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O BOEING

NA FORÇA
AÉREA BRASILEIRA
B 17
Texto: Aparecido Camazano Alamino
Ilustração: Murilo Martins

Utilizados originalmente para bombardear o inimigo na Segunda Guerra


Mundial, os aviões Boeing B-17, apelidados de Fortalezas Voadoras da
Força Aérea Brasileira (FAB), foram incorporados com outro propósito,
totalmente oposto à sua missão primária, ou seja, atuar em missões de
busca e resgate, salvando vidas, bem como realizando atividades de
aerofotogrametria e de transporte, sendo o primeiro quadrimotor e o
primeiro avião da FAB a cruzar o Oceano Atlântico.
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1936, ocasião em que o Modelo 299 passou a
ser designado como Boeing YB-17, apresentando
inúmeras modificações e aperfeiçoamentos em
relação ao primeiro protótipo, como motores mais
potentes, redesenho do trem de pouso e redução
do número de tripulantes para seis, dentre outros.
Influenciada pelo início da Segunda Guerra
Mundial, foi lançada em 27 de setembro de 1941
a variante B-17E, que foi a primeira construída em
larga escala, com 512 aviões fabricados, já incorpo-
rando a barbatana dorsal e novo desenho do estabi-
lizador, assim como um reforço em seu armamento
defensivo com a adoção da torreta Sperry Ball.
Com a utilização na guerra, as variantes foram
aperfeiçoadas e foi lançada a B-17F, com 3.405
exemplares construídos. Todavia, a variante que
teve o maior número de aparelhos produzidos foi
a G, com 8.680 unidades, configurando-se na mais
aperfeiçoada de todas. B-17G de
Ao todo, foram produzidos 12.731 aparelhos reconhecimento
Boeing B-17 de todas as suas variantes, que foram UTILIZAÇÃO DO BOEING B-17 NA taxia para mais
uma missão de
fabricados pela Boeing, Douglas e Lockheed Vega, SEGUNDA GUERRA MUNDIAL aerofotogrametria.
O B-17G
sendo que, dessas, 4.750 foram perdidas na Segun-
da Guerra Mundial, acarretando a morte de 46.500 Com o início da Seguda Guerra Mundial, a
FAB 5409 é
submetido à tripulantes. No cenário operacional, o B-17 foi clas- Real Força Aérea (RAF) adquiriu 20 aviões B-17C
revisão geral
sificado como um dos bombardeiros quadrimotores (Fortress I) em 1941, que não foram bem suce-
no Parque de didos nos bombardeios à Alemanha, pelas suas
Aeronáutica mais produzidos em toda a história da aviação,
vulnerabilidades frente aos caças alemães durante

Cecomsaer
de São Paulo. mantendo a sua linha de produção de 1936 a 1945.
os ataques diurnos. Esses aparelhos acabaram
sendo utilizados em missões de patrulhamento
costeiro pela RAF.
Posteriormente, a RAF recebeu mais 45 avi-
ões B-17E (Fortress Mk IIA) e mais 85 aparelhos
B-17G (Fortress Mk III), que participaram mais de
tarefas de patrulhamento antissubmarino, guerra
eletrônica e reconhecimento.
Com o envolvimento total dos Estados Unidos
na guerra a partir de 1942, foi decidido que os
norte-americanos bombardeariam a Alemanha
DESENVOLVIDO PARA O COMBATE desde a Inglaterra, com a utilização da 8ª Força
Cinco aviões B-17G
da FAB sobrevoam
Aérea (27 grupos), cujo bombardeiro padrão seria
No início de 1934, a Boeing começou estudos o Boeing B-17E/F/G. Eles também foram utilizados
as praias de Recife
por ocasião de sua para a construção de um bombardeiro de grande no teatro de operações do Mediterrâneo e da
transferência para porte, multimotor, para participar de concorrência Europa com a 15ª Força Aérea (seis grupos).
essa cidade em junho que seria lançada pela Aviação do Exército dos Es-
de 1951.
tados Unidos em 8 de agosto do mesmo ano, com
o objetivo de substituir o obsoleto bombardeiro ATUAÇÃO DO BOEING B-17 NA
bimotor Martin B-10. FORÇA AÉREA BRASILEIRA
Para revolucionar o evento, a Boeing resolveu
concorrer com um aparelho quadrimotor, projeta- Antecedentes
do por Edward Curtiss Wells e E. Gifford Emery. A Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra
nova aeronave foi designada como Modelo 299 Mundial em agosto de 1942, a recém-criada Força
pela Boeing e o projeto teve boa influência do Aérea Brasileira (FAB) não possuía experiência e
avião comercial Boeing Modelo 247. O seu protó- nem tinha unidades aéreas especializadas para
tipo, matriculado X13372, efetuou o seu primeiro a realização de missões de busca e resgate, que,
voo em 28 de julho de 1935, sob o comando do quando necessárias, eram executadas aleatoria-
piloto de provas Les Tower. mente por qualquer unidade aérea ou avião, de
O Modelo 299 foi desenvolvido como um acordo com a sua proximidade do local do sinistro.
projeto privado pela Boeing e, em decorrência de Com vistas a organizar as atividades da avia-
um infeliz acidente com o protótipo ocorrido em ção comercial após o conflito mundial, o Brasil
30 de outubro de 1935 em Wright Field, quando participou da Convenção de Aviação Civil, reali-
era avaliado pela Aviação do Exército Americano, zada em Chicago, Estados Unidos, em novembro
acabou sendo descartado, sagrando-se vencedor da de 1944. No seu encerramento, as 52 nações que

