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H. P. BLAVATSKY

A DOUTRINA MÍSTICA

Narrações Ocultistas

Prólogo e Notas de:

MÁRIO ROSO DE LUNA

Tradução de:

C. DE FIGUEIREDO BARTOLETTI

HEMUS - LIVRARIA EDITORA LTDA.

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ÍNDICE

Prólogo

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A

Gruta dos Ecos

15

Um Matusalém Ártico

23

O

Campo Luminoso

25

Uma Vida Encantada (Tal Como a Contou uma Pena)

Introdução

32

I - O Desconhecido

33

II - O Visitante Misterioso

38

III - Magia Psíquica

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IV - Visão de Horrores

42

V - A Eterna Dúvida

45

VI - Parto, Porém Não Sozinho

48

VII - A Eternidade é um Sonho Fugaz!

50

VIII - Desgraças a Granel

53

A

Façanha de um "Gosain" Hindu

57

Demonologia e Magia Eclesiástica

61

Assassinato à Distância

67

A Mão Misteriosa

73

A Alma de um Violino

77

Os

Espíritos Vampiros

96

A Ressurreição dos Mortos

111

A Imaginação, A Magia e o Ocultismo

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PRÓLOGO

Prato forte é, leitor, o que te ofereço. Contos macabros, narrações ocultistas da Mestra Blavatsky, ante os quais empalidecem as maiores concepções do fantástico Hoffmann, as mais densas tenebrosidades de Edgar Poe, no delirium tremens de suas embriaguezes astrais; os casos mais estranhos e inexplicáveis, enfim, colecionados pela paciência beneditina de A. Dunken, em sua obra "Os vampiros na literatura alemã"; pela arte de Léon Pineau, em seus "Velhos cantos populares escandinavos"; por Gregorson Campbell, em suas "Superstições de Highlands e Ilhas da Escócia", recolhidas inteiramente de fontes orais; por E. Cosquin, em seus "Contos Populares da Lorena"; por Laisnel de Ia Salle, em suas "Recordações dos velhos tempos" ; por Daniel Deenay, em sua "Erudição dos camponeses da Irlanda Gaélica"; por Abbott, em seu "Folclore Macedônico"; por Kassof, em seus "Costumes do nordeste da Rússia"; por Friedel, em seu "Folclore da Pomerãnía e do Tirol ; por William Ridgeway, em seus "Primeiros tempos da Grécia"; ou, enfim, por nossos escritores de terror, do estilo de José Espronceda e Gustavo Adolfo Becquer! Em qualidade e quantidade, a todos eles supera a consciente arte macabra da excepcional mulher que antes se nos mostrou maravilhosa ironista, em "Pelas grutas e selvas do lndostão", ária mística, em sua pequena obra "A Voz do Silêncio"

e, em tomos sucessivos de "Comentários", mostrar-se-nos-á serena, sábia e arquicientífica, com seus cinco livros imortais "Ísis sem Véu" e a "Doutrina Secreta". Sim, este proteu inabarcável, a princesa Helena Petrovna mais parece um personagem real de algumas de suas arrepiantes narrações, que mera contista de algo que sonhar pudesse, nos delírios de uma imaginação transbordante. Sem ter

vivido certas coisas dessas ali narradas, não se concebe maior viveza de colorido

, desse colorido cárdeno, lívido, clorótico, gris, astral, super-humano de Alberto Durero, el Grego ou Goya, vibrando com a mesma sonoridade pavorosa com que vibra o "Allegretto" da Sétima Sinfonia, ou o "Largo e Mesto" da Sétima Sonata de Beethoven. O crime, o prodígio, o absurdo real, o mistério desconcertante dão-se as mãos nestas páginas, entre sérias doutrinas científicas e passatempos artísticos do mais

fino lavor. A ciência aqui é superciência; a arte - filigrana incomparável; a religião - eco dessas verdades eternas, perdidas na exuberância tropical do mito; a imaginação

todo esse jogo de contrastes, em suma, que

formam sempre, por sua interpenetração, a integração da vida

- escalpelo; a investigação - sonho

desta vida que é um

eterno morrer entre as ondas angustiosas do Mar da Dúvida! desta vida que, sem tais mistérios, sonhos, absurdos, realismos, virtudes e crimes, não vale a pena ser vivida como se vive um poema, aquele poema de queda, de luta e de triunfo que já adivinhou Campoamor, quando nos disse:

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“Conforme o homem avança da vida no áspero caminho

leva sempre a seu lado a esperança

mas tem sempre à frente o seu destino

Porque a alma de todas estas páginas, que com tanto carinho nos permitimos apresentar, é o dedo do Deus-Karma: a pegada do Destino; o Talião inexorável das coisas, diante da suprema piedade dos que, vigorosos transcenderam as fronteiras do Mistério, rompendo hercúleos o Véu de Maya ou de Ísis, para auxiliar, desde o mais além das coisas, os seus filhos - os homens, esses homens que são maus porque são egoístas, e que são egoístas porque têm, todavia, mais de animais que de homens, por terem escalado muito poucos degraus na senda evolutiva. Em um dos contos, a paixão amorosa, irmanada à cobiça, assassina, e seu assassinato é descoberto por uma das mais repugnantes experiências da magia nativa atlante e tântrica; além, em outro, o ceticismo materialista perde um pobre homem que, em sua inconsciência europeia no que tange aos inauditos perigos do Ocultismo, crê ser possível abrir a porta dantesca do mais além, ignorando que essa porta, uma vez aberta, jamais pode fechar-se, e, sem compreender que vai chegar por isso à borda mesmo da mais espantosa loucura; acolá, criaturas inocentes, à maneira das recentes vítimas espanholas dos feiticeiros de Gador e da nefasta bruxa Enriqueta Marti, sofrem todos as mortais depredações do vampirismo, enquanto que, em outras páginas, o duplo astral de uma mulher do mesmo jaez, realiza uma histórica vingança política. E vibram os intestinos de um bom homem transformados em cordas de violino; ou dançam os espectros das tumbas, com música astral, que não é a dirigida pela batuta de Offenbach, nem a evocada pela Dança Macabra de Saint Saens; ou os faquires deixam-se enterrar vivos; ou realizam os jograis as tretas hipnóticas mais inconcebíveis; ou verdadeiros e efetivos Matusaléns árticos guiam,

entre as neves, tristes caravanas polares; ou apresentam a seus clientes, tal qual os dervixes mais asquerosos e os xamanistas mais santos, o espelho mágico de todas as vidências do astral, onde se vê o que querem deixar ver os jinas e onde já não subsiste nenhuma de nossas noções tridimensionais de espaço, tempo, quantidade, matéria ou força, transmudadas todas com a facilidade do sonho, da febre ou da loucura E, aqui, assistimos às sessões mais tremendas de superespiritismo; mais além, vemo-nos envolvidos entre sangue, nas trevas da magia negra; acolá, concluímos, como Empêdocles, Jesus, Apolônio de Tiana e todos os Adeptos, enfim, podem devolver à vida os mortos, realizando o milagre de tornar a ligar o corpo astral ao corpo físico, ou o cadáver do assim ressuscitado, à maneira dos célebres clientes de além-túmulo do médico-deus Esculápio, que voltaram a viver às centenas e milhares,

até que, por queixa do deus Plutão, Júpiter os fulminou com um de seus raios

A

teofonia, a telestesia, a teurgia, a astrologia, a alquimia e demais ramos da Magia, irão intervir em umas e outras passagens narrativas, entre o destapar da mais temível caixa de Pandora, que põe em liberdade os demônios da epilepsia, e do histerismo, as

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personalidades múltiplas, as deslocações e transtornos sensitivos; os terrores apocalíptico do superliminar e toda a inabarcável patologia da psique, com o consequente aditamento de que, ao fechar, espantados, a caixa fatídica, permaneça, no interior, o último dos males, quiçá: a esperança de achar uma explicação verdadeira para tamanho problema e um remédio para patologias tão absurdas quão demoníacas. Porque, entre as narrações da Mestra e os contos macabros de tantos outros autores, medeia uma diferença essencialíssima: estes foram sonhados em seus delírios de inspiração ou de neurose de que acaso foram vítimas, enquanto aquela, embora pareça à primeira vista o contrário, glosou seus argumentos com pleno domínio de si própria e com um fim perfeito e conscientemente ocultista. Quer dizer que, enquanto os contos, por exemplo, de Poe, contos escritos sob o influxo do álcool, são contos que parecem ditados por alguém do astral, esse vedado mundo que Poe havia aberto com a gazua da bebida, os de Helena Petrovna não são senão pequenas fábulas chistosas, sob cujo véu encobriu, para que achassem, depois, os espíritos seletos, os ensinamentos mais fundamentais do Ocultismo com respeito à Lei do Karma, ou de causa e efeito; da reencarnação, que é postulado lógico da justiça divina; da dos elementais, ou criaturas invisíveis, que reinam soberanos no mundo emocional, como os micro-organismos pululam, por legiões, nos caldos de cultura; a lei, enfim, da latente divindade da alma humana, ainda no inferno de seus maiores extravios; a da imaginação criadora, que é a desgraçada chave da magia, a da vida humana, em suma, ao longo de sua peregrinação terrestre, que não é senão o panorama da eterna luta, entre os gloriosos destinos do homem, em busca do Ideal, forçando o passo, como os heróis de todas as lendas, com a retidão energética de seu coração nobilíssimo e a espada irresistível do conhecimento, por entre a canalha diabólica, elementar e invisível, que o combate sem trégua, para fazê-lo sossobrar em seu caminho, razão pela qual se diz, na Bíblia, que é milícia a vida do homem sobre a Terra, e foi acrescentando, consoladoramente, por Maeterlink: "É bom recordar aos homens que o mais humilde dentre eles tem bastante poder, a modo e teor do modelo divino que traça em sua imaginação, para constituir-se numa elevada personalidade moral, integrada por partes iguais do Ideal que sustenta e de sua própria individualidade que, deste modo eleva a estágios inconcebíveis". Como se tivesse a Mestra tido presente, com efeito, esta frase de Magendie - "A inteligência humana, por uma estranha lei, parece precisar exercitar-se longo tempo no erro antes que ouse acercar-se da verdade" - teima em seguir, em todos os seus contos, as pegadas dos necromantes medievais - aqueles das missas negras; os mitos bruxos com crianças assassinadas, e as efusões sacrificiais de sangue de animais e de homens - para levar-nos, com a sedução insensível da fábula, que é a Verdade com a roupagem da Mentira, até as mais imponentes verdades do Ocultismo, em cuja altura, bem de pronto, recebem-se novas luzes para o Direito Penal, para a Ciência Médica, para a Sociologia, para as Religiões e para as doutrinas do magnetismo, mesmerismo, hipnotismo, cabala, etc., amoldado ao tão lógico aforismo de Herbert Spencer, que diz: "Quando se lança uma hipótese fecunda sobre um grande acúmulo de feitos

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desordenados, esse caso antigo começa, bem logo, a evoluir em uma ordem nova e admirável que nos eleva na senda do conhecimento e da virtude". Tal como das trevas cimerianas e patológicas, por exemplo, de Edgar Poe, surge nestas narrações blavatskianas uma nova luz no caos dos feitos ocultos que todos conhecemos desde o berço, onde nossas mães, nas noites horríveis de inverno, ao

calor da lareira, ou encolhidas entre os cobertores da cama, faziam-nos tremer de

emoção astral, quando nos contavam "Era uma vez um rei"

poeta hindu Rabindranath Tagore, traduzido em castelhano por Jimenez. Em um maravilhoso artigo que teve a bondade de dedicar-nos outro Edgar Poe, não alcoólatra, que se chama Emílio Carrere, este grande escritor nos dizia, falando daquele tão inquietante homem:

"Este taumaturgo literário cativou-me o espírito. O prólogo de Baudelaire, da tradução francesa de "Estórias Extraordinárias", é um profundo estudo crítico e um emocionante acervo de anedotas. Dá-nos, de corpo inteiro, o Poe passional, trabalhador, analítico, matemático e até o tenebroso bêbado que faz "SS" pelas ruas de Nova York, na mesma manhã em que "O Corvo" era publicado triunfalmente. Oh! aquela trágica embriaguez que abre a porta de seu cérebro excepcional à visita do Delirium Tremens! Sem embargo, Baudelaire omite um aspecto muito interessante de Edgar Poe - o sopro de além-túmulo que gela as páginas mais profundas e singulares deste artista do horror. "As Memórias de Augusto Beldoe", "Revelação Magnética", "Morella", Ligéia" e "A Verdade sobre o caso de Waldemar", atestam que Poe era um iniciado em ocultismo. "As Memórias", de Augusto Beldoe, são a alucinante história de um hipnotizado. Na época de Poe, a ciência oficial rechaçava as práticas hipnóticas, considerando-as patranhas próprias do vulgo. Mesmer havia sido anatematizado pela ordoxia científica. O povo não compreendia bem as causas, mas se surpreendia ante os efeitos. Como artes milagreiras, Poe, naturalmente, despreza todas as superstições e se apodera do segredo do mesmerismo. E, como além de homem de ciência, era poeta, a intuição estética o guia. Fala do magnetismo, com a profundidade que poderia fazê-lo um bom médico moderno. Poe antecipou-se oitenta anos no estudo racional e científico deste sutil aspecto semipatológico e semi maravilhoso. Há motivos para crer que o próprio Edgar foi um magnetizador estudioso. Quando escrevia seus contos de arrepiar, ainda não se havia falado de espiritismo, na Europa; em "Metzengerstein" e em "Guilherme Wilson", apresenta- se um caso de metempsicose e de dupla personalidade. Para o leitor vulgar, Poe é uma imaginação, unicamente. Sem embargo, o caso de "Ligéia" não se inventa, nem o de "Morellas", tão pouco, sem possuir, além da imaginação, uma completa identificação com o extraterreno, juntamente com uma profunda e difícil cultura ocultista. Claro que é preciso gênio para compor a audaz hipótese d "A Verdade sobre o caso de Waldemar", o conto mais belamente horrível e o mais original de todas as literaturas.

e que imortalizou o

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Poe devia ser médium; confessava que ouvia "vozes do Céu, da Terra e também do inferno". Baudelaire afirma que, para o poeta americano, o álcool era uma ponte entre o plano físico e a zona alucinante do astral, esse "fundo esverdeado", onde se "sente a fosforescência da pesca e o odor da tempestade" e que repetida num acesso de embriaguez, a narração recomeçava noutra tormenta de álcool, com seres absurdos e incompreensíveis que habitam aquele ambiente de pesadelo. Em "Revelação Magnética", a voz do indivíduo adormecido não é uma voz humana. Pelos lábios do homem, que desperta do torpor hipnótico para morrer, fala o espírito do mistério. "Aquele homem disse suas últimas palavras do fundo da eterna sombra", exclama Edgar. Maravilhosa, sua voz cheia de ciência humana, ou iluminada de resplendores celestes e aguçada pela intuição que, qual lamparina misteriosa, arde no fundo, sem fundo, de nosso ser! "Ligéia", a milagrosa, é uma incorporação espiritualista de prodigioso interesse estético. "Ninguém morre completamente senão quando tenha perdido a vontade de viver". "Pelo poder dessa vontade, o homem chega a igualar-se aos anjos", Assim

diz "Ligéia", quando se desespera ante a ideia horrível e espantosa da morte

depois, no cadáver de Lady Rovena, ressurge "Ligéia" em uma tremenda, arrepiante suplantação espírita. Poe foi um sutil analista - vede "O Assassinato da Rua Morgue" e "A Carta Roubada"; um engenhoso decifrador de enigmas - lede "O Escaravelho de Ouro". Ademais teve o talento de encerrar numa lógica harmoniosa, o que poderíamos chamar de a órbita do absurdo, em "O Gato Preto" - esse tremendo gato torto e enforcado - "Coração Revelador", "O Tonel de vinho amontillado" (1) e outros muitos de seus contos singulares, únicos. (1). Espécie de vinho - N. T. "Poe veio à Terra para fazer o doloroso aprendizado do gênio, entre as almas inferiores". Realmente, se foi um gênio, foi um homem infinitamente desgraçado A Natureza dotou-o de extraordinária inteligência, como compensação de um destino cruel, implacável. A única mancha que se lhe pode imputar é a da embriaguez contumaz; mas, teria sido ele o único poeta a se embriagar? Nos demais, e, sobretudo perante nós, esse vício foi uma falta leve. Todos temos tido o decoro de não olhar com demasiada curiosidade o horror da vida alheia. Com Poe, não. Foi uma matilha hipócrita, "burguesa", cruel, a que se cevou em seu cadáver, como possuída de um ataque de vampirismo. Foi o enfastiamento da zoocracia". Até aqui, o intuitivo Carrere. Porém, o caso de Edgar Poe e de tantos outros "inspirados" ou "iluminados", é radicalmente oposto ao da prodigiosa H. P. B. Esta, se bem que eminentemente mediúnica, ou neurótica em sua primeira idade, não abriu o Santuário Iniciático com a gazua da anormalidade, da patologia ou do vício, ou do próprio martírio de seu corpo, como muitos santos cristãos, mas com a chave-mestra de um Conhecimento Transcendental ou Mágico recebido lá, nas misteriosas e inacessíveis solidões do Tibete e de Gobi, das mãos de autênticos Hierofantes dos tempos modernos e, por isso, ao voltar de semelhante expedição, qual novo Marco Polo de nossa época,

E,

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pôde, de Tiflis, escrever à sua família, dizendo: "Os últimos restos de minha debilidade psico-física - alude às faculdades mediúnicas de sua primeira idade - desapareceram por completo, graças Àqueles - seus mestres tibetanos - a quem bendirei, agradecida, o resto de meus dias". E isto se conclui, desde o primeiro momento, com a simples leitura de qualquer das presentes "Páginas". Nelas, com efeito, a autora não descreve algo de que haja sido vítima, mas algo real ou fingido, daquilo que ela mesma sabe perfeitamente, por dominá-lo às maravilhas, não como médium passiva, porém como ativa yoguina triunfadora, que já conhece um dos grandes segredos da Natureza, a saber, a contingência ou falibilidade de certas leis físicas, como a gravidade, a

impenetrabilidade da matéria, etc., que são para nós infalíveis

ponto, pois que também logramos contradizê-las, mediante essa pequena e progressiva magia a que chamamos de Ciência. Por isso, enquanto em Hoffmann, Poe, Verlaine, etc., o esboço ocultista, por assim dizer, aparece algo confuso, quiçá esfumado e débil, embora sempre encantador, nas "Páginas" da Mestra mostra-se ativo, vigoroso, vívido ou com luz própria, dado que, naqueles, o conhecimento transcendente vinha projetado de mais longe, pela via imaginativa ou da inspiração, ou pela imprudente entrada no mundo astral, mediante o vício, enquanto que, nesta, a trama da fábula responde, perfeitamente, a um claríssimo e deliberado ocultista, como o prova a mesma facilidade com que permite o comentário e o confronto com feitos históricos positivos, coisa infinitamente mais difícil de realizar com os trabalhos daqueles, sem que isto seja negar que uns e outros pertençam à mesma família de almas nobres de

, infalíveis até certo

asas partidas, teares caídos das alturas, por seu titânico e valente satanismo rebelde, mas que sabem retornar à altura perdida e ainda subir mais, conquistando, não pedindo a nenhum poder extracósmico e mendaz a revelação pasmosa do Mistério Hoffmann, Poe, Beethoven, Becquer, Leopardi, Carducci, Blavatsky e tantos outros, nas diferentes ordens de sua respectiva Arte, levaram, sim, sua redentora

rebeldia, até muito além dos umbrais do proibido

de animais encantados, como o Deus Brahma, da lenha hindu, transformado em suíno - encantados, digo, com as mentidas delícias de uma Ordem estabelecida, essa

Ordem maldita, contra o que troa, galhardo, o Sigfrid de Wagner, dizendo: "Desde

que nasci, um velho se interpõe sempre em meu caminho

efeito, de um incipiente e pobre estado de evolução em que nos empenhamos, sem embargo, em ter por definitivo! A mentalidade atual, disse Gustavo Le Bon, é uma criação artificiosa, que apenas conta um século de existência". Novalis, de sua parte, reconheceu, como os místicos de todos os tempos, que nossa alma jaz aprisionada, como os condenados ao cárcere de Platão, em sua "República", acrescentando, titânico: "Quando chegará o dia em que aquela possa mover-se livremente, e quando esse outro, gloriosíssimo, em que a Humanidade, em massa, comece a ser consciente de seu ser e de seu destino? Somente, pois, importa uma coisa, e é a de poder encontrar, algum ditoso dia, nosso EU transcendental".

" A falsa Ordem, com

o proibido, por nossa vulgaridade

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À espera, pois, de tão excelso dia, prometido por todas as religiões, as ciências, as artes e o inconsciente testemunho interno de nosso ser íntimo, justo será que procuremos antecipá-lo, buscando, como o Dr. Fausto, o ignorado, por não bastar, a nossos anelos, e conhecido; e, que, ansiosamente rebeldes contra o que nos cerca, perguntemos, teoricamente - já que não de um modo prático, pelos inauditos perigos que ele encerra - acerca desse mundo superliminar, onde a Hada-Imaginação, que é o nosso Corpo transcendente, sobressai livremente, sem entraves nem misoneísmos, e sonhemos com quem sonha; sigamos de perto as loucuras dos loucos, para melhor estudá-las em seu terrível mistério; convivamos, um momento, com todas as tristes anormalidades que são patrimônio da tão perseguida Humanidade e desçamos, enfim, como todos os Irmãos maiores desta: Osíris, Ra, Orfeu, Perseu, Hércules, Apolônio, Jesus ou Dante, aos infernos ou "lugares inferiores" deste não muito elevado mundo, para aprender, em suas dores sem medida e em sua queda sem esperança de imediata redenção, a ansiada Verdade das Idades, que é a existência de um mundo astral subjacente de todos os fenômenos físicos, porém, que obedece, por sua vez, a outro mundo superior, que é o mundo mental, ou seja, o Mundo das Ideias, em que vive o Homem Superior, constituído pela Mente.

Quem senão os super-homens, os

Homens representativos, ou Mestres, têm podido conseguir isto, de modo absoluto? Mas, por outra parte, quem em sua respectiva esfera de atividade já não dominou, pouco ou muito, a uma ínfima parte do dito mundo? O pedreiro e o acrobata, do trapézio ou andaime, venceram, galhardos, essa terrível astralidade que determina a vertigem das alturas; o mineiro venceu o negro espectro da mina ou da cripta, como o toureiro e o domador dominam a fereza animal, com uma arte difícil que, a seu modo, não pouco tem de mágica. Pasma, com efeito, considerar quão ilimitados são os poderes mágicos latentes no fundo de toda a alma humana, poderes que a educação especializada e o esforço titânico de cada homem pode chegar a tornar ostensivos e vigorosos. Por isso, se quiseres chegar à conclusão do que possa ser o super-homem real, a quem chamamos Mestre, tens que imaginá-lo possuidor de uma ciência transcendente, chamada Magia, ciência, em virtude da qual, tornam-se fatíveis e simples todos os nossos mais aparentes impossíveis. Assim, Mestres conheceram a mesma história profana, de como puderam caminhar serenos sobre as águas, como Apolônio e Jesus que gozaram o dom da ubiquidade, ou seja, a faculdade de poder estar, ao mesmo tempo, em dois lugares distintos, separados por centenas de léguas: em um, com seu corpo astral, e, em outro, com seu corpo físico, como a Igreja romana ensina e crê à cerca de muitos de seus Santos, os que tiveram, enfim, esse invejável dom de idiomas, que o Evangelho nos mostra, descendo em Pentecostes (a divina descida da Mente ou dos Cinco) sobre as cabeças dos discípulos que acabavam de ver o Mestre, ascendendo glorioso aos céus, como em carros de fogo e em relâmpagos subiram, também, esses outros mestres que se chamaram Enoch, Elias, Ben Jocai e Beethoven, porque tal é o poder sobre-humano e incompreensível de um Adepto, que medeia, entre ele e os mortais, um abismo evolutivo tão grande como o que separa, na Natureza, os quatro

Dominar o mundo astral com a mente!

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reinos: mineral, vegetal, animal e hominal. Leitores - concebemos, acaso, um mineral de quartzo ou ferro, com o tronco, folhas e raízes que são glória e triunfal ornato evolutivo da planta? Caberia, em estritas leis vegetativas, o ver um vegetal caminhando e mudando de lugar, como o faz a minhoca e a tartaruga? Seria, enfim, admissível um pobre mamífero inventando o fogo, a roda, a radiotelefonia ou a aviação? Pois outro tanto cabe dizer do abismo que separa o homem vulgar do Mestre do ocultismo, porque se a Natureza nunca se desmente em suas eternas leis evolutivas, ao não ser perfeito, nenhum dos homens que conhecemos, não obstante seu anelo de perfeição e até seu relativo aperfeiçoamento, admiravelmente alcançado em dolorosas especializações, há acima do homem um estado superliminar de perfeições jamais sonhadas, porém das quais, mais e mais, nos aproximamos, com nossas progressivas e esforçadas rebeldias (até chegarem elas a serem nossas em um remoto dia), com o curso dos cicios, como o recém-nascido que chora no berço acaba transformando-se, com os anos, em um desses gênios que são luz, senda, salvação e guia de seus irmãos menores - os homens vulgares de sua respectiva época. A ciência que nos serve para isto conseguir, de modo falso ou, pelo menos, perigosíssimo, chama-se Ciência Oculta ou Magia, porque ela é grande e é ademais, terrível arma de dois gumes que, sem preparação adequada, pode ferir e matar o próprio manipulador - a Arte Suprema de colocar nosso ser, de uma, vez para sempre, em condições de total aptidão mágica, acima deste nosso mundo, no que é soberana a dita Ciência Mágica, chama-se Ocultismo e Yoga ou seja: "a reforma interior, a divina transfiguração de nosso próprio ser pela virtude, quer dizer, pelo supremo

conhecimento do que é real e do que é meramente ilusório, ,o efetivo Gnoscete ipsum socratico, a revelação do Cristo interior, no dizer de São Paulo o descenso da Dúada de Atmâ-Buddhi sobre Manas, para a Hipóstase de nossa liberação, ensinados por orientais e pitagóricos Por isso, dizíamos antes que, iniciada Helena Petrovna numa parte, pelo menos, de tão augustos segredos, e testemunha ocular, ademais, dos mágicos feitos de Mestres que estavam a mil braças acima dela foi bem mais personagem real de algumas de suas arrepiantes narrações do que mera a inspirada novelista, como tantos outros, No prólogo e em comentários da obra "Pelas grutas e selvas do Indostão", de que a presente vem constituir um complemento, insistimos, por isso, também acerca da origem e do alcance dos fenômenos mágicos de H. P. Blavatsky - poderes acerca dos quais, todos os seus biógrafos, começando pelo nobilíssimo Olcott, dizem, depois de atestá-los com apoio nas leis da mais estrita crítica judicial ou histórica, que nenhum discípulo sério procurou; ou melhor, quantos fenômenos produziu, foram-lhe contraproducentes e, neles, a desapiedada perseguição de missionários perversos e cientistas enfatuados, achou a base para uma fácil presa de suas crueldades e sua

Quem não recorda, com efeito, a resistência que Jesus opôs às suas

curas e outros milagres e, a maior, ainda, que opôs a que se os divulgassem? Blavatsky, em seus numerosos fenômenos mágicos, agiu sempre contra o parecer de não poucos doutos orientais que, tendo análogos poderes, nunca se prestaram a realizá-los,

inveja contra ela

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considerando que o maior prodígio que se faça ante os olhos dos homens e das crianças, no momento nos pasma e acaba por causar-nos repulsa e enfado. Só uma coisa não cansa jamais, é a doçura da consciência serena, triunfadora das lutas e paixões deste mundo baixo, como os heróis da lenda triunfaram da terrível serpente da Luz Astral que ameaça sempre arrastar-nos ao abismo; os Hércules, Odins, Miguéis e Sigfrids Decididos, como estamos há anos, a comentar, na medida de nossas débeis forças, a obra inteira da Mestra Blavatsky, publicamos em 1918, "Por las grutas y selvas deI Indostán", como ensaio aos mui maiores encargos que importam no abordar também a publicação dos comentários à "Isis sem Véu" e à "Doutrina Secreta", há tempos iniciados por nós. Porém, a favorabilíssima acolhida dispensada àquela publicação, não só pelo público teosófico, como pelo literário e científico, movem-nos a, de certo modo, completá-lo com outras pequenas obras ou artigos esparsos da Mestra, os quais, não por seu pequeno tamanho e seu propósito aparentemente literário, deixam de ter um alto valor ocultista, como o leitor terá de convencer-se, no momento em que fixe seu olhar sobre eles. Ademais, os artigos em questão representam uma faceta importantíssima do caráter e da história mesmo da Mestra; primeiro, porque neles se mostra ela, digna herdeira da sua mãe, aquela insigne escritora, a quem se denominou com justiça a Georqe Sand russa, e a quem as empresas literárias (veja-se o prólogo de "Pelas grutas e selvas do Indostão") pagavam nas mesmas condições que ao grande Tourgeníeff; segundo porque os ditos artigos teosóficos mostram, em não poucos trechos sua filiação espírita, ou melhor dizendo, seu caráter de transição entre esta última doutrina filosófica e o conceito genuinamente teosófico com que a autora produziu e interpretou sempre os fenômenos do Espiritismo como mais pormenorizadamente pode ver-se, não só em "Ísis sem Véu", como na insubstituível obra do Coronel Olcott - "História autêntica da Sociedade Teosófica"; terceiro, porque, como sucede sempre, alguns dos artigos constituem o gérmen de não poucas passagens magníficas das obras posteriores da Mestra, tantas vezes citadas quando não, acontecimentos reais desta romanceados ou atribuídos a outrem, como é tão frequente em todos os escritores, cuja literatura, aparentemente imaginada não é, em mais de uma ocasião, senão a glosa de emocionantes passagens de suas próprias vidas. Assim, "A Gruta dos Ecos", não é mais do que a história de um acontecimento real que a Mestra conhecia por si ou pelas suas aristocráticas relações de família e a ideia da Magia tântrica e seus derramamentos de sangue, tão comum em toda a Sibéria, para não dizer no mundo, palpita, macabra, no terrorífico argumento; o de "Um Matusalém Ártico" não é mais do que um gracioso pretexto para falar dos "Protetores Invisíveis" ou Lohengrins, que nos salvam mais de uma vez nos transes mais difíceis de nossa vida; protetores que do mesmo modo podem atuar, como o velho João do conto, nos desertos polares, ou nos salões dourados, como o estranho Conde de Saint Germain, do qual também nos ocupamos, recordando outras proteções, não menos reais, como as ensejadas pela própria Mestra em "A Mão Misteriosa". Estes feitos de Magia, mais comuns no mundo do que à primeira vista se pudera crer, têm também

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seus graus inferiores em façanhas, como as de "Um Gossain Hindu"; nas de "O Campo Luminoso" e "Assassinato à Distância"; nas tão conhecidas dos faquires, sem contar, ainda, as compreendidas na "Demonologia e Magia Eclesiástica", passagem que, com outras duas ou três, temos, para completar, tomado de "Ísis sem Véu", pedreira inesgotável de todas estas coisas, que nunca será explorada como merece, e da qual, pode-se dizer que dela foram lavradas todas as obras teosóficas posteriores. Vêm, enfim, entre estas "Narrações Ocultistas", essas duas memoráveis novelazinhas à moda de Poe e Hoffmann, que levam, respectivamente, por título "Uma Vida Encantada" e "A Alma de um Violino", onde a Magia reina soberana, já para realizar, necromante, neste, o crime inspirado pela doentia paixão de um artista louco, já para operar, salvadora, naquela, o prodígio de fazer viajar o duplo-etérico de um infeliz materialista, do Japão a Hamburgo, através da crosta terrestre, nem mais nem menos, como nas iniciações clássicas, em que o duplo-etérico do candidato era separado e projetado à distância de seu corpo físico, enquanto este jazia como morto, ora em câmara sepulcral da pirâmide egípcia, ora nas entranhas da cripta iniciática, templo pós-atlante, que, com suas "pinturas rupestres, a moderna paleontologia começa a descobrir". (2) (2). Veja-se nosso estudo "Un nuevo triunfo de H. P. Blavatsky"; a obra do Catedrático D. Eduardo Fernandez-Pacheco à cerca de: "Las pinturas rupestres de la Cueva de Candamo (Astúrias)". a aparecer na revista barcelonesa "EL LOTO BLANCO". A obra de Fernandez-Pacheco é publicada sob os auspícios e a custa da Junta Espanhola para Ampliação de estudos e investigações científicas e nos mostra esplêndidas reproduções das pinturas que em tal gruta, como em tantas outras da Espanha e do mundo, são vivo testemunho, dizemos nós, de iniciações operadas no tenebroso seio desses hipogeus, primitivos templos da época pés-atlante, nos quais a necromancia e o sacrifício humano ou animal desempenhou, por vezes, seu papel. Estes dois verdadeiros modelos de novela ocultista nada têm que invejar de Bulwer Litton "Os últimos dias de Pompeia", Rienzi, Zanoni e tantas outras. As mil apaixonantes questões filosóficas e práticas assim propostas como por descuido, sob estas múltiplas epígrafes, caem em cheio no domínio da História, quando não no da Ciência mais positiva. Com efeito, é indiferente, por acaso, para o Direito Penal, o debatido problema chamado "dos elementais" que figuram em tantas passagens destas obras? Não chegariam a dever transformar-se em médicos de C0rpos e almas, à maneira dos velhos hierofantes egípcios, nossos atuais carcereiros? Não chegaria, enfim, a figurar sempre o pecado, quer dizer, o delito de pensamento, como elemento primordial e essencialíssimo na complexa etiologia do crime? Semelhante hipótese, digna de figurar à frente de tantas outras das diversas escolas penais, lança vívido raio de luz em nossa atual inópia jurídica. É, de outra parte, um assunto vão e tão admiravelmente tratado em "A Ressurreição dos Mortos", ou no tremendo "Os espíritos vampiros", para que os deixemos passar assim, levianamente, com nossa frivolidade costumeira, quando de um depende toda a milagreira antiga e moderna, e, de outro, esses problemas das

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consunções mais inexplicáveis da juventude, que arrebatam mais vidas que a própria guerra? É tolerável sequer, assim mesmo, o ambíguo e errôneo conceito que formamos à cerca da imaginação-fantasia, quando dela depende nosso inteiro viver, desde o dia em que, por imaginação ou enlevo de nossos pais, e não por "rigoroso cálculo matemático", vimo-nos atraídos, sem querer, a este mundo desprezível e, por imaginação ou paixão, por simpatias mais ou menos fantásticas, que não "por rigoroso cálculo matemático", também, ou "por cerrada argumentação escolástico-silogística ", movemo-nos continuamente? Não vamos pretender, todavia, num mundo tão ignorante e egoísta, fazer passar por fatos demonstrados, não poucas de nossas asserções ocultistas, embora dela tenhamos a segurança íntima de quem as tenha estudado, meditado e até experimentado. Homens de ciência somos, pelo que dizem nossos vários títulos oficiais e acadêmicos e, como tais, exercemos a mais perfeita de nossa soberania intelectual e moral, expondo, honradamente, ao público imparcial nosso sentir científico, embora, como aquele gladiador romano, com tanta oportunidade citado ao final da introdução de "Ísis sem Véu" - tenhamos que dizer, prevendo nossa derrota:

Quer dizer, tenhamos que saudar hoje como a

Césares em religião e Ciência, a dois colossos de ouro que, como o Nabucodonosor da História, ou como o Hindenburgo de madeira do Jardim Zoológico de Berlim, tenham

apoiado seus míseros pés de barro, numa terra sempre deslizante.

"Ave César, moriturus te salutat"

MÁRIO ROSO DE LUNA

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A GRUTA DOS ECOS

Uma história estranha, porém verdadeira (1)

(1). Esta estória foi tirada do relato de uma testemunha presencial, um senhor russo mui piedoso e digno de crédito. Além disso, os fatos foram

copiados do registro da Polícia de P

por suposição, parte à intervenção divina e parte ao diabo. H.P.B.

O testemunho, em questão, atribui-se,

Em uma das províncias mais distantes do Império Russo, numa pequena cidade da fronteira da Sibéria, ocorreu há trinta anos uma tragédia misteriosa.

, célebre pela beleza selvagem de suas

campinas e pela riqueza de seus habitantes, em geral proprietários de minas e fundições de ferro, existia uma mansão aristocrática. A família que a habitava compunha-se do dono, solteirão velho e rico e de seu irmão, viúvo, com dois filhos e três filhas. Sabia-se que o proprietário, Senhor Izvertzoff havia adotado os filhos de seu irmão, e, tendo um carinho especial pelo sobrinho mais velho, chamado Nicolau, instituiu-o único herdeiro de seu latifúndio. Passou-se o tempo. O tio envelhecia e o sobrinho acercava-se da maioridade. Os dias e os anos haviam transcorrido numa serenidade monótona, quando, no até então claro horizonte familiar, formou-se uma nuvem. Num malfadado dia, ocorreu a uma

das sobrinhas aprender a tocar cítara. Como o instrumento é de origem puramente teuta, e como não se podia encontrar um professor pelos arredores, o tio complacente mandou procurar um e outro em São Petesburgo. Depois de uma investigação minuciosa, apenas pôde-se encontrar um professor que não achou inconveniência em aventurar-se a ir para tão perto da Sibéria. Era um artista alemão, idoso, que, compartilhando seu carinho entre o instrumento e sua filha, ruiva e bonita, não queria separar-se de nenhum dos dois.

