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r

-

CONC E I~S

IND-ICE

DE ADOLESCENCIA.

DIFERENTES

PERSPECTIVAS DE ABORDAGEM.

ALGUMAS

REPRESENTAÇOES

PESSOAIS.

O ADOLESCENTE.

1

-

A adolescência

• .- ••••

•••.••.••••.•••••.•••.••••••

Isolina BORGES

7

-

O Adolescente

e

a Família••••••.•••••••••.••••• J.C.

1.

Histdria

;

7

de Adolescência•••••••••••• ; •••••••••••••••••.•••.•• 8

11 - O que é um Adolescente •••••••••••••••••••••.••••••• RBné DIATKINE

2. Conceito

II - ASPECTOS ~~T URACIuNAIS DO DESENVOLVI1~TO NA ADOLESCENCIA. DIN~ llGAS EMQ

CLONAIS,

COGNITIVAS

E PSICOSSOCIAIS fiA!

DECOtltlENTES.

25

e 31 - Os jovens e a sexualidade ••.••• • •••••••••.••.••••••• Miguel NUNES

auto-estima na Adolescência••••• José Pedroso FLeRES

Sexualidade

-

I

-

A

31

II

-

A Afectividade.~ .•••••••.••••••••••••••••.•••.•• ••••

•••.•.•••.••

III - A Sexualidade

•••.•.•.•.••••••

•••••••

••••

40

43

59 -

Identidade e valores

1. A identidade

como

da juventude protuguesa ••••••••••• Jorge ~

constjução social

•••.•••••••••••••••••••• 61

2.

Questões Metodoldgicas ••.•••.••

•••

•.•••

••.•.•

•••

65

3.

Identidade, Diferenciação e Distintividade .•••••••

•.•••••

66

4. Semelhanças e diferenças entre sexos

•.••••••••.•.•••••••••• 68

III - DINAMICA E ESTRUTURA DO PENSAMENTO NO ADOLESCENTE. O METO DO CLINICO

DE

PIAGET E AS

DESENVOLVIMENTO E APRENDIZAGEM.

PERSPECTIVAS PSICOGENETICA E EPISTEVLOGICA DO CO~ IEClMENTO

77-

Modelo com Incidência na Adolescencia •••••••••••••• Isolina BORGES

81-

A Adolescência

•••.•••.•

•••.•

~•.••••••• ~••

~•.• Jean ·PIAGET

A. O pnesamento e as suas operações •••••••••••• •• . •••••••••••• 82

87- Os aspectos

intelectuais da Cri se

Juvenil ••• Berthe ftaymond RIVIER

 

97-

A

procura da inte~ração da Teoria

de

"

-

,- -

 

Jean

Pia~et na acção pedagdgica

••••.•••••• Deolinda M.

F.

BOTELHO

1.

A posição epistemoldgica da perspectiva piagetiana •••••••••• 99

2.

A natureza do método de investigação •••••••••••••••••••••• 101

3.

O modelo explicativo da

formação

do

conhecimento

••••• ••••• 103

 

109-

O

pensamento

do Adolescente ••.••••.•••••••• Deolinda

IV

A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE NO ADOLESCENTE.

OS

MECANISMOS

M. F. &YfELHO DE EQUILIBRIO

00

"EU".

PROCESSOS · DE AU'fONO MIA FACE AO ADULTO.

ALGUNS

A>DDELOS

DE

DESEN_

VOLVI MENTO PESSOAL.

OS COMPORTAMENTOS DESVIAN 'fES • .

 

117

-

Adolescenciá ••• . •••••.•.•••••• • ••••.•••••••••••••• Isolina BORGES

 

A. Perspectiva Psicanalitica •• ••• ••••.•.•. ~.••.•.•.•• ; .•••••• 117

B. Erik Erikson: criticas

C. O Estádio da Puberdade

e continu adores •••••••••••••.•••••• 118

e Adolescencia em Henri Wallon ••••• 124

D. A perspectiva de Arnold Gesell e o estádio · ••••••••••••• 125

 

,

127

-

A separação Adolescente-Pro.geni to res •••••••• ~••••• Manuela FLEMING

-

Introdução

e

Perspectivas

de

Investi~ação •••

•• 127

 

~ A separação

adolescente-progenitores

••••••••••• .••••••.• .•. •••.••••••• 132

 

-

-

Considerações Finais

•.••••

••••.•.••••••

:

••••••••

155

3) 171

-

Teorias da Personalidade •

, •••.••.•.•.• ; .••.•••••• David FONTANA

 

-

Teorias Humanisticas

•.••.•.••.• ; ••••.•.••• . •.•.•.•

•.••••••

171

 

"

191

-

Os

estádios

de

Desenvolvimento de Erikson . •••.•••••• David FUN_TNU

V

-

A DESCOBERTA E CONSTRUÇÃO DE VALORES.

A FAMILIA,

A SOCIEDADE E AS

INSTI_

TUIÇOES NESSE

PROCESSO .

ALGU~~S PERSPECTIVAS

DE DESENVOLVIMENTO.

219

-

Ori f!: ens

da MoraL •• . ••.•.••• . •. •.

•.•••.•••• Antdnio

M• . BA.T

ao

 

1.

As

reg ras

do

jogo

 

~

. •. ~.220

2.

O realismo moral: as desonestidades e mentiras · ••••• ; •••••• 222

3.

