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Frantz Fanon e a ontologia negra

Article · February 2016

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André Santos Luigi


Federal Institute of Education, Science and Technology of São Paulo
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Frantz Fanon e
a ontologia negra

“N
O negro é a Europa, o preto, seja concreta, seja
uma forma de simbolicamente, representa o lado
sub-humano, ruim da personalidade. Enquanto não
contra o qual todo compreendermos esta proposição, esta-
remos condenados a falar em vão do ‘problema negro’.
tipo de violência André Santos Rodolfo de Souza
O negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os
e desrespeito é Luigi é bacharel é bacharel em
labirintos da terra, as profundezas abissais, enegrecer
tolerado. Não e licenciado em Filosofia pela
a reputação de alguém; e, do outro lado: o olhar claro História pela Puc-Campinas
nos toca o coração da inocência, a pomba branca da paz, a luz feérica, USP. Mestre e atua como
ver uma criança paradisíaca. Uma magnífica criança loura, quanta em Educação, professor da rede
negra violentada, paz nessa expressão, quanta alegria e, principalmen-
estuda Relações pública de Ensino
Étnico-Raciais. Integral de São
ver um adulto te, quanta esperança! Nada de comparável com uma É membro do Paulo, na escola
negro assassinado. magnífica criança negra, algo absolutamente insóli- grupo de pesquisa Prof. Antônio
As tragédias na to. Não vou voltar às histórias dos anjos negros. Na ETNS, da UFSCar. Berreta-Itu, em
Atua como que desenvolve
África não são Europa, isto é, em todos os países civilizados e civili-
Coordenador diversos projetos
tragédias, mas, zadores, o negro simboliza o pecado. O arquétipo dos do Cursinho voltados
sim, a própria valores inferiores é representado pelo negro”.1 Popular EPA. ao ensino de
África Entretanto, constatar este processo de desumani- asluigi@hotmail. Filosofia.
zação do negro não possui nada de inovador. O que há com rodolfoidt@
yahoo.com.br.
de novo em Frantz Fanon (1925-1961) é a denúncia
de que “o negro” é uma categoria histórica, um cons-
tructo social com objetivos de dominação e sujeição.
Isso porque o negro nunca precisou “ser” negro. Um
1
FANON, 2008, pág. 160

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negro nunca se definiu como negro es- tica é justamente o espaço que surge do homem em si, tanto para brancos quan-
pontaneamente antes de ingressar no movimento de negação entre as partes, to para negros: “Que quer o homem?
mundo branco. já que as partes só existem enquanto se Que quer o homem negro? Mesmo
A novidade em Fanon é a forma negam, já que uma apenas existe en- expondo-me ao ressentimento de meus
como aborda este processo e como pro- quanto negação da outra e vice-versa. irmãos de cor, direi que o negro não é
põe sua destruição. Ou seja, é a tentati- O que não ocorre na relação do branco um homem. Há uma zona de não ser,
va de compreender o que este processo com o negro. O que se impõe é um mo- uma região extraordinariamente estéril e
maniqueísta de desumanização causa vimento de uma única direção. O autor árida, uma rampa essencialmente despo-
ao negro real, histórico, verdadeiro, que fala da condição do colonizado, mas jada, onde um autêntico ressurgimento
existe. Fanon fala de um existencialismo também do civilizado que se aprisiona à pode acontecer. A maioria dos negros
negro, ou seja, da situação existencial do condição de colonizador. O branco eu- não desfruta do benefício de realizar esta
negro. E o faz de forma íntima ao abor- ropeu também está preso à condição de descida aos verdadeiros infernos”.4
dá-lo a partir de sua psique. Para tanto, explorador. A violência que dele emana Enquanto estiver aprisionado à con-
se lança em um esforço de razoabilida- também o violenta, também o desuma- dição de negro, o “homem de cor” será
de em busca do diálogo, recorrendo a niza. Não há ontologia possível para um apenas uma imagem precariamente re-
Hegel (1770-1831) e seu conceito de ou para outro: “Claro, bem que existe o fletida do homem branco. Ele não é o
homem. Ao citar a Fenomenologia do Es- momento de “ser para-o-outro”, de que Outro, mas a autoimagem empobrecida
pírito, relembra que “a consciência de si fala Hegel, mas qualquer ontologia torna- e diminuída do Eu desprovido de toda
é em si e para si quando e porque ela é -se irrealizável em uma sociedade coloniza- sua potência: “O negro quer ser branco.
em si e para si uma outra consciência de da e civilizada. Parece que este fato não O branco incita-se a assumir a condi-
si; isto quer dizer que ela só é enquanto reteve suficientemente a atenção daque- ção de ser humano. Veremos, ao longo
ser reconhecido”.2 Um homem apenas se les que escreveram sobre a questão colo- desta obra, elaborar-se uma tentativa de
reconhece como um ser, uma entidade nial. Há, na Weltanschauung de um povo compreensão da relação entre o negro e
portadora de uma individualidade, no colonizado, uma impureza, uma tara que o branco. O branco está fechado na sua
exato momento em que se reconhece no proíbe qualquer explicação ontológica”.3 brancura. O negro na sua negrura”.5
Outro. Entretanto, esta é uma relação Muito mais do que discutir identi- A categoria de negro não o permi-
dialética e, como tal, depende da mútua dades, autoestima ou reconhecimento, te se colocar de igual para igual. Não
interação dos polos para existir. A dialé- Fanon coloca em xeque a concepção de permite estabelecer quaisquer tipos de
relação, tão pouco de negação. A huma-
2
Hegel, apud Fanon, 1951, pág. 180 3
FANON, 2008, pág. 103. Grifo nosso nidade do homem negro não se comple-
ta enquanto está aprisionado na iden-
tidade de negro: “No mundo branco, o
Corporeidade negra homem de cor encontra dificuldades na

