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Como evitar que seus filhos sejam consumidos pelos celular?

O iPhone foi apresentado ao mundo em 2007, iniciando uma contumaz revolução na


maneira como as pessoas passariam a se comunicar no planeta. Somente no Brasil, já
atingimos a marca de mais de um smartphone por habitante em 2018 e 230 milhões de
aparelhos em uso em 2019.

Steve Jobs apresentando o primeiro iPhone em 2007

Os números desse mercado impressionam, mas é a paixão dos usuários por esses
eletrônicos e as consequências desencadeadas dessa relação humano-máquina que têm
produzido inquietações como as seguintes nas rodas de conversa em nosso dia a dia:

“Está difícil controlar os celulares das crianças”, “Meu parceiro só tem tempo para o celular”,
“Horrível isso de tentar conversar com alguém e a pessoa olhando para a tela do celular”,
“Não consigo mais tempo para ler um livro” etc.

Um pré-adolescente de 12 anos mais esperto do que nunca

Os smartphones, que em 2019 completam 12 anos, são como pré-adolescentes que vem
ganhando musculatura e inteligência ano após ano. São altíssimos os investimentos em
desenvolvimento, tecnologia de ponta e contratação de especialistas. Tudo que reluz na tela
do seu celular tem uma razão importante de existir: promover a melhor experiência de uso,
aliando performance e design do equipamento (hardware) a um ecossistema de aplicativos
continuamente atualizados.
Foi juntando a fome (de crescimento) com a vontade de comer (dos usuários por novidades)
que a indústria de smartphones amadureceu e rapidamente se consolidou muito bem
alinhada às necessidades e desejos de exigentes consumidores finais. Que os celulares
estão mais sagazes e sedutores todos sabemos, mas o quanto nós estamos preparados
para assimilar o avanço dessas tecnologias?

Pelo que podemos acompanhar até agora, as aventuras desses ‘pré-adolescentes’ estão
apenas começando. Não sabemos muito bem como vão se comportar daqui a alguns anos,
mas é certo que alcançaram avassaladoramente as mãos desinquietas dos pré-
adolescentes de carne e osso, criando necessidades e possibilidades antes nunca
vistas em nossos lares e escolas.

Com afetos não se brinca

Como nós, adultos, temos digerido o caldeirão de novidades tecnológicas que fervilha em
nossas mãos a todo instante? Como este relacionamento humano-máquina tem sido
construído? Será que amadurecemos consideravelmente nesses 12 anos de convivência?

Difícil saber, mas é de consentimento geral que os smartphones vêm alterando


profundamente nosso jeito de enxergar a vida e de viver. Deixando de lado o romantismo
que talvez emoldure muito bem esse laço (ou nó?) que nos une a estes aparelhos, esta
conexão configura uma clara relação de afeto. Segundo a filosofia de Espinosa:

“Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada
ou diminuída”
As afecções podem ser entendidas como o corpo sendo afetado pelo mundo. Apesar de
somente em um dos lados dessa relação palpitar um coração e correr sangue nas veias,
fato é que, do outro lado, os frios dispositivos eletrônicos vêm provocando em nós afetos de
alegria (quando uma afecção nos leva para uma potência maior de ser e agir no mundo)
e de tristeza (quando uma afecção nos leva para uma condição menor de potência) e
influenciando diretamente em nossa potência de existir.

Essa relação têm nos servido para aquecer a alma e também fundar solidões, despertar
desejos e, até mesmo, tomar o lugar cativo antes ocupado pelas amizades , afinal os
celulares têm se tornado confidentes ‘fiéis’ e verdadeiros cúmplices de nossas vidas.

Deste modo, afastar-se completamente e de uma hora para outra do celular,


poderá reduzir ainda mais nossa potência de existir, eventualmente já comprometida.

Nestes últimos anos, o avanço das tecnologias se deu mais aceleradamente que a nossa
capacidade de assimilar e refletir sobre os recursos trazidos por esses aparelhos: fomos
engolidos por eles. Não é de se estranhar o fato de ainda não estarmos amadurados frente
às consequências da nossa interação com os smartphones.

Pensando na necessidade de atuar enquanto pais e educadores, estaríamos tentando


ensinar o que ainda estamos a aprender.

José Saramago, célebre escritor português, em seu livro “A maior flor do mundo”, convida-
nos a pensar: “E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para
os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado
a ensinar?”

Transpondo a proposta de reflexão acima para o universo das ‘orientações de uso dos
smartphones’, será que nós, pais e educadores, somos capazes de aprender de fato
que estamos ensinando aos nossos filhos?

