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CANAÃ DOS CARAJÁS, A TERRA DA PROMESSA:

Desenvolvimento capitalista e movimento social na Amazônia

1
Joyce Cardoso Olímpio Ikeda

RESUMO:

Discutir o desenvolvimento e as políticas públicas do estado do Pará


exige conhecer o histórico da exploração capitalista na região.
Atualmente, o Projeto Ferro Carajás S11D da Vale S/A, em Canaã
dos Carajás, tem provocado novos conflitos, intensificando o
confronto entre as classes sociais, dando novos contornos ao
movimento social. Neste sentido, o estudo aqui proposto busca, a luz
do materialismo histórico e dialético (MARX; ENGELS, 2010),
evidenciar as contradições entre o desenvolvimento capitalista e as
necessidades sociais. Apresentamos uma breve reflexão sobre a
necessidade da construção de um novo projeto de desenvolvimento,
isto é, a necessidade da construção de uma nova sociedade.

PALAVRAS-CHAVES: Capital. Estado. Luta de Classes.

ABSTRACT:

Discussing the development and public policies of the state of Pará


requires the knowledge about the capitalist exploitation’s history in the
region. Currently, the S11D Iron Project, undertaken by Vale S/A, in
Canaã dos Carajás, has provoked new conflicts and intensifying the
confrontation between social classes, reshaping the social movement.
Therefore, this study seeks to highlight the contradictions between
capitalist development and social needs, in the light of historical and
dialectical materialism (Marx and Engels, 2010). We present a brief
reflection on the need to build a new development project, i. e., the
need to build a new society.

KEYWORDS: Capital. State. Class struggle.

1
Discente do curso de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas/UFMA.
I. INTRODUÇÃO

O novo projeto de ferro da Companhia Vale, o S11D, situado no


município de Canaã dos Carajás, é considerado o maior projeto de
extração de minério de ferro a céu aberto do mundo (PARÁ, 2014, p.
86)

Em Canaã dos Carajás, a mais nova ‘terra da promessa’ de exploração mineral


da Companhia Vale S/A, longe de manar leite e mel, tem se intensificado os conflitos
sociais2, acrescentando novos episódios de violência, expropriação e exploração ao
histórico da Amazônia. Para aqueles que não negam a ação impiedosa e devoradora do
capital, analisar o processo do desenvolvimento capitalista na Região Carajás demanda
uma opção metodológica comprometida com a transformação social. Corroboramos com a
afirmação de Mao Tse-Tung, de que “cada forma de pensamento está marcada com o selo
de uma classe” (2009, p. 13). Nesta perspectiva, “a questão mais importante” não é a de
compreender um fenômeno e poder traduzi-lo no discurso científico, antes disso, a prática
teórica deve contribuir com a transformação do mundo (Idem, p. 24).
Falar dos desafios e das dimensões do desenvolvimento no contexto do
capitalismo requer uma análise que observe a contradição histórica entre o capital e o
trabalho (MARX; ENGELS, 2010). Requer ainda atentar para as necessidades criadas, as
necessidades supridas e as necessidades marginalizadas por uma lógica de produção, cuja
base fundante é a obtenção do lucro. Neste sentido, o estudo proposto e sistematizado por
Heller (1978) fornece os elementos de fundamentação para a nossa análise. Outro aspecto
essencial, é o da reafirmação do caráter de classe do Estado capitalista e a importância da
compreensão das limitações deste Estado no que diz respeito a construção de uma
sociedade realmente democrática.
Por movimento social, entendemos o movimento político-econômico das classes
sociais para garantir a concretização dos seus interesses objetivos específicos. Movimento
social, tal como é apresentado por Marx e Engels (2010). A organização e o movimento
consciente cujo objetivo é a obtenção ou/e a manutenção do poder político. No entanto, a
organização do movimento de resistência e de confronto à lógica capitalista não se reduz a
conquista do poder político. Este movimento está para além disso, está comprometido com
uma necessidade histórica, que é a construção da revolução socialista. Uma revolução que

2
A expressão conflitos sociais, aqui, sintetiza um processo de confrontos entre os modos tradicionais
de vida e o modelo imposto pela lógica de mercado na Amazônia. Confrontos que vão dos casos de
submissão, ao de resistência e assassinatos. Estes conflitos são analisados por Hébette (2004); Hall
(1991) dentre tantos outros.
objetiva a concretização da liberdade. Liberdade, essa, que promove não apenas o
conhecimento, mas o domínio sobre as necessidades.

