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Salvemos a

Liturgia

Dr. Rafael Vitola Brodbeck


ÍNDICE

Como participar da Santa Missa 5


Unindo a terra ao céu! 9
Missa em latim – I 13
Missa em latim – II 17
Motivos para obedecer às normas litúrgicas 21
A dimensão sensível na liturgia 27
Solenidade na Missa 36
Liturgia e vida 39
O rito extraordinário e a “reforma da reforma” 46
O erro racionalista e a reforma litúrgica 50
Visão teológica da Missa e suas conseqüências
práticas 57
Subirei ao altar de Deus! 67
Considerações sobre o rito de 1965, a reforma
de 1970 e a eventual reforma da reforma 71
A liturgia e a Palavra de Deus, segundo a
Exortação Apostólica Verbum Domini 91
As ações cerimoniais: fazer de qualquer jeito? 131

2
RECOMENDAÇÃO
Rafael Vitola Brodbeck, leigo comprometido com a
Igreja Católica, reúne neste livro os seus artigos
sobre a liturgia que escreveu durante estes anos.

É bom que um leigo nos lembre também o que há


detrás deste mistério insondável da liturgia, onde
Deus encontra-se com o homem e o homem recebe
e se abre à salvação trazida por Cristo no mistério
pascal.

Recomendo a leitura de tais artigos, perscrutando


detrás de cada linha o espírito que anima ao autor
do livro: a fidelidade a Cristo e à Igreja neste
campo sacro da liturgia. A nossa fidelidade às
normas litúrgicas é sinal e manifestação da nossa
fidelidade a Cristo e a Igreja, depositária do tesouro
da Redenção.

Meus parabéns pelo livro do Rafael.

Pe. Antonio Rivero, LC

3
4
Como participar da Santa
Missa
O sacrifício de Cristo foi suficiente para pagar por
nossas dívidas com Deus, pois como ensina São
Paulo: “Foi em virtude desta vontade de Deus que
temos sido santificados uma vez para sempre, pela
oblação do corpo de Jesus Cristo. (...) Cristo
ofereceu pelos pecados um único sacrifício... (...)
Por uma só oblação ele realizou a perfeição
definitiva daqueles que recebem a santificação.”
(Hb 10,10.12a.14) Se o próprio Deus morre, o
valor de Seu sacrifício há de ser infinito, suficiente
para saldar qualquer dívida!

Na Última Ceia Jesus antecipou Seu sacrifício,


instituindo-o como perpétuo, através do
oferecimento de Seu Corpo e Seu Sangue. O
mesmo Corpo morto na Cruz e o mesmo Sangue
derramado foram distribuídos aos Seus Apóstolos,
numa verdadeira antecipação do sacrifício. Além
disso, Nosso Senhor tornou-o perpétuo, quando
mandou: “fazei isto em memória de mim.” (Lc
22,19) Assim, os Apóstolos e seus sucessores
devem obedecer o mandamento de Jesus e fazer o
que Ele ordenou: realizar o sacrifício! Se o
sacrifício pôde ser antecipado, pode também, por
ter-se tornado perpétuo, ser oferecido
continuamente. Não se trata de um novo sacrifício,

5
eis que o de Cristo foi definitivo e suficiente, mas
do mesmo novamente tornado presente pelos
Apóstolos, seus sucessores e os colaboradores
destes.

O sacrifício de Jesus Cristo foi oferecido na Cruz,


antecipado na Última Ceia, e é tornado novamente
presente em cada Missa celebrada. Ceia, Cruz e
Missa são o mesmo e único sacrifício de Cristo!

Esse o significado, portanto da Santa Missa: é o


mesmo, único e suficiente sacrifício de Nosso
Senhor Jesus Cristo, oferecido de uma vez por
todas, ao Pai, na Cruz do Calvário, pelo perdão de
nossos pecados, tornado real e novamente presente,
ainda que de outro modo, incruento, no altar da
igreja pelas mãos do sacerdote validamente
ordenado.

Mesmo, único e suficiente: a Missa não é um novo


sacrifício para saldar nossa dívida para com Deus.
Oferecido de uma vez por todas, ao Pai, na Cruz do
Calvário: a Missa é o mesmo sacrifício da Cruz,
não um outro. Pelo perdão de nossos pecados:
como a Cruz foi a causa de nosso perdão,
merecendo-nos a graça de Deus, assim também é a
Missa. Tornado real e novamente presente: a
mesma Cruz é tornada presente diante de nós, pois
para Deus não há limite de espaço ou tempo. Ainda
que de outro modo, incruento: na Cruz, Cristo
derramou Seu Preciosíssimo Sangue; na Santa
Missa, a Cruz é tornada novamente presente, mas

6
de outro modo, sem derramamento de Sangue –
não é, repetimos, uma nova morte de Cristo, mas a
mesma e única, porém de modo incruento. No altar
da igreja: todo sacrifício precisa de um altar; a Cruz
foi o altar onde Cristo ofereceu o sacrifício de Seu
Corpo Santíssimo; na Missa não há uma Cruz física
onde Cristo deva morrer, mas um altar onde é
celebrado o sacrifício e os dons são oferecidos.
Pelas mãos do sacerdote: num sacrifício, além do
altar, é preciso uma vítima e um sacerdote, i.e., um
sacrificador; quando o altar foi a Cruz, Jesus Cristo
foi a Vítima, mas também o Sacerdote, pois
ninguém O matou, antes Ele mesmo Se entregou à
morte por nós; na Santa Missa, se o altar é o da
igreja, e a vítima é Cristo, eis que o sacrifício é o
mesmo, também há identidade quanto ao sacerdote,
o sacrificador. Validamente ordenado: Jesus
mandou que os Apóstolos realizassem o sacrifício
feito na Cruz e antecipado na última Ceia, e eles
passaram o mandato a seus sucessores e aos
colaboradores destes; os sucessores dos Apóstolos
são os Bispos, e os colaboradores os padres, unidos
a Cristo pelo sacramento da Ordem.

O fiel participa da Santa Missa assistindo-a com


toda a vontade de unir-se aos sentimentos de
Cristo. Se não pode, como o padre, ser o próprio
Jesus oferecendo-Se na Cruz, deve, então, assistir o
maravilhoso espetáculo do sacrifício de um Deus-
homem que morre por nossos pecados com a
disposição de alma de quem aspira imitar aqueles
santos que estiveram aos pés do Calvário. A Cruz

7
torna-se presente na Missa, e porquanto naquela
estavam presentes a Santíssima Virgem e o
discípulo amado, São João, o Apóstolo e
Evangelista, quando estamos assistindo o Santo
Sacrifício devemos ter as mesmas atitudes de
ambos. Certamente, não estavam Nossa Senhora
nem São João batendo palmas: sua alegria pela
salvação que se operava era interna, e se misturava
com uma viva dor pelos pecados da humanidade,
cometidos de tal forma que fizeram Deus sofrer e
derramar Seu Sangue por nós. Imitando os
sentimentos e atitudes de São João e da Virgem
Maria aos pés da Cruz, estamos participando da
Missa de um modo santo e salutar.

São Leonardo de Porto Maurício, ardoroso apóstolo


da Santa Missa, nos dá seu ensino, ainda bastante
atual: “Eis o meio mais adequado para assistir com
fruto a Santa Missa: consiste em irdes à igreja
como se fôsseis ao Calvário, e de vos comportardes
diante do altar como o faríeis diante do Trono de
Deus, em companhia dos santos anjos. Vede, por
conseguinte, que modéstia, que respeito, que
recolhimento são necessários para receber o fruto
e as graças que Deus costuma conceder àqueles
que honram, com sua piedosa atitude, mistérios tão
santos.”1

1
São Leonardo de Porto Maurício. Tesouro Oculto

8
Unindo a terra ao céu!
A liturgia terrestre, em todos os seus atos, é um
reflexo da liturgia celeste. Os nossos louvores
sobem ao céu e unem-se aos dos santos e dos anjos,
pois, como único Corpo Místico de Cristo que
somos, como uma única Comunhão dos Santos,
como uma única Igreja santa e católica, nossas
atitudes de reverência à Trindade devem ser
apresentadas como se fossem um só cântico:
multiplicam-se as vozes, mas o hino é uníssono!

Nas diferentes ações litúrgicas essa unidade se


reflete de modos diversos.

Dessa forma, na administração dos sacramentos,


por exemplo, também o céu se une à terra. Sendo
sinais visíveis da graça invisível, que nos foi
conquistada na Cruz, e esta uma ponte que une as
realidades terrenas e celestes, os sacramentos são
verdadeiros canais que partem de Deus para nós. A
graça, dissemos, nos foi merecida pelo sacrifício
único de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz,
constituindo-se tal oferta uma ponte para o trono de
Deus. Os sacramentos, canais dessa graça, fluem de
Deus e nos banham com a mesma graça que
produzem e significam. Por isso, os sacramentos
são os bens dados do céu aos servos amados de
Deus na terra; por eles chegamos ao céu: eis as

9
relações entre as duas Igrejas, triunfante e militante
– e até a padecente no Purgatório.

Por sua vez, na Liturgia das Horas entoamos


salmos e hinos que se unem àqueles eternamente
cantados pelos anjos do céu. "Na minha visão ouvi
também, ao redor do trono, dos Animais e dos
Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de
miríades de miríades e de milhares de milhares,
bradando em alta voz: 'Digno é o Cordeiro
imolado de receber o poder, a riqueza, a
sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor.' E
todas as criaturas que estão no céu, na terra,
debaixo da terra e no mar, e tudo que contém, eu
as ouvi clamar: 'Àquele que assenta no trono e ao
Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos
séculos dos séculos.' E os quatro Animais diziam:
'Amém!' Os Anciãos prostravam-se e adoravam."
(Ap 5,11-14) A cada hora canônica celebrada no
Ofício Divino, somam-se as vozes e todos se
congregam numa só comunidade em adoração ao
Deus Eterno. Das lições da Liturgia das Horas,
retiramos as preciosas leituras da Sagrada
Escritura, dos Padres e dos Santos, que nos dão a
esperança de participar um dia da Igreja celeste
que, em coro, tributa louvores ao Criador.

A unidade entre o céu e a terra é fato em todas as


ações litúrgicas. Não seria diferente na Santa
Missa, liturgia por excelência! Se os sacramentos
partem da Cruz, ponte entre o céu e a terra, entre
Deus e os homens, e atestam a unidade entre os

10
terrenos e os celícolas – os moradores do céu –, há
muito mais razão em afirmar essa plena comunhão
quando a própria Cruz, e não seus sinais apenas, se
faz presente. E a Missa, sabemos, é a Cruz tornada
presente! O céu e a terra se unem! Os anjos
participam da Missa! O Santo Sacrifício celebrado
é a porta que nos leva ao céu: estando aberta, temos
acesso às maravilhas celestes, e miríades de anjos
rondam as igrejas e os altares quando o padre
oferece Cristo ao Pai por nossos pecados. “Era
opinião de São João Crisóstomo, opinião aprovada
e confirmada por São Gregório, no quarto de seus
Diálogos, que no momento em que o padre celebra
a Missa os céus se abrem e multidões de anjos
descem do Paraíso para assistir o Santo Sacrifício.
São Nilo Abade, discípulo do mesmo São João
Crisóstomo, afirma que via, quando este santo
doutor celebrava, uma grande multidão daqueles
espíritos celestes assistindo os ministros sagrados
em suas augustas funções.”2

Na Santa Missa, a Igreja mostra sua unidade, pois


um só é o sacrifício! Jesus não morre várias vezes,
senão uma só, na Cruz, e seu sacrifício é único e
suficiente; a Missa só o atualiza: é o mesmo, e não
um outro! Se o sacrifício é único, a Igreja, de todos
os tempos, lugares e condições, do céu e da terra,
que o oferece, também é única. A Igreja está
oferecendo um só sacrifício, e nisso está também
sua unidade sobrenatural. Ao participar de uma
Missa hoje, no Rio Grande do Sul, me uno ao fiel
2
São Leonardo de Porto Maurício. Tesouro Oculto

11
que participou da Missa há dois séculos na China, e
ambos estamos unidos aos santos do Céu e às
almas do Purgatório. Anjos, homens da Igreja
Militante, homens da Igreja Triunfante, homens da
Igreja Padecente, todos nos unimos em cada Missa
celebrada, atualização do único sacrifício
oferecido.

12
Missa em latim – I
Certos canais da imprensa noticiaram, há alguns
anos, que o Papa autorizou o retorno das “Missas
em latim”. Como de costume, tal informação está
completamente equivocada.

Erro dos principais é a afirmação, constante em


várias notas, de que a medida pontifícia foi a
restauração da Missa no idioma latino, como se os
tradicionalistas fossem meros opositores das
“Missas em vernáculo”.

Na verdade, o problema é bem outro. As Missas no


rito romano nunca deixaram de ser em latim.
Apenas houve a autorização, desde Paulo VI, para a
celebração em vernáculo. O latim, entretanto, não
foi abolido. Basta prestar atenção às Missas do
Papa e mesmo de algumas organizações e
Dioceses, e veremos que são celebradas
seguidamente no idioma latino.

O que o Papa restaurou, portanto, não foi a “Missa


em latim”, que não deixou de ser celebrada, como
vimos, mas a “Missa tridentina”, segundo o Missal
de 1962, anterior ao Concílio Vaticano II. O objeto
do protesto de setores tradicionalistas não é tanto o
idioma, e sim a reforma do rito da Missa! Em 1969,
houve a apresentação do Novus Ordo Missae,

13
alterando o calendário litúrgico romano,
suprimindo certas cerimônias, mudando outras e
até acrescentando algumas, prevendo a
possibilidade do uso completo do vernáculo e da
posição versus populum (sem obrigar, frise-se). É
essa mudança que Lefebvre e seus seguidores
contestam, não a língua. Claro, a Missa “antiga” é
em latim, mas a “nova” também pode ser...

Basta ver que o grupo lefebvriano contraria a Missa


"nova" ainda que dita em latim! Comparam a nova
forma do rito romano com a antiga (chamada
“tridentina”, “tradicional”, “clássica” ou “de São
Pio V”), ambos no oficial latim, e concluem que a
antiga é melhor e, em casos mais extremos,
atribuem à Missa de Paulo VI o epíteto de
“facilitadora de heresias” ou modernista. Esse o
motivo da separação dos tradicionalistas, que,
felizmente, estão em diálogo com o Papa para
resolver seus problemas teológicos.

A restauração feita pelo Papa, então, não foi do


latim na liturgia (só se restaura o que se perdeu, e o
latim continua a ser língua litúrgica), mas da plena
possibilidade de celebrar a Missa segundo o rito
antigo. O qual, aliás, continua a ser celebrado não
só pelos tradicionalistas cismáticos – entre os quais
se inclui o grupo fundado por Lefebvre – como
também por muitos sacerdotes em plena comunhão
com Roma, autorizados por tal pela devida
autoridade eclesiástica.

14
Desde o Summorum Pontificum, cada sacerdote do
mundo que queira, pode, então celebrar a Missa em
latim segundo o uso anterior ao Vaticano II, e, para
isso, não precisa mais de autorização do Bispo,
podendo fazê-lo por sua própria vontade. O Papa
denomina essa liturgia antiga de “forma
extraordinária” do rito romano.

Além disso, o sacerdote pode, como sempre pôde,


celebrar a Missa na forma atual, dita “forma
ordinária”, quer em vernáculo (a língua falada pelo
povo), como vemos em nossas igrejas, quer
também em latim, como faz o Papa no Vaticano e
outros tantos sacerdotes.

Será que, em uma paróquia que tem três Missas


dominicais, uma delas não poderia ser em latim?
Ninguém alegue que não entende: a) primeiro
porque não é necessário entender o idioma para
participar do mistério e colher frutos espirituais; b)
segundo porque o bem visado é muito significativo,
dado que nos inserimos na tradição da Igreja que é
universal; c) terceiro porque o uso de uma língua
especial nos dá um sentido de solenidade que muito
atrai as almas nesses tempos de “nova
evangelização”; d) e quarto porque temos outras
tantas Missas em vernáculo que uma só em latim
não será assim tão “problemático”.

Fiquemos com as palavras do Papa Bento XVI. É


com ele que a Igreja deve sempre estar. Nem um
passo adiante, nem um passo atrás.

15
“Os gestos externos não são só um remédio de por
si, mas poderia ajudar dado que é uma
interpretação muito clássica da direção da liturgia.
Geralmente, penso que foi bom traduzir a liturgia
nas línguas locais porque a entendemos,
participamos também com nossas mentes. Mas a
presença do latim em alguns elementos ajudaria a
lhe dar uma dimensão universal, lhe dar a
oportunidade às pessoas para que vejam e digam
‘Estou na mesma Igreja’. (…) um pouco de latim
poderia ajudar a ter a experiência de
universalidade.”3

3
Entrevista concedida pelo então Cardeal Joseph Ratzinger
ao Canal Católico EWTN, disponível em
http://www.acidigital.com/bentoxvi/falando.htm

16
Missa em latim – II
“O Latim exprime de maneira palmar e sensível a
unidade e a universalidade da Igreja.”4

A Missa no rito romano conforme o Missal de São


Pio V (dita “Missa tridentina”, ou “tradicional”, ou
“forma extraordinária do rito romano”) começa a
ser celebrada de modo mais generoso Brasil afora.
Há, além de várias paróquias interessadas, uma
Administração Apostólica, guiada por Dom
Fernando Arêas Rifan, para os fiéis particularmente
ligados ao modo clássico, pré-conciliar, de celebrar
a Missa em rito romano.

Todavia, não é só a “Missa tridentina” que é


celebrada em latim. Muitos não se dão conta, mas o
rito reformado por Paulo VI e João Paulo II, por
conta do Vaticano II, aquele que atualmente é o
normativo na Igreja Latina, a Missa que
normalmente temos nas nossas paróquias, também
é em latim. Sim, pode-se celebrar a chamada
“Missa nova” em latim. E o Papa vem pedindo que
se o faça!

“A fim de exprimir melhor a unidade e a


universalidade da Igreja, quero recomendar o que

4
Santidade, o Papa João Paulo I. Discurso ao Clero Romano

17
foi sugerido pelo Sínodo dos Bispos, em sintonia
com as directrizes do Concílio Vaticano II:
exceptuando as leituras, a homilia e a oração dos
fiéis, é bom que tais celebrações sejam em língua
latina; sejam igualmente recitadas em latim as
orações mais conhecidas da tradição da Igreja e,
eventualmente, entoadas algumas partes em canto
gregoriano.”5

A língua oficial para a celebração da Santa Missa e


de todos os atos litúrgicos, no rito romano, em
ambas as formas, tradicional (tridentina) e moderna
(renovada), é o latim. O Concílio Vaticano II, ao
contrário do que muitos pensam, não aboliu o uso
do idioma latino, antes o incentivou.

“Salvo o direito particular, seja conservado o uso


da Língua Latina nos Ritos latinos.”6

Há, isso sim, uma permissão para que a Missa seja


oferecida em vernáculo, i.e., nas línguas nacionais
dos vários países. Pode-se, além disso, dizer
determinadas partes da Missa em latim e outras em
vernáculo.

“A Língua Latina é a língua própria da Igreja


Romana.”7

5
Sua Santidade, o Papa Bento XVI. Exortação Apostólica
Sacramentum Caritatis, 62
6
Concílio Ecumênico Vaticano II. Constituição
Sacrosanctum Concilium, 36, § 1

18
“O uso da Língua Latina é um claro e nobre
indício de unidade e um eficaz antídoto contra
todas as corruptelas da pura doutrina.”8

“Que o antigo uso da Língua Latina seja mantido,


e onde houver caído quase em abandono, seja
absolutamente restabelecido. – Ninguém por afã de
novidade escreva contra o uso da Língua Latina
nos sagrados ritos da Liturgia.”9

“Providencie-se que os fiéis possam juntamente


rezar ou cantar em Língua Latina as partes do
Ordinário que lhes competem.”10

Portanto, a regra é que a Santa Missa, em rito


romano, deva ser celebrada em latim, permitindo-se
que seja oferecida em vernáculo. Para tal, as
conferências episcopais devem traduzir os textos
litúrgicos do latim ao idioma pátrio e submeter
essas versões para aprovação da Santa Sé Romana.
Interessante é celebrar ocasionalmente a Missa em
latim. Falamos da Missa no rito novo mesmo, do
rito romano moderno, reformado por Paulo VI e
João Paulo II, a chamada “forma ordinária”.

7
Sua Santidade, o Papa São Pio X. Encíclica Inter Pastoralis
Officii
8
Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei
9
Sua Santidade, o Papa Beato João XXIII. Encíclica Veterum
Sapientia
10
Concílio Vaticano II. Constituição Sacrosanctum
Concilium, 54

19
Nesse sentido, peçamos aos Bispos a “Missa
tridentina” em uma igreja da Diocese, mas também
tenhamos a “Missa nova” celebrada, em cada
igreja, ao menos uma vez por semana em latim. O
idioma da Igreja Ocidental não deve ficar restrito à
forma tradicional da Missa romana: o rito
reformado, pós-Vaticano II, também deve valorizá-
lo, conforme pede o Santo Padre.

Essa “Missa nova” em latim não precisa de


autorização formal do Bispo, eis que é a Missa
normativa no rito romano, é o mesmo rito romano
reformado, atual, em uso, apenas com mudança da
língua.

“A Missa se celebre quer em língua latina ou quer


noutra língua, contanto que se usem textos
litúrgicos que têm sido aprovados, de acordo com
as normas do direito. Excetuadas as Celebrações
da Missa que, de acordo com as horas e os
momentos, a autoridade eclesiástica estabelece que
se façam na língua do povo, sempre e em qualquer
lugar é lícito aos sacerdotes celebrar o santo
Sacrifício em latim.”11

11
Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos. Instrução Redemptionis Sacramentum, 112

20
Motivos para obedecer às
normas litúrgicas
Algumas pessoas, inclusive sacerdotes, dizem que
não precisamos obedecer às normas da Igreja
quanto à liturgia. Alegam que não é importante, e
que a Igreja, ao prevê-las, está apenas dando umas
“linhas gerais”. Essas pessoas, mesmo que sejam
padres, se enganam. As normas são dadas pela
Igreja de Cristo, pelo Papa, para serem obedecidas,
e ninguém as pode alterar. O Vaticano II mesmo
tratou disso, e nos ensinou que nem mesmo o Bispo
pode mudar a norma!

