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“[...] aquilo que um homem é contribui muito mais para sua felicidade que aquilo que possui ou representa.

Essa
felicidade sempre depende daquilo que o homem é e, portanto, encerra em si próprio; pois sua individualidade o
acompanha em todo tempo e lugar, e assim esta individualidade colore tudo aquilo que vivencia. Em toda espécie de
fruição, o homem encontra prazer principalmente em si próprio; se isso é verdadeiro em relação aos prazeres físicos,
então quão mais em relação àqueles do intelecto! As palavras inglesas to enjoy oneself constituem uma expressão
muito adequada; por exemplo, não dizemos he enjoys Paris, mas he enjoys himself in Paris. Porém, se a individualidade
estiver mal condicionada, todos os prazeres serão como vinhos finos numa boca impregnada de fel. Assim, se
deixarmos de lado os casos de grande infortúnio, tanto nas coisas boas quanto nas ruins, importa menos aquilo que
acontece conosco que o modo como o encaramos, isto é, nossa natureza e grau de suscetibilidade geral. Aquilo que
um homem é e tem em si, ou seja, sua personalidade e seu valor, é o único fator imediato em sua felicidade e bem-
estar. Todo o resto é mediato e indireto, de modo que sua influência pode ser neutralizada e frustrada; mas nunca a
influência da personalidade. Por tal razão, a inveja incitada por qualidades pessoais é a mais implacável, e também a
mais cuidadosamente dissimulada. Ademais, a constituição de nossa consciência é o elemento presente e permanente
em tudo que fazemos ou sofremos; nossa individualidade trabalha mais ou menos incessantemente durante toda a nossa
vida; todas as outras influências, por outro lado, são temporais, ocasionais, fugazes e sujeitas à variação e à mudança.
Aristóteles disse: “a natureza é eterna, não as coisas” (Ética a Eudemo, VII. 2). Isso se deve ao fato de que podemos
suportar mais facilmente um infortúnio que nos atinge externamente do que aquele que criamos para nós mesmos, pois
o destino pode mudar, mas nunca nossa própria natureza. Desse modo, bens interiores como um caráter nobre, uma
mente privilegiada, um temperamento aprazível, uma alma radiante e um corpo bem constituído, perfeitamente são,
numa palavra, “mente sã em corpo são” (Juvenal, Sátiras, X. 35), são os elementos primários e principais à nossa
felicidade. Assim, devemos nos preocupar muito mais com a preservação de tais qualidades que com a aquisição de
riquezas e honras externas”.

Arthur Schopenhauer, Aforismos para sabedoria de vida, 1851.

"O que é a felicidade além da simples harmonia entre o homem e a vida que ele leva?" Albert Camus
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“[...] aquilo que um homem é contribui muito mais para sua felicidade que aquilo que possui ou representa. Essa
felicidade sempre depende daquilo que o homem é e, portanto, encerra em si próprio; pois sua individualidade o
acompanha em todo tempo e lugar, e assim esta individualidade colore tudo aquilo que vivencia. Em toda espécie de
fruição, o homem encontra prazer principalmente em si próprio; se isso é verdadeiro em relação aos prazeres físicos,
então quão mais em relação àqueles do intelecto! As palavras inglesas to enjoy oneself constituem uma expressão
muito adequada; por exemplo, não dizemos he enjoys Paris, mas he enjoys himself in Paris. Porém, se a individualidade
estiver mal condicionada, todos os prazeres serão como vinhos finos numa boca impregnada de fel. Assim, se
deixarmos de lado os casos de grande infortúnio, tanto nas coisas boas quanto nas ruins, importa menos aquilo que
acontece conosco que o modo como o encaramos, isto é, nossa natureza e grau de suscetibilidade geral. Aquilo que
um homem é e tem em si, ou seja, sua personalidade e seu valor, é o único fator imediato em sua felicidade e bem-
estar. Todo o resto é mediato e indireto, de modo que sua influência pode ser neutralizada e frustrada; mas nunca a
influência da personalidade. Por tal razão, a inveja incitada por qualidades pessoais é a mais implacável, e também a
mais cuidadosamente dissimulada. Ademais, a constituição de nossa consciência é o elemento presente e permanente
em tudo que fazemos ou sofremos; nossa individualidade trabalha mais ou menos incessantemente durante toda a nossa
vida; todas as outras influências, por outro lado, são temporais, ocasionais, fugazes e sujeitas à variação e à mudança.
Aristóteles disse: “a natureza é eterna, não as coisas” (Ética a Eudemo, VII. 2). Isso se deve ao fato de que podemos
suportar mais facilmente um infortúnio que nos atinge externamente do que aquele que criamos para nós mesmos, pois
o destino pode mudar, mas nunca nossa própria natureza. Desse modo, bens interiores como um caráter nobre, uma
mente privilegiada, um temperamento aprazível, uma alma radiante e um corpo bem constituído, perfeitamente são,
numa palavra, “mente sã em corpo são” (Juvenal, Sátiras, X. 35), são os elementos primários e principais à nossa
felicidade. Assim, devemos nos preocupar muito mais com a preservação de tais qualidades que com a aquisição de
riquezas e honras externas”.

Arthur Schopenhauer, Aforismos para sabedoria de vida, 1851.

"O que é a felicidade além da simples harmonia entre o homem e a vida que ele leva?" Albert Camus