À cerca de seis verstás da cidade de P

E, assim, sucedeu que numa linda manhã chegou o professor à mansão, com a

sua caixa de música sob o braço e a linda Minchen apoiando-se ao outro. Desde aquele dia, a pequena nuvem começou a crescer rapidamente, pois cada

vibração do melodioso instrumento encontrava eco no coração do velho solteirão.

e a obra iniciada pela cítara foi completada

pelos formosos olhos azuis de Minchen. Ao cabo de seis meses, a sobrinha se havia tornado uma hábil tocadora de cítara e o tio estava loucamente enamorado.

Certa manhã, reuniu a sua família adotiva, abraçou a todos mui carinhosamente, prometeu lembrá-los em seu testamento e, por último, desabafou-se, declarando sua resolução inquebrantável de casar-se com a Minchen de olhos azuis. Depois se lhes atirou ao pescoço e chorou em silencioso arroubo.

A família, compreendendo que a herança se lhes escapava, chorou também,

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Dizem que a música desperta o amor

embora por motivo diverso. Depois de terem chorado, consolaram-se e trataram de alegrar-se, pois o ancião era amado sinceramente por todos. Entretanto, nem todos se alegraram. Nicolau, que também se sentira ferido no coração pela linda alemã e que, de um golpe, via-se privado dela e do dinheiro de seu tio, não se consolou, nem se alegrou, tendo até desaparecido o dia todo. Entretanto, o senhor Izvertzoff havia ordenado que lhe preparassem seu coche de viagem, para o dia seguinte, sussurrando-se que ia à capital do distrito, um tanto distante de sua casa, com a intenção de alterar o testamento. Se bem que muito rico, não tinha nenhum administrador de suas propriedades, sendo ele próprio o portador de seus livros de contabilidade. Àquela mesma tarde, após o jantar, ouviram-no, em seu aposento, repreender

acremente um criado que, há mais de trinta anos, estava a seu serviço. Esse homem, chamado Ivã, era natural da Ásia do Norte, de Kantchatka; havia sido educado pela família na religião cristã, e, achavam-no muito dedicado a seu amo. Alguns dias após, quando a primeira das trágicas circunstâncias que vou descrever havia trazido àquele lugar todo o contingente policial, recordou-se que Ivã estava embriagado naquela noite; que seu amo, que tinha horror a esse vício, o havia espancado de modo paternal, expulsando-o de casa e até foi visto, cambaleando porta afora, proferir ameaças. No vasto domínio do Senhor Izvertzoff havia uma estranha caverna que excitava

a curiosidade de todos os que a visitavam. Ainda hoje existe e é muito conhecida dos

Um bosque de pinheiros começa a curta distância da porta do

jardim e sobe em escarpadas ladeiras, ao largo de cerros rochosos, aos quais cinge

com amplo cinturão de vegetação impenetrável. A galeria que conduz ao interior da caverna, conhecida por Gruta dos Ecos, está situada a meia milha da mansão, vista da qual parece uma pequena escavação na encosta, oculta pelo cerrado, embora não tão completamente que impedisse de ver-se, do terraço da casa, quem nela quisesse penetrar. Ao penetrar na gruta, o explorador vê no fundo uma estreita abertura, transporta a qual, encontra-se numa caverna muito alta, debilmente iluminada por fendas no teto abobadado, a cinquenta pés de altura. A caverna é imensa e poderia conter folgadamente de duas a três mil pessoas. No tempo do Sr. Izvertzoff, uma parte dela estava pavimentada e, no verão, usava-se amiúde como salão de baile nos convescotes campestres. É de formato oval irregular e vai-se estreitando gradualmente, até converter-se em um amplo corredor que se estende por várias milhas, alargando-se de quando em quando, e formando outros recintos tão grandes

e altos como o primeiro, porém com a diferença de que não podem ser transpostos

senão em botes, por estarem sempre cheios d'água. Esses receptáculos naturais têm

a fama de serem insondáveis. À margem do primeiro destes canais, existe uma pequena plataforma com alguns assentos rústicos, cobertos de musgo, convenientemente colocados, e é nesse sítio que se ouve em toda a sua intensidade o fenômeno dos ecos que dão nome à gruta. Uma palavra sussurrada, e até um suspiro, é recolhido por infinidade de vozes

habitantes de P

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sarcásticas, e, em lugar de diminuir de volume, como o fazem os ecos que se "prezam", o som se faz cada vez mais intenso a cada repetição sucessiva até que explode como a repercussão de um tiro de pistola e retrocede em forma de gemido lastimoso, ao longo do corredor. No dia em questão, o Sr. Izvertzoff havia anunciado sua intenção de dar um baile nessa gruta, para celebrar suas bodas que havia fixado para uma data próxima. No dia imediato, pela manhã, enquanto fazia seus preparativos para a viagem, sua família o viu entrar na gruta acompanhado somente pelo criado siberiano. Meia hora depois, Ivã regressou à mansão, à procura de uma tabaqueíra que seu amo havia esquecido, e com ela voltou à gruta. Uma hora mais tarde a casa inteira entrou em comoção com os seus grandes gritos. Pálido e escorrendo água, Ivã se precipitou, casa adentro, como um louco, declarando que o Sr. Izvertzoff havia desaparecido, pois não era possível encontrá-lo em parte alguma da caverna. Crendo que ele poderia ter caído no lago, o empregado havia mergulhado no primeiro receptáculo, à sua procura, com perigo iminente da própria vida. O dia se passou sem que dessem resultado as buscas em torno do ancião. A Polícia invadiu a casa, e o mais desesperado parecia ser Nicolau, o sobrinho, que ao chegar se tinha deparado com a triste notícia. Uma negra suspeita recaiu sobre Ivã, o siberiano. Havia sido castigado por seu amo na noite anterior e tinham-no ouvido jurar que tomaria vingança. Só ele o havia acompanhado à caverna e, quando revistaram seu aposento, encontraram, debaixo da cama, uma caixa cheia de riquíssimas joias de família. Foi em vão que o empregado tomou Deus por testemunho, dizendo que a caixa fora-lhe confiada por seu amo, precisamente antes de se dirigirem à caverna; que a intenção do patrão era de mandar remontar as joias que destinava à noiva como presente, e que ele Ivã, daria de bom gosto sua vida, para devolvê-la ao dono, caso este estivesse morto. Não se lhe deu nenhuma atenção, entretanto, e foi preso, posto no cárcere, sob a acusação de assassinato. Ali ficou encerrado, pois, segundo a legislação russa, pelo menos naquela época, não podia ser condenado à morte criminoso algum que, por mais demonstrado que estivesse seu delito, não se tivesse confessado culpado. Depois de uma semana de investigações inúteis, a família se vestiu de rigoroso luto e, como o testamento primitivo não havia sido modificado, toda a propriedade passou às mãos do sobrinho. O velho professor e sua filha suportaram esse repentino revés da fortuna com fleuma verdadeiramente germânica e se prepararam para partir. O ancião apanhou sua cítara debaixo do braço e se dispôs a partir com Minchen, quando o sobrinho o deteve, oferecendo-se, em lugar do tio, como esposo da linda donzela. Acharam a troca muito agradável e, sem causar grande alarde, casaram-se os dois jovens. Transcorreram dez anos e vamos nos encontrar, novamente, com a feliz família, em princípios de 1859. A linda Minchen tornara-se gorda e vulgar. Desde o dia do desaparecimento do velho tio, Nicolau se havia tornado áspero e retraído em seus costumes, causando

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admiração a muitos tal mudança, pois nunca fora visto sorrir. Parecia que o único objetivo de sua vida era encontrar o assassino de seu tio, ou melhor, fazer com que Ivã confessasse o crime. Porém esse homem persistia, todavia, em afirmar que era inocente.

O jovem casal só havia tido um filho que, por sinal, era um menino esquisito.

Pequeno, delicado e sempre enfermo, parecia que sua frágil vida estava por um fio. Quando suas feições estavam em repouso, era de tal modo parecido com o tio, que

as pessoas da família, amiúde, afastavam-se com terror. Tinha o rosto pálido e enrugado de um velho de sessenta anos, sobre os ombros de um menino de nove.

Nunca foi visto rindo ou brincando. Encarapitado em sua cadeira alta, permanecia sentado gravemente, cruzando os braços de maneira peculiar ao falecido Izvertzoff, e, assim, passava horas e horas imóvel e adormecido. Viam-se suas amas, frequentemente, persignar-se furtivamente ao acercar-se dele durante a noite, e nenhuma delas havia concordado em dormir sozinha com ele em seu quarto. A conduta do pai para com o filho era ainda mais estranha. Parecia amá-lo apaixonadamente e, ao mesmo tempo, odiá-lo em extremo. Mui raramente beijava-o ou acariciava-o, embora com semblante lívido e olhos espantados, passasse longas horas olhando-o, enquanto o menino estava sentado tranquilamente em seu canto, com suas maneiras de velho, próprias de um duende. O menino nunca tinha deixado a fazenda e poucos da família sabiam de sua existência. Em meados de julho, um viajante húngaro, de elevada estatura, precedido de uma grande reputação de excentricidade, fortuna e poderes misteriosos, chegou à cidade de P , procedente do Norte, onde havia residido muitos anos. Estabeleceu-se na pequena cidade, em companhia de um "shamano" ou mago da Sibéria do Sul, com quem, dizia-se, praticava experiências de magnetismo. Dava jantares, almoços e reuniões, exibindo, invariavelmente, para diversão de seus hóspedes, o "shamano", de quem se achava muito orgulhoso.

invadiram, repentinamente, os domínios de

Nicolau Izvertzoff, solicitando que lhes emprestasse sua gruta para fazerem uma noitada.

Nicolau consentiu, com grande relutância e, somente depois de uma vacilação ainda maior, deixou-se persuadir a acompanhar o grupo.

A primeira caverna e a plataforma ao lado do insondável lago estavam refulgentes de

luz. Centenas de velas e tochas de vacilantes chamas, colocadas nas fendas das rochas, iluminavam o local e afugentavam as sombras dos cantos e locais onde tinham estado escondidas, sem ser molestadas, durante muitos anos. As estalactites das paredes despendiam chispas brilhantes e os adormecidos ecos foram, repentinamente, despertados pela alegre confusão de risos e conversas. O "shamano", a quem seu amigo e patrão não havia perdido de vista um momento, estava sentado a um canto e, como de costume, hipnotizado, encarapitado numa rocha saliente, a meio caminho, entre a entrada e as águas. Com seu rosto de cor amarelo-limão, cheio de rugas, seu nariz chato e barba rala, parecia mais um horrível ídolo de pedra que um ser humano. Muitos do grupo apertavam-se ao seu redor, recebendo acertadas respostas às perguntas que lhe eram dirigidas, pois o húngaro submetia, de bom grado, seu "súdito" magnetizado, aos interrogatórios.

Um dia, as pessoas importantes de P

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De repente, uma senhora fez a observação de que naquela mesma caverna havia desaparecido o Sr. Izvertzoff, há dez anos. O estrangeiro pareceu interessar-se pelo caso, mostrando desejo de saber o que acontecera. Em consequência, procuraram Nicolau entre a multidão e o conduziram diante do grupo de curiosos. Ele era o hóspede e foi-lhe impossível negar-se a fazer a desejada narração. Repetiu, pois, o triste relato com voz trêmula, semblante pálido, vendo-se brilhar lágrimas em seus olhos febris. Os assistentes sentiram-se muito afetados, murmurando grandes elogios sobre a conduta daquele sobrinho amoroso, que tão bem honrava a memória de seu tio e benfeitor. Quando, subitamente, a voz de Nicolau afogou-se na garganta, seus olhos pareciam sair das órbitas e, com um gemido rouco, retrocedeu cambaleando. Todos os olhos seguiram com curiosidade seu olhar aterrado que se fixou e permaneceu cravado sobre uma diminuta cara de bruxa que assomava por trás do húngaro.

- De onde vens? Quem te trouxe aqui, menino? balbuciou Nicolau, pálido como a

morte.

- Eu estava deitado, papai; este homem veio até mim e me trouxe aqui em seus braços

- respondeu com naturalidade o rapazinho, indicando o "shamano", ao lado de quem se

achava na rocha e, o qual, continuava com os olhos cerrados, movendo-se, de um lado para outro, como um pêndulo vivo.

- Isto é muito estranho - observou um dos hóspedes - pois, este homem não se moveu de seu lugar.

- Oh! Deus! Que parecença tão extraordinária! murmurou um antigo vizinho da

cidade, amigo da pessoa desaparecida.

- Mentes, menino! exclamou ferozmente o pai. Vai para a cama, isto não é lugar para ti.

- Vamos, vamos - disse o húngaro, interpondo-se com uma expressão estranha

no rosto, rodeando com seus braços a delicada figura do menino. Este viu o duplo do

meu "shamano" que amiúde vaga e grandes distâncias de seu corpo, e tomou o fantasma pelo próprio homem. Deixe-o permanecer um pouco conosco.

A estas estranhas palavras, os assistentes entreolharam-se com muda surpresa,

enquanto alguns fizeram, piedosamente, o Sinal da Cruz, presumindo, indubitavelmente, que se tratava do diabo e de suas obras.

-- E, por outro lado - prosseguiu o húngaro com um acento de firmeza peculiar -

por que não haveríamos de tratar, com o auxílio do meu "shamano", de descobrir o

mistério que encerra esta tragédia? Está, todavia, no cárcere a pessoa de quem se suspeita. Como, entretanto, ainda não confessou seu delito? Isto é, seguramente, muito estranho; porém, vamos saber a verdade dentro de alguns minutos. Que todo o mundo guarde silêncio! Aproximou-se, então, do "tehuktchene" e, imediatamente, deu início a suas manipulações, sem sequer pedir permissão ao dono do recinto. Este último permanecia em seu lugar como que petrificado de horror e sem poder articular palavra. A ideia encontrou aprovação geral, à exceção dele, tendo, em especial aprovado a sugestão, o inspetor de Polícia, coronel S

- Senhoras e cavalheiros! disse o magnetizador com voz suave. Permiti-me que,

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nesta ocasião, proceda de maneira diferente da que geralmente costumo adotar. Vou empregar o método da magia nativa. Como verão, é o mais apropriado a este lugar agreste, e de muito mais efeito que nosso método europeu de magnetização. Sem esperar contestação, tirou de um saco que trazia sempre consigo, primeiramente, um pequeno tambor e depois dois recipientes pequenos, um cheio de um líquido e outro vazio. Com o conteúdo do primeiro, aspergiu o "shamano", o qual começou a tremer e a balançar-se mais violentamente que nunca. O ar encheu se de um perfume de especiarias e a própria atmosfera pareceu fazer-se mais clara. Logo, com horror dos presentes, acercou-se do tibetano e, tirando de um bolsinho um punhal em miniatura, enfiou-lhe a afiada folha no antebraço, tirando sangue que recolheu no recipiente vazio. Quando ficou cheio pela metade, apertou o orifício da ferida com o dedo polegar e deteve a saída do sangue, com a mesma facilidade com que se tivesse posto uma rolha numa garrafa, depois do que aspergiu o sangue sobre a cabeça do menino. Em seguida, pendurou o tambor ao pescoço e com duas baquetas de marfim cobertas de signos e letras mágicas, começou a tocar uma espécie de rufo para atrair os espíritos, segundo dizia. Os circunstantes, meio surpresos, meio aterrorizados por esse procedimento extraordinário, juntavam-se, ansiosamente, ao seu redor e, durante alguns momentos reinou um silêncio de morte em toda a imensa caverna. Nicolau, o semblante lívido como o de um cadáver, permanecia sem articular palavra. O magnetizador se havia colocado entre o "shamano" e a plataforma, quando principiou a tocar lentamente o tambor. As primeiras notas eram como que surdas e vibravam tão suavemente no ar, que não despertaram eco algum; porém, o "shamano" apressou seus movimentos de vai-vem e o menino mostrou-se intranquilo. Nesse momento, quem tocava o tambor iniciou um canto lento, baixo, solene e impressionante. À medida que aquelas palavras desconhecidas saíam de seus lábios, as chamas das velas e das tochas ondulavam e flutuavam, até que principiaram a bailar ao compasso do canto. Um vento frio veio silvando dos corredores, de além das águas, deixando atrás de si um eco lamentoso. Logo uma espécie de neblina, que parecia brotar do solo e paredes rochosas, condensou-se em torno do "shamano" e do rapazola. Ao redor deste último, a aura era prateado e transparente, porém a nuvem que envolvia o primeiro era vermelha e sinistra. Aproximando-se mais da plataforma, o mago deu um redobre mais forte no tambor; redobre que dessa vez foi recolhido pelo eco, com um efeito terrificante. Retumbava perto e longe, com estrondo incessante; um clamor mais e mais ruidoso sucedia a outro, até que o estrépito formidável pareceu o coro de mil vozes de demônios que se elevavam das insondáveis profundezas do lago. A própria água, cuja superfície iluminada pelas muitas luzes, tinha estado até aí tão calma como um cristal, tornou-se repentinamente agitada, como se uma poderosa lufada de vento houvesse percorrido sua superfície imóvel. Outro canto, outra rufada do tambor, e a montanha inteira estremeceu até a base, com estrondos que pareciam formidáveis canhonaços disparados nos

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intermináveis e escuros corredores. O corpo do "shamano" alçou-se duas jardas no ar e, movendo a cabeça de um lado para outro e balançando-se, apareceu sentado e suspenso como uma aparição. Porém, a transformação que se operou, então, no rapazinho gelou de terror a quantos presenciavam a cena. A nuvem prateada que rodeava o menino pareceu que, também, se alçava no ar; mas ao contrário do "shamano", seus pés não abandonaram o solo. O rapazinho começou a crescer, como se a obra dos anos se verificasse milagrosamente em alguns segundos. Tornou-se alto e adulto e suas feições senis fizeram-se cada vez mais velhas, ao mesmo tempo que seu corpo. Alguns segundos mais e o aspecto juvenil desapareceu completamente, absorvido, na sua totalidade, por outra individualidade diferente e, para horror dos circunstantes, que conheciam sua aparência, essa individualidade era a do velho

Senhor Izvertzoff que tinha na fonte uma grande ferida aberta, da qual caíam grossas gotas de sangue.

O fantasma moveu-se na direção de Nicolau, até que se pôs bem em frente dele,

enquanto que este, com o cabelo eriçado e olhos de louco, olhava seu próprio filho transformado, inesperadamente, em seu tio.

O silêncio sepulcral foi interrompido pelo húngaro que, dirigindo-se ao menino-

fantasma, perguntou-lhe solenemente:

- Em nome do Grão-Mestre, d' Aquele que tudo pode, responde-nos a verdade e

nada mais que a verdade. Espírito intranquilo, tu te perdeste por acidente ou foste covardemente assassinado? Os lábios do espectro moveram-se, porém foi o eco que respondeu em seu lugar, dizendo com lúgubres ressonâncias:

- Assassinado! Assassinado! As-sas-si-na-do!

- Onde? Como? Por quem? - perguntou o conjurador.

A aparição apontou com o dedo para Nicolau e sem desviar o olhar, nem baixar o

braço, retirou-se, andando lentamente de costas até o lago. A cada passo que dava o fantasma, o jovem Izvertzoff, como que obrigado por uma fascinação irresistível,

avançava um passo em sua direção, até que o espectro chegou ao lago e deslizou, em seguida, pela superfície do mesmo. Era uma cena de fantasmagoria verdadeiramente horrível. Quando chegou a dois passos da borda do abismo d'água, uma violenta convulsão agitou o corpo do culpado. Arrojando-se de joelhos, agarrou-se desesperadamente a um dos assentos rústicos e, dilatando os olhos de maneira selvagem, deu um grande e penetrante grito de agonia. O fantasma, então, permaneceu imóvel sobre a água e, dobrando lentamente seu dedo estendido, mandou que se aproximasse. Agachado, presa de um terror objeto, o miserável gritava até que a caverna ressoou, uma e outra vez

, não; eu não o assassinei! Ouviu-se, então, uma queda; era o

rapazinho que apareceu sobre as escuras águas, lutando por sua vida, no meio do

lago, vendo-se a imóvel e terrível aparição inclinada sobre ele.

estou me afogando! exclamou uma débil voz

- Não

fui eu

- Papai,

papai,

salva-me

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lastimosa, em meio ao ruído dos ecos sarcásticos. - Meu filho! gritou Nicolau com a entonação de um louco, pondo-se em pé de

um salto. Meu filho! Salvai-o! Oh! Salvai-o!

eu quem o matou! Outra queda n'água e o fantasma desapareceu. Com um grito de horror, os circunstantes precipitaram-se até a plataforma; porém, seus pés cravaram-se, repentinamente, no solo ao ver, em meio aos redemoinhos, uma massa esbranquiçada e informe, enlaçando o assassino e o menino em um estreito abraço, fundindo-se no lago insondável.

Eu sou o assassino! Fui

Sim, confesso!

Na manhã seguinte, quando, depois de uma noite de insônia, alguns do grupo visitaram a residência do húngaro, encontraram-na fechada e deserta. Ele e o "shamano" haviam desaparecido.

que todavia recordam o caso. O Inspetor de

Polícia, Coronel S, morreu alguns anos depois, na inteira certeza de que o nobre

viajante era o diabo. A consternação geral cresceu mais ao se converter em chamas a mansão Izvertzoff, naquela mesma noite. O arcebispo executou a cerimônia de exorcismo; porém aquele lugar é considerado maldito até o tempo presente.

Muitos são os habitantes de P

Quanto ao Governo, investigou os fatos

e ordenou silêncio.

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UM MATUSALÉM ÁRTICO

Historieta de Natal

O antigo castelo de um rico proprietário da Finlândia encontrava-se repleto de gente, naquela fria noite de Natal, gente reunida ao aconchego do fogo da clássica lareira, plena das recordações da santa tradição hospitaleira de seus nobres antepassados, pela qual conservam-se ainda vivas as práticas e superstições da Idade Média, em parte russas, levadas das margens do Neva por seus últimos senhores. Não faltavam, naquela augusta noite, consagrada pelos séculos, nem a Árvore de Natal, nem os demais preparativos da festa que são de rigor ali, como em todo o pais.

O castelo estava cheio de tesouros arcaicos: os carrancudos retratos dos antepassados, em velhas e carcomidas molduras; toda a espécie de armas de cavaleiros nas panóplias e de antigos vestuários senhoris nos armários. No extenso e misterioso castelo, como em todos os edifícios de sua espécie, não faltavam, tão pouco, os antigos torreões desertos e sem portas; baluartes ameiados; janelões góticos; seus sótãos mofados, escuros e intermináveis, não visitados quiçá há dezenas de gerações e ligados com calabouços e veredas subterrâneas, onde mais de um preso havia, talvez, padecido às torturas de alguma antiga vingança, para voltar seu espectro, depois de ter morrido de angústia, a pedir justiça contra os vivos. Havia, enfim, em tal castelo-palácio o resto imponente de um passado feudal, não menos imponente que o mesmo e o mais apto, portanto, para a reprodução de toda a espécie de horrores românticos. Tranquilize-se, entretanto, leitor, que semelhante marco de antigos horrores não vai desempenha papel algum, como se podia esperar, nesta minha verídica narração. O herói principal dela é, ao contrário, um homem vulgaríssimo, a quem chamaremos Erkler, ou melhor Dr. Erkler, professor de medicina, alemão pela linha paterna e completamente russo pela educação e por sua mãe. (1) (1). Estas mesmas condições de ascendência prussiana e russa. nobres reunia, como é sabido, H.P.B., o que nos faz suspeitar de que se, sob o véu da ficção, não se oculta algum dos tantos casos sucedidos com a autora. O Dr. Erkler era um consumado viajante, por haver acompanhado em todos os seus empreendimentos, um dos mais famosos exploradores, em suas viagens ao redor do mundo. Um e outro, o médico e o explorador, haviam tido ocasião de se ver cara a cara com a morte e desafiá-la, intrépidos, ora sob a neve dos polos, ora sob o calor tórrido dos trópicos. Entre o conjunto de suas tão numerosas, como emocionantes, recordações, o médico parecia mostrar não dissimulada e entusiástica preferência para com os "seus invernos" passados na Groenlândia e na Nova Zembla, mais do que para com outros,

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por exemplo, da Austrália, onde, entre outras peripécias graves, estiveram a ponto de morrer de sede, ele e os demais, durante uma travessia de catorze horas, sem sombras nem água.

- Sim, costumava dizer o médico, em meio a suas narrações pitorescas e vivas.

Tudo, exceto isso que, em sua ignorância, as pessoas

Entretanto, acrescentou, em voz baixa e

trêmula - há em minha longa vida um acontecimento sumamente extraordinário.

Tropecei, uma vez, com um estranho homem, rodeado de circunstâncias completamente inexplicáveis, capazes de confundir ao mais cético

Todos os circunstantes sentiram, ao ouvir aquilo, a chispa da curiosidade, uma curiosidade terrorífica, bem adequada ao momento em que o vento sibilava com estrépito e a neve caía em abundância, tornando mais valioso o benefício das comodidades de quantos ouviam o médico, em torno da lareira. O sábio continuou desta maneira:

- No ano de 1878, fomos forçados a invernar na costa noroeste de Spitzberg, em

nossa exploração do fugaz verão anterior, em direção ao polo. Como de costume, o objetivo de abrirmos um caminho para o polo ártico fracassou, por causa dos "icebergs" e, após esforços vãos, tivemos que nos render à dura fatalidade. Daí a poucos dias, a terrível noite polar estendeu sobre nós seu manto cruel, e nossos navios ficaram aprisionados pelos gelos, no golfo de Mussel, (2) onde teríamos de passar ociosos e separados de todo o trato humano, durante os oito longos meses de inverno polar. (2). Curiosa coincidência onomástica com o célebre porto asturiano do mesmo nome; uma prova a mais do caráter protossemita de todo o Ocidente europeu em suas épocas pré-históricas. Senti que minha força de vontade fraquejava ante tão negra perspectiva e mais ainda em certa noite de tempestade em que torvelinhos de nevasca destruíram nossos depósitos de provisões, dentre eles catorze cervos, com cuja carne contávamos como arma contra a vida ártica que exige, como ninguém ignora, um aumento considerável na qualidade e quantidade dos alimentos, Resignamo-nos, entretanto, o mais que pudemos com nossa perda cruel e até chegamos a nos acostumar com o mais nutritivo alimento do país, que consiste em carne gordurosa de foca. Para prevenirmo-nos contra os rigores da invernia, os homens de nossa tripulação haviam construído, com os remanescentes do desastre anterior, uma casinha bastante aceitável, dividida em dois cômodos, um para mim e os outros três chefes e o segundo para eles. Esgotando-se, além disso, todas as nossas previsões metrológicas e magnéticas, acrescentamos ao edifício um terceiro corpo, ou estábulo protetor, para os poucos cervos que se haviam salvado da catástrofe. Iniciou-se, logo, a interminável série de dias e noites monótonos, que eram uma eterna noite, sem aurora nem crepúsculo. Como, além disso, havíamos traçado o plano de que dois de nossos barcos regressassem em setembro antes de que o gelo lhes cortasse a retirada, e este plano havia falhado por ter-se antecipado a estação, a tripulação era o triplo ou o quádruplo da calculada para a estação hibernal e para os

supersticiosas chamam de sobrenatural!

Experimentei de tudo

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elementos com que contávamos para afrontá-la; assim, não só tínhamos que economizar as provisões, como também o combustível e a luz. As lâmpadas só eram acesas por motivos de urgência ou científicos. Tínhamos que nos contentar, pois, apenas com a luz que a Providência nos quisesse dar naquela noite sem dia: a saber, a luz da lua e das auroras boreais ; porém, como descrever a glória daqueles incomparáveis fenômenos celestes? Como descrever as luzes e cores cambiantes de suas irradiações de variedade infinita, tão fantásticas quanto gigantescas? Quanto às noites de luar de novembro, eram simplesmente maravilhosas, com os sempre cambiantes espetáculos de seus raios, entre gelos e neve. O encanto de tais momentos não se afastará jamais de minha imaginação. Uma dessas últimas noites, ou melhor dizendo, um dia igual a este, por acaso - pois que, desde os fins de novembro até meados de fevereiro, não tivemos crepúsculo algum que nos permitisse estabelecer diferença entre a noite e o dia - conseguimos divisar entre as irisações da lua, como uma mancha escura que se movia em nossa direção, assemelhando-se mais do que a um rebanho (que por força tinha que ser branco, naquela latitude) a um grupo compacto de homens, trotando para o lugar onde nos encontrávamos, sobre a planície coberta de neve. Que seres humanos podiam, entretanto, ser aqueles? Sim, era já fora de dúvida, ainda que resistíssemos a dar crédito a nossos olhos, um pelotão duns cinquenta homens que se aproximava, rapidamente de nossa vivenda. Eram cinquenta caçadores de focas guiados por Matílin, o mais famoso veterano de tais empresas perigosas e que, como nós, haviam sido cortados em sua retirada, pelo gelo. Fizemos com que entrassem, atendendo-os e obsequiando-os da melhor maneira que pudemos. Depois interrogamos Matilin:

- Como soubestes que estávamos aqui? - Disse-nos o velho João, ensinando-nos o caminho até o vosso albergue - responderam vários deles, indicando um dos seus companheiros: um venerável ancião, com os cabelos mais brancos que a própria neve. - É verdadeiramente assombroso que um ancião como este se dedique ainda a caçar focas em companhia de homens jovens como vós, em lugar de aguardar, em um rincão de sua morada, no aconchego do lume, a chegada de seu fim. Ademais, como conseguiu saber de nossa presença na região solitária do urso branco? dissemos em uníssono. Tanto o bom Matílin, como os demais de seu grupo, sorriram compassivos ante nossa ignorância. Segundo nos asseguraram "o velho João" sabia tudo, acrescentando:

- Bem novatos deveis ser nestas terras polares, porquanto ignorais a existência deste prodigioso João e vos assombrais tanto com sua presença - disse outro.

- Venho caçando focas nestes mares há quarenta e cinco anos, dia após dia -

acrescentou o primeiro - e sempre conheci o bom João, a quem todos nos veneramos, com sua cabeleira branca e seu aspecto majestoso. E mais: recordo, perfeitamente, que quando era criança e costumava sair para o mar com meu pai, este e meu avô contavam-me o mesmo, tim-tim por tim-tim, a respeito de João, acrescentando que o

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mesmo contaram a meu avô, seu pai e o pai de seu pai

igualmente velho e Imponente em sua grandeza, com seus olhos de fogo e sua cabeleira alva como a neve!

- Segundo contam, o bom velho tem já mais de duzentos anos! contestei alegre e

incrédulo. Para tirar-me de meu ceticismo, vários marinheiros rodearam o patriarca de barba e cabeleira brancas, importunando-o:

Todos o haviam conhecido

- Vovô querido, quer ter a bondade de dizer-nos tua verdadeira idade?

- Realmente, meus filhos, eu mesmo não o sei - replicou com o mais seráfico dos

sorrisos. Nunca contei meus anos e vivo, assim, o tempo que Deus me determinou em sua inescrutável sabedoria.

- Mas, como soubeste que invernávamos aqui? interroguei-o por minha vez.

- Ele me guiou - respondeu simplesmente. Era somente o que sabia

- Não me atrevi a indagar mais, finalizou o médico - coroando sua narração com estas palavras ditas em voz mais baixa e como já falando consigo mesmo:

- Inexplicável! Absolutamente inexplicável!

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O CAMPO LUMINOSO

Procedentes da Grécia, havíamos chegado a Constantinopla; um alegre e escolhido grupo de turistas. Doze ou mais horas, durante o dia, foram dedicados a subir e descer pelas escarpadas alturas de Pera, visitando lugares, encarapitando-nos no alto dos minaretes e abrindo caminho entre matilhas famintas: os cães vagabundos, tradicionais donos das ruas de Istambul. Diz-se que a vida de boemia é contagiosa e que nenhuma civilização conseguiu destruir o encanto da liberdade omnímoda, uma vez que se tenha provado suas doçuras. O cigano não pode viver sem sua tenda portátil, que é seu carro e, às vezes, a viagem a pé é para ele uma segunda natureza, uma fascinação irresistível de sua nômade e precária existência. Meu principal cuidado, portanto, desde que cheguei a Constantinopla, foi de evitar que meu perdigueiro Ralph fosse também vítima de tamanho contágio, tendo ganas de unir-se alegremente aos beduínos de sua raça canina que infestavam as ruas da cidade. Aquele formoso cão, meu camarada, era meu mais fiel e constante amigo, e, temerosa de perdê-lo, vigiava-o em seus menores impulsos; porém o pobre animal portou-se, durante os três primeiros dias, como um quadrúpede medianamente educado. Às imprudentes acometidas de seus congêneres maometanos, sua única resposta era a de meter o rabo entre as pernas, baixar humildemente as orelhas e buscar, acovardado, a proteção de qualquer um de nós. Vendo-o, portanto, tão refratário às más companhias, comecei a confiar em sua discrição, diminuindo a vigilância; porém, daí a pouco, tive que lamentar por haver depositado uma confiança excessiva em má ocasião. Num momento de descuido, umas sereias de quatro patas o seduziram, traiçoeiras, e a única coisa que dele vi foi a ponta de seu galhardo rabo, desaparecendo em suja e tortuosa viela. Inúteis resultaram, depois, as buscas empreendidas para dar com o paradeiro final de meu mudo companheiro. Ofereci vinte, trinta, quarenta francos a quem o achasse e mo trouxesse. Em um instante pusera-se à sua procura uma legião mais vagabunda do que os próprios cães que assaltaram nosso hotel, trazendo, cada um, seu cão sarnento nos braços, pretendendo fazê-los passar por meu fiel amigo. Quanto mais resistia a semelhante embuste, mais porfiavam eles, e, um daqueles miseráveis, caindo de joelhos, tirou do peito uma antiga e corroída medalha da Virgem, chegando a ponto de jurar-me que a própria Rainha do Céu havia lhe aparecido para indicar-lhe qual era o verdadeiro animal. Houve até um momento em que teria o súbito desaparecimento de Ralph determinado um curioso motim, que por certo teria ocorrido, se nosso guia não fizesse vir um par de "kavasses" (policiais) que se encarregou de expulsar, cortesmente aquela turba de bípedes e quadrúpedes. Suspeitei, então, que já não mais voltaria a ver o meu cãozinho e, ainda, acabei por perder toda a esperança, quando o porteiro do hotel - um honorável ex- salteador de estradas, homem que não teria passado menos de meia dezena de anos

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como condenado à prisão - assegurou-me solenemente que todas as minhas pesquisas seriam inúteis, pois o meu perdigueiro teria sido morto e devorado por seus congêneres, porque os cães turcos, vagabundos, encontram muito gosto na carne de seus saborosos irmãos - os cãezinhos da Inglaterra.

A cena anterior tinha ocorrido em plena rua à porta do hotel, e já ia voltar aos

meus aposentos, quando uma velha grega, que me havia estado ouvindo do umbral

que, se quiséssemos,

poder-se-ia interrogar os "dervixes" sobre o caso.

de uma casa fechada, disse à minha acompanhante Miss H

- E que pode saber essa gente sobre o paradeiro de meu cão? respondi-lhe com

ironia.

- Os homens santos sabem tudo; para eles não há segredos - objetou a anciã,

misteriosamente. A semana passada roubaram-me um abrigo novo, trazido por meu filho, de Brusa e, como vedes, recuperei-o e estou usando-o.

- Mas, então, os santos homens o transformaram também de novo em velho -

acrescentou um do grupo, indicando um grande remendo preso com alfinetes que aparecia no ombro do agasalho.

- Esta é, precisamente, a parte mais grave de minha estória - retrucou a velha

com aprumo; porque, ficai sabendo que eles me mostraram, no espelho mágico, o bairro, a casa e até o cômodo onde o judeu que mo roubou estava, naquele instante,

fazendo-o em pedaços. Meu filho e eu voamos, imediatamente, para o bairro de Kalindijkulosek onde o mesmo ladrão que tínhamos visto no espelho e que, convicto e confesso, foi prontamente metido no cárcere. Embora ninguém do grupo soubesse o que poderia ser o espelho mágico dos dervixes, resolvemos ir ver um deles, no dia seguinte. Com efeito, apenas os muezins, com um monótono vozear, haviam cantado nos altos minaretes a hora do meio-dia, descemos da Colina de Pera até o Porto de Gálata, abrindo caminho a cotoveladas, por entre os heterogêneos concorrentes ao mercado. Aquela Babel de cem léguas, aquela ensurdecedora algaravia dava-nos dor de cabeça. De outro lado,

ali não havia meio da pessoa orientar-se, nem de achar as ruas por seus nomes, nem as casas por seus números, tendo que se confiar em Alá e em seu profeta, quando não em vagas indicações da proximidade, de tal edifício ou mesquita, do ponto que se procura.

