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ANO 12 / NÚMERO 142 R$ 14,90

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ESTADO DE CHOQUE DE HERÓI A PERSEGUIDO ENTREVISTA MARCELO D2
DESAPARECIMENTO COMO O INDOMÁVEL PACÍFICO, SIM.
TECNOLOGIA DE PODER JULIAN ASSANGE PACATO, NUNCA
POR FÁBIO ARAÚJO POR JUAN BRANCO POR GUILHERME HENRIQUE

00142

LE MONDE 9 771981 752004

BRASIL
diplomatique
O BRASIL TEM MUITO DINHEIRO
2 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

FAKE NEWS OFICIAIS

Uma Chernobyl midiática


Desde a eleição de Donald Trump, a elite jornalística mundial propaga uma teoria da conspiração
segundo a qual o Kremlin controlaria a Casa Branca. Uma investigação pulverizou essa elucubração.
O círculo da razão tornou-se paranoico?
POR SERGE HALIMI E PIERRE RIMBERT*

inte e quatro de março de 2019: outras; é possível, mas eu não sei”. Nu-

V um dia que deveria ficar na his-


tória como o domingo negro da
grande mídia. Em quatro pági-
nas lapidares, o ministro da Justiça
dos Estados Unidos resume as princi-
ma virada rocambolesca, os represen-
tantes de uma instituição policial que
assassinou dezenas de ativistas antir-
racistas nas décadas de 1960 e 1970
desfilavam então – e ainda desfilam –
pais conclusões do promotor especial em redes progressistas para fornecer
Robert Mueller, que por mais de dois lições de manutenção da democracia.
anos investigou com meios considerá- “Se Trump não é o lacaio de Putin,
veis o suposto acordo – coordenação, está mais que na hora de ele provar is-
conluio ou conspiração – entre Do- so”, bradou um editorial do New York
nald Trump e seu colega russo Vladi- Times em 21 de março de 2018, esque-
mir Putin para falsear a eleição presi- cendo que cabe sobretudo a um jornal
dencial dos Estados Unidos em 2016. provar suas alegações de traição. Seis
Veredicto: “Definitivamente, as inves- meses depois, o mesmo jornal publi-
tigações não estabeleceram que a cou um artigo imenso enfeitado com
equipe de campanha [de Trump] se uma iconografia em claro-escuro
coordenou ou conspirou com o gover- apresentando mãos presas por fios pa-
no russo no quadro de atividades des- ra sugerir, sem excessiva leviandade, a
tinadas a interferir nas eleições” (ler manipulação. Sua retórica evoca a dos
mais na pág. 30). conspiracionistas convencidos de que
Acima de qualquer suspeita de a Terra é dominada por reptilianos ou
complacência em relação ao bilionário Illuminati: “Há razões para acreditar
nova-iorquino, a tal ponto que os de- que Putin conseguiu oferecer a presi-
mocratas lhe devotavam um culto (um dência a seu admirador Trump, mes-
site até comercializa “velas de oração a mo que não se possa provar ou negar
São Robert Mueller”, por 12,85 euros), isso” (20 set. 2018). Tal arte de investi-
Mueller acabava de negar, no tempo gação mereceria um Prêmio Pulitzer.
de um clique no botão “enviar”, as E o jornal o recebeu naquele ano...
mais formidáveis fake news da década, Com o Russiagate, uma teoria da
segundo as quais o presidente dos Es- conspiração que um roteirista de Ja-
tados Unidos estaria sujeito à chanta- mes Bond teria julgado muito extrava-
gem do Kremlin, ou até mesmo teria se gante não tem como fonte trolls mace-
tornado o “fantoche de Putin” graças a dônios ou militantes do “alt-right”,
gravações comprometedoras de suas mas o coração pulsante da imprensa
escapadas sexuais em um hotel de lu- liberal, ali onde palpita uma deontolo-
xo em Moscou em 2013 – jornais ilus- gia ao mesmo tempo austera e ad-
© Daniel Kondo

tres repetiam um após o outro, encan- moestadora: New York Times, The Eco-
tados, o termo russo kompromat. nomist e Washington Post; as redes
Desde o início de 2017, o chamado CNN, MSNBC, mas também Arte e
Russiagate fez borbulhar as caldeiras BBC; sem mencionar Libération, Le
editoriais das publicações mais presti- Monde e Guardian. Em suma, os jor-
giosas do planeta.1 nalistas que têm por clientes as cama-
“Não se poderia excluir a possibili- terpretou cada uma das decisões de pa a um conjunto de bonecas russas das sociais mais educadas, refinadas e
dade de o presidente dos Estados Uni- Trump – o anúncio de uma retirada que, por encaixes sucessivos, levava do poderosas. E a mídia que, desde 2016,
dos ser o agente, consciente ou não, de das tropas do Afeganistão ou da Síria, presidente norte-americano a seu ho- do Brexit e da eleição de Trump, coloca
uma potência estrangeira hostil”, ex- as negociações com a Coreia do Norte mólogo do Kremlin. “Todos os homens a denúncia das fake news no centro de
plicou, por exemplo, o especialista etc. – como mais uma prova de sua do czar: como os oligarcas de Putin se seu projeto editorial. Ao isentar Trump
Michael Fuchs em US News and World submissão às ordens do Kremlin. Pou- infiltraram na equipe de Trump” (1º da suspeita de conluio com os russos,
Report (28 dez. 2017). Seis meses de- co depois da Cúpula de Helsinque, ela out. 2018). E, na rede ABC (12 abr. 2018), o relatório Mueller detonou a narrativa
pois, a New York Magazine (9 jul. 2018) convidava a considerar “a possibilida- James Comey, ex-diretor do FBI demi- principal que lhes permitira não ape-
descreveu a reunião de cúpula de Pu- de de alguém ter chegado à presidên- tido por Trump, adiantou uma hipóte- nas reconstruir para eles uma legiti-
tin e Trump em Helsinque como o cia dos Estados Unidos para servir aos se que fez a intelectualidade norte-a- midade diante das novas mídias, mas
“encontro entre um recruta dos servi- interesses de outro país que não o mericana dar pulos de alegria: “Não sei também – particularmente nos Esta-
ços secretos russos e seu cliente”. No nosso” (16 jul. 2018). se o atual presidente dos Estados Uni- dos Unidos – ganhar muito dinheiro.
canal “de esquerda” MSNBC, a popu- Com uma imaginação impressio- dos esteve em 2013 em Moscou com Aqui está, portanto, o rabo abana-
lar apresentadora Rachel Maddow in- nante, a revista Time dedicou uma ca- prostitutas que urinavam umas nas do e encarregado de encenar seu desa-
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 3

pontamento. Em qualquer outra cir- que o horrorizava e que ele nem sem- cem ser lidos do New York Times tira das ligações de Moscou com a extrema
cunstância, o escândalo teria sido glo- pre se mostrara sincero nem necessa- desse episódio uma conclusão oposta. direita. Para não ficar para trás, o La
bal – afinal, a luta contra as notícias riamente delicado. Um tanto de con- Ross Douthat observou que todo o pes- Croix (15 abr. 2019) lançou um cerco às
falsas está entre as prioridades oficiais clusões que não exigiam dois anos de soal – político, da mídia, judicial, da se- “falsas informações susceptíveis de
das democracias liberais. investigação e todo esse alarido. gurança – que participa do equilíbrio influenciar a eleição” europeia de 26
Na França, duas palavras caracteri- dos poderes “devotou sua energia a es- de maio. Primeiros suspeitos, de acor-
zaram a cobertura do relatório Mueller: se tipo de realidade alternativa conspi- do com o jornal: “os russos”.
discrição e desvio. Na France Inter, rá- ratória contra a qual imaginava resis- E assim, como se nada tivesse
Enquanto os dio pública destacada na luta contra as tir” (26 mar. 2019). Enquanto os acontecido, as mil declinações do te-
conspiracionistas nas fake news, a especialista em mídia So- conspiracionistas nas profundezas da ma “Moscou, capital do império do
profundezas da internet nia Devillers não dedicou à debandada internet são o assunto de todas as zom- mal” foram retomadas. No dia 2 de
de seus colegas nem um de seus edito- barias, o “centro paranoico” age com abril, o título da edição internacional
são o assunto de todas as riais diários nem um episódio de seu as armas do poder, sua legitimidade, do New York Times era: “Por que a Rús-
zombarias, o “centro programa L’instant M [Momento M]. seus intelectuais, sua autoridade. Ele sia teria ordenado o assassinato de um
paranoico” age com as Por outro lado, ela tratou de assuntos ameaça, portanto, a vida pública das eletricista ucraniano?”. No dia seguin-
armas do poder certamente mais importantes, como a democracias com o mesmo intuito da te, sempre na primeira página, foi na
história do “Club Dorothée” (4 abr.) e, direita nacionalista que alega comba- Venezuela que Moscou espalhou sua
mais de acordo com as inclinações edi- ter: “Na medida em que o centro acre- teia e multiplicou as fraudes. Outras 24
toriais da emissora, “O ódio dos jorna- dita na bondade inata das instituições horas e mudamos de continente: “A as-
Então, como a mídia informou so- listas” (19 abr.), “A mídia para o mal na norte-americanas e ocidentais, na sa- censão da Rússia na África alerta o
bre as conclusões do promotor Muel- Hungria” (12 abr.) ou “A fábrica da men- bedoria fundamental e no patriotismo Ocidente”. Moscou vende armas ali,
ler? Ela reconheceu que uma onda de tira” (5 abr.), uma série de documentá- daqueles que as representam, sua per- provavelmente menos suaves que as
paranoia havia contaminado suas rios “superbem elaborados” realizados cepção da ameaça é sempre sensível nossas e, horror inimaginável sob nos-
prestigiosas redações? Além de um pela France 5 sobre fake news – aqueles aos grandes inimigos do estrangeiro e sos céus clementes, dá seu apoio a...
punhado de franco-atiradores de es- produzidos pelos partidários de Trump aos radicais de dentro. E ele teme aci- “autocratas” de lá!
querda, como Glenn Greenwald e Matt e pelas direitas nacionalistas... ma de tudo que esses dois grupos este- Coube, no entanto, à célebre revis-
Taibbi, que denunciam desde 2016 as Ainda na France Inter, Pierre Has- jam trabalhando de comum acordo”. ta Time (15 abr. 2019) resumir em um
fake news (oficiais) do Russiagate,2 al- ki, responsável pela coluna “Geopolíti- título (acompanhado de um longo tex-
guns jornalistas norte-americanos ca” desde que seu antecessor, Bernard to) o próximo Graal editorial da im-
conservadores se deram conta de que Guetta, se tornou candidato do poder prensa liberal. Já que a obsessão de um
sua profissão acabava de sucumbir a nas eleições europeias, também não Mídia que, mau acordo entre Trump e Putin se es-
uma “alucinação coletiva que destruiu pareceu inspirado pelo fiasco do Rus- desde 2016, vaziou, damos lugar a... “O outro com-
o que restava de crédito para a im- siagate: três semanas após a deflagra- plô russo”.
prensa americana” (Lee Smith, Tablet, ção do 24 de março, o evento ainda do Brexit e da eleição
27 mar. 2019). Ou, mais sobriamente, não tinha merecido que ele o mencio- de Trump, coloca a *Serge Halimi é diretor e Pierre Rimbert é
que “tudo isso não valia a pena” (The nasse para seus ouvintes. Haski, no denúncia das fake news da direção do Le Monde Diplomatique.
Wall Street Journal, 18 abr. 2019). entanto, preside a associação Repórte- no centro de seu
A maioria dos outros, porém, prefe- res Sem Fronteiras.
riu negar seu fracasso. “Sabemos que a Por seu lado, o Le Monde (26 mar.
projeto editorial 1 Ler Serge Halimi, “Marionnettes russes” [Fanto-
ches russos], e Aaron Maté, “Ingérence russe, de
carta [do ministro da Justiça resumin- 2019) reservou sua manchete de pri- l’obsession à la paranoïa” [Interferência russa, da
do o relatório Mueller] não tem ne- meira página para o evento: “Trump obsessão à paranoia], Le Monde Diplomatique,
nhum significado. É absolutamente... triunfa após as primeiras conclusões Quando o vício é muito forte, a sa- respectivamente jan. 2017 e dez. 2017.
2 Glenn Greenwald, “Robert Mueller did not merely
Isso não significa nada”, apregoou o da ‘investigação russa’”. No entanto, o bedoria é impotente... Nos dois lados reject the Trump-Russia conspiracy theories. He
apresentador da MSNBC Joe Scarbo- editorial publicado no dia seguinte fez do Atlântico, as direções editoriais fo- obliterated them” [Robert Mueller realmente não
rough (29 mar. 2019). Uma vez publi- um balanço singular de três anos de ram rápidas em confirmar a pertinên- rejeitou as teorias da conspiração Trump-Rússia.
Ele as destruiu], The Intercept, 18 abr. 2019. Dis-
cado o relatório Mueller, os perpetra- uma vida pública norte-americana cia do diagnóstico de Douthat. Oito ponível em: <https://theintercept.com>; Matt Tai-
dores de um complô imaginário gangrenada por uma gigantesca para- dias depois desse Chernobyl midiáti- bbi, “It’s official: Russiagate is this generation’s
preferiram lembrar que Trump às ve- noia: “As instituições do país funcio- co, o Le Monde publicou “uma série so- WMD” [É oficial: Russiagate são as armas de des-
truição em massa desta geração”], Hate Inc., 23
zes fora tentado a abusar de sua autori- nam”. Nos Estados Unidos, um dos bre a influência e as redes da Rússia no mar. 2019. Disponível em: <https://taibbi.subs-
dade para impedir uma investigação únicos editorialistas que ainda mere- exterior”, cujo artigo principal tratava tack.com>.

Aceleração Políticas da natureza Processo


É possível imaginar um mundo em que os Bruno Latour tem se dedicado a refletir sobre a ou criação
avanços tecnológicos possibilitassem aos relação entre a ecologia com a política. Se não é A partir do pensador chinês Wang
humanos uma enorme exatamente recente o Fuzhi, François Jullien discute o
economia de tempo. No boom dos movimentos processo, ou a representação de
entanto, o efeito engajados em ativismo base da visão de mundo na China,
inicialmente libertador e ambiental, é preciso e a criação, como entende-se no
fortalecedor da trazer ao debate a Ocidente. A leitura do filósofo
aceleração social questão: diante das francês se diz problemática porque
moderna ameaça se transformações propõe entre “processo” e
transformar em seu climáticas, das “criação” uma alternativa que nos
oposto na modernidade agressões sistemáticas permite apreender o traço singular
tardia. Hartmut Rosa das quais o planeta adquirido por um contexto de
busca compreender o padece, eles têm civilização.
fenômeno, conseguido efetivo
debruçando-se sobre respaldo político? A Produzir conteúdo
suas causas e seus ecologia política é Compartilhar conhecimento.
impactos. capaz, afinal, de dar Desde 1987.
conta desse delicado
www.editoraunesp.com.br
desafio?
4 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

EDITORIAL

Enfrentar o luto
POR SILVIO CACCIA BAVA

recisamos enfrentar o luto e, se elegeu agora com 73% dos votos, as- São tempos de rupturas. Para o igualitários e de solidariedade, mas

P mais do que reagir, retomar a


iniciativa. Os cem dias de go-
verno de Bolsonaro deixam cla-
ro que seu objetivo é destruir nossos
projetos de um país mais justo, menos
sistimos ao avanço global da extrema
direita, sem que se vislumbre uma es-
tratégia das forças progressistas ca-
paz de enfrentar essa tendência.
O debate está aberto: como enfren-
capitalismo global, a democracia li-
beral como instrumento de legitima-
ção do poder e promoção da igualda-
de de direitos e oportunidades não
tem mais sentido. Com sua agenda de
também municiar as lutas cotidianas
do povo, que são por emprego, segu-
rança, transporte, saúde, educação,
direitos de aposentadoria.
O movimento de superar o luto e
desigual, sem pobreza, com a partici- tar o avanço da extrema direita, uma espoliação das maiorias, o capitalis- tomar a iniciativa implica também
pação da cidadania na política. vez que ela não se propõe a assumir mo inanceirizado lança mão de regi- buscar uma sintonia e uma articula-
Estamos capturados por uma agen- um pacto democrático para melhorar mes políticos autoritários. A prova é ção com setores da juventude que re-
da que defende valores conservadores, um pouco a vida das maiorias, como seu engajamento na eleição de líderes jeitam as institucionalidades, porque,
por uma campanha de luta contra a fez o PT? da extrema direita, incentivando o como estão, não são portadoras de fu-
corrupção que se evidencia cada vez Poderá ter sucesso a plataforma descrédito popular com a democra- turo para os jovens.
mais como uma retórica de manipula- política social-democrata de Bernie cia, com os partidos políticos exis- Estamos diante do desaio da cons-
ção. Não parece haver espaços para Sanders e Ocasio-Cortez, nos Estados tentes e mesmo com as instituições trução de novos paradigmas, novos
denunciar os discursos de violência Unidos, que pretende diminuir o fosso que construíram o pacto social que modos de pensar, novas institucionali-
do Estado contra os pobres e de crimi- da desigualdade propondo novas polí- elegeu o Estado de bem-estar social dades, para que a economia se oriente
nalização dos movimentos sociais. ticas públicas e uma maior taxação como meta para assegurar direitos não para o lucro de alguns poucos, mas
Enquanto icamos enredados nesses dos mais ricos, mas que não se propõe básicos para todos. para atender aos interesses das maio-
debates, discutindo o que Bolsonaro a mexer com as estruturas? O que deve Hoje já vivemos a barbárie em es- rias. É preciso construir uma utopia
coloca em seu Twitter, o país vai sendo ser uma plataforma da esquerda hoje? cala global, em que os grandes atores que oriente nossas ações, de modo a
desmontado, as empresas públicas Não faltam assuntos de extrema inanceiros, que controlam governos engendrar uma nova democracia, com
vendidas, nossas riquezas naturais urgência: e instituições multilaterais, avalizam novos mecanismos de participação,
expropriadas, e vamos nos tornando • Como impedir que os agrotóxicos políticas que controlam pela manipu- que airme um novo poder, o poder po-
cada vez mais vassalos dos Estados envenenem nossas crianças? lação, pela força, pela violência e, co- pular. É preciso inverter a equação na
Unidos. O debate de como construir • Como impedir que a mineração mo vemos no caso de Marielle, de An- qual a economia molda a sociedade e
um mundo melhor, uma nação autô- cause a absurda devastação ambiental derson e de lideranças de movimentos suas formas de representação demo-
noma, capaz de gerir seu destino, não e a morte de milhares de pessoas aqui sociais, pelo assassinato. Quem man- crática. É uma democracia de novo ti-
está nas páginas, nas ondas e nas te- e em todo o mundo? dou matar? É preciso nomear os po que precisa controlar a economia,
las da mídia nem nas timelines das • Como impedir que, para maximi- responsáveis. essas empresas gigantes responsáveis
redes sociais. zar seus lucros, o capitalismo inan- Não há como organizar a resistên- pela promoção da barbárie.
Mas o luto não é só nosso, dos bra- ceirizado, com seus programas de cia nos moldes do passado nem buscar Para Nancy Fraser, mais do que re-
sileiros. Essa nova etapa inanceiriza- austeridade, deixe que os mais pobres, a conciliação de interesses com as compor as bases do Estado de bem-es-
da do capitalismo global vai reprodu- crianças, adultos e velhos, morram de classes dominantes. Como nos aponta tar social, o desaio para a esquerda é
zindo, mundo afora, os mesmos fome e de doenças? Rancière: “Só elaborando o mal-estar tornar concreto e credível um projeto
mecanismos que promovem o colap- • Como impedir que a reforma da (o ódio) em chaves políticas de eman- (a utopia) de superação desse modelo
so da democracia liberal e a ascensão Previdência deixe os mais velhos na cipação (coletivas, igualitárias, aber- baseado em consumo e endividamen-
da sociedade do controle, de regimes miséria, sem proteção social? tas e inclusivas) se poderá disputar to para os pobres e inanceirização/
autoritários, da espoliação generali- • Como impedir a extinção da vida terreno com esta ‘lógica de guerra’. A especulação para os ricos.2
zada das maiorias. Depois de Trump, no planeta pelo aquecimento global, politização do mal-estar é o melhor
de Bolsonaro e de outros líderes como pela ação do homem? antídoto contra sua instrumentaliza- 1 “Como sair do ódio?”, entrevista com Jacques
o comediante Volodymyr Zelenskiy, Tudo isso quando meia dúzia de ção por parte daqueles que querem en- Rancière, blog da Boitempo, 10 maio 2016.
© Claudius

da Ucrânia, que decidiu em janeiro, super-ricos detêm a riqueza que cor- contrar bodes expiatórios entre os ou- 2 Nancy Fraser, “El final del neoliberalismo ‘progre-
sista’”, Sinpermiso, 12 jan. 2017. Disponível em:
sem um partido político estruturado, responde ao que possui a metade mais tros”.1 Isso signiica não só fazer a <www.sinpermiso.info/textos/el-final-del-neolibe-
concorrer à presidência de seu país e pobre da humanidade. disputa pelos direitos e por valores ralismo-progresista>.
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 5

CAPA

Por que não se


fala de benesses
fiscais quando o
assunto é ajuste
econômico?
Não soa estranho que mais de 50% das benesses
tributárias estejam concentradas justamente nos tributos
que financiam a Seguridade Social (Cofins, PIS/Pasep,
CSLL e Receitas Previdenciárias), entre elas a Previdência,
acusada de ser a causa de todos os males?
POR MARCELO LETTIERI*

© Daniel Kondo
“I
ntroduza um pouco de anarquia. aprovada a reforma da Previdência, o facilitar a comparação e mostrar as al- programas de refinanciamento de dí-
Perturbe a ordem vigente, e tudo se país quebra”! Essa “bala de prata”, res- ternativas disponíveis com a “mesma vidas, conhecidos como Refis.
torna o caos. Eu sou um agente do saltam, é nossa única, e derradeira, moeda” do governo, utilizaremos esse Há uma percepção geral de que as
caos.” Com essas palavras, o perso- solução para o caos. Não há alternati- número como referência. Essa será benesses fiscais podem ser úteis para
nagem Coringa, em Batman: o Cava- vas, elas gritam. nossa “régua”. alcançar certos objetivos de interesse
leiro das Trevas, anuncia seu lema e Mas isso é mentira! Há alternativas O artigo 165 da Constituição Fede- público, mas também de que precisam
conclui: “e sabe qual é a chave do caos? viáveis. Mas estas não interessam à ral estabelece a obrigação de o Poder ser utilizadas com equilíbrio, o que
O medo”. nossa velha elite sanguessuga. Executivo apresentar demonstrativos traz à baila algumas questões impor-
Não é fácil, no Brasil atual, nomi- das receitas e despesas decorrentes de tantes: quanto custa e quem são os be-
nar quem é o agente do caos. Não por- isenções, anistias, remissões, subsí- neficiários dessa opção política? Qual
que não o conheçamos, mas porque dios e benefícios de natureza tributá- é o impacto dessas renúncias na eco-
são muitos e difusos, ao menos desde A crise econômica ria, financeira e creditícia. Proponho nomia e nas contas públicas? É possí-
que a não aceitação do resultado das brasileira não dá sinais usarmos a denominação benesses fis- vel reduzi-las?
eleições presidenciais de 2014 “pertur- de esgotamento cais para consolidar a totalidade des- Tentemos perscrutar alguns nú-
bou a ordem vigente”. Desde então, te- imediato – agravada ses benefícios. meros para buscar as respostas.
mos muitos Coringas à solta, espa- As benesses financeiras, também Em maio de 2018, a Secretaria de
lhando o medo. por uma ordem denominadas subsídios explícitos (por Acompanhamento Fiscal, Energia e Lo-
A crise econômica brasileira não política abalada por serem apresentados explicitamente no teria (Sefel), do Ministério da Fazenda,
dá sinais de esgotamento imediato – sucessivas crises orçamento), referem-se a desembol- divulgou o 2º Orçamento de Subsídios
agravada por uma ordem política aba- sos efetivos realizados por meio das da União: Relatório do Governo Fede-
lada por sucessivas crises, justamente equalizações de preços e juros e à as- ral, apresentando os gastos tributários
por conta do caos instalado pela rup- sunção de dívidas. As benesses credití- e os benefícios financeiros e creditícios
tura democrática do impeachment –, BENESSES FISCAIS X REFORMA DA PREVIDÊNCIA: cias, denominadas subsídios implíci- no período de 2003 a 2017. Os dados
e, enquanto não surge o Batman (um VAMOS COMPARAR? tos, são os gastos decorrentes de mostram que, em 2017, o total de benes-
salvador) a quem recorrer, a alterna- O governo escolheu um número programas oficiais de crédito, opera- ses somente do governo federal (União)
tiva para enfrentar esse caos passa a simbólico para “vender” a reforma da cionalizados à taxa de juros inferior ao alcançou R$ 354,7 bilhões, sendo R$
ser algum ato de salvação. Para o Previdência: 1 trilhão de reais. A ima- custo de captação do governo federal. 84,3 bilhões de benefícios financeiros e
atual governo, o único ato possível de gem é “bonita”: R$ 1.000.000.000.000,00. Já as benesses tributárias (ou gastos creditícios, e R$ 270,4 bilhões de gastos
nos libertar desse caos é a reforma da Essa seria a economia em dez anos. tributários, no jargão oficial) são gas- tributários. Junte-se a elas a perda
Previdência. Para um país com renda média men- tos indiretos do governo realizados anual de R$ 18,6 bilhões por ano com os
Não por acaso, as manchetes da sal inferior a R$ 1.400, esse é um nú- por meio do sistema tributário. Além 25 programas de refinanciamento das
grande mídia repetem o mantra dog- mero assustador (e inalcançável para a desses, temos as anistias tributárias, dívidas com a União que foram criados
mático de nossa salvação: “Se não for maioria dos brasileiros). Então, para representadas principalmente pelos ou reabertos no país de 2000 até 2017 e

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6 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

temos o montante anual de benesses Os dados da Receita Federal mos- COMPOSIÇÃO DO GASTO TRIBUTÁRIO POR TRIBUTO (2019)
fiscais: R$ 373,3 bilhões. tram ainda que a Contribuição para o
Utilizando nossa “régua”, consta- Financiamento da Seguridade Social
tamos que a economia pretendida (Cofins) e a Contribuição Previden-
com a draconiana reforma da Previ- ciária são os tributos que concentram Cofins
dência em dez anos é menor do que o a maior parte dessas benesses tributá-  
Receita previdenciária
total dessas benesses em apenas três rias: 22% e 21% do total (ver gráfico).
anos. Ou, ainda, para não passarmos a Não soa estranho que mais de 50%  IRPF
ideia de que é possível acabar com to- das benesses tributárias estejam con-  IRPJ
das essas benesses, algumas justas, se centradas justamente nos tributos que

reduzíssemos em 30% seu montante, financiam a Seguridade Social (Cofins,  IPI Interno
teríamos uma economia equivalente a PIS/Pasep, CSLL e Receitas Previden-   Pis/Pasep

“uma reforma da Previdência”. ciárias), entre elas a Previdência, acu-
CSLL
Analisando os dados oficiais, é sada de ser a causa de todos os males?
possível ver uma tendência de cresci- Quem, sendo proponente de ajustes
mento das benesses da União, que fiscais, defenderia abrir mão de recei- Fonte: Receita Federal.
quase duplicaram: de 3% do PIB em tas que justamente tornariam susten-
2003 para 5,4% do PIB em 2017. A desa- táveis as despesas com saúde, previ-
gregação por modalidade mostra que dência e assistência? tribuição de lucros e dividendos, que que a renda das famílias cresce. Como
as benesses tributárias atingiram Não lhes parece haver algo mal em 2016, último ano divulgado pela resultado, tais benesses beneficiam os
4,1% do PIB em 2017, ante 2% em 2003; contado nessa história? Quem estaria Receita Federal, somaram R$ 269,4 bi- mais ricos.
e os subsídios financeiros e creditícios se beneficiando dessa omissão? lhões e, se fossem tributados identica- Parece óbvio, agora, porque não se
se ampliaram de 1% em 2003 para Para estimar os gastos tributários, mente aos rendimentos do trabalho, atacam tais benesses em vez de aposta-
1,3% do PIB em 2017. Ou seja, se sim- a Receita Federal utiliza um sistema poderiam resultar numa arrecadação rem numa cruel reforma da Previdên-
plesmente retornássemos aos padrões tributário de referência, segundo ela, de mais de R$ 70 bilhões, equivalente, cia: os gastos tributários favorecem os
de 2003, economizaríamos 2,4% do “baseado na legislação tributária vi- em dez anos, a 70% do que a reforma mais ricos, que exercem grande poder
PIB ao ano, ou 24% do PIB em dez gente, em normas contábeis, em prin- da Previdência pretende economizar. de influência sobre os que concedem as
anos, o equivalente a R$ 1,6 trilhão em cípios econômicos, em princípios tri- Outra benesse tributária pouco renúncias tributárias. E os ricos brasi-
2018, um valor 60% superior ao apre- butários e na doutrina especializada”. questionada são as renúncias com a leiros, quando ameaçados em seus cas-
sentado pelo governo para “vender” Trata-se, obviamente, de uma escolha saúde, que se concentram basicamen- telos, utilizam o medo para instalar o
sua reforma da Previdência. Se focás- discricionária e sujeita às deficiências te em subsídios destinados à oferta caos e manter seus privilégios.
semos somente as benesses tributá- dessa subjetividade. Só para ficarmos (indústria farmacêutica e hospitais) e E, assim, retomando o Coringa,
rias, seu retorno aos padrões de 2003 num exemplo dessa discricionarieda- em gastos com planos de saúde, profis- quando se instala o medo, é fácil con-
já implicariam uma arrecadação de de, a Receita Federal classifica como sionais de saúde, clínicas e hospitais. vencer os que vão perder, e sempre per-
R$ 1,36 trilhão em dez anos. gasto tributário renúncias relaciona- Tais benesses, que provocaram uma deram, de que não há alternativas a não
Mas por que tal alternativa nem se- das ao Simples Nacional, apesar de renúncia de R$ 41,3 bilhões em 2019, ser a supressão de seus direitos. Nesse
quer é cogitada? A quem interessa esse existir expressa previsão constitucio- são de difícil redução, pois os princi- “filme”, os que acreditarem no terroris-
silêncio sobre essa fonte importante nal de tratamento favorecido para as pais beneficiários são a “classe média”, mo do problema da Previdência vão
de recursos? Por que apostar numa re- pequenas e médias empresas (Art. que financia seus planos privados, e as perceber, talvez tarde demais, que ape-
forma cuja conta será paga apenas pe- 170, IX). Por outro lado, não considera operadoras de planos de saúde, as clí- nas foram usados pelo Coringa e que já
los mais pobres? que a isenção da distribuição de lu- nicas e hospitais privados e os profis- não há “Batmans” para salvá-los.
cros e dividendos, inserida em nosso sionais de saúde, que são os destinatá- O que nos resta então? Precisamos
BENESSES TRIBUTÁRIAS: ordenamento jurídico somente em rios finais dessa renúncia. mostrar à sociedade o que está por trás
A QUEM SERÁ QUE SE DESTINAM? 1996, seja um gasto tributário, embora Além disso, as principais pesqui- de tudo isso. Quem é o Coringa. E con-
A Receita Federal divulgou recente- configure claramente uma exceção à sas na área indicam um efeito negati- vencê-la de que não há como debelar o
mente os dados dos gastos tributários regra geral da tributação da renda. vo dos gastos tributários em saúde so- caos senão destruindo “o agente do
em bases efetivas até 2015 e as proje- Essa é uma questão importante, bre a redução da desigualdade, alguns caos”, o “nosso” Coringa!
ções até 2020. As projeções para 2018 a pois isso significa que não está incluí- dos quais com efeitos regressivos, isto
2020 indicam certa estabilidade no ní- do no montante das benesses tributá- é, que aumentam o nível de desigual- *Marcelo Lettieri é doutor em Economia e
vel dos gastos em cerca de 4,1% do PIB. rias o total da renúncia relativa à dis- dade, pois seu valor se eleva à medida diretor técnico do Instituto Justiça Fiscal.

