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Il OS MITOS FUNDADORES E O TERRITORIO BRASILEIRO (© Rio Sto Franciso .. eredimse porém originarse da pare Jima deste continent, «com efeto naquele ago calebrado pelos Aiscursos de muitos, que reeebe todus os ios »cortentes das alis simas montanhas do Peru, langados em diregio do Oriente, ¢ de sagua por melo de las encrmes no Oseuno, em primeira lugar © Rio dela Pat, org: Maregrave de Liebtad, 1648) 1 O mito da Iha-Brasil A parte mais significativa da obra de Jaime Cortesio foi elaborada a partir de cursos desenvolvidos no Ministério das Relagdes Exteriores e representa a defesa de uma teoria sobre a formagéo das fronteiras nacio: nas. O historiador, investigando a cartografia colonial e uma vasta do- cumentagao do periodo, sustenta a tese de que o Estado lusitano operou pela instrumentalizacao de um mito geografico: a Iha:Brasi. Segundo essa intexprotasio, a cartografia portuguesa sobre o Brasil refletiu e difundiu a lenda de uma entidade territorial segregada, envol- vida pelas aguas de dois grandes rios, cujas fontes sitvavamse em um lago unificador. Dezenas de cartas quinhentistas e seiscentistas delineiam 6 contornos da Ilha, de proporases continentais, eroldurada pelos 46 DEMETRI MAGNOLI cursos do Amazonas e do Prata, que se encontram depois de deserever arcos convergentes. A lenda precede as primeiras tentativas de exploracio interior.! © lago unificador, que cumpre a fungdo mitica de lugar de origem, recebeu diferentes denominacées: Dowrado, Eupana, Laguna en cantada del Paytiti, Paraupaba, Também, fai sendo deslocado cada vez mais para ocidente, enqquanto as terras interiores eram devassadas pela curiosidade das bandeiras. Assim, no inicio da descrigao lendatia, ele inverligava as dguas do Tocantins as do Sao Francisco, localicando-se em terras logo alcancadas pelos exploradores. Depois, quando a lenda alcan- sou a maturidade, passou a integrar os cursos do Madeira, entfo encarado como formador do Amazonas, e do Paraguai. A repeticio, através de relatos e cartas, da imagem insulada do territrio, conferiurlhe aceitagso mais ampla ¢ a introdusiu na cartogeafia europeia da época. O relato tomouse, para todos os efeitos, descricio verdadeira da terra do Brasil nas palavras de Cortesio (1956, p.137), nao subsistia duvida sobre a existéncia, na América do Sul, de “um todo geogrifico geometricamente definide e quase insulado’ Perseguindo o furndamento real do relato lendétio, Cortesio sugere due 08 conquistadores teriam filrado ¢ traducido informacdes de fonte indigena sobre a rede hidrogrifica complexa e quase entrelagada dos formadores e afluentes do Paraguai e do Madeira e Tapajés, cujos divi sores submergem em pantanos e lagoas na prolongada estacao das chur vas. O cere da teoria esti na postulacto de uma vasta unidade ecolégica dos dominios de florests pluviais associada a configuracio de um espago cultural indigena, fluido e poroso, que corresponderiam, gresso modo, & 4rea recoberta pela IlhaBrasil. Os caminhos fluviais do Tieté, do Parana € do Paraguai, € a transposicio para os afluentes da margem direita do Amazonas teriam funcionado como vias de dispersio do tupiguarani ¢ de consistentes elementos de uma culeura material compartilhada pelos amerindios das familias tupt e aruaque. Como se observa, para o histo riador a Uha-Brasil imaginaria € uma projegdo fantasmagorica da Ilha. Brasil real. 1 "Ja na primeira meade do séeulo XVI, entre 1528 ¢ 1543, Joio Afonso, plow pornugués ao seevico da Franca, fala nas suas obras da existéncia duma tha Brasil, tio perfeitamente rodeada pelo Amazonas e o Prat, os quais se ligavam por um sande lago, que se podia naveyare jf se tinhe navegedo, respecivamenie da for de lum para a de outro” (Coresto, 1956, p.135), (© CORPO DA PATRIA ” Mas a imaginacio teria sido orientada por um designio geopolitico, que transformou © relaco lenciirio em mito territorial. © mito da Ilha Brasil, uma entidade natural, indivisa e isolada, cumpriria a fungio de contraponto portugués a ordenacio da empresa colorial subjacente a0 Tratado de Tordesilhas. Fle teria fornecido uma legitimacio podetosa a vontade politica expansionista da Coroa, conferindo limites geogrificos alternatives para o empreendimento colonial. Como quer Cortesio (1956, p.135), a Ilha-Brasil teria operado na construeio de uma “razdo _geogrifica de Estado” e na definigio de um “imperativo geopolitico” para 0s trés primeiros séculos da formacio territorial do Brasil. O Meridiano de Tordesilhas, do ponto de vista histérico, represenava uma partlha prévia ao empreendimento colonial. Do ponto de vista da sua légica sgeogrifica, representava uma abstracdo matemitica e astrondmica, asset tada na ignorancia do territorio do Novo Mundo. A “razdo geogrifica de Estado” elaborada a partir do mito da Ilha-Brasil ert portadora, com: parativamente, de uma legitimidade superior. A unicicade do territorio colonial lusitano, fruto da sua segregacto insular, emanava da propria natureza. Uma faixa liquida continua, formada pelo area lendario flivi lacustre, emoldurava uma entidade territorial integra. As “fronteiras na turais" da terra descoberta contrariavam, na sua realidade e concrenuce, as linhas demarcatsrias arificiais de Tordesilhas, As fronteiras desenhadas pelos homens deveriam se identificar a0 abrago divino dos grandes rios A forga da nogio da Ilha-Brasil derivaria, precisamente, da subversio do horizonte histérico e diplomdtico e da sua substituigéo por um orde rnamento ancestral. No lugar dos tratados entre as corcas ~ e, em patti cular, do acerto de Tordesilhas -, ela invocava uma verdade prévia, an tetior & historia. Por essa via, introduzia-se a légica da descoberta: a descoberta de uma terra