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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREIVIOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt, osb
(in mamoriam)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-LINE
Diz sao Pedro que devemos
eSlar preparados para dar a razão da
nossa esperança a todo aquele que no-Ia
pedir (1 Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa Ié
hoje .ti mais premente do que outrora.
., .... visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias ê. fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crença católica medianle um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste slte Pergunte e
Responderemos propOe BOS seus leitores:
aborda questões da atualidade
conlrovenldas, elucidando-as do ponto de
vista cristão a fim de que as dúvidas se
.' dissipem e a vivência calólica se fortaleça
-1 ... no Brasil e no mundo, Queira Deus
abençoar este Ifabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de Julho de 2003.
Po. Esfflvlo sellfMCOUrt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATlS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estev40 Bettencoun e


passamos a disponibilizar neSla área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos que conta com mais de 40 anos de pubUcaçAo.
M
,

A d. Estêvão Bettencourt agradecemos a confiaça


depositada em nosso trabalho, bem cemo pela generosidade 8
zelo pastoral assim demonstrados.

ANO XI _ . N~ 126 JUNHO DE 1970
fNDICE

Ao RefllMn.!e D,ci.iulI ........ •• •...••... •. . ..•.. ..•..... 23$

L DROOAS E !IISTICA

1) " P od.rio", tI.II droqflol 011 • • n.blciI'\6,rno, vn,rorcionpr


CIO' Iiom"" ol!tintiea t:tp,rilncia mlatie", , 11 ,mtrada 710
10110
710mbO ttrl.h 1" ...........•..... . ' . . . . . . . .. .. . .. . .. . .. . .. . . !3.5

IL SERA 1'1ESnlO?

3) "A .~idirlcia do .,urga!6rio t d, 141


Ndo te deveria p.,rifictw o cláuico cone.ito d. lJUf'ga t6rio 1
Ê (I diuf"iro qlu u iva 11' alm4!l dlJ 1'1110416';0 ,.. ... .• .. .. !,J.s

111. NA. ERA DA ASTRONAUTICA


-,
, .(. ) .. 'Ef'tIm o. dll. d .. IIJItrolltud,"" U m lio, o qu. IIf11pol oo ,
110110 7w(.Ivocar relloluçtio tall-to 710 ,,1111'10 6/1. cl'bIcill tomo n4 da
Religião.
Qu. dit:1r dos ",idJrio. apoll.ttulotf lltlo GIL/or 7" . . .. ... •... !57

IV. V'I DESAFIO

5J .. 'O Oruto rec"NI:ificodo' . . . ROlllllnc. d. Ni1.w~ Kazan tza·


kia, /1'11 dUllfill OI cri.tã.o •. Ao bob~o 11 mh'eits I " .' . .. . .. .. .. . . f ó5

RESENHA DE LiVROS ......•....•..• .. . " 000 . . 0 . 0 . . . ' 1'75

COI\! ArnOVAçAO ECI.ESII\STICA


A REALIDADE DECISIVA
Divulgou-se recentemente entre nós uma bela oração es-
crita de próprio punho pelo falecido senador Robert Kennedy,
dos EE.UU. - Essa prece, recitada dlàriamente pelo grande
homem público, foi encontrada no bolso do seu paletó por oca-
sião do seu assassinato.
Sem dúvida, merece atenção:
«Em tuas mãos, 6 Deus, eu me abandono. Vi.r& e l\evlra
esta argila, CC'mo O' barro na mão do oleJ.ro.. Dá-lhe forma. e
depois, se quiseres, esmigaJha..a. como se -esmigalhou ao vida. de
João, meu Irmão.
Manck, ordena. Que queres que eu faça.? Que queres que
eu '.?
Elogiado n humilhado, peneguldo, Incompreendido e calu-
niado, aonsolado, sofredor, inútil para .tudo, não me resta senão
dizer ti. exemplo de tua !\orae: Faça.-s.e em mim segundo & tua
palavn.
Dá.-me o amor pN' exoelência, o amor da Cruz; JIlB8 não
da cruz heróica que poderia nutrir 'O amor próprio; mas o da
cruz vulgar, que carrago oom repuguãncla., oaquela que 50
encontra cada dia na. contradição, no esquecimento, no insu-
cesso, 110' falsos juizos, na frieza.. naS I\eCU8BS fi DOS desprezos
dos outros, DCO mal-estar e DOS defeitos do corpo, nas treV8.'io
da mente e na aridez, no 'Silêllcio do cora.ç.ã.o. - Então Mmente
Tu saberás que Te amo, embora eu mesmo nada saiba. Mas
ISTO BASTA•.
Tais dizeres sugerem algumas reflexões.
Fazem-nos penetrar no íntimo de um homem cuja carreIra
foi brilhante, mas que, nem por isto, deixou de conhecer a
angústia e a tritura~ã"() da vida cotidiana; sentiu~se «humIlhado,
incompreendJdo, inútil para tudo... A cruz é realmente o qui-
nhão mais seguro na existência de todo homem de ideal,
mesmo dos que mais afagados parecem; é a cruz que, em
grande parte, zondiciona o crescimento do homem.
E Que sugere a fé em ~ Qças!6es de dor?
- O abandono tà vontade do Pa i. 1:: mediante o sofrjmento
que .rue, o Divino Oleiro, purifica a argila de suas criaturas. a
fim de as tornar mais belas. •
Abandonar-se à vontade de Deus nas horas amargas é
nobre, sem dúvida, mas não é fácil. A natureza. nem sempre
aceita os designios de Deus.

- 233-
Então qUe fazer?
Pedir a Deus, queira dar à sua criatura o amor, ... o
amor à própria cruz. «Sofre alguém entre nós ? - Que éle
reze» (TIaeo 5,13). Pode-se dizer, sem receio de errar, Que a
oração é o principio de solução de todos os problemas do
homem. A oração é também o recurso permanente do cri&-
tão .. . E recurso fiell! Sim; para orar, não é necessário esteja
o cristão na amizade de Deus; pode estar atolado na fossa e í
deprimido pelo pecado; basta que se coloque na atitude de
mendigo de Deus. Orar também não requer necessària.mente
cabeça «fresca.. ou saúde bem disposta; mesmo quando can-
sado e incapacitado de concatenar idéias, pode o cristão colo-
,
I

car-se na presença de Deus e oferecer-lhe as suas expectativas ,


e o seu amor. . . ou, ao menos, o seu desejD de ema.r o Sumo
Bem. Desejar amar, no caso, já é amar; jé. é eteito da graça
de Deus, que age na criatura deprimida.
Ainda uma retlexão. Há «cruzes, e cruzes na vida do
homem. Com efeito, hã cruzes que, devidamente suportadas,
podem tomar-se motivo de vanglória., pois suscitam a adrnl-
racão do público para com o sofredor. Mas também hã cruzes
que, em absoluto, não tra2em compensação sensivel; são o
insucesso, a contradição, o esquecimento ... Estas são as que
mais se assemelham à cruz de Cristo: são as mais preciosas,
porque nos fazem perder té em nós mesmos e nas criaturas,
obrigando-nos a procurar firmeza. e amparo em Deus só; são
as cntUS q\le nos dilatam e fazem crescer na verdadeira vida.
1!: principalmente 'O anwr a tais cruzes que havemos de pedir.
Mesmo que às vêzes nos pareça nada mais compreender do
plano de Deus (:tle oportunamente se compraz em desconser-
tar-nos, a fim de que nos reconsertemos nele), a adesão fiel
e incondicional ao Pai do céu é extremamente valiosa. «Então
sOmente Tu saberás que Te amo, embora eu mesmo nada saiba.
Mas isto basta». O justo vive da fé; êle sabe que, para aquêle
'.
Que pouco ou nada vê. é sumamente bom aderir Aquele que
tudo vê, tudo compreende.
Que a Virgem Santissima, modêlo da entrega total a Deus
,
numa fé que, duramente provada, f<li mais forte do que a pró-
pria m<lrte, nos obtenha a graça de repetirmos com consciên-
cia e amor crescentes: «Faça~se em mim segundo a tua pa- •
la\nnl!» •
«Tu saberás... embora eu mesmo nada saiba... ISTO
BASTA».
E.D .
- 234-
ePERGUNTE E RESPONDEREMOS,
Ano XI - Nt 126 - Junho de 1970

1. DROGAS E MISTICA

) l) .P<>deriom tIS cIN>ps ou OS B1ue1n6genos p.. porclo.....


aos bomens uma autêatiea rexperiêncla nústlca. e a .entrada no
parlÚlO celostefD
2) .Por que as droglis são tio difundidas entre os joveru
de hoje!'»
Em Idnlae: O uso de drogas, principalmente das alutlnogênlcas.
é I'i!COnh~c1damente prejudicial à saOde pslqulca e 1is.1ea do consumi-
dor: afeta 05 centros sensoriais do cérebro, excita a imae1naçll.o e a
emotlvldade. lmpêdlndo a pes$aa de aplicar a lnteU,êneia. a vontade
e a memória .. concepCiio de aut~nt1co e generoso Ideal de vida.
Nlo obstante, os alucinógenos mais e mais se difundem entre 05
jovel\ll por vArlos moUvos : primeiramente, a curiosidade e o desejo
de estar na moda. n io ficando p'ca trAs, impele muitos .. primeira
experi~ncla; depoLs. a volúpia, poderosamente excitada pelos meios
de comunJcaclo social (cinema. revistas, Jornais . .. ), entretém o uso
habitual de drogas. Interêsses camerclals de produtores e d15trlbuldores
também tlesempenham papel n()t6rto n& propagação do vicio. - AcrHCe
que as drogas se tornaram nos últimos anos o slmbolo de uma atltud&
11l0lÓ11co·rellglosa: a ebeat generatlan», qUe contesta. a soctedade de
conaumo, Julga que as drogas são meio eficaz para llbertar o homem
dos esquemas do tecnlclsmo e do purItanismo dos mais velhos. Diz·se
outrosflim que oJ aluCin6genos proporcionam contAto mLstico eom a
Divindade.
• Ora médicos e psicólogos aballzados repelem decididamente o
colUumo de drogas, a nQo ser em casos devidamente dosados, com
fins terapêuticos. Quanto aos eleitos mlsticos, sllo Uusól'los: a expe-
rJêncla de Deus se obtém em lucidez de mente e OJsclpllna Oe vida,
nlo no tipo 'ae alheamento induzido pelas drogas.

x---
Resposta: Em tôdas as partes do mWldo, inclusive no
• Brasii, ouvem-se V02eS a.larmadas em vista do crescente con-
sumo de drogas, princlpalmente entre os jovens: As propo~ões
do fenõmeno preocupam as autoridades civis: jovens de 14/15
anos são internados em clinicas para se submeter a curas de
desintoxicação; mel\lnas-moças de 13/14 anos, foragidas de
- 235-
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 126/ 1970. qu. 1 e 2

casa, são encontradas em transe psicodélico 1; os contraban-


distas de tóxicos são multas vêzes jovens que iniciam a sua
experiência de vida. pública.
Tais fatos lançam questões: seria de grande importAncia
conhecer os po.ssi.vels motivos que levam os jovens ao encalço
de drogas; uma vez esclarecidas as causas, sanear·se-ia mais
fAcilmente o mal. 1.: à procura de uma resposta que as páginas
seguintes serão escritas.

1. Drogas em revisto
Antes do mais, convém precisar o que são os alucinógenos 2;
e qual a. sua atuação no organismo humano.
Sare.se que os alucInógenos pertencem à categoria gené-
rica das drogas. Ora hoje em dia estas vêm sendo distribuldas
em três principais subclasses:
1) grandes drogas OU estupefacientes propriamente ditos:
2) estimulantes:
3) alucinógenos.
Passemos em revista cada um dêstes três tipos de drogas.
II Estup.fadentes
As mais conhecidas destas drogas são a morfina, a erolDa,
a codeina (oriundas do ópio) e a cocaina (proveniente da fôlha
da coca).
Ingeridas ou injetadas no orgarPsmo, provocam tonteiras;
a seguir, crescente aceleração de refiexos, sempre mais agita-
dos e desconexos; donde decorre um estado de exaltação e
euforia, em que os empreendimentos se tomam fáceis; por •
último, registra-se letargia com excltantes visões e intenso
prazer erótico.
Com o tempo, o organismo se defende contra o tóxico,
elevando a sua capacidade de to11râncla; o sujeito vê-.se então
obrigado a aumentar as respectivas doses. Cai em estado de

1 cP$lcodélleo, ê o estado «lU o elemento tóxleol que ma.nlféSta
(del60, em :rego) a cpsyChê. ou o palqulco Intimo do sujeito.
:t ComQ 4" o nome, caIudnógeno) ~ • droga qUê eoJo(!A ~ con.
sumldor em estado de alucJnaçAo ou de v1.s6es meramente .subjeUvu.

- 236-
DROGAS E MíSTICA 5

cdepenrlênc1v, em que a droga se torna Idéia fixa, geradora


de psicose e angústias. Toxicomania e criminalidade estão em
estrita correlação.

21 EstImulantes
São representados principalmente pelas anfetarnlnas. :Thtas
estimulam os centros produtores de ent!rgja do organismo, de
modo que numa fase de cansaco ou stre.ss, a sujelto se toma
"
capaz de imprevistas façanhas (usam-se na prática do esporte,
em periodo de exames ou. de sobrecarga profissional). Não
, • raro, uma vez terminada a ação do estimulante, o paciente
sofre um colapso fIsico.
O recurso esporé.dico a tais drogas pode solucionar situa-
ções dlficeis (de mêdo, torpor, indolência ... ). Caso, porém,
se torne hãbito, altera nocivamente os centros de comando do
organismo.

