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%*0(07";1*/50 sempre que a sua poesia era tomada como de consciência mais elevado e dinâmico. disse”, lê-se noutro poema. E o crítico
EJPHPQJOUP!JPOMJOFQU obscura ou inacessível. E ainda que tenha Como notou o crítico John Bayley, as suas sublinha como os leitores de Ashbery se
sido dos poetas que mais sentiu o parasi- coleções de poemas refletiam literalmen- sentem incluídos nos seus segredos, ao
Era preciso que ele morresse para que o tismo dos epígonos, isso não impediu que, te essa lógica interna de leis inventadas passo que aqueles que não acedem a estes
desmantelamento da linha do horizonte além do entusiasmo da crítica, alguma e que servem apenas para o universo espe- poemas, reagem por vezes com o tipo de
que a poesia moderna nos legou deixas- vez tenha conquistado grande populari- cífico, sofregamente privado de um cole- amargura de quem se sente deixado de
se de ser uma suspeição. Depois das mor- dade. Defendia que, ao contrário de um cionador. O crítico refere que Ashbery, fora, desprezado. O certo é que nem a crí-
tes de Derek Walcott, Ferreira Gullar, Her- certo alheamento, os seus poemas busca- que colecionou toda a vida obras de arte, tica foi sempre unânime na receção às
berto Helder e Tomas Tranströmer, a pro- vam essa dimensão privada que há em livros e outros objetos, nos seus poemas quase três dezenas de coleções de poe-
fecia de Charles Simic sobre o tempo dos todos nós, as dificuldades em que se mete seguia o mesmo ímpeto, “reunindo curio- mas dele, e o poeta inglês James Fenton
poetas menores que estaria para chegar o nosso pensamento. Nesse sentido, “são sidades e profundidades, anedotas, con- disse que, às vezes, ao ler os poemas de
já não perturba o sono a ninguém. É mes- acessíveis a partir do momento em que fissões, truques, inventários de objetos, Ashbery dava por si “quase levado às lágri-
mo para o lado em que os nossos dias dor- alguém se interesse em aceder-lhes”. os nomes de atores de segunda, os nomes mas devido ao aborrecimento que estes
mem melhor. Já assim, foi com uma boa O contraste entre a aclamação dos seus de filmes, os nomes de flores, e assim causavam”. E, por muito que seja sem-
dose de discrição que John Ashbery mor- pares e uma certa frieza por parte do públi- sucessivamente”. Os seus poemas eram pre fácil reconhecer-lhe o talento, o domí-
reu na manhã de domingo, aos 90 anos. co marcou todo o seu percurso, tendo em parte unidades de armazenamento, nio impecável da língua, o enredo pre-
Desde há muito um dos mais distintos Ashbery marinado nos círculos avant-gar- em parte o estado de maravilhamento, nhe de subtilezas, Fenton teve apenas a
entre a espécie mutante que causa arre- de antes de, em 1976, a reputação ter come- sublinha Bayley. coragem de apontar os excessos próprios
pios às convenções literárias, o poeta nor- çado a precedê-lo, com a coleção de poe- É isto que faz com que seja fácil perder-
te-americano tantas vezes referido como mas “Auto-Retrato num Espelho Convexo” se num poema de Ashbery como num
provável candidato ao Nobel, morreu de – o único livro entre nós editado, numa sótão atafulhado de mobília antiga e velhos,
causas naturais na sua residência, em tradução de António M. Feijó, dada à objetos de valor sentimental e que, sem
Hudson (Nova Iorque), ao lado do mari- estampa duas décadas depois pela Reló- o afeto e as lembranças para lhes dar vida,
do, David Kermani. gio d’Água – a tornar-se o primeiro livro passam por lixo. Mas essa baixa intensi-
Ashbery teve o enorme mérito de se afir- a ser triplamente coroado com o Pulitzer, dade, essa linguagem que se funde musi-
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mar como uma das mais influentes figu- o National Book Award e o National Book calmente numa meditação, que leva a OPTTFVTQPFNBTFTTB
ras da segunda metade do século XX na Critics Circle, os principais prémios no uma tontura, sempre que se entra num EJNFOTÊPQSJWBEBRVF
literatura norte-americana e por todo o circuito do livro norte-americano. espaço furiosamente privado. “Os poemas
mundo entre os que gostam de poesia, e Além disso, Ashbery foi também o pri- dele sempre guardaram os seus segredos,
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isto sem nunca afrouxar o desafio aos meiro poeta vivo a ter um volume dedi- às vezes desafiadoramente, mesmo quan- EPOPTTPQFOTBNFOUP
imperantes modelos da narrativa, indo cado exclusivamente à sua obra no catá- do tanto o poeta quanto eles se tornaram
para lá do ceticismo e tornando a sua obra logo da Library of America. E, em 2011, cada vez mais conhecidos”, nota uma vez
uma leitura que entretém fascinantes sus- recebeu das mãos de Barack Obama a mais Bayley. Num dos seus longos poe-
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peitas em relação à conversa que se ouve medalha National Humanities, tendo a mas, Ashbery fala de uma “espécie de paz FNQBSUFVOJEBEFT
nas bodegas literárias. sua obra sido exaltada por ter “mudado que se conquista se não estragares per- EFBSNB[FOBNFOUP 
Se permaneceu até ao fim uma presen- a forma como lemos poesia”. E, de facto, dendo a paciência”.
ça enigmática, e até algo remota, mani- a sensibilidade que os seus poemas vão “A atividade é levado a cabo por efeito
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festou não poucas vezes a sua frustração maturando exige e conduz a um estado do olhar, por meio de gestos,/ do diz que EFNBSBWJMIBNFOUP
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