Hegel foi o primeiro a expor corretamente a relação entre liberdade e


necessidade. “Cega a necessidade só é enquanto não é
conceituada.” A liberdade não reside na tão sonhada independência
em relação às leis da natureza, mas no conhecimento dessas leis e
na possibilidade proporcionada por ele de fazer com que elas atuem,
conforme um plano, em função de determinados fins. Isso vale com
referência tanto às leis da natureza externa como àquelas que
regulam a existência corporal e espiritual do próprio ser humano –
duas classes de leis que podemos separar uma da outra, quando
muito, em termos de concepção, mas não da realidade. Em
consequência, liberdade da vontade nada mais é que a capacidade
de decidir com conhecimento de causa (ENGELS, 2015, p. 145-146)
[Grifos do autor].

Assim, a organização política da classe oprimida pela ordem capitalista, é um


movimento social que busca na liberdade, a capacidade de decidir. Esta liberdade é a base
da construção de um novo modelo de sociabilidade, onde não exista opressão social, nem a
submissão de uma classe a outra.
Diferentemente, o desenvolvimento que se impõe à Região Carajás é fruto de
um movimento baseado em uma “única liberdade sem escrúpulos”, a do mercado (MARX;
ENGELS, 2010, p.42). Movimento protagonizado pela necessidade de desenvolvimento do
capital. Um ‘desenvolvimento’ que se constrói sob a centralização dos meios de produção e
a concentração da propriedade, no qual a necessidade primordial é a obtenção do lucro. Tal
movimento é contrário a noção de liberdade descrita por Engels (2015), mais contrária ainda
ao controle social da satisfação das necessidades. Em síntese, o movimento social ao qual
nos referimos diz respeito ao que a teoria marxiana propõe como motor da história, em uma
só palavra, o movimento social aqui entendido é a luta de classes.

II. O ESTADO CAPITALISTA E A EXPANSÃO DO CAPITAL


Discorrer sobre o Estado capitalista é discorrer sobre o movimento de
organização da classe proprietária dos meios de produção. “O Estado atual é, antes de tudo,
uma organização da classe capitalista dominante” (LUXEMBURGO, 2010, p. 52). E no que
diz respeito a expansão do capital na Região Carajás, o Estado tem cumprido o seu papel.
Hébette (2004) diz que durante a implantação do Programa Grande Carajás, surgido em
1980, a proposta das políticas públicas era a de promover o desenvolvimento regional
integrado. No entanto, por meio de suas instituições o Estado garantiu o controle sobre os
recursos naturais de interesse do capital, interesse, que segundo o autor, sempre foi
seletivo, concentrando-se em matérias-primas. O principal objetivo das políticas
implementadas era transformar os recursos (terra, água, floresta, minério etc.) em
mercadorias que pudessem ser inseridas no mercado mundial.
Na atualidade, o Projeto Ferro Carajás S11D é tido como uma continuação do
Programa Grande Carajás. Entre as dimensões estratégicas do Plano Plurianual 2016-2019
do estado do Pará - PPA, intitulado Governo Regionalizado, Desenvolvimento Integrado, o
Projeto S11D é apresentado como uma das principais dimensões da economia do estado.
Cabe destacar que, apesar de se tratar de um conjunto de políticas regionalizadas, o PPA
não está desconexo das diretrizes impostas pela expansão do grande capital. Almeida
(1997) observa que devido a transnacionalização do capitalismo, a compreensão das
decisões políticas implica estar atento aos impactos da dinâmica político-econômica global
na dinâmica nacional e regional. Neste sentido, Mao Tse-tung (2009, p. 34), ao discorrer
sobre o método, diz que:

Contrariamente à concepção metafísica do mundo, a concepção


materialista-dialética entende que, no estudo do desenvolvimento de
um fenômeno, deve-se partir do seu conteúdo interno, das suas
relações com outros fenômenos, quer dizer, deve-se considerar o
desenvolvimento dos fenômenos como sendo o seu movimento
próprio, necessário, interno, encontrando-se aliás cada fenômeno no
seu movimento, em ligação e interação com os fenômenos que o
rodeiam.