Não conseguindo intervir em sua realidade, muitos negros se voltam para 4


Idem, pág. 16
5
Idem, pág. 27
dentro de si, em um esforço contraditório, buscam reconhecimento social
privando-se de relações sociais e afetivas, como o próprio Fanon confessa
em diversos trechos de suas obras: “Nenhuma chance me é oferecida. Sou
sobredeterminado pelo exterior. Não sou escravo da ‘ideia’ que os outros
fazem de mim, mas da minha aparição. (...) Deslizo pelos cantos, captan-
do com minhas longas antenas os axiomas espalhados pelas superfícies das
coisas, – a roupa do preto cheira a preto – os dentes do preto são brancos
– os pés do preto são grandes – o largo peito do preto, – deslizo pelos ca-
nos, permaneço silencioso, aspiro ao anonimato, ao esquecimento. Vejam,
aceito tudo, desde que passe despercebido! (...) A vergonha. A vergonha e o
desespero de si. Quando me amam, dizem que o fazem apesar da minha
cor. Quando me detestam, acrescentam que não é pela minha cor... Aqui ou
ali, sou prisioneiro do círculo infernal”. (FANON, 2008, págs. 108-109)

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elaboração de seu esquema corporal. O não queria esta reconsideração, esta es- do branco), pois só o Outro pode
conhecimento do corpo é unicamente quematização. Queria simplesmente ser valorizá-lo. No plano ético, ou seja, valo-
uma atividade de negação. É um conhe- um homem entre outros homens. Gos- rização de si”.9
cimento em terceira pessoa. Em torno taria de ter chegado puro e jovem em Entretanto, seu prognóstico não se
do corpo reina uma atmosfera densa de um mundo nosso, ajudando a edificá-lo encerra em um niilismo com o mundo.
incertezas”.6 conjuntamente”.8 Assim, os negros per- A radicalidade é para Fanon um ins-
É por meio da condição existencial dem a potência de intervir na sociedade. trumento de libertação e construção de
humana fundante que o racismo captura Mas Fanon alerta, para experimen- alternativas. Assim o fez em suas obras
o negro: a corporeidade. É o que Fanon tar a liberdade é preciso reconhecimen- como em sua biografia. A radicalidade
chama de epidermização da inferioridade: to, é preciso entregar-se para viver em busca uma ruptura definitiva, uma rup-
“Mamãe, olhe o preto, estou com medo!” um mundo de outros. Até mesmo o tura que se torna o primeiro passo para
Medo! Medo! E começavam a me te- autorreconhecimento depende da des- um novo mundo: “Sim, como se vê, fa-
mer. Quis gargalhar até sufocar, mas isso cida ao mundo dos outros. Mas este zendo-se apelo à humanidade, ao senti-
se tornou impossível. (...) Então meu mundo de outros não oferece nada ao mento de dignidade, ao amor, à caridade,
esquema corporal, atacado em vários negro, apenas um peso opressor que seria fácil provar ou forçar a admissão de
pontos, desmoronou, cedendo lugar a dificulta sua existência: “Qual a nos- que o negro é igual ao branco. Mas nos-
um esquema epidérmico”.7 sa proposição? Simplesmente esta: so objetivo é outro. O que nós queremos
Incapaz de livrar-se de seu corpo, o quando os pretos abordam o mundo é ajudar o negro a se libertar do arsenal
homem negro não tem escolha. A exis- ­branco, há certa ação sensibilizante. Se a de complexos germinados no seio da si-
tência pública se torna uma experiência estrutura psíquica se revela frágil, tem- tuação colonial”.10
traumática, de intensa violência, que o -se um desmoronamento do ego. A luta do negro no mundo branco
leva à busca incessante de transportar- O negro cessa de se comportar como in- não é uma luta para se livrar da dialé-
-se para longe de sua própria existência: divíduo acional. O sentido de sua tica do Eu e do Outro, mas, sim, para
“Nessa época, desorientado, incapaz ação estará no Outro (sob a forma entrar nela. Porém, esta luta não pode
de estar no espaço aberto com o outro, 9
Idem, pág. 136. Grifo nosso
com o branco que impiedosamente me 8
Idem, pág. 106 10
Idem, pág. 44
aprisionava, eu me distanciei para lon-
ge, para muito longe do meu estar-aqui,
constituindo-me como objeto. O que Incapaz de livrar-se de seu corpo,
é que isso significava para mim, senão
o homem negro encontra-se sem
um desalojamento, uma extirpação, uma
hemorragia que coagulava sangue negro escolha. A existência pública se
torna uma experiência traumática,
sobre todo o meu corpo? No entanto, eu
6
Idem, pág. 104
7
Idem, pág. 105 de intensa violência