3) Afudn6genos

São derivados de pJantas que os povos primitivos, princi-


palmente no México, conheciam e utilizavam, máxime em ceri-
mônias religiosas. Sômente nos ültimas tempos a ciência isolou
e esbJdou atentamente tais produtos. Os mais conhecIdos den-
~. êles são o peyotl, o teo~tI, o aloUuqul e a t.8D&p&
IDdlApA

o peyotl pertence Ifl tamiDa dos cáctus; é cultivado nas


regiões sêcas do México e do Sul dos Estados Unidos. Dêle se
deriva o alcaloide chamado cmescalinu.
O tleona.npcatl (= cogumelo de Deus) era tido pelos indios
mexicanos como alimento sagrado a ser ingerido nas solÉmi-
dades religiosas; facilitaria o contato com a Divindade e o
diagnOstico de certas moléstias. Dessa substAncia se extrai a
pslloclbiDa.
O ololiuqul (nome azteca) cresce no México meridional;
suas sementes são mastigadas com finalidade mágica e reli-
giosa. Em 1955 o psiquiatra canadense Osmond, tendo ingerido
tal substânc1a, verlflcou que provocava primeiramente wn eS-
• tado de torpor: a seguir, sensação de bem-estar com vlsóes
fortemente coloridas e notáveis alterações do ambiente.
A caaapra. indla.na. é oriunda do Himalaia. Foi levada para
a China em 3 .000 a . C. aproximadamente; dai, para a Pérsia,
o Canga, as Américas e finalmente a Europa. Os seus princl-
- 237-
6 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS' 12611970, qu. 1 e 2

pais derivados são a marljuaua e o ba&hish (haxixe, em (onna


aportuguesada). :t.ste vocábulo parece ter dado origem ao
têrmo assa-sino (= conswnidor de hashish), pois, a quanto
parece, os criminosos costumavam estimular-se com tal subs-
tância.
Dentre os alucinógenos obtidos por síntese qulmica, o mais
importante é o LSD-25 (dietilamina do ãc1do Usérglco); O n" 25
indica apenas que lL slntese foi efetuada pela primeira vez aos
2 de maio (de 1938) . Os iniciados o chamam simplesmente
cácidoll.
Sabe-se hoje que a ação do LSD sObre o organismo é •
5.000 vêzes mais enérgica que a da mescallna e 100 vêzes
mais poderosa que a da psiloclblna. Uma grama de LSD pode
provocar o cdelirlo branco., (reação extãtlea) em 5.000 pes-
soas. Dadas as suas dimensões microscópicas, dez doses de LSD
podem ser enviadas ao respectivo destinatârlo ocultas sob um
sêlo de correio.
Examinemos agora de mais perto

2. Os efeitos dos oIucin6genos


Cada. individuo reage às drogas de maneira muito pessoal
Pelo que, é lmpossivel prever com precisão todos os efeitos
que determinada droga possa desencadear no respectivo consu-
midor. Náo obstante. os estudiosos assina1am com clareza al-
guns dos efeitcs mals patentes COMuns a tõdas as substâncias
aJucinogênlcas.
No plano psíquico, registra-se distorção das percepc;ôes:
visão, audição, tato se alteram notivelmente. Atenua-se a ca-
pacidade de distinguir entre realidade e fantasia; perdem-se
as noções de espeto e tempo; a memória torna·se um tantn
caótica; a atenção rpaSS8. a flutuar sem se poder fixar. A rea-
lidade ambiente se torna como que fluida e esvaecente ou tam-
bém turblihonarrte. O Individuo concebe a Idéia de estar saindo
,
do mundo de cada dia para. penetrar em mWldo n6vo, de am-
plas dimensões e fulgurantes Iuzesj em conseqüência, julga-se
estranhamente poderoso, capaz de superar qualquer dificul-
dade.
O despertar do estado de torpor ou a volta das viagens
lrnaglnãrias não slgn!fjca sempre recuperação d.. faculdades
mentais do sujeito; apatia, depressão, angústia, recusa da rea-
lidade são conseqUêncfas mais ou menos permanentes do con-

- 238 ~
DROGAS E MISTICA 7

sumo de drogas. Acrescentem·se. em plano mais remoto, dese·


quiUbrio mental e apagamento da personalidade.
Por vêzes notam--se também conseqüências somáticas: o
corpo perde pêso e proporçeleS normais, assuttúndo tonnas ab·
surdas e extravagantes.
A êste desgaste psicossomático sobrevém o fato de que
os alucmógenos acarretam para O consumidor certa dependên-
: eia psiquiea: quem experimentou o êxtase psicodélico, sentê-se
a êle mais e mais atraido t'Omo se f&se a solução radical e
.. universal para o problema de sua existência.
• Em meados de 1969, o govêmo do Estado de Nova Iorque
(U.S.A.), tendo em vista reprimir o USo de tóxicos, proibiu
a entrada de manjuana no seu território. Em conseqüência,
os toxicômanos, não oonse...uindo superar a necessldade ps.[-
quica de cparalsos artlficlals:o, puseram·se imediatamente ao
encalço de quaisquer outras drogas que se achassem no mer-
endo; donde resultaram, em poucos meses, numerosos casos de
grave intoxicação, muitos dos quais foram fatais.
Todavia, mesmo após tão negativo balance, não se pode
deixar de reconhecer que, em alguns casos, os alucinógenos
vêm 8 ser autênticos recursos medicinais: faciUtam a manifes·
tar;ão de conflitos inconscientes, dissipam bloqueios pslcoafeti-
vos, curam agressividades e incomunicabilidade .. . I<:: absoluta-
mente necessário, porém, que o uso de tais substândas seja
então estritamente orientado e controlado por especlallsta
idôneo.
3. Juventude e drogas

Pergunta-se agora: por que se registram tantos casos de


consumo de tóxico entre os jovens?

Em geral, o jovem vive a sua primeira aventura aJudno-


gênlca por curiosidade ou pelo deseja de provar e conhecer
tudo (deseja muito compreens'vel na Idade juvenil); a fama
de que 8$ drog&$ levam a. experlênciai!J nw.rtwllhos!l$ ou de que
causam sensações novas e proIbidas é suficiente para estimular
o rapaz ou a moça.
l!: dos colegas ou dos companheiros de jogos e diverti·
mentos que multos recebem o seu primejro cigarro de mui·
juana ou a primeIra dose de ácido Iisérgico, de hashish, cola
- 239-
9 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» )26/1970. quo 1 e 2

e outras estranhas cornbinacÕes. btes elementos são Udos


como presentes e, conseqü~ntemente, como demonstrações de
camaradagem, de espirlto de grupo; quem os recebe como
oferta, se julga obrigado a aceitá.los para não ficar .rp'ra. trás»,
mas antes estar no passo do dia. Cigarros e bolinhas são con-
sumidos em roda amiga, num recanto qualquer (às vêzes,
clandestino), em serões ou noitadas, ou em passeios... A
obtenção e a distribuição de -tóxicos são facUltadas mediante
processos requintados de simulação e contrabando.
Após as primeiras experiências, já não- é a curiosidade
·que impele o consumidor de tóxicos, mas é muitas vêzes a i
própria volúpia que se apossa do indivíduo, volúpia incessante- •
mente alimentada por quanto disseminam os cinemas, os jor-
nais, as cantilenas e outros meios que Impregnam a opinião
publica.

21 A ..beat generoH'on »

o consumo de drogas nos últimos tempos tem-se tomado


mais e mais freqüente nos grupos de jovens contestatArlos
norte-americanos. Vivendo na periferia de grandes cidades dos
Estados Unidos, êsses jovens se vestem de cOres vivas; são
clamorosos, n.ão, porém, violentos; constituem a faixa dos
chlppies. , também dita cbeat generatlon", que apregoam a
mudança da atual sociedade de oonsmno (a propósito dêste
programa, veja-se cP . R •• 114/ 1969, p. 229; 115/ 1969, p.278;
120/ 1969, p. 515).
O consumo de aludn6genos entre os «hippies.. DU por
parte da «beat generatlon» é fomentado por teorias fitosóficas
e «místicas. , das quais se tornaram notâveis arautos os pro-
fessóres T. Leary e K Alpert, da Universidade de Harvard
(U . S.A . ). btes estudiosos, após prolongadas experiências e
pesquisas, lonnularam a chamada .. teoria psicocJéUca. , que em
substância se I'éSUme nos seguintes têrmos:
Só o consumo de drogas poderá. tornar possivel a reno-
vação da sociedade. pois unicamente as drogas são capazes
de subtrair o homem ao puro tecnicismo e ao presente estado
de psicose generalizada; as drogas abrirão novos horizDntes
aos seus consumidores, horizontes decorrentes de novas per-
cepções e intuicÕl$, que emergirão das profundidades do espí- •
rito humano. As drogas agem como «uma chave qulmica que
abre a mente, liberta O sistema nervoso das suas estruturas
or~lnári...
dando-Ihe a possibilidade de captar as novas reall·
dades da consciência dilatada.. Mediante as drogas, abre-se
-240-
DROGAS E M1STICA 9

ao homem wn mundo de maior riqueza espiritua1, quase de


inspiração divina; as «viagens:. (mentais) através dêsse rnWldo
colocam a pessoa em estado de plena liberdade interior.
O Prot. Leary, ao propagar suas idéias, costuma observar
que a nova filosofia é apta a provocar reações e perseguições.
Acrescenta, porém, que estas ocorrem no inicio de qualquer
religião. A cvlagem::. (mental) é como uma peregrinação a
! Meca: custa sacrifícios e fadigas, mas transforma o su:Je.lto.
Quanto aC} vendedor de drogas pslcod.éUcas, longe de ser um
\ crlnúnoso, é o grande cSanto:. que desatla a 'Polícia a fim de
instaurar urna nova sociedade.
.'
:e bem compreens1vel que tais .teorias, com seu sabor de
pioneirismo e contestação libertadora, com seus traços quase
proféticos, atraiam o interêsse dos jovens. :E:stes se acham pre-
cisamente numa fase de intolerância em relação aos cgrandes:.,
que. segundo êles, se esclerosaram e tomaram hipócritas. Pre-
ocupados com sua segurança. financeira, capazes de permitir
a fume no mundo, contanto que levem existência tranqUlla, os
mais velhos (assim vistos pelos jovens) suscitam o protesto
da nova geração, Que diz procurar uma sociedade mais humana.
repelindo injustiças e puritanismo.
Precisamente 8 droga, enaltecida pelos mestres do psico-
dellsmo, vem a ser no mundo jovem insatisfeito o meio de
protestar contra os esquemas da moral burguesa e da sociedade
de consumo. lt o símbolo de nôvo mundo; é fonte de inspiração
e liberdade espiritual.
No fenômeno de difusão das drogas, não se poderia silen-
• ciar O papel da propaganda ou da pub1icldade. O consumo de
drogas é altamente rendoso para quem as produz e distribui.
Por Ism há produtores de substâncias aluclnogênicas (se não
no Brasil, ao menos no estrangeiro) que mandam distribuir
vários tipos de drogas, a Utu10 de oferta graciosa. nas assem-
bléIas e manifestações de juventude, às portas das Universi-
dades e das escolas médias. Os responsáveis por tais presentes
sabem que o estudante, após uma primeira experi ência, dificil-
mente se absterá de ulterior recurso aos mesmos.
Impõe-~ aiora uma avallaçãQ das teorIas psicodélicas.
,

4. Mis.jca ou mistificasão?
1. É multo freqüente, nos escritos psicodéllcos. a afir-
mação de que o recurso às drogas dilata a consciência e p~
- 241-
l.() ..PERGUNTE E RESPONDEREMOS) 126/1970. qu. 1 e 2

porciona contato com o mundo do inconsciente; mobiliza poten-


cialidades secretas do ceu:. e assim da inicio à escalada para a
verdade.
Ora êstes sugestivos dizeres não recebem confll'ntaÇ,ãD da
parte dos médicos e psicólogos mais abalizados. :E:.stes ertsinam
que qualquer tipo de alucinógeno, e de modo particular o LSD,
é um corrosivo do cérebro, que influi negativamente sôbre as
faculdades do constnnldor. principalmente sôbre a sua capa.-
cidade de julgar; as drogas agem sóbre div4!rsos centros ner-
vosos e sensoriais da massa cerebral (.tAlamo, córtlce, hlpo-
campo ... ), prejudicando o funcionamento normal dos mesmos,
reforçando a vivacidade das percepções até a alucinose, exci-
ta'ndo a fantasia e as representações simbólicas. As mesmas
substâncias movem também a afetividade do pacien te, nêle
desencadeando sentimentos intensos e pujantes, capazes de
provocar comportamentos desconsiderados: ansiedade e pâ-
nico, 'êLil'essividade hostil ou lerna dileção, êxtase feliz ou tris-
teza imensa, desgãsto horrorizado ou culpabilidade irremediá-
vel. .. Os resultados obtidos mediante as drog8s são impre-
visíveis (dependem muito do tipo de personalidade e das dís-
posições Momentâneas do consumidor); uma experiência de
alegria extáUca pode ser seguida de proflD1dos sentimentos de
angústia e tristeza; a «descoberta do Absoluto» pode ter após
si uma experlência banal, alheia ao transcendental.
Os cêxtaseu e as cviagens» da pessoa cestupefelta » ator·
nam passiva e inoperante, colocando-a em estado de desori-
entação e confusão mentais; nestas condições o sujeito não
consegue distinguir das suas criações fantasístas o que êle
possui de mais genlÚno e J)eSS08..I. Em vez de usar de iniciativa
própria e livre escolha. a pessoa é alienada ou envolvida em
uma trama artificial; por isto torna-se-Ihe muito difícil ou Im..
possivel colaborar na regeneracão da sociedade. Costumam os
estudiosos dizer que o estado mental dêsse individuo é compa-
rável a um caleidoscópio fortemente sacudido, do qual nada de
seguro e razoável se pode depreender.
2 . A afirmacão de que a experiência psicodélica é de
índole mistico--rellgloss não resiste a um exame sério e sereno.
Verdade ê que povos .mtigos (e ainda hoje certas populações
das ilhas do Pacifico). de cultura pré-clentlfica, ignorando as
virtualidades psicotrópicas de certos vegetais. atribulam (e
atribuem) a determinadas plantas o poder maravilhoso de pOr
o homem em contato experimental com a Divindade. Hoje,
porém, sabe-se multo bem que a exaltação psicológica e a eu-
- 242-
DROGAS E M!$TlCA 11

faria de que gozavam os antigos devotos usando drogas, não


sâo senão modificações do psiquismo produzidas por estimu-
lantes quimlcos.
Note-se, aliás, que as pretensas experiências mistlcas dos
psicodélicos contemporâneos não têm efeitos duradouros; os
resultados de euforia são efêmeros; urna vez passado o efeito
da droga, o sujeito põ~e a duvidar de suas «visões, religiosas,
e não vive de modo algum como um crente ou um homem
de ré.
A autên·tlca experiência religiosa supõe premissas e pro·
voca reações radicalmente diversas das do pslcodellsmo; «boli·
nha, e graça (de Deus) não são da mesma indole. O genuino
contato com Deus realiza-se em estado de lucidez e consclên·
eia; Deus não é uma projeção ou uma crlacão do psiquismo
do homem, mas é um ser vivo - Inteligência e Amor - com
o qual o homem mais e mais se encontra na medida em que
se purifica de paixões e tendências desregradas, exercendo
disciplina sôbre si mesmo; ora disciplina, autodomínio, uso
consciente das faculdades se opõem frontaJmente 8'0 consumo
de drogas. 1!:ste implica. dissolução da personalidade, excitacão
da emotivldade e obnubllaçáo da mente.
Mais ainda: não se pode em nossos dias, ou seja, na era
da dência e da técnica. reprodU2ir o comportamento do homem
pré-cientifico das culturas arcaicas. '€ste fazia das drogas um
sacramento; acreditava no va10r e na eficácia sagrada das
mesmas; estava persuadido de que, consumindo-as, participava
da Divindade. O homem moderno, porém, não pode permitir
a si mesmo tão simplória credulidade; sabemos Que as drogas
são um produto da natureza cujos efeitos psicodélicos se expli-
cam pela farmacologia e a pslcofislologia.
3. Enfim a misttca do ps1codelismo se manifesta Ilusórla
ainda a outro titulo: há contradição entre o brado de reforma
da sociedade e o comportamento prâtlco dos consumidores de
drogas. :tstes geralmente vivem desengajados; criticam a so-
ciedade, mas nada fazem por melhorâ-Ia. Ora erros e defeitos,
por mais graves que sejam, não se eliminam pelo desinterêsse
e a marginalimcão indo-lét\tés. - OUtro poderia ser o juizo a
proferir sObre os psicodélicos, se êstes se mostrassem mais
prontos à generosidade e ao sacrifício_
4. Deve-se, porém, reconhecer Que certas drogas, devida-
mente dosadas e controladas por um proflsslonal idôneo, pOdem
ter eleito terapêutico. Admita--se, por exemplo, o caso de al-
_ 24~_
12 ePERGUNTE E RESPONOEREMOS~ 1.2611970, qu. l .e ~ . ,.

guém que tenha preveneõe5 em relação aos valOres religl~


50s ... ; o consumo da droga podem nêle dissolver 'OS meca-
nismos de deresa Inconsciente, suscitando uma certa disponi-
bllldade lrente 'às realldades transcendentais. Todavia note-se
Que, neste caso e em outros semelhantes, 'O individuo não faz
experiências religiosas, mas apenas desmantela o seu bloquea-
mento anti-religioso.
!
5. Como responder?

