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A REVOLUÇÃO FRANCESA

1 INTRODUÇÃO

A Revolução Inglesa do século XVII constitui o marco inicial da Era das Revoluções
Burguesas, na medida em que criou condições para o desenvolvimento acelerado do
capitalismo. As máquinas surgiram primeiramente na Inglaterra, posteriormente espalharam-
se pelo mundo todo, acelerando o desenvolvimento da produção capitalista,
consequentemente surgiram novas ideias e concepções revolucionárias, as quais penetraram
cada vez mais no espírito das massas.

A escolástica medieval, as noções a respeito da natureza divina do poder, as normas


jurídicas já prescritas, a moral, os costumes da sociedade feudal, tudo se transformou em
descrédito e nada disso se admitia. Novos e imensos horizontes eram revelados sob formas
diversas transformando o processo histórico e determinando a marcha da evolução social em
busca da substituição da estrutura econômica e social do feudalismo pelo capitalismo.

O desenvolvimento dessas ideias foi desigual nos diferentes países do mundo. Na


Inglaterra, a revolução burguesa terminou no século XVII. Na Holanda, terminou antes. Nas
colônias inglesas da América do Norte, esse desenvolvimento se manifestou sob a forma de
uma guerra de independência, a evolução efetuou-se no decorrer dos anos 70 e 80 do século
XVIII. Entretanto, na maioria dos países europeus e mais propriamente nos países orientais, o
terreno ainda não estava preparado. As condições indispensáveis à revolução burguesa,
destinada a destruir as relações de produção feudal e substituí-las pelas novas relações de
produção burguesa, ainda não estavam reunidas.

O único país do continente europeu onde as contradições entre as forças produtivas e


as antigas relações de produção manifestavam-se no mais alto grau, onde a intensidade e a
violência da luta de classes levavam à revolução era na França.
Em 1789, a população da França girava em torno de 28 milhões de habitantes,
alcançando a cifra de 29 milhões em 1800 (as perdas no período revolucionário foram de
1300 mil pessoas, numa média de 70.000 mil por ano); nesse número não estão incluídos os
500.000 mil mortos na guerra da contra revolução da Vendéia. A cidade de Paris passou de
650.000 mil habitantes em 1789 para 580.000 mil em 1806.
2 A FRANÇA ANTES DA REVOLUÇÃO

A sociedade francesa seguia a divisão de sociedade em classes de acordo com a


divisão feudal. O clero (corpo eclesiástico) constituía a primeira classe do país; a nobreza
classificava-se em segundo lugar e todo o restante da população constituía o “Terceiro
estado”.

O clero e a nobreza constituíam apenas um por cento de toda a população do país,


entretanto, essas pessoas formavam as classes privilegiadas e predominantes da França
feudal e absolutista. Ocupavam os altos cargos do país e da igreja, constituíam o círculo de
amizades do rei. Viviam na ociosidade, pois eram custeados pelo trabalho alheio. Estavam
habituados desde muitas gerações a viver como parasitas sociais.

Clero e nobreza não constituíam classes homogêneas. Os bispos, arcebispos e outros


“príncipes da igreja” pertenciam à aristocracia feudal dominante e eram proprietários de
grandes extensões de terras. O baixo clero era formado pelos curas e vigários das paróquias
rurais, pessoas de origem rústica, camponeses ou burgueses que recebiam tratamento
miserável devido sua condição material, estilo de vida e situação. Possuíam ligação mais
direta com os fiéis do que com os superiores, pertencentes à primeira classe do país.

Existiam também diferenças entre as camadas da nobreza, que estava dividida em


nobreza de sangue e nobreza de toga. A nobreza de toga era a nobreza dos ofícios da justiça
e da administração, a de sangue adquiria o status de nobreza através do nascimento.