O desenvolvimento da noção de justiça ••••••••••••••••••••• 225

223

241

-

-

O Desenvolvimento

Valores:

do

Juizo Moral

e

na Adolescências •••• Michel CLAES Influencia sobre

"I

Seu Desenvolvimento

o comportamento Adolescente •••••••••••• . •.•.•.••••• out; MCKINNEY

.•••••••• 242

A pasição psicanalitica •.•• .•.•• •.•.•••••••••• •.•••••••••• 242

A explicação da teoria da aprendizagem ; ••• ~ .~ •••••••••.••••

Uma interpretação perceptual •• ••••• ~••••••••••••••••••••••• 244

243

- Teorias do Desenvolvimento de Valores

•.•••••••••.•.

.1.

.1.

- Moralidade e Julgamento Moral ••••••••• ~;~.:~.~~ •• ;.~ ••• ~~~.247

••.•••• ~: •• ;.~ ••• ~.~.247

O estudo de Piaget do Julgamento moral

A elaboráção por Kohlberg

da teoria

de

Secundáriá

Piaget •• ~~~~~.:~.~.248

• . ~.~.~ .• ;~ •• 250

- Desenvolvimento de Valores e Escola

A pesição sd~io-educacional de Friedenb~rg ~ •••• ~•• :;~~ .~;~;252

A escolá. secundária coino

sociedade

adolescente

•• ;~~ .•• ~•.•• 255

aealização académica na eséóla ' secundária .~ ••• ~.~~ •• ; .•. ~ •• 259

o desistente

•••••.•••

- Valores

Durante

o período

final

::.:. ~•.•• 261

• da Adolescência ' ~:.; •• :: •••• 263

••

•.•.•

-

Valores

Politicos é Socializáção Politi~a ••••••••.• :: . ~ . ~ •• 265

-

:rte sumo

••••

-

.

• '"

'"

:

'"

'"

;

'"

'" '"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

"'. '" 267

269 - Adolescencia - A Vontade

de

Viver •••• ••••• ~.;~.;Márlene ·R

aIGUES

- Adolescencia:

Tempo ' de

Contrádições

••

~; •••••• ;~.~. :

273

- Os Confl i tos

•••

:.

.

 

•.••

••

.

~ •••• ~ •• ; ••• 277

: ••.•.• . •.••.• . •

- Emot"ividade

A

.••. ;. ~

O

- Amo r

'"

'"

'" '"

'" '" ~'"

'"

'"

'"

'" '"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

'"

'" '"

'" ~'" '"

'"

'" '" '" '" ~'" '" '" '" ~ ~~'" '" ~'" ~'" ~280

- Medo

e Agressividade:

a

Violência

••. :;.; ••• ;; ; .: ••• ~ .; •.••• 281

- As fteacçõés: ' Éxplosão ou Silêncio

•• : •••• : •.•••.••••. : .••• :.282

VI

-

-

O Me do

'"

'" •

, ~••

:

~ A Ale,~ria • '•• ~

- A Maturidade

~~~~~ ~'" ~~ ~'" '" '" ~'" '" '" '" '" ~'" ~'" ~ ~'" '" '" ~ '" ~ ~~~ '" '" '" '" '" '" • ~ '" ~~28:3 ~••••• 284

286

~~ • ; • ; ~ ~ ~••••••••.• ~

FACTORES CONTEXTUAIS DA ESCOLA FACE AO DESENVULVIMENTO. O "E'rHUS" DA ES- COLA. O SUCESSO PESSOAL E AS QUESTOES SOBRE O DESINTERESSE, IN~ISCIPLINA INEFICACIA~ AS EXPECTATIVAS E PROCESSO DE APRENDIZAGEM.

289

-

Auto-Estima,

Auto':Con~eito Ãcadémico " Alienação e

 
 

sucesso

escolar

••• ~

 

-

J.O •. FORWSINHO/C.

ALVES.:.PINTO

1.

O Estudo

da Auto-Imagem Da Psicologia

••••••••••••••••. ~••• 289

2.

Problemas ' ConceptuaiS e "metodoldgicos no estudo dà · auto

· ,t

 

-

e s t i ma

 

~ ••••• "•••••••••••••••••••••••• ' •• ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ; 291

Os

estudos de auto-estima no contexto educacionál ••• ~.; ••• 293

 

4.

Apresentação

e investigàção

4

I

-

Ob j

e

c

ti vo s

:

• ;

de

. •

campo

;

em curso

• .

• ;

:

••• ~••.•.•••• 295

~29 5

• •

• •

 

.

.

.

.

.

.

.

 

4.

2

Amo s ~ Instrumentos

-

t

ra

••

me.ida

'"

.•

 

.

.

••

:

~ 295 ; ••. 296

;

4 . 4 - Hipót e ses ••. ~•.• ~.•.• ~•• ~: •• ~~•.•• ~•• ~'•••• ~~~•• ~~296

 

5.

Análise

des

 

••• ~.~ ••.••• . ::.~~; •• ;; • . ••••.

; ••. :.~;.;297

6.

Direcç ão Futura dá. Investigação

 

.~ •.•.•••.•.•

•••••••

7.

-Alienação

 

Escolar,

Auto-Estima e

auto-conceito

acádémico ••. 305

309

-

o Desinteresse

escolar no

Ensino

 

Secundário •••••••• W.

P.

ROBINSON

327

- Auto-Estima,

 

Desinteresse e Insucesso escolar

 
 

em alunos

-

-

da

de

escola secundária~ ••••••• C. A.

refer~ncia normátiva e

insucesso

Exames

O Ciclo do Desinteresse

TAYLER/W.

escolar

a
a

· •• . • . •••• 32

-

Auto~Estima e Insucesso

escolar:

Teoria

 

••.•••••• ~.~

-

Auto-Estima

 

e

Insucesso

escolar:

dados

emP lricos

••.•• 332 .~ ••••••••• 337

343

-

As

competencias

inter -pessoais do professor •••••• Santos BREDERUDE ~

337 343 - As competencias inter -pessoais do professor •••••• Santos BREDERUDE ~
: • lJ . ,. i

:

• lJ .

: • lJ . ,. i

,.

i

1. INTRODUÇAO

INSTITUTO

S.

1. INTRODUÇAO INSTITUTO S. R PO LlT~C NI CO DE LISB OA ESCOLA S UP E

R

PO LlT~C NI CO DE LISB OA

ESCOLA

S UP E RIOR

DE

EDU C A Ç Ã O

FORMAÇAO EM EXERCICIO

PS I CO LOGI A DO DESENVOLVIMENT O

A

Ps

i cologia do Desen vo lviment o

int egra-se no co ntexto formativo das

Ciênc ia s da

Ed ucação.

Procura

, num tem po

de sete ses s ões , constituir um espaço

de re fl exão

que perm i ta uma abo rdagem ao cont r i buto que tr az a Psicologia ao co-

nhecime nto da dinâmica e estrut ur a do compo rta mento do ado lescente e ao equacion~

mento de questões decorrentes de s sa cara cteriz instituc ional .

ação no espa ço

familiar., social e

A perspectiva de dese nvolvimento est ará su bjace nt e

a todos os módulos

que

i nt e gram o programa, encara ndo-se o período da ado l es cência como um caminho

que

se i niciou na infância e se prolonga

na adul~z . Dos co nt eúdos programáticos

se inf er e que as sessões t e

rão como foco

temáti co a

d i nâmi ca e volutiva dos pr@ce~

s os

de const r ução i nere ntes aos di f erentes aspe ctos do comportamento do adolesce~

te ,

su

b lin hanjo-se a intenção de as interpretar

e c ompreen der a partir de um qua-

.1

dr o ge r al de f undament ação te órica que possibili te ma i s do que classificar , com- preender .

A di mensão pedagógica constituirá uma

.

,

pre ocu pa çã o permanente, visando

o prog rama proporC i ona r ref l e xões condu centes à ut i l i za ção funcional do conheci-

mento que a Ps i co l ogia do Desenvolviment o põe à d ispos ição .

2. OBJECTI VOS:

- Proporcionar uma fundamentação teóri ca pa ra o conhecimento do compor- tamento do adolesce nte;

/

s.

s. R. INSTITU-ro POLlTI!CNICO DE LISBOA ESCOLA SUPERIOR DE EDUCAÇÃO ~. - Operacionalizar o contributo da

R.

INSTITU-ro POLlTI!CNICO DE LISBOA

ESCOLA

SUPERIOR

DE

EDUCAÇÃO

~.

- Operacionalizar o contributo da PSicologia do Desenvolvimento em or- dem ao acto pedagógico;

- Estimular · a reflexão

sobre fenómenos decorrentes de situações inte-

ractivas ao nível da relação professor/aluno;

,

- Icentivar uma análise interdisciplinar face às questões educacionais.

3.

PRINCIPIOS METODOLOGICOS:

- Proporcionar meios de aprofundamento teórico e de questionamento te~ rico/prático;

- Promover a troca de saberes face à compreensão dos fenómenos educa-

cionais, numa perspectiva de complementaridade e va;

análise interacti-

Apoiar a atitude de observação, pesquisa e reflexão face à leitura do comportamento do adolescente.

4. AVALIAÇAO:

O processo

de ava l iação integrar-se-á no

percurso de aprendizagem con-

ducente à rea l ização dos objectivos indicados para o programa e nos parâmetros definidos no actual modelo de Formação em Exercício.

5.

PROGRAMA:

1. Conceitos de adolescência.

Diferentes perspectivas de abordagem. AI

gumas representações pessoais.

O adolescente.

/

~

s.

R

INSTITUTO POLITÉCN ICO DE LISBOA

ESCOLA

SUPERIOR

DE

EDUCAÇAO

2. Aspectos maturaciona is do desenvolvimento na adolescência. Dinâmi- f cas emocionais, cognitivas e psicossociais dai decorrentes.

3. Dinâmica e estrutura do pensamento no adolescente. O método clini- K co de Piaget e as perspectivas psicogenética e epistemológica do conhecimento. Desenvo lvimento e aprendizagem.