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MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 7

CAPA

A sonegação
(in)conveniente
O perfil predominante dos sonegadores determina os efeitos
da sonegação. Sua concentração entre os mais ricos torna
o sistema tributário mais regressivo do que já é, ou seja, a
sonegação contribui para aumentar as desigualdades sociais
POR DÃO REAL PEREIRA DOS SANTOS*

© Daniel Kondo
m tempos de crise fiscal, déficits entanto, são apenas no sentido de cor- ções, e, agora, apressam-se para apro- ser denunciados à justiça. Ou seja, so-

E orçamentários ganham as man-


chetes dos jornais e, rapidamen-
te, os defensores do Estado mí-
nimo se articulam para derrubar
conquistas históricas da sociedade,
tar gastos, nenhuma para recuperar a
capacidade de arrecadar.
As alegações recorrentes de que as
receitas tributárias já chegaram ao
teto e de que os gastos cresceram de
var a reforma da Previdência Social,
que a desconstitui como um direito,
transformando-a em mercadoria a ser
adquirida no mercado financeiro.
Enquanto isso, a sonegação per-
negar passou a ser um ótimo negócio.
O perfil predominante dos sonega-
dores determina os efeitos da sonega-
ção. Sua concentração entre os mais
ricos torna o sistema tributário mais
cortando gastos, restringindo a pres- forma descontrolada não se susten- manece solenemente ignorada. O So- regressivo do que já é, ou seja, a sone-
tação de serviços essenciais, vendendo tam numa simples análise da evolu- negômetro (Sinprofaz) aponta que, de gação contribui para aumentar as de-
patrimônio público e promovendo ter- ção histórica dos gastos e das recei- 1º de janeiro a 15 de abril de 2019, já te- sigualdades sociais.
ceirizações, mas não sem antes terem tas. De 1997 até 2018, o crescimento ríamos perdido para a sonegação mais O estoque de processos referentes a
patrocinado dispendiosas campanhas dos gastos sempre esteve sob contro- de R$ 164 bilhões, valor 40% superior a créditos tributários da União que estão
midiáticas para produzir dogmas an- le, tendo, inclusive, reduzido sua taxa todo o orçamento federal previsto pa- sendo discutidos no Conselho de Admi-
ti-impostos e anti-Estado. Os escanda- de crescimento a partir de 2014. Con- ra a educação em 2019. O valor anual nistração de Recursos Fiscais (Carf)4
losos níveis de sonegação1 tributária, vém ressaltar aqui os efeitos positivos estimado de sonegação é superior a R$ nos dá uma boa ideia da enorme con-
no entanto, parecem não sensibilizar dos gastos públicos. Segundo Fagna- 500 bilhões, quatro vezes o déficit fis- centração do valor de autuações nas fai-
muito a opinião pública, talvez pela ni e Rossi,2 gastos de 1% com educa- cal e cinco vezes a economia apontada xas superiores a R$ 100 milhões. Quase
conveniência de ajudarem a justificar ção e saúde geram crescimento do pelo governo com a reforma da Previ- 70% do valor total se encontra ali, mes-
os ajustes fiscais e a redução do tama- PIB de 1,85% e 1,7%, respectivamen- dência.3 Parece óbvio que, em épocas mo correspondendo a apenas 0,6% do
nho do Estado. te. No programa Bolsa Família e na de crise fiscal, a primeira alternativa total de processos (ver tabela).
A propaganda recorrente contra as Previdência Social, cada 1% eleva a deveria ser a recuperação das receitas Embora a maior parte dos proces-
coisas públicas e contra os tributos renda das famílias em 2,25% e 2,1%, perdidas. No entanto, a sonegação tal- sos se refira a autuações inferiores a
cria um ambiente propício para elevar respectivamente. Ou seja, também vez seja conveniente para os que de- R$ 15 milhões, os valores realmente
a tolerância social à sonegação. Aliás, do ponto de vista econômico, cortar fendem a redução do Estado. expressivos encontram-se concen-
sonegadores famosos são normal- gastos deveria ser a última das alter- A sonegação de tributos acabou se trados em uma parcela muito peque-
mente muito respeitados nos meios nativas. Percebe-se, no Gráfico 1, que transformando numa fonte barata de na de processos. Mais de R$ 225 bi-
sociais, e não pagar tributos adquire o problema está nas receitas, e não financiamento do setor privado, além lhões estão sendo discutidos por
uma aura de sucesso entre aqueles nos gastos. De 1997 a 2013 elas cres- de aprofundar a regressividade do sis- 0,07% 5 dos autuados. Ressalta-se que
que, inconformados com o Estado de ceram a taxas superiores à dos gas- tema tributário. Não há dúvida de que esses processos se referem a autua-
bem-estar criado pela Constituição tos. A partir de 2013, no entanto, co- um dos fatores mais relevantes a faci- ções realizadas pelos auditores fis-
Federal de 1988, insistem em criticar meçaram a declinar. litar a vida dos sonegadores é a inim- cais da Receita Federal, ou seja, são
os tributos e os gastos públicos. A so- Entre 2013 e 2016, a arrecadação putabilidade dos crimes contra a or- casos de sonegação que foram identi-
negação, neste cenário, não é apenas caiu 13,3%. É nesse contexto que os dem tributária na esfera criminal. A ficados, fiscalizados.
tolerada, mas também invejada. projetos reformistas se aceleraram. A interpretação de que tais crimes são Aliás, é relevante observar que o
Nos últimos anos, por conta da cri- crise fiscal apresentou-se como uma de natureza material, e não de condu- volume de autuações que se encontra
se econômica, tivemos uma queda oportunidade sem precedentes para ta, leva a uma quase total impunida- em discussão administrativa no Brasil
acentuada na arrecadação dos tribu- anular os principais esteios do Estado de. Somente após se esgotarem todos é extremamente elevado. Somente no
tos. Desde 2015, a arrecadação total de bem-estar. Em 2016, antes que a re- os recursos na esfera administrativa, Carf estão sendo discutidos quase 10%
tem sido insuficiente para cobrir os ceita voltasse a crescer, aprovou-se o o que pode levar mais de dez anos, e do PIB. Segundo Bernard Appy e Lo-
gastos primários do governo, e isso as- congelamento dos gastos primários somente se o devedor não pagar ou reine Messias, o Brasil teria, em 2013,
susta os credores da dívida pública. por vinte anos. Em seguida, vieram a não aderir a algum programa de par- um volume de contencioso cinquenta
Todas as soluções apresentadas, no reforma trabalhista e as terceiriza- celamento é que esses crimes podem vezes superior ao padrão mundial.6
8 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

GRÁFICO 1 – EVOLUÇÃO DAS RECEITAS E GASTOS DO GOVERNO FEDERAL – 2018 PROCESSOS REFERENTES A CRÉDITOS TRIBUTÁRIOS DA UNIÃO

Resultado primário do Tesouro Nacional Faixa de valores Quantidade Valor total % da % do valor
de processos quantidade
14000000
Dados em milhares de R$
(IPCA - dez/18) – 13,3 Menos de 15 mil R$ 82.158.053.192,07 97,23% 14,49%
13000000
117.711
12000000
Taxa real de crescimento (média anual: 1997 – 2013)
11000000 De 15 mil a 100 mil R$ 91.920.138.126,93 2,17% 16,21%
2.629
10000000
Receita líquida: 6,67% • Despesa toal: 6,27
9000000 De 100 mil a 1 bilhão R$ 167.876.759.990,48 0,54% 29,60%
649
8000000
7000000 Mais de 1 bilhão R$ 225.191.826.176,58 0,07% 39,71%
80
6000000

5000000 Total 121.069 R$ 567.146.777.486,06


4000000
1997

1998

1989

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

2015

2016

2017

2018
Receita líquida Despesa Total Um exemplo são as manipulações pólios econômicos, pela concorrência
de preços em operações de comércio in- desleal, ou a produzir sonegação endê-
Fonte: Elaboração de Marcelo Lettieri Siqueira, com dados da Secretaria do Tesouro Nacional.
ternacional entre empresas vinculadas, mica, quando todos os agentes pas-
Disponível em: <http://bit.ly/2IErWZ8>.
com a finalidade de transferir lucros pa- sam a sonegar da mesma forma.
ra paraísos fiscais. Nas Ilhas Virgens Por fim, sem exaurir todas as possi-
Britânicas, por exemplo, o número de bilidades para garantir o financiamen-
GRÁFICO 2 – REDUÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DO ICMS NO CONSUMO companhias registradas é mais de to dos direitos sociais, nenhum gover-
quinze vezes superior ao de habitantes no que jurou cumprir a Constituição
locais. São mais de 500 mil empresas poderia propor medidas que a inviabi-
0,095 para menos de 30 mil habitantes,9 a lizem. O combate eficaz à sonegação e
Participação do ICMS no consumo total maioria delas fictícias, que servem ape- a revisão dos principais benefícios fis-
nas para intermediar operações de co- cais concedidos são ações necessárias
Valor do ICMS/ consumo total

0,09
mércio de bens e serviços, permitindo e, em tempos de crise, absolutamente
que os lucros tributáveis fiquem escon- imprescindíveis.
0,085 didos e sem tributação nesses locais.
A Global Financial Integrity (GFI – *Dão Real Pereira dos Santos é diretor do
2014)10 estima que, de 2010 a 2012, o Instituto Justiça Fiscal e membro do Coletivo
0,08 Brasil tenha perdido, em fluxos finan- Auditores Fiscais pela Democracia.
ceiros ilícitos, cerca de US$ 33 bilhões
ao ano. Outro estudo produzido pelo
0,075 Instituto Justiça Fiscal e pela Latinda- 1 Tratamos sonegação em seu sentido amplo, e não
dd (2017)11 revelou que, entre 2009 e em seu sentido jurídico de crime contra a ordem
2014, o setor de exportação de minério tributária. Assim, quando dizemos sonegação, esta-
0,07 mos nos referindo às fraudes tributárias e também a
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
de ferro teria produzido uma perda outras formas de evitar o pagamento dos tributos.
anual de recursos de US$ 5,6 bilhões 2 Eduardo Fagnani e Pedro Rossi, “Desenvolvimen-
Linha do tempo ao ano, totalizando, no período, US$ to, desigualdade e reforma tributária no Brasil”. In:
Vários autores, A reforma tributária necessária:
39 bilhões de evasão de divisas, o que diagnósticos e premissas, Anfip/Fenafisco, 2018,
Fonte: Elaboração própria, com dados do IBGE Contas Nacionais e RFB CTB/2017. representa cerca de US$ 13,3 bilhões p.141-161.
em sonegação de tributos. 3 O governo estima uma economia de R$ 1 trilhão
em dez anos com a reforma da Previdência.
Outro mecanismo utilizado com 4 Mais conhecido como Conselho de Contribuintes,
O elevado valor de contencioso é Uma das formas mais tradicionais bastante frequência é a apropriação que julga, em segunda instância, recursos contra
coerente com o alto nível de sonega- de sonegação se dá pela venda sem nota indevida do ágio interno em reorgani- lançamentos de tributos não pagos, lavrados pelos
auditores fiscais da Receita Federal do Brasil.
ção. Segundo a Tax Justice Network, fiscal ou pelas famosas notas calçadas,8 zações patrimoniais das companhias. 5 Relevante observar que a unidade de controle são
utilizando dados do Banco Mundial esta última dificultada hoje em dia pela Com a Lei n. 9.935, de 1997, a amortiza- processos administrativos. Para facilitar a análise
de 2011, o Brasil ocupa a segunda posi- nota fiscal eletrônica. Tendo em vista ção do ágio constituiu um incentivo estamos considerando que cada processo se refe-
re a uma empresa autuada. Pode haver situações
ção no mundo entre os países com que mais de 50% da carga tributária fiscal criado no âmbito do programa de uma mesma empresa estar discutindo mais de
maior sonegação, perdendo apenas provém do consumo, os artifícios utili- de privatizações.12 No entanto, essa le- um lançamento.
para a Rússia.7 zados para não emitir notas fiscais po- gislação continuou sendo usada por 6 Bernard Appy e Loreine Messias, “Litigiosidade
tributária no Brasil”, O Estado de S. Paulo, 17 mar.
É difícil estabelecer todas as for- dem representar volumes bastante ex- grandes grupos econômicos nacionais 2014.
mas possíveis de sonegação, mas di- pressivos de sonegação, que são e internacionais na aquisição de em- 7 “No mundo, Brasil só perde para Rússia em sone-
versos relatos e notícias de autuações apropriados como lucros dos comer- presas no país, ou simplesmente em gação fiscal, diz estudo”, Valor Econômico, 9 nov.
2013.
fiscais permitem definir algumas ca- ciantes. Quando se compara o valor ar- processos de reorganizações societá- 8 Prática comum na época das notas em várias vias.
racterísticas que se repetem. Muitas recadado de ICMS com a participação rias intragrupo, como parte de plane- A via destinada ao fisco apresentava um valor bem
medidas têm sido adotadas com vistas do consumo total nas contas nacionais, jamentos tributários agressivos. Notí- menor do que a via do comprador.
9 Organização Pan-Americana da Saúde, “Ilhas Vir-
a limitar os espaços para sonegação percebe-se uma tendência de queda, cias recentes dão conta de que o Banco gens Britânicas”, Saúde nas Américas, 2012.
em algumas situações, mas a maioria que pode ser explicada por muitos fato- BTG Pactual perdeu uma disputa no 10 Dev Kar, “Brasil: fuga de capitais, os fluxos ilícitos,
atua apenas sobre pequenos e médios res, inclusive pela sonegação (Gráfico 2). Carf de quase R$ 2 bilhões, referente e as crises macroeconômicas, 1960-2012”, Global
Financial Integrity, 2014.
contribuintes. Por exemplo, a retenção Embora essa seja uma forma tradi- ao uso indevido do ágio.13 11 Instituto Justiça Fiscal, “Subfaturação no setor de
do IRPF sobre o pagamento de salários cional de sonegação, os maiores volu- O combate à sonegação é impor- mineração no Brasil evade US$ bilhões do orça-
dificulta a possibilidade de os traba- mes são representados mais por plane- tante não apenas para garantir recur- mento público”, 17 jul. 2017.
12 Clair Hickmann et al., “Tributação da renda da pes-
lhadores virem a sonegar. Também a jamentos tributários abusivos, que sos para as políticas públicas, mas soa jurídica: instrumento da guerra fiscal interna-
substituição tributária prevista na le- consistem em simular operações des- também para promover justiça e pro- cional ou do desenvolvimento?”. In: Vários autores,
gislação do ICMS cria dificuldades pa- conectadas de substância econômica, teger a concorrência. Não há dúvida de A reforma tributária necessária: diagnóstico e pre-
missas, p.303.
ra a sonegação dos comerciantes na para se aproveitar de brechas existen- que as vantagens obtidas pelos sone- 13 Beatriz Olivon, “BTG perde disputa bilionária sobre
revenda dos produtos. tes da legislação. gadores tendem a possibilitar mono- uso de ágio no Carf”, Valor Econômico, 23 jan. 2019.
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 9

CAPA

Taxa Selic: apropriação


privada de nossos impostos
De que volumes de recursos estamos falando? O Banco Central apresenta a conta: R$ 186 bi em 2013, volume de juros
transferidos para intermediários financeiros e grandes “investidores”. Em 2014, o volume apropriado pelos rentistas subiu para
R$ 251 bi. A série continuou com fantásticos R$ 397 bi em 2015, R$ 318 bi em 2016 e R$ 341 bi em 2017
POR LADISLAU DOWBOR*

© Daniel Kondo
omo o comum dos mortais, vo- que hoje chamamos de rentismo, que A reação dos chamados “merca- rentistas subiu para R$ 251 bilhões. A

C cê provavelmente está plena-


mente informado ou até satura-
do de ouvir falar da dívida
pública, mas entende menos o meca-
nismo. Vamos retroceder a 1º de julho
tem a particularidade de não exigir
dos intermediários financeiros ne-
nhum esforço produtivo, apenas al-
gumas teclas no computador.
Esse fluxo continua até hoje. Com
dos”, que vivem de dividendos das
aplicações, e não de lucros sobre a pro-
dução, foi violenta. Isso envolve tanto
os bancos como os crediários e a clas-
se média alta, que ganhava rios de di-
série continuou com fantásticos R$
397 bilhões em 2015, R$ 318 bilhões
em 2016 e R$ 341 bilhões em 2017. Um
ponto de referência? A tão denuncia-
da Bolsa Família, que melhorou radi-
de 1996, quando entrou em vigor a ta- juros desse nível, nenhum governo nheiro com o rentismo. De que volu- calmente a vida de mais de 40 mi-
xa Selic, pagando espantosos 25%, isso poderia saldar a dívida, nem sequer mes de recursos estamos falando? O lhões de pessoas, é da ordem de R$ 30
já com a inflação baixa. No resto do pagar a totalidade dos juros, que fo- Banco Central apresenta a conta: R$ bilhões ao ano.
mundo, a dívida pública pagava em ram se acumulando, até hoje, no “es- 186 bilhões em 2013, volume de juros A taxa Selic baixou, sem dúvida –
torno de 1% ao ano. Em vez de se em- toque” da dívida, que chamamos de transferidos essencialmente para in- hoje estamos no nível de 6,5% –, mas
prestar ao governo para que fizesse “principal”. O processo nunca foi in- termediários financeiros e grandes com um estoque muito mais elevado e
coisas úteis, drenou-se sua capacidade terrompido, e estamos caminhando “investidores”. É o último ano que ain- inflação mais baixa. O resultado é que
de financiar políticas públicas, pois o rapidamente para R$ 5,5 trilhões, da pode ser atribuído à política dos go- em 2018 continuamos com um dreno
investimento que o governo poderia cerca de 80% do PIB. Lula conseguiu vernos populares – ano já caótico, com de R$ 310 bilhões. E tem mais: desde
fazer com esse dinheiro nunca atingi- baixar a Selic para 14%, ainda escan- manifestações amplamente estimula- dezembro de 1995, esses ganhos estão
ria o rendimento correspondente aos dalosos. E Dilma bem que tentou in- das pela mídia, o caos do processo isentos do pagamento de impostos – é a
juros pagos. E nem era esse o objetivo. terromper a farra, reduzindo a taxa eleitoral, boicotes e a concretização do lei de isenção de lucros e dividendos
Como se gerou esse absurdo? Sim- de juros sobre a dívida pública para que a direita havia prometido: se levar, distribuídos. No conjunto, os chama-
ples: um acordo com os bancos. Ou 7,5% em 2012, justamente para redu- não governa. dos “mercados” ganharam dois pre-
seja, na fase FHC, criou-se um im- zir a sangria. Reduziu também as ta- O golpe pode ter sido formalizado sentes nos anos 1990: um mecanismo
pressionante mecanismo de transfe- xas de juros para as empresas e para em 2016, mas no plano econômico já de apropriação privada de dinheiro
rência de nossos impostos direta- as famílias. As medidas eram absolu- se instalou logo após a eleição. A taxa público e a correspondente isenção de
mente para os bancos. Expandia-se tamente necessárias, mas exigiam Selic voltou aos 14% e, em 2014, o vo- impostos. Ainda carregamos esses ab-
radicalmente a máquina de ganhos muita força política. lume de recursos apropriados pelos surdos nas costas.
10 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

INCÊNDIO EM PARIS

O essencial, para entender o pro- de R$ 1 trilhão por ano, 16% do PIB.


cesso, é que o sistema drena recursos
públicos que deveriam servir para in-
vestir em saúde, educação e infraestru-
turas. A lei do teto de gastos, ao travar
Aqui também apenas rolando a dívida,
sem diminuí-la. Somando com os ju-
ros sobre a dívida pública, da ordem de
6% do PIB, vamos para mais de 20% do
Bairro Notre-Dame
os investimentos públicos, mas não os PIB entrando no sistema de interme-
gastos com a dívida, cimentou por vin- diação financeira. Além disso, temos a Eu pensei, então, que vivíamos num mundo estranho, onde a
te anos os ganhos financeiros com evasão fiscal, da ordem de R$ 570 bi- obsessão pela segurança não impede que uma estrutura de
nossos impostos. Os fantásticos lucros lhões (Sinprofaz). São os mais ricos
oito séculos vire fumaça e onde os turistas nunca foram tão
dos bancos, nos últimos anos, ao mes- que praticam a evasão, pois o trabalha-
mo tempo que a economia patina, de- dor tem seu imposto descontado na fo- numerosos a se espremer nos cais para fotografar a catedral
vem-se em grande parte à consolida- lha. Sem esquecer que, graças à cha- calcinada, cuja simples visão aperta meu coração
ção do imenso dreno financeiro. mada “otimização fiscal” que os
POR BENOÎT DUTEURTRE*
Ninguém gosta de pagar impostos, bancos oferecem a seus clientes mais
evidentemente, e a gente acha, com al- afortunados, o Brasil conta com um es-
guma razão, que o que faríamos com o toque de cerca de R$ 2 trilhões em pa-
dinheiro no bolso seria melhor do que raísos fiscais, o que representa 30% do
o que o governo faria. A realidade é PIB (Tax Justice Network). Somem
que, em termos de sociedade, nosso isenções fiscais e outros presentes, e
bem-estar individual não depende não há como não ver que se trata de
apenas do dinheiro no bolso, mas tam- uma economia que vaza por todos os
bém do que chamamos de consumo lados. Estamos na mão dos grandes in-
coletivo, ou salário indireto, sob forma termediários financeiros.
de bens públicos. Aqui não há muitas No Brasil, o sistema é particular-
dúvidas: todos os países que funcio- mente grotesco, mas o desafio é glo-
nam – desde os nórdicos, passando pe- bal. Nos Estados Unidos, os lucros dos
la China, Coreia do Sul e Canadá, ou intermediários financeiros represen-
ainda a Alemanha – têm cargas tribu- tavam 10% dos lucros corporativos há
tárias relativamente elevadas, mas algumas décadas. Hoje representam
também asseguram saúde, educação, 42%. Martin Wolf, economista-chefe
cultura e infraestruturas generaliza- do Financial Times, comenta que o sis-
© Bruno Maron

das e acessíveis, além de políticas am- tema “perdeu sua legitimidade”. É o


bientais. Nossa qualidade de vida não sistema que gerou a explosiva situação
se resume à nossa capacidade de com- de 1% dos mais ricos que detêm mais
pra individual. E cada um pagar indivi- riqueza do que os 99% restantes. É o
dualmente o acesso ao consumo cole- que tenho caracterizado como a era
tivo sai muito mais caro para todos, do capital improdutivo. Mundial-
além de aprofundar a desigualdade. mente, chamamos esse processo de
Portanto, muito mais importante financeirização. u tive a felicidade, uma noite, de deasse a dos devotos, mas a imensida-
que o tamanho da carga tributária é o
que com ela fazemos. Em nosso caso,
um dos grandes buracos por onde va-
zam os recursos, enriquecendo ban-
cos, seguradoras e grandes aplicado-
No entanto, sabemos perfeitamen-
te o que deve ser feito. O empresário
efetivamente produtivo não precisa de
discursos ideológicos, precisa de uma
população com capacidade de com-
E subir uma escada de pedra até o
órgão da Notre-Dame, onde o
organista e compositor Thierry
Escaich faria um concerto. Nós tínha-
mos nos reunido, com alguns amigos,
de do lugar tornava essa coabitação
entre a igreja e o fórum possível. Eu ad-
mirava as rosáceas do transepto, os
barroquismos do coro, tão desencon-
trados da geometria gótica. Um pouco
res financeiros – ou seja, atividades pra, para ter para quem vender, e de para o ensaio e passamos duas horas mais tarde, no pátio em frente à cate-
econômicas não produtivas –, é a dívi- crédito barato para poder investir. As nessa abóbada imensa, sozinhos na dral, eu lançava um olhar sobre a pe-
da pública. famílias, que no fim das contas consti- catedral, depois da hora de fechar. dra que indicava o “quilômetro zero”
Além disso, como a elevada taxa tuem o objetivo da economia, preci- Thierry tocava, improvisava nesse ins- das distâncias francesas.
Selic permite ganhar mais com aplica- sam de dinheiro para as compras e de trumento extraordinário concebido De um passeio a outro, aprendi a
ções financeiras do que investindo na políticas públicas de acesso universal pelo genial Aristide Cavaillé-Coll, e eu amar a Notre-Dame de todos os ângu-
produção, prática que se generalizou e gratuito, como saúde, educação e se- contemplava as galerias da nave com a los; e, primeiro, do lado da Rua Cha-
com o “tesouro direto”, o desvio dos gurança. Sai mais barato do que pagar impressão deliciosa de encontrar ao noinesse, abordando sem recuo essa
recursos da produção para aplicações planos de saúde e escola privada. As mesmo tempo o mundo medieval, a muralha de esculturas e gárgulas – ao
financeiras foi inevitável, mesmo por famílias consumindo mais e as empre- história religiosa, a história literária contrário da perspectiva espetacular
parte de empresas produtivas, agra- sas produzindo mais geram empregos (Quasímodo deveria estar escondido que oferece a grande praça liberada
vando o travamento da economia. A e receitas adicionais para o Estado, e a em algum canto) e a história musical, por Haussmann. Na beira da margem
inflação caiu não por alguma habili- conta fecha. Foi o que caracterizou o tão presente nessa igreja onde o céle- esquerda do rio, ao longo do pequeno
dade particular de política macroeco- New Deal nos Estados Unidos de Roo- bre Louis Vierne morreu tocando nes- braço do Sena, a catedral revela todo o
nômica, mas simplesmente porque, sevelt, o Estado de bem-estar do pós- se mesmo órgão, num dia de 1937. seu esplendor na vegetação florida –
com a economia quebrada, as empre- -guerra na Europa e a pujança da Co- Vivendo na Île de la Cité há trinta até no inverno, acima das árvores
sas passaram a empurrar seus esto- reia do Sul, do Canadá e dos países anos, sempre tive a impressão de mo- nuas, onde grasnam os corvos e piam
ques, inclusive com perdas. Inflação se nórdicos hoje. E também, evidente- rar no “bairro da Notre-Dame” e fre- os pardais. Mais longe, da Ponte de
equilibra financiando com crédito ba- mente, o governo Lula. O que funciona quentemente parava na catedral para Sully, ela aparece como uma vigia no
rato o consumo das famílias e o inves- é simplesmente orientar a economia saborear a sombra, o espaço e os per- coração de Paris. E se descemos a Rua
timento das empresas, ou seja, equili- para o bem-estar das famílias. O resto fumes de incenso. Os turistas numero- de Beaubourg em direção ao Hôtel de
brando a demanda com maior oferta, e é demagogia. sos não me impediam de deambular Ville, parece então que ela cresce pou-
não quebrando ambas. de uma capela para a outra, diante da co a pouco, coberta por esse teto ex-
É útil colocar o dreno financeiro *Ladislau Dowbor é professor de Economia quantidade de quadros e objetos reli- traordinário – que queimou no dia 15
gerado pela taxa Selic no quadro mais na pós-graduação da PUC-SP. Os dados e giosos, das velas que portavam fé ou de abril –, e que domina o bairro intei-
amplo: os juros altíssimos pagos pelas fontes do presente artigo estão no livro A era superstição. Frequentemente as mis- ro, como se os prédios da cidade fos-
famílias e pelas pessoas jurídicas, por- do capital improdutivo, disponível na íntegra sas estavam em andamento no coro, sem apenas pequenos personagens
tanto pelo setor privado, são da ordem no site <http://dowbor.org>. como se a catedral dos passantes ro- aos pés de uma nave.
10 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

INCÊNDIO EM PARIS

O essencial, para entender o pro- de R$ 1 trilhão por ano, 16% do PIB.


cesso, é que o sistema drena recursos
públicos que deveriam servir para in-
vestir em saúde, educação e infraestru-
turas. A lei do teto de gastos, ao travar
Aqui também apenas rolando a dívida,
sem diminuí-la. Somando com os ju-
ros sobre a dívida pública, da ordem de
6% do PIB, vamos para mais de 20% do
Bairro Notre-Dame
os investimentos públicos, mas não os PIB entrando no sistema de interme-
gastos com a dívida, cimentou por vin- diação financeira. Além disso, temos a Eu pensei, então, que vivíamos num mundo estranho, onde a
te anos os ganhos financeiros com evasão fiscal, da ordem de R$ 570 bi- obsessão pela segurança não impede que uma estrutura de
nossos impostos. Os fantásticos lucros lhões (Sinprofaz). São os mais ricos
oito séculos vire fumaça e onde os turistas nunca foram tão
dos bancos, nos últimos anos, ao mes- que praticam a evasão, pois o trabalha-
mo tempo que a economia patina, de- dor tem seu imposto descontado na fo- numerosos a se espremer nos cais para fotografar a catedral
vem-se em grande parte à consolida- lha. Sem esquecer que, graças à cha- calcinada, cuja simples visão aperta meu coração
ção do imenso dreno financeiro. mada “otimização fiscal” que os
POR BENOÎT DUTEURTRE*
Ninguém gosta de pagar impostos, bancos oferecem a seus clientes mais
evidentemente, e a gente acha, com al- afortunados, o Brasil conta com um es-
guma razão, que o que faríamos com o toque de cerca de R$ 2 trilhões em pa-
dinheiro no bolso seria melhor do que raísos fiscais, o que representa 30% do
o que o governo faria. A realidade é PIB (Tax Justice Network). Somem
que, em termos de sociedade, nosso isenções fiscais e outros presentes, e
bem-estar individual não depende não há como não ver que se trata de
apenas do dinheiro no bolso, mas tam- uma economia que vaza por todos os
bém do que chamamos de consumo lados. Estamos na mão dos grandes in-
coletivo, ou salário indireto, sob forma termediários financeiros.
de bens públicos. Aqui não há muitas No Brasil, o sistema é particular-
dúvidas: todos os países que funcio- mente grotesco, mas o desafio é glo-
nam – desde os nórdicos, passando pe- bal. Nos Estados Unidos, os lucros dos
la China, Coreia do Sul e Canadá, ou intermediários financeiros represen-
ainda a Alemanha – têm cargas tribu- tavam 10% dos lucros corporativos há
tárias relativamente elevadas, mas algumas décadas. Hoje representam
também asseguram saúde, educação, 42%. Martin Wolf, economista-chefe
cultura e infraestruturas generaliza- do Financial Times, comenta que o sis-
© Bruno Maron

das e acessíveis, além de políticas am- tema “perdeu sua legitimidade”. É o


bientais. Nossa qualidade de vida não sistema que gerou a explosiva situação
se resume à nossa capacidade de com- de 1% dos mais ricos que detêm mais
pra individual. E cada um pagar indivi- riqueza do que os 99% restantes. É o
dualmente o acesso ao consumo cole- que tenho caracterizado como a era
tivo sai muito mais caro para todos, do capital improdutivo. Mundial-
além de aprofundar a desigualdade. mente, chamamos esse processo de
Portanto, muito mais importante financeirização. u tive a felicidade, uma noite, de deasse a dos devotos, mas a imensida-
que o tamanho da carga tributária é o
que com ela fazemos. Em nosso caso,
um dos grandes buracos por onde va-
zam os recursos, enriquecendo ban-
cos, seguradoras e grandes aplicado-
No entanto, sabemos perfeitamen-
te o que deve ser feito. O empresário
efetivamente produtivo não precisa de
discursos ideológicos, precisa de uma
população com capacidade de com-
E subir uma escada de pedra até o
órgão da Notre-Dame, onde o
organista e compositor Thierry
Escaich faria um concerto. Nós tínha-
mos nos reunido, com alguns amigos,
de do lugar tornava essa coabitação
entre a igreja e o fórum possível. Eu ad-
mirava as rosáceas do transepto, os
barroquismos do coro, tão desencon-
trados da geometria gótica. Um pouco
res financeiros – ou seja, atividades pra, para ter para quem vender, e de para o ensaio e passamos duas horas mais tarde, no pátio em frente à cate-
econômicas não produtivas –, é a dívi- crédito barato para poder investir. As nessa abóbada imensa, sozinhos na dral, eu lançava um olhar sobre a pe-
da pública. famílias, que no fim das contas consti- catedral, depois da hora de fechar. dra que indicava o “quilômetro zero”
Além disso, como a elevada taxa tuem o objetivo da economia, preci- Thierry tocava, improvisava nesse ins- das distâncias francesas.
Selic permite ganhar mais com aplica- sam de dinheiro para as compras e de trumento extraordinário concebido De um passeio a outro, aprendi a
ções financeiras do que investindo na políticas públicas de acesso universal pelo genial Aristide Cavaillé-Coll, e eu amar a Notre-Dame de todos os ângu-
produção, prática que se generalizou e gratuito, como saúde, educação e se- contemplava as galerias da nave com a los; e, primeiro, do lado da Rua Cha-
com o “tesouro direto”, o desvio dos gurança. Sai mais barato do que pagar impressão deliciosa de encontrar ao noinesse, abordando sem recuo essa
recursos da produção para aplicações planos de saúde e escola privada. As mesmo tempo o mundo medieval, a muralha de esculturas e gárgulas – ao
financeiras foi inevitável, mesmo por famílias consumindo mais e as empre- história religiosa, a história literária contrário da perspectiva espetacular
parte de empresas produtivas, agra- sas produzindo mais geram empregos (Quasímodo deveria estar escondido que oferece a grande praça liberada
vando o travamento da economia. A e receitas adicionais para o Estado, e a em algum canto) e a história musical, por Haussmann. Na beira da margem
inflação caiu não por alguma habili- conta fecha. Foi o que caracterizou o tão presente nessa igreja onde o céle- esquerda do rio, ao longo do pequeno
dade particular de política macroeco- New Deal nos Estados Unidos de Roo- bre Louis Vierne morreu tocando nes- braço do Sena, a catedral revela todo o
nômica, mas simplesmente porque, sevelt, o Estado de bem-estar do pós- se mesmo órgão, num dia de 1937. seu esplendor na vegetação florida –
com a economia quebrada, as empre- -guerra na Europa e a pujança da Co- Vivendo na Île de la Cité há trinta até no inverno, acima das árvores
sas passaram a empurrar seus esto- reia do Sul, do Canadá e dos países anos, sempre tive a impressão de mo- nuas, onde grasnam os corvos e piam
ques, inclusive com perdas. Inflação se nórdicos hoje. E também, evidente- rar no “bairro da Notre-Dame” e fre- os pardais. Mais longe, da Ponte de
equilibra financiando com crédito ba- mente, o governo Lula. O que funciona quentemente parava na catedral para Sully, ela aparece como uma vigia no
rato o consumo das famílias e o inves- é simplesmente orientar a economia saborear a sombra, o espaço e os per- coração de Paris. E se descemos a Rua
timento das empresas, ou seja, equili- para o bem-estar das famílias. O resto fumes de incenso. Os turistas numero- de Beaubourg em direção ao Hôtel de
brando a demanda com maior oferta, e é demagogia. sos não me impediam de deambular Ville, parece então que ela cresce pou-
não quebrando ambas. de uma capela para a outra, diante da co a pouco, coberta por esse teto ex-
É útil colocar o dreno financeiro *Ladislau Dowbor é professor de Economia quantidade de quadros e objetos reli- traordinário – que queimou no dia 15
gerado pela taxa Selic no quadro mais na pós-graduação da PUC-SP. Os dados e giosos, das velas que portavam fé ou de abril –, e que domina o bairro intei-
amplo: os juros altíssimos pagos pelas fontes do presente artigo estão no livro A era superstição. Frequentemente as mis- ro, como se os prédios da cidade fos-
famílias e pelas pessoas jurídicas, por- do capital improdutivo, disponível na íntegra sas estavam em andamento no coro, sem apenas pequenos personagens
tanto pelo setor privado, são da ordem no site <http://dowbor.org>. como se a catedral dos passantes ro- aos pés de uma nave.
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 11

Nos dias de sol, vou procurar a tros de segurança deviam se estender mente, a prefeitura fechou diversas maça desaparecia. Mas fiquei em esta-
sombra na Praça Jean-XXIII, maravi- sem limites, e a autoridade se mostrar, entradas da Praça Jean-XXIII: tratava- do de choque, tomado pelo cataclismo
lhoso jardim acomodado sob os arcos de fuzil na mão. Ainda recentemente, -se de lutar contra os batedores de que atingia tão perto de mim o cora-
de pedra que descem em espirais na minha rua inteira foi fechada por cau- carteira dos turistas, que utilizam es- ção de Paris.
beira da catedral. As folhagens garan- sa de um pacote suspeito, muito longe, sa passagem para fugir. Consequente- Nos dias seguintes, enquanto o
tem em pleno verão um frescor deli- no pátio. E, como eu tentava negociar mente, os moradores foram punidos e drama passava repetidamente na mí-
cioso – decorado pelo barulho da fonte para chegar ao meu prédio, logo atrás eu atravesso esse jardim com menos dia, a Île de la Cité se transformou num
medieval. E às vezes, no coreto, uma da barreira, uma jovem policial me frequência. A prefeitura, inclusive, campo entrincheirado, acessível ape-
fanfarra sueca ou da Marinha france- respondeu sem amenidades: “Se você deixou de cuidar da fonte do jardim, nas com uma carteira de identidade.
sa faz um recital, aumentando ainda não gosta, mude de bairro”. Mas essas quase sempre seca. As estações de metrô fecharam e os
mais o prazer que experimentamos, medidas também valem para as visi- No começo de abril, observei a fle- menores deslocamentos se tornaram
entre o lado direito e o esquerdo do rio, tas de pessoas importantes, como Mi- cha rodeada de grandes andaimes e extraordinariamente difíceis. A exten-
no cruzamento dos braços do Sena, chelle Obama, de passagem com suas pensei, um pouco triste, que não a ve- são do perímetro de segurança, pas-
nesta pura beleza urbana. filhas, tanto que tive, nessa vez tam- ria por muito tempo... mas que, sem sando muito longe das beiras da Notre-
As coisas mudaram, no entanto, ao bém, de esperar que ela fosse embora dúvida, os especialistas e os computa- -Dame, provocou nas duas margens do
longo dos anos, transformando cada para entrar no meu prédio. dores tinham feito uma boa escolha ao rio engarrafamentos gigantes, como se
vez mais este bairro em um bastião da assegurarem o frágil monumento a autoridade quisesse tomar medidas
indústria turística. Primeiro foi a re- plantado lá há 150 anos. Enfim, na se- do tamanho do acontecimento. Quan-
conversão acelerada das últimas lojas gunda-feira, dia 15, pelas 7 horas da do a Prefeitura de Paris e o ministro do
em lojinhas de suvenir e restaurantes Vivendo noite, saindo da estreita Rua de Bièvre Interior foram visitar o local, meus vi-
falsamente típicos; depois, a chegada na Île de la Cité com algumas compras, cheguei ao zinhos tiveram de esperar fora da ilha
dos VTC [espécie de táxi que opera so- Cais da Tournelle e percebi centenas antes de poder voltar para casa. Eu
mente por meio de reservas], os táxis-
há trinta anos, de turistas balançando celulares para pensei, então, que vivíamos num mun-
-bicicleta e os ônibus de dois andares, sempre tive a tirar fotos da Ponte do Archevêché. Me do estranho, onde a obsessão pela se-
propondo, em inglês, a travessia de impressão de morar espantei com essa multidão, mesmo se gurança não impede que uma estrutu-
Paris. Cada vez mais numerosas, as no “bairro da tratando de um dos pontos de vista ra de oito séculos vire fumaça e onde os
asiáticas em vestido de noiva vinham mais famosos do mundo. De repente, turistas nunca foram tão numerosos a
tirar fotos na Ponte do Archevêché,
Notre-Dame” ao virar a cabeça, descobri as grandes se espremer nos cais para fotografar a
cultivando uma visão kitsch do “ro- chamas que subiam os andaimes. O catedral calcinada, cuja simples visão
mantismo” parisiense – no entanto, incêndio começava a se propagar, ati- aperta meu coração.
degradado pelos cadeados presos às Em 2017, François Hollande e Anne çado pelo vento, e eu senti uma angús- Reconforto-me imaginando que
grades da passarela: curioso símbolo Hidalgo apresentaram um projeto de tia terrível, que não tinha a ver com o esse incêndio terrível parece ter pou-
do amor que obrigou a prefeitura a renovação da Île de la Cité. Ele visa perigo, mas com a violência desse ata- pado o grande órgão, que espero ouvir
substituir os antigos parapeitos. transformar o bairro em uma grande que do fogo sobre o monumento ra- novamente. Depois volto para a Notre-
A verdadeira mudança, no entanto, base turística e comercial com a parti- diante, nesse céu azul do fim de tarde. -Dame pela pequena Rua Massillon,
tanto para os moradores do bairro da do Palais de Justice, da Préfecture Afobado, perguntei-me como os bom- onde a muralha medieval permanece
quanto para muitos franceses, aconte- de Police e das atividades hospitalares beiros chegariam lá em cima, depois de pé com suas gárgulas, como se na-
ceu após diversos atentados, que pro- do Hôtel-Dieu. Cogitam, por exemplo, acelerei o passo, motivado pela expe- da tivesse mudado. Mais um consolo:
vocaram um controle sistemático dos construir uma cobertura de vidro no riência: “Preciso ir para casa logo, eles durante esses dias em que a ilha estava
visitantes da Notre-Dame. A entrada lindo mercado de flores para desen- vão fechar o bairro”. De fato, a polícia fechada, salvo aos residentes, dois ou
rápida e fluida pelo portão acabou pa- volver atividades ali. No mesmo mo- chegou uma hora depois ao meu pré- três cafés de turistas abriram seus ter-
ra sempre dando lugar a uma longa fila mento, a comerciante da Rua de Arco- dio – que, no entanto, fica bem longe raços para os vizinhos e animaram
de espera até o meio do pátio, e tive de le fechou sua velha loja cheia de da igreja – e começou a pedir que fôs- uma praça de vilarejo a dois passos da
renunciar às minhas pequenas pausas jornais e imagens santas, último tes- semos para o ginásio e para a inevitá- catedral ferida.
nos bancos da catedral. Os alertas às temunho do tempo em que este bairro vel sala de assistência psicológica! Eu
bombas se multiplicaram também, era mais um local de peregrinação do preferi me fingir de morto e passar a *Benoît Duteurtre é escritor. Publicou re-
por causa das bolsas esquecidas, e en- que uma etapa entre a Torre Eiffel e a noite na clandestinidade, enquanto os centemente En marche! Conte philosophique
tendi que o clima da época não era Disneylândia Paris. Seu comércio foi bombeiros controlavam pouco a pou- [Em marcha! Conto filosófico], Gallimard, Pa-
mais de brincadeira, que os períme- comprado pela Häagen-Dazs. Ultima- co o acidente e a imensa coluna de fu- ris, 2018.
12 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

OFENSIVA CONTRA OS DIREITOS SOCIAIS NA FRANÇA

Como minar a
capacidade de resistência
dos trabalhadores
Para cada governo, sua questão social. Agora é a vez das aposentadorias.
A reforma da previdência francesa quer estabelecer um regime universal, mas bagunça
a filosofia do sistema. Os assalariados correm o risco de ter de decidir entre se aposentar
com uma pensão modesta ou permanecer em atividade (ver mais virando a página).
Já não foi em nome dessa justiça que a reforma trabalhista foi realizada?
POR HÉLÈNE-YVONNE MEYNAUD*

