.
— Sim... ele está tendo sonhos bonitos...
— Por que não vai dormir também? Talvez tenha sonhos bonitos...
— Com você aqui, estou tendo um sonho bonito...
Era a primeira coisa gentil que viera de Augusto desde que ela chegara, na
véspera. Imaginando que seria mais confortável para ele estar deitado, sugeriu:
— Se quiser deitar, eu vou com você... fico a seu lado...
Augusto demorou a responder. Aliás, nem respondeu. Movimentou a cadeira de
rodas em direção ao interior da casa. Mona levantou-se para ajudá-lo, embora achasse
ridículo aquele cerimonial, ele bem que podia andar, a cadeira era a muleta simbólica
que Augusto adotara para justificar o início do fim.
— Não, por favor... deixe eu ir sozinho... tudo, menos isso...
Mona seguiu ao lado da cadeira. Lembrava-se de uma das poucas amigas da
infância, uma menina que todos os dias ia à pracinha da cidade do interior onde sabia
que uma mulher aleijada vinha descansar num banco. A mulher sentava e colocava as
muletas ao lado, a menina pedia licença para usar as muletas. A mulher não entendia o
pedido da menina, não dizia nada. Então, a menina apanhava as muletas, concentrava-
se, apoiava-se nelas e ficava andando pela pracinha. Era uma forma de sentir pena da
mulher aleijada e, ao mesmo tempo, sentir pena de si própria.
Mona quase ia contando essa história para Augusto. Ou talvez já a tivesse contado
— não lembrava mais. Em todo caso, a lembrança não era gratuita. Ela achava que
Augusto era um pouco a menina que andava de muletas, não para inspirar pena — ele
não era disso —, desprezava a opinião dos outros. Era para ter pena de si mesmo.
Mal entrou no quarto, ele abandonou a cadeira. Sentou-se no leito, ficou indeciso
se apanhava o pijama que estava sobre os travesseiros. Perguntou como se a
mandasse embora:
— Você vai ficar?
— Sim... vou ficar com você... quando amanhecer, irei embora...
— Não vai querer dormir? O tempo custa a passar...
— Não tenho pressa...
Depois de um silêncio em que ficou embaraçado, e no tom de voz que usava para
acentuar a caricatura de sua própria ironia, ele recitou:
Dans le vieux parc solitaire et glacé,
deux spectres ont evoqué le passé...

Mona respondeu como a aluna aplicada que sempre fora:


— Paul Verlaine, Colóquio Sentimental.
E no tom da menina que praticou boa ação:
— Você acha Verlaine um poeta trágico?
Augusto pegou o pijama sem saber o que fazer com ele.
— Que importância tem isso agora?
Mona apontou para a mão de Augusto:
— Vista o pijama... você não gosta de dormir nu nem com a roupa do dia...
E imaginando que ele tivesse alguma dificuldade:
— Precisa de ajuda?
— Às vezes, sim... quando estou pior... mas hoje estou bem...
Apanhou o pijama e dirigiu-se ao banheiro. Mona aproveitou e arrumou um
travesseiro para apoiar as costas. Ficou semideitada na cama que já fora dela.
Augusto abriu a porta do banheiro. Curiosamente, com o pijama ficara mais jovem, o
corpo não de todo estragado, vertical. Ele se surpreendeu ao ver Mona reclinada em
sua cama, ocupando o mesmo espaço de antigamente.
— Apago a luz?
— Como quiser — respondeu Mona.
Deitou-se ao lado dela, tomando cuidado para se manter distante. Preferiu não
apagar a luz.
— Veja quem está vindo... — disse, com orgulho.
Segredo aproveitara a saída dos dois da varanda, dera um pulo ao seu território no
jardim e voltava para continuar dormindo ao lado do dono — ou dos donos —, afinal,
eles estavam ali, novamente juntos. Estirou-se no chão, ao lado de Augusto.