Arquivo Paulo Kasseb


concorrência o bimotor Douglas DB-1 Bolo. participaram do evento firmaram a resolução que
Apesar do imprevisto, houve interesse do Exér- criou a Organização da Aviação Civil Internacional
cito pela aeronave, que conseguiu uma encomenda (Oaci), que teria a responsabilidade de fiscalizar as
de 13 unidades para testes em 12 de janeiro de suas atividades, bem como facultar meios para a
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dades aéreas, doutrina, experiência e aeronaves
para realizar missões de busca e resgate de longo
raio, muito menos sobre o mar.
O primeiro aparelho da FAB destinado a tare-
fas SAR foi um avião Catalina (FAB 6516), do 1º
Grupo de Patrulha, sediado em Belém (PA), que
recebeu pintura com faixas na cor laranja, exigida
pelos padrões internacionais do SAR. Já o Serviço
de Busca e Salvamento Aeronáutico da FAB foi
criado pela Portaria nº 324, de 16 de dezembro
de 1950, quando foram organizados em cada
Zona Aérea (atual Comar) os serviços de busca
e salvamento, com vinculação técnica à então
Diretoria de Rotas Aéreas.

Foto: BASP
O recebimento dos aviões
Apesar da morosidade na criação de uma
estrutura de busca e salvamento na FAB, em
B-17G de busca realização de medidas em seu apoio, como a tarefa 1950 foram iniciadas gestões junto à Força Aérea
e salvamento de busca e resgate (Search And Rescue – SAR). Americana para a cessão de aparelhos especiali-
participa de
exposição na Base
Somente em 1947 é que a Oaci foi efetivada, zados Boeing SB-17G, com o objetivo de ativar
Aérea de São Paulo dando início às suas atividades e emitindo as varia- uma unidade aérea SAR, de longo raio de ação,
em 1954. Observar das regulamentações, em que eram especificadas no Nordeste Brasileiro, bem como realizar tarefas
o bote salva-vidas
as incumbências de cada país para a realização das de aerofotogrametria e operação com aeronaves somente como B-17. B-17G FAB 5408
que era levado sob ção de duas tripulações de instrutores e de pessoal
a sua fuselagem. diversas tarefas e suas áreas de responsabilidade. quadrimotoras. Em junho de 1951, o CTQ foi transferido para preservado no
de terra, sendo, posteriormente, transferido para Aeroclube do Rio
No caso do Brasil, atendendo ao artigo 37 Tais gestões tiveram sucesso e o governo a BARF, onde iniciou as operações especializadas
a Base Aérea de Recife (BARF), sediada na cidade Grande do Norte
da referida Convenção, teria que proporcionar a norte-americano cedeu seis aparelhos Boeing de busca e salvamento e aerofotogrametria. Ainda no final dos anos
de mesmo nome.
proteção das aeronaves voando com dificuldades SB-17G, que estavam em operação na Usaf. Para nessa fase, em 23 de julho de 1952, ocorreu o 1970.
Os cinco primeiros aviões Boeing SB-17G
sobre o seu território, bem como a qualquer ae- operá-los, foi criado, pela Portaria nº 39-G2, de 24 primeiro acidente grave com um avião B-17 da
foram recebidos em abril de 1951, além de um
ronave que cruzasse o Oceano Atlântico, vinda de janeiro de 1951, o Centro de Treinamento de FAB, quando o aparelho matriculado 44-85579,
aparelho de reconhecimento (RB-17). Cabe realçar
da Europa ou da África para a América do Sul e Quadrimotores (CTQ), sediado na Base Aérea do que estava sendo pilotado por um oficial norte-
que, apesar das diferenças das tarefas que reali-
vice-versa. Todavia, a FAB ainda não possuía uni- Galeão (BAGL) (RJ), provisoriamente, até a forma- americano, que ministrava instrução para o lança-
zavam, esses aparelhos foram designados na FAB
mento do bote salva-vidas, colidiu com um avião
Após sua chegada a Recife, em junho de 1951, os cinco primeiros B-17G da FAB taxiam para a sua nova morada.
North American T-6 (FAB 1555) da BARF, que fazia
a cobertura fotográfica do evento, caindo ambas
as aeronaves no mar.
Os aparelhos SAR estavam dotados com um