A alta nobreza e a aristocracia da corte ocupavam os principais cargos do país, vivia


de pleno luxo nos palácios de Paris. A nobreza vivia de rendas (impostos) extorquidos dos
camponeses que habitavam seus domínios, arrancavam também enormes somas do tesouro
nacional para cobrir suas despesas desmedidas. As duas ordens privilegiadas (clero e
nobreza) constituíam o apoio da monarquia, eram uma força parasitária e profundamente
reacionária.
O terceiro estado compreendia 99% da nação, era compostos de burgueses,
camponeses e plebeus (artesãos, pequenos comerciantes, operários, etc..). Todo esse grupo
era desprovido de direitos políticos, eram mantidos à margem de qualquer participação na
administração do país. Praticamente falando, eram considerados inexistentes, mantidos em
estado de subordinação às classes privilegiadas.

A burguesia era mais rica e instruída que as classes privilegiadas. Era composta de
diversas camadas as quais apresentavam diferenças. A grande burguesia (constituída de
grandes fortunas) era composta de milionários, banqueiros, financistas opulentos que
conseguiam enormes lucros com empréstimos feitos a corte e aos nobres. Em todas as suas
atividades sofria o controle e a intervenção estatal. A burguesia comerciante e industrial (a
mais numerosa) sofria diariamente em sua atividade econômica os entraves do regime
absolutista e feudal.

A miséria da população pobre e do camponês não preocupava o burguês calculista.


Contudo, não deixava de compreender que a ampliação do mercado interno dependia da
mudança de situação dos camponeses e do aumento do seu poder aquisitivo. Percebiam que
poderia vir do povo a força sobre a qual a burguesia poderia se apoiar para alcançar o poder.

Apesar do seu egoísmo e hostilidade, a burguesia como classe, era uma força
revolucionária. Aspirava chegar ao poder, visava reorganizar a sociedade segundo novos
princípios e de acordo com os seus interesses.

Os camponeses constituíam a maioria da população e os que realmente carregavam o


fardo do absolutismo feudal. Deviam ao rei vários impostos e outras contribuições: a talha
era o imposto que incidia sobre a propriedade, os vigésimos, sobre a renda e uma taxa por
cabeça, chamada de capitação. Não tinham como se queixar, qualquer recurso judicial era
inútil, pois as autoridades ficavam sempre a favor do senhor. Viviam miseravelmente,
privados de qualquer propriedade. Sobrecarregados sob o peso esmagador de taxas,
exploração e humilhação dos senhores, agiotas, funcionários central, local e da igreja.
Constituíam uma força social profundamente interessada na destruição do absolutismo
feudal.
Os plebeus compunham-se de trabalhadores, artesãos, pequenos negociantes,
mascates, músicos ambulantes, desempregados, trabalhadores ocasionais, etc.. Eram um
povo absolutamente sem direitos. A burguesia ainda que privada de direitos políticos possuía
independência, devido sua riqueza. A plebe, era designada pelo termo pejorativo “canalha”,
estava situada abaixo da sociedade, era a camada mais pobre da população. Estava nas
primeiras fileiras dos que lutavam contra o regime absolutista feudal.

Os operários compunham-se de operários de vários segmentos. Trabalhavam 16 a 18


horas/dia em lugares úmidos e sombrios. Recebiam salários miseráveis e insuficientes até
para as refeições. Não tinham noção que constituíam uma classe à parte por esse motivo
seguiam a burguesia.

A economia era exercida através da agricultura, indústria e comércio. A agricultura


francesa sempre foi à base da economia da nação, apesar de ser muito atrasada, cerca de
1/3 das terras cultiváveis permaneciam inaproveitadas.

As terras cultivadas pelos camponeses eram dos senhores feudais, sendo assim
aqueles deveriam remeter ao senhor, a igreja e ao rei a maior parte do lucro da produção,
dessa forma reduzia-se a miséria.

A decadência da agricultura acentuava-se dia a dia. Os camponeses arruinados


abandonavam sua terra natal para viver como vagabundos, enquanto, os proprietários
feudais continuavam oprimindo progressivamente os que permaneciam nas terras.

