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A SENHORITA DE TÁCNA

MARIO VARGAS LLOSA


PERSONAGENS

MAMAÉ (1) – Velha centenária

AVÓ CARMEM – Prima dela. Um pouco mais moça e mais bem conservada

AVÔ PEDRO – Marido de Carmem.

AGOSTINHO – Filho maior do Avós, aí pelos cinqüenta anos.

CÉSAR – Segundo filho, mais moço do que Agostinho.

AMÉLIA – Filha. Aí pelos quarenta anos.

BELISÁRIO – Filho de Amélia.

JOAQUIM – Oficial chileno, jovem e bem posto.

A SENHORA CARLOTA – Bela e elegante, aí pelos trinta anos.

(1) Nota do tradutor – A pronúncia deve ser MAMA-É.

CENÁRIO E ROUPAS

O cenário se divide em dois: A CASA DOS AVÓS, na Lima dos anos


cinqüenta, e o QUARTO DE TRABALHO DE BELISÁRIO, em qualquer parte
do mundo, no ano de 1980.
A maior parte da ação transcorre na CASA DOS AVÓS. Sala de refeições de
um modesto apartamento de classe média. Duas portas, uma pra rua, outra pro
interior da casa. O mobiliário demonstra que a família vive numa apertura
econômica confinando com a miséria. Os móveis imprescindíveis são a velha
poltrona onde mamaé passou boa parte dos seus últimos anos de vida, a
cadeirinha de madeira que lhe serve de bengala, um velho aparelho de rádio e a
mesa onde tem lugar a ceia familiar do Segundo Ato. Há uma janela dando pra
rua, por onde se ouve passar o bonde.

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O cenário não deve ser realista. É um décor lembrado por Belisário, produto de
sua memória, onde as coisas e as pessoas são fantasmagóricas, independentes
de seus modelos objetivos. Além disso, no transcurso da ação, este cenário se
transforma em outros; uma sala na casa de Tácna onde viviam a Avó e Mamaé,
quando moças: a sala de refeições de Arequipa, quando o avô era agricultor em
Camaná, na década dos vinte; a casa da Bolívia, onde mamaé contava istórias a
Belisário, nos anos quarenta; e o alojamento em Camaná, de onde o avô escreve
à esposa a carta que mamaé lê às escondidas. O mesmo cenário se transforma
também em lugares puramente mentais, como o confessionário do Padre
Venâncio. Convém, portanto, que o cenário tenha certa indeterminação que
facilite ( ou pelo menos não atrapalhe ) essas mutações.
O quarto de trabalho de Belisário é uma mesa rústica, cheia de papéis,
cadernetas e lápis e, talvez, uma pequena máquina de escrever portátil. É
importante, por simples que seja, que esta parte do cenário defina um homem
cuja vida é escrever, alguém que passa ali uma boa parte do seu tempo e que,
além de escrever, dorme, come, remói suas lembranças, se confessa a si mesmo
e dialoga com seus fantasmas. Belisário deve andar entre os quarenta e
cinqüenta anos, talvez seja até mais velho. Tem, em todo caso, vasta
experiência no ofício de escrever e o que acontece no curso desta história
seguramente deve ter ocorrido com ele quando escrevia outras. A julgar por
suas roupas e por seu aspecto, é um homem sem recursos, descuidado, de vida
desordenada; as fronteiras entre os cenários aparecem e desaparecem à vontade,
segundo a necessidade da representação.
O vestuário talvez deva ser realista porque as roupas dos personagens podem
marcar as diferenças temporais entre as cenas. O oficial chileno deve vestir um
uniforme do princípio do século, com botões dourados, talabarte e espadim. A
senhora Carlota veste um vestido de época. Os Avós e Mamaé devem vestir não
apenas com modéstia mas também com alguma coisa que os coloque nos anos
cinqüenta. Enquanto Belisário, nos trajes, no penteado, etc deve mostrar-se uma
pessoa de nossos dias.

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PRIMEIRO ATO

(O cenário está às escuras. Se ouve – intranqüila, angustiada, tumultuosa – a


voz de Mamaé. Sua cara imemorial se ilumina: Uma cara toda de rugas).

MAMAÉ – Os rios, os rios estão subindo... A água, a espuma, os pingos, a


chuva está encharcando tudo, lá vêm as ondas, o mundo está inundando, a
enchente, a água avança, está subindo, está transbordando. As cataratas, as
borbulhas, o dilúvio, pinga, pinga, o rio... Aiiiii!
(O Cenário se ilumina todo. Mamaé está encolhida em sua velha poltrona e há
um charco a seus pés. Belisário está sentado em sua mesa de trabalho,
escrevendo com fúria. Tem os olhos acesos e, enquanto o lápis corre pelo
papel, move os lábios como se ditasse a si mesmo o que escreve).

AMÉLIA (Entrando) – Ah, que coisa, Mamaé, fez pipi no chão outra vez! Por
que não pede pra ir no banheiro? Quantas vezes já te disse? Pensa que isso não
me dá nojo? Já estou farta dessas tuas porcarias! (Cheira) Espero que não tenha
feito também outra coisa. (Um gesto de desagrado ao qual Mamaé responde
com um aceno sorridente. Quase no ato cai adormecida. Amélia começa a
secar o mijo com um pano de chão. À medida em que Amélia falava Belisário
se foi distraindo, como se uma idéia súbita, intrusa, interferisse com o que ele
está escrevendo. Levanta o lápis do papel, logo sua expressão é de desalento.
Fala pra si mesmo, a princípio entre dentes).

BELISÁRIO – O que é que você veio fazer numa istória de amor, Mamaé?
Que é que vai fazer uma velhinha que se urina toda, faz cocô nas calças, tem
que ser posta na cama, vestida, desvestida e lavada, porque os pés e as mãos já
não lhe obedecem — o que é que essa velhinha vai fazer numa istória de amor,
Belisário? (Subitarnente encolerizado joga o lápis no chão). Você vai escrever
uma istória de amor ou o que? Vou escrever o que. (Ri de si mesmo, se
deprime) O começo é sempre o pior, o mais difícil, quando as dúvidas e a
sensação de impotência são mais paralisantes. (Olha Mamaé) Cada vez que
começo me sinto como você, Mamaé; um velho de oitenta, de cem anos, e
minha cabeça é um redemoinho de grilos, como a tua, quando você era essa
coisa pequena, complicada e inútil, que provocava riso, compaixão e susto. (Se
levanta, aproxima-se de Mamaé; gira em volta dela, tendo entre os lábios o
lápis que apanhou do chão). Mas tua memória ainda te servia de vida, não é
mesmo? Já tinhas perdido os dentes? Claro! E também não conseguias usar a
dentadura postiça que tio César e tio Agostinho tinham te dado porque feria as
gengivas. O que é que você veio fazer aqui? Alguém te convidou? Não percebe
que me atrapalha? (Sorri, volta à mesa de trabalho, empurrado por uma nova
idéia) Mamaé. . . Mamaé. . . Alguma vez alguém te chamou de Elvira? Não,

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nem vovô, nem vovó, nem mamãe, nem os tios.. (Senta à mesa de trabalho e
começa a correr o lápis sobre os papéis, a princípio devagar, depois de
maneira corrente). Mamaé. O nome soava muito estranho às pessoas que não
eram da família. Por que a chamam assim? Que significa esse nome, de onde
vem? Mas eles também acabavam chamando — Mamaé. (Amélia, terminando
de limpar o chão, sai. Com as últimas palavras de Belisário entra Joaquim, o
oficial chileno. Veste uniforme do princípio do século, de cores vivas, com
bordados. Belisário continuará escrevendo durante toda a cena; a maior parte
do tempo fica concentrado nos papéis, mas às vezes levanta o lápis, coloca-o
na boca e o morde, enquanto inventa ou recorda. Fui certos momentos, como
que distraído, volta a olhar Mamaé e Joaquim, se interessando um instante
pelo que dizem. Logo volta aos papéis e escreve ou relê, com expressões vá-
rias).

JOAQUIM – (Sussurra, como inclinado sobre uma grade ou um balcão).


Elvira. Elvira. Elvira (Mamaé abre os olhos. Escuta. Sorri com malícia, olha
pra todos os lados, sobressaltada. Agora seus movimentos e sua voz são
jovens).

MAMAÉ – Joaquim! Mas você ficou louco! A estas horas! Meus tios vão
escutar.

JOAQUIM – Eu sei que você está aí, que está me ouvindo. Aparece um
segundo, Elvira. Tenho que te dizer uma coisa muito importante. Você sabe o
que é, não sabe? Que você é linda, que eu te quero, te desejo. Que conto as
horas que faltam pro domingo. (Marnaé se endireita e, alvoroçada, delicada
reticente, se aproxima da grade ou balcão).

MAMAÉ – O que é que te deu pra vir aqui a essas horas, Joaquim? Será que
ninguém te viu? Você vai arruinar minha reputação. As paredes de Tácna têm
ouvidos.

JOAQUIM – (Devora com beijos as mãos de Mamaé). Eu já estava deitado,


meu amor. Porém, de súbito, senti como a ordem de um general aqui no peito;
“se te apressas ainda a encontrarás desperta, voa até a casa dela.” E é verdade,
Elvira. Eu precisava te ver. Te tocar. (Mamaé evita as mãos ávidas de Joaquim,
que tenta agarrá-la pela cintura). Se eu não te visse agora ia ficar acordado a
noite inteira.

MAMAÉ – Mas não estivemos juntos a tarde toda? Que lindo passeio demos
pelas hortas com a minha prima, não foi? Quando te ouvi agora estava
exatamente me lembrando das romãs, das pêras, dos marmelos e dos pêssegos.
E o rio, que lindo! Gostaria de mergulhar de novo no Caplina, como nos tempos
de criança.

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JOAQUIM – No verão, se ainda estivermos em Tácna, eu vou te levar ao
Caplina sem que ninguém nos veja. De noite. Ali, no remanso onde
merendamos esta tarde. Nós tiramos a roupa. . .

MAMAÉ – Cala, Joaquim, não começa!

JOAQUIM – ... e tomamos banho nus. Brincamos na água. Você foge, eu te


persigo, e quando te agarrar. . .

MAMAÉ – Por favor, Joaquim, não seja vulgar.

JOAQUIM – Ora, nós vamos nos casar domingo.

MAMAÉ – Mas não vou deixar que me falte ao respeito mesmo quando for tua
mulher.

JOAQUIM – Não tem nada que eu respeite mais no mundo, Elvira. Olha, te
respeito mais do que o meu uniforme. E você sabe o que o uniforme significa
para um militar! Ainda que eu quisesse não saberia como te faltar ao respeito.
Te provoco de propósito. Pois adoro que sejas assim.

MAMAÉ – Assim como?

JOAQUIM – Uma menina de olhes-mas-não-me-toques. Tudo te parece mal,


tudo te dá medo, tudo te faz ruborizar.

MAMAÉ – Uma senhorita decente não deve ser assim?

JOAQUIM – Claro. Você não pode imaginar com que ânsia espero o domingo,
Elvira. Ter você só pra mim, sem acompanhantes; saber que você depende de
mim para a mais mínima coisa. Como vou me divertir contigo quando
estivermos sós. Vou te sentar nos meus joelhos e te obrigar a me arranhar no es-
curo, como uma gatinha. Ah, e vou ganhar aquela aposta. Contarei teus cabelos:
você vai ver que tem mais de cinco mil fios.

MAMAÉ – Você vai contar na noite de núpcias?

JOAQUIM – Não! Não na noite de núpcias. Quer saber o que vou fazer com
você nessa noite?

MAMAÉ – (Tapando os ouvidos) Não! Não quero! (Riem. Mamaé está


enternecida). Você vai continuar carinhoso assim, depois de nos casarmos?
Sabe o que a Carminha me disse, quando voltamos do passeio? “Você tirou a

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Sorte Grande com o Joaquim. É bonito, muito bem educado, um verdadeiro
cavalheiro.”
JOAQUIM – Você também acha? Já não se incomoda por eu ser chileno? Já se
acostumou à idéia de virar chilena?

MAMAÉ – Isso nunca. Continuarei peruana até a morte. E odiando esses


invasores que nos ganharam a guerra.

JOAQUIM – Vai ser muito engraçado. Quero dizer, quando você for minha
mulher e estivermos em Santiago, em Antofagasta, na guarnição pra onde eu for
indicado. Você vai brigar todo dia com meus companheiros por causa da guerra
do Pacífico? Se você falar mal, disser coisas assim contra os chilenos, eles vão
me processar por alta traição.

MAMAÉ – Eu nunca vou prejudicar tua carreira, Joaquim. Guardarei só pra


mim o que penso dos chilenos. Sorrirei pra eles e piscarei o olho pros teus
companheiros de armas.

JOAQUIM – Alto lá, nada de sorrisos nem piscadelas. Você sabe que sou
ciumento como um turco. E com você vou ser ainda mais.

MAMAÉ – Vai embora, agora. Se meus tios te descobrem vão ficar


aborrecidíssimos.

JOAQUIM – Teus tios, teus tios. O pesadelo de nosso noivado.

MAMAÉ – Não fala isso nem brincando! Que teria sido de mim sem tio
Menelau e tia Amélia? Teriam me metido na casa de morcegos de Tarapacá. No
Hospício, sim senhor.

JOAQUIM – Sei muito bem como foram bons com você. E me alegro mesmo
que te hajam criado numa gaiola de ouro. Mas em todo um ano de noivado
quase não consegui te ver sozinha. Está bem, está bem — você está preocupada
com. . . Eu vou embora.

MAMAÉ – Até amanhã, Joaquim. Na Missa da Catedral, às oito, como


sempre?

JOAQUIM – Como todos os dias. Ah, esquecia. Aqui está o livro que você me
emprestou. Tentei ler os versos de Frederico Barreto mas dormi logo. Leia por
mim, encolhidinha na cama.

MAMAÉ – (Arrancando um cabelo e oferecendo) Um dia recito em teu ouvido


e você vai gostar. Estou feliz em casar com você, Joaquim. (Joaquim, antes de

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partir, procura beijá-la na boca mas ela tira o rosto e oferece a face. Mamaé
volta à poltrona, recuperando a velhice no trajeto. Olha o livro de versos) Que
faria Joaquim se soubesse do leque? Desafiaria Frederico prum duelo, o
mataria. Você tem que quebrar esse leque, jogar fora, Elvira, não está certo
esconder. (Se encolhe na poltrona e dorme logo. Belisário, que levantou os
olhos do papel, parece agora muito animado).

BELISÁRIO – Essa também é uma istória de amor. É, Belisário, é. Como é que


você foi tão tolo, tão ingênuo? Por acaso se pode colocar uma istória de amor
numa época em que as meninas fazem amor antes da primeira comunhão e os
rapazes gostam mais de maconha do que de mulheres? Ao contrário, essa época
e esse lugar aí são ideais pruma istória romântica: Tácna, depois da guerra do
Pacífico, com a cidade ainda ocupada pelo Exército chileno. (Olha Marnaé)
Você era uma patriota convicta e confessa, não? Mamaé, qual foi o dia mais
feliz na vida da Senhorita de Tácna?

MAMAÉ – (Abrindo os olhos) O dia em que Tácna se reincorporou ao Peru,


meu menino! (Se persigna, agradecendo a Deus tamanha bem aventurança, e
volta a adormecer).