preexistente, de um lugar de contornos defini dos, de uma entidade indivisivel. © Brasil erguia-se como realidade geo sgrifca anterior & colonizacio, como heranea recebida pelos portugueses Ao invés de conquista e exploragio colonial, dadiva e destino. Nas pa lavas do padre Simao de Vasconcelos, eronista da Companhia de Jesus, Amazonas e 0 Prata eram “duas chaves de prata que fecham a terra do Brasil” ou “dois gigantes que a defendem ea demarcam entre nos Castela” (apud Cortesio, 1956, p.137). A originalidade de Cortesiio nao esti na atengio dispensada ao lago maravilhoso que enfeitigou os conquistadores © povoou as narrativas 8 DEMETRIO MAGNOLL coloniais. Sérgio Buarque de Holanda (1977), a0 tratar do trajeto das bandeiras do inicio do século XVII, faz referéncia & “noeio, ensio cor renve, de que o Amazonas tirava suas aguas de uma espléndida e desco ‘muna lagoa existente no intimo do continente” e revela que essa nogio ainda em 1648 encontrava ... guarida no sabio e austero tratado do naturalista Jorge Marcgrave de Liebstud” (p.589). Porém, trabalhando de um ponto de vista diferente, ele classificou a lenda entre os mitos ibéricos da conquista da América, alimentados pelas motivacdes arque- tipicas, ou edénicas, que consumiam a imaginagio medieval. A partir dessa abordagem, encarou a singularidade lusitana como a tendéncia a redusir os motivos edénicos “as dimenstes do verossimil”, numa opera: 0 de “atenvagdo plausivel” que ressaltava as motivagGes terrenas ass: ciadas a busca das esmeraldas, do ouro e da prata (p.238). Seguindo uma outra direcio, ¢ aparentemente desvendando uma opetacio geopolitica e simbilica levada a cabo pelo expansionismo co lonial poreugués, Cortesdo faz uso da lenda cartogrifica para, em seguida, erguer um edifico ideologico verossimil, que reinstala o mito em patamar intelectual mais elevado: De qualquer forma, a Uha-Brasil geografica correspondeu uma Ilha Brasil humana, prée protohistorica. Mas a ilha geogrifica a ilha humana nfo se integrvam exatamence uma na outta. A ilha geogrifica foi um conceito linear e esquematico, a0 qual a cartografa acrescentow ainda a ilusao das figuragies yeometricamente regulares. Sobre ela dela se alargou eextravasou aia humana, que eoineidi, sim, com 0 revestimento vegetal, pois as culturas tupi e aruaque foram essencialmente vulniras de floresta tropical de planicie .. Nas suas relagSes com a formasio terciorial do Estado brasileiro, a ilha humana, que assentava, por sua vez, muma ilba ‘econbmica, ada floresta tropical de planicie ea de certos produtos vegetis, como a mandicea eo milho, sobrelevou em importincia a MhaBrasil, ‘esquemitica e mitica. Desde o século XVI a Ilha Brasil foi, mais que tudo, uaa illa culerale, em particular, a iba da lingua gert, que se tornou um vigoroso laco unificante do Estado colonial. (1956, p.141-2) Entendase claramente: 0 discurso do historiador, cujo objeto apa rente € umn mito colonial, articula um mito de origem nacional, O Brasil atualiza e prossegue a IIhe-Brasil “pré-e,proto-histirica”, definida por um espago cultural e pela consciéncia ¢ representacio desse eapaco, Nessa (© CORPO DA PATRIA 0 linha, a pré-histéria amerindia desempenha uma funcae de elo de ligacao entre Brasil historico e a pura natureza? Aaanalise de Cortesio sobre a cartografia colonial merece ser seguida, principalmente quando se tem em conta que 0s mapas ¢cartas, mais que representacdes do que se vé, consticuem, até certo ponte, reflexos do que se quer ver.) Mas & preciso levar em conta que, por vezes, é o analista que enxerga seletivamente, adaptanda a documentagio a sua propria teoria, © primetro documento cartogrifico mencionado ¢ o Terra Brasilis, mapa do Brasil desenhado & mao sobre pergaminho, que apareceu no Atlas de Lopo Homem, cartografo oficial do Reino, em 1519 [V. Apén- dice, Figura 1). No planisfério que integra o Atlas Miller, a América do Sul é denominada Mundus Nowus Brasil, e se interiga & Asia pela extre midade sul, através de um continente fantistico que emoldura toda a parte meridional do mundo, denominado Mundus Novis. Segundo Cor tesa (1965), 0 mapa define o Brasil como “uma vasta unidade geografica ¢ humana” delimitada pelas bactas luviais do Amazonas e do Prata, “a0 norte dum dos quais e, ao sul de outro, se vem duas tandeiras, reivin- dicando para a soberania portuguesa 0 imenso territerio intercalado” (p.343). A interpretagio é forcada, ainda que nio aksurda. O mapa apenas mostra as embocaduras do Rio da Pram e do Amazonas, sem 2 O anteopslogo Darcy Ribeiro (1995) reprodus a consrueso nieugica de forina dire, contibuindo para a persictncin da ideologa identcria: “Nos ultimos séculos, porém,indios de fla capi, bons guereios, se instalaran, dominafoes, na ‘imensidade da dea, tant & belromar, ao longo de toda a cesta adancica ¢ pelo Amazonas acima, corns subindo pelos ros principals, como a Parayuai, © Guapor, © Tapa, até suas nascerees. Configuraraun, desse modo, a thaBrasil, de que flava 0 velho Jaime Cortesio, prefigurande, no cho da América do Sul, que vita a ser ‘nosso als” (9.29), Mais adiance, escreve que “o Brasil ¢a redisne30 derradelra © penosa dessas genes tupis,chegadas a costa atlantica um ou dois séculos ances dos poruguases”(p130). 