4. A construção de identidade no

adolescente. Os mecanismos de eQui-

librio do eu. Processos de autonomia face ao adulto. Alguns modelos

de desenvolvimento pessoal. Os comportamentos desviantes.

5. A descoberta

e construção de valores. A familia,

a sociedade e as

instituições nesse processo. Algumas perspectivas de desenvolvimen-

to moral.

6. Factores contextuais da escola. O sucesso

da escola

pessoal e as Questões sobre desinteresse,

face ao desenvolvimento. O "ethos"

in-

disciplina,

gem.

ineficácia . As expec tat ivas e o processo de aprendiza-

7. Avaliação.

\

--

s.

s. R. IN STITUTO POLlT~CNICO DE LISBOA ESCOLA SUPER IOR DE EDUCA ÇAO Concepçõe s da

R.

IN STITUTO POLlT~CNICO DE LISBOA

ESCOLA

SUPER IOR

DE

EDUCA ÇAO

Concepçõe s da ADOLESCENCIA

liA adolescência é sómente uma etapa de vida, a qual, por mais impressionantes e caracte- rísticos que sejam os seus traços peculia- res, encontra suas condições preparatórias nas fases precedentes e prolonga muitos

desses traços até o fim

da existê ncia"

II A adolesc ência caracteriza-se: a) pe-

la descobert a do

eu; b) pela função paul!

tina de

um pl ano

de vida; c) pela integr!

ção nas

diversas

esferas da ex ist ência"

II A adolescência define-se a) pela des- coberta de valores; b) pela separação en- tre valores subjectivos do eu e os valo-

res

do mundo objectivo "

II A adolescência caracteriza-se: a)

pela alteração do esq uema fisico e gação de reajus tamento entre o ser

parecer;

tério da vi da e da morte com preocupação

crescente pelo futuro; e) pela indepen- dência do ambiente familiar e pela libe~ tação de tutelas; f) pela fixação do pa- pel a representar (trabalhos a executar, meios de vid a, ambições a satisfazer) na vida socia l".

obri-

e

o

d)

pela busca ansiosa do mi~

s.•

R.

INSTITUTO POLlTt:CNICO DE LISBOA

ESCOLA

SUPERIOR

DE

EDUCAÇÃO

II Os problemas da adolescência gravitam

em torno

heterossexuais; •

d) maturidade intelectual; e) maturidade

social; f)

ca;

a) aparecimento dos interesses

c) maturidade emocional;

inicio de independência economl

h) filosofia de vida ll

g)

uso do lazer;

II Por detrás das imagens da juventude, há a juventude eterna, identica a ela mesma no decorrer dos séculos, nas suas tendências, nas suas leis de desenvolvimento, na sua forma de representar o mundo das coisas e dos seres ll

II Esquecer ou renegar a adolescência seria

uma derrota. Lastimá-la seria uma fraqueza. Adorá-la seria um erro. O que é preciso é

que tudo

ve em nós como uma força atraente, um exem pIo vivo, um programa de acção a realizar"

o que ela tem de melhor se conser

A ADOLESCÊNCIA

(*)

Isolina BORGES

1 .

Considerações genéricas

A adolescência (precedida pela pré-adolescência) corresponde aum período tradicionalmente considerado ambíguo, na medida em que se situa em tempos diferentes nos dois sexos e em -tempos diferentes consoante o contexto ~ocio-geográfico, embora com um denominador comum do tipo somático-fisiológico, que é a maturação biológica. As diferentes perspectivas da Psicologia do Desenvolvimento

enfatizam, de um modo geral, mas particularmente nesta fase,

um

mental

finalmente atingido na fase final, se assim podemos dizer,

da infância, sofre pelo menos aparentemente ,

função de profundas alterações orgânicas com efeito importantes ao nível de aspectos do corpo e, senão das potencialidades intelectuais , da rentabilidade necessária ao prosseguimento da escolaridade . Assim, as competências cogni tivas organizam-se definitivamente e parecem atingir, enquanto estruturas básicas, o seu acabamento. Do ponto de vista da socialização, após um período de retraimento, também a busca dos amigos se torna mais necessária e firme, a par da redefinição de parâmetros dos valores. Por sua vez, o relacionamento familiar surge, de acordo com os psicanalistas (iiQna Freup, t!.elen Deutsch, ~ter Bl~, ]rik Erikson, Adelson) como campo privilegiado de manifestações significativas de rupturas sucessivas, rupturas necessárias para um reencontro na passagem ao estado adulto, a refazer - se em novos termós.

uma ruptura em

certo

tipo

De

de

desarmonia nos

facto,

o

diferentes

vectores.

físico

e

equilíbrio

I

(*)

-

Isolina

BORGES,

1987,

DESENVOLV~MENTO, ED.

137/141

INTRODUÇÃO

Jornal

de

À

PSICOLOGIA

DO

pag.s

Psicologia,

1-1

 

Conceitos

de

Adolescência

 

As

expressões

puberdade,

período

inicial

da

adolescência,

pré-adolescência

e

adolescência,

são

assim

usadas

para

referenciar

um

período

que

não

pode

ser

"delimi tado

com

exactidão ,

e

para

o

qual

utilizaremos

em

sentido amplo o termo adolescência, pondo em relevo as características puberais "do seu início, e de acordo com os diferentes modelos considerando dados mais significativos

numa primeira fase (pré-adolescência) que vão eclodir ' .em diferentes níveis de acabamento numa segunda fase, ou adolescência propriamente dita.

à

adolescência como período de desenvolvimento analisa os pressupostos teóricos existentes e apresenta novos dados de pesquisas recentes, através das quais a adolescência se afasta do conceito tradicional como período de crise no

sentido de dificuldades a superar exigindo particular esforço e desgaste.

Michel

Claés

(1985),

ao

referir-se

atenção para as

diferentes transformações na adolescência que aparecem, ao