À custa, pois, de mil rodeios e pesquisas, acabamos por encontrar o bairro onde

se vendiam artigos ingleses, atrás do qual achava-se o lugar a que nos dirigíamos. Até o guia de nosso hotel não conhecia o retiro dos "santos homens". Um garoto grego, em toda a singela nudez nativa, consentiu, mediante uma pequena moeda de cobre, em levar-nos à presença de um daqueles adivinhos. Penetramos num sombrio salão, que mais parecia um estábulo abandonado. O piso, comprido e estreito, estava coberto de areia e só recebia luz de pequenas janelas, bem no alto. Os dervixes, terminados seus ritos matinais, descansavam, sem dúvida, uns estendidos em todo o seu comprimento, outros recostados, em pé, com olhar vago, meditando, falaram-nos acerca da Deidade invisível. Todos eles pareciam de mármore, inertes, sem responder às nossas perguntas. Nossa perplexidade acabou

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logo, entretanto, quando um deles, seco e alto, com um gorro pontiagudo, que o fazia parecer muito mais alto ainda, surgiu não sei de onde, dizendo-nos que era o superior daquela comunidade de santos, acrescentando que não nos haviam respondido porque quando, mediante a oração, põem-se em contato com Alá, não se pode interrompê-los por motivo algum. Nosso intérprete explicou ao velho que nossa visita somente a ele se dirigia, pois que ele era o depositário da varinha adivinhatória. Imediatamente estendeu-nos a mão, em demanda da esmola prévia. Logo que a guardou, negou-se a praticar cerimônia alguma, para a averiguação do paradeiro do cão, senão perante dois

membros somente de nossa comitiva, que foram Miss H

Penetramos ambas, seguindo atrás do dervixe, por um corredor semi- subterrâneo; subimos por uma escada portátil até um cômodo enfeitado, e deste até um miserável desvão cheio de pó e teias de aranha. A um canto, vimos um vulto que acreditei ser um montão de trapos velhos, o qual se moveu, pondo-se em pé. Era a criatura mais disforme e desprezível que tinha visto em minha vida. Uma mulher- menina; uma anã hidrocéfala e imponente, com ombros de granadeiro, tendo por pernas duas patinhas de aranha; pernas arqueadas que podiam, apenas, suportar a desproporção de seu corpo. Seu semblante, burlesco e agressivo como de um sátiro, mostrava uma meia-lua vermelha pintada na testa; sua cabeça escondia-se sob um ensebado turbante; suas pernas ostentavam grandes bombachas turcas; uma musselina suja envolvia seu corpo, conseguindo apenas cobrir as deformidades de suas carnes cheias de tatuagens, signos e letras árabes. A espantosa criatura caiu, mais do que se sentou, no meio da peça, levantando

uma incomoda nuvem de pó - era a famosa Talmos, o oráculo de Damasco, no dizer do povo! Imediatamente, o dervixe traçou com giz, em torno da mulher, um círculo de uns três pés de raio; tirou, não sei de onde, doze lamparinas de cobre, que encheu com o conteúdo escuro de uma garrafa que ocultava em seu peito, colocando-as sem simetria, em torno da vítima da almofada da desmantelada porta, arrancou uma lasca

e pegando-a entre o polegar e o indicador, começou a soprá-la a intervalos regulares, resmungando, ao mesmo tempo, orações, fórmulas de encantamento, até que, de repente, e sem causa aparente, brotou uma chispa da lasca a qual começou a arder como se fosse uma palhinha seca. Com aquele fogo, tão estranhamente obtido, começou a acender as doze lamparinas do círculo. Talmos, a adivinha, que até então jazia inerte, tirou rapidamente as bombachas, jogando-as ao canto, deixando a descoberto, com seus monstruosos pés, a beleza adicional de um sexto dedo. O dervixe, por sua vez, entrou no círculo e colhendo-a pelos tornozelos, alçou-a, qual um saco de batatas, pondo-a com elegância de cabeça para baixo, balançando-a nessa posição, como se fosse um pêndulo e acabando por fazê-la girar no ar, do mais estranho modo.

, aterrada ante o estupendo espetáculo que tinha

à vista, correu a refugiar-se no ângulo mais distante, enquanto a anã, sob o impulso

do dervixe, acabou por adquirir um movimento rotatório, como o de um pião,

e eu.

Minha companheira, Miss H

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durante dois minutos, até que foi diminuindo e cessou por completo.

A infeliz anã, assim mesmerizada, parecia como imersa num estado de

catalepsia, com sua barba sobre o peito, espantosa, acima de toda a ponderação. O dervixe logo fechou cuidadosamente a única janela do recinto e teríamos ficado às escuras não fosse um buraco da mesma, por onde penetrava um raio de sol que vinha cair exatamente sobre a moça. Impondo-nos silêncio, com gesto solene, cruzou os braços no peito e, fixando seu olhar no ponto brilhante que caía sobre a cabeça de Talmos, permaneceu tão imóvel quanto ela, enquanto eu me desfazia em cabalas, pretendendo verificar que relação poderiam ter tamanhas extravagâncias com a

averiguação do paradeiro de meu Ralph. O disco brilhante que o raio de sol demarcava foi se convertendo, não sei como,

em uma estrela brilhante. Por inexplicável fenômeno de ótica, o quarto que antes tinha estado sobremente iluminado por aquele raiozinho de luz, foi escurecendo cada vez mais, à medida que aumentava em brilho a estrela, até que nos vimos envoltos numa obscuridade verdadeiramente cimeriana, enquanto a estrela tremia e girava lentamente, a princípio, logo com vertiginosa rapidez, cresceu até envolver a anã, como num oceano luminoso. Finalmente, a estrela tornou-se menor em seu giro, enquanto se ia apagando, como os suaves esplendores da lua na água, iluminando o círculo e deixando o resto em absoluta escuridão. Chegado, assim, o momento supremo, o dervixe, sem pronunciar palavra, estendeu a mão, com a qual pegou a minha, indicando-me o círculo luminoso: por todo

o ambiente, vimos formarem-se e condensarem-se manchas esbranquiçadas de

prateado brilho lunar, as quais constituíram de pronto figuras cambiantes, informes,

como reflexos astrais num espelho. De repente, com assombro meu, e consternação de minha amiga, apresentou-se-nos, no panorama assim formado, a ponte principal que une a nova à antiga cidade, atravessando o "Corno de Ouro", de Gálata a Istambul. Vimos deslizar pelo Bósforo os alegres calques, o formigar da cidade, as quintas, os palácios e demais edifícios encarnados, refletindo-se fantásticos nas águas iluminadas pelo sol do meio-dia, desfilando magicamente, a ponto de não podermos discernir se era tudo aquilo que se movia ou se nós é que nos movíamos. O mais estranho de tudo era que, não obstante toda aquela vida agitada que se mostrava à nossa vista, não se ouvia o menor ruído, apenas se desenrolava no silêncio angustioso de um sonho singular

As ruas iam se sucedendo, umas às outras, em rápido desfilar, nosso ou seu. Ora

passava uma loja de estreita viela; ora um café turco cheio de fumadores de ópio, no

momento em que algum deles derramava, inadvertidamente café e o narguile sobre seu vizinho, recebendo deste uma porção de injúrias. De visão em visão, chegamos, assim, ante um grande edifício que reconheci como sendo o Ministério da Fazenda e

ali, oh! tristeza!, nos fossos traseiros do mesmo, moribundo com o pelo sedoso cheio de lama, jazia meu pobre cão Ralph, rodeado de outros cães de péssima catadura, que

se entretinham em caçar moscas, na sombra

Já sabia pois, quanto desejava; embora não houvesse dito nenhuma palavra

acerca do cão ao dervixe , e impaciente por comprovar o paradeiro daquele, tratei de

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sair porém uma vez desaparecida a cena, Miss H

dervixe, murmurando em seu ouvido não sei que palavras, com esse tom ardente e apaixonado com que soem falar, do adorado "ele", as jovens enamoradas! - Pensarei nele, disse. Apenas formulado, quase mentalmente, o desejo que tais palavras encerravam, quando se nos apresentou uma grande planície de areia, em cujo fundo se via o mar azulado, sob os raios de sol, e um grande vapor sulcando as águas, ao largo da costa, seguido de branca esteira. A coberta formigava de passageiros, destacando-se entre eles, apoiado contra a amurada da popa, um jovem bem posto. Era ele!

suspirou, sorriu e ruborizou-se, alternadamente, com natural emoção.

Depois, concentrou de novo seu pensamento e, já então, o barco se afasta e desaparece. O espelho mágico permanece uns momentos sem panorama. Porém, prontamente, outras manchas luminosas aparecem em sua superfície, as quais, por fim compõem o recinto de uma biblioteca com tapetes e cortinas verdes. À frente de uma

pilha de livros e sentado a uma poltrona, acha-se um ancião escrevendo à luz de uma lâmpada. Seu cabelo é grisalho e está penteado para trás; o rosto barbeado e transpirando benevolência O dervixe fez então, um pequeno movimento com a mão, impondo silencio. A luz do campo mágico empalideceu e de novo ficamos sem ver imagem alguma. Dali a pouco, tornou a aparecer Constantinopla e, com ela, nossas acomodações do hotel, com seus livros e periódicos sobre a mesa; o chapéu de viagem de minha amiga colocado no cabide e, sobre a cama, o vestido que havia trocado aquela manhã para sair. Os pormenores mais reais completavam o quadro e, para maior maravilha vimos sobre a mesa duas cartas fechadas, recém-trazidas pelo correio e cuja letra, nos envelopes, foi logo reconhecida por minha amiga. Eram ambas de um parente seu, muito querido, por cujo silêncio sentia-se inquieta há dias. Nova mudança da cena mágica e eis-nos já no quarto ocupado pelo irmão de

, o qual jazia deitado de costas em um sofá, enquanto um criado colocava-

lhe panos na cabeça, da qual, com horror, vimos que saía sangue. Não conseguíamos explicar aquilo, tendo-o deixado há uma hora, gozando perfeita saúde. Miss H lançou um grito e, pegando-me, pressurosa, pela mão, lançou-se em direção à porta. Chegamos apressadamente em casa, podendo comprovar, com efeito, que o

jovem irmão de Miss H

ferimento de pouca importância; que sobre a mesa de nosso gabinete esperavam, recém-trazidas de Atenas por um parente, duas cartas dirigidas a Miss H Não me faltou mais, para de todo comprovar nossas visões do campo luminoso do espelho mágico do dervixe, senão tomar um carro, dirigir-nos até o Ministério da Fazenda em cujo fosso, tal como tivera a desdita de vê-lo naquele espelho, estropiado, famélico, porém ainda com vida, jazia meu irmão perdigueiro, rodeado de outros cãos de mau aspecto, que caçavam moscas

colocou-se por seu turno ao lado do

Miss H

Miss H

acabava de cair da escada, o que lhe produzira um

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UMA VIDA ENCANTADA

(TAL COMO A CONTOU UMA PENA)

INTRODUÇÃO

, pequena cidade renana, achavam-se sepultadas sob

um manto de densíssima névoa, numa noite do outono de 1884. Os moradores já se haviam retirado, horas antes, buscando no sono o descanso de suas laboriosas tarefas do dia. Tudo era repouso, silêncio, solidão e tristeza naqueles espaços vazios Também eu me achava ao leito; porém, ai!, de bem diferente maneira, pela dor e enfermidade que nele me retinham há vários dias. O silêncio, em meu redor naquela noite de mistério, era tal que, parodiando a frase de Longfellow, ouvia-se o próprio silêncio. Percebia, claramente, até o latejar de meu próprio sangue, ao circular violento por meus membros doloridos, e minha superexcitada imaginação me levava, como a escutar o sussurro de uma voz humana, murmurando não sei que estranhas coisas a meu ouvido. Não parecia senão um eco transmitido de longas distâncias, numa dessas gargantas de montanha, tão solitárias como maravilhosamente ressonantes e que podem transmitir uma palavra, por meia milha, como por um tubo acústico. Era, sim, a voz tão familiar para mim há tantos anos: a voz de um desses grandes seres a quem não se pode conhecer sem, no ato, sentir-se presa da mais viva veneração e a quem, nos transes mais cruéis do paroxismo de minhas dores mentais e físicas, sempre devi a luz de um raio de consolo e esperança - Esquece tuas próprias dores - dizia-me aquela suavíssima e inefável voz - apartando delas tua imaginação. Pensa em dias felizes e passados; nas lições que tantas vezes tens recebido acerca dos grandes mistérios da Natureza, verdades que os homens cegos a toda luz espiritual, tanto se obstinam em não querer ver. Quero, hoje, acrescentar a tais ensinamentos, outro relativo a uma vida estranha desse ser que tens aí adiante, precisamente atrás das vidraças dessa casa tristonha, em frente. E, dizendo isto, a voz parecia querer revelar-me algo mui raro: o mistério de uma alma, atrás das paredes da casa fronteira. As densas porções de neblina que lambiam a fachada, como fantasmas, foram desaparecendo, e uma claridade brilhante e suave como a da lua, parecia estender, por assim dizer, uma ponte encantada entre meus olhos e aquela casa, cujas paredes acabaram por fazer-se transparentes a meus olhos deixando-me ver, com toda a limpidez, o interior de uma pequena habitação, como um chalé suíço, com enegrecidas paredes cheias de estantes com livros, manuscritos e decorações arcaicas. Debruçado sobre uma escura mesa de nogueira, via-se um velho mal encarado, quase um espectro, amarelo e extenuado que se achava, com seus olhinhos penetrantes e suas mãos de

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As tortuosas ruas de A

marfim escrevendo à luz da fúnebre lâmpada, que apenas servia para fazer mais densas as tristezas e obscuridades daquele pobre recinto. Um instante após, ao fazer um movimento involuntário para melhor ver aquele quadro, diria que todo ele, isto é, a habitação, livros, espectro, etc., atravessando a ponte de argêntea luz astral que cruzava a rua, havia se trasladado para a minha frente, até os pés de minha cama. - Presta ouvido atento ao rumor dessa pena ao raspar o papel - continuou dizendo a voz misteriosa, tão distante e, contudo, tão próxima. Assim conseguirás saber pela própria pena a mais arrepiante e real das histórias de dor que imaginar podes, esquecendo-te de teus próprios sofrimentos e encurtando as terríveis horas desta noite de insônia. Ensaia, pois! - acrescentou, repetindo a tão conhecida fórmula de cabalístas e rosa-cruzes. Ensaiei, imediatamente, como me era ordenado concentrando toda minha atenção na imponente figura do ancião, que não parecia nem se dar conta de minha presença. A princípio, o raspar da pena de ave parecia quase imperceptível, porém, pouco a pouco, foi tornando-se mais claro e compreensível para mim, como se aquele personagem de mistério estivesse relatando em voz alta aquilo mesmo que escrevia. Mas não: os lábios daquele espectro vivente não se despregavam, nem um instante, para pronunciar a mais ínfima palavra. A voz, além disso, era vaga, vazia, qual entonações de seres do outro mundo, e, a cada letra e palavra, um fulgor lívido

e fosfórico parecia brotar sob os bicos da pena, à maneira de um fogo fátuo, não

obstante achar-se, quiçá, a muitas milhas de distância da Alemanha, o ser que diante de mim se encontrava - coisa aliás frequente no mistério encantado da noite, quando, nas asas de nossa mágica imaginação "aprendemos sob os clarões de sidérea sombra, a sublime linguagem do outro mundo", como diria Lord Byron. Os clichês astrais de meus olhos e ouvidos internos impressionaram-se de modo indelével com aquelas frases, assim é que, hoje, não tenho senão que copiá-las para transmiti-las, como as recebi, com o risco de que as tomeis por uma novela forjada de propósito, acerca de um personagem fantástico, cujo verdadeiro nome não pude averiguar.

Ora

aceitá-la-eis

como

realidade,

ora

considerá-la-eis

como

conto;

sem

embargo, espero que há de resultar do mais vivo interesse.

Começo.

I O DESCONHECIDO

Nasci numa aldeia suíça: Um grupo de míseras cabanas encravado entre dois imponentes glaciares, sob um cume de neves perpétuas, e a ela, velho de corpo e

enfermo de espírito, retirei-me, há trinta anos, para esperar tranquilo, com a morte,

o dia de minha libertação

fatos pasmosos, sepultados no fundo do meu coração: todo um mundo de horrores que mais quisera calar do que revelar!

Mas ainda vivo, apenas somente para dar testemunho de

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Sou um perfeito abúlico, porque devido à minha prematura instrução, adquiri falsas ideias que, fatos posteriores, encarregaram-se de provar completamente contrário. Muitos, ao ouvir o relato de minhas desventuras, considera-las-ão como absolutamente providenciais e eu mesmo, que não creio em Providência alguma, tão pouco posso atribuí-las à mera casualidade, mas ao eterno jogo de causas e efeitos que constituem a vida do mundo. Embora enfermo e decrépito, minha mente conservou toda a frescura dos primeiros dias, e recordo até os mínimos detalhes daquela terrível causa de todos os meus males ulteriores. Demonstra-me isso, bem a meu pesar, a existência de uma entidade excelsa, causa de todos os meus males, entidade real, que eu desejaria fosse tão somente criação de minha louca fantasia Oh! ser maldito, tão terrível quanto bondoso! Oh! santo e respeitado senhor, todo perdão: tu, modelo de todas as virtudes, foste, não obstante, quem amargurou para sempre toda a minha existência, arrojando-me violentamente fora da égide monótona, porém segura e tranquila, do que chamamos vida vulgar; tu, o poderoso que, tão a meu pesar, evidenciaste-me a realidade de uma vida futura e de mundos acima do que vemos, acrescentando, assim, horrores a meu mísero viver! Para mostrar bem meu estado atual, tenho que interromper e deter a voragem destas recordações falando de minha pessoa. Quanto não daria, todavia, para apagar de minha consciência esse odioso e maldito Eu, causa de todos os nossos males terrenos! Nasci na Suíça, de pais franceses, para quem toda a sabedoria do mundo encerrava-se na tríade literária: Barão de Holbach, Rousseau e Voltaire. Educado em escolas alemãs, fui ateu da cabeça aos pés, empedernido materialista, para quem não podia existir nada fora do mundo visível que nos rodeia e, muito menos, um ser que pudesse estar acima deste mundo e fora dele. E, quanto à alma, acrescentava, ainda na suposição de que exista - tem que ser material. Para o próprio Orígenes, o epíteto de incorpóreo dado a Deus significa uma causa mais sutil, porém sempre física, da qual nenhuma ideia clara podemos formar em definitivo. Como, pois, vai ela produzir

efeitos tangíveis? Assim, não há por que acrescentar que encarei sempre o nascente espiritualismo com desdém e asco, e, também quase com ira, as insinuações religiosas de certos sacerdotes, sentimentos que, apesar de todas as minhas tristes experiências, conservo ainda. Pascal, na oitava parte de seus "Pensamentos", mostra-se indeciso à cerca da própria existência de Deus. "Examinando, com efeito, por qualquer lado, se semelhante Ser Supremo deixou pelo mundo algum vestígio de si mesmo, não vejo em

qualquer lugar senão obscuridade, inquietude e dúvida completa

" Porém, se bem

que em semelhante Deus extracósmico jamais tivesse acreditado, também não posso rir-me das potencialidades maravilhosas de certos homens do Oriente, que os convertem virtualmente em deuses. Creio firmemente em seus fenômenos, porque os vi. E mais, detesto-os e os maldigo, quaisquer que sejam os que os produzam, e, minha vida inteira, despedaçada e estéril, é um protesto contra tal negação. Em consequência de demandas infelizes, ao morrerem meus pais, perdi quase toda minha fortuna, motivo pelo qual resolvi, mais pelos que amava do que por mim

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mesmo, constituir nova fortuna, e, aceitando a proposta de ricos comerciantes hamburgueses, embarquei para o Japão, na qualidade de representante de sua Casa. Minha irmã, a quem idolatrava, havia se casado com um rapaz de modesta condição. O mais franco êxito secundou minhas empresas. Mercê da confiança em mim depositada por amigos ricos do país, pude negociar facilmente em regiões pouco, ou nada, abertas, então, aos estrangeiros. Embora igualmente indiferente a todas as religiões, o budismo interessou-me de modo especial, por sua elevada filosofia, e, em meus instantes de lazer, visitei os mais curiosos templos japoneses, entre eles parte dos trinta e seis templos budistas de Kioto; Day-Bootzoo, com seu gigantesco sino; Enarino-Iassero, Tzonene, Higadzi-Vonsi, Kie-Misoo e muitos outros. Nunca, entretanto, curei-me do ceticismo, rindo-me dos bonzos e ascetas do Japão, não menos do que antes o fizera com os sacerdotes cristãos e com os espíritas, sem admitir a mínima possibilidade de que aqueles pudessem possuir poderes estranhos, não estudados por nossa ciência positiva. Ridículos, afiguravam-se-me, no mais alto grau, os supersticiosos budistas, procurando fazer-se tão indiferente à dor como ao prazer, pelo domínio das paixões. Um dia fatal e memorável, entabulei amizade com um bonzo idoso, chamado Tamoora Hideyeri. Com ele visitei o dourado Kwo-On e, de seu grande saber, aprendi não pouco. Não obstante a devoção e afeto que por ele sentia, nunca perdoava a ocasião própria de caçoar de seus sentimentos religiosos; porém, era de tão boa índole como culto, e, sendo bom budista, jamais se me mostrou, no mínimo, ofendido por meus sarcasmos, limitando-se a responder imperturbável: "Esperai e vereis algum dia". Sua mentalidade privilegiada não podia crer que meu cético ateísmo fosse sincero, tão acima da crença ridícula num mundo invisível rechaçado pela Ciência e cheio de deidades e de espíritos maus e bons. O tranquilo sacerdote dizia-me, unicamente: "O homem é um ser espiritual, recompensado e castigado, alternadamente, por seus méritos e por suas culpas, tendo, por isso, que voltar, reencarnado, inúmeras vezes à Terra". Contra aquelas célebres frases de Jeremy Cellier de que somos meras máquinas ambulantes, simples cabeças falantes, sem alma nem leis que as da miséria, perguntava, se nossas ações estivessem de antemão previstas e decretadas, sem que tivéssemos mais liberdade nelas do que a que têm as águas de um rio de se deterem, a sábia doutrina do Karma - ou de que cada um recolhe aquilo que semeou - seria absurda. Assim, pois, toda a metafísica de meu amigo baseava-se nesta lei imaginária, juntamente com a da metempsicose e outros delírios desse jaez. - Depois desta vida material, não podemos disse absurdamente meu amigo, certo dia - viver no completo uso de nossa consciência sem termos construído, por assim dizer, um veículo, uma sólida base de espiritualidade. Quem, durante esta vida física, consciente e responsável, não aprendeu a viver em espírito, não pode aspirar a uma plena consciência espiritual quando, privado de seu corpo, tenha que viver como mero espírito. - Que entendes, pois, por vida como espírito? perguntei. - A vida é um plano puramente espiritual, o " Jushitz Devaloka" ou paraíso

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budista, porquanto o homem, mediante seu cérebro animal e todas as faculdades que desenvolve aqui na Terra, constrói esse elevadíssimo estado celeste entre duas

existências sucessivas, transportando a esse plano de felicidade superior, quanto aqui embaixo construiu, mediante estudo e contemplação.

- Que sucede ao homem que recusa a contemplação, quer dizer, que se nega a

fixar a vista na ponta de seu nariz, depois da morte de seu corpo? Perguntei-lhe brincalhão.

- Que será tratado como detentor daquele estado mental que em sua consciência prevaleceu. No melhor dos casos, terá um renascimento imediato e no

pior, um "Avitchi", ou inferno mental. Não é preciso, no entanto, fazer-se um completo asceta: basta esforçar-se por aproximar-se do Espírito, vivendo uma vida espiritual; abrindo, embora por um momento, a porta de nosso Templo Interior. - És sempre poético, mesmo em teus paradoxos! amigo meu, respondi-lhe. Queres explicar-me, um pouco, semelhante mistério?

- Não é nenhum mistério, replicou - porém de bom grado responder-te-ei. Supõe

que o "plano espiritual", de que te falo, seja como um templo no qual jamais pisaste e

cuja existência credes ter fundamento para negar, porém que alguém compassivo te toma pela mão e, conduzindo-te até a entrada, te faz olhar para dentro somente um instante. Por este simples fato, terás estabelecido com o templo um laço imperecível. Não poderás, desde aquele dia, negar sua existência, nem o fato de haver entrado nele e, segundo haja sido teu trabalho, breve ou longo, assim viverás nele depois da morte.

- Pois, que tem que ver minha consciência post-mortem com semelhante templo, ainda que no falso caso de que a outra vida exista?

- Muito! Depois da morte - terminou dizendo o sábio ancião - não pode haver

consciência alguma fora do Templo do Espírito. O que se executa em seu âmbito é a única coisa que à nossa morte sobreviverá, porque todo o demais, como vão e ilusório, está fadado a dissolver-se no Oceano de Maya ou da ilusão. Como me chocava, sendo simples curioso, a peregrina e absurda ideia de viver fora de meu corpo, disfarcei meu ceticismo e, fingindo interessar-me por tudo aquilo, obriguei meu amigo a que continuasse, enganado por completo a respeito de minhas intenções. Tamoora Hideyeri servia em Tri-Onene, templo budista famoso não só no Japão, mas em toda a China e no Tibete; não há em Kioto outro tão venerado e seus monges, sequazes de Dzeno-doo, são tidos pelos melhores e mais sábios entre aquelas meritíssimas fraternidades relacionadas, por sua vez, com os ascetas ou remitas chamados Jamabooshi, discípulos de Lao-Tsé, Assim se explicam os altos voos metafísicos que, com intenção de curar minha cegueira mental, sempre deu meu amigo à nossa conversação, levando-me até suas emaranhadas doutrinas, com suas perorações (disparatadas a meu ver) e suas ideias de espiritualidade, cuja prática parecia verdadeira ginástica no plano espiritual. Tamoora havia dedicado mais de dois terços de sua vida à Yoga, ou contemplação prática, a qual lhe tinha dado as provas de que com a morte, uma vez

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despojados de seu corpo material, viviam os homens em plena consciência no mundo espiritual, recolhendo o fruto centuplicado de suas ações nobres e altos

sentimentos - salário proporcional, dizia o asceta, ao trabalho que se esforçava em realizar cá embaixo.

- Porém, se alguém não fizer mais que assomar ao templo da espiritualidade e

retroceder, que lhe acontecerá, depois? objetei com meu eterno ceticismo.

- Pois então, na outra vida nada terias de bom para recordar, salvo aquele feliz

instante, porque em tal vida espiritual somente se registram e vivem as impressões espirituais - respondeu o monge.

-Assim, antes de reencarnar aqui embaixo, que lhe aconteceria? acrescentei jocosamente. Então, disse lento e solene o sacerdote, com uma atitude severa de

dar frio: durante um período, que pareceria uma eternidade à tua angústia, não farias senão repetir uma e mil vezes a ação de abrir e fechar o templo, com essa desesperante repetição dos temas de acalanto. Semelhante tarefa que o bom homem me assinalava post-mortem, fez-me soltar uma gargalhada. Aquilo era o cúmulo do absurdo! Porém, meu amigo limitou-se a suspirar, compassivo, acrescentando, assim que lhe pedi perdão por minha sinceridade:

- Não. Tal estado espiritual depois da morte não consiste em uma repetição

mímica e automática do realizado na vida, mas em encher e completar os vazios dela. Eu me limitei a apresentar um exemplo dos mistérios relativos à Visão da Alma, incompreensível para ti, pelo que vejo. Sendo, então, nosso estado de consciência o gozo final de quantos atos espirituais tenhamos executado em vida, quando um destes haja falhado não podemos esperar outra coisa que a repetição do mesmo ato. E, saudando-me cortesmente como bom japonês, o nobre sacerdote despediu- se de mim. Ah! se me tivesse sido possível, então, saber o que depois aprendi por dolorosa

experiência

Mas não, eu não podia crer de olhos fechados em tamanhos absurdos e, muito especialmente, em que certos homens arrebatados conseguissem adquirir poderes sobrenaturais. Experimentava uma repulsa instintiva em relação àqueles eremitas ou yamabooshi, protetores de todas as seitas budistas do Japão, porque suas pretensões milagreiras pareciam o cúmulo da nesciência. Quem poderão ser esses magos presumidos, de olhos baixos e mão cruzadas, esses "santos" mendigos, estranhos moradores de montanhas afastadas e escabrosas, inacessíveis a ponto de, aos

Não podiam ser eles senão uns

simples curiosos, ser impossível chegar até elas?

adivinhos desprovidos de vergonha, uns ciganos vendedores de feitiços, talismãs e bruxarias. Como se vê, meus insultos e ódios alcançavam, por igual, mestres e discípulos, porque convém não esquecer que os yamabooshi, embora não aceitem os profanos perto de si, a alguns, através de duras provas, recebem como discípulos, os quais dão perfeita prova de sabedoria e pureza de vida. Meu menosprezo não se deteve nem nos próprios sintos, quer dizer, naqueles

quão pouco haveria zombado daquele sapientíssimo ensinamento!

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outros religiosos de Sin-Syu, o xintoísmo, cuja divisa é a de "fé nos deuses e no caminho dos deuses", porque praticam um culto absurdo - o dos chamados "Espíritos da Natureza". Assim captei não poucos inimigos, porque os Sinto-Kanusi, os mestres espirituais desse culto, pertencem à aristocracia japonesa, com o próprio Mikado à frente, constituindo os sequazes do mesmo o elemento mais sábio do Japão. Não nos esqueçamos de que os Kanusi, ou mestres do Xintoísmo, não procedem de ordenação regular alguma conhecida, nem formam casta à parte. Como jamais alardeiem possuir poderes nem privilégios que os elevam acima dos demais, vestem-se como os seculares, passando como simples estudantes das ciências ocultas do espírito. Mais de uma vez tive contato com eles, sem suspeitar sequer de sua elevada categoria.

II - O VISITANTE MISTERIOSO

Com o decorrer dos anos, em lugar de melhorar, agravou-se meu lamentável ceticismo. Minha irmã, que era toda minha família no mundo, havia se casado, vivia em Nuremberg e seus filhos eram-me queridos como se fossem meus. Oh! como

amava aquela irmã mártir que outrora se sacrificara a si e ao homem que se prestou

a ajudar a meu pai, em sua velhice, e a dar-me a devida educação

sustentam que nenhum ateu pode ser nem súdito leal, nem parente fiel, ou amigo carinhoso, proferem a maior das calúnias. Sim, é falso que o materialista, incapaz de amar, se endureça de coração, com os anos - no sentido do amar dos crentes. Pode ser que seja verdade, em alguns casos, e que o positivista propenda para a vulgaridade e para egoísmo, porém o homem bondoso que é o que sói chamar-se ateu, não por motivos egoístas, mas por amor à verdade, não faz senão fortalecer seus afetos para com todos os homens. Quantas aspirações deixam de sentir para com o desconhecido; quantas esperanças rechaçam a respeito de um céu com seu Deus correspondente, e concentram-se, sem dúvida, centuplicadas, nos seres amados e ainda estendem-se a toda a humanidade Um amor assim foi o que me impeliu a sacrificar a sorte, a fim de assegurar a daquela santa irmã que tinha sido uma mãe para mim. Quase criança, parti para Hamburgo, onde lutei com ardor de quem trata de ajudar a seus entes queridos. Meu primeiro real prazer foi ver minha irmã casada com o homem a quem por mim se sacrificara, e ajudá-los. Tão desinteressado era meu carinho para com eles, e, em seguida para com seus filhos, que jamais quis constituir um novo lar, pois o de minha irmã, composto logo de onze pessoas, era minha única igreja e o objeto de minha idolatria. Por duas vezes, em nove anos, cruzei o mar com o único fim de estreitar contra meu coração seres tão caros ao meu amor, voltando ao Extremo Oriente e continuando a trabalhar para eles. Do Japão, sempre mantive correspondência com minha família, até que um dia ela foi interrompida por esta, sem que pudesse adivinhar a causa. Durante um ano todo estive sem notícia alguma, esperando em vão, dia após dia, e temendo alguma

! Os que

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desgraça. Foram inúteis todos os esforços que fiz para saber deles.

- Meu bom amigo - disse-me um dia meu único confidente, Tamoora, por que

não buscas o remédio para tua ansiedade, consultando a um santo yamabooshi? Não há como dizer com que desprezo rechacei a proposta. Porém, à medida que, em vão, sucediam-se os correios da Europa, minha ansiedade se ia transformando em irresistível desespero que degenerou numa espécie de loucura. Já era inútil toda luta e eu, pessimista a modo de Holbach, crente no aforismo de que a necessidade era o acicate para a felicidade filosófica e o fator que mais vigor dá à fraqueza humana, sentia-me vencido.

Esquecendo, pois, meu fatalismo para com os cegos desígnios do destino, não me podia resignar. Minha conduta, meu temperamento já eram mui diversos dos do

passado e, qual jovem histérico, mil vezes meu olhar tratava de sondar, através dos mares, a verdadeira causa daquele enigma que me punha à beira da loucura. Sim, um desprezível e supersticioso anelo movia-me, bem a meu pesar, a desejar conhecer o passado e o futuro Certo dia, ao declinar do sol, meu amigo, o venerável bonzo, apresentou-se em minha vivenda. Como fazia dias que não nos víamos, vinha para informar-se de minha saúde. - Por que te molestas com isso? disse-lhe, sarcástico, embora logo me arrependendo de minha imprudência. Terás apenas que consultar um yamabooshi que, à distância, pode ver e saber tudo. Ante tamanho ex-abrupto, o bonzo pareceu um tanto ofendido; porém, ao contemplar meu aspecto abatido, replicou bondoso que eu deveria seguir seu conselho de sempre, consultando um membro daquela santa Ordem, acerca de minhas torturas mentais.

- Desafio a quantos se jactam de possuir poderes mágicos - repliquei-lhe, tomado

de desafiador desprezo - que adivinhem em que estava eu pensando agora e o que é que essa pessoa está fazendo neste momento.

A que o imperturbável bonzo respondeu:

- Nada mais fácil; duas portas além de minha casa, acha-se um santo yamabooshi

visitando a um sinto que está enfermo. Basta que pronuncies apenas uma palavra afirmativa e poderei conduzir-te à sua presença augusta E a palavra foi pronunciada, com a qual ficou ditada a sentença cruel para toda a minha vida. Como descrever, com efeito, a cena que veio depois? Basta dizer que não havia transcorrido quinze minutos desde que aceitei a proposta do bonzo, quando me vi frente a frente com um ancião alto, nobre e extraordinariamente majestoso, para ser de raça japonesa, tão delgada, macilenta e minúscula. Ali, onde pensei achar uma obsequiosidade servil, tropecei com esse tranquilo e digno porte, característico do homem que conhece sua superioridade moral e olha com benevolência o equívoco daqueles que não chegam a reconhecê-lo devidamente. Às perguntas irreverentes e brincalhonas que, néscio lhe fiz, guardou silêncio, olhando-me fixamente como olharia um médico para um enfermo em delírio, e eu, desde o instante em que ele fixou seu perscrutador olhar em meus olhos, senti, ou melhor, vi como um delgado e

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argênteo fio de luz que, brotando de seus intensos olhos, penetrava agudo no mais recôndito do meu ser, tirando do meu coração e do meu cérebro, bem a meu pesar, o segredo de meus sentimentos e pensamentos mais íntimos. Não cabia dúvida: aquele homem imponente apoderava-se de todo o meu ser, a ponto daquilo tornar-se-me angustiosamente intolerável. Esforçando-me, quanto pude, para romper aquela fascinação, incitei-o a que me dissesse que é que tinha podido ler em meu pensamento. - Uma extrema ansiedade em saber o que pode ter ocorrido à sua irmã distante, ao esposo e filhos - foi a resposta exata que me deu com toda a tranquilidade aquele homem, acrescentando pormenores completos sobre a morada deles. Cético incurável, dirigi um olhar acusador ao bonzo, suspeitando de sua indiscrição, mas logo envergonhei-me de minha suspeita, sabendo por um lado que os japoneses são essencialmente verazes e cavalheiros e, por outro lado, que Tamoora não podia saber nada acerca da disposição interior da casa de minha irmã, cuja descrição exata, entretanto, acabava de dar-me o yamabooshi. - O estrangeiro - respondeu este, ao interrogá-lo novamente sobre o atual estado de minha inolvidável irmã - não se fia nas palavras de ninguém, nem em nada que não possa perceber por si mesmo. A impressão que nele pudessem causar as palavras do yamabooshi, acerca daquela, apenas duraria breves horas, deixando-o logo tanto, ou mais infeliz que antes, pelo que só cabe um remédio e é de que o estrangeiro veja e conheça a verdade por si mesmo. Está, pois, disposto a deixar-se pôr no estado exigido a todo yamabooshi, estado para ele desconhecido? Ao ouvir aquilo, minha primeira manifestação foi, como sempre, a de um sorriso cético. Embora sem ter jamais fé neles, eu tinha ouvido, na Europa, falar de pretensos clarividentes, de sonâmbulos magnetizados e outras coisas análogas, pelo que, desconfiado, prestei, não obstante, meu silencioso consentimento.