© Samuel Casal
om a reforma trabalhista elabo- nhecimento de direito nem acesso a ela desautoriza o juiz, que é privado de

C rada em 2016 por Myriam El-


-Khomri, mais as disposições
impostas por Emmanuel Ma-
cron (2016-2017), os apelos aos conse-
lhos jurídicos trabalhistas, encarrega-
um sindicato ou a um conselho se de-
fendessem, os tribunais trabalhistas
praticavam a oralidade dos debates:
uma pessoa podia fazer que seu em-
pregador fosse convocado e se dirigisse
qualquer margem de manobra para
avaliar a culpa do empregador e repa-
rar o prejuízo sofrido pelo empregado.
Para o Movimento das Empresas da
França (Medef), como para todos os
dos de julgar os litígios ligados ao em viva voz ao conselho, em particular governos desde Nicolas Sarkozy, trata-
trabalho, diminuíram ainda mais: 127 na audiência dos referidos, que permi- -se de proteger as empresas da justiça,
mil recursos em 2017, contra 187.651 tia julgamentos urgentes. Essa oralida- de “dar garantia aos empregadores”, cando em questão “a formação jurídica
em 2014. E não há dúvidas de que isso de está sendo questionada em primeira segundo a expressão da ministra do dos conselheiros trabalhistas”! 5 Qual-
não aconteceu porque os conflitos de- instância e suprimida em caso de ape- Trabalho, Muriel Pénicaud.3 quer julgamento exige o acordo de no
sapareceram. Diversos fatores expli- lação: para chegar ao tribunal traba- Agora, uma pessoa empregada há mínimo três juízes em quatro, o que
cam essa diminuição. lhista, um trabalhador deve obrigato- dois anos e demitida sem justa causa implica no mínimo um juiz emprega-
Em alta ininterrupta, as rupturas riamente preencher um formulário poderia receber entre três meses (o pi- dor; no caso, o presidente (trabalha-
convencionais individuais substi- Cerfa (formulário administrativo re- so) e três meses e meio (o teto) de salá- dor) e o vice-presidente (empregador)
tuem, inicialmente, o procedimento gulamentar) de seis páginas,2 o qual rio.4 A latitude do juiz passou a ser de reagiram por um comunicado comum
do tribunal do trabalho. Em 2018, se- deve comportar as solicitações, os meio mês! Esse mínimo de três meses às críticas do ministério: “Questionar
gundo os dados do Ministério do Tra- meios de direito e os documentos (pro- vale para qualquer que seja o tempo de nossa autoridade, nossa competência
balho, 437,7 mil tinham sido homolo- vas escritas do fato denunciado). Nada casa do trabalhador; apenas o máxi- e o princípio da separação de poderes,
gadas, ou seja, um aumento de 3,9% simples a ser preenchido sozinho. O mo sobe por degraus que vão dos 23 que constitui um dos fundamentos de
em relação a 2017, ano em que esse nú- procedimento é tão complicado que meses aos trinta anos de casa. A tabela nossa democracia, é escandaloso e
mero já aumentara em 8%.1 Essas rup- pode dissuadir aqueles que desejam não é aplicada em um número restrito atenta contra a autoridade da justiça e
turas convencionais são frequente- simplesmente solicitar documentos de casos (atentado ao direito de greve, contra nossa independência”.
mente negociadas ao mínimo valor, sociais, salários não pagos de algumas liberdade sindical, assédio sexual ou
com o custo financeiro da ruptura centenas de euros... moral...), nos quais a demissão é auto- JARGÃO ANGLO-SAXÃO
passando do empregador para o Pôle Terceiro grande freio ao recurso à maticamente anulada. Para barrar esse movimento de re-
Emploi [um centro oficial de apoio ao justiça trabalhista: uma nova tabela de No entanto, os tribunais trabalhis- cusa da tabela, o governo reagiu de
trabalhador], que paga o seguro-de- indenização muito restrita. Quando os tas de Troyes, Amiens, Lyon, Angers e maneira pouco habitual. O diretor dos
semprego. O governo ampliou esse juízes decidem um litígio em favor do Grenoble, ou ainda o de Agen, quando casos civis e do carimbo, uma seção
movimento criando as rupturas con- trabalhador, depois de terem ouvido de uma audiência sobre partilha presi- do Ministério da Justiça da França, di-
vencionais coletivas; sessenta foram as vozes “dos dois lados” (empregado- dida por um juiz profissional, decidi- rigiu uma circular a todos os procura-
assinadas em 2018. res e trabalhadores), eles decidem por ram que deveriam primeiro se afastar dores-gerais de cortes de apelação pa-
Além disso, os prazos de prescri- uma indenização baseada no prejuízo para avaliar os prejuízos sofridos. Eles ra que recenseassem as decisões
ção, quer dizer, o período durante o sofrido. Em caso de demissão sem jus- se apoiaram em leis sociais europeias tomadas sobre essa questão da não
qual se pode agir, foram encurtados. ta causa, esta não poderia ser inferior a que se impõem no direito francês, as- conformidade; ele pediu que tomas-
Eles passaram de cinco para dois anos seis meses de salário; e, se a empresa sim como no Código de Procedimento sem a palavra diante das cortes de
em 2013, depois para um ano em 2017, tivesse mais de onze trabalhadores e Civil e no Código Civil, que contêm apelação quando as decisões fossem
quando se trata de contestar a ruptura se o funcionário trabalhasse lá há disposições que podem ser invocadas emitidas, a fim de lembrar que nem o
do contrato de trabalho ou de sua exe- mais de dois anos, o juiz poderia deci- para reparar a totalidade ou uma parte Conselho Constitucional nem o Con-
cução; e de cinco para três anos para dir por mais, para reparar o prejuízo do prejuízo. selho de Estado invalidaram essa ta-
os conflitos ligados ao salário e para do trabalhador. Agora, é o reino da ta- Os juízes do tribunal trabalhista de bela. Segundo o Sindicato dos Advoga-
doze meses nos casos de uma ruptura bela obrigatória. Retirada da Lei El- Troyes consideraram, no veredicto da- dos da França (SAF) e o Sindicato da
convencional. -Khomri, restabelecida “a título indi- do em 13 de dezembro de 2018, que a Magistratura (SM), “o Conselho Cons-
Da mesma maneira, se as leis sim- cativo” na lei de 2017, essa tabela está tabela Macron é “inconvencional” titucional não é juiz da conformidade
plificaram a vida dos empregadores, gravada no mármore das ordens dita- porque “viola a Carta Social Europeia e das leis às convenções internacionais,
elas complexificaram os procedimen- das por Macron. Aplicando-se a todas a Convenção n. 158 da OIT [Organiza- e a decisão do Conselho de Estado é
tos para os trabalhadores. Para permi- as demissões sem justa causa que ção Internacional do Trabalho]”. O Mi- uma decisão de referido [...] que não
tir que aqueles que não possuíam co- ocorrem desde 23 de setembro de 2017, nistério do Trabalho retorquiu colo- tem ligação nenhuma com os juízes
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 13

judiciários”. Visivelmente o governo empresas e às outras instituições re- ele estava sob o controle de um em- desejam constituir uma base de dados
gostaria que os magistrados das cortes presentativas do pessoal agora se en- pregador dispondo de um poder de gigantesca, feita de todos os julgamen-
de apelação não confirmassem os jul- contram informatizados na Base de sanção e, então, era subordinado à tos pronunciados na França, com
gamentos feitos em primeira instância Dados Econômicos e Sociais (BDES). empresa. Da mesma forma, a corte de eventualmente a menção dos magis-
pelos juízes trabalhistas. Elas estão espalhadas, e cabe ao sindi- apelação de Paris julgou que existia trados que os presidiram, a fim de mo-
Já o Comitê Europeu dos Direitos calista ir procurar e reconstituir as es- “um feixe suficiente de indícios para delizar, como na economia, seus com-
Sociais afastou a aplicação de uma ta- tatísticas necessárias para colocar em permitir caracterizar uma ligação de portamentos diante de tal ou tal litígio
bela em casos de demissão sem justa evidência as diferenças de tratamen- subordinação na qual ele [o motorista – uma forma de vampirização privada
causa (na Finlândia) e definiu “meca- tos ilícitos, por exemplo. de Uber] se encontrava quando de dos arquivos judiciários nacionais. Is-
nismos de indenização considerados Já os inspetores do trabalho, que suas conexões à plataforma, e assim so vai de encontro ao “direito ao juiz”,14
apropriados”, quer dizer, levando em poderiam trazer seu conhecimento derrubar a presunção simples de não que compreende o direito a um pro-
conta “o reembolso das perdas finan- das situações nas empresas, sofrem assalariado que fazem pesar sobre ele cesso justo (artigo 6§1 da Convenção
ceiras sofridas entre a data da demis- pressões, ataques difamatórios, redu- as disposições do artigo L.8221-6 I do Europeia de Preservação dos Direitos
são e a decisão do órgão de recurso; [...] ções de efetivos, modificações de suas Código do Trabalho”.12 do Homem), implicando o direito à
indenizações de um valor suficiente- atribuições e de sua margem de mano- Claro, fora o Tribunal do Trabalho, igualdade das armas e a uma proteção
mente alto para dissuadirem o empre- bra para estabelecer os processos ver- os trabalhadores podem se dirigir a ou- jurisdicional efetiva.
gador e para compensarem o prejuízo bais e as sanções. Alguns são até leva- tros tribunais, principalmente o Tribu- Esses atentados ao direito do tra-
sofrido pela vítima”.6 Este caráter dis- dos diante dos tribunais. A Tefal nal Correcional, para fazerem julgar as balho e à justiça, que pretendem de-
suasivo das condenações é totalmente (grupo SEB), por exemplo, deu queixa infrações penais cometidas pelo em- senvolver o emprego, contribuem pa-
recusado pelas últimas reformas legis- contra uma inspetora do trabalho e pregador (situação de risco, violências, ra sua precarização, enquanto a
lativas na França, uma vez que se tra- contra um trabalhador por violação de trabalho dissimulado, discriminação, complexificação do acesso ao juiz o
tava de “tranquilizar” o empregador. segredo profissional e dissimulação de assédio), mas continua muito difícil afasta das classes populares, despre-
Enfim, entre os fatos que levam o documentos confidenciais, revelando obter uma condenação por assédio ou zando a democracia.
trabalhador a renunciar a entrar com ligações de conivência entre a direção discriminação, e as multas são baixas.
uma ação na Justiça do Trabalho en- da empresa e os superiores hierárqui- Por sua vez, o Tribunal dos Casos da *Hélène-Yvonne Meynaud é juíza trabalhis-
contra-se o prazo entre a queixa e o jul- cos da inspetora. Esta foi condenada Segurança Social (TASS) julgava lití- ta e socióloga.
gamento. O Estado foi condenado di- em primeira instância, depois na ape- gios que diziam respeito às prestações
versas vezes pelo Tribunal de Grande lação por “dissimulação de violação sociais, especificamente o reconheci-
Instância (TGI) de Paris a pagar aos das correspondências e violação do se- mento de acidente de trabalho, de sui- 1 “As rupturas convencionais em 2018”, Direção da
trabalhadores indenizações que iam gredo profissional” – uma decisão cídio no trabalho, de culpa indesculpá- Animação da Pesquisa, dos Estudos e das Estatísti-
de 1.500 a 8.500 euros, mais 2 mil euros anulada pela Corte de Cassação. A Lei vel do empregador. Os 115 TASS e os 26 cas (Dares), Ministério do Trabalho, Paris, 11 fev.
2019. Ler Céline Mouzon, “Rupture conventionnelle,
por gastos.7 A lentidão dos processos sobre o Segredo dos Negócios, de 30 de Tribunais da Incapacidade foram su- virer sans licencier” [Ruptura convencional, despedir
deve-se essencialmente à falta de pes- julho de 2018, vem complexificar ain- primidos em 1º de janeiro de 2019 por sem demitir], Le Monde Diplomatique, jan. 2013.
soal (que continua diminuindo). Outra da mais o exercício da prova, tornando um decreto de 4 de setembro de 2018. 2 Decreto da Lei Macron de 25 de maio de 2016.
3 “Prud’hommes: le barème ‘rassurant’ pour le salarié
dificuldade: uma mudança das pala- os documentos que podem provar tal Eles seriam integrados, com todos os (Pénicaud)” [Direito do trabalho: a tabela “tranquili-
vras utilizadas no Código do Trabalho, ou tal fato por vezes impossíveis de se- litígios que tratavam (250 mil causas zadora” para o trabalhador (Pénicaud)], Le Revenu,
agora traduzidas em novilíngua. As- rem apresentados diante de um tribu- em curso), em um polo social do TGI 7 nov. 2017. Disponível em: <www.lerevenu.com>.
4 O valor pode se acumular com outras indeniza-
sim, “terceirização” se transformou nal, por serem declarados confiden- que progressivamente está se estabele- ções pagas por irregularidades do procedimento
em “parceria”; “periculosidade”, em ciais pela empresa. cendo e cujo funcionamento já está su- de demissão dentro dos limites dos tetos.
“fator de risco profissional”...8 Entre jeito à caução. 5 Citado por Bertrand Bissuel, “Le plafonnement
des indemnités prud’homales jugé contraire au
parênteses, a “conta-periculosidade” O próprio direito do trabalho dimi- droit international” [O teto das indenizações traba-
obtida em 2013 para compensar o re- nuiu. Alguns contratos contêm uma lhistas julgado contrário ao direito internacional],
cuo da idade de aposentadoria aceita Como para todos pré-justificativa da demissão, como os Le Monde, 14 dez. 2018.
6 Jean Mouly, “L’indemnisation du licenciement injus-
por alguns sindicatos foi transformada os governos desde contratos de canteiros de obras que tifié à l’épreuve des normes supra légales” [A inde-
em “conta de prevenção”. Eliminou-se terminam no fim do serviço sem inde- nização da demissão sem justa causa à prova das
a consideração sobre as cargas pesa-
Nicolas Sarkozy, nizações de ruptura. Eles podem co- normas supralegais], Le Droit Ouvrier, n.840, Mon-
das, a exposição aos produtos quími- trata-se de proteger as meçar a se desenvolver em outros seto-
treuil-sous-Bois, jul. 2018.
7 Laure Gaudefroy-Demombynes, “Prud’hommes:
cos etc., que não dão mais direito a ne- empresas da justiça, res: por que não um “canteiro para l’État condamné à cause des lenteurs de la justice”
nhuma compensação (formações, professores” que permitiria garantir os [Direito do trabalho: o Estado condenado por cau-
de “dar garantia aos sa da lentidão da justiça], blog de Gaudefroy-De-
trimestres suplementares que permi- cursos de uma classe de setembro a ju-
tiam que se partisse mais cedo...).
empregadores” nho? Esses contratos podem também
mombynes, 24 jan. 2012. Disponível em: <https://
blogavocat.fr>.
A semântica não é apenas um exer- estar associados a cláusulas de objeti- 8 Olivier Sévéon, “Ordonnances: la disparition du
mot ‘sous-traitance’ et autres éléments de novlan-
cício de estilo. A advogada geral no ca- vos individuais ou de performance co- gue” [Disposições: o desaparecimento da palavra
so Take Eat Easy (para requalificar co- Mesmo o trabalhador “protegido”10 letiva. A demissão de um trabalhador “terceirização” e outros elementos de novilíngua],
mo contrato de duração indeterminada se encontra agora fragilizado, atingido que recusa a modificação de seu con- Miroir Social, 5 mar. 2018. Disponível em: <www.
miroirsocial.com>.
um entregador declarado como au- por uma repressão sindical crescente. trato de trabalho em aplicação de um 9 “Decisão n. 1.737, de 28 de novembro de 2018
toempreendedor) ressalta: “É permiti- Com a fusão das Instâncias Represen- acordo de performance coletiva será (17-20.079)”, Corte de Cassação – Câmara So-
do se perguntar se o recurso da empre- tativas do Pessoal (IRP) e seu reagru- justificada sem contestação possível. cial. Disponível em: <www.courdecassation.fr>.
10 Eleito por seus colegas, o “trabalhador protegido”
sa Take Eat Easy a uma terminologia pamento em andamento no Comitê Enfim, a vontade de Macron de não pode ser demitido sem o consentimento da
anglo-saxã (shifts, strikes), em que ‘ho- Econômico e Social (CES), o número contornar o juiz se fortalece com o inspeção do trabalho, ou até mesmo do Ministério
rários de trabalho’ e ‘paralisações’ te- de representantes de trabalhadores projeto de reforma da justiça e a des- do Trabalho ou do Conselho de Estado.
11 Stéphane Ortega, “Comment 200.000 représen-
riam sido perfeitamente convenientes, “protegidos” terá caído de 700 mil para materialização pelos algoritmos ad tants du personnel vont perdre leur statut de sala-
não tinha como interesse, além de 500 mil até o fim deste ano.11 hoc (confidenciais). O queixoso preen- riés protégés” [Como 200 mil representantes do
uma novilíngua modernizadora, dis- No entanto, a justiça do trabalho cheria um formulário on-line, e a deci- pessoal vão perder seu status de trabalhadores
protegidos], Rapports de Force, 20 fev. 2018. Dis-
simular aos olhos de seus ‘prestadores permanece essencial para regular os são lhe seria comunicada sem que ele ponível em: <https://rapportsdeforce.fr>.
de serviço’ e talvez dos juízes a verda- conflitos do trabalho. Assim, na con- tivesse acesso ao magistrado. Diversas 12 Corte de apelações de Paris, decisão de 10 de ja-
deira natureza do dispositivo”.9 tracorrente da precarização que não empresas se formaram para criar um neiro de 2019, RG n.18/08357.
13 Cf. Jérôme Hourdeaux, “La justice se prépare à l’ar-
Obter provas da qualidade do tra- cessa de crescer das relações de traba- mercado privado da justiça, que se rivée des algorithmes” [A justiça se prepara para a
balho, os atestados, os documentos, lho, a Corte de Cassação requalificou qualifica – novilíngua inglesa obriga- chegada dos algoritmos], Mediapart, 2 jan. 2019.
também faz parte do percurso do como CDI [contrato de duração inde- tória – como “start up da Legaltech 14 Laetitia Driguez, “La motivation du licenciement au
prisme du droit international et européen” [A moti-
combatente. Os dados sociais que an- terminada] o contrato do entregador [tecnologia jurídica] à Open Law [di- vação da demissão no prisma do direito internacio-
tes eram transmitidos aos comitês das da Take Eat Easy, considerando que reito aberto]”.13 Essas “associações” nal e europeu], Le Droit Ouvrier, n.840, jul. 2018.
14 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

OFENSIVA CONTRA OS DIREITOS SOCIAIS NA FRANÇA

Em nome da igualdade,
mais desigualdades
A queda dos níveis de aposentadoria, ao longo das reformas sucessivas, já levou diversas pessoas –
as que têm meios para isso – a pagar uma previdência complementar junto às seguradoras privadas.
Esse é, no fundo, o objetivo implícito dessas reformas
POR CHRISTIANE MARTY*

té o momento, as reformas da

A previdência foram conduzidas


em nome do equilíbrio finan-
ceiro. Agora que o déficit está
sendo reduzido – a custo de uma que-
da contínua do nível das aposentado-
rias –, é a “igualdade” que é posta à
frente por Emmanuel Macron. Pilota-
do por um alto-comissariado dirigido
por Jean-Paul Delevoye, o projeto tem
por objetivo oficial criar um “regime
universal”, substituindo os 42 regimes
atuais, e se pretende mais justo, sim-
ples e compreensível: “Um euro coti-
zado dará os mesmos direitos. [...] Nu-

© Rodrigo Leão
ma carreira idêntica e com uma renda
idêntica, a aposentadoria deve ser
idêntica”, martela um comunicado do
alto-comissariado.1 Assim, com uma
carreira curta e um salário baixo, apo-
sentadoria baixa! A mesma coisa para
todo mundo...
Hoje, a aposentadoria é composta prar pontos ao longo de toda a vida depois dividido pela expectativa de vi- pel: os 5% mais ricos têm expectativa
de regimes básicos por anuidade e re- ativa. No momento da aposentadoria, da restante em teoria, que varia segun- de vida treze anos superior à dos 5%
gimes complementares por pontos – o valor do benefício é calculado multi- do a faixa etária. Concretamente, pes- mais pobres entre os homens e oito
principalmente a Associação pelo Re- plicando-se o número de pontos ad- soas que se aposentam aos 65 anos e anos entre as mulheres.3 Se o cálculo
gime de Aposentadoria Complementar quiridos pelo valor que se chama de cuja expectativa de sobrevida é de vin- por pontos integra também a expecta-
(Arrco), para todos os trabalhadores, e “valor de serviço”. Este último, assim te anos verão o valor de seus direitos tiva de vida, o sistema vai operar uma
a Associação Geral das Instituições de como o preço de compra, é ajustado a adquiridos – e consequentemente o grande redistribuição dos operários
Aposentadoria dos Executivos (Agirc), cada ano pelos gestores dos fundos de nível de sua pensão anual – dividido para os executivos e das baixas rendas
para os executivos. São regimes por re- previdência de maneira a equilibrar as por vinte. Mais expectativa de vida, para as altas rendas. Contrariamente
partição: as cotizações dos ativos ser- finanças. Não há taxa de substituição menos pensão. A soma das pensões re- ao que é prometido, o euro cotizado
vem diretamente para pagar as pen- garantida nem noção de “carreira cebidas durante a aposentadoria se não dará “os mesmos direitos”, já que
sões. Nos regimes por capitalização, completa”, então não há visibilidade aproxima, assim, ainda mais da soma estes dependerão do ano de nasci-
elas alimentam os investimentos fi- sobre a pensão. Esta reflete muito mais das cotizações pagas. mento e da idade da aposentadoria.
nanceiros cujo rendimento futuro (in- a soma das cotizações pagas ao longo Essa opção parecia ter sido afasta- Além disso, com esse sistema, o cál-
certo) vai determinar o valor da pen- da carreira: ela reforça a “contribui- da. No entanto, o documento de traba- culo da pensão leva em conta o conjun-
são. A capitalização vem de uma lógica ção” do sistema. Por outro lado, a parte lho de fevereiro do alto-comissariado to da carreira, e não mais os 25 melho-
de seguro individual, oposta à solida- da solidariedade – atribuída sem con- sobre as “regras de pilotagem do siste- res anos de salário, como é o caso hoje
riedade, que é o fundamento da prote- trapartida de cotizações – fica bem re- ma universal” indica que a “considera- no regime geral, ou os últimos seis me-
ção social francesa. duzida. A lógica da contribuição se ção da expectativa de vida é necessá- ses, como na função pública. Qualquer
Com efeito, na idade inicial legal opõe à lógica da solidariedade e da jus- ria”, enquanto Delevoye garante que o período não trabalhado provoca, as-
(62 anos atualmente), um regime de tiça social, que implica uma redistri- valor do ponto integrará a expectativa sim, uma redução na pensão. As pes-
anuidades garante uma taxa de substi- buição para as pessoas que só conse- de vida.2 Teoricamente, as mulheres, soas que tiveram períodos de desem-
tuição (relação entre a pensão e o salá- guiram poucos direitos de pensão. que vivem em média mais tempo, não prego não indenizado ou de contratos
rio) para uma carreira completa defi- Outra opção – que tinha a preferên- deveriam ser prejudicadas: as direti- de meio período, carreiras curtas ou
nida pelo número de anos cotizados cia do presidente – foi cogitada no iní- vas europeias proíbem qualquer dis- baixos salários são automaticamente
(de quarenta anos e quatro meses a 43 cio: o regime em contas de noção, co- criminação em função do sexo. prejudicadas. Na reforma de 1993, o
anos, segundo a data de nascimento); mo na Suécia. Nesse modelo, as Acontece, porém, que diversos in- cálculo já tinha sido modificado para
ele dá então uma visibilidade sobre a cotizações são transferidas para uma divíduos não respeitam a expectativa tomar como referência a média dos 25
futura pensão. Em um regime por conta individual. No momento da apo- de vida teórica de sua faixa etária! As- melhores anos, em vez dos dez melho-
pontos – a opção escolhida pelo gover- sentadoria, o valor acumulado é reva- sim, os operários morrem em média res de anteriormente. A reforma culmi-
no, segundo os documentos publica- lorizado (segundo a taxa de cresci- seis anos mais cedo que os executivos. nou em uma baixa importante do valor
dos –, as cotizações servem para com- mento da renda da atividade média), O nível de renda também tem um pa- da aposentadoria, mais severa ainda
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 15

para as mulheres, que, por terem car- medida é apresentada como um fator carreiras longas, as profissões desa- das profissões. Além disso, postergar a
reiras mais curtas, contam com mais de justiça. Mas tendo a capitalização gradáveis, a deficiência”, e para “com- aposentadoria poderia se revelar um
anos ruins. Para as gerações nascidas colocado assim um pé na porta do sis- pensar os impactos, sobre a carreira cálculo ruim, pois não há garantias de
entre 1945 e 1954, a queda da pensão de tema, seu campo poderá facilmente dos pais, da chegada ou da educação que o valor do ponto não vá baixar.
base atingiu 16% para os homens e ser ampliado, diminuindo o limite de dos filhos”. Quando sabemos que, por A orientação em direção a uma pi-
20% para as mulheres.4 renda que não pode mais cotizar no causa desses impactos, as desigualda- lotagem automática para equilibrar o
Da mesma forma, para os funcio- regime universal. Ainda mais porque a des de pensão entre as mulheres e os sistema impede qualquer debate sobre
nários públicos, a consideração de to- queda dos níveis de pensão, ao longo homens são ainda hoje de 25% em mé- as questões políticas da evolução das
da a carreira, em vez dos seis últimos das reformas sucessivas, já levou di- dia, ou que as negociações pela consi- aposentadorias. Fixar um teto às des-
meses, acarretará uma diminuição versas pessoas – as que têm meios para deração da dificuldade, inscritas na lei pesas ligadas a elas permite evitar a
das aposentadorias. É então previsto isso – a pagar uma previdência com- de agosto de 2003, ainda não foram discussão, que no entanto é essencial
que os prêmios sejam integrados ao plementar junto às seguradoras priva- terminadas, entendemos que seria sobre a partilha da riqueza produzida
cálculo,5 o que não é o caso hoje em das. Esse é, no fundo, o objetivo implí- preciso um reforço consequente da entre rendas do trabalho (massa sala-
dia. Mas nada garante que essa inte- cito dessas reformas. solidariedade. rial, incluindo as cotizações) e rendas
gração seja suficiente: tudo depende Da mesma maneira, Delevoye gos- No entanto, foi decidido que a re- do capital (que sabemos que não pa-
de seu valor. E as mulheres funcioná- ta de ressaltar: “A aposentadoria é o re- forma será feita com um orçamento fi- ram de aumentar). A única solução em
rias públicas recebem prêmios signifi- flexo da carreira; isso é algo justo. Se xo e que a despesa atual, de 13,8% do ação hoje em dia consiste em arbitrar
cativamente menos elevados que os você tem uma bela carreira, você tem PIB, representa um teto para o futuro. entre os interesses daqueles que traba-
homens.6 Além disso, em diversas fun- uma bela aposentadoria; se você tem Podemos desde então temer uma nova lham e daqueles que trabalharam, en-
ções não existem prêmios. Delevoye uma carreira menos bela, você tem queda das pensões, pois, segundo os tre população ativa e população apo-
reconhece que existirão funcionários uma aposentadoria menos bela”.8 Po- documentos, a solidariedade consti- sentada...
prejudicados, mas estima que será rém, isso traduz não a igualdade cla- tuiria um bloco distinto do coração do
preciso “aproveitar essa oportunidade mada pelo governo, mas um cálculo sistema ligado aos direitos contributi- *Christiane Marty é pesquisadora. Coorde-
para eventualmente colocar em ação automático cego, pois nem todo mun- vos, e seu financiamento viria – mais nou, com Jean-Marie Harribey, a obra coleti-
uma política de remuneração”!7 do tem as mesmas oportunidades de do que hoje em dia – da fiscalidade, va Retraites, l’alternative cachée [Aposenta-
As desigualdades entre homens e fazer uma bela carreira, nem que seja portanto do orçamento do Estado. No dorias, a alternativa oculta], Syllepse, Paris,
mulheres serão aumentadas. Basta pelo simples fato do desigual acesso contexto atual de busca pela redução 2013.
comparar as pensões recebidas nos re- aos diplomas segundo as categorias das despesas públicas, existe aí um
gimes por anuidade e nos regimes sociais, as dificuldades econômicas, risco de regressão. O alto-comissário,
complementares por pontos. As pen- os riscos de doenças e as normas so- inclusive, está consciente disso, já que 1 Alto-Comissariado da Reforma das Aposentado-
rias, release de imprensa, 10 out. 2018. Disponível
sões das mulheres representam entre ciais que atribuem às mulheres a edu- declarou: “Se eu confiasse a Bercy [Mi- em: <https://reforme-retraite.gouv.fr>.
41% (Agirc) e 61% (Arrco) das dos ho- cação dos filhos. A igualdade consisti- nistério da Economia e das Finanças] 2 Le Grand Entretien [A grande entrevista], France
mens, contra uma porcentagem entre ria precisamente em garantir uma a direção do sistema, acho que haveria Inter, 21 mar. 2019.
3 Nathalie Blanpain, “L’espérance de vie par niveau
74% e 90% nos regimes por anuidade. pensão conveniente àqueles que tive- uma grande preocupação”.9 Belo eufe- de vie: chez les hommes, treize ans d’écart entre les
A relação é sistematicamente mais fra- ram uma carreira menos bela. mismo. Na verdade, a decisão de colo- plus aisés et les plus modestes” [A expectativa de
ca nos regimes por pontos. Foi para levar em consideração es- car um teto ao peso das aposentado- vida por nível de vida: para os homens, treze anos
de diferença entre os mais ricos e os mais modes-
O governo pode afirmar o quanto sas questões que os dispositivos de so- rias em relação à riqueza produzida, tos], Insee Première, n.1687, Paris, 6 fev. 2018.
quiser que mantém o princípio de re- lidariedade (direitos familiares, pen- sendo que a proporção de aposentados 4 Carole Bonnet, Sophie Buffeteau e Pascal Gode-
partição, mas seu plano integra a aber- são mínima, reversão etc.) foram na população vai aumentar, é o mes- froy, “Disparité des retraites entre hommes et fem-
mes: quelles évolutions au fil des générations?”
tura à capitalização. Na faixa de salá- integrados ao longo do tempo ao siste- mo que programar o empobrecimento [Disparidade das aposentadorias entre homens e
rio mensal superior a 10 mil euros ma de aposentadorias, pela atribuição destes... mulheres: que evoluções ao longo das gerações?],
brutos (contra 27.016 euros atualmen- de direitos não contributivos (que não Quanto à pretendida liberdade de Économie et Statistiques, n.398-399, Paris, 2006.
5 Alto-Comissariado para a Reforma das Aposenta-
te), não se cotizará mais no sistema são a contrapartida das cotizações). escolher entre partir e continuar a tra- dorias, op. cit.
comum; esses altos salários deverão Claro, o projeto não cogita suprimir a balhar para adquirir pontos suplemen- 6 Chloé Duvivier, Joseph Lanfranchi e Mathieu Nar-
ser submetidos a uma poupança-apo- solidariedade, a despeito das declara- tares, ela se reduz a pouca coisa quan- cy, “Les sources de l’écart de rémunération entre
femmes et hommes dans la fonction publique” [As
sentadoria em aplicações financeiras, ções paradoxais sobre o tema “pen- do sabemos que apenas metade das fontes da diferença de remuneração entre mulhe-
que dará direito a vantagens fiscais – são, reflexo da carreira”. Pontos se- pessoas continua empregada no mo- res e homens no serviço público], Économie et
pagas por todos os contribuintes, co- riam acordados para “levar em conta mento de pedir a aposentadoria e que a Statistiques, n.488-489, 2016.
7 Le Grand Entretien, France Inter, 11 out. 2018.
mo está previsto desde já na Lei Pacto, as interrupções da atividade ligadas usura profissional acontece bem antes 8 Ibidem.
adotada em 11 de abril de 2019. Essa às questões de carreira ou de vida”, “as da idade de partida em grande parte 9 Le Grand Entretien, France Inter, 21 mar. 2019.
16 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

DEBATES NO SEIO DA CENTRAL SINDICAL ÀS VÉSPERAS DE SEU CONGRESSO

A CGT na era dos “coletes amarelos”


O 52º congresso da histórica central sindical francesa acontece entre 13 e 17 de maio. Empurrada pelos “coletes amarelos”,
que assumiram a tocha da contestação social, e perdendo espaço entre os trabalhadores, a CGT dificilmente conseguirá
fugir da necessidade de fazer um balanço, deixando mais claras suas linhas políticas e suas ações
REPORTAGEM DE JEAN-MICHEL DUMAY*

m um canto de seu escritório, na coing, desde novembro de 2018, logo sofre grandes desequilíbrios. Entre rurgia, da metalurgia, do setor têxtil –

E sede da Confédération Générale


du Travail (CGT, Confederação
Geral do Trabalho), em Mon-
treuil, Philippe Martinez, secretário-
-geral da organização, exibe uma foto-
ficou claro que era preciso estar pre-
sente ao lado dos “coletes amarelos”,
“para não deixar a ira popular entre-
gue aos fascistas”, a “CGT de cima”
causou problemas com sua lentidão.
seus membros, 42% são do serviço pú-
blico e hospitalar, setor que não repre-
senta mais do que 20% dos empregos
na França. No setor privado, a esmaga-
dora maioria dos efetivos (68%) está
derreteram como neve ao sol (a CGT
tinha 4 milhões de membros no pós-
-guerra). “O universo do trabalho ca-
minhou rumo à terceirização”, consta-
ta Frédéric Karas, secretário regional,
grafia aérea da antiga fábrica da “Ninguém viu o movimento chegar, e em empresas com mais de quinhentos na Alsácia, da Fédération des Salariés
Renault em Boulogne-Billancourt. Na sua magnitude foi surpreendente”, funcionários – nas quais se concentra du Secteur des Activités Postales et de
discussão, o técnico, ex-delegado sin- confessa Denis Gravouil, secretário- apenas um terço dos empregos e os sa- Télécommunications (FAPT, Federa-
dical central, fala com frequência e -geral da CGT-Spectacles e membro da lários médios mais elevados, em todos ção dos Funcionários do Setor de Ati-
com orgulho de sua “caixa”. O metalúr- comissão executiva da confederação. os níveis. Ao contrário, apenas 9% tra- vidades Postais e Telecomunicações).
gico não esquece as metáforas auto- Surpreendeu e confundiu, tanto por balham em empresas com menos de Isso equivale a dizer que o sindicalis-
motivas. “Minha principal preocupa- suas primeiras reivindicações (contra cinquenta funcionários. mo se dissolveu. Na [empresa de tele-
ção”, diz, às vésperas do 52º congresso o aumento do imposto sobre combus- comunicações] Orange, há 80% de
da central (13 a 17 de maio), no qual vai tíveis) como por sua composição. Em executivos, 20% de não executivos,
disputar um novo mandato, “é que a Porte de Montreuil, houve uma “ins- “80% de funcionários acionistas!”. “O
gente não consiga engatar a segunda e trumentalização da exasperação” por “O capital muda, capital muda, os trabalhadores mu-
a terceira.” parte da extrema direita, segundo um os trabalhadores dam, a organização não muda”, resume
Para a central sindical, é urgente comunicado de 29 de outubro de 2018. Sophie Binet, secretária-geral adjunta
avançar. O número oficial de membros Desde o caso Fabien Engelmann, ex-
mudam, a organização da Union Générale des Ingénieurs, Ca-
só diminui: de 695 mil em 2012, caiu -membro da CGT expulso em 2014 não muda”, resume dres et Techniciens (UGICT-CGT, União
para 636 mil em 2017, retrocedendo após ser eleito prefeito pelo partido [de Sophie Binet, Geral dos Engenheiros, Executivos e
para o nível do início dos anos 1990. extrema direita] Front Nacional (FN, secretária-geral Técnicos) e mais jovem membro da co-
Além disso, sua pontuação nas elei- Frente Nacional) em Hayange (Mosel- missão executiva da CGT.
ções profissionais continua baixando: le), a central sindical está obcecada
adjunta da UGICT-CGT Jean-Marie Pernot, pesquisador do
no fim de 2018, a CGT perdeu o primei- com a penetração em suas fileiras das Institut de Recherches Économiques
ro lugar – considerando-se os setores ideias da FN (rebatizada de Rassem- et Sociales (Ires, Instituto de Pesquisas
público e privado juntos – para a Con- blement National, RN, Reunião Nacio- A CGT se afastou dos mais precá- Econômicas e Sociais), é ainda mais
fédération Française Démocratique nal). Assim, levou dois meses para que rios, exatamente os que inflaram as fi- direto: “A CGT se amarrou sozinha em
du Travail (CFDT, Confederação Fran- se operasse, confusamente, uma ver- leiras dos “coletes amarelos”, “a faixa sua própria burocracia. Ela manteve
cesa Democrática do Trabalho), prin- dadeira e franca convergência das mo- de trabalhadores com salários inferio- as grandes verticalidades profissio-
cipalmente por ter deixado de ter in- bilizações, efetivada no dia 5 de feve- res a 1.500 euros, que antes era justa- nais do passado – por exemplo, trans-
fluência nas empresas privadas.1 reiro. “Não concordamos com toda mente seu público”, observa o histo- porte rodoviário, ferroviário, maríti-
Mais grave: foi um movimento sur- essa cautela”, diz Aurelio Ramiro, se- riador Stéphane Sirot. Ela sofre para mo, um universo que se reorganizou
gido do nada, o dos “coletes amarelos”, cretário-geral da união departamen- seduzir eventuais trabalhadores isola- em torno de uma função que agrega e
com protestos feitos nos cruzamentos tal de Loiret. “Talvez houvesse alguns dos, como os das microempresas. E desagrega tais verticalidades: a logísti-
durante os fins de semana – e não nos fascistas, porém o que mais havia também não consegue vencer a aposta ca. Na CGT, as referências são antigas e
locais de trabalho durante a semana –, eram indignados. Era importante es- de atrair os desempregados (apenas 5 não se encaixam mais na realidade do
que roubou a tocha da contestação so- tar ao lado de pessoas que realmente mil estão organizados sob sua bandei- trabalho assalariado”. Na CFDT, elas
cial. Uma mobilização popular bas- não têm nenhum conhecimento do ra). Por fim, a confederação “reflete foram corrigidas há muito tempo. A di-
tante radical e eficaz: 10 bilhões de eu- mundo sindical.” mal sobre a pobreza e não compreen- visão territorial também precisa ser
ros liberados pelo governo em um É pouco dizer que o movimento de a miséria”, acrescenta um fiel mili- revista. Mas as federações só seguem a
mês! E sem a ajuda dos sindicatos! E dos “coletes amarelos” questiona a tante aposentado, Christian Corouge, própria cabeça, agindo, pode-se dizer,
não foi por falta de mobilização de tro- CGT em sua identidade, organização, 68 anos, funileiro e pintor que passou como “corporações”, “clãs”, “feudos”.
pas: em 2016 contra a lei do trabalho, linha e modos de ação. É raro o movi- a vida na linha de montagem da Peu- Cada uma define seus dias de mobili-
em 2017 contra os decretos de Macron mento social se desenvolver tão longe geot, em Sochaux. zação. Cada uma tem suas estratégias
e em 2018 na Société Nationale des dos sindicatos e com tanta hostilidade Os “velhos” militantes são os que de alianças entre sindicatos. Cada
Chemins de Fer (SNCF, Empresa Na- em relação a eles. Em 2016, na Place de melhor falam sobre o principal pro- uma faz sua comunicação. E, se nada
cional das Ferrovias). la République, em Paris, o movimento blema que atinge a CGT. “Depois de disso for realmente compartilhado no
Nuit Debout recebeu muito melhor o 1968, as comunidades de trabalho nível da confederação, azar.
GRANDES DESEQUILÍBRIOS secretário-geral [da CGT], que foi ex- explodiram”, diz Marcel Croquefer, “Faz três congressos, dez anos, que
Os militantes da “CGT de baixo”, pressar seu apoio. 65 anos, ex-representante sindical de se fala em reestruturação, e nada é fei-
nas uniões locais ou departamentais, Com 59 mil seções sindicais e sindi- uma refinaria em Dunquerque. “Hou- to!”, solta, amargo, Emmanuel Vire,
não se aborrecem. Segundo eles, trata- catos de base, cerca de 800 uniões lo- ve um impacto direto nos salários, secretário-geral do Syndicat National
-se de um movimento “revigorante”, cais, 96 uniões departamentais e algo nas condições de trabalho e na repre- des Journalistes (SNJ-CGT, Sindicato
que “faz bem” e “restaura a confiança em torno de trinta organizações profis- sentatividade sindical.” Com a desin- Nacional dos Jornalistas). Martinez,
na ação coletiva”. Mas se, em campo, sionais (federações ou sindicatos na- dustrialização, os grandes batalhões que dirigiu a Fédération des Travail-
como em Rouen, Orleans ou Tour- cionais), a central sindical de Martinez de trabalhadores – das minas, da side- leurs de la Métallurgie [Federação dos
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 17

