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Coordenação Didático-Pedagógica

Stella M. Peixoto de Azevedo Pedrosa

Redação Pedagógica
Frieda Marti

Revisão
Alessandra Muylaert Archer

Projeto Gráfico
Romulo Freitas
Fundamentos do direito público e privado : apostila 4 DPP /
Diagramação coordenação didático-pedagógica: Stella M. Peixoto de Azevedo Pedrosa
Luiza Serpa ; redação pedagógica: Frieda Marti ; revisão: Alessandra Muylaert Archer ;
projeto gráfico: Romulo Freitas ; coordenação de conteudistas: Fernando
Coordenação de Conteudistas Velôzo Gomes Pedrosa ; conteudistas: Antônio Augusto Rodrigues Serpa,
Fernando Velôzo Gomes Pedrosa Fernando Antonio Cury Bassoto, Lúcio Fernandes Dias ; revisão técnica:
Otávio Bravo ; produção: Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Conteudistas Janeiro ; realização: EsIE – Escola de Instrução Especializada [do] Exército
Antônio Augusto Rodrigues Serpa Brasileiro. – Rio de Janeiro : PUC-Rio, CCEAD, 2013.
Fernando Antonio Cury Bassoto
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais – CHQAO.
Lúcio Fernandes Dias
68 p. : il. (color.) ; 21 cm.
Revisão Técnica Inclui bibliografia.
Otávio Bravo 1. Direito público - Brasil. 2. Direito privado – Brasil. I. Pedrosa,
Stella M. Peixoto de Azevedo. II. Marti, Frieda. III. Serpa, Antônio
Produção Augusto Rodrigues. IV. Bassoto, Fernando Antonio Cury. V. Dias, Lúcio
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Fernandes. VI. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Coordenação Central Educação a Distância. VII. Brasil. Exército. Escola
Realização de Instrução Especializada.
EsIE – Escola de Instrução Especializada
CDD: 342
Exército Brasileiro
CHQAO
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais

FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO


Unidade 7
Direito Processual Penal Militar
APRESENTAÇÃO
O Curso de Habilitação ao Quadro de Auxiliar de Oficiais (CHQAO),
conduzido pela Escola de Instrução Especializada (EsIE), visa habilitar os
subtenentes à ocupação de cargos e ao desempenho de funções previstas
para o Quadro Auxiliar de Oficiais.

A disciplina Fundamentos do Direito Público e Privado possui carga


horária total de 90 horas.

Os objetivos gerais desta disciplina são:

• Conhecer conceitos constitucionais relacionados às instituições do


direito público e privado.

• Analisar o papel do cidadão diante da Constituição Federal, de fatos


relacionados à administração das instituições de direito público e
privado.

• Diferenciar atos e fatos jurídicos das instituições de direito público e


privado associados às noções de direito na administração pública.

• Descrever o Direito Internacional Humanitário e fornecer elementos


para identificação de sua problemática.

• Identificar as principais regras e convenções relacionadas ao Direito


Internacional Humanitário.

• Conhecer as principais regras da legislação penal militar brasileira.

• Conhecer as principais regras da legislação processual penal militar


brasileira.

• Empregar de maneira correta a legislação vigente.

Nesta quarta apostila será apresentada a Unidade VII – Direito Processual


Penal Militar, cujos objetivos estão especificados por capítulo.

Boa leitura!
conteudistas

Antônio Augusto Rodrigues Serpa é bacharel em Ciências Militares pela Academia


Militar das Agulhas Negras (AMAN). Possui mestrado em Biodireito, Ética e Cidadania
pelo Centro Universitário Salesiano São Paulo (UNISAL) e em Operações Militares pela
Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO). É doutorando em Ciência Política e Re-
lações Internacionais no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ).
Possui as seguintes especializações: Direito Militar pela Universidade do Sul de Santa
Catarina (UNISUL), Relações Internacionais pela Universidade Cândido Mendes (UCAM),
Magistério Superior em Direito pela Universidade Estácio de Sá (UNESA), Processo Penal
pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Atualização Pedagógica e Supervisão Esco-
lar, ambas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente é professor
titular e Coordenador Geral da Cadeira de Direito na Academia Militar das Agulhas
Negras (AMAN) e membro do Grupo de Análise e Prevenção de Conflitos do Centro de
Estudos das Américas (CEAs/UCAM) pesquisando a normatização internacional da não-
-proliferação de armas nucleares.

Fernando Antonio Cury Bassoto é bacharel em Ciências Militares pela Academia


Militar das Agulhas Negras (AMAN) e em Direito pela Universidade de Barra Mansa
(UBM). É pós-graduado em Ciências Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de
Oficiais (EsAO) e em Supervisão Escolar pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). Possui o Curso de Extensão em Relações Internacionais pela AMAN de Inter-
venções no pós-guerra fria. É professor do magistério do Exército há mais de 20 anos,
tendo ministrado na AMAN aulas de Topografia e de Introdução ao Estudo do Direito
durante oito anos. Ainda na AMAN, foi chefe da Assessoria Jurídica e há dez anos exer-
ce a coordenação e o magistério da disciplina Direito Penal e Processual Penal Militar,
tendo ministrado, também, Direito Constitucional. Nas Faculdades Dom Bosco (AEDB)
ministra aulas de Introdução ao Direito para os cursos de Economia e de Tecnologia em
Gestão Pública; Legislação Tributária para os cursos de Administração e de Tecnologia
em Gestão Pública; e de Legislação Trabalhista para os cursos de Administração e de
Tecnologia em Gestão de RH.

Lúcio Fernandes Dias é bacharel em Ciências Militares pela Academia Militar das
Agulhas Negras (AMAN) e em Direito pela Universidade de Barra Mansa (UBM). É
mestre em Ciências Militares pela Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (ESAO) e
pós-graduado em Direito Civil, Processual Civil e Magistério Superior pela Universidade
de Barra Mansa (UBM). Possui os Cursos de Direito Internacional Humanitário Militar
em Sanremo, Itália, e em Buenos Aires, Argentina. É professor da Cadeira de Direito
da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), onde leciona Direito Penal e Direito
Processual Penal Militar há mais de 12 anos.
Índice

1. Evolução histórica do processo penal militar 9


1.1 Breve histórico da Justiça Militar no Brasil 10

2. O atual Código de Processo Penal Militar (CPPM) em face


da Constituição Federal de 1988 15
2.1 Diferenças relevantes entre o CCPM e a Constituição da
República de 1988 16
2.1.1 Aplicação Subsidiária 16
2.1.2 Exercício da Polícia Judiciária Militar 17
2.1.3 Competência da Polícia Judiciária Militar 17
2.1.4 O Inquérito Policial Militar 18
2.1.5 Sigilo do Inquérito Policial Militar 19
2.1.6 Incomunicabilidade do indiciado 20
2.1.7 Detenção do indiciado 20
2.1.8 Interrogatório e confissão do acusado 21

3. Estudo comparativo entre o CPPM e o CPP 23


3.1 Divergências entre o CPPM e o CPP 24
3.1.1 Fonte do direito processual militar 24
3.1.2 Aplicação no espaço e no tempo 25
3.1.3 Exercício da polícia judiciária militar 25
3.1.4 Início do Inquérito 25
3.1.5 Providências preliminares ao inquérito 26
3.1.6 Incomunicabilidade do Indiciado 26
3.1.7 Prazos para o término do inquérito 26
3.1.8 Promoção da ação Civil ex delicto 27
3.1.9 Juizados especiais criminais 28
3.1.10 Exercício do direito de representação 28
3.1.11 Relação processual 29
3.1.12 Inexistência de atos praticados por juiz impedido 29
3.1.13 Os peritos 29
3.1.14 Não comparecimento do perito 30
3.1.15 Intervenção do assistente no processo 30
3.1.16 A denúncia 31
3.1.17 O prazo para oferecimento da denúncia 32
3.1.18 O crime de tortura praticado por militar 32
3.1.19 O crime de abuso de autoridade 32
3.1.20 A revista independentemente de mandado 33
3.1.21 A prisão provisória 33
4. Procedimentos especiais e procedimentos ordinários 35
4.1 Princípios do processo penal militar 35
4.2 Ritos Processuais inerentes aos procedimentos
existentes no CPPM 38
4.2.1 procedimento ordinário 38
4.2.2 Procedimentos especiais 46

5. Execução penal na legislação castrense 55


5.1 Da sentença condenatória 56
5.2 Execução das penas em espécie 57
5.2.1 Carta Guia de transitado em julgado 57
5.2.2 Formalidades 58
5.2.3 Conteúdo 58
5.2.4 Execução quando impostas penas 58
de reclusão e de detenção
5.2.5 Cumprimento da pena 58
5.2.6 Medida de segurança 58
5.2.7 Comunicação 58

6. O processo penal militar em tempo de guerra 61

7. Considerações finais 63

8. Bibliografia 65
1 Evolução histórica
do processo penal militar

Objetivo específico

• Caracterizar as principais modificações da lei adjetiva


castrense historicamente.

Para saber mais informa- Quais as razões para uma Justiça Militar? Estudar a história desta Justiça, da sua
ções sobre a Justiça Militar e
gênese até os dias atuais, possivelmente proporcionará a resposta a essa pergunta.
conhecer melhor a atuação
do Superior Tribunal Mili-
tar assista ao vídeo em <ht- De acordo com o ex-Ministro do Superior Tribunal Militar (STM), Flávio Bierren-
tps://www.youtube.com/ bach, a existência da Justiça Militar é justificável pois:
watch?v=4QWuVoI-gF0>.
Basta um único dado de realidade, ou seja, um só fato,
e confrontá-lo com um único valor, para que se explique,
se justifique e se compreenda a norma instituidora da
Justiça Militar como justiça especializada, ramo espe-
cial do Poder Judiciário. O fato é que os integrantes das
instituições militares são os únicos de quem a lei exige o
sacrifício da própria vida. A nenhum funcionário público,
na verdade a nenhum cidadão, exceto aos militares, lei
alguma impõe deveres tão especiais, deveres que podem
implicar a obrigação de morrer e até de matar... A vida
é o bem supremo do indivíduo, o maior valor tutelado
pelo Direito e, por isso, os crimes contra a vida são os
mais graves na legislação de todos os países civilizados.
Entretanto, para os integrantes das Forças Armadas, que
são obrigados, em determinados momentos, a morrer e a
matar, há outro valor que se sobrepõe à própria vida. Esse
valor é a Pátria. Essa é uma circunstância absolutamente
única, especial, incontornável. Desse fato e desse valor
decorre a norma, ou o conjunto de normas que constitui
o Direito Penal Militar, cuja aplicação compete a Justiça
Militar, como ramo especializado do Poder Judiciário. A
existência da Justiça Militar, portanto, é uma decorrência
da existência das Forças Armadas. As peculiaridades do

9
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Direito Militar são decorrentes das peculiaridades das For-
ças Armadas. Por essa razão, a única Corte de Justiça do
país que tem competência para aplicar a pena de morte,
conforme a Constituição, é o Superior Tribunal Militar, em
tempo de guerra (apud RIBEIRO, 2008, p.p 14-16).

A hierarquia e a disciplina são os pilares sobre os quais se baseiam a carreira


militar. Para a manutenção desses valores existem regras, normas e regulamen-
tos específicos que orientam os militares (comandantes e subordinados), para
bem cumprirem a missão constitucional das Forças Armadas: defender a Pátria
e a garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes,
da lei e da ordem.

1.1 Breve histórico da Justiça Militar no Brasil

Guilherme de Schaumburg- Através da história da Justiça Militar, podemos caracterizar as principais modifi-
-Lippe, conhecido como
cações da lei penal e processual penal militar, desde o descobrimento do Brasil
Conde de Lippe foi um no-
tável militar e político alemão até os dias atuais.
que esteve a serviço do Exér-
cito Português. Elaborou dois Em relação à legislação adjetiva militar, é necessário retroceder ao período an-
Regimentos, um para a Infan-
terior ao descobrimento do Brasil, observando o que aconteceu em Portugal.
taria e outro para a Cavalaria
cujas diferenças existiam em “[...] as embarcações da coroa não trouxeram apenas homens e o espírito co-
função da peculiaridade de lonizador, mas também todo o arcabouço Jurídico do Velho Mundo” (NEVES;
cada arma. Outra observação
é que as punições por infra- STREIFINGER, 2012, p. 41).
ções cometidas por militares
ou civis não se circunscre- O direito lusitano sofreu influência direta do domínio romano e do código visi-
viam aos artigos de Guerra. A gótico. Em 1139, o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, editou as Fo-
disciplina, exigida por Lippe,
tinha que ser tangida pelo rais, que foram leis em pequenos códigos. As ordenações Afonsinas (de Afonso)
receio da punição. As penas e depois as Manuelinas e Filipinas construíam todo o direito que antecedeu o
tinham caráter intimidativo e
nosso direito brasileiro. As leis dessa época não distinguiam o direito da moral e
eram exercidas com a maior
amplitude possível na ocasião. da religião. O Brasil nasceu em 1500 regido por tais leis portuguesas.

Na legislação penal militar (1763) juntam-se às Ordenações Filipinas os Artigos


de Guerra do Conde de Lippe, que vigoraram no Brasil até final do século XIX,
com o surgimento do Código Penal da Armada.

Os vinte e nove Artigos de Guerra do Conde de Lippe previam penas extre-


mamente severas, como o arcabuzamento (fuzilamento), enforcamento e o
trabalho do condenado nas fortificações do reino.

10
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Em 1º de abril de 1808, o príncipe regente de Portugal, D. João, mediante um
alvará, com força de lei, instituiu um foro especial para os delitos militares, crian-
do o Conselho Supremo Militar de Justiça, com o objetivo de tornar os proces-
sos mais célebres e regulares. Atuava apenas na parte militar e era constituído
pelos oficiais generais do Exército e da Armada Real. Essa primeira etapa vai de
1808 a 1891, desde o Reino Unido a Portugal e Algarves até o final do Império.

