Você está na página 1de 8

INFANTICÍDIO INDÍGENA

 Direitos humanos:
Seu caráter universal foi atingido pela Declaração Universal dos Direitos humanos de 1948,
promulgada pela ONU: esta avulta em importância porque ampliou o alcance da Declaração
com uma projeção internacional, vez que foi assinada pela grande maioria dos países do
mundo (148/159 dos aproximadamente, 200), marcada que foi pelos horrores das duas
grandes guerras. Tais assinaturas foram inclusive sendo apostas com o tempo, ou seja, tal
declaração não pertenceu somente a um momento histórico também já que é fruto de um
processo contínuo. Esta validação internacional equivale dizer que tais direitos não são
reconhecidos por cada país individualmente, mas que cada pessoa, como cidadão do mundo
deve receber tal proteção, inclusive quanto aos próprios Estados. Com isso, tais direitos
adquiriram além do caráter universal também o de direitos fundamentais. Quem bem explica
tal relação é o mestre Canotilho: “Direitos do homem são direitos válidos para todos os povos
e em todos os tempos (dimensão jusnaturalista-universalista); direitos fundamentais são os
direitos do homem, jurídico-institucionalmente garantidos e limitados espaço-
temporalmente”. Assim, todo direito fundamental é direito humano mas nem todo direito
humano é fundamental (apesar da nossa Constituição – todo o art. 5º; banalização) - os
direitos humanos quando reconhecidos pelo Estado, passam a categoria de fundamentais.
De lá pra cá, outros documentos têm buscado consensos e garantias extras, a exemplo de
Convenções sobre Direitos da Criança, contra a Discriminação da Mulher, contra Tortura e
outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas ou Degradantes, sobre a Eliminação de Todas
as Formas de Discriminação Racial, sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência etc.
Bobbio nos chama atenção que diante de tal evolução, “o problema fundamental em
relação aos direitos do homem, hoje, não é tanto o de justificá-los, mas o de protegê-los. Trata
se de um problema não filosófico, mas político” (BOBBIO: 1992, p. 24).
No caso brasileiro, bem afirmou Herkenhoff que falar sobre a evolução dos direitos
humanos no Brasil é falar sobre a própria evolução de suas constituições. Com efeito, nossa
primeira Constituição, mesmo outorgada em 1824, já sofreu a influência da Declaração de
1789 e declarou a proteção aos direitos humanos. Todas que lhe seguiram foram ampliando a
proteção destes direitos, com exceção da Carta de 67, pós-Revolução de 64, que ficou marcada
nesta área por grande retrocesso. No entanto, a CF de 88 restabeleceu o processo evolutivo de
reconhecimento aos direitos humanos, buscando também instrumentos para efetivá-los.
Nesse sentido, Herkenhoff observa que ainda não há uma vigência efetiva dos direitos
humanos no país, muito embora de gozarmos de uma legislação e cultura cada vez mais
solidificada neste tocante.
• De forma geral, se pode dizer que a experiência brasileira não é única, ou seja, em sua
maioria, cada país foi amadurecendo seu processo de reconhecimento e proteção aos direitos
humanos. Não obstante isso, e talvez até em virtude desse processo é que surgiram teorias
que buscam relativizar (como uma reação a este processo ou buscando um ajuste, um
equilíbrio na sua efetivação) ou, ao contrário, defender de forma mais incisiva de que os
direitos em cheque quando em confronto com tradições e culturas, devam prevalecer. Eles
seriam então o parâmetro proposto para uma situação em que de um lado temos o caráter
universal dos direitos humanos e de outro temos a multiculturalidade presente nos mais
diversos grupos sociais, desde pequenos grupos até a discrepância cultural entre os países.
A primeira corrente, relativista, acusa a universalista de impor um modelo único ao mundo
inteiro a partir de uma visão puramente ocidentalizada, quando os membros de uma cultura
ou civilização só estariam habilitados a criticar a sua própria cultura.