Deste modo, compreender a orientação e as diretrizes das políticas públicas


implantadas no Pará, e, mais especificamente, na Região Carajás requer compreender as
questões relacionadas as relações desenhadas pela Divisão Internacional do Trabalho.
Boito Jr. (1999) evidencia a força que as políticas das nações imperialistas exercem sobre a
organização político-econômica dos países da América Latina e suas implicações para
classe assalariada. E, longe de representar a morte dos Estados nacionais, a
transnacionalização do capital reforça e coloca novas funções aos Estados, é o que observa
Wood (2007). No que diz respeito ao Estado no âmbito regional e local, as ações do Estado
permanecem corroborando com os interesses do capital internacional.
Outra perspectiva do desenvolvimento econômico apresentada pelo PPA 2016-
2019 são as obras do Plano de Aceleração do Crescimento – PAC. No entanto, Castro
(2012) adverte que o PAC se orienta por um modelo de crescimento econômico que retoma
a experiência do planejamento das políticas de desenvolvimento destinadas à Amazônia na
década de 1970. Um modelo baseado na exploração de recursos naturais e de
intensificação dos conflitos sócio territoriais. Os megaprojetos de hidrelétricas, transporte e
comunicação, os quais são a base de investimentos do PAC I e II, são projetos estratégicos
que visam atender o mercado global. Em relação ao que este modelo de desenvolvimento
representa para a população amazônica, Castro (2012, p. 46) diz que:

Populações locais, com suas práticas sociais e saberes relativos ao


território, têm produzido leituras desse processo, a partir de
movimentos sociais e étnicos que revelam novos processos de
dominação incorporados ao modo de implantação dos projetos de
infraestrutura e às práticas de agentes que violam direitos sociais e
étnicos, como resultado da desterritorialização que atinge grupos de
população tradicional, na extensão pan-amazônica.

Historicamente, o planejamento do desenvolvimento econômico no contexto


brasileiro, diz respeito ao modelo de desenvolvimento capitalista, caracterizado por um estilo
de vida que apenas é experienciado por uma minoria, localizada nos países centrais, as
grandes potências econômicas. Entretanto, o tipo de desenvolvimento desfrutado nestes
países legitima a destruição das formas culturais tradicionais, do meio ambiente e das
relações sociais nos países periféricos, submetendo toda uma população a enormes
sacrifícios, em nome de um progresso que nunca será possível. Neste sentido, o caráter
predatório do modo de produção capitalista comprova que um desenvolvimento econômico
universal, no capitalismo, é um projeto irrealizável (FURTADO, 1974).
Os movimentos de enfrentamento à expansão capitalista na Região Carajás têm
construído, com derramamento de muito sague3, formas de luta e de resistência. E a cada

3
Basta mencionar as inúmeras chacinas ocorridas na Região. Um exemplo, é a morte de dezenas de
trabalhadores garimpeiros sobre a ponte onde a Estrada de Ferro Carajás cruza o rio Tocantins, em
29 de dezembro de 1987. Os trabalhadores garimpeiros desarmados com suas famílias faziam
reivindicações ao Estado e enfrentamento a Companhia Vale do Rio Doce, na época ainda estatal,
episódio de confronto entre o capital e o trabalho, o Estado reforça seu caráter de poder
organizado de classe. Luxemburgo (2010, p. 55) discorre:

No conflito entre o desenvolvimento capitalista e os interesses da


classe dominante, coloca-se o Estado do lado desta. Sua política,
assim como a da burguesia, entre em conflito com o
desenvolvimento social. Assim, perde cada vez mais o caráter de
representante da sociedade em conjunto, para transforma-se, na
mesma medida, cada vez mais um Estado de classe. Ou, precisando
melhor, essas duas qualidades se distinguem uma da outra e se
intensificam, formando uma contradição na própria natureza do
Estado.