Metalúrgicos], poderia fazer algo a “batalha ideológica” para “o indivi- CGT teria sido absorvida pela prática ções” eram responsáveis por 62% de-
respeito? “Não!”, ele responde, “por- dualismo e o egoísmo”. Ela cresce com desse diálogo erigido em ideologia, las – o que “coloca claramente a ques-
que na CGT cada um é dono de si. Esse o nível de formação3 – portanto, é me- “cujo objetivo pacificador era também tão da nossa independência [...] em
é o princípio do federalismo. É por isso nor entre os menos educados, os so- desconstruir e destruir o sindicalismo relação às instituições e ao patronato”,
que não gosto que me chamem de cialmente mais frágeis. Mas a ação dos de luta de classes”.8 “Foi ainda a força observa o relatório financeiro prepa-
‘chefe’! Os chefes – eu sei, porque já “coletes amarelos” eleva o moral. La- do sistema que conseguiu incutir a rado para o próximo congresso.10
cruzei com alguns [sorriso] – fazem o ços foram estabelecidos. Fantasmas se ideia de que um sindicato que faz polí- Com a institucionalização, a cen-
que querem! Eu sou apenas o chefe da dissiparam. Todos puderam se conhe- tica necessariamente deve fazê-la por tral teria perdido vigor: embora não
confederação.” Rigor jurídico ou astu- cer. Por meio de reuniões, um trabalho meio de um partido”, diz Sirot. assine mais do que 30% dos acordos
ta prudência? A organização precisa de educação popular foi iniciado. Um evento ocorrido no início do em nível nacional, nas empresas ela
de estabilidade desde a fracassada su- movimento dos “coletes amarelos” subscreve 80% deles. “Mas acordo não
cessão de Bernard Thibault, em 2013, ilustra a anestesia. No dia 6 de dezem- significa necessariamente submis-
que viu a inesperada eleição de Thier- bro de 2018, uma grande reunião inter- são!”, argumenta Gravouil, que recen-
ry Lepaon e, um ano depois, sua igual- “Não fazemos sindical, à qual a CGT (mas não a temente liderou as negociações (fra-
mente inesperada derrubada, em um [Union Syndicale] Solidaires [União cassadas) com o patronato sobre o
contexto de tensões internas e despe-
mais ninguém Sindical Solidários]) era associada, seguro-desemprego. Isso porque, “na
sas extraordinárias em seu escritório e sonhar. emitiu uma declaração chamando o CGT, não se dialoga, se negocia”, insis-
em sua residência funcional (despesas Estamos cheirando governo para o “diálogo” e “condenan- tem, junto com ele, vários de nossos
incorridas sem que ele fosse responsá- a guardado. do toda forma de violência na expres- interlocutores: “As organizações pa-
vel, segundo uma auditoria interna). são de reivindicações”.9 Ao tomarem tronais e sindicais têm interesses di-
Ao contrário do clichê alimentado
Ideologicamente, conhecimento da declaração, muitos vergentes. É um confronto, às vezes
pela mídia, que não lhe dá folga, a CGT somos um fracasso” membros da CGT engasgaram de estu- com concessões. E é bom que exista
não é monolítica, mas plural, caleidos- pefação ou incompreensão. A Fédéra- uma relação de forças”.
cópica, e muito menos centralizada tion Nationale des Industries Chimi- Com a crise dos “coletes amarelos”,
que a CFDT. Seria melhor falar não de Sindicato de valores ou sindicato ques (FNIC, Federação Nacional da Martinez convida os membros da CGT
uma, mas de várias CGTs.2 Então, qual de luta? Vinte anos de abertura, sob o Indústria Química, com 23 mil mem- a “pensar diferente”.11 Ele se inspira,
é a unidade por trás desse rótulo? “Va- comando de Louis Viannet (1992- bros), entre as mais combativas, consi- por exemplo, no breviário do ex-secre-
lores fortes, essenciais: justiça social, 1999), depois de Thibault (1999-2013), derou a declaração “indigna da CGT”: tário-geral (1982-1992) Henri Krasuc-
antirracismo, solidariedade interna- modificaram os espíritos.4 Ao domínio “Seu papel é estar com os trabalhado- ki, que defendia a manutenção de um
cional, feminismo”, responde espon- do PC sucedeu um sindicalismo que a res, não servir de substituto do poder sindicalismo preocupado com “a folha
taneamente Martinez. Claro, mas que direção da organização desejava “crí- patronal e governamental chamando à de pagamento e o vidro quebrado”.
sindicato não se reconheceria em pa- vel e eficaz”.5 Dele sobraram resíduos. calma quem não tem outra alternativa Tradução: “Próximo das pessoas, útil e
lavras de ordem tão consensuais? O essencial da veia anticapitalista foi a não ser lutar”. Duas horas depois, a eficaz”, explica Martinez. “Porque,
expurgado dos estatutos nos anos confederação corrigiu a rota e, em uma quando não somos capazes de conser-
ARMADILHAS DO DIÁLOGO SOCIAL 1990, deixando espaço apenas para dramática reviravolta, indicou qual era tar um vidro quebrado, não sei se con-
Em fevereiro, batemos aleatoria- críticas aos desvios do sistema. O do- a origem da violência: “O governo age seguimos ter credibilidade nas ques-
mente à porta de uma união local, a de cumento de orientação do próximo como um incendiário social: é irres- tões importantes, como a mudança
Villefranche-sur-Saône (Rhône), es- congresso, em Dijon, não fala em “lu- ponsável!”. Em seguida, a entidade re- para uma sociedade mais justa.” Ele
condida na Bourse du Travail [Bolsa do ta”, mas em “oposição” de classes.6 cusou-se a responder um convite do defende uma CGT “menos ideológica”,
Trabalho], no topo da providencial- “Sempre houve combativos e refor- [Palácio de] Matignon [residência ofi- ou, digamos, “com um pouco mais de
mente batizada Rue Gagnepain [Rua mistas na CGT”, analisa a historiadora cial do primeiro-ministro francês]. equilíbrio entre a ideologia e a gestão
Ganha-Pão]. Ela reúne 1.200 sindicali- marxista Annie Lacroix-Riz. “Unita- Desde então, a CGT tem dito “não” ao do cotidiano”. E um modo de ação
zados. Ali se faz panfletagem regular- ristas” e “confederalistas”. “Mas, após “amplo debate” e organizou sua pró- “costurado à mão”, ou seja, propondo
mente no Pôle Emploi [posto de em- a queda do Muro [de Berlim], era pre- pria consulta. que todos se mobilizem com base em
prego do governo]. Organizam-se ciso existir em um capitalismo que du- Assim como os outros sindicatos, suas próprias reivindicações, “atuan-
escritórios de recrutamento, por exem- raria duzentos anos. Precisávamos de a central de Montreuil estaria sepa- do juntos ao mesmo tempo, e não em
plo, em frente ao correio, para ajudar outro sindicalismo, de outra CGT. Isso rada da base, burocratizada, profis- palavras de ordem globalizantes”. A
os desempregados a encontrar traba- se traduziu em progressos considerá- sionalizada, com sindicalistas que ideia é, portanto, “generalizar as gre-
lho. Qual é sua ligação com a CGT? Al- veis para o campo reformista.” Já a pouco a pouco foram se afastando de ves”, em vez de chamar uma hipotética
guns sorriem ao redor da mesa. De- cientista política Sophie Béroud e a sua base profissional. E, nos últimos “greve geral”. Desse modo, haveria
pois, como quem exibe uma prova: “A linguista Josette Lefèvre observam 25 anos, teria deixado de questionar o uma atualização das “duas tarefas”
luta de classes!”, respondem em coro que o discurso mudou: “A partir de en- sistema, passando a integrá-lo. “O inscritas na carta de Amiens (1906),
militantes de diferentes sensibilidades tão ‘agente da regulação social’, ansio- problema era arriscar perder todos os documento fundador do sindicalismo
políticas: Parti Communiste (PC, Par- sa para tomar seu lugar na negociação benefícios”, diz Monique Dabat, uma francês: a defesa de reivindicações
tido Comunista), La France Insoumi- coletiva, a CGT [não hesitou] em se di- grande personalidade do sindicalis- imediatas e cotidianas, e a transfor-
se [França Insubmissa], Europe Éco- zer ‘cidadã’ [...]. Seu discurso [aproxi- mo ferroviário na Gare du Nord, em mação da sociedade para o futuro.
logie-Les Verts [Europa Ecologia – Os mou-se] objetivamente ao da CFDT”.7 Paris, e ex-membro da CGT expulsa Não se sabe se, internamente, a
Verdes]. “A consciência do conflito de A adesão ao “diálogo social” – igno- em 2007 e hoje na Solidaires Unitai- mensagem se difunde com fluidez.
interesses entre o empregador e o em- rado pelas reformas de Macron – e sua res Démocratiques (SUD, Solidários “Há um déficit de análise”, avalia o his-
pregado”, explica Christian Ritton, se- participação nas múltiplas instâncias Unitários Democráticos). toriador Stéphane Sirot. “O balanço
cretário-geral da união local. A luta de de diálogo, criadas principalmente Isso porque a central tem muito a dos últimos 25 anos está por ser elabo-
classes, da qual também falam depois, com as Leis Auroux (1982), teriam sido ganhar financeiramente com o “diálo- rado, o que faz que não exista uma li-
a 2 quilômetros dali, os funcionários fatais? Os membros da CGT que parti- go social”. A fragmentação e a opacida- nha clara. A CGT retomou recente-
da Bayer, postados dia e noite durante lham os cruzamentos com os “coletes de de seus recursos encobrem mal a mente uma prática baseada na relação
dois meses em frente à fábrica, em Li- amarelos” têm clareza do segundo mal fragilidade das contribuições em com- de forças, permanecendo profunda-
mas: seu delegado sindical está prestes que atingiu a organização: a institucio- paração com os subsídios públicos e mente institucionalizada no contexto
a ser demitido por ter “assediado” a di- nalização. “Para eles, nós os traímos”, os recursos oriundos do regime pari- do diálogo social, com uma forma de
reção. Em apenas dois anos, sob sua li- lamenta Croquefer. “Já tínhamos esse tário e dos acordos de direitos sindi- protesto altamente ritualizada.” Os
derança, a seção da CGT cresceu de 35 problema com as coordenações há al- cais nas empresas. Em 2017, apenas dias de mobilização repetidos, inefica-
para 110 sindicalizados. guns anos.” Após o rompimento com o para o orçamento da confederação, as zes, são prova disso.
A consciência de classe, lamentam PC, “que instilava uma reflexão sobre o contribuições representavam 29% das Mas “há um trabalho de renovação
os militantes da união local, perdeu a futuro na sociedade”, analisa Sirot, a receitas, e as “subvenções e contribui- ideológica a ser feito”, considera, por
18 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

exemplo, Florent Coste, eleito da CGT ras não confiam neles mesmos, em sua temas delicados: a busca por unidade “desvinculada de qualquer influência
na fabricante de equipamentos aero- força coletiva. Os ‘coletes amarelos’ fo- de ação com a CFDT, às vezes conside- política”. Sobre esse ponto, o secretá-
náuticos Latécoère, em Toulouse. Pou- ram premiados por Macron – é o que rada sistemática demais, ou a adesão, rio-geral reafirma: “A carta de Amiens
co interessado em partidos políticos, ocorre quando a luta é maciça, deter- ainda não digerida, à institucionalíssi- significa, mais do que nunca [ele repe-
esse engenheiro de gabinete quadrage- minada, consciente!”. ma Confédération Européenne des te isso três vezes], uma CGT indepen-
nário pensa, como muitos, que a central Muitos questionam. “A resignação Syndicats (CES, Confederação Euro- dente dos partidos políticos”. E aten-
precisa “ser capaz de propor um outro não seria resultado de uma falta de es- peia dos Sindicatos), símbolo, para al- der aos apelos de Jean-Luc Mélenchon,
mundo”: “Não fazemos mais ninguém pírito combativo à frente da organiza- guns, de submissão à União Europeia. fundador da França Insubmissa, de
sonhar. Estamos cheirando a guardado. ção?”, indaga Isabelle Bosseman, se- Todos lembram que, em 2005, a base, romper com o “dogma do movimento
Ideologicamente, somos um fracasso”. cretária-geral da CGT dos médicos, comprometida com o “não” no refe- social independente”.17 Então pergun-
Militantes lamentam o desapareci- engenheiros e técnicos do Centre Hos- rendo sobre o Tratado Constitucional tamos como ele vê sua central: refor-
mento das grandes ideias. “Ninguém pitalier Universitaire (CHU, Centro Europeu, afrontou a cúpula, que pre- mista ou revolucionária? “Somos re-
mais fala na questão da propriedade Hospitalar Universitário) de Lille. Seu gava a neutralidade. formistas por excelência!”, exclama
das empresas”, destaca Charles Hoa- sindicato é um dos que continuaram “Com o enfraquecimento da cultu- Martinez. “Querer mudar a sociedade
reau, criador, na década de 1990, dos lutando na justiça (ganhando em al- ra política”, reconhece Binet, da co- é querer reformar! E, como não pre-
comitês de desempregados da CGT. guns pontos), sem o apoio da confede- missão executiva federal, “hoje é mui- tendemos tomar o poder, é por meio
Nem em sua contraparte: o fim do as- ração, para contrariar as disposições to mais complexo encontrar o ponto de reformas sociais que alimentamos
salariado e do patronato. “Na área da da lei trabalhista. Com outros vinte em comum entre as entidades da orga- a mudança da sociedade!” E assim en-
saúde, no pós-guerra, o fim da medici- sindicatos – entre eles o da Goodyear e nização”. Há quem se pergunte sobre o tendemos, portanto, que há também
na liberal foi uma reivindicação histó- o da Infocom, cujos métodos radicais papel da confederação. “Se ela se con- belas engrenagens retóricas na caixa
rica da CGT”, recorda Karas. “Ambroi- não gozam de unanimidade no inte- tenta em coordenar, portanto em ser de ferramentas do metalúrgico.
se Croizat [membro da CGT e um dos rior da CGT –, ele obrigou o congresso apenas uma resultante das lutas, de
fundadores da Previdência Social] de- a avaliar um texto alternativo, mais que serve ser confederado?”, pergunta *Jean-Michel Dumay é jornalista.
ve se revirar no túmulo!” “O trabalho ofensivo, a fim de ancorar novamente a FNIC, desejando que a cúpula se
em linha de produção deveria ser abo- a organização no anticapitalismo.13 comporte como uma “locomotiva rei- 1 Ler Karel Yon, “Malaise dans la représentativité syn-
dicale” [Mal-estar na representação sindical]; e Jean-
lido!”, acrescenta Corouge, o funileiro “Há uma tensão ideológica dentro da vindicativa” e “forneça perspectivas -Michel Dumay, “CFDT, un syndicalisme pour l’ère
e pintor de Sochaux. “Éramos uma ge- CGT”, diz seu companheiro de estra- políticas interprofissionais”.15 Mas não Macron” [CFDT, um sindicalismo para a era Ma-
ração mais politizada. Representáva- da, o advogado Fyodor Rilov. “Essa espera resposta: com oito uniões de- cron], ambos em Le Monde Diplomatique, jun. 2017.
2 Cf. Françoise Piotet, La CGT et la recomposition
mos uma força. Queríamos mudar a tensão precisa ser elaborada.” Ele pede partamentais e a Fédération du Com- syndicale [A CGT e a reorganização sindical],
sociedade.” Há o projeto de “Segurida- mais combatividade, especialmente merce et des Services [Federação do Presses Universitaires de France, Paris, 2009.
de Social Profissional”, ligado ao “novo no nível judicial. Comércio e dos Serviços], ela tomou a 3 “Les Français et la lutte des classes” [Os france-
ses e a luta de classes], Ifop, Paris, jan. 2013.
estatuto do trabalhador assalariado”, “Com o colapso do PC, houve um iniciativa de chamar, para 27 de abril, 4 Cf. Leïla de Comarmond, Les Vingt ans qui ont
que a confederação relança a cada enfraquecimento da reflexão dos uma manifestação nacional em Paris. changé la CGT [Os vinte anos que mudaram a
congresso. “Mas ninguém consegue membros da CGT”, lamenta Corouge, No entanto, os críticos também po- CGT], Denoël, Paris, 2013, e a obra coletiva Histoi-
re de la CGT. Bien-être, liberté, solidarité [História
explicar esse projeto a ninguém”, zom- militante de longa data desse partido. dem ser criticados. “Às vezes é mais fá- da CGT. Bem-estar, liberdade, solidariedade], Édi-
ba Coste. Na verdade, ninguém ouve Em declínio, o próprio universo co- cil dizer que a confederação está der- tions de l’Atelier/Institut d’Histoire Sociale, Ivry-sur-
falar dele na mídia, pois esta, quando munista passou por esse apagamento rapando do que admitir como é difícil -Seine/Paris, 2016.
5 Bernard Thibault, “Pour un syndicalisme crédible et
não ignora a CGT, concentra-se em dos discursos, com a redução de sua segurar o volante!”, observa Croque- efficace” [Por um sindicalismo crível e eficaz], La
slogans mais fáceis: a transição para base municipal e associativa, bem co- fer. Ele, por exemplo, considera o se- Nouvelle Vie Ouvrière, Montreuil, 8 fev. 2002.
32 horas de trabalho semanal ou o sa- mo do apoio entre os militantes, que cretário-geral “atento e pragmático”. 6 “Spécial 52e congrès, document d’orientation” [Es-
pecial 52º Congresso: documento de orientação],
lário mínimo bruto de 1.800 euros. antes conferia resistência à luta.14 “A Essa é uma virtude facilmente atri- Le Peuple, publicação não periódica, n.1, jan. 2019.
A fragilidade da militância, até confederação não pensa mais. Ou me- buída a Martinez – seja para o bem, co- 7 Sophie Béroud e Josette Lefèvre, “Vers une démo-
mesmo sua resignação, também é lhor, pensa uma espécie de miscelâ- mo forma de louvar seu “realismo”, se- cratie économique et sociale? Redéploiement et
banalisation du discours syndical” [Rumo à demo-
apontada. Mas como indignar-se? “Os nea por uma sociedade mais justa”, ja para o mal, como forma de cracia econômica e social? Amplitude e banaliza-
mais jovens só conhecem fracassos!”, acrescenta outro membro da CGT, não estigmatizar sua “navegação visual”. ção do discurso sindical], Mots, les langages du
destaca Croquefer. E os mais velhos, filiado a nenhum partido político (ho- Pragmático, ele próprio tem consciên- politique, n.83, Lyon, 2007.
8 Cf. Stéphane Sirot, “‘Démocratie sociale’ et ‘dialo-
apenas as hostilidades dos governos, je, haveria menos de 10% de membros cia de que é “sempre o ‘duro’ de al- gue social’ en France depuis 1945. Construction
como o de Nicolas Sarkozy, muito dili- com filiação partidária, segundo a guém e o ‘frouxo’ de outro”. E, princi- idéologique et politique d’une pratique sociale”
gente, em 2007, para estabelecer um confederação). Há uma pobreza de palmente, ele não ignora a imagem do [“Democracia social” e “diálogo social” na França
pós-1945. Construção ideológica e política de
serviço mínimo de transporte dedica- análise nas sessões de formação sin- sindicato nem as expectativas que pe- uma prática social], Problématiques sociales et
do a neutralizar o efeito das greves. dical, com a “novilíngua” que tomou sam sobre ele. Se a CGT tem dificulda- syndicales (brochura publicada pelo autor), Mons-
Também houve líderes que, por meio conta da central, falando-se em “de- des, também tem trunfos. Em 2018, os -en-Barœul, maio 2017.
9 Comunicado intersindical da CFDT, CGT, FO,
de suas estratégias gerenciais, frag- senvolvimento humano sustentável”, entrevistados de duas pesquisas a CFE-CGC, CFTC e UNSA FSU.
mentaram os coletivos de trabalho,12 “capitalismo humanizado” e “quali- consideraram muito claramente a 10 Demonstrações financeiras anuais em 31 de de-
ou que, como na SNCF, questionaram, dade de trabalho” (e não mais em “pe- mais eficaz em todos os assuntos que zembro de 2017, disponíveis no Journal Officiel.
11 Erwan Manac’h, “Philippe Martinez: ‘Nous devons
em acordos de fim de conflito, as re- riculosidade”). O sindicalista conti- lhe dizem respeito: defesa do emprego réfléchir autrement’” [Philippe Martinez: “Precisa-
gras tácitas que permitiam escalonar nua: “O combate à desigualdade não e da aposentadoria, aumento do poder mos pensar diferente], Politis, Paris, 30 jan. 2019.
as deduções por greve sobre os salá- serve para nada se não estiver atrela- de compra, igualdade entre homens e 12 Ler Danièle Linhart, “Hier solidaires, aujourd’hui
concurrents” [Ontem solidários, hoje concorren-
rios. “O que predomina é o medo: me- do a um projeto político”. mulheres etc. Quase três a cada quatro tes], Le Monde Diplomatique, mar. 2006.
do do chefe, medo de perder o empre- entrevistados a consideraram “com- 13 “Proposition de réflexions pour l’orientation du 52e
go, medo do futuro”, observa Coste. Se A ORGANIZAÇÃO MAIS EFICAZ bativa” e “presente” (aliás, 73% deles congrès CGT” [Proposta de reflexão para a orien-
tação do 52º Congresso da CGT]. Disponível em:
outrora os militantes se guiavam pela As perguntas não param: qual é o apoiaram seu chamado da segunda <https://syndicollectif.fr>.
ideia de progresso, “hoje há um muro à projeto político da CGT? E, antes disso, greve convergente, com a Força Ope- 14 Ler Julian Mischi, “Comment un appareil s’éloigne
sua frente”, resume a ex-representante ela ainda é um movimento de traba- rária e o Solidários, em 19 de março).16 de sa base” [Como uma entidade se afasta de sua
base], Le Monde Diplomatique, jan. 2015.
da confederação Maryse Dumas. “A lhadores? Os trabalhadores autôno- Para ganhar influência, os entre- 15 “Éléments de réflexions sur les enjeux et docu-
sensação é que, do ponto de vista eco- mos, “uberizados”, têm lugar dentro vistados acham que a prioridade, se- ments du 52e congrès confédéral de la CGT” [Ele-
nômico e ambiental, amanhã será pior dela? E qual é o lugar dos executivos gundo uma lista de escolha forçada, é mentos de reflexão sobre os desafios e documen-
tos do 52º Congresso Confederal da CGT].
que hoje.” Na [companhia automoti- (cuja sindicalização a confederação ela ser “mais realista nas negociações” Disponível em: <www.fnic-cgt.fr>.
va] PSA, Jean-Pierre Mercier, delegado gostaria de elevar)? Todos notaram (portanto, menos ideológica, como 16 Pesquisas Harris Interactive, nov. 2018, e Odoxa,
sindical central (e dirigente do [parti- que, pela primeira vez, o cargo de se- defende Martinez), “mais atenta ao 19 mar. 2019.
17 Jean-Luc Mélenchon, “‘Avoir le point’ ou pas” [Ter
do] Lutte Ouvrière [Luta Operária]), cretário-geral não está mais ocupado que dizem os trabalhadores” (portan- ou não ter razão], L’Ère du peuple, 31 out. 2017.
corrige: “Isso não é resignação. Os ca- por um trabalhador. Isso sem falar dos to, interessada no vidro quebrado) e Disponível em: <https://melenchon.fr>.
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 19

UNIÃO EUROPEIA

Um império à beira do colapso


Pela primeira vez desde o Ato Único de 1986, as forças políticas conservadoras e nacionalistas mais poderosas do
continente europeu não defendem a saída da União Europeia, mas a submissão do bloco ao seu programa, um desafio
ao qual se soma o Brexit e que agrava as tensões no seio da comunidade dominada por uma Alemanha sem projeto
POR WOLFGANG STREECK*

que é a União Europeia? O con-

O ceito mais próximo que vem à


mente é o de um império libe-
ral, ou melhor, neoliberal: um
bloco hierarquicamente estruturado e
composto por Estados nominalmente
soberanos cuja estabilidade é mantida
por meio de uma distribuição do po-
der que vai do centro para a periferia.
No centro está uma Alemanha que
tenta, com mais ou menos sucesso, es-
conder-se no interior do núcleo duro
da Europa (Kerneuropa), o qual ela in-
tegra junto com a França. Ela não quer
ser vista como aquilo que os britânicos
chamavam de “unificadora do conti-
nente”, embora seja exatamente isso.
O fato de esconder-se atrás da França
é, para esta, uma fonte de poder.
Como os outros países imperiais, a

© Laura Erber
começar pelos Estados Unidos, a Ale-
manha se percebe – e quer que os ou-
tros a vejam – como uma potência he-
gemônica benevolente, que difunde
para seus vizinhos um bom sentido
universal e virtudes morais cujo custo
ela assume. Um fardo que vale a pena
carregar pelo bem da humanidade.1
No caso da Alemanha e da Europa, cas e sociais de modo a torná-la com- ou menos clandestina do Banco Cen- MANTER A DISCIPLINA IMPERIAL
os valores que legitimam o império patível com os interesses do centro. tral Europeu (BCE) –, não consegui- A abertura das fronteiras alemãs
são os da democracia liberal, do gover- Manter essas elites no poder é essen- ram manter no poder, na Itália, o go- sob o pretexto de que não era mais
no constitucional e da liberdade indi- cial para a sobrevivência do império. verno “reformista” de Matteo Renzi, possível controlá-las, ou porque era
vidual; em resumo, os valores do libe- Como ensina a experiência norte-ame- confrontado à resistência popular. Do uma exigência do direito internacio-
ralismo político. Embrulhadas com o ricana, tal configuração tem um preço mesmo modo, diante de nossos olhos, nal, implicava, na verdade, que a
mesmo papel de presente, estão a li- em termos de valores democráticos e a Alemanha revela-se incapaz de pro- União Europeia como um todo se-
berdade do mercado e a livre concor- de recursos econômicos, e até mesmo teger a presidência de Emmanuel Ma- guisse a decisão da Alemanha. Mas
rência, apresentadas quando é conve- em termos de vidas humanas. cron da ira dos “coletes amarelos” e de nenhum dos Estados-membros o fez.
niente – em essência, o liberalismo Às vezes, as elites dirigentes de outros oponentes de seu programa de Alguns, como a França, permanece-
econômico e, neste caso, o neolibera- “países pequenos” ou de “países atra- germanização econômica. ram em silêncio; outros, como a Hun-
lismo. Determinar a composição exata sados” em seu desenvolvimento bus- O próprio país hegemônico não es- gria e a Polônia, reivindicaram publi-
e o significado profundo do leque de cam o status de membros de segunda tá imune a dificuldades internas. Sob o camente sua soberania nacional. Ao
valores imperiais, bem como o modo classe do império. Elas esperam que a regime do imperialismo liberal, seu romperem, por questões de política
como eles se aplicam a situações espe- direção imperial as ajude a impor a governo deve assegurar que a defesa de interna, com a regra liberal imperial
cíficas, é uma prerrogativa do centro suas sociedades projetos de “moderni- seus interesses nacionais – ou do que é não escrita de que nunca se deve en-
hegemônico. Tal prerrogativa lhe per- zação” nem sempre recebidos com en- considerado como tal – dê a impressão vergonhar outro governo – especial-
mite impor uma espécie de senhoria- tusiasmo popular. Satisfeito com a de fazer avançar a causa dos valores li- mente o da potência hegemônica –,
gem à sua periferia, em troca de sua lealdade à sua causa, o império lhes berais em geral, da democracia e da eles criaram para Merkel uma dificul-
benevolência. fornece os meios ideológicos, monetá- prosperidade para todos. Para isso, ele dade interna da qual ela nunca se re-
A preservação de assimetrias impe- rios e militares para manter os parti- pode precisar da ajuda de seus países- cuperou. Também instauraram uma
riais em um conjunto de nações nomi- dos de oposição sob controle. -clientes. Ele não pôde contar com isso, clivagem duradoura entre o centro e o
nalmente soberanas exige arranjos po- Em um império liberal cuja coesão em 2015, quando o governo de Angela leste da Europa nas políticas externas
líticos e institucionais complicados. Os se assenta teoricamente em valores Merkel tentou resolver ao mesmo tem- e internas do império. Esse evento só
Estados periféricos devem ser dirigidos morais, e não na violência militar, há po a crise demográfica e o problema de acrescentou novas divisões às que já
por elites para as quais as estruturas e um longo caminho a percorrer. As imagem da Alemanha, substituindo o existiam dentro do bloco: no oeste
os valores particulares do centro cons- classes dirigentes do centro, assim co- aumento da imigração regulamentada com o Reino Unido e ao sul na linha
tituam um modelo a ser imitado. Eles mo as da periferia, cometem erros. Por – recusada pelos deputados democra- de fratura do Mediterrâneo, que se
devem estar dispostos a organizar sua exemplo, a Alemanha e a França, agin- tas cristãos – pela efetivação incondi- tornou crítica com a introdução da
ordem interna em questões econômi- do em conjunto – e com a ajuda mais cional do direito de asilo. moeda única.
20 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

Mais do que outras formas de im- União Europeia mais integrada – o que por exemplo, sob a forma de apoio a uma ordem social uniforme, calcada
pério, um império liberal sofre de um poderia vir a colocar o poder econômi- questões debatidas entre os Estados- na que reina em seu centro. No caso da
estado de desequilíbrio constante e co alemão a serviço dos interesses -membros da União Europeia. Assim, União Europeia, as economias nacio-
está a todo momento submetido a franceses – terão claramente menos os países bálticos permaneceram ca- nais são regidas pelas “quatro liberda-
uma pressão que vem tanto de baixo apoio dos outros Estados-membros. lados a respeito da admissão e da dis- des” do mercado interno (de bens, ca-
quanto dos lados. Na ausência de ca- Uma vez que o Reino Unido esteja fora tribuição dos refugiados, em troca de pitais, serviços e pessoas) e por uma
pacidade de intervenção militar em do jogo, a França poderia aspirar ao um aumento do poder do Exército ale- moeda única ao estilo alemão, o euro,
seus países-membros, ele não pode status de unificadora da Europa, pres- mão e de uma distribuição de suas for- que, de acordo com o Tratado de Maas-
usar a força para impedir a secessão. sionando a Alemanha a engajar-se em ças capaz de ameaçar a Rússia. tricht, tem vocação para ser a moeda
Quando o Reino Unido decidiu se reti- um projeto de Estado europeu à fran- de todos os Estados-membros. Nesse
rar da União Europeia, nem a Alema- cesa: “Uma França soberana em uma AMEAÇA AO SUFRÁGIO UNIVERSAL sentido, a União Europeia conforma-se
nha nem a França pensaram nem por Europa soberana”, para ficarmos com No centro de um império liberal, os estritamente à receita do internaciona-
um momento em invadir as Ilhas Bri- a frase de Macron. Para os britânicos, Estados e seus cidadãos podem espe- lismo neoliberal tal como foi concebi-
tânicas para mantê-las ali. Até agora, impedir essa transformação do lado de rar impor sua vontade sem recorrer ao do e historicamente atualizado por
a União Europeia tem sido efetiva- fora pode se revelar mais difícil do que poder militar. Mas, em última instân- Friedrich von Hayek. Sua ideia central
mente uma força de paz. No entanto, sabotá-la por dentro. Lembremos os cia, isso é uma ilusão: não pode haver é a “isonomia”: sistemas legais idênti-
do ponto de vista alemão ou franco- esforços envidados na década de 1960 hegemonia sem canhões. É nesse con- cos para Estados-nação ainda formal-
-alemão, um divórcio britânico ami- pelo general De Gaulle para impedir texto que se deve entender a decisão mente soberanos, estabelecidos com
gável minaria a disciplina imperial, que o Reino Unido entrasse na então do governo Merkel de se dobrar às exi- base no princípio de serem indispen-
uma vez que outros países em revolta Comunidade Econômica Europeia gências dos Estados Unidos e da Orga- sáveis para o funcionamento harmo-
contra essa disciplina também pode- (CEE), sob a alegação de que o país não nização do Tratado do Atlântico Norte nioso dos mercados internacionais.2
riam aventar sua saída. era suficientemente “europeu”. (Otan), prometendo a quase duplica- O calcanhar de aquiles do neolibe-
Pior ainda, se a retirada britânica ção do orçamento militar do país para ralismo chama-se “democracia”, como
fosse evitada por meio de concessões fazê-lo chegar a 2% do PIB. Se esse ob- nos mostram tanto Hayek como Karl
significativas, outros países pode- jetivo for mesmo alcançado, as despe- Polanyi. A isonomia e seu regime mo-
riam requerer a renegociação de um O calcanhar sas militares da Alemanha ultrapassa- netário implicam limitar estritamente
acervo comunitário elaborado para de aquiles do rão em mais de 40% as da Rússia, tudo a intervenção de uma democracia de
manter-se para sempre inegociável. na compra e desenvolvimento de ar- base popular e fundada na vontade
Portanto, o Reino Unido teve de esco-
neoliberalismo mamentos convencionais, o que con- majoritária na economia política. Os
lher: ou permanecer no bloco sem chama-se “democracia”, tribuirá para ancorar firmemente na governos nacionais cujos Estados fa-
concessões – uma rendição incondi- como nos mostram União Europeia Estados como os paí- zem parte de um império neoliberal
cional –, ou retirar-se a um preço tanto Hayek como ses bálticos ou a Polônia, para os quais não devem temer uma sanção eleitoral
muito alto. E isso apesar do fato de a alternativa norte-americana se tor- quando expõem seus cidadãos à pres-
que o Reino Unido muitas vezes aju-
Karl Polanyi naria menos atrativa. Tal cenário per- são de mercados internacionais inte-
dou a Alemanha a afrouxar o torno mitiria à Alemanha conseguir que os grados, para o bem dos cidadãos, nem
francês, contrabalançando o estatis- Estados-membros do leste do bloco é preciso dizer – mesmo que eles não
mo da França com uma ligação sau- O governo de um império inevita- abandonassem ou moderassem sua vejam as coisas dessa maneira –, e cer-
dável (aos olhos da Alemanha) com a velmente obedece a considerações oposição em questões relativas a valo- tamente para o bem da acumulação
economia de mercado. Com o Brexit, não apenas econômicas e ideológicas, res – como as dos refugiados ou do “ca- do capital. É por isso que o império de-
esse equilíbrio se rompeu. mas também geoestratégicas, espe- samento para todos” –, mas também ve dotá-los de instituições nacionais e
Totalmente consciente disso, a cialmente nas margens de seus territó- daria à Rússia razões para modernizar internacionais que os ajudem a se co-
França pediu uma atitude muito fir- rios. A estabilização dos Estados fron- seu arsenal nuclear, coisa que ela, locar para além do alcance do sufrágio
me nas negociações com Londres, teiriços situados na extrema periferia é aliás, já se comprometeu a fazer. Tam- universal. Em outros termos, um Esta-
mal dissimulando seu objetivo: que os necessária para a expansão econômi- bém encorajaria países como a Ucrâ- do neoliberal, embora queira se mos-
britânicos mantivessem a decisão de ca, sobretudo no caso de um império nia a adotar uma atitude mais provo- trar fraco em sua relação com o merca-
sair. Aproveitando as preocupações capitalista. Ali, no ponto onde um im- cativa em relação à Rússia. do, deve mostrar-se duro em suas
alemãs sobre a disciplina imperial, ela pério se une a outro, seja esse império A França, cujo orçamento de defesa relações com as forças sociais que exi-
aparentemente conseguiu o que que- expansionista ou não, ele tende a con- já se aproxima do número mágico de gem uma correção política do livre jo-
ria, apesar dos temores da Alemanha cordar em pagar um preço mais alto 2% do PIB, poderia esperar que a du- go dos mercados. O termo apropriado
de perder um de seus mercados de ex- para manter a seu lado governos coo- plicação dos gastos militares alemães para descrever essa situação é “libera-
portação mais importantes e da ne- perativos ou para expulsar aqueles prejudicasse seu desempenho econô- lismo autoritário”, doutrina política
cessidade de conter as ambições fran- que não o são. mico (embora ela pareça favorável a cujas origens remontam à República
cesas sem o apoio britânico. Ao ceder As elites nacionais, que, nessas uma cooperação franco-alemã na pro- de Weimar e ao amistoso encontro en-
à França, a Alemanha teria tomado condições, podem ameaçar ir embora dução e exportação de armas). Mais tre os economistas neoliberais e o “ju-
uma decisão oportunista e míope – ao ou mudar de lado, são capazes de obter importante: em um exército europeu rista da Coroa” do Terceiro Reich, Carl
estilo de Merkel –, que poderá lhe cus- concessões mais caras, mesmo que tal como o concebe Macron, com o Schmitt.3
tar muito caro nos próximos anos? O suas políticas domésticas se mostrem apoio dos alemães pró-europeus, um O liberalismo autoritário usa um
futuro dirá. pouco atraentes, como é o caso de paí- aumento significativo das capacida- Estado forte para proteger uma econo-
Quanto ao Reino Unido, como a ses como a Croácia e a Romênia. Aqui, des convencionais da Alemanha com- mia de livre mercado dos perigos da
decisão de se retirar da União Euro- no fim das contas, entra em cena o po- pensaria a fraqueza da França em ter- democracia política.4 Na União Euro-
peia baseou-se em considerações na- der militar – que é preciso distinguir mos de tropas terrestres. Isso se peia, ele é antes de mais nada o resul-
cionalistas, e não “antissocialistas”, do soft power, o poder da influência, explica pela parcela desproporcional tado de internacionalização: a cons-
ele pode muito bem ter cometido um dos valores. Embora um império libe- do orçamento militar dedicada à força trução de um mecanismo institucional
erro histórico. O Brexit faz da França a ral tenha dificuldade em usar a força de ataque, um instrumento difícil de que permita aos governos remeter as
única potência nuclear dentro da contra uma população indisciplinada, usar contra os militantes islamistas da economias nacionais a instâncias in-
União Europeia e também a única que ele pode proteger governos amigos, África Ocidental que tentam impedir a ternacionais que produzem normas,
tem assento permanente no Conselho dando-lhes os meios para adotar uma França de ter acesso ao urânio e às como os conselhos ministeriais, os tri-
de Segurança da ONU. postura nacionalista hostil em relação terras-raras. bunais supranacionais ou os bancos
Os sentimentos ambivalentes que a a um país vizinho que se sinta amea- Como vimos, o império europeu – centrais. Assim, eles podem se desin-
Alemanha acalenta em decorrência da çado por um império que avança seus alemão ou franco-alemão – não é ape- cumbir de responsabilidades relacio-
ambição apresentada pela França de peões. Em contrapartida, um poder nas liberal; ele é neoliberal. Os impé- nadas à soberania nacional que não
ser a “chefe da expedição” de uma hegemônico pode exigir concessões, rios impõem a seus Estados-membros querem ou não podem mais cumprir.
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 21