Com a Proclamação da República em 15 de novembro de


1889, a estrutura Judiciária no Brasil, herdada de Portugal
ainda perdurou por pouco mais de um ano. Começou a
se tornar verdadeiramente brasileira, com a confecção
da primeira Constituição Republicana em 24 de fevereiro
de 1891. Desde a sua criação, a Justiça Militar do Brasil
esteve organizada em Juntas ou Conselhos Mistos. No Pri-
meiro e no segundo Império ela não sofreu modificações
apreciáveis, semelhante ao que era praticado em Portu-
gal, e mesmo no resto da Europa. A primeira instância
era exercida pelos Conselhos de Guerra e a segunda e
derradeira pelo Conselho Supremo Militar e de Justiça.

Assim, os órgãos de primeira instância da Justiça Militar


eram os Conselhos de Guerra, criados o mais próximo
de onde os crimes eram cometidos. Inicialmente funcio-
naram apenas no Rio de Janeiro e, só a partir de 1813,
é que passaram a existir em outras localidades, sendo
compostos por um oficial superior, que era o presidente,
um auditor como relator e cinco oficiais militares (RIBEI-
RO, 2008, p. 25-26).

Desde 1802 buscava-se uma maneira de codificar a legislação penal militar.


Foram muitas tentativas, porém com pouco sucesso. Entretanto, em 20 de
outubro de 1834, durante a revisão da Constituição de 1824 na Regência de
D. Pedro II, foram declarados quais eram os crimes puramente militares. O De-
creto 61 de 24 de outubro de 1838 regulamentou a aplicação das leis militares
em tempo de guerra e a Lei 631, de 18 de setembro de 1851, estabeleceu as
penas e o processo para alguns crimes militares em tempo de guerra. Apesar
dessas leis, o direito militar permaneceria em discussão por várias décadas.

Em 1890, Benjamin Constant, ministro da Guerra da República, presidiu uma


comissão para apreciar um esboço do Código Penal e Processual Militar e o
Código Disciplinar, distinguindo as sanções penais em tempo de guerra e de
paz. Tal esboço foi recusado, mas foi aprovado o Código Penal da Armada,

11
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
promulgado em 5 de novembro de 1890 e substituído pelo Decreto 18, de 7
de março de 1891. Inicialmente foi aplicado somente para a Armada e em 29
de setembro de 1899, pela Lei 612, foi ampliado para aplicação no Exército.

Com a aprovação do Código Penal da Armada foi encerrado no direito do


Brasil os antigos Artigos de Guerra, do Conde de Lippe, utilizados desde o
Brasil Colônia.

A Constituição Republicana de 1891 estabeleceu no Brasil a doutrina de se-


paração de poderes, criando efetivamente o Poder Judiciário. Entretanto, ao
organizar tal Poder, não incluiu a Justiça Militar, deixando-a vinculada ao Poder
Executivo. A Constituição de 1891 fez previsão de foro especial para os delitos
militares, que seria composto pelo Supremo Tribunal Militar e pelos Conselhos
necessários para a formação de culpa e Julgamento de crimes, dando, assim, à
Justiça Militar, outra estrutura.

A Justiça Militar no Brasil só veio a integrar o Poder Judiciário em 1934. Até


esta data, o Supremo Tribunal Militar permaneceu atrelado ao Poder Executivo,
julgando militares, porém sem fazer parte do Poder Judiciário.

A constituição de 1934 estendia aos civis o foro militar, nos casos expressos em
lei, para repressão dos crimes contra a segurança externa do país ou contra as
instituições militares.

A Constituição de 1937 (Estado Novo) manteve as atribuições da Carta de


1934 para o que se referia à segurança externa do país.

Pela primeira vez na história do país era estendida aos civis a


jurisdição militar sobre crimes contra a segurança interna.

Nas Constituições de 1946 e 1967 a estrutura da Justiça Militar sofreu peque-


nas mudanças. A Constituição de 1946 manteve a regra de foro especial para
os civis nos crimes contra a segurança externa e alterou o nome do Supremo
Tribunal Militar.

Para obter mais informações O Código Penal da Armada teve vigência até 1944, quando o Decreto-Lei nº
sobre as decisões do Supe- 6.227, de 24 de janeiro, promulgou o Código Penal Militar, aplicado às Forças
rior Tribunal Militar, consul-
te o portal do Tribunal em:
Armadas. Este vigorou até 31 de dezembro de 1969, com a entrada em vigor
<http://www.stm.jus.br/ do atual Código Penal Militar.

12
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
O Ato Institucional 2 de 1965 estendeu o foro militar aos civis para repressão Para obter mais informa-
dos crimes contra a segurança nacional ou as instituições militares. ções sobre o planejamento
estratégico do STM para o
período 2012-2018, con-
A Constituição de 1967 introduziu apenas uma pequena alteração na Justiça
sulte o documento disponí-
Militar, estabelecendo, para os casos de repressão de crimes contra a seguran- vel em: <http://www.stm.
ça nacional ou contra instituições militares, o Supremo Tribunal Federal como jus.br/gestao-estrategica/
pl an e j am e n to_ e st rat e g i -
recursos ordinários. co_2012-2018.pdf

Em 1969 houve a consolidação da legislação penal militar, com a promulgação


dos Códigos Penal Militar e Processual Penal Militar.

Finalmente, com a Constituição Federal de 1988, estabeleceu-se a atual or- Para obter mais informações
sobre a história, estrutura e
ganização, legislação e competência da Justiça Militar da União. A partir de
organização da Justiça Militar
1988, inclusive, os crimes políticos passaram para a competência da Justiça brasileira, leia o artigo “Justi-
Federal. A Constituição Federal de 1988 trata da Justiça Militar da União nos ça Militar no Brasil” de Rodri-
go Montenegro de Oliveira,
seus artigos 122 a 124, como integrante do Poder Judiciário. disponível em: <http://jus.
com.br/artigos/21339/jus-
tica-militar-no-brasil>.

13
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
2 O atual Código de Processo Penal Militar
(CPPM) em face da Constituição Federal de 1988

Objetivo específico

• Analisar as diversas inconstitucionalidades existentes no atual CPPM.

O Código de Processo Penal Militar (CPPM), instituído pelo Decreto – Lei


nº 1002, de 21.10.1969, apresenta suas peculiaridades, tendo algumas dife-
renças em relação ao Código de Processo Penal Comum (CPP). Como o CPPM
foi elaborado sob a égide da Constituição de 1969, alguns dispositivos legais
devem ser adaptados à Constituição Federal de 1988. Podemos dizer, portan-
to, que a redação do CPPM poderá estar desatualizada e que alguns de seus
artigos estão revogados pela Constituição de 1988.

O Código de Processo Penal Militar (CPPM) já completou 44 anos. Após 1988,


alguns dos seus artigos não foram recepcionados pela nova Constituição Fede-
ral, sendo tacitamente revogados.

Atualmente, há necessidade de atualização do CPPM, de acordo com a Consti-


tuição da República (CF/88), com a finalidade de manter todas as garantias cons-
titucionais para as pessoas envolvidas. Apesar das desatualizações, por inércia ou
esquecimento dos legisladores, as garantias e os limites constitucionais aos juris-
dicionados têm acontecido graças à atuação dos profissionais da Justiça Militar.

O objetivo dessa temática é analisar as diferenças relevantes entre o Código de


Processo Penal Militar e a Constituição da República de 1988.

15
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
2.1 Diferenças relevantes entre o CCPM
e a Constituição da República de 1988

2.1.1 Aplicação subsidiária

A Constituição Federal de 24 de janeiro de 1967 previa em seu artigo 129,


parágrafo 1º, a extensão do foro militar ao civil, para a repressão dos crimes
contra a segurança nacional. Tal norma está derrogada pelo artigo 109,
inciso IV, da Constituição Federal de 1988, que atribuiu à Justiça Federal a
competência para julgar os crimes contra a segurança nacional (crimes po-
líticos). Essas inovações legislativas alteraram a aplicabilidade do artigo 1º,
parágrafo 2º do CPPM: “Aplicam-se, subsidiariamente, as normas deste código
aos processos regulados em leis especiais”.

Cabe lembrar, no entanto, que embora não haja, em tempo de


paz, crime militar cujo processo seja “regulado em lei especial”,
o mesmo não pode ser dito em relação aos crimes militares pra-
ticados em tempo de guerra, em razão da regra do artigo 10,
inciso IV do Código Penal Militar. Assim, por exemplo, o sujeito
que, em zona de operações militares e durante a guerra, estiver
de posse de maquinário para produção de drogas ilícitas (artigo
34 da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006), responderá na
Justiça Militar pela prática de tal delito, mas o procedimento
será adequado às regras da lei extravagante correspondente.

Para Coldibelli e Miguel:

Vale ressaltar que os crimes políticos, que são aqueles se-


gundo Damásio E. de Jesus, que o comportamento gera
ou ameaça o ordenamento político do país, passaram
a ser julgados pela Justiça Federal, porém os chamados
crimes contra a segurança externa do país, elencados nos
arts. 136 e 148 do Código Penal Militar (CPM), que são
praticados sem motivação política, mas que põem em
risco o território e a segurança nacionais, permanecem
como competência da Justiça Militar da União. A distin-
ção encontra-se na motivação (2011, p.6).

16
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
2.1.2 Exercício da Polícia Judiciária Militar

Com relação ao artigo 7º do CPPM: “Autoridades com competência de polícia


judiciária militar”, Assis comenta:

O rol de autoridades com competência para exercer as


atividades de polícia judiciária militar tem que ser adap-
tado às mudanças sofridas desde a edição do Código e,
principalmente após a Constituição Federal de 1988.

Não há que falar-se em Ministros, mas sim, em Coman-


dantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, nos ter-
mos do art. 19 da Lei Complementar 97, de 09.06.1999,
que dispõe sobre as normas gerais para a organização, o
preparo e o emprego das Forças Armadas.

Com o advento da LC97/99, art.10, foi extinto o Estado-


-Maior das Forças Armadas (EMFA). Hoje existe o Estado
– Maior de Defesa.

A referência à Zona Aérea deve ser entendida como Co-


mando Aéreo (2011, p. 36-37).

2.1.3 Competência da Polícia Judiciária Militar

A competência da polícia judiciária militar é definida no artigo 8º, do CPPM


e envolve:

• Apurar os crimes militares;

• Prestar as informações necessárias aos órgãos competentes;

• Cumprir os mandados de prisão expedidos pela Justiça Militar; 

• Representar autoridades judiciárias militares;

• Cumprir as determinações da Justiça Militar relativas aos presos sob sua


guarda e responsabilidade;

• Solicitar das autoridades civis as informações e medidas que julgar úteis


à elucidação das infrações penais;

• Requisitar da polícia civil e das repartições técnicas civis as pesquisas e


exames necessários em IPMs;

• Atender a pedido de apresentação de militar ou funcionário de reparti-


ção militar à autoridade civil competente.

17
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Conforme o artigo 5º, inciso XI da Constituição Federal de
1988, a autoridade policial judiciária militar não é mais com-
petente para determinar busca domiciliar, podendo apenas
representar a autoridade judiciária acerca dessa necessidade,
de acordo com o artigo 8º, alínea d.

2.1.4 O inquérito policial militar (IPM)

Sobre o artigo 10 do CPPM, alguns doutrinadores, entre eles Assis (2011), en-
tendiam que a sua alínea d tornou-se caduca, em face de inconstitucionalida-
de superveniente. Entretanto, o próprio Assis, na última edição do seu Código
Anotado, escreveu:

A melhor doutrina, entretanto, não vem admitindo a


inconstitucionalidade superveniente, como se observa na
decisão colacionada abaixo:

Constituição - Lei Anterior que a Contrarie - Revogação-


Inconstitucionalidade Superveniente – Impossibilidade

1- A lei ou é constitucional ou não é lei. Lei inconstitu-


cional é uma contradição em si. A lei é constitucional
quando fiel à Constituição; inconstitucional na medida
que a desrespeita, dispondo sobre o que lhe era vedado.
O vício da inconstitucionalidade é congênito à lei e há de
ser apurado em face da Constituição vigente ao tempo de
sua elaboração. Lei anterior não pode ser inconstitucional
em relação à Constituição superveniente; nem o legisla-
dor poderia infringir Constituição futura. A Constituição
sobrevinda não torna inconstitucionais leis anteriores com
ela conflitantes: revoga-as. Pelo fato de ser superior, a
Constituição não deixa de produzir efeitos revogatórios.

Seria ilógico que a lei fundamental, por ser suprema, não


revogasse, ao ser promulgada, leis ordinárias. A lei maior
valeria menos que a lei ordinária.

2- Reafirmação da antiga jurisprudência do STF, mais que


cinquentenária.

3- Ação direta de que não se conhece por impossibilida-


de jurídica do pedido”( STF-ADI2-DF-T.P.- Rel. Min. Paulo
Brossard- DJU 21.11.1997) (ASSIS, 2011, p. 10).

18
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
É pacífica a decisão de que o Juiz-Auditor não tem como atribuição a requisição
de instauração de inquérito policial militar (IPM), uma vez que esta não é
uma atividade jurisdicional e, sim investigatória, que, por sua vez, afeta o Minis-
tério Público Militar (MPM) e as autoridades administrativas com poder de polícia
judiciária. Conforme estabelece o artigo 10 da Lei Processual Militar vigente, o
Juiz-Auditor não está incluído entre as autoridades que têm essa atribuição.

A identificação dos envolvidos nos fatos criminosos, procedimento previsto De acordo com o artigo 1º,
Lei 12.037/09, o civilmente
no artigo 13 do CPPM, constitui-se em uma atribuição do encarregado do IPM.
identificado não será subme-
Contudo, o artigo 5º, inciso LVIII da CF/88, assegura que o civilmente identificado tido à identificação criminal,
não será submetido à identificação criminal, salvo nas hipóteses previstas em lei. salvo nos casos em que ela
mesma prevê.

2.1.5 Sigilo do inquérito policial militar

O sigilo do IPM previsto no art.16, do CPPM, foi alvo de análise na Súmula Vin-
culante número 14 − objeto do primeiro Pedido de Súmula Vinculante (PSV 01)
do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil ao STF − que aprovou:

É direito do defensor, no interesse do representado, ter


acesso amplo aos elementos de prova que, já documenta-
dos em procedimento investigatório realizado por órgão
com competência de polícia judiciária, digam respeito ao
exercício do direito de defesa (aprovada em 02.02.2009).

O direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso


amplo aos elementos de prova está amparado no art.7º, XV,
da Lei 8.906, de 04.07.1994; no art. 44,VIII, da Lei Complemen-
tar 80, de 12.01.1994 e na garantia constitucional do art. 5º,
inciso LXIII, CF/88).

Apesar da Súmula Vinculante 14 ter reforçado o direito dos defensores a terem


acesso aos autos do inquérito, Assis afirma que:

(...) cabe destacar, porém, que tal acesso deve ocorrer ape- Se desejar obter mais in-
nas nas investigações que já estejam inseridas no inquérito formações sobre a Súmula
(já documentados em procedimentos investigatórios), ou Vinculante, consulte o docu-
mento em: <http://www.
seja, mantendo a possibilidade de sigilo nas investigações
stf.jus.br/arquivo/cms/juris-
ainda não documentadas. Podemos falar em sigilo das prudenciaSumulaVinculante/
investigações, para que não sejam prejudicadas, jamais anexo/PSV_1.pdf>.

19
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
em sigilo do inquérito, cujas peças devem ser reunidas
num só processado, formando os autos que poderão ser
manuseados a qualquer tempo por advogados, defen-
sores públicos, promotores e procuradores de justiça
(ASSIS, 2012, p. 61).

2.1.6 Incomunicabilidade do indiciado

Coldibelli e Miguel, ao abordarem a questão da incomunicabilidade do


indiciado contida no artigo 17 do CPPM, afirmam o seguinte:

Assunto revestido de muitas controvérsias, em razão da


Constituição Federal de 1988 em proibir a incomunicabi-
lidade no art.136, parágrafo3º, IV, no capítulo: “Estado
de Defesa”. Dessa forma, surgem dois posicionamentos
completamente antagônicos: de um lado, estão aqueles
que entendem ser inadmissível a incomunicabilidade,
argumentando que se um estado de anormalidade não é
permitido, mais ainda durante o Estado de normalidade
(Tourinho Júlio Fabbrini Mirabete); por outro lado os que
admitem, sustentam que a lei não contém palavras inú-
teis, e se foi proibida a incomunicabilidade, de maneira
expressa somente durante o Estado de excepcionalidade,
é porque se admite no de normalidade (Damásio E. de
Jesus). Independente da posição que seja adotada é de
observar que o artigo 17 é praticamente inócuo, pois
incomunicabilidade significa dizer que o indiciado não
pode comunicar-se com quem quer que seja. Ora, mesmo
se admitindo a incomunicabilidade, a própria Constitui-
ção determina que o preso terá direito à assistência de
advogado e de sua família, o que torna vazio o referido
dispositivo legal (2011, p. 34-35).

2.1.7 Detenção do indiciado

Já o artigo 18 do CPPM que legisla sobre a detenção do indiciado deve ser


analisado à luz do artigo 5º, inciso LXI, da CF/88: “Ninguém será preso senão
em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judici-
ária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamen-
te militar, definidos em lei”.

20
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Atualmente o encarregado do IPM só poderá aplicar a deten-
ção cautelar para os agentes que cometam crimes propria-
mente militares. A detenção cautelar deve ser imediatamente
comunicada ao juiz competente e à família do preso ou pes-
soa por ele indicada (artigo 5º, LXII, da CF/88), ao Ministério
Público Militar (artigo 10 da LC 75/93).

No entanto, a posição acadêmica que defende que a prisão


por parte da autoridade militar em crimes propriamente mili-
tares só se aplica aos casos de deserção e insubmissão, tendo
em vista a existência de título específico para sua efetivação (o
termo respectivo). Tal entendimento, porém, não sobrevive à
obviedade de que a prisão do desertor ou insubmisso decorre
da natureza permanente de tais crimes

Incorrerá em abuso de autoridade (artigo 4º, letra a, da Lei 4.898/65) se um


encarregado de IPM aplicar a detenção cautelar em casos de crimes impropria-
mente militares.

2.1.8 Interrogatório e confissão do acusado

Os artigos 305 e 308 do Código de Processo Penal Militar que tratam do


interrogatório e da confissão do acusado não foram recepcionados pelo
inciso LXIII do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, tendo em vista que o
silêncio do acusado não poderá ser interpretado contra ele.

Além disso, o artigo 406 do CPPM prega que a postura do réu durante o
interrogatório deve ser de pé, mas também não se admite, pelos princípios
constitucionais, especialmente em respeito à dignidade humana, que o réu
permaneça nessa posição durante todo o interrogatório.

21
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
3 Estudo comparativo
entre o CPPM e o CPP

Objetivo específico

• Comparar as divergências entre CPPM e CPP.

Lendo a exposição de motivos da criação do Código de Processo Penal Militar


(CPPM) criado pelo Decreto-Lei nº 1002, de 21.10.1969, são encontradas justi-
ficativas para as relevantes diferenças entre os dois códigos processuais penais.
De um lado o Código de Processo Penal (CPP), voltado para todos os cidadãos,
do outro lado o militar, com as suas especificidades, traduzindo a tradição, os
usos e costumes militares, resguardando os princípios de hierarquia e disciplina
que regem as Forças Armadas. Assim, desde a investigação policial militar e a
instrução criminal até o julgamento estão os princípios basilares: hierarquia e
disciplina, meticulosamente preceituados.

O CPPM procurou realizar uma codificação que abrangesse toda a matéria


relativa ao processo penal militar, sem ter o seu aplicador necessidade de
recorrer à legislação penal comum, a não ser em casos especialíssimos, sempre
imprevisíveis.

O CPPM está dividido em cinco livros, sendo o último referente às normas con-
cernentes à Justiça Militar em tempo de guerra.

A distribuição das matérias nos Códigos processuais está longe de ser coinci-
dente de um Código para outro.

Os itens apresentados a seguir exemplificam e descrevem as divergências


existentes entre o Código de Processo Penal Militar (CPPM) e o Código de
Processo Penal (CPP).

23
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
3.1 Divergências entre o CPPM e o CPP

3.1.1 Fonte do Direito Processual Militar

Até o advento da Constituição Federal de 1988, o CPPM


era aplicado de forma subsidiária aos processos instaura-
dos pela violação da Lei de Segurança Nacional. Assim,
nas hipóteses de omissão da referida lei, aplicavam-se
os institutos previstos no CPPM. Entretanto a Constitui-
ção, ao passar a competência para a Justiça Federal, dos
crimes políticos, tornou o parágrafo 2º do artigo 1º sem
aplicabilidade, embora não tenha sido revogado.

[...]

Vale ressaltar que os crimes políticos são aqueles, segun-


do Damásio E. de Jesus, que o comportamento gera ou
ameaça o ordenamento político do país, passaram a ser
julgados pela Justiça Federal (artigo 109, IV, CF) (COLDI-
BELLI; MIGUEL, 2011, p. 15-16).

A fonte formal do Direito Processual Comum é o Código de Processo Penal


(CPP) e a fonte formal do Direito Processual Militar é o CPPM, tanto em tempo
de paz como de guerra. Conforme o artigo 1º “o processo penal militar reger-
-se-á pelas normas contidas neste código, assim em tempo de paz como em
tempo de guerra, salvo legislação especial que lhe for estritamente aplicável”.

As fontes do Direito Judiciário Militar podem ser materiais


(ou de produção) ou formais (ou de cognição). Fonte
material é o Estado, em razão da competência privativa
da União em legislar sobre a matéria (CF/88 artigo 22,
I). A forte formal do Direito Judiciário Militar é o próprio
CPPM, cuja aplicação se dará tanto em tempo de paz
como de guerra (ASSIS, 2011, p. 21).

Em relação aos casos omissos tratados no artigo 3º CPPM, é importante ressal-


tar que o aplicador do direito militar só irá se valer da legislação do processo
comum quando aplicável ao caso concreto e sem prejuízo da índole do Pro-
cesso Penal Militar. Tal índole está ligada aos valores, prerrogativas, deveres e
obrigações, que, sendo inerentes aos membros das Forças Armadas, devem ser
observados no decorrer do processo.

24
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Para Assis:

O suprimento que a lei processual penal militar permite é


somente aquele que decorre da omissão da lei especial,
vale dizer, da completa ausência de norma a regulamen-
tar o vazio pretendido, pois, se a lei processual penal
militar dispuser de modo diverso da lei comum, tal supri-
mento não será possível [...].

A cada nova alteração na legislação comum, inicia-se o


debate de sua possível aplicação na Justiça Militar, e, com
toda certeza haverá novos requerimentos nesse sentido,
cujo efeito imediato é a procrastinação dos feitos em
andamento, até que a própria Justiça decida pela melhor
solução (2011, p. 27-29).

3.1.2 Aplicação no espaço e no tempo

O CPPM é o instrumento pelo qual se aplica o CPM e que tem por regra geral
a extraterritorialidade da lei penal militar. Assim, o mesmo ocorre com o CPPM,
conforme o seu artigo 4º: “Sem prejuízo de convenções, tratados e regras de di-
reito internacional aplicam-se as normas deste código”. Isso acarreta mais uma
diferença com o CPP, que tem como competência somente o território brasileiro.

Em tempo de paz, o CPPM será aplicado em todo o território nacional para


processar e julgar os crimes militares. O território nacional está dividido em 12
Circunscrições Judiciárias Militares, diferentemente da Justiça Comum.

3.1.3 Exercício da polícia Judiciária Militar

No artigo 7º que trata do exercício da polícia Judiciária Militar são definidas


as autoridades de polícia judiciária militar, destacando-as das autoridades de
polícia judiciária civil. A polícia judiciária militar está prevista implicitamente no
artigo 144, parágrafo 4º, da CF/88, quando afirma que às polícias civis, dirigi-
das pelos delegados de polícia de carreira, devem apurar as infrações penais,
exceto as militares.

3.1.4 Início do inquérito

Outra diferença entre os dois códigos está no impasse se o Juiz-Auditor pode


determinar a abertura de inquérito policial militar, como prevê a justiça comum,

25
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
na qual o Código de Processo Penal dá ao Magistrado tal atribuição. Entre-
tanto, o artigo 10 do CPPM não prevê o Juiz-Auditor como autoridade para
iniciar o inquérito.

3.1.5 Providências preliminares ao inquérito

Em relação às providências preliminares ao inquérito contidas no artigo 12 do


CPPM, o Código de Processo Penal comum tem dispositivo semelhante, no seu
artigo 6º, inciso I a III. Entretanto, possui mais seis incisos (IV a IX), diferen-
ciando do Código de Processo Penal Militar como determinação de oitiva de
ofendido, do indiciado, do reconhecimento de pessoas e coisas e acareações,
do processamento de corpo de delito e outras perícias e da identificação do
indiciado. Algumas dessas atribuições estão previstas no artigo 13 do CPPM.

3.1.6 Incomunicabilidade do indiciado

A incomunicabilidade do indiciado, contida no artigo 17 do CPPM, representa


outra diferença em relação ao Código de Processo Penal comum (CPP). Tendo
em vista que o artigo 21 prevê que a incomunicabilidade do indiciado depende
sempre de despacho fundamentado do juiz, enquanto no Código de Processo
Penal Militar (CPPM) o texto sugere uma faculdade do encarregado.

Apesar da diferença, os dois dispositivos estão revogados pela Constituição


Federal de 1988 que, no seu artigo 136, parágrafo 3º, inciso IV, determina: “É
vedada a incomunicabilidade do preso”.

3.1.7 Prazos para o término do inquérito

Os prazos para o término do inquérito são previstos da seguinte forma no


CPPM e no CPP, respectivamente:

Art. 20 - O inquérito deverá terminar dentro de vinte (20)


dias, se o indiciado estiver preso contado esse prazo a
partir do dia em que se executar a ordem de prisão; ou no
prazo de quarenta dias, quando o indiciado estiver solto,
contados a partir da data em que se instaurou o inquérito.

Art.10 - O inquérito deverá terminar no prazo de dez


(10) dias, se o indiciado tiver sido preso em flagrante, ou
estiver preso preventivamente, contado o prazo, nesta
hipótese, a partir do dia em que se executar a ordem de
prisão, ou no prazo de trinta (30) dias, quando estiver
solto, mediante fiança ou sem ela.

26
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Para Assis:

O Código de Processo Penal comum asseverou em seu


art. 798, parágrafo1º, que não se computará no prazo o
dia do começo, incluindo-se, porém, o do vencimento. O
CPPM não tem dispositivo correlato, mas é claro que tal
norma pode ser aplicada ao processo penal militar nos
termos do art.3º, letra a, CPPM (2011, p. 66).

Os dois códigos preveem a prorrogação do prazo para a conclusão do in- A conclusão do Inquérito Po-
licial, no âmbito da justiça co-
quérito. De acordo com o artigo 20, parágrafo 1º do CPPM, o prazo de 40
mum, fica condicionada ain-
dias poderá ser prorrogado por mais 20 dias pela autoridade militar superior, da a prazos próprios previstos
desde que não estejam concluídos exames ou perícias já iniciados ou haja em legislações penais espe-
ciais, como a Lei de Drogas
necessidade de diligências indispensáveis à elucidação do fato. O pedido de (30 + 30: preso / 90 + 90:
prorrogação deve ser feito em tempo oportuno, de modo a ser atendido solto); Lei de Crimes contra
a Economia Popular (10 dias,
antes da terminação do prazo.
preso ou solto); e Prisão Tem-
porária em caso de Crimes
Já o artigo 10, parágrafo 3º do CPP prevê que quando o fato for de difícil Hediondos e Equiparados (30
elucidação e o indiciado estiver solto, a autoridade poderá requerer ao juiz a + 30: preso). Em se tratando
de investigado solto é possível
devolução dos autos, para ulteriores diligências, que serão realizadas no prazo
a prorrogação do prazo (PRA-
marcado pelo juiz. ZO IMPRÓPRIO).

Do exposto acima, vimos as diferenças quanto aos prazos. Verifica-se que o


prazo dado à autoridade de polícia judiciária militar é mais do que suficiente
para concluir sua investigação.

A doutrina diverge quanto à natureza do prazo para a conclu-


são do inquérito, prevalecendo, entretanto, tratar-se de prazo
de natureza processual (e não material).