III - MAGIA PSÍQUICA

Desde aquele instante principiou a agir o velho yamabooshi. Alçou a vista ao sol e ao Excelso Espírito de Ten-Dzio-Dai-Dzio que preside ao sol e, achando-o propício, tirou de sob seu manto uma caixinha de laca com um papel de casca de amoreira e uma pena de ave, com a qual desenhou sobre o papiro uns quantos Manirams em caracteres naiden, escrita sagrada que só a entendem certos místicos iniciados. Logo tirou também um espelhinho redondo de aço polido, cujo brilho era extraordinário, e, colocando-o ante os olhos, ordenou-me que olhasse nele. Eu tinha ouvido falar de semelhantes espelhos dos templos e até os tinha visto várias vezes, sendo opinião correta no país que, sob a direção de sacerdotes iniciados, neles podem ver-se aparecer os grandes espíritos reveladores de nosso destino, ou sejam, os daij-dzins. Por isso supus que o ancião ia evocar, com o espelho, a aparição de uma de tais entidades para que respondesse às minhas perguntas, porém o que me aconteceu foi muito diferente.

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Com efeito, tão pronto tomei em minhas mãos o espelho, incomodado pela angústia de minha absurda posição, notei que meus braços e até minha mente estavam

como que paralisados, quiçá por aquele temor que tantos outros sentem perante o invisível roçar de asa da intrusa. O que era aquela sensação tão nova e tão contrária ao meu eterno ceticismo, aquele gelo que paralisava de horror todos os meus nervos e até

a consciência e a razão, em meu próprio cérebro? Corno se uma serpente venenosa me

- o

espelho mágico, sem me atrever a recolhê-lo do sofá em que me havia reclinado. Estabeleceu-se, um momento, em meu ser uma luta terrível entre meu orgulho, meu

ceticismo congênito e a ânsia inexplicável que me impulsionava, a meu pesar, a

mergulhar o olhar no fundo do espelho

olhos puderam ler esta estranha frase em um livrinho aberto, ao acaso, sobre o sofá:

"O véu do futuro descerra-o, às vezes, a mão da misericórdia". Então, como quem repta o Destino, recolhi o fatídico e brilhante disco metálico e dispus-me a olhar nele. O ancião trocou breves palavras com meu amigo, o benze, e este, aplacando minhas constantes suspeitas, disse-me:

- Este santo ancião te adverte, previamente, de que se tu decidires a ver

Venci minha fraqueza um instante e meus

tivesse picado o coração, deixei cair o

- envergonho-me de usar o adjetivo!

magicamente, por fim, no espelho, terás que submeter-te logo a um processo adequado de purificação, sem o qual - acrescentou frisando solenemente as palavras -

o que vai ver o verás uma, mil, cem mil vezes, contra toda a tua vontade e desejo.

- Como? disse-lhe com insolência.

- Sim, uma purificação muito necessária para tua futura tranquilidade; uma

purificação indispensável, se não quiseres sofrer constantemente a maior das torturas;

uma purificação, enfim, sem a qual transformar-te-ás para sempre em um vidente irresponsável e desgraçado; tamanha responsabilidade gravitaria sobre minha consciência de modo categórico, Se não te advertisse.

- Logo haverá tempo para pensar! respondi imprudentemente.

- Já estás, pelo menos, advertido - exclamou o bonzo com desconsolo - e toda a

responsabilidade do que te ocorre cairá unicamente sobre ti mesmo, pela tua tranquilidade absurda! Não pude reprimir minha impaciência e olhei para o relógio, com gesto que não

passou despercebido ao yamabooshi: eram precisamente cinco horas e sete minutos!

- Concentra quanto puderes em tua mente tudo quanto desejares ver ou saber -

disse o "exorcista", pondo-me nas mãos o espelho mágico, com mais impaciência e incredulidade que gratidão de minha parte. Após um último momento de vacilação, exclamei, já olhando no espelho:

- Só desejo saber porque minha irmã deixou de escrever-me tão repentinamente desde

Pronunciei eu, em realidade, tais palavras, ou as pensei apenas? Nunca pude

sabê-lo

espelho misterioso, o yamabooshi tinha estranhamente fixo em mim seu olhar de aço, sem que jamais me haja sido possível esclarecer se aquela cena durou três horas, ou

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somente tenho bem presente que, enquanto mergulhava meu olhar no

apenas três segundos. Recordo, sim, os mínimos detalhes da cena, desde que peguei o espelho com minha mão esquerda, enquanto mantinha, entre o polegar e o índice de minha mão direita, um papiro coalhado de caracteres rúnicos. Recordo que, naquele mesmo ponto, perdi a noção total de quanto me rodeava e foi tão grande a transição de meu estado de vigília para aquele novo e indefinível estado que, embora tendo desaparecido de minha vista o bonzo, o yamabooshi e todo o recinto, eu me via claramente desdobrado, como se fossem de outro, e não meus, minha cabeça e ombros reclinados sobre o divã e com o espelho e o papiro entre as mãos Súbito, experimentei uma necessidade invencível de andar para diante, lançado

como disparado por um projétil, para fora de meu lugar, ia dizendo, néscio, para fora de meu corpo! Ao mesmo tempo que meus outros sentidos se paralisavam, meus olhos, ao que acreditei, adquiriram uma clarividência tal como jamais poderia crer Vi-me, ao que me pareceu, na casa nova, de Nuremberg, habitada por minha irmã, casa que só conhecia por desenho, à frente de panoramas familiares da grande cidade e, ao mesmo tempo, qual luz que se apaga ou centelha vital que se extingue enfim, como algo daquilo que devem experimentar os moribundos. Meu pensamento parecia apoucar-se na noção de "um ridículo muito ridículo" - sentimento que foi interrompido, em seguida, pela clara visão mental de mim mesmo, do que eu considerava meu corpo, meu todo (não posso expressá-lo de outra maneira) re costado no sofá, inerte, frio, os olhos vidrados, com a palidez da morte, toda no semblante, enquanto que, inclinado amorosamente sobre aquele meu cadáver e cortando o ar em todas as direções com suas ossudas mãos amareladas, achava-se a bizarra silhueta do yama-booshi, em direção de quem, naquele momento, sentia o

Assim, quando ia, em pensamento, saltar sobre o

mais raivoso e insaciável ódio

infame charlatão, meu cadáver, os dois anciães, o recinto inteiro, pareceram vibrar e vacilar, flutuando, distanciando-se de mim rapidamente; em meio de um resplendor

avermelhado. Logo rodearam-me umas formas grotescas, vagas, repugnantes. Ao fazer, enfim, um supremo esforço para dar-me conta de quem era eu realmente naquele instante, pois que assim via-me separado brutalmente de meu cadáver, um denso véu de obscuridade informe caiu sobre o meu ser, extinguindo minha mente sob um negro pano funerário

IV - VISÃO DE HORRORES

Onde estou? Que me acontece? perguntei a mim mesmo, ansiosamente, tão logo tornei a achar-me na posse de meus sentidos (a cabo de um tempo cuja duração ser- me-ia impossível precisar), conscientizando-me, com surpresa, de que me movia rapidamente para a frente, ao mesmo tempo que experimentava uma rara e estranha sensação de nadar numa água tranquila, sem esforço nem dificuldade alguma, rodeado de todos os lados pela mais completa obscuridade. Dir-se-ia que vogava ao longo de uma interminável galeria submarina, cheia de água; de um terreno compacto, ao mesmo tempo que perfeitamente penetrável, ou de um ar não menos

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sufocante e denso que a própria terra, embora nenhum daqueles elementos me molestasse, ao mínimo, em minha desesperada marcha de projétil humano lançado

para o desconhecido

"desejo saber as razões pelas quais minha querida irmã guarda tão prolongado

silêncio para comigo que

somente a de "SABER" perdurava angustiosa em meu ouvido, vindo a mim qual criatura vivente que com isso me obcecasse. Outro movimento mais rápido e involuntário, outro novo mergulho, naquele tão informe quanto angustioso elemento, e eis-me aqui, em pé, realmente em pé, dentro

do solo, comprimido por todos os lados, numa terra compacta e que, todavia, se mostrava aos meus sentidos de perfeita transparência. Quão absurda, quão

inexplicável situação! um novo instante de suprema angústia e eis-me agora - horror dos horrores! - com um negro ataúde estendido sob meus pés, um modesto caixão de pinho, derradeiro leito de um infeliz, que não era homem de carne, mas um repugnante esqueleto, deslocado e mutilado, qual vítima de uma nova Inquisição, enquanto aquela voz, minha e ao mesmo tempo não minha, repetia a eterna lenga- "

lenga de "

não obstante, da mais longínqua distância e, despertando, em minha mente, a ideia de que em todas aquelas intoleráveis angústias não tinham levado tempo algum, pois

estava pronunciando, entretanto, as mesmas palavras com as quais, em Kioto ao lado do yamabooshi, principiava a formular meu desejo de saber o que acontecia, naquela oportunidade, à minha pobre irmã. Súbito, aqueles informes e repugnantes restos principiaram a revestir-se de carne e a recompor-se no mais estranho dos retornos retrospectivos, até reintegrar o aspecto normal de um homem cuja fisionomia, ai!, era-me por demais conhecida, pois que representava, nada menos, que o marido de minha pobre irmã, a quem tinha tanto amado, porém a quem, em meio da maior indiferença, via agora destroçado, como se acabasse de ser vítima de um acidente cruel. - Que ocorreu contigo, infeliz? tratei de perguntar-lhe. No inexplicável estado em que me achava, nem bem formulava mentalmente uma pergunta qualquer, a resposta se me apresentava instantaneamente como em um panorama retrospectivo. Vi, pois, assim, no ato, detalhe por detalhe, todas as circunstâncias que rodearam a morte de meu desditoso Karl, a saber: que o chefe da

soando junto a mim, porém como provinda,

" Porém, de tantas palavras que compunham aquela frase,

enquanto ainda sonhava com o eco daquela última frase:

saber

as razões pelas quais

fábrica na qual, cheio de robustez e de vida, ele trabalhava, tinha trazido da América, e montado, uma monstruosa máquina de serrar madeiras; que este para apertar uma porca, ou examinar o motor, tinha tido um momento de descuido e fora colhido pelo jogo do volante, atirado, feito em pedaços antes que os companheiros pudessem

Morto, triturado, transformado em horrível amontoado de

carne e sangue o que, entretanto, não me causava a mais ínfima emoção, como se eu fosse de mármore! Em meu macabro, embora indiferente pesadelo, acompanhei o cortejo fúnebre. Detivemo-nos na casa da família, e como se se tratasse de outro que não eu, presenciei impassível a cena da chegada da espantosa notícia em seus menores

correr em seu auxílio

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detalhes; ouvi o grito de agonia de minha irmã enlouquecida, percebi o golpe surdo de seu corpo, caindo pesadamente sobre os restos de seu esposo e até ouvi pronunciar meu nome. Porém não creiam que o compreendia, como de costume, mas muito mais intensamente, pois que podia acompanhar com a mais impassível das curiosidades indiscretas o estertor e a perturbação instantânea daquele cérebro, ao ocorrer a cena; o movimento vermiforme e agigantado das fibras tubulares; a mudança fulgurante de coloração do encéfalo e a mutação de toda a matéria nervosa, desde o branco ao escarlate, ao vermelho-escuro e ao azul: um relâmpago lívido e fosfórico seguido de completa obscuridade, no âmbito da memória, como se aquela fulguração, surgida da tampa do crânio, se alargasse, desenhando um contorno humano duplicado, desprendido do corpo inerte de minha irmã, o qual se ia distendendo o esfumando, enquanto eu dizia a mim mesmo:

"Isto é a loucura; a incurável loucura em vida, pois que o princípio inteligente, não só está extinto, temporariamente, como acaba de abandonar, para sempre, o

"O

tabernáculo craniano, dele arrojado pela força terrível da repentina emoção"

laço entre a essência animal e divina acaba de romper-se", disse a mim mesmo,

enquanto que, ao ouvir o termo "divino" tão pouco familiar em mim, "meu

ao mesmo tempo que continuavam ressoando, como no

"saber as razões pelas quais

minha querida irmã guarda tão

primeiro momento, o final de minha frase inacabada

Pensamento" pôs-se a rir

"

Ao conjurar minha inacabada pergunta, a cena reveladora continuou. Vi a mãe, minha própria irmã, convertida numa infeliz idiota no manicômio da cidade, e seus sete filhos menores em um asilo, enquanto os meus prediletos, o rapaz de quinze

anos e a mocinha de quatorze, punham-se a serviço como criados. O capitão de um navio mercante levara meu sobrinho e uma velha hebréia adotara a pobre menina. Eu prosseguia, anotando em minha mente todos aqueles horripilantes detalhes, com uma indiferença e sangue frio pasmosos. A mesma ideia de "horrores", deve-se entender como algo ulterior, pois que eu não sentia, em verdade, horror algum, nem experimentei, durante toda aquela visão, a mais leve noção de amor ou de piedade, porque meus sentimentos pareciam paralisados, abolidos, como os sentimentos

externos

enormidade, daquelas perdas irreparáveis, e por isso confesso que não pouco do que sempre negam obstinadamente, via-me admitindo em vista de tão grandes

experiências. Se alguém me houvesse dito antes que o homem podia atuar fora de seu corpo, pensar fora de seu cérebro e ser transportado mentalmente a milhares de léguas de distância de sua carne, por meio de um poder incompreensível e misterioso, imediatamente eu o houvera considerado um louco - e, sem embargo, este louco sou eu! Dez, cem, mil vezes durante o resto de minha miserável existência, passei por semelhante vida, fora de meu corpo. Hora funesta foi aquela em que, pela primeira vez, foi despertada em mim tão horrível poder, pois já nem me resta o consolo de poder atribuir à delírio de loucura, tais visões de acontecimentos

distantes!

contrário, infalivelmente exatas, para desgraça minha.

Se um louco vê o que não existe, minhas visões, ai! resultaram, pelo

Somente ao voltar a mim foi que pude dar-me conta, em toda a sua

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Mas, prossigamos com minha narração. Apenas havia visto minha infeliz sobrinha em seu albergue israelita, quando

recebi um segundo choque da mesma natureza que o primeiro que me tinha impelido e feito vogar através das entranhas da Terra. Abri novamente os olhos e encontrei- me no mesmo ponto de partida, fixando casualmente o olhar nos ponteiros do

relógio que marcavam, mistério absurdo!, cinco e sete minutos e meio

minhas espantosas experiências se tinham desenrolado pois, em somente meio minuto! Todavia, esta mesma noção do brevíssimo instante transcorrido entre o momento em que olhei o relógio, ao tomar o espelho das mãos do yamabooshi, e aquele outro momento de meio minuto depois, é também um pensamento posterior. Ia eu entreabrir os lábios para continuar rindo-me do yamabooshi e de sua experiência, quando a lembrança completa de quanto acabava de ver fulgurou, qual vívido relâmpago, em meu cérebro. Um grito de desespero supremo escapou-se de meu peito e senti como se o mundo inteiro desabasse sobre minha cabeça, num caos de ruína e desolação. Meu coração já pressentia o destino que me aguardava, e um fúnebre manto de tristeza caiu fatal sobre mim para todo o resto de minha vida

Todas as

V - A ETERNA DÚVIDA

Momentos depois do que acabo de contar, experimentei uma reação tão repentina, como repentino foi meu pesar. Uma formidável dúvida, um furioso desejo de negar o que tinha visto, assaltou-me, tratando de considerar o assunto como simples sonho, insubstancial e vão, filho de meu nervosismo e de meu excesso de trabalho. Sim, aquilo não era mais que um falaz reflexo, uma estúpida ilusão sensitiva, uma anomalia de minha debilidade mental, então surgida. - De outro modo, pensava, como pude passar em revista os horríveis e distante panoramas, em apenas meio minuto? Só num sonho podem dar-se por completamente abolidas as noções básicas do tempo e do espaço. O yamabooshi nada tem que ver com semelhante pesadelo de horrores. Não fez, por acaso, senão recolher os próprios clichês de meu cérebro perturbado, usando, casualmente, uma bebida infernal, segredo dos da seita; privou-me do conhecimento durante alguns segundos, para sugerir esta visão monstruosa. A teoria moderna relativa ao sonho e à rápida excitação dos gânglios cerebrais, dão explicação suficiente a quantas anormalidades acabava de experimentar. Fora, pois, néscios temores! Amanhã mesmo partirei para a Europa! Este insensato monólogo, eu o formulei em voz alta, sem o mínimo olhar de respeito para o bonzo, nem sequer para o yamabooshi que hierático em sua notável atitude, parecia ler tranquilamente em meu íntimo, com um silêncio cheio de dignidade. O bonzo, de sua parte, irradiando a mais compassiva simpatia, aproximou-se de mim, como teria feito com uma criança enferma, e com lágrimas nos olhos, disse-me, estreitando as minhas mãos:

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- Pelo que mais amas, amigo meu, não deixes o povoado sem antes ser purificado do impuro contato com os daij-dzins, ou espíritos inferiores, cuja intervenção foi necessária para conduzir tua alma inexperiente até a remota região que ansiavas ver. Não percas, pois, tempo, filho meu; fecha a entrada de tão perigosos intrusos ao teu EU INTERIOR e faça que para isso, em seguida, te purifique o santo Mestre. Nada há tão surdo à razão como a cólera uma vez desatada. A "seiva do raciocínio" não podia, naquele transe, "apagar o fogo da paixão" - bem ao contrário, esta última aquecida ao rubro-branco, já sentia verdadeiro ódio contra o venerável ancião e não podia perdoar-lhe a ingerência no que acontecera. Assim, pois, aquele doce amigo, cujo nome não posso pronunciar hoje sem emoção, recebeu a mais acre e dura repulsa por suas frases, como protesto contra a ideia de que eu nunca pudesse considerar a visão que havia tido senão como simples sonho e, portanto, o yamabooshi como um grande impostor.

- Partirei amanhã, mesmo que seja para perder, com isso, minha vida! insisti furiosamente.

- Mas te arrependerás por toda a vida se antes não fizeres com que o santo

asceta feche, uma por uma, todas as entradas, hoje abertas aos intrusos daij-djins, os quais, ao contrário, não tardarão a dominar-te por completo - prosseguiu,

insistindo o bonzo. Não o deixei continuar, bem ao inverso brutal e desrespeitoso, pronunciei não sei que frase; relativas ao pagamento que devia dar ao yamabooshi, por sua experiência comigo, ao que o bonzo replicou com dignidade régia:

- O santo despreza toda a recompensa. Sua Ordem é a mais rica do mundo, pois que seus membros, por se acharem acima de todos os desejos terrenos, nada

necessitam!

E acrescentou: - Não insultes, assim, o homem compassivo que, por

mera piedade para com tuas dores, prestou-se de bom grado a te livrar de tua tortura mental.

Tudo em vão. O espírito de rebeldia se havia apoderado de mim, em termos tais que já era impossível dar ouvidos a palavras tão cheias de sabedoria. Por sorte, ao volver a cabeça para prosseguir em meus ataques raivosos, o yamabooshi havia desaparecido. Oh! quão estúpido eu era! Cego à evidência, porque não reconheci o sublime poder do santo asceta? Por que não vi que, ao ele desaparecer, fugia para sempre a

paz de minha vida?

de tudo quanto por meus próprios olhos havia visto obstinando-me, sem embargo, em crê-la néscia fantasia, já eram mais poderosos que qualquer outra força de meu ser.

- Devo, acaso, crer com a caterva dos supersticiosos e dos débeis que, acima

deste mero composto de fósforo e outras matérias, haja algo que possa fazer-me ver

independentemente de meus sentidos físicos? Dizia-me, acrescentando: - Nunca! Crer nos daij-djins de meu importuno amigo equivaleria a admitir, também, as chamadas inteligências planetárias pelos astrólogos, e o que os deuses do Sol, de

O fero demônio do ceticismo, a incrédula negação sistemática

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Júpiter, de Saturno ou de Mercúrio, e demais espíritos que guiam as esferas de seus mundos, preocupam-se também com. os mortais. Tamanho absurdo! criaturas invisíveis, arrastando-me pelo âmbito de seus elementos,

é um insulto à razão humana: uma inadmissível miscelânea de loucas superstições. Assim, desvairava eu, ante o bonzo, porém sua paciência inalterável superava, todavia,

meus furores e, uma vez mais, insistiu para que me submetesse à cerimônia da purificação

a fim de evitar horríveis acontecimentos futuros.

- Jamais! gritei exasperado e parafraseando Richter, acrescentei: - Prefiro morar na atmosfera rarefeita de uma sã incredulidade do que nas nebulosidades da néscia

superstição. Porém, como não posso prolongar minha dúvidas, partirei para a Europa no primeiro correio, Semelhante determinação acabou de desconcertar meu bonzo.

- Amigo de terra estranha! exclamou. Oxalá não tenhas que te arrepender tardiamente

de tua cega obstinação. Que Kwan-Ou, ou o Santo Uno e a Deusa da Misericórdia te protejam contra os djins! pois desde o momento em que rechaças a purificação do yama- booshi, ele é impotente para proteger-te contra as más influências evocadas por tua

incredulidade. Permita, ao menos nesta hora solene, a um ancião que te quer bem, ensinar- te algo que todavia, ignoras! Saiba que, a menos que aquele venerável mestre (o qual para aliviar-te de tuas dores, abriu as portas do santuário de tua alma) possa, com a purificação, completar sua obra, tua vida será tão espantosa que não merecerá a pena de ser vivida. Abandonado, assim à mercê de forças poderosas, sentir-te-ás perseguido por elas e acossado até a loucura. O perigoso dom da clarividência realiza-se bem, pela própria vontade, por aqueles para os quais a Mãe da Misericórdia já não tem segredos; tratando- se, ao contrário, de principiantes como tu, não se pode alcançar senão por mediação dos djins aéreos, espíritos da Natureza que, embora inteligentes, carecem do divino dom da compaixão, porque não têm alma como nós. Nada tens que temer deles, em verdade, o arahat ou adepto que já tenha se submetido a semelhantes criaturas, fazendo-as seus submissos servidores, porém que necessita de tamanho poder não é senão um escravo das mesmas. Reprime teu ignorante orgulho e tuas ironias e saibas que durante visões como as tuas, o daij-djin tem o vidente completamente sob seu poder, e este vidente, durante todo o tempo da visão astral não é o mesmo - já não é seu próprio e imanente ser, apenas participa, por assim dizer, da natureza de seu guia, o qual, nos momentos em que dirige sua visão interna, guarda sua alma em vil prisão, convertendo-a em um ser como ele, isto é, em um ser sem alma, despojado de sua divina luz espiritual e, portanto, crescendo da maturidade de toda a emoção humana, tal como o temor, a piedade e o amor. - Já basta! interrompi exasperado, ao recordar com estas últimas palavras a indiferença estranha com que, "em minha alucinação", havia presenciado a catástrofe de meu cunhado, o desespero de minha irmã e sua repentina loucura. Se sabias isto, por que me aconselhaste experiências tão perigosas?

- Ela ia durar tão somente alguns segundos e, dela, mal algum adviria se houvesses

cumprido a promessa de submeter-te depois à purificação. Eu desejava unicamente teu bem, porque meu coração despedaçava-se ao ver-te sofrer, dia após dia; e não ignorava que a experiência, dirigida por alguém que sabe, é inofensiva, somente sendo perigosa

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quando se desobedece àquela precaução. O "Mestre de Visão", aquele que abriu uma entrada em tua alma, é quem tem que fechá-la logo, com o selo da Purificação, contra intrusões ulteriores.

- O "Mestre de Visão"! Dirias melhor, Mestre da Impostura!

Tão dolorosamente intensa foi a expressão de pesar que se refletiu no semblante do bonzo, ao ouvir este último insulto ao seu guia que, levantando-se e saudando-me cerimoniosamente, afastou-se de mim com estas simples palavras:

- Pois bem, adeus!

VI - PARTO, PORÉM NÃO SOZINHO

Poucos dias após a cena, embarquei para a Europa, sem voltar a ver o bondoso bonzo. Sem dúvida estava ofendido por minhas impertinências e insultos. Que estranha fúria, com efeito, apoderava-se de mim e obrigava-me, quase sem poder

Indubitavelmente, mais que uma força exterior

e insensível. que me dominasse, era meu cético amor próprio que assim me impulsionava; e tão seguro achava-me, realmente, acerca das imposturas do yamabooshi, que de antemão já saboreava meu triunfo sobre ele ao voltar para os meus semanas depois e achá-los sãos e felizes. Mas, ai! não fazia uma semana que me encontrava a bordo, quando a venda da incredulidade começou a cair tardiamente, de meus olhos. Desde o memorável dia da experiência do espelho, provava em todo o meu ser inexplicável mudança que, a principio, atribuí as preocupações acerca dos meus parentes, e com as quais estava lutando há vários meses. Durante o dia, encontrava- me abstrato, como abobado; perdendo de vista, por alguns minutos, toda a realidade do que me rodeava. Minhas noites eram intranquilas meus sonhos tristíssimos e até com os horrores de pesadelos angustiosos. Embora bom navegador, com tempo extraordinariamente belo, sentia vago enjoo e, de quando em quando, observava que as fisionomias familiares dos passageiros adquiriam, em tais momentos, as mais grotescas formas de caricaturas. Assim, certa vez Max Guinner, um jovem alemão, a quem conhecia há tempo, pareceu transformado, de repente, em seu velho pai, a quem havíamos enterrado três anos no cemitério de nossa colônia. Conversávamos na coberta, acerca do finado e de seus negócios, quando a cabeça de Max se me deparou rodeada de uma nebulosidade estranha e cinzenta que, condensando-se gradualmente em torno de seu rosto saudável e corado, deu a ele, logo, toda a rugosa aparência daquele a quem outrora eu mesmo sepultara. Outra vez, enquanto o capitão falava de um ladrão malaio, para cuja captura havia contribuído, vi a seu lado a repugnante e amarelada cara do homem que correspondia à descrição do marujo; naturalmente, guardei silêncio a respeito de tamanhas alucinações, crendo-as devidas a causas visíveis de que fala a Medicina, eis por que se iam fazendo mais frequentes dia a dia.

remediar, a insultar o santo asceta?

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Certa noite, senti-me despertar bruscamente por um penetrante grito de

Era a voz de uma mulher no paroxismo de seu desespero impotente.

Despertando, saltei num aposento que me era completamente desconhecido, onde uma adolescente, quase uma menina, lutava desesperadamente contra um homem de meia idade e de força hercúlea, que a tinha surpreendido enquanto dormia, ao mesmo tempo que, atrás da porta, fechada à chave, observei uma velha de sentinela, em cuja expressão infernal reconheci imediatamente a judia que tinha adotado minha sobrinha, como vira no sonho de Kioto, pelas artes do yamabooshi. Ao voltar ao meu estado normal e dar-me conta de minha situação, percebi, oh! cruel desespero!, que a vítima da brutal afronta não era senão minha própria sobrinha. Nem mais nem menos que em minha primeira visão em Kioto, eu não sentia em mim essa compaixão que nasce da simpatia com a desgraça de um ser amado, mas apenas uma indignação varonil ante a afronta infligida a uma criatura desvalida. Assim, precipitei-me ferozmente em seu socorro, saltando ao pescoço daquele ser lascivo e bestial; porém, não obstante meu esforço raivoso, o homem continuou como se eu não existisse. O rufião covarde, exasperado com a resistência da donzela, levantou irritado seu vigoroso braço e com um terrível soco sobre os dourados cachos de sua cabecinha, jogou-a ao chão. Saltei, então, sobre a lúbrica besta, prorrompendo num rugido de tigre que defende seus filhotes, tratando de segurá-lo entre minhas garras; porém, horror dos horrores!, notei, então, pela primeira vez, que aquele meu EU não era senão uma sombra vã! Minhas imprecações e gritos despertaram todos os passageiros, que os atribuíram a um pesadelo, de modo que não tentei confiar a ninguém o que me acontecia. Mas, desde aquele infausto dia, minha vida não foi senão uma interminável série de torturas porque, apenas cerrava os olhos, representava-se-me com singular viveza o espantoso quadro de dores, desastres e crimes passados, presentes e futuros, como se um demônio obsessor se comprazesse em oferecer-me o macabro panorama de tudo quanto de horripilante, bestial ou maligno existe neste

angústia

desprezível mundo. Nunca um raio de felicidade, beleza ou virtude desceu, em troca, até o lôbrego cárcere de meu infortúnio mental, senão lascívias, traições e crueldades sem fim, em interminável caleidoscópio, como consequência das paixões humanas desencadeadas algures. Será tudo isto - disse a mim mesmo, por fim - o cumprimento fatal do vaticínio de meu amigo bonzo? Estará minha alma real e efetivamente sob o ímpio domínio

Mas não - respondi a mim mesmo logo, tratando em vão de

dos cruéis daij-djins?

recobrar a tranquilidade perdida. Isto não é senão uma anormalidade passageira que cessará tão logo me veja em Nuremberg e me convença do infundado de meus absurdos temores. O próprio fato de que minha imaginação não me oferece senão

cenas macabras, demonstra que isso carece de toda a realidade. Mas, então, acreditei estar ouvindo as palavras do bonzo, quando me dizia:

- O homem tem dois planos únicos de visão: o augusto plano do amor transcendental e as aspirações espirituais em direção de uma eterna luz e o tempestuoso mar de paixões humanas, em cuja luz inferior se banham os transviados

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dajj-djins.

VII - A ETERNIDADE É UM SONHO FUGAZ!

Outrora, as absurdas crenças de certas pessoas, com respeito aos espíritos bons

e maus, pareciam-me incompreensíveis, porém, a partir, ai!, das dolorosas

experiências daqueles momentos, passei a compreendê-las. Para robustecer, não obstante, minha incredulidade nata, procurava evocar em minha mente o quanto me era dado: as lembranças de minhas leituras anti- supersticiosas; o judicioso raciocinar de Hume; as áticas mordacidades sarcásticas de

Voltaire e aquelas passagens de Rousseau, onde chamava a superstição de "a eterna perturbação da sociedade". - Para que afetarmo-nos com as fantasmagorias do sonho

- dizia com eles - quando logo comprovamos sua completa falsidade, em vigília? por que, como diz o clássico, hão de assustar-nos com coisas que não existem? conceitos cujo sentido vemos? Um dia em que o velho capitão relatava-nos histórias supersticiosas de marinheiros, um enfatuado e pedante missionário inglês recordou-nos aquela frase de Fielding: "a superstição dá ao homem a estupidez de um animal", porém, no mesmo instante em que dizia isso, eu o vi vacilar de modo estranho e deter-se bruscamente, enquanto eu, que permanecia afastado da conversação geral, acreditei

ler claramente na auréola de vibrantes radiações, que há muitos dias percebia sobre

todas as cabeças, as palavras com que Fielding concluía sua proposição: "e o ceticismo

o torna louco" Tinha já ouvido falar muitas vezes, sem admiti-la, a afirmação de que, aqueles que pretendem gozar do duvidoso privilégio da clarividência, veem os pensamentos das pessoas presentes "como retratados em seu próprio aura". Eu já, paradoxo absurdo!, via-me dotado, com efeito, da faculdade desagradabilíssima de poder comprovar, por mim, a exatidão do odioso fato, acrescentando um novo conjunto de horrores à minha ridícula vida, vendo-me forçado a ter que ocultar, aos demais, tão funestos dons, como se se tratasse de um caso de lepra. Meu ódio, então, contra o yamabooshi e o bonzo não tinha limites, pois aquele, sem dúvida alguma, havia tocado com suas nefastas manipulações alguma secreta mola de meu cérebro fisiológico e posto em ação alguma faculdade das comumente ocultas na constituição E o maldito farsante japonês havia injetado tal praga em mim mesmo! Praticamente de nada servia minha impotente cólera. Ademais, vogávamos já em águas europeias e, dali a poucos dias, ancoraríamos em Hamburgo, onde

cessariam minhas dúvidas e temores. Ainda quando a clarividência pudesse existir em algum caso, tal como na leitura dos pensamentos, no ver as coisas à distância, do modo pelo qual eu o havia sonhado sob a sugestão do yamabooshi, era demasiado

admitir, dentro das possibilidades humanas

(meu coração parecia dizer que me enganava com eles), sentindo como se minha

definitiva condenação estivesse próxima, com sofrimentos tão torturantes que

Sopesei todos estes tristes raciocínios

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intensificavam perigosamente minha prostração física e mental. Na mesma noite de nossa entrada em Hamburgo, assaltou-me um sonho cruel. Parecia que eu mesmo me via morto; meu corpo jazia rígido e inerte e, ao mesmo tempo que minha consciência dava conta disso, parecia preparar-se também para a sua extinção. Mas como tinha aprendido que o cérebro conservava o calor vital durante uns minutos mais que os órgãos periféricos, aquilo que não me podia causar estranheza. Assim, no crepúsculo do grande mistério, já sem dúvida à borda da tenebrosa cova "da qual nenhum mortal pode regressar, uma vez franqueada", meu pensamento, envolto nos restos de uma vitalidade que escapava de instante a instante ia extinguindo-se como uma chama, assistindo ao mesmo tempo a seu aniquilamento, porém tomando o meu EU nota daquelas minhas últimas impressões, com o apressuramento de quem sabe que lhe vai cair o negro manto do nada sobre a consciência, para ter o gozo de sentir todo o grande triunfo de minhas convicções relativas à completa e absoluta cessação de ser. Por momentos, tudo se ia escurecendo ao meu redor. Enormes sombras, fantásticas e informes, desfilavam ante meu desvanecido olhar: primeiro lentas, logo aceleradas e, finalmente, girando vertiginosamente em torno de mim, qual em terrível dança macabra e, uma vez alcançado seu objetivo de intensificar as trevas, abrindo um como indefinido espaço de vazios e impalpáveis negrumes, um insondável oceano de eternidade, pelo qual, ilimitado, deslizava o tempo, essa fantástica progênie do homem, sem que jamais consiga acabar de cruzá-lo Não foi em vão que Catão disse que os sonhos não são mais do que o reflexo de todos os nossos temores e esperanças. Como em estado de vigília jamais temi a

morte, ante a evidência de meu afã, senti-me tranquilo, até consolado de que o término de minhas torturas mentais se avizinhasse. A angústia, aquela angústia, já se havia tornado intolerável, e se, como disse Sêneca, a morte não e senão a cessação de tudo quanto fomos antes - valia mais morrer do que suportar durante tantos meses tamanha agonia. - Meu corpo já está morto - dizia de mim para mim - e meu EU, minha consciência, que é o que de mim permanece por alguns momentos mais, prepare-se já para segui-lo; minhas percepções mentais, enfraquecendo-se, ir-se-ão apagando, segundo por segundo, até que o anelado esquecimento envolva-me por completo em seu sudário. Vem, pois, doce e consoladora morte; teu sonho sem sonhos é um

! Ali, em seu regaço

eterno, descançarei para sempre, e tu, pobre corpo, adeus! Gostosamente te abandono, já que me tens dado mais dores do que prazeres na vida! Enquanto eu entoava este hino à morte libertadora, examinava-a, concomitantemente, com estranha curiesidade, não me podendo maravilhar menos,

sem embargo, de que minha ação cerebral continuasse sendo tão vigorosa. Meu corpo, desaparecido de minha vista por alguns segundos, reaparecia uma e várias

De improviso, experimentei um violentíssimo desejo

vezes com sua face cadavérica

de saber quanto duraria o complicado processo de minha dissolução, antes que o cérebro, estampando seu último sinete, deixasse-me inerte. Através das, para mim

porto de paz e de refúgio, em meio das borrascas da vida

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transparentes paredes de meu crânio, podia contemplar e até tocar minha massa cerebral. Com que mãos? é-me impossível precisá-lo; porém o contato de sua fria e viscosa matéria, produzia-me profundíssima impressão. Com um terror indizível, compreendi que meu sangue se havia congelado por completo e que, alterada a íntima

constituição de minhas células cerebrais, já se impossibilitava, de modo absoluto, todo

Ao mesmo tempo, a mesma, ou maior obscuridade, rodeava-

me, impenetrável, em todas as direções; além disso, porém, à minha frente, e fosse qual fosse a direção de meu olhar, via um gigantesco relógio circular, cuja caraça enorme e branca destacava-se de um modo sinistro sobre aquela escura moldura que o rodeava. Seu pêndulo oscilava com a costumeira regularidade, de um lado para outro, como se pretendesse divisar a eternidade, assinalando os ponteiros (coisa bem

extraordinária!) as cinco e sete minutos, quer dizer, a hora precisa em que começara, em Kioto, a minha tortura! Mal notei essa terrível coincidência, quando horrorizado, do modo mais pavoroso, senti-me arrastado de maneira idêntica a outrora: nadando, vogando veloz por baixo do solo, no mesmo meio viscoso e paradoxal. Assim, vi-me outra vez ante a tumba, onde os despedaçados restos de meu cunhado jaziam; presenciei logo, retrospectivamente, sua infeliz morte; a cena da recepção da notícia fatal por minha irmã, com o aditamento de sua loucura - tudo sem perder o mínimo detalhe. Para maior espanto, desta vez, ai!, já não estava escudado por aquela tranquila indiferença de pedra com que vi pela primeira vez a cena, a não ser que minhas torturas mentais, minha ansiedade, meu desespero, em meio daquele ciclone de

Oh! e como sofria com aquele acúmulo de horrores

infernais acrescido do pior de tudo, que era a desesperada realidade de que meu corpo

já estava morto!

