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19º Congresso Brasileiro de Sociologia

9 a 12 de julho de 2019
UFSC - Florianópolis, SC.

GRUPO DE TRABALHO 01: Teoria Sociológica

Um clássico fragmentado:
Sobre a importação seccionada das ideias de Max Weber

Márcio J. R. de Carvalho

Programa de Pós-graduação em Sociologia Política


da Universidade Federal de Santa Catariana,
Trabalho realizado com fomentos CNPq e Capes.
Um clássico fragmentado:
Sobre a importação seccionada das ideias de Max Weber 1

Márcio J. R. de Carvalho 2

INTRODUÇÃO

O caminho percorrido por uma ideia intelectual – seja por livro, artigo, aula ou até
por uma conversa pelos corredores de um edifício acadêmico – é um caminho pluricausal e
multipossibilitado, desde a concepção da ideia em si, até a chegada dela à nossa presença.
Por mais singular que uma ideia possa aparentar, são múltiplas as razões
sociológicas para que uma sentença redigida há séculos perdure no tempo, influencie a
História e dialogue diretamente com a nossa curiosidade no presente. Ideias sobreviventes
ao tempo, invariavelmente, tenderam a formar ou se mesclar a interesses e a instituições
(SCHLUCHTER, 2014). Essa ratio amplifica as possibilidades de permanência e
circulação das ideias por novos espaços nacionais e transnacionais, configurando uma
relação social cognoscível entre o campo intelectual “de origem” e o “de chegada”,
assertiva que é válida mesmo para o campo científico-acadêmico, com sua relativa
autonomia e demandas internas autonormativas, que também organizam de por vias não
necessárias, mas contingentes o fluxo de importação e exportação das ideias intelectuais
(BOURDIEU, 2002a; 2002b).
Tomando-se estas inflexões teóricas por seu valor heurístico, o que se propõe neste
trabalho é abordar o caso da recepção da obra de Max Weber no Brasil a partir da
perspectiva de uma sociologia da recepção e da tradução das obras intelectuais, levando em
conta que as “trocas culturais internacionais” podem vir a “assumir diferentes funções, de
acordo com as condições de circulação transnacional dos bens culturais” (HEILBRON;
SAPIRO, 2009).

1
Pesquisa realizada com apoio do CNPq que segue em curso, recebendo o indispensável apoio da Capes à pesquisa
institucional acadêmica. Os dados que ora se apresentam compõem um trabalho de pesquisa maior, de modo que, nessa
ocasião, são apresentados subsídios recortados transversalmente e organizados a partir do sentido do recorte aqui
proposto. Para uma apreensão maior da pesquisa, ver Carvalho (2016).
2
Doutorando no Programa de Pós-graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catariana,
Bolsista Capes. E-mail: marciodecarvalho1@gmail.com

1
Adotando-se como referência uma literatura de matriz bourdieusiana (BOURDIEU,
1989, 2002a; 2002b), é possível observar-se uma série de “operações sociais” configuradas
como operações de mediação às quais, “como qualquer outro produto do mundo social”, as
ideias estão sujeitas ao serem deslocadas de seu “campo de origem” para um novo “campo
de chegada” (BOURDIEU, 2002a, p. 06-10).
Nesta ocasião, compreendendo-se nosso campo intelectual nacional como um
“campo de chegada” das ideias intelectuais de Max Weber, elabora-se, primeiramente, um
breve retrato genealógico da origem editorial das obras de Weber na Alemanha, seguido de
um mapeamento das fontes utilizadas nas traduções do material do sociólogo alemão
publicado no Brasil em formato “livro”. Em um terceiro movimento, adotam-se duas
perspectivas – complementares entre si, nesse contexto metodológico – que têm discutido
de modo empírico e teórico o processo de recepção e de demanda pelas ideias weberianas
no Brasil. Tratam-se das perspectivas histórica e sociológica apoiadas, respectivamente,
nos estudos historicistas de Mata (2013) e sociológicos de Villas Bôas (2014) e de Sell
(2014), com a finalidade de localizar no tempo o fluxo de recepção de Weber no contexto
do campo intelectual nacional.

1 AS FONTES ORIGINAIS

Weber foi um publicador contumaz, com trabalhos lançados editados entre 1889 e
1921. Essa produtividade interrompida prematuramente por sua morte, no ano de 1920, foi
continuada por sua esposa, Marianne Weber, a partir de uma vasta coletânea de
manuscritos e documentos inéditos deixados pelo autor. Marianne Weber foi a principal
editora dos trabalhos de Max Weber já desde 1921, tarefa portentosa a qual se dedicou
integralmente até o ano de sua morte, em 1954.
Esse trabalho extenso vem passando por uma revisão exegética complexa desde os
anos de 1970. Há quase cinco décadas, o espólio intelectual do sociólogo, originalmente
gerido sob a curadoria de sua viúva Marianne Weber, passa por uma dramática
reorganização exegética seguida pela renovação de sua republicação. Um processo pouco
acompanhado pela audiência intelectual brasileira, de modo que pouco se sabe e pouco se
tem explorado dessa reestruturação.
Como se pretende demonstrar nesta seção, por estar limitada ao acesso a materiais
weberianos publicados no cenário editorial do Brasil, parte dos pesquisadores brasileiros

2
padecem por trabalhar com bases epistemológicas desatualizadas em (no mínimo) 45 anos
e por lidar com materiais recortados de modo seccionado e fragmentado no contexto do
corpus teórico weberiano. Para dar sustentação a essa demonstração, divide-se a história
editorial da obra de Max Weber em três grandes blocos ou ciclos de publicações. O ciclo
aqui chamado “Pré-editores”, qual seja, aquela fase que abrange os escridos publicados por
Weber em vida e com a supervisão editorial do próprio autor; o ciclo de publicações
póstumas, editados sob a curadoria de Marianne Weber; e, por fim, o ciclo atual de
renovação exegética e crítica de todo esse conjunto teórico com a organização das, a Max
Weber- Gesamtausgabe3 (MWG)4. Embora, nesta ocasião, não se possa estender
largamente sobre as implicações temporais destas três fases, a seguir, dá-se indicativos de
ordem institucional-editorial do arranjo destes três blocos.

1.1 PRIMEIRA FASE: O CICLO “PRÉ-EDITORES”

A primeira fase, aqui denominada “Pré-editores”, foi iniciada a partir da


monografia composta por Max Weber para obtenção da habilitação em direito comercial,
Zur Geschichte der Handelsgesellschaften im Mittelalter5 (publicada em Stuttgart, 1889).
Fase que se encerra em 1921 com a publicação dos Gesammelte Aufsätze zur
Religionssoziologie [GARS] (Ensaios reunidos de Sociologia da Religião), publicados em
três volumes, um em 1920, e dois em 1921. São trabalhos publicados a partir da propria
iniciativa e coordenação de Weber, em sua maioria, tratados direto com a editora Mohr
Siebeck6. Muitos destes trabalhos (Quadro 1) foram reeditados outras vezes pós 1921,
como a coletânea de artigos políticos Parlament und Regierung im neugeordneten
Deutschland (Parlamento e governo na alemanha reordenada, de 1918) e as conhecidas
conferências Wissenschaft als Beruf e Politik als Beruf (Ciência como Profissão e Política
como Profissão, 1919).