A internacionalização fornece-lhes Ocupar a posição de potência hege- Deve-se ainda notar que, desde o do das Sociedades. Uma versão anterior des-
um instrumento que a ciência política mônica em um império liberal não é episódio dos refugiados em 2015, a te artigo foi publicada no blog da London
ortodoxa chamou de “diplomacia mul- uma coisa confortável. É cada vez mais Alternativa para a Alemanha (AfD) é School of Economics com o título “The Euro-
tinível”:5 a negociação de mandatos claro que a Alemanha – com ou sem a o maior partido da oposição. Ele é na- pean Union is a liberal empire, and it is about
internacionais que os poderes executi- França – não poderá desempenhar esse cionalista, mas principalmente por to fall” [A União Europeia é um império liberal
vos nacionais podem importar em papel por muito tempo. A expansão ter- causa de sua postura isolacionista e e está prestes a cair], 6 mar. 2019.
suas políticas internas, alegando que ritorial sempre foi uma tentação mortal anti-imperialista. Os imperialistas li-
são incontornáveis, em razão de sua para os impérios, como mostraram a berais alemães curiosamente o clas-
origem multilateral. Esse é um dos União Soviética e os Estados Unidos. sificam como “antieuropeu”. Se dei-
atrativos do império (neo)liberal para Em matéria de defesa, a opinião pública xarmos de lado por um momento
as elites nacionais, que podem contar alemã permanece fundamentalmente seus ignóbeis acessos de racismo e 1 Sobre a questão da hegemonia, cf. Perry Ander-
com essas ferramentas, especialmente pacifista, e a prerrogativa constitucio- revisionismo histórico, o nacionalis- son, The H-Word: The Peripeteia of Hegemony [A
num momento em que, por causa de nal da qual dispõe o Parlamento para mo da AfD traduz-se em uma recusa palavra com “H”: as peripécias da hegemonia],
Verso, Londres/Nova York, 2017.
sua estagnação, o capitalismo finan- regular todos os detalhes do envio de de pagar para o império, entendendo 2 Cf. Quinn Slobodian, Globalists: The End of Empire
ceirizado não consegue mais atender tropas não será abandonada – nem que os outros países também têm to- and the Birth of Neoliberalism [Globalistas: o fim
às expectativas das quais depende sua mesmo em benefício de Macron, o que- do o direito de agir como queiram. do império e o nascimento do neoliberalismo], Har-
vard University Press, Cambridge, Massachusetts,
legitimidade. “Em vez de olhar para as ridinho da classe política além-Reno. Prova disso é a posição do partido em 2018.
profundezas da nação, essas elites re- Também é de esperar que haja ne- favor do apaziguamento com a Rús- 3 Ver “Heller, Schmitt and the Euro” [Heller, Schmitt
correm a arranjos supranacionais ou cessidades crescentes de financia- sia, em vez de enfrentamento, posi- e o euro], European Law Journal, v.21, n.3, Hobo-
ken (Nova Jersey), maio 2015.
intergovernamentais a fim de reforçar mentos imperiais adicionais para os ção partilhada com a ala esquerda do 4 Andrew Gamble, The Free Economy and the
sua autoridade”, observa o jurista Pe- países mediterrâneos vítimas da polí- Die Linke. Há semelhanças significa- Strong State: The Politics of Thatcherism [A livre
ter Ramsay, buscando explicar o obsti- tica alemã de moeda forte, bem como tivas com o sentimento trumpista da economia e o Estado forte: a política do thatcheris-
mo], Palgrave Macmillan, Londres, 1988.
nado combate dos oponentes do Brexit para os fundos estruturais que apoiam “América primeiro”, que, original- 5 Robert D. Putnam, “Diplomacy and domestic politi-
oriundos da classe dirigente britânica. os Estados da Europa Central e seus mente, era mais isolacionista do que cs: The logic of two-level games” [Diplomacia e
“A União Europeia é um império vo- dirigentes “pró-europeus”. Como a imperialista, rompendo com o impe- política interna: a lógica dos jogos de dois níveis],
International Organisation, v.42, n.3, Cambridge,
luntário composto por Estados que es- França enfrenta baixo crescimento e rialismo liberal defendido por Hillary verão de 1988.
tão em negação de seu caráter nacio- déficits elevados, a Alemanha terá de Clinton e Barack Obama. 6 Cf. Peter Ramsay, “The EU is a default empire of
nal, na negação do fato de que a contribuir sozinha, embora o nível de nations in denial” [União Europeia é o império-pa-
drão das nações em negação], blog da London
autoridade de Estado procede da na- transferência necessário exceda em *Wolfgang Streeck é sociólogo e diretor School of Economics, 14 mar. 2019. Disponível
ção política.”6 muito sua capacidade. emérito do Instituto Max Planck para o Estu- em: <https://blogs.lse.ac.uk>.

L E I E S TA D U A L
DE INCENTIVO
A C U LT U R A
22 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

DOSSIÊ ESTADO DE CHOQUE

Fazer sumir: o desaparecimento


como tecnologia de poder
A combinação de uma série de variáveis e marcadores sociais – raça, sexualidade, local de moradia, status social,
algum tipo de proximidade com práticas ilícitas e ilegais – tem representado uma fatalidade para certos corpos e populações.
Veja o quarto artigo do dossiê “Estado de choque”, série de seis análises que publicaremos até julho de 2019
POR FÁBIO ARAÚJO*

Pessoas executadas pela Polícia Militar que portam réplicas de armamentos, os chama- aceitável, como também há vidas que valem menos do que outras. Em tempos sombrios
dos simulacros. Espaços escondidos no interior das prisões, atrás de placas de aço ou – de dissolução de direitos adquiridos, de propostas autoritárias para a resolução de con-
paredes duplicadas, evidenciando que o segredo é uma das formas estratégicas do poder flitos sociais, de utilização das Forças Armadas para os mais diversos fins –, o presente
político. Corpos desaparecidos, que envolvem ações das forças policiais, as quais mobili- dossiê visa lançar um pouco de luz acerca do horror, do segredo e do abominável que
zam técnicas de fazer sumir, parte integrante de uma ampla maquinaria de produção de marcam as dinâmicas de funcionamento de distintos aparelhos estatais.
morte. Sujeitos que, ao mobilizarem a greve de fome como estratégia política na luta por
direitos, evidenciam que, nos tempos atuais, a defesa da morte não só é publicamente Organização: Fábio Mallart e Luís Brasilino.

Bajo las matas passou a ocupar grande espaço nos se depararam com uma viatura da po- vítimas foram confundidos com “car-
En los pajonales jornais”. Em seguida, defendeu que, lícia. Os policiais dispararam 111 tiros ros de bandidos”. Afinal, é assim que
Sobre los puentes “enquanto o Estado não tiver coragem e mataram os cinco jovens dentro do se lida com “bandidos”, com oitenta ou
En los canales de adotar a pena de morte, o crime de carro. Coincidentemente, 111 é o nú- 111 tiros. Ou mirando e atirando na
Hay Cadáveres extermínio, no meu entender, será mero de presos mortos no massacre cabecinha, como propôs o governador
Néstor Perlongher muito bem-vindo. Se não houver es- do Carandiru. do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. E, se
paço para ele na Bahia, pode ir para o No dia 7 de abril de 2019, outra do- não eram bandidos, poderiam ser, afi-
Rio de Janeiro. Se depender de mim, se de terror de Estado veio com a notí- nal são pretos, pobres, moradores de
o Brasil atual, dos tempos de terão todo o meu apoio”. cia de que o carro de uma família ne- favelas. Estariam, portanto, segundo

N Jair Bolsonaro como presiden-


te, viver vem significando ter de
lidar com doses diárias de hor-
ror. Não que o horror não fizesse parte
da história social e política desde o iní-
Como tem sido amplamente docu-
mentado e noticiado, de fato, apreço e
apoio a milícias por parte da família
Bolsonaro não têm faltado. Admirador
do torturador Carlos Brilhante Ustra,
gra que passava por Guadalupe, região
próxima de Costa Barros, e se dirigia a
um chá de bebê foi fuzilado com oi-
tenta tiros. Não foi um ou dois tiros,
mas oitenta. Na ação, o músico Evaldo
essa lógica de sentidos que os transfor-
ma em potenciais inimigos, dentro do
enquadramento daqueles que são
considerados matáveis. São mortes
que se inscrevem numa economia po-
cio da formação da nação brasileira. Jair Bolsonaro coleciona declarações Rosa dos Santos, de 46 anos, foi morto. lítica do terror que se faz por meio do
Afinal, a escravidão e a tortura foram infames defendendo a tortura, a morte e No dia 18 de abril veio a falecer Lucia- excesso. Excesso que torna a vida de-
pilares sobre os quais o poder colonial a ditadura. Entre outras infâmias, disse no Macedo, de 27 anos, catador de feituosa pela capacidade da morte de
se assentou aqui nos tristes trópicos. que “o erro da ditadura foi torturar e materiais recicláveis que foi baleado fazer da vida sua refém, como propõe
As tecnologias de terror colonial per- não matar”; “sou a favor da tortura, ao tentar ajudar a família que teve o Achille Mbembe,3 recuperando o pen-
duram e se reatualizam historicamen- através do voto você não muda nada no carro fuzilado pelo Exército. Após lon- samento de Georges Bataille.
te nos desejos das elites brasileiras e país, tem que matar 30 mil”; e declarou go silêncio sobre o caso, o presidente Uma dimensão que chama atenção
nas combinações contemporâneas que seus adversários seriam metralha- Bolsonaro finalmente se manifestou nessas formas de operacionalização
que articulam capitalismo neoliberal dos e enviados para a “Ponta da Praia”, dizendo que “o Exército não matou da violência é a relação entre corpo e
com técnicas e práticas coloniais. É local conhecido como lugar de desova ninguém”. O comandante do Exército crueldade, em que o excesso do poder
com esse espírito que o governo Bolso- de corpos durante a ditadura. Marcelo afirmou que o fuzilamento que dei- se exerce e se realiza por meio de uma
naro corporifica, simboliza e repre- Semer1 definiu o governo Bolsonaro co- xou dois mortos não foi assassinato, política punitiva do corpo. Há todo um
senta o que há de mais anticivilizató- mo tendo a morte como método e, pelas foi uma fatalidade. De fato, a combi- exercício de poder e uma economia do
rio na sociedade brasileira. Com o políticas que tem defendido, parece ter nação de uma série de variáveis e castigo que se inscrevem diretamente
governo Bolsonaro, o horror é alçado a o propósito de elevar ainda mais as ta- marcadores sociais – raça, sexualida- no corpo, ao mesmo tempo que se pro-
uma forma de governo que opera por xas de letalidade policial contra civis, as de, local de moradia, status social, al- jetam como um recado a todos os mo-
meio da liberação das forças destruti- quais já são as maiores do mundo. gum tipo de proximidade com práti- radores de um território. Torturar, mu-
vas que devastam o país e atacam os Como escreveu Adriana Vianna2 cas ilícitas e ilegais – tem representado tilar e destruir corpos, ora exibidos de
direitos, o corpo e a vida de centenas em artigo publicado neste dossiê, as uma fatalidade para certos corpos e maneira espetacularizada, ora desa-
de milhares de pessoas. tecnologias de governo centradas em populações, em determinadas condi- parecidos, são formas que compõem o
O terror, o macabro, a crueldade, a políticas da morte que atravessam o ções de vulnerabilidade. vasto repertório de técnicas que ali-
humilhação, o obsceno e a falta de de- mundo contemporâneo, e de modo es- Evitar o encontro com a polícia ou mentam a maquinaria de produção de
coro são alguns dos termos pelos pecial o contexto brasileiro, se inscre- com as Forças Armadas é um cuidado cadáveres em curso no Brasil. Uma
quais a realidade brasileira pode ser vem sobre corpos e territórios e têm no fundamental na administração coti- dessas técnicas é o desaparecimento
apreendida e pensada. Em discurso excesso “o sucesso das tecnologias de diana da vida para certos grupos que forçado de pessoas, amplamente utili-
pronunciado na Câmara em 12 de terror colonial”. Em 28 de novembro de habitam esses espaços da cidade onde zado na ditadura e que segue produ-
agosto de 2003, o então deputado Jair 2015, Roberto, Carlos Eduardo, Cleiton, a regra é a exceção e o terror. Caso con- zindo desaparecidos.
Bolsonaro, exaltando a ação de um Wilton e Wesley, moradores da Lagarti- trário, esses corpos podem ser atingi- As comissões da verdade que in-
grupo de extermínio na Bahia, posi- xa, no Complexo da Pedreira, em Costa dos por oitenta ou 111 tiros. A justifica- vestigaram os crimes de Estado du-
cionou-se afirmando que, “desde que Barros, foram ao Parque de Madureira tiva da polícia e do Exército, nos dois rante a ditadura conseguiram entre-
a política de direitos humanos chegou comemorar o primeiro salário de Ro- casos, foi a de que uma ação policial vistar alguns dos agentes envolvidos.
ao país, a violência só aumentou e berto. Quando retornavam para casa estava sendo realizada e os carros das Os testemunhos coletados são revela-
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 23

dores de como o trabalho de “fazer de- núncia seja levada adiante, mas isso não Roque de Melo, Ewerton Marinho e Ri- portão e levou um susto ao se deparar
saparecer” funcionava. A certeza da significa que essa tecnologia de poder ta de Cássia desapareceram após uma com uma ossada espalhada diante de
impunidade, garantida pela Lei de não esteja em vigor. “Fazer sumir” se- abordagem policial quando voltavam sua casa. Deu um grito, fechou o por-
Anistia, permitiu que agentes da re- gue sendo uma realidade nas quebra- de um pagode no bairro Grande Vitó- tão e ligou para os vizinhos para pedir
pressão se sentissem à vontade para das e periferias da cidade e do campo, ria, zona leste de Manaus. No estado que alguém olhasse de suas janelas pa-
relatar com uma sinceridade obscena bem como no interior de instituições de Goiás, uma CPI chegou a ser insta- ra o portão de sua casa. Os vizinhos
os horrores que cometeram. Um des- estatais como os presídios. Alguns pou- lada para investigar o desaparecimen- olharam e disseram a ela que havia
ses agentes é Cláudio Guerra, ex-dele- cos casos de desaparecimento forçado to de 41 pessoas após abordagens poli- uma ossada ali, mas nenhuma pessoa
gado da Polícia Civil e agora pastor. No pós-ditadura se tornaram emblemáti- ciais, e um relatório do Mecanismo por perto. Maria interrompeu a con-
filme Pastor Cláudio, ele dá detalhes de cos, outras centenas permanecem invi- Nacional de Prevenção e Combate à versa comigo para pegar uma foto e
sua atuação. Com uma Bíblia na mão, síveis e desconhecidas. Um dos casos Tortura ressalta a possibilidade de 79 me mostrar a ossada, sobre um saco
ele conta que foi convidado a compor a que teve grande repercussão, inclusive pessoas terem sido vítimas de desapa- preto, que havia sido colocada em sua
Operação Radar, que executou deze- internacional, foi o Caso Acari, quando recimento forçado após as rebeliões porta. Junto com a ossada havia um
nove militantes do Partido Comunista onze jovens moradores da favela de que ocorreram em 2017 nos presídios bilhete de milicianos informando que
Brasileiro. Inicialmente sua missão era Acari foram sequestrados por um grupo de Roraima e Rio Grande do Norte. já haviam matado algumas pessoas
matar pessoas envolvidas na militân- de extermínio denominado Cavalos Segundo revelou o Anuário Brasi- na região e que agora eram eles que
cia contra o regime militar. Depois, sua Corredores, formado por policiais mili- leiro de Segurança Pública de 2018, o mandavam ali. A motivação que Ma-
função passou a ser a de queimar cor- tares integrantes do 9º Batalhão de Ro- Brasil encerrou 2017 tendo 82.684 bo- ria encontra para explicar a morte do
pos de pessoas torturadas e mortas. cha Miranda. Os jovens viajaram para letins de ocorrência registrando o de- filho seria o interesse de milicianos
Para isso, levava os corpos a uma usina um sítio em Magé para fugir de uma ex- saparecimento de pessoas. As causas por um pedaço de terra que ele pos-
de cana-de-açúcar localizada em torsão dos policiais, mas foram captu- e circunstâncias dos desaparecimen- suía. Com uma ossada nas mãos, Ma-
Campos, onde os corpos eram incine- rados e seus corpos jamais apareceram. tos são diversas, mas há motivos sufi- ria teria agora de fazer o exame de
rados. Segundo seu próprio depoimen- As versões que circularam sobre o caso cientes, como os já assinalados ante- DNA para identificar se os restos mor-
to, ele foi responsável por incinerar os indicavam que os corpos dos jovens te- riormente, para considerar que é tais eram mesmo de seu filho. O resul-
corpos de João Batista Rita, Joaquim riam sido oferecidos a leões e porcos. O possível e provável que uma parte tado do exame deu positivo. Quando
Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinski, Da- caso chegou ao conhecimento público considerável desses registros corres- finalmente conseguiu o atestado de
vi Capistrano, João Massena, Fernan- graças à incansável luta das Mães de ponda a casos de desaparecimento óbito para levar ao IML, foi informada
do Augusto Santa Cruz, Eduardo Col- Acari, como ficaram conhecidas as forçado, como o que relatarei a seguir. de que seu filho tinha sido enterrado
lier Filho, José Roman, Luiz Ignácio mães dos jovens desaparecidos. Tomei conhecimento deste caso pes- como indigente porque havia muitos
Maranhão, Armando Teixeira Frutuo- Em 2008, a engenheira Patrícia quisando os registros de ocorrência cadáveres e pouco espaço no IML. So-
so e Thomaz Antônio Meirelles. Em sua Amieiro desapareceu após seu carro de pessoas desaparecidas no Rio de mente após um ano do exame de DNA,
fala, ele não expõe nenhum sentimen- ser baleado por policiais e jogado no Janeiro e tive a oportunidade de en- Maria conseguiu identificar o túmulo
to de culpa, porque estava apenas Canal de Marapendi. Seu corpo jamais trevistar a mãe do jovem em questão. onde seu filho fora enterrado como in-
cumprindo ordens. Conta também foi encontrado. No dia 14 de julho de Maria, nome fictício, mora em digente. A identificação aconteceu no
que ganhou muito dinheiro dos em- 2013, o pedreiro Amarildo, morador da Campo Grande, zona oeste do Rio de dia em que ele faria aniversário.
presários que patrocinaram as ações e Rocinha, desapareceu após uma abor- Janeiro, área com forte atuação de mi- Como no poema de Néstor Per-
que, mesmo após o fim do regime, os dagem de policiais lotados na Unidade lícias. Seu filho tinha 28 anos quando, longher, citado na epígrafe e que se re-
agentes envolvidos na repressão conti- de Polícia Pacificadora da Rocinha. Em num dia de abril de 2010, saiu para tra- fere aos cadáveres desaparecidos du-
nuaram a fazer o que faziam – torturar Queimados, Baixada Fluminense, Fá- balhar e não mais retornou. Na delega- rante a ditadura argentina, por aqui
e fazer desaparecer pessoas –, agora bio, filho de Izildete, e seu amigo Ro- cia, ela foi orientada a ir primeiro ao lo- também há cadáveres por toda parte.
prestando serviço para bicheiros e em- drigo desapareceram após uma “dura” cal de trabalho do filho para averiguar As cidades têm se tornado um imenso
presários. Por que há tantos desapare- da polícia e jamais foram encontrados. se conseguia alguma informação. Não necrotério.
cidos hoje? Ele se pergunta e ele mes- Essa, porém, não é uma realidade obtendo êxito, fez o registro de ocor-
mo responde: porque a técnica do apenas do Rio de Janeiro. Na Bahia, rência de desaparecimento e as buscas *Fábio Araújo é sociólogo e professor do
desaparecimento inventada para su- Rute Fiuza vem denunciando o desa- continuaram em lixeiras, lugares de Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).
mir com os corpos dos presos políticos parecimento do filho, Davi Fiuza, que desova, valões de esgoto, rios. A cada
continua a ser empregada contra os saiu para comprar pão, foi abordado indício ou vestígio que pudesse indicar 1 Marcelo Semer, “A morte como política”, Revista
novos inimigos, produzidos agora pela numa operação da Polícia Militar e a localização de seu filho, lá estava Ma- Cult, 18 mar. 2019.
ideologia da segurança pública. nunca mais apareceu. Dezessete poli- ria. Certo dia, de madrugada, alguém 2 Adriana Vianna, “Políticas da morte e seus fantas-
mas”, Le Monde Diplomatique Brasil, mar. 2019.
O medo de morrer é um obstáculo ciais foram indiciados no inquérito da bateu com força em seu portão e ela 3 Achille Mbembe, Políticas da inimizade, Antígona
difícil de ser superado para que a de- Polícia Civil. Em Manaus, Alex Júlio acordou assustada. Ela correu, abriu o Editores Refractários, Lisboa, 2017.
24 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

BRUMADINHO E MARIANA

No paraíso tributário da mineração,


falta dinheiro para fiscalizar barragens
Em 2017, a Agência Nacional de Mineração (ANM) deixou de fiscalizar 73% das barragens
que deveriam ter passado por monitoramento direto. O estado de Minas Gerais é um caso exemplar.
Em 2018, o valor autorizado foi de apenas R$ 285 mil, já muito abaixo de valores dos anos anteriores
POR ALESSANDRA CARDOSO E BRUNO MILANEZ*

ma notícia que chamou aten- dentemente, a análise feita se mostrou

U ção da população após o rompi-


mento da barragem de Fundão,
em Mariana, assim como de-
pois do rompimento da Barragem 1,
em Brumadinho, foi o número insufi-
equivocada. Na verdade, são grupos
econômicos específicos, vinculados
ao setor da mineração e do agronegó-
cio, que vendem o Brasil a preço de
ocasião. A baixa carga tributária per-
ciente de fiscais que os órgãos federais mite que o minério de ferro da Vale
possuem para garantir a segurança chegue mais barato aos portos do Es-
das barragens de mineração no país. pírito Santo e do Maranhão do que às
Segundo a imprensa, a Agência Nacio- siderúrgicas nacionais. Assim, o Brasil
nal de Mineração (ANM) teria apenas subsidia a produção de aço chinês,
35 funcionários para fiscalizar todas contribuindo para que, posteriormen-
as barragens do país.1 Essa falta de te, produtos fabricados naquele país
pessoal é usada como justificativa pa- zado foi de apenas R$ 285 mil, já muito trias brasileiras menos competitivas, retornem a preços abaixo daqueles
ra o governo aceitar o “automonitora- abaixo de valores dos anos anteriores. subsidiando o beneficiamento dos praticados pela indústria nacional.
mento” realizado pelas mineradoras, Desse total, foram direcionados ape- bens naturais do Brasil em outros paí- Decisões políticas, como a opção de
apesar do evidente conflito de interes- nas R$ 163 mil para a fiscalização de ses. Por outro, impõe elevadas perdas não tributar, têm colocado interesses
ses inerente a esse processo, conforme áreas tituladas.2 De acordo com seu de arrecadação para os estados que específicos de curto prazo à frente das
explicitado no caso Vale-Tüv Süd. En- inventário estadual, Minas Gerais mais produzem e exportam minérios necessidades coletivas da sociedade,
tretanto, o sucateamento dos órgãos possui 435 barragens de mineração. e que, portanto, deveriam ter maior como proteção das pessoas e do meio
de controle não deve ser naturalizado. Considerando que os recursos de fis- capacidade orçamentária para fiscali- ambiente. Enquanto essas escolhas
Ele é fruto de decisões políticas que calização da ANM não se limitam às zar as atividades extrativas. De acordo continuarem sendo feitas, dificilmente
consideraram como pouco importan- barragens, um cálculo muito con- com José Afonso Bicalho, ex-secretário teremos as mudanças necessárias para
te a segurança da população que vive a servador indicaria uma média de R$ de Fazenda de Minas Gerais, as perdas impedir novos desastres envolvendo
jusante dessas barragens. 374 por barragem por ano. Esse valor anuais do estado decorrentes da Lei barragens de mineração no Brasil. Da-
Apesar de o orçamento autorizado irrisório explicita a não prioridade Kandir seriam da ordem de R$ 6,7 bi- da a intensidade da influência dos seto-
da ANM, antigo Departamento Nacio- dada pelo governo federal à segu- lhões/ano.3 A título de comparação, res corporativos sobre os formuladores
nal de Produção Mineral, ter aumenta- rança das barragens. esse valor seria mais de mil vezes o or- de políticas públicas, somente a pres-
do depois do rompimento da barragem Essa falta de vontade política está çamento de fiscalização mineral em são constante da sociedade organizada
de Fundão, o valor efetivamente pago relacionada também com a baixa tri- áreas tituladas da ANM para todo o parece ser capaz de garantir as mudan-
não se alterou significativamente entre butação do setor. O discurso conven- país (R$ 4,9 milhões em 2018). ças necessárias para evitar outras tra-
2015 e 2017, sendo, inclusive, reduzido cional de que o Brasil tem uma carga Se a Lei Kandir é um caso emble- gédias como as que ocorreram em Ma-
em 2018. Em grande parte, isso foi pro- tributária elevada, de 36% da renda, mático de baixa tributação da minera- riana e Brumadinho.
movido pela chamada austeridade fis- não vale para o setor de mineração. Es- ção, ele está longe de ser o único. A
cal, que impõe uma forte contenção de te sempre contou com desonerações, grande mineração na Amazônia conta *Alessandra Cardoso é economista e as-
despesas primárias, tanto na formula- incentivos e benefícios, que acabaram com fartos incentivos fiscais historica- sessora política do Instituto de Estudos So-
ção do orçamento, congelado pela por tornar muito baixa a parcela da mente concedidos pela Sudam, que re- cioeconômicos (Inesc); Bruno Milanez é
Emenda Constitucional n. 95, de 2016, renda mineral apropriada pelo Estado, presentam um perdão de 82,5% do Im- professor da Universidade Federal de Juiz de
como na execução sistematicamente fragilizando sua capacidade de regu- posto de Renda de Pessoa Jurídica.4 No Fora. Ambos integram o Comitê Nacional em
obstaculizada pela intensificação do lar e fiscalizar a mineração. Assim, não caso da Vale, em 2017, a isenção conce- Defesa dos Territórios frente à Mineração.
contingenciamento dos recursos orça- fiscalizar mineradoras e não tributar dida alcançou R$ 1,1 bilhão.
mentários autorizados. Como conse- suas operações são duas faces da mes- O conjunto de desonerações, isen-
1 Roberta Jansen e Giovana Girardi, “Sem fiscais,
quência, os órgãos responsáveis pelo ma lógica de leniência do Estado para ções e benefícios fiscais tornam o Bra- governo usa laudos produzidos pelas próprias mi-
monitoramento das barragens sofre- com o setor. sil um paraíso tributário para a grande neradoras”, Exame, 30 jan. 2019.
ram com falta de combustível para exe- Caso emblemático da distorção tri- mineração. Dados compilados para o 2 Alessandra Cardoso, “A escassez de verba de fis-
calização também explica Brumadinho”, Nexo, 2
cutar as fiscalizações, ou mesmo com butária aplicada à mineração é a Lei período de 2002 a 2007 chegaram a fev. 2019.
insuficiência de recursos para pagar Kandir, criada em 1996 e transforma- uma carga tributária efetiva de 15% 3 Audiência Pública: Lei Kandir e ressarcimento de
contas de luz. O resultado final foi que, da em emenda constitucional em para a Vale, enquanto para a Compa- perdas do ICMS. José Afonso Bicalho, secretário
de Estado de Fazenda, maio 2017, Brasília, Câma-
em 2017, a ANM deixou de fiscalizar 2003. Por meio dela, os minérios ex- nhia Siderúrgica Nacional o total foi de ra dos Deputados.
73% das barragens que deveriam ter portados sem beneficiamento são 30% – o dobro.5 4 Inesc, “Amazônia: paraíso extrativista e tributário das
passado por monitoramento direto. isentos de pagamento do ICMS. Ainda em campanha, o presidente transnacionais da mineração”, Nota Técnica n.186.
© Alves

5 M. A. Henríquez e J. P. Resende, “Carga tributária


O estado de Minas Gerais é um ca- A Lei Kandir combina o pior de dois eleito reclamou que a China estava incidente nas cadeias produtivas do ferro e do alumí-
so exemplar. Em 2018, o valor autori- mundos. Por um lado, torna as indús- “comprando o Brasil”. Não surpreen- nio no Brasil”, Perspectiva Mineral, v.2, n.19, 2009.
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 25

MULHERES, AS PRINCIPAIS VÍTIMAS DO ULTRACAPITALISMO ANDINO

A maré feminista no Chile


A esquerda chilena procura unidade. Os estudantes abriram a via em 2011; de volta à cena política, eles fizeram
uma tentativa de transformação nas eleições de 2013, enquanto os sindicatos continuam entorpecidos. Após realizar
uma das maiores mobilizações desde o fim da ditadura, o movimento feminista, por sua vez, reacende a esperança
POR FRANCK GAUDICHAUD*, ENVIADO ESPECIAL

ão foi uma onda, e sim um tsu- imensa bandeira: “Mulheres trabalha- cluindo pequenos centros urbanos do do da greve feminista do 8 de Março, o

