Você está na página 1de 2

Disciplina: Português Instrumental

Curso: Engenharias
Profª Me. Dhienes Charla Ferreira Tinoco

Essas e outras mulheres


Luiz Vitor Martinello

Imaginemos fechar os olhos por alguns segundos e, ao abri-los, constatar que


não há no Universo qualquer vestígio da figura feminina, qual Adão no Paraíso, numa
inconsolável solidão. O sol, as flores, o regato e, mais adiante, a areia da praia, as
ondas e... uma inconsolável solidão.
Que por lá deve ter sido assim: um mundo de encantos, paradoxalmente, desfeito
numa tal melancolia, que o próprio Deus, entristecido, tivesse ficado ali num canto
qualquer a matutar, a pensar em como fazer com que o homem, criatura feita a sua
imagem e semelhança, pudesse se alegrar, e nesse contentamento reconhecer as
maravilhas de sua criação.
Foi então que, solidário à dor do primeiro homem, criou Eva. Viu, porém, o Criador
que era preciso mais. Sentiu a necessidade de acrescentar um delicioso feitiço a essa
mais recente criatura.
Pensou assim quimicamente numa tal de maçã, uma vermelhinha maçã e, é claro,
com um bichinho dentro, um bigatinho simpático, malemolente, sem-vergonha, Eva
botando na maçã os olhos, o gosto, dividindo-a aos mordiscos com Adão – gestos
iniciais de ternura.
E então, o encantamento de tudo: o sol mais dourado, as flores multiplicando
perfumes, o cristalino regato e, mais adiante, a macia areia da praia, o marulhar das
ondas, um Paraíso estonteante, a chuva que se seguiu, Deus coroando tudo com um
arco-íris enorme de bonito.
Pois é assim também conosco ainda hoje. Sem a mulher, parece que tudo nos
falta. Temos olhos, mas não temos paisagens, temos ouvidos, mas os cantos dos
pássaros emudecem, temos tato, mas apenas para sentir frio, degustamos os frutos
de nossos pomares e eles nos parecem amargos e nossa voz se cala.
Ah! Mas se ela vem toda de branco, toda molhada, linda, despenteada, que
maravilha, que coisa linda que é o meu amor! Seja ela Aurora, veja só que bom que
era; seja Amélia, a mulher de verdade; ou Carolina com seus olhos tristes, qualquer
uma; a Beatriz de Dante; Dinamene, a chinesinha de Camões;Carmem de Bizet; essas
e outras mulheres; imagine esse mundo sem elas...
Sem a Monalisa, sem a Elis, sem a Leila Dinis, sem a Adélia Prado, sem a rainha
louca de Espanha, cadê nós, pobres coitados?
Aquela vontade de morrer, sumir no mundo como minhoca, desejar mesmo
sermos iscas e então os peixes nos engoliriam e tudo seria uma vasta escuridão.
Graças a Deus porque, nos tendo dado Eva e o bichinho da maçã, podemos
exaltar a coragem de Joana D’Arc, nos encantar com o biquinho francês
de Brigitte Bardot, reverenciar as asas de anjo de Teresa de Calcutá e mesmo nos
entreter com as artimanhas de Afrodite.
Ah! Doralice, quem foi que te disse que amar é tolice? Ah! Dorinha, meu amor, por
que me fazes chorar? E a Rita que levou meu sorriso no sorriso dela, e essa Nega
Fulô, ai, que bela que ela é, vem me contar histórias, Nega Fulô, enquanto a Maria
Bonita vai fazer o café, esses enredos todos, vamos todos enredar... que Irene ri,
quero ver Irene dar sua risada...
Ah! que não dá pra imaginar o mundo sem essas e outras mulheres....
Rosa batendo roupa, a saia grudada pelas pernas, rogai por nós; Isabel, a nosso
bel prazer, rogai por nós; Mariana, a desconsolada, rogai por nós; Ruth e sua Bíblia,
rogai por nós; Madalena que não tem do que se arrepender, rogai por nós; Dolores,
flor morena de Madri, rogai por nós; Rogai por nós, Iolanda que eternamente amo;
Rogai por nós Iracema, a virgem dos lábios de mel; Rogai por nós, Gabriela, cravo e
canela.
Quando hoje acordei, imaginei que não mais houvesse mulheres no planeta. Daí
esse texto, de alívio, por poder ver que estão aí, essas e outras mulheres, botando flor
nos cabelos, debatendo nas telas da tevê, nos jornais e palanques, assumindo riscos
nas fábricas, ou discretas em suas cozinhas; são empresárias, pensadoras, mães,
filhas, namoradas, faxineiras, executivas, algumas inspirando poetas, outras
escrevendo seus próprios poemas; há as atrizes, as meretrizes, as amantes, as
mestras, as freiras, (um dia ainda haverá a papisa pra fazer jus à gramática); estão por
toda parte de modo que, fazendo coro com outros homens, a vós pedimos, mulheres,
iluminai-nos, protegei-nos, amparai-nos, abençoai-nos e, principalmente, amai-nos,
que para isto fomos feitos, para amar e ser amados, por todos os séculos dos séculos,
assim seja.