3
Obras completas de Max Weber, em franca edição e publicação na Alemanha desde a década de 1970.
4
Ao final deste trabalho, apresenta-se uma “tábua de correspondência” para as siglas utilizadas no universo editorial
weberiano, “um padrão já estabelecido na weberologia”, como indicado por Waizbort (2012, p. 13).
5
“Sobre a história das sociedades comerciais, na Idade Média” ([GASW], p. 312-443), tradução livre nossa, assim como
as demais notas de tradução para títulos de obras em alemão não publicadas em português.
6
Mohr Siebeck, editora alemã centenária com uma história que remete ao ano de 1855 (CARVALHO, 2016).

3
Quadro 1 – Publicações “Pré-editores”, organizadas por Weber entre 1889 e 1920.
Ano: Obras (ou seleções)
1889: Zur Geschichte der Handelsgesellschaften im Mittelalter, Stuttgart 1889. Habilitationsschrift in Handelsrecht,
[GASW] 312-443, daraus das 3. Kapitel Die Familien- und Arbeitsgemeinschaften separat veröffentlicht.7
1891: Die römische Agrargeschichte in ihrer Bedeutung für das Staats- und Privatrecht, Stuttgart 1891.
Habilitationsschrift in Römischem Recht, Reprint, Amsterdam 1962.8
1891-1892: Die Verhältnisse der Landarbeiter im ostelbischen Deutschland. Die Verhältnisse der Landarbeiter in
Deutschland, geschildert auf Grund der vom Verein für Socialpolitik veranstalteten Erhebungen, Band 3, Leipzig
1892.9
1895: Freiburger Antrittsvorlesung Der Nationalstaat und die Volkswirtschaftspolitik. Akademische
Verlagsbuchhandlung J.C.B Mohr, Freiburg i. Br. und Leipzig 1895, [GPS] 1–25.10
1896: Die sozialen Gründe des Untergangs der antiken Kultur. In: Die Wahrheit. Band 3, H. 63, Fr. Frommanns
Verlag, Stuttgart 1896, S. 57–77, GASW 289–311.11
1904: Lançamentos12: * Die 'Objektivität' sozialwissenschaftlicher und sozialpolitischer Erkenntnis. In: Archiv für
Sozialwissenschaft und Sozialpolitik 19 (1904), 22–87, [GAW] 146–214 / ** Die protestantische Ethik und der 'Geist'
des Kapitalismus. In: Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik 20, (1904), 1–54 und 21 (1905), 1–110,
überarbeitet in [GARS I] 1–206.
1909: Agrarverhältnisse im Altertum [3. Fassung], in: Handwörterbuch der Staatswissenschaften Band 1, Jena 1909 3.
Auflage. 52–188, [GASW] 1–288.13
1910: Enquete über das Zeitungswesen (Rede auf dem 1. Deutschen Soziologentag vor der neugegründeten Deutschen
Gesellschaft für Soziologie, 20. Oktober 1910).14
1915-1919: Die Wirtschaftsethik der Weltreligionen, [GARS I] 237–573, II–III. 15
1918: Parlament und Regierung im neugeordneten Deutschland. Zur politischen Kritik des Beamtentums und
Parteiwesens ([GPS] 306–443).16
1919: “Notas da aula”17: *Wissenschaft als Beruf. München/ Leipzig 1919, [GAW] 582–613 / **Politik als
Beruf. München/ Leipzig 1919, GPS 505–560.
1920-1921: Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie. (Três volumes)18: *Band 1: Vorbemerkung, Die
protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus, Die protestantischen Sekten und der Geist des
Kapitalismus sowie Die Wirtschaftsethik der Weltreligionen (Einleitung; Teil 1: Konfuzianismus und Taoismus);
Tübingen 1920, 9. Auflage. 1988, ISBN 3-8252-1488-5 [GARS I] /**Band 2: (Teil 2: Hinduismus und Buddhismus),
Tübingen 1921, 7. Auflage. 1988, ISBN 3-8252-1489-3 [GARS II] / ***Band 3: (Teil 3: Das antike Judentum),
Tübingen 1921, 8. Auflage. 1988, ISBN 3-8252-1490-7 [GARS III].
Fonte: elaborado pelo autor, com base em Mohr Siebeck 19.

7
“A história das empresas comerciais na Idade Média”, Stuttgart, 1889. Habilitação em direito comercial, [GASW] 312-
443, com o terceiro capítulo, “A família e as comunidades de trabalhadores”, publicado separadamente.
8
“A história agrária romana e sua importância para o direito público e privado”, Stuttgart 1891. Tese de habilitação no
Direito Romano, Reprint, Amsterdam 1962.
9
“As condições dos trabalhadores agrícolas na Alemanha a Leste Elba. A situação dos trabalhadores agrícolas na
Alemanha, descrita com base nos inquéritos organizados pela Verein für Socialpolitik”, Vol. 3, Leipzig 1892.
10
Palestra Inaugural em Friburgo: “O Estado Nacional e a Economia Política”. Publicado por Akademische
Verlagsbuchhandlung J.C.B. Mohr, Freiburg i. Ir. E Leipzig 1895, [GPS] 1-25.
11
“As razões sociais para a queda da civilização antiga”. In: Die Wahrheit. Vol. 3, H. 63, P. Frommanns Verlag, Stuttgart
1896, pp. 57-77, [GASW] 289-311
12
* “A ‘objetividade’ do conhecimento sociológico e político-social”. In: Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik
19, (1904), 22-87, [GAW] 146-214. / ** “A ética protestante e o 'espírito' do capitalismo”. In: Archiv für
Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, 20, (1904), 1-54 e 21 (1905), 1-110, revisado em [GARS I] 1-206.
13
“Condições agrárias na antiguidade” [3. Vers.], in: Handwörterbuch der Staatswissenschaften Vol. 1, Jena 1909, 3a
edição. 52-188, [GASW] 1-288.
14
“Estudo sobre a indústria dos jornais” (Discurso no primeiro Congresso de Sociologia Alemã, 20 de outubro de 1910).
15
1915-1919: Die Wirtschaftsethik der Weltreligionen, publicação que aparece na forma composta de onze artigos
individuais [GARS] I 237-573 II-III.
16
Publicação da série de ensaios coletada, “Parlamento e governo na alemanha reordenada: Para uma crítica política da
burocracia e do sistema partidário” ([GPS] 306-443).
17
Aparecimento das “Notas da aula”: * “Ciência como profissão”. Munich / Leipzig 1919, [GAW] 582-613 (publicações
individuais: Stuttgart 1995, ISBN 3-15-009388-0 e Schutterwald / Baden 1994, ISBN 3-928640-05-4) / ** “Política
como profissão”. Munich / Leipzig em 1919, GPS 505-560 (publicações individuais: Stuttgart, 1992, ISBN 3-15-008833-
X e Schutterwald / Baden 1994, ISBN 3-928640-06-2).
18
Coletânea de “Ensaios reunidos de sociologia da religião”. (revisão de ensaios publicados anteriormente e de forma
parcial): * Vol. 1: “Nota introdutória”; “A ética protestante e o espírito do capitalismo”; “As seitas protestantes e o
espírito do capitalismo”; e “A ética económica das religiões mundiais” (“Introdução”; Parte 1: Confuncionismo e
Taoísmo); Zwischenbetrachtung, Tübingen 1920, 9ª edição. 1988. ISBN 3-8252-1488-5 [GARS I] / ** Vol. 2: (Parte 2:
“Hinduísmo e Budismo”), Tübingen 1921, 7ª edição. 1988. ISBN 3-8252-1489-3 [GARS II] / *** Vol. 3: (Parte 3:
“Judaísmo Antigo”), Tübingen 1921, 8ª edição. 1988. ISBN 3-8252-1490-7 [GARS III].
19
Mohr Siebeck (editora), seção “Name das Autors” / “Max Weber”, em alemão. <https://www.mohr.de/>. Nov 2015.