bote metálico A-1, que pesava cerca de 800 qui-
los e tinha 8,10 metros de comprimento, que era
instalado sob a fuselagem do avião e lançado de
paraquedas de uma altura padrão de 1.200 pés
(366 metros) nas proximidades dos sobreviventes
do acidente.
Já a primeira travessia oceânica realizada
por um avião militar brasileiro ocorreu em 1º de
setembro de 1953, ocasião em que um B-17 do
CTQ fez o trecho Recife-Dacar (Senegal)-Recife,
demonstrando que a FAB já estava pronta para
executar missões de busca nessa extensa área
e habilitada a cumprir os acordos internacionais
assumidos com a Oaci. Nessa época, que ainda
não existia o GPS, a navegação utilizada era a
astronômica.
O CTQ operou em Recife até 15 de outubro
de 1953, quando foi extinto e substituído pelo 1º
Esquadrão do 6º Grupo de Aviação (1º/6º GAV).
Durante esse período, apesar de terem as cores
da FAB no leme, os B-17 mantiveram os seriais
e as marcas da Usaf ainda pintados em suas
fuselagens.
Somente em dezembro de 1953 os aviões
B-17 foram incorporados oficialmente ao acervo
da Força Aérea, quando receberam as matrículas
de FAB 5400 a FAB 5404, pois o aparelho aciden-
tado em 1952 não chegou a ser incluído no acervo
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da FAB. Por outro lado, no final de 1954, foram be do Rio Grande do Norte de 23 de outubro de
recebidos mais sete aviões, que foram matricu- 1972 a 1980, foi desmontado e transportado para
lados de FAB 5405 a FAB 5411, totalizando 12 o Museu Aeroespacial, onde chegou em 29 de
aparelhos Boeing B-17 no inventário da instituição. dezembro de 1980. As estruturas de maior porte,
Consolidando a missão especializada dos como as asas e a fuselagem, foram transportadas
B-17, em 20 de novembro de 1957 foi ativado o pela Marinha do Brasil, no navio de transporte
6º Grupo de Aviação (6º GAV), constituído por dois Soares Dutra, e as demais partes, de menor peso
esquadrões: 1º Esquadrão do 6º Grupo de Aviação e tamanho, de caminhão.
(1º/6º GAV), com a incumbência de realizar as Infelizmente, as partes transportadas de navio
missões SAR, e o 2º Esquadrão do 6º Grupo de sofreram avarias graves durante o embarque, no
Aviação (2º/6º GAV), responsável pela execução trajeto Natal-Rio de Janeiro, e no desembarque.
das missões de reconhecimento fotográfico e Atualmente, esse aparelho está no setor de recu-
meteorológico. peração do Musal, onde está estocado há mais de
Em 29 de março de 1957, o B-17 matriculado 32 anos e ainda não começou a ser recuperado por
FAB 5405 realizou a primeira viagem de longo falta de verbas, o que dificultará, cada vez mais,
curso para apoiar o Batalhão Suez, que estava a a sua manutenção e a sua montagem dentro dos
serviço da Organização das Nações Unidas (ONU), padrões originais requeridos.
na Faixa de Gaza. Tal missão, que era uma exten- Cabe ser realçado que o avião matriculado
são do Correio Aéreo Nacional (CAN), efetuou a FAB 5400 foi doado ao museu da Usaf, sediado
rota Rio de Janeiro-Recife-Dacar (Senegal)-Lisboa- em Wright-Patterson, onde foi entregue, em
Roma-Egito (Abusir ou El Arish). condições de voo, em 5 de outubro de 1968. To-
Essas missões prosseguiram até 14 de maio de davia, como já havia um aparelho semelhante no
acervo daquele museu, o FAB 5400 foi destinado
1960, sendo que nesse período foram realizadas
à sua reserva técnica, que o cedeu à Yesterday
24 viagens, com um total de 2.071 horas voadas e
Air Force (Força Aérea de Ontem), do Kansas
transporte de 50.856 quilos de cargas e de malas
Warbird Museum, que é uma entidade civil que
postais, destinadas aos soldados brasileiros. Os B-17
realiza voos de demonstração com aparelhos da
foram substituídos nessa missão pelos quadrimotores Segunda Guerra Mundial nos Estados Unidos,
Douglas C-54, que foram incorporados em 1960. onde ostenta as cores da Usaaf e a matrícula civil
Por sua vez, os B-17 de reconhecimento norte-americana N47780.