BELISÁRIO – (Melancólico) Uma istória romântica, dessas que já não


acontecem, dessas em que ninguém mais acredita, dessas que você tanto
apreciava, companheiro. Pra que você quer escrever uma istória de amor? Pra
ter essa miserável compensação que não compensa nada? Pra isso! Maldita
estraga-festa, sai daqui! Abaixo a consciência crítica! Cago pra tua consciência
crítica, Belisário! Só serve mesmo é pra te castrar, frustrar, te dar prisão de
ventre mental! Fora daqui, consciência crítica! Fora, filha da puta, rainha dos
escritores impotentes. (Se levanta, corre onde está Mamaé, lhe dá um beijo na
testa, sem despertá-la) Bem-vinda sejas, Mamaé. Esquece o que eu te disse, me
perdoa. Você me serve, uma mulher como você é justamente o que estou
precisando. Você, sim, é capaz de viver uma istória de amor bonita e
comovente. Tua vida tem todos os ingredientes, ao menos pra começar. (Vai
voltando à mesa de trabalho). Morre a mãe assim que ela nasce e o pai pouco
depois, quando tinha. . . (Olha Mamaé). . . quantos anos você tinha quando teus
bisavós te recolheram, Mamaé? Cinco? Seis? Vovó Carmem, já tinha nascido?
(Sentou-se à mesa de trabalho, está com o lápis nas mãos; fala devagar,
procurando encontrar certas palavras pra escrever). A família era muito
próspera nesse tempo, podia recolher meninas desamparadas. Abastada, vamos
dizer.

MAMAÉ – (Abre os olhos e se dirige a um menino invisível, que estaria


sentado a seus pés) Teu bisavô Menelau era um cavalheiro de bengala com
castão de prata e relógio com leontina. Não suportava sujeira. A primeira coisa
que fazia ao visitar uma casa era passar o dedo pelos móveis, pra verificar o pó.

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Só bebia água em copos de cristal de rocha. “O copo é a metade do gosto da
bebida”, ouvíamos ele dizer. Uma noite, vestido a rigor, saía para um baile com
a Tia Amélia e nos viu, tua avó Carmem e eu, comendo geléia de marmelo.
“Não me oferecem um pouco, minhas meninas?” Ao provar, uma gota lhe caiu
no fraque. Parou duro, olhando a mancha. Logo, sem dar um grito, sem uma
palavra, entornou cm cima de si mesmo o pote de geléia todo, lambuzando o
peitilho, a sobrecasaca, a roupa inteira. Tua bisavó sempre dizia: “Para Menelau
a limpeza é uma doença.” (Sorri, adormece de novo. Durante o monólogo da
Mamaé, Belisário às vezes garatujou, às vezes refletiu, outras escutou o que ela
dizia).

BELISÁRIO – (Escrevendo) Teu bisavô Menelau devia ser um homem


encantador, Belisário. Um filho da puta encantador. Te serve, te serve. (Olha
pra cima) Me serves. Me serves. Você e a bisavó Amélia adoravam Mamaé e a
criaram como uma filha, sem fazer qualquer diferença com vovó Carmem. E
quando Mamaé ia se casar com o oficial chileno lhe encomendaram o vestido
de noiva, e todo o enxoval, na Europa. Em Paris? Em Madri? Londres? De onde
é que encomendaram teu vestido de noiva, Mamaé?
Onde é que era moda encomendar? (Escreve, frenético) Gosto de você,
Belisário, te amo Belisário, te dou um beijo na testa, Belisário. (Se distrai)
Como era rica a família, nesse tempo! Como foi decaindo e mediocrizando até
chegar a você! Que fieira de desgraças. (Olha o alto) É, Mamaé, quem mandou
a senhora se casar com um capitão de infantaria? Mas não tenho a menor pena
de você, papai. Tem que ser muito estúpido pra matar-se na roleta russa estando
recém-casado. Tem que ser muito grosseiro pra matar-se na roleta russa, papai!
E tem que ser idiota pra nunca mais se casar tendo ficado viúva tão mocinha,
minha mãe! Por que você criou tantas ilusões a meu respeito? Por que todos
meteram na cabeça — você, os avós, meus tios— que, ganhando processos nos
tribunais, Belisário devolveria à família o esplendor e a fortuna? (Sua voz some,
apagada pelo radioteatro que a avó está tentando escutar, sentada na salinha,
com a cabeça junto do aparelho de rádio em que um locutor anuncia o fim do
episódio do dia, de uma novela de Pedro Camacho. Se escuta o barulho do
bonde. Mamaé abre os olhos, agitada. Belisário a observa da sua mesa de
trabalho).

MAMAÉ – Carmem! Carmem! Já está chegando! Vem ver na janela! É o trem


de Arica!

AVÓ – (Deixa de ouvir o rádio e olha Mamaé, entre penalizada e divertida). A


verdade é que eu te invejo, Mamaé. Você encontrou o remédio perfeito pra não
ver a ruína que nos cerca. Eu também gostaria muito de voltar à minha
juventude, nem que fosse em sonhos.

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MAMAÉ – Aiiiii! Quero arrancar os olhos. Já não servem nem pra adivinhar
as coisas. Você está vendo o que? É o trem de Arica? Ou é o ônibus de
Locumba?
AVÓ – Nenhum dos dois. Ë o bonde de Chorrillos. E não estamos em Tácna,
mas em Lima. E você já não tem mais quinze anos, mas noventa. . . ou por aí.
Virou urna velhinha chocha, Elvira.

MAMAÉ – Você se lembra do baile de máscaras?

AVÓ – Qual deles? Fui a tantos bailes de máscaras quando moça.

MAMAÉ – No Orfeón. Naquele onde o mandigo se meteu como penetra.


(Começa a ouvir-se o barulho alegre de uma festa, compassos de um baile.
Pouco a pouco se distingue a música de uma valsa antiga).

AVÓ – Ah, esse! Claro que me lembro. Foi nesse baile que conheci Pedro;
tinha ido de Arequipa com uns amigos, foi passar o carnaval em Tácna. Quem
havia de dizer que eu casaria com ele? Sim, lembro, claro. Não foi nesse baile
que Frederico Barreto te escreveu um verso no leque? Não, foi outro, no 28 de
Julho, na Sociedade das Damas Patrióticas. O negro, é mesmo. . . Estava
dançando com você quando o descobriram.. . não foi? (Belisário se põe em pé.
Vai até onde Mamaé está fazendo uma reverência de fim de século, tira-a pra
dançar. Ela aceita, jovem, graciosa, coquete.
Dançam).

MAMAÉ – Você é chileno, mascarado? Peruano? De Tácna, mascarado?


Militar, talvez? Já sei, adivinhei! você é médico! Quem sabe advogado? Me diz
qualquer coisa, faz uma adivinhação e verá que o identifico logo, mascarado.
(Belisário não diz nada. Se limita a negar com a cabeça e a rir de vez em
quando, um riso nervoso).

AVÓ – (À Mamaé, como se esta continuasse na poltrona) Mas você não


percebeu logo pelo cheiro? Ah, o bandido tinha se enchido de perfume, claro!
(A dupla dança com agilidade e alegria. Numa das voltas, porém, o dominó
invisível que Belisário veste se engancha em algum objeto e o seu braço apa-
rece nu. Mamaé se volta dos seus braços, espantada. Belisário, com uma
expressão de alegria, corre à sua mesa e se põe a escrever).

MAMAÉ – Um negro! Um negro! O mascarado era negro! Aiiiii! Aiiiii! Aiiiii!

AVÓ – Não grita desse jeito, Elvira. Parece que estou ouvindo a tua gritaria
aquela noite. A orquestra parou de tocar, a dança cessou, os que estavam nos
camarotes se levantaram. Foi um verdadeiro pandemônio no Orfeón! Tiveram
que te carregar pra casa com um ataque de nervos, O bendito negro acabou com

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a festa.

MAMAÉ – (Espantada) Carmem! Carminha! Olha ali, olha! no chafariz de


bronze da Praça! O que é que estão fazendo? Estão batendo nele?

AVÓ – Estão. Os cavalheiros o arrastaram pra rua e lhe deram mil bengaladas.
Perto do chafariz, ali mesmo. Que memória, Elvira!

MAMAÉ – Não batam mais nele! Está cheio de sangue! Não me fez coisa
alguma, nem sequer me falou! Tia Amélia, a ti eles respeitam, vai! Tio
Menelau, não deixa bater nele! (Refaz-se) Você acha que o mataram, Carminha?

AVÓ – Não, lhe deram apenas uma surra, pelo seu atrevimento. Depois o
botaram na prisão dos chilenos. Que audácia, hein? Fantasiar-se assim e enfiar-
se no baile do Orfeón! Nós ficamos tão impressionadas. Tínhamos pesadelos,
temíamos que urna noite qualquer ele entrasse pela janela do quarto. Semanas,
meses, só falamos do negro de La Mar.

BELISÁRIO – (Excitadíssimo, dá um soco na mesa, deixa de escrever um


instante e beija a mão e o lápis com que está escrevendo). O negro de La Mar!
Toma corpo, se mexe, anda!

MAMAÉ – Não é de La Mar. Ë um dos escravos da fazenda de Moquegua.

AVÓ – Que besteira, filha. Nessa época já não havia mais escravos no Peru.

MAMAÉ – Claro que havia. Meu pai tinha três.

BELISÁRIO – (Interrompendo um instante o seu trabalho) Os mandingos. Do


Sudão. Faziam mandingas. Verdade, Mamaé!

MAMAÉ – Me passavam de um lado pra outro do Caplina, em liteira de


rainha.

BELISÁRIO – Dormiam no estábulo, amarrados pelos tornozelos pra não


fugirem.

MAMAÉ – Não vi a cara dele, mas tinha alguma coisa nele, nos seus
movimentos, nos seus olhos— eu o reconheci. Estou convencida disso — era
um daqueles. Um mandingo fugido... (Se abre a porta da rua e entra o avô.
Entra ofegante, os cabelos desfeitos, a roupa também. Se veste pobremente. Ao
vê-lo, Mamaé lhe faz uma vênia de corte antiga, como se saudasse um
desconhecido ilustre, e volta a recolher-se a seu mundo imaginário. Entra
Amélia).

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AMÉLIA – (Se percebe que estava cozinhando) Mas, papai. . . que aconteceu?

AVÔ – (Pondo-se de pé) E o chapéu, Pedro? E tua bengala?

AVÔ – Me roubaram.

AVÓ – Meu Deus, como foi isso? (Amélia e a Avó levam o avô até a poltrona e
o fazem sentar-se).

AVÔ – Eu ia descendo do bonde. Um vagabundo desses que andam soltos pelas


ruas de Lima. Me atirou no chão. Me arrancou também o.. . (Procura em vão a
palavra) . . . o aparelho.

AVÓ – O relógio? Ah, Pedro, roubaram o teu relógio?!

AMÉLIA – Vê como temos razão, papai? Você não pode sair só, tomando
ônibus, pegando bonde sozinho Por que não ouve o que a gente diz? Estou
rouca de tanto repetir que você não deve andar na rua.

AVÓ – Além disso você não está bem de saúde. E se volta a ter aquele negócio,
se te dá de novo aquele branco na cabeça? Não sei como você não tem medo
depois de semelhante susto. Já nem se lembra! Você deu voltas e voltas por aí,
durante horas, e não encontrou a casa.

AVÔ – Não vou passar a vida fechado aqui, esperando que me enterrem,
filhota. Não vou deixar que este país acabe assim comigo...

AVÓ – Você se machucou? Bateu onde?

AVÔ – Em nenhum país do mundo como no Peru se desperdiça tanto a gente


que pode trabalhar. Aqui é um crime ser velho. Nos países cultos é o contrário.
Na Alemanha, na Inglaterra. Se chama os homens de idade, se aproveita sua
experiência. Aqui, no lixo! Não me conformo: pois sei que renderia muito mais
no trabalho do que qualquer jovem.

BELISÁRIO – (Parando de escrever, deixando-se dominar por uma


recordação) Sempre com o mesmo, dá-lhe que dá-lhe — velho cri-cri. Não se
esquecia nunca, bom avô. (Trata de voltar a escrever mas, depois de rascunhar
algumas linhas, se distrai e, progressivamente, se interessa pelo que acontece
na casa dos avós).

AMÉLIA – Se desesperar desse jeito não vai te adiantar nada — você vai
apenas arrebentar os nervos.

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AVÓ – Você tem a cabeça fraca, marido, tem que admitir. O médico avisou que,
se você não fizer as coisas com calma, vai ter um novo ataque.

AVÔ – Minha cabeça anda muito boa, agora. Eu lhes juro que é verdade, não
tive mais a menor tontura. (Faz um gesto de pena) O chapéu e o. . . aparelho,
não me importam. O relógio, sim. Eu o tinha há mais de quinze anos e nunca
ficou doente. Enfim, vamos mudar de assunto. Vocês ouviram o radioteatro das
oito?

AVÓ – Eu ouvi, Amélia perdeu porque estava passando a roupa do futuro


advogado. Imagina que a Irmã Fátima abandonou o hábito pra se casar com o
compositor. . .

AMÉLIA – Olhai, você está com um ferimento na mão . . .

AVÓ – Atacar um velho, que covarde!

AVÔ – Me pegou desprevenido, pelas costas. De frente a coisa seria muito


diferente. Sou velho mas tenho dignidade e posso defender-me. (Sorri). Sempre
fui bom de briga. Lá nos jesuítas, em Arequipa, me chamavam Faísca, porque
eu explodia a qualquer provocação. Ninguém me pisava nos calos, não senhor.

MAMAÉ – (Virando-se para eles, alarmada) Que é que você está dizendo,
Pedro? Desafiar Frederico Barreto por ter me escrito esse verso? Não faz isso,
foi uma galanteria sem qualquer má intenção. Não te exponhas, dizem que ele é
um grande espadachim.

AVÔ – Ah, é? Bom, então não desafio. Além disso, era um verso muito
inspirado. O poeta Barreto tinha bom gosto, há que reconhecer. (A avó)
Também com você fazia seus floreios, o velho verde, hein catita?

AVÓ – Essa Elvira ressuscita cada coisa. . . Vem, vou botar mercurocromo,
senão infecciona.

AMÉLIA – Que te sirva de lição, papai. Fica avisado de que não te deixo nunca
mais sair sozinho. Como meus irmãos mandaram. Pelo menos de noite. Dá teus
passeios de dia, por aqui, em volta do quarteirão. Mais longe só quando eu ou
meu filho pudermos te acompanhar.

AVÔ – (Pondo-se de pé) Está bem, Amélia. (À avó) Carmem, você se dá conta
de como deve ir mal o país pra roubarem um morto de fome como eu? Arriscar-
se a pegar cadeia por uma bengala que era um pau velho e por um chapéu
seboso e esburacado?

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AMÉLIA – (Levando-o pra dentro) Esse relógio foi presente dos funcionários
da Corte de Justiça de Piura, quando você era prefeito. Que pena, uma
lembrança tão bonita. Bom, teu neto Belisário te dá outro de presente, quando
ganhar a primeira causa. . . (Saem, seguidos por Amélia. Escurece o cenário).

BELISÁRIO – Minha primeira causa. . . Você também sonhava, vovozinha. (Se


enfurece) E o que é que vovô veio fazer aqui? Você vai meter o avô Pedro numa
istória de amor em que não há nem um beijo? Você não e capaz de escrever
isso, Belisário. Você não sabe escrever; passou a vida toda escrevendo e está
cada vez pior. Por que isso, vovozinho? Um médico, depois de extrair cinqüenta
apêndices, arrancar duzentas amígdalas e trepanar quinhentos crânios já faz
essas coisas de olhos fechados, não é mesmo? Por que, então, depois de
escrever cinqüenta ou cem istórias, escrever continua tão difícil quanto da
primeira vez? Pior! Mil vezes mais difícil do que na primeira vez! Vovô,
vovózinha, desapareçam, não me distraiam, não me interrompam, não me
atrapalhem! Vão à merda, vovôs! Deixem-me escrever minha istória de amor!
(Fica meditabundo) O avô poderia ter sido um personagem de novela. O ciclo
de uma vida; a ruína lenta, a angustiosa decadência. Prefeito de Piura no
governo constitucional de Bustamante. Antes, introdutor do algodão em Santa
Cruz da Serra, na Bolívia. Antes ainda, agricultor em Camaná. E, mais antes,
empregado de uma firma inglesa em Arequipa. Mas você queria mesmo era ser
advogado e poeta, não é, vovozinho? E o que teria sido se teu pai não morresse
quando tinhas. . . quinze anos? Por isso destinaram você à advocacia, Belisário:
pra retomar a tradição jurídica da família. (Pela sua expressão, se percebe que
uma idéia começou a insinuar-se em relação ao que está escrevendo. Pega o
lápis, gira o lápis, arruma os papéis). É, pode servir. Vem cá, vovozinho, sinto
muito ter te mandado à merda. Claro que eu te quero muito, claro que você é
um personagem de romance. E por isso você entrava sempre nas istórias de
Mamaé. Você era o protótipo dos personagens que ela adorava, esses seres
remotos e magníficos com os unicórnios e os centauros — os cavalheiros. (Ago-
ra escreve com interesse). Mas a vida do avô não foi lá muito mítica, aqui pra
nós. Trabalhar com uma mula, pra manter não só seus filhos como toda a gente
que vovó Carmem, a mulher mais caridosa em toda a cristandade, ia recolhendo
pelo mundo. Filhos de imbecis que faziam saltar a cabeça jogando roleta russa
ou senhoritas casadoiras sem pai nem mãe, como Mamaé. (Ao iluminar-se o
cenário, vê-se a Senhora Carlota. Mamaé, de sua poltrona, a examina, com
respeito. Se levanta e — rejuvenescida — vai até ela).