zonas de

desenvolvimento, tarefas específicas. Essas tarefas são universais, parecem ser urgentes e dizem respeito em

mesmo tempo que impõem, nas diferentes

Este

especialista

chama

a

primeiro

lugar

ao

desenvolvimento

puberal

em

que

se

verificam

modificações

sexuais

fundamentais

implicando

a

reconstrução da imagem corporal e respectiva identidade sexual; em segundo lugar, às mudanças a nível cogni ti vo (segundo Piaget aumentam as competências cognitivas do suj ei to pela passagem e utilização em pleno do pensamento formal; ainda que as características deste possam ser discutíveis quanto à sua universalidade , não há dúvidas de que há um aumento da capacidade de abstracção); em terceiro lugar, as mudanças relativas ao relacionamento com as figuras parentais e a impor tância crescente adquirida pelos companheiros, enquanto agentes de socialização com as

características implícitas de relacionamento ao nível da cooperação e competi ção; em quarto lugar, à construção da identidade, que insere o sujei to definitivamente no plano psicossocial, decorrendo através de fases que se definem

1-2

Conceitos

de

Adolescência

pelo assumir da infância (perspectivando-se nas capacidqdes

de continuidade no futuro), pela delimitação face às figuras parentais ao mesmo tempo que se afirma o Eu, e pelas escolhas profissionais, sexuais e ideológicas que reforçam aquela afirmação. As dificuldades destes quatro ângulos são ultrapassadas de um modo geral pelo facto de que os jovens

resolução das diferentes

em crescimento não enfrentam a

tarefas desenvolvimentais simultaneamente . Michel Claes, baseando-se no trabalho de Simmons e Rosenberg (1975) sobre

a representação do esquema corporal, de Coleman (1978) sobre

a ansiedade desencadeada pelas relações heterosexuais, de

BIos sobre o conflito familiar, propõe um esquema de desenvolvimento da adolescência na linha da "teoria focal" de Coleman (1978). Não há propriamente estádios distintos

com-Predominância

das

modificações

morfológicas,

cognitivas,

sociais

e

de

identidade.

mas

JJm

a v olumar

de

preocJlpaçÕes

que

aparecem

em

etapas

diferentes

e

constituem

focos

de

!;:p~r

:e:.:o::.c:::.:::u~p:

:a:.:ç~a::-:::o: -~e;;.m~~i,.:;,d~a~d;!;e~s_~

d~i""s: i

:t

,

n"'-lot

a s

É

em

funçã~s tas

propostas

momento, afirmar uma estabilidade relativa num contexto de

neste

que

as

pesquisas

longitudinais

permitem,

"crise"

igualmente

relativo.

Não

obstante

a

nomeadamente

ruptura

com

edipiana,

à

de

pertinência

dos

as

trabalhos

figuras

com

de

da

perspectiva

Freud

posta

psicanalítica,

(1969),

em

em

da

pesquisas

nível

relevo

que

de ~na

e

a

organização

relativas

parentais

as

é

reedição

todas

implicações

reactivos,

a

aprtir

a

as

da

grupos

do

pares

crise

adolescente

década de sessenta na América ,

com

Qouvan

e

AdelsQO

(1966),

e

na

Europa

com

(1966),

põem

em

relevo

dois

grupos

I 7"\ minor i tários

em

que

se verificam as características assim

\ . I referidas; os jo v ens com perturbações do foro psiquiátrico e

jovens particularmente sensíveis de grupos socio-cul turais particularmente favorecidos .

vez, as mesmas p e squisas orientam- se no

sentido do de que o grupo de pares f unciona mais como local

sempre

Por

de

sua

e ocasião

aprendizagem,

do

que

como

suporte

(nem

adequado

para

os

adultos)

de

emancipação

face

aos

pais .

1

-

3

J

Conceitos

de

Adolescência

Nesta pesquisa, o que se verifica é que o adolescente (Claes reporta-se ao adolescente das décadas de 60 e 70) evita com cuidado o conflito externo e interno, organizando-se a

consolidação da sua identidade; o Eu interroga-se mas não há nem comprometimento ideológ i c o, nem busca de riscos a correr. Parece , pelo contrário, haver uma busca de relativa conformidade e segurança. Entretanto, as dificuldades relativas às metodologias utilizadas em qualquer período de desenvolvimento assim como a ausência de trabalhos anteriores com preocupações metodológicas de valor indiscutível, permite a manutenção do antagonismo entre a

observação comportamental

sido

além de uma metapsicologia e uma forma de

psíquica,

adolescência, a observação comportamental põe em dúvida a

noção

implica a vivência de luto

a adolescência

metodológicas)

íntervenção

(que

implica

preocupações

que

se

às

tem

refere

à

figuras

e

a

perspectiva

os

de

psicanalítica

vida.

No

' que

uma

filosofia

para

de

crise ;

psicanalistas,

relativamente

parentais com o dramatismo implícito IA. Freud (1969), Dias Corde ir o (1979), E. de Figueiredo (1985)1. Este mesmo

antagonismo faz-se nos restantes períodos de desenvolvimento (vide cap. II) e depende da resolução de antagoni smos epistemológicos, que põem face a face o empirismo e o estruturalismo, questões que na ps i cologia actual, sofrendo formulações gradativas, se colocam em termos de valorização ou não de variáveis mediadoras como transparece na abordagem cognitivista.

da personalidade que tende

para o estado adulto, confrontamo-nos assim com um período -

a adolescência - que para alguns já não se traduz em etapas de desenvolvimento (por exemplo, ~llon e Piaget) ~, como referimos no capítulo I, num ponto de cheeada em ql!e se

desej a que o sujeito seja um participante activo no processo da história social e no processo histór ico da sua própri.a