3.1.8 Promoção da ação civil ex delicto

O Código de Processo Penal Militar não tratou da ação civil ex delicto como fez
o Código de Processo Penal comum em seus artigos 63 a 68:

Art. 63 - Transitada em julgado a sentença condenatória,


poderão promover-lhe a execução no juízo cível, para
efeito de reparação do dano, o ofendido, seu represen-
tante legal ou seus herdeiros.

27
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
3.1.9 Juizados Especiais Criminais

O juizado Especial Criminal tem competência para a conciliação, julgamento e a


execução das infrações penais de menor potencial ofensivo. Estas infrações são
todos os crimes e contravenções cuja pena máxima não exceda a dois (2) anos ou
multa no âmbito dos Juizados Especiais Criminais da Justiça estadual ou federal.

Há previsão de Juizado Especial Criminal para a:

• Justiça Comum (Lei 9.099 de 26.09.1995 e Lei 10.259/01).

• Justiça Federal (Lei 10.259 de 12.07.2001).

A lei dos Juizados Especiais Criminais não mais se aplica


à Justiça Militar.

À época da edição da Lei 9.099/95 prevalecia o entendimento doutrinário de


que esta era aplicável à Justiça Militar. Entretanto, devido ao posicionamento
do STM, a Lei 9.099/95 foi alterada pela Lei 9.839/99, acrescentando o artigo
90 – A. Os motivos alegados para a não aplicação seriam sua incompatibili-
dade com a hierarquia e disciplina e o próprio esvaziamento da Justiça Militar,
tão temido por seus membros.

A Lei 9.839/99, por ser mais Assim, a Lei 9.839, de 27.12.1999, acrescentando artigo à Lei 9.009/95,
gravosa, não se aplica aos cri-
retirou, finalmente, a Lei dos Juizados Especiais do universo do processo penal
mes praticados antes de sua vi-
gência. Para obter mais infor- castrense, federal, dos Estados ou do Distrito Federal.
mações, analise o HC 99743
– STF que trata do tema.
3.1.10 Exercício do direito de representação

Segundo o artigo 33 do CPPM:

Qualquer pessoa, no exercício do direito de representação,


poderá provocar a iniciativa do Ministério Público, dando-
-lhe informações sobre fato que constitua crime militar e
sua autoria, e indicando-lhe os elementos de convicção.

Dispositivo semelhante encontra-se no artigo 27 do Código de Processo Penal


comum. Sobre este dispositivo, anota Rosa (apud ASSIS, 2011, p. 94) “[...]
decorre de uma das garantias constitucionais que assegura a qualquer pes-
soa, o direito de petição e de representação aos Poderes Públicos (CF, art.5º,
XXXIV, a) (1999:139)”.

28
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Também, segundo Assis:

O direito de representação aqui referido não se confunde


com o instituto da representação existente no processo pe-
nal comum, para os crimes de ação pública condicionada
a que só se procede mediante representação, e assim estão
previstos no Código Penal e de Processo Penal comum e na
Lei 9.099/95 (Juizados Especiais Criminais) (2011, p. 94).

3.1.11 Relação processual

De acordo com Assis:

A Lei 11.719/08 deu nova redação ao art. 363 do CPP


comum, estabelecendo que o processo terá completada
sua formação com a citação do acusado, aproximando-se
aqui, quase quarenta anos depois, do que fora previsto
em 1969 no CPPM (2011, p.100).

A inovação legislativa do CPP foi ao encontro do artigo 35 do CPPM, que


determina: “O processo inicia-se com o recebimento da denúncia pelo juiz,
efetiva-se com a citação do acusado e extingue-se no momento em que a sen-
tença definitiva se torna irrecorrível, quer resolva o mérito, quer não”.

3.1.12 Inexistência de atos praticados por juiz impedido

O artigo 37 do CPPM, em seu parágrafo único, declara a inexistência dos atos


praticados pelo juiz impedido. Não há dispositivo semelhante no CPP comum.
Para Assis (2011, p. 107), “sendo o ato inexistente, nem sequer se pode falar
de sua nulidade, relativa ou absoluta, pois, para que um ato seja considerado
nulo, necessário é que antes, exista”.

3.1.13 Os peritos

A Lei 11.690/08 alterou significativamente as perícias no Código de Processo


Penal comum (CPP). As mudanças ocorreram através do artigo 159 do CPP. An-
tes deste artigo, a exemplo do Código de Processo Penal Militar (CPPM), eram
necessários dois peritos para a realização válida do exame pericial, fossem eles
técnicos oficiais ou não. Hoje, na Justiça comum, usa-se um perito estatal (de
carreira). Para a Justiça Militar continua obrigatório os dois peritos nomeados
pelo juiz (ad hoc), conforme artigo 47 do CPPM. Se for chamado perito estatal
(oficial), a perícia poderá ser realizada com um perito.

29
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
3.1.14 Não comparecimento do perito

O artigo 51, do CPPM, aborda a questão do não comparecimento do perito.


No CPP, o assunto é disciplinado no artigo 278 que, segundo Assis (2011, p.
118), “determina a condução do perito, em caso de não comparecimento, sem
justa causa, não fazendo distinção entre peritos particulares ou funcionários
públicos. No CPPM, o juiz requisitará da autoridade superior a apresentação do
perito que for servidor (civil ou militar)”.

3.1.15 Intervenção do assistente no processo

O artigo 65 do CPPM prevê:

Art. 65 Ao assistente, será permitido, com aquiescência


do juiz e ouvido o Ministério Público:

a. Propor meios de prova;


b. Requerer perguntas às testemunhas, fazendo-o de-
pois do procurador;
c. Apresentar quesitos em perícia determinada pelo juiz
ou requerida pelo Ministério Público;
d. Juntar documentos;
e. Arrazoar os recursos interpostos pelo Ministério Público;
f. Participar do debate oral.

No CPP comum verifica-se que no artigo 271, parágrafo 1º, a decisão do juiz,
ouvido o Ministério Público, é, tão somente, quanto à realização das provas
propostas pelo assistente. Para Assis (2011, p. 131) “a redação do artigo não
foi das melhores, visto que condiciona toda e qualquer intervenção do assis-
tente à aquiescência do juiz, ouvido o Ministério Público Militar”.

Sobre a notificação do assistente no CPP comum, o seu artigo 271, parágrafo


2º, informa que o processo prosseguirá independentemente de nova intima-
ção do assistente, quando este, intimado, deixar de comparecer a qualquer
dos atos da instrução ou do julgamento, sem motivo de força maior devida-
mente comprovado.

Já no CPPM (artigo 66), “o processo prosseguirá independentemente de qual-


quer aviso ao assistente, salvo notificação para assistir ao julgamento”. Compa-
rando os dois artigos, constata-se que o CPPM é muito rígido com o assistente.
O ideal será o assistente ser intimado e notificado de todos os atos do processo.

30
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
3.1.16 A denúncia

A denúncia é a peça acusatória, exclusiva do Ministério Público. É sempre escri-


ta, com exceção da denúncia feita no Juizado Especial Criminal, que pode ser
oral. O CPP comum admite que sejam arroladas até oito testemunhas, confor-
me artigo 401, diferenciando do CPPM, que são até seis. No CPPM a denúncia
é disciplinada da seguinte forma:

Art. 77. A denúncia conterá:

[...]

h) o rol das testemunhas, em número não superior a seis,


com a indicação da sua profissão e residência; e o das
informantes com a mesma indicação.

É importante observar, no entanto, que o número de testemu-


nhas deve ser interpretado em consonância com o princípio
constitucional da ampla defesa, sendo, portanto, a limitação
de oito (CPP) ou seis (CPPM) restrita a cada fato delituoso ex-
presso na denúncia.

Veja a respeito o julgado do STJ, 6ª Turma, na apreciação do HC


26.834-CE, relator o Min. Paulo Medina, julgado em 14 de junho
de 2003 e disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/revistaeletroni-
ca/Abre_Documento.asp?sLink=ATC&sSeq=1876029&sReg=200
300162000&sData=20061120&sTipo=5&formato=PDF>.

As omissões da denúncia, de acordo com o artigo 569 do CPP comum,


indica-nos que elas poderão ser supridas, a todo tempo, antes da sentença fi-
nal, seja pelo aditamento, seja pela correção da peça inicial, sendo titular deste
direito o Ministério Público.

O Código de Processo Penal Militar não possui dispositivo semelhante do


CPP comum.

31
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
3.1.17 O prazo para oferecimento da denúncia

No processo penal militar, se o indiciado estiver solto, o prazo de 15 dias poderá


ser prorrogado por despacho do juiz para o dobro e até o triplo, desde que o caso
seja de caráter excepcional, de difícil solução. Conforme o artigo 79 do CPPM:

Com o inquérito (IPM) concluído e remetido a juízo,


será distribuído e registrado, mandado a seguir para o
representante do Ministério Público Militar. A partir do
recebimento dos autos, o representante do Ministério
Público Militar tem cinco (5) dias para o oferecimento da
denúncia se o indiciado estiver preso, e de quinze (15)
dias se estiver solto.

O CPP comum trata do prazo da denúncia no seu artigo 46: “estando o indiciado
preso, são cinco (5) dias e estando solto ou afiançado, será de quinze (15) dias”.

3.1.18 O crime de tortura praticado por militar

O crime de tortura não está previsto no Código Penal Militar, mas, sim, em lei
extravagante, a Lei 9.455, de 1997. Desta forma, a competência para o proces-
so e julgamento do crime de tortura é da justiça comum, salvo quando pratica-
do em tempo de guerra, nas condições previstas no artigo 10, inciso IV do CPM.

3.1.19 O crime de abuso de autoridade

A súmula 172-STJ define que compete à Justiça Comum, salvo quando prati-
cado em tempo de guerra, nas condições previstas no artigo 10, inciso IV do
CPM, processar e julgar militar por crime de abuso de autoridade, ainda que
praticado em serviço.

Para Assis:

Os crimes de abuso de autoridade são previstos na Lei


4.898, de 09.12.1965, onde são tutelados os direitos
fundamentais do cidadão. Não existe previsão análoga
no Código Penal Militar, onde a usurpação e o excesso
ou abuso de autoridade são crimes militares próprios,
previstos entre os arts. 167 a 176, dizendo respeito ao
Capítulo dos crimes contra a autoridade ou disciplina
militar (2011, p. 224).

32
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
3.1.20 A revista independentemente de mandado

O CPPM declara as situações em que a revista pessoal independerá de manda-


do, conforme o artigo transcrito a seguir:

Art.182. A revista independe de mandado:

a) Quando feita no ato da captura de pessoa que deva


ser presa;

b) Quando determinada no curso da busca domiciliar;

c) Quando ocorrer o caso previsto na alínea a) do artigo


anterior;

d) Quando houver fundada suspeita de que o revistando


traz consigo objetos ou papéis que constituam o corpo
de delito;

e) Quando feita na presença da autoridade judiciária ou


do presidente do inquérito.

O CPP comum omitiu tal prescrição legal.

3.1.21 A prisão provisória

A prisão provisória regulada pelo artigo 220, do CPPM, é a prisão provisória


que ocorre durante o inquérito, ou no curso do processo, antes da condena-
ção definitiva.

No CPP comum, não há artigo correspondente, pois no Direito Processual Pe-


nal Comum são consideradas as seguintes espécies de prisão provisória:

Prisão temporária: até 5 dias, podendo ser prorroga-


da por mais cinco. É decretada pelo juiz, a pedido da
autoridade policial. Regulamentada pela Lei 7.960, de
21.12.1989. Tal norma atinge vários crimes previstos no
CP comum, entretanto não se aplica aos crimes previstos
no Código Penal Militar.

a) A Lei 8.072, de 25.07.1990, Lei dos Crimes Hediondos,


alterou o prazo da prisão temporária para trinta dias,
prorrogáveis por mais trinta dias, para os crimes previstos
na referida lei.

33
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
b) Prisão preventiva: está também prevista nos artigos
254 a 261 do CPPM. É também provisória e é decretada
pela autoridade judiciária.

c) Prisão em flagrante delito: prevista no CPPM, nos arti-


gos 243 a 253. Também provisória.

No Código de Processo Penal Militar são encontradas ainda as prisões do


insubmisso e a do desertor, decorrentes da lavratura do respectivo Termo
de Insubmissão (artigo 463, parágrafo 1º, do CPPM) e de Deserção (artigo
452 do CPPM). Tais prisões independem de ordem judicial e sim do previsto
no artigo 243 do CPPM.

De acordo com o apresentado fica claro que as diferenças entre o CPP e o


CPPM se devem às peculiaridades de cada Direito. Cada um deve respeitar a
lei maior, a Constituição Brasileira, e atender aos anseios de cada sociedade,
a civil e a militar. No caso da esfera militar, desponta a necessidade maior da
salvaguarda dos pilares da hierarquia e da disciplina, pois sem esses bens juridi-
camente tutelados, as Forças Armadas se desorganizam e, desorganizadas, per-
dem a capacidade de cumprir a sua missão constitucional de defesa da pátria.

É importante ressaltar a necessidade de atualizações no Código de Processo


Penal Militar, tendo em vista os vários artigos derrogados, por não terem sido
recepcionados pela Constituição Federal de 1988.

34
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
4 Procedimentos especiais
e procedimentos ordinários

Objetivo específico

• Identificar os princípios e os ritos processuais inerentes aos procedi-


mentos existentes no CPPM.

O direito de ação é exercido pelo Ministério Público, como representante da lei


e fiscal de sua execução, e o da defesa pelo acusado, cabendo ao juiz exercer o
poder de jurisdição, em nome do Estado.

No processo penal militar, a ação penal é sempre pública,


salvo no exercício do direito de ação penal privada subsidiária,
previsto na CF (artigo 5º, inciso LIX).

Contudo, é o processo que realiza o direito, através de atos. Etimologica-


mente, processo quer dizer marchar em frente (do latim pro-cedere = seguir
adiante), visando à solução de lides. Por isso, conceitualmente, o processo
representa a atividade jurisdicional, com a função específica de aplicar a lei.

Cabe ressaltar que a coordenação dos atos processuais é o procedimento, ou


seja, é a sequência que os atos processuais deve guardar e obedecer. Portanto,
o procedimento constitui o conteúdo formal do processo; é a sua manifesta-
ção extrínseca (LOUREIRO, 2000).