Por outro lado, a teoria universalista defende que a essência do ser humano é uma só, e
levando em conta a doutrina do direito natural, defendem que a existência de uma Lei
superior a do ordenamento de cada povo, baseada em um conjunto de direitos mínimos.
Nesse sentido, especificamente no tocante à cultura indígena, só no Brasil existem mais
de duzentos povos indígenas, que abrigam uma população aproximada de duzentos e oitenta
mil índios e somente entre eles, há a existência de cerca de cento e sessenta línguas e mais de
trinta dialetos, sem falar da ampla variedade de hábitos, desde alimentares, até
comportamentais. Tal variação está muito ligada ao processo de aculturação ou de
preservação de tais culturas. Algumas já incorporaram quase que completamente a cultura do
povo branco, dominante. Outras resistem, seja por razões de ordem geográfica, seja por um
processo consciente e mais maduro de sobrevivência e valorização destas culturas.
No tocante ao processo de aculturação, tem-se que foi fomentado pelo próprio Estado. O
entendimento inicial era o enquadramento dos índios como categoria social transitória, fadada
ao desaparecimento, de acordo com a previsão de incorporação dos silvícolas à comunhão
nacional, constante tanto da CF de 1967, quanto do Estatuto do Índio de 1973, ainda em vigor,
graças à inércia legislativa (o Projeto de Lei do novo Estatuto do Índio é de 1991 e ainda não foi
votado). Propósito não mais reproduzido no texto constitucional de 1988 que prevê ainda o
direito originário dos índios às suas terras. Quanto a estas, é ato inclusive meramente
declaratório vez que reconhece sua natureza originária, ou seja, anterior à existência do
próprio Estado. Contraditoriamente a esta condição privilegiada, este vem descumprindo o
prazo de demarcação das terras que já encerrou há 18 anos.
A própria FUNAI, órgão responsável pela tutela dos índios é acusada de denúncias de
biopirataria nas terras indígenas, omissão de fiscalização do acesso de empresas nas reservas,
incentivo a invasões de índios em fazendas particulares, desvio de recursos destinados
projetos indígenas etc. E por tudo isso, que teria interesse em que ONGs e grupos missionários
principalmente deixassem as áreas indígenas, grupos estes que sistematicamente vem
denunciando e cobrando providências quanto ao descaso no tratamento aos índios, razão por
exemplo da alta mortalidade infantil e também de práticas como o infanticídio.
Quanto ao direito à diferença, constitui um reconhecimento de que não deve ser
validada a idéia da supremacia cultural dos não índios. No entanto, o Brasil assinou e ratificou
inúmeros Tratados e Convenções internacionais comprometendo-se com a defesa dos direitos
humanos, destes não se podendo excluir os direitos dos povos indígenas, a exemplo da
Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), sobre povos indígenas e
tribais em países independentes (afirma ser o primeiro e único instrumento internacional
vinculante que trata especificamente do direito dos povos indígenas e tribais. A Convenção
chama atenção inclusive para a exigência indígena de mudança de tratamento em que deve
ser substituída a expressão “populações” que denota transitoriedade para “povos”, como
segmento nacional com identidade e organização própria. Prevê ainda: “A nova Convenção
assegura aos povos indígenas e tribais igualdade de tratamento e de oportunidades no pleno
gozo dos direitos humanos e liberdades fundamentais, sem obstáculo ou discriminação e nas
mesmas condições dispensadas aos demais povos”. E ainda: “Os Estados-membros, ao
ratificarem a Convenção, comprometem-se a adequar sua legislação e práticas nacionais a
seus termos e disposições e a desenvolver ações com vista à sua aplicação integral”... “O Brasil
que, além de Estado-membro da OIT, é um dos dez países com assento permanente em seu
Conselho de Administração, ao ratificar a Convenção, em julho de 2002, aderiu ao instrumento
de direito internacional mais abrangente na matéria, que trata de garantir aos povos indígenas
e tribais os direitos mínimos de, se assim o desejarem, salvaguardar suas culturas e sua
identidade no contexto das sociedades que integram – texto assinado por Christian Ramos
Veloz (Especialista Principal em Normas Internacionais do Trabalho e Povos Indígenas) e Lais
Abramo (Diretora da OIT no Brasil.).