MAMAÉ – Boa tarde, Senhora Carlota, que surpresa! Meus tios não estão,
Carminha também não. Sente-se, por favor. Posso lhe oferecer uma xícara de
chá?

SRA. CARLOTA – “Como saída de uma aquarela de mestre Modesto Molina.”

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Ouvi falar isso de você, durante o desfile na praça. E é verdade, você é isso
mesmo.

MAMAÉ – A Senhora é muito amável, Senhora Carlota.

SRA. CARLOTA – O cabelo retinto, a pele de porcelana. As mãos bem


cuidadas, os pés pequenos. Uma bonequinha, é.

MAMAÉ – Por Deus, Senhora, me faz ruborizar. Não quer se sentar? Meus tios
não demoram. Foram apresentar os pêsames a. . .
SRA. CARLOTA – Jovem, bonita e, além de tudo, com uma bela herança em
perspectiva, não é mesmo? É verdade que a fazenda de Moguegua, que teu pai
deixou, está em curatela e será tua assim que você completar a maioridade?

MAMAÉ – Por que diz essas coisas? E esse tom? A Senhora fala como se eu a
desagradasse por alguma coisa.

SRA. CARLOTA – Desagrado não é bem a palavra, menininha de me-olhes-e-


não-me-toques. O que sinto por você é ódio. Te odeio com todas as minhas
forças, com toda a minha vontade. Durante o ano inteiro te desejei as piores
desgraças do mundo. Que um trem te esmagasse, que a tuberculose te furasse os
pulmões, que a varíola te comesse a cara.

MAMAÉ – Mas, que foi que eu lhe fiz, Senhora Carlota? Eu mal a conheço.
Por que me diz coisas tão horríveis? E eu acreditando que vinha aqui pra me
trazer um presente de núpcias.

SRA. CARLOTA – Vim te dizer que Joaquim não te ama. Que ama a mim.
Embora você seja mais moça. Embora seja virgem e solteira! A ele não lhe
interessam miniaturas de filigrana que o vento quebra. Gosta é de mim. Por que
eu sei coisas que as senhoritas como você não aprenderão nunca. Eu sei amar.
Sei o que é a paixão. Sei dar e receber prazer. Isso mesmo, isso que pra você é
uma palavra feia: prazer.

MAMAÉ – A senhora perdeu o juízo, Senhora Carlota, se esquece de que. . .

SRA. CARLOTA – Que tenho um marido e três filhos? Não esqueci não. Isso
não me importa a mínima! Meu marido, meus filhos, a sociedade de Tácna, o
que dirão, a religião; não me interessa! Isso é que é o amor, percebe? Estou
disposta a tudo, menos perder o homem que amo.

MAMAÉ – Mas se é corno a Senhora diz, se Joaquim ama a senhora, por que
pediu minha mão?

15
SRA. CARLOTA – Pelo teu nome, pela fazenda que você vai herdar, porque
um oficial precisa assegurar seu futuro. Porém sobretudo porque não pode casar
com a mulher que ama. Se casa com você por conveniência. Se resigna a casar
contigo. Ouve bem; se re-si-gna! Me disse assim, cem vezes. Hoje mesmo, há
duas horas atrás. E, acabei de estar com Joaquim. Suas palavras ainda soam em
meus ouvidos: “Você é a única que sabe me fazer gozar, soldadeira.” Pois é
assim que me chama quando me entrego a ele: “Soldadeira.” “Minha
soldadeira.”

MAMAÉ – (A escuta, hipnotizada) Senhora Carlota, cale-se imediatamente.


Por favor, lhe suplico que...

SRA. CARLOTA – Eu estou te escandalizando, sei muito bem. Isso também


não me importa. Vim aqui pra te avisar que não vou renunciar a Joaquim,
mesmo que se case com você. Nem ele vai me deixar. Vamos continuar vivendo
juntos, nas tuas costas. Vim te dizer como será a tua vida de casada. Interrogar-
se cada manhã, cada tarde, se teu marido, em vez de estar no quartel, não estará
fazendo amor comigo.

MAMAÉ – Vou chamar os criados para que a acompanhem até a porta, Senhora
Carlota.

SRA. CARLOTA – E se o removerem daqui eu largo meu marido e meus filhos


pra ir atrás dele. As tuas dúvidas, o teu suplício continuarão. Vim aqui pra que
você veja até onde pode ir uma mulher apaixonada. Você vê?

MAMAÉ – Vejo, Senhora, vejo. Talvez seja certo o que está dizendo. Eu não
seria capaz de agir assim. Pra mim o amor não pode ser uma enfermidade. Não
compreendo a Senhora. É bela, elegante, seu marido é uma pessoa tão distinta.
Tácna inteira tem o maior respeito por ele. E seus filhos, uns anjinhos lindos.
Que mais se pode desejar na vida?

SRA. CARLOTA – Pois bem, talvez assim você entenda. Estou disposta a
sacrificar tudo isso que te parece invejável por uma única palavra de Joaquim.
A ir pro inferno se esse for o preço de ficar com ele.

MAMAÉ – Deus está ouvindo. Senhora Carlota.

SRA. CARLOTA – Então, sabe que é verdade. Quando Joaquim me tem em


seus braços, e me esmaga, e me submete a seus caprichos, não existe mais nada
no mundo; nem marido, nem filhos, nem reputação, nem Deus. Só ele. Isso
você não vai me tirar.

MAMAÉ – Há quanto tempo que a Senhora é a. . . a. . . o amor de Joaquim?

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SRA. CARLOTA – A amante de Joaquim? Dois anos. Vou te contar outra coisa.
Nos vemos todas as semanas em uma cabana de La Mar, ao cair do sol. Nessa
hora os negros voltam das fazendas, cantando. Nós ouvimos. De tanto ouvir
cantamos essas canções. Deseja saber alguma coisa mais?

MAMAÉ – Mais nada, Senhora. Peço que se retire, agora.

SRA. CARLOTA – Você não poderia viver com Joaquim. É demasiado pura
prum homem tão ardente. Ele mesmo diz. Você tem que encontrar um rapaz
lânguido, delicado. Você não dá pra soldadeira de ninguém. Te falta sangue,
malícia, imaginação.

MAMAÉ – Vá embora, por favor! Meus tios estão chegando a qualquer


momento, Senhora!

SRA. CARLOTA – Que cheguem! Que me vejam. Que estoure o escândalo de


uma vez.

MAMAÉ – Não será por minha culpa. Não ouvi nada, não sei nada, não quero
saber de coisa alguma.

SRA. CARLOTA – Mas o certo é que ouviu e sabe de tudo. E a partir deste
instante o verme vai começar a roer seu coração. “Será verdade que ele se casa
comigo por interesse?” “Será verdade que gosta é dela?” “Será verdade que a
chama de soldadeira quando a aperta em seus braços?” (A Senhora Carlota sai.
Belisário, que no princípio do diálogo das duas continuou escrevendo,
anotando, jogando papéis no chão, logo depois ficou pensativo e interessado
no que diziam as duas mulheres. No final foi acocorar-se como um menino, aos
pés da poltrona de Mamaé,).

MAMAÉ – (Voltando-se à sua poltrona, e, velhinha de novo, falando para si


mesma) Será verdade que diz a ela que sou uma menininha de olhes-e-não-me-
toques? Uma melindrosa que nunca saberá fazê-lo feliz como ela sabe? Será
verdade que esteve com ela ontem, que está com ela agora, que estará com ela
amanhã? (Se encolhe na poltrona. Belisário está aos pés dela, como um me-
nino, escuta).

BELISÁRIO – Ou seja, a mulher má plantou uns ciúmes horrendos no peito da


senhorita que estava noiva.

MAMAÉ – Pior. A deixou inquieta, perturbada, encheu-lhe a cabecinha


inocente de cobras e lagartos.

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BELISÁRIO – Esses bichos, de verdade? Que mulher horrorosa, Mamaé!

MAMAÉ – (Continua cantando) E a pobre senhorita pensava, com os olhos


cheios de lágrimas: “Quer dizer, não quer a mim mas o nome e a posição de
minha família em Tácna. Ou seja, esse jovem que eu amo tanto é um sem-
vergonha, um aproveitador.”

BELISÁRIO – Mas isso não é verdade, Mamaé. Quem é que vai casar por
causa de um nome, de uma posição social!? Que deseje casar com a senhorita
por causa da herança da fazenda eu acredito, mas o resto...
MAMAÉ – Esse negócio da fazenda era mentira. O oficial chileno sabia que a
fazenda tinha sido leiloada pra pagar as dívidas do pai da senhorita.

BELISÁRIO – Você já está complicando demais a istória, Mamaé.


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MAMAÉ – Isso quer dizer que o oficial chileno tinha mentido à mulher má.
Inventou que a senhorita ia herdar a tal fazenda. Casar-se por interesse, não por
amor, resultava mais convincente. Quer dizer, não enganava só a senhorita,
enganava também a Senhora Carlota.

BELISÁRIO – A mulher má se chamava Carlota?

MAMAÉ – É. E tinha um apelido feíssimo. Chamavam-na “A soldadeira.”

BELISÁRIO – O que quer dizer soldadeira, Mamaé?

MAMAÉ – Ah, isso, é um nome feio. (Distraindo-se, falando pra si mesma).


Mas não era nenhuma idiota, dizia verdades. Como: “Uma mulher só pode ser
orgulhosa se renuncia ao amor.”

BELISÁRIO – Você já desandou outra vez pro outro lado e eu não entendo
mais nada, Mamaé. (Se põe de pé e volta a sua mesa de trabalho, falando entre
dentes, enquanto Mamaé move os lábios um momento, como se seguisse
contando a istória. Logo adormece).

BELISÁRIO – A mulher má . . . Nunca faltava nos contos. E é bem feito isso,


as istórias românticas têm que ter mulheres más. Não tenhas medo, Belisário,
aprende com Mamaé. Além disso, o papel agüenta tudo. Que tua istória se
encha de mulheres más, são sempre mais interessantes. Havia duas, não é,
Mamaé? Às vezes se chamava Carlota e era uma senhora muito marota, em
Tácna, nos princípios do século. Às vezes era una índia de Camaná que, nos
anos vinte, por uma razão muito enigmática, tinha sido chicoteada por um
cavalheiro. (Se põe a escrever) Muitas vezes se confundiam, se misturavam. E
tinha também o leque de nácar que de repente surgia nos contos com um verso

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rabiscado por um poeta romântico.

AVÓ – (Entrando) Elvira! Elvira! Mas o que é que você fez? Ficou maluca?
Mas como é possível? Teu vestido de noiva! Tão lindo, todo bordado em fitas,
com um véu que parecia de espumas!

MAMAÉ – Me custou meia caixa de fósforos e alguns dedos queimados. Só


depois me lembrei de passar um pouco de parafina e ele pegou fogo, ardeu até o
fim.

AVÓ – (Desolada) Mas se o casamento é amanhã! Mas se todo mundo está


vindo pro matrimônio, vem de Moguegua, de Iquique, vem de Arica. Você
brigou com Joaquim? Mas nas vésperas das bodas, Elvirinha? Quer dizer que a
casa foi toda enfeitada com esses ramos de lírios, rosas e jasmim, pra nada? Há
mais de um mês que preparamos pastéis e doces para um regimento. Agora
mesmo acabam de entregar o bolo.

MAMAÉ – O de três andares? Corno no romance de Gustavo Flaubert? Com


colunas de maça-pão e cupidos de amêndoas? Ah, mesmo sem casamento nós
comemos. Estou certa de que o italiano Máspoli se esmerou no bolo, ele sempre
me trata com tanto carinho...

AVÓ – Não vai me contar o que aconteceu? Nunca tivemos segredos. Por que
você queimou seu vestido de noiva?

MAMAÉ – Por que já não quero mais me casar.

AVÓ – Mas, por que? Até ontem à noite você estava tão apaixonada. Joaquim te
fez alguma coisa?

MAMAÉ – Nada. Descobri que não me agrada o casamento. Prefiro viver


solteira.

AVÓ – O matrimônio não te agrada? Você quer me enganar a mim, Elvirinha?


É a ambição de todas mulheres e a tua também. Crescemos sonhando com o dia
em que teríamos nossos próprios lares, adivinhando a cara que teriam nossos
maridos, escolhendo nomes pros nossos filhos. Já se esqueceu?

MAMAÉ – Já, Carminha. Já esqueci de tudo isso.

AVÓ – Não esqueceu não — não é verdade. (A Avó e Mamaé continuam seu
diálogo em silêncio. Belisário, que levantou o lápis do papel e está pensativo,
concentrado em seus pensamentos, fala corno se estivesse vendo, ouvindo).

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BELISÁRIO – As casas das duas eram tão arrumadas e tão limpas quanto a do
cônsul inglês. As criadas das duas estavam sempre impecáveis, com aventais e
toucas duras de tão engomadas, e a Avó e Mamaé as mandavam ao catecismo e
faziam-nas rezar o rosário com a família. Ah, ambas iam se conservar sempre
belas para que os maridos continuassem apaixonados por elas vida a fora e ja-
mais pensassem em enganá-las. E também iam educar bem machos os filhos
homens e bem delicadas as meninas. A avó teria quatro filhos, Mamaé seis,
oito. . . (Põe-se de novo a escrever).

MAMAÉ – Nem suspeita que não vou me casar com ele. Ia hoje ao alfaiate
Isaías, apanhar o uniforme de gala para a boda. Vai ter um choque quando os
criados lhe disserem que não pode nunca mais botar os pés aqui.

AVÓ – (Envergonhando-se) É por medo, Elvirinha? Quero dizer, por medo. . .


da. . . noite de núpcias? (Mamaé nega com a cabeça) Mas então por que? Tem que
ter acontecido alguma coisa horrível pra que você repudie seu noivo assim, na
véspera do casamento. . .

MAMAÉ – Eu já disse. Mudei de idéia. Não vou me casar. Nem com Joaquim
nem com ninguém.

AVÓ – Você ouviu o chamado de Deus? Vai entrar prum convento?

MAMAÉ – Não, não tenho vocação monástica. Não vou me casar nem entrar pro
convento. Vou continuar como estou agora. Solteira e sem compromisso.

AVÓ – Você está me escondendo alguma coisa bem grave, Elvira. Ficar solteira!
Como, se isso é a coisa mais terrível que pode acontecer a uma mulher? Você
mesma não diz que a solidão de tia Hilária te dá calafrios? Sem marido, sem lar,
sem filhos, meio louca. Você quer ser como ela, ficar velha como uma alma
penada?

MAMAÉ – Antes só do que mal acompanhada, Carminha. A única coisa que


lamento é o desgosto que vou dar a meus tios. Tia Amélia e o tio Menelau já
viram o vestido queimado? (Á Avó faz que sim). Como são delicados. Nem sequer
vieram me perguntar porque eu queimei. E eles que fizeram todos os sacrifícios
para que eu tivesse um matrimônio dos mais altos. Ganharam o céu com o coração
que têm...