4
1.2 SEGUNDA FASE: OS “ENSAIOS REUNIDOS”20 E “ECONOMIA E
SOCIEDADE”21

A segunda fase inicia-se em 1921, com Marianne Weber assumindo o legado


intelectual do recém-falecido Max Weber, e é encerrada com a publicação dos dois últimos
títulos da coleção de “Ensaios”, e 1924, Gesammelte Aufsätze zur Sozial- und
Wirtschaftsgeschichte22 e Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozialpolitik23.
Weber deixou um volume torrencial de aproximadamente 5.000 páginas de escritos
de toda ordem, sobretudo anotações de pesquisa, sem um registro pré-configurado de como
deveria ser estabelecida sua organização. A monumental tarefa de tornar essa massa plural
em um conjunto editorial pensado e disposto em torno de chaves temáticas mais ou menos
coerentes foi levada a cargo por Marianne Weber, assessorada por Sigmund Hellmann e
Melchior Palyi, movimento que garantiu a sobrevivência teórica e a “consagração
intelectual” de Weber para a posteridade (WAIZBORT, 2012, p. 09).
Por razões práticas, Marianne Weber optou por organizar o espólio de Weber em
grupos temáticos (Quadro 2). O grosso desse material foi moldado na coleção de obras
convencionada “Ensaios Reunidos” (1921-1924), numa tentativa de seguir uma lógica de
publicação próxima àquela que Weber elegeu mais adequada para publicar os Gesammelte
Aufsätze zur Religionssoziologie [GARS], de 1920-21.
Foi exatamente nesta fase que a primeira edição da famosa obra weberiana,
Wirtschaft und Gesellschaft (WuG)24, é publicada por Marianne Weber e Melchior Palyi,
após edição entre 1921-22. Além desta publicação, entre outras do período, conta-se
também Die rationalen und soziologischen Grundlagen der Musik (Fundamentos
sociológicos e racionais da música) que, mais tarde, seria incorporada à quarta edição
alemã de em WuG (1956) por uma decisão pessoal do editor do volume Johannes
Winckelmann25.

20
Os famosos “Gesammelte”, os chamados “Ensaios Reunidos” [1921-1924] que seguiram a lógica editorial dos
“Ensaios Reunidos de Sociologia da Religião”, Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie [1920-1921].
21
Wirtschaft und Gesellschaft (WuG), (WEBER, Marianne, 2012 [1921]).
22
Gesammelte Aufsätze zur Sozial- und Wirtschaftsgeschichte, Tübingen 1924, 2. Auflage. 1988, ISBN 3-8252-1493-1
[GASW] (Ensaios Reunidos de história social e econômica).
23
Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozialpolitik, Tübingen 1924, 2. Auflage. 1988, ISBN 3-8252-1494-X
[GASW] (Ensaios Reunidos de sociologia e política social).
24
No Brasil: “Economia e Sociedade” (EeS)
25
Johannes Winckelmann (1900-1985) foi o único editor que esteve presente nas duas fases envolvido diretamente nos
processos de reedição dos escritos de Weber na fase da organização de Marianne Weber e operando como um dos
especialistas responsáveis técnicos pela edição da coleção Max Weber- Gesantasgauben (HANKE, 2012).

5
Quadro 2 – Publicações organizadas por Marianne Weber entre 1921 e 1924.

ESCRITOS PUBLICADOS APÓS A MORTE DE WEBER (1920)


– Continuação das coletâneas de “Ensaios Reunidos” 1921-1924:

 1921: Gesammelte Politische Schriften


(Escritos políticos) [GPS].

 1922: Gesammelte Aufsätze zur Wissenschaftslehre


(Ensaios Reunidos da doutrina da ciência) [GAW].

 1924: Gesammelte Aufsätze zur Sozil- und Wirtschaftsgeschichte


(Ensaios Reunidos de história social e econômica) [GASW].

 1924: Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozialpolitik


(Ensaios Reunidos de sociologia e política social) [GASS].
– Outros escritos:

 1921: Die rationalen und soziologischen Grundlagen der Musik


(Fundamentos sociológicos e racionais da música) (Apêndice incluídos à [WuG]).

 1921-2: Wirtschaft und Gesellschaft (Economia e Sociedade) [WuG].

 1922: Die drei reinen Typen der legitimen Herrschaft


(Os três tipos puros de dominação legítima).

 1923: Wirtschaftsgeschichte (História econômica).


Fonte: Carvalho (2016) com base em Mohr Siebeck (editora).

1.2.1 Ainda sobre “Economia e sociedade”

As circunstâncias de primeira organização das obras de Max Weber são


controversas quanto ao sentido da coerência histórica e epistemológica de seu conteúdo.
Nesta ocasião, não será esgotada a temática dessas controvérsias internas 26, ponto que pode
ser aprofundado no “Prefácio” à 4ª edição alemã de Economia e Sociedade
(WINCKELMANN, 2012 [1955], p. xxxi), nas palavras da própria Marianne Weber (2012
[1925], p. xii), em Lepsius27 que sustenta que EeS “é um torso”, feita de escolhas editoriais
discutíveis e sempre esteve longe de ser um todo “coeso e unificado” (LEPSIUS, 2012, p.
137) (2012) e em Schluchter (2014b). A natureza editorial complexa de EeS se dá por ser
uma amarração de textos ora consonantes entre si, ora dissonantes. Para compreender esta

26
Para uma compreensão mais aprofundada sobre o tema ver Carvalho (2016).
27
Mario Rainer Lepsius (1928-2014) foi um dos especialistas reponsáveis técnicos pela edição da coleção Max Weber-
Gesantasgauben (MWG), que atualiza e reordena os escritos de Max Weber. Os outros especialistas são Horst Baier,
Gangolf Hübinger, Wolfgang J. Mommsen (1930-2004), Wolfgang Schluchter e Johannes Winckelmann (1900-1985)
(HANKE, 2012).