Importante que pensemos sobre isto com atenção redobrada, posto que estamos todos
ingressando na ‘escola da conscientização tecnológica’ e temos muito a aprender com
nossos filhos.

Em A Maior Flor do Mundo (2001), Saramago desenvolve uma crítica ao desenfreado


crescimento das cidades e à devastação das vidas. Enxergo uma possível analogia de sua
mensagem com a assolação de muitas mentes pela ascensão tecnológica dos tempos
atuais.

Curta-metragem A Maior Flor do Mundo (2006)

Temos portanto uma questão que nos pede profunda reflexão: como orientar filhos pré-
adolescentes na relação com smartphones, se ainda estamos aprendendo o que
esses dispositivos significam para nós?

Como criar um nativo digital?


Jovens que nasceram na era da conexão são os chamados nativos digitais e, diferente de
seus pais, é quase orgânico para eles observar o mundo através das lentes desse binóculo.
Nenhuma adaptação se fez necessária, dado que não se sabe ao certo quem está mais
conectado a quem.

Esses ditos “prodígios do mundo digital”, como costumam bradar orgulhosos os pais de
muitos deles, costumam impressionar todos quando habilmente “desenrolam” e resolvem
todo tipo de problema nesses aparelhinhos.

Esse orgulho bobo, no entanto, logo se transmuta em preocupação. Quando aquela criança
recém-chegada à pré-adolescência prefere ficar jogando no celular ao invés de brincar com
amigos, ou seus pais percebem que o hábito da leitura tem sido negligenciado em troca de
mais tempo dedicado às redes sociais ou notam um claro desinteresse pela matemática e
não ouvem mais as vozes agudas daquelas pestinhas nos encontros familiares.

Pais mais atentos às mudanças no comportamento dos filhos, aos primeiros sinais desse
apego ao celular, costumam reagir, por padrão, usando a temida voz da autoridade.
Utilizam-se então da repressão e não pensam duas vezes antes de punir seus
“pequenos”, colocando os celulares de castigo.

Isto funciona? Alguns pais se satisfazem com a obediência dos filhos enquanto seus
celulares estão retidos e acreditam que essa atitude é eficiente. Outros, porém, suspeitam
que afastar os apaixonados vai intensificar ainda mais a dependência mútua entre eles e
optam por outras estratégias de controle, vigiando e cercando a vida digital de seus filhos.

A verdade é que estas duas abordagens (reter o celular ou controlar seu uso) têm uma
característica em comum: ambas são fortemente opressoras. Tais abordagens fogem
daquilo que talvez pudesse ser o mais enriquecedor na relação entre pais e filhos, isto é, a
construção de uma intimidade mais profunda. Por que deixamos isso acontecer?

Quando falta disponibilidade dos pais para manter uma agenda positiva de diálogo com seus
filhos, a busca por atalhos e esquemas que “resolvem” tem sido uma prática habitual.
Entretanto o problema é que esses “caminhos mínimos” nem sempre alcançam o núcleo
das questões ou sequer as tangenciam. Em muitos casos, atendem meramente à ansiedade
dos pais por se sentirem seguros e confiantes de que estão acompanhando seus filhos com
mais proximidade.

A dádiva de poder duvidar de si mesmo

Desconfio que o gosto pelas certezas, em detrimento do acolhimento das dúvidas, possa
explicar a correria de muitos pais em encontrar soluções mágicas na resolução de conflitos
com filhos. Vivemos em uma sociedade que valoriza o acerto e abomina o erro e temos sido
constantemente educados para a vitória.

O brilhante ator argentino Ricardo Darín, quando se refere à permanente pressão sofrida
pelos jovens na atualidade para serem bem-sucedidos em tudo que fazem, demonstra sua
indignação com a seguinte fala:

“Eu detesto essa visão. Detesto a visão de não poder equivocar-se, de não poder aprender
com os erros, de não poder falhar, levantar-se, recuperar-se e seguir em frente, porque isto
é um dos motores do templo humano: errar.”

Também sofrem os pais dessa geração de jovens um outro tipo de pressão não menos
importante: servir de exemplo aos filhos. Quando isto é levado ao extremo, tornam-se
crentes de que são o “caminho, a verdade e a vida” para seus filhos. Sem as devidas
ponderações, essa ideia é inútil e pode adiar a necessária revisão de posturas e hábitos que
os pais tendem a seguir, assim como limitar as ricas possibilidades de troca na relação com
seus filhos.

A sede de certezas dos pais vem a se tornar um complicador ainda maior, uma vez que,
quando o tema é tecnologia, não poderão contar com lições aprendidas de gerações
anteriores.