A indústria era formada de pequenas empresas, tanto em dimensão, quanto em


número de operários. Ocupavam lugar importante na economia do país. Mas, o regime
feudal e absolutista servia de entrave ao desenvolvimento industrial. A estreiteza do
mercado interior resultava na extrema penúria dos camponeses que formavam a maioria da
população. A regulamentação governamental da produção, o regime corporativo, o
isolamento e as particularidades das províncias do reino constituíam outros empecilhos ao
desenvolvimento da indústria.
Apesar de todos os obstáculos e formação de relações capitalistas na agricultura
atestavam que formas evoluídas do regime já estavam desenvolvidas e tinham-se avolumado
no seio da sociedade feudal.

2.1 A monarquia

O poder do rei constituía um poder de império, possuíam poder ilimitado. Competia-lhe


decidir em última instância todos os negócios interno e externo do país. Legislava, julgava e
aplicava as leis.

Luís XVI dizia que era monarca por possuir poder divino. O rei era considerado a
representação de Deus, quando ele falava o povo obedecia.

Durante o governo de Luís XVI vigorou na França completo despotismo. A principal


função do governo era oprimir a população trabalhadora e constrangê-la pela cobrança de
impostos e contribuições.

2.2 A crise no regime absolutista feudal

Apesar da diferença de condições e interesses das classes e dos grupos de classes que
constituíram o terceiro estado essas classes e grupos sofriam com o absolutismo feudal e
tinham interesse na supressão do regime, ainda que por meios diversos.

O regime feudal impedia o progresso das forças produtivas e das novas relações
sociais, que no seio da sociedade feudal, já haviam assumido formas capitalistas mais ou
menos definidas. Nessas condições, a direção de todas as forças de classe que compunham o
terceiro estado coube à burguesia, a qual soube se colocar a frente do terceiro estado e do
povo na luta contra o absolutismo feudal, chefiando a revolução.
3 A REVOLUÇÃO FRANCESA (1789 – 1799)

A revolução Francesa não deve ser considerada apenas como uma revolução
burguesa. Embora, esta tenha sido a ideologia e forma dominante, ela foi o produto de
quatro movimentos distintos: uma revolução aristocrática (1787-1789), uma revolução
burguesa (1789-1793), uma convenção nacional (1792-1794) e a República Termidoriana e o
Golpe de 18 Brumário: 1795-1799.

O início do processo revolucionário começou em 1787, com a revolta da aristocracia


contra a monarquia absolutista.

3.1 Revolta aristocrática

A partir de 1787 a indústria sofreu uma séria crise. Um tratado permitia que produtos
agrícolas franceses entrassem livremente na Inglaterra em troca da entrada de produtos
ingleses na França. A indústria francesa não aguentou a concorrência. A seca de 1788 diminui
a produção de alimentos. Os preços subiram e os camponeses passavam fome.

Havia miséria nas cidades, novos empréstimos não bastavam para resolver a crise. A
reforma do sistema fiscal era inadiável, mas, a dificuldade estava em conseguir a aprovação
da aristocracia, a classe que estava no poder em plena ofensiva política contra o absolutismo
e recusava-se a alienar seus privilégios fiscais sem obter em troca direitos políticos, sobre a
conduta da monarquia. Pouco a pouco a aristocracia foi se apoderando do controle de todos
os órgãos intermediários de poder. Nenhuma decisão política poderia ser executada sem a
aprovação dos Parlamentos. Esta foi à razão do fracasso de todas as tentativas de reforma
empreendidas pela monarquia e seus ministros no século XVIII.

A argumentação da aristocracia para recusar as reformas e atacar o absolutismo


baseava-se no discurso iluminista, baseado na linguagem liberal dos filósofos embasada nas
noções sobre liberdade, representatividade do poder e o direito de propriedade. Tratava-se
não só de uma apropriação dos conceitos políticos do Iluminismo como de uma
contracorrente de ideologia aristocrática, cujo expoente maior era “Montesquieu”. O
pensamento iluminista era tão universal que contaminou até mesmo a aristocracia,
retornando a crise em 1787. Luís XVI convocou a Assembleia de Notáveis (órgão composto
por “deputados” escolhidos pelo rei entre três ordens, cuja função era assessorar o monarca
para apreciar o programa de reforma fiscal elaborado pelos ministros). A assembleia
recusou-se a aprová-lo. Um ano depois o Parlamento de Paris recusou a aprovação e exigiu
do rei a convocação dos Estados gerais da nação para fazer reformas. Luís XVI acatou a
decisão, fixando para maio a abertura dos Estados gerais. Assim, o ataque da aristocracia
para recapturar o Estado (1787-1788) culminou em uma revolta “nobiliárquica” ou “revolta
aristocrática” contra o absolutismo.