Aliás, consta das justificativas para a criação da Convenção: “Considerando que, em


diversas partes do mundo, esses povos não têm condições de gozar dos direitos humanos
fundamentais na mesma proporção que o restante da população dos Estados que habitam e
que suas leis, valores, costumes e perspectivas têm-se freqüentemente deteriorado...” Já o art.
2º prevê o compromisso dos Estados signatários na integridade destes povos (entenda-se aí
integridade não só cultural, mas também física. O art. 8º preceitua: “1. Ao se aplicarem a esses
povos leis e normas nacionais, deverão ser levados na devida consideração seus costumes ou
seu direito consuetudinário. 2. Esses povos deverão ter o direito de manter seus próprios
costumes e instituições, desde que compatíveis com os direitos fundamentais definidos pelo
sistema jurídico nacional e com os direitos humanos internacionalmente reconhecidos.
Sempre que necessário, deverão ser estabelecidos procedimentos para a solução de conflitos
que possam surgir na aplicação desse princípio. 3. A aplicação dos parágrafos 1 e 2 deste artigo
não deverá impedir que os membros desses povos exerçam os direitos reconhecidos para
todos os cidadãos do país e assumam as obrigações correspondentes”.
A questão que se levanta é quando um direito humano indiscutivelmente reconhecido,
como o à vida é violado por índios por razões entendidas como culturais, como é o caso do
infanticídio. A comissão Pró-Yanomami afirmou ser esta uma das tribos em que a prática do
infanticídio faz parte de sua cultura. Tradição inclusive bastante arraigada entre eles
expressando “a autonomia da mulher em decidir pela vida ou a morte do filho e funciona
como uma forma de seleção para as malformações e para o sexo das crianças”. No entanto, a
própria resolução é clara neste sentido, o respeito aos direitos fundamentais é o limite ao
reconhecimento da cultura dos povos. O que se observa então não é lacuna no direito mas
falta de coragem política de tomar as medidas necessárias para o enfrentamento do
problemas. Não é questão simples mas se estamos de falando de cultura, infelizmente o Brasil
também prima por uma cultura de desrespeito às normas, de impunidade.
A pesquisadora Maíra de Paula Barreto chama atenção para a necessidade de coerência do
governo brasileiro porque essa prática permissiva, omissiva quanto aos casos de infanticídio
indígena, contrariam não só a Convenção 169 da OIT, mencionada, apesar de especialmente
ela, vez que trata especificamente dos povos indígenas, mas também outros tantos tratados
assinados pelo Brasil, a exemplo da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU
(1948), o pacto Internacional dos Direitos econômicos, sociais e Culturais também da ONU
(1966, ratificado pelo Brasil em 1992), a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de
San José da Costa Rica, de 1969 e ratificado pelo Brasil em 1992), a Declaração e Programa de
ação de Viena (Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, 1993) e a Declaração Universal
de Bioética de Direitos Humanos (UNESCO, 2005). A pesquisadora enfatiza que o Brasil
tacitamente adota a teoria relativista (não intervencionista), “mesmo sabendo que a violação a
um direito humano é sempre condenável, independente da cultura do criminoso”.
No tocante ao infanticídio propriamente dito, necessário ser dito inicialmente que este
aqui é entendido de forma ampla como homicídio de crianças, diferentemente do tipo penal
contido no nosso ordenamento, no art. 123 do CP, que prevê o infanticídio como sendo aquele
cometido somente pela mãe e sob influência do estado puerperal.
Na idade média, as penas previstas a mulher que matava o filho deveria ser enterrada viva,
empalada (um pau enfiado pelo ânus que saía pela boca) ou dilacerada com tenazes ardentes.
Antes, no direito romano, segundo Nelson Hungria (1981, p. 239-240), o infanticídio era
incluído entre os crimes mais severamente punidos, não sendo distinguido do homicídio, “se
praticado pela mãe ou pelo pai, constituía modalidade do parricidium e a pena aplicável era o
culeus, de arrepiante atrocidade”.