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se dar nos termos da epistemologia ra- primeiro lugar, o homem que crê na lenciamento melancólico, resta ao negro
cista. E aqui reside a genialidade de Fa- barbárie”. Ao se colocar como antítese uma única alternativa: criar estratégias
non. O autor constrói de forma pioneira da barbárie, a sociedade civilizada e co- desesperadas para remendar e adaptar-
uma abordagem multidisciplinar com o lonizadora é em si a barbárie. Ou seja, é -se ao papel mal-acabado do negro
intuito de alcançar uma ontologia que preciso deixar de ser razoável para acei- criado pelo mundo branco. Diante deste
considere a densidade do existencial: “a tar a razão ocidental. Ou, como propõe prognóstico da impossibilidade da exis-
ontologia, quando se admitir de uma vez Fanon, é preciso deixar a razão de lado tência do negro, Fanon coloca a violência
por todas que ela deixa de lado a exis- para ser razoável: “A razão assegurava a e ódio como uma opção. Não a violência
tência, não nos permitirá compreender o vitória em todas as frentes. Eu era rea- física, pura força bruta. Mas, sim, a vio-
ser do negro, pois o negro não tem mais dmitido nas assembleias. Mas tive de lência com negação radical de uma dada
de ser negro, mas sê-lo diante do bran- perder as ilusões. A vitória brincava de situação. É preciso que o negro sinta ódio
co. Alguns meterão na cabeça que devem gato e rato; ela zombava de mim. Como de sua situação para ser capaz de deses-
nos lembrar de que a situação tem um duplo diz o outro, quando estou lá, ela não está, truturar os rígidos fundamentos que o
sentido. Respondemos que não é verdade. quando ela está, não estou mais”.13 aprisionam. Trata-se de uma violência
Aos olhos do branco, o negro não tem resis- Fanon argumenta que o racismo vai como reação subjetiva ante as estruturas
tência ontológica”.11 muito além da violência física e da ex- sociais: “Em outras palavras, o negro não
Fanon nos leva ao limite da episte- ploração material. Ele fornece o modo deve mais ser colocado diante deste di-
mologia estabelecida. Ele nos desestabi- pelo qual as pessoas se comunicam e se lema: branquear ou desaparecer, ele deve
liza, levando-nos para fora do conforto expressam. Logo, reconhece na lingua- poder tomar consciência de uma nova
conceitual oferecido pelo “Eu” estabe- gem e no método científico as estruturas possibilidade de existir; ou ainda, se a so-
lecido. Ao nos arremessar para longe da fundantes do racismo como fato social ciedade lhe cria dificuldades por sua cor,
zona de conforto, permite que olhemos total. Trata-se do colonialismo episte- se encontro em seus sonhos a expressão
este “Eu” pelo lado de fora, assumin- mológico. Ou seja, para o negro, a razão de um desejo inconsciente de mudar de
do por vezes o lugar instável do olhar não é uma opção razoável. Esta é a situ- cor, meu objetivo não será dissuadi-lo,
do “Outro”. Por isso o pensamento de ação psicótica do negro no mundo mo- aconselhando-o a ‘manter as distâncias’;
Fanon é radical. Ele não nos apresenta derno: preso a um sistema social em que ao contrário, meu objetivo será, uma vez
grandes sistemas explicativos abstratos apenas a razão outorga o estatuto de ver- esclarecidas as causas, torná-lo capaz de
que dão conta da “questão do negro”. Ao dade, ser racional não é uma opção ra- escolher a ação (ou a passividade) a res-
contrário, ele renega ferozmente esta po- zoável. Sem externar sua situação como peito da verdadeira origem do conflito,
sição: “Estava exposto a algo irracional. fenômeno público, real e, portanto, sério isto é, as estruturas sociais”.14
Os psicanalistas dizem que não há nada e verdadeiro, o negro é levado a uma Sua estratégia consiste justamente
de mais traumatizante para a criança do condição psicótica de silenciamento de em desestabilizar o estabelecido e, a partir
que o contato com o racional. Pessoal- seus traumas e frustrações. Afora este si- daí, ouvir, em meio às rachaduras abertas,
mente eu diria que, para um homem que o Outro até então silenciado. Neste sen-
13
Idem, pág. 111
só tem como arma a razão, não há nada tido, Frantz Fanon é um dos primeiros
de mais neurotizante do que o contato teóricos do que seria conhecido como
com o irracional. Senti nascer em mim “Estudos Pós-Coloniais”. A construção
lâminas de aço. Tomei a decisão de me de uma epistemologia que propõe a relei-
defender. Como boa tática, quis raciona- tura da produção da cultura e do conheci-
lizar o mundo, mostrar ao branco que ele mento no jogo de poder das relações so-
estava errado”.12 ciais contemporâneas, problematizando
Entretanto, abordar o racismo de como a subjetividade e a identidade são
forma racional exige, entre outras coisas, ­manipuladas a partir de conceitos racistas
demonstrar que não há absolutamente e essencialistas. Seus estudos serão poste-
razoabilidade possível na sociedade oci- riormente explorados com as contribui-
dental. Como bem argumentou Lévi- ções de Stuart Hall (1932-2014), Homi
-Strauss (1908-2009), “Bárbaro é, em Bhabha (1949), Edward Said (1935-
2003), Kwame Appiah (1954), Walter
11
Idem, pág. 104. Grifo nosso
12
Idem, pág. 110 14
Idem, págs. 95-96