O resultado do triunfo da aristocracia sobre o poder real fraturou o tradicional


sistema de poder (rei mais nobreza), permitindo que abrisse o caminho que conduziria a
revolução.

Com a convocação dos Estados gerais, a aristocracia esperava completar o processo


que esvaziaria a monarquia e seu poder absoluto, pois se baseava na certeza de que
controlaria as decisões dos Estados gerais, o qual representava as três ordens em que se
dividia a nação, e cuja ordem remontava à Idade Média, tinham seus representantes eleitos
internamente a cada ordem e quando em funcionamento a votação era em separado,
correspondendo um voto a cada ordem. Desta maneira, a aristocracia teria sempre dois
votos do clero e da nobreza contra um terceiro Estado. Por outro lado, não se tratava de uma
assembleia deliberativa com poder soberano, pois sua convocação dependia da monarquia
que a ela recorria em caso de necessidades financeiras ou de política externa. Prova disso e
que o absolutismo Francês acabava de perder, foi que desde 1614 os Estados Gerais não
eram convocados.

Na prática, o cálculo da aristocracia revelou-se um verdadeiro suicídio para ela e para


o regime que a representa, porque a aristocracia subestimou a força e a capacidade política
do Terceiro Estado e como a época coincidia com uma crise econômica, com sequelas de
fome e desemprego, o estado de espírito dos pobres do campo e das cidades era de
desespero e revolta. Consequentemente, as eleições para a escolha dos deputados aos
Estados Gerais eram favoráveis aos objetivos do Terceiro Estado, porque de um lado deu à
burguesia oportunidade e o espaço políticos necessários para difundir suas ideias e seu
programa de reformas e porque de outro permitiu que o descontentamento dos camponeses
e das massas urbanas ganhasse pela primeira vez uma perspectiva política. A convocação dos
Estados Gerais suscitou uma enorme esperança no Terceiro Estado e a burguesia procurou
expressá-la e dirigi-la politicamente.

Em 5 de maio de 1789 a burguesia já havia conseguido uma primeira e importante


vitória: a duplicação de deputados. Naquele momento o interesse da burguesia era derrubar
o antigo regime para dar lugar a uma nova sociedade (burguesa e capitalista) coincidente
com os interesses do Terceiro Estado igualmente contrário ao regime existente.

Em 6 de maio os conflitos entre as ordens começaram. Os Estados Gerais se reuniram


no Palácio de Versalhes pela primeira vez. O Terceiro Estado foi informado de que os projetos
seriam votados em separado, por Estado. Isto daria vitória à nobreza e ao clero, sempre 2 a
1. O Terceiro Estado rejeitou a condição, queria votação individual, pois contava com 578
deputados, contra 270 da nobreza e 291 do clero, ou seja, tinha maioria absoluta e ainda
contava com os votos de 90 deputados da nobreza esclarecida e do baixo clero. O Terceiro
Estado insistia que o voto fosse individual, mas o rei sustentou seu apoio aos notáveis, o que
levou o Terceiro Estado a se retirar e se reunir separadamente, afirmando que não iria se
dispersar até que o rei aceitasse uma constituição que pusesse limites ao seu poder, dessa
forma se autoproclamaram “Assembleia Nacional”.

3.2 Revolução burguesa

Reunindo-se em separado em 17 de julho de 1789, o Terceiro Estado se considerou a


Assembleia Nacional. Luís XVI pretextando uma reforma dissolveu a reunião. Os deputados
do Terceiro Estado foram então para a sala de Jogo da Péla onde receberam adesão de parte
do clero e de nobres influenciados pelo Iluminismo. O rei não teve alternativa senão aceitar a
Assembleia Nacional.
Os fatos se desenrolaram com rapidez como se algumas décadas tivessem ocorrido
em algumas semanas.