Nem bem se fez uma leve pausa de alívio, tornei a ver, de igual modo a enorme esfera com seus ponteiros colossais, marcando cinco e sete minutos! porém, antes que houvesse tido tempo de dar-me conta exata de tal mudança, o ponteiro começou a mover-se lentamente para trás, detendo-se no sétimo minuto, para sentir-me outra e outra vez forçado a padecer, interminavelmente, a repetição exata e implacável das mesmíssimas cenas espantosas que pareciam não terminar jamais. Ao mesmo tempo, minha consciência parecia triplicar-se, quintuplicar-se, decuplicar-se, podendo viver e sentir, no mesmo lapso de tempo e em meia dezena de lugares, ao mesmo tempo, desfilando ante mim múltiplos acontecimentos de sua vida, em diferentes épocas de minha vida, porém, predominando sobre todas, minha experiência espiritual de Kioto. À maneira da famosa fuga de D. Juan de Mozart, destacam-se dilacerantes as notas de desesperação de Elvira, sem que por isso se entrecruzem ou confundam-se com a melodia do minueto, com o canto de sedução ou com o coro; da mesma maneira, passei, uma e mil vezes, mesclada com as aflições das demais cenas, por aquela indescritível agonia de Kioto, ouvindo as inúteis exortações do bonzo, ao mesmo tempo que se apresentavam (sem com isso confundirem-se) múltiplas recordações: ora de minha meninice, ora de minha adolescência, ora de meus pais, ora, enfim, daquele dia memorável em que salvara um amigo que se estava

o seu funcionamento

morte, já não tinham limites

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afogando e ria-me de seu pai que me agradecia por haver salvo "sua alma" não preparada ainda, sem dúvida, para dar contas a "seu Criador". Tudo isso,

supostamente, na consciência mais complicada e multiforme!

- Falai, falai de personalidades múltiplas, vós, professores de psicofisiologia! dizia- me, em meio daquela tortura que haveria bastado para matar meia dezena de homens.

Jamais

poderíeis explicar-me, não obstante a sucessão daquela horrorosa cadeia real, ao mesmo tempo que sonhada, cujo desfilar parecia não ter fim. Não, embora minha consciência se rebelasse contra certas afirmações teológicas, já não podia negar a

Qual é, pois, oh! Mistério!, tua insondável Realidade que

de tal modo conduz meu pensamento e minha imaginação, sem término conhecido e com o corpo já morto? Poderá, acaso, ser certa essa doutrina da reencarnação, na qual tanto porfiava o bonzo para que cresse? Por que não, se cada ano nasce, de uma mesma e permanente raiz, uma nova folha e uma nova flor? Nesse ponto, o fatídico relógio desapareceu enquanto a voz carinhosa do bonzo, uma vez mais, parecia repetir: "No caso de terdes aberto somente uma vez a porta do augusto Santuário de tua alma, terás que abri-la e cerrá-la uma e mil vezes durante um período que, por mais curto que seja, parecer-te-á uma eternidade" Um instante depois, a voz do bonzo era afogada pela multidão de outras vozes na coberta. Alagado em um suor frio, despertei. Estávamos em Hamburgo!

realidade do meu EU imortal

Falai, vós, orgulhosos e enfatuados com a leitura de milhares de livros!

VIII - DESGRAÇAS A GRANEL

Meus sócios de Hamburgo apenas puderam reconhecer-me, tão enfermo e

mudado estava. Imediatamente parti para Nuremberg. Meia hora depois de minha chegada, toda a dúvida relativa à verdade de minha visão de Kioto havia desaparecido. A realidade era, se possível, pior do que aquela e, daí por diante, estava condenado à vida mais infeliz. Podia estar seguro de que, com efeito, havia visto um por um todos os detalhes da tragédia desalentadora: meu cunhado despedaçado pelas engrenagens da máquina; minha irmã, louca e prestes a morrer; minha sobrinha, a flor mais perfeita da Natureza, desonrada e num antro de infâmia; os meninos pequenos, mortos num asilo, de uma enfermidade contagiosa e o único sobrinho sobrevivente, ausente, em paradeiro ignorado. Todo um lar feliz, aniquilado, restando somente eu, como triste testemunha disso, neste miserável mundo de desolação, desonra e morte. A brutalidade do choque, o peso horrendo do enorme desastre, fez-me cair desacordado, porém não sem antes ouvir estas cruéis palavras do burgomestre:

- Se antes de partir de Kioto houvesses telegrafado às autoridades da cidade,

dando tua residência e intenção de regressar ao país para te encarregares da família,

teríamos podido colocá-la provisoriamente em outra parte, salvando-os, assim, de seu destino; porém, como ignorássemos que as crianças tinham algum parente, somente pudemos interná-los no asilo onde, por desgraça, sucumbiram

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Este era o golpe de graça dado ao meu desespero. Sim, minha negligência matara os meus pequenos sobrinhos! Se eu, em vez de aferrar-me a meu ridículo ceticismo, tivesse seguido os conselhos do bonzo Tamoora e dado crédito à desgraça que, por clarividência e clariaudiência, me tinha feito ver e ouvir o yamabooshi, aquilo se teria podido evitar, telegrafando às autoridades antes de meu regresso. Talvez a censura de meus semelhantes não me pudesse alcançar, porém, jamais, poderia escapar às recriminações de minha própria consciência, nem a tortura de meu coração, em todos os dias de minha vida. Foi aí, então, que maldisse minha pertinaz tranquilidade; a negação sistemática dos fatos que eu mesmo havia visto e até minha destorcida educação. O mundo inteiro não havia sabido dar-me outra Sobrepus-me à minha dor, num supremo esforço a fim de cumprir um último dever para com os mortos e os vivos. Porém, uma vez tirada minha irmã do hospital, trouxe para seu lado a filha para assisti-la em seus últimos dias (não sem obrigar a infame judia a confessar seu crime), depois todas as forças abandonaram-me e, uma semana apenas após minha chegada converti-me num louco delirante, sob a garra de uma febre cerebral. Durante algum tempo flutuei entre a morte e a vida, desafiando a perícia dos melhores médicos. Por fim, venceu minha robusta constituição e, com grande pesar meu, declararam-me salvo. Salvo, sim, mas condenado a levar eternamente, sobre meus ombros, a carga enfadonha da vida, sem esperança de remédio na Terra e recusando crer em outra coisa mais senão na curta sobrevivência da consciência, além-túmulo e com o aditamento insuportável da volta imediata durante os primeiros dias de convalescença, daquelas inevitáveis visões, cuja realidade já não podia negar, nem considerá-las, dali em diante, como "as filhas de um cérebro ocioso, concebidas por louca fantasia" senão a fotografia das desgraças de meus melhores' amigos! Minha fortuna era, pois, a de Prometeu acorrentado, e, durante a noite, uma desapiedada e férrea mão conduzia-me à cabeceira da cama de minha irmã, forçado a observar, hora por hora, o silencioso desmoronar do seu desgastado organismo e a presenciar, como se dentro dele estivesse, os sofrimentos de um cérebro desabitado por seu dono, e impossibilitado de refletir ou transmitir suas percepções. Ainda havia algo pior para mim: era ter que olhar, durante o dia, o rosto inocente e infantil de minha sobrinhazinha, tão sublimemente pura em sua própria profanação, e presenciar, durante a noite (com a volta de minhas visões) a cena sempre renovada de sua desonra. Sonhos de perfeita forma objetiva, idênticos aos sofridos no vapor, e noite após noite repetidos Algo, sem embargo, se havia transformado em mim, como a lagarta que, metamorfoseando-se em crisálida, acaba por converter-se em mariposa - o símbolo da alma; algo novo e transcendental havia brotado em meu ser (de seu antes fechado casulo); já via, não só como origem e consequência da identificação de minha natureza interna com a do daij-djin obsessor, mas pelo espontâneo desdobramento de um novo poder pessoal e psíquico que aquelas criaturas infernais tratavam de impedir, pensando que não pudesse ver nada elevado nem agradável. Meu lacerado coração já era fonte de amor e simpatia para com todas as dores de meus semelhantes, como se um coração novo pulsasse fora do coração físico,

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repercutindo fortemente em minha alma separada do corpo. Assim, infeliz de mim!, tive que esgotar o fel do sofrimento por haver rechaçado, em Kioto, a purificação oferecida, purificação em que, tardiamente, já acreditava sob o jugo insuportável do daij-djin. Pouco falta de minha triste história. Minha pobre irmã, louca, pobre mártir, faleceu por fim vítima de tuberculose; sua terna filha não tardou em segui-la. Quanto a mim, já era um ancião prematuro de sessenta anos, em vez de trinta. Incapaz de sacudir o jugo que me mantinha às bordas da loucura, tomei a resolução heroica de voltar a Kioto, prostrar-me aos pés do yamabooshi, pedir-lhe perdão por minha nescidade e não afastar-me de seu lado até que aquele espírito infernal, que eu mesmo havia evocado e do qual minha incredulidade impediu de me separar, fosse afugentado para sempre. Três meses depois vi-me, novamente, em minha casa japonesa, ao lado do venerável bonzo Tamoora Hideyeri, para que me conduzisse, sem perder um

momento, à presença do santo asceta

o yamabooshi havia abandonado o país sem que se soubesse seu paradeiro e, segundo seu costume, não voltaria senão dentro de sete anos! Ante tamanho contratempo, fui pedir ajuda e proteção a outros santos yamabooshis, e, embora soubesse de sobra que em meu caso era inútil buscar outro Adepto eficaz que me curasse, meu venerável amigo Tamoora fez quanto pôde para remediar minha desgraçada situação. Tudo em vão! aquele verme roedor ameaçava sempre acabar com minha razão e vida. O bonzo e outros santos varões de sua comunidade convidaram-me a que me incorporasse a seu instituto, dizendo-me:

- Só aquele que invocou sobre ti o daij-djin é que tem o poder de afugentá-lo. Nesse ínterim, a vontade e a fé firme nos nativos poderes inerentes à nossa alma é o que te pode servir de lenitivo. Um "espírito" de tal perversão pode ser desalojado facilmente de uma alma no início, porém se se deixar apoderar dela, como em teu caso, torna-se logo quase impossível desarraigar tamanho ente infernal, sem pôr em grande perigo a vida da vítima. Agradecido, aceitei o que aqueles piedosos varões me propunham. Não obstante, o demônio de minha incredulidade, tão arraigada em minha alma como o próprio daij-djin, esforcei-me em não perder aquela última probabilidade de salvação. Arranjei, pois, meus negócios comerciais. Apesar de minhas perdas, vi-me surpreendido pois possuía uma fortuna regular, embora a riqueza, sem ninguém com quem compartilhar já não tivesse atrativo algum para mim, porque, com o grande Lao-Tsé, já tinha aprendido que o conhecimento, a distinção entre o que é real e o que é ilusório, é a âncora de salvação contra os embates da vida. Assegurada uma pequena renda, abandonei o mundo e incorporei-me ao corpo discente de "Os Mestres da Grande Visão", num retiro tranquilo e misterioso onde, na solidão e no silêncio, trago examinados mil profundos problemas da ciência e da vida, e lidos numerosos volumes secretos da biblioteca oculta de Tzionene, mediante o que logrei o domínio sobre certos seres do mundo inferior. Porém, não pude conseguir o grande segredo de assenhoreamento sobre os funestos daij-djins. A chave sobre tão perigoso elementar

A resposta do bonzo encheu-se de estupor:

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só é possuída pelos mais altos iniciados daquela Escola de Ocultismo, pois é necessário chegar antes à suprema categoria dos santos yamabooshis. Meu eterno e inato ceticismo era sempre um obstáculo a grandes progressos, e, assim, em minha nova situação serenamente ascética, os já conhecidos quadros se reproduziam, de quando em quando, sem que eu o pudesse evitar, pelo que, convencido de minha inaptidão para a condição sublime de um Adepto ou de um Vidente, desisti de continuar. Já sem esperanças de perder por completo meu dom fatal, regressei à Europa, confinando-me neste chalé suíço, onde minha infeliz irmã e eu tínhamos nascido, e de onde escrevo. - Meu filho - tinha-me dito o nobre bonzo - não te desesperes. Considere como uma simples consequência de teu Karma o que te sucedeu. Nenhum homem que se tenha entregue ao assenhoreamento de um daij-djin pode jamais esperar alcançar o estado de yamabooshi, Arahat ou Adepto, a menos que seja purificado imediatamente. Como a cicatriz que toda a ferida deixa, a marca fatídica de um daij- djin não pode apagar-se jamais de uma alma, até que esta seja purificada por um novo nascimento. Não te desalentes, ao contrário, resigna-te com a desgraça que te conduziu, mais ou menos tortuosamente, a adquirir certos conhecimentos transcendentais, que de outro modo sempre haverias de desprezar. De tamanho conhecimento não te poderá despojar nunca o mais poderoso daij-djin. Adeus, pois, e que a Grande Mãe da Misericórdia te conceda sua proteção augusta e seu consolo Desde então, minha vida de estudioso anacoreta tornou muito mais espaçadas as minhas visões; bendigo ao yamabooshi que me tirou do abismo de meu materialismo primitivo. Mantive a mais fraternal das correspondências com o bonzo Tamoora Hindeyeri, cuja santa morte, graças a meu funesto dom, tive o privilégio de presenciar, a milhares de léguas, no mesmo instante em que ocorria.

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A FAÇANHA DE UM GOSAIN HINDU

Na Índia, como na China, no Japão e em outras partes do Oriente, é inegável que existam jograis ou prestidigitadores, alguns dos quais superam com suas habilidades tudo quanto conhecemos aqui no Ocidente. Porém estes jograis estão longe de

conseguir realizar os prodígios que executam os faquires, tais como o do crescimento extraordinário da mangueira discutido pelo Dr. Carpenter, nestes termos: (1) (1). Este caso é frequente. Aqui vai um outro relato semelhante tirado de

uma revista espiritualista: "O falecido Dr. B

Cirurgiões, de Londres, a quem me uniam os mais íntimos laços de amizade - conta o Dr. F. Malibran em "Asclepios" - era um homem de dotes excepcionais. Além de ocupar lugar muito destacado em sua profissão, havia viajado longamente, em particular pela Índia, e conhecia vários idiomas orientais. Era de trato agradável e caráter jovial, e se se lhe podia imputar algum defeito eram os seus gostos raros e estrambóticos. Para ele, todo o fantástico e misterioso tinha um encanto especial. Das paredes de seu gabinete pendiam os quadros enigmáticos de Wiertz, os desenhos grotescos de Blake e as incoerentes composições de Fusell. Quanto aos volumes que formavam sua copiosa biblioteca, ali se podiam consultar tratados sobre ciências cabalísticas, teosofia e espiritismo: Jacobo Bohme, Blavastsky,

Flammarion, Myers, etc. Entre as obras curiosas figuravam as narrações inverossímeis de Poe, os contos humorísticos de Balzac e as novelas fantásticas de Hoffmann. Falando uma tarde sobre a Índia e as coisas extraordinárias que se podem ver nesse país, relatou-me assim a façanha de um faquir:

Passeando uma tarde por um dos bairros mais pobres de Madras, observei um desses faquires rodeado por um grupo de trinta ou quarenta pessoas. O faquir percorreu com a vista o círculo de espectadores e, calculando que eram suficientes, disse: "Meus irmãos, quero que me obsequieis com uns tantos parahs (centavos) e terei, então muito prazer em mostrar-vos a "Sorte da Mangueira". A maior parte das pessoas presentes contribuiu com sua quota, e o faquir, muito contente com a coleta, colocou- se, em seguida, no centro do grupo e iniciou seus preparativos. Tirou do cinturão um caroço de manga e começou a cavar, com facão, um buraco no solo. Enterrou logo o caroço em questão e tornou a tapar o buraco com terra. Feita esta manobra, cobriu o lugar com um lenço e dando uns passos para trás, cruzou os braços e levantou os olhos aos céus, murmurando uns tantos encantamentos. Terminada a ladainha, levantou o lenço e apareceu uma mudinha de manga, a qual foi tomando maiores dimensões até alcançar a

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, membro do Real Colégio de

altura de quase vinte pés. "Olhai, disse o faquir com um sorriso de satisfação. Quão alta está a planta e quão formosa fruta pende dela! Vou trepar por seus ramos e atirar-vos-ei umas saborosas mangas". Efetivamente, começou a subir pela árvore até chegar aos ramos mais elevados, desaparecendo entre elas, por completo. Todos nós, cheios de surpresa, esperávamos que o faquir mostrasse a cara; porém, em lugar disso, a visão da folhagem se foi tornando cada vez mais tênue e, como o faquir, terminou por desvanecer-se no espaço. Como explicar esse fenômeno? Não posso absolutamente: ou fomos todos vítimas de uma ilusão de ótica, ou o faquir nos hipnotizou e se escapou antes que pudéssemos voltar de nosso estupor." Já não falemos de outra arrepiante experiência dos "enterrados vivos", ato de faquirismo que os europeus já trataram de imitar, ora com atos, como o recente do "Palace Hotel", de Madri, ou como os do hindu Kapparu que, em Sandouski (Estado de Ohio), hipnotizou uma jovem americana, Miss Florence Gibson, enterrando-a viva a dois metros de profundidade, deixando-a oito dias sepultada. A sensacional experiência foi levada a cabo perante três mil pessoas. Miss Florence Gibson submeteu-se a ela desejando assegurar, com a soma combinada, seu futuro e a velhice de sua mãe, a quem devia ser entregue o tanto convencionado, se se desse o caso de ela não voltar à vida. Conduzida a Cida Point Opera House, foi ali hipnotizada, posta em um caixão e enterrada. No oitavo dia, desenterraram o caixão e Miss Florence apareceu aos médicos e espectadores num estado horroroso. Seu corpo estava rígido e frio, seus lábios sem cor e suas roupas impregnadas de umidade. O hindu empregou uma hora em suas lidas para devolver a vida àquele corpo inerte. Por fim Miss Florence exalou um profundo suspiro; agitaram-se convulsamente seus membros e os olhos abriram-se espantados. Salvo um cansaço marcante, os médicos não acharam nenhuma outra irregularidade nos movimentos respiratórios. Miss Florence não experimentou sensação alguma, dentro do ataúde, e narra sua ressurreição do seguinte modo:

"Tive a impressão de que caía de uma altura imensa e que era arrebatada por uma catarata. Meus membros estavam rígidos e acreditava que se iam quebrar. Parecia haver crescido algumas polegadas. Não voltaria a submeter- me a esta experiência nem por um milhão". "A maioria dos que visitaram a Índia asseguram que é, verdadeiramente, a maior maravilha até então vista. Que uma robusta mangueira cresça, de pronto, até seis polegadas de altura num pedaço de terra cheio de erva, não manipulado nem visitado antes pelo faquir, depois de coberto com um cestinho emborcado e que a mesma árvore de seis polegadas até seis pés, debaixo de cestos cada vez maiores e no intervalo de apenas meia hora, é coisa prodigiosa que deixa bem para trás as mais vistosas prestidigitações da própria médium feminista Miss Nidul". A propósito do caso que antecede, seja-me permitido narrar outro, de minha

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experiência pessoal quando das viagens que fiz pelo Oriente misterioso. Achava-me em Carapuz, caminho de Benares - a cidade santa dos hindus - quando roubaram de uma senhora minha amiga todo o conteúdo de sua maleta:

joias, roupas e até um livro de anotações, com o diário que, esmeradamente, há três meses fazia. Tudo havia desaparecido misteriosamente do fundo de sua maleta, sem que a fechadura fechada, bem como os lados da maleta, apresentassem o menor vestígio de violação. Havia decorrido, pelo menos, várias horas desde o desaparecimento dos objetos, um dia e uma noite quiçá, pois foi o que havíamos empregado em visitar as ruínas vizinhas ocasionadas pelas hostes de Nana Sahib, em represália aos ingleses invasores.

A primeira ideia que ocorreu, naturalmente, à minha amiga, foi a de recorrer à

Polícia, e o primeiro pensamento meu, pelo contrário, foi o de pedir ajuda a algum

santo homem, ou gosain, verdadeiros sabe-tudo, ou em sua ausência a um jogral. Porém os prejuízos de nossa civilização prevaleceram, como sempre, na decisão de minha companheira, que perdeu mais de uma semana em pesquisas inúteis e em

idas e vindas à chabutara, ou chefatura de polícia hindu. Já cansada, concordou, por fim, com meus desejos e procurou-se, então, um gosain que chegou logo a nosso bangalô, situado à margem direita do rio, dominando todo o panorama do Ganges.

A experiência realizou-se ali mesmo no terraço da casinha, perante a família

toda de nosso hospedeiro, português mestiço, muito amável, dois franceses recém- chegados que, ímpios riam-se de nossa estúpida superstição, a interessada e eu. Eram três horas da tarde. O calor nos sufocava não obstante o que, o santo gosain,

verdadeiro esqueleto vivente, de cor acaju, pediu para desligar o gigantesco ventilador que, para refrescar um pouco aquele ambiente de forno, estava suspenso sobre nossas cabeças. Sem dúvida, embora não o dissesse, assim o exigia porque é sabido que as correntes de ar contrariam a produção de todos os fenômenos magnéticos de caráter delicado. Recordei, então, o famoso processo adivinhatório chamado de "marmita ou gamela viva", que é o instrumento ordinariamente empregado pelos hindus para descobrir o paradeiro dos objetos perdidos; pois, sob o influxo do magnetizador que o manipula, o utensílio em questão gira e roda pelo solo até chegar ao lugar onde jaz o objeto que se busca, pensando, então, que o gosatn o empregaria também. Porém, equivoquei-me em minhas deduções.

O gosain, com efeito, procedeu de um modo muito diverso. Pediu que lhe dessem um

objeto qualquer de uso pessoal da dona e que houvesse estado em contato com os perdidos, na maleta. A senhora entregou, então, um par de luvas, que ele comprimiu entre as mãos dando-lhes muitas voltas, como se fizesse delas pelota. tirou-as ao chão e em seguida estendeu seus braços em cruz, com os dedos abertos, dando uma volta completa

sobre si mesmo como para orientar-se na direção em que estivessem os objetos roubados. Deteve-se, de repente, com uma viva sacudidela elétrica e, espichando-se em todo o seu comprimento, permaneceu imóvel. Sentou-se, por fim, com as pernas cruzadas e com os braços sempre estendidos na mesma direção, como sob um forte estado catalético. A operação durou uma longa hora, tempo que, naquela atmosfera, constituía para nós

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uma verdadeira tortura, até que, instantaneamente nosso hóspede deu um salto até a balaustrada e começou a olhar na direção do rio, como extasiado por um encanto misterioso. Todos nós olhamos também ansiosos na mesma direção, vendo vir, com efeito, não se sabe como nem de onde, um escuro volume, cuja verdadeira natureza nos era impossível discernir. A mole em questão, dir-se-ia vir impelida por uma força misteriosa, dando voltas, primeiro com lentidão e depois com grande rapidez, como a conhecida "marmita giratória", antes referida. Flutuava o volume como sustentado por invisível barquinha de aerostato e vinha em direção a nós, como uma ave que viesse voando. Logo aquilo chegou até à margem do rio e desapareceu entre a vegetação de sua margem, para reaparecer em pouco, batendo ao saltar a paredinha do jardim, para cair pesadamente, por fim, sobre as mãos estendidas do santo asceta, ou gosain, que o recolheu com um movimento automático. Ao abrir, então, o ancião seus olhos fechados deu um profundo suspiro, apoderando- se dele violentíssimo tremor convulso, enquanto nós tínhamos ficado paralisados de assombro e os dois franceses, antes tão céticos, pareciam como que idiotizados. O gosain levantou-se logo retirou o invólucro de lona com breu, dentro do qual: oh! surpresa!, achavam-se os objetos roubados e em bom estado, sem faltar nenhum; finalmente, sem dizer palavra e sem esperar receber, por seu prodígio, nem os agradecimentos sequer da inibida dona dos objetos fez uma profunda reverência e desapareceu rua abaixo, custando- nos grande trabalho para alcançá-lo e fazê-lo aceitar, à viva força, meia dezena de rúpias que o ancião recebeu em sua tigela de madeira. Bem seguro estou de que este meu verídico relato que os demais testemunhos

presenciais do feito podem atestar por si, parecerá um conto de fadas a não poucos europeus e americanos que jamais visitaram a Índia. Porem sempre teremos em nosso abono contra as suspeitas e malévolas análises telescópicas e microscópicas insolentes, de nossos cientistas em moda, o testemunho do não menos inexplicável "jogo da árvore"

antes transcrito do trabalho de nosso sábio físico Dr. Carpenter

(2). Este relato é transcrito de "The Religio-Philosophical Journal", de 22 de dezembro de 1877, pela revista "A Modern Panarion".

(2)

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DEMONOLOGIA E MAGIA ECLESIÁSTICA

Na famosa obra de Bodin "La Demonomanie, ou Traité des Sorciers" (Paris 1587), relata-se uma arrepiante história acerca de Catarina de Médicis. O autor era um ilustre escritor que durante vinte e cinco anos esteve colecionando documentos autênticos, tirados dos arquivos das mais importantes cidades da França, para escrever uma obra completa sobre feitiçaria e poder "dos demônios". Semelhante livro apresenta segundo a expressão gráfica de Eliphas Lévi, a mais notável coleção que se possa apresentar sobre "os fatos mais sangrentos e espantosos, os mais repugnantes atos de superstição, os encarceramentos e execuções capitais da mais estúpida ferocidade" . - Queimemos todo o mundo! parecia dizer a Inquisição. Facilmente Deus distinguirá os seus. Loucos infelizes, mulheres histéricas e idiotas eram queimados vivos, sem compaixão alguma, pelo crime de "magia". Porém, ao mesmo tempo, quantos e quão grandes criminosos não escaparam a esta injusta e sanguinária justiça! Isto é o que nos faz apreciar perfeitamente Bodin. Catarina de Médicis, a piedosíssima cristã que tão meritória se tinha feito aos olhos da Igreja de Cristo, pela horrenda e inolvidável carnificina de São Bartolomeu - a rainha Catarina, dizemos, tinha a seu serviço um sacerdote apóstata jacobino. Sumamente versado na "arte negra" sempre tão patrocinada pela família dos Médicis, tinha-se feito credor da gratidão e proteção de sua piedosa senhora, mercê de sua destreza, sem igual, em matar pessoas à distância - e sem responsabilidade, torturando por meio de feitiços suas figuras de cera. O processo tem sido descrito repetidas vezes e apenas vamos repeti-lo. Carlos estava de cama, atacado de incurável moléstia. A rainha-mãe que com a morte do doente ia perder tudo, recorreu à necromancia e quis consultar o oráculo da "cabeça sangrenta. Esta operação infernal requeria a decapitação de um menino, que devia ser de grande formosura e pureza. Tal menino havia sido preparado para a sua primeira comunhão pelo capelão do Palácio. o qual estava inteirado do infame projeto. Chegado o dia determinado para a execução deste, à meia-noite, no aposento do enfermo, em presença unicamente de Catarina e de uns tantos de seus congregados, celebrou-se a "missa do diabo". Seja-nos permitido citar o resto da história, tal como a encontramos em uma das obras de Lévi: "Nesta missa, celebrada ante a imagem do demônio, tendo sob seus pés uma cruz invertida, o feiticeiro-sacerdote consagrava duas hóstias: negra e grande, uma e branca e pequena a outra. Esta foi dada ao menino, que estava vestido de branco, como para o batismo, e a quem mataram nos próprios degraus do altar, imediatamente após sua comunhão. A cabeça de um só golpe separada do tronco, foi colocada, ainda palpitante, sobre a grande hóstia negra, que cobria a pátena, e logo foi deixada em cima de uma mesa, na qual ardiam algumas lâmpadas funéreas. Começou, então, o exorcismo. O demônio tinha que pronunciar um oráculo e responder, por intermédio da cabeça cortada, uma

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pergunta secreta que o rei não se atrevia a formular em voz alta e que a ninguém havia sido

comunicada

humana, fez-se ouvir da cabeça do infeliz e pequeno mártir

semelhante crime de feitiçaria, porque o rei morreu e, Catarina de Médicis continuou sendo a fiel filha de Roma! E notável é que o escritor católico Des Mousseaux que, em sua "Demonologia", usa com tão excessiva liberdade o material da obra de Bodin para formular sua formidável acusação contra "os espíritas e outros feiticeiros", haja cuidadosamente passado por alto de tão interessante episódio. É também um fato bem provado que o Papa Silvestre II foi acusado publicamente,

pelo cardeal Benno, de encantador e feiticeiro. A "cabeça oracular" de bronze fabricada por Sua Santidade era da mesma espécie da criada por Alberto Magno e que foi feita em pedaços por Tomás de Aquino, não porque fosse obra do demônio ou que por ele estivesse habitada, mas, sim, porque o espírito que nela estava encerrado, pela força magnética, falava sem parar, como uma matraca e sua arenga contínua impedia o eloquente santo de trabalhar em sem, problemas filosóficos. Tais cabeças e até completas estátuas falantes, solenes troféus da ciência mágica de monges e bispos, eram meros "fac-similes" dos deuses "animados" dos templos antigos. A acusação contra o Papa era certa, naquela época, provando-se também a ele que estava acompanhado constantemente de "demônios" ou "espíritos". Benedito IX, João XX e os Gregórios VI e VII, eram todos conhecidos como magos. Este último Papa era, além disso, o famoso Hildebrando, do qual se disse ser tão destro "em fazer sair raios da boca da manga de suas vestes" que isso deu motivo ao respeitável escritor espírita Howitt em crer que tal era a origem do célebre "raio do Vaticano". Quanto às façanhas mágicas do bispo de Ratisbona e do "angélico" Dr. Tomás de Aquino são demasiado conhecidas, para serem relatadas novamente. Se o prelado católico era tão hábil em fazer as pessoas crerem que, durante uma crua noite de inverno, estavam gozando as delícias de um esplêndido dia de verão, e que as bolas de neve pendentes dos ramos das árvores do jardim eram outros tantos frutos tropicais, também os magos da Índia, ainda hoje mesmo e sem necessidade de deuses ou diabo algum fora de seu conhecimento de leis da Natureza, não conhecidas, podem pôr em jogo, ante seu assombrado público, tais poderes biológicos, pois que todos esses pretendidos "milagres" são produzidos por um mesmo e adormecido poder humano, que nos é inerente a todos, resumindo-se o problema somente em saber desenvolvê-los. Durante a época da Reforma, o estudo da magia e da alquimia havia adquirido uma preponderância tal entre o clero que deu lugar aos maiores escândalos. O cardeal Wolsey foi acusado publicamente, ante o Tribunal e o Conselho Privado, de cumplicidade com um homem chamado Wood, conhecidíssimo como feiticeiro, o qual declarou: "Meu senhor, o cardeal, possui um anel de tal virtude que qualquer coisa que deseja da graça

acrescentando: "Maese Cromwell, quando servia como

, lia muitos de seus livros, especialmente o

criado em casa de meu senhor, o cardeal

dos reis lhe é concedido

Porém de nada serviu

Naquele momento, uma voz débil, uma estranha voz que já nada tinha de "

",

chamado Livro de Salomão e estudava as virtudes que, segundo o cânone do rei, possuem todos os metais. Este caso, juntamente com outros igualmente curiosos, podem ver-se entre os papéis de Cromwell, na Repartição dos Arquivos da Casa de

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Documentos Públicos. Em tal arquivo conserva-se, do mesmo modo, uma relação das aventuras de certo sacerdote chamado William Stapleton, que foi preso como conjurado durante o reinado de Henrique VIII. O sacerdote siciliano, a quem Benevenuto Cellini chama de necromante, fez-se famoso por suas afortunadas conjurações, nas quais jamais foi molestado. A notável aventura que com ele teve no Coliseu de Roma, onde o sacerdote conjurou uma legião inteira de diabos, é fartamente conhecida do público ilustrado. Naturalmente que o subsequente encontro de Cellini com sua amiga, predito e anunciado com todos os detalhes pelo conjurador, no tempo preciso, fixado por ele, será sempre considerado pelos frívolos e pelos céticos como "uma curiosa e mera coincidência". Nos finais do século XVI, dificilmente se podia encontrar uma paróquia, por mais inferior, na qual os vigários não se entregassem ao estudo da magia e da alquimia. A prática do exorcismo para expulsar os diabos, como o fez Cristo - que, diga-se de passagem, jamais empregou tal modo de proceder - conduziu o clero à "sagrada magia", em oposição à "arte negra", de cujo crime eram acusados todos quantos não eram monges ou sacerdotes. Os conhecimentos ocultos coligidos pela Igreja Romana nos, em outros tempos, férteis campos da Teurgia, ela os reservava cuidadosamente para seu próprio uso, enviando unicamente ao patíbulo, mediante a Inquisição, quantos praticantes caçava, furtivamente, nos campos daquela Ciência das ciências. Os anais da História assim o comprovam. "Somente no transcurso de quinze anos (1580 a 1595) - disse Thomas Wright em sua obra "Magia e Feitiçaria" - no limitadíssimo território da Lorena, o inquisidor Remigius queimou implacavelmente uns novecentos bruxos de ambos os sexos". Em tais tempos, publicava Bodin sua célebre obra mencionada. Assim, enquanto o clero ortodoxo evocava legiões inteiras de "demônios" por meio de encantos mágicos, sem ser molestado pelas autoridades, contanto que não ensinasse heresia alguma e se mantivesse fiel aos dogmas estabelecidos, perpetravam-

se, por outro lado, atos de inaudita crueldade contra as pessoas de pobres loucos. Por exemplo, Gabriel Malagrida, ancião de oitenta anos, foi queimado por esses verdugos (estilo Jack Ketches) em 1761. Existe na biblioteca de Amsterdã uma cópia de seu famoso processo, traduzido da edição de Lisboa. Malagrida, com efeito, foi acusado de

feitiçaria e de manter pacto com o diabo, o qual lhe havia revelado o futuro!