Em certos países, o infanticídio é permitido em virtude da cultura patrilinear em que
ocorre a preferência por crianças do sexo masculino, a exemplo da China. Na Índia, a prática
infanticida que era muito freqüente, passou a ser proibida, mas foi infelizmente substituída
pelo aborto seletivo.
Segundo Moscoso (37), “apenas no século XVIII, com o advento do direito natural, que o
infanticídio passou a ter uma pena abrandada, sendo assim constituído como homicídio
privilegiado quando praticado pela mãe ou pelos parentes. No Brasil, o Código de 1830 é o
primeiro a tipificar a figura do infanticídio”.
Ao meu ver, da mesma forma que tipificamos diferente a figura do infanticídio, levando
em consideração o estado puerperal, ou seja, o estado de perturbação da mulher no período
pós-parto e presumido sofrimento para a mesma com o próprio ato cometido.
Segundo Katizinger, apud Maldonado, o puerpério dura aproximadamente três meses. Em
mulheres primíparas (de primeira gestação), esta fase poder ter maior durabilidade, pois a
falta de experiência acompanhada de sentimentos de ansiedade, medo, ódio, desespero
somatizam-se e podem levar a um quadro de profunda instabilidade emocional, de
perturbações de ordem física e psicológica. Este é um período, inclusive que é passado não só
pela mulher, por toda família.
São condenadas à morte crianças gêmeas (entendida ora como maldição pelo Pajé ora
condição de incapacidade para sobrevivência, dado o ambiente das tribos, em que o trabalho
para a mulher é muito árduo), com alguma má-formação, do sexo feminino, por ser filho de
mãe solteira, por gravidez muito próxima a outra (havendo outra criança que ainda está sendo
amamentada), relações extraconjugais, em virtude de sonhos ou maus presságios etc.
Pesquisadora da USP, Yumi Gosso, Dra. Em psicologia experimental explica ainda que os
indígenas não criam um laço afetivo com o bebê logo que ele nasce, “Existe um período até
que se estabeleça um relacionamento entre mãe e filho”.
Também entendo ser imprescindível a aprovação de um tipo penal específico quando
praticado pelos índios, vez que deve ser levada em conta inquestionavelmente que o ato
possui razões culturais, mas não encontra respaldo nos Tratados assinados pelo Brasil,
principalmente na Convenção 169 da OIT (política descompromissada).
FUNAI e FUNASA têm protagonizado verdadeiro jogo de empurra de responsabilidade
quanto a esta questão. Assim, os números são freqüentemente contestados seja porque
estariam sendo superestimados, seja porque estariam sendo subestimados. De forma geral, a
FUNAI afirma que são ínfimos os casos de infanticídio em tribos indígenas, mas são bastantes
preocupantes os números relativos à mortalidade infantil indígenas, várias destas mortes
inexplicadas, sendo alegadas causas desconhecidas.
A FUNAI alega que os dados devem ser obtidos na FUNASA, vez que o órgão tem
atribuições específicas quanto às condições sanitárias existentes nas aldeias, considerada a
primeira causa de doenças entre os índios, ao lado da desnutrição. Já para a FUNASA cabe à
FUNAI identificar esses casos que atribui à prática do infanticídio. Segundo o órgão, a prática
existe no Brasil, em, no mínimo, treze etnias (das 165) e que, pela dificuldade de acesso e pela
violência dos índios que não admitem a entrada de homens brancos nas tribos, pouco se sabe
sobre as reais estatísticas das mortes. O que se sabe seria devido a missões religiosas, estudos
antropológicos ou médicos que atuam nas áreas que repassariam as informações à imprensa,
“antes que elas sejam enviadas ao Ministério da Saúde e lá se transformem em mortes por
causas mal definidas ou externas...” (SANTOS, 2007).