Houve um silêncio em que homem, mulher e cão pensaram: “É como antigamente!”
Continuar no silêncio era perigoso.
Augusto insistiu:
— Não vai mesmo dormir? Falta muito para o amanhecer...
— Estou bem assim... fique tranqüilo...
— Estou tranqüilo — disse ele.
E para provar que estava tranqüilo, virou-se para o lado contrário, dando-lhe as
costas. Mona então olhou-o à vontade. Reparou o cabelo crescido, formando cachos
na nuca.
— Quem anda cortando o seu cabelo?
— Você já perguntou isso — disse Augusto depois de uma pausa.
— Não, não perguntei. Tive apenas a vontade de perguntar.
— Então foi isso. Você olhou de tal forma para a minha cabeça... eu percebi que
precisava aparar... no fundo, você continua a mesma...
— E eu continuo sem resposta. Quem anda cortando o seu cabelo?
— Qualquer um... o massagista... Erika... não é importante...
— Você tem uma tesoura?
Augusto custou a responder.
— A essa hora? Amanhã peço para alguém cortar...
— Onde tem tesoura? No banheiro?
— Sim... na gaveta de cima...
Mona foi apanhar a tesoura, voltou com um pente e a toalha de banho. Repetindo
um rito antigo, Augusto sentou-se à beira da cama. Atrás dele, ajoelhada, Mona
enrolou-o na toalha, sabia que ele detestava fios de cabelo junto à pele, precisava
tomar cuidado para que nenhum deles caísse para dentro do pijama ou em cima do
lençol.
Durante cinco minutos concentrou-se em aparar as pontas que formavam os
cachos sobre a nuca. Com o pente, alinhou os fios mais longos, sabia que não podia
cortar demais.
— Quer um espelho? — perguntou.
— Não precisa... sei que está bom...
Ele ainda pensou: “O que é que está bom agora?”
— Bem, eu também acho que ficou ótimo...
Ela retirou a toalha e ficou satisfeita ao ver que nenhum fio caíra na cama ou no
corpo dele. Foi ao banheiro sacudir e guardar a toalha. Olhou-se rapidamente no
espelho. Nenhum vestígio de cansaço, nenhum embaciamento nos olhos. Pelo
contrário, os olhos brilhavam. Teve a coragem de admitir:
“Estou morrendo de desejo por ele!”
Voltou para o quarto. Augusto já deitara outra vez. Com a mão, alisava a cabeça
de Segredo que dormia e, naquela noite, tinha motivos para ter sonhos bonitos.
Mona apagou a luz e sentou-se na cama, apoiando as costas num dos
travesseiros.
No escuro, ela continuava sentindo nas mãos a cabeça de Augusto. Tão forte essa
sensação, a de estar sentindo a cabeça dele, que já não fazia sentido manter a
impressão. Virou-se e teve Augusto outra vez nas mãos.
— Está dormindo?
— Você sabe que não estou dormindo — respondeu Augusto.
Mona só precisou colocar a perna em cima dele para tê-lo preso a seu corpo e
puxá-lo. E foi como na primeira vez, no gramado de uma cidade sepultada viva, quando
ele a possuiu pensando que ela dormia.
— Você está sentindo? — perguntou ela, apesar da evidência.
Tirara do corpo apenas o necessário. E como a iniciativa fora dela, fez Augusto
penetrá-la.
Surpreendeu-se:
— Você... sempre o mesmo...
Ele apenas gemeu, um gemido triste, pior do que triste, resignado. Apesar disso,
Mona sentiu uma espécie de triunfo ao saber que ele gozava nela. Triunfo que
perturbou toda a sua carne e explodiu como uma estrela despedaçada.

Quando acordou, ainda estava semideitada, colada ao corpo dele. A primeira sensação
foi desagradável. Afinal, fora vencida, ela, que sempre vencera.