Não se diga também que o culto deve ser apenas


interior, que “o que importa é o coração”. Nada
mais falso. O culto interior deve refletir-se no
exterior: não somos fantasmas, mas seres com alma
e corpo.

“Não basta adorar a Deus interiormente, só com o


coração, mas é necessário adorá-Lo também
exteriormente, com a alma e com o corpo
juntamente, porque Ele é Criador e Senhor
absoluto de uma e de outro.

(...)

21
Não pode de forma alguma haver culto externo sem
o interno, porque aquele, desacompanhado deste,
fica privado de vida, de merecimento e de eficácia,
como corpo sem alma.”12

Para o melhor desempenho de toda a liturgia,


principalmente da Santa Missa, culto, como
dissemos, por excelência, é mister que haja uma
regulamentação, uma normativa. Por isso, a Igreja a
regula por uma série de normas e de rubricas – as
partes escritas em vermelho, em rubro, nos livros
litúrgicos, e que indicam o que os ministros devem
fazer.

Quatro poderiam ser os motivos interiores para se


obedecer às rubricas e outras normas litúrgicas:
para simbolizar melhor o que ocorre na celebração,
mostrando a identidade entre o sinal e o que ele
realiza ou significa; para propiciar ambiente de
sacralidade, favorecendo a piedade dos
participantes; para transmitir a riqueza doutrinária
da Igreja através de seus ritos seculares; e, enfim,
para preservar a unidade substancial de cada rito,
no caso o romano.

A Santa Missa, por exemplo, não é um símbolo do


sacrifício, senão o próprio tornado real e
novamente presente. Entretanto, ainda que não seja
símbolo, ela é, pelo menos, cercada de símbolos
que existem para melhor refletir a realidade do que

12
Sua Santidade, o Papa São Pio X. Terceiro Catecismo da
Doutrina Cristã, 355-356

22
ocorre. Os símbolos não são essenciais,
substanciais, todavia, por sua observância
conserva-se o que eles representam. O sacrifício –
no caso da Missa – e outras idéias próprias – nos
demais atos litúrgicos extra Missam – precisam ser
demonstrados aos nossos olhos, eis que, mesmo
sendo reais, não são naturalmente visíveis; assim,
revestindo-se de símbolos, captamos o que está por
trás dos sinais.

“Na vida humana, sinais e símbolos ocupam um


lugar importante. Sendo o homem um ser ao
mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e
percebe as realidades espirituais por meio de
sinais e de símbolos materiais. Como ser social, o
homem precisa de sinais e de símbolos para
comunicar-se com os outros, pela linguagem, por
gestos, por ações. Vale o mesmo na sua relação
com Deus.”13

Dessa forma, a Igreja estabelece as normas


litúrgicas a serem observadas, pois, em sua
sabedoria, considera que elas apresentam os
símbolos que melhor refletem a realidade do que
está ocorrendo na liturgia. Por exemplo, se ordena
que se use casula, é por saber a Igreja que o que ela
simboliza – a Cruz de Cristo –, é bastante
catequético para lembrar os fiéis da realidade do
sacrifício de Nosso Senhor, oferecido na Cruz do
Calvário; se prescreve determinada oração ou gesto

13
Catecismo da Igreja Católica, 1146

23
é por entender que nos auxiliam a penetrar no
centro do mistério celebrado.

“A catequese está intrinsecamente ligada a toda


ação litúrgica e sacramental, pois é nos
sacramentos, e sobretudo na Eucaristia, que Cristo
Jesus age em plenitude para a transformação dos
homens.”14

Deixar as normas litúrgicas de lado, além de grave


desobediência à disciplina da Igreja, é apresentar-se
insensível ao poder dos símbolos prescritos pela bi-
milenar sabedoria da Esposa de Cristo. Tais
símbolos não devem ser trocados por outros senão
quando a autoridade da Santa Igreja o determinar,
como ensinaremos a seguir.

Convém lembrar a orientação da Santa Sé, através


da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a
Disciplina dos Sacramentos, publicada na Instrução
Inaestimabile Donum:

“Os fiéis tem direito a uma Liturgia verdadeira, o


que significa a Liturgia desejada e estabelecida
pela Igreja, a qual de fato, tem indicado
adaptações onde podem ser feitas a pedido de
requerimentos pastorais em diferentes lugares ou
por diferentes grupos de pessoas. Excessivas
experimentações, mudanças e certas criatividades,
confundem os fiéis. O uso de textos não aprovados

14
Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Exortação Apostólica
Catechesi Tradendae, 23

24
significa a perda da necessária conexão entre a lex
orandi e a lex credendi.”15

Sobre a lei litúrgica, nos diz o conceituado Bispo


australiano, D. Peter Elliott:

“... o propósito desta lei é encorajar e promover o


bem-estar espiritual, a participação e a unidade
dos fiéis de Cristo. Ela também existe para a
santificação e proteção do clero, que celebra os
ritos da Igreja no coração de seu ministério aos
outros.”16

As normas do rito romano servem não para


engessar o celebrante, mas para, quando as
seguimos fielmente, conforme nos ordena o
Concílio Vaticano II, na sua Constituição
Sacrosanctum Concilium, melhor apresentarmos ao
povo de Deus que o que está ocorrendo por meio de
cada cerimônia. Temos de seguir as rubricas! Por
sua exterioridade, não nos afastam do interior: pelo
contrário, como o homem é um ser no qual estão
indissoluvelmente unidos alma e corpo, sua
expressão de louvor e adoração ao Criador deve
proceder do interior e do exterior também.

Aos que argumentam que o culto prestado na Santa


Missa deve ser mais interior do que exterior, o Papa

15
Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos. Instrução Inaestimabile Donum, Introdução
16
ELLIOTT, Peter. Liturgical Question Box. San Francisco:
Ignatius Press, 1998, p. 14

25
Pio XII, em sua magistral Encíclica sobre a liturgia,
mostra o engano de tal afirmação, sustentando que
o exterior deve refletir o interior, sob pena de uma
certa esquizofrenia espiritual: “A adoração
prestada pela Igreja a Deus deve ser (...) tanto
interior quanto exterior.”17

A observância das normas litúrgicas demonstra a


obediência do sacerdote – sinal claro da humildade
requerida de quem se apresenta diante de Deus para
oferecer um sacrifício, no caso da Missa, ou
celebrar Seu Nome, nos outros atos de culto –, seu
sentimento de unidade para com a Igreja e de
pertença a uma realidade espiritual maior do que
abarcam suas simples opiniões, traduz uma piedade
rica e bela, e torna, como afirmamos, mais visível
aquilo que é invisível aos nossos olhos.

17
Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei, 23

26
A dimensão sensível na
liturgia
Não se pode estudar o homem desconhecendo que
se trata de um ser profundamente integralizado por
suas diferentes facetas. O aspecto espiritual reflete-
se no intelectual, bem como no cultural, no
sentimental, e assim por diante. Uma análise que
queira ter sucesso nesse campo precisa, desse
modo, ser necessariamente uma análise integral.

Se é assim em qualquer campo de estudo, o é


também na liturgia. Embora culto a Deus, a liturgia
é culto a Deus oferecido por pessoas e, sendo
atividade humana, também nela estão presentes as
distintas dimensões do homem.

Nesse sentido, a sensibilidade é uma área que não


pode ser descurada. Sim, a finalidade do culto
público é a adoração a Deus, mormente pela Santa
Missa, na qual Cristo renova Sua entrega ao Pai
pelo perdão dos pecados da humanidade. Todavia,
há um aspecto secundário mesmo nas ações
dirigidas primariamente a Deus, que é a edificação
do homem. Quando cultua o Senhor, volta o
homem edificado. E essa edificação é, como ação
humana, refletida em todas as suas dimensões,
incluindo a sensível.

A narração do esplendor das cerimônias católicas,


antes do período de crise por que passsaram a partir

27
dos anos 70, nos mostra almas que, adorando a
Deus, edificavam-se espiritualmente também pelo
entusiasmo diante da beleza. O Cardeal Ratzinger,
em sua vasta literatura sobre teologia litúrgica, não
hesita em conferir à sensibilidade e à estética do
culto um papel importante na evangelização dos
povos. É bem verdade, repetimos, que o apostolado
não é o fim da liturgia, porém dela pode decorrer
aquele, sem sombra de dúvida.

O fausto nas Missas pontificais, a beleza das velas


e tochas em uma procissão de Corpus Christi, a
sobriedade solene do canto gregoriano, o
espetáculo espiritual da polifonia sacra, o profundo
gosto estético de paramentos bem escolhidos, a
delicadeza na composição das orações litúrgicas, o
cuidado com cada gesto cerimonial, o aparato
externo da celebração, bem como o contexto de
todo o drama litúrgico, sobretudo o que desemboca
no Calvário renovado pela Missa, fala claramente à
dimensão sensível do homem. É por isso que, para
combater a excessiva austeridade do culto
protestante, a Igreja incentivou a arte barroca que,
com certos exageros lícitos, procurava cativar o
homem e impedi-lo de ser seqüestrado pela frieza
da liturgia da Reforma.

Evidentemente que, historicamente, a liturgia dos


primórdios não era tão elaborada quanto a que se
desenvolveu nos anos imediatamente anteriores à
Idade Média. Todavia, nunca foi semelhante ao
rigor impassível e, diria, desumano, do

28
protestantismo. A ação de Cristo na Sexta-feira
Santa, morrendo no Calvário, não foi algo normal,
e sim revestido de profundo impacto externo: a
batalha dramaticamente espiritual no Getsêmani, a
vigília a ponto de suar sangue, terremoto e céus
escurecendo, mortos ressuscitando e andando por
Jerusalém, o véu do Templo se rasgando de alto a
baixo, o perdão de São Dimas. Mesmo a
antecipação da Cruz na última ceia não foi um
culto frio à moda protestante, mas algo que
recordou o ricamente elaborado ritual judaico da
Páscoa, e com uma multitude de sinais: o lava-pés,
as palavras que indicavam que o pão e o vinho
eram agora Seu Corpo e Seu Sangue, e o convite à
oração no horto. Definitivamente, a liturgia católica
nasceu simbólica.

Ademais, por sua raiz gnóstica, o protestantismo vê


um eterno conflito, sem possibilidade de armistício,
entre a matéria e o espírito, e, se quer salvar o
último, sacrifica o primeiro. Daí o desprezo, cada
vez mais freqüente, à medida em que avançam as
distintas seitas protestantes, pelo aspecto mais
pomposo do cerimonial litúrgico. Nós, católicos,
não desvinculamos o homem de seus múltiplos
aspectos. O homem que deve ser salvo é o homem
inteiro, espírito e matéria. Daí que nossa liturgia, ao
prestar culto a Deus, presta-o com toda a sua
integralidade humana: é a adoração, como pedia
Cristo, em espírito e em verdade. E, se o homem
todo cultua ao Senhor, o homem todo volta

29
edificado desse encontro em que precisa até mesmo
descalçar as sandálias.

Foi por desconhecer ou ignorar todo esse


pensamento, que acompanhou a Igreja desde os
primórdios – lembremos que a luta contra a heresia
do gnosticismo foi a primeira a ser travada pelos
teólogos católicos –, que se introduziu, a partir da
segunda fase do movimento litúrgico (pelos anos
30 em diante), certos elementos puristas que
desejaram uma liturgia desapegada de certos
conteúdos mais sensíveis.

A motivação desses liturgistas estava certa: a


liturgia não se pode imiscuir irresponsavelmente
com outros aspectos da vida espiritual a ponto de
desvalorizar o que é essencial. Entretanto, as
conclusões tiradas esse desvio – chamado por isso,
liturgicismo – são equivocadas: tudo o que não é
essencial (como as devoções privadas, o terço, os
belíssimos paramentos, o esplendor do culto, as
explicações alegóricas dos ritos etc) é ruim. Ora,
isso passa claramente dos limites, pois ignora o
desenvolvimento da liturgia e o próprio fato de que
nasceu distinta do mover-se comum do homem.

É do liturgicismo que nasce o que se costuma


chamar minimalismo litúrgico. Se o essencial na
liturgia é o sacrifício de Cristo e, por extensão,
aquilo que diretamente a ele se refere, sendo todo o
resto (beleza dos paramentos, uso generoso do
incenso, canto gregoriano, orações ao pé do altar,

30
último Evangelho) meramente acidental, então
esses acidentes devem ser removidos. O
minimalismo litúrgico, impregnado de liturgicismo,
considera o acidental um mal, e essa postura deriva
da mesma matriz gnóstica que originou o
protestantismo. Ela antagoniza o acidental ao
essencial, e até mesmo não distingue, entre os
acidentes, que alguns são mais importantes do que
outros, e que a linguagem simbólica da liturgia
existe para que o homem saiba o que está fazendo
ao cultuar a Deus e, secundariamente, seja
edificado em sua integralidade.

Do minimalismo litúrgico não está livre, é verdade,


a reforma conduzida por Mons. Bugnini. Sem
embargo, esse equívoco em termos de liturgia se
fez presente menos nas rubricas do Novus Ordo do
que num comportamento geral de liturgistas
impregnados dos erros liturgicistas. Se as
instruções advindas da reforma davam a opção de
escolher entre o vernáculo e o latim, entre o versus
populum e o versus Deum, entre o uso ou não do
incenso, sempre se passou a escolher, salvo
raríssimas exceções – como no Vaticano ou em
grupos tidos como mais conservadores – pela
alternativa menos pomposa. Até mesmo as
permissões pontuais para, em situações
excepcionais, se usar ministros leigos na
distribuição da Comunhão Eucarística ou do
sacerdote trajar túnica e estola ao invés de alva,
amito, cíngulo, estola e casula, se tornaram a regra,
ainda que contra a lei.

31
O pensamento liturgicista foi além do que diziam
as rubricas – pouco claras, é verdade, e que, no
dizer de alguns, foram imprecisas o suficiente para
que se adotassem as opções mínimas na quase
totalidade dos casos.

Diziam: o altar é essencialmente para o sacrifício?


Removam-se as velas, que, aliás, na sua idéia,
estavam em demasia, e todos os demais objetos.
Assim, para o deleite dos gnósticos liturgicistas, o
altar digno e simbólico de Cristo e Sua soberania,
se tornou nada mais do que uma mesa de banquete,
à moda protestante, e, em casos mais radicais, um
cubo amorfo perdido no presbitério.

Outro exemplo é o dos acólitos. Precisa-se apenas


de um ou dois que exerçam, de fato, funções bem
claras, e, em Missas mais solenes, alguns outros
para ajudar o Bispo. Todos os demais, que serviam
para embelezar, dar solenidade ao rito, ou despertar
nos jovens a vocação sacerdotal, deveriam ser
eliminados, pois acidentais. E o acidente, para o
liturgicista, é algo a ser evitado. Em celebrações
solenes, era comum, pela própria dignidade da
celebração, colocar vários acólitos. Era um modo
de dignificar, de solenizar, de chamar a atenção. A
função não é apenas pragmática, mas de
embelezamento. Mas, claro, o minimalismo
litúrgico não “casa” bem com esse tipo de
pensamento...

32
A arquitetura eclesiástica e a arte litúrgica também
sofreram com o liturgicismo e sua aversão à beleza
tradicional e às devoções – rechaço de imagens do
Sagrado Coração, por exemplo.

O apego à letra das rubricas, desconectando-as do


espírito litúrgico tradicional que permeou nosso
rito, também é um fruto do minimalismo.

O resultado disso foi a frieza de certas celebrações


litúrgicas, que já se delineavam nos anos 50 e 60, e
passaram a dominar os ambientes, europeus e
norte-americanos sobretudo, nos 70 e início dos 80.

Não tardou a reação. O homem, desejoso de


simbolismo, vindo a perdê-lo na liturgia católica,
buscou-o em outro local.

E o próprio protestantismo, outrora tão frio e


austero, já trilhava um caminho de recuperação
simbólica, ainda que, por desvinculado da verdade,
com sinais um tanto quanto estranhos. Daí, em
níveis mais comedidos, os coros gospel das igrejas
batistas de negros americanos, ou o southern gospel
profundamente enraizado na mentalidade dos
cowboys brancos presbiterianos e batistas, a
vivacidade dos reavivamentos, sobretudo
metodistas, e, em ambientes mais radicais, a
histeria de certos grupos pentecostais, seus gritos,
suas unções, suas “quedas” no Espírito Santo.

33
No seio do catolicismo, essa perda do simbolismo
foi sentida de tal forma que movimentos do tipo
“encontrista” procuraram em seus retiros e
reuniões, recuperar o senso de sagrado. Isso se viu,
por exemplo, nas “orações de mãos dadas”, nos
momentos de espiritualidade com luzes apagadas
(para gerar um ambiente emocional), nas canções
religiosas de conteúdo adocicado e intimista, e, nos
últimos anos, pela invasão do pentecostalismo
católico, com suas palmas na Missa, seu pop-rock,
seus êxtases.

Minou o minimalismo litúrgico a expressão


sensível da fé, e, em sua falta, se a buscou em
outros ambientes, sedento que estava o homem da
mesma. Como disse, informalmente, o Prof. Carlos
Ramalhete:

“É por isso que, embora a maioria dos mais velhos


de hoje – que eram jovens rebeldes nos anos 60 –
não goste da liturgia romana em sua forma
extraordinária, ou, quando se trata da forma
ordinária, desprezam o latim, o canto gregoriano,
e tudo o que lembra algum viés tradicional, o gosto
por todas essas riquezas se acha presente entre
muitos jovens. Sofreram demais a frieza e não
gostaram do inverno litúrgico. Alguns buscam
“aquecer-se” na distorção do sensível dos templos
neopentecostais – com suas rosas ungidas, suas
correntes de prosperidade com pastores impondo
as mãos sobre o povo, seus exorcismos fantásticos
–, ou na versão católica da busca por

34
espiritualidade “palpável”. Outros, em contato
com a Missa pós-conciliar bem feita – ainda que
sem desvincular-se totalmente de alguns defeitos
do liturgicismo –, ou com a Missa tridentina,
consideram-nas a melhor proteção contra a geada
minimalista que cai sobre suas cabeças.”

Nesse diapasão, a promoção da liturgia bem feita,


com farto uso de latim, incentivo ao gregoriano,
paramentos bonitos, efeitos estéticos visualmente
aferíveis, constitui-se, sim, em poderosa ferramenta
de evangelização. Ainda que o motivo principal por
que defendemos a Missa tradicional e a Missa
moderna de acordo com as rubricas seja outro – a
inclusão no desenvolvimento orgânico da liturgia, a
melhor expressão da fé católica no sacrifício da
Missa e nos dogmas eucarísticos, o culto a Deus
como Ele quer ser cultuado –, não se pode olvidar
desse aspecto acessório que muito lembra o velho
conselho: a beleza salvará o mundo!

35
Solenidade na Missa
O Ano da Eucaristia chegou a seu ocaso no Brasil,
e pouco em nossas igrejas foi feito de realmente
visível e significativo para a promoção do
adequado culto litúrgico. Convocado por João
Paulo II para renovar a observância às normas que
regem a celebração da Missa – as quais, em muitos
lugares, são esquecidas e contrariadas, conforme o
Pontífice mesmo denuncia na Ecclesia de
Eucharistia, especialmente nos números 10 e 52 –,
pela maioria o evento só é comentado “da boca
para fora”.

Na Missa Pro Ecclesia, encerramento do Conclave


que o elegeu, Bento XVI ordenou que essa
comemoração fosse marcada “pela solenidade e
retidão das celebrações.” Noutras palavras:
rigoroso seguimento das rubricas do Missal (e falo
do novo, de Paulo VI); cessação de qualquer
invencionice por parte dos sacerdotes; decoro e
circunspeção; paramentos corretos; proibição de
cantos estranhos à tradição católica e de não menos
estranhas palmas e demonstrações efusivas de
alegria, nada apropriadas para quem assiste, na
Missa, a renovação do sacrifício da Cruz. “Peço
isso de modo especial aos sacerdotes.”

Não sou eu ou algum grupo quem pede obediência


ao Missal. É a lei da Igreja. É o Papa. Se alerto para
esse descuido, é por grave dever de consciência,
pois minha alma de católico não me deixa inerte

36
ante os incontáveis abusos na liturgia Brasil afora,
em franca oposição a Roma. Estas linhas são
movidas por caridade cristã!

A casula foi quase abandonada; certos padres


inserem numa ou noutra parte da Missa gestos,
símbolos (cartazes, plantas, fantasias, fogo etc) e
palavras que são criações suas (em total desacordo
com as regras vigentes); o povo reza orações
reservadas aos sacerdotes e até por eles, às vezes, é
incentivado a proferi-las (o “Por Cristo, com
Cristo...”, a oração da paz, v.g.); os fiéis são
convidados a atos não previstos (fechar os olhos,
erguer as mãos, direcioná-las ao altar no “Por
Cristo”, abri-las “para receber a bênção”, e outras
provas bizarras de inesgotável e anticatólica
criatividade, já atacada pelo então Cardeal
Ratzinger em seu “A fé em crise?”); nem sempre as
músicas são apropriadas; o incenso é raro; e os
ministros extraordinários – leigos – são usados na
proclamação do Evangelho e, ordinariamente, na
distribuição da Comunhão (contrariando a
Ecclesiae de Mysterio). Exemplos de um claro
desrespeito às normas litúrgicas e ao Ano da
Eucaristia.

A Missa, em vários rincões da pátria, não é


celebrada como deveria, como manda o Papa,
como prescreve o Missal. E isso é fato! Não há o
que discutir! Compare-se o texto oficial com o que
é feito e tem-se o resultado.

37
Claro, todos dizem obedecer ao Santo Padre. Não
passa disso, infelizmente. Forçoso é reconhecer que
uma parte do clero desconhece ou não aplica a
recente Redemptionis Sacramentum. É ela
sumariamente ignorada, como se valor não tivesse.
Aprovada pelo Papa, a maioria não a segue. De
nada adianta falar em obediência. São precisos atos
concretos. Quando o Papa manda “x” e se faz “y”,
não se o está obedecendo. Não vale muita coisa
dizermos que o amamos e protestarmos obediência,
se não fazemos o que ele ordena. “Será abençoado
por Deus quem demonstrar seu amor à Eucaristia
pela fidelidade às normas da Igreja” (Cardeal
Sales), e não às inovações das equipes de liturgia e
dos párocos.