Essa distinção, entre processo e procedimento, é fundamental para que se


possa discorrer sobre objetivos propostos para o assunto.

4.1 Princípios do processo penal militar

O processo penal militar é regido por uma série de princípios e regras que
serão apresentados a seguir.

35
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Princípio:

a) Do devido processo legal

Consiste em assegurar à pessoa o direito de não ser


privada de sua liberdade e de seus bens, sem a garantia
de um processo desenvolvido na forma que estabelece a
lei. Encontra-se amparado no art.5º, inc. LIV, da CF/88:
Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens, sem
o devido processo legal (CAPEZ, 2003, p. 30).

b) Da legalidade

Os órgãos incumbidos da persecução penal não podem


possuir poderes discricionários para apreciar a conveni-
ência ou oportunidade da instauração do processo ou do
inquérito. Atendendo a este princípio, a autoridade po-
licial judiciária militar, nos crimes militares, é obrigada a
proceder às investigações, elucidando o fato e buscando
os autores do fato criminoso; enquanto o representante
do Ministério Público é obrigado a apresentar a respectiva
denúncia, desde que se verifique um fato aparentemente
delituoso (CAPEZ, 2003, p. 27).

c) Do juiz natural (nulla poena sine judice)

Para obter mais informações Encontra-se amparado no artigo 5º, inciso LIII, da CF/88: “Ninguém será pro-
a respeito do princípio do
cessado nem sentenciado senão pela autoridade competente”; e pelo mesmo
juiz natural e competência da
Justiça Militar para processo artigo 5º, inciso XXXVII: “Não haverá juízo ou tribunal de exceção”.
e julgamento de civis, ver a
decisão do STF no habeas corpus
d) Da verdade real
nº 110.237-PA, da 2ª Turma,
rel. Min. Celso de Mello, jul- No processo penal militar, o juiz tem o dever de investigar
gado em 19 de fev de 2013
como os fatos se passaram na realidade, não se confor-
e disponível em: <http://
redir.stf.jus.br/paginador- mando com a verdade formal constante dos autos. Tal
pub/paginador.jsp?docTP= princípio possibilita ao juiz determinar diligências de ofício,
TP&docID=3456276>. para melhor esclarecimento dos fatos (CAPEZ, 2003, p. 26).

e) Do contraditório e da ampla defesa

O réu deve conhecer a acusação que se lhe imputa para


poder contrariá-la, evitando, assim, possa ser condenado
sem ser ouvido.

36
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Segundo o art. 5º, inc. LV, da CF/88: aos litigantes, em
processo judicial ou administrativo, e aos acusados em
geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com
os meios e recursos a ela inerentes (CAPEZ, 2003, p. 29).

f) Da publicidade

Esse princípio encontra-se consolidado no artigo 5º, inciso LX, CF/88: “A lei
só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da
intimidade ou o interesse social o exigirem”; e no artigo 93, inciso IX da CF/88:
“todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e funda-
mentada todas as decisões, sob pena de nulidade”.

g) Da oficialidade

O princípio da oficialidade está previsto no artigo 129, CF/88: “São funções Para obter mais informações
sobre o atual entendimento
institucionais do Ministério Público: I - promover, privativamente, a ação penal
do STF a respeito de provas
pública, na forma da lei”. ilícitas e ilicitude por deri-
vação (“teoria da árvore dos
frutos envenenados”), ver o
h) Da iniciativa das partes e do impulso oficial
acórdão resultante do julga-
“De acordo com esse Princípio o juiz não pode dar início ao mento do habeas corpus nº
91.867-PA, da 2ª Turma, rel.
processo sem a provocação da parte” (CAPEZ, 2003, p. 29).
Min. Gilmar Mendes, julgado
em 24 de fevereiro de 2012 e
i) Da inadmissibilidade das provas obtidas por meios ilícitos disponível em:
<http://redir.stf.jus.br/
As provas obtidas por meios ilícitos constituem espécie p ag i n a d o r p u b / p ag i n a -
das chamadas provas vedadas. A prova vedada é aquela dor.jsp?docTP=TP&docID
=2792328>
produzida em contrariedade a uma norma legal espe-
cífica. De acordo com o art.5º, inc. LVI, da CF/88: são
inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios
ilícitos (CAPEZ, 2003, p. 31).

j) Do estado de inocência ou princípio da presunção de não culpa

Esse princípio está contido no artigo 5º, inciso LVII, CF/88 e prevê que
ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença
penal condenatória.

l) Da brevidade processual

O artigo 5º, inciso LXXVIII, CF/88, recomenda que sejam evitadas questões
demoradas e protelatórias.

37
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
4.2 Ritos processuais inerentes aos
procedimentos existentes no CPPM

O tipo de Processo Penal Militar é acusatório, porque é contraditório, públi-


co, imparcial e assegura a ampla defesa. As funções de acusar, defender e de
julgar são atribuídas a órgãos distintos.

A definição de processo é:

[...] a sucessão de atos que se desenvolvem, e encadeiam-


-se, relacionando-se num caminhar para frente, no
desdobramento das relações entre os sujeitos processu-
ais. Enquanto procedimento é a maneira de ”conduzir o
processo, de dispor a sequência dos atos, é a forma, o
lugar, o tempo de cada um” (TORNAGHI apud LOBÃO,
2009, p. 447).

De acordo com as definições de processo e de procedimento


aqui apresentadas, não é correto dizer “as fases do processo”,
mas sim do procedimento. Também não é correto dizer que
inquérito é processo. É um procedimento.

Em consequência, os procedimentos existentes no Código de Processo Penal


Militar (CPPM), em tempo de paz, são: ordinário e especial. Este último
refere-se aos crimes de deserção e insubmissão.

Assim, ao contrário do processo penal comum, não


existem procedimentos diversos para os delitos apenados
com reclusão e detenção, nem para crimes funcionais ou
de entorpecentes, pois tudo se resume no procedimento
ordinário. O CPPM apenas estabeleceu o especial nos
crimes de deserção e insubmissão, tendo em conta que,
face à não complexidade dos mesmos, não era neces-
sária uma atividade probatória tão extensa (COLDIBELLI;
MIGUEL, 2011, p.137).

4.2.1 Procedimento ordinário

Rito é o roteiro, o caminho que segue o procedimento. A seguir será apresen-


tado o roteiro do procedimento ordinário.

38
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
a) Recebimento da denúncia

O processo inicia de acordo com o artigo 35 do CPPM, “com o recebimento


da denúncia, pelo juiz, efetiva-se com a citação do acusado e extingue-se no
momento em que a sentença definitiva se torna irrecorrível, quer resolva o mé-
rito ou não”. No mesmo sentido, o artigo 396 do CPPM, dispõe: “o processo
ordinário inicia-se com o recebimento da denúncia”.

O início está nas mãos das autoridades policiais judiciárias, previstas no artigo
7º do CPPM, quando ela toma conhecimento da prática de um fato que em
princípio trata-se (têm indícios) de crime militar e determina imediatamente a
instauração de IPM, com o fim de elucidar e buscar a autoria deste fato.

Após concluir as investigações, remete os autos ao juízo


competente que dará vista dos mesmos ao Ministério
Público Militar (MPM) a fim de que possa se manifestar,
requerendo o arquivamento (artigo 397), por entender,
por exemplo, que o fato não constitui crime; arguindo a
extinção da punibilidade, se presente uma das hipóteses
previstas no artigo 123, do Código Penal Militar, argüir
a incompetência do juízo ou da Justiça Militar (artigo
398) para apreciar o fato ou, ainda, oferecer denúncia, se
estiverem presentes os requisitos expressos no artigo 30,
do CPPM, ou seja, prova de fato que, em tese, constitua
crime militar e indícios de autoria. Na hipótese de o Juiz-
-Auditor discordar do pedido de arquivamento deverá
remeter os autos ao Procurador-Geral da Justiça Militar a
quem caberá opinar sobre a propositura ou não da ação
penal, após manifestação da Câmara de Coordenação e
Revisão (artigo 136, IV da Lei Complementar nº 75, de
20.05.1993). Se entender pela propositura da ação, será
designado outro membro do MPM para tal finalidade
(artigo 397, parágrafo 1º).

Quando o MPM conclui que os requisitos descritos no


artigo 30 estão presentes, deve oferecer a denúncia,
passando, então, o Juiz-Auditor a analisar a peça inaugu-
ral, não somente sob o prisma acima, mas também o seu
aspecto formal. Se concordar com os termos da denúncia
deverá recebê-la, tendo, assim, por iniciado o processo
(COLDIBELLI; MIGUEL, 2011, p. 137-138).

O artigo 69 do CPPM prevê: “Considera-se acusado a quem é imputada a prá-


tica de infração penal em denúncia recebida.” É o momento em que o indicia-
do passa a ser réu ou acusado.

39
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
De acordo com o artigo 399 do CPPM, o Juiz-Auditor:

a) Providenciará, conforme o caso, o sorteio do Conselho


Especial de Justiça ou a convocação do Conselho Perma-
nente de Justiça;

b) Designará dia, lugar e hora para a instalação do Conse-


lho de Justiça;

c) Determinará a citação do acusado, de acordo com o


art. 277, para assistir a todos os termos do processo até
decisão final, nos dias, lugar e hora que forem desig-
nados, sob pena de revelia, bem como a intimação do
representante do Ministério Público;

d) determinará a intimação das testemunhas arroladas


na denúncia, para comparecerem no lugar, dia e hora
que lhes for designado sob as penas da lei, e se couber, a
notificação do ofendido, para os fins dos arts 311 e 312.

Na primeira reunião do Conselho de Justiça, Permanente ou Especial, os oficiais


prestarão o compromisso legal, previsto no artigo 400 do CPPM. O Presidente
do Conselho é quem faz a leitura dos termos do compromisso, devendo os de-
mais oficiais, por ordem hierárquica, dizer, ao término da leitura do presidente,
“assim o prometo”.

b) Qualificação e interrogatório do acusado

Ver a decisão do STF no senti- Para uma melhor compreensão desse aspecto será necessário uma leitura aten-
do de ser aplicada ao processo
ta dos artigos 302 a 306 e 404 a 410 do CPPM.
penal militar a modificação do
CPP comum que determina
que o interrogatório seja fei-
A qualificação e o interrogatório são atividades exclusivas do Conselho de Jus-
to ao final do processo – HC tiça, cabendo somente a este formular perguntas ao réu. As perguntas serão
nº 115.530-PR, 1ª Turma, rel.
feitas primeiramente pelo Juiz-Auditor e, posteriormente, pelos demais mem-
Min. Luiz Fux, em 25 junho
de 2013, disponível em: bros por ordem de hierarquia, sempre através do Juiz-Auditor.
<http://redir.stf.jus.br/
p ag i n a d o r p u b / p ag i n a - O réu tem o direito de permanecer calado (artigo 5º, inciso LXIII, CF/88) e essa
dor.jsp?docTP=TP&docID atitude não poderá ser usada contra ele.
=4317414>
O artigo 412 fala da revelia: se o acusado, citado pessoalmente, deixar de
comparecer à audiência de qualificação e interrogatório, sem justa causa, ser-
-lhe-á decretada à revelia.

40
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Se o réu for citado por edital e não comparecer, Coldibelli e Miguel (2011)
entendem que deverá ser aplicada a hipótese prevista no artigo 366 do Código
de Processo Penal Comum, sendo, em consequência, suspensos o processo e o
curso do prazo prescricional.

c) Testemunhas arroladas pela acusação

Assunto está inserido nos artigos 415 a 430 e 347 a 364, do CPPM.

Este é o segundo ato da instrução criminal. As pergun-


tas serão formuladas da mesma forma prevista para o
interrogatório, exceto no que pertine à possibilidade do
Ministério Público e da defesa formularem perguntas às
testemunhas, através do Juiz-Auditor (COLDIBELLI; MI-
GUEL, 2011, p. 139-140).

d) Testemunhas arroladas pela defesa

Observa-se no parágrafo 2º do artigo 417 que a defesa deverá apresentar o rol Para obter mais informações
sobre o arrolamento de teste-
de testemunhas em qualquer fase da instrução criminal, desde que não excedi-
munhas pela defesa, consulte
do o prazo de cinco dias após a inquirição da última testemunha de acusação. o artigo 417 do CPPM.

Não há defesa prévia ou alegações preliminares.

e) Diligências

Após a inquirição da última testemunha de defesa, os autos são conclusos ao Para obter mais informações
Juiz, que determinará vista em cartório, por cinco dias, ao Ministério Público sobre diligências, consulte o
artigo 427 do CPPM.
Militar e à defesa, para requererem novas diligências, em razão de fatos apura-
dos na instrução criminal.

f) Alegações escritas

O Ministério Público Militar é o primeiro a se manifestar, no prazo de oito dias, Para obter mais informações
podendo ratificar o pedido condenatório, modificá-lo ou opinar pela absolvi- sobre alegações escritas, con-
sulte os artigos 428 e 429
ção, baseado nas provas colhidas no curso do processo. do CPPM.

Ao assistente, se requerer, será dada vista dos autos pelo prazo de cinco dias,
após as alegações do MPM.

Após, será aberta vista, pelo prazo de oito dias, à defesa que deverá apresentar
argumentos que levem o Conselho de Justiça a proferir um decreto absolutório
ou mesmo arguir, preliminarmente, nulidades.

41
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Para obter mais informações Se no processo tiver mais de cinco acusados e os advogados forem diferentes,
sobre o assunto, consulte o
o MPM terá o prazo de 12 dias. Ato contínuo, a defesa terá, em conjunto e
artigo 430 do CPPM.
em cartório, o mesmo prazo.

g) Diligências pelo Juiz-Auditor

O Juiz-Auditor poderá, findo o prazo para alegações escritas, determinar


diligências para sanar eventuais irregularidades ou suprir falta prejudicial ao
esclarecimento da verdade.