Os avós de seus filhos, quando ainda vivos, estarão no máximo engatinhando na descoberta
de seus próprios smartphones e não terão muito a ensinar sobre isso. Esse vazio na
experiência geracional anterior (que normalmente ainda serve como referência “segura” na
escolha de caminhos para muitos pais de hoje) produz um vácuo que aterroriza muitas
famílias.

Não existem receitas prontas e muito menos certezas de qualquer espécie: os pais de hoje
devem pensar pela primeira vez sobre tudo isso. Talvez o que possa servir de alimento
na desafiadora trilha de descobertas a ser seguida pelos pais é a dúvida, o questionar-
se. Duvidar de si mesmo é um bom exercício para começar.
Escultura O Pensador (Le Penseur) no Museu Rodin, em Paris

Você poderia chegar à conclusão que nossos filhos precisam de nós e que (re)agir a essas
questões todas postas se faz urgente. É claro que precisamos agir, mas ação, neste caso,
precisa caminhar de mãos dadas com reflexão.

 Será que de fato estou elaborando bem a relação que tenho com meu celular? Será
que posso justificar a mim mesmo o tempo médio diário gasto olhando a tela do
celular?
 Estou viciado?
 O uso que faço do celular tem afetado meu rendimento profissional?
 Estou conseguindo ter foco quando preciso?
 Estou me relacionando bem com minha família e as pessoas ao meu redor?
 Precisaria de fato participar desse ou daquele outro grupo no meu WhatsApp?
 Tenho acompanhado com regularidade e atenção o estudo dos meus filhos?
 Será que o X da questão está mesmo no smartphone?
 Será ele tão esperto assim e que por isto devemos direcionar todos os esforços para
afastá-los de nossos filhos?
 Estariam os smartphones se aproximando da categoria de lícitos danosos como o
álcool?

Quando os pais se decidem a pensar seriamente sobre a relação que estão mantendo com
seus próprios smartphones, estão automaticamente se iniciando em um processo de
conscientização tecnológica. Estão investigando melhor como se locomovem nessa infinita
teia digital e para onde estão sendo levados por ela nas escolhas que fazem diariamente.
A elaboração dessa consciência possibilita, em primeiro lugar, reconhecer que mais
essencial do que agir instintivamente com seus filhos sobre essa questão, é
compreender que estamos todos lidando com um problema complexo e de elevado
potencial de crescimento.

Nesse caminho, entenderemos de uma vez por todas que atalhos, dicas, truques e receitas
prontas não poderão, isoladamente, compor uma base segura de suporte para planejar
ações a serem trabalhadas com nossos filhos. Todos os envolvidos nessa história
merecem muito mais.

Tecnologia ‘desumanizada’

Apesar de nativos digitais, nossos pré-adolescentes podem enfrentar dificuldades para


driblar os diversos obstáculos e escapar das sutis emboscadas na relação com seus
smartphones. Para orientar os filhos, os próprios pais precisam pensar com mais seriedade
sobre o impacto desses dispositivos em suas vidas.

Assim pensando, parece que estamos em um “mato sem cachorro”, mas os caminhos para
a resolução desse impasse podem surgir de uma reflexão sobre “quem manda em quem”
na nossa relação com as tecnologias.
Após leitura do artigo Como a tecnologia sequestra a mente das pessoas, publicado no PdH,
tomei conhecimento do movimento Time Well Spent, criado pelo ex-especialista em ética de
design do Google, Tristan Harris.

Harris descortina com clareza como as empresas de aplicativos para smartphones operam
práticas de design de suas soluções, objetivando primordialmente o sequestro da atenção
dos usuários, mantendo-os grudados à tela para a geração ininterrupta de lucro.

Maravilhando com o trabalho do Tristan, interessei-me no aprofundamento das proposições


por ele apresentadas. Analisando o que ele chamou de “catálogo de prejuízos”, mais
especificamente no seu caderno para crianças, um sonoro e ruidoso alarme começou a soar
em minha mente e tornou-se impossível deixar o assunto de lado desde então. Os prejuízos
afetariam as seguintes às seguintes áreas sociais

1. Atenção (perda da habilidade em focar sem distração);


2. Saúde mental;
3. Relacionamentos;
4. Democracia;
5. Crianças;
6. "Só pros outros” ( em referência ao fato de muitas pessoas que trabalham em
empresas de tecnologia limitarem o uso de tecnologia em suas próprias casas).

O que o movimento liderado pelo Tristan deseja, fundamentalmente, não é a interrupção


desse trabalho, mas a conscientização dos players desta indústria sobre a necessidade de
se associar mais concretamente uma visão humanizada ao desenvolvimento
tecnológico.