O discurso dê lugar à prática. É hora de estudarmos


os documentos e corrigirmos as muitas falhas em
nossas celebrações. Com urgência! Esse o meu
apelo, essa a minha súplica.

38
Liturgia e vida
Tomo as lições do professor de liturgia no
Seminário Interdiocesano Maria Mater Ecclesiae,
em Itapecerica da Serra, SP, Pe. Antonio Rivero,
LC, a quem tenho a honra e a alegria de conhecer,
para explanar, na coluna deste mês, sobre alguns
aspectos da liturgia vivida em cada circunstância.

O referido sacerdote se indaga, em uma sua


apostila para uso no seminário: “Por que às vezes
se dá essa separação? De um lado, a celebração; de
outro, nossa vida não responde a essa celebração. A
resposta é singela: pelo pecado e por nossa
miséria.”

No tempo da graça, em que o véu do Templo se


rasgou em duas partes, de alto a baixo, não deve
haver essa dicotomia entre liturgia e vida. Somos
chamados, como bem nos ensinou Nosso Senhor, a
adorar o Pai em espírito e em verdade. Os ritos,
importantíssimos, traduzem uma vivência plena e
real. E, se é real, não se manifesta apenas durante
os minutos da Missa, ou enquanto folheamos o
breviário, ou recebemos os sacramentos. A
adoração católica é interna e externa, nas palavras
de Pio XII em sua encíclica Mediator Dei.

A santificação do cristão se dá pela ação da graça


que nos chegam pelos sacramentos, que celebramos
na liturgia. Os sacramentos são os canais da graça,
sem a qual não podemos ser salvos, não podemos

39
ser santos. A liturgia é a celebração desses
sacramentos, é o espaço apropriado para a fluência
da graça em nossa alma.

Na Santa Missa, assistimos à atualização da Cruz,


ao espetáculo no qual, sobre o altar, usando-se do
sacerdote a Ele unido pelo sacramento da Ordem,
Cristo Jesus se oferece por nossa salvação. Na
Eucaristia, unimo-nos intimamente a esse Jesus
que, após ter-se oferecido ao Pai em sacrifício, se
nos dá em alimento no seu verdadeiro Corpo e no
seu verdadeiro Sangue. Nos demais sacramentos,
há um acréscimo da graça santificante. Toda a
liturgia fala de santificação, e não apenas a
simboliza, como que a torna atual, real, concreta.
Tudo isso é verdade.

Todavia, a santificação não é processo que se


esgota na liturgia ou nos sacramentos. O homem
que assiste Missa, que comunga, que se confessa,
que caminha em procissão, que recita a Liturgia das
Horas, é um homem integral, completo. Não um
fantasma. E, como concreto que é, o homem se
movimenta por diferentes espaços, fazendo de sua
vida uma teia com distintas circunstâncias. Nessas
circunstâncias é que ele é chamado a se santificar.
A graça recebida nos sacramentos, celebrada na
liturgia, atua nesse homem não só no espaço físico
da igreja, e sim também na sua oração pessoal
devocional, no seu estudo, no seu apostolado, no
seu trabalho, na sua vivência em família, no seu
descanso, no seu lazer.

40
A liturgia que é bem vivida em si mesma deve
favorecer, impulsionar a que seja bem vivida
também nos outros aspectos. O homem que vive
bem a Missa, vive bem seu trabalho, deveres de
estado, ocupações familiares, diversões etc. Em
todos esses locais e ambientes devemos, a partir da
liturgia, agir como Cristo, pensar como Cristo,
amar como Cristo, sentir como Cristo.

Por outro lado, se a liturgia é transportada, em seu


caráter espiritual, a outros ambientes para que
sejam como que seu prolongamento, podemos, de
outra sorte, dizer que damos vida à própria liturgia.
É uma troca. O trabalho e o estudo se vivificam
quando são expressão de uma liturgia bem vivida;
sem embargo, a liturgia é melhor vivida quando a
continuamos nos nossos afazeres cotidianos, por
mais simples e “laicais” que pareçam.

Evidentemente, a liturgia não precisa de vida, no


sentido mais estrito, dado que ela é justamente a
fonte da nossa vida. Aqui tomamos o vocábulo em
uma expressão mais poética, para ressaltar uma
liturgia percebida com mais entusiasmo por todas
as potências de nossa alma.

Desse modo, o primeiro lugar em que o Pe. Rivero


diz que a liturgia deve ser feita vida é a oração.
Liturgia é ação pública, oficial, da Igreja, mesmo
quando um sacerdote, sozinho, celebra a Santa
Missa sem nenhum fiel a assistir, mesmo quando

41
um monge, no silêncio do claustro, balbucia o hino
de Laudes. A oração a que o padre legionário se
refere, então, não é a litúrgica, e sim a pessoal,
devocional, ação privada.

A oração será tanto mais autêntica quanto mais


beber na fonte inesgotável da liturgia. Não como
certos liturgistas do século XX, que condenavam,
na prática, as formas privadas de piedade, ou a
relegavam a um segundo plano, como se fossem
meramente toleradas como ações de almas mais
simples. A devoção deve, sim, ser incentivada: o
terço, a via sacra, as novenas, as adaptações do
breviário, as bandeiras, as visitas... Porém, tudo
isso deve se inebriar da liturgia.

A oração pessoal é o campo da luta, do combate


entre nossa alma, com a ajuda da graça, e o
demônio. A oração é também a própria luta. E nos
nutrimos para essa peleja não só da própria oração,
como da liturgia. Além disso, se a liturgia é o meio
no qual o processo de santificação se dá, em que
conformamos nossa alma à vontade de Deus, essa
santificação é como que facilitada pela abertura de
nossa alma, o que conseguimos formamos nossa
inteligência, nossa vontade e nossas paixões no
terreno próprio da oração. A oração abre nossa
alma para os bens que recebemos na liturgia. Daí
que precisemos cultivar, para uma liturgia bem
vivida, uma oração bem feita, de íntimo
relacionamento com Cristo, e aumento da amizade
entre Ele e nossa alma.

42
Nossa santificação é um processo, e depende de
nossa disponibilidade. Essa entrega nossa a Deus,
para que Ele nos santifique – na liturgia e pela
liturgia –, se forja pela ação do Espírito Santo e
nossa liberdade durante a oração pessoal. Fazendo
oração, nos fazemos receptivos à ação da graça.

Por outro lado, não só de oração vivemos. Até os


religiosos contemplativos sabem do valor do
trabalho. Reza e trabalha, é o conselho de São
Bento, o patriarca do monaquismo no Ocidente.

Trabalhar por trabalhar é uma escravidão, um


fardo. Só pela graça de Deus, somos libertos disso,
em Cristo Jesus, e o trabalho se torna ocasião de
grande júbilo, e locus de santidade. Assim como o
sofrimento sem Cristo não tem sentido, o trabalho
sem Ele é apenas uma pena imposta pelo pecado e
uma forma de ganhar dinheiro. Pela graça,
conquistada na Cruz, e celebrada na liturgia – e
conferida também na liturgia –, o trabalho se
converte em um meio pelo qual podemos, mediante
as obras de nossas mãos e o fruto de nosso
intelecto, dar “maior glória à Trindade e benefício
à humanidade inteira”, no dizer do Pe. Rivero.

No trabalho, como na cultura, o homem reflete o


que celebrou na liturgia. A liturgia é a obra de Deus
no homem, e o trabalho e a cultura são obras do
homem com Deus. Para que isso seja verdade, o
homem precisa estar em graça, e isso só se

43
consegue com a plena participação sacramental. Da
liturgia, então, parte o homem para santificar o
mundo do trabalho e da cultura. “Liturgizados”, o
trabalho e a cultura adquirem novo significado. O
Espírito Santo deifica o homem na liturgia para que
ele humanize o mundo, e isto ele o faz pelo labor e
pela construção cultural. A cultura e o trabalho,
prossegue o Pe. Rivero, são como uma iconografia
do Espírito Santo e do homem, e se assim não
forem, serão sinais do inimigo do homem, o diabo.

A cultura e o trabalho, transformados pela graça,


através da ação do homem transformado por Deus
na liturgia, nos simboliza a beleza. E a beleza, bem
o sabemos por Santo Tomás, tem a Deus por fonte.
Não é a beleza um aspecto dos ritos litúrgicos?

Não há momento, período, recinto de nossa pobre


existência nesta terra de exílio em que a luz da
liturgia não possa ou não deva chegar. Da oração
ao trabalho e a cultura, do espiritual ao material. E,
por conta disso, da vivência plena da liturgia em
cada circunstância de nosso viver, brotará um
maior compromisso com Deus, Nosso Senhor, com
a Igreja por Ele fundada, com a comunidade
humana, com os pobres, nossos irmãos a quem
devemos compaixão, e com todos aqueles a quem
somos destinados para fazer apostolado.

Sem um coração completamente transformado pela


vida da liturgia, não desempenharemos a contento a
missão que nos foi designada por Deus. Ao

44
contrário, vivendo a vida da liturgia plenamente,
faremos vida a oração, o trabalho, a cultura, a
sociedade, os pobres, o apostolado. A liturgia dará
vida a tudo isso, e será mais vida à medida em que
transportarmos o que celebramos para dentro do
que vivemos.

45
O rito extraordinário e a
“reforma da reforma”
Com o Motu Proprio Summorum Pontificum, Papa
denominou o rito romano antigo de “forma
extraordinária do rito romano”. Qual o sentido
dessa expressão?

Antes de tudo, cumpre salientar que a forma


extraordinária, ou rito antigo, ou rito tradicional, ou
Missa tridentina, está em pé de igualdade com a
forma ordinária, assegura o mesmo Papa. Segundo
a Cúria Romana e pronunciamentos do Pontífice,
ela deve ser amplamente promovida e difundida, os
Bispos não lhe podem empecilhos, todos são
convidados a celebrá-la ou assisti-la etc.

É lícito, ademais, argüir que essa forma


extraordinária contém elementos que talvez não
devessem ter sido removidos quando da reforma
litúrgica de Paulo VI, ou que ela representa melhor
a nossa cultura que não é puramente romana, mas
mesclada com os elementos culturais celtas, num
verdadeiro rito gálico-romano, e, enfim, se encaixa
mais perfeitamente na esteira do desenvolvimento
harmônico da liturgia...

Todavia, esse modo de celebrar o rito romano


como celebrava a Igreja latina até 1970 é hoje uma
forma extraordinária, não a ordinária. O que quer
dizer o Papa com isso?

46
Podemos difundir a forma extraordinária. Podemos
amar a forma extraordinária. Podemos querer que a
forma extraordinária esteja em todas as dioceses.
Mas, além disso, é preciso promover a forma
ordinária bem celebrada, justamente porque ela é,
ordinária, comum, usual, majoritária. Aliás, o Papa
fala de mútua influência entre as formas, e um dos
modos disso acontecer é justamente popularizando
a Missa antiga para que aqueles que celebram mal a
Missa nova possam fazer uma comparação e se
empenhar na correta celebração também dessa
nova.

Com o tempo, por uma “reforma da reforma” que


seja orgânica, é bem possível que elementos
antigos da Missa e extirpados nos anos 70, hoje
encontrados na forma extraordinária, sejam
reincorporados ao rito usual de Paulo VI. Teríamos,
assim, no futuro, um rito romano unificado, com
textos, rubricas e cerimônias das duas formas: “o
melhor” dos dois Missais, diríamos em linguagem
popular.

Antes que isso aconteça, e independentemente de


acontecer, o indulto universal para a forma
extraordinária deve, além de favorecer um espírito
de tolerância entre os diversos grupos presentes na
Igreja – tolerância essa que deve conduzir à
caridade fraterna e aceitação plena –, criar
condições para que o esplendor e a sacralidade –
normais na forma extraordinária justamente porque,

47
além de contar com rubricas mais precisas e
detalhadas, ela é a procurada por católicos
insatisfeitos com a verdadeira bagunça ritual na
maioria das paróquias – sejam “populares” também
na forma ordinária.

Quem vê a Missa celebrada pelo Papa, ou as


Missas dos Legionários de Cristo, por exemplo, ou
dos padres do Opus Dei, dos Cônegos Regulares de
São João Câncio, dos Missionários Franciscanos do
Verbo Eterno, dos Franciscanos da Imaculada, e de
uma série de mosteiros beneditinos e cistercienses,
encontra uma forma ordinária, moderna, do rito
romano, bem celebrada, com sacralidade, respeito
às rubricas, latim, incenso, padre eventualmente
versus Deum, e o adequado esplendor litúrgico.
Uma Missa assim não afasta os que procuram a
forma extraordinária para fugir ao caos – ainda que
possam torcer o nariz também para ela alguns mais
radicais daqueles que preferem a Missa antiga por
razões teológicas, criticando a nova por supostos
defeitos. Também não afasta os que preferem a
Missa antiga e a consideram mais adequadamente
transmissora do ensinamento eucarístico, mas
respeitam a nova e sabem-na não só válida, como
lícita, legítima e santificante – como é o caso da
Administração Apostólica, da Fraternidade São
Pedro, do Mosteiro do Barroux, dos redentoristas
transalpinos de Papa Stronsay, do Instituto Cristo
Rei etc.

48
Promover que a Missa, na forma ordinária mesmo,
seja celebrada conforme as rubricas – e isso não
deixa de ser uma aproximação externa entre as duas
formas – é também fazer o que pede o Papa.

O rito extraordinário é isso: extraordinário.


Façamos sua promoção! Mas não nos esqueçamos
de promover o ORDINÁRIO, o comum que
encontramos nas nossas paróquias, para que seja
mais bem celebrado. Pouco adianta termos, lado a
lado, uma excelente e piedosa Missa tridentina, e
uma Missa nova mal celebrada, desdenhosa do
latim, do incenso, do versus Deum e do gregoriano,
com padres sem casula, sem sacralidade e sem
amor às rubricas... A Missa antiga não é a “versão
da Missa para conservadores” e a nova também
não é a “versão para os que aceitam a bagunça”. Se
a forma extraordinária deve ser difundida, a forma
ordinária, tal como celebrada hoje na imensa
maioria do Brasil, deve ser reconduzida ao lugar
em que figura no Missal. Se a extraordinária
precisa ser promovida, o modo como se oferece a
ordinária na grande maioria das paróquias
brasileiras deve ser corrigido.

Queremos não só a Missa tridentina... Queremos,


na Missa nova, na forma ordinária, nessa que temos
nas nossas paróquias, a Missa do Missal! Não é só
em Roma, ou só os legionários, ou só a Obra, ou só
monges, que devem celebrar a forma ordinária com
sacralidade e fausto...

49
O erro racionalista e a reforma
litúrgica
Quando se fala em algumas impropriedades da
forma moderna do rito romano, é comum levantar-
se o argumento de que não se observou o princípio
do desenvolvimento harmônico da liturgia, ou o de
que, em nome de uma suposta pureza do rito, a
partir de um erro denominado “arqueologismo”,
eliminou-se uma série de acréscimos (legítimos!)
de origem galicana ou mesmo oriundos da piedade
individual. Tudo isso está absolutamente certo, é
verdade, mas creio que um outro viés deveria ser
mais trabalhado: o de que alguns aspectos da
reforma litúrgica levada a cabo por Mons. Anibale
Bugnini, e sua implantação prática nas paróquias,
foram influenciados pelo racionalismo.

O sacerdote australiano Pe. John Parsons,


vivamente empenhado na chamada “reforma da
reforma”, explica, em um apêndice da grande obra
do Pe. Thomas M. Kocik sobre o tema, o quanto o
racionalismo está na gênese da ânsia por uma
Missa “ideal”. De fato, o idealismo das formas
“puras” corresponde à mesma matriz ideológica do
racionalismo, do Iluminismo, que rechaça a
tradição por vê-la envolvida no que entende ser um
repositório de superstições.

Ademais, certas simplificações feitas por Bugnini


não estavam na linha da eliminação de duplicidades

50
superficiais pedida pelo Concílio, mas obedeciam a
uma agenda que não conseguia entender o valor
dos símbolos, dos sinais. Se o homo modernus não
entende os símbolos profundos da liturgia romana
tradicional, eles devem ser retirados: eis o mote que
acompanhou boa parte dos executores da reforma.
Ora, isso é uma sandice. Então, em um país de
esmagadora maioria de analfabetos, iríamos
eliminar as letras, os sinais de pontuação, a
gramática? Se a resposta ao analfabetismo é a
alfabetização, a resposta a um século que não lê os
símbolos é ensinar-lhes o seu significado, não
propor seu banimento!

O homem advindo do racionalismo não entende os


símbolos, não é capaz de aprofundar no belo, vê o
fausto e o esplendor como farisaísmo estéril ou
triunfalismo e, diante desse quadro, certos
membros do Concilium de Bugnini, propuseram o
aniquilamento de tudo aquilo que a modernidade
não entenderia. Daí, a exclusão dos altares laterais,
a falta de ênfase no dogma da transubstanciação, a
eliminação de certos sinais que davam o claro
caráter sacrifical da Missa, a mentalidade de que a
liturgia bem feita excluiria a devoção popular, a
obrigatoriedade prática de celebrar versus populum,
o impedimento de recitar o Cânon em vox
submissa, a verdadeira cruzada contra o latim etc.

Com efeito, embora muitos desses pontos não


estejam presentes no código de rubricas do Missale
Romanum de 1970, estavam no ethos dos que

51
implementaram a reforma. O racionalismo é a
origem de muitas daquelas posturas já identificadas
com o arqueologismo litúrgico.

Para o racionalismo, disseminado mesmo entre


católicos a partir do jansenismo do século XVIII –
e o herético Sínodo de Pistóia, com suas
proposições litúrgicas condenadas, está aí para
provar –, a multiplicação de altares laterais era
produto do sentimentalismo, as Missas votivas
eram uma forma de superstição, o Cânon em
silêncio um obscurantismo, o padre a celebrar
versus Deum estaria “de costas para o povo” – eis
aqui também uma distorção dos valores
democráticos. Tudo isso deveria ser reprimido.

Finalmente, após a primeira e a segunda fases do


movimento litúrgico de Dom Guéranger, OSB, que
muito contribuíram para uma vivência mais
apurada, entre os fiéis, do dom de nossa liturgia
romana, os racionalistas, imbuídos desses conceitos
amalgamados com um estilo peculiar de
catolicismo, e alimentados pelo arqueologismo,
propuseram sua revolução. Foi a terceira fase do
movimento litúrgico que, ao lado de excelentes
contribuições, que nos deram os valiosos pontos
positivos da reforma de Paulo VI (como um maior
ciclo de leituras bíblicas no lecionário, a
possibilidade de se usar canto gregoriano e incenso
mesmo em Missas rezadas, um tesouro de hinos,
antífonas, coletas e prefácios pré-tridentinos e que
não constavam do Missal compilado por São Pio V,

52
a procissão do ofertório, um mais amplo uso do
vernáculo, a ênfase no gregoriano como canto
oficial do rito romano, a restauração das preces dos
fiéis, a recolocação do Ite Missa est para depois da
bênção, a homilia ou sermão como cerimônia
integrante da liturgia e não uma interrupção da
Missa, a simplificação na gradação de festividades,
a mudança mesmo em Missas simples e rezadas,
como ensina o Mons. Peter Elliott, de um tablado
restrito no qual ficava o padre para um espaço
aberto de celebração no presbitério, etc), trouxe
enormes desvantagens ao culto católico. Esses
racionalistas e arqueologistas se aproveitaram das
diretivas do Concílio Vaticano II e da depressão de
Paulo VI, ocasionada por sua quebra de autoridade
diante de um episcopado rebelde que não aceitou
sua reafirmação da ortodoxia em matéria de moral
sexual, e da sua confiança nos oficiais do comitê
para a reforma litúrgica, para colocar o cavalo de
Tróia dentro dos muros da Igreja.

Não fosse o corajoso basta de Paulo VI, impedindo


uma revolução ainda maior na liturgia, e
desautorizando mudanças mais radicais que
Bugnini – que foi mandado por Paulo VI para o Irã,
em um ato que foi interpretado por cardeais mais
ortodoxos como uma punição – e seus sequazes
tentavam fazer passar, estaríamos hoje diante de
um seco, frio e absolutamente racionalista culto
católico.

53
A reforma teve elementos racionalistas, mas graças
a Deus e ao Papa Paulo VI – e depois às correções
de João Paulo II –, não tantos quanto os
modernistas queriam. Todavia, se na própria
reforma litúrgica, o radicalismo dos racionalistas
foi barrado, na sua implementação em nossas
paróquias, a crise atingiu proporções apocalípticas.

A frieza racionalista caiu como uma bomba no dia-


a-dia dos fiéis católicos: de uma hora para outra,
houve padres que até mesmo retiraram não só os
altares laterais como removeram todas ou quase
todas as imagens dos santos das igrejas; o órgão foi
banido e trocado pelos violões da música romântica
e folk; as piedosas letras dos cantos gregorianos,
das polifonias sacras de forte inspiração bíblica, e
dos cânticos populares mais tradicionais foram
substituídas por outras de gosto duvidoso; o
celebrante deu as caras para o povo como se fosse
um animador de auditório – e, de fato, poucos são
os padres que conseguem manter a concentração e
a piedade versus populum. Com o tempo, a casula
foi abandonada, à revelia das normas que
obrigavam ao seu uso, os paramentos adquiriram
uma simplicidade que beirava ao simplório e sem
aquela nota de sacralidade e distinção próprias de
nossa visão católica das coisas.

Claro que essas coisas todas na implementação da


reforma não estavam por esta prevista. Em nenhum
momento, mandou a Igreja que se aposentasse o
canto gregoriano, a casula, as seis velas nas Missas

54
solenes, o latim... Ocorre que o racionalismo não
estava presente somente nas novas normas, mas em
toda uma mentalidade que, ignorando as sadias
normas que procuravam manter um mínimo de
nossa tradição litúrgica romana, radicalizava a
reforma. Não contentes com as rubricas, que já não
estavam recheadas de arqueologismo e
simplificações em demasia, os revolucionários
fizeram, em cada paróquia, a sua própria reforma.