3 Discutinda aabordagem do material canogeifien colonial, Rodrigues (1969, p.299) autinalava: "E necesiro,lembeava Humboldt, ndo perder de visa a influeneta que exerceram no tracado ds costs ena configuagd a8 conjturis, es votos dtalos pelos grandes ineresses politcos e comercinis.” Humboldt, na sua época, nfo acalereava muita ilusdes na ubjedvidade dos mapas: “as cars geografcas exprimem opinioeseconhecimentos mais cv menos Limitados, de quem as projeou..” (6.299), gerl dos continentes as opinide 50 DEMETRIO MAGNOLI definir claramente uma ligacio das bacias. As bandeiras assinalam os pontos excremos do avanco portugués: uma esti na altura do Maranhao, outra pouco ao sul da for do Rio da Prata, A reivindicagio de soberania se aplica com nitidez 20 litoral compreendido entte elas e assinalado por numerosa nomenclatura (146 nomes) No percurso de formagio do mito, a mansigio estaria materializada nas cartas do Brasil de Diogo Ribeiro, de 1525 e 1527, e no planistério de André Homem, de 1559. Nas primeiras, *j4 0 Amazonas e o Prata se dirigem ao encontro um do outro pelas suas nascentes, que contra vertem, esbocando uma grande ilha” (Conesio, 1965, p.343). No segun- do, trés afluentes do Amazonas, parecendo o mais oriental ser o Tocan tins, se comunicam com o lago central, que € nascente do Parand e Paraguai. Nessa carta, o Meridiano de Tordesilhas aparece emoldurando praticamente a roulidade do espaco insulado, inclusive o vale platino. A tendéncia portuguesa de deslocar a embocadura do Rio da Prat para oriente, bem conhecida e associada ao projeto de controle sobre o estu- 4rio, jf se manifestava, com toda a nitider, em meados do século XVL © mapamundi de Bartolomeu Velho, de 1561, no qual a América do Sul é denominada Quarta Pars Orbis, ilustraria "a quatta forma do mit em formacio" (p.346). O lago unificador, onde nascem o Rio Para {na posicio aproximada do Tocantins & desaguando préximo a fox amazOnica) e 0 rio Sao Francisco (o qual se interliga por outro lago 20 Parnaibae ao Parana), é pela primeira vez, denominado Alagoado Eupana (V. Apéndice, Figura 2]. Como no mapa de André Homem, o Meridiano de Tordesilhas corta a for platina e delimita quase toda a Ilha-Brasil. Os escudos € armas portugueses, a oriente do Meridiano, e espanhéis, a ocidente, assinalam as scberanias européias. Mas © mapa da Costa do Brasil, que se encontra no Atlas de Fernio Vaz Dourado, 10 anos mais tarde, reflete um retrocesso da figuragéo da Itha-Brasil, “se encararmos © mito como interpretacio da soberania territorial do Estado portugués nna América” (p.346). No lugar do Tocantins (ou Pari), € 0 Maranhao, bbem mais a oriente, que se liga pelo lago central ao Parané e a0 Urugual A figuragdo do lago lendario parece bem estabelecida no final do século, A América Austral de Luis Teixeira, carta em pergaminho ilumi- nado produzida circa 1600, é uma “volta ao prowtipo de Bartolomeu Velho” (p.346). A diferenca é que o Meridian de Tordesilhas nao apa rece. A designagao Dowrado ¢ aplicada a lagoa central, que une o Tocan- (©.CORPO DA PATRIA st tins ao Paraguai, o que - queixase Cortesio ~ ecoaria as “concepgdes espanholas”. A América Meridional, de Amoldo Fiorentinus, da mesma epoca, revela a repercussio da ha-Brasil na eartografia holandesa. O Tapajés unese ao Paraguai pela Laguna del Dorado. O Brasil (Brasilia) esta nitidamente configurado, delimitado pelo curso flaviolacustre e di ferenciado da América espanhola pela coloraggo. © Meridiano de Tor desilhas nao aparece, mas a proporcio das drens favorece amplamente 0 lado espankol e o Tapajés encontrase deslocado para leste, 0 que reflete a influéncia subjacente da antiga partico papal © America Pars Meridionalis de Henricus Hondius, publicado no Atlas Novus Sive Descriptio Geographica Totius Orbis Terranem, de Mer: caror e Jodocus Hondiius, em 1638, ¢ outro exemplo da insulagio carto- grifica do Brasil entre os holandeses. Cortesio cataloga.o ao lado do mencionado mapa de Fiorentinus, das cartas do alemao Bertius (1616), de Clement de Jonghe (1640), de Guillaume Sanson (1679) e do italiano Pe, Coronelli (1688), comprovando a difisdo vasta cessa maneira de encarar 6 Novo Mundo. Nele, o lago central é denominado Lago de los Xarayes, do qual partem o Amazonas ¢ o Paraguai, e no temo nordeste uum Rio Meiari. A soberania portuguesa € indicada pelo nome Brasilia. © Pert ¢ 0 Chile aparecem grosseiramente delimiindos, Envre eles e a Brasilia insulada aparecem areas denominadas Moxos, Mois, Xarayes e Tucuman. Um imenso lago imaginério no norte do subcontinente, denominado Parimelacus, aparece cercado pela delimitago da Guiana, refletindo o inte: resse holandes pela area, na fase imediatamente anterior & colonizagdo. A tese de Cortesio alicerga-se em um suposto percurso evolutivo do mito cartogrifico, conduzindo, ao final, & coincidéncia entre a represen: tagfo e a Ilha-Brasil “prée-protorhistorica”. E dificil sustentar essa linha de argumentacio sem recorrer a uma meticulosa seleg’o do material cartografico.> A carta de Joao Teixeira Albernds, circa 1640 - um mapa 40 diplomata Synesio Sampaio Goes (1991) adiciona ainda aos exemplos mencionades o mapamind: do inglés John Roc, de 1542 (p.78), e um mapa que ‘consta do atlas taliano de Ruseeli, de 1599 (p. 73), 5 Sérgio Buarque de Holanda nunca levou a serio a busca de urmn evolu ligica da spogtafa do mit: “E preciso verse em cons que essa lagoa magica, sinuada quase invariavelmente as cabeceiras de um ou mais rios caudoloses, se desloceva freqdentemente segundo a caprichosa fantasia dos cronisas, earigrafo, vigjantes ou conquistidares’ (1977, p.58) st DEMETRIO MAGNOLL bastante estiizado, que destaca apenas os acidentes considerados impor tantes, reservando uma nomenclatura detalhada para o litoral do sub- continente ~ repete as figuragdes mencionadas anteriormente [V. Apén- dice, Figura 3]. O Rio da Prata nasce no lago central, nv nomeado, de onde parte um rio que desemboca na for amazénica. Mais uma ver as soberanias sio tepresentadas por escudos e armas. A América portuguesa € denominada Brasil. © Meridiano de Tordesilhas € tansposto como fronteira natural, fliviolacustre, indicando uma prética que parece bas tante difundida na cartografia da época. Contudo, 