Em julho de 1969, o presidente Nlxon, preocupado com


a difus,ão das drogas nos E .U .A., enviou ao Congresso uma

n:tensagem que solicitava. mais severa repressão do tráfico dro- •
guista. O Ministro da Justlça formulou um projeto de lei, que
ptmia com dez anos de prisão a quem f&se encontrado sim-
plesmente na posse de marljuana. A oposição, porém, se le-
vantou, alegando: cComo encarcerar dez milhões de 'ovens? »
Em novembro de 1969. Nixon declarou ter mudado de
parecer: «Outrora julgava eu que a solução era a intransi-
gente aplicação das leis: mais prisões, mais . condenações. Con-
tudo não é assim.. Quando nos encontramos diante de rapazes
de 13. 14 e 15 anos, a solucáo não é D cárcere; a resposta. é
'Infonnacão'; a resposta é 'compreensão'». De entio por diante,
os órgãos governamentais puseram.~se a promover conferências
de esclarecimento sObre as drogas nas Universidades e nos
colégios; intensificam-se as obras de recuperação dos indIvi-
duos viciados, e lmpõem-se graves penas aos produtores e dis-
tribuidores de drogas.
Outros palses têm adotado semelhantes soluções. A Franca.
por exemplo, pune severamente os traficantes de alucinógenos
e tenta influir sObre a opinião pública mediante os meiO$ de
comunicação social (imprensa escrita e falada); prorrrove aulas
sôbre a ação e os efeitos das drogas e abre novos caminhos
para a desintoxicação dos psicodélicos.
Ao nosso Brasil, aos nossos dirigentes, educadores e pais
de famllla compete outrossim refletir seriamente sObre as ma~
• ·
nelras de ajudar a juventude a se libertar das ameaças da
alienacão psicodélica; não seja a generosidade da nova geração
deteriorada por falsas concepções mistlcas. .'
,
A propósito ampla bibliografia poderia ser cttãda. Vejam-se. por
exemplo, ,
G. Perlco, eGlovanl e aUuctnogenb, em eLa. Clvilta. Cattoll~.
713nO. quo 2873, pp. 417-433.

-244 - .. ...
PURGATóRIO! COMO? 13

F . N . Moschlnl, cOs caminhos dos venenosJO, em eProblemas brasl·


leiros., m~ 1970, pp. '·22.
A. Porot, eLes toxieomanles •. Presse Unlversltalre de France. Pa·
rls 1968.
H. Solms, cLa drogue et tes Jeunes», em eRééducatlonJO, ag6sto-
·setembro 1963, pp. 61M.
T. Leary, R. Metzner, K. Alpert, cL'esperlenza. palchedeUca». MI-
lano 1969. .
./ D. li. Salman, eLe droehe pslchedel1che e l'esperlenza religlOS&JO.
em cConclllum. 49/1969, pp. 137s.s.
•• cQuattro raga%Zi drogati si con(essanoJO. em cL'EuropeoJO 1

• 30110/1969, pp. 25ss.

11. SERÁ MESMO?

S) «A existência do purgatório é de fé!


~ao ~ deveria. puriftear -. elissIoo. conceito de p~
tório!
-e o dinheiro que salva as almas do purgatório'h
Em slntMe: O purutórJo é urn est,q,do pó"tumo em oue 1\ alma
~ purifIca das Incllnac6P.l1 desrC2-radas e dos rcsqulclos do pecado com
que tenha deixado a vida presente.
Embora mantenha uma atitude fundamental de amor a Deus. pode
nr"'l. CMatura to1erar em sua condutA freaüentes faltu tnats ou menos
deliberadas, e morrer nes~ estado. Em tal caso. T>eUN nAn oondena sua
r.rhl.tut'8. mas lhe nl'Oporclona um esUR"lo extnordlnArlo de puriflcaçll.o.
ools é Imposslve1 Que IImll alma. portadora da mlnlma sombra de
., falha. sUltêntê a vlII\O dê Deus ffl.ee-a-faet! .
A puriflcaçlo p6stuma. conforme os bons teólogos. se faz não pelo
folto. mas peta. penetra(lo do amor de Deus nns profundidades da
alma. de modo a ai extlnlfulr todo vestlglo de «!gol.smo e amor desor-
, denado. Tal purlflca.çlo ~ dolorosa: a alma verlflcar6. amargamente
ter sido leviana, ter perdido tempo e graça de InesUm6vel valor.
A dor do purgatório li mesclada de alegria, pois a alma em tal
ÇQmUçio Hbe que pertenet- irrev-emvelmente ao amor de Deus.
Visto que as almas no purgat6rIo nada. ptll:lem merecer para ate"·
lerar o seu processo de purlllcaçii.o, os crlstAos na terra podem·lhes ser
utels mediante a chamada .comunhão dos santos (ou de bens SAgra·
I dosb. Não hA alma abandonada no purgatório, pois os sufr:6gios da
• Igreja militante beneUdam tOdas as almas. Aquela.s por quem os
parentes (pobres ou Incredulos) não mandam celebrar a S. Missa, silo
objeto da misericórdia divina, como as demais almas do purgatório.

- 245-
14 «PERGUNTE E R.ESPOND~:J 126/1970, quo 3

Evlte-.se comparar êste estado a um ctrcere onde certos prlslonelrol


passam melhor do que outros por terem parentes mais riCOI e pre.
tlglosos.
- -- x----
'Resposta: Por- «purgatório» cntende·se O estado (não wn
local) em que as almas dos fiéis que morrem no amor de Deus,
mas ainda portadoras de inclinações desregradas e resquiclos
do pecado, se libertam destas est:órlas mediante uma purifl.
cação do seu amor. O purgatório vem a ser uma concessão da
misericórcUa divina, que não quer condenar a quem O ama, ,,
mas não pode receber em sua santisslma presença qualquer I
sombra de pecado.
A doutrina do purgatório é, hoje em dia, especial objeto
• •
de atenção. Certas descrições assaz populares e fantaslstas da
expiação póstuma contribulram, de certo modo, 'Para fazer
perder de vista quanto de belo e "obre há nessa proposição da
fê. Por isto, nas páginas que se seguem, procuraremos apre·
sentar a nocão de purgatório despojada de concepee;es pouco
condizentes com o depósito revelado.
Já em cP. R .• 8/ 1957, pp. 9-12 e 14/1959, pp. 66-72 foi
abordado o tema . purgatório:t. Neste fascículo recordaremos
e desenvo]veremos quanto ai foi dito.

1. Purgatório: Blblia e magi5tério


Antes do mais, é preciso averiguar o que se encontra nos
mananciais da fé a respeito do purgatório.
11 E1Ctilvra Sagrada
A doutrina do purgatório não se encontra explicita nos •
livros da Escritura; contudo algumas passagens bibllcas apre·
sentam as idéias fundamentais que a Inspiram. Tenham·se em
vista os textos seguintes: ••
a) 2 Mac 12, 39-46: «No dia seguinte, Judas 101 com os
seus, como era necessário, levantar os corpos daqueles que
haviam sido mortos, para sepultá·los com os familiares nos
túmulos de seus antenatos. Encontraram, sob a túnica de cada
um dos defuntos, objetos consagrados, provenientes dos ldolos
de Jâmnia., que a Lei proibe aos judeus: tornou-se então evi-
,
dente a todos qUê esta tOra a causa de sua morte. Todos, por •
conseguinte, louvaram o Senhor, justo Juiz, que torna mant·

- 246-
PURGATóRIO! COMO? 15

festas as coisas ocultas. A seguir, puseram-se a orar, pedindo


que o pecado cometido fôsse inteiramente perdoado; e Judas,
o corajoso, exortou o povo a guardar-se puro do pecado, tendo
ante os olhos as conseqüências da culpa daqueles que haviam
caído. Depois, havendo feito uma coleta, em que recolheu a
quantia de duas mil dracmas, enviou-a a Jerusalém para ser
, empregada num sacrificio expiatório. Bela e nobre ação, ins-
pirada pela lembranca da ressurrelcão! Pois, se não acreditasse
<• que êsses soldados mortos ressuscItariam, teria sido coisa su-
pérflua e rldicula orar pelos defuntos. Além disto, considerava

.t
que estA reservada uma bela recompensa àqueles que ador-
mecem na piedade. Eis por que êle fêz ê5se sacrifício expia-
tório !pelos mortos, a fim de que fôssem libertados dos seus
pecadOb.
No dia seguinte ao da vitória sôbre a general pagão Gór-
gias, Judas Macabeu (+ 160 a. C.) descobriu, debaixo das
túnicas de seus soldados mortos, pequenos ldolos de que se
haviam apoderado no saque de JfunnJaj eram objetos impuros,
que a· Lei proibia aos israelitas guardar consigo. Acreditava,
porém, que os soldados chaviam morrido piedosamente» - o
que insinua que a sua culpa não tOra grave ou, caso o tOra,
dela se tinham arrependido antes de morrer. Não obstante,
depois da morte ficaram-lhes aderências do mal, das quais
deviam ser libertados, a fim de poderem conseguir a «bela
recompellSB.». E Judas julgava que, em vista desta purificação,
lhes podiam ser ateis os sufrágios dos vivos, razão pela qual
mandou oferecer um sacrlflcio expiatório em Jerusalém.
b) 1 001' S. 10-16: cConfonne a graça de Deus que me
foi dada. como sábio arquiteto, cologuei o fundamento, e outro
constrói por cima. Cada qual, porém, veja coma constrói por
cima. Ninguém pode colocar fundamento senão o que está
colocado, a saber, Jesus Cristo. Se alguém constrói sóbre êste

, fundamento servlndo-se de ouro, prata, pedras preciosas, ma-


deira, teno, palha, a obra de cada um aparecerá. claramente;
com efeito, O dia do Senhor a dará a conhecer, pois se revelará
no fogo, e o fogo provará. a qualidade da obra de cada um. Se
a obra construlda subsistir, o operário receberá uma recom-
pensa; se, porém, a obra de alguém tõr consum1da, o operário
perderá sua recompensa; êle. contudo, será salvo, mas como
• que através do fogo_o
O texto trata dos pregadores do Evangelho, os quais edi-
ficam sôbre Cristo, e não sôbre fundamento estranho ou talso.
Uns. porém, constroem com zêlo (servindo-se de ouro, prata..
pedras preciosas); outros, com negligência e tibieza (com ma.-
_ ?d7_
16 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS~ l26/ 1970, qu. 3

deira, feno. palha .. . ). O dia do Senhor ou dia do juizo reve-


lari o afmco de cada qual dos operários. Enquanto os pri-
meiros nada terão de temer. os outros sofrerão detrimento, .
isto é, padecerão dores e penas; .todavla não deixarão de se
salvar; salvar-se-ão depois de provar a angústia devida às suas
obras imperfeitas - o que (pode--se dizer) insinua o tipo de
salvação que ocorre mediante o purgatório (o togo, porém, .
neste contexto não é senão O sfmbolo do juí~ de Deus) ,
Os autores citam também o .texto de Mt 5. 25s: Jesus aí •-
dá a entender que, após a caminhada da. vida presente (8 via),
pode haver um c4rcere (metáfora), donde o homem réu sai
.'
1
depois de ter expiado por completo. O texto não é suficiente-
mente claro. Como quer que seja, vê-se que a Escritura fornece
ao leitor os dados que constituem a estrutura da doutrina do
purgatórlo.
2' Mo8(,I'rfo da Igreta
Até O século IV, a fé no purgatório é atestada pr~clpaI­
mente pelos sufrãgtos que os cristãos faziam por seus defun-
tos. mormente ao celebrarem a S. Eucaristia. A praxe dos
sufrágios. usual já nos tempos de Judas Macabeu (século n
a. C.). continuou sem interrupçáo na Igreja. Jã que os cris-
tãos não oram pelos réprobos, estas preces supõem almas que,
terminado o seu currículo terrestre, ainda não entraram na
posse da bem-aventuranca. podendo ser ajudadas nisto pelOS
fiéis sobreviventes na terra.
S. Agostinho (+ (30) e os escritores subseqüentes afir-
maram mais explicitamente a existência da expiação póstuma
anterior ao- juizo universal.
O magistério da Igreja colheu e exprimiu 8. fé do povo de
Deus em alguns documentos, que equivalem a definições dou-
trinárias.
Eis, por exemplo, um trecho da Constituição eBenedictus
Deus:. do Papa Bento xn promulgada em 1336:
(As almu ... do. fiéis falecidos, .. , dado que nada tenha havido
a purifIcar quando morrer-am ou nada haja a purUlcar quando futu·
ramente morrerem, ou - caso tenha. havido ou haja algo a purltlear -
uma vez purifIcadas após a morte, ... essas almas. logo depois da
morte e da purUlcação de Que precisam •.. ,. foram, est:4o e estarAo
no céu ~ (Enqulridlo, Denzinger-SehÕnmetzer 1000 [530]).
..
Como se vê. êste documento ensina a necessidade eventual I

de purtficaCão póstuma, purltlcação que, sendo transitória, pre-
para a entrada na visão celeste. •
- 248-
PUROATORlO! COMO? 17

o n ConclUo de Lião (1264) declarou:


cSe (os crlaUl08 que tenham pecadO) falecerem realmente possuldos
dê eontrlcl~e earidade, antd, porem, de ter leito dIgnos trutos de
penilblda por sua! obras mAs e por suu omissões, suas almas. depois
da morte, são purificadas pelu penas purgatórias ou catartérlca.s •••
Para aliviar estas penas, 510 de proveito os sufrágios dos fiéis vivos,
.J • saber, o Sacrlflclo da Missa. ü orações, esmolas e outras obras de
piedade que, conforme as insUtuições da Igreja. são praticadas habi-
tualmente pelos cristlos em ta.vor de outros fiéis> (Dz,.sch. l30t [6931).
o Concilio de Trento (lS45~1563) reafirmou a existência
?

do purgatório nos têrmos do anterior.
A Constituição cLumen Gentium:t do Concilio do Vatieano
n professa:
cO Sacrossanto Slnodo recebe com !rrande respeito a vener.vel té
de noaso.s antepassados s6bre o cons6rcio vital com os lnni os que
estio na !rUIria celeste ou ainda se purllleam após a morte, e prop6e
de nOvo os decretos dos Sagrados ConelUos Nlceno lI. Flarentlna e
Tridentlno:t (n 9 51).
cReconhecendo cabalmente a comunhAo de todo o Corpo M1sUco
de Jesus Cristo, a Igreja terrestre, desde os prlm6rdios da religiãa
C!rlsta., venerou com a-rande pledadê a mem~r1a dos defuntos e, porque
é wn pensamento santo e salutar rezar pelos defuntos para que ~lam
perdoados os seus pecados. também ofere«u sufrigios em favor
d~les. (n9 50).
cAlguns das dlsclpulas de Cristo peregrinam na terra: outros,
termln.ada esta vida, são purificados, enquanto outros são glorifica-
dos:. (n9 49),

Não resta dúvida, pois, de que a doutrina do purgatório


constitui um dogma de fé que a Igreja definIu outrora canSo-
cientemente e reafirma em nossos dias por seu magistério ordi-
nário e extraordInário.