Se o novo rito tinha alguns defeitos, o modo como


muitos o colocaram em prática foi ainda pior. Não
se nega que há problemas na reforma litúrgica,
porém o que temos em nossas igrejas não é culpa
da reforma e nem mesmo pode ser chamado de
Novus Ordo, de Missa nova: é uma sua distorção.

É bem possível celebrar a Missa do rito novo com


toda a sobriedade e sacralidade, com canto
gregoriano, incenso, versus Deum, toda ela em
latim etc, atestando a continuidade do Missale de
Paulo VI com o rito romano clássico. Sem
embargo, não se pode negar a presença, como
atestado, da mentalidade racionalista, ainda que ela
esteja muito mais na criminosa implementação que
alguns padres e Bispos puseram em marcha contra
as orientações dos Papas e as normas de Roma.

Uma eventual e necessária “reforma da reforma”,


que coloque como ponto de partida a co-existência
dos dois ritos, o novo e o antigo, o moderno e o
tradicional, e propugne, em harmônico

55
desenvolvimento, por um acréscimo dos elementos
positivos do Missal de Paulo VI ao Missal clássico
de São Pio V, em uma unificação da liturgia
romana, não poderá desconsiderar também a
rejeição da ideologia por trás dos pontos negativos
do novo Ordinário. E nessa ideologia, não poucos
pontos da filosofia racionalista estão presentes.

56
Visão teológica da Missa e
suas conseqüências práticas
Sobre a Missa, a lei da Igreja é clara em defini-la:

“Cân. 897 – Augustíssimo sacramento é a


santíssima Eucaristia, na qual se contém, se
oferece e se recebe o próprio Cristo Senhor e pela
qual continuamente vive e cresce a Igreja. O
sacrifício eucarístico, memorial da morte e
ressurreição do Senhor, em que se perpetua pelos
séculos o Sacrifício da cruz, é o ápice e a fonte de
todo o culto e da vida cristã, por ele é significada e
se realiza a unidade do povo de Deus, e se
completa a construção do Corpo de Cristo. Os
outros sacramentos e todas obras de apostolado da
Igreja se relacionam intimamente com a santíssima
Eucaristia e a ela se ordenam.”18

Por ter o homem pecado em Adão e Eva, a


consciência do erro que o afastou de Deus foi
passada de geração a geração por toda a
humanidade. O homem sabe que, no fundo, está
afastado da divindade e que precisa fazer algo para
suprir a lacuna entre eles. A própria Lei Natural,
inscrita no coração de todas as pessoas, e que não
foi afetada pelo pecado original praticado por
nossos primeiros pais, afirma a necessidade de ser
construída uma ponte entre Deus e o homem. É

18
Código de Direito Canônico

57
preciso, sabe o homem, um meio de unir o divino
ao humano, de recuperar a amizade entre os dois!

Nesse sentido, procurou o homem oferecer


sacrifícios que o unisse novamente a Deus. Muitas
vezes, cego pelo pecado que lhe confundiu a razão,
ofereceu sacrifícios totalmente contrários à vontade
do Criador, como holocaustos humanos. Entretanto,
não podemos deixar de ver nessa atitude ilícita e
totalmente imoral um desejo humano de
reconciliar-se com Deus ou, ao menos, aplacar a
(justa) ira divina em virtude de seus pecados.

Para preparar a vinda de Cristo, o Pai formou, em


determinado momento da História, um povo, e o
elegeu. Esse povo, Israel, foi iniciado em Abraão, e
consolidou-se nos patriarcas, Isaac e Jacó, com
seus filhos, fundadores das doze tribos da nova
nação, libertada, anos mais tarde, do jugo dos
senhores egípcios que a escravizavam. Moisés, o
líder dessa libertação, prefigurava o próprio Jesus,
preparando-O!

Já na primeira fase de Israel enquanto nação


ofereciam-se sacrifícios pelos pecados, procurando
agradar a Deus. Ele mesmo os exigia, já ensinando
o povo que a ponte precisava ser reconstruída, e o
pecado desfeito!

Mais tarde, com Moisés, um rito foi instituído pelo


próprio Deus, de forma a incutir ainda mais na
mente dos israelitas toda a pedagogia do sacrifício,

58
e os preparando para o sacrifício definitivo
oferecido por Cristo, séculos depois. O cordeiro
sacrificado no rito mosaico simbolizava,
antecipadamente, Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus
que tira o pecado do mundo. O ritual da primeira
ceia mosaica (cf. Ex 12,1-8.11-14) já se mostra um
grandioso símbolo da Paixão do Salvador.
Sacrifica-se um cordeiro macho e sem defeito, no
lugar dos pecados do povo de Israel; Cristo, mais
tarde, será identificado por São João Batista como
o “Cordeiro de Deus” (Jo 1,29), o Agnus Dei, e
morrerá, também sem “defeito” (ou seja, sem
pecado, puro, santo, agradável ao Pai) pelas faltas
do Novo Israel, a Igreja de Deus, santa e católica.
O sangue do cordeiro untado nas casas os
assinalaria perante o anjo da morte como os
escolhidos para a vida; o Sangue de Nosso Senhor
e Salvador, derramado na Cruz e aspergido em nós
pela fé e pelos sacramentos, nos assinala como os
eleitos para a vida eterna. A Páscoa judaica foi
dada como instituição perpétua; essa perpetuidade
foi dada por excelência quando Cristo morreu e
instituiu a Eucaristia como Nova Páscoa, sinal vivo
e presente de Sua Morte e Ressurreição, como um
holocausto permanente, conforme já previra o
profeta Daniel (cf. Dn 8,11;9,27).

Quando Cristo veio ao mundo, antes de oferecer-Se


em sacrifício na Sexta-feira Santa, celebrou uma
ceia com Seus Apóstolos, na noite anterior. Essa
ceia foi uma antecipação mística e real do sacrifício
oferecido no dia seguinte.

59
Na Última Ceia, Jesus antecipou Seu sacrifício,
instituindo-o como perpétuo através do
oferecimento de Seu Corpo e Seu Sangue. O
mesmo Corpo morto na Cruz e o mesmo Sangue
derramado foram distribuídos aos Seus Apóstolos,
numa verdadeira antecipação do sacrifício.

Além de antecipar o sacrifício, vimos, Jesus Cristo


tornou-o perpétuo, quando mandou: “fazei isto em
memória de mim.” (Lc 22,19)

Assim, os Apóstolos e seus sucessores devem


obedecer ao mandamento de Jesus e fazer o que Ele
ordenou: realizar o sacrifício! Se o sacrifício pôde
ser antecipado, pode também, por ter-se tornado
perpétuo, ser oferecido continuamente. Não se trata
de um novo sacrifício, eis que o de Cristo foi
definitivo e suficiente, mas do mesmo novamente
tornado presente pelos Apóstolos, seus sucessores e
os colaboradores destes.

O sacrifício de Jesus Cristo foi oferecido na Cruz, e


é tornado novamente presente em cada Missa
celebrada. Missa, portanto, é um dos nomes que
nós damos ao sacrifício da Cruz tornado novamente
presente diante de nós.

A Santa Missa é o mesmo, único e suficiente


sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, oferecido
de uma vez por todas, ao Pai, na Cruz do Calvário,
pelo perdão de nossos pecados, tornado real e

60
novamente presente, ainda que de outro modo,
incruento, no altar da igreja pelas mãos do
sacerdote validamente ordenado.

Mesmo, único e suficiente: a Missa não é um novo


sacrifício para saldar nossa dívida para com Deus.
Oferecido de uma vez por todas, ao Pai, na Cruz do
Calvário: a Missa é o mesmo sacrifício da Cruz,
não um outro. Pelo perdão de nossos pecados:
como a Cruz foi a causa de nosso perdão,
merecendo-nos a graça de Deus, assim também é a
Missa. Tornado real e novamente presente: a
mesma Cruz é tornada presente diante de nós, pois
para Deus não há limite de espaço ou tempo. Ainda
que de outro modo, incruento: na Cruz, Cristo
derramou Seu Preciosíssimo Sangue; na Santa
Missa, a Cruz é tornada novamente presente, mas
de outro modo, sem derramamento de Sangue –
não é, repetimos, uma nova morte de Cristo, mas a
mesma e única, porém de modo incruento. No altar
da igreja: todo sacrifício precisa de um altar; a Cruz
foi o altar onde Cristo ofereceu o sacrifício de Seu
Corpo Santíssimo; na Missa não há uma Cruz física
onde Cristo deva morrer, mas um altar onde é
celebrado o sacrifício e os dons são oferecidos.
Pelas mãos do sacerdote: num sacrifício, além do
altar, é preciso uma vítima e um sacerdote, i.e., um
sacrificador; quando o altar foi a Cruz, Jesus Cristo
foi a Vítima, mas também o Sacerdote, pois
ninguém O matou, antes Ele mesmo Se entregou à
morte por nós; na Santa Missa, se o altar é o da
igreja, e a vítima é Cristo, eis que o sacrifício é o

61
mesmo, também há identidade quanto ao sacerdote,
o sacrificador. Validamente ordenado: Jesus
mandou que os Apóstolos realizassem o sacrifício
feito na Cruz e antecipado na última Ceia, e eles
passaram o mandato a seus sucessores e aos
colaboradores destes; os sucessores dos Apóstolos
são os Bispos, e os colaboradores os padres, unidos
a Cristo pelo sacramento da Ordem.

“Este aspecto de caridade universal do sacramento


eucarístico está fundado nas próprias palavras do
Salvador. Ao instituí-lo, não Se limitou a dizer 'isto
é o meu corpo', 'isto é o meu sangue', mas
acrescenta: 'entregue por vós (...) derramado por
vós' (Lc 22, 19-20). Não se limitou a afirmar que o
que lhes dava a comer e a beber era o seu corpo e
o seu sangue, mas exprimiu também o seu valor
sacrifical, tornando sacramentalmente presente o
seu sacrifício, que algumas horas depois realizaria
na cruz pela salvação de todos. 'A Missa é, ao
mesmo tempo e inseparavelmente, o memorial
sacrifical em que se perpetua o sacrifício da cruz e
o banquete sagrado da comunhão do corpo e
sangue do Senhor'.

A Igreja vive continuamente do sacrifício redentor,


e tem acesso a ele não só através duma lembrança
cheia de fé, mas também com um contacto atual,
porque este sacrifício volta a estar presente,
perpetuando-se, sacramentalmente, em cada
comunidade que o oferece pela mão do ministro
consagrado. Deste modo, a Eucaristia aplica aos

62
homens de hoje a reconciliação obtida de uma vez
para sempre por Cristo para humanidade de todos
os tempos. Com efeito, 'o sacrifício de Cristo e o
sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício'. Já
o afirmava em palavras expressivas S. João
Crisóstomo: 'Nós oferecemos sempre o mesmo
Cordeiro, e não um hoje e amanhã outro, mas
sempre o mesmo. Por este motivo, o sacrifício é
sempre um só. [...] Também agora estamos a
oferecer a mesma vítima que então foi oferecida e
que jamais se exaurirá'.

A Missa torna presente o sacrifício da cruz; não é


mais um, nem o multiplica. O que se repete é a
celebração memorial, a 'exposição memorial'
(memorialis demonstratio), de modo que o único e
definitivo sacrifício redentor de Cristo se atualiza
incessantemente no tempo. Portanto, a natureza
sacrifical do mistério eucarístico não pode ser
entendida como algo isolado, independente da cruz
ou com uma referência apenas indireta ao
sacrifício do Calvário.”19

“O augusto sacrifício do altar não é, pois, uma


pura e simples comemoração da paixão e morte de
Jesus Cristo, mas é um verdadeiro e próprio
sacrifício, no qual, imolando-se incruentamente, o
sumo Sacerdote faz aquilo que fez uma vez sobre a
cruz, oferecendo-se todo ao Pai, vítima
agradabilíssima. 'Uma... e idêntica é a vítima:

19
Sua Santidade, o Papa João Paulo II. Encíclica Ecclesia de
Eucharistia, 12

63
aquele mesmo, que agora oferece pelo ministério
dos sacerdotes, se ofereceu então sobre a cruz; é
diferente apenas, o modo de fazer a oferta.'”20

O sacerdote que celebra o Santo Sacrifício da


Missa deve participar como sacrificador. E nessa
função ministerial, a mais sagrada e a mais excelsa
que possa existir, o sacerdote deve ter consciência
de que faz as vezes de Jesus Cristo, Nosso Senhor;
melhor, o próprio Salvador age através do padre.
Portanto, deve o celebrante estar revestido das
disposições próprias do Coração de Cristo, e unir-
se a Ele mediante uma sincera devoção e uma
piedade verdadeira e desinteressada. Deve desejar,
de toda a sua alma, emprestar seus gestos e sua fala
a Jesus para que assim, agindo in Persona Christi,
melhor celebre tão santos mistérios. É nesse sentido
que há uma oração no Ordinário na Missa em rito
romano que o sacerdote reza durante o Ofertório,
silenciosamente, e que resume bem essa intenção
do celebrante de estar arrependido de seus pecados
e de oferecer um sacrifício agradável a Deus: “De
coração contrito e humilde, sejamos, Senhor,
acolhidos por vós; e seja o nosso sacrifício de tal
modo oferecido que vos agrade, Senhor, nosso
Deus.”21

O fiel, por sua vez, participa da Santa Missa


assistindo-a com toda a vontade de unir-se aos

20
Sua Santidade, o Papa Pio XII. Encíclica Mediator Dei, 61
21
Missal Romano; Ordinário da Missa; Preparação das
Oferendas

64
sentimentos de Cristo. Se não pode, como o padre,
ser o próprio Jesus oferecendo-Se na Cruz, deve,
então, assistir o maravilhoso espetáculo do
sacrifício de um Deus-homem que morre por
nossos pecados com a disposição de alma de quem
aspira imitar aqueles santos que estiveram aos pés
do Calvário. A Cruz torna-se presente na Missa, e
porquanto naquela estavam presentes a Santíssima
Virgem e o discípulo amado, São João, o Apóstolo
e Evangelista, quando estamos assistindo o Santo
Sacrifício devemos ter as mesmas atitudes de
ambos. Certamente, não estavam Nossa Senhora
nem São João batendo palmas: sua alegria pela
salvação que se operava era interna, e se misturava
com uma viva dor pelos pecados da humanidade,
cometidos de tal forma que fizeram Deus sofrer e
derramar Seu Sangue por nós. Imitando os
sentimentos e atitudes de São João e da Virgem
Maria aos pés da Cruz, estamos participando da
Missa de um modo santo e salutar.

Praticamente, isso consiste em ficar atento em cada


detalhe, acompanhar as orações do sacerdote com o
coração ao menos – pois que nem sempre, pela
diferente cultura teológica de cada um do povo,
podemos entender perfeitamente as precisões
litúrgicas –, e cumprir os ritos prescritos pela
sabedoria multissecular da Santa Igreja. Mais do
que tudo deve o fiel oferecer durante a Missa todo
o seu ser para que, unido a Cristo, seja também
ofertado ao Pai na hora do sacrifício.

65
O sacerdote, antes de celebrar a Santa Missa, deve
dizer algumas orações, como as previstas pela
liturgia da Igreja. Elas ajudam-no a melhor se
preparar para oferecer tão augusto sacrifício a
Deus, Nosso Senhor. Entre elas, contam-se aquela
na qual o celebrante pede a graça de bem celebrar e
dispõe-se a oferecer a Missa segundo o rito e a
intenção da Santa Igreja. Outras, ajudam-no a
dispor sua alma para penetrar no tremendo mistério
da Santa Missa.

O fiel participante da Missa é convidado a também


rezar algumas orações, antes de começar a
celebração, preparando sua alma para receber os
efeitos do sacrifício e do sacramento.

“Cân. 898 – Os fiéis tenham na máxima honra a


santíssima Eucaristia, participando ativamento do
augustíssimo Sacrifício, recebendo devotíssima e
freqüentemente esse sacramento e prestando-lhe
culto com suprema adoração (...).”22

22
Código de Direito Canônico

66
Subirei ao altar de Deus!
Duas grandes partes principais e duas acessórias,
igualmente indispensáveis, formam a Missa no rito
romano. As principais são a Liturgia da Palavra e a
Liturgia Eucarística. Antes da primeira e após a
segunda, estão os Ritos Iniciais e os Ritos Finais.
Na forma tradicional do rito romano, a primeira
parte era chamada de Missa dos Catecúmenos, e a
segunda de Missa dos Fiéis.

Fazem parte dos Ritos Iniciais a Entrada, o


Saudação, o Ato Penitencial, o Kyrie, o Glória e a
Coleta. Ocasionalmente, o Ato Penitencial e o
Kyrie podem ser suprimidos quando há a cerimônia
do Asperges. Os Ritos Iniciais devem ser
celebrados no ambão ou na cadeira, e não no altar.
Podem estar o ambão e a cadeira ou à frente do
altar ou no lado direito do presbitério, ou ainda, se
este for de pequenas dimensões, logo abaixo, na
nave. Se, por circunstâncias pastorais, forem ditos
do altar, estejam no lado direito dele, e não no
centro, evitando que os elementos próprios da
Liturgia Eucarística – patena, cibório, cálice,
galhetas, missal – estejam dispostos no altar. O
missal, pelo qual o sacerdote se guia na celebração
da Santa Missa, seja segurado pelo acólito, pelo
diácono ou por um sacerdote concelebrante, ou
ainda, sendo celebrada sem esses ministros
instituídos ou ordenados, por um acólito temporário
– assistente ou servo, segundo a correta
terminologia litúrgica.

67
Infelizmente, a reforma litúrgica de Paulo VI,
pretendendo restaurar o uso primitivo do rito
romano, acabou por retirar do Ordinário da Missa
aquele piedoso acréscimo, feito em harmônico
desenvolvimento da liturgia, que previa, iniciando a
celebração, a recitação do Salmo Judica Me, sua
antífona e as cerimônias que perfazem as chamadas
“Orações ao Pé do Altar”. Aqueles que assistem a
Missa no rito romano segundo a forma
extraordinária, i.e., conforme os livros de 1962,
ainda têm a graça de contar com tão significativas
ações cerimoniais.

Os que freqüentam a Missa do rito romano segundo


a forma ordinária, todavia, ainda que não vejam
essas orações, podem usá-las privadamente como
parte daquelas preparações a que aludimos e que
vimos ser tão necessárias.

As Orações ao Pé do Altar são preces de apologia,


como as chamam os liturgistas, e têm a função de
novamente preparar o celebrante e o povo para a
Missa. São uma espécie de confissão de pecados,
de acusação das faltas diante de Deus, e de
rememorar o que será feito sobre o altar.

O Salmo 42, Judica Me, alternado com a antífona,


perfazem uma grande explicitação do que o
sacerdote e os fiéis farão na Missa: “Subirei ao
altar de Deus, do Deus que alegra a minha
juventude.” É ao altar que o padre e os fiéis se

68
dirigem. Não se trata de um programa de auditório,
em que o padre animará uma platéia e a convidará a
rezar e cantar. Não se trata de uma oração em
conjunto. Não se trata de uma reunião com
motivação religiosa. O que o padre fará está no
salmo: subirá ao ALTAR!

E o que se faz em um altar? Oferece-se o sacrifício.


Na Missa, o padre vai apresentar-se diante de Deus,
não do povo, para ofertar um sacrifício, e não
qualquer sacrifício, senão o de Jesus Cristo morto
na Cruz. O padre emprestará sua voz e suas mãos a
Cristo, para que Ele renove, sobre o altar da igreja
o sacrifício que fez no altar da Cruz do Calvário.
Cristo, sacerdote, será o padre, e Cristo vítima o
pão e o vinho da oblação. O Filho de Deus se
oferecerá, ainda que de modo incruento, sobre o
altar: que preparação não deveria ser feita diante de
espetáculo tão impressionante?

O povo não vai dialogar com o padre, pois não é


para ele que o sacerdote celebra a Missa. O povo
participa ativamente, assiste, une seu espírito ao do
padre e de toda a Igreja, mas o sacrifício, embora
tenha os fiéis como beneficiários, tem a Deus por
destinatário. É a Deus que se oferece um sacrifício,
pois sacrificar é um ato de adoração, ou seja, de
reconhecimento da divindade. Sacrificar ao povo
implica em idolatrar o fiel e não adorar a Deus.
Adorar e sacrificar são sinônimos. Se adoramos a
Deus, sacrificamos, pelas mãos do padre, que une
seu sacerdócio ao sumo-sacerdócio de Cristo pelo

69
sacramento da Ordem. O altar ao qual o padre
subirá é de Deus.

Esse Deus, em cujo altar estará o sacerdote, alegra


a juventude do padre? O que significam essas
palavras do salmista? É a Missa, o culto celebrado
no altar de Deus, a fonte da eterna juventude
espiritual, a causa da renovação do homem. A Cruz
é a ponte que liga o céu e a terra, que rompe a
inimizade que tínhamos para com o Criador no
pecado de Adão. A Cruz é o sinal da Nova e Eterna
Aliança no Sangue de Cristo Jesus, conquistando-
nos a graça e nos tornando filhos de Deus.

Se a Missa torna essa Cruz presente, se a Missa e a


Cruz são uma só realidade, então a Missa é tudo
isso que dissemos da Cruz. A Missa une céu e terra,
a Missa é o sinal da Nova Aliança, a Missa é a
fonte da graça etc. Por isso que a Missa é a causa
da salvação, e nos faz viver para sempre. Nesse
sentido, subir ao altar de Deus para oferecer a
Missa – caso do celebrante – ou para assisti-la –
caso dos demais fiéis – é ter sua alma renovada, é
possuir a eterna juventude espiritual!

Lembremos desse salmo antes de cada Missa que


assistirmos. Recitemos, de joelhos, no banco da
igreja: “Subirei ao altar de Deus, do Deus que
alegra a minha juventude.”

70
Considerações sobre o rito de
1965, a reforma de 1970 e a
eventual reforma da reforma

A partir do texto do Pe. S. Dufour, FSSP, sobre as


rubricas de 1965, traduzido pelo Fratres in Unum,
tecerei alguns comentários com vistas a uma futura
e eventual “reforma da reforma”.