AVÓ – (Dando-lhe um beijo na face) Você nunca vai ficar só como tia Hilária.
Pois quando eu me casar, se algum cavalheiro se interessar por mim, você virá
morar conosco.

MAMAÉ – Você também é tão boa, Carminha. (Emocionada, as duas trocam

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carinhos. Belisário, de pé, passeia pelo proscénio com um monte de papéis nas
mãos, inquieto).

BELISÁRIO – Talvez não seja uma istória de amor, mas romântica não tem a
menor dúvida que é. Está claro, isso. Até onde você se lembra e até onde minha
mãe se lembrava, as duas eram carne e unha. Mas não houve entre elas, durante
esses anos todos de convivência, atritos e invejas? Não houve ciúmes, nesses anos
em que as duas compartilharam tudo? (Olha as duas, zombeteiro) Bom, duvido
que tenham compartilhado o Avô. Mas os filhos, claro, não é mesmo? (Gira em
volta da Avó e de Mamaé, examinando-as). Quer dizer, você os tinha, Vovozinha,
mas era você, Mamaé, que agüentava os sustos e os cuidados. Você dava
mamadeiras e trocava fraldas, ficava de Vigília junto aos berços, e era você
também quem ficava em casa pra que os Avós pudessem ir ao teatro, ao cinema e
às festas, quando ainda podiam se dar a esses luxos. (Vai ao escritório onde deixa
os papéis e lápis. Arregaça as calças, como os meninos fazem pra atravessar um
rio, e logo dá uns saltinhos, corno se estivesse fazendo saltar urna perereca ou
jogando amarelinha). Mas com quem você demonstrou mesmo uma paciência
infinita — um saco! — lá na Bolívia, foi com o jurisconsulto em formação, o
futuro salvador da família, Mamaé. (Agostinho e César entraram da rua durante
o monólogo de Belisário. Beijam a Avó, a sua irmã e se aproximam para
cumprimentar Mamaé que, ao vê-los se aproximar, sorri gentilmente e lhes faz
uma profunda reverência. Eles a acariciam. Ela se deixa acariciar mas,
subitamente, grita);

MAMAÉ – Viva Herodes! Viva Herodes! Aiiiii! (Quando Mamaé grita “Viva
Herodes!” Belisário, sem deixar de escrever, parece divertir-se muito. Revira no
assento alegremente e algumas vezes interrompe o trabalho pra olhar Mamaé e
imitar os seus gestos, como o de levar a mão ao pescoço e fazer de conta que está
matando alguém a paulada).

AVÓ – Cala, Elvira! Não fica aí gritando feito louca! Que maluquice é essa de
ficar berrando “Viva Herodes!” cada vez que vê meus filhos? (Aos filhos) Ah,
filhinhos, entre Mamaé, que vive no mundo da lua, e meu marido, que já não se
lembra de mais nada, não sei o que vai me acontecer. Vou ver se Pedro já acordou.
Foi se encostar um pouquinho agora mesmo. (Sai. Os três filhos rodeiam Mamaé).

MAMAÉ – De todos os personagens da história é o que eu mais aprecio. Mandou


degolar todinhos. Eu também acabaria com eles, não deixaria nem um só pra
amostra.

CÉSAR – (Ao irmão) E você queria que eu fizesse os meninos descer do carro
pra vir cumprimentar nossos pais.

MAMAÉ – Pois eu os odeio! E sabem por que? Por essas milhares e milhares de

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fraldas sujas.

AGOSTINHO – (Passando-lhe as mãos pelos cabelos) Passaste a vida cuidando


dos filhos dos outros e acabaste odiando todas as crianças.

MAMAÉ – Por esses milhões de babadores vomitados, por suas papinhas, por
suas babinhas, por essas diarréias que não param nunca, por esses joelhos sempre
sujos e encascorados. E porque nunca deixam os adultos comerem em paz, com
suas travessuras e malcriações. (Mamaé fala sem desagrado, fazendo vênias e
sorrindo. Dá a impressão de que não ouve o que eles dizem ou não entende
palavra do que dizem).

AMÉLIA – E pensar que quando Belisário teve varíola foi ela quem me pôs pra
fora do quarto e ficou dormindo ao lado do meu filho.

MAMAÉ – Porque gritam, são caprichosos, quebram tudo, sujam tudo, estragam
tudo.

BELISÁRIO – (Interrompendo seu trabalho). Você passava o dia inteiro me


esfregando essa pomada negra que eu odiava, Mamaé. Grão por grão. E me
segurava as mãos, distraindo-me com istórias, pra que eu não me coçasse. Mas
nem assim, nem com todo esse cuidado me livrei de ser feio, Mamaé!

MAMAÉ – São uns egoístas que não gostam de ninguém. Uns sultões a quem se
deve satisfazer todas as necessidades e caprichos. Por isso, como Herodes,
todinhos! Assim, assim!

CÉSAR – E quando, em Arequipa, eu trazia pra casa meus colegas de colégio,


Mamaé? Você preparava chá pros trinta da minha classe! De modo que, por mais
que jure e rejure, eu não acredito que você realmente odeie crianças. (Amélia faz
um sinal a Agostinho e ambos se afastam uns passos. Em sua mesa Belisário fica
com uma expressão intrigada, olhando Amélia e Agostinho, enquanto falam).

AMÉLIA – Quero falar contigo, Agostinho.

AGOSTINHO – O que é, minha irmã?

AMÉLIA – Eu queria te dizer que. . . bem. . . eu não agüento mais. (César, ao


ouvi-la, se aproxima. Mamaé adormece).

CÉSAR – Que foi, Amélia?

AMÉLIA – Estou esgotada. Temos que arranjar urna empregada.

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AGOSTINHO – Se fosse possível já tínhamos arranjado há muito tempo. A
combinação é que nós dois ajudaríamos Belisário a terminar a carreira e você se
ocuparia da casa.

AMÉLIA – Eu sei. Porém não agüento mais, Agostinho. É muito trabalho pruma
pessoa só. Estou ficando maluca nesse mundo absurdo. Nossos pais e Mamaé
estão velhos demais. O papai não se lembra de mais nada. Pede o almoço quando
acaba de almoçar. E se eu não atendo a mamãe começa a chorar.

CESÁR – Fala mais baixo, irmã. Mamaé pode ouvir.


AMÉLIA – Mesmo que ouça, não entende. Está com a cabeça em outro lugar.
(Olha Mamaé) Com ela ainda é pior, César. Eu tenho paciência, eu a quero muito.
Mas tudo tem limites. Lavar suas calças e suas camisolas emporcalhadas se
converteu num pesadelo. E além disso cozinhar, varrer, passar, arrumar a casa,
lavar louça. Eu não dou mais.

CÉSAR – (A Agostinho) A verdade é que, realmente, é preciso uma empregada...

AGOSTINHO – Magnífico, irmão. Arranjamos uma. Suponho que você pague,


naturalmente.

CÉSAR – Por que essa ironia, Agostinho? Você sabe muito bem minha situação.

AGOSTINHO – Então como é que você fala que é preciso uma empregada? Você
tem ao menos a idéia de quanto custa esta casa? Já te ocorreu pegar um lápis e
somar? Aluguel, mercado, água, luz, médicos, remédios, os três mil de Amélia,
etcetera, quanto faz? Quatorze ou quinze mil sóis por mês. E quanto é que você
dá, se queixando aí como um Jeremias? Dois mil! (Joaquim entra, discreto como
um fantasma, com o mesmo uniforme do princípio. Senta-se junto a Mamaé).

CÉSAR – Pra mim esses dois mil sóis são um esforço enorme! O que ganho não
me basta, vivo endividado e você bem sabe disso! São quatro filhos, Agostinho!
Este ano tive que botar os dois menores numa escola pública, com os índios e os
negros. . .

MAMAÉ – (Abrindo os olhos) Com os índios. . . Pois é isso, é; todas as tardes, na


hora em que os peões voltavam das fazendas. No bairro dos índios e dos negros.
No rancho de La Mar.

AMÉLIA – Esses três mil sóis que você me dá não são pra mim, Agostinho, você
sabe. São pros estudos de Belisário. Pra mim eu não compro nem um lenço. Pra
não te dar mais despesas deixei até de fumar.

BELISÁRIO – (Olhando pro público, exagerando) Eu, um emprego? Impossível,

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Mamaé! E os códigos? E os regulamentos? As constituições? Os tratados? O
direito escrito e o direito consuetudinário? Não queres que eu seja um grande
advogado prum dia poder ajudar você, os avós e os tios? Então tens que me dar
mais dinheiro! Pros livros! Como você conseguia ser tão cínico, Belisário!?

AGOSTINHO – Mas Belisário podia trabalhar metade do tempo, Amélia.


Centenas de universitários trabalham. Você sabe que sempre ajudei a teu filho e a
ti, depois da morte estúpida de teu marido. Mas agora as coisas ficaram mais
difíceis e Belisário já é um homem. Deixa que ele procure uma colocação.

CÉSAR – Não, Agostinho, Amélia tem razão. Deve terminar a universidade. Ou


ficará como eu. Pra poder trabalhar deixei os estudos e olha o resultado. Ele foi
sempre o primeiro da classe. É evidente que vai longe. Porém necessita de um
título porque hoje. . . (Sua voz se converte num sussurro, enquanto a voz de
Mamaé se eleva).

MAMAÉ – Passei tantas vezes por este rancho. Com o tio Menelau e a tia Amélia,
indo pro mar. Os negros, os cholos e os índios vinham nos pedir esmola. Enfiavam
as mãos no carro e o tio Menelau dizia: “Que imundos!” A mim me davam medo.
De longe La Mar parece bonita, com suas cabanas de palha e suas ruas de areia.
Mas de perto é pobre, suja, fedorenta e cheia de cachorros hidrófobos! Era ali que
eles se viam.

JOAQUIM – É, ali. Em La Mar. Todas as tardes. Nos víamos e víamos o pôr-do-


sol. (Sobe o rumor do diálogo entre os três irmãos).

AGOSTINHO – Cada um tem suas razões, é natural. Também eu tenho as minhas.


Podia dizer: estou farto de morar numa pensão, de andar de ônibus, de não ter
podido me casar, porque, desde que comecei a trabalhar, metade do meu ordenado
é pra ajudar nossos pais, Amélia, o sobrinho. Estou farto de não poder entrar num
bom restaurante, de não tirar férias, de mandar remendar meus ternos. E, como
estou farto, já não dou pra esta casa mais de dois mil sóis por mês. Passo a dar
isso, o que você dá, igual. E aí o que é que acontece com Mamaé e com o futuro
gênio do foro?

AMÉLIA – Não ironiza, Agostinho! Meu filho será um grande advogado, sim
senhor, terá montões de clientes e ganhará fortunas. Não vou deixar que ele
trabalhe antes de terminar os estudos! Ele não será um fracasso, um medíocre!

AGOSTINHO – Como eu, queres dizer?

MAMAÉ – Ou seja, toda tarde, depois do quartel, enquanto eu te esperava


rezando rosários e rosários pros minutos correrem mais depressa, você ia ao
encontro dela, em La Mar, pra lhe dizer coisas ardentes.

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JOAQUIM – Soldadeira, meu amor, você tem mãos fortes e voz delicada. Coloca
tuas mãos aqui, nas minhas frontes. Andei a cavalo a manhã toda e o sangue me
ferve. Aperta-me um pouco, refresca-me. Assim. Ah, é como afogar o rosto num
ramo de flores.

BELISÁRIO – Você sim, nunca teve ilusões comigo, tio Agostinho.

CÉSAR – Calem-se, não comecem de novo. Chega de ficarmos nos agredindo;


todos os dias brigamos pela mesma coisa. Quer saber — por que não consideram
o que eu propus?

AMÉLIA – Consideramos, César. E eu estou disposta a aceitar. Antes não, mas


agora não parece haver outro jeito.

CÉSAR – Claro, Amélia. É o mais sensato. (Olha Mamaé) Ela já está fora deste
mundo, nem notará a diferença. Você, mais descansada, poderá ocupar-se mais
dos nossos pais. Viverão mais desafogados nesta casa. E inclusive é até possível
que Mamaé se sinta melhor lá do que aqui. (Joaquim pegou as mãos de Mamaé;
as beija, apaixonadamente).

JOAQUIM – Porém, ainda mais do que tuas mãos, há outra coisa em você que me
alucina, Carlota.

MAMAÉ – (Com medo) Que coisa? O que é que te alucinava mais nessa mulher?

AGOSTINHO – Quer dizer, enfiamos Mamaé no Asilo e está tudo resolvido.


Bom, é muito fácil. Porque vocês estão pensando no Asilo Particular de São
Isidro, onde ficou a tia Augusta. Claro que ali não sofreria. É tão limpo, tem
enfermeiras que cuidam dos velhinhos dia e noite e os levam a passear pelos
jardins. Tem até cinema uma vez por semana, não se lembram? (Com sarcasmo)
Vocês sabem quanto é que custa esse lugar?

JOAQUIM – O teu colo. Deixa que eu o beije, que sinta o teu perfume. Assim,
assim. Agora quero beijar tuas orelhas, meter minha língua nesses ninhos mornos,
morder essas pontinhas rosadas. É por isso que eu te amo, soldadeira. Você sabe
me dar prazer. Não é como Elvira, uma bonequinha sem sangue, uma boba que
acredita que amor é ficar lendo versos de um poeta idiota chamado Frederico
Barreto.

AGOSTINHO – A Mamaé não iria pra São Isidro. Iria pro Asilo de Beneficência,
que é gra-tu-í-to. Esse aí, vocês não conhecem. Eu porém tive o cuidado de ir
conhecer. Colocam os velhos numa promiscuidade imunda. Quase nus. Dormem
no chão ou em estrados, são devorados pelos piolhos. E fica no bairro de Santo

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Cristo, pegado ao cemitério, de modo que os velhos passam o dia vendo enterros.
É aí que querem colocar a Mamaé?

MAMAÉ – (Desolada, quase chorando) Mas ainda não estávamos casados,


Joaquim! Eu não podia deixar que você me faltasse com o respeito! Isso teria me
rebaixado diante de teus olhos. Eu o fazia por você. Para que tivesse uma esposa
da qual não se envergonhasse.

CÉSAR – E te parece que Mamaé vive bem aqui? Não sentes o cheiro,
Agostinho? Não é você quem diz que sempre que tem que tomar um copo d’água
nessa casa teu estômago se revolta? Eu não proponho o Asilo por maldade, mas
pra te aliviar as despesas. Gosto tanto dela quanto você.

MAMAÉ – E o que tinham os versos de ruim? Na época era assim. Quando se


estava enamorada se lia versos. Era assim entre senhoritas e cavalheiros, Joaquim.
Não é verdade que Frederico Barreto fosse uni idiota. Foi um grande poeta. Todas
as moças de Tácna morreram de inveja quando ele me escreveu aquele verso no
leque.

AMÉLIA – (Para Agostinho) Você pensa que eu não tenho sentimentos? Eu lhe
dou banho, ponho na cama, visto, dou de comer, tudo, não se esqueça. Porem.. .
você tem razão. Não podemos mandar Mamaé pra esse lugar. Além disso é
evidente que Mamaé não deixaria nunca.

JOAQUIM – Faríamos um casal magnífico, Soldadeira. Que pena que você seja
casada! Em compensação esse anjinho frígido. . . Será capaz de me satisfazer
quando eu sentir, como agora, essa lava ardente que me queima o peito? (Fala-lhe
ao ouvido) Quer que eu te conte o que vou fazer com Elvira, quando ela for minha
mulher?

AMÉLIA – (Tapa os ouvidos) Não quero saber! Cala a boca! Cala!

CÉSAR – Está bem. Então não te disse nada. Esquecemos o Asilo. Eu trato de
ajudar. De dar idéias. E vocês acabam fazendo com que eu me sinta um
desalmado.

JOAQUIM – Vou despi-la com estas mãos. Tiro o véu de noiva, o vestido, a
anágua, o sutiã. As meias. A descalçarei. Lentamente, vendo-a ruborizar-se, perder
a fala, não saber o que fazer, aonde olhar. Me excita a idéia de uma menininha
perdida de medo e de vergonha.