Ele, não. Mantivera-se íntegro, fiel, coerente com a sua solidão. Nada fizera para
possuí-la, não abrira nenhuma brecha em sua fortaleza feita pela fraqueza do fim.
Percebeu que Augusto dormia e logo readquiriu confiança nela mesma. Por que
não?
Viera vê-lo uma última vez e seria um desperdício perdê-lo sem aquela última
posse. Até certo ponto, era uma prova de que, mesmo abandonado, ele a amava. E a
amaria sempre, ainda que o sempre fosse breve.
Levantou-se com cuidado, evitando despertá-lo. Quando Augusto acordasse, ela já
estaria longe. Passaria no advogado, assinaria a procuração, pegaria o vôo da Alitalia
à noite, no dia seguinte, à tarde, estaria em Milão. Sim, fora uma despedida e tanto —
ela que nem se despedira dele quando havia três anos o deixara.
“Sim, valeu a pena! Agora posso deixá-lo para sempre!”
Segredo percebeu que ela acordara. Levantou a cabeça, olhou Mona, olhou o
dono, que continuava no sono. Voltou a dormir.
Antes de deixar o quarto, Mona quis ter a certeza de que Augusto não estava
acordado. Não gostaria de se despedir dele com palavras, nem mesmo com um gesto.
Melhor que ele dormisse. Quando acordasse, pensaria que tivera um sonho bonito.
Como Segredo.
Augusto era cheio de truques. Talvez não estivesse dormindo. Tal como ela, queria
evitar qualquer palavra, olhar ou gesto que quebrassem o encanto. Admitia mais uma
vez que ele sabia ser glorioso. Não fraquejara. Soberbo, a vencera, mesmo derrotado.
Sim, ele estava dormindo. Profundamente, como se dorme depois do amor.
Profundamente, como dormem os vencedores depois da batalha. Profundamente, como
dormem os mortos.

Foi ao quarto onde deixara a maleta. Arrumou-se, olhou o rosto no espelho, não
parecia ter passado a maior parte da noite em claro. Sentia-se descansada, serena,
fizera o que desejava, tomara a iniciativa, manobrara todos os nervos, os dele e os
seus, sem nada deixar para futuro e inútil arrependimento.
Ao passar pela copa, a empregada acabava de colocar a mesa para a primeira
refeição do dia.
Mona aceitou um café.
— Que horas ele costuma levantar? — perguntou.
A empregada disse que Augusto levantava cedo, estranhava não ter ainda pedido o
café.
— Ele foi dormir tarde — informou Mona. — Ficamos conversando...
E para se despedir:
— Cuide bem dele...
Apanhou a maleta, dirigiu-se ao jardim. Percebeu que Segredo vinha correndo
atrás dela. Mona pensou que ele desejava um gesto, um carinho, de qualquer forma,
uma despedida.
O cão continuou correndo. Ultrapassou-a. Parou junto à porta do carro.
Ficou esperando por ela.
Mona estranhou. Não era o mesmo Segredo. Não a olhava como antes e sempre.
Tinha um olhar que, sabendo tudo, a denunciava.
Tentou reconquistá-lo. Segredo continuava impedindo que ela se aproximasse.
Mona ia perdendo a paciência, fazer o que nunca fizera, gritar com o cão que também
a amara.
Não foi preciso.
Por um instante, os dois se olharam.
De repente, cabeça baixa, Segredo afastou-se.
Mona abriu a porta do carro, ligou o motor.
Fez a pequena manobra com cuidado, temendo que Segredo — tão estranho —
avançasse.
Ele se afastou mais ainda, deixando-a partir. Ficou parado junto ao portão,
olhando-a.
Mona acabou a manobra e atingiu o caminho de terra que levava ao asfalto da
estrada principal.
Parou um instante.
O carro rateava, o motor ainda estava frio. Esperou que esquentasse.
Olhou então uma última vez para trás.
E viu o cão e a casa.
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