- 9 de julho – Proclamou-se a Assembleia Nacional Constituinte. Os deputados


juraram só se dispersar depois de dar uma Constituição à França. Luís XVI enquanto isso
procurava ganhar tempo enquanto reunia tropas.
- 12 e 13 de julho – Forma-se a milícia de Paris, organização militar popular. O povo
armazena armas e prepara barricadas. Rumores por parte da nobreza e da realeza somados
ao posicionamento de tropas próximo a Paris e a demissão do ministro liberal Necker fizeram
com que o temor tomasse conta dos revoltosos, deu-se então o estopim da insurreição.
- 14 de julho – O povo toma a Bastilha símbolo do antigo regime onde eram mantidos
os presos políticos. As revoltas camponesas se estendiam por toda parte.
- 4 de agosto – Uma onda de pânico se espalhou rapidamente por grandes regiões do
País chamado Grande Medo de fins de julho e princípios de agosto de 1789.

O temor de algo pior fez a Assembleia Constituinte realizar uma reunião para tênar
conter o movimento. Os deputados aprovaram a abolição dos direitos feudais, as obrigações
devidas pelos camponeses ao rei e à Igreja foram suprimidas e as obrigações devidas aos
nobres deveriam ser pagas em dinheiro.

Em 26 de agosto tem-se a aprovação da “Declaração dos Direitos do Homem e do


Cidadão”, com base nos ideais de liberdade, igualdade, direito à propriedade privada e de
resistência à opressão. O rei se recusou a aprovar a Declaração, os parisienses revoltaram-se
novamente, movimento que ficou conhecido como jornadas de outubro: o Palácio de
Versalhes foi invadido e o rei obrigado a morar no Palácio das Tulheiras em Paris.

Em 1790 foi aprovada a Constituição Civil do Clero. A constituição estabelecia que os


bens eclesiásticos seriam confiscados para servir de lastro à emissão dos assignats (bônus do
Estado) e os padres passariam a ser funcionários do Estado. Muitos aceitaram e juraram
fidelidade à Revolução, desobedecendo ao papa, que já se manifestava contra. Outros
emigraram e deram início as agitações contrarrevolucionárias nas províncias.
Em setembro de 1971, a Constituição ficou pronta e a Monarquia Constitucional de
base censitária ficou estabelecida. Somente os cidadãos que possuíssem renda determinada
poderiam ter direitos políticos. A Assembleia constituída por deputados possuiria o poder
legislativo, cabendo ao rei o poder Executivo sendo que a Monarquia permaneceria
hereditária. Com a proclamação de igualdade civil foram suprimidos os privilégios e as
antigas ordens sociais. A administração foi reorganizada e descentralizada. Confirmou-se a
nacionalização dos bens eclesiásticos e a Constituição civil do clero, contudo a escravidão nas
colônias foi mantida.

Ainda que o rei Luís XVI tenha se negado no princípio acatar a Constituição e tentado
fugir da França, foi preso em Varennes e reconduzido a Paris onde foi obrigado a assinar a
magna carta em julho de 1791.

A burguesia finalmente conseguiu se separar do terceiro estado e a nova legislação a


qual limitava a atividade política dos trabalhadores e eliminava privilégios da nobreza
estendia restrições econômicas à maioria, transformando dessa forma a França em um
estado burguês, onde grupos políticos como o dos girondinos (alta burguesia) e jacobinos
(baixa burguesia) disputavam o poder.

Sendo assim, a nobreza passou a buscar apoio no exterior para restaurar o Estado
absolutista, ao mesmo tempo em que as dificuldades econômicas permaneciam no governo
revolucionário.
No instante em o exército absolutista formado em parte por nobres emigrados
passaram a marchar sobre o território francês, os jacobinos forneceram armas à população
constituindo um exército popular conhecido “a comuna insurrecional de Paris”, enfrentando
o exército dos emigrados e prussianos na Batalha de Valmy, onde o exército popular
conquistou a vitória sob o comando de Robespierre, Marat e Danton, sendo o rei acusado de
traição por colaborar com os inimigos e finalmente à noite em Paris foi proclamada a
República.
3.3 Convenção Nacional (1792-1794)

Com o término da Monarquia e o advento da República, inicia-se o período da


Convenção Nacional o qual se divide em dois momentos: a República Girondina (setembro
de 1792 a junho de 1793) e a República Jacobina (junho de 1793 a julho de 1794).