AGOSTINHO – Põe os pés em terra, César. Você não vai resolver meu problema
com propostas descabeladas. Se, em vez desses projetos irrealizáveis, você desse
cinqüenta libras mais pras despesas da casa, aí sim, me aliviaria de verdade. (Na

26
sua mesa de trabalho, onde tem estado alternadamente escutando e observando
os irmãos, Mamaé e Joaquim, Belisário começa a bocejar. Está sonolento,
trabalhando cada vez com menos vontade).

JOAQUIM – E cada vez que for aparecendo mais um pouquinho da pele,


arrepiada pelo susto, me inclinarei para cheirá-la, esquentá-la com meus beijos,
degustá-la. Tem ciúmes, soldadeira? Me imagina passando os lábios, os olhos, as
mãos por esse corpinho tenro? Consegue vê-la tremendo, com os olhos fechados?
Está com ciúmes? Eu quero que você tenha ciúmes, Carlota.

MAMAÉ – Eu não te ouço. Tapo os ouvidos e me livro de você. Fecho os olhos e


também não te vejo. Por mais que tentes não podes me ofender, rebaixar-me à tua
vulgaridade. Ah, cabecinha louca. . . (Golpeia a cabeça, para castigá-la de tais
visões).

AMÉLIA – O papai está aí, silêncio agora. (Entram o Avô e a Avó. Agostinho e
César avançam para beijar o pai. Belisário largou a pena e apóia a cabeça num
braço; descansando um momento).

BELISÁRIO – (Entre bocejos) A terra não vai deixar de girar porque um escritor
foi incapaz de terminar uma istória. Vamos, tira tua soneca, Belisário.

AVÓ – Se assustaram em vão, filhinhos. Eu estou muito bem, o. . . o pirata não


me fez mal nenhum. Pelo contrário, serviu pra vocês virem aqui me visitar. Tantas
semanas já que não apareciam.

CÉSAR – Mas, papai, estivemos aqui ontem a tarde toda. . .

JOAQUIM – E assim que tiver deixado de defender-se, quando já tiver o corpo


úmido de tantos beijos, farei com que ela também me tire a roupa. Como você faz.
A ensinarei a obedecer. A educarei como o meu cavalo; mansa comigo, arisca com
os outros. E enquanto me desnuda estarei pensando em ti. Nas coisas que você
sabe fazer. Isso irá me esquentando o sangue. Demorarei muito em amá-la e
mentalmente o tempo todo estarei amando é a ti, Carlota. (Acaricia os peitos de
Mamaé).

MAMAÉ – Não, não, anda, vai embora, sai daqui, não te permito nem em
sonhos, nem quando for tua mulher! Tia Amélia! Tio Menelau! Carminha! Aiiii!
Aiiii! (Joaquim, com um sorriso, desaparece. Os três irmãos, e os avôs, ao ouvir
os gritos, voltam a olhar pra Mamaé).

AVÓ – O que é que você tem, Mamaé? Por que fica o tempo todo dando esses
gritos de maluca?

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MAMAÉ – (Sufocada, envergonhada) Sonhei que meu noivo queria pegar meus
peitos, Carminha! Esses chilenos são tão atrevidos! Até no sonho fazem
indecências! Esses chilenos! (Se persigna, cheia de horror. Belisário foi dormindo
aos poucos sobre os papéis. O lápis se desprende de sua mão e cai no chão. Ele
ronca).

FIM DO PRIMEIRO ATO

SEGUNDO ATO

(AO LEVANTAR O PANO, OS AVÓS ESTÃO OUVINDO A MISSA DE


DOMINGO, ATRAVÉS DO VELHO RÁDIO QUE TÊM NA SALINHA DA
CASA. A VOZ D0 SACERDOTE RECITA SALMOS. A AVÓ E MAMAÉ FAZEM
AS GENUFLEXÕES E PERSIGNAM NOS MOMENTOS ADEQUADOS. O
AVÔ ESCUTA A MISSA SEM MAIOR INTERESSE. A ESPAÇOS SE OUVE
PASSAR O BONDE. AMÉLIA ESTÁ PONDO A MESA PAPA A REFEIÇÃO:
ENTRA E SAI DO APOSENTO SEM PRESTAR ATENÇÃO À MISSA
IRRADIADA. NA MESA DE TRABALHO, BELISÁRIO DESPERTA DO SONO.
BOCEJA, ESFREGA OS OLHOS, RELÊ ALGUMA COISA DO QUE
ESCREVEU. NESSE MOMENTO RECORDA OU LHE OCORRE ALGUMA
COISA. MUITO EXCITADO, LEVANTA-SE DE UM SALTO, PEGA A
CADEIRINHA EM QUE ESTÁ SENTADO E, APOIANDO-SE NELA COMO
UM VELHINHO QUE NÃO PODE ANDAR, COMEÇA A AVANÇAR PELO
CENÁRIO, ARRASTANDO-SE, DANDO PULINHOS OCASIONAIS,
EXATAMENTE COMO VEREMOS MAMAÉ FAZER DEPOIS).

BELISÁRIO – Quando foi o roubo do Avô? Você ainda podia andar? Podia,
Mamaé? Podia, assim, na tua cadeirinha de madeira, como um menino que
brinca de cavalo? Do teu quarto ao banheiro, do banheiro à poltrona, da
poltrona à sala de jantar, da sala de jantar pro teu quarto; a geografia do teu
mundo. (Pensa. Repete, saboreando a frase). A ge-o-gra-fi-a do teu mundo,
Mamaé. Taí, gostei, Belisário! (Corre ao escritório e escreve. Logo começa a
mordiscar o lápis, possuído pelas recordações). Claro que você ainda andava.
Só deixou de andar quando o Vovô morreu. “Nem se deu conta”, dizia minha
mãe. “Não entendeu”, diziam o tio César e o Tio Agostinho. (Olha Mamaé).
Você nem percebeu que havia mais um fantasma nesta casa cheia de fantasmas?
Percebeu claro, Mamaé! (Toma umas notas rápidas) Você gostava muito de
Vovô, hein, Mamaé? Quanto? De que maneira você gostava dele? E aquela
carta? E a tal surra? E a índia nas istórias sobre a senhorita de Tácna? Qual era
o fundo dessa istória tão misteriosa, tão escandalosa, tão pecaminosa, Mamaé?
Misteriosa, escandalosa, pecaminosa! Isso é bom. Gostei. Gostei. (Se põe a
escrever com fúria).

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AMÉLIA – (Que já serviu a sopa) Está na mesa! (A Missa terminou e agora se
ouve, no rádio, uma faixa de publicidade, anúncio do chocolate Sublime.
Amélia desliga o rádio. Os Avós vão sentar-se à mesa. Se nota que o Avô está
muito abatido. Com grande esforço Mamaé se ergue da poltrona e dá um
passinho. Amélia corre pra segurá-la).

AMÉLIA – Você quer quebrar uma perna? Aonde vai sem sua cadeira,
Mamaé? (A leva pelo braço até a mesa).

MAMAÉ – Quero ir à Igreja. À Missa. Preciso me confessar. Estou farta de


ouvir Missa pelo rádio. Não é o mesmo. Embora o padre diga que sim. Não é
não. A pessoa se distrai, não leva a Missa a sério. (Mamaé e Amélia sentam-se,
começam a comer).

AVÓ – Meu marido teria que te carregar nas costas, Mamaé. Com a tua
cadeirinha você ia levar horas pra chegar à Igreja de Fátima. (Ao Avô) Se
lembra, Pedro, como você nos carregava para atravessar o rio, quando íamos te
visitar em Camaná? Que gritos nós dávamos! (O Avô assente, desinteressado).

AMÉLIA – Que é que você tem, papai? Desde manhã não abre a boca.

AVÓ – Eu te falo e você balança a cabeça; como um cabeção de carnaval. Me


sinto uma idiota. Você tem alguma coisa?

AVÔ – Não, minha velha, não sinto nada. Estou muito bem. É que estava
terminando este. . . aparelho. Antes que esfrie.

AMÉLIA – A sopa, papai.

AVÓ – Que mania a tua de chamar tudo de aparelho. Se você esquece,


pergunta! Não está vendo que é uma sopa?

MAMAÉ – Uma porcaria, é o que é.

AVÔ – (Fazendo esforço pra falar) Não, está ótima. Falta só um pouquinho de
sal, talvez.

BELISÁRIO – (Levantando a cabeça dos papéis) Tudo sempre lhe parecia


ótimo, chamava tudo de aparelho e em tudo achava que faltava sal. Um homem
que não se queixou nunca de nada, a não ser de não encontrar trabalho — na
velhice. A Avó, em meio século de casados, jamais o ouviu erguer a voz. Por
isso é que essa surra na índia de Camaná parecia tão inconcebível, Mamaé. O
sal foi uma mania dos últimos anos. Botava sal no café com leite, botava sal no
açúcar. Tudo lhe parecia:

29
AVÔ – Estupendo! Estupendo! (Belisário volta a escrever).

AVÓ – Já sei o que há contigo, Pedro. Antes você saía pra dar suas caminhadas,
pra ver se o mundo continuava existindo. Mas teus filhos te proibiram essa
única diversão que te restava.

AMÉLIA – Você diz isso como se tivéssemos a intenção de torturá-lo, Mamãe.

AVÔ – Por acaso estou me queixando de alguma coisa?

AVÓ – Eu preferia que você se queixasse.

AVÔ – Bom, se isto te satisfaz, dagora em diante vou passar o dia


resmungando. Mas ainda não sei de que, minha velha.

AVÓ – Não estou te provocando, marido. Você acha que não me dá pena te ver
enjaulado assim? Olha, depois do almoço vamos dar uma voltinha pelo
quarteirão. Tomara que depois não tenha que pagar caro com minhas varizes.

AMÉLIA – (Se levanta e recolhe a louça) Você não tomou a sopa, Mamaé.

MAMAÉ – Sopa? Eu pensei que fosse remédio pra cachorros hidrófobos.

AMÉLIA – (Saindo) Se vocês soubessem que, com o que meus irmãos me dão
pras despesas, é um verdadeiro milagre ter comida todo dia! Almoço e janta
todo dia.

AVÓ – Ir à Igreja. . . Verdade, Mamaé, que consolo isso era! Um dia a de


Fátima, noutro a das Carmelitas. Te lembras de que um dia fomos andando até a
Paróquia de Miraflores? Tínhamos que parar em cada esquina porque o coração
nos saltava pela boca.

MAMAÉ – É difícil nos acostumarmos com os mandingos cantando e


dançando em plena Missa, como numa festa. Que hereges!

AMÉLIA – (Entrando com o segundo prato do jantar. Serve os Avós, Mamaé e


senta). Os mandingos? Na Paróquia de Miraflores?

MAMAÉ – Na Paróquia de La Mar.

AMÉLIA – Miraflores, Mamaé.

AVÓ – Está falando de Tácna, filhinha. Antes de você nascer. Um bairro de

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negros e cholos, nos subúrbios. Eu pintei umas aquarelas de La Mar, quando era
aluna do mestre Modesto Molina. . .

AMÉLIA – E Mamaé ia ouvir Missa num bairro de negros e cholos?

AVÓ – Fomos vários domingos. Havia uma capelinha de tábuas e esteiras.


Depois que Mamaé largou o noivo meteu na cabeça que ou ia ouvir Missa em
La Mar ou não ouvia mais Missa nenhuma. Mamaé era teimosa como uma
mula.

MAMAÉ – (Continuando com seu pensamento) O padre Venâncio diz que não
é pecado eles cantarem e dançarem na Missa. Que Deus os perdoe porque não
sabem o que fazem. É um padreco desses moderninhos. . .

AVÓ – Era muito divertido, hein, Mamaé? As missas, as novenas, as viacrucis


da Semana Santa, as procissões. Sempre havia alguma coisa pra fazer, por
causa da religião. Se estava mais em dia com a vida. Não é a mesma coisa rezar
entre quatro paredes, você tem toda razão. É mais bonito comungar com Deus
com toda a gente em volta. Estas varizes. (Olha o Avô). Com você aconteceu o
contrário daqueles rapazes machões que posavam de ateus o tempo todo e, na
velhice, viravam carolas.

AMÉLIA – É mesmo, papai. Você nunca faltava à Missa, jamais comia carne
às sextas-feiras e comungava várias vezes por ano. Por que você mudou tanto?

AVÔ – Não sei do que você está falando, minha filha.

AVÓ – Claro que você mudou. Deixou de ir à Igreja. No final só ia pra


acompanhar a mim e Mamaé e nem se ajoelhava durante a Elevação. E agora,
quando ouvimos a Missa pelo rádio, você nem se persigna. Já não crê em Deus?

AVÔ – Olha, eu não sei. É curioso. . . Não penso nisso, não me interessa.

AVÓ – Não te interessa se Deus existe? Não te interessa se há ou não há uma


outra vida?

AVÔ – (Procurando brincar) Acho que com os anos eu fui perdendo a


curiosidade.

AVÓ – Que bobagens você diz, Pedro! Que esperança teríamos se não existisse
Deus e não, houvesse outra vida?

AVÔ – Bom, então Deus existe e há outra vida. Não vamos começar uma
discussão por tão pouca coisa.

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MAMAÉ – Mas é o melhor confessor que eu conheço (À Avó que a olha
surpreendida) O padre Venâncio! Que facilidade de palavra, envolve a pessoa,
hipnotiza. Padre Venâncio, por culpa dessa índia de Camaná e dessa maldita
carta, eu cometi pecado mortal. (Leva a mão à boca, assustada com o que
disse. Olha os Avós e Amélia. Mas eles estão concentrados em seus pratos,
como se não a tivessem ouvido. Belisário, no entretanto, deixou de escrever,
levantou a cabeça e tem uma expressão profundamente intrigada).

BELISÁRIO – O certo é que a Senhorita jamais teve a menor dúvida sobre a


existência de Deus, nem sobre a única e verdadeira religião — católica,
apostólica, romana. E cumpria os ritos da Igreja da maneira inevitável e simples
com que os astros se move no Universo: ia à Missa, comungava, rezava,
confessava . (Mamaé, que veio andando com enorme esforço, se acocora
diante de Belisário, como num confessionário).

MAMAÉ – Perdoa-me, padre Venâncio, eu pequei.

BELISÁRIO – (Daudo-lhe a bênção) Quando foi a última vez que você se


confessou, minha filha?

MAMAÉ – Há quinze dias, Padre.

BELISÁRIO – Você ofendeu a Deus nestas duas semanas?

MAMAÉ – Me acuso de ter me deixado dominar pela cólera, Padre.

BELISÁRIO – Quantas vezes?

MAMAÉ – Duas vezes. A primeira, terça-feira passada. Amélia estava


limpando o banheiro. Estava demorando muito e eu precisava fazer umas
necessidades. Tive vergonha de pedir a ela pra sair. Carmem e Pedro iam perce-
ber que eu estava apertada, queria usar o reservado. Por isso eu dissimulava:
“Acaba com esse banheiro, Amélia.” E ela nem nada, levando o tempo todo. Eu
já me sentia mal, com cólicas, suando frio. Por isso, mentalmente, a insultava:
“Estúpida!” “Lesma!” “Maldita!” “Desgraçada!”.

BELISÁRIO – E a segunda vez, filha?

MAMAÉ – Esse pata de Judas derramou meu vidro de Água de Colônia.


Tinham me dado de presente. A família não está em boa situação, Padre, de
modo que esse presente veio a calhar. Eu dependo do que meus sobrinhos me
dão no Natal e no meu aniversário. Fiquei tão feliz com essa Água de Colônia.
Que perfume! Pois o renegado abriu o vidro e derramou tudo na pia. Só porque

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eu não quis lhe contar uma istória, padre Venâncio.

BELISÁRIO – O pata de Judas era eu, Mamaé?

MAMAÉ – Era, Padre.

BELISÁRIO – O renegado?

MAMAÉ – É!

BELISÁRIO – Você me puxou as orelhas? Me deu uns sopapos?


