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Samuel Sales Fonteles

HERMENÊUTICA
CONSTITUCIONAL

2018
1. Hermenêutica
Não há consenso acerca da origem da expressão “Hermenêutica”, mas,
ao que tudo indica, a razão está com Heidegger, para quem a expressão
deriva de Hermes. Na mitologia grega, Hermes foi considerado (também)
como mensageiro dos “deuses”, desempenhando uma função essencial-
mente interpretativa. Tal como uma professora de libras, que interpreta
essa linguagem e é capaz de traduzi-la para o destinatário, Hermes inter-
pretava a mensagem divina, transmitindo-a para os mortais. Ao decodifi-
cá-la, proporcionava-lhes o conhecimento e a compreensão.
Segundo Ari Marcelo Solon, em sua primorosa obra Hermenêutica Ju-
rídica Radical, Hermes é “tanto aquele transmuta, traduz, conduz a lingua-
gem sagrada para uma compreensão humana de forma palpável, racional,
inteligível, enfim, comunicável entre homens, quanto o deus do Liminar,
da zona limítrofe, sendo um ultrapassador de limites, um mediador entre
sonho e realidade, entre dia e noite, entre o natural e o sobrenatural, entre
o mais celestial e o mais telúrico” (2017, p. 15). O autor, portanto, sublinha
que a palavra hermeios é uma referência ao sacerdote do Oráculo de
Delfos, elucidando ainda que a palavra hermenêutica é proveniente do
verbo hermeneuein, que significa interpretar, decifrar, traduzir, dizer e
expressar (2017, p. 14).
Embora a hermenêutica se ocupe preponderantemente da interpreta-
ção de textos, é um equívoco supor que somente textos podem ser inter-
pretados. Hoje, tem prevalecido que tudo aquilo que pode ser conheci-
do também pode ser objeto de estudo da hermenêutica, não apenas
as leis. Apenas para exemplificar, na Psicanálise, Freud construiu métodos
de interpretação dos sonhos. A rigor, cuida-se de uma hermenêutica oníri-
ca (dos sonhos). Exatamente nesse contexto, Ronald Dworkin, na sua obra
“A Raposa e o Porco-Espinho: Justiça e Valor”, prefere falar em gêneros
de interpretação, aduzindo que “os historiadores interpretam épocas e
acontecimentos, os psicanalistas interpretam sonhos, os sociólogos e an-
tropólogos interpretam sociedades e culturas, os advogados interpretam
documentos, os críticos interpretam poemas, quadros e peças de teatro,
os padres e rabinos interpretam textos sagrados, e os filósofos interpretam
conceitos controversos” (2014, p. 187).
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1.1 Hermenêutica e interpretação


Há sinonímia entre as expressões hermenêutica e interpretação?
Sabe-se que os compêndios de Direito não hesitam em empregar es-
sas palavras como equivalentes. A propósito, ambas derivam da mesma
palavra grega. Não será incomum encontrar a expressão hermenêutica
como sinônima de interpretação, inclusive, em acórdãos dos Tribunais
Superiores.
Miguel Reale considera como irrelevante distinguir hermenêutica e
interpretação, dada a inutilidade prática desta diferenciação. Parte da
doutrina, entretanto, diferencia esses elementos. Celso Ribeiro Bastos,
um dos maiores constitucionalistas brasileiros, que tão precocemente
nos deixou, asseverava que a interpretação é sempre concreta, só sendo
possível realizá-la diante de um caso prático a merecer uma decisão.
Esta decisão, por sua vez, seguirá diretrizes já traçadas abstratamente
pela Hermenêutica. Em monografia a respeito do tema, o saudoso Pro-
fessor da PUC/SP esclarece que “Uma [interpretação] é a aplicação da
outra [hermenêutica]”. “(...) A interpretação tem por objeto as normas,
enquanto que a hermenêutica decifra o modo pelo qual poderá se dar
a interpretação” (2014. p. 25).
Esquematicamente, temos, portanto, o seguinte panorama:

Há sinonímia entre as expressões hermenêutica e interpretação?


1ª corrente: as expressões são sinônimas.
2ª corrente: sinônimas, antônimas ou meramente diferentes, a realidade é que
não há interesse prático nesta diferenciação (Miguel Reale).
3ª corrente: a interpretação opera em um caso concreto, valendo-se das regras
abstratamente construídas na ciência da Hermenêutica. Logo, a interpretação é
a aplicação dos cânones hermenêuticos (Celso Ribeiro Bastos, Limongi França,
Carlos Maximiliano).