O objetivo é que as empresas considerem os graves e silenciosos problemas que afetam a


população global tais como: vício digital, bullying e comparação social (que comprometem
seriamente nossa saúde mental), a dificuldade crescente de separar fato de ficção (fake
news), rachas ideológicos (polarização), entre outros.

Desde que deixou a Google, em 2018, Tristan vem evoluindo esse debate, que hoje se
consolida com a criação do Center for Humane Technology - um centro de pesquisas para
à construção de tecnologias mais humanizadas. Estampada em sua página inicial, está a
profética missão: “Reverter o rebaixamento humano, inspirando uma nova corrida ao topo e
realinhando tecnologia com humanidade”.

Como um grupo de empresas de tecnologia controla bilhões de mentes todos os dias.

Harris tem corrido o mundo defendendo suas ideias e aprofundando as discussões em torno
do tema. O vídeo acima é um TED de 2017 em que ele detalha como companhias de
tecnologia operam na indústria da atenção visando a manipulação de bilhões de pessoas.

Reunindo os Dados

Quando focamos o olhar sobre os estudos do Center for Humane Technology, os dados
relativos à questão das crianças em face aos novos desafios de aprendizagem e
socialização e a preocupação com o desenho do futuro de nossa sociedade chamam
atenção.

 Cyberbullying: Crianças vítimas de cyberbullying têm 3 vezes mais chances de se


envolver em ideação suicida do que crianças que não sofrem bullying, enquanto
aquelas que experimentam bullying “tradicional” têm 2 vezes mais chances.
(Relationship Between Peer Victimization, Cyberbullying, and Suicide in Children
and Adolescents)
 Vício digital: 78% dos adolescentes checam seus smartphones pelo menos de
hora em hora e 50% relatam sentir-se “viciados” em seus telefones, enquanto isso,
69% dos pais checam seus aparelhos pelo menos a cada hora, e 27% dos pais
se sentem “viciados” (Technology Addiction: Concern, Controversy, and Finding
Balance).
 Desafios de aprendizagem e socialização: 86% de mais de 2.200 professores
disseram que o número de alunos com desafios sociais aumentou nos 3–5 anos
anteriores a 2015; 90% disseram que viram desafios emocionais aumentados e
77% desafios cognitivos (Growing Up Digital Alberta Enhancing/Distracting -
2016).

Pensando agora mais especificamente em nossos pré-adolescentes (pois com as crianças


menores ainda temos o benefício de postergar o uso de smartphones com mais
tranquilidade), antes de buscarmos soluções para “resgatá-los”, por assim dizer, de
dificuldades aparentes que estejam enfrentando sozinhos na relações com seus
smartphones, faz-se mais importante que procuremos observar com mais cuidado e amiúde
o que tem permeado tais relações.

Essa busca e compreensão leva a um ganho inevitável de intimidade no


relacionamento entre pais (ou educadores) e filhos, resultando em mais generosidade e
respeito com os universos de afetos envolvidos e nos quais estamos todos mergulhados.

Se existem fortes indícios de “desumanidade” no projeto de aplicativos que rodam nos


smartphones e que seduzem e aprisionam nossos pré-adolescentes, estes não podem ser
culpados de nada.E identificar culpados não seria o mais importante a ser feito, mas
sim racionalizar melhor as situações para que os enfrentamentos necessários possam
lograr mais êxito.

O que sabemos até aqui é que o que nossos adolescentes têm experimentado não é um
jogo, em que os smartphones seriam os adversários a serem batidos. E que simplesmente
afastá-los de seus celulares é ação inócua, uma vez que esses eletrônicos em si e
isoladamente não representam causa de nenhum problema que eles possam estar
vivenciando. Os celulares, apesar de muito espertos, não têm consciência alguma sobre
nada e sequer conhecem seus usuários. Nossos pré-adolescentes, ao contrário, além de
muito espertos também, são conscientes e podem conhecer melhor seus celulares. É essa
consciência que precisa ser lapidada.

***

Um mundo virtual de escolhas reais


Em seu último livro, 21 Lições para o Século XXI, o historiador israelita Yuval Noah Harari
diz que

“Cada vez mais vamos confiar nos algoritmos para que tomem decisões por nós, mas não
é provável que os algoritmos comecem conscientemente a nos manipular. Eles não terão
consciência.”

Harari define consciência como “[…]a aptidão para sentir coisas como dor, alegria, amor e
raiva”. De fato, os algoritmos têm se incorporado sutil e velozmente em nossas rotinas e
participado ativamente em muitas de nossas tomadas de decisão: a escolha da melhor
rota para se chegar a um destino, a indicação de um restaurante nas redondezas, a
primeira notícia a ser lida , a playlist a ser executada, etc.
Os algoritmos estão sempre dispostos a sugerir, eles respondem com agilidade e,
principalmente, eles aprendem continuamente sobre nossos interesses, à medida que
“fazemos escolhas nas redes”.