N nami colorido que, no dia 8 de


março de 2019, inundou as ruas
de Santiago, sob um sol radian-
te e o olhar torto dos carabineiros, co-
mo são chamados os policiais locais.
doras nas ruas contra a precarização
da vida”.
“É típico de grupos de esquerda e
de marxistas”, diverte-se Javiera Ro-
dríguez, estudante de Jornalismo e
interior que havia mais de trinta anos
não viam algo parecido.
Como explicar tal sucesso em uma
nação conhecida por seu conservado-
rismo, onde o Código Civil remete a
Chile deve acabar com a herança mal-
dita da época autoritária, uma ruptura
que os governos sucessivos da Concer-
tação (coalizão de centro-esquerda e
da democracia cristã) foram incapa-
Para celebrar a primeira greve feminis- militante conservadora. “Pretendem 1855, a legislação do divórcio foi pro- zes de operar durante seus vinte anos
ta da história do Chile, mais de 350 mil unir as pessoas e terminam por mistu- mulgada só em 2004 (uma das mais de reinado (1990-2010).
pessoas cantaram, dançaram e con- rar tudo. No início, militam por oca- tardias do mundo) e a interrupção vo- As reivindicações das feministas
versaram no centro da capital. Princi- sião do Dia da Mulher, e depois isso se luntária da gravidez (IVG) foi descri- contemporâneas, porém, têm suas raí-
palmente mulheres, e jovens. Corpos torna uma manifestação pela mulher minalizada – parcialmente1 – apenas zes mergulhadas em uma história ain-
pintados, manifestantes com a família, ‘oprimida’, pela mulher ‘trabalhadora’ em 2015, após décadas de obstrução da mais antiga. “O movimento femi-
companheiros, filhos, cachorros de etc. No fim das contas, aqueles que vão por parte dos principais partidos polí- nista jamais desapareceu, apesar dos
rua, todos acompanhavam essa mar- à manifestação terminam marchando ticos e da Igreja Católica? altos e baixos em termos de visibilida-
cha alegre e furiosa nessa jornada in- pela reforma da previdência e contra de”, explica a historiadora Luna Folle-
ternacional pelo direito das mulheres. os fundos de pensão, mas também a DEMOCRACIA NO PAÍS, EM CASA E NA CAMA gati. “Em vez de ondas, podemos dis-
As avós que sobreviveram à repres- favor do aborto e do casamento gay.” Alguns dias antes da mobilização, tinguir três grandes épocas: do início
são da ditadura do general Augusto Pi- sinais de inquietude já emanavam do do século XX até os anos 1950, em tor-
nochet (1937-1989) e os militantes de- Estado. Em um dos muitos canais de no das reivindicações políticas e cívi-
fensores dos direitos humanos estavam televisão privados que apoiam o gover- cas (notadamente o direito de voto,
lá, como Alicia Lira, presidente do Co- “Sempre quisemos no, o presidente Sebastián Piñera, um obtido em 1949); o período dos anos
letivo de Famílias de Executados e Exe- romper com a forma empresário milionário eleito nova- 1980, com a intensa resistência das
cutadas Políticas, e desfilaram com as patriarcal e masculina mente em 2018 depois de ter governado mulheres de origem popular à ditadu-
fotos de seus desaparecidos. “As razões entre 2010 e 2014,2 tentava apaziguar os ra; e, por fim, as lutas que emergiram
pelas quais a ditadura os assassinou
de organização espíritos: “É um erro querer instru- há alguns anos, que colocaram em
são exatamente as mesmas pelas quais que existe na mentalizar a nobre causa da igualdade evidência as problemáticas da diversi-
marchamos hoje: nossos desapareci- política, inclusive plena dos direitos e deveres entre ho- dade sexual, a teoria queer etc.”
dos queriam construir uma sociedade na esquerda” mens e mulheres. Acho que uma greve O poderoso Movimento pela
de pessoas livres e iguais.” não é necessária, pois nosso governo Emancipação das Mulheres Chilenas
As palavras de ordem eram tão di- faz sua a causa das mulheres”. (Memch), ativo de 1935 a 1953, tam-
versas quanto o público presente: pelo A inquietude do poder se explica bém reivindicava o direito à contra-
fim da violência contra as mulheres, da Rodríguez foi destaque nos meios sem dúvida pela lembrança da impres- cepção e ao aborto, a legalização do
discriminação a que são submetidos os de comunicação em 2018 por um “ato sionante mobilização estudantil de divórcio, a igualdade de salário. Desde
homossexuais e transgêneros, pela de resistência” durante a ocupação de 2018 contra o assédio sexual e em favor aquela época, já usava a greve como
melhoria das condições de acolhimen- sua universidade por militantes femi- de uma educação não sexista. Nesse arma. Suas iniciadoras, Elena Caffare-
to dos miseráveis e dos imigrantes, pe- nistas: ela arrancou o cartaz que pro- “maio feminista”, dezenas de universi- na e Olga Poblete, participaram em
la equidade dos salários entre homens clamava “Não aos assediadores na dades foram ocupadas, obrigando as 1983 da refundação dessa organiza-
e mulheres. Ao lado de ONGs, associa- Universidade Católica”. “Eu não podia instituições a reagir e a reconhecer, re- ção para lutar contra o regime mili-
ções e sindicatos, mulheres mapuches aceitar a imagem que esse cartaz pas- lutantes, o mal-estar que subia pelas tar. Ao lado delas, as intelectuais Ju-
com suas vestimentas tradicionais de- sava de nossa universidade! Fiquei fu- paredes. Professores renomados fo- lieta Kirkwood e Margarita Pisano,
nunciavam a opressão à qual elas e seu riosa: arranquei-o e na sequência con- ram questionados, outros suspensos, que criaram, ao longo desses anos
povo são submetidos, enquanto uma frontei as ocupantes. E disse o que eu notadamente o ex-presidente do Tri- sombrios, palavras de ordem que fi-
estudante exibia um cartaz com os di- pensava na frente das câmeras de tele- bunal Constitucional. Até a venerável caram famosas: “Democracia no
zeres: “Liberdade aos meus ovários. visão. Foi por respeito à ordem e às ins- Universidade Católica de Santiago, lu- país, em casa e na cama!”.
Aborto livre, seguro e gratuito!”. Mora- tituições que fiz aquilo. Certamente al- gar dos “Chicago boys”, que aconse- A transição democrática de 1989-
dores de bairros populares organiza- guns me chamarão de ‘fascista’, pouco lhavam o general Pinochet durante a 1990 não apenas manteve o modelo
dos na rede Ukamanu insistiam no di- me importa”, contou. ditadura, foi ocupada – o que não econômico da ditadura, mas também
reito à moradia. Um pouco mais Contrariamente a Rodríguez, as or- acontecia desde 1986 – e provocou a ira a Constituição do general Pinochet. A
distante, a organização Pão e Rosas, ganizadoras estimam que a jornada de Rodríguez. “democracia dos consensos”, tão cele-
próxima ao pequeno Partido dos Tra- do 8 de Março foi um sucesso “históri- Esse primeiro terremoto feminista, brada pelo patronato do “jaguar chile-
balhadores Revolucionários, entoava co”, de certa forma inesperado: uma na verdade, foi uma repetição da in- no”, também foi forjada graças à des-
cantos de luta sob diversas bandeiras. das mais importantes mobilizações de tensa mobilização estudantil de 2011, mobilização dos atores sociais críticos.
Alguns parlamentares de esquerda rua desde o início da transição demo- durante o primeiro mandato de Piñe- O movimento feminista é um exemplo
também participaram. Um imponente crática, em 1990. Em escala nacional, ra.3 Para os jovens que tomaram as gritante. Pouco a pouco, derivou para
cortejo composto unicamente de mu- estimam mais de 800 mil manifestan- ruas na época, assim como para as políticas públicas de gênero: reformas
lheres abriu o desfile atrás de uma tes em mais de sessenta cidades, in- pessoas que responderam ao chama- compatíveis com a ideologia do “mer-
26 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

põe de sede e segue se autofinancian-


do dia após dia, porém mais de sessen-
ta organizações se uniram a ela.
Durante esse tempo, comissões de
trabalho (articulação social, comuni-
cação, logística etc.) foram criadas e
porta-vozes foram eleitas por rotação,
em um esforço de variar gerações,
orientações sexuais, origens e pontos
de vista. “Sempre quisemos romper
com a forma patriarcal e masculina de
organização que existe na política, in-
clusive na esquerda”, lança uma jovem
militante que encontramos. Graças
aos comitês de greve nos bairros, às in-
tervenções nas redes sociais e às ações
de rua das “brigadas feministas”, o
enorme engajamento do 8 de Março
foi se construindo pouco a pouco.
Assim surgiu a ideia da greve femi-
nista, “precisamente porque o direito
de greve não é garantido para nin-
© Reuters / Rodrigo Garrido

guém”, explica Alondra Carillo, uma


das principais lideranças da organiza-
ção. “Nosso projeto, então, incluiu o
bloqueio da economia como uma fer-
ramenta política.” Com o Código do
Trabalho promulgado pela ditadura
em 1979, a possibilidade de paralisa-
Manifestação de 8 de março de 2019 em Santiago no Chile ção foi reduzida drasticamente para
todos os trabalhadores, da mesma for-
ma que as liberdades sindicais. Diante
cado total”, à qual se converteram di- Piñera em maio de 2018, mistura visão sas organizações religiosas, uma clíni- de uma legislação restritiva e total-
versos progressistas. Nas altas esferas conservadora (as mulheres em geral ca pode, hoje, proclamar que nenhum mente arcaica, as greves da imensa
do Estado, algumas mulheres assumi- reduzidas ao papel de mãe) e liberalis- aborto será praticado em suas instala- maioria dos assalariados que ainda
ram cargos (desde que não contestas- mo econômico. Ele prevê a valoriza- ções, exonerando-se tanto da lei em vi- ousam se mobilizar são declaradas ile-
sem o status quo). Em outros setores ção da paridade nos conselhos admi- gor como do direito internacional. gais, e os funcionários do setor público
sociais, as mulheres de classes popu- nistrativos de empresas e um direito No entanto, a maré feminista chile- ignoram esse direito fundamental. A
lares e indígenas não experimentaram “universal” a uma vaga em creche pa- na não se alimenta apenas do contexto porta-voz prossegue: “Mas a ideia da
nenhuma melhoria de sua condição. ra os filhos das assalariadas com um nacional. Baseada em mobilizações greve implicava também nossa vonta-
A socialista Michelle Bachelet, ela contrato de trabalho estável, o que nas ruas e “desde abaixo”, ela se reco- de de convocar os homens: mesmo
mesma vítima da ditadura, agnóstica e restringe consideravelmente o alcan- nhece nos chamados de greve das mu- com as mulheres na dianteira, os ho-
solteira, tornou-se ministra nos anos ce da medida em um país onde a pre- lheres da Polônia em outubro de 2016, mens poderiam apoiá-las, por exem-
2000 e depois a primeira presidenta da cariedade é frequente, em particular nas imagens das manifestações de plo, organizando os pontos de alimen-
história da República, em 2006 e em entre as mulheres. Enquanto menos massa em Madri após a libertação dos tação e o cuidado com as crianças”.
2014, com a imagem de “mãe de todos da metade delas tem acesso a alguma autores de um estupro cometido na Ao longo de algumas semanas, de-
os chilenos”.4 Contudo, não conseguiu atividade remunerada, 31% traba- primavera de 2018 ou nos textos de in- zenas e depois centenas de mulheres
fazer progredir a causa das mulheres lham sem contrato nem proteção so- telectuais como Silvia Federici, Cinzia se doaram de corpo e alma, apesar de
diante do social-liberalismo. “Durante cial ou de saúde (e sem a possibilidade Arruzza, Nancy Fraser e Tithi Bhatta- suas diferenças. Algumas, por exem-
seu primeiro mandato, ela não fez de se sindicalizar).5 E se o presidente charya. O principal caldeirão de cultu- plo, militam apenas em espaços não
quase nada”, esbraveja Gael Yeomans repete à exaustão que está engajado a ra, contudo, permanece o latino-ame- mistos (ou seja, sem homens), en-
em seu pequeno distrito da comuna favor dos “direitos da mulher” (um ricano: o lenço verde, símbolo da luta quanto outras não; algumas são favo-
popular de San Miguel. Ela encarna a singular que tende a essencializar as pelo direito ao aborto na Argentina, ráveis aos contatos com os partidos
ala de esquerda da Frente Ampla mulheres), ninguém se engana: o atravessa a Cordilheira dos Andes, as- políticos, Estado ou meios de comuni-
(Frente Amplio), uma coalizão surgida atual ocupante do La Moneda é co- sim como o grito “Nenhuma a menos!”, cação, enquanto outras julgam essa
no início de 2017 que reagrupa vários nhecido por seu viés misógino, desti- denunciando os feminicídios. Esse fe- manobra muito arriscada.
movimentos políticos (do centro à es- lado pela imprensa ao longo de sua minismo do Sul se constrói também O Encontro Plurinacional das Mu-
querda radical), alguns oriundos do carreira. Além disso, está sob pressão com base em uma longa experiência de lheres em Luta, em dezembro de 2018,
movimento estudantil de 2011. “Du- de uma coalizão (hoje minoritária no encontros continentais organizados representou um momento forte desse
rante seu segundo mandato, uma me- Parlamento) cheia de adeptos da Opus desde os anos 1980, embora marcados trabalho de formiga, reunindo 1.200
dida positiva – enfim! – foi a criação do Dei, militantes antiaborto e antigos por rupturas crescentes. A resistência mulheres de todas as regiões. Na oca-
Ministério da Mulher e da Igualdade apoiadores do general Pinochet. enfrenta os assassinatos de mulheres sião, elas formularam o chamado à
de Gênero. Mas ele não recebeu o or- em Ciudad Juárez (México), em El Sal- greve do 8 de Março e redigiram um
çamento ou a atenção política neces- REABILITAR O BLOQUEIO DA ECONOMIA vador, na Guatemala, e ganha mentes programa em dez pontos.6 De acordo
sários para realmente agir em vários Durante esse período, os deputados em toda a região. com Carillo, este último tem como ob-
âmbitos sociais. Mesmo o projeto de de direita fizeram malabarismos para No início de 2018, a Coordenação jetivo fazer que a questão do feminis-
lei contra a violência contra as mulhe- convencer o Tribunal Constitucional a do 8 de Março ganhou corpo, primeiro mo se impregne no conjunto do movi-
res foi negligenciado, deixando final- aceitar a objeção de consciência “insti- em Santiago, depois em rede com ou- mento social, assim como todas as
mente essa iniciativa nas mãos da di- tucional” (e não mais individual) sobre tras organizações da região. As assem- temáticas dele derivadas. Dessa for-
reita”, completa. a interrupção voluntária da gravidez: bleias locais de mulheres fixaram os ma, as reivindicações dos migrantes
“A agenda da mulher”, um pacote em um país onde a saúde é amplamen- programas de mobilização. Um ano coexistem com as do documento, que
de medidas legislativas lançado por te privatizada e está nas mãos de diver- depois, a Coordenação ainda não dis- exige uma “educação desmercantili-
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 27

zada, não sexista, anticolonial e laica”; movimento estudantil e às temáticas feminista, celebra os progressos gi- aumenta seu descrédito. Diversas sei-
o reconhecimento da autodetermina- de luta contra o abuso sexual no interior gantescos obtidos em alguns meses. tas evangélicas, porém, crescem nos
ção dos povos autóctones caminha das universidades”, sublinha Daniela As dificuldades permanecem, relem- bairros, sem necessariamente haver
junto à demanda por aborto “livre, le- Catrileo, jovem poeta de origem mapu- bra ela, principalmente na tarefa de extremismos (duas pastoras, inclusive,
gal, seguro e gratuito” e pelo “fim da che e integrante do coletivo descolonia- chegar aos numerosos bairros desas- participaram dos encontros feminis-
violência política, sexual e econômica lista Rangiñtulewfü. Sem se preocupar sistidos de Santiago (as poblaciones), tas). Alguns pequenos grupos ultra-
contra as mulheres”. com conciliação, ela acrescenta: “As junto aos imigrantes ou ainda aos tra- conservadores investem regularmente
mulheres que sofrem opressão de raça, balhadores da base da pirâmide – pois – e de modo violento – contra feminis-
SOLUÇÃO REAL CONTRA A EXTREMA DIREITA as demandas do povo mapuche e o co- a imagem de feministas principal- tas, lésbicas e transgêneros. Ao mesmo
De acordo com os números oficiais, lonialismo interno não eram visíveis o mente brancas e oriundas das classes tempo, as recomposições políticas fa-
quase um terço das chilenas sofreu suficiente ou levados em conta. Tam- médias se cola à imagem do movimen- voreceram a emergência midiática e
violência sexual ao menos uma vez ao bém criticamos o chamado de uma to, suscitando algumas reticências. eleitoral de personalidades de extrema
longo da vida. E a Rede Chilena pelo ‘greve’ feminista, porque essa palavra “Contudo, avançamos muito no senti- direita, como o deputado José Antonio
Fim da Violência contra a Mulher de- de ordem, vinda do Norte e principal- do de melhorar a integração da luta fe- Kast (Ação Republicana), que denun-
nuncia, há anos, a morte de uma mu- mente dos movimentos europeus, pode minista em várias poblaciones e al- cia a “ideologia de gênero”. Opositor
lher por semana, em média, por es- excluir muitas mulheres trabalhadoras guns sindicatos, sobretudo em setores ferrenho ao aborto e a todas as mulhe-
pancamento de um homem (sem que precárias ou imigrantes”. onde há uma grande presença femini- res que ele qualifica como “feministas
isso seja sistematicamente considera- Carillo responde a essas objeções: na (educação, saúde, administração). de papelão”, Kast exalta a “verdadeira
do feminicídio pela lei).7 Para as mili- “Promovemos uma greve em quatro O objetivo da Coordenação é precisa- mulher chilena”, católica, nacionalista
tantes, essa violência contra o corpo formas possíveis: no local de trabalho, mente chegar a uma aproximação que e do lar.
das mulheres é consubstancial à vio- se a situação das assalariadas assim toque o conjunto das mulheres, que
lência do modelo capitalista neolibe- permitisse; greve dos cuidados e do olhe atentamente tanto para as mu- *Franck Gaudichaud é mestre de conferên-
ral. Rejeitando um feminismo elitista e trabalho não remunerado nos domicí- lheres dos setores populares e imi- cias em História Latino-Americana na Uni-
liberal, Carillo e suas companheiras se lios das mulheres; interrupção do con- grantes quanto para as das chamadas versidade de Grenoble-Alpes e presidente da
lembram incessantemente da inter- sumo; e, por fim, a manifestação no classes médias, mas que no Chile neo- associação França América Latina. Notada-
seccionalidade entre dominação de espaço público”. liberal são, na realidade – especial- mente, coordenou a obra Chili actuel. Gouver-
gênero, raça e classe – na contramão Essa última modalidade foi o cora- mente as jovens –, diplomadas, mas ner et résister dans une société néolibérale
do governo e das políticas em vigor. De ção da jornada do 8 de Março. No âm- endividadas até o pescoço.” [Chile atual. Governar e resistir em uma socie-
fato, as mulheres sofrem a maior des- bito sindical, o fato de a principal orga- Apesar de algumas dessintonias, dade neoliberal], L’Harmattan, Paris, 2016.
vantagem no ultracapitalismo andino. nização nacional, a Central Unitária essa primeira greve feminista foi vivi-
Em um país onde a semana legal de dos Trabalhadores (CUT), não ter da como um imenso passo adiante, e a
trabalho é de 45 horas e 70% dos assa- apoiado o chamado feminista dificul- Coordenação pretende seguir com a
lariados ganham menos de 730 euros tou a ampliação do movimento. A CUT, empreitada: completar o programa
por mês, elas recebem salários cerca contudo, é presidida por uma mulher, a fundador, colocando-o novamente
de 30% inferiores em relação aos dos dirigente comunista Bárbara Figueroa em debate; reforçar o trabalho unitá- 1 A IVG é autorizada apenas em caso de estupro, de
homens.8 No acesso à saúde, elas so- – mas a direção da organização ainda rio, do extremo norte do país à Patagô- perigo imediato para a mãe ou de não viabilidade
do feto.
frem discriminação das empresas de tem dificuldade em acompanhar aqui- nia e também fora do Chile. Meta afi- 2 Ler “Um empreendedor multimilionário no alto pos-
seguro privado por potencial gravidez, lo que não controla. Apesar de tudo, xada: criar pontos mais sólidos em to do Chile”, La Valise Diplomatique, 19 jan. 2010.
considerada um “risco”. O mesmo em algumas cidades, como a portuária direção às imigrantes, idosas e mino- Disponível em: <www.monde-diplomatique.fr>.
3 Ler Hervé Kempf, “Au Chili, le printemps des étu-
acontece em relação às aposentado- Valparaíso, as organizações sindicais rias, como as detentas. De acordo com diants” [No Chile, a primavera dos estudantes], Le
rias, integralmente nas mãos de fun- mais combativas marcaram presença, Carillo, “trata-se de mostrar que o fe- Monde Diplomatique, out. 2011.
dos de pensão desde os anos 1980 (im- o que por sua vez suscitou uma forte re- minismo é uma solução real, particu- 4 Nicole Forstenzer. Politiques de genre et féminis-
me dans le Chili de la postdictature, 1990-2010
pulsionados por José Piñera, irmão do pressão policial. Outras organizações larmente em um momento de escala- [Políticas de gênero e feminismo no Chile da pós-
atual presidente, ex-ministro do Tra- de assalariadas do poder público, co- da da extrema direita e de correntes -ditadura, 1990-2010], L’Harmattan, Paris, 2012.
balho da ditadura). mo o Colégio dos Professores e a Con- reacionárias em toda a região”. 5 Instituto Nacional de Estatísticas do Chile, Santia-
go, out.-dez. 2017.
Ainda assim, a Coordenação en- federação Nacional de Saúde Munici- No Chile, as pesquisas demons- 6 Disponível em: <http://cf8m.cl/encuentros>.
frenta diversas críticas, tanto internas pal, também se engajaram. tram que a Igreja Católica continua a 7 Disponível em: <www.nomasviolenciacontramu-
quanto externas, que ameaçam sua Ao comentar o êxito da jornada do perder terreno, e a multiplicação em jeres.cl>.
8 “Los verdaderos sueldos de Chile” [Os verdadei-
vontade de unidade. “O movimento fe- 8 de Março, Karina Nohales, especia- seu seio de escândalos de pedofilia, ros salários do Chile], Fundación SOL, Santiago,
minista hegemônico é muito ligado ao lista em direito trabalhista e militante acobertados pela hierarquia da Igreja, 2018. Disponível em: <www.fundacionsol.cl>.
28 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

A POLÍTICA DESPOLITIZADA

Na era do Estado-empresa
Uma ideia preconcebida sugere que, nas campanhas eleitorais, os liberais se opõem aos populistas. Dois homens
simbolizam esse antagonismo: Emmanuel Macron e Donald Trump. Entretanto, para além de suas divergências,
frequentemente teatralizadas, os dois personagens encarnam o mesmo projeto de inspeção da política pelo gerenciamento
POR PIERRE MUSSO*

ilvio Berlusconi em 1994, Do-

S nald Trump em 2016 e Emma-


nuel Macron em 2017: cada um
deles chegou de forma invasiva
à direção de um grande Estado oci-
dental depois de uma vitória eleitoral
obtida na primeira tentativa. Esses
três personagens políticos disruptivos
diferem significativamente em perso-
nalidade, características psicológicas,
idade e contexto de intervenção. Mas
um ponto os une: eles levam a gestão
para o campo político e colocam em
ação o relato glorioso de sua experiên-
cia empresarial. Eles são chefes do
“Estado-empresa”. Não são os únicos
dirigentes a aplicar tal modelo, que pa-
rece estar se expandindo: pode-se
mencionar Mauricio Macri na Argen-
tina, Andrej Babiš na República Tche-
ca – que diz “gerir o Estado como uma
empresa familiar” – ou ainda Recep
Tayyip Erdogan, que quer “dirigir a
Turquia como uma empresa”.1
Como acontece com frequência, a
Itália foi um laboratório, e Berlusconi, a
criatura pioneira: ele foi o primeiro a
incorporar a figura do “presidente-em-
presário”, nesse caso autoproclamado.
Desde o início da década de 1990, a Itá-
lia inventou uma resposta à nova or-
dem internacional, que não mais colo-
cava o bloco oriental em conflito com o HEGEMONIA CULTURAL mina por “dissipar a ideia de legitimi- no século XVII, a reação antiestatal
chamado mundo “livre”. Sua resposta A eficiência, como a utilidade, é um dade”. Essa dessimbolização gera uma iniciou seu trabalho, paralelamente à
foi a irrupção na política de um ho- pensamento vindo da engenharia, cascata reducionista que vai do políti- ascensão da industrialização. Os dois
mem “novo”, vindo da televisão comer- mãe da administração, que visa neu- co para o Estado, depois do Estado pa- movimentos inversos – a fobia do Esta-
cial e do setor imobiliário. tralizar a política. Em nome da eficiên- ra seu líder que decide. Tudo acontece do e o triunfo da grande empresa, ou
Alguns anos depois, outros ele- cia, o político adota as técnicas de po- como se, por um lado, o Estado fosse corporação – cozinharam por muito
mentos forjados nas empresas, como a der corporativo e gerencial; não se reduzido a uma tecnorracionalidade e, tempo antes de atingir seu pico nos
marca, circulam de um mundo para trata mais de “crenças e memórias va- por outro, a grande empresa, dotada anos 1980. A atual “crise de represen-
outro: é o caso da marca Trump, pas- lidadas, em outras palavras símbolos”, de uma nova legitimidade, produzisse tação política”, um clichê repetitivo,
sada da Trump Organization para a nas palavras do cientista político Lu- a hegemonia e a normatividade que designa na verdade um fenômeno
Casa Branca. E se Macron não é oriun- cien Sfez.3 A política é assim reduzida permitissem tapar as brechas da polí- profundo, a saber, uma transição sis-
do do mundo corporativo, mas da ins- ao carisma do presidente-gerente que tica. O sagrado do poder permanece, têmica entre o enfraquecimento do
peção financeira – o corpo de altos traz a promessa de uma ação eficaz. O mas está disperso, surgido fora do Es- Estado-nação e o fortalecimento da
funcionários públicos destinados à Estado, visto como um aparelho, colo- tado, disseminado em múltiplas fic- corporação apoiada em sua racionali-
administração central, sobretudo no ca-se em concorrência e em conver- ções, inclusive técnicas, produzidas dade técnico-econômica e gerencial.
Ministério da Economia e das Finan- gência com a empresa. A partir daí, o por especialistas em comunicação, Nesse momento particular, as duas
ças –, seu breve percurso profissional o político, tecnologizado, dobra-se dian- gestão e tecnociência-economia. instituições se entrelaçam, pois a
conduziu durante quatro anos no se- te do “decisionismo”, palavra forjada O advento dos chefes de Estado- empresa traz para o Estado rachado
tor bancário:2 ele próprio também es- pelo jurista alemão Carl Schmitt em -empresa marca um momento crítico uma tripla contribuição: o dogma ge-
tendeu a importação-exportação do Théologie politique [Teologia política] no longo processo histórico da gover- rencial, o histórico da ação eficaz e a
vocabulário, dos discursos e do imagi- (1922) para designar certo modo de to- namentalidade liberal, inaugurado figura do empresário. Forma-se, as-
nário da empresa ao comando do Es- mada de decisão: com autoridade e de- em meados do século XVIII e que o fi- sim, uma instituição híbrida. Essa
tado e identificou sua ação com a de terminação, sem se preocupar com as lósofo Michel Foucault denominou de transferência leva, por um lado, ao es-
um líder determinado e eficaz de um consequências. O político, reduzido “grande fobia do Estado”.4 Pouco de- vaziamento, à autolimitação ou à des-
grande grupo. apenas ao “momento da decisão”, ter- pois do triunfo do Estado absolutista politização do Estado, reduzido à ad-
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 29

ministração e à gestão, e, de outro, à quinas é afirmar que os homens final- empresa. Neste momento, políticos
politização da empresa, que expande mente se tornaram programáveis. Em antipolíticos de fato conduzem uma
sua esfera de poder muito além de sua 1948, o padre dominicano Dominique revolução passiva (Antonio Gramsci),
atividade tradicional de produção. Dubarle escreveu sobre a cibernética: isto é, uma revolução-restauração vol-
Para entender o que está aconte- “Podemos sonhar com um tempo em tada a reformar para melhor preser-
cendo, é necessário colocar em pers- que uma máquina de governar viria var. Eles fazem isso dirigindo a crítica
pectiva histórica o advento dos presi- suprir a [...] hoje patente insuficiência do político contra ele mesmo. A despo- O olhar da cidadania
dentes-empresários, a fim de detectar das mentes e dos aparelhos habituais litização do político e a neutralização
aí a profunda mudança na política. Só da política”.10 O que o padre Dubarle do Estado abrem caminho para a poli-
a genealogia permite passar do pre- imaginou ser um leviatã cibernético tização da empresa, até mesmo para
sente da política ao lento trabalho do no âmbito do Estado tende a se reali- uma “corpocracia”. Segundo o soció-
político. O tempo institucional do Es- zar em nossos dias na forma do grande logo Colin Crouch, é “o avanço da pós-
tado-empresa faz um eco distante pa-
ra o Estado-Igreja da Idade Média. O
grupo, em especial o Google, a Ama-
zon, o Facebook, a Apple e a Microsoft.
-democracia que serve de base para o
poder político crescente adquirido pe- Na luta
Estado e a empresa representam, aliás, Esse seria até mesmo o projeto político las empresas”.16 É bem por isso que
“dois produtos derivados” nos séculos do Vale do Silício, como resumiu o jor- uma repolitização do político só pode-
XII-XIII da mesma matriz institucio-
nal: a Igreja.5 Desde então, historica-
nalista Philippe Vion-Dury: “O que é
proposto nesse caldeirão de ideias rá-
rá se dar por meio de uma extensão da
cidadania para além da esfera pública, pela
mente, três formas principais foram pidas californiano é uma sociedade especialmente na empresa.
observadas nas metamorfoses do Es- baseada no piloto automático, autor-
tado: primeiro, o Estado-Igreja oriun- regulável graças a dispositivos algorít- *Pierre Musso é professor do Instituto de
do da Revolução Gregoriana (séculos
XI-XII), separando e hierarquizando o
micos”.11 Um dos gurus do Vale do Silí-
cio, Tim O’Reilly, anuncia que o tempo
Estudos Avançados de Nantes, França. Autor
do livro Le Temps de l’État-entreprise. Berlus-
construção
poder espiritual do papa e o poder da “regulação algorítmica” chegou e coni, Trump, Macron [O tempo do Estado-
temporal do imperador; depois, o Es- que o governo tem de “entrar na era do -empresa. Berlusconi, Trump, Macron], Fa-
tado soberano, associado às revolu-
ções dos séculos XVI e XVII, à Reforma
big data”.12
A tecnicização do político leva à
yard, Paris, 2019. de uma
Alemã e à Revolução Inglesa; e, final- neutralização e à despolitização do Es-
1 “Andrej Babiš: ‘L’Europe à deux vitesses, ça me fait
mente, o Estado-empresa, produto das tado pela grande empresa, que o desar- rigoler’” [Andrej Babiš: “A Europa em duas veloci-
revoluções industriais e gerenciais dos
séculos XIX e XX.
ma, como ele mesmo fez com a Igreja.
Na encruzilhada de cibernética, gestão
dades, isso me faz rir”], Le Monde, 6 dez. 2017;
declarações de Erdogan relatadas pelo cientista
sociedade
político turco Ismet Akça, France 24, 14 jul. 2018.
No final do século XIX, e em parti- e liberalismo, o Estado-empresa se im- 2 Ler François Denord e Paul Lagneau-Ymonet, “Les
cular com a “revolução gerencial”, a pôs após a queda do Muro de Berlim, vieux habits de l’homme neuf” [Os velhos hábitos do
grande empresa estendeu sua esfera
de atividade e entrou no campo políti-
que marcou o apogeu das críticas ao
estatismo. Desde então, ele se desen-
novo homem], Le Monde Diplomatique, mar. 2017.
3 Lucien Sfez, La Symbolique politique [A política
simbólica], Presses Universitaires de France, Pa-
mais justa,
co para ali conquistar a hegemonia volveu combinando três dimensões: ris, 1988.
cultural, como o poder público havia tecnológica, em favor da governança 4 Michel Foucault, Naissance de la biopolitique.
Cours au Collège de France, 1978-1979 [Nasci-
submetido o campo teológico-religio-
so para chegar à soberania. O Estado,
por números e da governamentalidade
algorítmica;13 neogerencial, em nome
mento da biopolítica. Curso no Collège de France,
1978-1979], Ehess-Gallimard-Seuil, Paris, 2004.
solidária e
que em sua origem havia se beneficia- da ação eficaz; e neoliberal, enfatizan- 5 Pierre Legendre, Argumenta & Dogmatica, Mille et
une Nuits, Paris, 2012.
do da sacralidade da Igreja, viu-se por do a fobia do Estado, na continuidade 6 Thorstein Veblen, The Theory of Business Enter-
sua vez dessacralizado e reduzido a
um simples aparelho técnico-admi-
dos trabalhos de Friedrich Hayek, da
sociedade de Mont-Pèlerin e da Escola
prise [A teoria da empresa de negócios], C. Scrib-
ner’s Sounds, Nova York, 1904.
7 Vincent Descombes, Les Institutions du sens [As
sustentável.
nistrativo. O sociólogo Thorstein Ve- de Chicago. Hayek já convidava a “des- instituições do significado], Les Éditions de Minuit,
blen considera desde o início do século tronar a política” em nome da chama- Paris, 1996.
XX a empresa como instituição econô- da ordem “espontânea” do mercado: “A 8 Ulrich Beck, The Reinvention of Politics: Rethinking
Modernity in the Global Social Order [A reinvenção
mica cardeal do capitalismo.6 Mas es- política assumiu um lugar importante da política: repensando a modernidade na ordem
sas duas instituições, Estado e empre- demais, tornou-se muito onerosa e social global], Polity Press, Cambridge, 1997.
sa, não são apenas poderes econômicos prejudicial, absorvendo muita energia 9 Ernest Renan, L’Avenir de la science: pensées de
1848 [O futuro da ciência: pensamentos de 1848],
e técnicos, mas também poderes cul- mental e recursos materiais”14 – o que Calmann-Lévy, Paris, 1890. Quartas, às 17h,
turais e sociais. “As instituições”, lem- só poderia coroar a empresa. Fundador 10 Dominique Dubarle, “Une nouvelle science: la Rádio USP (São Paulo: 93,7 FM
bra o filósofo Vincent Descombes, “são do Grupo de Bilderberg e da Comissão cybernétique. Vers la machine à gouverner” [Uma
nova ciência: a cibernética. Rumo à máquina de Ribeirão Preto: 107,9 FM)
maneiras de pensar tanto quanto ma- Trilateral, David Rockefeller constata- governar], Le Monde, 28 dez. 1948.
neiras de agir.”7 É por isso que, com a va em 1999: “Nos últimos anos tem 11 Philippe Vion-Dury, La Nouvelle Servitude volon-
intensificação das revoluções indus- havido uma tendência à democracia e taire. Enquête sur le projet politique de la Silicon
Valley [A nova servidão voluntária. Investigação
Quartas, à meia-noite
triais, a produção intelectual das so- à economia de mercado em muitas sobre o projeto político do Vale do Silício], FYP TV Aberta SP, canais 9 da NET, 8 da
ciedades foi mudando de uma institui- partes do mundo. Isso reduziu o papel Éditions, Limoges, 2016.
12 Tim O’Reilly, “Open data and algorithmic regula- Vivo Fibra e 186 da Vivo.
ção para outra: “A constelação política dos governos, algo a que os homens de
tion” [Dados abertos e regulação algorítmica]. In:
das sociedades industriais tornou-se negócios são favoráveis [...]. Mas o ou- Open Data and the Future of Civic Innovation [Da-
apolítica, enquanto o que era apolítico tro lado da moeda é que alguém tem dos abertos e o futuro da inovação cívica]. Disponí-
no industrialismo se tornou político”, de tomar o lugar dos governos, e o bu- vel em: <https://beyondtransparency.org>.
13 Ler Alain Supiot, “Le rêve de l’harmonie par le cal-
resume o sociólogo Ulrich Beck.8 siness parece-me a entidade lógica pa- cul” [O sonho da harmonia pelo cálculo], Le Mon-
Após a Segunda Guerra Mundial, ra fazê-lo”.15 de Diplomatique, fev. 2015; Antoinette Rouvroy e
para evitar novos erros criminosos e Numa época de hiperindustriali- Thomas Berns, “Gouvernementalité algorithmique
et perspectives d’émancipation” [Governamentali- observatorio3setor
catastróficos por parte dos líderes po- zação e da visão de mundo que lhe é dade algorítmica e perspectivas de emancipação],
líticos, a cibernética e o gerenciamen- associada, ou seja, uma verdadeira re- Réseaux, n.177, Paris, 2013.
to convergiram para defender o proje- ligião industrial, a corporação tende a 14 Friedrich Hayek, Droit, législation et liberté, partie 3
to de um poder autômato, ainda mais se tornar o novo poder político-cultu-
[Direito, legislação e liberdade, parte 3], Presses observatorio3setor
Universitaires de France, 2013 (1. ed.: 1979).
“eficaz”. Hoje, a humanidade seria “or- ral. O advento do Estado-empresa é a 15 David Rockefeller, “Looking for a new leadership”
ganizada cientificamente”, como fissão da política. É por isso que o siste- [Em busca de uma nova liderança], Newsweek In-
ternational, Nova York, 1º fev. 1999. www. observatorio3setor.org.br
anunciou em 1848 o jovem Ernest Re- ma político produz sua própria negati- 16 Colin Crouch, Post-démocratie [Pós-democracia],
nan.9 Governar sociedades como má- vidade ao se descentralizar rumo à Diaphanes, Zurique-Berlim, 2005.
30 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

O FIASCO DO RUSSIAGATE

Um presente dos democratas


para Donald Trump
A campanha presidencial norte-americana de 2020 começou. Do lado democrata, alguns seguem obstinados em promover
a destituição parlamentar de Donald Trump, por obstrução à justiça. Outros estimam que as conclusões do relatório Mueller
arruinaram tal estratégia e desejam que os democratas centrem fogo finalmente nas escolhas políticas do presidente
POR AARON MATÉ*

relatório do promotor especial Esse caso, aliás, terá gasto tempo e clear do Irã. Alguns previam que, após retirar seus soldados estacionados