Quanto aos números, propriamente ditos,
 a FUNASA realizou uma pesquisa que contabilizou 201 mortes de crianças entre 2004
de 2006, apenas na tribo Yanomami (COUTINHO, 2007);
já outras pesquisas, mostram:
 30 crianças mortas todos os anos, só no Parque Xingu;
 98 crianças vítimas de infanticídios em 2004, na tribo Yanomami (em 2003, foram 68,
ou seja, ocorreu inclusive um aumento de 44% desse número;
 Com base no Censo de 2000, a mortalidade infantil indígena é de 51,4, ou 74,6?
unicamente antes de completar o primeiro ano, para cada mil crianças nascidas vivas,
enquanto que a média brasileira, para os não índios é de 22,9 (média já considerada alta, vez
que a OMS estabelece que o número máximo aceitável seja de dez óbitos para cada mil);
 Segundo dados do MS, (2000 ou 2004), as causas dos óbitos são representados por:
29,2% (afecções perinatais), 20,2% (problemas respiratórios), 12,9 % (doenças infecciosas),
11,7% (doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas), 8,8% (mal formações congênitas),
12,5% (causas mal definidas), 2,3% (causas externas) e 2,3% (outras causas).
 A ONG Atini contabilizou, por meio de pesquisas feitas com missões religiosas, distritos
sanitários indígenas, reportagens e dados da FUNASA, desde de 2001, cerca de 500 crianças
assassinadas por razões culturais;
 Segundo a FUNASA, em 2006, a taxa de mortalidade infantil nas aldeias, foi de 39,1
óbitos para cada mil nascidos vivos, bem mais elevada que a da população brasileira de 23,6.
Quanto a estes números, a FUNAI afirmou não possuir tais números, mas reputou a episódios
isolados e ainda alegou que a FUNAI e a FUNASA dão a assistência necessária aos índios para
evitar a morte de crianças: “Se há bebês que nascem com problemas já temos profissionais e
médicos que oferecem soluções e tratamentos para evitar que sejam sacrificados. Mesmo
entre grupos nômades, quando a mulher tem vários filhos, damos assistência para que ela não
mate nem abandone alguma criança. Mas são episódios raríssimos. Desconheço outras formas
de infanticídio que estejam sendo praticadas”. Afirmou ainda que as denúncias são cortina de
fumaça para desviar o foco do problema da interferência de missionários na cultura dos índios.
Os antropólogos ouvidos justificam a prática, a exemplo de Marianna Holanda, que afirma
que ao julgar esta conduta, o homem branco está agindo como intruso na cultura dos índios
brasileiros. E afirma: “Diante do que chamamos juridicamente de infanticídio, não cabe falar
em infanticídio indígena. O que há nessas aldeias são estratégias reprodutivas e só um número
muito reduzido de crianças acaba sendo submetido a elas... E são crianças com problemas que
mais tarde, impossibilitarão qualquer tipo de socialização. O que nós brancos entendemos
como sendo vida e humano é diferente da percepção dos índios. Um bebê indígena, quando
nasce, não é considerado uma pessoa – ele via adquirindo personalidade ao longo da vida e
das relações sociais que estabelece” (BARROS, 2009).
A Profa. Carla Costa Teixeira, responsável pelo Depto. De Antropologia da UnB também
descarta que os homicídios culturais sejam numericamente significativos e afirma que os
fatores principais para a mortalidade infantil são problemas territoriais, falta de alimentos e
ausência de saneamento adequado. Em sua opinião, o infanticídio não pode ser enquadrado
como uma das causas do elevado número de óbitos entre as crianças indígenas, o que
considera um argumento perverso, vincular práticas culturais com mortalidade infantil.
Márcia Suzuki afirma que a raiz deste estado de coisa está no campo político-cultural. Pra
ela, “é reflexo de nossa história e do que aconteceu no Brasil com a dizimação das tribos. Há
um sentimento de culpa nacional. As pessoas acham que se você preservar a cultura indígena,
mesmo com a morte de crianças, a dívida com os índios será paga, o que não é verdade”.
• Entrechoque cultural e intracultural.