exsitência. Todavia , poderemos considerar com os

CiClO vital que é no processo social histórico e ao nível de l

Construídas

as

bases

teóricos do

{ uma maturidade adulta, que tal p ro cesso se cump:r;,e. É ne sta S incompletude de diferentes perspectivas que reside, de facto

1-4

Conceitos

de Adolescência

a dificuldade da intenção integrati va presente nesta área da psicologia desenvolvimento mas que pressupomos constituir, por sua vez, uma fase inicial do processo hist6rico das ci@ncias psico16gicas, ou mais correctamente das ciências humanas.

actual em psicologia, a adolescência

tem sido sobr e tudo

"No mo mento salvaguardando a teoria

abordada pela psicologia cogni tiva a nível do desenvolvimento intelectual e acesso ao pensamento formal, moral, ideo16gico, político, sendo dada particular importância à representação de si e da identidade" (Claes, e 1985, pp. 27-28).

de Erik ~rikson,

---------

1-5

l

o ADOLESCENTE E A FAMÍLIA

INTRODUÇÃO

(*)

J.C.

Cordeiro DIAS

1 .

História

Só no príncipio do século passado a adolescência começa a ser descrita como um movimento particular da

evolução do homem. Com efeito, anteriormente, as numerosas

obras filosóficas e es tavam impregnadas proveniente de uma

literárias consagradas a esta idade

de

um

carácter

pedagógico

e

moral,

linha de escritores célebres, como

~elais, Montaign~, Rousseau

altura em que a

psiquiatria se consagra ao estudo da "alienação mental" e à

A partir

do

final

do

século XIX,

sua classificação nosológica, a adol escência começa a

ser

encarada como uma idade em que se manifestam mui tas

das

doenças mentais.

No

entanto,

a

excessiva

preocupação,

em

considerar toda

e

qualquer

pertubação

psíquica

numa

perspectiva constitucional , não permitiu , nessa época,

integrar

as

observações

clínicas

dos

adolescentes

contexto

sociocultural.

Por

outro

lado,

num a criação de

entidades nosológicas rígidas, apenas com base na~bservação de sintomas clínicos,levava a isolar como entidades mórbidas diferen t es comRortamentos do ind i víduo e a formular diagnós t icos e prognósticos graves. Esta atitude não facilitou a compreensão do processo da adolescênci a e provocou uma extrema confusão quanto aos limites entr e o normal e o patológico. Esta delimitação é ainda actualmente objecto de inúmeras controvérsias.

(*)

-

Cordeiro,

Lisboa,

J.

Moraes

DIAS

-

(1979)

-

pag.21-23

1-7

O ADOLESCENTE

E

A FAMÍL IA,

"

,

Conceitos

de

Adolescência

Os progressos da biologia e da psicologia da

puberdade deram origem a afirmações frequentemente contraditórias no que respeita à relação existente entre a

puberdade. processo biofísico,

biopsico-social. Os trabalhos de Henger demonstram-nos a

importância do meio sociocul tural, bem como a do passado psicológico. Progressivamente, outras disciplinas cien- tíficas, como a psico-sociologia, a antropologia, a etno- grafia, interessaram-se pelos problemas dos jovens em geral e dos adolescentes em particular. Os estudos psicanalíticos de S. Ireud, nomeadamente os "Três ensaios sobre a

a

compreensão da adolescência. Desde então, os autores têm a preocupação de estudar a vivência actual do jovem numa perspectiva simultaneamente diacrónica, em que domina a necessidade de conhecer a especificidade psicopatológica desta idade, à qual correspondem técnicas apropriadas de tratamento.

sexualidade", consti tuíram um importante contributo para

e a adolescência, processo

2.

O conceito

de

adolescência

A

adolescência caracteriza-se pelas extrema

dificuldade em precisar, não só os seus contornos como o seu

conteúdo. Se se considera, como adolescente como "aquele que já não ainda um adulto", esta definição perfei tamente o carácter impreciso

entre os quais se situa este período. Admite-se, geralmente, que a puberdade, enquanto mudança biológica, coincide com o princípio da adolesçençia, isto é, 10-12 anos para as raparigas e 12-14 anos para os

rapazes, nas zonas temperadas ocidentais. Observa-se, no entanto, uma certa variabilidade no início da adolescência no interior de um grupo homogéneo de adolescentes (meio, idade, nível sociocultural). Com efeito, as mudanças fisiológicas produzem-se em ritmo diferente, consoante os

numerosos autores, o é uma criança mas não é pela negativa reflecte e fluido dos limites

1-8

Conceitos

de

Adolescência

num grupo de jovens com a mesma

idade coexistem situações fisiológicas e psicológicas diferentes, que o adolescente não estã em condições de compreender como sendo normais, transformando-se, assim numa

indivíduos; deste modo,

fonte de inquietação e

de

comportamentos

"como

se"

e

de

imitação, para

se

conservar em conformidade

com o

grupo .

Se

a

puberdade

constitui

a

principal

referência

do inicio da adolesc~ncia, os

seus

limites

finais

são muito

controversos.

no

maioridade

dos

termo

Enquanto

alguns

sí tuam

fisiológico

civil

e

e

da

da

penal.

puberdade ,

outro

Por

estudos

formação

o

fim

da adolesc~ncia

outros

lado,

o

referem-se

prolongamento

alongam

à

profissional

consideravelmente

a

fase

de

dependencia

económica

dos

jovens,

em

relação

aos

pais.

Esta

situação

é

fonte

1

-9

Conceitos

de

Adolescência

a alegria e a tristeza, o optimismo e o abatimento. As

as var iações de humor , muitas