Diante destas questões, falar do movimento social no processo de


desenvolvimento do capitalismo implica analisar o papel e as funções desempenhadas pelo
Estado e as possibilidades de transformação social, que via de regra, são construídas fora
do espaço das instituições estatais. Isto implica reconhecer que “são as instituições
democráticas, nesta sociedade, pela forma e pelo conteúdo, simples instrumentos dos
interesses da classe dominante” (LUXEMBURGO, 2010, p. 56).

III. O DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA E AS NECESSIDADES SOCIAIS

Canaã dos Carajás tem sido apresentada como um dos polos de


desenvolvimento do estado do Pará. É a Terra da Promessa. No entanto, como revelou
Marx e Engels (2010), as necessidades que o capital busca suprir são as necessidades de
expansão de mercados e da obtenção do mais valor. Isto porque as necessidades no
capitalismo surgem na produção. O modo de produção burguês gera não apenas a
necessidades de objetos, mas também a necessidade de determinadas relações sociais (de
opressão, expropriação, exploração, humilhação etc.). Entretanto, e, do mesmo modo, o
processo de produção do capital faz surgir uma classe, para a qual a superação dessas
relações é uma necessidade. Isto, é o que mostra o estudo de Heller (1978) sobre a Teoria
das Necessidades em Marx.

pelo direito de permanecerem em Serra Pelada e por melhores condições de trabalho, foram
metralhados pela Polícia Militar Paraense. Sobre este caso, ver Hall (1990); Peter (2001).
Para a produção capitalista o homem é uma mercadoria, e ela o produz em
determinadas condições de existência. Dentro de uma lógica em que as “carências do
trabalhador são assim, para ela” uma necessidade da reprodução de um determinado
modelo de desenvolvimento (MARX, 2010, p. 92). No entanto, ao impor condições extremas
a grande maioria da população, o sistema burguês de produção cria a necessidade de
transformação desta realidade. É a necessidade que Heller (1978) denomina de
necessidades radicais. Em outras palavras, a produção do capital fabrica os homens com o
potencial e o papel histórico de destruí-lo, de construir um modelo de sociabilidade onde as
liberdades existentes não sejam as que se manifestam no comércio.
Em oposição ao modo de produção burguês e ao seu sistema de necessidades,
a crítica socialista radical propõe a sociedade dos produtores associados. Na qual a
alternativa de desenvolvimento “baseia-se no justo princípio de que a terra é um recurso
natural fundamental, propriedade de todos os povos e, particularmente, dos camponeses
que nela vivem” (AMIN, 2010, p. 53). Somente esta sociedade possui a capacidade de
promover a liberdade de conhecimento e do controle sobre as necessidades sociais. É o
que pode ser observado nas proposições de Amin (2010, p. 61):

A alternativa popular exige o controle desses recursos [os naturais]


pelos povos, a criação de novos critérios e equilíbrio em sua utilidade
econômica com base no respeito em logo prazo às exigências
sociais de justiça, abertura de negociações internacionais em
conformidade com a proclamação – e o respeito real – desses
princípios.