Os girondinos eram liberais, agrupavam-se e representavam os interesses da


burguesia de negócios, comerciantes, armadores e banqueiros, etc., os jacobinos eram
democratas, agrupando e representando os interesses da média e pequena burguesia de
profissionais liberais, funcionários e lojistas.

Os girondinos por constituírem a maioria na Convenção passaram a exercer o novo


governo. De início a situação parecia favorável a seus interesses. Em novembro, os exércitos
franceses derrotaram os austríacos e, surpreenderam toda a Europa. Contudo, a política
contraditória dos girondinos belicosos e revolucionários no plano externo e moderados no
plano interno, foi incapaz não só de manter estas conquistas como pôs tudo a perder.

Em 1793, seu belicismo irresponsável arrastou a Inglaterra no conflito e desde então


praticamente toda a Europa entrou em guerra contra a França. Apesar de terem que
enfrentar essa coligação de exércitos inimigos, os girondinos queriam manter a guerra
separada dos problemas internos. Não se davam conta de que esta não era uma guerra
convencional, mas revolucionária, e que, portanto exigia medidas revolucionárias. No plano
interno, a situação era ainda mais difícil. Enquanto, os sans-culottes exigiam o tabelamento e
controle dos preços, a requisição de gêneros, o recrutamento geral e o terror contra os
especuladores e traidores, os camponeses continuavam a reivindicar a abolição pura e
simples de todos os restos de feudalismo e os mais radicais a exigir a lei agrária: a divisão e
distribuição gratuita das propriedades.

Presos a seus preconceitos de classe (burgueses), os girondinos se recusavam a tomar


medidas que a situação exigia. Se o fizessem iriam ao encontro das exigências reclamadas
pelos jacobinos e sans-culottes, o que para eles era a capitulação da democracia ou como
pensavam, à anarquia social. Eram tão inimigos da democracia quanto do velho regime. Três
episódios contribuíram para a sua desmoralização e queda: o julgamento e execução do rei
(janeiro de 1793), a traição do comandante dos exércitos republicanos, general Dumouriez e
a vitória da contra-revolução na província de Vendéia. Como última tentativa de se manter
no poder, procuraram jogar as províncias contra a capital, totalmente controlada pelos
jacobinos e sans-culottes, mas foram derrubados do poder e expulsos da Convenção em dois
de junho de 1793 por uma insurreição articulada por estes últimos. Quando deixaram o
poder, a situação da França era gravíssima, a contra-revolução, a especulação, a inflação era
a herança que deixavam.

Contudo, um ano depois, o governo revolucionário, criado pelos jacobinos, se


encontrava firmemente estabelecido em todo o território nacional e a guerra já se fazia na
Bélgica, fora da França. A reviravolta da situação só foi possível porque no decorrer da crise,
a jovem República Francesa descobriu ou inventou a guerra total: a total imobilização dos
recursos de uma nação através do recrutamento, do racionamento e de uma economia de
guerra rigidamente controlada e da virtual abolição em casa e no exterior da distinção entre
soldados e civis. Graças ao terror e à Ditadura. Com essas medidas a energia revolucionária
das massas atingiu tal intensidade que se tornou irresistível.