MAMAÉ – Nunca bati em você. Você é meu neto, por acaso? Sou apenas uma
tia, a quinta roda do carro. . . Ao ver o vidro vazio me deu tanta raiva que eu me
fechei no banheiro e ali, na frente do espelho, disse uma porção de coisas feias,
Padre.

BELISÁRIO – Como o que, por exemplo, minha filha?

MAMAÉ – Tenho vergonha, Padre Venâncio.

BELISÁRIO – Fala, mesmo assim. Não seja orgulhosa.

MAMAÉ – Vou tentar, Padre. (Faz um grande esforço)


“Maldita seja a tua cara, caralho” “Merda” “Merda!” “Merdinha de merda!

BELISÁRIO – Que outros pecados mais, filha?

MAMAÉ – Me acuso de ter mentido três vezes, Padre.

BELISÁRIO – Mentiras graves?

MAMAÉ – Mais ou menos, Padre.

AVÓ – (Da mesa) Que é que você disse, Elvira?

MAMAÉ – Que acabou o açúcar. (A Belisário) Tinha ainda um pacote inteiro


mas eu escondi. Pra Carmem me dar dinheiro. E por isso disse a segunda
mentira.

AVÓ – E porque você vai comprar açúcar? Deixa que a Amélia vai.

MAMAÉ – Não, eu vou, ora! Quero fazer um pouco de exercício. (A Belisário)


Não era verdade, ando com dificuldade. Me doem os joelhos e não tenho
equilíbrio.

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BELISÁRIO – E pra que essa mentira, filha?

MAMAÉ – Pra comprar chocolate. Estava com desejo há vários dias. Me dava
água na boca só de ouvir no rádio a propaganda do Chocolate Sublime.

BELISÁRIO – Mas não era mais fácil pedir cinco sóis ao Avô?

MAMAÉ – Está em muito má situação, Padre. Vive dos filhos, e eles também
andam apertados. O pobre faz as lâminas de barbear durarem várias semanas.
Afia elas no copo todas as manhãs, não sei quantas horas. Há séculos que
ninguém compra roupa nessa casa. Herdamos o que já não serve pros
sobrinhos. E eu ainda ia pedir dinheiro pra chocolate? Aí fui na padaria,
comprei um Sublime e comi na rua. Ao voltar coloquei na cozinha o pacote de
açúcar que tinha escondido. Essa foi a terceira mentira, Padre.

BELISÁRIO – Você é uma pessoa demasiado orgulhosa, minha filha.

MAMAÉ – Mas isso não é mal. Não é pecado ser orgulhosa. (No curso do
diálogo foram mudando de posição, até chegarem à comum, quando Mamaé
conta istórias ao menino).

BELISÁRIO – Eu acho que é sim, Mamaé. Noutro dia, na classe de catecismo,


o irmão Leôncio falou que o primeiro pecado foi o orgulho, o pecado de
Lúcifer.

MAMAÉ – Bem, talvez seja. Mas era o orgulho que permitia a senhorita de
Tácna continuar vivendo, você percebe? Suportar as decepções, a solidão, a
privação de tantas coisas. Sem orgulho teria sofrido muito. E, além disso, era
tudo que ela tinha.

BELISÁRIO – Não entendo porque você fala tanto em orgulho. Se ela amava o
noivo e ele lhe pediu perdão por tê-la enganado com a mulher má, não era
melhor perdoá-lo e se casar com ele? De que serviu tanto orgulho? Ficou pra
solteirona, não é verdade?

MAMAÉ – Você é muito pequeno, não pode entender. O orgulho é a coisa


mais importante que uma pessoa tem. Defende-a de tudo. O homem ou a
mulher que perde isso, vira um trapo e é pisado por todos.

BELISÁRIO – Mas isso já não é mais um conto, Mamaé, é um sermão. Nos


contos acontecem coisas. Você sempre me deixa com uma completa falta de
detalhes. Por exemplo, a Senhorita de Tácna tinha (malévolo) bons
“argumentos?” (Faz sinal de mulher apetitosa).

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MAMAÉ – (Meio assustada, pondo-se de pé) Não. Claro que não. (Mais
assustada) Bons . . . o que? O que é que você disse? (Horrorizada) O que é que
você está falando?

BELISÁRIO – (Envergonhado) Eu disse maus pensamentos, Mamaé. A


Senhorita de Tácna às vezes não tinha maus pensamentos?

MAMAÉ – (Deslizando com dificuldade até a poltrona) Você é que tem essa
cabeça cheia de maus pensamentos, garoto. (Se senta e se enrodilha. Os Avós e
Amélia continuam comendo).
BELISÁRIO – (Que voltou a escrever, fala enquanto garatuja os papéis). É,
Mamaé, é verdade. Não posso deixar de pensar que sob aquela aparência
espiritual, detrás daquele olhar sereno, tinha que haver também na senhorita
uma corrente de sangue quente, instintos que, de repente, lhe subiam à cabeça
com suas exigências. Ou a austera rotina de sua vida exterior era mesmo toda a
sua vida? (Deixa de escrever. Volta a olhar Mamaé. Se dirige a ela, algo
patético) Quando eu era pequeno a minha impressão era que você tinha sido
sempre assim, uma velhinha enrugada. E mesmo agora, procurando imaginar a
tua juventude, consigo: a velhinha afugenta sempre a jovem que você foi um
dia. Apesar de tantas istórias continuo no ar, na lua, a respeito da senhorita. Que
aconteceu logo depois que queimou o vestido e deixou plantado o oficial
chileno? (Com as últimas palavras de Belisário, a Avó se levantou da mesa e se
aproximou de Mamaé. O Avô e Amélia continuam comendo, ignorando o que
se segue. O Avô, às vezes, bota sal num prato, com fúria).

AVÓ – Por que não preparou suas maletas, Elvirinha? Belisário quer partir bem
cedo, ao amanhecer, pra chegar no cais de Arica antes do sol forte. Que não vá
nos dar uma insolação, sobretudo em você, com essa pele tão branca. (Pausa).
Sabe que no fundo estou contente de partir? Quando Mamãe morreu depois
daquela agonia horrível, pra mim foi como se Tácna também tivesse começado
a morrer. E agora, com a morte de Papai, a cidade pra mim é até desagradável.
Vamos preparar as tuas malas — eu te ajudo.

MAMAÉ – Eu não vou pra Arequipa com vocês, Carmita.

AVÓ – E onde é que você vai ficar? Com quem você vai ficar em Tácna?

MAMAÉ – Não quero ser uma carga pra você a vida toda.

AVÓ – Não diz bobagem, Elvira. Você sabe que meu marido está contente por
você vir conosco. Por acaso não somos como irmãs? Você vai ser irmã de
Pedro, também. Vamos preparar as malas, vamos.

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MAMAÉ – Desde que você se casou, passei todas as noites esperando este
momento. Sem dormir, pensando, até que ouvia a alvorada no quartel dos
chilenos. Não posso viver com vocês. Pedro se casou com você; não com você
e mais tua prima Elvira.

AVÓ – Você vem viver conosco e se acabou. É um assunto encerrado.

MAMAÉ – Aos poucos eu iria virando um estorvo. Uma fonte de problemas.


Por minha culpa haveria discussões entre vocês dois. Brigas, talvez. Um dia
Pedro te jogaria na cara que você lhe tinha imposto sustentar uma intrusa a vida
toda.
AVÓ – Pra começo de conversa não vai ser a vida toda porque você logo vai se
esquecer do que aconteceu com Joaquim, vai gostar de alguém de novo, e se
casar. Por favor, Elvira, temos que levantar de madrugada. A viagem é muito
longa.

BELISÁRIO – (Encantado com o desenvolvimento, pula na cadeira).


Comprido, pesadíssimo, complicadíssimo. O trem de Tácna a Arica. Tomar o
barco em Arica e passar dois dias navegando. Até Molendo. O desembarque ali
era coisa de circo, lembra, vovó? Desciam as senhoras do barco pra lancha em
cestas grandes, como vacas, lembra, Mamaé? E depois a cavalgada de três dias
até Arequipa, por serras onde havia perigo de serem assaltadas por bandoleiros.
(Se põe a escrever, entusiasmado). Ah, Belisário, e dizer que isso é o que você
criticava tanto nos escritores regionalistas; a cor local e a truculência.

AVÓ – Você tem medo dos bandoleiros, Elvira? Eu tenho mas ao mesmo tempo
me encantam. Nessas coisas é que você devia pensar e não em tolices.

MAMAÉ – Não são tolices, Carminha.

AVÓ – Você sabe muito bem que não pode ficar em Tácna. Aqui já não temos
mais nada. Nem mesmo esta casa. Amanhã de manhã já estará ocupada pelos
novos donos.

MAMAÉ – Eu fico com a Maria Murga.

AVÓ – A que foi tua babá? Mas você tem cada coisa!

MAMAÉ – É uma mulher de bom coração. Me ofereceu um quarto em casa


dela, em La Mar. Ficarei com o filho menor, meu afilhado. E ajudarei nos
gastos. Por acaso não sei bordar? Posso fazer toalhas, mantilhas, véus, o que for
preciso. E doces, também. Vendo na Pastelaria Máspoli; quer dizer, o italiano
vende e me dá uma comissão.

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AVÓ – Exatamente como num romance de Xavier de Montepin. . . Já te vejo
vivendo num subúrbio de Tácna, no meio dos cholos e dos negros. Logo você,
que tem nojo de tudo; você, a menininha dengosa, de nariz pro alto, como te
dizia papai.

MAMAÉ – Posso ser dengosa mas nunca me comportei como uma moça rica.
Aprenderei a viver com os pobres, pois também sou pobre. A casinha de Maria
Murga é muito limpa.

AVÓ – Você não está com um parafuso frouxo? Imagina, viver em La Mar. Que
cisma é essa tua com La Mar? Primeiro ouvir Missa aí; depois ir sempre nesse
fim de mundo só pra ver o pôr-do-sol. E agora ainda vem com essa de ir viver
com a Maria Murga. Acho que algum mandingo de La Mar fez macumba com
você. Bom, está ficando tardíssimo e já cansei de discutir. Faço eu as tuas
maletas se for preciso e Pedro vai te enfiar no trem, amanhã de manhã, nem que
seja à força. (A Avó volta a sala de rejeições. Senta-se. Volta a comer).

MAMAÉ – Qual é a diferença entre permanecer aqui e ir viver com a Maria


Murga? Isso aqui é uma pocilga tão miserável quanto uma palhoça de La Mar.
(Pausa). Bom, é verdade, lá a gente toda anda de pé no chão e aqui usa sapato.
Lá todos têm piolho na cabeça, como diz o tio Menelau, e nós aqui. . . (Leva a
mão à cabeça). . . não sei não, estou sentindo umas picadinhas. (O Avó se
levanta e se dirige até Mamaé. A Avó e Amélia continuam comendo).

AVÔ – Boa tarde, Elvira. Eu a estava procurando. Queria trocar umas palavras
com você.

MAMAÉ – (O observa um instante. Logo fala pro céu) É difícil te entender,


meu Deus. Parece mesmo que preferes os loucos e os patifes em vez dos
homens bons. Por que, se Pedro foi sempre tão justo e tão honrado, você lhe
deu uma vida tão ruim?

BELISÁRIO – (Se levanta da mesa de trabalho e avança pra Mamaé) Não era
pecado a senhorita censurar Deus, Mamaé? Ele sabe muito bem o que faz e, se
deixou o cavalheiro sofrer tanto, por alguma coisa foi. Talvez pra lhe dar um
lugar melhor no céu.

AVÔ – Você é como irmã de Carmem e eu a considero também minha irmã.


Não será jamais uma estranha em minha casa. Fica avisada — não sairemos de
Tácna sem você.

MAMAÉ – Pode ser, menino, pode ser. Mas a senhorita não entendia assim. E
queimava o cérebro pra encontrar o motivo pensando:
“Foi pela índia da carta, Santo Deus, que você fez o cavalheiro padecer tanto?

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Só por esse pecadinho você fez com que a geada queimasse todo o algodão de
Camaná exatamente no ano em que ele ia ficar rico?”.

BELISÁRIO – (Colocando-se aos pés de Mamaé, na postura de quem escuta


uma istória) O cavalheiro tinha cometido um pecado? Isso você não me contou
nunca Mamaé.

AVÔ – Lhe sou extremamente grato porque sei que ajudou muito a Carmem,
como amiga e conselheira. Viverá sempre conosco. Sabe que deixei o emprego
que tinha na Casa Gibson? Entrei lá aos quinze anos, quando morreu papai. Eu
queria ser advogado como ele, mas não foi possível. Agora vou administrar a
fazenda dos irmãos Saíd, em Camaná. Vamos semear algodão. Acho que em
alguns anos posso ficar independente, comprar umas terrinhas. Mas Carmem
terá que passar grandes temporadas em Arequipa. Você a acompanhará. Já vê
que não será uma carga, mas uma ajuda na casa.

MAMAÉ – Foi um só pecado, numa vida nobre e limpa. Um só, quer dizer,
nada. E não por culpa do cavalheiro mas de uma perversa que o induziu a
proceder mal. A senhorita não podia entender essa injustiça. (Fala ao céu) Foi
pela índia da carta que você fez as pragas destruírem também o algodão de
Santa Cruz? Só por isso também você o obrigou a aceitar essa prefeitura da
qual saiu mais pobre do que entrou?

BELISÁRIO – Mamaé, eu já sei que a senhorita tinha pena de ver o cavalheiro


sempre de malas prontas. Mas agora não estou interessado na senhorita. Me
conta o pecado do cavalheiro.

AVÓ – Você vai gostar da casa que aluguei em Arequipa. É num bairro novo.
O Valinho, junto ao rio Chilina. Se ouve passar a água cantando entre as pedras.
E do seu quarto se vêem todos os três vulcões.

MAMAÉ – (Sempre pro céu) Por causa da Índia você fez com que ele nunca
mais tivesse um emprego depois que saiu da prefeitura?

BELISÁRIO – Vou me zangar com você, Mamaé. Vou vomitar todo o almoço,
o jantar e o café da manhã! Quero que morra essa Senhorita de Tácna! Fala do
cavalheiro. Roubou alguma coisa? Matou a tal índia?

AVÔ – É grande, com cinco dormitórios, um quintal enorme onde plantaremos


árvores. O seu quarto e o nosso já estão mobiliados. Os outros, pra futura
família — Se Deus quiser — nós vamos mobiliar com a ajuda da divina
providência e do algodão de Camaná. Estou otimista quanto ao novo trabalho,
Elvira. As experiências que fizemos foram ótimas: o algodão se aclimata. Com
empenho e alguma sorte iremos pra frente.

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MAMAÉ – Não matou nem roubou ninguém. Se deixou enrabichar por um
diabo de saias. Mas não foi nada tão grave pra que Deus o obrigasse a mendigar
um trabalho que ninguém lhe dava. Para que o fizesse viver da caridade quando
ainda era lúcido e forte. (Começou falando com Belisário mas se distraiu e
agora fala sozinha). Para que o fizesse se sentir tão inútil que um dia sua
cabeça explodiu e esqueceu onde é que ficava a própria casa. . .

BELISÁRIO – (Se levanta e volta à mesa de trabalho, junto ao proscênio.


Escreve muito depressa). Vou te dizer uma coisa, Mamãe. A senhorita de Tácna
estava enamorada desse senhor. Está claríssimo, embora ela própria não
soubesse e nem se diga isso nos teus contos. Mas na minha istória eu vou dizer.

AVÔ – Eu lhe peço, Elvira. Vem viver conosco. Pra sempre. Quer dizer,
enquanto você quiser. Eu sei que não vai ser pra sempre. Você é jovem,
atraente, os rapazes de Arequipa vão ficar loucos por você e um deles, um dia,
vai te conquistar e te pedir em casamento.

MAMAÉ – (Levantando-se) É nisso que você está enganado, Pedro. Não vou
me casar nunca. Mas o que você disse me comove muito. Agradeço de todo o
coração.