A imprensa, por sua vez, tem produzido documentários como “Quebrando o silêncio”,
produzido no Alto Xingu e fruto de dois anos de entrevistas que ao mesmo tempo que relatam
ser prática comum, o que choca a cultura jurídica não índia, também demonstra que entre os
índios também há discordâncias quanto à prática, trazendo histórias como as de:
 Amalé: filho de mãe solteira, enterrado vivo ao nascer, pelo avô e salvo por outra
índia, Kamiru Kamayurá que relatou ter tentado salvar outras crianças mas que não conseguiu:
um por não ter chegado a tempo, outro por ter sido quebrado também seu pescoço. Segundo
Kamiru, “nós temos medo de nascer gêmeos, trigêmeos. Dizem que quando um pajé faz
feitiço, podem nascer até sege crianças. Por isso as mães têm medo. Mas eu acho errado
matar... A criança fica chorando dentro do buraco, criança pequena custa muito a morrer. Se
eu ver no buraco eu tiro (SUZUKI, 2007, p. 2);
 Niawi: “era filho de um dos maiores caçadores da aldeia e irmão de três lindos
meninos. Ela era o quarto. Isso fazia da família dele uma família muito especial – quatro filhos
homens, que cresceriam e viriam a matar muitas antas para alimentar o povo, assim como
fazia seu pai. Mas para tristeza da família, ele não se desenvolvia como um menino normal.
Aos três anos, ainda não conseguia nadar nem falar. Apesar de ser um menino gordinho e
bonito, todos percebiam que tinha alguma coisa errada. A família se sentida cada vez mais
envergonhada e infeliz. Várias equipes médicas estiveram na aldeia e viram o estado da
criança, mas acharam que nada podia ser feito – afinal, os suruwaha eram índios semi-isolados
e os órgãos oficiais achavam que deveria ser evitada qualquer interferência. Retirá-lo da tribo
seria considerado uma grave interferência cultural. A situação de pressão aumentava e o
desgosto dos pais se tornou tão insuportável que eles acabaram se suicidando quando Niawi
tinha cinco anos. Toda a comunidade chorou muito a perda do grande caçador e sua esposa.
Foram longos dias de luto e de canto ritual. Quando terminaram os rituais fúnebres, o irmão
mais velho de Niawi lhe deu vários golpes na cabeça até que ele desmaiasse, depois disso,
segundo relatos dos familiares, jovens da tribo, chocadas mas incapazes de reagir, ficaram
paradas ao redor da cova improvisada. Ficaram ali ouvindo o choro abafado do menino até
que esse choro se transformasse em um profundo silêncio. Um silêncio que continua até hoje”
(SUZUKI, 2007, p. 8).
 Hakani: intitulou um documentário a seu respeito, tem história parecida, também
trágica, mas com final mais feliz: “nascida em 1995, na tribo dos índios suruuarrás, que vivem
semi-isolados no sul do Amazonas, Hakani foi condenada à morte quando completou dois
anos, porque não se desenvolvia no mesmo ritmo das outras crianças. Escalados para ser os
carrascos, seus pais prepararam o timbó, um veneno obtido a partir da maceração de um cipó.
Mas em vez de cumprirem a sentença, ingeriram eles mesmo a substância. O duplo suicídio
enfureceu a tribo, que pressionou o irmão mais velho de Hakani, Aruaji, então com quinze
anos, a cumprir a tarefa. Ele atacou-a com um porrete. Quando a estava enterrando, ouviu-a
chorar. Arauaji abriu a cova e retirou a irmã. Ao ver a cena kimaru,um dos avôs, pegou seu
arco e flechou a menina entre o ombro e o peito. Tomado de remorso, o velho suruuarrá
também se suicidou com timbó. A flecha, no entanto, não foi suficiente para matar a menina.