48 • ciência&vida
Fanon reconhece na linguagem
e no método científico as estrutur as
fundantes do r acismo como
fato social total. Tr ata-se do
colonialismo epistemológico

Mignolo (1941), Néstor García Canclini geira; aqui estou em casa; fui construído
(1939), entre outros. com o irracional; me atolo no irracional;
irracional até o pescoço”.17
um jogo perdido Os movimentos negros aderem
Na empreita para desestruturar o desesperadamente a tais identidades repetir um ciclo. Minha originalidade
colonialismo epistemológico, Fanon negras. Era vingança perfeita diante me foi extorquida. 19
­aborda as estratégias de resistência dos da desumanização imposta pelo bran- E então o movimento de negritude
negros diante da opressão do mundo co. O reconhecimento enfim surgira. reage novamente. Eclode uma série de
branco. Ele próprio, como agente do O diálogo estava aberto com aqueles estudos que demonstram que fazem re-
movimento de negritude, relata os moti- que finalmente reconhecem o valor do nascer vigorosamente a antiguidade ne-
vos que o levaram a ceder ante as arma- negro: “Eu me assumia como o poeta gra. “O branco estava enganado, eu não
dilhas das essencialidades: “Diante dessa do mundo. O branco tinha descoberto era um primitivo, tão pouco um meio
esclerose afetiva do branco, é compreen- uma poesia que nada tinha de poética. homem, eu pertencia a uma raça que
sível que eu tenha decidido dar meu gri- A alma do branco estava corrompida e, há dois mil anos já trabalhava o ouro e
to negro. Pouco a pouco, criando pseu- como me disse um amigo que ensinou a prata”. Após provar que os negros não
dópodes aqui e ali, secretei uma raça”.15 nos Estados Unidos: ‘Para os brancos, eram bárbaros, mas, sim, puros e ingê-
“Secretar uma raça”. A expressão é de certo modo, os negros asseguram a nuos, urgia demonstrar que também
forte e agressiva. Mas representa bem o confiança na humanidade. Quando os não eram primitivos. Os textos de Aimé
que se propõe. Fanon fala da invenção brancos se sentem mecanizados demais, Césaire (1913-2008) alcançaram a per-
de identidade negra essencializada. Um voltam-se para os homens de cor e lhes feição deste estilo. Mas o tombo se im-
negro ideal, ingênuo, puro, que vivia em pedem um pouco de nutrientes huma- pôs outra vez: “Deixe pra lá sua história
harmonia com a natureza em equilíbrio nos’. Enfim eu era reconhecido, não era – disseram-me então –, deixe suas pes-
com as energias do universo. “Sensibili- mais um zero à esquerda”.18 quisas sobre o passado e tente adaptar-
dade emotiva. A emoção é negra como Mas logo toda esta magia encon- -se ao nosso passo. Em uma sociedade
a razão é grega”. Mas logo Fanon revela trou seu reverso. Folclore, descontex- como a nossa, extremamente industria-
do que se trata: “Do outro lado do mun- tualização, essencialismo... As mesmas lizada, científica, não há mais lugar para
do branco, uma feérica16 cultura negra armadilhas do racismo, porém, agora, a sua sensibilidade. É preciso ser duro
me saudava. Escultura negra! Comecei douradas pelo jogo da identidade e do pra vencer na vida. Não se trata mais de
a corar de orgulho. Era a salvação? Eu reconhecimento: “Logo haveria de per- jogar o jogo do mundo e, sim, de sujeitá-
tinha racionalizado o mundo e o mundo der as ilusões. O branco, por um ins- -lo a golpes de integrais e de átomos”.
tinha me rejeitado em nome do precon- tante baratinado, demonstrou-me que, Claro, de vez em quando me diziam
ceito de cor. Desde que, no plano da ra- geneticamente, eu representava um também: “Quando estivermos cansados
zão, o acordo não era possível, lancei-me estágio: ‘As qualidades de vocês foram da vida em nossos arranha-céus, iremos
imagem: shutterstock

na irracionalidade. Culpa do branco, por exploradas até o esgotamento por nós. até vocês como vamos às nossas crian-
ser mais irracional do que eu! Por pura Tivemos místicas da terra como vocês ças... virgens... atônitas... espontâneas.
necessidade havia adotado o método não terão jamais. Debruce-se sobre nos- Iremos até vocês que são a infância do
regressivo, mas ele era uma arma estran- sa história, e compreenderá até onde foi mundo. Vocês são tão verdadeiros nas
esta fusão’. Tive então a impressão de suas vidas, isto é, tão folgados... Deixe-
15
Idem, pág. 113
16
Feérica. Adjetivo. Que faz parte de um mundo de mos por alguns momentos nossa civili-
fantasia; mágico. Que expressa ou pode conter luxo ou 17
FANON, 2008, pág. 113
fausto; deslumbrante: monumento feérico. 18
Idem, pág. 118 19
Idem