AVÓ – (Levanta-se da mesa, se aproxima deles) Depressa, Elvirinha, tuas


maletas já estão aí. Só falta o bolsão de viagem. Você mesma tem que preparar,
eu não sei o que você vai querer levar na mão. O baú vai com o resto das
coisas. Ah, a partir de agora, pelo amor de Deus, tratem-se com mais
naturalidade. Onde se viu dois irmãos tão cheios de cerimônias? (Obriga-os a
se abraçarem. Os avós levam Mamaé até à mesa, onde cada qual ocupa seu
lugar. Voltam a comer).

BELISÁRIO – (Durante o diálogo entre Mamaé e os avós, escreveu muito


animado. Agora interrompe o trabalho com uma expressão de desânimo). Mas
esta é mesmo uma istória de amor? (Bate na cabeça) Você sempre estraga tudo,
desvia tudo, Belisário. Vai morrer sem ter escrito nada do que realmente queria.
Olha, pode ser uma definição (Anota): Escritor é aquele que escreve não o que
quer escrever — esse é o homem normal — mas o que os seus demônios
querem. (Olha os velhinhos que continuam comendo). Vocês são meus
demônios? Devo tudo a vocês e agora, que já estou velho e vocês já estão
mortos, ainda continuam me ajudando, salvando, cada vez lhes devo mais.
(Pega os papéis, se levanta, impaciente, exasperado, vai à sala onde a família
continua comendo, impassível). Mas, então, me ajudem de verdade; abram-me
os olhos, esclareçam as coisas, me iluminem. Quem era essa índia perversa que
se metia de repente nas istórias do cavalheiro e da Senhorita de Tácna? Alguém,
algo que devia tocar o centro nevrálgico da história familiar, é isso, Mamaé?

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Pra você uma coisa obsessiva, não é verdade? Tinha levado uma surra, falava
isso numa carta, você a confundia com a Senhora Carlota pelo ódio que
devotava a ambas. (Dá voltas em torno da mesa, gritando) Que aconteceu? Que
aconteceu? Preciso saber o que aconteceu. Vocês três se davam
maravilhosamente. Não foi assim durante quarenta ou cinquenta anos de vida
em comum? Mas o cavalheiro, às escondidas, nunca pegou na mão da
senhorita? Nunca a cortejou, beijou? Nunca aconteceram entre os dois essas
coisas que acontecem? Quer dizer: vocês dominavam os instintos com o escudo
da convicção moral e pulverizavam as tentações com força de vontade?
(Regressa à mesa de trabalho, abatido). Essas coisas só acontecem nos contos,
Mamaé. (Enquanto BeIisário monologa, batem na porta. Entram César e
Agostinho, que beijam os avôs e Mamaé).

AGOSTINHO – Como se sente, papai?

AVÔ – Bem, meu filho, muito bem.

AVÓ – Não é verdade, Agostinho. Não sei o que acontece com teu pai, mas
anda cada dia mais abatido. Gira aí pela casa como um fantasma.

AGOSTINHO – Vou dar uma notícia que vai te levantar o ânimo, papai. Me
chamaram da polícia, imagina — pegaram o ladrão.

AVÔ – (Sem saber do que se trata) Ah, é? Muito bem, muito bom.

AMÉLIA – O que assaltou você, quando você ia descendo do bonde, papai.

AGOSTINHO – E o melhor de tudo é que encontraram o relógio nas coisas


roubadas: o cara tinha escondido tudo num barracão em Surquillo.

AVÔ – Opa, é uma boa notícia. (Duvidando, pra Avó) Roubaram um relógio?

CÉSAR – Descobriram pela data, gravada na parte de trás: Piura, outubro de


1946. (As vozes se vão apagando embora permaneçam como um murmúrio
distante).

BELISÁRIO – (Deixa de escrever e fica brincando com o lápis, pensativo).


Piura, outubro do 1946. . . Aí estão os funcionários da Corte Superior lhe
entregando o relógio; aí está o Avô agradecendo o presente, no fim do banquete
no Clube Grau. Aí está o pequeno Belisário vaidoso como um pavão real, por
ser o neto do prefeito. Vovôs, meus tios, mamãe, Mamaé. (Volta a olhar a
família). Foi essa a última época boa? É. Depois a chuva de calamidades: falta
de trabalho, de dinheiro, de saúde, de lucidez. Mas em Piura vocês acordavam
com saudades da Bolívia; lá a vida tinha sido muito melhor . . . E na Bolívia se

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lembravam de Arequipa; lá a vida tinha sido muito melhor. . . (Na mesa os avós
continuavam conversando com os filhos). Foi em Arequipa a época de ouro,
quando o Avô ia e vinha a Camaná?

AVÔ – (Jovem, risonho, otimista) Desta vez vai. Vamos colher os frutos de dez
anos de paciência. O algodão pegou maravilhosamente. Os pés estão carregados
como nunca ousamos nem sequer sonhar. Os irmãos Saíd estiveram em Camaná
a semana passada. Trouxeram um técnico de Lima, cheio de diplomas. Ficou
assombrado com a plantação. Não queria acreditar, menina.

AVÓ – A verdade é que você merece, Pedro. Depois de tantos sacrifícios,


enterrado nessa solidão.

AVÔ – O técnico disse que, se não faltar água — e não há razão pra faltar pois
o rio está mais cheio do que nunca — este ano teremos aqui uma colheita
melhor do que nas melhores fazendas de Ica.

AGOSTINHO – E aí você me compra esse avental e esses aparelhos de médico,


papai? Pois eu mudei de idéia. Já não quero ser um grande advogado como o
vovô. Vou ser um grande médico. (O Avô concorda).

CÉSAR – E pra mim você compra a roupa de explorador, papai? (O Avô


concorda).

AMÉLIA – (Sentado nos joelhos do Avô) Papaizinho: pra mim você me dá a


boneca de chocolate que tem na vitrine da Ibérica?

AVÔ – Até a colheita ela já terá sido vendida, boba. Mas eu mando te fazer uma
boneca especial, a maior boneca de chocolate de Arequipa. (Aponta a Avó) E à
nossa querida namorada aí, o que é que nós vamos dar pra ela, se a colheita sair
como esperamos?

MAMAÉ – Ora, ora, você não sabe? Chapéus! Muitos chapéus! Grandes,
coloridos, com fitas, com véus, com pássaros, com flores. (Todos riem.
Belisário, que se pôs a escrever, ri também, mas continua escrevendo).

AMÉLIA – Por que a senhora gosta tanto de chapéus, Mamaé?

AMÉLIA – É a moda da Argentina, filhinha. Pra que você acha que eu assinei
essas revistas de Buenos Aires, Para Ti, Leoplan? Com esses chapéus eu trago a
civilização para Arequipa. Você também vai usar chapéu, pra ficar ainda mais
bonita.

MAMAÉ – Pra ver se você conquista um advogado. (Ao Avô) Você vai ter que

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se contentar com um genro advogado, já que teus filhos não parecem muito
entusiasmados com o foro.

AGOSTINHO – E, se a colheita for boa, o que é que você vai dar pra Mamaé,
papai?

AVÔ – Mamaé, que idéia é essa, Mamaé? Vocês chamam a Elvira de Mamaé?
Por que isso?
AMÉLIA – Carinhoso, papaizinho! Mamaé Elvira. Mamãe mais é. O É é o É de
Elvira. Sabe quem inventou? Eu.

CÉSAR – Mentira, a idéia foi minha.

AGOSTINHO – Fui eu, seus ladrões. Não é verdade que fui eu, Mamaé?

AVÓ – Chamem de mamãe, ou de Elvira. Mamaé é muito feio.

AMÉLIA – Mas mamãe já é você — como é que vamos ter duas mamães?

AGOSTINHO – Ela é uma mamãe que não é. (Dirige-se a Mamaé). E o que é


que você quer que papai te dê depois da colheita, Mamaé?

MAMAÉ – Um véu queimado.

CÉSAR – Anda, Mamaé, fala sério, que é que você quer?

MAMAÉ – (Velhinha de novo) Damascos de Locumba e um cálice do suco


destilado pelos mandingos. (Os irmãos, outra vez adultos, se olham intri
gados).

AGOSTINHO – Damascos de Locumba? Suco dos mandingos? De que é que


você está falando, Mamaé?

CÉSAR – É alguma coisa que ouviu no radioteatro.

AVÓ – Coisas da infância, como sempre. Quando éramos crianças havia umas
hortas em Locumba de onde saíam cestas de damascos pra Tácna. Damascos
grandes, doces, suculentos. E tinha um vinho moscatel que papai nos fazia
provar com uma colherinha. Os mandingos eram os negros das fazendas.
Mamaé diz que quando ela nasceu ainda havia escravos. Mas já não havia não
— havia?

CÉSAR – Sempre com as suas fantasias, Mamaé. Como quando nos contava
contos. Agora você os vive em sua própria cabeça, não é, velhinha?

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AMÉLIA – (Com amargura) É, é verdade. Por isso acho que você é culpada do
que acontece com meu filho. Sempre o estimulando a decorar poesias, Mamaé.

BELISÁRIO – (Soltando o lápis, levantando a cabeça) A Mamaé só me


ensinou uma. Se lembra que nós dois recitávamos juntos, um verso cada um,
Mamaé? O soneto que um poeta cabeluda escreveu pra senhorita num leque de
nácar. . . (Se dirige a Agostinho). Tenho que te contar uma. coisa, tio Agostinho.
Mas você vai prometer que guarda segredo. Nem uma palavra pra ninguém. So-
bretudo pra mamãe, tio.

AGOSTINHO – Claro, sobrinho, não se preocupe. Claro que não vou dizer
nada a ninguém. Que é?

BELISÁRIO – Eu não quero ser advogado, tio. Odeio os códigos, os


regulamentos, as leis, tudo que ensinam na faculdade. Gravo só até o dia do
exame e depois esqueço tudo. Te juro. Também não dou pra diplomata, tio.
Sinto muito, sei que, pra você, pra mamãe, pros avós, pra todos, é uma
desilusão. Mas que é que vou fazer, meu tio? Não nasci pra isso, mas pra outra
coisa. Que não disse pra ninguém até agora.

AGOSTINHO – Pra que é que você nasceu, posso saber, Belisário?

BELISÁRIO – Pra ser poeta, tio.

AGOSTINHO – (Ri) Não estou rindo de você, sobrinho, não se zangue. Estou
rindo de mim mesmo. Sabe o que eu pensei? — Que você fosse me confessar
que era bicha. Ou tinha vocação de padre. Tudo somado poeta é menos grave.
(Volta à sala de jantar e se dirige a Amélia) O fato é que você não deve
continuar sonhando; Belisário não vai nos tirar da pobreza. Faz o que eu te
aconselhei que é melhor; põe o rapaz pra trabalhar de uma vez. (Belisário
regressou ao escritório e dali escuta).

AMÉLIA – Em outras circunstâncias eu não me importaria que fosse o que


quisesse. Mas é que vai morrer de fome, Agostinho. Como nós. Pior que nós!
Poeta! Por acaso isso é uma profissão? Tinha tanta esperança nele! O pai
voltaria a dar um tiro na cabeça se soubesse que o filho único deu pra ser poeta.
(Belisário, satisfeito, ri, e faz com a mão como se desse um tiro em si mesmo).

MAMAÉ – Está se referindo ao poeta Frederico Barreto? Que o tio Menelau


não te ouça. Desde que me escreveu esse verso, Menelau não quer nem que se
mencione o nome dele nesta casa. (Mamaé sorri pra todos como pra
desconhecidos, fazendo vênias. Belisário, deixando a mesa de trabalho, coloca
as mãos na testa como se fossem chifres, começa a dar chifradas nos objetos

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do quarto e também nos Avós, na Mãe e nos Tios).

AVÓ – Por que você se espanta dele querer ser poeta? Saiu ao bisavô. O pai de
Pedro escrevia versos. E Belisário, desde que era assim, sempre foi muito
inventivo, fantasioso. Não se lembram na Bolívia, com o cabrito?

BELISÁRIO – É o demônio, vovozinha! Eu juro que é o demônio! Está nas


estampas do catecismo, eu vi; e o Irmão Leôncio também disse que o demônio
encarna num cabrito preto. (Jura, beijando os dedos em forma de cruz). Por
Deus, vovozinha!

AMÉLIA – Mas isso não é um macho, é uma cabrita, filhinho.

AVÓ – E foi um presente do vovô no dia das comemorações da Pátria. Você


acha que teu avô ia nos mandar o diabo de presente?

BELISÁRIO – (Choramingando) É Belzebu, vovozinha! É sim, eu sei! Por


Deus, acredita. Eu fiz a prova com a água benta. Joguei em cima e ele se
assustou, palavra!

AGOSTINHO – Vai ver que se assustou porque a água benta não foi bem-
benta, sobrinho. (Belisário, choramingando, vai até a poltrona de Mamaé).

MAMAÉ – Não brinquem com o pobrezinho. Eu converso com você, vem cá,
filhinho. (Se põe a acariciar um menino invisível).

BELISÁRIO – (Acariciando a Mamaé invisível). Se você soubesse que ainda


hoje, em certos pesadelos, eu volto a ver a cabrita da Bolívia, Mamaé. Como
parecia enorme. Que medo você teve, Belisário! Um cabrito preto, o diabo
encarnado. Isso é o que você chama uma istória de amor?

AMÉLIA – Por que é que você está tão calado, papai? Se sente mal? Papai,
papai!

AVÔ – (Pegando a cabeça) Uma tontura, filhinha No aparelho, outra vez no


aparelho... (A Avó e os três irmãos, muito alarmados, correm pro Avô, que está
meio desmaiado).

CÉSAR – Temos que chamar um medico. Depressa!

AGOSTINHO – Espera. Vamos botá-lo no quarto. (Entre exclamações de


angústia, os quatro levam o Avô pro interior da casa. Mamaé permaneceu
imóvel, observando).

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MAMAÉ – (Olhando o céu) Foi por causa da índia? Por esse pecadilho da
juventude? (Fica em pé, com grande dificuldade. Com a cadeirinha de madeira
que lhe serve de bengala, segura no espaldar, começa a lenta e difícil trajetória
até a poltrona. Belisário, muito sério e decidido, a está esperando aos pés da
poltrona, na postura de quem escuta istórias).

BELISÁRIO – Agora eu tenho que saber, Mamaé. Que pecadilho foi esse?
MAMAÉ – (Enquanto desliza penosamente pra poltrona) Uma coisa terrível
que aconteceu com a senhorita, menino. Só uma vez na vida. Por causa dessa
carta. Por causa dessa mulher má. (Faz uma parada pra recuperar forças).
Pobre senhorita! A obrigaram a pecar com o pensamento!

BELISÁRIO – Que carta, Mamaé? Começa do começo.

MAMAÉ – Uma carta que o cavalheiro escreveu pra sua esposa. A esposa, a
amiga íntima da senhorita de Tácna. Viviam juntas porque se amavam muito.
Eram como irmãs e, por isso, quando a amiga se casou, levou a senhorita pra
morar com ela.

BELISÁRIO – Em Arequipa?

MAMAÉ – (Chegou por fim à poltrona e se joga nela. Belisário apóia a


cabeça em seus joelhos). Era uma boa época. Parecia que ia haver uma grande
colheita de algodão e que o cavalheiro ia ganhar muito dinheiro e aí poderia
comprar uma fazenda própria. O cavalheiro, nessa época, administrava umas
terras alheias.

BELISÁRIO – A fazenda de Camaná, dos irmãos Saíd. Já sei isso tudo. Conta
da carta, Mamaé, da índia. (No fundo do cenário aparece o Avô. Senta. Entra a
senhora Carlota, com uma vassoura e um espanador. Veste como no primeiro
ato, mas aqui faz as tarefas de uma empregada doméstica. Enquanto varre e
espana, passa e volta a passar na frente do Avô, com ar provocante. O Avô,
como contra a vontade, começa a segui-la com os olhos).