Quando erram, perdoamos. Mas em geral, nos satisfazem. Todavia, concordo com o
Harari que, mesmo reconhecendo a incontestável esperteza dos algoritmos, esses não
têm consciência alguma do que estão fazendo por nossas vidas. São inconsequentes.
Podem nos guiar em direção a abismos ou paraísos  — e não partilham das dores,
alegrias, amores ou raivas de ‘nossas escolhas’: eles, os algoritmos, não estão nem aí
para nossas vidas.

Conhecer melhor o poder de influência dos algoritmos em nossas vidas torna-se


fundamental quando refletimos sobre a relação entre nós e os smartphones. Afina, esses
dispositivos representam a ponte mais direta entre nós e “nossas escolhas”.

Retornando a atenção aos nossos pré-adolescentes, que navegam por entre algoritmos
com a naturalidade de nativos digitais que são, poderíamos experimentar fazer a eles a
seguinte pergunta: que consciência estão tendo das escolhas e descobertas que
acontecem em suas vidas através de seus smartphones?

Uma vez que esses pré-adolescentes se sentirem mais à vontade em partilhar com pais e
educadores impressões de suas aventuras reais em seus universos virtuais, estas trocas
poderão fluir com mais lucidez e empatia.

Acreditamos em duas hipóteses: 1) vivenciamos escolhas reais enquanto mergulhamos


em universos virtuais; (2) isso nos afeta positiva e negativamente, interferindo em nossa
potência de existir no mundo.

A partir destas duas ideias, entendemos que a íntima relação entre nossos filhos e seus
smartphones pode nos servir como um caminho para nos aproximar mais dos
adolescentes a partir, por exemplo, do diálogo sobre seus smartphones, o uso que fazem
deles, seus interesses e desejos.
Dessa maneira, pais e educadores que decidam acolher essa relação sem medos pré-
concebidos, estarão investindo na elaboração de uma consciência tecnológica, que é
capaz de promover avaliações mais aprofundadas e ricas sobre as escolhas e descobertas
vivenciadas em rede.

Também não podemos esquecer que, ao falarmos de consciência, nos afastamos de


conceitos de opressão. A opressão dita regras e opera controles rígidos. Os caminhos
virtuosos da conscientização são reflexivos. Opressão paralisa, consciência faz levitar.
Enfim, o que podemos constatar é que, se a opressão nos leva à obediência cega, a
consciência nos eleva à empatia generosa.

Considerando a estrada da consciência tecnológica um caminho possível, pais e


educadores precisam descer de seus pedestais e trabalhar duramente na conversão de
medos e preconceitos acerca das tecnologias de rede, em coragem e conhecimento,
respectivamente. Racionalizar as diversas questões a serem enfrentadas nesse contexto,
refletindo sobre, tecem um caminho seguro, porém dinâmico.

Tecnologia pra regular a tecnologia: solução ou complicação?

Cada pré-adolescente é único e cada caso é um caso. É importante ser muito cuidadoso
com receitas prontas  recheadas de dicas simples a serem seguidas e prometendo resolver
de uma vez por todas problemas advindos do uso de smartphones.

Nem sempre existem problemas concretos a serem resolvidos. O esforço genuíno de se


aprofundar e entender como os jovens usam as redes  pode nos levar a ver o que antes
era um problema a partir de um novo ponto de vista. Simples assim.

Ao perceberem "perigo no ar", muitos pais procuram modernas soluções


tecnológicas, aplicativos que resolvam o "problema" do filho que usa muito o celular. Tais
soluções apresentam algumas características em comum:
 São de natureza estritamente tecnológica, não favorecendo o diálogo entre pais
e filhos, preconizando a autoridade dos pais e reforçando a verticalização da
orientação de cima (os pais) para baixo (os filhos);
 Muitas delas são bem invasivas e disparam (mais) notificações na tela do celular,
assim como requisitam esforço adicional de configuração nos aparelhos;
 Monitoram em tempo real notificando os pais acerca de cada passo dado pelos
seus filhos com os smartphones (bem como permitem o bloqueio à distância de
recursos dos celulares), reforçando a necessidade de controle e fortalecendo
uma relação de desconfiança entre pais e filhos.
 Submetem à aprovação dos pais as solicitações dos filhos para acesso a algum
conteúdo específico não pré-autorizado, o que limita a autonomia dos filhos.
 Disponibilizam aos pais o controle do tempo de uso dos celulares pelos
filhos, tirando dos jovens a capacidade deles de bem gerir o tempo dedicado
aos seus interesses pessoais através dos smartphones.