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sem futuro negro, era impossível viver Estatisticamente, a morte virá nos
minha negridão. Ainda sem ser branco, visitar de duas maneiras: como mor-
já não mais negro, eu era um condena- te natural ou como morte não natural.
do”. Consciência violenta, concisa, cien- Conceitualmente, a diferença entre uma
te da desgraça de sua condição, mas que e outra é que a morte não natural pode
ainda resiste: “Um estropiado da guerra ser evitada. Entretanto, se estivermos no
do Pacífico disse a meu irmão: ‘Aceite Brasil, há outro componente na defini-
a sua cor como eu aceito o meu coto- ção da morte. Por aqui, ao nascer, pesa
zação cerimoniosa e educada e debruce- co; somos dois acidentados’. Apesar de sobre o rebento as seguintes estatísticas:
mo-nos sobre essas cabeças, sobre esses tudo, recuso com todas as minhas forças a principal causa de morte não natural
rostos adoravelmente expressivos. De esta amputação”.22 entre não negros é o acidente de trân-
certo modo, vocês nos reconciliam com A consciência da condição do ne- sito, enquanto que para os negros é o
nós próprios”.20 gro é o primeiro passo para o enfren- homicídio. Em terras tupiniquins, em
Fanon desvenda o motivo da fragi- tamento do racismo. Mas consciência pleno século XXI, um jovem negro tem
lidade dos esforços da negritude: toda sem rebeldia gera apenas resignação. É 250% mais chances de morrer de forma
legitimidade emana dos critérios im- preciso ousar para desalienar o negro e violenta que um jovem não negro. No
postos por uma epistemologia coloni- o branco da situação em que se encon- Brasil atual, 66% das famílias que vivem
zada. Civilização e barbárie, complexo e tram: “De uma vez por todas, a realidade em favelas são negras e 73% da popu-
primitivo, poder e impotência, ciência e exige uma compreensão total. No plano lação carcerária é composta por jovens
magia, enfim, as mesmas dualidades es- objetivo como no plano subjetivo, uma negros entre 18 e 34 anos. A cada dia,
sencialistas se repetiam. Os critérios co- solução deve ser encontrada. E é inútil 82 jovens com idade entre 15 e 29 anos
loniais permaneciam para ditar o valor vir com ares de mea culpa, proclamando são assassinados no Brasil, isso equivale
da vida. A lógica colonial mais uma vez que o que importa é salvar a alma. Só a 7 jovens a cada duas horas. Destes 82
foi legitimada, agora pelo próprio negro, haverá uma autêntica desalienação na assassinados, 77% são negros.24
como parâmetro para dar lastro às subje- medida em que as coisas, no sentido o O que querem dizer estes números?
tividades. O negro jogava um jogo que já mais materialista, tenham tomado os Eles são dignos da Filosofia?
havia perdido antes de começar: “Assim, seus devidos lugares”.23