Desde já, reafirmo que concordo com o referido


sacerdote quanto à ilicitude e despropósito de
alguns padres que, querendo “apressar” a reforma
da reforma, utilizam, por conta própria de
elementos do rito de 1965, mesclando-o com o de
1962. A mudança de textos e rubricas deve ser
feita, mesmo buscando a uma unificação do rito
romano, acabando com a separação entre as duas
formas, pela autoridade competente: a Santa Sé.
Outrossim, concordo também com o Pe. Dufour em
que o rito de 1965 contém elementos permeados de
um “novo espírito”, que antecipava certos aspectos
equivocados que mais tarde se consagrariam,
infelizmente, no Missal de 1970, promulgado pelo
Papa Paulo VI.

Sem embargo, não posso me furtar a,


respeitosamente, discordar do padre, e, nessa
esteira, elogiar partes do rito de 1965, que, a meu
ver, seriam muito oportunas se fossem mantidas em
um futuro rito romano unificado. Unificação,

71
reitero, a ser feita por quem de direito, e não por
sacerdotes que, na melhor boa vontade, acabam
mutilando a antiga liturgia, e, por conseguinte,
cometem o mesmo erro dos progressistas que
mutilam a nova liturgia.

A reforma da reforma, ou unificação do rito


romano, será feita, se é que será feita, pela
autoridade competente, e mais na linha de uma
inserção cada vez maior de elementos tradicionais
no Missal moderno do que na alteração do Missal
antigo. Uma saudável reforma da reforma deve ter
por ponto de partida o Missal tradicional e, para
isso, é preciso aproximar dele o moderno, a ponto
de, em alguns anos, o fiel não-especialista chegar a
confundir ambos. É claro que, em um rito
unificado, certos aspectos positivos do rito novo
podem ser mantidos, porém só em uma etapa
posterior: os primeiros passos devem ser, como
disse, a introdução de elementos antigos no rito
moderno. E, nada mais natural, penso que entre
esses primeiros passos seria saudável que ao menos
o Ordinário do rito moderno fosse trocado de 1970
para 1965. Não se trata de mudar o de 1962 pelo de
1965, e sim de substituir o de 1970 pelo 1965, e
somente no Ordinário. É o rito novo que deve se
aproximar do rito antigo, via 1965, e não o antigo
que deve modernizar-se com o de 1965. E repito:
por quem de direito.

Quando o Missal moderno de 1970 adotando, para


o Ordinário, os textos e rubricas de Missa

72
intermediário de 1965, se aproximar do Missal
tradicional de 1962, pode ser a hora de introduzir,
neste de 1965/1970, aquilo de 1962 que, conforme
exporei no artigo abaixo, nunca deveria ter sido
eliminado, mantendo, ainda segundo meu texto, o
que foi corretamente modificado. Desse modo, em
um segundo tempo, o eventual Missal de
1965/1970 pouquíssimo se diferirá do de 1962 no
Ordinário. Assim coexistindo, e se diferenciando
mais no Próprio, não tardará a que, naturalmente,
possam se fundir de modo harmônico, com os
pontos positivos de cada rito, tendo, sem embargo,
a base do rito antigo.

De qualquer modo, é bom que se diga que minhas


letras aqui não passam de divagações, muitas delas
sem um embasamento tão profundo. Enfim, o
melhor que todos, padres e fiéis, temos a fazer
agora, é simplesmente celebrar o rito moderno com
a maior reverência possível e, conforme a
oportunidade, com as opções mais tradicionais que
as rubricas permitirem (canto gregoriano, versus
Deum, fórmulas tradicionais, dedos unidos após a
Consagração, acólitos de batina e sobrepeliz,
incenso, Missas cantadas, diáconos, Missa
pontifical solene, belos paramentos, manípulo,
latim), e favorecer um cada vez mais amplo uso do
rito antigo. Quando o rito antigo estiver popular o
suficiente e o rito novo celebrado conforme não só
as rubricas como inspirado pela tradição litúrgica,
se poderá pensar em aproximar este último do uso
tridentino, via 1965, e, passo a passo, sem traumas,

73
respeitando o princípio do desenvolvimento
orgânico, quando ambos estiverem externamente
semelhantes aos olhos do não-especialista, se
verificará o que, do rito novo, “passou na prova”, e
poderá permanecer em um eventual e futuro rito
romano unificado – sob a base do antigo, com os
elementos positivos do moderno.

Elencarei os pontos que o texto do sacerdote da


Fraternidade São Pedro mostra como presentes nas
rubricas de 1965 e diferentes dos tradicionais, que
constavam nas de 1962, e, após cada um, farei os
breves apontamentos que considerar pertinentes.

1) No Ordo da missa em geral:

Supressão do salmo Judica me no início


da missa.

Aqui, penso ter sido um desastre a opção,


infelizmente mantida no rito paulino de 1970. As
chamadas “Orações ao Pé do Altar” se tornaram,
em 1965, absurdamente reduzidas com a supressão
do Judica Me, preparando o terreno para, em 1970,
a cerimônia toda ser eliminada.

Cabe notar que o Judica Me e o restante das


Orações ao Pé do Altar são elementos de uma
piedade notável, e ajudam o sacerdote e os fiéis a
disporem seu estado de alma para a melhor
celebração da Santa Missa. Os textos têm nítido
caráter sacrifical e, não por acaso, sua omissão

74
coincidiu com a falta de consciência pela maioria
dos fiéis católicos de hoje de que a Missa é um
verdadeiro sacrifício.

Ademais, a supressão de tais textos revelam uma


índole desrespeitadora do princípio do
desenvolvimento orgânico e harmônico da liturgia,
que não permite drasticidade e omissões de
cerimônias antigas e veneráveis que tornaram-se,
ainda que tardiamente, parte do rito com perfeita
coesão.

O último Evangelho é suprimido.

Novamente, uma cerimônia a que os fiéis estavam


acostumados, cheia de significado espiritual,
trazendo para o contexto do Sacrifício da Missa, a
recordação do início da obra vicária de Cristo: a
Encarnação. Hoje se fala muito em “Mistério
Pascal”, integrando na Missa, cada qual a seu
modo, a Paixão e Morte à Ressurreição, e a
omissão do Último Evangelho (Prólogo de São
João), vai justamente na contramão da teologia
mais contemporânea, retirando, na prática litúrgica,
o evento da Encarnação do Verbo de sua ação
redentora, em que formaria, com a Paixão, a Morte
e a Ressurreição, uma continuidade de obras
salvíficas.

Como as Orações ao Pé do Altar, também o Último


Evangelho deveria voltar em uma eventual reforma
da reforma.

75
As orações recitadas ou cantadas pela
schola ou pelo povo não são mais rezadas
em particular pelo celebrante.

Agora, neste particular, penso que fez bem o


reformador de 1965. O Concílio mandou que se
evitassem as repetições desnecessárias. Se o povo
ou a schola já rezam ou cantam as orações, não há
porque haver uma segunda recitação, desconectada
com a primeira, como se a parte da congregação
fosse mero enfeite. Evidentemente que o padre
deve rezar tais orações, mas andou bem a nova
rubrica ao prever que a voz do celebrante se junte
às demais vozes.

Há partes exclusivas do padre, outras exclusivas do


povo, e, enfim, outras em que ambos recitam ou
cantam juntos.

A distinção entre o sacerdócio hierárquico e o


sacerdócio comum dos fiéis não resta diminuída
apenas por cantarem ou recitarem juntos tais partes.

Introdução da oração universal no início


do ofertório.

Embora, no modo como está disciplinada essa


oração, houve lugar para abusos, com a introdução
de preces heterodoxas ou pregação de Teologia da
Libertação, foi boa a reintrodução da cerimônia
pré-tridentina chamada “Oração dos Fiéis”. Poderia

76
ser mantida na reforma da reforma, com o cuidado
de tornar os formulários que hoje são facultativos
no Missal de 1970/2002, preceptivos, eliminando
qualquer brecha para que uma falsa noção de
criatividade permita estragos. Se se quer rezar a
Oração Universal ou dos Fiéis, faça-se com
fórmulas pré-aprovadas pela autoridade pontifícia,
dispostas para cada dia ou tempo litúrgico.

Na missa solene, o subdiácono não segura


a patena, que permanece sobre o altar.
Não utiliza, por conseguinte, mais o véu
umeral para levar o cálice da credência
ao altar no início do ofertório. Não
segurando mais a patena durante o
Cânon, o subdiácono incensa a hóstia e o
cálice durante a elevação, como nas
missas de Requiem.

O princípio informativo dessa mudança foi a


simplificação. Todavia, quando se simplifica
demais, como em 1965 e, mais tarde, em 1970, há
uma perda da sacralidade. O rito romano original é
mais sóbrio que os orientais, mas possui, a partir de
São Gregório Magno, elementos gálicos que o
recheiam, naturalmente, com a aquela solenidade
que caracterizou, desde então, essa liturgia: não
somos apenas culturalmente romanos, somos galo-
romanos, e, então, a sobriedade deve se unir à
solenidade, em uma espécie de meio-termo entre os
orientais e o romano primitivo.

77
O uso do véu umeral pelo subdiácono (ou, em sua
falta pela extinção de tal ordem menor, pelo acólito
instituído) confere um ar de nobreza ao rito, e sua
procissão com o cálice da credencia ao altar dá
altíssimo significado de elaboração solene à Missa.

Penso que foi um equívoco essa simplificação.

A incensação do clero é simplificada:


todas as ordens, com exceção da ordem
episcopal, são confundidas e incensadas
em uma só vez para cada lado do
presbitério.

O mesmo comentário acima vale para essa


mudança. Sou contra.

O celebrante não é mais incensado pelo


diácono após o Evangelho.

Idem.

No Credo, não se ajoelha mais no “Et


incarnatus est ... et homo factus est”.

No rito romano primitivo, a genuflexão no Et


incarnatus do Credo era reservada para as festas
em que a Encarnação era celebrada: Natal e
Anunciação. Nas demais Missas, o indicado era a
vênia, ou reverência profunda. Essa rubrica de
1965 resgatou a antiga prática, no que foi

78
secundada pela reforma de 1970, a meu ver, de
maneira bastante feliz.

É bom que se diferencie, até pela postura corporal,


essas festas, demonstrando, por meio de sinais, que
elas comemoram justamente a Encarnação. É um
modo de ressaltar a importância do evento.

O problema é que, na prática, mesmo as rubricas de


1970 mandando que se faça genuflexão na
Anunciação e no Natal, e vênia nas demais Missas,
isso é sumariamente ignorado na maioria das
celebrações segundo o novo Missal...

Canta-se a secreta na missa cantada, e


nas outras missas, reza-se em voz alta.

Embora o nome seja “secreta”, a mudança para


“super oblata” resolve o problema. Vejo como
saudável que tal oração, que perfaz um conjunto
com a coleta e a oração depois da Comunhão, seja
audível.

A doxologia no fim do Cânon é cantada


ou rezada em voz alta, os sinais da cruz
são suprimidos e, ao fim, o padre faz a
genuflexão apenas após o Amem do povo.

A doxologia é bom que se cante ou se reze em voz


alta, pela significação do oferecimento, em nome
do povo, do sacrifício oferecido. O sacrifício em si
deve ser em silêncio, como forma de demonstrar

79
tratar-se de um sagrado mistério, como que para
protegê-lo. Mas o oferecimento dele, na doxologia,
é um ato, se bem que sacerdotal, mais visivelmente
vistoso, digamos assim, ainda que menos
importante do que aquele, e, portanto, poderia, sem
problemas ser audível.

Já a supressão de sinais da cruz e genuflexões cai


no mesmo erro da simplificação desmedida.

O Pai Nosso pode ser recitado ou cantado


pelo povo juntamente com o celebrante.

As rubricas já permitiam que se o recitasse. Não


haveria mal, em princípio, em que se o cantasse, até
pela melodia ser fácil para o povo, o que ajuda a
uma participação ativa e externa que não está na
contramão do ensino tradicional.

Todavia, a tradição unânime do rito romano,


relembrada pelo próprio Pe. Dufour, FSSP, não
pode ser desprezada:

É uma idéia fixa nos reformadores, a de fazer todos


os fiéis cantar o Pater. Contrariamente ao costume
oriental e galicano, a Igreja Romana reservou, a
partir do século VI, o canto do Pater ao celebrante,
como testemunha São Gregório Magno numa carta
a João de Siracusa (Registrum 9,26): “A oração do
Senhor, entre os gregos, é dita por todo o povo;
entre nós, apenas pelo padre”. Esta prática é
confirmada por Santo Agostinho: “Na igreja,

80
recita-se cada dia no altar de Deus esta oração
domincal, que os fiéis escutam.” (Sermo 58)

O Liberas nos após o Pater é rezado em


voz alta.

O mesmo comentário quanto à doxologia pode ser


adaptado aqui.

Ao distribuir a Sagrada Comunhão,


emprega-se a breve fórmula Corpus
Christi. Em seguida, o celebrante dá a
Comunhão sem fazer o Sinal da Cruz
com a hóstia.

Simplificação desmedida e agravada pela


importância do ato que deveria ser cercado de
ações cerimoniais ressaltando a presença real. A
reforma da reforma deveria contemplar a fórmula
anterior, de 1962, e o sinal da cruz com a hóstia.

O Padre é autorizado a celebrar a missa


cantada (nota minha: penso que aqui, o
padre quis dizer “Missa solene”, já que a
meramente cantada não tem diácono) com
a assistência exclusiva do diácono, sem o
subdiácono.

Parece-me a conseqüência normal, nos dias de


hoje, da supressão do subdiaconato.

81
Todavia, se não for restaurado esse ministério, se
poderia pensar em uma solução alternativa: um
acólito instituído fazendo suas funções de modo
obrigatório, e com véu umeral quando preciso; ou a
obrigatoriedade de dois diáconos na Missa

É permitido aos bispos celebrar a missa


cantada ao modo de simples padres.

Dado que o Bispo é um sacerdote, e quem “pode o


mais, pode o menos”, não vejo óbice lógico a que
não se permita. Que o presbítero não celebre
“Missa de Bispo” é perfeitamente compreensível,
mas que não que o Bispo não celebre “Missa de
padre”.

A rubrica de 1965 é boa, e merece continuar.

De qualquer modo, essa permissão deveria ser para


ocasiões excepcionais, em que não possa o Bispo
celebrar de outro modo. A banalização das Missas
de Bispo ao modo de simples padres conduz a um
esvaziamento do ministério episcopal, justamente
desenvolvido no próprio Vaticano II. Interessante
notar, nos lembra o Pe. Dufour, FSSP, que é o rito
antigo, por sua estrita separação entre Missa de
Bispo e Missa de presbítero, que melhor se
coaduna com a doutrina da Lumen Gentium sobre a
sacramentalidade do episcopado.

O padre se persigna não mais que três


vezes, pois as persignações seguintes

82
foram suprimas: Adjutorium nostrum,
Intróito, fim do Gloria, fim do Credo,
Sanctus e Libera nos.

Outra vez, a triste simplificação exagerada...

O celebrante, qualquer que seja a missa


(cantada, solene, baixa), preside de sua
sede a “liturgia da palavra”, como o faz o
bispo quando celebra pontificalmente ao
trono. Após a incensação do início da
missa, ele retorna ao altar apenas no
ofertório.

Entendo que isso sublinha bem a distinção entre a


Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística. Ao
contrário dos que sustentam os discordantes de tal
rubrica, não há protestantização da Missa por conta
dela. Longe de dar à Liturgia da Palavra igual
destaque em relação à Liturgia Eucarística, penso
que a distinção de local de celebração entre ambas
reforça é o caráter principal da última: é ela, e só
ela, que é celebrada do altar, e, assim, a noção de
sacrifício é ainda mais realçada do que nas rubricas
de 1962.

Por outro lado, a distinção de presidências – da


sede/trono na Liturgia da Palavra/Missa dos
Catecúmenos e do altar na Liturgia
Eucarística/Missa dos Fiéis – é própria da chamada
Missa Pontifical Solene, seja no trono, seja no
faldistório. É uma distinção, presente

83
ininterruptamente desde antes da Idade Média e
mantida pelo código de rubricas de 1962, retirada
em 1965 e 1970, em relação à Missa celebrada por
padres. Os textos de 1965 e de 1970 mandam que
se celebre sempre da sede na Liturgia da Palavra,
só indo ao altar na Liturgia Eucarística, e isso para
todos os celebrantes: ou seja, houve uma extensão
da regra da Missa de Bispo para a Missa de padre, e
perdeu-se a distinção.

Não estou convencido plenamente quanto à


conveniência de se manter a regra atual em que em
qualquer Missa, de Bispo ou de padre, se celebre a
primeira parte da liturgia na sede, a despeito do que
falei no penúltimo parágrafo. A tradição fala alto,
os motivos e princípios para ela mais ainda. Uma
solenização progressiva, que inclusive é louvada
pelo Missal de 1970, se faz bem presente quando
uma Missa de padre, seja cantada, seja rezada, é
celebrada inteira do altar, e só há uma divisão entre
celebrar da sede e celebrar do altar na Missa de
Bispo.

Ademais, a distinção entre os locais de celebração


bem mostram a evidência do episcopado, conforme
o Pe. Dufour, FSSP, magistralmente desenvolve em
seu texto, a que remetemos o leitor interessado.

Há de se pensar mais quanto às opções, ainda que,


em se eliminando a distinção entre Missa de padre
e Missa de Bispo neste particular do local da
celebração de cada parte da liturgia, não haja, em

84
todo caso, protestantização, e sim reforço do
caráter sacrifical da Liturgia Eucarística. Não seria
errado, teologicamente, celebrar um padre a
Liturgia da Palavra desde a sede. Todavia,
pergunto-me se é conveniente ou se deveria
reservar essa duplicidade de local só ao Bispo,
conforme milenar tradição romana.

Os beijos litúrgicos foram suprimidos


pela Instrução Inter Oecumenici.

Novamente, a simplificação em demasia. Triste.

Devido igualmente à Instrução Inter


Oecumenici, a missa pode ser dita voltada
para o povo.

Ainda que a Instrução tenha dado destaque ao


versus populum, as rubricas posteriores, ou seja, de
1970, mostram claramente que se pode continuar a
celebrar versus Deum.

Aliás, já manifestei diversas vezes meu


descontentamento em relação a celebrar voltado
para o povo, prática antitradicional, que não possui
fundamento teológico ou histórico e que, salvo
exceções, contribui para, na prática, diminuir o
entendimento de que a Missa seja verdadeiro
sacrifício a Deus oferecido – e não ao povo, que é
beneficiário, não destinatário do sacrifício.

85
Acredito que a reforma da reforma deva fazer
preceptiva a celebração voltada para Deus.

O acólito não levanta mais a casula do


celebrante nas duas elevações.

Não há rubrica mandando que se o faça, mas, por


ser um costume imemorial, alguns continuam
fazendo, felizmente. Poderia voltar.

O acólito não toca mais a sineta no


Sanctus e no Per Ipsum.

O do Sanctus continua, e penso que se poderia


reintroduzir o do Per Ipsum.

A Comunhão sob duas espécies foi


introduzida, podendo os fiéis, doravante,
comungar de pé.

A permissão para Comunhão de pé deveria ser


revogada urgentemente, e a Comunhão sob duas
espécies limitada. Foi bom ter dado autorização
para algumas circunstâncias, mas acredito que se
estendeu demais a permissão, banalizando a
cerimônia.

Obrigar a ajoelhar-se é uma prática muito romana e


reforça a fé na presença real.

O padre lê ou canta a oração da pós-


comunhão no meio do altar, com o missal

86
à sua esquerda (o missal está nesse lugar
desde o início do ofertório e lá permanece
até ao fim da missa).

Aqui uma simplificação, mas desta vez de caráter


prático, pelo que, penso que fez bem o autor da
rubrica.

2) Nas leituras e nos cantos entre as


leituras:

Nas missas celebradas com o povo


(rezadas, cantadas ou solenes), não se
recita nem canta a Epístola voltado para
o altar e o Evangelho para o norte, mas se
recita voltado para o povo desde um
ambão ou da grade do coro Nas missas
não solenes celebradas com povo, as
lições e a Epístola, com os cantos entre as
leituras, podem ser lidos por um leitor
capaz ou por um coroinha, enquanto que
o celebrante continuará sentado e lhe
ouvirá.

Penso que essas inovações foram benéficas. Ora, se


o sacrifício é para Deus, o padre deve estar versus
Deum, mas se as leituras são para instrução do
povo, natural que a leitura seja versus populum. O
mesmo motivo que me torna adversário da
celebração da Missa “de frente para o povo”, me
faz crítico das leituras “de costas para o povo”.
Cada coisa respeite sua natureza.

87
Que o sacerdote se sente durante as leituras, exceto
o Evangelho, é compreensível. Estará atento,
ouvindo, já que toda duplicidade desnecessária
torna inorgânico o rito celebrado.

Pode-se revisar, em uma reforma da reforma, a


permissão a qualquer leigo que faça leituras.
Melhor é valorizar o ministério do leitor instituído,
varão, retomado pela letra da reforma de 1970.

O padre permanece sentado durante


todas as leituras. Ele abençoa o
subdiácono e o diácono; ele impõe o
incenso, abençoa-o e continua sentado.
Ele entoa da banqueta o Gloria e o Credo.
Preside, por último, a oração universal a
partir da banqueta, ao menos que o faça
do ambão ou da grade do coro.

Não vejo reparos a fazer quanto a essa mudança, e


os comentários anteriores, em sua totalidade, muito
bem explicam minha concordância quanto a este
particular das rubricas de 1965.

3) O papel atribuído ao vernáculo na


missa:

Nas missas, quer cantadas, quer rezadas,


as lições, a Epístola, o Evangelho e a
oração universal devem ser lidas em
vernáculo.

88
O Kyrie, o Gloria, o Credo, o Sanctus e o
Agnus Dei podem ser recitados ou
cantados na língua do país.

Todo o próprio da missa pode ser


recitado ou cantado em vernáculo: a
antífona de entrada (Introito), o oração
da coleta, o gradual, o Alleluia e o seu
versículo, o tracto, a sequência, a antífona
do ofertório, a secreta, a antífona da
comunhão e a oração da pós-comunhão.