Estando o processo preparado, o Juiz-Auditor designará dia e hora para o


julgamento.

h) Da sessão de julgamento e da sentença

A sessão de julgamento e a sentença encontram-se disciplinadas nos artigos


431 a 450 do CPPM. De acordo com Coldibelli e Miguel, ela se desenvolve da
seguinte forma:

A sessão de julgamento somente pode ser realizada com


a presença de todos os juízos do Conselho. Verifica-se
que este é, em tese, o quarto ato processual no qual
participam, no mesmo processo, os juízes militares, sendo
os demais o interrogatório, a oitiva de testemunhas da
acusação e das testemunhas de defesa, pois nas outras
fases do procedimento, acima elencadas, não há parti-
cipação do Conselho de Justiça. Afirmamos que seria o
quarto ato no mesmo processo, visto que, nos Conselhos
Permanentes, dificilmente os oficiais atuam em todas as
fases de um único processo. É comum participarem do
interrogatório, da inquirição de testemunhas, porém, por
estarem limitados a 3 meses de atuação, nem sempre
há tempo hábil de realizarem o julgamento, deixando o
mesmo para os Conselhos dos trimestres subsequentes. É
possível, até mesmo, que na primeira reunião já partici-
pem de uma sessão de julgamento. Isto não ocorre com
os Conselhos Especiais, tendo em vista que nestes os
oficiais atuam do início ao fim do processo, o que facilita
a apreciação do fato.

Iniciada a sessão de julgamento, serão lidas as peças


elencadas no artigo 432 do CPPM, bem como aquelas
indicadas pelo Conselho e pelas partes.

42
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Após, será dada a palavra, sucessivamente, pelo tempo
de 3 horas, ao Ministério Público e à defesa, podendo
haver réplica e tréplica, por tempo não excedente a 1
hora, para cada um (artigo 433 do CPPM). Não obstante,
se o advogado tiver a seu cargo a defesa de mais de um
acusado, além do tempo previsto no parágrafo 1º, terá
direito a mais 1 hora, se fizer a defesa de todos em con-
junto. Se excedentes a dez, cada advogado terá direito a
1 hora para a defesa de cada um de seus constituintes,
senão usar da faculdade de fazer a defesa de todos em
conjunto. Se usar, no entanto, dessa faculdade, e um
advogado tiver a seu cargo a defesa de mais de dez acu-
sados, o tempo será de, no máximo, seis horas.

Concluídos os debates orais, o Conselho de Justiça deli-


berará não mais em sessão secreta por vedação expressa
contida no artigo 93, IX da CF/881, mas no máximo em
sessão restrita, desde que presentes o Ministério Públi-
co, o advogado e o réu. Caberá ao Conselho de Justiça
apreciar as questões preliminares e de mérito, votando,
em primeiro lugar, o Juiz-Auditor, e, posteriormente, os
oficiais por ordem inversa de hierarquia. O Juiz-Auditor
vota em primeiro lugar, tendo em conta o conhecimento
técnico que servirá para orientar os demais membros
do Conselho (art. 435 CPPM). Todos os Juízes votam,
não só pela condenação ou absolvição, mas também, se
optarem pela primeira hipótese, pela pena a ser aplicada
(2011, p.p. 142-143).

Após o Conselho proferir sua decisão, o Juiz-Auditor terá o prazo de oito dias,
de acordo com o inciso VII do artigo 30 da Lei 8.457/ 92 e artigo 443, do
CPPM, para redigir a sentença, sendo ou não voto vencido (artigo 438, pará-
grafo 2º, do CPPM).

i) Constituição da sentença

O Código de Processo Civil, no seu artigo 162, parágrafo 1º dispõe que a


sentença: “é o ato pelo qual o Juiz põe termo ao processo, decidindo ou não o
mérito da causa”.

1 Contrariando a previsão do artigo 434, do CPPM.

43
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
A sentença divide-se em quatro partes:

• Relatório – de acordo com Pontes de Miranda (apud COLDIBELLI; MI-


GUEL, 2011, p.146), é a história relevante do processo. Tem por finali-
dade demonstrar que o Juiz conhece o processo e que efetivamente o
estudou. Amparo legal: alíneas a) e b) do artigo 438 do CPPM.

• Motivação ou fundamentação - cumprindo o princípio constitu-


cional, artigo 93, inciso IX, todas as decisões jurisdicionais devem ser
fundamentadas. Amparo legal: alínea c), do artigo 438 CPPM. Trata-se
de uma das garantias das partes, evitando-se o arbítrio judicial. Sua falta
acarreta a nulidade da sentença (artigo 500, inciso IV do CPPM).

• Conclusão ou parte expositiva - O Juiz julga procedente ou improceden-


te o pedido, aplicando a lei ao caso concreto. Amparo legal: alínea d) do
artigo 438 do CPPM.

• Parte autenticativa - contém a assinatura de todos os Juízes, bem


como a data. O primeiro Juiz a assinar é o presidente (oficial mais antigo),
seguindo por hierarquia e por último assinará o Juiz-Auditor (civil). Ordem
inversa da votação. Amparo legal: alínea e) do artigo 438 do CPPM.

Após a leitura da sentença, no prazo de 8 dias a contar


da sessão de julgamento, encerra-se a participação do
Conselho de Justiça naquele determinado processo, só
voltando a se reunir se sobrevier nulidade, reconhecida
pela instância superior, o Conselho Especial, a qualquer
tempo, e o Conselho Permanente dentro do trimestre de
sua competência.

Oportuno destacar que a alínea a) do artigo 449 do


CPPM, só deve ser aplicada, ou seja, o réu somente de-
verá ser recolhido à prisão, se proferida sentença conde-
natória, caso seja reincidente ou de maus antecedentes,
conforme dispõe o artigo 527 do CPPM. Caso contrário,
deverá ser aguardado o trânsito em julgado da decisão,
significando dizer que apenas quando não couber mais
recursos, o acusado será recolhido à prisão. Este trânsito
em julgado serve também para definir o momento em
que o militar poderá ser transferido para a reserva ou
licenciado e, ainda, para que o seu nome seja lançado
no rol dos culpados (art. 449, b, CPPM) (COLDIBELLI;
MIGUEL, 2011, p. 150)

44
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
O quadro 1 a seguir ilustra o rito processual de forma concisa.

RITO PROCESSUAL

Remessa do IPM / APF/ PEÇA INFORMATIVA, PARA A AUDITORIA,


VISTA AO MINISTÉRIO PÚBLICO MILITAR

• Prazo de cinco dias para o indiciado preso e 15 dias + dobro +


OFERECIMENTO DA DENÚNCIA
triplo para indiciado solto.

• Prazo de 15 dias para o Juiz-Auditor receber a denúncia.


RECEBIMENTO DA DENÚNCIA
• Sorteio do CEJ ou convocação do CPJ; designação de data para
instalação do Conselho; citação do acusado e intimação do MPM
e testemunhas.

• Só poderá ser realizado sete dias após a designação.


INTERROGATÓRIO • Exceções (art.128 do CPPM): prazo de 48 horas após o
interrogatório.

• Seis testemunhas numerárias + três informantes


SUMÁRIO – TESTEMUNHAS
ou feridas.
ARROLADAS PELO MPM
• Se houver mais de três acusados, + três testemunhas numerárias.

• Até cinco dias após a oitiva da última testemunha de acusação.


TESTEMUNHAS ARROLADAS
PELA DEFESA • Cada acusado poderá arrolar até seis testemunhas numerárias +
três informantes.

DILIGÊNCIAS • Prazo de cinco dias para as partes requererem o que for de direito.

• Prazo sucessivo de oito dias; assistente terá cinco dias após o MPM.
ALEGAÇÕES ESCRITAS • Mais de cinco acusados e diferentes advogados, 12 dias de
prazo em cartório e em comum. O mesmo prazo terá o MPM.

DILIGÊNCIAS – JUIZ-AUDITOR • Se o processo estiver preparado, designará o dia do julgamento.

• Sustentação oral.
• 3 horas para cada parte e uma hora para réplica e tréplica.
JULGAMENTO • Advogado de mais de uma parte terá mais uma hora.
• Mais de 10 acusados, uma hora para a defesa de cada um. Não
poderá exceder a seis horas o tempo total.

Quadro 1 – Rito processual


Fonte: COLDIBELLI e MIGUEL (2011, p. 150-152).

45
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
4.2.2 Procedimentos especiais

O CPPM adota procedimento especial e sumário nos crimes de deserção


(de oficial e de praça) e insubmissão. Tal procedimento é célere, tendo os
atos processuais reduzidos e simplificados, diante do interesse da administra-
ção castrense.

O rito processual para os crimes de deserção e insubmissão apresenta alguma


semelhança com o procedimento aplicado aos crimes apenados com detenção
previstos na justiça comum no artigo 539 do Código de Processo Penal Comum,
sendo que para o CPP não existe a defesa prévia e os prazos são mais exíguos.

Conforme Loureiro Neto:

Os procedimentos especiais localizam-se no Código de


Processo Penal Militar em seu Título II, Capítulo I, Da
Deserção em Geral; no Capítulo V, Do Processo de Crime
de Insubmissão; no Capítulo VI, Do Habeas-Corpus; no
Capítulo VII, Do Processo para Restauração de Autos; no
Capítulo VIII, Do Processo de Competência Originário do
Superior Tribunal Militar; e, finalmente, no Capítulo IX,
trata da Correição Parcial, todos eles sujeitos, portanto, a
um rito diverso do ordinário (2000, p. 144).

a) A deserção em geral

De acordo com Coldibelli e Miguel:

O rito no processo de deserção é sumaríssimo, caracteri-


zado pela celeridade, sendo reduzidos e simplificados os
atos processuais nele praticados. Por essa razão argu-
menta-se que há violação do Princípio Constitucional da
Ampla Defesa.

Verifica-se, quase na totalidade dos casos, que não se


discute a questão da existência do delito, ou seja, o réu
geralmente admite que não possuía autorização para se
ausentar. Assim, a controvérsia se restringe à justificativa
da ausência, isto é, defesa procura demonstrar que o réu
se encontrava, por exemplo, em dificuldades financeiras,
passando por problemas depressivos, resultando, quando
aceito, o motivo, num decreto absolutório, com funda-
mento na inexigibilidade de conduta diversa, seja como
causa supralegal de exclusão da culpabilidade, seja pelo
estado de necessidade exculpante, previsto no artigo 39
da Legislação Penal Castrense (CPM).

46
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Em regra, o delito de deserção consuma-se após o oitavo
dia de ausência. Esse período de oito dias é o denomina-
do prazo de graça, que não existe na hipótese do artigo
190 do CPM.

[...]

No dia da consumação, o Comandante de Unidade,


deve lavrar o termo de deserção, relatando que o militar
ausentou-se sem autorização num determinado dia e que
não retornou dentro do prazo de graça.

De acordo com a Lei nº 8.236/91 que alterou o rito


previsto para o processo de deserção, não se exige mais
a realização de diligências, visando a captura do militar,
antes do transcurso do prazo de graça.

O termo de deserção compõe a chamada instrução


provisória de deserção (IPD), que nada mais é que uma
das espécies de peças informativas, que visam a fornecer
elementos ao Ministério Público Militar para oferecimen-
to da ação penal militar. Por essa razão, diz-se que tem
caráter de instrução provisória.

Importante salientar que, apesar de o artigo dispor sobre


a prisão do desertor, esta se justifica pelo dispositivo cons-
titucional, previsto no inciso LXI do artigo 5º, que permite
a custódia, independente de autorização judicial, nos
crimes propriamente militares. Acrescente-se, ainda, o dis-
posto no artigo 452 do CPPM. Entretanto, não se admite
a prisão do desertor em seu domicílio, sem o competente
mandado de busca domiciliar (2011, p. 153-156).

De acordo com o artigo 453 do CPPM, o desertor que não for julgado dentro
de sessenta dias, a contar do dia de sua apresentação voluntária ou captura,
será posto em liberdade (relaxamento da prisão), salvo se tiver dado causa ao
retardamento do processo.

Não se concede liberdade provisória a preso por deserção antes


de decorrido o prazo previsto no artigo 453 do CPPM (súmula
nº 10 - STM). No entanto, cabe ressaltar que o STF flexibilizou a
posição do STM, na apreciação do habeas corpus nº 89.645-PA,
da 2ª Turma, rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 11 de setem-
bro de 2009 e disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginador-
pub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=488676>.

47
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Atualmente, o desertor só se manifesta no interrogatório, em Juízo, num prazo
geralmente não inferior a trinta dias a contar de sua prisão. Isto tem causado
danos, pela demora de ouvir as justificativas do preso. O ideal é que seja dado
oportunidade ao preso de apresentar suas alegações logo que fosse preso.

b) O processo de deserção de oficial

Com amparo legal nos artigos 454 e 455 do CPPM, o processo de deserção de
oficial ocorre da seguinte forma: transcorrido o prazo de graça, o comandante
deve lavrar o termo de deserção, publicando em boletim, acompanhado da
parte de ausência que é lavrada no dia seguinte à ausência (24 horas após).

O oficial passando a desertor ficará agregado, conforme parágrafo 1º do arti-


go 454 CPPM, significando que não perde a condição de militar. O parágrafo
2º do artigo 454 CPPM, destaca os documentos que devem ser remetidos à
Auditoria competente para oferecimento da denúncia.

Diferentemente do procedimento ordinário em que o Juiz determina a reali-


zação do sorteio do Conselho Especial de Justiça ao receber a denúncia, no
processo de deserção deve-se aguardar a captura ou apresentação do oficial
para tal procedimento.

O rito processual é célere, podendo-se observar que as


testemunhas arroladas pelo Ministério Público Militar
(MPM) são ouvidas na data designada para a audiência
de qualificação e interrogatório do acusado. Embora o
Código de Processo Penal Militar não faça referência, en-
tendemos que o número de testemunhas arroladas pelo
Parquet não pode ultrapassar aquele permitido à defesa,
ou seja, três, pelo Princípio da Paridade de Armas (COLDI-
BELLI e MIGUEL, 2011, p. 162).

O legislador preocupa-se com os prazos, tendo em vista o tempo que o réu


pode ficar preso (60 dias). Busca-se julgar o preso antes de ser posto em liber-
dade, para que ele não se ausente, o que levaria à suspensão do processo.

O prazo para sustentação oral é menor em relação ao rito ordinário, em razão


de não haver motivos para tantas controvérsias.