6
compreender essa complexa relação, é necessária uma palavra sobre os Grundriss der
Sozialökonomik (GdS)28.
Max Weber participou como redator de um projeto editorial chamado Grundriss
der Sozialökonomik (Fundamentos de economia social), publicado pela primeira vez em
1915, pela J. C. B. Mohr. No papel de redator, Weber deixou preparado um índice
sistematizado para o conjunto. Seriam cinco livros divididos em nove seções. No Livro I,
Fundamentos da Economia, estava prevista uma Seção III chamada “Economia e
sociedade” (WINCKELMANN, 2012 [1976], p. xix), que deveria ser assumida por dois
autores, o próprio Max Weber estaria encarregado da Parte I, A Economia e as ordens e
poderes sociais, enquanto Eugen Von Philippovich ficaria responsável pela Parte II,
Desenvolvimento dos sistemas e ideais político-econômicos e político-sociais, na qual,
lançaria reeditada uma coletânea de conferências de sua autoria, material publicado
orignalmente em 1910. Num curto intervalo de tempo, a edição do volume fica abalada
pelo falecimento de Philippovich, em 1917, e de Weber, em 1920. A solução encontrada
pelos editores foi atrasar o material de Philippovich, pois carecia de nova redação
atualizada, publicando-o, apenas em 1924, na Seção I, do Livro Ie não mais na Seção III,
Wirtschaft und Gesellschaft (Economia e Sociedade). Coube a Weber assumir todo o
conteúdo da Seção III, ao qual se dedicou entre os anos de 1917 e 1920, conseguindo
entregar os Capítulos I, II, III, e a introdução aou Capítulo IV. Com o falecimento de
Weber, o editor resolve publicar este material inacabado, mas canônico, em volume único,
sob o título reaproveitado de Wirtschaft und Gesellschaft, complementado com textos de
outras fases do autor organizado por Marianne Weber e Melchior Palyi. Assim nasceu o
tomo que conhecemos por Economia e sociedade (WINCKELMANN, 2012, [1976], p.
xix).
No “Prefácio” à primeira edição alemã (2012 [1921]) a própria organizadora indica
o tamanho de sua dificuldade em estabelecer um início para a organização daqueles
escritos, pois “para a estruturação de todo o material não existiu plano algum, e o plano
original”, que oferecia alguns pontos de referência, “fora abandonado” quanto às questões
substanciais (WEBER, Mariane, 2012 [1921], p. xxxix).
Já a segunda edição sofreu alterações de forma e conteúdo, ainda sob os cuidados
de Marianne Weber. A começar pela divisão do volume em dois tomos “para mais fácil
manuseio”, sofrendo alterações e correções, incluindo-se o Tratado músico-sociológico

28
Fundamentos de economia social (WINCKWLMANN, J., 2012 [1976], p. xviii).

7
(apenas como apêndice), como um “primeiro elemento de uma sociologia da arte planejada
pelo autor” (WEBER, Marianne, 2012 [1925], p. xii). Outras alterações contundentes
viriam acontecer à obra sob a tutela editorial de Johannes Winckelmann, conforme
colocado por Lepsius (2012).
Gabriel Cohn, em prefácio à edição brasileira, assinala de forma contundente: “é
em grande medida uma obra póstuma”, que sofre da “carência de uma unidade
terminológica, resultado de uma associação de escritos de períodos diferentes da produção
weberiana, definida pela ordem dos temas e não pela ordem cronológica da redação”
(COHN, 2012 [1991], p. xiii-xiv). O que coloca o leitor diante de problemas embaraçosos,
dos quais, o prefaciador cita como caso exemplar, a discrepância entre os dois momentos
nos quais se apresenta a tábua de conceitos trabalhados por Weber – em Sobre algumas
categorias da Sociologia Compreensiva, de 1913, e em Conceitos sociológicos
fundamentais, de 1918 – que, ao serem apresentadas em ordem cronológica invertida,
induzem a indiscrepâncias terminológicas e conceituais (ibidem). A esse respeito, Lepsius
(2012) também se posiciona pedindo cautela em relação aos dois textos. Para o exegéta, os
Conceitos sociológicos fundamentais resguardam as típicas características de um programa
sociológico que “constitui fundamentação da sociologia compreensiva de Weber, que tem
seu ponto de partida nas orientações da ação”, revisados e sistematizados exaustivamente
“passando pelas relações e ordenações sociais, até as associações”, superando totalmente o
texto de 1913, Sobre algumas categorias da Sociologia Compreensiva (LEPSIUS, 2012, p.
138-140). Conforme Lepsius (2012), outros problemas podem facilmente ser encontrados
em EeS, como o acrescécimo “arbitrário” que Johannes Winckelmann fez na 4ª edição, de
1956, somando ao volume a “Sociologia do Estado” (que não estava prevista e não
dialogava com a versão pré-ordenada por Weber ou Marianne) tornando EeS,
“definitivamente, um livro que não existe”, nem em sua “versão tradicional”, e nem “na
versão de estudo difundida pela quinta edição de 1972” (LEPSIUS, 2012, p. 140).
Desde os anos 70, com a nova estruturação das obras completas de Weber na
Alemanha, a obra Economia e Sociedade sofreu releituras analíticas e mudanças formais
(assim como o conjunto dos Ensaios). O denso apanhado de texto foi desmembrado e
organizado em uma nova ordem de leitura que está dividida em quatro volumes (MWG
band I/22-25) separados em seis tomos (Quadro 3), de modo que o último volume
corresponde a um índice completo.

8
Quadro 3 – Wirtschaft und Gesellschaft. (WuE) diluída na Max Weber-Gesamtausgabe (MWG).

Descrição Títulos em tradução livre


Max Weber-Gesamtausgabe Produção de Max Weber
(nas Obras Completas) (Publicação equivalente original)
VOL. (I) ESCRITOS E DISCURSOS
Band I/22,1: Wirtschaft und Gesellschaft. Die Wirtschaft
und die gesellschaftlichen Ordnungen und Mächt. Nachlass. (EeS). A Economia e as ordens e
Gemeinschaften. Hrsg. v. Wolfgang J. Mommsen in Zus.-Arb. poderes sociais. Espólio.
m. Michael Meyer. 2001. XXVI, 401 Seiten. ISBN 978-3-16- Comunidades. (2001)
147558-0
Band I/22,2: Wirtschaft und Gesellschaft. Religiöse
(EeS). A Economia e as ordens e
Gemeinschaften. Hrsg. v. Hans G. Kippenberg in Zus.-Arb. m.
poderes sociais. Espólio.
Petra Schilm, unter Mitw. v. Jutta Niemeier. 2001. XXV, 584
Comunidades religiosas.
Seiten. ISBN 978-3-16-147562-7
Band I/22,3: Wirtschaft und Gesellschaft. Recht. (EeS). A Economia e as ordens e
I/22 Hrsg. v. Werner Gephart u. Siegfried Hermes. 2010. XXIX, 813 poderes sociais. Espólio. Direito.
Seiten. ISBN 978-3-16-150356-6 (2010)
Band I/22,4: Wirtschaft und Gesellschaft. Herrschaft. Hrsg. (EeS). A Economia e as ordens e
v. Edith Hanke in Zus.-Arb. m. Thomas Kroll. 2005. XXX, 944 poderes sociais. Espólio.
Seiten. ISBN 978-3-16-148694-4 Dominação. (2005)
Band I/22,5: Wirtschaft und Gesellschaft. Die Stadt (EeS). A Economia e as ordens e
Hrsg. v. Wilfried Nippel. 1999. XXVI, 390 Seiten. ISBN 978-3- poderes sociais. Espólio. A
16-146821-6 cidade. (1999)
Wirtschaft und Gesellschaft. Soziologie. Unvollendet. 1919-
(EeS). Sociologia. Inacabados.
I/23 1920. Hrsg. v. Knut Borchardt, Edith Hanke u. Wolfgang
1919-1920. (2013)
Schluchter 2013. XXVI, 847 Seiten. ISBN 978-3-16-150292-7
Wirtschaft und Gesellschaft. Entstehungsgeschichte und
(EeS). História da Gênese e
I/24 Dokumente. Hrsg. v. Wolfgang Schluchter. 2009. XI, 285
documentos. (2009)
Seiten. ISBN 978-3-16-150058-9
Wirtschaft und Gesellschaft. Gesamtregister.
Economia e sociedade. Índices.
l/25 Bearb. v. Edith Hanke u. Christoph Morlok. 2015. XXIV, 479
[+ CD- ROM]. (2005)
Seiten (+ CD-ROM). ISBN 978-3-16-152997-9
Fonte: Elaborado pelo autor, com base em Mohr Siebeck (editora).