A alternativa de desenvolvimento socialista, nesta concepção, determina que as


regras e decisões de mercado sejam estabelecidas a partir das necessidades estabelecidas
por uma ampla negociação, “a serviço dos objetivos sociais e democráticos do povo” (AMIN,
2010, p. 69). O objetivo do controle popular sobre os recursos naturais, na compreensão de
Amin, é alterar a lógica de desenvolvimento, na qual os recursos dos países do Sul são
utilizados em benefício das potências imperialistas, em detrimento daqueles. Dentro destes
termos, com o controle popular do uso dos recursos do Sul, “o Norte, por sua vez, será
obrigado a “adaptar-se” a um melhor uso dos recursos do planeta” (Idem, 60-61) [Grifo do
autor].
Dentro desta mesma orientação, Heller (1978) expõe que a realização do
comunismo é o alcance de satisfação das necessidades radicais. Estas necessidades
podem ser entendidas como a liberação da vida sob as determinações do mercado, como a
liberação do reino da produção. De tal modo que, a “satisfação destas necessidades
transcende a própria estrutura das necessidades” (Idem, p. 179), porque ao se instituir, a
sociedade dos produtores associados constrói seu próprio sistema de necessidades.
As necessidades radicais são as necessidades socialmente produzidas, diz
Heller (1978). Portanto, são necessidades sociais. E estas necessidades são as sementes
de uma nova formação social. Os indivíduos, nos quais estas necessidades emergem, ainda
sob o manto dos valores capitalistas, são os responsáveis pelo dever histórico de
construção do comunismo (Idem, p. 90). Dentro da perspectiva de desenvolvimento
capitalista, o trabalhador não produz para satisfazer suas próprias necessidades, ele “não
produz para si, mas para o capital” (MARX, 2013, p. 578). E é nas relações de expropriação
e exploração que se constituem as contradições deste modo de produção.
A superação das contradições do modo burguês de produção encontra-se na
construção do sistema de necessidades da sociedade dos produtores associados. Neste
sistema, o reino da produção continuará sendo o reino da necessidade, todavia, a lei do
valor não será a do mercado, mas sim, o da liberdade (HELLER, 1978, p. 102-103). A
proposta comunista apresenta a liberdade não como possibilidade de independência em
relação as necessidades e suas naturezas. A liberdade encontra-se no conhecimento das
leis e das possibilidades de construção de projetos de desenvolvimento que tenham como
meta o bem-estar social. De modo que, a liberdade se funda “no domínio sobre nós mesmos
e sobre a natureza exterior baseado no conhecimento das necessidades naturais”
(ENGELS, 2015, p. 146).
No que diz respeito ao Projeto Ferro Carajás S11D, sua implantação é marcada
pela opressão da população de seu entorno. É o caso de desestruturação da Vila
Mozartinópolis, surgida em Canaã dos Carajás em 1978. Atualmente conhecida como Vila
Racha Placa4. Ocorre que para viabilizá-lo a Companhia Vale S/A se apropriou não somente
das propriedades que cercavam a área do S11D, como também, expulsou toda uma
população que ali residia. A cada propriedade “adquirida”5, a Companhia as demolia. Assim,
a comunidade viu ruir os supermercados, farmácias e até mesmo as igrejas de seu vilarejo.
A caça e a pesca foram proibidas no entorno da Vila, que logo passou a ser conhecida por
Vila Racha Placa, devido a ação dos moradores que rachavam as placas da Vale, como
forma de protesto e resistência. A história da Vila Racha Placa é um dos inúmeros casos de
expropriação em nome dos interesses e necessidades do capital.

4
Este caso é descrito e analisado por Reis (2014)
5
Usa-se o termo adquirida entre aspas, pois a maioria dos processos de compra se deram sob as
condições da Companhia, que incluía o sigilo sobre o valor pago e proibia a organização dos
moradores para a negociação com a empresa.
A relação entre o desenvolvimento capitalista e as necessidades sociais pode
ser observada em Malheiro (2010), quando este trata dos conflitos entre as siderúrgicas e os
camponeses. A primeira questão é a disputa pela ocupação e uso da terra. Enquanto os
projetos ligados a exploração mineral, com o apoio do Estado, buscam viabilizar a
apropriação das minas, ampliar o cultivo do eucalipto, destinar uma maior porção das terras
para atender as demandas da atividade siderúrgica; os movimentos de resistência
questionam a lógica de produção imposta à região. Eles reforçam a necessidade de
construção de novas alternativas. Apontam para novas direções políticas que atendam as
necessidades da grande maioria da população, a qual as atividades de mineração e de
siderurgia têm desapropriado, explorado e marginalizado.
Acreditamos que a construção da revolução socialista conduzirá à uma total
reestruturação do sistema de necessidades. E esta construção é um dever histórico (MARX;
ENGELS, 2010). Neste novo sistema de necessidades manifestar-se-á a verdadeira
liberdade, que é o controle sobre nós mesmos. Nela, a fonte de riqueza não se reduzirá a
posse. A fonte de riquezas não se baseará somente no trabalho, mas sim da utilização do
tempo livre. Essencialmente porque, “a verdadeira riqueza do homem e da sociedade não
se constitui no tempo de trabalho, mas no tempo livre” (HELLER, 1978, p. 126). A realização
do “comunismo não priva ninguém do poder de se apropriar de sua parte dos produtos
sociais; apenas suprime o poder de subjugar o trabalho de outros por meio dessa
apropriação (MARX; ENGELS, 2010, p. 54).
No desenvolvimento capitalista, portanto, existem contradições entre as
necessidades de reprodução do capital e as necessidades sociais. O caso do Projeto Ferro
Carajás S11D, em Canaã dos Carajás, somente é um exemplo a mais desta
incompatibilidade. Do mesmo modo, os problemas provocados pela expansão capitalistas
na região não são problemas que possam ser resolvidos pelas instituições ‘democráticas’
disponíveis. Diante disso, temos o dever histórico de construir mecanismos de luta para a
realização de uma sociedade mais justa e igualitária. Sendo, também, importante a
evidenciação de que os conflitos que se manifestam em Carajás não são particulares desta
região, mas se encontram em toda parte, onde quer a lógica capitalista tenha conseguido
alcançar.

