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James Scott – Formas Cotidianas de Resistência

Objetivo: revisar algumas teorias clássicas sobre campesinato que privilegiam greves,
rebeliões, ações contra o Estado como espaço de expressão política dos camponeses,
ignorando que para muitos trabalhadores o que há como disponível para lutar são
formas cotidianas de resistência.

Pra isso, traz dois exemplos baseados em sua experiência na Malásia com produtores de
arroz entre 1978 e 1980. O primeiro foi uma tentativa de boicote por conta da
implementação de colhedeiras automáticas que substituíram o trabalho manual e o
segundo um padrão de furtos anônimos de estoques de grãos de arroz.

P 11 – as formas cotidianas de resistência são caracterizadas como a luta prosaica,


porém constante entre os camponeses e aqueles que querem explora-los através do
trabalho, do alimento, de impostos, alugueis e lucros.

P 12 – Pode ser o “corpo mole”, a dissimulação, a falsa submissão, saques, incêndios,


fofoca, sabotagem ou outros elementos dessa natureza, que são as armas comuns aos
grupos que não possuem poder. Requerem pouca ou nenhuma coordenação,
representam uma forma de auto-ajuda individual, evitam (geralmente) confrontos
simbólicos com autoridade ou normas da elite. Para o Scott entender isso é fundamental
para entender o que os camponeses fazem no período entre revoltas para defender seus
interesses.

P 11 – Indo contra toda uma historiografia que distorce a luta de classes em favor de
uma posição centrada no Estado, Scott mostra que essas formas de resistência cotidiana
não são insignificantes.

P 13- O que dominava os estudos da resistência camponesa era a confrontação direta,


que consiste na realização de motins, invasões, etc.

Scott também trata como o Estado pode responder a resistência.

1 – elaborar novas políticas com base nas expectativas mais realistas.

2- algumas dessas políticas podem ser mantidas e reforçada com incentivos positivos ou
pode empregar mais coerção.
Entretanto, independente de qual é a politica adotada, o que importa é que a ação do
campesinato tem se transformado ou limitado as opções políticas disponíveis. É através
de formas cotidianas de resistência e não necessariamente através de revoltas ou
pressão política legal que o campesinato tem marcado presença política. Então toda
história ou teoria que queira colocar o campesinato como sujeito histórico, precisa
considerar essas formas de resistir.

Essas formas de resistência não produzem fontes escritas como manchetes nos jornais e
raramente ocorre alguma confrontação dramática que seja digna de noticia. Além disso,
quem produz esses atos de resistência não busca chamar atenção para si pois a
segurança deles se garante através do anonimato. Também é raro que o Estado queira
chamar atenção dando publicidade para a insubordinação. P 14 – Ou seja, há um
silencio cumplice de ambas as partes, o que exclui as formas cotidianas de resistência de
registros históricos.

Se ater a esses registros e ignorar as formas cotidianas de resistência contribui para uma
estereotipação dos camponeses, que são idealizados na literatura e na história como uma
classe que alterna entre períodos longos de passividade com breves períodos de
violência e ira.

P 18- Ao trabalhar propriamente os exemplos em si, Scott mostra que a atividade


política camponesa aberta é tanto raro quanto duramente reprimida. Nos relatos que ele
obtém entre os trabalhadores de Sedaka, o medo de represália ou da prisão foi muito
mencionado.

Na falta de qualquer possibilidade concreta de transformar diretamente e coletivamente


a situação, os camponeses pobres não possuem muita escolha a não ser se ajustar as
condições que diariamente enfrentam. Scott chama atenção para algumas coisas nessa
adaptação, como o fato dela não excluir certas formas de resistência, embora coloque
limites que nem todos transgridem e também que ela não implica num consentimento
normativo daquelas realidades. Entender isso, para ele, é compreender historicamente as
possibilidades existentes para a maioria das classes.

No exemplo da entrada de máquinas para a colheita do arroz, ele fala do uso de


sabotagem, incêndios premeditados e esforços de greve de transplantadores contra os
fazendeiros que alugaram as máquinas. Essas ações falharam na tentativa de impedir a
mecanização da colheita do arroz, mas elas limitaram e a adiaram de alguma maneira. O
uso de máquinas agrícolas foi impedido por 3 safras.

Todas as sabotagens que ele narra foram realizadas a noite e por grupos anônimos, que
eram protegidos pelos vizinhos, que mesmo sabendo fingiam ignorância sobre o assunto
quando a polícia tentava investigar.

P 24- Na terceira parte do artigo, ele fala do que pode ser trabalhado como resistência.
Na tentativa de estabelecer uma compreensão mais ampla do termo, ele traça o conceito
de micro-resistência, que seria

Micro-resistência entre camponeses é qualquer ato de membros da classe que tem como intenção mitigar ou
negar obrigações (renda, impostos, deferência) cobradas à essa classe por classes superiores (proprietários
de terra, o estado, proprietários de máquinas, agiotas ou empresas de empréstimo de dinheiro) ou avançar suas
próprias reivindicações (terra, assistência, respeito) em relação às classes superiores.

Primeiramente, não há nenhuma exigência para que a resistência precise assumir a


forma coletiva para ser classificada como. Em segundo lugar, Scott problematiza a
incorporação das intenções na definição. P 27- Em relação a isso, ele mostra que há uma
insistência na distinção entre atos individuais e ações coletivas. Sendo que é justamente
o auto interesse aliado a resistência que se transforma na força vital de resistir do
campesinato. Quando o camponês esconde parte da colheita, ele tá tanto evitando os
impostos, quanto alimentando sua família, quanto destituindo o estado de grãos. Por
fim, defende que é preciso reconhecer essa resistência simbólica (fofocas, injurias, etc)
como parte integral da resistência baseada na diferenciação de classe.
P 28- Ainda pensando nas características das formas cotidianas de resistência, a
dispersão em pequenas comunidades e a falta de meios institucionais para agir de forma
coletiva favorecem o uso dessas formas de resistência de forma local. Elas exigem
pouca coordenação, não necessita de centro, liderança ou estrutura identificável que
pode ser neutralizada. São formas de resistência que podem não ganhar batalhas
premeditadas, mas que são eficientes em questões de longo prazo.
P 29 – Considerando que os parâmetros de resistência são de certa forma estabelecidos
pelas instituições de repressão, é também legitimo distinguir a resistência em seus
vários níveis: formal/informal, individual/coletiva, pública/anônima, etc. Então
classificar apenas atos abertos e radicais de resistência significa aceitar que a estrutura
de dominação é que define o que pode ou não ser resistência.