Mesmo que haja essa polêmica em torno de sua incoerência editorial provocando
uma relativa defasagem de Economia e Sociedade (1921), uma vez que a nova organização
dos seus escritos de já vem sendo reeditada e recontextualizada desde 1999, a obra original
ainda é um dos pontos fortes dos volumes organizados por Marianne Weber, gozando de
largo prestígio entre pesquisadores de todo o mundo, e uma leitura obrigatória nos cursos
de formação de cientistas sociais no Brasil.

1.3 A CONSTRUÇÃO DA MAX WEBER- GESAMTAUSGABE (MWG)

A terceira fase de organização e republicação do legado de weberiano inicia-se com


a concepção de um ousado projeto arquitetado no final dos anos de 1970, consolidando sua
primeira publicação no ano de 1984. As Obras Completas de Max Weber – a Max Weber-
Gesamtausgabe (MWG) – eleva o conjunto de escritos de Weber status de magnum opus e
reinaugura a maneira pela qual se lê Max Weber, inclusive em sua própria língua

9
vernácula. O reordenamento formal e substantivo do corpus weberiano reestabelece uma
nova percepção interpretativa da coerência interna dos escritos de Weber, partindo de
leituras comparadas entre a redação do autor e documentos adicionais, como
correspondências, registros, anotações de aulas, escritos inacabados e textos avulsos. Tudo
colocado em perspectiva com um amplo cotejamento desta produção em relação temporal
sincrônica e diacrônica com os contextos diferentemente peculiares de sua criação.
Pensada para ser finalizada entre os anos de 1980 e 2015, a MGW foi projetada
para ser uma edição crítica submetida ao crivo analítico interno (coerência epistemológica)
e externo (contexto histórico-institucional-editorial), e acabou por tornar-se é uma obra
colossal e monumentalizadora que condensa “230 anos de trabalho científico” (HANKE,
2012). Todos os seus 43 volumes estão publicados, restando apenas três tomos para o
encerramento da tarefa de editoração (Quadro 4). O material está organizado em três
seções: MWG I: Schriften und Reden (Escritos e Discursos); MWG II: Briefe (Cartas);
MWG III: Vorlesungen und Vorlesungsnachschriften (Palestras e notas de aulas).

Quadro 4 – Partes publicadas da MWG (2018).

MWG I 25 Volumes - 34 tomos (1 não publicado [sem previsão])


MWG II 11 volumes - 13 tomos (1 não publicado [sem previsão])
MWG III 7 volumes - 7 tomos (1 não publicado [sem previsão])
TOTAIS 43 volumes - 54 tomos (3 não publicados)
Fonte: Carvalho (2016), atualizada em 2019, com base em Mohr Siebeck (editora).

O projeto editorial da MWG foi fundado em uma correlação institucional que


envolve três frentes organizacionais que detêm papéis protocolares diferentes. A MWG
vincula-se, portanto: i) à Academia de Ciências da Baviera (ACB); ii) a uma comissão
científica especializada permanente, encarregada das análises filológicas, revisão técnica e
edição; e iii) a Editora J. C. B. Mohr, da cidade de Tübingen, que detém os direitos de
publicação (HANKE, 2012, p. 100). De acordo com Edith Hanke29 (2012), essa operação
intelectual acabou gerando uma grande movimentação, aquecendo o interesse do público e
o debate em torno do trabalho de Max Weber nos últimos cinquenta anos, provocando um
verdadeiro renascimento do autor.

29
Edith Hanke é uma das colaboradoras do círculo de editores da MWG (cf. HANKE, 2012).

10
2 FONTES ORIGINAIS EM PUBLICAÇÕES BRASILEIRAS 30

A maior parte dos trabalhos weberianos traduzidos no Brasil é tributária de


traduções secundárias. Pouco tem sido elaborado em termos de traduções diretas da língua
vernácula de Weber. Devido à restrição deste trabalho, não será possível escrutinar o todo
nosso levantamento (CARVALHO, 2016), apontando capítulos, fontes, editoras, tradutores
e bibliografias completas e conjunto completo das obras traduzidas e seus referentes
publicados em português, de modo que ficaremos restritos a indicar partes principais das
fontes-base utilizadas pelos tradutores com a massa grossa de dados excluída dessa
exposição.
Iniciando-se pelas fontes em inglês, destacamos quatro bases: 1) The Power of the
State and the Dignity of the Academic Calling in Imperial Germany, de 1973, ed. Minerva;
2) On Universities: The power of the state and the dignity of the academic calling in
imperial Germany (ed. Chicago Press, 1974, reimpressão de ed. Minerva, 1973); 3) A
coletânea From Max Weber: Essays in Sociology, organizada por H. H. Gerth, e C. Wright
Mills, publicada pela Oxford University Press (reimp, Galax Book, 1963 [1946]); e 4) e a
tradução da conhecida versão inglesa de Talcott Parsons (pela ed. Harvard University) para
Die Protestantische Ethik und der Geits des Kapitalismus (1904-5 e 1920).
Tratando-se de fontes em espanhol, temos três bases : 1) a famosa tradução de
Economía e Sociedad, publicada no México, pela ed. Fondo de Cultura, em 1944; 2) a
tradução da versão mexicana de Los fundamentos Racionales y Sociológicos de la música,
publicada em 1964, como parte Economía e Sociedad, e cotejada por Leopoldo Waizbort
com a versão norte-americana Rational and Social Fundations of Music, de 1958; e 3) a
versão espanhola de Romische agrargeschichte (História agrária romana, de 1892).
Quanto às fontes em francês, pode-se citar uma base: 1) a coleção de artigos
publicados entre 1904 e 1917 [GaW], traduzidos do alemão e introduzido na França por
Julien Freund (ed. Librairie Plon), 1965.
Das fontes em alemão, cita-se as seguintes bases: 1) Die protestantische Ethik und
der Geist des Kapitalismus (A Ética Protestantestante e o Espírito do Capitalismo, varias
edições), ed. J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1947. [GARS I]; 2) Wirtschaftsgeschichte
(História geral da economia, Mestre Jou, 1968 e Centauro, 2006), Compilação por

30
Partes desta seção foram editadas numa versão levemente modificada em artigo publicado nos Anais do seminário
interno do Programa de Pós-graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina, em 2018 (v.
CARVALHO, 2018).