O que resta das orações ao pé do altar


pode ser dito em vernáculo: Confiteor,
Misereatur, Indulgentiam, etc.

Além disso, as aclamações, as saudações e


as fórmulas de diálogo como o prefácio
podem ser ditas em vernáculo (Dominus
Vobiscum substituído por “O Senhor
esteja convosco”, o Oremus por “rezemos
ao Senhor”, etc.) .

O Pater e o Libera nos podem ser


recitados ou cantados em vernáculo por
todo o povo.

O “Domine non sum dignus” pode ser


dito em vernáculo.

89
O mais importante, nas discussões sobre a reforma
litúrgica, não é o idioma, mas o rito. Já disse
algumas vezes: prefiro uma Missa tridentina em
português a uma Missa moderna em latim.

De outra sorte, como bem o demonstram inúmeros


artigos de minha lavra, sou um defensor incansável
do latim, e mesmo de seu uso na Missa moderna,
forma ordinária. Como também comprei algumas
discussões por defender a licitude e a ortodoxia do
rito moderno, a despeito de certos detalhes que, a
meu ver, foram equivocados em sua execução.

Em suma, defendo, com o Papa, a legitimidade das


duas formas do rito romano e o uso do latim em
ambas. É minha tese pessoal, porém, e, pelo teor
das declarações pontifícias, penso que não incorro
em pecado ao atribui-la também ao Santo Padre,
que uma reforma da reforma, unificando as duas
formas em um só rito romano, possa dar espaço a
que tenhamos Missas em latim, em vernáculo, ou
mistas, exatamente como, pela lei, é hoje no rito
moderno, pós-conciliar, forma ordinária.

Ainda assim, defendo que, ao menos uma das


Missas dominicais ou de solenidade (antigamente,
“festas de primeira classe”) seja em latim, e que,
mesmo nas outras, seja vivamente recomendado a
que o Cânon, em voz baixa, seja em latim.

Eram essas minhas considerações, que, claro,


submeto à apreciação de meus leitores.

90
A liturgia e a Palavra de Deus,
segundo a Exortação
Apostólica Verbum Domini

O pensamento litúrgico do Cardeal Ratzinger e


a crise na liturgia

Ainda quando era Cardeal, o Santo Padre Bento


XVI tinha como uma de suas fundamentais
preocupações a questão da liturgia. Eleito para o
trono de São Pedro, colocou o tema como um dos
eixos principais de seu programa de renovação
espiritual da Igreja.

De fato, sem a liturgia não há Igreja. É nela que a


Igreja ora ao Senhor. Melhor dizendo, é nela que o
próprio Cristo ora ao Pai (pelo Ofício Divino), se
oferece ao Pai em sacrifício (pela Missa), e
comunica aos fiéis o que conquistou diante do Pai
(pelos sacramentos). A liturgia é o cerne da Igreja,
e o meio pelo qual a Igreja cumpre sua função de
salvar as almas.

Ademais, se, pelo Batismo, estamos incorporados a


Cristo, a liturgia se torna não só a ação de Cristo,
mas nossa unida a Cristo, ou seja, da Igreja toda,
Corpo Místico de Cristo. Pio XII, na célebre
Mediator Dei, definia a liturgia justamente como

91
“o culto público integral do místico Corpo de Jesus
Cristo, isto é, da cabeça e dos seus membros.”

Por essa razão, soa quase como natural a firme


atenção de todos os Soberanos Pontífices na defesa
das normas que regem o culto, evitando toda
imprecisão e falta de zelo em sua celebração, e na
incrementação da vida espiritual de clérigos e
leigos mediante uma actuosa participatio na
liturgia, tal qual foi, aliás, pedido pelo Concílio
Vaticano II.

Se tal cuidado foi uma constante em quase todos os


pontificados, notadamente os do início do séc. XX,
com o chamado “movimento litúrgico” – iniciado
por D. Gueranger, OSB, em sua luta contra o
galicanismo que pretendia, também no terreno da
liturgia, fazer escapar a Igreja das Gálias da
autêntica submissão ao papado –, redobrou-se o
alerta de Roma sobre o tema a partir das
incompreensões advindas de uma má
implementação da reforma litúrgica pós-conciliar.
Não nos embrenharemos, no presente artigo, pois
fugiria ao nosso escopo, discutir a própria reforma
de Paulo VI, sua legitimidade ou pontos positivos e
negativos. Sem embargo, cumpre notar que, a
despeito de qualquer excelente intenção dos
reformadores, e mesmo das claras rubricas do
Missal Romano adotado, em 1969, pela virtual
totalidade da Igreja latina, é notório o caos litúrgico
que se instaurou desde então.

92
É evidente que os experimentos espúrios já vinham
desde antes, mas com a crise da autoridade que
tomou corpo na sociedade civil desde a revolução
sorbonniana de 1968 (“é proibido proibir”), eles se
avolumaram dos anos 70 para cá. Paulo VI mesmo
confessava sentir que a “fumaça de Satanás entrou
no templo de Deus” (Discurso em 29 de junho de
1972), o que, mais tarde, seria explicado pelo
Cardeal Noé como uma apreensão diante de tantas
manipulações em relação à Missa, tantas
desobediências às rubricas, tantos desvios e
antropocentrismos, a ponto de certos críticos
católicos americanos falarem em “narcisismo
clerical”: a liturgia, de serviço do povo a Deus, de
culto público da Igreja, havia se transformado, na
prática, em espetáculo pessoal na qual cada
celebrante põe em andamento uma série de
criatividades que considera “pastoralmente
melhor”.

Esse o cenário com que se depararam,


principalmente, João Paulo II e Bento XVI. O
primeiro chegou a demonstrar, por sua grandiosa
Encíclica Ecclesia de Eucharistia, que, ao lado de
grandes luzes a partir da reforma litúrgica, havia
também sombras. Em seu pontificado, para clarear
as tais sombras, veio à lume não só uma melhor
edição do Missale Romanum, como uma dezena de
instruções para melhor aplicar as diretrizes
litúrgicas, em que se destaca a direta Redemptionis
Sacramentum.

93
Tal documento, ademais, é de responsabilidade do
então Cardeal Ratzinger que, como acenamos,
reiteradas vezes evidenciou a centralidade do tema
da liturgia em sua monumental obra teológica.

Seu “Introdução ao espírito da liturgia” deixava já


bem claras suas intenções como teólogo: era
preciso resgatar, como diria mais tarde Mons.
Nicola Bux, autor de “La reforma de Benedicto
XVI”, os “direitos de Deus” na celebração. A
liturgia não é um emaranhado de normas
simplesmente positivas feitas por homens, não é
um ordenamento puramente racional para que se
tenha decência no culto. Mais do que isso, a liturgia
é um culto disposto pelo próprio Deus, ainda que
muitos de seus detalhes se dêem pela autoridade da
Igreja e não diretamente por Revelação. É Cristo
mesmo quem celebra a liturgia por meio da Igreja.
Nessa seara, pois, todo cuidado é pouco, e toda
reverência nunca é demais. Por bem menos do que
os atuais abusos litúrgicos, Deus fulminou quem
meramente tocava na arca da aliança, simples
símbolo de Sua presença, e sombra do grande bem
futuro que é a liturgia cristã...

O Magistério do Papa Bento XVI nos temas


litúrgicos

Elevado à Sé Romana, o Cardeal Ratzinger assume


o nome de Bento, em honra do grande patriarca do
monaquismo ocidental, que evangelizou a hoje
dessacralizada Europa exatamente pelo amor à

94
celebração litúrgica, a tal ponto em que falar de
Ordem beneditina importa em mencionar o canto
litúrgico por excelência no rito romano, o canto
gregoriano. Assim, Na Missa Pro Ecclesia,
encerramento do Conclave que o elegeu, Bento
XVI ordenou que essa comemoração fosse marcada
“pela solenidade e retidão das celebrações.”
Noutras palavras: rigoroso seguimento das rubricas
do Missal; cessação de qualquer invencionice por
parte dos sacerdotes; decoro e circunspeção;
paramentos corretos; proibição de cantos estranhos
à tradição católica e de não menos estranhas palmas
e demonstrações efusivas de alegria, nada
apropriadas para quem assiste, na Missa, a
renovação do sacrifício da Cruz. “Peço isso de
modo especial aos sacerdotes.”

O Papa tinha suas razões. A casula foi quase


abandonada; certos padres inserem numa ou noutra
parte da Missa gestos, símbolos (cartazes, plantas,
fantasias, fogo etc) e palavras que são criações suas
(em total desacordo com as regras vigentes); o
povo reza orações reservadas aos sacerdotes e até
por eles, às vezes, é incentivado a proferi-las (o
“Por Cristo, com Cristo...”, a oração da paz, v.g.);
os fiéis são convidados a atos não previstos (fechar
os olhos, erguer as mãos, direcioná-las ao altar no
“Por Cristo”, abri-las “para receber a bênção”, e
outras provas bizarras de inesgotável e anticatólica
criatividade, já atacada pelo então Cardeal
Ratzinger em seu “A fé em crise?”); nem sempre as
músicas são apropriadas; o incenso é raro; e os

95
ministros extraordinários – leigos – são usados na
proclamação do Evangelho e, ordinariamente, na
distribuição da Comunhão (contrariando a
Ecclesiae de Mysterio). Exemplos de um claro
desrespeito às normas litúrgicas.

Não poderia Bento XVI se quedar inerte. Todos os


atos de seu pontificado apontam para uma
renovação da liturgia, no que alguns têm chamado
de “reforma da reforma”: mais do que decretos
corrigindo isso ou aquilo, o Papa aposta em uma
reeducação litúrgica, em uma melhor vivência do
rico patrimônio da liturgia, que, se não pode ficar
estático nos livros antigos, também não foi
inaugurado pelo Concílio. É a hermenêutica da
continuidade, em que não fazem mais sentido as
expressões “pré” e “pós-conciliar”: a doutrina e a
Igreja são as mesmas, e os documentos devem ser
interpretados à luz de uma tradição ininterrupta,
também no campo da liturgia.

É com esse pensamento que Bento XVI liberou


universalmente a celebração do rito romano antigo
da Missa, celebrado anterior à reforma de Paulo VI,
tornando-o “forma extraordinária” do rito romano,
em pé de igualdade e ao lado do rito reformado,
agora “forma ordinária”. Na mente do Papa, ambos
devem se enriquecer e favorecer à pax liturgica.

Também é da lavra do atual Papa gloriosamente


reinante a Exortação Apostólica Pós-sinodal
Sacramentum Caritatis, sobre a Eucaristia, fonte e

96
ápice da vida e da missão da Igreja. Aliás, o tema
da caridade é bastante presente nos documentos de
Bento XVI: “Deus Caritas Est”, “Caritas in
Veritate”, e, no caso em tela, “Sacramentum
Caritatis”. Escolhendo o tema do amor, da
caridade como central em seu Magistério, e unindo
a preocupação litúrgica com ele, o Santo Padre
parece querer mandar um recado claro: a liturgia,
ação de Cristo por nós junto do Pai, mediante a
Igreja, é manifestação da Sua caridade para com o
mundo. Se não amasse o mundo, não teria se
entregue por nós, como nos diz São João em seu
Evangelho (cf. Jo 3,16).

Permito-me transcrever, enfim, trechos da


monografia apresentada em 2010 pelo Sem. Gian
Paulo Rangel Ruzzi, aluno do Seminário
Interdiocesano Maria Mater Ecclesia, em
Itapecerica da Serra, SP, tendo como orientador o
Pe. Celso Nogueira, LC:

“A primeira medida foi tomada em outubro de


2007, quando o prefeito da Congregação para o
Culto Divino, o Card. Arinze, escreveu para todas
as conferências episcopais do mundo, em
concordância com a Instrução do ano 2001
Liturgiam Authenticam, do Card. Estevez, que
pedia uma revisão na tradução dos livros
litúrgicos, ordenando a correção nas edições em
vernáculo da expressão pro multis, muitas vezes
traduzida como ‘por todos’.

97
A segunda ação parte da Congregação para o
Clero. Em setembro de 2006 foi erigido o Instituto
Bom Pastor, uma sociedade de vida apostólica que
celebra a Missa exclusivamente na forma anterior
ao Concílio. Depende ao mesmo tempo da
Comissão Ecclesia Dei e da Congregação para os
Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de
Vida Apostólica.

Em março de 2007 o Santo Padre deu a conhecer a


Exortação Apostólica pós-Sinodal Sacramentum
Caritatis. Nela, o Papa Bento XVI reitera o dever
dos sacerdotes em obedecer as “normas litúrgicas
na sua integridade, pois é precisamente este modo
de celebrar que, há dois mil anos, garante a vida
de fé de todos os crentes”. Indica também, na
segunda parte do documento, critérios para a ars
celebrandi. Recomenda o uso do latim em
concelebrações internacionais e a recitação de ao
menos algumas partes fixas do cânon neste idioma.

(...)

Ainda em 2007 o Papa promulgou o Moto Próprio


Summorum Pontificum, dando liberdade a todo
padre para celebrar a missa tridentina sem a
prévia permissão do bispo, como era anteriormente
acordado. O documento insiste que o missal de Pio
V e o missal de Paulo VI são duas expressões de
um único Rito Romano, a primeira em sua forma
extraordinária e a segunda em sua forma
ordinária.” (pp. 26-27)

98
Não nos espanta, portanto, que um documento que
trate não de liturgia, mas da Palavra de Deus na
Igreja, como a recente Exortação Apostólica Pós-
sinodal Verbum Domini, também seja ocasião para
o Romano Pontífice oferecer profunda catequese
sobre temas litúrgicos. Como de costume, o Papa
nos brinda com densa reflexão sobre a liturgia,
ligando-a ao assunto específico do documento.

A liturgia como um locus onde se encontra a


Palavra divina

O Papa trata de, a partir do número 52 da citada


Exortação Apostólica, especificar a liturgia como
um local para encontrar a Palavra. Não apenas a
Escritura, dado que não somos protestantes, a ponto
de identificar, necessariamente, a Palavra de Deus
com um livro em que ela também se exterioriza. A
Palavra de Deus, para Bento XVI, é aqui tomada no
sentido mais classicamente católico, como o Logos
grego, o Verbum latino. Cristo é a Palavra que se
encarna, armando sua tenda entre nós, a partir da
aceitação da Virgem.

Se a liturgia é a oração pública de Cristo ao Pai


pela Igreja, o ato do Corpo Místico, do Cristo total,
em nosso benefício, natural que entre ela e o
próprio Cristo haja uma correlação imprescindível.
Cristo Jesus é a Palavra. A liturgia é ação de Cristo.
A liturgia é ação da Palavra. O Filho de Deus se
encarna, o Verbo, a Palavra, assume nossa carne,

99
reveste-se de nossa natureza humana, para
justamente cultuar ao Pai na Cruz e reviver, de
modo incruento, esse sacrifício da Missa,
perpetuando seus efeitos pelos sacramentos e, de
certa forma, no Ofício Divino. A Palavra de Deus,
i.e., o próprio Cristo, é o autor e o ator da liturgia.
A liturgia é a ação da Palavra encarnada. E, como
tal, Cristo nos fala, como Verbo que é, na liturgia
por Ele celebrada mediante seus sacerdotes.

Daí o ensino do Papa na Exortação:

“Considerando a Igreja como «casa da Palavra»,


deve-se antes de tudo dar atenção à Liturgia
sagrada. Esta constitui, efetivamente, o âmbito
privilegiado onde Deus nos fala no momento
presente da nossa vida: fala hoje ao seu povo, que
escuta e responde.” (VD, 52)

Evidentemente, ainda que não se possa identificar a


Palavra apenas com a Escritura, é forçoso dizer que
esta é um meio concreto e visível de a
conhecermos. Encontramos a Cristo no sacrário e
no crucifixo, mas também no contato com os
Evangelhos e todas as demais páginas da Bíblia
Sagrada. Assim, continua o Papa, a “ação litúrgica
está, por sua natureza, impregnada da Sagrada
Escritura.” (VD, 52)

E não só na chamada “Missa dos Catecúmenos” ou


“Liturgia da Palavra” se encontram disposições da
Sagrada Escritura. Além das leituras – e um dos

100
pontos positivos da reforma de Paulo VI foi
justamente uma maior disposição das lições, com o
acréscimo de uma perícope nos Domingos e
solenidades (antigamente chamadas de “festas de
primeira classe”) –, a Escritura está presente, em
citações diretas, também na maioria das antífonas
(Intróito, Ofertório e Comunhão), além de se fazer
presente, quer na forma direta, quer como
inspiração, nas preces, nas coletas, nas sequências,
nos prefácios, e até em inúmeros trechos do
Ordinário da Missa (como a Consagração, o Rito
da Paz, o Pater Noster, o Gloria, o Sanctus, o
Agnus, as bênçãos solenes).

Isso sem falar na Liturgia das Horas, que bebe


entusiasticamente das fontes escriturísticas, com
seus salmos, leituras breves e longas, cânticos e
também nos hinos que, embora não bíblicos, estão
impregnados de uma linguagem lírica comum à
Escritura e não raras vezes utilizam-se de
expressões consagradas no texto sacro.

Dado que a Palavra é o Cristo, é Ele, pois, que, na


liturgia que Ele mesmo celebra, nos fala, nos
ensina, nos satura e penetra com a divina unção da
Revelação.

Outro elemento que daí se infere é quanto à


interpretação da Revelação divina. A Palavra De
Deus só pode ser lida pela Igreja e com a Igreja.
Sendo a Igreja a depositária da Revelação, cujas
fontes são a Tradição e a Escritura, e tendo também

101
a Igreja nos dado a Bíblia – selecionando o que era
ou não inspirado para colocar no cânon –, sendo,
por isso, em certo sentido, “mãe da Bíblia”, natural
que os textos sagrados só ganhem seu real sentido
na própria Igreja. Santo Agostinho já dizia que só
cria no Evangelho pela autoridade da Santa Igreja,
e outros autores recolhem o adágio de que, fora da
interpretação da Igreja, a Bíblia pode ser a mãe de
todas as heresias.

Ora, se a Igreja que nos dá a Bíblia, que guarda o


depósito da fé pela Palavra divina, é, como Corpo
Místico de Cristo, a continuadora da ação do
Senhor na história mediante a liturgia, e a mesma
liturgia é um locus onde se encontra aquela
Palavra, temos que a liturgia é o referencial para a
autêntica leitura escriturística. Não é desconhecido,
ademais, o adágio “lex orandi, lex credendi”, e
sendo a leitura da Palavra de Deus uma forma de
oração, com mais razão na liturgia, ela deve
expressar o que cremos. De fato, assim se expressa
o Papa:

“Por isso, para a compreensão da Palavra de


Deus, é necessário entender e viver o valor
essencial da acção litúrgica. Em certo sentido, a
hermenêutica da fé relativamente à Sagrada
Escritura deve ter sempre como ponto de
referência a liturgia, onde a Palavra de Deus é
celebrada como palavra actual e viva: «A Igreja,
na liturgia, segue fielmente o modo de ler e
interpretar as Sagradas Escrituras seguido pelo

102
próprio Cristo, quando, a partir do “hoje” do seu
evento, exorta a perscrutar todas as Escrituras».”
(VD, 52, grifos nossos)

O próprio ano litúrgico, imprimindo um ritmo pelo


qual se vai aos poucos se desenrolando o drama da
Redenção nas perícopes selecionadas para cada
tempo e festa, indica bem a liturgia como lugar da
Palavra. E tudo aponta, em tal mencionado ritmo,
para o acontecimento central de nossa Salvação.

Isso está bastante claro no mesmo número 52 do


documento:

“Aqui se vê também a sábia pedagogia da Igreja


que proclama e escuta a Sagrada Escritura
seguindo o ritmo do ano litúrgico. Vemos a
Palavra de Deus distribuída ao longo do tempo,
particularmente na celebração eucarística e na
Liturgia das Horas. No centro de tudo, refulge o
Mistério Pascal, ao qual se unem todos os
mistérios de Cristo e da história da salvação
actualizados sacramentalmente: «Com esta
recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja
oferece aos fiéis as riquezas das obras e
merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar
como que presentes a todo o tempo, para que os
fiéis, em contacto com eles, se encham de graça».
Por isso exorto os Pastores da Igreja e os agentes
pastorais a fazer com que todos os fiéis sejam
educados para saborear o sentido profundo da
Palavra de Deus que está distribuída ao longo do

103
ano na liturgia, mostrando os mistérios
fundamentais da nossa fé. Também disto depende a
correcta abordagem da Sagrada Escritura.” (VD,
52, grifos nossos)

Outros aspectos da relação entre a Escritura e


as celebrações litúrgicas

Não podemos olvidar, ademais, segundo o Papa,


“que a unidade íntima entre Palavra e Eucaristia
está radicada no testemunho da Escritura (cf. Jo 6;
L c 24)” (VD, 54).