Por fim, há autores mais maleáveis, a exemplo de José Adércio Leite


Sampaio, que, embora aponte a possibilidade de distinções filosóficas e
científicas entre a hermenêutica e a interpretação, reconhece que a palavra
mais correta “...fica muito ao gosto esclarecido de cada um” (2013, p. 409).

1.2 Pré-compreensão
Quando dois homens olham ao mesmo tempo para a lua, nenhum
deles vê a mesma lua. Um mesmo texto pode ser compreendido de
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maneira distinta, a depender da biografia de quem o leu. Cada qual carre-


ga consigo suas experiências, vivências, erros, acertos, cicatrizes, orgulhos,
temores, anseios pessoais de justiça, conceitos morais, visões políticas, fi-
losóficas, crenças ou descrenças espirituais. Nas palavras de Hans-Georg
Gadamer, “a lente da subjetividade é um espelho deformante” (1999,
p. 416). Como afirmou Leonardo Boff, “todo ponto de vista é a vista de um
ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus
olhos e qual é a sua visão do mundo” (1998, p. 09).
Na ADIn 4815, o Supremo Tribunal Federal considerou inexigível a
autorização das pessoas biografadas para a publicação de uma biografia.
A ação foi relatada pela Ministra Carmen Lúcia, que assim se expressou
(destacamos):
“A censura cala a pessoa, mas para além de cada um, cala a alma,
a alegria, cala o sonho que se põe em expressão para se tornar
ideia, que se pode converter em ação, que se pode tornar destino.
Do Índex da Igreja Católica ao McCartismo nos Estados Unidos,
de Giordano Bruno ao affaire Charlie Hebdo, dois são os atributos da
censura estatal ou particular: a intolerância à indiferença e à sobran-
ceria de uma em relação à outra pessoa, sobre a qual se pretende
exercer o poder”. (ADIn 4815)
“Cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu. (...) Ten-
tar calar o outro é uma constante, mas, na vida, aprendi que quem
por direito não é senhor do seu dizer, não se pode dizer senhor de
qualquer direito”.
Em uma entrevista concedida ao jornalista Pedro Bial, a Ministra Car-
men Lúcia confessou que, dentre outras razões, porque estudou em um
colégio administrado por freiras da Igreja Católica, vivenciou uma infância
emudecida no que diz respeito à liberdade de expressão. Tolhida na sua
liberdade de exprimir o que achava por bem, a então menina Carmen Lú-
cia represava dentro de si uma vontade de expressar suas ideias. Esse foi
o teor das suas declarações, ao ser entrevistada:
Pedro (Bial), a gente cantava isso quando era menina: cala a boca
já morreu, quem manda na minha boca sou eu”. “Eu fui interna em
um Colégio de Freiras e eu não fui feliz naquele tempo. Aliás, eu não
tenho vocação para ser infeliz. (...) O tanto de sininho pra fazer isso
e pra fazer aquilo”... “Talvez eu tenha vivido tempo demais privada
da liberdade, inclusive, (da liberdade) de dizer, porque eu saí do in-
ternato e praticamente fui direto para uma Faculdade na década de
70. Ter sido estudante de Direito na década de 70, só quem esteve
lá para saber o que era a vontade de arrancar aquilo e de esgoelar
qualquer coisa. (...) E nem cantar podia! Tinha que cantar, às vezes,
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quase que silenciosamente naquelas escadarias das Igrejas de Ouro


Preto. Então, pra mim, quando dizem ‘... você luta pela liberdade de
imprensa, liberdade de expressão’, eu luto por mim! Eu não fui advo-
gada de jornalistas ou de sindicatos por acaso! (...) Eu estou contan-
do uma história de mim mesma. Quem soube a força da mordaça
sabe o gosto do falar. Eu gosto de gente que conversa. (Programa
“Conversa” – Rede Globo)
Na realidade, no julgamento da ADIn das biografias, o voto da Minis-
tra Carmen Lúcia atuou como um espelho psicanalítico da própria biogra-
fia. Em um simples cotejo entre o que foi dito no STF e as suas decla-
rações para o jornalista Pedro Bial, constata-se a poderosa influência das
suas pré-compreensões, gravadas de maneira indelével nos átrios do seu
inconsciente.
Observem o quadro a seguir, que contrasta esses dois hemisférios da
personalidade da Ministra:

Voto da Ministra Carmen


Pré-compreensões reveladas na entrevista
Lúcia na ADIn 4815
“Eu fui interna em um Colégio de Freiras e eu não “Do Índex da Igreja
fui feliz naquele tempo” Católica...”
“Talvez eu tenha vivido tempo demais privada da“A censura cala a pessoa,
liberdade, inclusive, (da liberdade) de dizer...”
mas para além de cada
“Quem soube a força da mordaça sabe o gosto do um, cala a alma, a alegria,
falar.” cala o sonho”.
“Pedro, a gente cantava isso quando era menina: “Cala a boca já morreu,
cala a boca já morreu, quem manda na minha quem manda na minha
boca sou eu” boca sou eu”.

O mais interessante é que, de maneira oblíqua, indireta ou refle-


xa, as pré-compreensões de um Ministro do STF podem até mesmo
exercer influência sobre outros Ministros desta Corte, à semelhança
de um efeito dominó ou efeito cascata, alcançando os demais votos
do Colegiado.
Isso porque, conforme revelado em um percuciente estudo desenvol-
vido por Virgílio Afonso da Silva, “...estatísticas mostram que o relator costu-
ma ser seguido na esmagadora maioria das decisões do STF” (2015. p. 184).
Em uma interessante pesquisa empírica com dados quantitativos, Fabia-
na Luci de Oliveira, por sua vez, descobriu que “em 98% dos casos não
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unânimes [em ADIs], o voto do relator foi o voto da maioria do tribunal”


(2012. p. 148).
A conclusão, portanto, é a de que as pré-compreensões do Ministro
Relator possuem um raio de alcance capaz de influenciar, em alguma
medida, os votos dos seus pares.
Pois bem.
Todas as considerações acima, no sentido de que as pré-compreen-
sões influenciam o intérprete, não significam que os Ministros estejam au-
torizados a projetar suas visões particulares de mundo nos processos que
julgam, sem uma fundamentação lastreada em razões públicas
O mais cristão, judeu ou islâmico dos juízes deve proferir sentenças
laicas, assegurando a “antecipação terapêutica do parto” quando o feto
é anencefálico (ADPF 54) e reconhecendo a união civil entre pessoas do
mesmo sexo (ADIn 4277), afinal, os demais órgãos do Judiciário se vincu-
lam às decisões definitivas de mérito proferidas no controle concentrado
de constitucionalidade. Enquanto vigorar o Código Penal, a mais feminis-
ta das magistradas não deve hesitar em pronunciar (refiro-me à decisão
de pronúncia) uma jovem que realizou um abortamento, se realmente há
elementos para que o caso seja submetido ao Sinédrio Popular. Mesmo
com uma visão abolicionista singular, incumbe a qualquer Tribunal con-
denar um traficante de drogas pela mercancia criminosa, pelo menos, du-
rante a vigência da Lei de Tóxicos. Enquanto não revogado o Estatuto do
Desarmamento, é dever do promotor de justiça, ainda que possuidor da
firme crença de que haveria um direito natural à posse de armas de fogo,
denunciar um idoso que, há anos, possuía uma vetusta espingarda nos
átrios da sua residência. Se os aludidos profissionais entenderem de trilhar
o caminho oposto, isto é, se optarem por denegar a expedição de alva-
rá autorizador da antecipação terapêutica do parto, negar efeitos civis à
união de pessoas do mesmo sexo, impronunciar (ou até mesmo absolver)
a jovem que realizou o aborto, inocentar um narcotraficante ou promover
o arquivamento do inquérito instaurado em face de um idoso que possuía
artefatos bélicos, basta que declinem razões públicas na fundamentação
do julgado ou da manifestação ministerial, isto é, que se eximam de fun-
damentar suas decisões em argumentos metafísicos, ideológicos, filosófi-
cos, religiosos ou políticos.
Devem, pois, aduzir argumentos jurídicos. Em apertada síntese, essa
é a filosofia constitucional ensinada por John Rawls, professor da Uni-
versidade de Harvard (1999, p. 262/298). É nesse sentido que deve ser
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compreendida a advertência de Daniel Sarmento e Cláudio Ferreira de


Souza Neto (2014. p. 50):
“(...) os preconceitos e visões particulares de mundo do intérprete
sempre exercem alguma influência no processo de tomada de de-
cisões. Daí não resulta, contudo, que a imparcialidade não possa
ser sustentada como ideia regulativa e como dever constitucional, a
ser perseguido pelos agentes e instituições, e fiscalizado pela crítica
pública”.
Em suma: talvez seja muito difícil se despir das próprias pré-compre-
ensões, mas nem por isso se afasta o dever de imparcialidade, vale dizer,
de abordar o ordenamento jurídico com a ideologia que ele (o ordena-
mento) abraçou.