A

profecia, comunicada ao pobre jesuíta visionário pelo "inimigo do gênero humano", está concebida nestes termos: "O réu confessou que o demônio, sob a forma da bem- aventurada Virgem Maria, ordenou-lhe que escrevesse a vida do Anticristo; que deveriam existir, a bem dizer, três Anticristos sucessivos, e que o último nasceria em "

Milão do comércio de um frade com uma monja, em 1920

e outras enormidades

desse teor. Sob este estandarte (1) cristão, e no breve espaço de catorze anos, Tomás de Torquemada, confessor da rainha Isabel "a Católica", queimou mais de dez mil pessoas e sentenciou à tortura outras oitenta mil. Oróbio, o famoso escritor que pelo espaço de tanto tempo permaneceu encarcerado, escapando com dificuldade à fogueira,

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imortalizou essa instituição em suas obras, quando se viu libertado na Holanda, não encontrando melhor argumento contra a Santa Igreja do que abraçar a fé judaica e, até, submeter-se à circuncisão. (1). Referência ao estandarte da Santa Inquisição, tirado de um original que existe na biblioteca do EscoriaI, onde, aos pés do imaculado trono do Todo Poderoso, figura uma cruz carmesim, com um ramo de oliveira de um lado e do outro uma espada tinta de sangue até o punho, estando escrito o tem a dos Salmos em letras de ouro: Enxurge, Domine, et judíca causam mean. Granger, por seu lado, conta-nos a história daquele famoso cavalo ao qual, por artes mágicas, dizia-as que lhe fora ensinado a indicar os lugares em um mapa e a hora nos relógios. O cavalo e seu dono foram acusados pelo Santo Ofício de ter pacto com o demônio e ambos foram queimados, em grande cerimônia, como feiticeiros, num Auto de Fé celebrado em Lisboa, no ano de 1601. Tão notável instituição de Cristianismo chegou a ter até o seu correspondente Dante para imortalizá-la: "Macedo, jesuíta português - disse o autor da "Demonologia" - descobriu a origem da Santa Inquisição, nada menos que no paraíso terreno, pretendendo que o próprio Deus tivesse sido o primeiro que começou a desempenhar o ofício de inquisidor, tanto com Caim como com os ímpios construtores da Torre de Babel". Certamente, acrescentamos, que em nenhuma parte foram mais praticadas pelo clero as artes da feitiçaria e da magia do que na Espanha e Portugal, porque os, mouros sempre foram versadíssimos nas ciências ocultas, já que em Toledo, Salamanca, Sevilha, etc., existiram grandes escolas de magia. Os cabalistas salamanquinos têm fama de haverem sido grandes peritos em todas as ciências ocultas; conheciam as virtudes das pedras preciosas e tinham arrancado à Inquisição seus mais preciosos segredos. O cura de Barjota, da diocese espanhola de Calahorra, por seus mágicos poderes, veio a ser a maravilha do século XVI. O mais extraordinário de seus feitos. era o de poder trasladar-se aos países mais distantes, presenciar neles os mais interessantes acontecimentos, e profetizá-los logo ao voltar ao seu vicariato. Acrescenta a "Crônica" que o cura efetivamente contava com um demônio familiar que, entretanto, foi ingrato para com este, usando de artifícios para enganá-lo. Informado, por tal demônio, acerca de uma conspiração, que se tramava contra o Papa, por seus excessivos galanteios a certa formosa dama, o bom cura transportou- se em seu duplo astral para Roma, salvando assim a vida de Sua Santidade. Depois disso, arrependeu-se: confessou seus pecados ao Papa galanteador e foi absolvido. "Ao regressar de Roma foi posto, pró-forma, sob a custória dos inquisidores, porém foi perdoado e recobrou a liberdade em pouco tempo". Frei Pedro, monge dominicano do século XVI - o próprio mago que, dizem, presenteou o famoso licenciado Eugênio Torralba, médico do almirante de Castela com o "demônio" chamado Ezequiel - deveu sua grande fama ao subsequente processo que por isso teve de descarregar sobre o mencionado Torralba. O extraordinário processo está descrito nos documentos que Sé! conservam nos

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Arquivos da Inquisição. Os cardeais de Volterra e de Santa Cruz testemunham que viram Ezequiel e tiveram íntimos contatos com o mesmo, o qual no futuro tornou-se, durante o resto da vida de Torralba, um homem puro e bondoso, que levou a cabo mil ações benéficas e se manteve fiel ao mencionado médico até o último momento

de sua vida. A própria Inquisição, tendo isso em conta, absolveu Torralba e, embora

a sátira de Cervantes lhe haja assegurado uma fama imortal, nem Torralba, nem o

monge Pedro são heróis fictícios, mas sim personagens históricos, citados em documentos eclesiásticos que existem em Roma e em Cuenca, onde ventilou-se o processo, no dia 29 de janeiro de 1530. O livro do Dr. W. G. Soldan, "Geschiche der Hexen procese, aus den Quellen dargestellt", de Stutgart, chegou a ser tão famoso na Alemanha como o fora, na

França, a "Demonologia", de Bodin. É o tratado alemão mais completo sobre a feitiçaria no século XVI e quantos sintam interesse em conhecer as maquinações secretas que motivaram os assassinatos perpetrados, aos milhares, por um clero que pretendia crer no diabo, encontrá-las-ão divulgadas na mencionada obra. A verdadeira origem das acusações diárias e sentenças de morte por feitiçaria é habilmente atribuída a inimizades políticas e pessoais, em especial ao ódio dos católicos contra os protestantes. O astuto trabalho dos jesuítas manifesta-se em cada uma das páginas daquelas sangrentas tragédias e em Bamberg e Wurzbourg (onde esses dignos filhos de Loyolla eram mais poderosos por aquele tempo) era onde com mais frequência se apresentavam os casos de feitiçaria. Os falsificadores eclesiásticos que acusam a magia, o espiritismo e até o magnetismo de serem produzidos pelo demônio, esqueceram, ou jamais leram, os clássicos. Nenhum de nossos hipócritas olharam com maior desprezo os abusos da magia, como o verdadeiro iniciado da antiguidade. Nenhuma lei medieval, ou moderna, pode ser tão severa como a do hierofante, porque se bem que expulsasse

o bruxo "inconsciente", a pessoa perturbada por um demônio, do interior do templo, os sacerdotes, em lugar de queimá-los desapiedadamente cuidavam com terna

solicitude do infeliz "possesso" em hospitais, onde se lhes devolvia a saúde. Porém, com relação àquele que, por meio de feitiçaria consciente, havia adquirido poderes perigosos para os seus semelhantes, os sacerdotes da antiguidade eram severíssimos. "Qualquer pessoa acidentalmente culpável de homicídio, ou convicta de bruxaria era excluída dos mistérios de Eleusis", disse Taylor em sua obra "Os Mistérios bâquicos e eleusinos". A preterição de Agostinho de que todas as explicações dadas sobre isso, pelos neoplatônicos eram invencionices destes, é absurda, porquanto quase todas elas são relatadas, mais ou menos explicitamente, pelo próprio Platão. Os Mistério são tão antigos quanto o mundo, e qualquer um bem versado no esoterismo das mitologias das diversas nações pode seguir sua pegadas até os dias do período antivédico, na Índia. Nesta, exige-se do candidato à iniciação a virtude e pureza mais estritas, tanto se se pretender ser um "Sannyasi", um santo, como se se desejar ser um "Purohita", ou sacerdote público, ou enfim se

Indubitavelmente, o exercício de tais virtudes

exigidas ainda que para este último caso, é incompatível com a ideia que aqui, no

se contentar em ser um mero faquir

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Ocidente, temos do culto diabólico e de seus fins lascivos! Estes faquires, se bem que nunca possam passar do primeiro grau da iniciação, são, não obstante, os únicos agentes, entre o mundo dos vivos e os "silenciosos irmãos" ou "sannayasis", os quais jamais cruzam os umbrais de suas sagradas vivendas. Os "fukarayoguis" estão eternamente adstritos aos seus templos e, quem sabe se estes cenobitas, assim ilhados do mundo profano, tenham muito mais que ver, do que comumente se crê, com os fenômenos psicológicos operados sempre

sob sua oculta direção pelos faquires? Fenômenos tão rigorosamente descritos por

, esse "cético e emperdenido racionalista" (como ele próprio se

jacta de ser) em sua obra "O Espiritismo no Mundo"

racionalismo, este autor francês se viu obrigado a admitir as maiores maravilhas com relação aos faquires, vistas por seus próprios olhos em sua longa permanência na Índia. Em regra geral, os brâmanes - diz J acolliot - raramente passam da classe de "grihastas", ou sacerdotes das castas vulgares e "purohitas", exorcistas, adivinhos, profetas e evocadores de espíritos. E não obstante vemos que estes iniciados do grau inferior se atribuem e parecem possuir, com efeito, faculdades desenvolvidas em tal grau, que jamais foram igualados na Europa. Quanto aos iniciados, pertencentes à segunda e em especial à terceira categoria, têm a preterição de não conhecer o tempo nem o espaço e de ser donos até da morte e da vida. Iniciados desta classe, confessa Jacolliot, que nunca os encontrou, porque - acrescenta - "não se os vê jamais, nem nas imediações ou no interior dos templos, exceto na festa lustral do fogo sagrado. Nessa ocasião, aparecem à meia-noite, numa plataforma erigida ao centro do lago sagrado, qual outros tantos espectros, iluminando o espaço com seus conjures. Uma brilhante coluna de luz eleva-se em torno deles, desde o solo até os céus; sulcam os ares os mais estranhos ruídos e os cinco ou seis mil fiéis, chegados de todos os pontos da Índia para contemplar um instante aqueles semideuses, prostam-se, invocando as almas de seus queridos antepassados".

Louis Jacolliott

Não obstante seu incorrigível

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ASSASSINATO À DISTÂNCIA (1)

(1). Este relato foi tirado da Revista "A Modern Panarion", a qual insere a carta dirigida ao editor de "The Sun" por H.P.B., sobre tal narração. Certa manhã de 1867, uma espantosa notícia comoveu todo o Oriente europeu. Miguel Obrenovitch, rei da Sérvia, sua tia Katinka, ou Catarina, e a filha desta haviam sido assassinados em pleno dia, no próprio jardim de seu palácio, sem se saber quem eram os assassinos. O príncipe estava, materialmente, crivado de punhaladas e tiros; a princesa Catarina tinha a cabeça desfeita por golpes e sua jovem filha agonizava em consequência dos ferimentos. Todas as circunstâncias do terrível crime causaram, como é natural, uma excitação e uma ansiedade gerais, tocando às raias da loucura Desde aquele instante cruel, de Bucareste a Trieste, tanto no Império austríaco, como em todos os países dependentes do duvidoso protetorado da Turquia, nenhum aristocrata de sangue, ou príncipe, se acreditou seguro, estendendo-se por toda a parte o rumor de que aquele crime político havia sido executado por "Tzerno- Guorgey" ou seja pelo príncipe Kara Georgevitch. Numerosos inocentes foram encarcerados, enquanto que, como sempre acontece, os verdadeiros regicidas lograram escapar. Um menino, muito amado na Sérvia, parente próximo das vítimas, foi tirado de um colégio parisiense, conduzido com toda a pompa a Belgrado e coroado rei da Sérvia, com o nome de Hospodar. Como o são, em todos os povos, as paixões políticas, a tragédia de Belgrado foi esquecida, apagando-se com isso as rivalidades e ódios que ela despertara. Porém, havia uma idosa matrona sérvia, ligada pelos mais íntimos laços de afeto à família dos Obrenovitch e que como Raquel, não conseguira facilmente consolar-se com a morte dos seus. Proclamado o jovem Obrenovitch sobrinho do príncipe assassinado, a matrona misteriosa vendeu seus bens e desapareceu da vista de todos, não sem jurar antes, sobre o túmulo das vítimas, que as vingaria. Quem escreve esta história verídica havia passado uns dias em Belgrado, três meses antes de se cometer o crime, e conhecia a princesa Catarina - criatura branda, abúlica, porém cheia de bondade e uma perfeita parisiense por seu excelente trato e educação. Quanto aos personagens que figuram nesta narração, como ainda vivem, ocultarei seus sobrenomes sob iniciais. A idosa sérvia de nosso relato, que de tal maneira jurara vingança, saía muito pouco de casa só mesmo para visitar, uma ou outra tarde, sua amiga: a princesa Katinka. Languidaments reclinada sobre tapetes e almofadoes orientais, ataviada com o típico traje nacional, parecia a própria Sibila de Cumas em seus dias de tranquilo repouso e alheiamento. É certo que se contavam estranhas histórias acerca dos conhecimentos ocultos daquela solitária mulher circulando, entre os hóspedes reunidos ao redor da lareira de nossa modesta pousada, relatos aterradores, capazes de por em pé os cabelos dos mais

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valentes. O primo de uma tia solteirona de nosso obeso hospedeiro havia caído, certo dia, sob a garra de um vampiro cruel que esteve a ponto de sangrá-lo e matá-lo com suas contínuas visitas noturnas. Vãos foram os esforços do pobre cura da paróquia que o exorcizara e todos já se desesperavam por causa da vítima, quando Gospoja P. - assim chamarei desde agora a famosa sibila - curou o jovem, afugentando o espírito obsessor, ameaçando-o apenas com o punho e repreendendo-o em Sua própria língua. Ali, em Belgrado, foi pois onde aprendi o curioso pormenor de que todos os fantasmas têm sua linguagem peculiar. Acrescentamos, também, que Gospoja P., ou seja a anciã em questão, tinha como serva uma jovem cigana de uns catorze anos, procedente da Romênia chamada a desempenhar um grande papel neste espantoso relato. Quem foram os pais da moça e qual

o lugar de seu nascimento, todos o ignoravam, inclusive ela mesma. Contaram-me que um bando de vagabundos a tinha abandonado um dia, no pátio de Gospoja P., a que ela respondia pelo nome de Frosya, ou "a menina sonâmbula", por sua anormalidade, raramente encontrada, de à menor insinuação dormir sonambulicamente, falando, nesse estado, qual médium autômata.

Por aquele tempo, eu viajava muito. Dezoito meses depois do assassinato do príncipe sérvio, percorria a pitoresca comarca italiana de Banat em um coche de minha propriedade, para o qual ia alugando cavalos, sucessivamente, nas localidades que visitava. Certo dia de minha peregrinação, extasiada na contemplação das belezas da paisagem, estive a ponto de atropelar, distraída que estava, um velho sábio francês que, como eu, embora a pé, percorria aqueles lugares. Simpatizamo-nos e sem cerimônias enfadonhas, aceitou o lugar que lhe ofereci, de boa vontade, a meu lado, um modesto assento de feno em meu carro, constantemente estalando. O nome do cientista francês era célebre nas Sociedades consagradas ao estudo do magnetismo e seus similares, como um dos melhores discípulos de Dupotet.

- Quanto me alegro com o nosso encontro! Disse-me o sábio companheiro, no curso

de nossa conversação científica. Nesta solitária e deliciosa Tebaida, encontrei um ente

sensível, uma moça, a coisa mais notável que se podia esperar. É uma maravilha e por seu intermédio, tratamos esta noite, com sua família, de descobrir, mediante seus dotes de clarividência, o mistério que rodeia certo assassinato.

- De quem se trata? perguntei curiosa.

- De uma ciganinha romena, que parece ter sido criada na família do príncipe da

Sérvia, aquele que já não existe porque logo fará dois anos que foi assassinado do modo

mais miste

interrompeu-se o francês, arrebatando-me as rédeas do cavalo.

Eh! "diable", tende cuidado, pois vamos nos despencar por esse precipício!

- Por acaso o príncipe Obrenovitch? exclamei alarmadíssima.

- Ele mesmo! e, como te digo - continuou o francês - penso chegar à aldeia hoje

à noite para altimar, ali, uma série de sessões de magnetismo, desenvolvendo com o

mesmo fim uma das mais admiráveis manifestações que jazem ocultas no fundo de nosso espírito. Se quiseres acompanhar-me, poderás servir de intérprete, posto que aquela família não fala francês. Para mim, diante disto, não cabia a menor dúvida de que se tratava de Frosya e

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de que Gospoja P. acompanhá-la-ia, como de fato aconteceu.

Caía a tarde e chegávamos à falda de uma montanha: o "vieux château", como o bom francês deu de chamá-la. Detivemo-nos num daqueles sombrios albergues da poética falda, sentando-nos num banco rústico da entrada. Enquanto meu companheiro de viagem cuidava, galantemente, de meu cavalo, vi sobre um inseguro pontilhão da torrente vizinha a figura espectral, pálida e alta de minha velha amiga Gospoja P., que por isso não pareceu demonstrar surpresa alguma. Ao chegar a mim, saudou-me com o tríplice beijo em ambas as faces característico da Sérvia, e conduziu-me carinhosamente à sua choça de hera onde, reclinada num tapetinho

sobre a relva e com os ombros contra a parede, reconheci a jovem Frosya Frosya vestia o clássico traje válaco, uma espécie de turbante de gaze, com fitas

e medalhinhas douradas; blusa de mangas abertas e saia colorida. Seu rosto

apresentava uma palidez extrema, seus olhos cerrados davam ao seu todo esse aspecto de estátua, peculiar a todos os sonâmbulos clarividentes, a ponto de acreditar-se que estivesse morta, não fosse o ritmo respiratório de seu peito adornado de medalhas e fios de colares de contas. O francês disse-me que já a fizera

dormir de igual modo a noite anterior e sem reparar mais em nossa presença, deu-lhe uns tantos passes e levou-a ao estado cataléptico. Dobrou-lhe, depois, um por um os dedos da mão direita, salvo o indicador, com o qual fê-la indicar a estrela da tarde, que luzia esplendorosa no imenso azul do céu. Seguiu, assim, regulando os passes magnéticos e manejando os invisíveis, mas poderosos, fluidos de Frosya, como um hábil pintor que dá os últimos toques em seu quadro. Naquele momento, a anciã se deteve e disse-lhe em voz baixa:

- Espera as nove horas, quando se oculta o belo luzeiro. Os "vurdalakis" vagam em redor e podem anular nossa influência.

- Que dizes? retrucou, contrariado, o magnetizador.

Eu, então, expliquei-lhe o que eram no Oriente os "vurdalakis" e sua perniciosa intervenção, tão temida pela anciã.

- "Vurdalakis"! Bah! Já temos de sobra a ver com os espíritos cristãos que acaso nos honrem com sua visita, esta noite! Gospoja tinha se tornado pálida como uma morta; seu cenho apresentava um enrugamento pavoroso e seus olhos acesos chispavam, fatídicos. - Diga-lhe que não graceje em momentos como os destas horas noturnas -

exclamou. Este senhor não conhece o país e não sabe que, até a própria Santa Igreja, daí por diante seria impotente para proteger-nos contra a irritação dos "vurdalakis". E, apanhando com desagrado um punhado de hervas que o botânico francês havia deixado no chão, acrescentou:

- Que invólucro é esse? São pés de verbena, a herva de São João, que não devem

ser deixadas aqui, sob pena de atrair os vampiros vagabundos. A noite já havia estendido seu manto por completo, e a lua, com sua luz prateada de fantasmagóricos tons, realçava o misterioso âmbito da paisagem, numa daquelas placidezes do Banat, que se tornam quase tão formosas, como as do Oriente. Achavamo-nos operando o fenômeno magnético, no meio daquele campo, porque o

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pobre pároco da aldeia havia dito ao magnetizador:

- Afasta-te do lugar; pode ser que teus demônios estrangeiros invadam teu recinto e o da igreja, contra os quais, como forasteiros, não terão valor meus exorcismos. O francês tirara seu guarda-pó de viagem e enrolara as mangas da camisa, tomando a atitude teatral tão comum em semelhantes operações magnetizadoras. Sob seus dedos nervosos, o fluido parecia resplandecer como luzes forfóricas. Frosya, encarando a Lua, permitia-nos ver todos os seus movimentos convulsos, como se fosse de dia. Grandes gotas de suor surgiam em sua testa, resvalando por suas faces abatidas. Em seguida, a moça iniciou um lento vaivem de inquietação e começou a entoar uma ladainha estranha, cujas notas e palavras Gospoja recolhia ávida, transformada na estátua da atenção, com seu dedo ossudo aos lábios, os olhos saltando das órbitas, seu corpo inerte e uma atitude de ansiedade indescritível, formando com a jovem Frosya, um contraste digno de ser imortalizado num quadro. Ademais, a cena toda que, a seguir, começou a desenrolar-se, era merecedora de qualquer das más tragédias de Macbeth: a infeliz moça, retorcendo- se, atormentada, sob os tão invisíveis como poderosos fluidos que sobre ela descarregava seu tirânico magnetizador e, de outro lado, a velha matrona, obsecada por sua sede ardente de vingança e esperando ouvir, por fim, de um momento para outro, o nome do assassino de seu amado príncipe sérvio. Até o onipotente magnetizador francês parecia transfigurado: eriçada eletricamente sua nívea e

ondeada cabeleira e agigantada, de modo incrível, sua tosca e pequena estatura. Não havia pois, ali, mistificação nem teatralidade, porém uma das mais estupendas e aterradoras experiências de magnetismo nativo, bem acima dos mais altos conhecimentos ocultistas de quem as tinha provocado inconscientemente. Súbito, como acionada por uma mola e um poder sobrenaturais. Frosya pôs-se em pé; não aguardava mais para lançar-se em direção ao desconhecido, qual. autômata que vai receber as ordens de quem, naquele instante, era seu onímodo senhor. Este, então, tomou solenemente a mãe de Gospoja e, colocando-a sobre a da sonâmbula ordenou a esta última que obedecesse àquela.

- Que vês, minha filha? murmurou ansiosamente a senhora sérvia. Pode, acaso,

teu espírito encontrar-se com os assassinos de nosso príncipe e dizer-nos seus nomes?

- Procura, pois, solícita, o que a senhora te manda! ordenou, por sua vez, com firmeza, o magnetizador.

- Já estou a caminho - exclamou debilmente a menina, com uma vozinha que,

mais do que de seus lábios, parecia sair de "seu duplo" e à curta distância. Impossível descrever com acerto o que neste momento aconteceu. Algo assim como uma nuvem esbranquiçada e informe se foi condensando ao lado de Frosya, envolvendo-a primeiro com sua azulada e metálica luz e destacando-se claramente, depois, a seu lado com cárdenas, clorinas centelhas de relâmpago, qual um novo corpo brilhante, junto ao corpo material, para separar-se deste, enfim, coerente, semi-sólido e, depois de flutuar uns segundos no espaço, lançar-se rápido e

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silencioso em direção ao riachinho, desaparecendo, finalmente, corrente abaixo, à distância, confundido com os raios do luar, qual porção de névoa desfeita em noite otonal. Não é preciso acrescentar que a cena tinha absorvido todas as minhas forças, sob um torpor de sonho misterioso. Via, com efeito, desenvolver-se ante meus olhos espantados nada menos que a evocação dos "Scin-Leca" do Oriente! Dupotet tinha razão em afirmar, como o fez, que o magnetismo ocidental não é senão a magia consciente dos antigos, e o espiritismo é o efeito inconsciente da mesma magia sobre certos organismos neurastênicos. Convém acrescentar que, nem bem o vaporoso duplo astral da jovem se havia desprendido de seu corpo físico, a pérfida Gospoja, com um rápido movimento da mão que estava livre, tinha tirado de sob seu abrigo e colocado no seio da magnetizada um pequeno estilete ou punhal, tudo com rapidez tal, que nem o próprio magnetizador deu conta disso, como logo me disse. Seguiu-se, então, um silêncio sepucral, no qual podia-se quase ouvir o emocionado bater de nossos corações, enquanto que nossos corpos pareciam se ter petrificado de surpresa, como o da mulher de Lot. Mas, logo, a sonâmbula lançou um grito estridente que despertou os ecos da montanha, ao mesmo tempo que se inclinava para a frente. Empunhando o afiado estilete, começou a esgrimi-lo com sanha, para a direta e para

a esquerda, em seu redor, com o mais selvagem sorriso de vingança satisfeita,

naqueles seus inimigos imaginários, lançando espuma pela boca, ao mesmo tempo

que pronunciava, várias vezes, entre incoerentes exclamações guturais, dois conhecidos nomes cristãos masculinos. O magnetizador, ao ver aquilo, tinha se

aterrorizado de tal forma Que, em vez de descarregar os fluidos da sonâmbula, naquela cena angustiosa, carregava-a mais e mais, fortalecendo-a.

- Desgraçado, detende-a! gritei-lhe exasperada. Vai matá-la

se é que ela não

chegue a matar-te! O imprudente magnetizador, sem se dar conta, havia despertado, sem dúvida,

sutis forças ou entidades da Natureza Oculta, sobre as quais carecia de todo o poder.

A própria sonâmbula, em seu paroxismo homicida, assestou-lhe, com sanha, uma

tremenda punhalada que ele pôde evitar, dando, obliquamente, um grande salto, não sem antes receber um corte considerável no braço direito. Aterrado, o infeliz francês trepou no muro vizinho, com a agilidade de um gato perseguido, pondo-se a cavalgar

montado nele, ao mesmo tempo que, tremendo ainda de medo, conseguiu reunir os restos de sua desfeita vontade para obter que, por fim, a moça soltasse a arma e permanecesse paralisada.

- Que fizeste, desgraçada? o magnetizador gritou, então, para Frosya em sua nativa língua francesa. Responda-me, clara e imediatamente.

Ao que esta respondeu, no mais correto parisiense, com grande estupefação minha, pois sabia que, em seu estado normal, a mocinha ignorava aquele idioma:

o que ela me ordenou que fizesse e isso porque tu

mesmo me havias exigido que a obedecesse em tudo

- Que é, pois, que a velha bruxa mandou-te fazer? acrescentou o francês

- Não fiz outra coisa senão

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desrespeitosamente.

- Que encontrasse os assassinos do príncipe de

,

e que, assim que os visse,

matasse-os, como acabo de fazer acrescentou já em sua própria língua.

Uma estrondosa exclamação triunfal de Gospoja acolheu estas últimas frases da inconsciente sonâmbula. Uma gargalhada que fez ladrar lugubremente todos os cães das redondezas.

- Vingada, sim, vingada! Eu o sabia! Meu coração não me engana ao dizer-me

que aqueles infames criminosos já deixaram de existir - exclamou - caindo ao solo,

esgotada dos nervos e arrastando consigo a sonâmbula.

- Oh! que boa pessoa para experiências é esta moça! disse o pobre francês,

completamente alheio ao verdadeiro desenlace daquela "inocente" prática de magia de má lei. Perigosa sim, mas admirável! terminou, esfregando as mãos contentíssimo, Dali a poucas horas, separei-me do pobre francês, de Gospoja e de Frosya. Três dias mais tarde, achava-me no refeitório de um bom hotel, em T esperando que me servissem o desjejum. Minha vista fixou-se, distraidamente, em um periódico, onde com surpresa inaudita li:

,

Oh! que felicidade; vingados, vingados por fim!

"Duas mortes misteriosas Viena

Ontem à noite, às nove e quarenta e cinco, quando o Príncipe se retirava para seus aposentos, dois senhores de seu séquito deram as vivas mostras de angustioso terror, cambaleando como ébrios pelo recinto, como se pretendesse esquivar-se dos golpes de invisível assassino. Incapacitados de prestar atenção às perguntas do Príncipe e dos demais circunstantes, caíram imediatamente ao solo, em meio de uma estranha agonia. Seus corpos não mostravam sinal algum de ferimentos, nem ele apoplexia, e sim, somente na pele, umas manchas grandes e enegrecidas, como de absurdas punhaladas que houvessem cortado a carne, sem afetar a epiderme. A autópsia mostrou, naqueles ferimentos cheios de sangue coagulado, a marca de um instrumento perfurante, um punhal ou a ponta de uma espada. A Faculdade de Medicina vê-se obrigada a confessar-se incapaz de decifrar tão grande enigma "

científico. Nas altas esferas reina grande excitação por esse motivo

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A MÃO MISTERIOSA (1)

(1). Referindo-se esta pequena história, como se vê, a H. P. Blavatsky, inserimo-la aqui, tomando-a das Revistas que a traduziram, tanto da "Theosophist" de Madras, como da "Listok" e da "Rebus", de S. Petersburgo, revistas russas nas quais apareceu pela primeira vez, e, logo em seguida, nas publicações de diversos países. O artigo em questão acrescenta que o caso sucedeu em 1886 e as pessoas que nele figuram eram todas conhecidíssimas na alta sociedade russa. Por outro lado, segundo relatos de Olcott, Sinnett, Hartmann e outros, H. P. Blavatsky costumava realizar semelhantes atos de verdadeira "proteção invisível", como quando deteve, na estepe, um trem de passageiros já próximo a uma perigosa interrupção da via férrea. Conversando várias vezes com D. José Xifré, o veterano e querido teósofo da primeira hora, homem que tantos sacrifícios fez pela Causa, ouvimo-lo contar tiradas semelhantes, com as quais a Mestra salvou-lhe a vida em duas ou três ocasiões memoráveis, uma delas quando ia tomar um trem que foi vítima, com muitos de seus passageiros, de um choque tremendo. A cena em que, em "O tesouro dos lagos de Somiedo", figuramos como o alquimista Cudillero (no final da segunda parte) está calcada na primeira entrevista que ''le petit espagnol", como aquela paternalmente o

chamava, teve com a mesma, na Ilha Wight

E quantas destas invisíveis

proteções não se veem acumuladas ou impedidas pela oposição (a elas) do karma de nossos vícios! A não ser por estes últimos, seriam frequentíssimos os casos, como o que abaixo segue, o qual retiramos de uma Revista inglesa:

"Mr. S. Wllmount, tendo embarcado no vapor "City of Limerik" para atravessar o Atlântico, conta que, durante a viagem, arrostaram uma tempestade horrorosa que durou nove dias, nos quais não lhes foi possível conciliar o sono, até que na madrugada do nono dia, havendo se apaziguado um pouco o vento, dormiu profundamente. Sonhou que via sua esposa (a quem tinha deixado bem de saúde, na ocasião de sua partida) abrir a porta do camarote e, depois de titubear por um instante ao ver não estava só, entrar resolutamente, pendurar-se ao seu pescoço, abraçá-lo e desaparecer. Despertando, ficou surpreendido ao ver que seu companheiro de camarote, Mr. William J. Tait, com a cabeça apoiada à mão, olhava-o fixamente e, ainda mais quando lhe disse: "Muito bem! Que folga a sua receber aqui a visita de uma dama!" Wilmount insistiu para obter uma explicação dessas palavras, sendo-lhe recusada até que, mais tarde, Mr. Tait acedeu em contar-lhe o que tinha visto, achando-se em seu leito, completamente desperto - o que foi exatamente o sonhado por Mr.

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Wilmount. No dia seguinte, ao desembarcar, Mr. Wilmount foi buscar a esposa que tinha ido visitar seus pais e, ao encontrarem-se a sós, a primeira coisa que ela lhe perguntou foi: "Recebeste minha visita na quarta-feira?" Contou-lhe, então, que se achava muito intranquila por ele, por causa da tempestade, não podendo conciliar o sono, pensando no risco que podia correr e que, às quatro e trinta da madrugada, pareceu-lhe que ia ao seu encontro. Atravessando o mar, viu, a cabo de certo tempo, um navio no qual subiu, descendo, em seguida, ao camarote onde ele se achava. Prosseguiu, descrevendo a cena, e os objetos, tal e qual foram descritos anteriormente.

Acabávamos de almoçar e, nessas horas de modorra da sesta, achávamo-nos, vários amigos, repousando em cadeiras de balanço, na galeria de nossa residência de verão, próximo a S. Petersburgo. A atmosfera cálida pressagiava tempestade, o sol queimava, reinando em nosso redor a imobilidade e o silêncio mais completos. A dona da casa, Maria Nicolaevne, lia em voz alta um dos mais curiosos relatos publicados em diferentes diários e revistas russas, por H. P. Blavatsky, sob o

pseudônimo de "Radha-Bai". O relato referia-se a "As Montanhas Azuis de Nilgiri", na Índia, escutando todos, embevecidos, Maria que lia com entusiasmo aquelas preciosidades, gesticulando e detendo-se, de quando em quando, para fazer observações, ou responder às que lhe faziam. Necessitada, por fim, de um descanso na leitura, abandonou o livro, por um momento, exclamando:

- Quão maravilhoso é tudo isto!

- Certamente! replicou, cético, um cavalheiro do grupo. Tudo quanto nos narra

Radha-Bai, acerca das feitiçarias aterradoras dos "Mula-Kurumba" daquelas montanhas, é muito belo, porém para invenção, meros contos de fadas para crianças. Aquela dura frase desagradou-nos a todos, mas quem mais se exasperou foi Maria Nicolaevne que, com brusco movimento deixou cair os óculos. A zombeteira observação procedia do eloquente e infatigável orador russo Pietre Petrovitch.

- Antes de expressar-se assim, retrucou a dama, necessitará, querido Petrovitch,

ler, por inteiro, a obra com todas as mil citações eruditas que a valorizam, citações que

- Eu me permitiria, sem embargo, perguntar uma coisa - interrompeu obstinadamente o notável orador. Como sabe, senhora, que tais referências não são

fantasmagorias de algum pobre pseudo-hindu? Como admite, tão facilmente, as citações dos autores ingleses e de outros países, feitas no livro, sem saber se eles têm, afinal de contas, a devida autoridade?

- Perdoe-me, querido amigo. Radha-Bai não escreveu estas páginas só para o Sr.

ou para mim, mas para públicos agressivos e de diferentes opiniões. Eu a conheço

bem e sei que não pensou, jamais, em enganar o seu amado público russo, nem os demais públicos sérios, para os quais, com tanta frequência, escreve. Pode citar, além disso, acerca desses mesmos assuntos, um testemunho veraz e que está bem vivo

- A opinião é livre, Senhora. Pode muito bem acreditar, de olhos fechados, em

todas essas coisas, porém, de minha parte, também me é lícito analisá-las como uma

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completa série de embustes e Aconteceu, então, uma coisa singularíssima e inexplicável. Ao pronunciar, o Sr.

Pietre Petrovitch, aquela última palavra - "embuste" - deu um repentino salto de sua cadeira, como se o tivesse mordido uma víbora. Em seguida, pôs-se a correr escada abaixo, como um louco, revistou todos os objetos debaixo da galeria, examinou um por um, com minucioso cuidado, todos os canteiros do jardim e, pálido como um morto, voltou ao nosso lado, no terraço.

- O que lhe acontece, amigo? exclamou alarmada e tentando socorrê-lo, Maria Nicolaevne.

Petrovitch não respondeu, mas revistou pela segunda vez os degraus da escada, os tetos, tudo, enfim, percorrendo com olhar perscrutador até os confins do bosque.

- Mas, o que está o Sr. procurando, enfim? exclamamos todos exasperados.

, disse vacilante o Dr. Pietre, com voz imperceptível, enxugando as

grossas gotas de suor frio que brotavam de sua fronte. Por acaso, trata-se de uma

brincadeira que Uma brincadeira?! insistimos, cheios de estranheza.

Falando seriamente: Os senhores não viram, realmente, ninguém? acabou por perguntar ansioso nosso homem. Uns e outros, entreolhamo-nos, como duvidando do que ouvíamos, temendo até pela razão do cético amigo. Depois respondemos em uníssono:

- Não, nada

- Não; não vimos ninguém, fora dos aqui presentes, há tempo!

- Pois eu sim! Vi alguém! balbuciou o Dr

- Que está dizendo?

Vi e toquei uma mão! Uma mão que

- Sim, que vi uma mão, indubitavelmente de mulher; uma mão branca,

aristocrática, cruzada por veias azuis. Juraria que era alguém que tivesse vindo, não sei como, do jardim fronteiro e me houvesse colhido familiarmente pelo braço,

apertando-o três vezes, como se tentasse arrastar-me para fora da galeria respirando com dificuldade, pálido como cera, o bom Pietre Petrovitch. - Sem dúvida sonhou isso - dissemo-lhe a fim de tranquiliza-lo.

- Não sei se foi visão ou sonho - acrescentou - o que sei é que tive tempo

suficiente para examinar a mão por completo, uma vez que permaneceu alguns segundos agarrada em meu braço, como uma tenaz, acabando por introduzir-se no meu braço, como um eflúvio nervoso ou elétrico.

- Esta é uma boa lição, sem dúvida - retrucou a Senhora Nicolaevne,

solenemente. Saber que é a própria forma astral de Radha-Baí, que se lhe mostrou e o

colheu pelo braço para fazer a carinhosa advertência de que se abstenha de caluniá- la ante os outros, daqui por diante. O aspecto de Pietre Petrovitch era o de um homem estonteado, aterrorizado, como ante a realidade de uma ordem superior, que de boa vontade nunca teria imaginado. Distraído, absorto, como se ainda durasse o contato astral da mão, examinava uma e outra vez a manga de seu fraque. Logo voltou à sua busca pelo jardim, como um homem maníaco que trata de perseguir a sombra do que já não

existe

Dizia tal,

Todos o seguimos

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Entretanto, a tensão elétrica se tinha tornado insuportável. Fulgurou um relâmpago, instantâneo, horrível, um trovão e vimos cair, ao mesmo tempo, um raio

Um momento mais e todo o beiral da casa, que

acabávamos de abandonar, despencou-se com estrépito sobre aquela galeria, onde um momento antes estávamos lendo a obra mágica de Radha-Bai Em meio ao terror que nos imobilizou a todos no jardim, ouvia-se a voz entrecortada de angústia de Pietre Petrovitch que dizia, com patéticos acentos de convicção:

- A mão! Sim, sua mão aristocrática e inconfundível que me queria arrastar para

quase sobre nossas cabeças

fora da galeria, a fim de salvar-me e salvá-los do perigo! Todos assentimos de coração, aterrados, sem dizer palavra. Com efeito, era demasiado eloquente tudo aquilo para ser frivolamente considerado!