, Importa agora verificar com exatidão qual o conteúdo


dêsse ens1namento da fé.

3. Que é p..oprfamonle o purgat6rio?

• As descrieôes populares do purgatório por vêzes quase


sugerem, se.la um inferno em miniatura. Tal concepção 'fanta-
I sista hâ de ser removida peremptOriamente.
• 1. Para entender o que seja o purgatório, devem-se
levar em conta os seguintes pontos:

18 ",PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 126/1970, quo 3

1) O amor a Deus, em um cristão, pode coexistir com


tendências desregradas e pecados leves 80 menos semidelibe-
rados. Há, sim, em todo individuo humano um lastro lnato e
multlcolor de desordem: egolsmo, vaidade, obcecaCão, covardia,
negligência, moleza, infideJidade... acham-se tão Intimamente
arraigados no interior do homem Que chegam por vezes a
acompanhar aS SUAS mais sérias .tentativas de se elevar a Deus
e de dar a Deus o lugar prlmaclal que lhe cabe na criatura.
2) Todo pecado (principalmente quanda grave, mas tam-
bém a falta leve) deixa na alma um resquício de si ou uma
inclinação má (metatõricamente: ... deIxa uma cicatriz. deixa
um pouco de ferru gem na alma, dificultando-lhe a prática do
bem). Com efeito, o pecado implica sempre uma desordem, um
amor a Deus, que não se consegue impor por completo a todos
os atos do sujeito, mas se vê contestado -pelo egolsmo ou a
procura do deleite desregrado. Quando, após o pecado (grave
ou leVê) , a pessoa, movida por arrependimento e amor, pede
perdã'O a Deus, o Pai do céu perdoa; o Senhor jamais rejeita
uma contrição sincera. Todavia o amor do pecador arrepen-
dldo, por mais genuino e leal Que seja, pode não ser suficiente-
mente intenso para extinguir todo resquiclo de concupiscência
existente na alma. Em conseqüência, o pecador arrependido
recebe O perdão do seu pecado, mas ainda deve prestar satis·
facão peJo mesmo. Essa satisfação não há de ser comparada
a uma multa mais ou menos arbitrária imposta por Deus ou
a wn castigo vingativo; ela não é senão uma exigência do amor
da alma a Deus, amor que, estando debilitado, pede ser corro-
borado e purificado.
O O :mcUio de Trenoo declarou:
cNo tocante à satisfação . .. .f: de todo falso e alheio li. Palavra de
Dew afirmar que a culpa nunca é perdoada pelo Senhor sem que
t6da a pena correspondente também seja perdoada. Com efeito, nas
Escritura.Sagradas encontram·ao claros • famosos exemplos que ...
relutam hte êrro eom plena evld~nei1D (Denz.-Sch.1689 [904]1 .
Como exemptos biblicos de expiação exlgtda por Deus.,
~o depois de perdoada a culpa, podem-5e citar os seguintes:
Moisés e Aarão cederam à pouca fé em dado momento
de sua vida; por isto viram-se pelo Senhor privados de entrar
na Terra Prometida, embora não haja duvida de que a culpa
lhes tenha sIdo perdoada (cf. Núm 2O,l2.; 'n, J2.14; DI
34,4s).
- 250-
PURGAT6RIO! COMO? 19

Davi, culpado de homicidio e adultério, foi agraciado ao


reconhecer o delito: não obstante, teve que sofrer a pena de
perder o filho do adultirio (cf. 2 Sam 12.13s) ..
Em outros textos, o perdão é estritamente associado a
obras de expiacão:
Assim o velho Tobias ensina a seu filho que a esmola o
libertará de todo pecado e da morte eterna (cf. Tob 4,l1s).
Algo de semelhante é anunciado por Daniel ao rei Nabuco-
donosor (cf. Dan 4,24).
O Profeta Joel, junto com a conversão do coração, exige
Jejum e pranto (cf. JI 2,l2s).
L
A justa satlsfacão pode ser prestada pela criatura ou na
vida presente (processo êste que é normal e deveria ser con-
siderado por todos os cristãos como programa de vida aqui
na terra); o penitente então se empenha corajosamente por
livrar-se de suas tendências desregradas e tomar puro o seu
amor 8 Deus e ao próximo. Ou, se não o consegue nesta pere-
grinação" (por motivo de covardia, tibIeza ou outro qualquer),
compreende-se logicamente que deverá chegar a essa pureza
na vida póstuma antes de entrar na visão face-a.-face de Deus.
:Então a criatura se arrependerá por ter cond~ndido com a
moleza e a. indefinlçãOo; D. alma terá consciência de que devia
ter sido mais coerente e menos leviana : tomará consciência
de que foi cercada peJo amor de Deus no decorrer de tõda a
sua vida e o Ignorou ou esbanjou (amarga consciênCia!). Esta
verifica.Cão não poderá d~ixar de lhe ser dolorosa, de mais a.
mais que a alma perceberá que, por causa de sua indefinição
na terra, lhe será dlferida ou postergada a entrada no gôzo
definitivo de Deus; ser-Ihe-á duro averiguar que faltou ao en-
contro marcado com Deus, justamente após a morte, quando
as almas mais fome e sêde têm de Deus.
AproflUldando as Jdéias acima, pode-se dizer: é devagar
ou lentamente que o homem se-110m&, segundo tõdas as dimen-
sões do seu ser, o que êle já é no cnücleo:. de sua personali-
dade. Em outros têrmos; uma decisão generosamente abraçada
pela vontade do homem 1 não costuma penetrar e mover ins-
tantâneamente tôdas as earnadas da personalidade; ela muitas
vêzes encontra., no fundo da consciência ou também no incons-
ciente do indivIduo, uma resistência mais ou menos têsa, resls-

1 Decisão de levar vIda nova, amar m .... autênUcamente, des·


pertar a f~ amortecida.

- 251-
20 c:PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 126/1970, quo 3

tência que provém de atos e hábitos do passado do sujeito.


t: essa resistência que deve ser vencida, de modo a exigir da
alma o empenho cada vez mais enérgtoo do seu amor a fim
de que êste penetre toda a respecUva personalidade.

4. Noções complementares

1. Paradoxalmente, o pto"'gatório é também um estágio


de vida cumulado de alegria, ... de alegria a que nenhum dos
prazeres da teIT8 pode ser comparado. Com efeito, a alegria
no purgatório joITa da consciência que a alma. tem, de que ela
pertence ao amor de Deus de modo irreversivel. EJa sabe que ,
é 'O amor que a purifica e que nela cresce para penetrã~ por
completo.
Deve-se mesmo dizer que a aima no purgat6r1o não deseja ,
evItar êste estado, pois reconhece que é um dom da mIseri-
cOrdia divina sem o qual ela não poderia atingir a sua consu-
mação.
S. catarina de Gênova (+ 1510) dei.xou no seu c:Tratado
sObre o purgatório» as seguintes reflexões, que merecem ser
levadas em conta:

cEnquanto depende de Deus., veJ() que o céu não tem portas. e


ai pode entrar quem queira, poiS Oéus é todo bondade: mas a dlvtna
essf:nda é tão pura que a alma, tendo em si algum empecilho, se
precipita por si na purgatório, onde encontra essa grandf! mlsericiJr-
dia : a destrulcio do seu empecilho.
Enquanto a puritlcaçlo nlo e!ltA. terminada, essas almas com-
preendem que, caso se aproximassem de Deus Péla vlaAo beatifica,
nAo estariam no seu lugar e, em conseqUência, experlmentarlam maior
sofrimento do que ficando no purgatório:. (cap. 9 e 16).
cpaz nenhuma é compartvel 1 das a1mas do purgat6ria, excetuada
a das Santos no céu; e essa paz aumenta Incessantemente pela In-
n~ncla progressiva de Deus s6bre essas almas li!! 1 medida que os
empecilhOS desaparecem, A ferrugem do pecado é o abstl.culo ... i
Cluando esta ferrugem ae vai, • alma reflete cada vez mais perfeita·
mente o verdadelTO Sol Que f Deus. Sua feUcldade aumenta na pro-
porçlo em que a lerTUgem diminuI. (cap. 2).
cAs almas do pureatórlo nAo podem desejar outra coisa senlo
permanecer onde eatao, como Deu. em JuaUça dlapOa .. . N.o podem
J!zer COn~go m...... ! It!da alma lêri lillAl'IW. Anw do mim', ou
'Eu antes dela' . .. Acham·se tio satisfeitaa com as dlsposlç6es de
Deus a seu respeito que amam tudo que agrada a Deus:. (cap. 1).
3. Vê-se, pois, que nlo se deve comparar o pUrga.tório
ao inferno. Neste as almas se acham incompatibili2adas com o
- 252-
PURGATÓRIO! COMO? 21

amor e fixadas para sempre na aversão a Deus e 8X) próximo.


Enquanto o purgatório é pren~ de esperança e carldade se-
renas, O Interno é a retorsão de todos os valôres humanos e
cristãos.
No jnferno, além da ausêncla de Deus, admite-se algo que
n S. Escritura chama c:fogo Jo, aguilhão fisico e real, cuja na-

,
•. .tureza os teólogos não sabem explicitar com exatidão. Fala.se
,
, '
também de «fogo do purgatório,.. Parece, porém, que não se
trata senão de uma metáfora para designar o próprio sofri-
mento decorrente da dilacão da visão face-a-face.
O conceito de ..cogo do purgatório» provocou no século XV
(época do Concilio de Florença) decidida repulsa por parte
• dos cristãos orientais separados de Roma; a êstes O fogo do
purgatório lembrava um Inferno provisório, ou seja, uma aber-
ração doutrinária,
Os cristãos do Oriente até o século xvn aceitavam, sem
dificuldade, a idéia de uma purificação póstuma no sentido
aqui ~xposto (sem menção de fogo). A partir do século XVII,
porém, sob a influência de autores protestantes. têm hesitado
em sua posição doutrinária. Não obstante, ainda hoje muitos
aceItam uma purificação póstuma. evitando descer a ponne-
nores e reconhecendo a eficácia da oração e dos sufrãglos pelos
defuntos.
A estas Idéias deve-se acrescentar algo sõbre

S. Sufrágios pelos defuntos


Distingam-se dois aspectos do tema: 1) sufrâgios dos fiéis
na terra peIas almas do purgatório; 2) preces das almas em
favor dos homens neste mundo.

II $ufr6gtos p.las almas


1 , Desde os primeiros séculos a Igreja tem orado pelos
defuntos, principalmente na celebração da S. Eucaristia. O Con-
clUo do Vaticano lI, confinnando os dizeres de ConcHiQS ante-
...
,
1
riores. convalidou tal praxe (ver textos à p. 17 (249]) .
O fundamento teológico dos sufrâgios pelos defuntos é o
seguinte:
As almas. no purgatório, não podem abreviar nem ace-
lerar o processo de sua purificação, pois são incapazes de me-
- 253-
22 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 126/1970, QUo a
recer algo (o período de méritos é sômente a vida presente).
Contudo OS cristãos na terra podem ser-lhes úteis em virtude
da ComlD1hão dos Santos (ou Comunhão dos bens sagrados).
que lUle todos 0$ membros da Igreja. entre si; jã que todos os
fiéis - militantes, padecerrtes e triunfantes - formam o Corpo
de Cristo, OS méritos de uns beneficiam os outros. Assim po-
dem os fiéis. na terra satisfazer pelas almas no purgatório (ao
passo Que estas apenas podem csatJspadecen). Os sufrágios
apllcados às almas do purgatório fazem com que estas sejam
mais profWldamente penetradas pelo amor de Deus, o qual
nelas há de consumir mais Mpldamente as impurezas do pe.
cado.
1
2 . Note-se, a propósito, que a comunicação de bens espl· I
rituais entre os fiéis não conhece classes nem prlvUégiosj todos
os bens espirituais da Igreja circulam entre todos os membros
desta. Por isto não é adequada a expressão cas almas mais
abandonada.$ no purgatório~ i tôdas as almas são beneficiadas
pelos sufrágios gerais da Igreja; não há alma abandonada.
Mais explicitamente: não se deve conceber o purgatório
como um cárcere, onde se encontrem prlslanelros de 'Origens
diversas; os que têm fanúlia. numerosa e rica, ai recebem mais
visitas e presentes, ou seja, passam melhor do que aquêles
que pertenCem a famllias pobres ou negligentes; poderão sair
da prisão mais cedo do que os seus companheiros indigentes.
Evite-se transpor tal imagem, com suas categorias e classes,
para o além·túmulo. O purgatório, de cerlo modo, transcende
os conceitos que adqtÚrimos neste mundo; pertenre aos sábios
e misteriosos designios salvíficos de Deus, a respeito dos quais
a Revelação Divina é sóbria. Por isto nã'O se creia que uma
alma do purgatório Q.ue não se beneficie de sufrágios - ou
por não ter família, ou por só ter parentes incrédulos ou negll-
gentes ou pobres - é urna calma abandonada.»; na verdade,
ela está envolvida pela Infinita misericórdia de Deus, à qual se
dirigem constantemente as preces e OS sufrágios da Igreja
peregrina na terra.
3. Assim também se Vê qUe é infundada a objeção mui-
tas vê:z:e$ proterida: .ÁS almas de famUla pobres, que não têm
dinheiro para mandar celebrar a S. Missa. sofrerão mais, e
mais tempo, no purgatório do que as almas dos ricos! O di·
nheiro é decisivo até no purgatório!»
Nio se deve crer que essas regras de lógica terrestre e
comercial sejam observadas também por Deus; 'O Slmhor Altls·
simo seria multo pobre, multo destlgurado, se atendesse menOl!l
- 254-
PURGATóRIO! COMO! 23

soDcitamente aos lnterêsses daqueles que menos dinheiro têm


em seu favor; herança monelAria não significa primazia para
alguém, diante de Deus. Jamais se deve esquecer que a graça
e a misericórdia de Deus têm o primado sObre os esforços e
as obras dos homens. As almas dos pobres, por conseguinte, são
objeto do Amor salvífico de Deus tanto quanto as dos ricos;
abstenhamo-nos de estabelecer uma ordem de prioridade nas
relações de Deus com as almas.
.:I, Acontece, porém, que entre nós e as almas do purgatório
hã o dever de sutragar, .. _ e de sufragar segundo detenninada
1 ordem: impõem-se à nossa caridade primeiramente aquêles
que nos estão mais próximos (parentes, amigos, colaboradores,
• benfeitores .. . ). A uma família cristã - pelo tato mesmo de
ser cristA - toca o dever imperioso de sufragar as almas, a
começar pelos membros defuntos dessa !am1lla.
4. E como sufragar'?
Evidentemente a S. Missa., sendo o sacrificlo da Cruz
perpetuado para beneficiar os homens através dos séculos, é,
da nossa parte, o meio mais eficaz para ajudar 8fi almas do
purgatóri.o. &ta doutrina sempre foi professada e posta em
prãtica pela Igreja.
Jt oportuno frisar que não se pode oferecer a Comunhão
Eucarlstlca como tal nem pelos vivos nem pelos defuntos; a
Comunhão, enquanto sacramento, age apenas sõbre o cristão
a quem é dada; n.inguém pode receber os sacramentos pelos
ootros. Todavia, na medida em que é obra boa e meritória, a
S. Comunhão pocle ser oferecida por vivos e defuntos.
Mencionem-se também as orações, particulares e comuni-
tárias, dos fiéis, ao paciência nas provações. de cada dia., os
sacrifícios generosamente empreendidos por amor a Deus e ao
próximo. - Deve-se frisar qUe o va10r expiatório das obras
boas e das preces pelos defuntos é dependente do grau de ter·
vor e caridade de quem as cumpre.
5. Por último, observe-se que nos ~ impossível avaliar
a duração do purgatório, pois êste estado não é regido pelo
•• sistema de anos e dias que na terra usamos, canslderando os
movimentos dos astros. No purgatório, a duração é represen-
tada -pelos atos dos espiritos, aros de conhecimento e amor;
cada um dêstes atos é uma unidade de duração ou um Instante
esplrlbJal, e cada qual dêsses instantes pode corresponder a
vinte, trinta ou sessenta ho.... do nQS$O tempo solar (como
uma. pessoa pode permanecer horas continuas em êxtase. aI).