1.3 As atividades de conhecer, interpretar e aplicar


Tradicionalmente, vigorava a concepção pela qual o ato interpretativo
era decomposto em três etapas: primeiro, o intérprete tomava conheci-
mento do texto; em seguida, interpretava o texto que conhecera; por fim,
aplicava esse texto já conhecido e interpretado. Consoante esta corrente
clássica, a atividade interpretativa poderia ser cindida em três momentos
distintos, perfeitamente delineados, cronológicos e prejudiciais. Logo, só
era possível aplicar uma norma se já tivesse havido uma compreensão in-
telectual e uma interpretação. Para fins didáticos, chamarei esta corrente
de trifásica.

ATO INTERPRETATIVO
1. Conhecimento 2. Interpretação 3. Aplicação

De maneira mais moderna, todavia, a corrente majoritária tem sido


a de que não é possível fraturar o ato interpretativo, para decompô-lo
em fases distintas, pois o conhecimento, a interpretação e a aplicação
ocorrem de uma só vez. O pensamento dominante, ancorado nos contri-
butos de Hans-Georg Gadamer, sustenta que não se pode conhecer sem
aplicar, bem como não se pode interpretar sem aplicar. Portanto, a aplica-
ção seria a única maneira de conhecer e de interpretar. É como se o ato
interpretativo fosse um bloco monolítico. Em um interessante artigo a res-
peito da hermenêutica jurídica de Gadamer, a peruana Ana Maria D’Ávila
Lopes arremata: “A compreensão, a interpretação e a aplicação, que eram
três momentos diferentes segundo a antiga hermenêutica, sob a teoria de
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Gadamer adquiriram caráter indivisível” (2000, p. 105). Para facilitar, deno-


minarei esta corrente de monofásica.

ATO INTERPRETATIVO
Conhecimento Interpretação Aplicação

Como esclarece Lenio Streck, em seu Dicionário de Hermenêutica, “...


o texto jurídico só pode ser entendido a partir de sua aplicação, isto é,
diante de uma coisa, um fato, um caso concreto” (2017, p. 21). Talvez isso
cause bastante estranheza ao leitor, afinal, não seria possível entender um
texto normativo sem raciocinar em um problema específico da vida? Não
seria possível entender ou interpretar um texto normativo em abstrato, à
semelhança do que ocorreria no controle abstrato de constitucionalidade
(efetuado em tese)? A resposta é curiosa. Para esta corrente, raciocinar abs-
tratamente já é, por si só, uma aplicação! Eros Grau fornece um exemplo
prático muito interessante, ao dizer que “quando um professor discorre, em
sala de aula, sobre a interpretação de um texto normativo, sempre o faz –
ainda que não se dê conta disso – supondo a sua aplicação a um caso, real
ou fictício” (2017, p. 35). Reforçando essa ideia, Lenio Streck pondera que “...
mesmo quando raciocino com exemplos abstratos, estou aplicando” (2017,
p.21). Ainda demonstrando a fusão entre essas etapas, Lenio averba que “...
compreender é sempre interpretar e, por conseguinte, a interpretação é a
forma explícita da compreensão (2017, p. 22)”. Coroando o raciocínio, aduz:
“...nos vemos obrigados a dar um passo mais além da hermenêutica ro-
mântica, considerando como um processo unitário não somente a compre-
ensão e interpretação, mas também a aplicação” (2017, p. 22). Com o devi-
do respeito aos insignes representantes desta corrente, que é majoritária
é deve ser adotada em provas de concursos públicos, o fato é que, na
visão do autor que vos escreve, há uma tautologia nesta concepção. Pior
ainda, é quase impossível provar o acerto ou desacerto desta afirmação,
porque a mente humana é insondável por seres humanos.
Seja como for, esquematicamente, temos, pois, a seguinte situação:

É possível cindir o ato interpretativo em fases distintas?