Seus ferimentos foram tratados às escondidas pelo casal de missionários protestantes Márcia
e Edson Suzuki. Eles apelaram à tribo para que deixasse Hakani viver. A menina, então, passou
a dormir ao relento e comer as sobras que encontrava pelo chão. ‘Era tratada como um bicho’,
diz Márcia. Muito fraca, ela já contava cinco anos quando a tribo autorizou os missionários a
levá-la para o Hospital das clinicas de ribeirão preto, em São Paulo. Com menos de sete quilos
e sessenta e nove centímetros, Hakani tinha a compleição de um bebê de sete meses. Os
médicos descobriram que o atraso no seu desenvolvimento se devia ao hipotireoidismo.
Márcia e Edson Suzuki conseguiram adotar a indiazinha. Mas o processo ficou emperrado cinco
anos na Justiça do Amazonas, porque o antropólogo marcos farias de Almeida, do Ministério
Público, deu um parecer negativo à adoção. No seu laudo, o antropólogo acusou os
missionários de ameaçar a cultura suruuarrá ao impedir a morte de Hakani. Disse que era na
verdade uma prática cultural repleta de significados. Graças ao empenho do casal, o
hipotireodismo foi controlado, mas os maus-tratos e a desnutrição deixaram seqüelas. Aos
doze anos, Hakani mede 1,20 m, altura equivalente à de uma criança de sete anos.
 Iganani: nasceu com paralisia cerebral – a aldeia Suruuarrá exigiu que ela fosse morta.
Mas sua avó conseguiu convencer sua mãe, Muwaji a ficar com ela. Esta, então, negou-se a
executá-la e conseguiu que a tribo autorizasse seu tratamento em Manaus. Médicos da capital
amazonense concluíram que o melhor seria encaminhar Iganani para Brasília. Antes disso,
porém, foi necessário driblar a FUNAI. O órgão vetou sua transferência com argumento de que
um índio isolado não poderia viver na civilização. Só voltou atrás quando o caso foi denunciado
à imprensa. Agora, Iganani passa três meses por ano em Brasília. Aos quatro anos, consegue
caminhar com o auxílio de um andador. Estaria melhor se a FUNAI permitisse que ela morasse
continuamente em Brasília”;
 Tititu: nasceu hermafrodita também na aldeia Suruuarrá. Sua mãe também recusou-se
a matá-la. Quase foi morta pelo pai que ameaçou flechá-la, mas acabou decidindo levá-la até
os brancos para ver se saberiam o que fazer. Posteriormente, “a tribo consentiu que a menina
fosse tratada. Em São Paulo, ela passou por uma cirurgia corretora. Sem a anomalia, Tititu foi
finalmente aceita pela aldeia”;
 Paltru Kamayura: teve um de seus filhos gêmeos morto pela tribo: “Eles pegaram uma
e enterraram a outra. Hoje a criança está aqui comigo, já tem sete meses, ta gordinho. Quando
eles enterram criança, o pai e a mãe sentem falta... É muito triste, a gente não consegue
esquecer. As pessoas que estudam sobre acultura do índio, como antropólogos e indigenistas,
eles pensam que os índios vão viver assim pra sempre, como era antes. Mas hoje já está
mudando. Cada vez mais, o pensamento dos jovens, da geração de hoje, vai mudando. O meu
pensamento mesmo, não é como antes. Não é como o pensamento dos antropólogos que
estudaram a cultura, que dizem ‘deixa ele viver assim, isso é a cultura deles’. Não, porque a
cultura não para, ela anda. O pensamento também anda. Igualzinho à cultura. Por isso é que
hoje a gente está querendo pegar todas essas crianças até as que tem defeito. Elas são gente,
não são animal. Não são filho de porco ou de tatu. São gente mesmo, saíram de uma pessoa. É
o meu pensamento” (SUZUKI, 2007, p.12). Declaração semelhante foi dada por Débora Tan
Huare, que representa 165 etnias na Coordenação das Organizações indígenas da Amazônia
brasileira: “Nossa cultura não é estável nem é violência corrigir o que é ruim. Violência é
continuar permitindo que crianças sejam mortas”.