realizaram excelentes trabalhos de levantamento Com a desativação dos B-17 em 1969, o
aerofotogramétrico e geológico em todo o Brasil, 2º/6º GAV foi desativado e as suas instalações e a
com destaque para a região amazônica. Essa re- maioria de seu pessoal formaram o 2º Esquadrão
gião teve as suas cartas atualizadas graças a esses de Transporte Aéreo (2º ETA), que opera até a
levantamentos, que também foram estratégicos atualidade. Já o 6º Grupo de Aviação também foi
para a tomada de decisões governamentais no desativado e o 1º/6º GAV prosseguiu operando
tocante a inúmeros projetos e obras na região, pesqueiros da França que atuavam ilegalmente nas O B-17G FAB e não possibilidade de sua recuperação. com os RC-130E Hercules, realizando as tarefas
como a criação de novas cidades e rodovias. águas brasileiras, no episódio que ficou conhecido 5402 está No início de 1969, os últimos aparelhos em
preservado na de SAR e de aerofotogrametria.
Quanto às missões de busca e resgate, os B-17 como a Guerra da Lagosta, ocorrida em 1963 entrada da Base operação foram desativados, sendo substituídos Assim, nesses mais de 18 anos de operação, os
sempre eram acionados quando uma aeronave entre o Brasil e a França. Os B-17 fotografaram e Aérea de Recife pelos novos aviões Lockheed SC-130E Hercules, confiáveis Boeing B-17 deram uma profícua contri-
civil ou militar estava desaparecida. Com sua acompanharam a rota desse navio, que teve de com as cores incorporados ao 1º/6º GAV em 21 de janeiro do buição à FAB e ao Brasil, notadamente nas missões
das aeronaves
enorme autonomia, sempre chegavam a tempo deixar as águas brasileiras. de busca e
mesmo ano. SAR de longo curso, em aerofotogrametria e na
de salvar vidas, principalmente na extensa região A partir de 1965, o Parque de Aeronáutica salvamento. Para os saudosistas, existe um Boeing B-17 doutrina de operação de aviões quadrimotores.
amazônica. de São Paulo (PASP), que era a organização mili- (FAB 5402) preservado em excelentes condições Eles voaram mais de 63.000 horas, sendo um
A participação dos B-17 da FAB foi fundamen- tar responsável pelas grandes revisões dos B-17, na entrada da Base Aérea de Recife, ostentando as exemplo de proficiência e de operacionalidade,
tal para o registro da vinda do destróier Tartu, da começou a desativar as primeiras aeronaves, em cores do SAR. O outro aparelho (FAB 5408), que foi pois até os dias atuais são admirados e respeitados
Marinha Francesa, que faria a proteção dos barcos decorrência do excessivo desgaste, falta de peças preservado na Base Aérea de Natal e no Aeroclu- pelos seus ex-tripulantes e mecânicos.
DADOS DA FROTA DOS AVIÕES BOEING B-17 DA FAB
B-17G de
reconhecimento Nº de
Ordem Matrícula Ex-Usaaf Observação
efetua decolagem, Construção
observando-se
o seu bomb bay Doado ao Museu Usaf 05/10/1968 N47780 -
01 FAB 5400 33204 44-83663
aberto e as cores Operado pela Yesterday AF
de suas superfícies 02 FAB 5401 8476 44-85567 Desativado 21/08/1967
inferiores, nos 03 FAB 5402 8492 44-85583 Preservado na Base Aérea de Recife
anos 1960. 04 FAB 5403 8511 44-85602 Desativado 13/03/1967
05 FAB 5404 8745 44-85836 Acidentado em Belém, PA 08/08/1959
06 FAB 5405 10224 43-39246A Acidentado em Recife, PE 11/07/1962
07 FAB 5406 10313 43-39335 Desativado 17/05/1966
08 FAB 5407 8291 44-8891A Desativado 29/09/1967
Desativado 07/11/1969. Estocado Musal -
09 FAB 5408 32359 44-83718A
Campo dos Afonsos, RJ
Mário Roberto Vaz Carneiro

10 FAB 5409 32405 44-83764 Desativado 21/11/1966


11 FAB 5410 32019 44-83378A Acidentado em Recife, PE 1965
12 FAB 5411 8403 44-85494A Desativado 20/11/1969
Acidentado Recife, PE 23/07/1952 - Ainda
13 8488 44-85579 não tinha sido recebido oficialmente pela
FAB.
Fontes: Boletins da Diretoria do Material – Arquivos do Autor – 1º/6º GAV
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