11
Sigmund Hellmann e Melchior Palyi de notas de Weber e as transcrições de seus alunos
das suas últimas palestras realizadas em 1919-20 (Berlin, 1923); 3) Tradução dos textos
originais: Wissenschaft als Beruf (1917-1919) / Politik als Beruf (1919) (Ciência como
Profissão/Vocação e Política como Profissão/Vocação, respectivamente). Edições editadas
a partir das versões de 1967 e 1968, da ed. Dunker & Hunblot, de Berlim (várias edições,
inclusive com traduções de Maurício Tragtenberg); 4) Parlament und Regierung im
Neugeordneten Deutschland (Parlamento e Governo em uma Alemanha Reordenada)
originalmente publicado nos Gesammelte Politische Schriften, ed. J. C. B. Mohr (Paul
Siebeck), 1958 [1921], [GPS]; 5) Die Wirtschaftsethik der Weltreligionen, I:
Konfuzianismus und Taoismus, (1915-1919), 1921. [GARS I], no Brasil, “Ética
Econômica das Religiões Mundiais, I: Confucionismo e Taoismo (ed. Vozes, 2016); 6) Os
Gesammelte Politische Schriften [GPS], os “Escritos políticos”, editados pela ed. Martins
Fontes, em 2013, lançada em 2014 (536p.), com relançamento em 2015 para o Werbete
“Weber”, da coleção “Grandes nomes do Pensamento”, da Folha de São Paulo; e 7)
Wirtschaft und Gesellschaft [WuG], recebida entre nós como “Economia e Sociedade:
fundamentos da sociologia compreensiva (EeS)” (de 1921-2), a coletânea de textos foi
publicada pela editora da Universidade de Brasília e finalizada na Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo UNB, em 1991. Essa primeira edição foi, originalmente, publicada
em volume único, e equivale à quinta edição alemã de 1976 (direitos autorais de 1972, da
editora da cidade de Tübigen, J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), a tradução é de Régis Brabosa
e Karen E. Barbosa, com revisão técnica de Gabriel Cohn e, atualmente, é vendida em dois
volumes separados; 8) “Conceitos básicos de sociologia”, publicada pela Editora Moraes,
em 1987 tendo como fonte e edição de WuG (EeS) de 1925; 9) “Ensaios sobre a teoria das
ciências sociais”, Ed. Martins Fontes, 1979 (com impressão em Lisboa), com dados
editoriais insuficientes, mas, fundamentados nos Gesammelte Aufsätze zur
Wissenschaftslehre [GaW] (os “Ensaios Reunidos da doutrina da ciência”); 10) Outra
publicação baseada em GaW é “Metodologia das ciências sociais”, publicado em duas
partes pela ed. Cortez e Ed. da UNICAMP, com Introdução à edição brasileira de Maurício
Tragtenberg e tradução Augustin Wernet (partes 1 e 2); 11) Um terceiro texto com base em
GaW é publicado pela Ed. Ática, em 2006, trata-se de “A "objetividade" do conhecimento
nas ciências sociais”, com tradução autoria secundária, apresentação e comentários Gabriel
Cohn; e 12) “Os fundamentos racionais e sociológicos da música”, edição da EdUSP, de
1995, com Prefácio de Gabriel Cohn e tradução e notas de Leopoldo Waizbort.

12
3 AS TRÊS ONDAS DE RECPEÇÃO

Observa-se, que as ideias de Weber penetram o campo brasileiro em três momentos


de recepção, ou “ondas” (VILLAS BÔAS, 2014, p. 9), rastreáveis na literatura
especializada. Não há um consenso na literatura quanto à forma ou duração destas ondas,
mas há um razoável consenso (VIANNA, 1999; WAIZBORT, 2012; MATA, 2013;
VILLAS BÔAS, 2014; SELL. 2014, p. ex.) quanto ao seu conteúdo e o conjunto de
interesses e demandas teóricas de cada época. Adota-se, neste trabalho, uma perspectiva
para descrever estas ondas de recepção que não se apresenta como fórmula e nem propõe
esgotar a enumeração das produções nos três períodos, contudo, sistematiza-se uma
tipificação de indicativos para a compreensão de um fenômeno de recepção – como um
produto heurístico –, já que, na realidade comparada, é possível a ocorrência da mescla
momentânea de uma onda a outra.
Glaucia Villas Bôas (1997; 2014) tem oferecido pistas consistentes sobre a
recepção da obra de Max Weber em nosso cenário intelectual. Seu recorte longitudinal
abrange a faixa de tempo entre as décadas de 1940 e 1980, anexando a presença de Weber
no Brasil desde a geração de ensaístas, até a própria consolidação institucional das
Ciências Sociais e da Sociologia no país, exatamente no momento “em que [a Sociologia]
se define sua identidade cognitiva, social e histórica” (VILLAS BÔAS, 2014, p. 6).
Embora concorde com a questão da entrada de Weber demandada pela consolidação do
estatuto científico das Ciências Sociais no Brasil, sobretudo da Sociologia, o historiador
Sérgio da Mata (2013) compõe a abordagem de um recorte intertemporal diferente para os
períodos, incluindo, também, a década de trinta e os intelectuais alemães que tiveram
estada ou passagem pelo Brasil. A perspectiva adotada neste artigo assume uma leitura que
aproveita esse duplo olhar, sociológico e histórico, mas privilegia outro corte temporal,
quebrando o período entre as décadas de 1930 e 1980 em duas fases de recepção,
acrescentando-se mais um período, de 1990 até o momento atual.

3.1 A primeira onda de recepção: uma protossociologia primordial

A primeira onda de recepção de Weber no Brasil abrange uma protossociologia


sistemática e primordial, que abrange uma sociologia feita “no” Brasil e “sobre” o Brasil e
a geração de grandes ensaístas, estendendo-se de 1931 a 1951. Os grandes nomes de

13
destaque do período são os de Emílio Willems e Karl Loewenstein, intelectuais alemães
em exílio no país, e de Sérgio Buarque de Holanda e José Honório Rodrigues, que
protagonizam uma querela em torno do “problema do atraso” que se estende desde a
publicação de Raízes do Brasil (HOLANDA, 1995 [1936]), de 1936, até 1951, com O
pecado danado da usura (RODRIGUES, 1976 [1951]), uma última réplica de Rodrigues a
Holanda em forma de artigo (MATA, 2013, p. 199).
O historiador Sérgio da Mata (2013) recupera os primeiros registros de uma
presença weberiana no país. Os nomes de Emílio Willems, sociólogo e filósofo que no
Brasil dedicou-se a processos de aculturação e comunidades rurais, e de Karl Loewenstein,
jurista e cientista político, dedicado, sobretudo, a estudos de temas constitucionalistas.
Ambos, estrangeiros migrados para as Américas por ocasião da ascensão do regime nazista
na Alemanha – o primeiro desloca-se para o Brasil, em 1931, residindo em Brusque,
cidade do estado de Santa Catarina, e o segundo, desloca-se para os Estados Unidos em
1933. Para Sérgio da Mata, Willems figura como “o primeiro cientista social a falar em
Weber no Brasil” (MATA, 2013, p. 203). Natural de Colônia, Alemanha, Emílio Willems
tem sua formação acadêmica em Berlim, onde defendeu uma tese de doutorado em
Filosofia (VILLAS BÔAS, 2006). Residente fixo no Brasil por 18 anos, Willems exerceu
atividade docente em seminário de padres no Rio Grande do Sul, tornando-se, em seguida,
professor de Antropologia na USP e de Sociologia e Antropologia Social na Escola Livre
de Sociologia e Política. Seu foco de pesquisa esteve concentrado no tema da aculturação
dos alemães no Brasil e dos japoneses no estado de São Paulo (VILLAS BÔAS, 2006, p.
81-103). Villas Bôas (2014, p. 5), corroborando as contribuições de Willems, considera-o
um marco inicial dos primeiros anos de institucionalização da sociologia no Brasil (ao
menos da sua primeira onda), uma vez que o intelectual alemão participou como editor da
criação da revista Sociologia, em 1939, dando orientação a “uma primeira modalidade de
recepção da obra de Max Weber que se impõe e se caracteriza pelo interesse no uso do
instrumental teórico e metodológico weberiano na pesquisa empírica” (VILLAS BÔAS,
2014, p. 5). De seus trabalhos de maior marca weberiana, destaca-se o influente artigo
Burocracia e patrimonialismo, publicado na revista Administração Pública, em 1945,
propondo as bases do que “viriam a ser as categorias clássicas do weberianismo brasileiro”
(MATA, 2013, p. 203).
Através de uma inusitada colaboração com os EUA, país que lhe concedeu asilo
político em 1931, Karl Loewenstein iniciou uma missão científica pela América Latina,
recolhendo dados sobre as condições institucionais e desdobramentos econômicos dos