O Robert Mueller é inequívoco:


ele rejeita radicalmente a teoria
da conspiração que considerava
Donald Trump um fantoche da Rússia.
Não existe nenhuma prova de conluio
energia consideráveis dos adversários
do presidente. As primeiras semanas
de seu mandato tinham deixado en-
trever um lampejo de esperança, com
grandes mobilizações feministas e ou-
a demissão de Sessions, Mueller sofre-
ria o mesmo destino. Estavam errados.
É verdade que Trump criticou regular-
mente e com intensidade, no Twitter, a
investigação do promotor, mas os ad-
perto da fronteira com a Rússia (18 jan.
2017). Aos olhos de Maddow, os pode-
res de Putin se estenderiam para além
da Casa Branca: a Rússia – ela anun-
ciou durante uma onda de frio – teria
entre Moscou e o lado republicano tras contra seu decreto que proibia a vogados do presidente, optando por ameaçado cortar a energia de milhões
com o objetivo de hackear e-mails da entrada em território norte-america- uma estratégia de “cooperação em um de norte-americanos, com risco de
equipe de campanha de Hillary Clin- no de cidadãos de Estados de maioria nível sem precedentes” – nas palavras matá-los.
ton em 2016. Nada há que venha corro- muçulmana. Mas o impulso rapida- de Kenneth Starr, ex-promotor espe- Essa ruína político-midiática apre-
borar as acusações de ligações entre mente se perdeu; em vez de construí- cial encarregado da investigação sobre senta notáveis semelhanças com a
vários conselheiros de Trump e perso- rem um movimento capaz de contes- Bill Clinton –, entregaram mais de 20 campanha de propaganda que levou à
nalidades, russas ou não, apresenta- tar as políticas do hóspede da Casa mil páginas de documentos e apresen- guerra no Iraque, quando a esmagado-
das como intermediárias do Kremlin. Branca, os democratas optaram por taram dezenas de testemunhas. ra maioria dos meios de comunicação
Em seu relatório, Mueller nega o elaborar uma teoria digna de um ro- acusou, erroneamente, o presidente
significado de cada um dos elementos mance de espionagem. iraquiano, Saddam Hussein, de pos-
de prova que deveriam apoiar a tese da suir armas de destruição em massa e
conspiração russa: o encontro na O PAPEL ATIVO DOS SERVIÇOS SECRETOS
“Não sei se recebi de manter ligações com a Al-Qaeda.
Trump Tower em junho de 2016; os es- Essa estratégia certamente benefi- informações Também nesse caso os serviços se-
forços (vãos) para construir uma ciou aqueles entre eles que ganharam erradas, cretos desempenharam um papel ati-
Trump Tower em Moscou; a rejeição de notoriedade ao fazer espumar as ban- mas acho que vo. Em outubro de 2016, por exemplo, o
uma emenda relacionada com a Ucrâ- cadas de televisão. Adam Schiff, da FBI solicitou um mandado de monito-
nia na plataforma republicana de 2016; Câmara dos Representantes da Cali-
imaginei mais ramento (Foreign Intelligence Surveil-
a colaboração entre Paul Manafort, o fórnia, repetidamente deixou enten- coisas do que lance Act, Fisa) para Carter Page, um
diretor de campanha do bilionário, e der que Mueller acabaria por inculpar realmente havia” ex-membro da equipe de campanha
Konstantin Kilimnik, um consultor Trump. Aliás, ele afirmou ter enxerga- de Trump, alegando que “os esforços
político; as conversas (gravadas) do ex- do pessoalmente “mais que evidên- da [Rússia] são coordenados com Page
-tenente-general Michael Flynn, apoia- cias [de conluio] indiretas”. Sua deter- e talvez com outros indivíduos asso-
dor de Trump, com o embaixador rus- minação em defender a tese da O fiasco do Russiagate valoriza ou- ciados [à campanha de Trump]”.1 A
so; e muito mais... Daí a conclusão de conspiração com a Rússia o levou a ser tro elemento central do discurso de fonte dessa afirmação deve ser busca-
Mueller: “Definitivamente, as investi- considerado por alguns jornalistas co- Trump, que apresenta a grande mídia da no Dossiê Steele, uma coleção de
gações não estabeleceram que a equi- mo “o pior pesadelo de Trump” – mes- norte-americana como uma das prin- documentos explosivos coletados pelo
pe de campanha [de Trump] se coor- mo que ele tenha votado a favor do au- cipais fontes de fake news. Por mais de ex-agente dos serviços de inteligência
denou ou conspirou com o governo mento do orçamento militar e da dois anos, Rachel Maddow, a âncora britânicos Christopher Steele à custa
russo no quadro de atividades desti- extensão dos poderes de vigilância do da MSNBC, cativou os espectadores da oposição democrata. Para justificar
nadas a interferir nas eleições”. Esse presidente, e tenha apoiado sem reser- alimentando uma paranoia digna dos seu pedido de mandado, o FBI descre-
cenário foi, portanto, totalmente vas sua política na Venezuela. mais obscuros fóruns on-line, mas veu esse relatório como uma “fonte de
montado; nenhuma ação judicial será Os democratas estiveram tão obce- com os meios de uma rede de informa- primeiro plano”, “crível”. Ao dar credi-
movida contra um cidadão norte-a- cados pelo Russiagate que protesta- ções 24 horas. Entre muitas outras teo- bilidade a esse texto, que defendia a hi-
mericano por conspiração com a Rús- ram em grande número, e com grande rias, a jornalista afirmou, em 27 de fe- pótese de uma conspiração de longa
sia na eleição presidencial de 2016. alarde, contra a demissão do ministro vereiro de 2017, que Vladimir Putin data e de alto nível entre Trump e o
Sem ofensa às personalidades do da Justiça, Jeff Sessions, um republica- estava por trás da contratação de Ma- Kremlin, o FBI cobriu-se de ridículo.
Partido Democrata, a investigação que no de extrema direita conhecido por nafort e da indicação de Rex Tillerson, Os responsáveis pela inteligência
eles elevaram ao posto de prioridade seu passado racista que Trump acusou o presidente da ExxonMobil, para o também encorajaram rumores de
“permanente e principal”, nas palavras de falta de lealdade nesse caso. Eles se cargo de secretário de Estado. Segundo conluio ao transmitirem informações
de Jennifer Palmieri, ex-assessora de insurgiram muito menos contra a re- ela, o presidente russo também teria anônimas, e às vezes falsas, para jor-
campanha de Hillary Clinton, trans- forma tributária do presidente (uma estimulado seu colega norte-america- nalistas ingênuos. O exemplo mais
formou-se em um presente para a cam- transferência sem precedentes de ri- no a “sangrar” o FBI e “enfraquecer” o marcante: em fevereiro de 2017, o New
panha pela reeleição de Trump. “Sem queza para os mais privilegiados), Departamento de Estado (9 mar. 2017); York Times escreveu que investigado-
conluio”: o mantra do presidente, por contra o desmantelamento da lei de ele o teria convencido a interromper res norte-americanos tinham obtido
muito tempo ridicularizado pela opo- seguro-saúde de Barack Obama ou, suas manobras militares na Coreia do “extratos e registros telefônicos” que
sição e pela mídia democrata, pode ainda, contra a retirada dos Estados Sul e, graças a um vídeo compromete- provavam que os parentes de Trump
agora contar com a garantia do herói Unidos do Acordo de Paris sobre o Cli- dor, estaria em condições de chanta- haviam mantido “contatos repetidos
da “resistência anti-Trump”, Mueller... ma e do tratado sobre a energia nu- geá-lo para forçar os Estados Unidos a com agentes de inteligência russos du-
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 31

cias” o teria “preocupado”: “Trump ra Fria faz subir em mais um degrau as


chamou a atenção dos agentes de con- tensões, sem perspectiva de solução.
traespionagem do FBI quando pediu à Em suma, o Russiagate não é a bem
Rússia que hackeasse os e-mails de dizer um escândalo; em vez disso, ex-
sua rival durante uma coletiva de im- pressa os interesses dos poderosos cír-
prensa, em julho de 2016. Ele se recu- culos que o alimentaram. É o produto
sou a criticar a Rússia durante sua natural de um sistema político-midiá-
campanha e elogiou fortemente o pre- tico em que se combinam as priorida-
sidente Vladimir Putin. Os investiga- des das duas principais facções: os de-
dores também foram alertados pelo mocratas e os republicanos, ou, mais
© West Point – The U.S. Military Academy

fato de que o Partido Republicano ha- amplamente, os chamados progressis-


via flexibilizado sua agenda de nego- tas e conservadores. Trata-se, portan-
ciações sobre a crise ucraniana, numa to, de uma patologia específica dos
direção que parecia beneficiar a Rús- privilegiados.
sia”. Assim, o FBI desencadeou uma O fiasco do Russiagate é o sintoma
investigação extraordinária sobre o de um duplo desastre: um presidente
presidente dos Estados Unidos tendo megalomaníaco contestado por uma
por base eventos públicos que ele in- oposição monomaníaca, e ambos, ca-
terpretou maliciosamente. O comen- da um a seu modo, induziram os cida-
tário de Trump em julho de 2016 era dãos em erro para fins partidários.
Robert Muller em palestra na Academia Militar de West Point uma piada, e a reviravolta quanto à Diante de Trump, a oposição só sabe
crise da Crimeia se mostrou ineficaz fazer uma coisa: “resistir” à realidade
quando, ao contrário de seu anteces- de sua eleição. Essa negação impede o
rante o ano anterior às eleições”.2 Qua- do Russiagate para a CNN. “Os russos”, sor, ele vendeu armas para a Ucrânia. desenvolvimento de uma mobilização
tro meses depois, James Comey, ex-di- ele anunciou em maio de 2017, “são Além disso, se é legítimo investigá-lo eficaz dos cidadãos que sofrem com as
retor do FBI, admitiu diante do Senado quase geneticamente inclinados a porque ele “se recusou a criticar a Rús- políticas da Casa Branca e são ampla-
que “não era verdade”. Mas ainda esta- cooptar, infiltrar-se, ganhar favores, e sia durante sua campanha” e “elogiou mente indiferentes a essa presunção
mos esperando o diário nova-iorquino assim por diante; essas são técnicas tí- fortemente o presidente Vladimir Pu- de conluio. Mas essa obsessão demo-
corrigir seu erro. picas russas.”4 tin”, por que não fazer o mesmo de- crata também fortaleceu a lealdade da
Outro ponto comum com a guerra pois de seus repetidos elogios a líderes base trumpista: a manipulação parti-
no Iraque: os próprios protagonistas. “EU ODEIO OS RUSSOS” de Israel e da Arábia Saudita? dária da investigação federal deu ao
John Brennan, diretor da CIA sob a pre- Esses comentários delirantes fa- As falsificações levadas a efeito nes- presidente muitas oportunidades de
sidência de Obama, já ocupava um car- lam muito sobre o estado de espírito se caso apresentam, no entanto, uma explorar as tradicionais queixas repu-
go importante na agência pouco antes subjacente à saga Trump-Rússia. “Eu grande diferença em relação àquelas blicanas contra as elites desconecta-
da invasão do Iraque. E ele não se opu- odeio os russos”, declarou Lisa Page, da guerra no Iraque. O apoio a esse das do povo que procurariam subver-
sera em nada à farsa montada por seus uma jurista do FBI, em suas audiên- conflito era definitivamente bipartidá- ter sua vontade.
superiores para justificar a guerra. Se- cias no Congresso (13 e 16 jul. 2018). rio. Como resultado, nenhum líder po- Assim, o Russiagate exacerbou a
gundo seu próprio testemunho, Bren- “Acredito que, tendo em vista os ideais lítico e nenhum jornalista norte-ame- crise de envolvimento democrático
nan desempenhou papel importante ocidentais, o que somos e o que defen- ricano sofreram as consequências de que a América está experimentando.
no desencadeamento da investigação demos como norte-americanos, a Rús- suas mentiras; alguns até subiram na Alimentou o chauvinismo, reforçou as
sobre as ligações de Trump com a Rús- sia é uma grande ameaça para nosso classificação. Em contrapartida, o Rus- divisões partidárias, trouxe para o to-
sia. Mesmo depois de deixar o cargo, modo de vida.” Enquanto lançava a in- siagate é um assunto extremamente po alguns atores nocivos do sistema
em janeiro de 2017, ele continuou a pro- vestigação do FBI sobre as ligações en- partidário. Agora que Mueller termi- norte-americano – as agências de inte-
mover a acusação de conluio, sobretu- tre a campanha de Trump e o Kremlin, nou seu relatório, Trump passou de no- ligência, em particular, que puderam
do como comentarista da MSNBC. em julho de 2016, o policial Peter Str- vo à ofensiva. se apresentar como garantidoras das
Nessa lucrativa tribuna, ele chamou o zok enviou para Page um SMS redigido liberdades. O colapso da teoria da
presidente norte-americano de “trai- em uma linguagem florida: “Russos de conspiração russa decepciona os ini-
dor [...] lambe-botas de Putin”. Em merda... Filhos da mãe! Eu os odeio... migos de Trump, mas também traz um
março passado, o ex-diretor da CIA Eles são provavelmente os piores de As falsificações vislumbre de esperança. Agora que as
ainda teve a ousadia de prever que uma todos. Trapaceiros selvagens e intri- levadas a efeito nesse fantasias de conluio foram dissipadas,
onda de acusações se abateria sobre o gantes. Na política, no atletismo, em caso apresentam, se eles concordarem em reconhecer
círculo íntimo de Trump. Depois de o todos os lugares. Felizmente estou no que figuras de alto escalão de seu pró-
relatório Mueller ter despedaçado suas lado dos Estados Unidos”. À luz dessa
no entanto, uma grande prio lado mentiram conscientemente
profecias, Brennan mudou de tom: animosidade, compreende-se por que diferença em relação aos eleitores, os democratas poderiam
“Não sei se recebi informações erra- os julgamentos benevolentes expres- àquelas da guerra no se reconectar com certas realidades da
das”, declarou na MSNBC (26 mar. sos por Trump em relação a Putin du- Iraque sociedade norte-americana que igno-
2019), “mas acho que imaginei mais rante a campanha presidencial de ram há mais de dois anos.
coisas do que realmente havia”. 2016 só pudessem despertar a preocu-
Em outubro de 2003, o governo de pação e o espanto de muitos altos fun- *Aaron Maté é jornalista.
George W. Bush tinha dificuldades pa- cionários, a ponto de motivar a aber- No entanto, os dois partidos prova-
ra explicar por que ainda não havia en- tura de uma investigação. No dia 11 de velmente continuarão a constituir 1 Citado em David Shepardson, “FBI releases docu-
ments on former Trump adviser surveillance” [O
contrado as famosas armas de des- janeiro, o New York Times chegou a re- uma frente comum quando se trata de FBI divulga documentos sobre o assessor de se-
truição em massa. James Clapper, velar que o FBI havia iniciado uma se- demonizar a Rússia. Enquanto o Rus- gurança de Trump], Reuters, 22 jul. 2018.
diretor da Agência Nacional de Ima- gunda investigação em maio de 2017, siagate monopolizava os democratas, 2 Michael S. Schmidt, Mark Mazzetti e Matt Apuzzo,
“Trump campaign aides had repeated contacts with
gem e Mapeamento (National Imagery para determinar se Trump “agia sob as os líderes republicanos ligados ao Pen- Russian intelligence” [Assessores da campanha de
and Mapping Agency), afirmava então ordens da Rússia contra os interesses tágono e às agências de inteligência re- Trump tiveram contatos repetidos com a inteligên-
que imagens de satélite tinham mos- norte-americanos”. cusavam ferozmente qualquer relaxa- cia russa], The New York Times, 14 fev. 2017.
3 Douglas Jehl, “The struggle for Irak: Weapons
trado de forma “indubitável”3 o deslo- O artigo não faz nenhuma referên- mento nas relações com Moscou. search; Iraqis removed arms material, US aide
camento do arsenal ilícito para a Síria. cia aos elementos que poderiam ter Graças a esse caso, líderes políticos de says” [A luta pelo Iraque: busca por armas; iraquia-
Ele se tornou diretor de inteligência fundamentado os temores do FBI. Ne- todos os lados legitimam suas ambi- nos removeram material de armas, diz assessor
dos EUA], The New York Times, 29 out. 2003.
nacional sob a presidência de Obama e le simplesmente se fica sabendo que ções militares sob o pretexto de defen- 4 “Meet the Press” [Encontre a imprensa], NBC
mais tarde passou a ser comentarista uma “convergência de circunstân- der a pátria. Esse novo teatro da Guer- News, 28 maio 2017.
32 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

ACESSO FACILITADO ÀS UNIVERSIDADES E EMPRESAS

Pequim pisca o olho para


os cidadãos taiwaneses
Um ano após as eleições presidenciais em Taiwan, a oposição à independentista Tsai Ing-wie tenta recuperar terreno:
o dono da Foxconn, fabricante da Apple na China, anunciou sua candidatura para as primárias do partido Kuomintang,
claramente pró-chinês. Enquanto aos olhos de Taipei Pequim endureceu sua política, Xi Jinping procura seduzir os taiwaneses
POR ALICE HERAIT*

tempo de escola. “Em Taiwan, o as-


sunto da China é onipresente, mas não
sabemos realmente o que está aconte-
cendo lá. Eu fui porque queria ver por
mim mesma, mas principalmente
porque era barato”, diz Lin, que pas-
sou o verão de 2012 na província de
Guangdong, no sul da China. A mesma
coisa para Cheng, que em 2014 foi rea-
lizar um estágio de jornalismo de dois
© Rapha Baggas

meses na Beijing TV Network, a princi-


pal rede de televisão de Pequim, uma
experiência que ela vê como uma
chance para estudantes curiosos e
sem grana: “Os chineses raramente
têm a oportunidade de fazer esse tipo
m 20 de março de 2018, uma at- (OMS), da qual participou até 2017; logos no continente” (1º mar. 2018), de estágio, mas para mim foi bastan-

E mosfera solene reinava na con-


ferência final do 13º Congresso
Nacional do Povo. Xi Jinping, re-
cém-reeleito presidente da República
Popular da China (RPC), anunciava:
forçou sites de companhias aéreas in-
ternacionais a incluir a ilha na China.
Finalmente, continuou sua política de
chantagem para isolá-la diplomatica-
mente: apenas dezessete países agora
nem mais nem menos.
De fato, o governo chinês tenderia
até a favorecê-los. Assim, os critérios
de admissão nas melhores universida-
des são atenuados para os estudantes
te fácil. Os jornalistas me receberam
muito calorosamente. No entanto,
meus colegas deixaram claro para
mim que Taiwan era um assunto ta-
bu. Da mesma forma, o editor-chefe
“Estamos prontos para compartilhar reconhecem Taiwan, cinco a menos do ensino médio de Taiwan, que tam- elaborou uma lista semanal de tópi-
as chances de desenvolvimento do que em 2016. bém podem se beneficiar de bolsas de cos internacionais que não deveriam
continente com nossos compatriotas Para Chao Wen-chih, diretor do estudo e de moradia. Agora, é mais fá- ser discutidos”.
de Taiwan, para melhorar seu bem- Instituto de Assuntos Internacionais e cil para um jovem taiwanês estudar na Se a imprensa e uma parte do pú-
-estar e para avançar no processo de Estratégicos da Universidade Chung renomada Universidade de Pequim, blico taiwanês estão alarmados com
reunificação pacífica da China”.1 Por Cheng em Chiayi, Taiwan, a diretriz da dispondo de uma melhor integração isso, essas partidas não parecem preo-
meio dessas palavras, os taiwaneses China não mudou desde 1979, quando no mercado de trabalho chinês, do cupar o governo. Para Wu Chih-chung,
eram calorosamente convidados a o presidente Deng Xiaoping pronun- que para um jovem do continente, que representante de Taiwan na França,5 a
ver o que a pátria-mãe podia lhes ofe- ciou seu primeiro discurso em favor da enfrenta forte concorrência e paga al- estratégia de Pequim é ineficaz: “Os
recer. Mais poderoso que nunca, o lí- reunificação. “A única diferença”, ele tas mensalidades. E isso vale para todo taiwaneses queixam-se de baixos sa-
der chinês recordava as intenções da explica, “é que o país é muito mais po- o território. Assim, a seletiva Universi- lários, mas o poder de compra perma-
RPC, cuja Constituição de 1982 prevê deroso que antes. E, portanto, se per- dade de Zhejiang, que em 2017 recebeu nece relativamente confortável. Se a
em seu preâmbulo a reunificação mite agir unilateralmente. Pequim 150 candidaturas taiwanesas, regis- China espera conquistar 100% de Tai-
com Taiwan. aplica uma política ‘dura’ às institui- trou seiscentas no ano passado. wan para sua causa, será preciso que
Esse discurso veio em um momen- ções taiwanesas e uma política ‘bran- Desde a abertura dos voos diretos seu crescimento continue a ser de 10%
to de grandes tensões. Em 2016, Tsai da’ a seus cidadãos.” entre a China continental e Taiwan, ao ano. Na verdade, esse ritmo está di-
Ing-wen,2 recém-eleita presidente da Por “políticas brandas”, ele se refe- em 2008, universidades e organismos minuindo, e os chineses também têm
ilha, recusou-se a reconhecer o “con- re à estratégia de sedução implantada privados aumentaram a oferta de in- problemas de desemprego. Além dis-
senso de 1992”, que proclamou a exis- para conquistar o coração de parte da tercâmbios, de acampamentos de ve- so, conceder privilégios nem sempre é
tência de uma única China, de acordo população. Em fevereiro de 2018, o Es- rão ou de estágios no Império do Meio, sábio. Digamos que a China ofereça
com a fórmula “Um país, dois siste- critório de Assuntos de Taiwan anun- e isso com preços que desafiam qual- bons empregos e bons salários para os
mas” – Pequim e Taipei sendo livres ciou 31 medidas para atrair mais cida- quer concorrência. ONGs, como a As- taiwaneses. Qual será o sentimento
para determinar qual “China” é legíti- dãos da ilha. Doze delas dizem respeito sociação das Elites Chinesas (ACE), dos chineses se eles próprios não con-
ma –, que permitiu desenvolver as re- ao acesso ao mercado chinês, incluin- dedicam-se inteiramente a estadias na seguem obter isso?”.
lações entre as duas. Desde então, Pe- do uma isenção de impostos para em- parte continental da China. No pro-
quim multiplicou as provocações: presas; as outras visam promover o grama: visitas a locais históricos e em- A POPULAÇÃO PELO STATU QUO
apenas entre julho e dezembro de 2017, acesso ao emprego e a intercâmbios presas importantes, seminários e esta- Xi Jinping está contando com a in-
a Força Aérea Chinesa roçou por cator- culturais. Para o porta-voz da agência, belecimento de contatos. fluência econômica de seu país para
ze vezes a zona de defesa aérea de Tai- An Fengshan, citado na revista taiwa- Graduadas na prestigiosa Universi- seduzir e incentivar a adesão ao seu
wan.3 O governo de Xi também fez lob- nesa CommonWealth, essas medidas dade Nacional de Taiwan (NTU), Katie sistema de pensamento. Mas esse cál-
by para excluir Taiwan de órgãos como “sem precedentes” colocam os ilhéus Lin e Iris Cheng4 participaram ambas culo não necessariamente vence do
a Organização Mundial da Saúde “em pé de igualdade com seus homó- de uma estadia desse tipo durante seu outro lado do estreito. “Em Taiwan,
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 33

deixar o emprego para aumentar sua dades de acesso a serviços médicos, O desejo de independência tinha cres- que estuda em Pequim há dois. “Estou
renda em 25% é considerado preten- censura, poluição... Muitos preferem cido em reação à política pró-China do comprometida com a democracia que
sioso. Na China, se um candidato não voltar, mesmo para ganhar menos”. ex-presidente Ma Ying-jeou”. reina em Taiwan. Aqui, quando somos
negociar seu salário, considera-se que Não há com que se preocupar, en- Em 2014, a intensificação do co- taiwaneses, eles constantemente nos
ele não tem autoconfiança e não é tão. Especialmente tendo em vista mércio entre a China e Taiwan tinha pressionam a dizer que somos chine-
competente”, assegura Bonnie Cheng, que, de acordo com Wu Chih-chung, causado um renascimento do senti- ses. Os usuários da internet passam
estabelecida em Xangai há seis meses. “a fuga de cérebros não é um fenôme- mento antichinês e um forte movi- por cima de tudo que pareça antipa-
Após seus estudos, essa taiwanesa de no novo, e a primeira escolha nunca é mento de protesto, conhecido como o triótico. Paradoxalmente, isso me dis-
25 anos preferiu tentar a sorte aqui; ela a China”. Uma pesquisa realizada pela “movimento dos girassóis”.7 Mas, de tancia ainda mais da ideia de que sou
encontrou um emprego em menos de revista taiwanesa Business Weekly (4 acordo com Lepesant, essa admiração chinesa.”
duas semanas. No entanto, está relu- abr. 2016) confirma o que ele diz: se pela causa separatista caiu depois da
tante em permanecer por um longo eles pudessem escolher, o destino fa- eleição de Tsai, menos conciliatória *Alice Herait é jornalista.
tempo, argumentando de forma edu- vorito dos jovens seria o Japão, seguido com Pequim. A maioria dos taiwane-
cada que gosta moderadamente dos de longe por países ocidentais (Esta- ses não apoia a reunificação nem a in-
“usos e costumes dos chineses”, que dos Unidos e Europa) e por Cingapura. dependência, e sim a manutenção pa-
ela considera muito “materialistas”. Só então aparece a China continental. cífica do statu quo. “Eles se consideram 1 “Speech delivered by Xi Jinping at the first session
of the 13th NPC” [Discurso de Xi Jinping na primei-
Para Tanguy Lepesant, pesquisa- Embora ainda seja cedo demais ao mesmo tempo chineses e taiwane- ra sessão do 13º CNP], Xinhua, 21 mar. 2018.
dor especialista da juventude taiwane- para medir o impacto dos 31 incenti- ses; ‘chineses’ no sentido de que per- 2 Ler Tanguy Lepesant, “Taïwan en quête de souverai-
sa associado ao Centro de Estudos vos de Xi, Lepesant acha pouco prová- tencem não à nação chinesa, mas a um neté économique” [Taiwan em busca de soberania
econômica], Le Monde Diplomatique, maio 2016.
Franceses sobre a China Contemporâ- vel que eles permitam conquistar o co- espaço da civilização chinês. Os 3% 3 “China-Taïwan tensions drive military exercises”
nea (CEFC), é acima de tudo a pers- ração dos taiwaneses: “Estudos que afirmam pertencer à nação chine- [Tensão entre China e Taiwan impulsiona exercí-
pectiva de uma carreira estimulante mostram um ligeiro declínio no apoio sa são geralmente idosos, que culti- cios militares], Jane’s Intelligence Review, Lon-
dres, 2018.
que atrai os taiwaneses do outro lado à independência. Em 2016, 22,9% dos vam um sentimento de nostalgia.” 4 O nome das pessoas que deram testemunhos foi
do estreito: “Os jovens aproveitam a entrevistados disseram que queriam A experiência da China entre os jo- modificado a pedido delas.
oportunidade, porque sofrem com as independência imediata ou a termo, vens, que tradicionalmente se sentem 5 A França reconhece a política de “uma só China”;
Taipei não dispõe ali de uma embaixada, mas de
condições de trabalho difíceis, os salá- em comparação com 20,3% em 2018.6 mais taiwaneses que os mais velhos, um escritório de representação.
rios por demais baixos e os aluguéis A imprensa chinesa se felicita por isso. ao que parece poderia ter um efeito 6 “Changes in the Taïwanese/Chinese identity of Taï-
muito altos em Taiwan. Mas aqueles No entanto, esse declínio não resulta oposto àquele buscado pelo presidente wanese” [Mudanças na identidade taiwanesa/chi-
nesa dos taiwaneses], Universidade Nacional de
que optam por sair sofrem um declí- da política de sedução de Xi. Trata-se Xi: “Eu não me sinto mais chinesa que Chengchi, Taipei, 30 jan. 2019.
nio em sua qualidade de vida. Dificul- de uma espécie de retorno ao normal. antes”, diz Jenny Wang, de 24 anos, 7 Ler Tanguy Lepesant, op. cit.

Ministério da Cidadania
e Secretaria Especial de Cultura, 30 de maio a 12 de junho . 2019
Governo do Estado de São Paulo,
Secretaria de Cultura e Economia Criativa
e Ecofalante apresentam

PATROCÍNIO APOIO PRODUÇÃO CO-PRODUÇÃO

CORREALIZAÇÃO REALIZAÇÃO
34 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

UM HERÓI TRANSFORMADO EM HOMEM A SER ABATIDO

O indomável Julian Assange


Refugiado político desde 2012 na Embaixada do Equador em Londres, Julian Assange foi levado pelas autoridades britânicas
no dia 11 de abril. Se extraditado para os Estados Unidos, o fundador do WikiLeaks corre sérios riscos. Revelando milhões de
documentos sensíveis, ele fez o trabalho que se espera dos jornalistas. Será por isso que seus colegas o abandonaram?
POR JUAN BRANCO*

L
ondres, 9 de novembro de 2016. A verno. Lenín Moreno, prestes a ser em- brir a verdadeira face das “guerras lim-
alvorada apenas começa a des- possado presidente no lugar de Rafael pas” lideradas pelos Estados Unidos no
pontar, e o australiano de 45 anos Correa, recusou-se a falar com Assan- Oriente Médio desde 2001 – conflitos
e 1,88 metro de altura trabalha, ge. E o WikiLeaks acaba de tornar pú- que até então haviam majoritariamen-
debruçado em seu computador. No blico o arsenal digital da CIA, desati- te apoiado. As provas de milhares de
andar térreo de um prédio de tijolos, vando de fato todas as armas usadas crimes de guerra e contra a humanida-
acariciando sua barba oblonga e seu pela agência para hackear seus alvos. de publicadas nos meses seguintes pe-
cabelo branco, ele sabe que, como to- O governo Trump, furioso, finalmente lo WikiLeaks nos Afghanistan War Logs
dos os dias há quatro anos, está cerca- entende que tem um dissidente diante e Iraq War Logs, em parceria com os
do por cinquenta policiais e por um de si, e não o aliado que acreditava que mais prestigiados jornais ocidentais,
número desconhecido de agentes de poderia absorver. levaram Assange ao auge de um espa-
inteligência que o observam, prontos Em 2006, quando Assange criou ço midiático em crise.
para intervir ao menor movimento. sua obra radical, batizada de Wi-
Nessa manhã, Donald Trump foi elei- kiLeaks, ele já era uma figura impor- “SANGUE NAS MÃOS”
to o 45º presidente dos Estados Uni- tante no mundo dos hackers. Mas Enquanto uma infinidade de orga-
dos. Uma leve incerteza parece tomar ninguém esperava que aquele ho- nizações concedia prêmios ao Wi-
conta do mundo. Os arredores da Em- mem de rosto ainda jovem fosse pro- kiLeaks, da Anistia Internacional à Ti-
baixada do Equador mostram a mes- vocar os maiores vazamentos da his- me, passando pela The Economist e
ma agitação de sempre, em seu coti- tória, mergulhando seus leitores nas pelo Le Monde, o site iniciou a publica-
diano inalterado. intrigas das embaixadas do Oriente ção de dezenas de milhares de relató-
Alguns meses antes, no meio do ve- Médio, na intimidade do regime de rios de guerra e em seguida de 243.270
rão, Julian Assange havia despistado Bashar al-Assad e nos jogos oligár- comunicações diplomáticas norte-a-
seus carcereiros e publicado, bem de- quicos das capitais africanas, isso mericanas. Os documentos revelaram
baixo do nariz da maior potência sem falar da corrupção endogâmica a extensão da corrupção dos regimes
mundial, milhares de e-mails revelan- da alta sociedade norte-americana e árabes próximos aos Estados Unidos,
do como a direção do Partido Demo- das relações do Serviço Federal de sendo brandidos por manifestantes
© Caio Borges

crata manipulou suas primárias a fim Segurança da Rússia (FSB) com seus tunisianos poucos dias antes da que-
de favorecer Hillary Clinton em detri- contratados. Do manual de cientolo- da de Zine al-Abidine ben Ali, em 2011.
mento de seu concorrente de esquerda gia ao funcionamento de um grande Hillary Clinton, então secretária de
Bernie Sanders. O homem mais vigia- banco suíço, passando pelas regras Estado do presidente Barack Obama,
do do mundo, preso nos estreitos cor- internas da prisão de Guantánamo, as teve de fazer uma série de pedidos de
redores do velho apartamento que ser- primeiras publicações do WikiLeaks desculpas aos aliados dos Estados
ve de embaixada para a República do provocaram diversos tumultos e leva- Unidos. Pesquisadores universitários
Equador, conseguiu burlar a vigilância ram o Departamento de Defesa dos e jornalistas do mundo todo correram
O Departamento
de todos os seus inimigos. Num piscar Estados Unidos a realizar uma inves- para os arquivos a fim de explicar re-
de olhos, seu destino estava no centro de Estado dos tigação sobre o site, que este conse- troativamente alguns dos principais
do jogo geopolítico global. O refugiado Estados Unidos criou guiu publicar. Grandes práticas ilíci- eventos dos últimos anos. Milhares de
político mais famoso do planeta, per- uma equipe de mais de tas foram reveladas na Islândia; em processos baseados em publicações
seguido por publicar informações 2007, a eleição presidencial do Quênia do WikiLeaks foram levados aos tri-
duzentos diplomatas
comprovadas, dava provas de sua ca- mudou de rumo após a divulgação de bunais. Os jornais parceiros do site
pacidade de não sucumbir. Em feve- encarregados de sufocar um relatório secreto sobre o candida- começaram a ficar preocupados. Eles
reiro de 2016, a ONU, por meio de seu o WikiLeaks to favorito. Mas ainda faltava ao site ficaram confusos com aquele modo
grupo de trabalho ad hoc, condenara o um fato glorioso que pudesse celebri- de funcionamento que ignorava os la-
Reino Unido e a Suécia, julgando arbi- zá-lo para sempre. ços de consanguinidade entre jorna-
trárias as condições de detenção de Em abril de 2010, um vídeo muito listas e suas fontes. Se seguissem
Assange e exigindo sua libertação. Tu- la. A Suécia acaba de retirar o processo singular foi capaz disso. Ele se chama- aquele que era apresentado como o
do parecia caminhar para um final fe- contra seu cliente, suspeito de agres- va Collateral Murder [Assassinato cola- novo Hermes, haveria uma tensão
liz, mas a divulgação dos e-mails de são sexual. Mas o homem que prendeu teral]. Nele, além de comentários que crescente, que acabaria em uma rup-
John Podesta, diretor de campanha de Augusto Pinochet e lutou contra os se- nada acrescentam, podemos acompa- tura definitiva.
Hillary Clinton, provocaria uma onda paratistas bascos, a Al-Qaeda e George nhar em preto e branco o assassinato Em 30 de julho de 2010, aparece-
de choque midiático que tornaria W. Bush sabe que o mais difícil ainda de jornalistas da Reuters pelas forças ram os primeiros artigos acusando As-
inaudível qualquer palavra razoável, a está por vir. A situação do Estado equa- norte-americanas no Iraque. A carnifi- sange de ter “sangue nas mãos”, inclu-
começar pelas conclusões de Barack toriano, cuja renda anual não chega a cina, filmada como se fosse um video- sive em jornais aliados ao site.2 No
Obama favoráveis ao WikiLeaks.1 um sétimo do orçamento militar dos game, com o riso dos assassinos ao mesmo momento em que o Departa-
Dezenove de maio de 2017. Baltasar Estados Unidos, é precária. Anos de fundo, chocou as redações dos jornais mento de Estado dos Estados Unidos
Garzón, diretor da equipe de defesa de resistência à pressão norte-americana ocidentais. Descobrindo-se os alvos, criou uma equipe de mais de duzentos
Assange, deseja prosseguir com caute- corroeram a combatividade de seu go- elas se viram na necessidade de desco- diplomatas encarregados de sufocar o
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 35