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A ALMA DE UM VIOLINO

I

Um velho alemão, professor de música, chegou a Paris certo dia do ano de 1828, estabelecendo-se, mui modestamente, num dos bairros mais tranquilos da grande urbe, com um de seus discípulos. O nome do ancião era Samuel Klaus e o do jovem respondia ao muito mais poético de Franz Stênio. Este era um novel violinista dotado, segundo a fama, de um talento musical extraordinário, quase milagroso; mas como era pobre e sem fama na Europa, permaneceu vários anos desconhecido e não apreciado no seio da capital da França, metrópole da sempre caprichosa moda ocidental. Franz Stênio havia nascido em Styer e não contava ainda trinta anos, nos dias a que nos vamos referir. Sonhador e filósofo, por natureza, com todas essas raridades místicas do verdadeiro homem de gênio, não parecia senão um desses heróis inquietantes dos "Contos Fantásticos" de Hoffmann. Seus primeiros anos estavam cheios de coisas extraordinárias, excêntricas, incríveis, a ponto de hoje nos vermos levados a contar sua história com brevidade, para melhor compreensão desta narrativa. Nasceu, Stênio, no seio de uma família de piedosos camponeses, moradores de uma tão afastada quanto pacífica aldeiazinha, no coração dos Alpes de Steyer; foi criado, segundo se disse, pelos próprios gnomos e demais gênios da região, que velaram solícitos em torno de seu berço. Cresceu, assim, a criança nesse ambiente mágico de fantasmas, fadas e vampiros que tão essencial papel desempenham em todos os lares de Steyer, da Eslavônia e também da Áustria meridional. Educado, mais tarde como estudante, à sombra dos antigos castelos renanos, dir- se-ia que o jovem Franz tinha vivido toda a sua vida, até então, nesse emocionante plano chamado de "sobrenatural". Ademais, durante alguns anos, estudou algo sobre ciências ocultas com um grande discípulo de Kunrath e de Paracelso motivo pelo qual era tão destro em feitiçarias de todo o gênero, inclusive em "cerimônias mágicas" e segredos teóricos da Alquimia, como o mais esperto dos ciganos húngaros. Não obstante tudo isto, o jovem Franz amava com delírio a música e, por tudo e acima de tudo seu violino. Foi assim que, aos vinte e dois anos de idade, pôs de lado, por completo, seus estudos ocultos, e se consagrou desde então, por completo à sua arte, embora permanecendo fiel adorador dos deuses gregos, em especial das Musas de Euterpe, em cujo altar, e no de Pan e de Orfeu, rendia o mais nobre culto de admiração ao seu instrumento, ansiando por vê-lo igualado à flauta e à lira destes últimos deuses. As notas de seu stradivarius afastavam-no, sublimes, de tudo quanto neste mundo inferior não fossem seus sonhos musicais com ninfas, sereais e demais deusas pagãs da melodia e da poesia. Como nuvem de perfumado incenso, os acentos celestiais de seu violino querido subiam às alturas, enquanto o jovem "virtuose"

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sonhava sempre desperto vivendo a vida real como através de um ambiente encantado: Assim, ainda em sua própria aldeia, onde só se respirava magia e bruxedo, passou sempre por criança singularíssima e chegou a homem adulto, sem quase haver tido juventude. Nunca uma linda cara de moça cativara o artista, nem fora capaz de arrancá-lo de seus solitários estudos. Todos os seus amores eram o seu violino; em sua única companhia havia sempre vivido, sem contar com outro auditório para seus concertos musicais, os deuses e deusas da Grécia clássica daquelas serras. Um ininterrupto sonho de harmonia e de luz! Quão vívidos, quão gloriosos, mas quão inúteis eram estes sonhos duradouros do maravilhoso Franz! Ele era um herói da música, como o deus egípcio com sua lira, ou o deus grego com seu caramilho, e até as deusas do amor e da beleza deixavam suas excelsas moradas, sugestionadas pela arte suprema das escalas de seu violino! - Oh! dizia a si próprio, mais de uma vez, o jovem em suas nostalgias de uma arte nunca ouvida. Poderia eu atrair e encerrar uma ninfa do Parnaso na alma de meu querido violino? Conseguiria eu roubar, algum dia, esse mistério, que se conta, dos grandes deuses da música, domesticando com meu canto as feras e encantando os homens, até obrigá-los também a render-me culto? Tais vinham sendo os sonhos de Franz, ansioso sempre dessas tão efêmeras glórias entre os homens. Para desgraça dele, sua mãe, ao enviuvar, chamou-o para seu lado, na aldeia, arrancando-o da Universidade alemã, onde estava há quase dois anos. Esta chamada deitou por terra todos os projetos do jovem, pelo menos em relação ao seu futuro imediato, pois que, fora de sua aldeia e do calor de sua casa, não contava com os meios necessários para satisfazer seus desígnios, por limitados que fossem. Para cúmulo, sua mãe, que constituía seu único amor na Terra, faleceu pouco depois de ter estreitado em seus braços o seu amado filho caçula. Ainda aconteceu que, não se sabe porque, as comadres da aldeiola desataram cruelmente suas línguas a respeito das verdadeiras causas determinantes da morte da aldeã, relacionando-a, eventualmente, com a estada de seu filho em casa. A viúva, Senhora Stênio, com efeito, antes do regresso de seu Franz, era uma mulher alegre, forte e ainda jovem; alma piedosa e por demais temente a Deus, que jamais faltou à missa e nem deixou de orar diariamente. Sem embargo, apesar disso, o primeiro domingo que se seguiu à chegada do jovem estudante, quando a pobre aldeã limpava o pó, de vários anos, do livrinho de orações que Franz havia usado em sua infância, quando se sentava a seu lado na igreja, e no momento enfim em que o alegre repique dos sinos ressoava, chamando a todos para a Santa missa, a amorosa mãe ouvira, com calafrio mortal, aqueles sonoros repiques serem abafados pelas notas macabras do violino, respondendo, sarcástico, à chamada, com as selvagens melodias de "A Dança das Bruxas"(1). Faltou muito pouco para a aldeã desmaiar, quando seu filho querido negou-se depois, peremptoriamente, a ir à missa, acrescentando, ímpio, que todo tempo passado na igreja era tempo perdido, e que, ademais, os ruidosos sons do vetusto órgão crispavam seus nervos de artista. Para completar aquele acúmulo de enormidades blásfemas e melhor calar as desesperadas súplicas

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maternas, convidou-a, o grande perverso, a ouvir o belíssimo "Hino ao Sol" que acabava de compor. (1). Aquelarre (Witches Sabbath - ou Sábado das Bruxas) - A suposta dança e assembleia das bruxas, em algumas paragem solitária, onde se acusava as bruxas de comunicar-se diretamente com o diabo. Todas as raças e todos os povos acreditaram nisto, e alguns ainda hoje o creem. Assim, o principal ponto de reunião de todas as bruxas da Rússia, dizem ser a Montanha Pelada (Lissaya Goru), situada perto de Kiev e, na Alemanha, Brocken, nos Montes Harz. No velho Boston (E.E.U.U. da América) congregavam-se perto do "Tanque do Diabo", em uma vasta selva, ora desaparecida. Em Salem, deram-lhes morte com aquiescência dos dignitários da Igreja e, na Carolina do Sul, foi queimada uma feiticeira em época recente - ano de 1865. Na Alemanha e Inglaterra foram assassinadas aos milhares, pela Igreja e pelo Estado, depois de verem-se obrigadas a mentir e confessar, pela violência da tortura, sua participação no "Sábado das Bruxas". A noite de Santa Walpurgis ou Walpurga, cuja festa a Igreja celebra a 1º de maio (noite em que ainda hoje as pessoas sensíveis veem chegar com certo temor supersticioso) fez-se famosa na Idade Média pelo aquelarre que bruxos e bruxas celebram na agreste montanha Brocken, ou Broksberg, o mais elevado pico do Hartz. Esta cena está magistralmente descrita na primeira parte do Fausto, de Goethe. (Do Glossário Teosófico de H.P.B.) A boa Senhora Stênio perdeu, desde aquele triste domingo, a costumeira placidez de seu espírito e foi desafogar suas angústias e remorsos aos pés do confessor. A resposta do sacerdote, às suas dúvidas, levou sua alma simples e lógica às raias do desespero, pois da severidade daquele não recebeu a respeito de seu filho senão os mais funestos augúrios. Um contínuo sobressalto, um terror sem limites dominou, então, a anciã, que não deixava de rezar noite e dia pela quase impossível salvação de seu filho e, não contente em fazer, em vão, os votos mais temerários para lográ-la, vendo que nem os salmos em latim, nem as humildes súplicas em alemão, que dirigiu a toda a Corte celestial, davam resultado algum, para com aquele réprobo, fez várias peregrinações a santuários distantes, numa das quais, pelos nevados campos do Tirol, atacou-a um forte resfriado que a levou rapidamente ao túmulo. Via-se, pois, que de certo modo o voto da Senhora Stênio se havia cumprido, dado que a boa senhora já podia, em seu novo estado de após vida, realizar pessoalmente sua visita aos Santos e advogar, junto deles, por aquele perverso que renegava a Igreja, nossa Santa Madre, tinha invencível horror ao órgão e zombava dos sacerdotes e de seus confessionários. Bem alheio estava Franz à ideia de haver sido o verdadeiro causador, embora inconsciente, da morte de sua mãe; lamentou-a de todo o coração e dali a poucas semanas vendeu todos os trastes de sua casa e as modestas benfeitorias de sua fazenda e, leve de bolsa, como de preocupações, resolveu percorrer o mundo como um bom boêmio, sem se estabelecer, nem trabalhar em nada. Visitou, assim, o jovem Franz Stênio, as principais cidades europeias. Depositada

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sua modesta fortuna em um Banco, percorreu a pé a Alemanha e a Áustria, pagando com as notas de seu violino as hospedagens, em quantos albergues e estâncias visitava, passando não poucos dias da boa estação, entre o verdor dos campos e o augusto silêncio dos bosques umbrosos, frente a frente com a Natureza, sonhando sempre de olhos abertos, reduzindo tudo a harmonias, à moda de Hesíodo ou de Anacreonte, nem mais nem menos - como o alquimista transforma tudo em ouro. Até em seus concertos noturnos, nas hospedarias e nos prados das aldeias, nos dias de festa, os participantes eram, para a sua imaginação artística, pastores e pastoras da feliz Arcádia que o coroavam, como ao próprio deus Pan, em seus triunfos. O solo dos salões eram, para ele, prados das mais sugestivas criações mitológicas; sacerdotes e sacerdotisas de Terpsícore, aqueles rudes labregos e aquelas sadias filhas da Alemanha rural, de faces semelhantes a maçãs frescas, lábios de cerejas e olhos de céu, bailando uma dança sagrada, sob as cadências de uma valsa Seu violino, nos momentos solitários passados por seu dono no mais espesso da selva de pinheiros, parecia animar com forças de sagrada magia as próprias árvores, pedras, musgos, tudo quanto, como novo Orfeu, rodeava-o, embelezando; afigurava- se, ao jovem, ver, no delírio de seus sonhos musicais, que até as águas do riachinho detinham, também, seu curso para continuar ouvindo-o, enquanto a cegonha, a águia ou o mocho pareciam perguntar-lhe em seu linguajar desconhecido:

"És tu, Franz Stênio, ou o próprio Orfeu redivivo?" Aquele tempo foi a época mais feliz de sua existência de contínua exaltação artística, de divinos delíquios, de sonhos inenarráveis. Nunca, em nada afetaram o jovem as últimas palavras de sua mãe agonizante, que murmurara em seus ouvidos todos os horrores de uma tão próxima, como definitiva, condenação. Aquilo não se podia comparar mais que a seu conceito musical do domínio pagão de Plutão, senhor do tétrico reino das sombras, quem, ao ouvir seu instrumento, dava-lhe as boas-vindas a seus estados, como a um novo libertador de outra Eurídice de Orfeu. Uma vez mais, a roda de Ísion havia parado ante as cadências mágicas, dando, assim, um descanso ao triste sedutor de Juno e um mentismo a quantos cressem eternos os suplícios dos condenados daquela mansão inabordável, pois o próprio Franz via Tântalo esquecer-se de sua inextinguível sede ao beber naquela torrente de harmonias; Sísifo permaneceu imóvel, sem já sentir o peso de seu opressivo rochedo, sorridente das próprias Fúrias infernais. Vemos, pois, que a mitologia clássica era para Franz, como para tantos outros eleitos, o mais seguro antídoto contra os terrores e ameaças teológicas, sobre a velha e alta Mitologia, fortalecida e espiritualizada pela Música. Euterpe, pela mão de seu fiel discípulo Franz, triunfava, enfim, até do próprio inferno. Porém, tudo acaba logo, oh! dor !, neste mundo infame, e os sonhos do jovem Franz não se puderam subtrair a tão grande lei. Chegou afinal, certo dia, à cidade em cuja universidade ensinava Samuel Klaus, seu velho professor de violino. Quando este santo ancião viu, pobre, órfão e sozinho, seu discípulo favorito, sentiu centuplicar o carinho que nutria pelo rapaz e, estreitando-o contra seu nobre coração, generoso, adotou-o como filho.

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O violinista Klaus parecia evocar, com sua grotesca e rotunda pessoa, os românticos entalhes medievais, porém, desmentindo a sua aparência de trasgo ou duende fantástico, possuía um dos maiores corações, uma alma de ternuras femininas e uma abnegação não inferior à de quaisquer dos mártires do

Cristianismo. Ao contar-lhe, o jovem discípulo, a história dos últimos anos de sua ausência, o velho mestre tomou-o pela mão e levando-o a seu estúdio, disse-lhe

apenas:

- Abandona a vida errante e fica comigo. Poderás alcançar glória e dinheiro. Eu, ancião e sem família, não serei mais que um pai para ti. Vivamos, pois, juntos, olvidando tudo o que é deste mundo, salvo a glória que em breve conquistaremos. Mestre e discípulo concordaram em ir a Paris, tocando em várias cidades alemãs por onde passassem. Com isto, o jovem Franz esqueceu-se, em breve, de sua vida errante; renunciou às nostalgias de sua independência artística, despertando, em troca, sua antiga e adormecida ambição de glória e ouro. Contente, desde a morte de sua mãe, com o aplauso dos deuses moradores de sua vulcânica fantasia, queria, além do mais, também o aplauso dos homens mortais. Sob os severos ensinamentos de Klaus, seu talento musical inato ganhava, cada dia, em vigor e magia, estendendo- se, rapidamente, a fama de seus méritos por cidades e vilas. As mais geniais capacidades de vários centros proclamaram-no, de pronto, violinista sem rival, o violinista único, com o que, não é preciso acrescentar, perderam a cabeça por fim tanto o mestre como o discípulo. Mas a capital da França não concedeu, de início, facilmente, ao jovem tamanha fama, porque é sabido que Paris costuma fixar por si mesma as reputações, sem

aceitá-las sob opinião alheia. Assim é que o violinista Franz já ali estava há três anos

e subia ainda a áspera encosta de seu calvário, como artista, quando lhe aconteceu um fato que chegou a fazer murchar todos os seus sonhos de glória. O primeiro concerto de Paganini pôs a cidade-luz em intensa comoção. O maestro italiano apareceu e Lutécia inteira caiu a seus pés.

II

Chegados a este ponto de nosso relato, convém recordar uma superstição medieval que subsistiu até meados do presente século e que atribui todas as grandezas do gênio ao fato deste manter estreito "pacto com o diabo". Todos os artistas, Paganini inclusive, foram acusados de semelhante pacto. Do grande violinista Tartini, assombro do século XVII, chegou-se a dizer que os mágico efeitos, sobre seus auditórios enfeitiçados, deviam-se nada mais do que a seus pactos com os "malignos". Assim, sua célebre "Sonata do Diabo" foi causa das

mais terríveis lendas. Conhecida também por "O Sonho de Tartini", a ele atribuiu-se

a direta inspiração do próprio Satanás, que a executou perante Tartini, enquanto este dormia, sendo o próprio músico o primeiro culpado de semelhante fama por suas frases imprudentes. (2) 2. À famosa "Sonata do Diabo", de Tartini, atribui-se a seguinte origem:

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"Depois de haver lutado em vão, a fim de achar inspiração para a sonata que estava compondo, o maestro adormeceu profundamente. Preocupado, como estava com seu tema, Tartini sonhou que continuava seu trabalho de vigília, tão esterilmente, que, desesperado, invocou o diabo, o qual, aparecendo-lhe, propôs a mais abundante inspiração em troca de sua alma. Feito o trato, o maestro ouviu, no mesmo instante, um violino maravilhoso que executava a sonata mais assombrosa que se poderia ouvir, sobretudo nas fases finais que não pareciam, com efeito, coisas deste mundo Tartini despertou sobressaltado, mas com a inexplicável inspiração recebida no sonho, cheio de ardor, pegou seu instrumento e, Imediatamente, ficou pronta a obra que, desde então, chamou-se a "A Sonata do Diabo". De tamanhas acusações bruxas não escaparam tão pouco os mais célebres cantores, pelos efeitos maravilhosos logrados com suas vozes sobre os auditórios embevecidos. A voz sublime de Pasta atribui-se a que sua mãe, nos três últimos meses de gestação, teria sido arrebatada ao Céu e, durante seu êxtase, havia tomado parte em um coro de excelsos serafins. Malibran devia sua voz, segundo uns, a Santa Cecília, patrona dos músicos e, segundo outros, ao próprio diabo que já lhe cantava ao ouvido, à beira de seu berço, para que adormecesse. Por último, Jubal de Dryden alcançou a suprema arte de tocar, à guisa de violino, numa simples concha marinha com cordas, arrastando, entretanto, a multidão enlouquecida e fazendo-a dizer que era um anjo do céu, e não as cordas da concha, quem produzia aqueles sons. O avaro violinista italiano, Paganini, não podia deixar de ter outra lenda análoga, porque sem ela eram inexplicáveis seus prodígios. Eram tais, com efeito, as emoções que, com o instrumento despertava em seus auditórios que, dizem, ter Rossini chorado, como uma sentimental mocinha alemã, ao escutá-lo pela primeira vez. A princesa Elisa de Lucca, irmã de Napoleão I, a cujo serviço esteve Paganini algum tempo, como diretor de sua orquestra particular, não podia ouvir as primeiras notas do músico sem desmaiar imediatamente. A magia de seu arco permitia ao grande artista determinar, à vontade, os mais aparatosos ataques histéricos nas mulheres e despertar entre os homens fortes o mais louco frenesi, fazendo de qualquer covarde um herói e do soldado mais aguerrido uma nervosa meninota. Daí é que as lendas macabras, acerca do artista, tanto se alimentaram (e isto não se dizia, de modo algum, sem terror e de ouvido a ouvido), afirmando-se, especialmente, que tudo aquilo se devia apenas às cordas de seu violino que não eram como as dos demais instrumentos, mas que estavam torcidas com intestinos humanos, verdadeiros, extraídos por feitiçaria, de acordo com os cânones mais horríveis da necromancia. Isto, por muito que choque aos sábios ouvidos ocidentais, nada tem de impossível, com efeito. Talvez a tradição da própria necromancia da Idade-Média pôde dar lugar a tamanha lenda, porque é um fato provado em Ocultismo, que

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muitos magos negros orientais, em especial os tântricos bengaleses recitadores de tantras ou conjuros para atrair espíritos maléficos, usam, para suas perversas obras, dos próprios órgãos internos dos cadáveres. Agora, por outro lado, que nos são mais conhecidos os poderes perigosos do magnetismo, mesmerismo e hipnotismo, manejados tecnicamente pelos próprios médicos, poder-se-ia supor que, com menos perigo que antes de ser escarnecido, os efeitos mágicos que Paganini produzia com seu violino, não eram devidos somente a seu gênio musical, mas aqueles fenômenos de admiração, patologia e sugestão experimentados por seus auditórios (admirações que tinham algo de sobrenatural e diabólico, segundo muitos de seus biógrafos) deviam-se a uma origem mais misteriosa que a da impecável execução e técnica do mestre. E, por isso também até podia mudar de timbre o instrumento, fazendo com que, com suas melodias na corda G somente, o violino se assemelhasse a uma flauta. Rumores tais podiam tomar corpo muito mais antigamente do que agora que as pessoas são muito mais céticas, chegando-se a murmurar, assim, em sua cidade natal e também em toda a Itália que Paganini havia assassinado sua esposa e mais tarde uma amante, a qual, não obstante sua paixão, não achou inconveniente em sacrificar com suas próprias mãos para lograr suas diabólicas ambições. Com o conhecimento prévio que efetivamente tinha, acerca de diferentes artes necromântícas, tinha conseguido logo aprisionar na alma de seu violino de Cremona as almas amantes de suas duas vítimas.

Os íntimos de Ernesto T. W. Hoffmann, o admirável autor de "O Mestre Martin",

"O Tanoeiro de Nuremberg ", "O Elixir Diabólico" e outras narrações místicas e arrepiantes, asseguram que o Conselheiro Crespel de "O Violino de Cremona" fora baseado no lendário caso de Paganini, pois, segundo todos sabem, o conto fantástico narra como Crespel, o violinista, havia encerrado em seu violino a alma de uma diva famosa, a quem tinha amado com delírio, incorporando ainda a seu instrumento a alma pura de Antônia, sua própria filha. Uma nação, enfim, como a Itália que tinha tido entre seus antepassados as famosas famílias necromânticas dos Bórgias e Médicis, podia bem fomentar lendas como aquela, máxime quando certo período da juventude de Paganiní aparece, com efeito, envolto em mistério impenetrável, o que, juntamente com aquela extraordinária facilidade com a qual tirava os mais extraterrenos sons de seu instrumento, inclusive o da voz humana, bem puderam dar pábulo a tamanha lenda terrorífica.

III

Até os dias de nosso conto, Franz Stênio não havia ouvido falar de Paganini. Em tais tempos, precursores do vapor e da eletricidade, a Imprensa quase não existia e era mais curto o voo da fama.

O rapaz, devorado pela inveja, jurou competir com o mago genovês e até

superá-lo se pudesse. Sim, ou conseguiria o atrevido jovem ser o mais famoso de

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todos os violinistas de sua época, ou faria em pedaços seu indócil instrumento! O velho Klaus aplaudia com toda a sua alma tão heroica determinação. Esfregando as mãos, com mostras do mais louco contentamento, Samuel Klaus saltava alegremente sobre sua perna coxa, como um sátiro estropiado, lisonjeando e adulando seu discípulo predileto, como se cumprisse o sagrado dever de consagrar um herói. Franz era capaz de sofrer tudo, menos o fracasso. Era indiscutível que já tocava como um mestre; porém, os críticos severos tinham lhe afirmado que necessitava uns tantos anos mais de trabalho esforçado, antes que pudesse aspirar ao dom de arrebatar seu auditório. Isto ocorreu depois de três anos da chegada a Paris do discípulo e do mestre. Por fim, depois de um estudo

desesperado, durante mais de dois anos, nos quais pode-se dizer que Franz não fez outra coisa, o artista Sleyer já lhe tinha preparado a primeira audição no Teatro da Ópera, ante o público mais exigente do mundo. Mas, golpe fatal assestado contra as floridas ilusões do artista! A apresentação de Paganini então encarregou de dar por findos tão dourados sonhos! Tinha que esperar, e não pouco, ante a refulgente aparição daquele astro único! A princípio, o invejoso Franz contentou-se em sorrir ante o cego entusiasmo, os hinos de elogio cantados em louvor do italiano e o assombro, quase supersticioso, com que, em qualquer lugar, ouvia pronunciar o odioso nome, porém bem cedo este chegou a ser, para os corações de ambos, um ferro candente que os abrasava. Ultimamente, só o nome de seu rival, cujos êxitos eram, cada dia, mais estupendos, quase lhes produzia acessos de loucura. Concluiu a primeira série de concertos sem que nem o velho, nem o jovem houvessem podido ouvir Paganini e julgá-lo por si próprios. Eram tão exorbitantes os preços, mesmo os dos lugares mais inferiores e tão pequena a esperança de que aquele grandissíssimo avaro se mostrasse generoso para com um humilde e desconhecido irmão da Arte, que tiveram de resignar-se a esperar que a sorte lhes proporcionasse um meio, como tantos outros que já lhes havia dado. Mas, chegou um dia em que lhes foi impossível aguentar mais e, empenhando seus relógios, compraram dois modestos lugares para o concerto. Como descrever as emoções daquela noite, ao mesmo tempo feliz e fatal? O auditório estava mais enlouquecido que nunca: os homens rugiam e choravam, as senhoras guinchavam histéricas, desmaiando, enquanto KIaus e Stênio, mais pálidos que espectros, mordiam os lábios em silêncio. Ao brotar a primeira nota do arco mágico de Paganini, ambos sentiram um calafrio sobrenatural, como se a gelada mão da morte os houvesse tocado o coração. Sua tortura era violenta, sobre-humana, ao

mesmo tempo que indescritível sua emoção artística

Acabada a função, à meia-

noite, e, enquanto os delegados selecionados, das Sociedades Filarmônicas e do Conservatório, desatrelavam os cavalos do coche do colosso e o arrastavam em triunfo até sua casa, os dois infelizes alemães, cambaleando, como ébrios, e sem dizer palavra, tristes e desesperados, retornavam a seu tugúrio, ocupando seus costumeiros lugares, junto ao fogo, até que Franz, pálido como a própria morte,

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rompeu o triste silêncio e disse:

- Samuel, Samuel, já não nos resta mais salvação senão morrer! Estás me

ouvindo? Nada somos, nada valemos; éramos dois infelizes iludidos ao crer que alguém pudesse chegar a rivalizar com ele, com O nome odioso e impronunciável do mago atravessava-se-lhe na garganta. Cheio de raiva, impotente, espojou-se pelo chão, desesperado. O apergaminhado semblante de Mestre Samuel tornou-se primeiro lívido, congestionando-se depois; seus pequenos olhos cinzentos despendiam uma singular fosforescência. Inclinando-se ao ouvido de seu discípulo, disse-lhe com voz

entrecortada e cavernosa:

- "Nein, nein"! Tu te enganas, meu amado Franz, tu te enganas! Ensinei-te da

divina arte quanto um simples mortal, cristão, velho, pode ensinar a outro mortal. Tenho eu culpa de que estes condenados italianos apelem aos recursos diabólicos da Magia Negra, ensinados por Satanás em pessoa, para poder triunfar sem réplica no mundo da arte? Franz, ao ouvir aquilo, olhou seu mestre de um modo sinistro, deitando fogo

pelos olhos febris. Aquele olhar era todo um poema de desespero, que parecia dizer:

- Se assim fosse, eu não teria, tampouco, inconveniente algum em vender-me de corpo e alma ao mesmíssimo diabo!

Mas nada disseram seus lábios contraídos. Pelo contrário, desviando o olhar de seu mestre, o jovem pôs-se a contemplar, como um idiota, o fogo mortiço e começou

a sonhar

ânsias, tornadas como realidade em seus anos de juventude, quando falava com os

gnomos, bruxas e fadas da selva, inspirando a seu instrumento as mais extra- humanas melodias. As sinistras sombras de Tântalo e Sísifo, ressuscitando como antigamente nas peregrinações boêmias do jovem, pareciam dizer-lhe com inaudita perversidade:

- Que te podem importar, tonto os horrores de um inferno, do qual não crês? E,

ainda, na suposição de que existisse, que outro lugar pode ser senão o grandioso lugar descrito com cores épicas, pelos clássicos gregos, não o dos imbecis fanáticos modernos - quer dizer, uma vasta região cheia de sombras conscientes entre as quais poderias, acaso, ser premiado como um segundo Orfeu? Franz, indubitavelmente, enlouquecia por momentos. Seus olhos injetados de sangue, olhavam seu mestre de um modo excessivamente singular. Ao ver-se surpreendido, logo iludia o bondoso olhar do velho. Samuel compreendia, com efeito, o estado mental de seu discípulo, e fez quanto podia para tirá-lo desse estado, porém foi em vão.

Sonhava, sim, que voltavam, como antes, seus incoerentes anelos; suas

- Franz, filho meu - dizia-lhe - asseguro-te, sim, que a funesta arte desse italiano não é natural não nem devido ao estudo, nem ao gênio, nem adquirido, repito, pelas vias ordinárias que os demais mortais seguem. Deixa de olhar-me assim, desse modo tão inquietante, porque o que te digo já não é segredo para ninguém. Escuta e compreenderás E, fazendo um esforço como para afastar uma sombra de medo, continuou:

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- Sabes bem o que se murmurava acerca da morte de Tartini e da "Dança das

Bruxas"? que morreu num sábado, a altas horas da noite, estrangulado por seu próprio demônio familiar que antes lhe dera o segredo de dotar seu violino da voz humana, encerrando na alma do Instrumento a alma de uma infeliz donzela a quem, com efeito, assassinara. Pois saiba mais: Paganini fez outra coisa, pior entretanto; para conseguir o mesmo para seu instrumento e fazer com que pudesse rir, chorar, gritar, blasfemar ou orar - tudo ao mesmo tempo. - com as mais patéticas entonações humanas, assassinou não só sua mulher e sua amante, mas também o amigo mais íntimo que o estimava com delírio fazendo com os intestinos deste (retorcidos por ele

próprio) as cordas para seu violino. Daí o segredo de seu gênio mágico e dessas sucessões de melodias inauditas, com as quais, diariamente, enlouquece seu público. Estas coisas, tu não podes consegui-las nunca, a menos que

O ancião não pôde concluir a frase. Viu algo, então, no olhar diabólico do

enlouquecido discípulo, que o deixou petrificado de espanto e o fez cobrir o rosto

com as mãos, para não tornar a vê-lo, Franz tinha um ricto imponente, satânico! Seus olhos de hiena, sua palidez cadavérica, diziam tudo Com voz cavernosa, exclamou com dificuldade, por fim:

- Mas, falas seriamente?

- Que dúvida há, desde o momento em que empenho minha palavra de ajudar-te custe o que custar? respondeu Samuel.

- Quer dizer que - continuou o terrível jovem - crês firmemente que, se eu

conseguisse contar com os meios de arranjar também intestinos humanos, poderia igualar Paganini e ainda superá-lo?

O ancião descobriu o rosto e, como quem já tomou uma resolução heroica,

acrescentou de modo sinistro:

- Os simples intestinos humanos não bastam por si só para conseguir nosso

intento, mas têm que haver sido arrancados de alguém a quem se haja querido com afeto desinteressado e santo. Tartini dotou seu violino com a alma de uma virgem

que o amava e que morreu por sua causa, ao ver que seu amor pelo grande músico não era correspondido. Aquele verdadeiro diabo humano recolheu em uma redoma o derradeiro alento da donzela, e logo o transferiu ao seu violino. No que tange a Paganini, convém acrescentar que o amigo, por ele assassinado, o havia sido com seu consentimento, em meio da mais assombrosa das renúncias.

- Oh! divino poder da voz humana, não igualado por nenhum outro poder do

mundo! continuou o velho. Que magia há na Terra que se possa igualar à sua? Eu

haveria te ensinado também este magno e último segredo, se não fosse porque isso equivale a arrojar-se para sempre nas garras daquele cujo nome não se pode

pronunciar de noite

- acrescentou o ancião, voltando às superstições de sua

juventude. Franz, em lugar de responder, levantou-se de seu assento, com uma tranquilidade que dava frio; apanhou seu violino e, com um repuxão selvagem, arrancou-lhe as cordas e atirou-as ao fogo. Elas, ao queimarem-se, pareciam silvar e retorcer-se, como serpentes, nas brasas. Samuel deu um grito horrorizado.

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- Por todas as bruxas da Tessália e pelas negras artes de Circe, a perversa maga! Por Plutão e todas as suas infernais fúrias! Juro-te, oh! meu santo mestre Samuel! que não tornarei a pegar esse violino nas mãos até que lhe coloque cordas humanas! E, espumando de raiva, caiu ao solo sem sentidos O pobre mestre levantou-o com ternuras de mãe; depositou-o suavemente no leito e saiu em busca de um médico, alarmadíssimo

IV

Franz Stênio lutou varies dias entre a vida e a morte. O médico diagnosticou uma febre cerebral da qual tudo se podia temer. Jazia o jovem em um quase contínuo delírio e Klaus, que cuidava dele noite e dia com verdadeira solicitude paternal, estava horrorizado de sua própria obra. O velho professor, não obstante os anos que carregava, tratando seu discípulo, não havia compreendido até então toda a natural brutalidade daquela alma selvagem, supersticiosa e impassível, cuja vida inteira havia se refugiado tão somente na paixão pela música, alma que unicamente podia se alimentar do aplauso, alma terrena, inumana; alma genuína de artista, porém com a parte divina absolutamente ausente daquele filho das musas, todo imaginação e poesia cerebral, mas sem coração, nem piedade. Mais de uma vez, ao acompanhar o fio, difícil de seguir, daquela delirante fantasia, o bom ancião acreditava-se transportado, por vez primeira, a uma região inexplorada, absurda, de loucura, como se aquela natureza psíquica, encerrada no débil corpo do enfermo, não fosse desta Terra, mas de algum outro planeta informe ou incompleto. O terror ante tudo isso também o fizera enfermo e até perguntou se valeria a pena salvar a vida daquela criatura infernal, ou deixá-la morrer piedosamente antes de recobrar o uso dos sentidos. Não obstante, amava demasiado "seu filho" para fazê-lo, pelo que, no mesmo instante, sua mente afastou esta última ideia. Franz tinha enfeitiçado a alma essencialmente musical do mestre e não parecia senão que a vida dos dois achava-se ligada por um vínculo indestrutível ao mesmo Fado. Semelhante convicção, adquirida num vivo raio de luz espiritual, à cabeceira do enfermo, decidiu-o por fim, como se fosse uma revelação, a salvar o rapaz, ainda que fosse à custa de sua gasta e inútil vida.

Era aquele o sétimo dia da enfermidade. A crise da manhã foi a mais t errível de quantas haviam acometido o jovem até então. Este estava há vinte e quatro horas sem cessar de delirar, com os olhos fechados, descrevendo com macabra

minuciosidade, em seus mínimos detalhes, espectros espantosos; sombras sinistras de crimes flutuavam em fila interminável naquele recinto, fila cujos personagens eram especificamente nomeados e designados pelo enfermo, como se se tratasse de antigos conhecidos. Acreditava ser um novo Sísifo, amarrado ao penhasco do Cáucaso com os quatro fragmentos de intestino, transformados em outras tantas cordas de

Um rio Stix, não de negras águas, mas de sangue vermelho, corria a seus pés

violino

87

de condenado eterno e acrescentava enlouquecido:

- Desejas, oh! infeliz ancião!, saber como se chama a. rocha de meu Cáucaso?

Pois chama-se Samuel Klaus, aquele pobre velho que me ensinou a tocar violino! - Oh! sim, sou eu, somente eu, a causa de tua desgraça meu filho! - respondia ele

chorando e pegando-lhe as mãos com desespero. Eu mesmo, ao tratar de consolar-te, matei-te imprudentemente, pois feri de morte a tua imaginação, ao informar-te acerca das negras artes de Paganini!

- Ha! Ha! Ha ! replicava o enfermo com horrível gargalhada satânica. Pobre velho

Tu não

vales nada e teu intestino só pareceria bem se estendido sobre um bom violino de Cremona, e, posta nele, a tua própria alma!

Klaus sentiu um calafrio mortal, porém guardou silêncio e, inclinando-se sobre a testa

saindo por uns instantes

do quarto, porque sentia que o desespero afogava-o. Ao voltar dali a pouco, o delírio havia

tomado outro curso. Franz cantava, tratando de imitar as notas de seu violino, com a mesma satisfação selvagem que teria, se já estivessem estendidas neste, à guisa de cordas, os intestinos do mestre. À tarde, o delírio revestiu-se de uma forma impossível de descrever, ígneos espíritos punham na fogueira seu queridíssimo instrumento. Mãos esqueléticas, mãos que eram as do jovem, brotando chispas e chamas por todos os dedos, faziam sinais ao velho para que se aproximasse, como se fosse abrir-lhe um corte com absoluta rapidez, para dissecá-lo ferozmente, a ele, a Samuel Klaus, o mestre, "o único homem que, por querer-lhe terna e desinteressadamente, era o único também cujos intestinos podiam ser-lhe de alguma utilidade no mundo!" No outro dia, como por encanto, a febre cessou e dois dias depois, Stênio pôde deixar o leito, sem conservar recordações de sua enfermidade e sem suspeitar que, em seus

O único

resultado fatal da enfermidade foi que, firme o jovem em sua promessa ao arrancar as cordas antigas de seu violino e necessitando sua indomável paixão de semelhante válvula, enterrou-se no estudo da Alquimia, da Quiromancia e demais artes ocultas, com tanta ou maior paixão do que a que antes sentira pela música. Passaram-se semanas, meses e nem o mestre, nem o discípulo mencionaram sequer Paganini. O violino, sem cordas e coberto de pó e teias de aranha, oscilava em seu lugar, esquecido e mudo, em meio da profunda melancolia que se havia apoderado de ambos que apenas trocavam palavras. Dir-se-ia que o violino não era senão um cadáver que a fatalidade havia interposto entre os dois. Sarcástico e sombrio, o jovem evitava cuidadosa- mente toda a conversação sobre música. Para sondar um tanto a alma do jovem e saber o que se passava nela, certo dia, o ancião tirou da caixa seu esquecido violino e se pôs a tocar não sei que tarantela. Às primeiras notas, Franz experimentou um estremeção nervoso, semelhante a uma chicotada, mas nada disse. Os olhos se lhe saltaram das órbitas e ele fugiu, por fim, como um louco, vagando sem rumo pelas ruas de Paris, durante muitas horas, enquanto o bom Klaus arrojou seu instrumento para um lado e encerrou-se em sua alcova até o dia seguinte.

delírios, havia deixado Klaus ler no fundo de seus mais secretos pensamentos

do jovem, abrasada pela febre, nela depositou um grande beijo

caduco, que é que me dizes? Tua carne é inconsistente! Eu a cortaria assim!

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Como se vê, aquilo não podia continuar assim. Uma noite em que o jovem Stênio estava, quiçá, mais sombrio e imponente que nunca, o velho mestre levantou-se repentinamente de sua cadeira e, dirigindo-se com resolução ao seu discípulo amado, deu um grande beijo em sua testa, dizendo-lhe afetuosamente:

- Franz querido! isto, assim, não pode continuar. Não crês que é chegado o tempo de pôr fim à nossa violenta situação? Franz despertou sobressaltado de seu letargo habitual respondendo como em sonho:

- Certo! já é mais que tempo de pôr-lhe fim. Ambos foram dormir sem mais dizer palavra.

No dia seguinte, Franz não viu o ancião no seu lugar de costume. Vestiu-se e passou à sala de jantar que separava as alcovas. Nem o fogo havia sido aceso, aquele dia, como era hábito de Samuel; não se via sinal algum das ocupações usuais do mestre. Franz, estranhando tudo aquilo, sentou-se em seu lugar de sempre ao lado da lareira apagada, caindo em sua eterna obsessão, da qual saiu ao estender as mãos para cruzá-las atrás da cabeça; chocaram-se elas com algo estranho que estava na estante, por detrás dele e caiu

Era a caixa do violino do pobre Klaus que caiu e rodou até os pés de

ao solo com estrépito

seu discípulo esvaziando de seu conteúdo o próprio violino, cujas cordas ao esbarrarem contra a lareira produziram algo parecido com um gemido lastimoso. O efeito que aquilo produziu, no jovem, foi mágico.

- Samuel, Samuel! gritou, sem ter resposta. Que acontece? acrescentou, dirigindo-se ansiosamente até a alcova deste.

Mas, nesse momento, retrocedeu espantado ante o eco de sua própria voz, que não recebia resposta alguma. O aposento estava às escuras e, ao abri-lo, viu que

Samuel Klaus estava sobre o leito, rígido e frio

O choque foi terrível. A louca ambição do artista fanático quase não deu lugar ao

primeiro impulso de afeto para com aquele amado morto, a quem tanto devia

ia,

pois, imediatamente, trabalhar, como era de temer-se, quando sua vista, perturbada, fixou-se em um escrito a ele dirigido e que dizia:

Jazia morto!