IV. CONCLUSÃO
A questão do desenvolvimento inclui uma série de outras questões de caráter
social, político, econômico, etc., igualmente complexas. A própria noção de desenvolvimento
deve ser problematizada para se construir uma análise crítica sobre as particularidades
deste fenômeno numa determinada formação social. Do mesmo modo, o debate sobre as
diretrizes que orientam as políticas públicas demanda um conjunto de reflexões que seja
capaz de articular o caráter do Estado e da política institucional no capitalismo, bem como,
compreender o contexto histórico destas políticas, ou seja, conhecer a especificidade da
conjuntura na qual estas políticas são formuladas.
Entendendo que a forma como produzimos nosso meio de existência também
produz um certo modelo de sociabilidade, compreendemos que a real democratização de
uma sociedade está no controle popular dos meios de produção. Assim, a verdadeira
participação política manifesta-se na capacidade de decisão sobre o que, como e para quem
produzir. “Os movimentos populares em curso já deram prova de inventividade na
organização dessas lutas pela colocação em ação de reais práticas democráticas
avançadas” (AMIN, 2010, p.59). Como exemplo disso, os movimentos locais, cada vez mais,
se integram aos movimentos regionais e internacionais – Articulação Internacional dos
Atingidos pela Vale; Justiça nos Trilhos; Observatório de Conflitos da Mineração na América
Latina6 dentre outros. O nosso desafio é ampliar estes recursos, além de nos inserirmos na
luta em direção à construção de novas alternativas de desenvolvimento.
O caráter de classe do Estado capitalista, a todo momento, deve ser
evidenciado, para que não acreditemos que suas instituições possam ser capazes de
promover oportunidades reais de transformação social, em direção a superação das
contradições capitalistas. A verdadeira democracia alcançaremos quando ultrapassarmos os
limites impostos pela ordem política burguesa. Luxemburgo (2010, p. 58) adverte que “as
relações políticas e jurídicas estabelecem entre a sociedade capitalista e a sociedade
socialista um muro cada vez mais alto”. E este muro somente poderá ser destruído pelo
“martelo da revolução”.
A opressão aos povos da Amazônia e as condições extremas de vida fazem
surgir as necessidades radicais. A organização dos movimentos de resistência, em defesa
não só dos direitos sociais, mas que denuncia os impactos da mineração ao meio ambiente,
apontam para a necessidade de construção de um novo projeto de desenvolvimento. Nosso
papel principalmente enquanto pesquisadores comprometidos com transformação social é
somar forças a estes movimentos, visto que, o conhecimento de um fenômeno implica
“participar pessoalmente na luta prática que visa modificar a realidade” (MAO, 2009, p. 18).

6
Aqui seguem os Sítios virtuais, destas organizações: https://atingidospelavale.wordpress.com/;
http://justicanostrilhos.org/ e https://www.ocmal.org/ocmal/.
Acreditamos que a construção da revolução socialista é mais que um ideal, ela é uma
necessidade social e histórica.
Concluímos afirmando que na terra da promessa, na ‘Canaã’ dos Carajás, as
mazelas sociais, oriundas da exploração capitalista, têm aflorado em suas dimensões mais
perversas. No mar e no deserto enfrentado por sua população não há um cajado com
propriedades divinas para abrir o caminho de passagem, a travessia tem sido construída por
aqueles que resistem e lutam e, ao contrário da história bíblica, esta luta não é para chegar
à esta terra, e sim, para permanecer nela.

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