É legal que os pais combinem com seus filhos, antecipadamente, regras a serem seguidas
em relação ao uso de aplicativos como esses. Isso não seria nenhuma opressão, afinal
cabe aos pais ditar “as regras do jogo” em casa e aos filhos obedecê-las.

Também é completamente compreensível, em algumas situações de alto risco em que os


filhos estejam inseridos, que os pais possam agir com emergência e restrição mais geral.

Em situações extremadas assim, os pais agirão quase que completamente sobre


as consequências. E as causas, se não identificadas e tratadas, tendem a se
manter intactas, instaladas tal qual parasitas esperando novas oportunidades de ação.

Quando os pais puderem agir antes de situações extremas, aproveitando a oportunidade


para investir em diálogo construtivo com seus filhos, horizontalizando a comunicação e
dividindo com eles suas dúvidas e receios, a narrativa será outra bem diferente.

Neste contexto mais humanizado com espaço para o diálogo, a adoção de mais tecnologia
para mediar a relação entre seus filhos e seus celulares poderá ser descartada em favor
de um ambiente mais cooperativo, ético e honesto.

Contudo, também existem soluções situadas na ‘terceira margem do rio’. Apesar de


serem tecnológicas e distribuídas na forma de aplicativos para smartphones, foram
projetadas para serem minimamente invasivas e mais humanizadas, buscando educar
seus usuários com mais leveza na trilha da conscientização tecnológica e na recuperação
de mais tempo diário para dedicação à “vida fora do celular”.

Aplicativos como Moment (recomendado pelo Center for Humane


Technology), Forest, Flipd e Mute, estão no grupo de soluções tecnológicas mais
humanizadas. Eles trabalham para conduzir seus usuários a uma desconexão mais
consciente e sustentável, estampando lemas como “Fique focado, esteja presente”.

Destaco abaixo algumas características de soluções como essas:

 Têm natureza menos invasiva;


 São desenhados com base em linhas de ação que favorecem a tomada de
consciência (medidas de tempo, frequência de acesso aos smartphones, status
de progresso e gráficos de monitoramento etc)
 Favorecem mudanças de hábito (através de coach, detoxing, mensagens
motivacionais, práticas de meditação, mindfullness etc);
 Produzem gráficos diários, semanais e quinzenais demonstrando a ‘realidade fria’
da relação do usuário com seu smartphone em aspectos como tempo de tela,
vida no telefone, número de desbloqueios, aplicativos mais usados etc.
Eu mesmo uso alguns desses aplicativos há algum tempo. Costuma ser impactante, a
princípio, nossa tendência natural para subestimar o tempo que passamos grudados nas
telas dos celulares.

À medida que o vai adquirindo informações mais precisas acerca dessa relação, o usuário
se capacita para, se quiser, iniciar um processo de desconexão. De acordo com o que
está publicado no site oficial do Moment, por exemplo, o uso do aplicativo já conseguiu
devolver uma hora diária na ‘vida real’ a pelo menos 7 milhões de usuários pelo mundo.

Importante reforçar que, mesmo aplicativos com propostas mais humanizadas não podem
ser tomados como alternativa eficaz para qualquer situação. Vale a experimentação em
busca daqueles que respondam melhor às peculiaridades de cada situação individual.

Transformação pessoal digital e darwinismo tecnológico


Minha caminhada investigativa sobre a influência dos smartphones na ‘transformação
pessoal digital’ iniciou-se efetivamente em 2011, quando optei por desativar por um
tempo minhas redes sociais e o WhatsApp. Foi meu ponto de partida na estrada da
consciência tecnológica.

Conversando com colegas sobre o peso de nossas relações com os celulares, notava que
o assunto não saía da superfície e nem despertava interesses mais honestos. Comecei a
pensar que talvez estivéssemos entorpecidos com as ‘vantagens’ de estar
progressivamente mais conectados.

Outra impressão muito forte que também pude formar naquele tempo, quando os
smartphones ainda estavam se consolidando estética e funcionalmente, é que havia um
maior apreço pela praticidade de se ‘ganhar mais tempo’ com o uso dos celulares.

A conveniência começava a ganhar ares de maior importânciaem relação ao labor de


escolhas pessoais mais significativas.
Sem querer imprimir um ar nostálgico à reflexão, o que poderia soar dramático demais, o
que hoje chamamos de prevalência dos algoritmos por trás de nossas escolhas, estava
sendo semeado há pelo menos uma década. Como boas cobaias, alimentamos
obedientemente o vertiginoso crescimento dessa indústria e passamos a sorver o oxigênio
digital emanado dessa rica flora tecnológica.