 Outro fator, infelizmente influencia negativamente na análise destes dados, é o
preconceito quanto ao povo indígena e sua cultura. Idéias como:
a) Ser selvagem, de difícil adaptação ao meio urbano;
b) A sua equiparação a de pessoas com desenvolvimento mental retardado (à
semelhança dos surdos-mudos)
c) *A associação da prática infanticida com práticas primitivas e animais (referência aos
sagüis que matam um dos filhotes quando têm gêmeos; chimpanzés e gorilas que abandonam
as crias defeituosas; e de civilizações antigas, como a grega que em que o infanticídio servia
para eliminar os menos aptos para o preparo militar (segundo Heródoto, o grande general
Leônidas foi poupado de ser sacrificado por conta de um pequeno defeito em um dos dedos
em virtude do sacerdote encarregado da triagem ter pressentido seu grande futuro).
 No tocante às iniciativas legislativas para lidar com o problema, o projeto de maior
repercussão foi o PL 1.057/2007 ou como ficou mais conhecido, Lei Muwaji, em homenagem
ao caso descrito, de autoria do Dep. Henrique Afonso do Acre. O referido projeto, entre outras
coisas traz uma nova tipificação aos casos de infanticídio indígena, com pena de um a seis
meses de detenção ou multa, bem reduzida em comparação ao tipo penal do infanticídio
previsto no art. 123 do CP que prevê pena de dois a seis anos de detenção. Também propõe a
obrigatoriedade da notificação dos casos de crianças em risco de infanticídio, além da
implementação de programas de educação em direitos humanos nas comunidades indígenas,
e para agentes públicos e profissionais que atuam nestas comunidades. Prevê inclusive que o
“homem branco” que não intervier para salvar crianças indígenas condenadas à morte estará
sujeito a uma pena de um ano e seis meses, equiparando a conduta à omissão de socorro. O
Deputado ainda justificou seu projeto afirmando: “O Brasil condena a mutilação genital de
mulheres na África mas permite a violação dos direitos humanos nas aldeias. Aqui, só é crime
infanticídio de branco”.
A professora de Antropologia da UnB, Rita Segato faz severas críticas ao projeto afirmando
que “a lei ofusca a realidade e declara a os índios bárbaros, selvagens, assassinos”. Também
discorda da proposição de um novo tipo penal, vez que a conduta já estaria tipificada pelo CP,
servindo o projeto somente para vigilância e intrusão na intimidade e nos costumes dos índios.
Na prática, apesar de o PL propor um novo tipo penal com pena muito mais abrandada,
não os beneficiaria sob o aspecto da punição, vez que, mesmo com pena mais rígida, quando
de eventuais enquadramentos, os índios são beneficiados pelo entendimento da sua
inimputabilidade penal.
Outro PL pendente no Congresso é de autoria do Senador Aloízio Mercadante que propõe
o acréscimo de um capítulo exclusivo para as crianças e os adolescentes indígenas no ECA e
afirma que “em caso de ameaça à vida ou à integridade física da criança ou adolescente
indígena,o órgão federal indigenista e o MP federal, em diálogo com a respectiva comunidade,
promoverá o encaminhamento adequado à proteção integral da criança e do adolescente
indígenas. A aplicação desta Lei respeitará as práticas tradicionais indígenas, desde que em
conformidade com os direitos e garantias fundamentais previstas pela CF”. Tal projeto, ao meu
ver, é desnecessário, vez que a referência à proteção dos direitos humanos já existe em vários
tratados sem que haja cumprimento dos mesmos.
Há ainda uma PEC, a 303/08, de autoria do Dep. Pompeo de Matos em que afirma que
“fazer respeitar o direito à vida humana entre os indígenas não constitui desrespeito ou
afronta à sua cultura, mas, pelo contrário, configura respeito à sua particularidade cultural no
âmbito da sociedade brasileira, a qual por meio da Carta constitucional de 1988, considera
inviolável o direito à vida de todos os brasileiros, inclusive os indígenas e estrangeiros”.
Defende ainda uma mudança no art. 231 da CF, inserindo a disposição em destaque: “São
reconhecidos aos índios, respeitada a inviolabilidade do direito à vida nos termos do art. 5º
desta constituição, sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos
originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam...”.