Prossegue Sua Santidade:

“A este propósito, pensemos no grande discurso de


Jesus sobre o pão da vida na sinagoga de
Cafarnaum (cf. Jo 6, 22-69), que tem como pano de
fundo o confronto entre Moisés e Jesus, entre
aquele que falou face a face com Deus (cf. Ex 33,
11) e aquele que revelou Deus (cf. Jo 1, 18). De
facto, o discurso sobre o pão evoca o dom de Deus
que Moisés obteve para o seu povo com o maná no
deserto, que na realidade é a Torah, a Palavra de
Deus que faz viver (cf. Sl 119; Pr 9, 5). Em Si
mesmo, Jesus torna realidade esta figura antiga:
«O pão de Deus é o que desce do Céu e dá a vida
ao mundo. (...) Eu sou o pão da vida» (Jo 6, 33.35).
Aqui, «a Lei tornou-se Pessoa. Encontrando Jesus,
alimentamo-nos por assim dizer do próprio Deus
vivo, comemos verdadeiramente o pão do céu». No
discurso de Cafarnaum, aprofunda-se o Prólogo de

104
João: se neste o Logos de Deus Se faz carne,
naquele a carne faz-Se «pão» dado para a vida do
mundo (cf. Jo 6, 51), aludindo assim ao dom que
Jesus fará de Si mesmo no mistério da cruz,
confirmado pela afirmação acerca do seu sangue
dado a «beber» (cf. Jo 6, 53). Assim, no mistério da
Eucaristia, mostra-se qual é o verdadeiro maná, o
verdadeiro pão do céu: é o Logos de Deus que Se
fez carne, que Se entregou a Si mesmo por nós no
Mistério Pascal.” (VD, 54)

O reconhecimento do mesmo Logos divino após


Sua Ressurreição, pelos discípulos do Emaús, passa
por uma demonstração desta relação entre a
Palavra/Escritura e a Eucaristia. Os discípulos, diz-
nos a própria Escritura – novamente ela –,
reconhecem que aquele que lhes falava pelo
caminho era o Cristo quando Ele parte o pão, em
um símbolo da Eucaristia que instituíra na Quinta-
feira Santa. Todavia, a partir desse momento
sagrado em que reconhecem o Senhor, lembram-se
de que, quando Ele lhes falava (e aqui temos, então,
a Palavra, ainda que não-escrita, mas no mesmo
nível da escrita, para o entender da Igreja), seus
corações ardiam. A Palavra de Deus é que lhes
prepara para o reconhecimento de Jesus no partir
do pão. E Jesus, recordemos, utilizou, durante todo
o caminho com os discípulos, até chegar a Emaús,
de trechos da Escritura, para mostrar, pelos profetas
e pela lei, como deveria sofrer, morrer e ressuscitar
pela salvação dos pecados. A Escritura, então, não
só prepara o encontro com o Senhor, mas o

105
justifica. A Palavra – em um tríplice aspecto (o
próprio Senhor é a Palavra, suas palavras faladas
no caminho, e sua palavra escrita nos profetas e na
lei explicando os eventos da salvação) – aponta
para a Eucaristia no partir do pão, e a Eucaristia se
torna plenamente reconhecível pela Palavra. Há
aqui um aspecto teológico profundo até mesmo
para a tarefa da apologética com os protestantes, e
penso que, em outra oportunidade, deveria ser
melhor explorado.

O Santo Padre já adianta a abordagem sobre a


relação entre a Palavra e a Eucaristia a partir de
Emaús, no ponto seguinte da Exortação:

“Vê-se a partir destas narrações como a própria


Escritura leva a descobrir o seu nexo indissolúvel
com a Eucaristia. «Por conseguinte, deve-se ter
sempre presente que a Palavra de Deus, lida e
proclamada na liturgia pela Igreja, conduz, como
se de alguma forma se tratasse da sua própria
finalidade, ao sacrifício da aliança e ao banquete
da graça, ou seja, à Eucaristia». Palavra e
Eucaristia correspondem-se tão intimamente que
não podem ser compreendidas uma sem a outra: a
Palavra de Deus faz-Se carne, sacramentalmente,
no evento eucarístico. A Eucaristia abre-nos à
inteligência da Sagrada Escritura, como esta, por
sua vez, ilumina e explica o Mistério eucarístico.
Com efeito, sem o reconhecimento da presença real
do Senhor na Eucaristia, permanece incompleta a
compreensão da Escritura. Por isso, «à palavra de

106
Deus e ao mistério eucarístico a Igreja tributou e
quis e estabeleceu que, sempre e em todo o lugar,
se tributasse a mesma veneração embora não o
mesmo culto. Movida pelo exemplo do seu
fundador, nunca cessou de celebrar o mistério
pascal, reunindo-se num mesmo lugar para ler,
“em todas as Escrituras, aquilo que Lhe dizia
respeito” (L c 24, 27) e actualizar, com o memorial
do Senhor e os sacramentos, a obra da salvação».”
(VD, 55)

Um ponto “difícil”: a sacramentalidade da


Palavra

Segundo os teólogos, a palavra sacramento teve


vários significados no início do cristianismo, e
podemos resumi-los a três principais:

a) o sentido original e profano de um


juramento usado pelos militares romanos;
b) o sentido religioso amplo, designando
qualquer coisa que fosse sagrada, ou seja,
retirada para uso espiritual;
c) o sentido religioso estrito, importando em
um sinal sensível e visível da graça
invisível, instituído por Cristo, e por meio
do qual a graça operaria eficazmente em
nós.

Embora os manuais de dogma, os catecismos e o


nosso uso corriqueiro ordinariamente utilizem essa
palavra apenas para o sentido estrito, não era

107
estranha à Igreja, ao menos até o Concílio de
Trento, a presença do vocábulo “sacramento” no
segundo sentido, amplo, lato. Era algo
relativamente comum, por exemplo, entre os Padres
gregos, ao denominar a árvore da vida do Paraíso,
os ícones, as bênçãos, os paramentos, as velas, e até
as coroações de reis e imperadores, de sacramentos.
Com isso, não se estava, evidentemente,
aumentando a lista dos sacramentos além dos sete
dogmaticamente reconhecidos. Sabia-se
perfeitamente que uns eram os sacramentos como
canais da graça, e estes eram apenas sete, como
sempre foram e sempre serão; e outros eram
simplesmente coisas sagradas a que se aplicava a
palavra "sacramento" em um sentido amplo.

Justamente para evitar confusões é que a contra-


reforma católica, combatendo os erros protestantes,
passou a ressaltar apenas o sentido estrito.

Todavia, o Vaticano II passou a utilizar,


novamente, já que quis usar uma linguagem mais
agostiniana do que tomista, “sacramento” no
sentido amplo. Daí a expressão, tão cara à Lumen
Gentium: “Igreja, sacramento da salvação”. Não se
está, como resta patente, criando ou reconhecendo
um oitavo sacramento que seria a Igreja, até porque
não há, na Igreja, uma “celebração”, um “rito”,
“forma”, “matéria”... A Igreja não é uma ação
ritual, e sim uma sociedade. A Igreja como
sacramento não o é no sentido de que é sacramento
o Batismo, ou a Crisma, ou a Ordem. Sacramento,

108
para a Lumen Gentium, referindo-se à Igreja é um
sinal, algo sagrado, e a Igreja é o “algo sagrado”
por excelência, dado que dela ou por ela recebemos
o necessário para nos salvarmos, inclusive os sete
sacramentos em sentido estrito.

Retomando esse sentido amplo da palavra, Bento


XVI, na Verbum Domini, indica a Palavra de Deus
escrita e oral como sendo um sacramento.
Vejamos, em suas linhas:

“Com o apelo ao carácter performativo da Palavra


de Deus na acção sacramental e o aprofundamento
da relação entre Palavra e Eucaristia, somos
introduzidos num tema significativo, referido
durante a Assembleia do Sínodo: a
sacramentalidade da Palavra. A este respeito é
útil recordar que o Papa João Paulo II já aludira
«ao horizonte sacramental da Revelação e, de
forma particular, ao sinal eucarístico, onde a
união indivisível entre a realidade e o respectivo
significado permite identificar a profundidade do
mistério». Daqui se compreende que, na origem da
sacramentalidade da Palavra de Deus, esteja
precisamente o mistério da encarnação: «o Verbo
fez-Se carne» (Jo 1, 14), a realidade do mistério
revelado oferece-se a nós na «carne» do Filho. A
Palavra de Deus torna-se perceptível à fé através
do «sinal» de palavras e gestos humanos. A fé
reconhece o Verbo de Deus, acolhendo os gestos e
as palavras com que Ele mesmo se nos apresenta.
Portanto, o horizonte sacramental da revelação

109
indica a modalidade histórico-salvífica com que o
Verbo de Deus entra no tempo e no espaço,
tornando-Se interlocutor do homem, chamado a
acolher na fé o seu dom.” (VD, 56)

Claro está que o Sumo Pontífice não ignora o


dogma dos sete (e únicos) sacramentos, nem fere o
entendimento da Igreja, apresentando a teologia da
“sacramentalidade da Palavra”. A Palavra de Deus,
ou mais especificamente, a Sagrada Escritura, não é
um sacramento no sentido de uma celebração, de
um sinal sensível e eficaz da graça, ou seja, não é
sacramento no sentido estrito tomista, tridentino,
dos catecismos, e que, claro, deve continuar a
prevalecer como “sentido mais forte”, “sentido
mais importante”, para que não haja confusão entre
os fiéis. Sem embargo, a profunda sacralidade da
Palavra não deve ser desprezada, e, além disso,
insistindo-se na “sacramentalidade” da Palavra,
demonstra-se com bastante eficácia a relação da
Escritura com a Eucaristia, como em Emaús.

Noutros termos, os sete sacramentos, em sentido


estrito, são revalorizados e diríamos provados pela
Palavra como sacramento em sentido amplo. Ou a
Palavra, sacramento em sentido amplo, aponta para
os sete sacramentos, em sentido estrito. E, se
aponta para os sete, com mais razão, para o
sacramento do qual derivam os demais, o
sacramento por antonomásia, o Santíssimo
Sacramento, como se vê na continuação da
Exortação Apostólica:

110
“Assim é possível compreender a
sacramentalidade da Palavra através da analogia
com a presença real de Cristo sob as espécies do
pão e do vinho consagrados. Aproximando-nos do
altar e participando no banquete eucarístico,
comungamos realmente o corpo e o sangue de
Cristo. A proclamação da Palavra de Deus na
celebração comporta reconhecer que é o próprio
Cristo que Se faz presente e Se dirige a nós para
ser acolhido. Referindo-se à atitude que se deve
adoptar tanto em relação à Eucaristia como à
Palavra de Deus, São Jerónimo afirma: «Lemos as
Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é
o Corpo de Cristo; penso que as santas Escrituras
são o seu ensinamento. E quando Ele fala em
“comer a minha carne e beber o meu sangue” (Jo
6, 53), embora estas palavras se possam entender
do Mistério [eucarístico], todavia também a
palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é
verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue.
Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se
cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando
estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é
derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é
carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos
com outra coisa, não incorremos em grande
perigo?». Realmente presente nas espécies do pão
e do vinho, Cristo está presente, de modo análogo,
também na Palavra proclamada na liturgia. Por
isso, aprofundar o sentido da sacramentalidade da
Palavra de Deus pode favorecer uma maior

111
compreensão unitária do mistério da revelação em
«acções e palavras intimamente relacionadas»,
sendo de proveito à vida espiritual dos fiéis e à
acção pastoral da Igreja.” (VD, 56, grifo nosso)

Um novo mote a considerar. Há, evidentemente,


uma indissociável relação entre a Sagrada
Eucaristia e a Palavra de Deus, mas para reforçar
tal nexo se vale a Igreja de analogias, dado que são
"categorias" distintas. Mesmo a presença de Cristo
na Escritura proclamada durante a celebração não é
do mesmo nível de sua presença real no sacramento
eucarístico. A presença de Cristo na Eucaristia é
uma presença por antonomásia, por excelência.

Para ressaltar que, pela liturgia, existe uma


presença de Cristo na Palavra proclamada, e que
ela tem relação com a presença do mesmo Cristo
no sacramento da Eucaristia celebrado, novamente,
na idêntica liturgia, mas que, por outro lado, tais
“presenças” são distintas, é que frisamos o
vocábulo “análogo” no parágrafo supra. Cristo está
na Palavra e está na Eucaristia, porém entre as duas
presenças há uma analogia, significando que não
são idênticas, não possuem a mesma substância.

Como já tivemos oportunidade de esclarecer, em


outro artigo, publicado pelo conhecido site
Veritatis Splendor –
http://www.veritatis.com.br/article/3596, que passo
a transcrever a título de aprofundamento, como um
parêntesis em nosso estudo:

112
“Importa, antes de tudo, diferenciarmos os
modos pelos quais Deus Se faz presente nas
coisas, nos lugares e nos seres.

1) Presença de Cristo em todas as coisas,


em todos os lugares, e em todos os seres,
por Sua ubiqüidade ou onipresença, i.e., em
virtude de seu poder.

2) Presença de Cristo em todos os homens,


pecadores ou justos, pela ubiqüidade, mas
também, e de modo mais especial, por amor
e por semelhança.

3) Presença de Cristo nas almas dos justos,


i.e., dos que estão em estado de graça ou já
se encontram salvos, quer no céu quer no
purgatório, pela inabitação, ou seja,
mediante a graça santificante.

4) Presença de Cristo nas páginas das


Sagradas Escrituras, nos ministros, em
certos sacramentais, nas imagens, no altar,
pelo uso que deles se faz.

5) Presença de Cristo na assembléia dos


fiéis, pela graça, uma vez que é reunião de
almas dos justos e, por isso, decorre da
inabitação, presença essa que se chama, mui
significativamente, espiritual.

113
6) Presença de Cristo na Santíssima
Eucaristia pela realidade e pela substância,
não como se nas outras Ele não estivesse
real ou substancialmente presente, mas por
antonomásia, de modo excelso.

Feitas essas diferenciações, por alto,


passemos à consideração de cada uma
dessas maneiras de Deus fazer-Se presente.

“‘Cristo Jesus, aquele que morreu, ou melhor,


que ressuscitou, aquele que está à direita de
Deus e que intercede por nós’ (Rm 8,34), está
presente de múltiplas maneiras em sua Igreja:
em sua Palavra, na oração de sua Igreja, ‘lá
onde dois ou três estão reunidos em meu nome’
(Mt 18,20), nos pobres, nos doentes, nos presos,
nos sacramentos, dos quais ele é o autor, no
sacrifício da missa e na pessoa do ministro.
Mas 'sobretudo (está presente) sob as espécies
eucarísticas.’” (Cat., 1373)

Em todas as coisas, seres e lugares, faz-Se


presente Deus, uma vez que um de Seus
atributos é a imensidão ou ubiqüidade,
também chamada onipresença.

Embora Deus esteja em sua Sua substância,


nela não se convertem as substâncias das
coisas onde Ele está presente em virtude de
Seu poder. A substância de cada criatura
permanece a mesma, não tendo ela
substância divina, sob pena de cairmos no

114
erro do panteísmo, que confunde o Criador
com os seres criados.

No ser humano, mesmo pecador, Deus está


presente também pela ubiqüidade. Em certo
sentido, é a mesma presença divina com a
qual o Senhor está em todas as coisas,
lugares e seres. Em outro, é uma presença
mais íntima, pois o homem é Sua imagem e
semelhança. “Tu estavas comigo, mas não
eu contigo.” (Santo Agostinho, Conf., X, 27,
38) Ainda assim, esta presença é inferior
àquela efetuada por Deus mediante a graça.
De fato, a presença de Deus no justo,
chamada inabitação, é uma participação na
vida divina, na natureza divina. Não muda o
homem sua substância, mas participa, pela
graça santificante, da de Deus.

“A pesar del pecado de los hombres, Dios


siempre ha mantenido su presencia creacional
en las criaturas. Sin ese contacto entitativo,
ontológico, permanente, las criaturas hubieran
recaído en la nada. León XIII, citando a Santo
Tomás, recuerda esta clásica doctrina: «Dios se
halla presente a todas las cosas, y está en ellas
‘por potencia, en cuanto se hallan sujetas a su
potestad; por presencia, en cuanto todas están
abiertas y patentes a sus ojos; por esencia,
porque en todas ellas se halla él como causa del
ser’» (enc. Divinum illud munus: STh I,8,3).
Pero la Revelación nos descubre otro modo por
el que Dios está presente a los hombres, la
presencia de gracia, por la que establece con

115
ellos una profunda amistad deificante. Toda la
obra misericordiosa del Padre celestial, es
decir, toda la obra de Jesucristo, se consuma en
la comunicación del Espíritu Santo a los
creyentes.” (RIVERA, Pe. José; IRABURU,
Pe. José María. Síntesis de la Espiritualidad
Católica, Fundación Gratis Date)

“Para melhor entender a natureza e efeitos


desse dom, convém recordar o que, depois das
Sagradas Escrituras, ensinaram os sagrados
doutores, isto é, que Deus se acha presente em
todas as coisas e que está nelas ‘por potência,
enquanto se acham sujeitas a sua potestade;
por presença, enquanto todas estão abertas e
patentes a seus olhos; e por essência, porque
em todas se acha como causa de seu ser.’ Mas,
na criatura racional, encontra-se Deus já de
outra maneira, isto é, enquanto é conhecido e
amado, já que é segundo a natureza amar o
bem, desejá-lo e buscá-lo. Finalmente, Deus,
por meio de sua graça, está na alma do justo de
forma mais íntima e inefável, como em seu
templo; e disso se segue aquele mútuo amor
pelo qual a alma está intimamente presente
diante de Deus, e está nele mais do que se possa
suceder entre os amigos mais queridos, e goza
dele com a mais regalada doçura.
E esta admirável união (...) propriamente se
chama inabitação (...).” (Sua Santidade, o
Papa Leão XIII. Encíclica Divinum Illud
Munus)

“Trabalhemos sempre vivendo conscientemente


Sua inabitação em nós, sendo nós Seu templo,

116
sendo Ele nosso Deus dentro de nós.” (Santo
Inácio de Antioquia, Ad Eph., 15,3) A
inabitação é formalmente uma união física e
amistosa entre Deus e o homem, fundada na
caridade e realizada pela graça, mediante a
qual Deus Se dá à alma e nela Se torna
presente pessoal e substancialmente, sem
alteração da substância própria do homem,
porém, fazendo-a participar da vida divina.
“Deus mora secretamente no seio da alma”
(São João da Cruz, Chama, 4, 14) Essa
santificação ou divinização não é uma
mudança da substância humana em divina,
mas elevação da primeira à última. A
grande reformadora do Carmelo sempre se
referia às “(...) três Pessoas que trago na alma
(...).” (Santa Teresa d'Ávila, Consc., 42)

Santo Tomás de Aquino explica: “O especial


modo da presença divina própria da alma
racional consiste precisamente em que Deus
esteja com ela como o conhecido naquele que o
conhece e o como o amado no amante. E
porque, conhecendo e amando, a alma racional
aplica sua operação ao mesmo Deus, por isso,
segundo este modo especial, se diz que Deus
não só é na criatura racional, senão que habita
nela como em seu templo.” (S. Th., I, q. 43, a.
3)

Em virtude da Encarnação, Cristo é Deus,


mas também homem, duas naturezas em
uma só Pessoa. Evidentemente, quando nos

117
referimos à onipresença, estamos falando de
um atributo da divindade. Ainda que esta se
una indissoluvelmente à humanidade de
Cristo em Sua Encarnação, aquela é
preexistente. Antes mesmo de tornar-se
carne, o Verbo, por ser Deus, já estava em
tudo e em todos (sem alterar-lhes, contudo,
a substância, nem fazer-lhes participar de
Sua natureza divina); na Eucaristia, porém,
eis que é Cristo, Verbo feito carne, não só a
divindade como a humanidade do Salvador
estão presentes.
Deus não está presente na pedra ou na
árvore de modo a fazê-las participar de Sua
divindade. Cada ser conserva sua substância
própria. A pedra é pedra, não Deus. Sua
semelhança com o Criador se dá pela
participação da perfeição divina enquanto
tem, como Deus, o ser (no caso, o ser
pedra). Assim também, o homem não é
Deus por estar Este presente naquele; sua
natureza humana, substância humana, resta
inalterada. É o homem semelhante a Deus
apenas na medida em que participa das
faculdades da inteligência e da vontade, as
quais são perfeições divinas. No homem,
Deus está presente, pela ubiqüidade, sendo a
ele semelhante, vez que é inteligente e
possui vontade (Deus, que é puro espírito,
também é inteligente e possui vontade).

118
No homem em estado de graça (e nos anjos
do céu), Deus faz-Se presente de modo
ainda mais excelso: pela participação na
natureza divina. Ainda nesta, o homem
continua homem (e o anjo, anjo), mas, pela
graça, recebe algo da divindade, algo da
substância divina, sem alterar a sua própria,
contudo.

Nenhuma dessas presenças, entretanto, é a


mesma de Deus na Eucaristia. Nela, Deus
não está presente como em todos os lugares,
seres e coisas. Nela, Deus não está presente
apenas enquanto esta tem o ser. Nela, Deus
não está presente pela participação na
vontade e na inteligência, que caracterizam
a semelhança. Nela, Deus não está presente
pela graça ou elevando a substância, a
natureza, até Si. Não! Se a pedra, ainda que
Deus nela esteja presente, continua pedra,
sem mudar a substância de pedra, sem
assumir a natureza divina (daí que não
adoramos a pedra nem a consideramos
Deus, o que seria panteísmo); se o homem
não-justificado continua homem, ainda que
Deus nele esteja também presente e seja ele
criado à Sua imagem e semelhança; se
mesmo o homem em estado de graça
continua homem, sem mudar sua
substância, sua natureza humana (ainda que
participando, pela graça santificante, da
natureza divina); a Eucaristia é o próprio

119
Deus! Não está Cristo nela como na pedra
(que continua pedra) ou no homem (que
continua homem, mesmo elevado pela graça
à natureza divina), mas há verdadeira
mudança de substância (transubstanciação):
as substâncias do pão e do vinho, após a
consagração e por ela, mudam-se em Corpo,
Sangue, Alma e Divindade de Nosso
Senhor, Deus, Rei e Salvador, Jesus Cristo.
A pedra tem a presença de Deus, porém
resta com a substância de pedra. O homem
tem a presença de Deus, porém resta com a
substância de homem. A Eucaristia tem a
substância de Deus, pois nela Cristo não só
está presente: a Eucaristia É Deus! Sob a
aparência de pão, encontra-se o Criador do
Universo! Daí que a adoremos, o que não se
faz com uma pedra, ainda que Deus nela
esteja presente pela ubiqüidade, nem com
um homem, ainda que seja feito à Sua
imagem e semelhança e, no caso do homem
justificado, participe da natureza divina.