A súmula 3 do Superior Tribunal Militar afirma: “Não constituem excludentes de


culpabilidade, nos crimes de deserção e insubmissão, alegações de ordem parti-
cular ou familiar desacompanhadas de prova” (COLDIBELLI e MIGUEL, 2011).

48
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Os comentários feitos valem tanto para os processos de deserção quanto para
os de insubmissão. O quadro 2, a seguir, descreve as etapas (ação e desdobra-
mento) para deserção de oficial.

ROTEIRO PARA DESERÇÃO DE OFICIAL

Nº de Ordem AÇÃO DESDOBRAMENTOS

Lavratura do Termo de Deserção e publicação


Agregação até o trânsito em
1 em boletim, com a Parte de Ausência - CPPM,
julgado - §1º
art.454.

Remessa para a Auditoria: Parte de Ausência, In-


2
ventário, cópia de boletim e assentamentos - §2º

3 Autuação e vista do MPM, por 5 dias – §3º

Recebida a denúncia, aguarda a apresentação ou Requer arquivamento; requer diligência,


4
captura - §4º argui a incompetência, oferece denúncia.

Preso, sorteio e convocação do CEJ, citação, Art. Caso não seja julgado em 60 dias, responde
5
455 CPPM solto - Art. 453

Defesa tem 3 dias para arrolar até 3 tes-


Audiência: interrogatório e inquirição de teste-
6 temunhas, que serão ouvidas dentro de
munhas do MPM - §1º
5/10dias

7 Cumprimento de diligência, se for o caso.

Sustentação oral: 30 minutos para cada parte,


8
mais 15 minutos - §2º

9 SENTENÇA

Quadro 2 – Roteiro de deserção de oficial


Fonte: (COLDIBELLI; MIGUEL, 2011, p. 163)

c) O processo de deserção de praça, com ou sem graduação,


e de deserção de praça especial

Para Codibelli e Miguel (2011, p. 166), “o procedimento nos crimes de deser-


ção de praças apresentam distinções em relação aos que envolvem oficiais, e
mesmo entre praças existem diferenças em relação àqueles com estabilidade”.
Busca-se o amparo legal a partir do artigo 456 do CPPM. Ao ler este artigo,
não encontramos novidades em relação à deserção de oficiais. O seguinte pro-
cedimento deve ser realizado ao se constatar a falta do militar do local onde
deveria se apresentar:

49
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
• Lavrar a parte de ausência;

• Realizar o inventário de bens pertencentes à Fazenda Nacional e

• Após o prazo de graça, lavrar o termo de deserção.

O parágrafo 4º do artigo 456, traz uma diferença de tratamen-


to às praças com estabilidade dos sem estabilidade.

A praça especial (artigo 16, parágrafo 4º, do Estatuto dos Militares) com ou
sem estabilidade, ao cometer o crime de deserção, é excluída do serviço ativo,
já a com estabilidade (com mais de dez anos de serviço ativo) é agregada,
como ocorre com os oficiais.

Após o cumprimento de todas as formalidades, os autos da instrução provisó-


ria de deserção (IPD) devem ser remetidos à auditoria competente.

Analisando o artigo 457 do CPPM, verificamos diferenças em relação aos


oficiais. No parágrafo 1º, o desertor sem estabilidade, que se apresentar ou for
capturado deverá ser submetido à inspeção de saúde e, quando julgado apto
para o serviço militar, será reincluído.

Este parágrafo só exige inspeção de saúde para os desertores


sem estabilidade, porque eles foram excluídos do serviço ati-
vo. Os demais não perdem a condição de militares.

Conforme dispõe o parágrafo 2º, a ata de inspeção de saúde deve ser remeti-
da à Auditoria com urgência, para as providências cabíveis. Se o desertor for
julgado incapaz, deve ser posto em liberdade, sendo os autos arquivados, com
fundamento na ausência de condição de procedibilidade.

Para Coldibelli e Miguel, ao analisar a súmula 12 do STM sobre o assunto:

Na prática, assim que o desertor é recolhido à prisão,


esta deve ser comunicada imediatamente ao Juízo para
o qual foram distribuídos os autos da instrução provi-
sória de deserção. O Juiz-Auditor, por sua vez, remete-
-os ao Ministério Público Militar, devendo a autoridade
militar encaminhar com urgência, a ata de inspeção
de saúde, bem como eventual ato de reinclusão, caso

50
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
obviamente seja julgado apto para o serviço ativo. Essa De acordo com o STM “a pra-
urgência deve ser entendida com um prazo máximo de ça sem estabilidade não pode
ser denunciada por deserção
cinco dias, embora a legislação não estabeleça prazo,
sem ter readquirido o status
aplicando-se, por analogia, o disposto no artigo 251 de militar, condição de pro-
do CPPM que fixa aquele prazo para remessa do APF, cedibilidade para a persecutio
quando depender de diligência, como, por exemplo, um criminis, através da reinclusão.
Para a praça estável, a con-
exame. Entendemos que, apesar de o desertor perma-
dição de procedibilidade é a
necer preso por sessenta dias até o julgamento, não se reversão ao serviço ativo (sú-
pode aguardar, por exemplo por quinze dias, que a ata mula 12)”.
seja enviada, pois se o desertor for considerado incapaz,
a prisão durante todo esse período será ilegal, visto
que teríamos um civil preso pela prática de um crime
propriamente militar. Vale ressaltar que a liberdade é a
regra, e, dessa forma a manutenção da custódia deve
obedecer às formalidades legais (2011, p. 168-169).

De acordo com o disposto no parágrafo 3º, após a reinclusão da praça espe-


cial ou daquela sem estabilidade, deverá o Ministério Público Militar oferecer
denúncia. Já em relação às praças com estabilidade, é exigido apenas o ato de
reversão. Assim é:

Importante salientar que a praça com estabilidade será


revertida no momento da captura ou apresentação
voluntária, enquanto o oficial permanecerá agregado até
a decisão transitada em julgado (COLDIBELLI e MIGUEL,
2011, p.171).

Atendidos os requisitos legais, a denúncia será oferecida, e, uma vez recebida,


deverá ser observado o rito previsto nos parágrafos 4º, 5º, 6º e 7º, que é o
mesmo para aquele previsto no processo de deserção, relativo a oficial.

d) O processo de crime de insubmissão

De acordo com o artigo 463 do Código de Processo Penal Militar (CPPM):

Consumado o crime de insubmissão, o comandante ou


autoridade correspondente, da unidade para que fora
designado o insubmisso, fará lavrar o termo de insub-
missão, circunstanciadamente com indicação de nome,
filiação, naturalidade e classe a que pertencer o insubmis-
so e a data em que este deveria apresentar-se, sendo o
termo assinado pelo referido comandante, ou autoridade
correspondente, e por duas testemunhas idôneas, poden-
do ser impresso ou datilografado.

51
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
O crime de insubmissão está previsto no artigo 183 do Código Penal Militar.
Observa-se que o termo de insubmissão será lavrado, caso o convocado não se
apresente até a data limite para incorporação ou se ausente antes do respecti-
vo ato oficial de incorporação.

São documentos indispensáveis ao oferecimento da denúncia: o termo de


insubmissão e a listagem de designação, que é o documento que com-
provará que o conscrito (insubmisso) tinha conhecimento da data e local de
incorporação, como dispõe o parágrafo 2º do artigo 463 do CPPM.

A súmula nº 7 do Superior Tribunal Militar (STM), diz:

O crime de insubmissão, capitulado no artigo 183 do CPM,


caracteriza-se quando provado de forma inconteste o
conhecimento pelo conscrito da data e local de sua apre-
sentação para incorporação através de documento hábil
constante dos autos. A confissão do indigitado insubmisso
deverá ser considerada no quadro do conjunto probatório.

A ausência de documento comprobatório citado acima resultará no arquivamen-


to dos autos. A confissão isolada, não é suficiente para um decreto condenatório.

De acordo com o parágrafo 3º, recebido o termo de insubmissão e os documen-


tos que o acompanham, o juiz-auditor determinará sua autuação e dará vista
do processo, por cinco dias, ao procurador que requererá o que for de direito,
aguardando-se a captura ou apresentação voluntária do insubmisso, se nenhuma
formalidade tiver sido omitida ou após cumprimento das diligências requeridas.

A denúncia só pode ser oferecida pelo representante do Ministério Público Mili-


tar após a realização da inspeção de saúde, para que seja avaliada a capacidade
do insubmisso. Se for considerado incapaz, não será incluído no serviço ativo e,
consequentemente, os autos serão arquivados. A súmula nº 8 do STM descreve:

O desertor sem estabilidade e o insubmisso que, por


apresentação voluntária ou em razão de captura, forem
julgados em inspeção de saúde, para fins de reinclusão
ou incorporação, incapazes para o Serviço Militar, podem
ser isentos do processo, após o pronunciamento do
representante do Ministério Público.

Sendo assim, para que o insubmisso seja processado, é necessário que ele seja
incorporado para se tornar militar. Por sua vez, para que isso ocorra, ele terá
que ser apto na inspeção de saúde.

52
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
De acordo com o artigo 464 do CPPM, o insubmisso, ao se apresentar ou ser
capturado, terá direito ao quartel por [menagem], o que lhe garante não ser re- Menagem: prisão cau-
colhido ao xadrez. Porém, não poderá se ausentar dos limites da unidade militar. telar concedida àquele – civil
ou militar – que, considera-
da a natureza do crime e seus
Após a juntada da ata de inspeção de saúde, bem como do ato de inclusão,
antecedentes, cometeu crime
o Ministério Público Militar poderá oferecer a denúncia, devendo o insubmis- militar com pena que não
so ser julgado no prazo de 60 dias a contar de sua captura ou apresentação exceda a quatro anos.

voluntária, pois, caso seja ultrapassado o prazo, será posto em liberdade.

Artigo 465 do CPPM: aplica-se ao processo de insubmissão, para sua instrução


e julgamento, o disposto para o processo de deserção, previsto nos parágrafos
4º, 5º, 6º e 7º do artigo 457 do CPPM.

O quadro 3 apresenta o roteiro a ser seguido em caso de insubmissão.

Roteiro para a Insubmissão

Lavratura do Termo de Insub- O termo é Instrução Provisória e


1 missão após consumado o autorizativo da captura para incor-
crime. Art. 463 poração - §1º.

Com a Relação de Designação e


2 Remessa à Auditória
Distribuição (documento hábil).

Requer diligência/arquivamento,
3 Vista ao MPM por 5 dias - § 3º
argui incompetência - §3º.

Autos em cartório aguardando


4 apresentação voluntária ou
captura - §3º

Apresentando-se capturado,
fica sob menagem e é subme- Se incapaz: ficará isento da inclusão
Se apto: incluído; remessa dos
tido à Inspeção de saúde. Art. do processo – Art. 464. Remessa da
5 documentos à Auditoria. Vista
464. Não sendo julgado em Ata à Auditória. Vista ao MPM, que
ao MPM por 5 dias - §2º
60 dias responde ao processo requer arquivamento §1º.
em liberdade - §3º.

MPM requer diligência; argui


6 incompetência; oferece de-
núncia §2º.

Instrução e Julgamento segue


7 o disposto para o processo de
Deserção – Art. 465.

Quadro 3 – Procedimentos a serem seguidos em caso de Insubmissão


Fonte: (COLDIBELLI e MIGUEL, 2011, p.182.)

53
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
5 Execução penal
na legislação castrense

Objetivo específico

• Identificar o procedimento executório bem como os dispositivos da lei


de execução aplicáveis à Justiça Militar.

Para se executar, há necessidade de que o réu tenha recebido uma sentença


condenatória transitada em julgado.

Na Justiça Militar da União compete ao Juiz da Auditoria onde ocorreu o pro-


cesso a execução da sentença. No caso de competência originária do Superior
Tribunal Militar, a competência é do Presidente do Tribunal, que poderá dele-
gar a atribuição ao Juiz-Auditor da Circunscrição Judiciária Militar, onde o réu
cumpre sentença condenatória (Artigos 588 CPPM e 9º,§3º da Lei 8457/1992).

Para obter mais informações Quanto às penas privativas de liberdade (reclusão, detenção e prisão) que se-
sobre a execução da sentença
rão aplicadas ao condenado deve-se atentar para o que prescreve os artigos 59
na Justiça Militar da União,
leia o artigo com o mesmo e 61 do Código de Penal Militar.
nome de Jorge César de Assis
e disponível em: A seguir será descrito o que acontece com o réu condenado pela Justiça Militar,
<http://www.jusmilita- lembrando da previsão do artigo 61 do Código Penal Militar, segundo a qual:
ris.com.br/novo/uploads/
docs/execsentjmu.pdf>. A pena privativa de liberdade (reclusão e detenção) por
mais de dois anos, aplicada a militar, é cumprida em
penitenciária militar e, na falta dessa, em estabelecimen-
to prisional civil, ficando o recluso ou detento sujeito ao
regime conforme a legislação penal comum, de cujos
benefícios e concessões, também, poderá gozar.

Conclui que até dois anos, inclusive, o militar, se não receber suspensão condi-
cional da pena (SURSIS), terá a pena privativa de liberdade: reclusão ou deten-
ção, convertida em pena de prisão (artigo 59 CPM) e cumprirá em estabeleci-
mento militar. Seguirá o regime da legislação militar.

55
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Para mais informações so- Para Sabelli:
bre a execução penal na le-
gislação castrense, consulte Sentença condenatória é aquela que, reconhecendo o acu-
o Livro II Dos Processos em sado culpado do fato criminoso articulado na denúncia e
Espécie; Seção VII, Da Sessão
comprovado pelas provas dos autos, é passível da imposi-
do Julgamento e da Sentença;
Sentença Condenatória; arti- ção da penalidade prevista à prática criminosa, desde que
gos 440 a 450 e Livro IV, Da não exista causa extintiva de punibilidade (2008, p.161).
Execução; Título I, Da Execu-
ção da Sentença; dos artigos Já segundo Lobão:
588 a 605, do CPPM.
Recebe a denominação de sentença a decisão que define
o Juízo monocrático ou colegiado de 1ª instância. Acór-
dão ou aresto serve para designar a decisão de Tribunal.
No entanto, às vezes, acórdão recebe a denominação
de sentença, por exemplo, réu condenado em 2º grau,
por sentença transitada em julgado. Em sentido estrito,
sentença é a denominação dada à decisão do Juiz que
resolve a lide na 1ª instância, aplicando a lei aos fatos
reconstituídos historicamente no processo, através das
provas produzidas pelas partes, pelo próprio Juiz, no
decorrer da instrução criminal (2009, p. 439).