vezes incompreensíveis aos olhos dos adul tos, surgem para muitos autores, particularmente e m A. ~d e E. $es~mbe~, como necessários e não constituem senão índices ex ternos de uma série de adaptações internas e m progressão. Uma das contribuições mais importantes para a comprensão da adolescência foi o considerá-la como uma "crise" que permite solucionar conflitos da infância. Trata-se de uma crise normativa ou, por ou tras palavras, de uma fase normal de conflitos agudizados, cara c terizada por uma aparente f lutuação do Eu e por um grande potencial de crescimento: "O que poderia apa recer como o ínicio de uma neurose não é, muitas vezes , senão o começ o de uma crise d e "autoliguidaçã0" que , de facto, contribui para o processo de fo r mação da identidade". (E. Erikso!}, 1956) "Os processos regressjvos da adolescência permi tem, assim reformular os desenvolvimentos anteriores,

distorcidos ou incompleto

acompanha a reorganização af'ecti v a do adolescente con tém.! deste modo. um potencial benéfico". (P. BIos, 1967)

oscilações do comportamento,

s

;

a

proVInda

p erturbacão

gu~

--

I

-

10

º QUE ~ UM ADOLESCENTE

 

René

DIATKlNE

 

Gostaria,

antes

de

mais

de

reflectir sobre

o

que

é

a

adolescência

e

se

es ta

existirá de facto.

"Adolescência"

é

um

termo

utilizado

pelos

"velhos"

enfim,

pelos

que

se

consideram

como

não

sendo

adolescente s ".

Nunca

ouvi

um

adolescente

dizer:

"Sou

um

adolescente".

 

Um

adolescente

diz

"Sou

um

ser

humano ,

e

sou

um

ser

hu mano

que

tem

"dor

de

viver"

(ou

que

não

tem

"dor

de

viv er",

segundo

os

casos),

mas

sou

um

ser

humano".

E

mui tas

ve"zes

é

a condescendência

dos

mais

velhos ,

que

dizem

a

es te

ser

jovem

e

que

se

empenha

na

vida

duma

maneira

assaz

impres sio nante :

"Bem,

tu

não

passas

de

um

adolescente ,

is so passa -t e"

Quando

reflicto

sobre

a

adoles cência,

penso

que

ela

é

admiravelmente

figur ada,

numa

peça . actual

de

Jean

Vitrac,

chamada

"Victor

ou

as

Crianças

no

Poder".

Uma

criança .que se torna adoles cente não tem como resposta dos

isso

passa-te"

isto,

de

juvent u de que, naturalmen te, passarão. Infelizmente, a

adolescência passa, em muitos de nós

ser adolescentes tornamo-no s velho s. Há efectivamente uma

maneira de lutar contra a velhice, é discorrer sobre a

adolescência. De facto, a adolescên cia é uma descoberta de adultos. Isto começa pelos pais. Ser pai é qualquer coisa de terrível, porque, tem-se crianças pequenas, · conseguimos mais ou mehos bem fazer-nos educar por estas crianças; quer dizer que conseguimos, mais ou menos, estabelecer em certo momento, um certo co n t a ct o, u m certo diálogo com as crianças. E depois, por volta dos 7-8 anos, isto torna-se

não difí cil, mas restrito~ Existe toda uma

os

problemas postos p or

seus

I

pais

é

senão :

e

morre

uma

"Vai

no

beber um copo fim

peça.

~a

de

de

água

qua

à

a

cozinha,

problemas

adolescência él

que

Penso

maneira

os um ado lesc ente

adultos

pretenderem

sejam

E quando deixamos de

cada vez mais

I

-

11

Conceitos

de

Adolescência

série de fases da vida das nossas crianças que nos escapa. E depois de repente - e era ontem que este sujeito era um bébé

apercebemo-nos

que

é

um

ser

humano,

e

que herdou a

totalidade da nossa

angústia.

É

isso

que

nós suportamos

bastante mal. Então tentamos desenvencilhar-nos, tentamos

dizer: "não te inquietes, nós fomos ass im". E o adolescente responde - nos: "Bem, isso não me interessa nada que vocês tenham sido assim, porque o que vocês são hoje, não é nada

divertido

diãlogo entre pais e adolescentes se torna um diãlogo

impossível. De tal maneira imposs ív el que, efectivamente, é o momento em que todas as angústias se põem, e põem-se duma maneira tal que não temos, em muitos casos, resposta a dar a estes adolescentes. A adolescência é também o problema dos professores. Os professores franceses têm qualquer coisa de particular, que coloca problemas: é que são todos antigos bons alunos - foi assim que foram escolhidos. E, porque são

". É a partir deste momento que, efectivamente o

antigos bons alunos, guardaram

uma

certa

recordação

deliciosa da sua adolescência. Mas

talvez

que

muitos de

entre eles tenham, como ambição,

encontrar

na geração

seguinte, nos seus alunos, adolescentes como eles, como eles

eram, como eles permaneceram. E é aí que têm dificuldade,

porque efectivamente, em cada aula, existem alguns que são como eles. Mas são urna pequena minoria e então o diãlogo torna-se muito difícil com os outros . O que faz com que, efectivamente, aos professores s e coloque o problema da adolescência.

Nunca

vimos

um

adolescente

pôr

problemas

de

adolescência. Aos

adolescentes

colocam-se

problemas

de

homens. E se os põem, é duma maneira suportãvel para nós que

lutamos para sobreviver. O psicanalista de crianças e adultos, o psiquiatra de crianças e adultos que sou, tem a transmitir um testemunho sobre a adolescência. Por duas razões : uma é

muito mã, a outra é, creio, melhor . A mã razão é que muitas

das

- pai s, educadores, vêm pedir

conselho sobre adolescentes que el es não "dirigem". E, como

- pessoas crescidas

I

-

12

Conceitos

de

Adolescência

somos

(devo dizer que não chegamos nunca lá). É a má razão . Há uma