Talvez, nesta última década, tenhamos vivido num possível Darwinismo tecnológico, em
que tivemos de nos adaptar continuamente aos rápidos avanços tecnológicos, a fim nos
mantermos em marcha no mundo moderno.

Como resultado deste processo, anexou-se às nossas mãos um ‘cérebro artificial’ na


forma de um smartphone.

Partindo desta premissa, faz-se imprescindível que busquemos uma fusão mais lúcida
entre as qualidades humanas intrínsecas de nossa espécie e a adoção irreversível de
tecnologias em nossas vidas.

Protagonismo Pré-Adolescente e Empoderamento


Nos dias de hoje, os smartphones, as tecnologias e as redes se tornam cada dia mais
potentes. E nós? Estamos também nos tornando humanos mais poderosos à medida que
nos apropriamos dos smartphones ou simplesmente estamos sendo expropriados de nós
mesmos por eles?

É uma questão bastante discutível, com toda certeza. O que estou tentando enfatizar aqui
é o incremento de poder de nossas faculdades humanas e nesse quesito estamos
carentes de discussões mais abalizadas.

Tenho hoje em casa a oportunidade de conviver com dois filhos pré-adolescentes e mais
um bebê de um ano. Para você que conseguiu chegar até aqui na leitura desse texto, não
vai estranhar se eu disser que travamos discussões acaloradas em casa sobre uso de
celulares quase que diariamente.

Com o caçula, que já se mostra curioso com as cores vibrantes do celular no leve toque de
seus minúsculos dedinhos, minha única preocupação e deixá-lo longe dessa encrenca por
pelo menos uma década.

O nível das discussões está evoluindo a cada questão que esmiuçamos. Procuro
aproveitar qualquer chance para debater sobre essa temática com eles e confesso que
sempre estou aprendendo muito. Eles me trazem um olhar pré-adolescente que nem
sempre é de fácil alcance para mim.

O que percebo, a partir das relações que eles mantém com seus celulares, é a como eles
são distintamente afetados pela tecnologia. Os celulares são para eles, em essência, um
instrumento em que eles, ao mesmo tempo em que se encontram (consigo mesmos),
também se revelam como pessoas humanas que são. A tecnologia é secundária e simples
mediadora.

Estimulado por esse debate doméstico cotidiano e também pelo crescente número de
situações vivenciadas por colegas dos meus filhos, trazidas ao meu conhecimento
diretamente por eles ou em trocas com outros pais, comecei também a investigar como
essa temática tem sido tratada nos ambientes escolares.

O quanto nossos educadores estão preparados para lidar com isso? Quais as falas
predominantes em torno de temas tão capciosos e atuais?

Conversei com diretores, professores e psicólogos de escolas, assisti a vídeos e pude ler
alguns bons artigos sobre essa matéria. E estou formando uma convicção de que o enredo
padrão das falas atuais me parece morno, superficial e dessintonizado com o momento
tecnológico em que vivemos. O medo e o controle embasam as teses e autoridade e
opressão são ferramentas comuns para ditar regras a serem seguidas.
O esperado é que pais e educadores estejam ditando o “uso correto” de
smartphones pelos nossos pré-adolescentes.

Desse esforço de aprofundamento nasceu a TechConscious, iniciativa que tem como


fundamento basilar a instauração do protagonismo nos pré-adolescentes quanto à
elaboração de uma consciência tecnológica progressivamente mais apurada.

Os holofotes deveriam estar sobre eles e seguem abaixo algumas justificativas em prol do
protagonismo pré-adolescente/adolescente:

 São eles os protagonistas concretos das narrativas em questão e também os mais


diretamente afetados por elas;
 Dominam com total fluência a linguagem digital, que muitas vezes se mescla e se
confunde com o dialeto falado entre eles;
 Sentem na pele as emoções vividas no contato intenso através das telas de seus
smartphones: trocam incontáveis mensagens diariamente (texto, imagens,
vídeos e ‘otras cositas mas’), conhecem pessoas, ‘namoram’ e terminam
relacionamentos etc;
 São os primeiros a saber, em riqueza de detalhes, dos ‘babados’ e ‘tretas’
possíveis e inimagináveis;
 Têm os smartphones como principal arma para o “bem” ou para o “mal” e suas
vozes estridentes como munição infinita;
 São mestres na arte de desvendar os mistérios sobre seus amados celulares e
aplicativos e tudo mais que ainda nem foi inventado;
 Estão mais conectados do que ninguém
 Escondem, por trás do habitual silêncio com os celulares em mãos, olhos vibrantes
e ouvidos atentos, um sem fim de ideias, sonhos e desejos;
 Sabem bem como dispensar sugestões dos algoritmos, quando as consideram
inapropriadas ou desinteressantes.
 Descobrem maneiras de se camuflar do monitoramento dos pais e da escola e
nem sempre é trivial seguir os rastros deixados por eles.
Não é ficção científica e nem profecia. É a vida como ela ‘está’. Nossos pré-adolescentes
têm sim um instrumento de poder na palma das mãos, mas não necessariamente estão
empoderados para a vida. Falta-lhes consciência, pois empoderamento só existe
quando se sabe responder para quê.