0 mapa nao prossegue a alegada tendéncia de expansio geografica da Ilha-Brasil para o ocidente, razfo pela qual Cortesio (1965) no o cita, mesmo sendo o responsivel pela descoberta de sua autoria. Outro documento que néo confirma a tese, pois rompe a suposta construgio evolutiva do mito cartogrifico, é o mapa de América do Sul de Ant8nio Sanches, de 1641. Nele, nao ha lago unindo as bacias, embora um rio que desagua na for amazénica apareca com nascentes priximas as de um rio que desemboca no Rio da Prata. Os nomes Brazile Peru, es inevitiveis escudos, dividem de forma simples e nitida a América do Sul. Como no mapa de Albernis, a refe réncia subtertinea é 0 Meridiano de Tordesilhas e, novamente, registrise ‘o.desejo de que ele assuma a forma de uma fronteira nazural. E interessante observar que, de qualquer forma, a investigacdo das cartas quinhentistas e seiscentistas revela a vontade de fazer coincidir a delimitagao papal de Tordesilhas com os acidentes geogrificos. Essa postura, anterior 8 elabo- racio da doutrina das franteiras naturais, talver a tena influenciado. Para Cortesio, o Amérique meridionale de Nicolas Sanson d'Abbevi- lle, incluido no Adas Cartes générales dela Géographie ancienne et nouvelle de 1650, consiste na “mais ampla interpretagao alcangada pela Ilha-Bra sil; ea que mais e até cerw ponto sé aproxima da verdade” (p.348). Essa observacio decorre de uma interpretacao forcada do mapa, no qual © Amazonas se divide em dois bragos: um Riode Juan de Orellana e outro, inominado, que corresponde grosseiramente a0 curso do Madeira. Este segundo alcanca por um breve afluente o Lac de Eupana, de onde nasce 6 Paraguai. © exagero de Cortesdo esti em enxergar ai uma delimitacdo de soberanias, ja que nada indica que 0 espaco insulado seja encarado como terrisirio pormgués, existindo, inclusive, indicios em contrério: os nomes Paraguay e Guayra aparevem nitidamente no espago interior da Uha-Brasil [V. Apendice, Figura 4] A proposta do historiador, superficialmente considerada, consiste na hipotese de que o expansionismo lusitano na América se serviui da (© CORPO Da PATRIA 53 lenda indigena para erguer a mitologia cartogrifica da {Iha-Brasil, a im de dissolver o limite de Tordesilhas. Posta dessa manein, a tese conserva 6 seu interesse, ainda que careca de evidéncias mais contundentes. En- arctanto, 0 sentido profundo da obra de Cortesio ¢ outro: sobre a inves- figagio do uso colonial da Tha Brasil, ele edifica ura plamaforma de legitimago nacional pata o Brasil. idéia, epetida amide, da existéncia de uma unidade cultural amerindia, organizada sobre um leito natural cujos limites coincidem com os da Ilha-Brasi, tira a sua forga e sedugao da referéncia a chamada lingua geral, apresentada como uma espécie de idioma nacional pré-histérico: Circulos culnirais afins, os tupiguarani e os aruaque, haviamse fan- dido sobre muitos lugares desse vasto contorno, pelo sangue ¢ a cultura. Mas os segundos tinham, em muitos casos, adotado 0 idioma dos primei: 105, que jl antes da chegada dos brancos, comecara a sera lingua geval, isto 6 insrumento de unificacio social e cultural.” (Corresto, 1958, p.24) A producio do territério do Brasil nfo teria consistido num process histérico original, com o ponto de partida situado na colonizagio euro péia, mas no prolongamento de uma realidade prévia, que a norteou: a cultura indigena e a lingua geal, produtos de uma unidade geogrifica, econdmica e humana, representavam uma forea poderosa de agregacto politica. Ao comecar o século de Quinhentos jé o: tupiguarani prefigura: vam sobre o terrtsrio, ainda que sob forma ondeante, a fundacio colonial dos porsugueses, na América do Sul.” (p.25) Como veremos, Cortesio ndo foi pioneiro na montagern desse mito de legitimacio nacional: o que ele fez foi sintetizare refinar uma série de cobsessGes nacionais nascidas no Brasil imperial do séeulo XIX. Também a idealizagéo da lingua geral unificadora surgiu no Império, quando se empreendia pela primeira vez a aventura de contar a historia da nacio. Essa idealizacso provede pela abstracio do processo histirico de submis 6 Os fassos inicais da idealizagia aparecem no historiador oficial do Impsri, Francisco Adolfo de Varnhagen: “Essis gentes vagabundas que, guerreando sempre, povoavam © terreno que hoje # do Brasil, eram pela maicr pare verdadeiras ‘emanagdes de uma sé raga ou grande naga; sto &, procedlim de uma arigem ‘comum, ¢ filavam dialeros da mesma lingua, que os primes eslonos do Brasil chamaram geral, € era a mals espalhada das principals de todo este concinente (1956, p.24) 4 DEMETRIO MAGNOLI sio dos amerindios que criou uma lingua geval, canferindo, a posteriori, uma dimensio de realidade a denominagdo empregada para fazer refe réncia lingua particular utilizada pelos grupos indigenas do tronco tupi. A lingua geral surgiu da atividade catequizadora dos jesuitas na Amé- rica portuguesa, que gramaticalizaram o tupi antigo e o difundiram para os mais variados grupos zmerindios, utlizando-o como idioma oficial da conversdo do gentio. A orientacio de que todos os teligiosos da Com: panhia de Jesus aprendessem a lingua da terra onde residiana provinha do préprio Santo Inicio. Em meados do século XVI, o padre Joao de Aspicuelta Navarro tradusiu passagens dos Testamentos, os Mandamen. tos, sermBes e oragdes para a lingua tupi. Aparentemente, Navarro foi encarregado por Nobrega da confecezo de uma gramdtica, que no entanto foi produzida por José de Anchiera. Embora publicada em portugues, “parece que a Ane de Gramatica foi eserita primitivamente em latim” (Leite, 1938, p.561). A obra de Anchieta foi impressa em Coimbra em 1595: “E a primeira gramatica publicada na lingua tupi-guarani, monu ‘mento de inapreciavel