14
regimes políticos na região, assunto de grande interesse do Departamento de Estado Norte-
Americano. Loewenstein abraça a função e inicia sua peregrinação abaixo do da Linha do
Ecuador. Em sua passagem pelo território brasileiro, de uma forma muito diferente de
Emílio Willems, não promove exatamente uma pesquisa “no” Brasil, mas, sim, uma
pesquisa “sobre” o país, e elabora um volumoso relatório de campo que lhe rendeu a
publicação nos EUA, em 1941, de um volume exclusivo sobre o getulismo, sob o título
Brasil under Vargas.
Na Alemanha, Loewenstein foi um habitué dos saraus promovidos pelo círculo
intelectual em torno da residência do casal Weber, em Heidelberg e sua visão sobre a
institucionalidade política brasileira recebe fortes influencias weberianas, com foco na
organização política e jurídica do Estado, na dominação e na burocracia e com observações
sobre a repressão, o “caudilhismo”, o “domínio personalista”, o papel da burocracia em
Vargas e a figura dos interventores, a perda de importância relativa dos políticos
profissionais, a cultura brasileira do judicialismo e da baixa integridade e competência do
funcionalismo público brasileiro, as vicissitudes como a corrupção e o nepotismo
(LOEWENSTEIN, 1942 p. 98 apud MATA, 2013, p. 193-196).
Essa fase da recepção de Weber no Brasil ocorreu entre “problemas, recusas e
disputas” (VILLAS BÔAS, 2014, p. 9), que acabaram por demarcar e etiquetar critérios
seletivos enviesados por interesses de pesquisa específicos da intelectualidade brasileira.
Ainda não seria neste momento que a agenda teórica weberiana, por exemplo, seria
contemplada, em privilégio de proposições classificatórias e generalizantes (VILLAS
BÔAS, 2014).
Conforme Villas Bôas (2014), o zeitgeist intelectual brasileiro daqueles dias estava
profundamente tomado pela ideia do “atraso” brasileiro 31, sempre tomando o país em
comparação com as grandes nações mundiais, sobretudo europeias, que já haviam passado
pelo processo de modernização, conforme a socióloga, uma chave de leitura bastante
assentada em pressupostos que remontam ao fim do séc. XIX e que insuflou problemáticas
que deixou a intelectualidade presa às supostas peculiaridades do Brasil enquanto nação,
centralizando a discussão na dualidade do tradicional vs. moderno (VILLAS BÔAS,
2014).
É sob esse clima intelectual que surgem os trabalhos de dois historiadores e também
juristas de formação, Sérgio Buarque de Holanda e José Honório Rodrigues, (MATA,

31
(Cf. VIANNA, 1999).

15
2013, p. 190). Holanda traz Weber na bagagem após a estada como correspondente
jornalístico em Berlin, influência sensivelmente reverberada em Raízes do Brasil, cuja
primeira edição é de 1936. Um pouco mais tarde, Rodrigues publica, em 1946, o artigo de
rubrica weberiana Capitalismo e protestantismo (MATA, 2013, p. 199).
Além da adesão ao mindset daquele tempo, guardando em comum a discussão em
torno do problema do atraso brasileiro, estas duas obras tomam Weber, teórico da
modernidade por excelência, como uma referencia forte e um repertório teórico útil aos
dois autores. Ainda assim, mesmo com o autor alemão norteando a discussão, os
interpretes do país protagonizariam a primeira querela epistemológica em torno da obra de
Weber no Brasil, uma disputa pública na forma de críticas e réplicas que se estenderam até
o final dos anos de 1950 (MATA, 2013).

3.2 A segunda onda de recepção: a consolidação da sociologia brasileira

A segunda onda weberiana no Brasil alavancaria a presença de Weber entre nós


como marco metodológico. Ela vem embalada pelo impacto nos continentes americanos
das publicações de Economia & Sociedade (México, 1944) e da coletânea From Max
Weber (EUA, 1946). No Brasil, destacam-se dois trabalhos que marcam essa utilização:
Raymundo Faoro, Os Donos do Poder (1958), a primeira obra brasileira de grande
influência com caracteres fundamentalmente weberianos, Florestan Fernandes, com os
Fundamentos empíricos da explicação sociológica (1959), que colocaria Weber ao lado de
Durkheim e Marx “como uma das soluções possíveis para o problema da indução na
sociologia” (FERNANDES, 1959 apud SELL, 2014, p. 6), e, mais tarde, Gabriel Cohn,
com sua tese de livre-docência, Crítica e resignação, propondo uma análise exegética das
fundamentações teóricas da tábua de conceitos metodológicos weberianos.
No ano de 1958 fora lançada “uma primeira grande obra sociológica brasileira que
mais claramente revela a influência de Weber” (MATA, 2013, p. 204), trata-se de
Raymundo Faoro e Os donos do poder, sobre as origens e o desenvolvimento do
“estamento burocrático” brasileiro, culminando em suas teses sobre o patrimonialismo
(MATA, 2013, p. 204). Partindo-se do histórico de um dos mais antigos cursos brasileiros
de pós-graduação em Ciências Sociais, na Universidade de São Paulo (USP), conforme
Sell (2014, p. 6), percebe-se que é nesse contexto de efervescência institucional das ideias
sociológicas que “Florestan Fernandes, na busca dos Fundamentos empíricos da

16
explicação sociológica”, de 1959 potentemente, equiparava Weber lado a lado com
Durkheim e Marx “como uma das soluções possíveis para o problema da indução na
sociologia” (FERNANDES, 1959 apud SELL, 2014, p. 6). Na sequência, tem destaque
outra obra relevante nos primeiros usos de uma metodologia weberiana no Brasil, Homens
livres na ordem escravocrata, de Maria Sylvia de Carvalho Franco, redigida a partir da sua
Tese de Doutorado, em 1964, e publicada em 1969, “uma espécie de correlato” de Os
donos do poder, apesar de tomar outra direção explicativa (MATA, 2013, p. 204).
Do ano de 1979, a tese de livre-docência de Gabriel Cohn, Crítica e resignação, um
estudo inédito no Brasil das categorias weberianas que, segundo Sell (2014), inaugura “um
novo patamar de discussão” (SELL, 2014, p. 6), esmiuçando as influências intelectuais
diretas e revelando mais das bases epistemológicas de Weber, pondo ênfase na análise nos
conceitos metodológicos centrais do arcabouço weberiano.