-255 -
24 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 126/1970. quo 3

sorvida por um único pensamento); os atos sueesslvos dos espí-


ritos constituem a série dos instantes espirituais chamada cevo:t
ou cevitemidade:t. Ora, jã que não- se vê qual a proporção vi-
gente entre o tempo solar e o evo dos esptrltos, torna-se-nos
impossível avaliar a duração das penas do purgatóril> para al-
guma alma.

21 Rogar às ub"us cio purgatório 1


:e costume não raro entre 'OS fiéis invocar as almas do
purgatório tl fim de que intercedam por interêsses dos cristãos
na terra.
será justificado? . . recamendável?
- Até o século XVI, os teólogos, inclusive S. Tomás de
Aquino (+ 1274), eram contrários a tal praxe; julgavam que
as almas no purgatório precisam de auxilio mais do que podem
dar auxilio pela oração; acham-se em estado passivo e em
expectativa, não em condições de exercer algo em favor do
próximo. Apelavam também para o fato de que a Liturgia da
Igreja nunca invoca os fiéis do purgatório.
Todavia, a partir do século XVI. tem-se difundido a opi-
nião contrária à dos autores medievais. Os teólogos dos últimos
séculos observam que o fato de estarem expiando e não pode-
rem merecer não impede que as almas do purgatório orem em
favor de outros. Têm inteligência e vontade lúcida; conservam
tôda a caridade que as animava na terra em prol dos demaIs
membros do Corpo Místico; por que então não atuar1am em
nosso beneficio? Deve haver fluxo e refluxo entre a Igreja
triunfante, a padecente e a militante.
Nada de decisivo pode ser Objetado a estas oonsicrerações.
A autoridade eclesiástica hoje reconhece a legitimidade da
invocação das almas, embora êste costume não tenha entrado
na Liturgia da Igreja. Contudo deve-se recomendar moderação
em tal praxe. O estado das almas do purgatório exige que
pensemos em auxiiw-Ias por nossas orações mais do que em
ser auxiliados 'Por suas preces; prevaleça a recordação de suas
indigências mais do Que a das nossas!
BlbUopafla :

C. POl(!, .Teologla dei mAs allb, em cBAC» n' 282. Madrid 1968.
E. BeHencourt. cA vida quI:' começa com a morte». Rio de Ja·
nelro: ~

- 256-
«ERAM OS DEUSES ASTRONAUTASh 25
Garrlgou.Lagrange, «O homem e a eternidade». Lisboa 1959.
«Se pur111er pour volr Dleu», em «La Vle Spirltuelle» t. LVIII
n· 491 (1963': namero Inteiro dedicado ao purgatório.
M. Jugle. eLe Purgatolre et les moyens de l'évlter». Paris! 1940.
..Chrlstus. cahlers Splrltuels», t. 9 nO 34 (1962).

,
,}

( 111. NA ERA DA ASTRONÁUTICA

• 8
4) c'Eram OS deuses astronautasT' Um Uvro que empolga
pode provocar revolução tanta DO plano da ciência. como DO
da ReUgião.
Que dizer dos mistérios apontados pelo a.utor?»
Em slntese: Erlch VOR Diiniken, na obra acima, cita numerosos
dados da arqueOlogia , da geqlogla e da história anUga que o 1evam a
crer tenha sido a Terra outrora visitada por astronautas extraterres-
tres. &tes. dotados: de clvillzaÇlo avancadlsslma. passaram por «deuses»
aos olhos dos homeM da pré-hlstórla; é o que explica que as tradições"
mais andgas do g~nero humano falem de «deuses» e lhes atribuam
façanhas maravilhosu. t!stes astronautas fecundaram mulheres de
modo a produzir homens Intelectualmente reforçados, que deram gran·
t1e impulso ao progresso eultu.ral do gênero humano; também ensl·
naram aos homens 08 N'!CUl'SOS da arte e da Ind6strla que hoje admira·
mos nos vesUglos da prl·hlstórla e da história antiga
EvIdentemente, a tese de E. von Dlnlken lê multo mais Inspirada
peja fantasia do que pela ciência estrita. Allãs, o autor nlI.o é cientista,
mas, sim, JornaUsta. A arbitrariedade de men te do jornalista se ma·
nlfesta com tOda a clareza quando êle aborda textos blbUeos, preten·
dendo InterpretA·los segundo as SU8!I opiniões; E. von Dinlken mostra.
não conhecer, em absoluto, 8S regras óbvias e as oonch.ls6es mais fir-
mes da Ciência exegoéttca: para Interpretar a Blblla, lê preCIso voltar
• aos tempos dos escritores sagrados e procurar e ntender 08 texlo& bi·
bllcos eomo ~es os entendiam. E. von Dânlken nlio sõmente não faz
tste trabalho, mas lt a Blblla através das lentes de suas teorias.

.•• Em suma, o livro «Eram os deuses astrona.utas 1» 6 Interessan.


tlssImo como coletlnea de dados maravilhosos, mas vulnerAvel do
ponto de vista «Interpretaçllo dos dados»,

---x---

,
'I
l!osp<>ola: Thtá multo em voga o I:vro eRram OS dê~ê!i
astronautas? Enigmas indecifrados do passado», da autona. de
Erlch von Dãniken. Escrito em alemão no ano de 1968, foi
.traduzido para vários Idiomas, e já apareceu em p<>rtug\!õs na
• sua terceira edição (EditOra Melhoramentos, 1970). O mesmo
- 257-
26 'lPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 126/1970. qUo 4

autor escreveu posteriormente um livro que complementa o


anterior com n evos dados e conjeturas, e traz em português
o título eDe volta às estrêlas. Argumentos para o impossível:.
(mesma editôra, 1. edição em 1970).
Analisaremos abaixo a tese proposta por E. von Dãniken.
após o que, sugeriremos algumas reflexões a respeito.

1. «Eram os deuses astronautas?»


Erlch von Dãniken é um jornalista alemão (não geólogo.

físico, historiador .. . ). que percorreu quase o mundo inteIro,
observando rochas. montanhas, monumentos, túmulos, inscri-
~ões e outros documentos da civl1ização antiga . . . Impressio-
nado por quanto encontrou, deixou Que a fan tasia trabalhasse
sóbre tais dados e formulou a seguinte hipótese apresentada
nos livros citados:
Nos tempos pré-históricos, a Terra foi repetidamente visi-
tada por astronautas provenientes de outros planêtas. Porta-
dores de civilização e técnica muito avançadas. pareciam deuses
aos homens terrestres pré-históricos, OS quais, em conseqüên-
cia, passaram a falar de cdeuses» em suas tradiçÕes (dai o
titulo do livro «Eram os deuses astronautas?»). Tiveram uniões
sexuais com mulheres da pré-histôria - o que deu grande
incremento à inteligência e aos talenfQ) do nosso gênero hu·
mano. Os cosmonautas extraterrestres deixaram na terra ves-
tigios de sua passagem (monumentos, máquinas, instrumentos
de trabalho) e ensinaram aos homens numerosas técnicas. para
que fôssem subindo no plano cultural.
Assim, lXll' exemplo, diz o autor que «em Nazea (Peru),
situado num vale dos Andes, hã um campo de pouso com pis-
tas em solo rochoso que medem 60 km de extensão. Na mesma
região há um verdadeiro balizamento para facilitar a aproxi-

mação de astronautas; são sinais de 250 m de altura. gravados
em alcantilados rochedos:t (pp. 305). I
Os pretensos astronautas seriam provàvelmente habitantes
de Marte. -Dte planêta tem dois satélites (Deimos e Fobosl,
de mlnimas dimensões (cêrca de 8 e 16 quilômetros de diâ-
metro respectivamente); julgam alguns cientistas que se trata
de satélites artificiais, o que levarla a crer numa civilização
outrora existente em Marte e talvez extinta em nossos dias.
.',
«Se uma catâstrofe de origem cósmica pode ser levada
em considerar;io como causadora do aniquilamento de uma
_ 25R_

<tERAM os DEUSES ASTRONAUTAS?

civiliZ8(ão sôbre 'O planêta Marte, então tais indicios também


retarçam a nossa teoria de que a terra, em obscuros tempos
arcaicos, possa ter recebido visitas do espaço, Fica, portanto,
de pé a possibilidade especulativa de que grupos de gigantes
marcianos qUiçá se salvaram na Terra, onde fundaram, em
conjWlto com os sêres semi.inteligentes vivendo aqui ent8o. a
nova cultura do homo sapiena. Como a gravitação de Marte
I é menor do que a da Terra, é de se supor que a constituição
física do homem de Marte fôsse mais robusta e de porte maior
do que a dos habitantes da Terra. Se nessa teoria houver um
halo de realidade, então teríamos ()S gigantes que vIeram das
cstrêlas, que eram capazes de mover blocos colossais de pedra,
que ensinaram aos homens artes ainda ignoradas e que, final-
mente, Sê extinguiram . . . » (<<Eram OS deuses . .. » p. 153) .
Diante de livro tão sensacional e desafiador, é m1ster ins-
tituir
2. Algumas reflexões
Distinguiremos três pontos merecedores de atenção.
1, Observaljão ••ral
Ineg)àvelmente, o livro de von Diniken apresenta nume-
rosos dados concretos de arqueologia, história e geografia que
lançam questões ao observador. 1!; multn útil tomar conheci-
mento dêsse material; a cultura geral do leitor assim se enri-
quece, enquanto a Inteligência é estimulada a raciocinar.
Todavia note-se que o autor não é propriamente um cultor
das ciências naturais e humanas, mas um jornaUsta, que role-
tou dados, e tenta interpretâ·los, antes do mais, com a fan-
tasia. A superficialidade das interpretaÇÕes dadas por von
Dlinlken é particularmente evidente quando êle aborda textos
biblicos, como se verá abaixo.
As analogias que o autor pretende descobrir entre certas
rochas e as obras da escultura humana, não bastam para asse-
, verar que aquelas tenham sido talhadas por artistas marcia·
nos. Aqui no Brasil mesmo há montanhas impressionantes,
como 'O Dedo de Deus e a Verruga do Frade (Serra dos Orgios,
TerHópoIls), o Frade e a Freira (perto de Vitória, no Espiriro
Santo). As grutas de Maquiné e Lagoa Santa apresentam sa·
lões subterrâneos, em que a erosão e os calcâreos produziram
\
• bellsslmas obras naturais, semelhantes a rendas, vestido de
noiva, bOlo de casam~pto, trono real ... Ora ninguém pensa
em atribuir tais desenhos a artistas humanos.

- 259-
28 cPERGUN'TE E RESPONDEREMOS. 12611970, quo 4

Ademais pergunta-se: por que não voltam OS habitantes


de Marte ou de outros globos à Terra, desde que temos cons-
ciência da história do gênero humano (há cinco ou sete mil
anos)? Será de crer que a civilização de todos êsses sêres ra-
cionais se extinguiu'!
:s; oportwro, sem dúvida, procurarmos reconstituir o pas-
sado e prever o futuro de nossa história. 'l: também plegável
que os anti&os nos deixaram monumentos (as pirâmides do
Egito, por exemplo) que atestam elevados conhecimentos cien-
tificas; isto nos incita a procurar explicar a origem de tais
conhecimentos. Faz-se mister, porém, que nesse setor n fanta-
sia permane-;a sempre sob o contrôle da ra2ão.
21 Habitantes.m outros planitas
Diz O erudito jornalista que .. há 18.000 planêtas relativa-
mente próxiMOs de nós. os quais oferecem condições necessárias
à vida, similares às que existem na Terra»; ainda que só l?ó
dêsses planêtas seja habitado, haveria 180 planétas habitados
(cf. p. 13).
Aos astrônomos compete julgar tais dados nwnéricos.
Continua o escritor asseverando que, quando se provar
realmente a existência de sêres inteligentes fora da Terra, eSe
tornarão duvIdosas as nossas religiões e se deflagrarâ a maior
das revolucÕes e uma total reformulação da História da Hu·
manldade. (p. 69).
Ora é de notar que a existência de habitantes em outros
planêtas se condlia perfeitamente com os dados da fé cristã:
Deus só revelou aos homens o que diz respeito ao gênero hu·
mano terrestre e à sua salvação por Jesus Cristo; fora disto.
pouco ou nada se conhece dos insondáveis desígnios divinos.
Desde o século passado, observam os teólogos a conveniência
de que outros planêtas sejam habitados por sêres inteligentes;
êstes dariam a Deus a gJória que tanta matéria não Lhe pode
dar. Apenas é de notar que os homens extraterrestres seriam
devedores de fé e amor ao mesmo Senhor que nos criou, quanto
ao mais, a prudência manda qUe nos calemos, pois ignoramos
por completo a história religi1lSa de tais hipotéticos sêres.
3' E a IlbIla?
Ê quando von Dãniken recorre à BIblla que mais se podem
avaliar as suas teorias, pois a Biblia é um livro que as ciências
(lingüística, arqueologia, historiografia ... ) têm estudado cri·
teriosamente, de modo a depreender o seu sentido exato.

- 260-
«ERAM OS DEUSES ASTRONAUTAS? , 29

Examinemos, pois, as principais reflexôes do erudito jor-


nalista em t Orno da Blblia.