valor lingisticoe flolégico, gliria da Companhia no Brasil, 0 fato que deu a Anchieta maior renome” (p.550). Muito depois, em 1620, publicou-se em Lisboa a Are da lingua brastlica, do padre Luic Figueira, mais completa quea de Anchieta. No final do século XVI, a Companhia no Brasil pedia licenca a Roma para se imprimir 0 Diciondrio da lingua brasilca, de aueoria imprecisa. Nao se sabe se foi impresso. Por outro lado, conhece-se um manuscrito intitulado Vocab lario na lingua brasilica ~ 1621, que pode ser a forma definitiva do men- cionado Diviondrio, O historiador da Companhia de Jesus no Brasil, jesuita ele mesmo, ndo vacila em atestar a responsabilidade pelo cariter geral da lingua geral, que extravasou largamente o seu nucleo primitivo, chegando inclusive a Amaz6nie ¢ servindo pata a catequese de indios das mais diferentes familias lingbisticas A tal unidade de lingua, que concorrey, sem clivda, para @ unidade brasileira, eccbeu dos Jesultas exrordinario vigor, pela feigio culta, que the dleram, fixando por escrito as suas formas gramaticais e vocabulaes. (p'351) ‘Antes dessa intervengio, o tupi, que vinha experimentando um per curso de fracionamento,? nada tnha de geral, pois convivia com inume- 7 Arjon Dall'lgna Rodrigues (1945), respeitado esnudioso da rupi, identifica um promtupiguarani, que se fracioncu ainda em época précelombiana, em virnide dos © CORPO DA PATRIA 55 ras outras lingiias amerindias. Essa diversidade linglisica ¢ plenamente reconhecida nos relatos dos primeiros tempos da colonizagio. © jesuita Femao Cardim (1978, p.121-7), que foi reitor do Colégio Baiano da Com panhia eescreveu os seus célebres Tratados em 15841585, informava sobre a variedade das linguas e costumes indigenas, observando, sobre 0 tupi falado por “algumas dee nagées de Indios” do litoral, que “esta é a que entendem os Portugueses” e que nela era feita a conversio dos Tapuias (isto ¢, de todos os grupos exteriores a familia tp) A expressao lingua geval, vista por Cortesio (1956, p.104), ¢ mani festacio da “difusao riparia e circular dos tupi-guarani”, que teria engen- drado a Ihe-Brasil amerindia, “préeprow-histérica”, A mitologia nacio- nal mascara, dessa forma, uma operagio de apropriacio historica de um elemento cultural eda sua transformacio em inserumento de colonizaeso ‘ecatequese. No curso dessa operagio, os jesuitasinicialmente atribuiram catéter geral ao que era singular, para entio, pela aprogriacio gramatical ¢ pela atividade missionéria, conferir uma generalidade bastante ampla a lingua que tinha se tomado a sua. Qu seja: quando o tupi antigo é, pela primeira ver, designado lingua geral, ele nao é geral, Quando se toma geral, nfo é mais uma lingua amerindia, mas essencialmente © idioma da conversio.? Fendmenos similares tiveram lugar no Paraguai deslocamentos migeatirios, em um prom-aup eum protoguarani, alm de outros ramos isolados. Porm, enda um desses ramos fracionouse airda mais; “Ambas as linguas apresentararmse em estado mais eu menos unitério, homogéneo, somente em época préscolombiana. Fracionaramse também, 8 stn ves” (p.336). Se o napi © guarani procediam de um tronco anesrior comurs, nem por isso eram idénticos: vem falasse o cupi antigo consegula, mals ow menos, entender © guarani antigo, com dificuldade quase iléncica 4 que se ofetece ao individuo defala porruguesa para entender o espanhol” {p.349). JS o Padre José de Anchieta, na sua Arc, regicrava, as difereneas fonéticos entre eles, cujnorigem parece nSo ser muito anterior chegada dos europeus. 8 Edelweiss (1947) discute a tansformacto dos gentlicos critais ~ mnt o# nomes efecvos como os atribuidos ~ em adjetvos pare caracterizar as linyuas indigenas, como em “lingua guaran, "lingua earjé” ex. Mas observa que nos documentos ansigos no ha praticamnente mens wirtude da “criagho das expressses genéricas lingua braslica, lingua era, et., para © ‘pi da costa, ¢ o diminurissimo interctmbio dos Portuguese com as tribos de ourras familin” (p.13). Os indios de toda a costa falavarn, com pequenas diferencas dlinleas, a mesma lingua. Mas as eibos possulam nomes divewos, "Eis, porque os Jesuitas ransferiram ... o nome da terra lingua que nela se flava." (9.27). A a “lingua cupinaraba ou "lingua aimtone”, ex 56 DEMETRIO MAGNOLL eno Peru com o guarani e o quichua, que gonharam o nome de lingua «eral pois funcionavam como instrumentos do trabalho de conversao do gentio. Tratase, em todos esses casos, de uma particular e puradoxal pritica etnocéntrica, assentada sobre a manipulacto de um elemento da cultura submetida.? E no contexto dos mitos fundadores - e em relagio & nogio da Iha-Brasil - que 0 bandeirismo deve ser considerado. O bandeitismo, oficial e espontineo, teria se encarregado de trespassar 0 meridiano da mediagao papal e plantar, a0 longo do perimetro da Ilha mitica, 0s signos da soberania portuguesa. Uma das primeiras bandeiras ~ ou, para certos historiadores, a primeira bandeira digna dessa denominacio ~ foi a ex: pedigio de Gabriel Soares de Sousa, que partiu da Babia em 1590 em bbusca do Dourado e das riquezas incomensuriveis que a raaio medieval prometia."