A execução penal na Justiça Militar segue etapas que serão descritas a seguir.

5.1 Da sentença condenatória

A sentença condenatória deverá seguir os seguintes requisitos previstos no


artigo 440 do CPPM:

• Mencionará as circunstâncias apuradas e tudo o mais que deva ser


levado em conta na fixação da pena, tendo em vista obrigatoriamente o
disposto no artigo 69 e seus parágrafos do CPPM.

• Mencionará as circunstâncias agravantes ou atenuantes definidas nos


artigos 70 ao 72 do COM.

• Imporá as penas, de acordo com aqueles dados, fixando a quantida-


de das penas principais e, se for o caso, a espécie e o limite das penas
acessórias; e

• Aplicará as medidas de segurança que, no caso, couberem.

56
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
Mesmo em caso de sentença condenatória, o acusado deverá
ser colocado imediatamente em liberdade quando tiver cum-
prido, em razão de prisão provisória, tempo igual ou superior
ao da pena imposta (artigo 441, parágrafo 2º, do CPPM).

De acordo com o artigo 591 do CPPM, a sentença condenatória levará em


consideração os seguintes fatores:

a. Tempo de prisão provisória - Será integralmente levado em conta,


no cumprimento da pena, salvo o disposto no artigo 268, (artigo 589,
do CPPM).

b. Incidentes da execução (ver Título II, CPPM) - Todos serão decididos pelo
auditor, ou pelo presidente do STM, se for o caso (artigo 590, do CPPM).

c. Processos pendentes de apelação – caso seja verificado na apelação,


unicamente interposta pelo réu, que este já sofreu prisão por tempo
igual ao da pena a que foi condenado, mandará o relator pô-lo imedia-
tamente em liberdade (artigo 591, do CPPM).

d. Somente depois de passada em julgado, será exequível a sentença (arti-


go 592, CPPM).

e. O presidente, no caso de sentença proferida originariamente pelo Tribu-


nal, e o auditor, nos demais casos, comunicarão à autoridade, sob cujas
ordens estiver o réu, a sentença definitiva, logo que transite em julgado
(artigo 593 do CPPM).

5.2 Execução das penas em espécie

5.2.1 Carta Guia de transitado em julgado

Transitando em julgado a sentença que impuser pena privativa de liberdade,


se o réu já estiver preso ou vier a ser preso, o auditor ordenará a expedição da
carta de guia, para o cumprimento da pena (artigo 594, do CPPM).

57
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
5.2.2 Formalidades

A carta de guia, extraída pelo escrivão e assinada pelo auditor, que rubricará
todas as folhas, será remetida para a execução da sentença (artigo 595 CPPM):

a) Ao comandante ou autoridade correspondente da


unidade ou estabelecimento militar em que tenha de ser
cumprida a pena, se esta não ultrapassar de dois anos,
imposta a militar;

b) Ao diretor da penitenciária em que tenha de ser cum-


prida a pena, quando superior a dois anos, imposta a
militar ou civil.

5.2.3 Conteúdo

A carta de guia deverá conter (artigo 596 CPPM):

a) O nome do condenado, naturalidade, filiação, idade,


estado civil, profissão, posto ou graduação;

b) A data do início e da terminação da pena;

c) O teor da sentença condenatória.

5.2.4 Execução quando impostas penas de reclusão e de detenção

Se impostas cumulativamente penas privativas de liberdade, será executada


primeiro a pena de reclusão e depois a de detenção (artigo 599, do CPPM).

5.2.5 Cumprimento da pena

Cumprida ou extinta a pena, o condenado será posto imediatamente em liberda-


de, mediante alvará do auditor, no qual se ressalvará a hipótese de dever o sen-
tenciado continuar na prisão, caso haja outro motivo legal (artigo 603, do CPPM).

5.2.6 Medida de segurança

Se houver sido imposta medida de segurança detentiva, o condenado irá para


o estabelecimento adequado.

58
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
5.2.7 Comunicação

O auditor dará à autoridade administrativa competente conhecimento da


sentença transitada em julgado, que impuser a pena de reforma ou suspen-
são do exercício do posto, graduação, cargo ou função, ou de que resultar a
perda de posto, patente ou função, ou a exclusão das Forças Armadas (artigo
604 do CPPM).

Se o militar receber uma condenação transitada em julgado


superior a dois anos deverá cumprir em um estabelecimento
prisional civil, ficando sujeito à Lei de Execução Penal (Lei
7.210/84).

As penas acessórias também serão comunicadas à autoridade administrativa


militar ou civil, e figurarão na folha de antecedentes do condenado, sendo
mencionadas, igualmente no rol dos culpados.

A Lei de Execução Penal dispõe:

Art. 1º A execução penal tem por objetivo efetivar as


disposições de sentenças ou decisão criminal e propor-
cionar condições para a harmônica integração social do
condenado.

Art.2º A jurisdição penal dos Juízes ou Tribunais da Justi-


ça ordinária, em todo o território nacional, será exercida,
no processo de execução, na conformidade desta lei e do
Código de Processo Penal.

Parágrafo único - Esta lei aplicar-se-á igualmente ao


preso provisório e ao condenado pela Justiça Eleitoral ou
militar, quando recolhido a estabelecimento sujeito à
jurisdição ordinária (grifo nosso).

De acordo com a Lei de Execução Penal, compete ao juiz da Justiça Militar a exe-
cução da pena imposta ao militar que não estiver recolhido a estabelecimento
civil, o que somente ocorrerá se o condenado for excluído das Forças Armadas.

O militar, preso provisoriamente ou em cumprimento de pena, será recolhido


à organização militar da respectiva força. Excluído das Forças Armadas, passa
a cumprir a pena em estabelecimento prisional sujeito à jurisdição civil (Lei
6.880/1980, artigo 73, parágrafo único e letra “c”).

59
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
6 O processo penal militar
em tempo de guerra

Objetivos específicos

• Identificar o rito processual adotado em tempo de guerra.

O rito processual penal militar em tempo de guerra é regulado pela lei penal
adjetiva castrense no Livro V, Título Único: Da Justiça Militar em Tempo de
Guerra, a partir do artigo 675 ao 693.

Este rito difere muito do rito para os crimes militares em tempo de paz, devido
às circunstâncias de tempo, lugar e efetivo reduzido, que são peculiares ao
tempo de guerra.

Segundo Coldibelli e Miguel:

Tal como previsto para o tempo de paz, a peça informati-


va - normalmente inquérito ou flagrante - é encaminhada
à Auditoria pela autoridade militar competente (art. 675
CPPM). Diz a Lei de Organização Judiciária Militar que
haverá, no teatro de operações, tantas auditorias quan-
tas forem necessárias (art. 94), compondo-se elas de um
Juiz-Auditor, um Procurador, um Defensor Público, um
Secretário e auxiliares necessários. O prazo para a conclu-
são do inquérito é de cinco dias, podendo ser prorrogado
por mais três, por motivo excepcional (art. 675, parágrafo
1º ), não importando esteja preso ou solto o indiciado.
Ressalta-se que nos crimes de violência praticada contra
inferior para compeli-lo ao cumprimento do dever legal,
ou em repulsa a agressão, a peça informativa será enca-
minhada diretamente ao Conselho Superior (art. 675, pa-
rágrafo 2º ) ou ao Conselho de Justiça, pela competência
que lhe dá o artigo 96,II, da LOJMU. A remessa aos Con-
selhos é para que justifiquem ou não o comportamento
do superior em relação ao subordinado, arquivando-se o
feito, na primeira hipótese, ou instaurando-se o processo,
na segunda (2011, p. 201-202).

61
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Os autos, chegando à Auditoria, irão com vista ao procurador que, se for o
caso, oferecerá denúncia, em até 24 horas, com, basicamente, os mesmos re-
quisitos previstos para o tempo de paz, à exceção do número de testemunhas,
reduzido de duas a quatro, conforme o artigo 676, do CPPM:

Recebida a denúncia, o Juiz- Auditor mandará citar o acu-


sado e intimar as testemunhas, nomeando advogado de
ofício que terá vista dos autos por vinte e quatro horas,
podendo oferecer defesa escrita e juntar documento (art.
677). Vê-se aqui a admissibilidade de uma verdadeira de-
fesa prévia que o rito processual penal militar não prevê
para o tempo de paz. A autodefesa não é vedada, desde
que devidamente fiscalizada pelo Juiz-Auditor.

A instrução criminal - qualificação e interrogatório, inqui-


rição de testemunhas de acusação e de defesa - segue,
normalmente, até as alegações escritas cuja vista se dá
na presença do escrivão, ou seja, em cartório (art. 679,
parágrafos 1º, 2º e 3º).

Suscitados se forem questões preliminares ou incidentes,


serão resolvidos, conforme o caso, pelo Juiz-Auditor ou
pelo Conselho Superior de justiça (art.681), já que o Con-
selho de Justiça só se instala por ocasião do julgamento
(art. 684). Prestado o compromisso e lidas as peças es-
senciais do processo previstas no artigo 432, seguir-se-ão
os debates orais, tendo o procurador e o defensor vinte
minutos, cada um, para suas alegações. Após, passará o
Conselho a deliberar, devendo ser a sentença lavrada den-
tro do prazo de vinte e quatro horas, o mesmo ocorrendo
nos processos de competência exclusiva do Juiz-Auditor
(art. 684) se praça ou civil o acusado (COLDIBELLI; MI-
GUEL, 2011, p.p. 202-203).

Os crimes militares em tempo de guerra estão previstos no


artigo 10 do Código Penal Militar, combinado com os tipos
previstos no Livro II da lei substantiva castrense. O artigo 15
do CPM define o que é tempo de guerra.

62
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
7 Considerações finais

O conteúdo desenvolvido ao longo das unidades desta disciplina teve o ob-


jetivo de contribuir para a compreensão de alguns aspectos relacionados aos
fundamentos do direito público e privado no âmbito do Exército Brasileiro.

Ao longo da disciplina foram apresentados os conceitos constitucionais rela-


cionados às instituições do direito público e privado e analisados o papel do
cidadão diante da Constituição Federal e de fatos relacionados à administração
das instituições de direito público e privado.

Ao abordar o Direito Internacional Humanitário, a respectiva unidade forne-


ceu elementos para identificação da sua problemática, assim como discutiu as
principais regras e convenções relacionadas ao tema.

As principais regras da legislação penal e processual militar brasileira foram


também abordadas com o objetivo de garantir o seu emprego correto de acor-
do com a legislação vigente.

63
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
8 Bibliografia

Referências Bibliográficas

ASSIS, Jorge César de. Processo Penal Militar Anotado. 3ª edição, v.I Curiti-
ba: Juruá, 2011.

BRASIL. Constituição Federal da República Federativa do Brasil.

_______. Lei 7.210/84. Lei de Execução Penal.

_______. Lei Complementar 75/1993. Organização, atribuições e estatuto


do Ministério Público.

_______. Decreto-Lei 2.848/1940. Código Penal Brasileiro.

_______. Decreto-Lei 3.689/41. Código de Processo Penal Brasileiro.

_______. Decreto-Lei 1.001/1969. Código Penal Militar Brasileiro (CPM).

_______. Decreto-Lei 1.002/1969. Código de Processo Penal Militar


Brasileiro (CPPM).

CAPEZ, Fernando. Curso de Processo Penal. 9º Edição. São Paulo: Saraiva, 2003.

COLDIBELLI, Nelson; MIGUEL, Cláudio Amin. Elementos do Direito Proces-


sual Penal Militar. Rio de Janeiro: Lúmen Júris Editora, Rio de Janeiro, 2011.

LOBÃO, Célio. Direito Processual Penal Militar. Rio de Janeiro: Forense; São
Paulo: Método, 2009.

LOUREIRO NETO, José da Silva. Processo Penal Militar. 5º Edição. São Paulo:
Atlas, 2000.

NEVES, Cícero R. Coimbra; STREIFINGER, Marcello. Manual de Direito Penal


Militar. 2ª Edição. São Paulo: Saraiva, 2012.

RIBEIRO, Luciano R. Melo. 200 anos de Justiça Militar no Brasil. Rio de


Janeiro: Action, 2008.

SABELLI, Cid. Processo Penal Militar: Da Teoria à Prática. 1ª Edição. São Pau-
lo: Suprema Cultura, 2008.

65
FUNDAMENTOS DO DIREITO PÚBLICO E PRIVADO - u7
Bibliografia Complementar

FERNANDO, Osmar Machado. Do processo penal militar: uma visão crítica.


In: II Seminário de Direito Militar, 2005, Santa Maria: Base Aérea de Santa Maria.

66
Curso de Habilitação ao Quadro Auxiliar de Oficiais
CCEAD – Coordenação Central de Educação a Distância

Coordenação Geral
Gilda Helena Bernardino de Campos

Coordenação de Avaliação e Acompanhamento


Gianna Oliveira Bogossian Roque

Coordenação de Criação e Desenvolvimento


Claudio Perpetuo

Coordenação de Design Didático


Sergio Botelho do Amaral

Coordenação de Material Didático


Stella Maria Peixoto de Azevedo Pedrosa

Coordenação de Tecnologia da Informação


Renato Araujo

Gerente de Projetos
José Ricardo Basílio

Equipe CCEAD
Alessandra Muylaert Archer
Alexander Arturo Mera
Ana Luiza Portes
Angela de Araújo Souza
Camila Welikson
Ciléia Fiorotti
Clara Ishikawa
Eduardo Felipe dos Santos Pereira
Eduardo Quental
Frieda Marti
Gabriel Bezerra Neves
Gleilcelene Neri de Brito
Igor de Oliveira Martins
Joel dos Santos Furtado
Luiza Serpa
Luiz Claudio Galvão de Andrade
Luiz Guilherme Roland
Maria Letícia Correia Meliga
Neide Gutman
Romulo Freitas
Ronnald Machado
Simone Bernardo de Castro
Tito Ricardo de Almeida Tortori
Vivianne Elguezabal