CI) O conceito d. Deus


Julga von Dãniken que . algumas das ocorrências narra-
das no Antigo Testamenbo não são compatíveis oom o carãter
de um Deus bondoso, grande e onipresente. . . Aquêle que
deseja conservar intangíveis as teses da fé blblica. deve ou
deveria estar interessado em esclarecer quem, afinal, educou
os homens na antigüidade, quem lhes deu as primeiras regras
para um oonvIvio social... e quem destruiu os pervertidos.
Se pensannos e perguntarmos assim, não estaremos sendo
ateus. Temos a firme convicção de que, quando a última. per-
gunta re1ativa ao nosso passado tiver merecido uma resposta
genuina e convincente, ALGO restará no Infinito que, por falta
de nome melhor, chamamos DEUS, (p. 68s).
Ora quem lê as narrativas do Antigo Testamento, verifica
nelas a imagem de Deus que trata com um povo «de dura
cerv~:t, 'Ou seja, rude e primitivo; ês.se Deus pune, mas se
revela também como «o Deus de Bondade e A.m.or:t ; :Já no
Antigo Testamento se manifesta eloqüentemente o amor de
Deus:
cO Senhor vosso Deus vos escolheu ... dentre todos os povos que
eslAo s6bre a 1ace da terra. O Senhor aderiu a VÓ5 e vos escolheu,
não porque ultrapasseis em número todos os povos: sois o mlnlmo
de todos os povos. Mas, porque o Senhor vos ama e quis cumprir o
juramento que 1h a vossos pa.ls~ (Dt 7,65L
-«Sabel que não é por causa da vossa Justiça que o Senhor vosso
Deus vos dA. êase belo pais (Canalll como proprledade : sois um povo
de dura cerviu (Dt 9,6: cf. 4,371.
Quem educou o povo de Israel, levando-o paulatinamente
a compreender as exigências do amOl', foi o próprio e único
Deus, e não «deuses, (astronautas) provenientes de outros
planêlas. Deus não é ALGO, mas ALG~. a Suma Sabedoria
e o Primeiro Amor.
Embora as diversas crenças religiosas da humanidade con~
cebam numerosos deuses, a sã razão ensina que só pode haver
um Deus: um Deus Santo e Perfeito, tonte de tõdas as per~
feicÕes existentes nas criaturas. Os conceitos fantaslstas de
Deus propalados por povos de mentalidade primitiva. não nos
devem tomar céticos no tocante ao conhecimento de DeUSj a'O
homem é possivel, sim, chegar pela razão e pela fé à noção
do Deus único e verdadeiro.
- 261-
30 cPERGl..JNTE E RESPONDEREMOS:. 12611970, quo 4

o tato de que Deus na Bíblia fala de si na primeira pessoa


do plural ( c:~os o hamem segund::. a nossa imagem . .. _,
por exemplo, em Gên 1,28), não quer dizer que a Blblia insinue
multiplicidade de deuses. O plural, no caso, é intensificativo:
cElohim, (em lugar de El) quer dizer «O Forte ou o Poderoso
por excelência• .
À p. 51s do seu livro, von Dãniken sugere algo de s1ngu~
lar: os filhos de Deus que tomaram por mu1heres ftlhas dos
homens (cf. Gên G.ls), deveriam ser marcianos. Ora a sadia
exegese ensina Que «filhos de Deus:., no caso, são os homens
bons, e «filhas dos homem;, designam as mulheres ~adoras.

b) Sodomo e Gomorm
A destruição de Sodoma. e Gomorra, de que tala Gên 19,
teria sido provocada pela explosão de uma bomba atômica lan-
çada por cosmonautas! ...
- Os estudiosos explicam a ruIna das duas cidades pela
geologia da própria região. Esta é rica em betume e petróleo
(grandes depósitos dêstes materiais foram encontrados na re-
gijo do Mar M-o.rto); também é marcada pela presença de gases.
Ora um terremoto terá provocado a combustão do petróleo e
dos gases, dand.l assim orlgem li terrível destruição descrita
em Gên 19.

c) O «carro» do Senhor

o profeta Ezequiel, no capítulo 1" do seu livro. destre\7é


o mar.avJlhoso carro do Senhor na Mesopotânia, sustentado por
quatro estranhos viventes e dotado de Quatro NXlas. O jorna-
lista von Dãniken identifica tal veículo com wna nave espa-
cial piJotada por cdeuses:. ou astronautas extraterrestres.
A propósito, cJeve.se dizer que, embora certos pormenores
da vislo de Ezequiel fiquem obscuros. tal visão quer significar
a «mobilidade espiritual. do Senhor: a presença de Deus não
é Umitada ao templo de .Jerusalém, mas acompanha seus fiéis
até a terra do exilio (Mesopotâmia), onde se encontra Ezequiel.
O carro, por conseguinte, é mero simbolo, pois DeU$ niiQ usa
veiculo; os estranhos animais que ornamentam o carro, lem-
bram os lmribu asslrjos (nome correspondente a. querubins); os
karibu eram animais monstruosos cujas estátuas se achavam
colocadas lã entrada dos palácios da BabUônia: tinham cabeça
de homem, busto de leão, patas de touro e asas de águia. O
profeta Ezequiel inspirou-se nessas estátuas para descrever o
-262-
cERAM os DEUSES ASTRONAUTAS1J. 31

simbólico carro do Senh()r~ Eis a explicação científica a ser


dada à vislo de Ezequiel.
dIA arca ela anaft{a
Deus revelou a Moisés o modêlo conforme o qual deveria
ser feita a Arca da Aliança. (cf.:b: 25, 40). Mais tarde, na
ocasião em que a Arca foi transportada para Jerusalém, Oza
ousou tocá-la com a mão; então, como que atingido por um
raio, Oza caiu morto instantâneamente (cf. 2 Sam 6, 3-7) .
Quer isto dizer que a Arca estava eletricamente carregada,
como pensa von Dãniken (renovando, aliás, a hipótese de cer-
tos comentado.res de tempos passados)?
A eletricidade era elemento desconhecido aos homens nos
séculos xm/X a . C. Se, não obstante, Moisés e os israelitas ja
a utilizavam nessa época, não se entende que tenha caldo no
esquecimento e desuso.
Na verdade, o jornalista alemão propõe Interpretação es-
tranha à mentalidade do texto sagrado. Quem lê o texto de
2 Sam 6,6s, verifica que a causa da morte de Oza. não se deri-
vou diretamente da arca sagrada: houve uma Intervenção de
Deus. entre o toque da arca e a morte de Oza.
E IX'r que terá o Senhor fulminado Oza por haver tocado
a arca de Deus?
_ . A Lei de Moisés proibia aos Israelitas violar os objetos
do culto com olhares ou toques indiscretos; ora cna ousou c0-
locar a mão na arca do Senhor. A pena de morte, no caso,
pode parecer excessivamente severa: todavia deve ser consi-
derada à luz do rigor com que em Israel era. punida a violação
das coisas santas. Ademais é preciso não esquecer que os epi-
sódios do Antigo Testamento se referem a um povo que multas
vêzes só se rendia às impressões fortes; em conseqüência, a
pedagogia divina recorrIa a InteIVenç3es marcantes, todavia
sem detrlrnenro da justiça (se os homens têm O senso da jus-
tiça, multo mais Deus o tem).
e) A longewldode dos antfgo'
E . von Dãniken impressiona-se pelas noticias de que os
surnériO$ viviam de2enas de milhares de anos (os Patriarcas
bíblieos viviam centenas de anos) . .A fim de explicar êste dado
literário, apela para a teoria da relatividade de Einsteln e as
viagens dos astronautas (num inciso, aliás, ru;saz confuso;
cf. pp. 395).
- 263-
32 cpmGUNTE E RESPONDEREMOS~ 126/ 1970. quo 4
, I

Na verdade, os séculos ou milênios de vida Que os antigos


povos atribulam a seus primeiros reis ou Patriarcas, devem
ser entendidos slmbôllcamente: designam simplesmente a auto-
ridade e a venerabilldade de que gozavam tais heróis (todo
mestre venerando é clàssicamente concebido como ancião en·
canecido e, por isto, respeitável). Não é preciso, pois, procurar
na matemática a interpretação da dongevidade:. dos antigos,
pois esta nlo tem sentido cronológico. Os Patriarcas blbUcos e
os reis suml!rios viveram quanto podiam viver os homens nos
primórdios da história da civilização.
fi Mol"1 e o Pentateuco
A p. 68 escrevI! o jornalista alemão:
«Consta que Moisés escreveu os cinco primeIros lIvros bi-
bllcos, embora até hoje seja um mistério lndeclfrado qual a
língua em que ~le possa. tê-los escrito~ .
Na realidade, consta que Moisés não escreveu os cinco
livros lniciais da Bíblia tals como êles hoje são. No século xm
a'. C. Moisés codificou as tradições já existentes, orais e escrl·
tas, juridlcas e históricas, do povo de Israel, dando assim inicio
à Torah ou A Lei de Moisés. No decorrer dos tempos, o bloco
legislativo deixado por Moisés foi sendo. por sua vez, adaptado
a tempos e lugares sucessivos; diversos autores e grupos de
autores deram-lhe sua contribuição própria. Só no século V
a. C., por obra do escriba e sacerdote Esdras, é que o conj\D1to
rustórico-legislativo de Israel chegou 'à sua fomm. definitiva.
Por conseguinte, a Lei dita de Moisés deve~J em substAncia,
a êste legislador; o seu espírito é o de Moisés, mas a sua tonna
literãrla revela a fusão de quatro documentos (Javlsta, Elo[sta,
Deuteronômi.o, Código Sacerdotal) oriundos em épocas e cir-
cunstâncias várias da história de Israel. Cf. • P .R .» 100/1968,
pp. 142-168.
Mais ainda: ao interpretar o livro do Gênesis, o jornalista
alemão mostra desconhecer as mais elementares regras de
exegese. Cf. cVolta às Estrêlas~ p. 164, onde o editor brasileiro
do livro chega a corrigir o autor. Os apócrifos e os livros bI.
blicos autênticos são usados promiscuamente.
Em S\Ul'Ul., estas e outras observações em tômo dos conhe.-
cimentos blblicos de E. VOR Dâniken evidenciam que o autor
não foi um exegeta propriamente dito a'O utilizar o Uvro Sa·
grado ; deixou.se levar por preconceitos e fantasia mais do que
por estudos blbUcos. Não é asslrn Que se constrói uma teoria
cientl!lca.
-264 -
cO CRISTO RECRUClFICAIXb 33

3. Conclusão
Os dados n.ã'O bibllcos que E. von Dãniken apresenta para
fundamentar sua tese, devem ser estudados cada qual de per
si. Há realmente elementos da arqueologia e da história antiga
que náo se explicam fAcilmente; tais são os achados da ilha
de Pâscoa, situada a 3 .600 quilômetros do litoral do Chile:
apresenta vestígios de clvUi:zação cuja 'Origem não foi até hoje
elucidada. E. von Dãnlken interpreta-os como restos da estada
de marcianos na terra; todavia bem se poderia dizer que se
trata de destroços da população que habitava 8. ilha de Pãscoa.
quando esta ainda estaV8. unida a"O continente ...
Numa. palavra, a tese globa] do jornalista alemão parece
fantasista e arbitrária demais para. poder ser razoãvelmente
aceita. O -mérito do autor estã, antes, em ter colecionado tão
numerosos e importantes elementos arqueológicos, cujo conhe·
cimento só pode deleitar o leitor e estlmulá·lo à reflexão obje·
tiva e serena.

IV. UM DESAFIO

5) «'O Cristo I'OO'nlcUlcado·... Romance de Niltos J[a..


zantzaJds, C!'"' desafia OS cristãos. Ababro a InéreJa!.
Em .1nteHl: Nlkos Kazantzakis é um escritor grego que. após
multo viajar em palses cristãos e socialistas, deixou obras que visam
a despertar os cristãos para a mensagem social do Evangelho.
Em cO Cristo recruclficado» apresenta a 11gura de um jovem
criStAo Que di a vida, vitima de seus protestos e sua ação contra as
Injustiças social, praticadas por uma povoaçAo de cristãos riCO!!, ava·
rentos e goudores despreocupados. O autor Insinua que hoje Cristo
seria a cGuerru e B Cruz redentora seria - o 1)etróleo Que lncendearla
as cuu dos nCOP ... De resto, todo o livro ê perpassado por um
esptrlto de crlUca nio &bmente ao CrIstianismo aburguesado e aco-
modado, mas também à Religião como tal (que o autor tende a iden·
titlcar com crendices via).
~ evidente que tal Interpretaçlo da mensagem crista. é :falsa. De
um lado, nAo se pode negar o Im~rloso dever que Incumbe aos cris-
tãos, de se inte~ssar eficazmente pela sor[e dos povos subdcsenvolvi·
dos. Doutro lado, porém, deve-se reconhecer que o Evanselho a presenta
9 N'Por do homem ao próximo C9mo decorrência do amor a Deus. O
Crtatlanlsmo jamais poderia esquecer a sua dlmenslo vertltal, que 6
prlmaelal, e sem • qual nem a horizontal se conserva autêntica. Para

- 265-
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 126/1970, qu , 5

que o crlstao possa ser verdadeiramente !lei ao seu lrmIo, é neces-


atrlo que se Inspire em Deus e nos va1&res sobrenaturaJs. Ademais ê
evidente que .. Cruz de Cristo nllo .s.lgnltlea petróleo lncendlbio, mas,
sim, amor que é forte e tenaz e que só em casos ex«pcionais se vê
obrlpdo a recorrer 1 violêncla.

---x---
Respost&: Nilcos Kazantzakls nasceu na Ilha de ereta ,
(Grécia) em 1873. Durante a sua infância. foi testemtmha da
guerra. dos gregos contra o domlnlo turco. Estudou Direito •,
em Atenas, e seguiu para Paris, onde sofreu a influência de
Renri Bergson, filósofo judeu, amigos dos sant~ e místicos. •
Viajou muito. chegando à China e ao Japão, Passou um
periodo de retiro no Mante Athos (Grécia), onde há venerável
e famosa colônia de monges cristãos ortodoxos ( ~ orientais
cJsmáticos). Visitou a. Rússia, movido por profunda admiração
a Stalin. Desde a juventude, foi socialista miUtante. Em 1945
tomou-se ministro do Estado grego; postenonnente ocupou
Importante cargo na direção da UNESCO. Uma vez aposen-
tado, dedicou-se exclusivamente à produção literária. Faleceu
na Alemanha. em 1957.
O mais famoso romance de Kazantzakis é cZorba o Grego ~ .
Todavia o que mais interpela o cristão, é certamente cO Cristo
recruciflcado~. que a Editôra «Nova Frontelru (GB) publicou
em português. na. tradução de Guilhermina Sette.
Nas pâginas que se seguem, apresentaremos prImeiramente
o conteúdo de cO Cristo recruclficado., o que permitirA um
juízo sereno sôbre o livro.