? Por ts décadas, ourras bandeiras ~ como as de Jodo Pereira de Sousa, André de Ledo ¢ Nicolau Barreto, que seguiam instrugdes do capitiormor D. Francisco de Sousa - rrilharam, a exemplo da primeira, oeixo dos rios Sao Francisco e Tocantins, sempre & procura do lendério lago. Depois, o bandeirismo chamaco “espontineo”, originado de Sio Paulo, concentrou as suas expedicSes em dreas mais distantes, para 0 interior, ao longo dos eixos fluviais alternatives do Parana e Paraguai ou dos afluentes meridionais do Amazonas, Paralelamente, ao longo do curso do Amazonas ¢ partindo da fort ficagio portuguesa de Belém, langaram-se expedigdes oficiais destinadas a estabelecer a presenca colonial por todo o vale do grande tio, A ci cunstincia da Unido Ibérica (1580-1640) forneceu a janela de oportuni: expressto nao se difundiu instantaneamente: “Sé aos poucos, A medida que os Tapuias tam sendo recalcados parao serio, dos raros pontos onde ainda afloravam 1a praia, €0 uso do tupi se generaisava por entre a populaesa ‘oi o termo ‘lingua geral’ perflhado pelos homens de leas" (p.28), Ein 1595, a sramicca de Anchierssinda designa a tupi como Lingua mais wsada na costa do Brasil, Des anos depois, o padre Péro Rodrigues ja denomina "lingua ger”. 9 Cunicsamente, o terme tupi para designar 0 priprio idioma evidencin o cemocentrismo amerindio: abencenga, 0 que signifies “lingua de genta" 10 Holanda (1977, p34) celaciona as diversas locllzgSes lendarias dos "teinos Sureos ‘ou argénteos” por tou 0 Novo Mundo, e assinala: “A estes paderis juntar 0 Dovrado do Vupaburu ¢ Parauava, no Brasil isto &, aquela mesma lagen dourada, segundo rods os indieios, que Gabriel Soares stita a procurar e em cuia demanla OCORPO DA PATRIA dade para essas “bandeiras oficiais", que penetraram nas regides andinas através do Solimées e do Marafion. Entre as intimeras expedicoes, des tacamse a bandeira fluvial de Pedro Teixeira (1637-1639), marco das exploracdes amazdnicas oficiais, ea epopeia bandeirante do paulista An- tonio Raposo Tavares (1648-1651), que seguiu o rumo geral dos vales do Tieté, Parand e Paraguai, embrenhowse pelas encostas andinas e re tomnou pelos rios Mamoré, Madeira e Amazonas. No plano historico, as bandeiras ampliaram os limites do tertitotio conhecido e funcionaram, ao menos objetivamente, como vanguarcla do poder colonial. A Coroa portuguesa, manobrando persistente e meticu losamente para a expansio geografica da sua soberania, ordenou a cons truco de fortificagdes ao longo do perimetro exterior das expedicdes. Assim, surgicam os fortes de Sao Joaquim (Roraima), S40 José das Ma- rabitanas (alto Rio Negro), Sic Gabriel (Rio Negro), Tabatinga (Rio So limes) e Principe da Beira (Rio Guaporé), “balizando o contorno da nossa atual fronteira terrestre” (Meira Mattos, 1980, p.22). A observacao do general Meira Mattos revela como a ideologia é decalcada da histéria A “nossa” atual fronteira terrestre foi gerada na fase de formacio do territdrio colonial luso-americano, como espelho do bandeitismo. Essa forma de encarar as coisas é regra geral na historiografa tradicional bra sileira e, mais ainda, na historia diplomatica oficial: Toda a grandesa do Brasil, com um mapa que chagou a estenderse do Amazonas a0 Prat, fol assim organicamente por nés conquistada, na epopéla desbravadora das bandeiras ¢ no esforgo progressivo dos povoado: tes que fecundaram a terra com 0 seu trabalho, o seu sunr e o seu sangue. Nada conservamos que nao fosse nosso, produto obstinado da nossa con: quista. (Barros, 1943, p.L1) A nogio de continuidade entre o bandeitismo, o estabelecimento de fronteiras coloniais ea fixagio das fronteiras nacionais transparece, lar gamente, em toda a historiografla escolar brasileira, até ha pouco. Con: tudo, essa € apenas a superficie de um mito fundador com ramificagoes mais profundas ¢ complewas. A verdadeira dimensio do mito aparece ‘quando se adiciona um tilkimo elo 4 sucessio continufsta anterior: © mito expansionista da Itha-Brasil, que se antecipou a solucao do problema da soberania portuguesa na América do Sul, implicava um pro: 58 DEMETRIO MAGNOLI sgrama de ago, Foi uma ideinfbrga. Mas, quando do concelto mica passot, por aquele impulso, 4 fase do conhecimento geogrifico, a histéria prolon gou e decaleou, em grande parte, a préhistiria, (Cortesio, 1956, p.142) Os bandeirantes refazem a trajetéria terrestre e fluvial dos povos nnativos. Saltam, ao longo do perimetto da Ilha-Brasi, de uma bacia hidrogrifica a outra, pisando sobre as pegidas ancestrais dos indigenas. © bandeirismo, fonte luso-americana das fronteitas nacionais, 36 f2 reafirmar um diteito primordial, précolombiano e précolonial. No pla no do mito da constituigao da nacionalidade, os bandeirantes ocupam tum lugar de destaque. © panegirista da bandeira é, antes de todos, Cassiano Ricardo. A sua Marcha para Oeste (1970) organizase sobre @ oposicio entre 0 “es pirito luso” da tradicio da Casa Grande nordestina e 0 “espirito brasi: leiro” da tradicio da bandeira paulista. O convivio dos contririos, ea sua fus nalidade.!" A mobili. dade geogrifica ~ a “instabilidade” da bandeira - aparece como valot positivo, comparativamente a “estabilidade” da Casa Grande. © bande rismo incorpora o territ6rio & nacionalidade, associa terra e homem e, nesse passo, mescla etnias e culturas. eventual, alicercam a formagio da n: Em Cassiano Ricardo, o bandeirismo adquire os contornos de epo- péia de constituigéo nacional. Essa condiggo procede da idéiachave de interpenetrario do colonizador e da terra, da nocfo, intensamente tra- balhada, de um “mergulho” do povo bandeirante no universo telirico tropical. Trata-se da “aclimatacio” ransformadora, que atua como génese de um espirito nacional novo e, no sentido inverso, de um espaco fisico humanizado. Por esse prisma, o bandeirismo assume a funglo de outras tantas epopéias nacionais: o Grand Trek afticénder, a colonizacso comu- nitiria e agricola sionista e, evidentemente, a conquista do farwest nos Estados Unidos. As influéncias do bandeirismo na formacio da nacio- nalidade abrangem aspectos e dimensées diversos. Ele funciona como vanguarda da expansio geogrifica ¢ territorial (a “base fisica do novo 11 Foram os valores culnumis crados por esses grupos, une male lusoe como os da casagrande, outros mais socialmente dindmicos e sjustados terra, como os