WikiLeaks, uma acusação por agres- ocorreram, no dia 11 de abril de 2019,


são sexual contra Assange surgiu na violando todas as convenções inter- FORAGIDO POR MUITO TEMPO
Suécia. Ela abriu caminho para um nacionais relativas ao direito de asilo,
imbróglio legal de mais de seis anos, os jornais ocidentais, do Washington Dezembro de 2006. O WikiLeaks é 19 de junho de 2012. Em Londres,
que engoliu a imprensa. A ruptura veio Post ao Le Monde, passando pelo The criado por Julian Assange e uma dúzia Assange encontra refúgio na
quando o WikiLeaks se dissociou dos Guardian e pelo New York Times, mos- de ativistas. Embaixada do Equador, país então
métodos de censura que a mídia tenta traram-se tímidos, até hostis. O desti- governado por Rafael Correa, que lhe
no de um jornalista detido há quase 5 de abril de 2010. Primeiro escândalo concede asilo em agosto.
aplicar às comunicações diplomáti-
do WikiLeaks, com a publicação de um
cas. Nos canais de notícias norte-ame- sete anos em 20 metros quadrados,
vídeo de 17 minutos intitulado Collateral 19 de maio de 2016. A Suécia rejeita
ricanos, muitos pediram a prisão “a sem acesso ao ar livre nem ao sol, sub- Murder, mostrando o assassinato a acusação contra Assange, mas o caso
qualquer custo” de seu fundador e até metido a meses de completo isola- deliberado de civis pelas Forças pode ser reaberto até a prescrição do
mesmo, como fez Trump em 2010, sua mento, em condições de vida próxi- Armadas dos Estados Unidos no Iraque. crime (agosto de 2020).
execução.3 Quando, em dezembro de mas à tortura, tudo isso apenas por ter
2010, Assange foi preso em Londres, feito seu trabalho, não os comoveu. 25 de julho de 2010. O site divulga Fevereiro de 2016. Um grupo de
ele não podia mais contar com o apoio Não importa que pareça fragilizado, mais de 90 mil documentos secretos trabalho da ONU considera que as
daqueles que o haviam celebrado. com o rosto inchado pela solidão: As- relacionados à guerra no Afeganistão. condições de detenção de Assange
Sete anos e meio depois, em 28 de sange não é mais um deles. são arbitrárias.
junho de 2018, Mike Pence, vice-presi- Uma alma ingênua pode achar es- Outubro-novembro de 2010.
dente dos Estados Unidos, reuniu-se tranho que alguém que tornou públi- Em colaboração com vários jornais 22 de julho de 2016. O WikiLeaks
importantes, o WikiLeaks coloca no ar divulga cerca de 20 mil e-mails
com o presidente Moreno em Quito. A cos alguns dos mais importantes cri-
400 mil notas oficiais sobre a guerra no revelando como a direção do Partido
ruptura entre Assange e o Equador foi mes do século XXI esteja tão isolado Iraque e mais de 250 mil comunicações Democrata manipulou suas primárias
consumada. Contra todas as expecta- quando a solidariedade é necessária. diplomáticas norte-americanas, as mais a fim de favorecer Hillary Clinton em
tivas, o sucessor de Correa esforçou-se Aquele que, passo a passo, e sem ne- antigas datadas de 1966. Acusada de detrimento de seu concorrente
em trair seu legado e pediu apoio fi- nhuma proteção ou vantagem, consti- ser a responsável pelos vazamentos, Bernie Sanders.
nanceiro aos Estados Unidos. Pence tuiu a maior biblioteca sobre os dispo- Chelsea Manning é condenada, em
esfregou as mãos. Alguns meses an- sitivos de poder da história realizou, 2013, a 35 anos de prisão por Outubro de 2016. Poucas semanas
tes, o ministro da Justiça dos Estados além disso, uma proeza que nenhum espionagem. Ela foi libertada em maio antes da eleição presidencial dos
Unidos, Jeff Sessions, estabelecera a de seus concorrentes pode reivindi- de 2017, mas voltou para a prisão em Estados Unidos, o WikiLeaks publica
prisão de Assange como prioridade. car: ele nunca, em treze anos, mesmo março de 2018, ao recusar-se a e-mails de vários membros da equipe
Já em abril de 2017, o então diretor da divulgando dezenas de milhões de testemunhar contra o WikiLeaks. de campanha de Hillary Clinton.
CIA e futuro secretário de Estado, documentos, publicou a menor infor-
18 de novembro de 2010. A Suécia 11 de abril de 2019. Lenín Moreno,
Mike Pompeo, qualificara o Wi- mação falsa! Isso não impediu o Le lança mandado de prisão contra o presidente do Equador desde maio
kiLeaks como “agência de inteligên- Monde de afirmar que “Julian Assange fundador do WikiLeaks, acusado de de 2017, revoga o asilo político de
cia não estatal hostil”. Ignorando os não é amigo dos direitos humanos”,4 estupro e agressão sexual. Assange, que a polícia britânica
conselhos de precaução oferecidos nem o Mediapart de falar em “deca- prende na embaixada do país.
por seus advogados, Assange assu- dência”,5 nem ainda a The Economist 7 de dezembro de 2010. Assange se Os Estados Unidos pedem sua
miu o risco de um confronto direto de celebrar sua prisão.6 entrega à polícia britânica, que o prende. extradição por “ciberpirataria”.
com Trump, como fizera com Hil- Para entender essa ruptura com o Ele é então libertado sob fiança, sendo
lary Clinton quando esta era a favo- mundo da mídia, é preciso considerar obrigado a usar um bracelete eletrônico.
rita. Enquanto o isolacionismo do que o jornalismo moderno funciona
presidente dos Estados Unidos mui- em um contexto burguês, no interior
tas vezes o coloca contra adminis- de um mercado da informação no qual um, o que suprime os privilégios con- cia”,7 para alguns, e, para outros, co-
trações – diplomáticas e militares – a proximidade com os poderes é uma cedidos à casta jornalística, que assim mo “inimigo das liberdades”.8
que temem por suas prerrogativas e condição de sobrevivência em um es- se aburguesou. Essa aposta na inteli-
orçamentos, Assange pareceu-lhe paço competitivo. Vários modelos coe- gência coletiva contraria os princípios *Juan Branco é advogado e membro da
uma conveniente moeda de troca na xistem. Veículos como o Mediapart, na de nosso tempo. Para além do efeito equipe jurídica de Julian Assange.
guerra de desgaste que o opõe ao França, aparentemente mais trans- da revelação imediata, ela permite o
“Estado profundo”. Moreno disse es- gressores, praticam um “jornalismo surgimento de um olhar crítico com-
tar pronto para concessões? Acordos de revelação” que recicla truques e partilhado, afastado de qualquer for- 1 Última coletiva de imprensa de Barack Obama na
Casa Branca, 18 jan. 2017.
comerciais, econômicos e militares traições sem questionar o sistema no ma de conivência. Ao se tornar uma 2 David Leigh, “WikiLeaks ‘has blood on its hands’
foram então rapidamente negocia- qual essas mídias se inserem. Nisso, espécie de metamídia, o WikiLeaks over Afghan war logs, claim US officials” [WikiLea-
dos, e o destino de Assange foi selado. não se distinguem do jornalismo de arrasou a concorrência, provocando ks “tem sangue nas mãos” nos Afghan War Logs,
afirmam autoridades norte-americanas], The Guar-
O Equador obteve um empréstimo de reverência encarnado por instituições muito ciúme. dian, Londres, 30 jul. 2010. Cf. “The Guardian’s war
10,2 bilhões de euros das instituições como Le Monde, The Guardian e The A radicalidade da abordagem de on Assange” [A guerra do The Guardian contra
financeiras internacionais influen- New York Times. Assange não permite nenhuma forma Assange]. Disponível em: <https://theguardian.fi-
vefilters.org>. O jornal também tentou derrubar As-
ciadas pelos Estados Unidos (Banco Assange rompeu com esses dois de submissão às instituições existen- sange alegando, sem prova, que ele encontrou em
Mundial, FMI). Assange compreen- modelos. Autor de uma teoria sobre o tes. Por isso, ela ameaça um espaço Londres o diretor de campanha de Trump, uma in-
deu então que seus dias na embaixa- “jornalismo científico”, ele se afastou midiático que se acomodou ao con- formação incorreta nunca corrigida pelo jornal.
3 Nick Collins, “WikiLeaks: guilty parties ‘should
da estavam contados. Solicitado por das práticas do que considera um tra- forto obtido pela proximidade com os face death penalty’” [WikiLeaks: os culpados “de-
mim, o Palácio do Eliseu recusou-se a balho de conivência e, à medida que poderosos e inquieta os aparelhos de veriam enfrentar a pena de morte”], The Telegraph,
intervir para acolher aquele que tem revelava informações mais importan- poder tradicionais, que temem a qual- Londres, 1º dez. 2010.
4 “La trajectoire ambivalente de Julian Assange” [A
um filho em nosso território e pres- tes, aprendeu a se manter distante de quer momento ver seus crimes expos- trajetória ambivalente de Julian Assange], Le Mon-
tou serviços importantes ao nosso todos os aparelhos de poder. Ele se tos. Tornando-se um dissidente, ape- de, 14-15 abr. 2019.
país, especialmente ao revelar, em contentou em publicar dados obtidos sar de si mesmo, no espaço ocidental, 5 Jérôme Hourdeaux, “Julian Assange, l’histoire
d’une déchéance” [Julian Assange, a história de
2015, a espionagem sistemática feita de maneira rigorosa, selecionados e o outsider australiano logicamente viu uma decadência], Mediapart, 11 abr. 2019. Dispo-
pelos serviços de inteligência dos Es- analisados após serem filtrados por aparecerem contra ele acusações de nível em: <www.mediapart.fr>.
tados Unidos sobre o presidente da meio de uma plataforma de anonimi- estupro, antissemitismo, conspira- 6 “Julian Assange: journalistic hero or enemy agent?”
[Julian Assange: herói jornalístico ou agente inimi-
França e sobre empresas francesas zação cujas chaves somente ele de- ção e até submissão ao serviço secre- go?], The Economist, Londres, 12 abr. 2019.
que participaram de concorrências tém. Todas as informações que estão to russo. Oito anos após seu súbito 7 “La trajectoire ambivalente de Julian Assange”,
superiores a US$ 200 milhões. em sua plataforma são acompanha- surgimento, aquele que era um herói op. cit.
8 “Profession journaliste” [Profissão jornalista], en-
Quando a prisão e a retirada de das por uma fonte bruta que pode ser apareceu, no momento de sua prisão, contro com Fabrice Arfi, Bibliothèque Publique
Assange da embaixada do Equador verificada e utilizada por qualquer como um “absolutista da transparên- d’Information, Paris, 17 abr. 2019.
36 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

ENTREVISTA

Marcelo D2: pacífico, sim.


Pacato, nunca
“Fiquei três anos procurando alguma coisa, até que vi a frase ‘amar é para os fortes’.
Fiquei cheio de tesão outra vez para fazer o que eu faço.” Amor e compaixão servem de base ao músico
Marcelo D2 para abordar temas envolvendo política e o egoísmo do Brasil contemporâneo
POR GUILHERME HENRIQUE*

os 51 anos, Marcelo D2 sabe que de frente. Sempre gostei do calor da to, que se alimentam desse discurso. Amar é para os fortes foi um clique na

A não é mais um jovem de vinte e


poucos anos. A reflexão antece-
de outra avaliação: a de que não
é possível mais sair na porrada com to-
do mundo. Mas a vontade existe. “To-
discussão. Encontrar esse amor e esse
lugar para debater foi muito importan-
te, porque tem uma força nesse amor.
É mais um amor de compaixão, de se
manter amável. Tenho um amigo que
Bolsonaro, Trump, são frutos desse
egoísmo que vangloria a separação.
Tem aquele ditado: “Farinha pouca,
meu pirão primeiro”. Me dói saber que
isso é um dito popular que mostra tão
sua vida?
Sem dúvida. Tem uma ambição ar-
tística ali grande. Eu estava cansado
antes de iniciar esse projeto. Não que-
ria dar entrevistas, não queria mais
do dia tenho que pedir calma a mim sempre fala: “Você é um sujeito tão ca- bem como é o Brasil. fazer turnê, falar dos discos. Não ha-
mesmo”, acentua. Se a luta física não rinhoso”, e eu respondia: “Amor é o ca- Tem tanta gente perdida acreditan- via mais o que dizer. O meu trabalho
leva a lugar nenhum, como o carioca raaaalho” [risos]. Mas o trabalho fala do nessa falácia toda! É um momento anterior, Nada pode me parar (2013),
argumentou em entrevista ao Le Mon- de um amor que não é piegas. Tem a crucial, de mudanças. O ser humano é foi como um ponto final, um agrade-
de Diplomatique Brasil, é necessário ver com cuidado. muito forte, e não é possível que va- cimento à cultura hip-hop. Fiquei três
inventar outros caminhos para conse- mos escolher esse caminho e ir até o anos procurando alguma coisa, até
guir o que se quer – no caso de Marcelo final. Vai chegar um momento em que que vi a frase “amar é para os fortes”.
D2, transformar a sociedade. a população vai tomar consciência e Fiquei cheio de tesão outra vez para
O estilo transgressor que o acom- “Pior do que esse perceber que algo está errado. Achei fazer o que eu faço. Acendeu algo que
panhou ao longo da carreira no Planet governo são que estávamos no fundo do poço, mas mostrou que sou mais do que o Mar-
Hemp e mesmo nos discos solos al- as pessoas que parece que ainda dá para cavar mais, e celo D2 só cantor de rap. A minha arte
cançou outro nível em Amar é para os isso é assustador. Parece um grande não pode ficar dentro de um CD, de
fortes, seu último trabalho. “Eu estava acreditam nesse reality show, no qual o presidente só uma mídia. Posso me expressar em
cansado antes de iniciar esse projeto. sujeito, que se fala besteira pelo Twitter, e as pessoas vários formatos: nas redes sociais, co-
Não queria dar entrevistas, não queria alimentam ficam debatendo sobre isso. mo tenho feito, escrevendo um rotei-
mais fazer turnê, falar dos discos. Não desse discurso” ro, fazendo um filme...
havia mais o que dizer”, explica. Para Em “Parte 2”, a atriz fala para o ator,
se reinventar, decidiu unir a música ao naquele momento indeciso entre a arte Recentemente você disse que “o Brasil
cinema, e o novo álbum virou também e o crime, que “a falta virou curiosidade, é um país muito rico para quem faz
filme. “Sou mais do que o Marcelo D2 Em “Alto da colina”, você faz o seguinte em vez de virar ódio”. O que separa essas arte”. Que riqueza é essa e como a si-
só cantor de rap”, argumenta. questionamento: “Cada um com as duas escolhas? tuação política do país pode amea-
A versatilidade artística se somou à suas dores/ É assim que vamos seguir?”. Essa frase é autobiográfica. Nasci çar a arte?
atuação nas redes sociais, esta direta- Esse amor e o álbum tratam desse egoís- em um lugar pobre, numa favela onde Comecei a fazer música ouvindo
mente política e com alvo definido: mo dos dias atuais? não tenho mais nenhum amigo de in- grupos como Public Enemy, NWA, que
“Um dos meus primeiros tuítes foi: Total. Esse é um questionamento fância. Quando me vejo nessa posição são bandas contestadoras, então a mi-
‘Estou de volta, para desespero dos sobre quanto amor você tem pelo pró- de artista dando entrevista e olho para nha arte tem a ver com esse combate.
fascistas’”. As críticas a Bolsonaro, a ximo, a ponto de renunciar a certas re- trás, com 13, 14 anos, não acho que eu Nessa ideia, o Brasil é o lugar perfeito
quem ele se refere como “um merda”, e galias. A gente está vivendo um mo- era mais talentoso que os meus ami- para isso, dada a quantidade de pro-
a seu governo servem de ponte para mento que exige muita clareza dos gos. Acredito que a curiosidade, a sa- blemas sociais. Sempre achei que es-
ponderações menos óbvias e mais nossos privilégios. gacidade, tenham me trazido até aqui. crevo melhor quando estou puto, triste
profundas. “Tem tanta gente perdida Arrisco dizer que essa revolução A vontade de não desistir ou entregar ou com algo me incomodando, e o
acreditando nessa falácia toda! É um digital é maior que a Revolução Indus- na mão do outro. Isso tem a ver com nosso país tem isso de sobra.
momento crucial, de mudanças. Vai trial, que transformou todo mundo em educação. Meus pais sempre me de- A gente vai ter alguns anos de com-
chegar um momento em que a popula- robô. Essa tecnologia está deixando a ram as ferramentas, com o pouco jeito bate, se é que esse governo vai durar
ção vai tomar consciência e perceber população egocêntrica, cada um sozi- que tinham. E tem a percepção de ca- mais algum tempo. A minha esperan-
que algo está errado. Achei que estáva- nho dentro da sua imaginação. Gosto da um para aproveitar os “cliques” que ça é que andemos para trás e depois
mos no fundo do poço, mas parece das possibilidades que são colocadas a vida dá. Eu tinha a oportunidade de possamos avançar. Serão embates
que ainda dá para cavar mais, e isso é por ela, mas há um perigo nessa revo- sair para roubar, mas na época me que envolvem censuras e problemas
assustador”, completa. lução. As pessoas estão massacrando achava medroso, frouxo. Depois vi que variados, com restrição de liberdade,
os outros e morrendo sozinhas. não ir foi a escolha correta. Você preci- inclusive. Mas, mesmo se esse gover-
Le Monde Diplomatique Brasil – O tí- sa insistir, como diz a frase do Bernar- no virar uma ditadura militar, a gente
tulo do projeto é Amar é para os fortes. Do ponto de vista da sociabilidade, do [BNegão]: “Estou aqui de passagem, vive em um mundo diferente, com a
Por que associar o amor à força? qual é o impacto para o Brasil quando mas não vim a passeio”. São decisões possibilidade de criar algo para inco-
Marcelo D2 – Porque dá para lutar com unimos esse egocentrismo ao discurso diárias, de levantar e pensar que vai modar esses caras.
amor também. Há muito tempo que de uma figura como Jair Bolsonaro? fazer o certo, principalmente para a
venho me cansando do que estava fa- Cara, pior do que esse governo são molecada que está na periferia, que Você tem feito uso frequente do Twitter.
lando, desde o Planet Hemp batendo as pessoas que acreditam nesse sujei- tem menos privilégios. Isso foi aleatório ou teve algo planejado?
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 37

Eu estava longe do Twitter e cansa- permercado. De novo: estou aqui de


do do Instagram, aquele mundo Dis- passagem, mas não vim a passeio.
neylândia sem imperfeições. Quando
comecei a fazer o álbum decidi usar as Como é estar nesse lugar de artista
redes sociais para divulgar o trabalho justamente em um momento no
ou como forma de me expressar. Foi qual as pessoas valorizam o consu-
algo intuitivo, mas percebi que o Bol- mo fácil?
sonaro e a discussão política estavam Cara, eu nasci na favela, de repente
no Twitter. Pensei: “Vou entrar nisso fiquei rico, ganhei dinheiro. Antes de
aí”. Um dos meus primeiros tuítes foi: qualquer coisa, como é que eu, em vez
“Estou de volta, para desespero dos de comprar um carro de R$ 250 mil,
fascistas”. O bicho começou a pegar e vou fazer algo mais interessante com
eu fiquei. Mas não foi algo pensado, esse dinheiro? Isso já é difícil. Mas essa
tanto que meus assessores ficaram busca para minha vida acaba se refle-
malucos. É tudo orgânico. E foi impor- tindo na arte. Em um país com tanta
tante para mim como cidadão, me desigualdade, não preciso esfregar um
senti vivo, com a sensação de fazer al- carro de R$ 1 milhão na cara da socie-
go para além da figura do Marcelo D2, dade. As coisas simples da vida têm
utilizando o meu privilégio de artista muito valor. Mas eu não tenho muita
que possui uma voz importante. esperança de isso mudar, porque o que
vamos ter cada vez mais é esse lugar
Qual é sua reação quando as pessoas das falsidades, do consumismo, do su-
te relacionam diretamente ao PT ape- jeito que trabalha doze horas por dia
nas por fazer oposição ao governo para comprar uma televisão de plas-
Bolsonaro? ma gigante, à qual ele só consegue as-
A primeira coisa é pensar “quanta sistir uma hora... Só vai mudar com
ignorância” para a pessoa achar que é educação. Mas como investir em edu-
só isso: PT ou a direita. Esses dias um cação se elegemos pessoas que são
cara veio e falou: “Vai morrer petista, eleitas exatamente por um povo sem
filho da puta”. Pô, só faltava essa: mor- educação? Quando vamos ter um go-
rer como petista! Tudo que eu fiz na verno que realmente iguale diferenças
minha vida se resume ao petismo? sociais? Não falo só em sucesso profis-
Que merda! O PT tomou o discurso da sional. Não precisa todo mundo ser o
esquerda como se fosse dele, o que não Na música “Febre do rato” há um verso rença para esse trabalho está na matu- número 1.
é verdade. Mas também existe muita que diz: “Sou eu pura contradição”. Isso ridade. Nesse disco eu não sou só o
ignorância. diminui ou aumenta com a idade? cara que canta o rap. Fiz as músicas, Recentemente você disse que a pauta
Sou muito mais um humanista do Conversei com a minha filha um roteiro, criei um conceito para a da legalização das drogas está des-
que um esquerdista. Estive com o Pepe [Lourdes] sobre isso recentemente. De obra toda. gastada, porque alguns países já le-
Mujica, no Uruguai, e percebi que es- saber o quanto somos racistas, pre- Vivemos um momento na cultura galizaram. Qual é o lugar da disputa
tou muito mais preocupado com ques- conceituosos, e domar isso diaria- hip-hop que, até outubro do ano pas- agora?
tões que não são exclusividades da es- mente. Fui criado em uma sociedade sado, estava bem babaca. O rap de O problema da droga no Brasil é
querda, como a igualdade social. É que machista pra caramba. Reconhecer e condomínio, de uma classe média que ela está totalmente ligada à violên-
isso não existe no Brasil atual, mas controlar essas atitudes é importante, cheia de privilégios, falando da mu- cia, e isso acaba atrapalhando um dis-
existem pessoas de direita que pen- mas fazer isso quando se é novo fica lher na área VIP e do Chandon, quan- curso mais verdadeiro, que é o discur-
sam nisso: um mundo com menos de- muito difícil, porque você tem a cabe- do o país virou um caos por causa da so da saúde. A ilegalidade no Brasil e
sigualdade. É claro que neste momen- ça cheia de certezas. Chegar à minha política. Aí a galera que tem mais con- em tantos outros países da América
to é muito importante estar no lado idade e reconhecer o quanto fui ma- teúdo começou a “tomar de assalto” de Latina tem a ver com esse controle de
contrário de quem está no poder, e o chista com as mulheres com que eu novo. Tem gente nova, como Djonga, corpos, de formar guetos e deixar as
oposto disso acaba sendo a esquerda. convivi e ter consciência disso é im- Baco Exu do Blues, BK, Rincon Sapiên- pessoas presas nesses lugares, sem
Mas eu acredito que o caminho ideal portante. Este sou eu: bate e estende a cia. Aí tem Mano Brown, Racionais, educação e saúde. É uma forma de ma-
seja algo mais ao centro. mão, contradição total. eu, que fazemos isso há muito tempo. nipulação e manutenção do precon-
Mesmo alguns não tomando posição ceito. Não dá para falar das drogas a
Na música “Amar é para os fortes” há política clara, a obra deles mostra o partir daí.
um trecho que diz: “Quer sair da linha/ que eles querem para o mundo. Para A questão deve ser debatida como
Pegar e dar um sacode/ Não é sempre que “Sempre achei mim, que vivo da cultura hip-hop há nos países onde ela foi legalizada: fo-
se pode/ Mas que dá vontade, isso dá”. 25 anos, foi satisfatório ver essa movi- cando a redução de danos e como
Esse é o cara que está dentro de
que escrevo melhor mentação. Ufa, acabou a baboseira! cuidar das pessoas. Uma coisa é o re-
mim querendo uma briga, e eu preciso quando estou puto, creativo, como existe com a maco-
controlá-lo [risos]. triste ou com algo A partir daí, o que você classifica como nha; outra coisa é a dependência. E
me incomodando, “Resistência cultural” neste momento, nem venha me falar da maconha,
Você está domado, mais tranquilo? título de uma das músicas do novo porque antes de tudo é preciso aca-
Sim, mas todo dia tenho que pedir
e o nosso país tem álbum? bar com a hipocrisia. Álcool faz mal e
calma a mim mesmo, se não pode isso de sobra” Para mim é estar na contramão. As é legal. É preciso construir uma so-
sair um “seu filho da puta!”... Mas é pessoas confundem arte e cultura com ciedade mais verdadeira, longe deste
isso, não dá mais, entendeu? Estou entretenimento. O que a Anitta faz é lugar onde estamos. No contexto
com 50 anos, cara. Não dá para ficar Como você tem visto a produção musi- entretenimento. O que o Gilberto Gil atual, as discussões sobre as drogas
© Guilherme Henrique

saindo no soco com todo mundo. A cal neste momento, especialmente no faz é cultura. Não estou desmerecendo ficam pequenas, porque não é só so-
luta física não leva a lugar nenhum. É rap? Você já disse que não gosta de en- a Anitta ou querendo colocar em uma bre droga: é sobre preconceito, privi-
difícil falar isso, porque quando eu ti- tregar os significados das suas músicas balança, mas são coisas totalmente légio e violência. Tudo fica em volta
nha vinte e poucos anos era tudo re- de mão beijada ao público. distintas. Resistência cultural é fazer dessa grande mentira.
solvido na porrada. Mas hoje em dia Sempre gostei de projetos temáti- que a música não fique em uma prate-
vejo diferente. cos, e nesse não foi diferente. A dife- leira, como se estivéssemos em um su- *Guilherme Henrique é jornalista.
38 Le Monde Diplomatique Brasil MAIO 2019

MISCELÂNEA

livros internet

NOVAS NARRATIVAS DA WEB


MANIFESTO O CAMINHO Sites e projetos que merecem o seu tempo
COMUNISTA EM DO ALFERES
QUADRINHOS TIRADENTES.
Karl Marx e UMA VIAGEM BALAS PERDIDAS
Friedrich Engels, PELA TRILHA DOS A equipe de infografia e inovação da AFP
adaptação de INCONFIDENTES Paris e a equipe brasileira no Rio de Janeiro
Martin Rowson, Ivan Alves Filho, ilustraram um drama conhecido dos cariocas.
Editora Veneta Mandala Produção Num trabalho multimídia, deram voz e rosto às
vítimas das balas que invariavelmente acertam
pessoas anônimas nas favelas, ditas balas per-

M anifest der Kommunistischen Partei (Manifesto


do Partido Comunista) foi encomendado a Karl
Marx como uma declaração de princípios pelo grupo
“E sse que todos acusam,/ sem amigo nem parente/
sem casa, fazenda ou lavras,/ metido em sonhos
de louco,/ salvador que se não salva/ [...] É o Alferes
didas no fogo cruzado entre a polícia e o tráfico,
ou atiradas a esmo pela polícia, simplesmente.
Pais, mães e sobreviventes dão testemunho e
socialista Liga dos Justos, em junho de 1847, sem ne- Tiradentes.” É com esses versos de celebração que a fazem reflexões sobre o abuso policial, a impu-
nhuma expectativa do que seria seu significado para poetisa Cecília Meirelles fecha suas “Conversas indig- nidade, a dor e também a esperança. Entre as
humanidade. nadas”, no livro Romanceiro da Inconfidência. A figura histórias, a de Maicon, de 2 anos, morto pela
Peça fundamental na estruturação do pensa- de Joaquim José da Silva Xavier, ou apenas Tiraden- polícia, a qual colocou no boletim de ocorrência
mento marxista e sua crítica ao capitalismo, o curto tes, até hoje habita o imaginário popular brasileiro. Ain- “auto de resistência”. O caso segue sem solu-
documento, assinado por Marx e Friedrich Engels da é possível, pelos caminhos de Minas, os mesmos ção há mais de vinte anos.
e conhecido por seus emblemáticos jargões revo- que abrigaram o corpo decapitado do herói, revisitar a <https://interactive.afp.com/Balas-perdi-
lucionários, sintetiza críticas a diferentes campos história e encontrar os vestígios da Inconfidência e do das_253>
socialistas e seu ódio à burguesia e indica dez sonho da liberdade. E é dessa necessidade de refazer
ações para um governo revolucionário da classe os caminhos do alferes que nasceu esse livro do histo- MENSTRUAÇÃO E TABU
trabalhadora. riador Ivan Alves Filho. O jornal El País lançou em 2018 o trabalho “28
A improvável transformação de uma das obras Dividida em dezenove capítulos, a obra parte da Fa- dias, 28 histórias para acabar com os tabus so-
políticas mais importantes da história em HQ pelo zenda de Pombal, em Ritápolis, onde nasceu Tiraden- bre menstruação”, um especial transmídia que
cartunista inglês Martin Rowson tem como resulta- tes, e refaz o caminho do alferes. O barroco das igrejas, aborda o tema de diversos pontos de vista e
do um livro esteticamente radical, surreal e furioso. a música de Lobo de Mesquita, a arte de Aleijadinho formatos. Educação e humor, misturados com
Nele, terríveis robôs e engrenagens gigantescas são e Ataíde, nomes tão caros ao Brasil, são parte dessa jornalismo mais tradicional e novas linguagens,
aquecidos por fornos que funcionam a combustão de trilha que nos leva àquele sonho – eleições ou mesmo para falar de assuntos como o copo coletor
crânios e jorram sangue; as almas dos trabalhadores um poeta à frente do Brasil, Tomás Antônio Gonzaga, menstrual de silicone (6 milhões de views em
são torturadas por religião, lei, moral, patriotismo e va- cujos versos atravessaram o oceano e encantaram até apenas um vídeo sobre isso no YouTube), um
lores familiares; tudo ao deleite de sinistros patrões e mesmo Aleksándr Púchkin, o maior escritor da língua guia para relações sexuais durante o período,
banqueiros. Todo terror da distopia/realidade capita- russa. O livro implica uma releitura da Conjuração Mi- a origem do tabu que liga menstruação a algo
lista é apresentada de forma sombria em três cores: neira, vista como o primeiro passo da revolução bur- sujo ou proibido e outros tantos temas.
vermelho, preto e branco. guesa entre nós, e reafirma que a ideia do Brasil como <https://elpais.com/agr/28_dias_tabu_re-
Marx e Engels espreitam esse inferno ora sussur- missão despontou ali, com seus intelectuais. gla/a>
rando, ora gritando trechos do manifesto de liberta- Cada passo do historiador foi registrado pelas lentes
ção. Embaladas pelo espectro fantasmagórico da dos fotógrafos Maurício Seidl e Luiz Antônio da Cruz, O DESMATAMENTO MAIS RÁPIDO
fúria dos oprimidos, suas palavras assombram os marcando o passado e o presente. Nas palavras do DO MUNDO
opressores. Décadas depois, o mesmo espírito do autor, o livro se esforça em reproduzir os aspectos im- “Los desterrados del Chaco” apresenta, via
Manifesto Comunista impulsionaria inúmeras revolu- portantes da vida cotidiana da região, dando a palavra scrollytelling (aquela narrativa em que a histó-
ções mundo afora durante o século XX. a seus habitantes, os do presente e os do passado. Ou, ria acontece enquanto a página vai “descen-
No único frame colorido do livro, sobre um palco ainda, com suas andanças pela Estrada Real, ele se do”, feita para celular), uma reportagem sobre
descortina-se a utopia de uma sociedade livre que transformou – como ele mesmo diz – em uma espécie o desaparecimento da região conhecida como
convive em harmonia com a natureza, onde as pes- de “historiador de campo”, desses que criam seus pró- Chaco, entre os Andes e o Amazonas, cobrin-
soas estão todas nuas, loucamente felizes, dançan- prios documentos. do quatro países. Das 4 mil espécies de plan-
do e bebendo, e onde, ao fundo, se vê uma multidão Foi o próprio alferes Tiradentes quem disse, em certa tas da região, quatrocentas existem apenas
carregando bandeiras vermelhas e incendiando uma ocasião, que armaria uma meada tal que em dez, vinte lá. Com ilustrações feitas para celulares com
fábrica. “No lugar da velha sociedade burguesa com ou cem anos se não haveria de desembaraçar. E é a pouca conexão, voltadas para um público mais
suas classes e antagonismo de classe, nós teremos existência de tantas honras em homenagem ao herói jovem, tem uma linguagem clara. Cada história
uma associação, na qual o livre desenvolvimento de – poemas, enredos de samba, estudos – que dá força foi também distribuída em outros canais e re-
cada um será a condição para o livre desenvolvimento de razão às suas palavras. Afinal, ainda hoje, não é Joa- des sociais, para aumentar o alcance. Venceu
de todos!”, profetiza Marx. É impossível dizer se um quim Silvério dos Reis, o delator, quem nos fascina, mas o prêmio Gabo de inovação de 2018.
dia haverá ou o quão distante está esse lugar, mas, o próprio Tiradentes, ou Cláudio Manuel da Costa, ou <https://elsurti.com/page/desterrados/>
enquanto a utopia não vem, vale a leitura e a máxima Tomás Antônio Gonzaga, nomes cuja grandeza justifi-
final do manifesto: “Uni-vos!”. cam a leitura imperdível desse novo livro.
[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab,
[André Rosa] Escritor e pesquisador da UFRJ. Cola- professor de Jornalismo na ESPM, mestre em
[Cristiano Navarro] Editor do Le Monde Diploma- borou, entre outras publicações, na Revista Brasileira Teoria da Comunicação pela ECA-USP e dou-
tique Brasil. (Academia Brasileira de Letras) e no russo Pravda. torando em Design na FAU-USP.
MAIO 2019 Le Monde Diplomatique Brasil 39

CANAL DIRETO SUMÁRIO


LE MONDE
BRASIL

A falácia dos argumentos em defesa da reforma diplomatique


Todo um país a sangrar para pagar juros ao rentis- Ano 12 – Número 142 – Maio 2019
mo. Metade de todo orçamento do país vai para fa- www.diplomatique.org.br

zer os ricos ainda mais ricos. E, como a grande mí- DIRETORIA


dia (que lucra com isso por serem “investidores”) Diretor da edição brasileira e editor-chefe
Silvio Caccia Bava
nunca trata do assunto como faz com a corrupção Diretores
FAKE NEWS OFICIAIS
(que nunca foi nosso maior problema), é como se 2 Uma Chernobyl midiática
Anna Luiza Salles Souto, Maria Elizabeth Grimberg e
Rubens Naves
essa vergonha não existisse... E agora, para piorar, Por Serge Halimi e Pierre Rimbert
esse governo quer arrochar mais os pobres para Editor
Luís Brasilino
manter os privilégios dos milionários. EDITORIAL
Clístenes Nascimento
4 Enfrentar o luto Editor-web
Por Silvio Caccia Bava Cristiano Navarro

Editores de Arte
CAPA Adriana Fernandes e Daniel Kondo
E, detalhe, quem investe em tecnologia e conheci- 5 Por que não se fala de benesses fiscais
mento, quando se tem uma das maiores taxas de quando o assunto é ajuste econômico?
Coordenador multimídia
Henrique Santana
juros do mercado mundial? Por que será que ser Por Marcelo Lettieri
banqueiro é a melhor “profissão” deste país? A sonegação (in)conveniente Estagiária
Taís Ilhéu
Lúnia Cristina Por Dão Real Pereira dos Santos
Taxa Selic: apropriação privada de nossos impostos Revisão
Por Ladislau Dowbor Lara Milani e Maitê Ribeiro

Só pela coragem em falar verdadeiramente o que é INCÊNDIO EM PARIS


Gestão Administrativa e Financeira

a reforma da Previdência, não tenho dúvidas de 10 Bairro Notre-Dame


Arlete Martins

que vocês têm comprometimento real com o leitor. Por Benoît Duteurtre Assinaturas
Viviane Alves
Agradeço por não aceitarem a disseminação da
mentira e da superficialidade das informações que OFENSIVA CONTRA OS DIREITOS
outros meios de comunicação divulgam todos os
12 SOCIAIS NA FRANÇA
Tradutores desta edição
Carolina M. de Paula, Frank de Oliveira,
Lívia Chede Almendary, Rita Grillo e Wanda Brant
Como minar a capacidade de
dias. É uma verdadeira lavagem cerebral! Tem tele-
resistência dos trabalhadores Conselho Editorial
jornais que, de vinte matérias, inserem em deze- Por Hélène-Yvonne Meynaud Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles
nove “a necessidade da aprovação da reforma” – Em nome da igualdade, mais desigualdades Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius
Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro, Igor
uma vergonha, um descaramento. De tanto Por Christiane Marty Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena, Jorge Eduardo S.
mentirem, a necessidade da reforma nos moldes Durão, Jorge Romano, José Luis Goldfarb, Ladislau
Dowbor, Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki,
em que está se tornará uma verdade no subcons- DEBATES NO SEIO DA CENTRAL SINDICAL
16 A CGT na era dos “coletes amarelos”
Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, Sebastião
ciente da sociedade. Povo sem cultura é gado. Salgado, Tania Bacelar de Araújo e Vera da Silva Telles.
Reportagem de Jean-Michel Dumay
Obrigado mais uma vez, Le Monde Diplomatique Assessoria Jurídica
Brasil! Rubens Naves, Santos Jr. Advogados
UNIÃO EUROPEIA
James Meneses 19 Um império à beira do colapso Escritório Comercial Brasília
Por Wolfgang Streeck Marketing 10:José Hevaldo Rabello Mendes Junior
Tel.: 61. 3326-0110 / 3964-2110 – jh@marketing10.com.br

DOSSIÊ ESTADO DE CHOQUE


Devemos ter medo da China? 22 Fazer sumir: o desaparecimento como
Le Monde Diplomatique Brasil é uma publicação
da associação Palavra Livre, em parceria com o
A URSS passou por duas guerras mundiais e, logo Instituto Pólis.
tecnologia de poder
após a Segunda Guerra, uma Guerra Fria contra
Por Fábio Araújo Rua Araújo, 124 2º andar – Vila Buarque
uma potência militar e econômica. Antes disso, a São Paulo/SP – 01220-020 – Brasil – Tel.: 55 11 2174-2005
URSS era um país semifeudal. A China, em boa BRUMADINHO E MARIANA diplomatique@diplomatique.org.br

parte do tempo, sempre foi uma potência econô- 24 No paraíso tributário da mineração,
www.diplomatique.org.br

mica na região. falta dinheiro para fiscalizar barragens Assinaturas


Por Alessandra Cardoso e Bruno Milanez assinaturas@diplomatique.org.br
Alexandre Marques Tel.: 55 11 2174-2015

MULHERES, AS PRINCIPAIS VÍTIMAS


25 DO ULTRACAPITALISMO ANDINO
Impressão
Plural Indústria Gráfica Ltda.
O que quer a oposição na Venezuela? Av. Marcos Penteado de Ulhôa
A maré feminista no Chile Rodrigues, 700 – Santana de Parnaíba/SP – 06543-001
O mais preocupante nesse embate é que, indepen- Por Franck Gaudichaud, enviado especial
dentemente de quem está certo ou errado, quem MISTO

tem sofrido é o povo venezuelano... É o que fazem A POLÍTICA DESPOLITIZADA


políticos que possuem apenas projetos de poder, e
28 Na era do Estado-empresa
Por Pierre Musso
não projetos de país.
Eduardo Moraes O FIASCO DO RUSSIAGATE
Distribuição nacional
30 Um presente dos democratas para Donald Trump
DINAP – Distribuidora Nacional de Publicações Ltda.
Av. Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678 – Jd. Belmonte –
Por Aaron Maté Osasco/SP – 06045-390 – Tel .: 11. 3789-1624

Sem legitimidade, Guaidó apela para a interven- LE MONDE DIPLOMATIQUE (FRANÇA)


ção militar dos Estados Unidos para roubar o pe- ACESSO FACILITADO ÀS
32 UNIVERSIDADES E EMPRESAS
Fundador
tróleo do povo da Venezuela. Hubert BEUVE-MÉRY
Pequim pisca o olho para os cidadãos taiwaneses
Jefferson Cerqueira Presidente, Diretor da Publicação
Por Alice Herait Serge HALIMI

Redator-Chefe
UM HERÓI TRANSFORMADO EM
34 HOMEM A SER ABATIDO
Philippe DESCAMPS

Diretora de Relações e das Edições Internacionais


O indomável Julian Assange Anne-Cécile ROBERT
Participe de Le Monde Diplomatique Brasil: envie suas
críticas e sugestões para diplomatique@diplomatique.org.br
Por Juan Branco
Le Monde diplomatique
As cartas são publicadas por ordem de recebimento e, 1 avenue Stephen-Pichon, 75013 Paris, France
ENTREVISTA secretariat@monde-diplomatique.fr
se necessário, resumidas para a publicação. 36 Marcelo D2: pacífico, sim. Pacato, nunca www.monde-diplomatique.fr
Os artigos assinados refletem o ponto de vista de seus
autores. E não, necessariamente, a opinião da coordenação
Por Guilherme Henrique
Em julho de 2015, o Le Monde diplomatique contava
do periódico. com 37 edições internacionais em 20 línguas:
MISCELÂNEA 32 edições impressas e 5 eletrônicas.

Capa: © Claudius
38 ISSN: 1981-7525
LE MONDE
BRASIL
diplomatique

O PODCAST DO LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL.

ENTREVISTAS COM:

ESTHER SOLANO
HENRIQUE COSTA
JESSÉ SOUZA
LUCIANA ZAFFALON
ROSANA PINHEIRO-MACHADO
LADISLAU DOWBOR
FÁBIO MALLART
ROGÉRIO DE CAMPOS
MARCIA TIBURI
THIAGO B. MENDONÇA
HENRIQUE CARNEIRO
ANNE RAMMI E MONICA SEIXAS
RENATA SOUZA
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DISPONÍVEL EM

TODAS AS QUINTAS-FEIRAS

DIPLOMATIQUE.ORG.BR/ESPECIAL/GUILHOTINA