1ª corrente (trifásica): o ato interpretativo é constituído de três momentos di-
ferentes, o conhecimento, a interpretação e a aplicação (minoritária).
2ª corrente (monofásica): o ato interpretativo é realizado em uma operação
única, que consegue unir o conhecimento, a interpretação e a aplicação, todas
interdependentes e simultâneas (Gadamer, Lenio Streck).
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A esta altura das nossas digressões, é de todo pertinente enfrentar


quais normas podem ser interpretadas. É válido afirmar que todas as nor-
mas são passíveis de interpretação ou esta operação só é efetuada
naquelas cujo enunciado é mais complexo?
Tomemos um exemplo. Segundo reza a Constituição, no artigo 230,
§2º, “Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a gratuidade dos
transportes coletivos urbanos”. Ao que me parece, a norma é de clareza
solar. O dispositivo constitucional carece de interpretação para ser aplica-
do? No passado, a hermenêutica guiava-se pela parêmia de que in claris
cessat interpretatio, isto é, ante a clareza da norma, não se interpreta. É
o que alguns juristas denominaram de “situação de isomorfia”, ou seja,
fenômeno pelo qual não paira qualquer dúvida acerca do significado dos
signos linguísticos (palavras e expressões). Muitos manuais clássicos ainda
repetem esse brocardo, mas este não corresponde ao chamado estado da
arte da hermenêutica. Mais recentemente, os constitucionalistas passaram
a sustentar que toda norma pode ser objeto de interpretação, mesmo
aquelas mais simples, sendo este o posicionamento doutrinário ma-
joritário. José Adércio Leite Sampaio, de maneira lúcida, pontua que “...
a clareza pode ser (e em geral é) armadilha da linguagem.” (2013, p. 410).
Coroando seu raciocínio, o jurista da Escola Mineira acrescenta que “...a
própria identificação do que seja ou não claro ou evidente já é produto
de uma interpretação” (2013, p. 410). Esta compreensão também foi exter-
nada por Eros Grau, quando aduziu que “a clareza de uma lei não é uma
premissa, mas resultado da interpretação, na medida em que apenas se
pode afirmar que a lei é clara após ter sido ela interpretada. Isso é de uma
clareza sem par, embora poucos o percebam” (2017, p. 32).
No exemplo que fornecemos (gratuidade do transporte coletivo para
pessoas idosas), talvez alguém suscitasse dúvidas em casos limítrofes, por
exemplo, levantando uma suposta incerteza acerca do que se entende,
afinal, por “transporte coletivo urbano”.
Para concluir a abordagem do tema do processo interpretativo, é ne-
cessário esclarecer qual o seu propósito. Quando uma norma jurídica é
interpretada, desvendamos o seu significado pré-existente ou agre-
gamos a ela o seu significado? A atividade interpretativa é declarató-
ria ou constitutiva? Produtiva ou reprodutiva de significado?
As duas respostas apresentam inconvenientes. Se dissermos que o
julgador é mero reprodutor da lei, em uma atividade autômata e meca-
nicista, o papel do magistrado estará reduzido à bouche de la loi (boca da
lei). Em razão da desconfiança despertada pelos juízes do Antigo Regime
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nos grupos vitoriosos da Revolução Francesa, prevaleceu a ideia de que