MAMAÉ – Camaná era o fim do mundo. Um vilarejo sem estradas, não tinha
nem uma igreja. O cavalheiro não queria que sua mulher fosse se enterrar nesse
deserto. A deixava cm Arequipa, com a senhorita, pra que tivesse alguma vida
social. E, assim, ele passava meses longe dela. Era um homem muito bom,
tratava os peões e empregados com luvas de pelica. Até que um dia. . .

AVÔ – (Recita). “Esposa adorada, amor meu: Te escrevo com a alma feita em
frangalhos por remorsos. Em nossa noite de núpcias nos juramos fidelidade e
amor eternos. Também franqueza total. Nestes cinco anos cumpri sempre
escrupulosamente esse juramento, como sei que tu também cumpriste, mulher

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santa entre as santas”. (A Senhora Carlota, encorajada pelos olhares do Avô,
tira a blusa, como se estivesse fazendo muito calor. 0 sutiã que usa mal lhe
cobre os seios).

BELISÁRIO – (Com angústia contida) Quer dizer que o cavalheiro escreveu


uma carta à senhorita?

MAMAÉ – Não. À mulher dele. À esposa. A carta chegou a Arequipa e, ao lê-


la, a mulher do cavalheiro ficou branca como a neve. A senhorita teve que lhe
dar valeriana, sais aromáticos, molhar-lhe a testa. Imediatamente a esposa do
cavalheiro se encerrou em seu quarto e a senhorita a ouvia chorar com uns
soluços de partir a alma. Ficou com uma enorme curiosidade. E nessa mesma
tarde rebuscou o quarto. Você sabe onde é que a carta estava? Escondida dentro
de um chapéu. Pois a mulher do cavalheiro era encantada por chapéus. E, em
má hora pra ela, a senhorita leu a carta. (A mão do Avô se estica e segura a
Senhora Carlota quando esta passa junto dele. Ela finge se surpreender,
zangar-se, porém, depois de um breve e silencioso negaceio, se deixa apertar
por ele. O Avô a senta em seus joelhos e a acaricia, enquanto continua lendo a
carta).

AVÔ – “Prefiro te causar dor do que mentir, amor meu. Não viveria em paz
sabendo-te enganada. Ontem, pela primeira vez nestes cinco anos, eu te fui
infiel. Perdoa-me, te peço de joelhos. Foi mais forte do que eu. Um
arrebatamento de desejo, como um vendaval que arranca as árvores com raiz e
tudo, atirou por terra os meus princípios, minhas promessas. Mas eu decidi te
contar, ainda que me maldigas. A culpa é de tua ausência. Sonhar contigo nas
noites de Camaná tem sido, é, um suplício. Meu sangue ferve quando penso em
ti. Me assaltam impulsos de abandonar tudo e galopar até Arequipa, chegar até
você, tomar em meus braços teu corpo adorável, levar-te para a alcova e. . .“
(Sua voz vai se apagando).

MAMAÉ – Tudo começou a dar voltas em torno da senhorita. O banheiro onde


lia a carta se converteu num redemoinho, girando, girando, e a casa, Arequipa,
o mundo, viraram um precipício onde a senhorita caía, caia. Seu coração e sua
cabeça ameaçavam estourar. E a vergonha lhe queimava o rosto.

BELISÁRIO – (Muito grave) Sentia vergonha por ter lido que o cavalheiro
tinha batido na empregada? (O Avô e a Senhora Carlota deslizaram para o
chão).

MAMAÉ – (Trêmula) É. Muita! Não concebia que o cavalheiro pudesse


colocar um dedo em cima de uma mulher. Nem mesmo de uma índia perversa.

BELISÁRIO – (Muito comovido) Nunca tinha lido um romance em que um

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homem batia numa mulher?

MAMAÉ – Era uma senhorita decente e não lia certas coisas, meu filho. E,
além disso, era pior do que ler um livro. Pois ela conhecia o autor da carta. Lia
e relia e não podia acreditar que o cavalheiro tivesse feito uma coisa daquelas.

AVÔ – “O nome dela não importa. É uma infeliz, uma das índias que limpam o
alojamento, um animalzinho, uma coisa. Não fiquei cego pelos seus encantos,
Carmem. Perdi-me pelos teus, pela lembrança de teu corpo, que é a razão de
toda minha tristeza. Foi pensando em você, ávido por te rever, que cedi à
loucura e amei a índia. E no chão, como um animal. Sim, você tem que saber
tudo . . .”

BELISÁRIO – (Também trêmulo, agora, pronunciando as palavras como se


elas queimassem) E por uma chicotadas na criada a mulher do cavalheiro ficou
branca como a neve? E por isso, também, a senhora sentiu que o mundo se
acabava? Você não está me escondendo alguma coisa? Não será que o
cavalheiro exagerou na dose e acabou matando a índia, Mamaé?

MAMAÉ – De repente a senhorita começou a sentir outra coisa. Pior que a


vertigem. O corpo lhe tremia, teve que sentar-se na banheira. A carta era tão
explícita que lhe parecia sentir as chicotadas que o cavalheiro dava na mulher
má.

AVÔ – “E nos meus braços esse ser primitivo gemeu de prazer. Mas não era a
ela que eu estava amando, mas a ti, adorada. Pois eu tinha os olhos fechados e
só via você; e não era o cheiro dela que eu sentia, a fragrância de rosas de tua
pele é que me embriagava . . . ”

BELISÁRIO – De que forma essa carta fez a senhorita pecar por pensamento,
Mamaé?

MAMAÉ – (Mudada) Sentiu que o cavalheiro em vez de estar chicoteando a


Senhora Carlota estava chicoteando a ela.

AVÔ – “Quando tudo terminou e abri os olhos, meu castigo foi encontrar ali,
em vez das olheiras azuis que o amor deixa nos teus olhos, aquela cara estranha
e rude . . . Perdoa-me, perdoa-me. Fui muito fraco porém por ti, por estar
pensando em ti, te desejando, que eu te traí”.

BELISÁRIO – Onde estava o pecado da senhorita, em pensar que o cavalheiro


dava uma surra nela? Isso não era um pecado, era uma besteira. E, além disso,
de que Senhora Carlota você está falando? Essa Carlota não era a mulher má de
Tácna?

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MAMAÉ – Claro que era pecado. Não é pecado fazer mal ao próximo? Se a
senhorita pensou que o cavalheiro a maltratava, é porque queria que o
cavalheiro ofendesse a Deus, Você não percebe? (O Avô se levanta. Com um
gesto de desgosto despacha a Senhora Carlota, que sai lançando um olhar
zombeteiro pra Mamaé. O Avô passa a mão no rosto, ajeita a roupa).

AVÔ – “Quando for a Arequipa me jogarei a teus pés até que você me perdoe.
Te prometo uma penitência mais dura do que a minha falta. Sê generosa, sê
compreensiva, meu amor. Te beija, te quer, te adora mais do nunca, teu esposo
amante, Pedro.” (Sai).

MAMAÉ – Esse mau pensamento foi seu castigo, por ler cartas dos outros.
Aprende esta lição. Nunca ponhas os olhos onde não deves.

BELISÁRIO – Mas há coisas que não se compreende. Por que o cavalheiro


chicoteou a índia? Você disse que ela era perversa e ele boníssimo, mas no
conto quem apanha é ela. Quem bate é ele. O que foi que ela fez?

MAMAÉ – Na certa alguma coisa horrível, pra que o cavalheiro perdesse


assim as estribeiras. Devia ser uma dessas mulheres que falam de paixões, de
prazer, essas imundícies.

BELISÁRIO – A senhorita de Tácna foi confessar seus pensamentos?

MAMAÉ – O terrível, Padre Venâncio, é que, lendo essa carta, senti alguma
coisa que não consigo explicar. Uma exaltação,, uma curiosidade, um calor no
corpo todo. E logo uma grande inveja da vítima do que ele contava na carta.
Tive maus pensamentos, Padre.

BELISÁRIO – O demônio está à espreita e não perde nenhuma oportunidade de


tentar Eva, como no princípio do mundo.

MAMAÉ – Nunca tinha me acontecido, Padre. Já tive idéias meio torcidas,


desejos de vingança, invejas, cóleras. Mas pensamentos como esse, nunca! E,
acima de tudo, relacionamentos a uma pessoa que respeito tanto. O cavalheiro
da casa em que eu vivo, o marido da prima que me deu um lar. Aiiii! Aiiii!

BELISÁRIO – (Pondo-se de pé, indo para o escritório, começando a


escrever). Olha, Senhorita de Tácna, vou te dar a receita do irmão Leôncio
contra maus pensamentos. Assim que eles te assaltarem, você cai de joelhos,
esteja onde estiver, e chama a Virgem em teu auxílio. Aos gritos, se for preciso.
(Imita Irmão Leôncio) “ Maria, afugenta a tentação como a água afugenta os
gatos.”

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MAMAÉ – (A um Belisário invisível que continuaria a seus pés. Belisário
prossegue escrevendo) Quando tua avó Carmem e eu éramos pequenas, em
Tácna, certa temporada nos veio a mania de sermos muito piedosas. Nos
impúnhamos penitências mais severas do que as do confessionário. E quando a
mamãe de tua avó — minha tia Amélia — ficou doente, fizemos uma promessa
pra que Deus a salvasse. Sabes o que prometemos? Tomar banho de água fria
todos os dias. (Ri). Você sabe que nessa época se considerava loucura tomar
banho todo dia. Essa moda só veio muito mais tarde, com os gringos. Era um
acontecimento. As criadas esquentavam baldes d’água, se calafetavam portas e
janelas, se preparavam os banhos com sais e, saindo da tina, a pessoa se metia
na cama pra não pegar uma pneumonia. Você vê, pra salvarmos a tia Amélia,
nós nos adiantamos ao nosso tempo. Durante um Mês, caladinhas,
mergulhávamos as duas, todo dia, na água gelada. Saíamos da água com pele de
galinha e os lábios completamente roxos. Tia Amélia se recuperou e ficamos
certas de que tinha sido por nossa promessa. Mas alguns anos depois tia Amélia
caiu doente outra vez e teve uma agonia atroz que durou meses. Chegou a
perder a razão, de tanto sofrimento. Às vezes é muito difícil entender Deus,
meu filho. Teu avô Pedro, por exemplo, é justo que, sendo sempre tão honesto e
tão bom, tudo na vida lhe saísse tão mal?

BELISÁRIO – (Levantando a vista, deixando de escrever)


E você, Mamaé? Por que você não teve uma vida em que tudo te saísse bem?
Qual foi o pecadilho de juventude pelo qual você foi castigada? Foi por ler essa
carta? A senhorita de Tácna leu essa carta? Essa carta existiu mesmo? (Mamaé
tirou, de dentro de suas velhas roupas, um primoroso leque de nácar, do
princípio do século. Depois de abanar-se um pouco, aproxima o leque dos
olhos e lê alguma coisa escrita nele. Olha à direita, à esquerda, com medo de
que possam ouví-la. Vai recitar, com voz comovida, o poema do leque, quando
Belisário se adianta).

BELISÁRIO – Formosa Elvira, Elvira tão formosa . . . Eu não sei nunca,


quando me apareces . . .

MAMAÉ – Se és um anjo, se és uma deusa . . .

BELISÁRIO – Modesta e doce, pura e virtuosa.

MAMAÉ – Sou feliz por te ver perto de mim . . .

BELISÁRIO – Mas mais feliz será, mil vezes mais ditoso. . .

MAMAÉ – Aquele que um dia receberá teu sim . . .

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BELISÁRIO – E daí em diante será teu esposo.

MAMAÉ – Eu, humilde bardo do lar tacnense . . .

BELISÁRIO – Sou bem pequeno pra tal pretensão . . .

MAMAÉ – Mais destinada a um Deus ateniense.

BELISÁRIO – Porém te peço, escuta sem agravo . . .

MAMAÉ – Já que não posso, Elvira, ser teu dono . . .

BELISÁRIO – Deixa ao menos ser o teu escravo. (Põe-se a escrever de novo.


Com o último verso entrou em cena Amélia, vindo do interior da casa,
soluçando. Se apóia numa cadeira, limpa os olhos. Mamaé parece dormir na
poltrona, mas de olhos abertos. Um sorriso melancólico ficou gravado em sua
fisionomia. Entra César, também com o rosto compungido).

AMÉLIA – Está morta? (César assenta e Amélia apóia a cabeça em seu ombro.
Soluça. A César, embora controlando-se, lhe escapa um soluço. Entra
Agostinho).

AGOSTINHO –Vamos, acalmem-se. Temos que pensar na mamãe. Vai ser


terrível pra ela.

CÉSAR – Vamos ter que controlá-la com calmantes até que se habitue com a
idéia . . .

AMÉLIA – Me dá tanta pena, irmão.

CÉSAR – É a desintegração da família.

BELISÁRIO – (Olhando para o público) Mamaé morreu?

AGOSTINHO – Foi-se apagando como uma vela, aos pouquinhos. Morreram


primeiro os ouvidos, depois as pernas, as mãos, os ossos. Hoje chegou a vez do
coração.

BELISÁRIO – (Sempre com a mesma postura) Mamãe, é verdade que Mamaé


morreu?

AMÉLIA – É, meu filho. A pobrezinhla foi pro céu.

CÉSAR – Mas você não vai chorar, Belisário, não é verdade?

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BELISÁRIO – (Chorando) Claro que não. Por que eu ia chorar? Então eu não
sei que todos temos que morrer um dia, tio César? E homem não chora, não é
mesmo, tio Agostinho?

CÉSAR – Engole essas lágrimas, meu sobrinho, e comporte-se como você sabe
que deve se comportar.
BELISÁRIO – (Sempre no escritório, olhando o público)
Como o grande advogado que vou ser, meu tio? (Fazendo esforço pra dominar
a emoção que se apoderou dele, Belisário volta a escrever).

AMÉLIA – Isso mesmo, muito bem — como o grande advogado que vai ser.

AGOSTINHO – Fica junto da Mamaé, Amélia. Trata dela. Nós temos que
cuidar do enterro. (Amélia faz que sim e sai pro interior da casa. Agostinho fala
pra César) Enterro que, como você sabe, custa dinheiro. Vamos encomendar o
mais simples possível. Mas mesmo assim: custa dinheiro!

CÉSAR – Está bem Agostinho. Farei um esforço, embora esteja mais quebrado
do que você. Mas te dou uma ajuda.

AGOSTINHO – A mim não, a Mamaé, que era tão Mamaé tua quanto minha.
Vai ter também que ajudar, a ela, com os papéis, os atestados, o transporte, o
cemitério . . . (César e Agostinho saem. Mamaé está imóvel, enroladinha na
poltrona. Belisário terminou de escrever e na sua cara há uma mescla de
sentimentos; satisfação, sem dúvida, por haver concluído o que queria contar
e, ao mesmo tempo, vazio e nostálgico pelo que já acabou, já se perdeu).

BELISÁRIO – Não é uma istória de amor, não é uma istória romântica. O que
é, então? (Dá de ombros) Você nunca deixará de se maravilhar com o estranho
nascimento das istórias. Vão-se armando com coisas que a pessoa pensa ter
esquecido e que a memória resgata quando menos se espera, pra que logo a
imaginação transforme tudo: uma espécie de traição. (Olha Mamaé) Tudo que
minha memória guardava de você era a imagem dos últimos tempos; uma
porcariazinha de mulher, toda enrolada numa poltrona, fazendo pipi dentro das
calças. (Levanta, aproxima-se de Mamaé) Você era muito boa, Mamaé, claro
que era. Mas não te restava outra alternativa, não é mesmo? O que é que me
deu pra querer contar a tua istória? Pois você deve saber que, em vez de
advogado, diplomata ou poeta, acabei me dedicando a este ofício que, no fundo,
aprendi foi com você; sou um contador de istórias. Olha, acho que foi por isso;
para pagar uma dívida. Como eu não sabia a istória verdadeira, tive que juntar,
às coisas que recordava, outras que ia inventando ou roubando aqui e ali. Como
você mesma fazia com os contos da Senhorita de Tácna, não é mesmo, Mamaé?
(Fecha os olhos e beija-a na testa. Enquanto se afasta para um lado do

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cenário, cai o pano).
FIM

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