1. «O Crisf.o recrvcificado»

Na aldeia de Lycovrissi (Anatõlia, Turquia) vive pacata-


mente urna população grega, de religião cristã ortodoxa (sepa-
rada de Roma). O Governador ou agá do povoado é um turco,
que vive interessado prIncipalmente em comer, beber e fumar.
Os cristãos de Lycovrissl têm por ~tume representar de
sete em sete anos a Paixão de Cristo na Semana Santa. Por
isto, em determinado ano, o Conselho dos Anciãos ou mai~
rais, reunidos em casa do pope (sacerdote) Grigorls, escolhe ,
os companheiros que no ano segulntf;! deverão fazer os papeis
respectivos de Cristo, dos apóstolos Pedro, Tiaga, João, de •
Judas e de Maria Madalena. ~ses escolhidos são gente rude,
- 266-
,.0 CRISTO RECRUC[FICADO~

como, aliás, tOda a população da aldeia; têm suas falhas mo-


rais mais 'Ou menos notórias: cedem à ganãncla do dinheiro
e aos prazeres da carne, excetuando-se apenas o jovem pastor
Manólios, que deve fazer as vê:zes de Cristo. Educado em um
mosteIro, sob a direção de santo monge, Manóllos conservou
costumes puros, mesmo depois de ter sido trazido para Lyco-
vrtssi por Pabiarchéas, o principal dos ricaços da aldeia .
- Uma vez escolhidos para desempenhar os papeis de Crlsto e
dos Apóstolos, os companheiros começaram a se compenetrar
do Evangelho e de suas exigências.
• Um belo dia aparece às portas de Lycovrissi uma grande
caravana de gregos com seu pope Photls; tendo sido expulsos
de sua região pelos turcos. pediam refúgio na aldeia dos com·
patriotas. :estes, tendo à frente o pape Grigoris, résolveram
repelir duramente os desterrados. miseros e famintos, pretex·
tando que eram portadores de doença infecciosa, a qual pre-
judicaria o bem comUm em Lycovrissi. Comodismo e ganância
assim sufocaram a caridade cristã.
Rechaçados, os pr6fugos estabeleceram-se na montanha
de Saraldna, próxima de Lycovrissl, onde haviam de tentar
subsistir apesar de sua extrema indigência.
Ao presenciar tal gesto dos habitantes de Lycovrissi, Ma·
nóUas concebeu tristeza e repúdio. Chamou a atenção de seus
companheiros que haviam de representar Pedro, Tiago e João;
na-lhes o Evangelho. Em conseqüência, os quatro homens iam
mudando de mente, e mais e mais se interessavam pela sorte
dos prófugos de Sarakina.
Sobreveio um incidente na aldeia. .. Certo dia amanheceu
assassinado Youssouf, o pagem do agá. ltste, em sua rurla,
queria vingar-se enforcando todos os habitantes de Lycovrissi;
todavIa Manólios. a fim de salvar B sua gente, se apresentou
ao governante como se fOra. o homicida. Ia ser executado em
praça públlca, quando uma velha doméstica do agá demons·
trou que o verdadeiro réu era outro servente do próprio agé:
êste então foi bàrbaramente trucidado.
Percebendo a insistência ae Man6lios e seus companheiros
sensibilizados pela indigência dos prófugos. o pape Grlgoris
• lançOu a excomunhão sôbre ManóUos. :este foi tido como hipó-
crita, que, com semblante e atitudes de santo, não visava. senão
destruir a felicidade da aldeia.
Com o passar do tempo morreu o velho Patriarehéas. Seu
fUho Michells (designado para ser o Apóstolo João) , cada vez

- 267-
36 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 126/1910, qUo 5

mais convicto de que não podia pactuar com o egoismo dos


seus, resolveu dar a herança - as terras e propriedades do
pai - aos famintos de Sarakina ... Sabedores do fato. 09 mi-
seros desceram à aldeia de Lycovrissi para tomar posse dêsses
bens, mas foram duramente repelidos pela população; esta ale-
gava que Michelis era um alienado, incapaz de assinar vàlida-
mente um documento de doa cão.
Provocados por tal atitude, os pobres de Sarakina, cujos
filhos vão desfalecendo (apesar dos auxlUos que lhes prestam
os <lApóstolos~), precipitam-se armados sObre Lycovrissl. De-
sencadeia-se uma luta sangrenta entre os habitantes da mon-
tanha e os da aldeia. O agã, lntonnado, pouco se importa com
a questão, até o momento em que lhe dizem que o promotor
da celeuma ê eManólios, o bolchevista», agente da Rússia que
põe em perigo a própria nação turca. Então, o agi chama o
jovem pastor e o interroga. Manólios toma sôbre si a plena.
responsabilidade do tumulto, e se reconhece réu de morte, a
fim de que o agi desista de punir os demaIs cristãos. O chefe,
a principio, não quer acreditar na culpabilidade do santo pas-
tor; Manólios, porém, atendendo a rogos do próprio agi, ma-
nifesta tudo que pensa: afirma seu desejo de conclamar os
homens do mundo inteiro, para assaltarem ..as grandes chia-
des apodrecidas. (p. 457) . Então, constrangido, o agá entrega
o jovem à população de Lycovrlssi, que na igreja da aldeia.
o executa. Manólios morre como vitima Inocente, salvando
assim os seus próprios adversários, os habitantes da aldeia.
- Vendo perdida tOda chance de permanecer na região, os po-
bres de Sarakina se põem de nôvo a caminho em demanda de
melhor sorte.
Kazantzakis tem a habilidade de prender a atenção do lei-
tor por todo o decorrer de 467 páginas. Descreve ambiente e
costumes orientais com vivacidade e crueza. Sabe narrar com
finura e sarcasmo as atitudes hipócritas da falsa religião. Infe-
lizmente, porém, ao mencionar a sensualidade dos personagens
em cena. desce a observações que têm sabor picante e são
dispensáveis.
A .traduciio reoorre à linguagem popular, que a clâsslca
gI'lll1lé.tica reprovaria. Assim OS pronomes de caso obllquo da
terceira pessoa jamais ocorrem~ por conseguinte, lê-se . rece-
ber êles, deixar êles, conhecem êle, acorda êle ... ~ (pp. 32. 34.
37 ... ). O verbo «tem» substitui o «hb (exJste): c:tem luar~
(p. 2)7) . Certas frases começam por pronome átono; assim
-268 -
cO CRISTO RECRUClFICAOO. 37

«me dê» CP. 406). O emprêgo de tais locuções concorre para


tornar mais picante a tese do livro.
I!.: natural agora. a pergunta:

2. Qual a mensagem da obro ?

1. 1:: evidente que Kazantzakis quis insinuar o que êle


julgava ser o sentido da. PaIxão de CrIsto ou o que seria a
Paix.ão do Senhor Jesus em nossos dias, caso Cristo viesse de
nôvo à teI'I'B..
No sofrimento ê na morte de Manólios rêproduzem-se os
traços caracterIstlcos do padecimento do Senhor Jesus. Sem
culpa alguma, Manólios perece para libertar da ruina os seus
compatriotas, qUe são também os seus algozes. A hipocrisia
farIsaica Inspira o ódio contra o pastor, que desmascara a falsa
religiosidade de sua. gente. O agá turco lembra Pônclo Pllatos,
que não deu importância aos liUgios dos judeus, mas se viu
sobressaltado quando lhe disseram que sua inércia contradiria
aos lnterêsses de César e, em última anâlise, aos seus Inte-
rêsses pessoais ...
Em conseqüência, o llvro de Ka2antzaJés não é um 1"0-
mam~ qualquer, mas um romance ideológico, cuja tese pode
ser assim reconstltuida:
Cristo morreu para libertar os homens do jugo do pecado.
A Cruz foi o instrumento dessa libertação no século I da era
cristã. . _>.- . .! ~.~
Ora hoje em dia o pecado se concretiza na opressão do
homem pelo homem; são as injustiças sócio-econOmicas, aco-
bertadas por uma religiosidade hipócrita, a qual vem a ser
garantia e tranqWlidade para OS poderosos iníquos. Por conse-
guinte, o autêntico cristão, disclpulo e continuador de Cristo,
deve-se engajar decididamente na mudança das estruturas s0-
ciais, até mesmo mediante a revolução armada, o recurso ...
violência. aos incêndios. . . l!; extremamente significativa a
aflnnação de Yannakos (<<o Apóstolo Pedro») :
«Se Cristo descesse hoje à terra, nesta terra assim como
ela está, que é que você pensa que ia trazer no ombro? Uma
eras! Niol Um latão de petróleo ... Dei B minha palavra de
- 269-
as "PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 126/1970, QUo 5

honra a Deus como vou queimar 8 casa do velho Ladaa.


(p. 414) '.
O Cristianismo deveria, por consegun.lte, Inspirar a revI).
lução armada.
Também merece atenção a seguinte passagem:
Michelis contempla uma efígie de Cristo escu1pida por
ManóUos na madeira e pergunta:
«Quem é êste personagem? - 1: a guerra!
- Não, é Cristo, respondeu Man6liO$, enXUgando a testa
coberta de suor.
- Mas então que diferença há entre ~Ie e a Guerra?_
Em outra secção diz Loukas:
«Pão e petróleo! Tem razão, Yannakos. O homem sente
necessidade destas duas coisas para viver e para se vingar,
porque viver não basta. (P. 41l5).
O Cristianismo deveria, por conseguinte, inspirar a revo-
lução annada no mundo atual. Os padres deveriam segulr O
exemplo do pope Photls, que, insplrado por Santo Ellas, .dIs·
tribuiu aos mais valentes as annas de que dispunha. (p. 420) .
O próprio profeta EIlas, n() romance, se confW1de com um
lObo.
e o que se dá Quando quatro companhelros revoltados se
aprestam 8 descer de Sarakina para assaltar a casa do velho
Lados:
cDe repente, um uivo prolongado ressoou ao longe, para
. os lados do pico da montanha, perto da capela do Profeta
Elias; os quatro homens pararam.
- li: um lObo, disse Yannakos; também está com fome.
- Talvez seja santo Elias, disse Loukas õ êle .tem fome
também.
- Santo LObo, venha ajudar a gente! disse Yannakos. -
Vamos, rapazes~ os cordeiros nos esperam lã. em baixo»
(p. 405).

1 Ladas era um dos magnatas de Lycovrlss.l, homem rico e ex·


tremamente avarento. ~ O petróleo, no caso, seria o melo de atear
toco. casa e l.a posses do velho; seria também O slmbolo da dfltrulçio
vlolenta da ordem vigente.

- Z10-
"'0 CRISTO RECRUCIFICAOO. 39

2 . Note-se mais: referindo-se a Deus, o autor emprega


tuna série de expressões ambi~as, que suscitam estranheza
na mente de um leitor cristão (ou que fazem eco a cslogans»
do ateismo marxista).
ASslm, por exemplo, Kazantzak1s atribui a Yannakos OS
seguintes dl2eres:
«NãO se pode esperar tudo de Deus. :ele é bomj não digo
o contrário. Dl85 tem tantas fOutras eoisa.s pa.... f8.lJeil'1 Vamos
nos mexer um pouco. Ajude-se, o Céu lhe ajudará. 'Lôbo, por
que está tão gordo? - Porque vou à caca sõzinho~' Nunca se
está. tão bem servido como por nós mesmos. Vamos então nos
servir esta noite ... Companheir.os, a caminho!» (p. 404).
Nestas afirmaÇÕeS encontra-se, sem dúvida, algo de vert-
<fico; Deus n.ão dispensa o trabalho do homem, mas pede-lhe
que se esforce e lute lealmente por implantar a ordem e o
amor sObre a. terra; ninguém julgue que, por ser amigo de
Deus, pode cruzar os braços e aguardar que cas cotovjas calam
do céu jã assadas. (p. 404). Todavia êsses mesmos di2eres
insinuam ironia a respeito de Deus e da Religião: Deus seria
um papal bom ou cbonachão., todavia um papai que o homem
dispensa quando quer deveras resolver os seus problemas.
Consldere-se também a seguinte passagem:
Yalmakos possula um burrinho. chamado Youssoufaki,
que caira em poder do avarento Ladas. Certa noite, o bur-
rinho sonhou que o seu verdadeiro dono fOra vê-lo e acariciã-
-lo. Então co burrinho pacato e piedoso baixou a cabeça.:
fechou 05 olhos e dirigiu wna prece ao seu Deus - um Deus
provido de imensa e espêssa cauda e de uma grande cabeça
de burro, equipado de albarda dourada e arreiQ vennelho. bor-
dado de contas de prata parecidas com estrêlas.
Meu Deus, faca com que o sonho que me mandou esta
noite, se realize!. (p. 409).
Haverá neste tópico apenas graça e encanto Jiterâr1os!
Ou pode-se ai entrever algo de intencionalmente zombeteiro?
Talvez venha a propósito lembrar que os perseguidores do
Cristianismo no Império Romano apresentavam o Deus dos
cristãos como um Deus conocéfa1'O_ ou um Deus ccabeça de
asnO».
Também é digno de nota o seguinte eplsódk>:
Certa vez os pobres de Saraldna, aproveitand~ de pro-
visões arrebatadas em casa do veltro Ladas, conseguiram comer
-271-
40 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 126' 1970, quo 5

um pouco de pão untado com óleo. Conswniram-no como «pão


bento». Então dodos sentiram os ossos e a carne se fortale-
cerem, como se tivessem recebido o corpo. do Salvador. Depois
de beberem um gole de vinho, as mulheres não puderam con-
ter o pranto.
'Meu Deus, diziam elas, um bocado de pão, wn gole de
vinho, que mais precisa a alma para se sentir com asas?'.
(p. . 410).
Neste tópico, chama a atenção a insinuação de que pão
e óleo são o equivalente (se não o sucedâneo ... e sucedâneo
ainda melhor) do corpo do Salvador (5. Eucaristia), O autor
do romance não ridiculariza propriamente a prãtica da Reli-
gião; um leitor cristão, porem, tem o direioo de repelir as alu-
sões aelma.
Mais: o pope Photis, pertencente ao grupo dos refugiados,
prorrompe certa vez nas seguintes exclamações:
«Maldito o homem que pretende avaliar os atos de Deus
pela medida de seu próprio coração. &tá perdldo j arrisca-se
a divagar, a proterir blasfêmias e renegar a Deus ... !
Parou. Vlnham.lhe palavras aos lábios que o deixaram
apavorado. E, por fim, não se conteve mais:
'Qual é êsse Deus que deixa morrer as crianças?' murmu-
rou, levantandO-se» (p. 403) .
A observação final seria nova insinuação de que Deus é
inerte e indilerente aos homens, ou melhor, de que Deus sim-
plesmente não existe?
Passemos agora ã questão :

3. Que dizer do livro?

1. Em apreciação serena, pode-se começar por reconhe-


cer uma intenção positiva no autor do romance.
O livro pretende despertar o leitor para as obrigações &o-
cla1s dos cristãos: aquêle que di2 amar a Deus, mas se fecha
a seu irmão, nã'O é autêntico cristão (cf. 1 .10 3,16-18). Falsa
é a religião que se serve de titulos, vocábulos e ritos sagrados
para acobertar egolsmo, hedonismo, comodismo ... A popula-
ção de Lycovrissl. representa wn Cristianismo hlp6crlta, cópio
do POV()). que por certo é uma caricatura, a Qual merece ser
decididamente repudiada.