Os jacobinos, ao assumirem o poder, souberam concentrar todo o potencial e a


energia revolucionária das massas teve a sensibilidade política de perceber que, sem a
participação dos sans-culottes e o atendimento às suas revindicações, a guerra não podia ser
ganha e a revolução ser salva. Não vacilaram em pôr em prática os únicos instrumentos
políticos que naquele momento podiam manter a unidade nacional em frangalhos: o terror e
a Ditadura.
O governo jacobino, tal como foi precisado por Robespierre e Sain-Just, era um
governo revolucionário, um governo de guerra: “a revolução é a guerra da liberdade contra
seus inimigos”. Para atuar seu programa os jacobinos contavam com os poderosos Comitês
de Salvação Pública e de Segurança Geral, e o apoio da Convenção que permanecia como o
centro do poder soberano. Os comitês eram responsáveis perante a Convenção, isto é, eram
os braços que executavam a sua vontade. Como o governo foi declarado revolucionário até
que a paz fosse alcançada, a Constituição aprovada em 1793 foi mantida em suspenso, mas
seu espírito democrático e igualitário e alguns de seus dispositivos foram postos em prática.
Todos os vestígios do feudalismo foram abolidos sem indenização, as propriedades
dos nobres emigrados confiscadas, divididas em parcelas e vendidas aos camponeses pobres
a preços facilitados, a escravidão também foi abolida nas colônias francesas. Os camponeses
deixam de ter a obrigação de indenizarem os antigos senhores, é criada a “Lei do Máximo”
fixando um teto para preços e salários. Graças a estas medidas em favor dos camponeses, ao
atendimento das exigências dos sans-culottes e ao apoio “forçado” da burguesia ainda fiel à
revolução (obtido pelo terror quanto pela compreensão de que só com um governo
revolucionário, como o dos jacobinos, com todos os seus inconvenientes, poderia se impedir
o retorno ao velho regime), os jacobinos mantiveram a união das três classes do antigo
Terceiro Estado.

O governo jacobino representava uma aliança de classes sociais, cuja manutenção só


podia existir e se manter em condições excepcionais e com medidas excepcionais, uma vez
que seus interesses econômicos não eram, naturalmente, os mesmos, pelo contrário,
conflitavam entre si.

Quanto ao jacobinismo, seu ideal inspirado em Rousseau, era o da República Una e


Indivisível, democrática e igualitária, onde todos os cidadãos seriam livres e iguais, unidos
pelos ideais comuns de justiça, da virtude e do amor à pátria e às suas leis. Inclusive a prática
da virtude, “princípio fundamental de governo democrático”, constituía a única garantia de
que o governo revolucionário não se transformaria em depotismo. Ao contrário dos sans-
culottes, viam os instrumentos do governo revolucionário não como um fim em si mesmo,
mas como um meio para salvar a República. Embora não tivessem vacilado em recorrer a
eles, eram partidários convictos do poder representativo, da propriedade privada e da
economia de mercado, numa palavra dos princípios fundamentais do liberalismo.
Expressando toda a contradição da pequena burguesia (prensada entre a burguesia e o
proletariado), o jacobinismo queria realizar a sociedade democrática e igualitária sobre os
fundamentos da propriedade e da economia burguesa. Porque era democrático, o
jacobinismo pôde realizar a aliança com os sans-culottes e atender às suas exigências e,
porque era liberal, pôde preservar a burguesia ao lado da revolução, assegurando seu caráter
burguês. Em suma, por um momento apenas o jacobinismo realizou a junção entre o
liberalismo e a democracia.

3.4 A República Termidoriana e o Golpe de 18 Brumário: 1795-1799

Pouco antes da sua queda, em julho de 1794, justamente quando colhiam os frutos
de seu êxito, os líderes jacobinos, sobretudo Robespierre, tinham eliminado primeiro a
extrema-esquerda, na figura de Hebért e outros, depois à direita, na figura dos indulgentes
(Danton, Camille Desmoulins, etc.). Com isso alienaram-se do apoio dos sans-culottes e dos
deputados da Convenção. Começava o refluxo revolucionário. A apatia das massas,
provocadas tanto pela exaustão e dizimação de seus quadros (mortes em combate ou
guilhotinados) quanto pela burocratização e esvaziamento dos seus organismos de
participação política (as sessões) e pelo controle e centralização impostos pelo Comitê de
Salvação Pública, congelou a revolução, como o havia previsto Sain-Just. Em 27 de julho, 9
Termidor, a Convenção, numa rápida manobra, derrubou Robespierre e seus seguidores. No
dia seguinte foram executados.