bbandeirantes, que tabalharam pela unidade nactonal, que ¢ 0 sentido vivo da nossa historia” (Ricardo, 1970, p 4885), © CORPO DA PATRIA co Estado”); na introdugio de um sentido e de um espirito americans, em contraste com 0 lusitanismo da sociedade estratificaca nordestina; na invengo da democracia social, dinamizada pela mistura émica da ban- deira; na génese da Independencia (*germe de self government”). E esta tlrima assergdo que mais nos interessa. Segundo ela, a ban. deira fundou um proto-Estado brasileiro, instalandoo no interior da entidade colonial lusa, A propria bandeira funciona como um “Estado em miniatura” eo chefe da bandeira personifica um poder puiblico mével, aurOnomo diante de Portugal: “Tratava-se de uma ‘cidade em marcha’ (moving frontier), com jurisdicdo sObre a area que estivesse ocupando” (Ricardo, 1970, p.492). Essa caracteristica da bandeira disseminou o proto-Estado brasileiro pelos sertbes, até as linhas limit-ofes da coloniza- fo hispAnica."* Gilberto Freyre segue as pegadas de Cassiano Ricardo: “Com o bandeirante o Brasil autocoloniza.se” (apud Lins, 1965, p.183). A inversio ideologica é patente. © bandeirismo, de instrumento direto ou indireto do poder colonial nas suas estratégias expansionistas, tornase fator de subversdo da soberania lusitana e de difusio territorial de uma nova soberania, brasileira. O fato de que faltava ao novo poder nacional uma base territorial definida nao constitui embaraco: “A mobi lidade da bandeira nao Ihe tira .. o carater de instrumento da sociedade de que se fer forea, representacio e poder” (Ricardo, 1570, p.491). Para reforcar a tese, o autor procura o abrigo do pensamento geopolitico ¢ das elucubragSes sobre a existtncia eventual de Estados destituidos de base territorial.!3 12 *Nio foram, pois, 50 as luras contra os espanhéis contra os selvagens ~¢ ninguém tutou mais contra ambos que o bandeirante ~ que eseuturaram, no Sul e ne centro imercional como ne Norte, um Estado de formagioe expresso brasileiras” (p.494). 13 "Jao Estado germinica era, também, uma associagha de povos sem teriirio fix; dlspensava © suport fsico da sociedad. Jacques Aneel, em sua Geopolitca, cita rhumerosos exemplos de Estados ~ mesmo modernos ~ que se destacaram dos seus ‘ervitorios sem debar de ser Estados, para chegar a conclusio de que ‘a posse de um terricirio deimitado nao é um elemento indispensével do Estalo™ (L970, p.488). ‘A refecéncia a Ancel — e 4 observagio do yedgrafe fanets scbre a formagto da ‘Alemanha ~ da pista para uma fonte de inspiraeio‘do autor. Ne ambiente da aguda controvérsia da década de 1930 - envolvendo de um lado a “geeplit” lems, de ‘outro, a “geografa politica” francesa = Jacques Ancel distinguia a "base territorial” dda “base yeogritica” dos Estados, esta oleima envelvendo 0 conceitn de nacso (comunidade de vontates) prescindindo de um quadro certrial fixo. A nacko oy DEMETRIO MAGNOLI © marco inicial na produgdo litericia ¢ hist5riea de uma mitologia do bandeitismo talvez seja realmente O Uraguai, de Basilio da Gama, considerado por Vianna Moog (1966, p.192-3) “a primeira obra brasi- leira realmente digna desse nome” e um “livro de exaltacio 20 bandei- rante e de ataque ao jesuita”. Em seguida, 0 poema Vila Rica, de Claudio Manoel da Costa, ajudou a promover o bandeirante a simbolo. Mas 0 discurso historiografico sobre o bandeirismo constitui, na sua maior parte, um discurso sobre a capitania de Sao Paulo. Em 1869 a Revisea do Instituto Historico e Geogrdfico Brasileiro publicou parte da Nobiliarchia Paudistana Hiseérica ¢ Genealégica, de Pedro Taques, redigida entre 1760 €1770, que recolhe a tradicio oral das bandeiras. Jé no inicio do nosso século, multiplicaram-se as odes ao bandeirante ¢ a0 pioneirismo paulis ta: Washington Luiz, Alcantara Machado, Alfredo Ells Jr., Paulo Prado, Basilio de Magalbaes, Carvalho Franco, Affonso d’Escragnole Taunay. As condigdes de isolamento relativo da capitania de Sac Paulo, as sentada sobre a preciria economia do excedente, condicionaram a signi ficativa mestigagem com o elemento indigena e a apropriagdo da lingua geval pela populagio de origem européia. O culto ao bandeirante serviu ppara mascaar a pobreza da capitania na época das bandeiras e emprestou ao bandeirante “atriburo que ele nunca teve” (Maog, 1966, p.196): 0 de povoador ¢ pioneiro. Dessa armadilha nfo escapou sequer um Sérgio Buarque de Holanda A obra das bandeitas poulistas no pode ser bem compreendida em toda a sua extensio, sea nio destacarmos um pouca do esforgo pornugués, como um empreendimento que encontra em si mesmo a sua explicaco ce que, desafiando todas a leis e todos os perigos, vai dar no Brasil sua atal silhueta geografica (1984, p.68) © elogio ao bandeirismo comport, essencialmente, duas orienta des diferentes. Hi os que insistem na identificagao do bandeirante a0 neo, atribuindo a éxpansio territorial luso-brasileiraa um movimen- to espontineo de difusio e alastramento de uma cultura, uma sociedacle ou um modo de vida. E, como vimos, a posigio de um Capistrano de ‘Abreu, de um Paulo Prado e, em geral, de toda a historiografia naciona- de Ancel, “uma combinacio harmoniosa de géneros de vida", deriva da postura mercdologica lublacheana, contrapondose ao "fundo naturalsta e expansionist: dos razelianos. Sobre a problemades, ver Costa (1992, p1523). (© CORPO DA PATRIA st lista dos anos 20 30 do nosso século. Ronald de Carvalho esta entre esses, que caracterizam os bandeirantes como “os obsauros obreiros da nossa diplomacia, dos nossos consecutivos triunfos nas questdes ltigio- sas de fronteiras", apertando 6 né do discurso mitolégico: Eles engrandeceram e dilataram o pareiménio recebido dos portugue ses, repetindo, na floresta bravia, a tragédia de sangue