a meu irracional, opunham o racional. A 24
WAISELFSZ, 2013
meu racional, o ‘verdadeiro racional’. Eu Racismo brasileiro
sempre recomeçava um jogo previamen- Se na situação colonial o negro é a ABDALA JÚNIOR, Benjamin (org). Margens
referências

da cultura: Mestiçagem, hibridismo & outras


te perdido. Experimentei minha heredi- imagem da barbárie e do primitivismo, misturas. São Paulo: Boitempo, 2004.
tariedade. Fiz um balanço completo de no Brasil, a estratégia discursiva encer- ARANTES, Marco Antônio. Sartre e o
minha doença. Queria ser tipicamente ra o negro na marginalidade. Preso ao humanismo racista europeu: uma leitura
sartreana de Frantz Fanon. In: Sociologias,
negro – mas isso não era mais possível. estereótipo do marginal, ao negro bra- Porto Alegre, ano 13, nº 27, maio-ago/ 2011,
Queria ser branco – era melhor rir. E, sileiro só resta a morte. Há alternativas? pp. 382-409.
MATHIEU, Anne. Cultura da resistência:
quando tentava, no plano das ideias e da Por aqui também imperam as imagens Frantz Fanon, uma voz dos oprimidos. In: Le
atividade intelectual, reivindicar minha estereotipadas de negros que Fanon já Monde Diplomatique Brasil. Disponível em
http://www.diplomatique.org.br/print.
negritude, arrancavam-na de mim”.21 desconstruiu há mais de meio século. No php?tipo=ar&id=492 Acesso em: 13
Como apontamos anteriormente, o campo das identidades, ainda se joga o dez. 2015
método de Fanon consiste em desestru- jogo que já começou perdido. MORAES, Alfredo. Dialética da alteridade. In:
Ágora filosófica, Departamento de Filosofia.
turar o estabelecido e das fendas abertas As reflexões propostas por Fanon so- Universidade Católica de Pernambuco, ano
ouvir o silenciado. E assim ele o faz. Mas bre o negro podem muito bem ser esten- 1, nº 1, jan-jun/2001, pp. 56-66.
o que ouve não é nenhum cântico de es- didas à situação brasileira. Para fazer esta ORTIZ, Renato. Frantz Fanon: um itinerário
político e intelectual. In: Contemporânea,
perança e paz, mas, sim, um gemido da aproximação também poderíamos recor- v 4, nº 2, jul-dez, 2014, p. 425-442. ISSN:
dor de quem, na busca incessantemente rer a conceitos da área da saúde, mas não 2236-532x.
FANON, Frantz. Peles negras, máscaras
para humanizar-se, ganha consciência da Psiquiatria ou da Psicologia. Olhemos brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
de sua condição: “Sem passado negro, um dado mais primário: a morte. ____________. Os condenados da terra.
Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2005.
20
Idem, pág. 120 22
Idem, pág. 126 ____________. Em defesa da Revolução
21
Idem 23
Idem, pág. 29 Africana. Lisboa: Sá Costa Editora, 1980.

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