- 272-
cO CRISTO RECRUCIFICADO:.
"
Por conseguinte, o romance .. O Cristo recrucificado~ pode
prestar servlCO ao público na medida em que alerta o leitor
para os perigos da hipocrisia religiosa, mostra a hediondez da
falsa religião e lembra os deveres sociais decorrentes do Evan·
gelhQ. O cristão que labuta em favor de melhor sorte para seus
irmãos famIntos, não deve ser, por êste fato mesmo, tachado
de bolchevista ou agente da Rússia soviética. ê o Evangelho
e nos ensinamentos de Cristo que êle encontra vigoroso apêlo
e o estimulo para não cruzar os braços.
2. Todavia não se pode deixar de reconhecer que o livro
de Kazantzakis é marcado por nota fortemente tendenciosa: a
Redenção de que falam os Evangelhos e São Paulo, hoje em
dia seria a revolução social; Cristo se Identificaria com
«Guerra » e a Cruz salviflca com o petróleo que ateia incêndios.
Ora a esta tese dois reparos devem ser feitos:
a) 1:: verdade que a mensagem do Evangelho visa a re-
mediar aos males f'lSicos e temporais do homem; mas nAo ê
isto que a define propriamente. Ela tem em mira, antes do
mais, a restauração plena da ordem no mundo, que COMeça
necessàr1amente pela reconciliação do homem com Deus. A
colaboração do homem com o homem na jllSti ~a e no amor
serA utópica, se não se lhe der um fundamento mais sólido
do que a fUantropla; ela supõe, sim, a adesão do homem a
Deus. Por isto a Redenção cristã visa, antes do mais, a unir o
homem ao Criador (mediante a Religião sadiamente entendida)
para poder, conseqüentemente, W1ir o homem ao homem . O
aspecto socla1 do Cristianismo e seu empenho pela renovação
da ordem vêm a ser decorrências (sem dúvida, sérias) do con·
tato do cristão com Deus, contato que se obtém pela oracão
e a vida sacramental (a Eucarlstla jamais poderã encontrar
equlvaJente ou sucedâneo na existência do cristão) .
Ademais o homem cristão visa ao homem todo, O qual
não é somente corpo e matéria (com seus problemas de fome
e nudez), mas é também personalidade, dotada de esp1rito,
com inooerclveis aspiracães ao Absoluto e ao Infinito.
b) A ação social ou polltica do cristão só recorre à vi()-
lêncla em casos extremos, ou na absoluta falta de meios paci-
fIcos para remover uma ordem de coisas tirânica e duradoura..
Enganar-se-ia quem julgasse que petróleo e incêndio são substi-
tutivos da Cruz de Cristo em nossos dias. Tem-se dIto com
razão que o ódio gera o ódio; por conseguinte, não realiza a
obra de Cristo, que é amor. Tal ó a doutrina repetidamente
apregoada pelas enclclicas papais dos últimos tempos.
- 273-
42 . PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 1261l97O. quo 5

3. Verifica-se também que o romaJIee de KazantzakIs


desfigura a Religião segundo os têrmos clássicos da literatura
esquerdista. Com efeito, de um lado, vivida pela população de
Lycovrissl, a Religião vem a ser hipocrisia. verniz sagrado para
o egoísmo, o hedonismo e os vicias da carne. De outro lado,
a Religião dos prófugos de Sarakina e de seus amigos é uma
religião de 'visões, sonhos portentosos, milagres (tenha-se em
vista a doença de pele ou lepra surpreendentemente contraJda
por Man6110s e maravilhosamente curada). Tal apresentação
de Rellgi.ão 1embra, antes, a crendice, 'O obscurantismo e certos
estados patológicos.
Na verdade, a Religião é a mais viril e nobre das expres-
sões do ser humano. A sã razão mesma afinna a necessidade
e o valor da Religiãoj sem Deus o homem não se realiza, não
se encontra consigo mesmo. - O genulno padre está longe
de ser um explorador da boa fé ou da crendice do povo, um
gozador de priviJéglos ou um alimentador de crendices. ~, an-
tes, um homem que, prenhe de valôres absolutos colhidos no
intimo contato com Deus (na oração e na Eucaristia), procura
encarnar tais valôres em sua conduta de vida assim como nas
comunidades a que êle se dirige; é alguém que leva ao hero-
ismo e à magnanimidade - o que não quer dizer violência e
guerra, mas. sim, tenacidade e perseveranca inquebrantáveis no
amor 00 próximo.
Em conclusão: cO Cisto recrucificadoJo é um dos múlti-
plos espéclmens de uma literatw"a que procura, em tbmos
envernizados e aparentemente evangélicos, desfigurar o Evan-
gelho, extinguindo o que êste tem de mais autêntico e pre-
cioso: a mensagem do Eterno, do Absoluto, sem o qual o
homem ja.mais será autêntico homem.
Estêvão Betwlcouri 0.8.8.

CORRlGENDA

Em cP. R . lo ~4/ 1970, p. 27 [167], linha lO, leia-se cm-


cito" em vez de cllcito •.
No mesmo numero, p. 46 [186] nota I, leia-se co pensador
alemão», em lugar de c O pensador francêsJo.

- 274-
RESENHA DE LIVROS 43

REHNHA DE LIVROS

Deua existe - Eu o eneontrel. por Andrl! Frossard; traduÇlo de


Carlos Lacerda.. - Dis tribUidora Record, Rio de Janeiro - 810 Paulo
1970, 140:x210 mm, 167 pp.
cada pessoa humana reflete de modo tinlco a Infinita perfelcAo
divina. Por Jsto Il conslderaç!o de uma personalldade e de seu roteiro
de vida é apta. a elevar a Deus. Tal ê a. Impl"eS8ão que se colhe, por
exemplo, da leitura de um livro como o de Frossard. :este autor narra
como chegou a Deus sem que tivesse dado o rnlnlmo passo conBCiente
pua tanto. FUho de antepassados Judeus, protestantes e católicos, nas·
cldo numa aldel3 da Fro.nça em que havia uma sinagoga e nenhuma
Jgreja, Henrl aderiu primeiramente ao socialismo, tiegulndo nisto o
exempl('l de seu pat, numa totallndiferenca As coisas da ReUglAo; Jesus
Cristo lfÓ o Interenava na medida em que lhe parecia ter &Ido um
precursor do moderno soclalismo. - Aconteceu, porém, que um belo
dia. quando tinha vinte anos, entrou numa capela de Paria i\ pl'OCura
de um amigo; repentinamente foi ai de tal modo tocado pela. açllo da
graça que, cinco minutos malS tarde, saia do santuirlo Inaballvelmente
convicto de que Deus existe e de que sO lhe restava pedir o Batismo,
para viver doravante eómo autêntico cristão. Desde enUlo é uma das
grandes figuras do catoUclsmo francês,
Tem·se assim o relato de -uma conversão singular: nAo preparada
por prccura humana, nem precedida de crise de e.splrito, ela dê. teste-
munho da soberana ação do Esplrito de DeUs. ~e encontra eampo
amplo para se manl!estar na criatura que nAo ceda à covardia, i mcs·
qulnhez e t Indl!erença.

Quem 6 ~t.e homem 1', por F~l Mateus Rocha. - Livraria Duas
Cidades, São Paulo 1969, 140 x 190 mm, 133 pp.
o autor ~ um dominicano que, de hâ multo, se dedica aOS melo&
estudantis e unlversltârtos, No livro acima examina diversas atitudes
que se podem tomar dlante da figura de Jesus Cristo. Com multa
sabedoria anallsa também os ditos e feitos de Jesus, dando tnfase e.
peclal t ressurreição do Senhor; esta. sendo um (ato que a crltlca at6
hoje nlo conseguiu expUcar pela fraude ou a alucinação doa dbclpu·

o Salvador do mundo" (p. 9), como o próprio Jesus Cristo m.


los, vem a ser o testemunho mais lúcido de que Jesus nAo 101 timples·
mente um pensador e lIder, mas, antes do mais, «o Filho de Deus e
de uma
vez deu a entender. - Frei Mateus Uustra suas consideraçOes cItando
textos de filósofos cristãos e não-crlstãos. Põe em re:lêvo tanto. lace
humana como a lace dlvina de Jesus Cristo; mostra·se multo Interes-
SIildo pelas repcrcuss6es sOclo-econOmlcas do Evangelho. Todavia seria
para desejar que o autor fOsse mais sistemâtlco e rigoroso na expoAiçl.o
de suas Id6laa; o livro 6 uma coletlnea de conferências mals do que
um tratado de teOlogia - o que nlo ImPf!de seja multo recomttndivll
• • tll
.. ." 'i ~lõ. :
- 275-
44 .. PERCUNOF; E RESPONDF;REMOS. 126/'1910

Pastoral da Penitência - Fundamentos. Coleção .. Pastor-al Lltúr·


glca. n' 4. - EditOra Vozes, Petrópolis 1970, 125 x 185 mm, 303 pp
;este livro recolhe 05 estudos apresentados num encontro de Litur-
gia reaUzado em Vlt6rla (ES) no ano de 1966; seus colaboradores são
teólogos e moralistas de projeção no Brasil: -Frei Bemardlno J.eers.
D. Frei Va1!redo Tepe, Frei Luciano Parisse, FreI Luiz Bertrando Gor-
gulho . . . A apresentação do llvro ê da taVl1l de D . Clemente lsnaM,
Bispo de Nova Frlburgo.
Os artigos consideram o sacramento da Penitência sob vArlOl as·
pectos: blbllco, dogmttlco, pslcoI6gh::o, moral ••. ; tentam pOr em I'f'lêvo
a dimensão edeslal e teol6glca da ConflssAo, tornando assim o .ancra-
mento mois rico de s1gnlClcado para os fieis. É necessArlo que n"stes
se vAo criando claras noçaes de pecado. cu1pabUldade. oomunh4o :om
1\ Jg\~j a, ofensa a Deus, • fim de se evitarem mal·entendldos e 1a1sos
C!Scrúpulos em t6rno do sacramento, que não pode ser confundido ·!om
um melo de psicoterapia. As celebraeões comunltárlas (nas quais nao
deve faltar a contlssAo auricular) podem vAlidamente contribuir para
despertar nos pastores e nos fiéis o senso eclesla! da Penitência.
_ Nem todos os artigos da coletltnea são do mesmo valor; hã a1 cer-
tas pAginas de significado amblguo (! de linguagem pouco clara; o
conjunto, porém. oferece oportuno subsidio para os te61ogos e pastores.
a. quem o lIvro se desUna propriamente.

SIIalom : JlGL O aacramenkl da reconclllaçilo. por Bernard HllrIng;


tradução do Pe. Jo.sl! Raimundo Vldlgal. CoI~o «Revelação e Teo-
loglv 10. - EdiçOes Paullnas, São Paulo 1970, 145 x 210 mm, 455 PP.
Como o anterior, também êste livro trata dI> sacramento da Peni·
tênela, visando a fomentar a sua renovacão. O autor é famoso teólogo
e morali:sta. que aborda o a.ssunto com mals amplldlllo e riqueza de
dados do que os colabo['8dores da obra atrás Citada. O Pe. lUrlng
neste seu livro é realista e prAtico, sem deixar de apresentar profun·
das bases teológicas: a sua linguagem é. tanto quanto posslve1, sim-
ples e clara. Quando ncccssArlo, aponta falhas da pastoral dos Clltlmoa:
tempos; fi·lo, poRmo dentro dGS têrmos deyjdos. eyjtando crltlcu
generalizadas, que mais destroem do que constroem.
O Pe. Hlrin, trata não sbmente do sacramento da Penitência em
si, mas também dos mandamentos da lei de Deus e de suas ex.Ie-ên- •
,
clas. Aborda outrossim problemas atinentes à confissão das crlancas
dos enlennos, dos seminaristas, dos escrupulos.os. Considera na di·
versas funçOes que competem ao confessor, desenvolvendo a necellS6-
ria casulstica de maneira viva e construtiva. Em awna, a nova obra
do Pc. HlI.rlng é de ImportAnela capital no estudo do sacramento 111.
Penitência.
No tocante à ab50lvlçAo dada sob forma coletiva a uma assemiJHIa
de .fIéis sem conl1ssAo es,pecUlca d.os pecados, hé. atualmente op1nl~
e usos dllerentes. Tem-se ministrado 11. absolvlcio com dlspensa d~

acusacQo pessoal: lA que tal praxe não !st6. suficIentemente tund~.­
mentada nas declaraçOes anteriores da Igreja e causa certa inquieta-
ção, espera-a para breve uma declaração otldal da Santa 86 • respell.o
(com o noUclam as boas fontes de lnfonnaÇ'i5es).
_ 7.1ç, _
l'IIa.rnlncat. DI'rlo 1936-1982, por Pierre Van der Meer de WaI·
cheren; tradução de M. Cecilia de M. Duprat. - Edlt6ra AC1r. Rio de
Janeiro 1970. 140 x 210 mm. 351 pp.
O autor. a tualmente monge beneditino e .saeerdote da Abadia de
Oosterhoul. (HohmdaJ, lA pubUcou dois livros de nolas Intimas: cDltrlo
de um Conve rtido. e _Deus e os Homens •. este terçelro volwne sup6e
um perlodo de dezoito meses que Pierre e sua espOsa Cristina passa-
ram cada qual num mosteiro. tentando comprovar a sua posslvel
vocação monbt lÇ4. Tendo verificado Que, por ora. nAo era vontade
de Deus que permanecessem na vida clQustral, voltaram em 1936 a
se reunir em seu lar perto de Paris. Finalmente em 19S4, após a
morte da espósa. Pie~ tornou a Inlcessar no mosteiro de Oosterhout.
onde professou c recebeu as ordens s acras ;, ainda hoje, octogenArio.
vive com es plrllo IÍlcldo, Inflamado e compreensivo. - As notas do
famoso escritor QO perpassadas de esplrito. de fé e de gratidio a
:1

Oêus; Plerre de Walchercn pert(:nce aQ gr upo heróico de Léon BJoy,
Stanulas Fume t, Jacques e Ralssa Marltaln ... O livro apresenta
passagens bêlas, aptas a elevar a Deus num" prolkua leitura espl.
rltua.1.

Bltoos da Fé, por W. Valle Martins:. ColecAo -eMysterlum. lideh


(reDex6el blbllco-teoI4glC&$) , E:d1Ç"Ões Paullnas, São Paulo 1970,
130 x 200 mm, 121 PP.
O P c. Waldemar Martins entrega agora ao público, reunidos num
56 volume, ()!Il a rtigos que publicou na Imprensa de Sant"l deSde 1966
a 1968. AliAs, j4 em 1965 deu a lllme !W!melhante obra com o tltulo
. SlnaI verde na Igreja? ...
o autor aborda temas como ateísmo, marxismo, as corTentes de
pensamento extremadaS em religião, o sacramento da Conlissllo; em
l uma, encara a presente crise de t é e de perlodo pôs·conclllar com
sert'nldade e firmeza. Evitando poll!m lca, emite opinl6ea equilibradas
t' dlstancia·se das radlcallzacOcs. É reamente d isto q ue o mundo cató·
Ilco e não católico precisa nesla fase da. história. O leitor se benefklarA
com essa obra despretensiosa Oonce de ser um tra tado teológico I
escrita para o vasto pObllco que lõ jornais, de modo a tl'atumltir em
ling uagem clara verdade.s ~rlas e Import.anteS.
E . B.
NO PRÓXIMO NOMERO

Cosamentos mistos em novo io se


Jeull Cri,to ... SupeuIQ"

o pa dre e a poli';:o
Jo ve nl se tui<idom
A cr.r'quelo , do Vat icano

Ec!uca(õo Moro l • 0"" (0

\
--- --_ . ---~ --

.P~RGUNTE E RESPONDEREMOS "


{ IKK" I ~ I'omum i\'Cr$ 2000
Au llllltur ;\ pOlml
1971) ' )1,11"11.' .afrt'o . . .... . ....... • •.. ... KC rS 25.00

Nüm t'rC> avu lso d'! 'l',lalquer mi's c :1110 ...• ...•. ... . . KC rS ~rrJ

Numero i.·sj)Cl'hd de abril di! I~~ NCrS


\'o lu"\I"$ Cllcndcrn:u]{ts: 1957 ti. l !)f$ 'pr('Ç() unitári o) . :-lCr$ 17.0:.1
lnd k'(~ (;('J"(\ ] 11.· 19:>; li l !lr~ XCr$ 1ljM
1.00 !

t:.:11c1dica ,1>(11' .. 101' ''11 1 PI"O&:ICS ~ "I' NCr$ 0.50

I::lldl'llca ~ Ih lm .. nnc \'Ita e ~ l Rc:::u ); tt;~o Ih Nalalidadd NCr$ 0,70

Imll'úUA m~1"n;NC01 JHT L'rUA.


mm.·\ ç,\o All:\lISISl'H/\ÇAO
( '"h::1 (1I""lal 2.1.00 nll.1I ~emlllllr DIInlas, J 17, SI. I:a llJ.J
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