e fogo dos husos no mar alto. (Goes, 1991, p.49) Ha, do outro lado, aqueles que poem o acento nos projeros geopo- liticos da Corca lusitana inserindo o bandeirismo e os seus feitos herdicos no interior de uma logica de apropriagio territorial ordenada a partir do alto. Taunay, adusindo alguma evidéncia para essa tese, relata episddio em que o bandeirante Pedro Leme, intimado por soldados espanhéis a deixar 0 sul de Mato Grosso, teria respondido que aquelas terras perten- iam ao tei de Portugal. Goes lembra a frase que os jesuitas espanhcis das misses de Guaira colocaram na boca de Raposo Tevares, em 1627: “Viemos aqui para expelilos desta regifo inteira. Porque esta terraé nossa e nao do rei de Espanha” (p.59). Jaime Cortesio, um fervoroso adepto dessa posigao, tem em Raposo Tavares, que visitou Lisboa pouco antes dla sua célebre expedicio através do Madeira e do Amazonas, a sua per: sonalidade emblematica. A “bandeira dos limites”, que percorreu o pe rimetro ocidental da Ilha-Brasil, funciona na sua argumentagio como a antecipagio do Estado nacional: ajornada criadora da “nogio dessa uni- dade, mais inviolavel que o Tratado de Tordesilhas” (1958, p.25). Essa nogio da unidade nacional brasileira estar refleida certograficamente no Magni Amazoni nova delineatio do Conde de Pagan, de 1655, produ- sido a partir de relatos da viagem de Pedro Teixeira. Cortesto (1965, .348) ermerga nessa carta a transigfo “da geografia mitca para a cient. fica”, na medida em que é ja o Madeira, com essa denominagav, que por meio de um afluente se aproxima do Lacus Xazayes, Nessa fase transite, © novo limite da Iha-Brasil esti assentado sobre o trejeto de Raposo ‘Tavares, incorporando a bacia amazénica. 2 Brasil, patria virtual De todos os lados, o discurso sobre 0 bandeirismo tende a mascarar © papel desempenhado pela Unido Ibérica na expansio luso-brasileira a DEVE-RIO MAGNOLI para além do Meridiano de Tordesithas.!* Cortesio, caractetisticamente, sustenta o ponto de vista da separacto completa ¢ radical dos dominios coloniais americanos durante a unido das coroas peninsulares. O diplo- ‘mata Synesio Sampaio Goes, em ensaio para publicagio contemporinea e oficiosa, participa, com ressalvas marginais, dessa interpretacdo: Ecurioso cbserar que os autores que seguem mais de perc as viagens os bandeirantes, como Taunay, Basilio de Magalhies e Carvalho Franco, nfo mencionam o final da Unito Ibérica como marco de alzuma transfor. macio no movimento. Nada teria mudado naqueles ser6es. (1991, p.57) Esse procedimento desempenha uma funcio crucial na articulagao dos mitos fundadores da nacionalidade ao deslocar 0 foca da que efeti- ‘vamente estava em causa ~ a disputa entre duas logicas teritoriais e dois fundamentos de legitimidade de origem dindstica - para instaurar uma narrativa de construgio da nacionalidade. Joao Pandit Calogeras recoloca as coisas nos seus lugates, argumen- tando a partir da Logica da legitimidade dindstica: “Que importwa fosse © territério americano atibuido a um ou a outro dos dois reinos? Nao eram, todos os trechos, possessdes do soberano nico!” (1927, p.79).!5 Ele enfatiza as conseqiiéncias desastrosas da Unio Tbérica para as mis- s0es espanholas, comparando a “escassez de informes sobre bandeiras” anterior 4 unificacdo das coroas com “a abundancia de relatos sobre as que se Ihe seguiram” © transcrevendo as queixas dos jesuitas dirigidas aos superiores em Madri relativas & inagdo oficial diante das expedigdes de apresamento no Paraguai: 14 Anda que posta have exceobes, mesmo no intetior do proprio naionalisino, como Alffedo Ells Junior , com menor intensidade, Cassiano Ricardo. A regra, porém, consiste em ver na unifeagio das coroas, quando muito, um pretxto ov uma ‘oportunidade para arealizagio da necessidadshistrica: “Na Ametica a formiével expansio dos bandeiranes paulists eproveiara as circunseinctas ransiciias da vnido peninsular para estender as fonteiras do pionsrismo brasileiro, fendo caducar as disposiqgesrestrtivas do Tratado de Tordesilhas" (Penna, 1967, p20), 15 Os crags de perio flipino nao so tantos, mas aparecem até mesmo nos adcleos originals da colonizagio portguesa, Joao Pessoa fo fundada por espanhois em 1584, com o nome de Filipéia de Nossa Senhora das Neves. © romance A pedra do rena, do paratbano Ariano Suassuna, recupera a mitelogia lusocastlhane do serio nordestino (© CORPO DA PATRIA 8 Temse a visio de um dique que se rompeu, de aguce que arrombou, pela brecha do qual passaram os conquistadores de pecas vermelhas. © dlique, 0 obsticulo, era 0 respeit & demarcacio, respeito que foi arredaclo pela transferéncia da coroa lusitana a Felipe Il, senhor singular dos terri trios unidos dos dois paises. (p.82) Felipe Il queria mais que a mera uniao pessoal das coroas:acalentava © projeto da Monarquia una. Contudo, as intrigas dindsticas européias, contaminadas pelas guerras de religifo, representaram obsticulos decisi vos para qualquer agio mais determinada na América. No continente europeu havia a ameaca procestante de Henrique de Navarra, depois do fracasso do intento de colocar uma infanta Habsburgo no trono frances. Nos mares, 06 flibusteiros associados aos ingleses e holandeses coloca- vam em risco as naus de Castela. Em 1587, o corsirio Drake chegou a tomar Cadiz e a ameacar Lisboa. A conspiracio para entronizar um Habsburgo ém Londres também falhou lamentavelmente e, para com pletar, a catistrofe da Invencivel Armada, em 1588, assinalou o encerra ‘mento da hegemonia maritima espanhola. As coisas pioraram ainda mais nas primeiras décadas do século XVII quando, sob Felipe II, a Espanha mergulhou em terrivel crise econdmica, provocada pela retragio da pro:

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