é enquanto psicanalistas, estudamos bastantes

indivíduos

adolescência

isso permi te-nos , apesar de tudo, ter al gumas

ideias

adolescência.

da

adolescência, tinha a tentação de abordar um temp. que não ousei: seria "A adolescência não existe" . Mas isso seria mal

a

adolescência?" porque de facto, a adolescência é totalmente incompreensível, se a isolamos, se a transformamos num grupo etário a estudar especialmente, porque a adolescência - no meu ponto de vista de psicanalista - é fundamentalmente um

compreendido,

da

estudamos

melhor razão,

Doutores,

é

preciso

a

os

número

me

que

digamos

coisas

inteligentes

adolescentes,

de

fundamentais

o

que

te ma

é

desde

também

certo

Quando

infância,

adultos,

de

tornam-se

em

mal

problemas

para

e

dum

convidaram

Então

abordar

"O

creio.

pergunto

dos momentos de verdade do ser human o. A morte é um momento

de verdade

da

pessoa,

mas em geral os seres humanos já não

são capazes

de

encarar a morte

com verdade

e,

portanto , esta

esbate-se.

Quando

digo

que

é

um

do s

momentos

de

verdade

é

pelas seguintes razões : Na verdade, a criança constr ói-se

numa relação de dependência estrei ta com as pessoas que a

educam -

os

seus

pais

na

maior

pgrte

dos

casos.

E podemos

dizer que

toda

a

infância

se

podia

estudar

em

função

do

seguinte

parâmetro:

como

f az

uma crian ç a para que essa

de

viver? Nós cuidamos bastante de cr i anças que não c onseguem

exemplo,

dependência não

seja atrofiadora para

ela,

e

não

a

impeça

chegar,

e que ficam totalmente agarradas à sua mãe , por

duma maneira tal que desde que a mãe se afaste duma

maneira ou

de

outra,

f i cam

num

estado

de

angústia ,

de

inibição,

ou

de

impossibilidade

de

ter uma acti v i dade

autónoma muito importante. A maior parte das crianças nisso

mui to

anos têm fases, quando vão bem, em q ue se tornam cap aze s , de

estarem sozinhas diante d a ' mãe, o que é efec t ivam e n te um

muito, muito import ante do desenvolvimento da vida

quer subst it uir

dizer não estar is o lado

dos

psíquica duma criança.

se

to r nam

começando

aliás

cedo:

criança s

de

2

ou

3

momento

Estar só

outros,

mas

ser capaz .de

o

outro;

quer

diz e r ,

I

-

13

Conceitos

de

Ado les cênci a

de

s er

ele

mesmo,

a

sua

própria mãe

e

o

seu

próprio

pai.

São

proc ess os que

os

psicanalistas

conhecem

bem ,

de

identificação e

introje ção.

São

processos

psíquicos que

vão

permi tir a uma cr iança ,

com recuo s mui to frequentes,

de

uma e fec tivam en t e ,

maneira

bastante

instável!

dos

separar-se

seus

paisj

ser

escolarizável.

E,

o

que

é

a i nda

mais

importante:

sendo

escolarizável,

existe

esta

possibilidade

bastante

se

ocupe unicamente de si! Pois bem, a maior parte das crianças

chega aí, e desta maneira, conseguem constituir-se durante

todo

vida

esta

crianças que são maçadoras,

impre s sionan te

de

estar

e

num

grupo

o

anos

de

outras

não

suportar

aos

que

ensino

a

este

que

período

lhes

que

permite

vai

manter

doa 4-5

11-12

ter

com

o

contac tos

afectu osos

pai

e

a

mãe;

interessar-se

pelos

professores

que

não

se

interessam forçosamente de

forma

e l ectiva

por

eles;

e

a

ter

uma actividade mental cada

ninguém.

esta

actividade

vez

mai s

rica

mental

vai

em

que

dois

não

pe de

nada

sentidos: ~

a

sentido de aquisição

de

conhecimentos

e

de

prazer

pelo

funcionamento mental

(descobrir

 

as

matemáticas

ou

a

gramática é qualquer coisa

que

para

certas

crianças

é

uma

fonte

de

prazer

indis cut ív e l) ;

e

ao

mes mo

tempo

existe

uma

   

=

 

actividade imaginária essencial que se desenvolve. e que

de

tornada

ser

perfeitamente

longínquo, como um grande chef e , um herói, um grande sábio,

um

campeão de ténis, não importa o quê; mas qualquer coisa que

própr io

um

possível pelo f acto de no plano do imaginário

muito

permi te à criança supor ta r ª

Slla

çondicão

de

dependência

cr iança

fu tu ro

quiserem,

sobre

o

criança. Esta condição de dependência da criança é

capaz

de

se

imaginar,

num

a

grande

músico ,

um

hom em p olí t ic o,

estej a no sup er l at ivo . E,

ao

me smo

tudo

o

tempo,

que

plano do erotismo , tem capacidade de ter fantasias eróticas ,

que derivam de perto das suas rel ações

de

jovem

criança

com

os seus pais.

Isto

permite-lhe

efe ctiv amente

viver

no

imagi nário um absoluto que vai

ser

projectado

num

futuro

infinitamente

longínquo.

 

O

que

faz

que

exista

na

c riança,

nesta

idade ,

uma espécie de equil íbrio

espantosa,

visto

ser

um

e

es tado

de

saúde mental verdadeirtamen te

uma

que

por

vez es

atinge

I

-

14

certa perfeição:

Conceitos

de

Adolescência

se

uma

criança

é castigada ou tem más notas

é

porque

as

pessoas

são

más

e

não

a

amam,

se

tem

maus

resul tados

não

é

grave

porque

de

facto

no

seu

imaginário

sabe muito

bem

que

um

dia,

saberemos

quem

ele

é!

E

esse

dia

é

tal maneira tarde que é na verdade uma ficção,

que

não

tem

que ser

confrontada

com

o

que

agora

s e

passa.

O que

faz

com

que

a

infância

seja

um

momento

espantoso

em

que

a

adolescência se prepara,

e

prepara-se

de

maneira

deter-

minante,