os magistrados apenas diriam aquilo que estava explícito no texto legal.
Interpretar era desvendar filologicamente a norma (Escola da Exegese).
Nota-se que a afirmação de que a interpretação somente descortina um
sentido pré-existente poderia empobrecer o Direito. No entanto, é igual-
mente perigoso abrir um espaço muito largo para a criatividade judicial.
Se disséssemos que a atividade interpretativa é livre para agregar à norma
qualquer sentido que fosse, o Estado Democrático de Direito estaria ame-
açado, senão aniquilado.
A solução, pois, foi o meio-termo. Ou, como diria Aristóteles, virtum in
medium est (a virtude está no meio). E como achar um ponto médio que
concilie um pouco das duas extremadas concepções? O equilíbrio é alcan-
çado entendendo-se que o texto é um ponto de partida, pois fornece
o mínimo para uma interpretação que não estaria, ao fim e ao cabo,
absolutamente limitada por ele. Não se pode descartar o texto, pelo
contrário, mas também não se pode elevá-lo para um patamar abso-
luto. Toda palavra já carrega consigo um significado denotativo (dicioná-
rio) ou conotativo (linguagem coloquial). Não há uma palavra oca, inteira-
mente vazia, como um corpo errante em busca de uma alma a preenchê-
-lo. Dessa forma, o intérprete, em princípio, parte do significado que é
atribuído às palavras do texto interpretado (significado antecipado), mas,
ao longo deste processo interpretativo, atribui sentido à norma. Trata-se
de uma espécie de acréscimo, como se cada qual desse sua contribuição
à obra final (v.g. legislador + juiz). Nesse contexto, Lenio Streck arremata
(2017, p. 21/22):
“É impossível reproduzir sentidos. E é por isso que não se pode mais
falar em Auslegung – extrair sentido – e, sim, em Sinngebung – atri-
buir sentido. (...) A applicatio tem direta relação com a pré-compreen-
são (Vorverstandnis). Há sempre um sentido antecipado. Não há grau
zero de sentido. Assim, pode-se dizer que nem o texto é tudo e nem
o texto é um nada.
(...) aquele que compreende não escolhe arbitrariamente um ponto
de vista, mas encontra seu lugar fixado de antemão. Não há um grau
zero. (...) O intérprete não constrói o texto, a coisa; mas também não
será um mero reprodutor. A applicatio é esse espaço que o intérprete
terá para atribuir o sentido. É o espaço de manifestação do sentido.”
Trilhando esta corrente doutrinária, o Supremo Tribunal Federal, em
decisão monocrática oriunda do Eminente Ministro Luís Roberto Barroso,
estabeleceu que “Embora, naturalmente, o espírito e os fins da norma se-
jam mais importantes que a sua literalidade, é fora de dúvida que o sentido
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mínimo e máximo das palavras figuram como limites à atuação criativa do


intérprete” (STF, MS 32326 MC/DF, Julgamento: 02/09/2013). Neste julgado,
duas coisas devem ser percebidas pelo leitor: primeiro, o próprio STF ad-
mitiu uma “atuação criativa do intérprete”, afastando-se da corrente mino-
ritária pela qual o papel do Juiz é a mesma que a de um lavrador que pros-
pecta o significado pré-existente da norma. Segundo, que essa atuação
criativa encontra limites na literalidade da lei. É nesse sentido que Eros
Roberto Grau assevera ser o Juiz criador da norma, “mas não a partir do
nada, e sim, inicialmente, dos textos”. Para Grau, a interpretação do direito
não é atividade de conhecimento, mas constitutiva; portanto, decisional,
embora não discricionária” (2017, p. 28).
Esse também é o entendimento de Gadamer, para quem a compre-
ensão é sempre produtiva e não meramente reprodutiva do sentido
da norma. Ana Maria D´Ávila, referindo-se à hermenêutica de Gadamer,
pontua que “a real finalidade da hermenêutica jurídica é ‘encontrar o Di-
reito’ (seu sentido) na aplicação ‘produtiva’ da norma, pois a compreen-
são não é um simples ato reprodutivo do sentido original do texto, senão,
também, produtivo” (2000, p. 109).
O tema desperta uma imensa controvérsia, até os dias atuais. A des-
peito disso, o fato é que a corrente majoritária tem sido a que concebe
a atividade interpretativa como um processo de atribuição de sentido
àquilo que se interpreta (Streck, Gadamer, Eros Grau etc.), sendo esta
a posição mais segura em provas de concursos públicos.
Bom, se hoje prevalece amplamente que o intérprete empresta um
sentido à norma interpretada, já vimos que nem sempre foi assim. José
Adércio Leite Sampaio relembra que “a interpretação jurídica, durante mui-
to tempo, foi enxergada como um processo metodológico de descoberta
do sentido do texto normativo. As palavras encapsulavam a verdade tex-
tual, a ser revelada por um intérprete racional, um terceiro imparcial, um
sujeito-cientista-intérprete” (2013, p. 410). Embora esta compreensão tenha
sido “superada” pelos estudos mais recentes, foi durante esta época que
Savigny elaborou os famosos elementos de interpretação, todos vocacio-
nados a desvelar o sentido subjacente. Pela importância que ainda se dá a
esses métodos, seja em provas de concursos, manuais ou até em julgados
recentes do Supremo Tribunal Federal, opta-se por abordá-los a seguir.

2. Velhos elementos de interpretação (Savigny e Ihering)


Como bem observou Eros Grau, na concepção tradicional da her-
menêutica, “à moda de Savigny”, “a interpretação nada mais é que a