3.3 A terceira onda de recepção: da sociologia da modernidade às metadiscussões


teóricas

A terceira onda se da nos anos 90 e início dos anos 2000, impulsionada pela
crescente influência europeia dos revisionistas de Heidelberg em torno dos estudos
weberianos brasileiros. É nesta fase que são publicados os trabalhos de Jessé Souza O
malandro e o protestante: a tese weberiana e a singularidade cultural brasileira, de 1999,
e A modernização seletiva: uma reinterpretação do dilema brasileiro, de 2000, como
releituras críticas dos problemas do “atraso” e da modernização do Brasil. É nesse cenário,
também, que ocorre um deslocamento para o interesse na sociologia weberiana histórico-
comparada das religiões universais (Sell, 2014), que tem sua expressão emblemática na
Tese de Livre-docência de Antônio Flávio Pierucci, pela Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da USP, defendida em 2001 e apresentada no formato livro, no ano de
2003, sob o título O desencantamento do mundo: todos os passos do conceito em Max
Weber. Recentemente, mas ainda no impulso da influência de Heidelberg nas leituras e
releituras de Weber, ganham espaço questões tipicamente mais ligadas à metateoria e à
teoria da obra de Weber, destacando-se a obra de Sérgio da Mata, da Universidade Federal
de Ouro Preto, A fascinação weberiana: As origens da obra de Max Weber, de 2013, que
imerge nas pistas do historicismo em Weber e traz questões importantes sobre a recepção
do autor alemão no Brasil; o trabalho de Carlos Sell, da Universidade Federal de Santa

17
Catarina, Max Weber e a racionalização da vida, também de 2013, que segue as múltiplas
vias da racionalidade para pensar a teoria sociológica do racionalismo em Weber.

CONSIDERAÇÕES

Alguns pontos introduzidos neste trabalho, identificados na literatura brasileira


especializada no autor alemão e em pesquisa própria, merecem larga atenção como
indicativos da recepção brasileira de Weber e do problema de estarmos trabalhando com
materiais seccionados e fontes em processo de obsolescência, como: i) o problema das
ideias condicionantes que balizam o ordenamento da leitura no campo de chegada durante
a primeira onda de recepção de Weber no Brasil, como no caso do “atraso” brasileiro, e
que condicionaram um tipo de leitura e aplicabilidade do pensamento do autor; ii) o
problema das demandas específicas, como no caso da manutenção metodológica da
sociologia e das ciências sociais no Brasil que, no caso específico de Weber, alavancou um
olhar direcionado e selecionado sobre a obra do autor, mas legou à obscuridade partes não
conhecidas pelo público brasileiro, como a maior parte dos Ensaios Reunidos, que nunca
chegaram à audiência brasileira; iii) o problema das fragmentação. Embora não se possa
afirmar que essas classificações seletivas tenham criado um “Weber brasileiro”, percebe-se
uma importação fracionada e estanque da obra weberiana, como no caso de seus escritos
políticos, que foram importados em condições, contextos e momentos diferentes,
dificultando a aquisição pública das concepções políticas de Weber de forma total; iv) o
problema das traduções de segunda mão, como no caso do nosso consumo inevitável das
traduções realizadas de fontes não originais alemãs; e v) o problema das fontes
desatualizadas. Não bastando os problemas de coerência externa (importação seccionada
classificação), os leitores brasileiros de Weber enfrentam, ainda, os problemas de coerência
interna da obra, como no ilustrativo caso de “Economia e Sociedade”, com a qual, no
Brasil, trabalha-se com uma defasagem de um século e textos organizados de maneira
incidental que conduzem os leitores mais desavisados a desencontros embaraçosos pelos
caminhos epistemológicos da obra de Weber. A constatação de que nem mesmo um único
dos 43 volumes da MGW – uma bibliografia com quase meio século de existência – tenha
chegado ao Brasil é alarmante, diante do problema de um século de defasagem e
desencontros de fontes dentro da recepção brasileira de Max Weber, um teórico lido em
quase todos os cursos dos Programas de Ciências Humanas pelo país.

18
SIGLAS

Em Alemão:

Archiv – Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik


GARS I – Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie, Band I.
GARS II – Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie, Band II.
GARS III – Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie, Band III.
GASS – Gesammelte Aufsätze zur Soziologie und Sozialpolitik
GASW – Gesammelte Aufsätze zur Sozial- und Wirtschaftsgeschichte
GAW – Gesammelte Aufsätze zur Wissenschaftslehre
GdS – Grundriss der Sozialökonomik.
GPS – Gesammelte Politische Schriften
MWG – Max Weber- Gesamtausgabe
PE – Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus
PE II – Die Protestantische Ethik II. Kritiken und Antikritiken.
WuG – Wirtschaft und Gesellschaft.
WG – Wirtschaftsgeschichte. Abriß der universalen Sozial- und Wirtschaftsgeschichte

Em português:

EeS – Economia e Sociedade

-------------------------------------

Resumo: As ideias intelectuais de Max Weber têm sido importadas para o Brasil desde a década de
1930. Em que pese nosso acesso a algumas das principais ideias teóricas e metodológicas de
Weber, ainda estamos longe de abarcar domínio sistemático sobre o corpus teórico weberiano.
Ademais, passamos por seus escritos de modo fracionado e descontínuo, privilegiando, em grande
parte, vias secundárias de tradução (majoritariamente, inglês, espanhol e francês), em detrimento de
traduções dos originais em alemão. Problematiza-se, ainda, a ausência total de traduções em
português da atual coletânea das Obras Completas de Max Weber, a Max Weber- Gesamtausgabe.
Propõe-se, com base em pesquisa de longo prazo (realizada com apoio CNPq/CAPES): i)
apresentar a gênese editorial alemã das obras de Weber; ii) indicar condições de importação das
ideias intelectuais de Weber para o Brasil e como elas chegaram de maneira pontual e seccionada;
iii) levantar a relevância da discussão sobre a importação das ideias intelectuais de Weber e da
problemática de estarmos trabalhando com materiais seccionados e fontes desatualizadas.

Palavras-chave: Importação de ideias intelectuais; Circulação das ideias intelectuais; Max Weber;
Teoria sociológica.

19
REFERÊNCIAS

BARBOSA, Francisco de Assis. (Org.). Introdução. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de.
Raízes de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. p. 11-35.

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Trad. Fernando Tomaz. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. p. 59-73.

BOURDIEU, P. As condições sociais da circulação internacional das ideias. Trad. Fernanda


Abreu. Rev. Enfoques. PPGSA/IFCS/UFRJ [on-line], Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 04-15, dez.
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BOURDIEU, P. A causa da ciência: como a história das ciências sociais pode servir ao
progresso das ciências. Política & Sociedade, Florianópolis, n. 1, p. 143-161, set. 2002b.

CANDIDO; Antonio. Introdução à parte II. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes de
Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Rocco, 1989. p. 119-129.

CARVALHO, Márcio J. R. de. Caminhos da compreensão: condicionantes sócio-intelectuais


da recepção das obras de Max Weber no Brasil. 2016. 175 f. Dissertação (Mestrado) - Curso
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