Com o Termidor desaparece a imagem e o conteúdo da República igualitária e


democrática. A primeira consequência da queda dos jacobinos foi à extinção do terror. O
controle dos preços foi abolido e a legislação social dos jacobinos abandonada. Os girondinos
sobreviventes voltaram a fazer parte da Convenção, ao mesmo tempo em que dela eram
expulsos dezenas de montanheses. Dominada pelos moderados, o centro ou o pântano, a
Convenção termidoriana foi assumindo posições políticas cada vez mais conservadoras. As
sociedades populares e os clubes políticos foram dissolvidos. A Convenção permitiu que a
jeunesse dorée (filhos de burgueses ricos) se entregasse a caça aos jacobinos. A volta ao
liberalismo econômico causou uma pavorosa miséria durante 1794-95. A miséria das massas
constrastava com a exibição de luxo e riqueza à que a burguesia se entregava: com o fim do
terror, especuladores, traficantes, agiotas, etc. podiam respirar aliviados, a guilhotina não
ameaçava mais suas cabeças.

Por três vezes consecutivas março, abril, maio de 1795, os sans-culottes se revoltaram
em novas jornadas populares contra a política da Convenção Termidoriana e numa delas
chegaram a invadir a Convenção. Mas nas três vezes foram facilmente derrotados. Sem
liderança e sem apoio do campo, o movimento popular e democrático estava
definitivamente isolado e derrotado. Entretanto, alguns jacobinos sobreviventes tentaram
em 1796 organizar uma conspiração, a chamada Conspiração dos Iguais, liderada por Graco
Babeuf, um ex-jacobino. A importância histórica de Graco Babeuf e sua Conspiração dos
Iguais devem-se não ao perigo que representava para a Convenção, mas aos métodos de
ação e ao conteúdo de seu programa, que eram novos. Rompia com o jacobismo e o
superava. Representava a primeira tentativa de criação de um partido de vanguarda e de
uma sociedade comunista (concebida em bases rurais, camponesa).

Em 1795, antes de se dissolver, a Convenção Termidoriana entregava à França uma


nova constituição. Embora mantivesse a República, esta constituição era menos liberal que a
de 1791. Dividia o poder legislativo em duas casas: Conselho dos 500 e Conselho dos Anciãos
(250 deputados) e entregava o executivo a um colegiado de 5 diretores ( diretório – regime
criado pela constituição de 1795). Aos direitos políticos foram reservados à burguesia,
através de um severo critério (só os cidadãos proprietários podiam votar).

No plano interno, toda vez que a esquerda se manifestava e era reprimida, à direita
(os realistas) ganhava alento e conspirava. Quando o diretório reprimia os partidários da
monarquia, a esquerda novamente levantava a cabeça, sempre alimentada pela penúria. O
ziguezigue político à direita e à esquerda refletia tanto a falta de sustentação social do
regime – apenas a burguesia o apoiava – quanto sua incapacidade em resolver a crise
econômica e financeira. No plano externo, o exército francês passou a obter seguidas vitórias
sob o comando do general Napoleão Bonaparte que ao ver a situação em que a França se
encontrava através de um golpe de Estado assumiu o poder em 1799 com o apoio de boa
parte da burguesia no 18 de Brumário que marcou o fim da Revolução Francesa.
4 CONCLUSÃO

Em síntese, a Revolução Francesa significou o primeiro grande sucesso da burguesia


no sentido de conquistar o poder político e conduzir o Estado de maneira a realizar
interesses próprios, deixando para trás os bloqueios do absolutismo e do mercantilismo,
implementando propostas liberais após dirigir as insatisfações das camadas populares,
tirando proveito para si mesma. A Revolução Francesa teve alcance muito além da história
francesa, pois impulsionou a ascensão da burguesia em toda a Europa acelerando a crise do
antigo regime.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA:

Manfred, A. A grande Revolução Francesa, 2ª Ed., Editora Cone, SP.


Modesto, Florenzano. As Revoluções burguesas, 3ª Ed., 1982, Editora brasiliense.