Cristo, pois faz-Se presente nas coisas, em


virtude de sua onipresença; faz-Se presente
nos homens pela grandiosa semelhança
entre eles e Deus, criados à Sua imagem,
com vontade e inteligência; faz-Se presente
nas almas justas em razão da graça,
presença essa chamada inabitação; faz-Se
presente na Bíblia, nos ministros, nos
sacramentais, pelo uso; e, muito

120
especialmente, na Eucaristia. “Esta presença
chama-se ‘real’ não por exclusão, como se as
outras não fossem ‘reais’, mas por
antonomásia”, diz Paulo VI, “porque é
substancial e porque por ela Cristo, Deus e
homem, se torna presente completo”.
(Encíclica Mysterium Fidei, de 3 de
setembro de 1965, nº 39) A Eucaristia não é
apenas presença de Cristo: ela é o próprio
Cristo! Ainda que estivesse em todos os
lugares, uma vez que, sendo Deus, era
onipresente, Cristo, em Sua vida terrena,
após a Encarnação, estava, de modo
especial, presente em locais específicos: em
Cafarnaum, Nazaré, Jerusalém, na
manjedoura, nas bodas de Caná, em um
barco no mar da Galiléia... A presença de
Jesus em um local específico e determinado
não elimina Sua ubiqüidade, imensidão,
onipresença. O mesmo em relação ao
Santíssimo Sacramento: é Deus conosco, e
Sua presença nele, específica, não invalida a
ubiqüidade. De qualquer maneira, é uma
presença excelente, real por antonomásia!

A presença de Jesus Cristo, outrossim, entre


o povo fiel, é explicada de dois modos.
Primeiro como conseqüência da inabitação:
Cristo está presente, pela graça, nas almas
de muitos. Segundo, pela promessa de estar
presente no meio deles, como bem lembrou
o consulente. É uma presença, ainda que

121
real, que se dá de maneira espiritual. A
substância do lugar não muda.”

Não se distorça, portanto, a Exortação do Papa para


justificar espúrias teologias que tentam igualar a
Escritura e a Eucaristia, reduzindo, na prática, a fé
na presença real e substancial do Senhor no
Santíssimo Sacramento.

Fecha parênteses. Sigamos o artigo.

Pontos práticos para a “reforma da reforma


litúrgica” em relação à Palavra de Deus

Enfim, não se pode descurar toda a questão que


falávamos no início deste artigo, sobre a “reforma
da reforma” pretendida e iniciada por Bento XVI, e
suas relações com o tema da presente Exortação
Apostólica. E é nesse sentido que o próprio Papa já
se adianta e, não querendo deixar somente para
nossa criatividade e filosofia imaginar o cenário de
como a Palavra de Deus se afina com o resgate de
uma sacralidade mais “ostensiva” na liturgia, dá os
caminhos por onde, com segurança, poderemos
trilhar nos próximos anos, principalmente os
envolvidos no “novo movimento litúrgico”, como
nós, em nosso blog Salvem a Liturgia –
www.salvemaliturgia.com.

O Papa já tinha, em 2006, em sua Mensagem para o


Dia Mundial da Juventude, especificado a
importância que dava à intimidade com a Escritura,

122
tema da presente Exortação. O despertar para a
liturgia, requerido por Bento XVI, passa por um
contato mais estreito com a Palavra de Deus, que,
como vimos, permeia não só a celebração litúrgica,
como é a base da teologia que a sustenta.

Nesse diapasão, convém recordar as palavras do


Pontífice àquela ocasião:

“Diletos jovens, exorto-vos a adquirir


familiaridade com a Bíblia, a conservá-la ao
alcance da mão, a fim de que seja para vós uma
bússola que indique o caminho a seguir. Lendo-a,
aprendereis a conhecer Cristo. A este propósito,
São Jerônimo observa: "A ignorância das
Escrituras é ignorância de Cristo" (PL 24, 17; cf.
Dei Verbum, 25). Um caminho bem experimentado
para aprofundar e saborear a palavra de Deus é a
lectio divina, que constitui um verdadeiro e próprio
itinerário espiritual por etapas. Da lectio, que
consiste em ler e reler um trecho da Sagrada
Escritura e em frisar os seus aspectos principais,
passa-se à meditatio, que é como que uma pausa
interior, em que a alma se dirige a Deus,
procurando compreender aquilo que a sua palavra
diz hoje à vida concreta. Depois, vem a oratio, que
nos faz entreter com Deus um diálogo directo, e
enfim chega-se à presença de Cristo, cuja palavra
é "luz que brilha num lugar escuro, até que venha o
dia em que a estrela da manhã brilhe nos vossos
corações" (2 Pd 1, 19). Em seguida, a leitura, o
estudo e a meditação da Palavra devem

123
desabrochar numa vida de adesão coerente a
Cristo e aos seus ensinamentos.” (Mensagem em
22 de fevereiro de 2006)

A partir dessas linhas-mestras, o Papa sugere um


programa muito prático para a valorização desse
nexo entre a Sagrada Eucaristia e a ação litúrgica.

Um dos pontos desse programa é a formação dos


que fazem leituras na Missa, e a redescoberta e
promoção do ministério do leitor.

“Na assembleia sinodal sobre a Eucaristia, já se


tinha pedido maior cuidado com a proclamação da
Palavra de Deus. Como é sabido, enquanto o
Evangelho é proclamado pelo sacerdote ou pelo
diácono, a primeira e a segunda leitura na
tradição latina são proclamadas pelo leitor
encarregado, homem ou mulher. Quero aqui fazer-
me eco dos Padres sinodais que sublinharam,
também naquela circunstância, a necessidade de
cuidar, com uma adequada formação, o exercício
da função de leitor na celebração litúrgica e de
modo particular o ministério do leitorado que
enquanto tal, no rito latino, é ministério laical. É
necessário que os leitores encarregados de tal
serviço, ainda que não tenham recebido a
instituição no mesmo, sejam verdadeiramente
idóneos e preparados com empenho. Tal
preparação deve ser não apenas bíblica e litúrgica
mas também técnica: «A formação bíblica deve
levar os leitores a saberem enquadrar as leituras

124
no seu contexto e a identificarem o centro do
anúncio revelado à luz da fé. A formação litúrgica
deve comunicar aos leitores uma certa facilidade
em perceber o sentido e a estrutura da liturgia da
Palavra e os motivos da relação entre a liturgia da
Palavra e a liturgia eucarística. A preparação
técnica deve tornar os leitores cada vez mais
idóneos na arte de lerem em público tanto com a
simples voz natural, como com a ajuda dos
instrumentos modernos de amplificação sonora».”
(VD, 58)

A leitura das lições na Missa em rito romano, à


exceção do Evangelho, é feita por alguém
especialmente encarregado para tal. O Papa trata de
sublinhar o necessário preparo técnico, mas
também espiritual, de quem faz essas leituras. Não
se pode apenas emprestar a voz à Palavra de Deus
para fazer uma proclamação litúrgica: é preciso que
tal seja fruto da coerência de vida, sem descuidar o
aspecto técnico.

Além disso, o Santo Padre, ao prescrever tais


conselhos a todos os que fazem leituras, diz que
eles são ainda mais importantes quando elas são
feitas pelos “leitores instituídos”. O leitorado, bem
o sabemos, é um ministério, ou seja, uma tarefa
especialmente dada pela autoridade da Igreja a
alguém mediante um rito litúrgico específico. Hoje,
esse rito, no âmbito da liturgia romana moderna, se
chama instituição, mas houve tempo em que se a
chamava “ordenação menor”, expressão que é

125
conservada pelos que observam a forma antiga,
extraordinária, do rito romano, e pelos inúmeros
ritos orientais. Assim, historicamente, esse
ministério do leitor era tão importante a ponto de o
chamarmos “ordem menor”, em analogia ao
sacramento da Ordem.

Se leituras todos podem fazer, homens e mulheres,


desde que idôneos e bem preparados, o ministério
do leitor, por sua vez, só é concedido aos homens
pelo Bispo, nos termos do Direito Canônico.

Urge valorizá-lo. Não conferir tal ministério/ordem


menor somente aos seminaristas em preparação ao
sacerdócio, mas a varões que tenham o chamado
específico. Se em uma Missa “comum”, se possa,
sem maiores problemas, treinar um leigo para fazer
uma leitura, tem maior peso litúrgico, e é mais
conectado com a tradição, que nas Missas mais
solenes, a leitura seja feita pelo leitor instituído,
i.e., por quem recebeu o ministério do leitorado.
Entre um simples fiel que faz uma leitura e um
leitor instituído há um abismo enorme a diferenciá-
lo, e esse abismo é saudável, encontra eco na
tradição litúrgica, e faz a Palavra por ele
proclamada ter uma significação litúrgica externa
muito mais profunda.

Outro ponto ressaltado pelo Pontífice para enfatizar


a posição litúrgica da Palavra de Deus na
celebração é a maior popularização do canto por
excelência do rito romano, o canto gregoriano. De

126
fato, além de musicar as perícopes bíblicas ou,
quando não o faça, se inspirar profundamente nas
mesmas, o canto gregoriano, por sua métrica e
técnica, subordina a melodia à palavra cantada. O
centro, no canto gregoriano, é o que se canta, e não
tanto como se canta.

“No âmbito da valorização da Palavra de Deus


durante a celebração litúrgica, tenha-se presente
também o canto nos momentos previstos pelo
próprio rito, favorecendo o canto de clara
inspiração bíblica capaz de exprimir a beleza da
Palavra divina por meio de um harmonioso acordo
entre as palavras e a música. Neste sentido, é bom
valorizar aqueles cânticos que a tradição da Igreja
nos legou e que respeitam este critério; penso
particularmente na importância do canto
gregoriano.” (VD, 70)

Falar em canto gregoriano, por sua vez, nos leva a


falar no silêncio. O modo de cantar a música oficial
da liturgia romana é uma lembrança da importância
de silenciar para ouvir a Deus.

Também na liturgia esse silêncio tem seu lugar.


Não se adora a Deus apenas falando, cantando,
recitando uma oração. Silenciando também
prestamos culto ao Senhor, e respondemos ao apelo
do que foi lido nas Sagradas Escrituras. Por isso, o
silêncio é um ponto muito concreto para valorizar a
Palavra de Deus na liturgia.

127
“Várias intervenções dos Padres sinodais
insistiram sobre o valor do silêncio para a
recepção da Palavra de Deus na vida dos fiéis. De
facto, a palavra pode ser pronunciada e ouvida
apenas no silêncio, exterior e interior. O nosso
tempo não favorece o recolhimento e, às vezes,
fica-se com a impressão de ter medo de se separar,
por um só momento, dos instrumentos de
comunicação de massa. Por isso, hoje é necessário
educar o Povo de Deus para o valor do silêncio.
Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na
vida da Igreja significa também redescobrir o
sentido do recolhimento e da tranquilidade
interior. A grande tradição patrística ensina-nos
que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio
e só nele é que a Palavra pode encontrar morada
em nós, como aconteceu em Maria, mulher
indivisivelmente da Palavra e do silêncio. As
nossas liturgias devem facilitar esta escuta
autêntica: Verbo crescente, verba deficiunt.

Que este valor brilhe particularmente na Liturgia


da Palavra, que «deve ser celebrada de modo a
favorecer a meditação». O silêncio, quando
previsto, deve ser considerado «como parte da
celebração». Por isso, exorto os Pastores a
estimularem os momentos de recolhimento, nos
quais, com a ajuda do Espírito Santo, a Palavra de
Deus é acolhida no coração.” (VD, 66)

Ao contrário do que se poderia pensar, mais


superficialmente, a promoção da Palavra no culto

128
litúrgico não é feita somente quando se a proclama
ou quando se a escuta, mas também quando se a
digere e contempla. De nada adianta ouvir a
Palavra, sem meditá-la, e só se medita quando se
está em silêncio. O silenciar, por alguns instantes,
na Missa, não é ocasião de tédio ou vazio, mas de
sublime contemplação da Palavra de Deus
liturgicamente anunciada.

Enfim, nos números seguintes da Exortação, Bento


XVI enumera outras sugestões para que o culto
litúrgico demonstre mais claramente sua relação
com a Sagrada Escritura: a importância da
explicação das leituras por uma atenta homilia (cf.
VD, 59); a promoção das Laudes e Vésperas
celebradas com o povo nas paróquias (de forma
comunitária e, se houver condições, também na
forma solene, conforme o Cerimonial dos Bispos,
com pluvial, incenso, canto gregoriano; cf. VD,
62); o uso do Evangeliário, conduzido com especial
dignidade nas procissões, não só na Missa
pontifical, mas em outras Missas mais importantes,
especialmente na Missa solene com diácono (cf.
VD, 67); e a observação do ambão como um lugar
de honra no presbitério, bem como do cuidado com
o Lecionário (cf. VD, 57 e 68).

Não pretendemos terminar o presente artigo de


forma abrupta. Sem embargo, após explanarmos –
certamente sem ambicionar fornecer uma
interpretação exaustiva dos trechos sobre liturgia na
citada Exortação Apostólica Verbum Domini, antes

129
dando uma pincelada em pontos que julgamos mais
relevantes –, após explanarmos, dizíamos, sobre o
nexo entre a Sagrada Escritura e o culto público da
Igreja, não nos restaria senão recomendarmos a
leitura direta do texto do documento, como forma
de aproximação com o riquíssimo pensamento
litúrgico do Papa Bento XVI. Pensamento, aliás,
iniciado já antes, no seu tempo de padre, teólogo,
Bispo e Cardeal da Santa Igreja Romana.

Para “salvar” a liturgia diante de tantas sombras e


manipulações, fato denunciado por grandes Bispos
e por três Papas (Paulo VI, João Paulo II e o
próprio Bento XVI), temos que andar no passo da
Igreja. No afã de promover um novo movimento
litúrgico, que desperte nas almas a busca mais
profunda de Deus mediante a oração oficial da
Igreja, e uma compreensão das rubricas e dos ritos
como instrumentos para a nossa santificação, nada
é melhor do que trilhar o caminho que o Sucessor
de Pedro nos indica. Responder ao chamado do
Papa, obedecer ao que ele manda, e manifestar,
assim, nossa mais sincera fidelidade ao seu
Magistério, passa por escutar seu apelo em prol da
liturgia.

Oxalá a leitura atenta deste despretensioso artigo


leve o amigo a isso. Da Palavra à liturgia, da
liturgia à Palavra, e de ambas à maior glória de
Deus, à dilatação da Igreja, e à salvação das almas,
começando pela nossa...

130
As ações cerimoniais: fazer de
qualquer jeito?
Na liturgia, é preciso executar determinadas ações,
fazer certos gestos, portar-se de uma maneira
adequadamente disposta. Chamamos a tais
procedimentos ações cerimoniais, pois se executa,
por eles, uma dada cerimônia. Em alguns
momentos, deve-se sentar, em outros ajoelharem-se
ou ficar de pé. É necessário, igualmente, juntar as
mãos ou elevá-las, falar em voz alta ou baixa,
segurar objetos, ler, fazer o sinal-da-cruz etc.

Cada uma dessas ações cerimoniais reveste-se de


fundamental importância para a correta celebração
litúrgica, de vez que são permeadas de forte carga
simbólicas. Mesmo as que não possuem significado
mais profundo, sem embargo, têm a sua
respeitabilidade e, dependendo do caso, são, no
mais das vezes, preceptivas: servem para
demonstrar, no mínimo, a unidade do rito romano,
transmitir sua antiguidade, conectar-nos com a rica
tradição da Igreja, explicitar beleza e elegância em
cada detalhe. Como vimos em capítulo anterior,
essa distinção e sobriedade são uma característica
muito presente em nosso rito.

Embora haja uma sadia diversidade na Igreja, que


se reflete em certos aspectos da liturgia, ainda que
em um mesmo rito, cumpre manter uma mínima
unidade e, até mesmo, uniformidade nos gestos e

131
ações, conforme nos mandam as rubricas de cada
livro litúrgico. As ações cerimoniais
uniformemente adotadas passam-nos a mensagem
da universalidade da Igreja, da solidez do rito e da
seriedade do culto católico. Por sua fiel
observância, denotamos que o centro da liturgia é
Jesus Cristo, não o homem. A Missa, a Liturgia das
Horas, a celebração dos sacramentos, as procissões,
enfim, cada ato de culto público instituído pela
autoridade da Igreja, conquanto tenha por
beneficiário o homem, têm por destinatário a Deus.
Trata-se de atividades teocêntricas, nunca
antropocêntricas. E, como é o Senhor quem está no
centro e no fim da liturgia, importa a Ele agradar
pela adoração “em espírito e verdade” (Jo 4,23), e
não satisfazer nossas paixões ou gostos
particulares. Nesse terreno, é a Igreja Católica,
depositária da verdade e representante da vontade
de Deus, quem deve regular, nunca nossas
opiniões, muitas delas recheadas de subjetivismo e
relativismo, tão em voga nos tempos hodiernos.

Nos livros litúrgicos anteriores à reforma pós-


conciliar, as rubricas acerca das ações cerimoniais
eram bastante precisas e detalhistas, o que era
motivo de segurança para o sacerdote e para todos
os que participavam das celebrações. No entanto,
certa rigidez excessiva impedia uma eleição maior
de Missas votivas, por exemplo, ou de coletas e
prefácios, e mesmo havia uma classificação um
tanto imóvel dos tipos de Missa (rezada, cantada e
solene). Em uma Missa rezada, por exemplo, não

132
se poderia cantar nenhuma parte do Ordinário. E
uma Missa solene, i.e., com diácono e subdiácono –
função hoje assumida pelo acólito –, não poderia
ser rezada, apenas cantada. O incenso, enfim, só
poderia ser usado em Missas cantadas e solenes. E
assim por diante.

A reforma litúrgica, levada a cabo por Paulo VI e


João Paulo II, caracteriza-se por uma variedade
notável de opções durante a celebração. Uma
mesma Missa pode, nesse sentido, ter tal coleta ou
outra, determinado prefácio ou outro, usar ou não
um diácono – mesmo sendo Missa não-cantada –,
utilizar este ou aquele formulário para o Ato
Penitencial etc. Os ritos ad libitum são bastante
variados, o que demonstra maior flexibilidade, um
ponto positivo nos livros litúrgicos atuais. Uma
pena, entretanto, que essas faculdades, criadas por
obediência ao sadio princípio da criatividade (bem
entendida, frise-se), são relegadas ao esquecimento:
na prática, diante de duas ou três opções de
celebração, umas mais simples e outras mais
solenes, na grande maioria das vezes, em nossas
igrejas, escolhe-se, sem critério, as mais simples. A
possibilidade de eleger cerimônias, diálogos, ritos e
gestos mais simples, foi criada para serem usados
conforme a oportunidade, não para sepultar o
fausto da solenidade litúrgica.

“Em conjunto, portanto, as normas litúrgicas são


agora muito mais flexíveis que antes. É evidente
que não seria sentire cum Ecclesia nesta matéria

133
limitar-se por princípio a realizar exclusivamente o
que é estritamente obrigatório, nem tampouco
colocar sempre em prática todas as possibilidades
não preceituadas, com independência das
circunstâncias: sem distinguir, por exemplo, se se
trata de uma Missa dominical em um grande
oratório ou em uma igreja, ou de uma Missa ferial
em um pequeno oratório a que assistem poucas
pessoas etc. “23

De outra sorte, ao lado das ações facultativas – que


não devem ser olvidadas, como, infelizmente, se
faz em muitos lugares –, é fato que as rubricas
atuais deixam algumas cerimônias sem descrição
precisa de modo proposital: pensa-se que o
sacerdote, ao executá-las, irá fazê-lo com base na
tradição litúrgica milenar do rito romano, que, nos
livros anteriores, era explicitada pelas rubricas. Não
descreve com precisão porque na mente do
legislador os padres iriam, por si só, manter os
gestos. Na prática sabemos que não é bem assim, e
também, pela falta de norma preceptiva escrita,
nem mesmo estão constrangidos a isso. Mas o
sentido de certas omissões é esse.

Tanto é assim que o Cerimonial dos Bispos no rito


moderno traz, em suas notas de rodapé, citações do
Cerimonial dos Bispos do rito tradicional, como

23

http://www.opuslibros.org/libros/Exliturgia/xpliturg
ia2.htm

134
referência para certos gestos. Está clara, assim, a
continuidade litúrgica.

Agora, transplantar cerimônias inteiras da forma


extraordinária para dentro do rito moderno nos
parece artificial e ilícito.

Enfim, deve-se lembrar o princípio da nobre


simplicidade, sobre o qual já discorremos, na
execução de cada ação cerimonial. Um ar de
distinção, de sobriedade unidade à beleza, de
decoro e graciosidade, de elegância sem afetação,
de gravidade, deve reinar no culto. As ações sejam
simples, sem um desnecessário rebuscamento, que
soe totalmente artificial, forçado.

Essa simplicidade, porém, seja nobre e grave, com


a consciência de que estamos em local sagrado,
diante do Deus Altíssimo, e celebrando com uma
liturgia herdeira da riquíssima e bimilenar tradição
eclesiástica, em que cada gesto deve demonstrar o
que significa para melhor adoração a Deus e maior
compreensão do próprio homem que O cultua.
Impere, pois, além da acuidade na observância dos
detalhes das rubricas, uma seriedade em sua
execução. Esta acuidade e seriedade são, enfim,
demonstrações de zelo pela liturgia e pelas normas
da Igreja, o que, por sua vez, é fruto do amor a
Deus e às almas.

A naturalidade com que se deve celebrar não pode


nunca vulgarizar o culto, como se estivéssemos

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diante de algo banal. Naturais devemos ser como
quem está diante de um Pai amoroso, mas sem
esquecer que se trata de uma celebração
profundamente sobrenatural, na qual é o próprio
Cristo quem celebra mediante Seus ministros
sagrados. A liturgia não é algo do dia-a-dia,
comum, porém um sair da normalidade, do
ordinário: é criar o céu na terra, é sair da
habitualidade e colocar-se diante do trono do
Altíssimo e do Cordeiro, é refletir a adoração
celebrada na corte celestial, é fazer presente o
descrito no Apocalipse, é unir a Igreja Militante e a
Padecente à Triunfante.

Celebrar a Missa de qualquer jeito – sem obedecer


ao disposto nas rubricas, sem atender àqueles
aspectos de solenidade e exuberância que
embelezam o culto e demonstram o esplendor
católico, e, mais ainda, sem aquele cuidado de
observar até mesmo aquilo que não está descrito
nas regras (mas que é absolutamente fiel ao senso
litúrgico) – é não diferenciar entre as esferas
material e espiritual, é banalizar o que há de mais
espetacular no universo, é conceber a liturgia de
maneira antropocêntrica.

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