A boa nova é que eles mesmos são os mais capazes para conduzir a si próprios na trilha
da elaboração de uma consciência tecnológica, tornando-se os críticos mais contundentes
de si mesmos.

Cooperação horizontal entre pré-adolescentes, pais e escolas


Se paralelamente ao protagonismo de nossos pré-adolescentes nos caminhos da
conscientização tecnológica, pais e educadores se unirem em favor da promoção dos
ambientes domésticos e escolares a espaços concretos de diálogo não opressores,
confiança e cooperação serão as bases.

Basicamente, o que se precisa fazer é derrubar muros e construir pontes. Horizontalizar a


comunicação entre todos os atores envolvidos, tendo os pré-adolescentes no centro da
roda e também tomando decisões, significa apostar no futuro.

Quando ninguém é dono da verdade e todos estão cientes de que não existem verdades
absolutas, caminhos mais interessantes se destacam no labirinto de rotas possíveis.

A TechConscious se propõe então a funcionar como uma espécie de mediadora de


discussões sobre uso de tecnologias na interação entre educadores (pais e escola) e pré-
adolescentes. Sua filosofia pode ser fundamentada basicamente em três pilares:

1. Protagonismo dos pré-adolescentes,


2. Elaboração regular da consciência tecnológica
3. Cooperação contínua e proativa com pais e escola.

Entendemos que os pré-adolescentes precisam de espaço para que também possam


dedicar tempo a pensar sobre o que têm feito olhando a tela de seus celulares. Uma vez
que família e escola operarem cooperativamente na construção de espaços
verdadeiramente democráticos, nossos pré-adolescentes poderão exercer seu
protagonismo natural nesse debate.

As apostas feitas por nós com proposições práticas em ambiente escolar apontam no
sentido da mediação destes debates.

O nosso plano de ação precisa usar o mesmo uniforme dos alunos, ou seja, precisa se
adaptar ao modo de funcionamento da escola. Precisa estudar a escola e viver seu dia a
dia a fim de alcançar aproximações sinceras com as dinâmicas vivenciadas por todos os
atores no ambiente escolar e, especialmente, pelos pré-adolescentes.

Em razão disso, a realização de pesquisas é uma das principais ferramentas na


customização do plano geral a ser trabalhado na escola. A lista abaixo apresenta
exemplos de ações concretas que podem ser desenvolvidas:

 Pesquisas com pais de alunos (conhecer melhor os perfis das famílias envolvidas
e trabalhar os resultados obtidos das pesquisas para nivelar conhecimento sobre
as temáticas a serem trabalhadas com os alunos, etc);
 Pesquisas com alunos (levantar informações para a montagem de mapa temático
visual da relação atual das turmas com os smartphones, priorizar com eles
áreas de maior interesse de estudo e suas principais dores iniciais, etc);
 Coordenar implantação de soluções tecnológicas com propostas mais
humanizadas como possíveis ferramentas auxiliares à prática não invasiva de
automonitoramento na utilização de smartphones, produzir métricas a partir de
dados coletados e construir coletivamente metas a serem trabalhadas pelas
turmas;
 Promover debates com pais e educadores através de palestras sobre temáticas
trabalhadas no ambiente escolar;
 Realizar encontros regulares (semanais ou quinzenais) com alunos para
acompanhamento das demandas sendo trabalhadas, no sentido de trazer essa
pauta definitivamente para a agenda da escola e das famílias;
 Implantar um canal para recepção de dúvidas, sugestões e críticas dos alunos
acerca das temáticas estudadas, sem que tenham que se identificar;
 Acompanhar os alunos na organização de eventos com materiais e formato
preparados com os alunos, a fim de divulgar com o restante da escola as
questões que estão sendo discutidas, através da apresentação dos resultados
alcançados e prospecções futuras pelos próprios alunos.

Gostaria muito de saber como vocês, leitores, enxergam a consciência tecnológica como
uma solução para o uso mais saudável dos smartphones.

Que caminhos vocês têm trilhado para evitar ou mitigar o vício em celulares? Para os que
são, pais e educadores, o que acham das proposições de ter uma mediação nas
discussões acerca dessa temática dentro das escolas?