"Franz, filho querido Quando leres esta, teu velho mestre, teu amigo, já terá feito o maior sacrifício

que podia, para o sucesso de teu ideal de fama e riqueza. Ele que tanto te quis, aqui

jaz frio e inerte. Já sabes o que te cabe fazer

Eu, livre e espontaneamente, te ofereci meu corpo em holocausto à tua fama futura, e cometerias a mais negra das ingratidões se, por timidez ou covardia, tornasses inútil este meu sacrifício. Quando teu amado violino se vir com suas novas cordas e estas sendo uma parte de meu próprio ser, aquele estará investido do mesmo segredo mágico do célebre Paganini. Nelas, em minhas cordas, encontrarás, sempre que quiseres, os ecos de minha voz, meus gemidos, meus cantos de amor e de boas- vindas - enfim, todas as entonações mais patéticas de meu imenso amor por ti Assim, pois, meu Franz idolatrado, nada temas: não vaciles! Pega, triunfalmente, teu instrumento e lança-te ao mundo, seguindo os passos daquele que semeou o

Apresenta-te altaneiro em todos

Para longe, as preocupações néscias!

desespero e a desgraça na senda de nossas ilusões

89

os lugares em que ele se apresentar ao público: zomba dele, reptando-o ao mais galhardo dos desafios. Então, conseguirás compreender e ouvir, oh! Franz querido, quão potentes são sempre as notas de todo amor desinteressado e, na última carícia daquelas cordas, lembrar-te-ás que são o corpo e a alma de teu abnegado mestre que, pela derradeira vez, te abraça e te bendiz, Samuel"

Duas ardentes lágrimas lutaram por brotar dos olhos do enlouquecido Stênio, mas evaporaram-se quase antes de surgir, enquanto que os olhos, com fulgores demoníacos, nascidos de seu orgulho e de uma ambição sem limites, fixaram-se com prazer no rígido cadáver. A pena resiste a escrever o que ali se passou mais tarde, uma vez que se cumpriram os trâmites da lei com o suicida, porque convém advertir que o abnegado Samuel Klaus havia previsto tudo, para assegurar a impunidade de seu discípulo, escrevendo uma carta à Justiça para que ninguém fosse culpado de sua morte. Depois de um quase simulacro de autópsia, por parte das autoridades judiciárias, ali ficou o cadáver do pobre Klaus, à completa disposição de seu herdeiro Nem bem haviam transcorrido quinze dias, após a desgraça, e já estava o violino de Franz tirado de seu lugar, limpo e com suas quatro flamantes cordas novas. Seu dono, o impassível Franz Stênio não se atrevia nem a olhá-las. Quis tocar, porém o próprio arco parecia tremer em suas mãos, como o punhal nas de um assassino novato. Resolveu, então não tocar até o memorável dia em que houvesse de competir com o odiado Paganiní e até superá-lo, sem dúvida. Por aquele tempo, o estupendo artista já não se encontrava em Paris, mas percorria em triunfo as cidades flamengas da Bélgica.

V

Poucos dias depois do acima narrado, achava-se o maestro Paganini no refeitório do seu hotel, de regresso de um concerto noturno, rodeado de seus constantes

admiradores, quando se acercou dele um estranho jovem, de olhar erradio e selvático, que lhe entregou um cartão, com umas tantas linhas a lápis. Paganini lançou sobre o intruso um daqueles seus olhares mágicos que poucos homens podiam suportar cara a cara; porém, encontrou-se, como vulgarmente se diz com a forma de seu sapato, posto que o jovem, sem baixar o olhar, sustentou-o como de potência a potência. Saudou-o, então, friamente e disse-lhe com toda a secura:

- Estou à tua completa disposição, cavalheiro. Fixa a noite e far-se-á como desejares. No dia seguinte, a cidade inteira soube estupefata que se preparava, para a noite imediata, um desafio singular. O estranho era o seguinte cartaz, fixado em todas as esquinas:

, público o jovem artista alemão Franz Stênio que veio "ex-professo" a esta cidade, com

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"Na noite de

no Grande Teatro da Ópera, estreará perante o respeitável

o único objetivo de medir seus dotes musicais, como violinista, com o maravilhoso maestro Paganini, competindo, com o artista famoso, na interpretação de suas mais difíceis composições. Nobremente aceito o repto pelo mestre sem rival, Franz Stênio executará, competindo com ele, o capricho fantástico que leva o título de "Dança das Bruxas". O efeito daquela notícia não pôde ser mais delirante, coisa bem prevista pelo avaro Paganini que, nunca perdendo de vista seus negócios, encarava-os tanto, ou mais, que a sua própria arte. Havia, assim, dobrado o preço dos lugares, naquela memorável noite, não obstante o que, o grande teatro encheu-se completamente. Chegado o dia do certame, não se falava de outra coisa na cidade e nas vizinhanças. O sono havia fugido dos olhos de Stênio, que tinha passado toda a noite anterior em seu aposento, mais inquieto que a fera em seu covil caindo em sua cama, ao amanhecer, esgotado física e moralmente, num estado comatoso, que não parecia senão o prólogo de sua morte. Então teve este macabro pesadelo, que mais parecia realidade do que sonho:

O violino estava sobre a mesa próxima, encerrado em sua caixa, à chave, a qual o jovem nunca abandonava, desde o dia em que lhe pôs, impávido, as consabidas cordas, as quais não havia roçado, uma só vez, com seu arco. Desde aquele famoso dia havia se exercitado em outro instrumento. Súbito, o jovem adormecido acreditou ver, completamente desperto, a tampa da caixa levantar-se por si, deixando aparecer o cadáver do velho Klaus, com seus fosforescentes olhos abertos, olhando-o súplices, enquanto que a voz do próprio Klaus, cavernosa, ao mesmo tempo que difusa, dizia-lhe:

- Franz, filho querido, sou muito desgraçado nesta nova vida de além-túmulo,

porque não posso separar-me de

Estas, como respondendo telepaticamente à angustia de seu velho dono, pareceram soar, debilmente, como um gemido Aquilo deixou Franz transido de espanto: seus cabelos eriçavam-se e seu sangue se lhe gelou nas veias. Isto não é mais que um sonho, um simples sonho! repetia maquinalmente, para, em vão, criar ânimo. - Sim, fiz todo o possível, filhinho, todo o possível para desprender-me destas malditas cordas; mas, tudo inútil. Poderias ajudar-me, tu que ainda estás vivo? Os sons foram se tornando mais e mais agudos, até tornarem-se fortes e estridentes, enquanto que, dentro da caixa, um arranhar estranho, como de ratos, um zumbir como de um enxame de abelhas, vagava angustioso e horrível. Aqueles ruídos eram bem familiares ao mísero Franz, pois que os ouvira, amiúde, desde a tarde em que havia operado os macabros despojos, para colocá-los como pedestal de sua louca ambição, porém até então tinha logrado persuadir-se, mais ou menos, de que se tratava de uma alucinação. Aquilo era, sem embargo, bem real, dolorosamente real. Quis falar, pedir socorro, fugir, porém, como sucede sempre, em tais casos de pesadelo, os pés permaneceram cravados no solo e a voz expirou em sua garganta. Aqueles saltos e sacudiduras eram

elas, das cordas!

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cada vez mais angustiosos, até que chegou um momento em que soaram uns estalidos, como algo que se rompe dentro de uma caixa. A visão de seu violino, já sem cordas, consumia-o de desespero. Fez então, o jovem, um supremo esforço para libertar-se do íncubo que o obsecava, enquanto que a vozinha de sempre, suplicante, repetia:

- Faze, faze, pelo que mais amas; se não, faze por ti mesmo e ajuda-me a

desprender-me de mim

Franz saltou para a caixa entreaberta, como o avaro a quem tentam roubar o tesouro, ou como a fera que disputa sua presa, no paraxismo do desespero, e rugiu

furioso, crispando as mãos:

!

- Diabo, monstro, ou o que sejas! Deixa em paz meu violino!

E, enquanto dizia isso, prendeu a caixa com a mão esquerda, segurando a tampa, ao mesmo tempo que, com a direita, desenhava sobre ela, com um pedaço da colofônia do arco, a famosa pentalfa, o signo de Salomão, com o qual, nos Contos das "Mil e Uma Noites", o rei aprisionava, em suas redomas, hostes inteiras de jinas rebeldes. Um uivo de protesto ressoou no interior da caixa fechada. - És um perverso, ingrato, meu amado Franz! Entretanto, pelo muito que te estimo, perdoo tua insolência! Sabes bem, no entanto, que não podes aprisionar-me. Olha! E, ao dizer isto, uma névoa escura surgiu de dentro da caixa fechada, estendendo- se por todo o aposento e envolvendo em suas frias e viscosas volutas o corpo do aterrorizado Franz, qual anéis de uma serpente, antes de estrangular sua vítima. Ao seu contato, de insuportável angústia, o desventurado deu um grito agudo e despertou

- Não foi senão um sonho mau! exclamou acabrunhado o jovem, apertando

contra o coração a caixa do seu stradivarius. Seu violino, com efeito, estava ali e, intactas, sobre seu cavalete, as preciosas cordas mágicas, com o que recobrou logo o sangue frio de sempre. Limpou, seguidamente com esmero o instrumento, passou resina nas cordas do arco, ajustou a tensão das cordas, retesando-as e chegando até a ensaiar as primeiras notas de "As Bruxas" - primeiro com medo e, logo a seguir, com corajosa resolução. Aquelas primeiras notas da peça, ultrajantes e altivas, qual hino de combate, ao mesmo tempo que doces e majestosas como arpejos de serafins, revelaram ao hábil Franz uma nova e gigantesca potência de seu arco. Nos ligamentos das notas, que se

seguiam, viam-se surgir arco-íris maravilhosos, cataratas de luzes, tíbias, perfuradas,

extraterrestres

primavera. Aquelas harmonias, nunca ouvidas, pareciam poder fazer com que os rios

detivessem seu curso, as montanhas se trasladassem de lugar e até os poderes do inferno inexorável se enternecessem de piedade Os "legati" converteram-se em singulares arpejos e terminaram por uns

De novo,

desabridos "staccati", semelhantes à gargalhada de uma harpia infernal

então, assaltaram a Franz os terrores astrais do pesadelo; reconheceu, naquela

como em um supremo hino de amor, de juventude e de eterna

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gargalhada, a própria voz de seu velho mestre Samuel, arrojando, acovardado, o arco. Não se atrevendo a continuar aquela evocação musical bruxa, fechou, cuidadosamente em sua caixa o terrível instrumento; levou-o à sala de jantar e, vestindo-se com o maior esmero, pôs-se a esperar, o mais tranquilamente que pôde, a hora solene de ir ao encontro marcado.

VI

O momento supremo chegou: Franz Stênio achava-se em seu posto, tranquilo e sorridente. O teatro estava completamente cheio, tendo muita gente ficado fora, pretendendo entrar por dinheiro ou por favor. Um rio de ouro desaguava, pois, no bolso do avaro Paganini, já seguro de seu triunfo artístico. Cabia ao famoso maestro começar. Quando, dono completo do público, entrou em cena com seu stradivarius, estalou uma frenética tempestade de aplausos, que durou largo tempo, fazendo vibrar as paredes do salão. No meio do mais religioso silêncio, preludiou suas célebres variações de "A Bruxa", interrompidas por mal contidos bravos! Ao acabar, de um modo prodigioso. 'houve um delírio de entusiasmo, fazendo crer ao jovem 'Stênio que, durante muito tempo, sua vez não chegaria 'nunca, ou que o público, acreditando ser insuperável a execução que

acabava de ouvir, não se prestaria a escutá-lo sequer. Por fim, o mestre, aborrecido por tantos aplausos, pôde retirar-se do palco, porém não sem cruzar seu desdenhoso olhar triunfal com o do sereno reptador, que se aprontava para o seu trabalho.

A frieza mais glacial acolheu as primeiras notas de Stênio, sem que o presságio

de tão mal começo o desconsertasse de modo algum. Pálido, altaneiro, sereno, com

o

sorriso mais desdenhoso, em seus delgados lábios, continuou, contudo, impassível

e

seguro de si mesmo. Ao avançar as notas do prelúdio, uma estranha reação operou-se no público.

Sim, a execução musical era a mesma de Paganini, disseram todos imediatamente, porém sem dúvida era também algo mais. Não poucos chegaram a pensar que o artista italiano jamais havia mostrado tão extraordinária originalidade, nem mesmo em seus momentos mais sublimes. Aquelas cordas tocadas pelos grandes e enérgicos dedos do jovem Stênio, vibravam, estremeciam sobre-humanas, como os intestinos ainda palpitantes da vítima, sob o escalpelo de dissecador, gemendo em estranha melodia, como o lamento angélico de uma criança moribunda. Aquelas não eram as ressonâncias comuns de cordas, mas notas da lira de Orfeu, evocadas pelo olhar satânico daqueles enormes olhos azuis sempre fixos nelas. Em torno daquele novíssimo mago da arte, os sons pareciam colorir-se e tomar formas tangíveis, como criaturas brotadas das cordas, ao conjuro do jovem artista, criaturas infernais, informes brincalhonas, proteicas, na mais bruxa das danças macabras, enquanto que além, no sombrio interior do palco, parecia estar representando-se, a par das maiores lubricidades, os mais sabáticos himeneus

O público viu-se, assim, presa, de pronto, da mais inevitável alucinação coletiva.

93

Paralisados todos, impotentes para romper o perigoso encanto, permaneciam pálidos e arquejantes, encolhidos em seus assentos, com O frio suor da morte. Todas

as delícias do ópio, todos sonhos mórbidos dos paraísos artificiais, sonhados em seus cachimbos pelos mais perturbados fantasistas alcoranistas, com huris sedutoras, em cujos lábios de fogo bebiam, a um tempo, a vida e a morte, estavam ali, e o público

As

senhoras guinchavam e desmaiavam, os homens rilhavam os dentes e crispavam as

mãos, com ardores de febre Chegou, assim, ao "finale", ao mesmo tempo anexado e temido, depois de um

verdadeiro terremoto de entusiasmo e frenesi. Uma última e radiante saudação do jovem Stênio e ei-lo já alcançando o arco, para atacar, triunfante o "allegro" famoso. Então, seus olhos cruzaram-se, um momento, com os de Paganini que, sentado tranquilo no camarote do empresário, não tinha ficado atrás em aplausos, embora seus olhinhos, negros e penetrantes como punhais, mostrassem a mais impassível indiferença, fixos, não em Franz, mas nas misteriosas cordas do strtuliuariue. Aquilo esteve a ponto de perturbar o jovem, mas este se refez e, deixando cair galhardamente, o arco, deu, imediatamente as primeiras notas. O entusiasmo do público chegou, então, a seu paroxismo, porque era já indubitável que as mágicas vozes de mil bruxas soavam ali mesmo no recinto da cena. Aqui, ladravam com elas cães raivosos e ululavam lobos, e tigres famélicos urravam; lá, silvava a serpente venenosa, grasnava a gralha, rugia o leão, gemia o vento, troava o trovão, cantava, ao mesmo tempo, por fim o rouxinol e o grilo

Logo o cromatismo das últimas escalas não parecia senão as

cricrilava

desenfreadas carreiras e voos das "malditas", em uma saturnal sem precedentes nas noites de Walpurgís Porém, no mesmo momento daquela satânica apoteose de delírio, no meio de uma das escalas cromáticas derradeiras, aconteceu uma coisa estranha, além de toda a ponderação. Os sons haviam se feito desconexos, contraditórios, desarmônicos, absurdos, enquanto que, do fundo da caixa sonora, surgia a voz alquebrada e estridente do velho Samuel Klaus que, arrepiante e mortal, dizia-lhe:

- Cumpri, ou não cumpri minha promessa, Franz, filho querido? Estás, pois, contente de mim e de meu sacrifício? Ao diabólico aparecimento daquela voz, o encanto funesto quebrou-se,

imediatamente, e, com ele, o público, já livre da fascinação que o havia dominado até então, prorrompeu em gargalhadas estrondosas, em vaias e assobios. Os músicos da orquestra, pálidos ainda pelas emoções macabras anteriormente sofridas, arrebentavam-se de rir, diante de suas estantes de música .e, levantando-se o auditório em massa, procurou a porta, rindo-se ruidosamente, embora sem acertar com a chave do enigma. Mas, bem pronto, teve que ficar petrificado todo aquele mar de poltronas e camarotes, porque todos os circunstantes perceberam algo que os gelou de espanto. As belas e juvenis feições de Stênio mudaram, envelhecendo em um segundo; seu galhardo corpo curvou-se, no mesmo instante, como sob o peso dos

Os mais sensíveis foram mais além ainda em sua vidência, uma vez que,

anos

inteiro vivia, horrorizado e agônico, o veneno daquele enlouquecedor delírio

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surgindo do corpo de Franz algo como um vapor giratório e opalino, logo viram formar-se uma branca nuvem que evoluiu, ao redor desta outra forma mais ampla e ameaçadora: a do velho mestre Samuel Klaus, resmungona e grotesca, com ventre sangrando e com os intestinos estendidos sobre a caixa do violino; enquanto que, com frenético movimento, de um condenado eterno, Franz raspava e raspava seu arco sobre aquelas cordas humanas, como essas figuras malditas talhadas nos capitéis românicos da Idade Média O pânico foi geral; cada qual ganhou, enlouquecido, a porta externa do melhor modo possível, aterrados com os estalos consecutivos das cordas fatídicas que se arrancavam, com violência, do suporte do violino maldito como quatro grandes trovões . Os poucos que acudiram ao palco, para socorrer o desditoso artista, acharam-no com o violino feito em pedaços e com as cordas enroladas ao pescoço, como serpentes vingadoras que o acabavam de estrangular. Quanto às pessoas de fora foram informadas do desgraçado fim de Franz Stênio, sem nada deixar, nem para pagar seu enterro ou a conta do hotel; Nicolau Paganini, embora sempre avaro, apressou-se em satisfazer a ambas e a recolher, também, até as últimas estilhas do destroçado violino. Por que o teria feito?

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OS "ESPÍRITOS" VAMPIROS (1)

(1). Estas páginas, e as seguintes, foram tiradas de "Ísis sem Véu", tradução do malogrado teósofo da primeira hora, D. Francisco de Montolin y de Togores, um dos ilustres fundadores da Sociedade Teosófica da Espanha.

Cada uma das coisas organizadas deste mundo, tanto visível, como invisível, tem um elemento peculiar a si próprio. O peixe vive n'água; a planta consome o acido carbônico que, ao contrário, é mortal para o animal e o homem. Alguns seres estão organizados para viver nas camadas mais rarefeitas do ar; outros nas mais densas. A vida, para uns, depende da luz do sol, enquanto que para outros precisa da escuridão. Deste modo, a sábia economia da Natureza adapta sempre alguma forma viva a cada uma das condições existentes. Estas analogias permitem inferir que, em toda a Natureza, não existe ponto algum desabitado e que, ademais, cada coisa vivente conta com quantas condições sejam necessárias para a sua vida. Bem: admitindo que no universo exista uma parte invisível, a disposição imutável da Natureza autoriza a conclusão de que semelhante parte está ocupada, nem mais, nem menos, do que a parte visível e, desde o momento em que existem espíritos, forçoso é aceitar a existência de uma grande diversidade dos mesmos, dentro de seu respectivo mundo. Dizer que todos os espíritos são iguais entre si, ou que estão adaptados a um mesmo meio ambiente, ou, enfim, que possuem poderes idênticos, ou que obedecem às mesmas afinidades e atrações - seria tão absurdo como pensar que

todos os animais são anfíbios, ou que todos os homens podem nutrir-se com a mesma espécie de alimentos. Razoável é, pois, supor que os espíritos mais grosseiros estão submersos nos mais profundos abismos da atmosfera espiritual, quer dizer, o mais próximo de nossa Terra, enquanto que as naturezas mais puras estão muitíssimo mais

Supor o contrário e pensar que qualquer destes graus de

distantes do ambiente terreno

espíritos podem ocupar o lugar e as condições dos outros, equivaleria a esperar que, em lei de hidráulica, dois líquidos de diferentes densidades possam mudar o grau que lhes corresponde no aerômetro de Baumé. Görres relata ("Mystiques" III, 63) uma conversa que teve com alguns hindus da costa de Malabar. Tendo lhes perguntado se entre eles apresentavam-se espíritos ou aparições, responderam: "Sim; porém, são maus espíritos. Os bons aparecem pouquíssimas vezes. Os maus espíritos são geralmente dos suicidas e pessoas assassinadas, quer dizer, das que morreram de modo violento, os quais revoluteiam em torno de nós e aparecem-nos, como fantasmas, enganando às pessoas de curto alcance e tentando aos demais, de mil maneiras diferentes, sendo a noite especialmente favorável a isso ". Porfírio ("De Sacrificiis" capo de "O Verdadeiro Culto") apresenta-nos, sobre isto, alguns fatos repugnantes, cuja verdade está comprovada pela experiência de todos os

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estudantes de magia. "A alma de gente perversa - disse - tem, ainda depois da morte, certo apego a seu corpo e afinidade para com ele, proporcionada pela violência com que sua união se rompeu. Por isso, quando desenvolvemos certas faculdades, podemos ver muitos espíritos adejar, possuídos de desespero, em torno de seus restos terrenos, e até procurar, desejosos, os pútridos despojos de outros corpos e, sobretudo, o sangue recentemente derramado, o que, por um momento, parece comunicar-lhes algumas das faculdades da vida". Se algum espírita põe em dúvida as palavras do grande teurgo, não tem mais que ensaiar em suas sessões de materialização os efeitos de um pouco de sangue fresco. "Os deuses e os anjos aparecem-nos - diz Jámblico - no meio de paz e Harmonia, e os demônios maus, agitando tudo, sem ordem, nem propósito Quanto às almas comuns, é muito raro podermos percebê-las" . A alma com efeito, nasce neste mundo, abandonando o outro mundo, no qual existiu

antes de encarnar-se na Terra

Mas, esta morte não aniquila a alma,

como uma frágil barca, cruzou por esta vida

Ela parece morrer, quando se separa de seu corpo no qual,

transforma-a tão somente, ora em um ser protetor, desses que os romanos conheciam e reverenciavam com tal nome e com o de mames, penates e lares; ora, se foi perverso, em

Quando, em razão de

vícios, crimes e paixões animais, um espírito desencarnado caiu na oitava esfera - o Hades alegórico pagão ou o geena da Bíblia que é a região mais próxima de nossa Terra - pode

Um ardente

desejo de ressarcir-se de seus sofrimentos, um fervoroso anelo de retorno, podem conduzi- lo, novamente, para a atmosfera terrestre, onde permanecera errante e sofrendo mais ou menos em sua triste solidão. Seus instintos induzi-lo-ão a buscar, com avidez, o contato dos vivos

Tais espíritos são os invisíveis, mas demasiado palpáveis vampiros magnéticos; os demônios subjetivos tão bem conhecidos das monjas e frades contemplativos da Idade Média e dos "bruxos", a quem tanta celebridade deu o "Martelo de Feiticeiros", verdadeiros clarividentes sensitivos segundo suas próprias confissões. São os demônios

sanguinários de Porfirio; as larvas e emures dos antigos os abomináveis instrumentos de sugestão que conduziram tantas desgraçadas e débeis vítimas à tortura e ao patíbulo. Orígenes sustenta que, muitos demônios obsessores dos energúmenos do Novo

Testamento eram "espíritos" humanos

desgraçados e não ignorava as tremendas consequências a que estavam expostas as

pessoas que cediam a tais influências demoníacas, motivo pelo qual promulgou seus terríveis decretos contra tais "bruxos". Jesus, em troca, cheio de justiça e de divino amor à Humanidade, limitava-se a curá-los, em lugar de matá-los. Mais tarde, correndo os tempos, nosso clero, o pretendido modelo de virtudes cristãs, seguiu a lei de Moisés, prescindindo de "Aquele" a quem chamam "seu Deus Vivo" e queimou aos milhares,

os pretensos "feiticeiros"

Moisés sabia, perfeitamente, quem eram esses

arrepender-se com o vislumbre de razão e de consciência que ainda conserva

uma larva, um lêmur, um espírito errante, terror dos malvados

Feiticeiros! Fatídico nome que levava emparelhada,

antigamente, a morte mais ignominiosa e que, hoje em dia, levanta, em troca, uma tempestade de sarcasmos e de ridículo! A história dos sortilégios de Salem, tal como os encontramos registrados nas obras de Cotton, Mather, Calef, Upham e outros, são um trágico capítulo da História

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da América do Norte, que jamais foi descrito de acordo com a verdade dos fatos. No povoado de Salem, quatro ou cinco moças sentiram-se convertidas em médiuns espontâneas, como hoje diríamos, por haverem convivido com uma índia negra do Oeste norte-americano, que era muito hábil nas operações de magia negra, conhecidas como Ritual de Obeah. As mencionadas moças começaram a se sentir maltratadas por alfinetadas, beliscões e mordidas, em diferentes partes de seu corpo, provocadas por invisíveis espectros que não as deixavam, um momento, em repouso. A célebre "Narração de Deodat Lawson" (Londres, 1704) consigna que aqueles espíritos obsessores das moças, maltratavam-nas, pelo conhecido método

feiticeiro do "envoutement", ou seja, das figurinhas de cera, trapos, etc., representando as vítimas, e sobre as quais cravavam alfinetes, davam beliscões, etc.,

o que, logo, por telepatia, sentiam as infelizes jovens". Mr. Upham conta-nos que

Abigail Hobles, uma dessas moças, reconheceu que havia feito pacto com o diabo "o qual lhe aparecia sob a forma de um mancebo e o mandava atormentar as donzelas, a quem conhecia, levando-lhe imagens de madeira, que mais ou menos, pareciam-se com elas, bem como, espinhos para cravá-los em tais imagens, o que fazia ela ao pé da letra com estas, recebendo então, as moças, dor idêntica à que experimentariam se os próprios espinhos se lhes cravassem nas carnes". Todos esses casos lamentáveis, fatos históricos cuja validez foi comprovada pelo irrecusável testemunho dos Tribunais que conheceram da causa, confirmam a doutrina de Paracelso, sendo por demais surpreendente que um sábio, tão sisudo como Upham, haja podido acumular, nas páginas de seus livros, semelhante volume de evidência legal, para demonstrar a intervenção, naqueles fatos, de almas ainda

ligadas à Terra e dos espíritos da Natureza, sem suspeitar a verdade ocultista que se encontra por detrás dessas tragédias, já que, há alguns séculos, Lucrécio punha na boca do velho Ennius estas frases de perfeito ocultismo:

Bis duo sunt hominis: mane, caro, spiritus, umbra; Quator ísta loci bis duo suscipiunt:

Terra tegit carnem, tumulum circumvolat umbra, Orcus habet manés". A respeito desta espécie de fatos, por incríveis que hoje pareçam a nosso ceticismo, não devemos nos perguntar, imparciais, qual dos autores antigos menciona fatos de índole tão aparentemente sobrenatural, ou melhor, qual deles não

o menciona?! Na" Odisseia" de Homero (V. 82) achamos Ulisses evocando o espírito

de seu amigo, o adivinho Tirésias, mediante a cerimônia da "festa do sangue". O herói de Tróia desembainha sua espada, afugentando com ela os milhares de sedentos fantasmas atraídos pelo cruento sacrifício '(não se atrevendo seu próprio amigo Tirésias a acercar-se do fojo sangrento), enquanto Ulisses brande a arma

Ao troiano Enéas, na "Eneida" de Virgílio (Livro IV - v. 260), ao tratar de

descer ao reino das sombras, a Sibila que o guia aos seus umbrais, ordena-lhe que

homicida

desembainhe a espada e abra caminho através da compacta multidão de fugazes sombras que, sedentas, lhe obstruem a passagem:

"Tuque invade viam, vaginaque eripe ferrum".

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Glanvil, em seu "Sadducismus Triumphatus" faz uma resenha maravilhosa da aparição do "Tamborileiro de Tedworth" ocorrida em 1661, e na qual o scin-lecca, ou duplo do bruxo tamborileiro, assustava-se grandemente à vista de uma espada. Psellus, em sua obra "De Daemon", faz uma vasta narração do terrível estado em que se viu mergulhada sua cunhada, ao ser possuída de um "daemon" elemental, e como foi curada pelo conjurador Anaphalagis que começou ameaçando, com a espada desembainhada, o invisível obsessor daquele corpo, até lograr desalojá-lo. Psellus expõe logo o catecismo da demologia nestes termos (ou termos semelhantes):

"Desejais saber se os corpos invisíveis dos espíritos podem ser feridos com uma espada ou outra arma qualquer? Pois sabei que sim, que podem ser. Um objeto duro, arrojado contra eles, causar-lhes-á a dor correspondente, como se ainda vivessem aqui embaixo; porque, embora seus corpos já não estejam formados das substâncias resistentes dos nossos, nem por isso deixam de ser sensíveis, porque, nos seres dotados de sensibilidade, não são unicamente seus nervos que têm a faculdade de sentir, mas também

Sem auxílio de organismo físico algum, o espírito vê, Se o dividirdes em dois, sentireis a mesma dor que

experimentaria qualquer homem vivo, porque seu corpo atual não deixa de ser matéria, embora de natureza tão sutil que geralmente, é invisível aos nossos olhos".

embargo, há uma coisa que distingue o corpo do vivo, do corpo do morto:

a tem o espírito que reside neles ouve e sente qualquer contato

Sem

quando se secciona os membros de uma pessoa viva, não se pode reunir, novamente, as duas partes facilmente, enquanto que, o tênue corpo etéreo de um demônio reintegra-se imediatamente depois de seccionado por completo, da mesma maneira que a água ou o ar se unem depois que foram atravessados por um corpo sólido qualquer. Mas, apesar disso, cada lanho, ou ferida produzida, é causa de dores para aquele demônio, razão pela qual todos eles temem a ponta da espada ou os demais instrumentos de defesa. Bodin, o mais sábio demonólogo de seu século, sustenta a mesma opinião, não repetida, de igual modo por Porfício e Jâmblico, imitando Platão e Plutarco como muito bem o sabem todos os teurgistas, Na "Demonologia", aquele sábio conta-nos: Recordo-me que em 1557, um demônio elemental, dos chamados relampagueantes, caiu como um raio em casa do sapateiro Pondot e logo começou a chover pedras em toda a casa, com as quais pude encher uma grande arca fechando em seguida, hermeticamente as janelas, o que não impediu, sem embargo, que as pedras continuassem caindo, embora sem causar dano a nenhum dos presentes. O magistrado Latomi veio informar-se; porém, nem bem entrou, o espírito arrebatou-lhe o chapéu. Seis dias haviam transcorrido, quando o Conselheiro M. J. Morgues também foi buscar-me para esclarecer tal mistério. Quando entramos na casa, já alguém havia aconselhado ao dono da mesma que se encomendasse a Deus de todo o coração e brandisse, com energia, por todo o recinto do aposento, sua espada desembainhada. Desde aquele momento cessaram, como por encanto, aqueles fenômenos que, durante uma semana, tanto os havia molestado". Os livros de feitiçaria da Idade Média estão cheios de narrações análogas, porém, os mais antigos filósofos não só mencionam relatos semelhantes, mas os descrevem minuciosamente e analisam-nos. Proclo figura em primeira linha, no caso de semelhantes maravilhas. É de

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verdadeiramente pasmar a coleção de fatos que apresenta, corroborados por testemunhas, entre elas alguns famosos filósofos. Ao recordar muitos casos de seu tempo, nos quais relata que a não poucos cadáveres encontrou em suas tumbas em diferentes posições, atribui isso a serem larvas ou vampires, "como os casos - acrescenta - referidos pelos antigos, a respeito de Aristeu, Epimênides e Hermodoro, ou como os outros cinco da "História de Clearco" o discípulo de Aristóteles. Para acabar cita o caso de Filones. Esta filha de Demontrator - acrescenta - casada contra a vontade com um tal Krotero morreu pouco depois, porém, passados seis meses de sua morte voltou à vida, como disse Proclo, por causa de seu antigo amor pelo jovem Macates, a quem visitou durante muitas noites sucessivas, até que ela, ou melhor, o vampiro que fazia suas vezes, morreu de raiva. Seu corpo morto, depois do segundo falecimento, foi visto por toda a cidade, na casa de seu pai, enquanto que sua sepultura estava vazia. Semelhante caso está confirmado pelas "epístolas de Hiparco" e pelas de Arriedo e Filipo, segundo relata Catarina Crowe, em sua "Night-Side of Nature", pág. 335. Demócrito, em seus frequentes escritos referentes a Hades, disserta, enfim, amplamente, sobre as possibilidades de que alguns mortos retornem à vida. Para fazer acentuar a timidez, frivolidade e prejuízos com que soem julgar estes e outros mil fatos do passado, bastará folhear a obra do Dr. Figuier "História do maravilhoso nos tempos modernos". A obra apoiada em testemunhos tão valiosos como o do célebre Dr. Calmeil, diretor do hospital de lunáticos de Charenton, ocupa- se, documentadamente, dos profetas de Cevennes; os camisardos, os jansenistas, o diácono Paris e cem outras epidemias de neuroses consignadas na História dos últimos séculos e que só, ligeiramente, podemos mencionar, máxime, tendo sido descritos por quantos autores modernos que se ocuparam destes problemas. Os assombrosos fenômenos dos convulsionários de Cevennes apresentaram-se como uma verdadeira epidemia, em fins de 1700. As medidas desumanas, adotadas pelos católicos franceses, para extirpar aquele espírito de profecia que havia assaltado uma povoação inteira, são acontecimentos históricos sobre os quais não temos porque insistir. O mero fato de que um punhado de homens, mulheres e crianças, somando apenas duas mil pessoas, resistissem durante anos inteiros aos sessenta mil soldados do rei, já é, por si só, um prodígio. Todas as maravilhas, acontecidas àqueles, estão registrados nos processos que hoje se conservam nos Arquivos da França. Existe entre estes o informe oficial que o feroz abade Chayla, prior de Laval, levou a Roma, no qual se lamenta que o espírito maligno fosse tão poderoso que não bastasse exorcismo, nem tortura inquisitorial alguma, que conseguisse desalojá-lo dos cevenenses. Acrescenta o abade que o mesmo pôs as mãos dessa gente sobre carvões acesos; que envolveu a vários outros em algodão impregnado de azeite e pôs-lhes fogo, sem conseguir, em um e outro caso, que se chamuscassem, nem que se formasse uma só bolha em sua epiderme; que foram disparados tiros contra eles, à queima-roupa, encontrando-se, logo, achatadas as balas entre a roupa e a pele, sem produzir-lhes o menor arranhão, etc "Em fins do século XVII - diz o Dr. Figuier, depois de relatar tudo isto - uma anciã importou de Cevennes aquele espírito de profecia, que bem pronto se comunicou a

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diversos jovens de ambos os sexos, acabando o contágio por se tornar geral. Homens, mulheres, crianças de tenra idade haviam se constituído em torrentes da mais estranha inspiração, expressando-se, não no "patois" vulgar, mas no mais correto francês, língua tão pouco conhecida na região, naquele tempo. Até as crianças de peito profetizavam. Oito mil profetas - continua - espalharam-se pela região e a metade das Faculdades de Medicina da França, entre elas a de Montpellier, apressaram-se em estabelecer-se em Cevennes, declarando-se maravilhadas e confundidas ao ouvir as pessoas sem cultura literária alguma, dissertar eruditamente sobre coisas das quais jamais souberam uma palavra, e até crianças de peito! expressavam-se com igual lucidez, durando horas e horas tais

Aquilo - acrescenta o comentador - não foi senão uma exaltação

momentânea das faculdades intelectuais, fenômenos que se podem observar em muitas afecções do cérebro". "Exaltação momentânea, que dura muitas horas, em cérebros de crianças de peito, falando em correto francês, antes de haverem podido aprender uma só palavra de seu "patois"! Oh! milagre da fisiologia! Prodígio devia ser teu nome, exclama o católico Des Mousseaux, ao comentar a obra de Figuier, na sua "Os Costumes e Práticas dos Demônios". Chegamos, agora, aos não menos célebres prodígios dos jansenistas, segundo o Dr. Figuier conta-nos com grande cópia de dados históricos.

O diácono Paris era um jansenista que morreu em 1727. Imediatamente depois

de sua morte, começaram a ocorrer junto à sua tumba os mais surpreendentes fenômenos. O cemitério regorgitava de gente desde a madrugada até a noite, e os jesuítas (exasperados ao ver que os herejes constatavam as curas mais maravilhosas e todo o gênero de prodígios) recorreram às autoridades, delas obtendo ordem de que se fechasse a entrada da tumba do célebre diácono. Porém, apesar de todos os obstáculos, as maravilhas continuaram durante uns vinte anos. O bispo Douglas, que foi a Paris, com este exclusivo objetivo, visitou o sepulcro e pôde comprovar que os milagres continuavam, como no primeiro dia, entre os convulsionários, coisa que,

forçosamente atribuiu-se, como sempre, ao diabo. O próprio Hume, em seus "Ensaios Filosóficos" acrescenta: " Jamais, por certo, ter-se-ão atribuído a uma só pessoa tantos milagres, como os que ultimamente se dão como ocorridos junto à tumba do diácono Paris. Por qualquer coisa semelhante, viam-se enfermos que haviam sarado, surdos que haviam ouvido e cegos que tinham recobrado a visão, pela virtude do Santo sepulcro. Porém, o mais extraordinário do caso é que muitos dos ditos milagres aconteceram no próprio lugar da tumba, ante juízes de indiscutível seriedade e retidão, numa época ilustrada, fatos que nem os próprios jesuítas (apesar de serem pessoas de ordinário instruídas, de contar com o apoio das autoridades civis e de serem decididos inimigos das opiniões a cujo favor foram obrados os milagres) foram capazes de negá-los, nem de refutá-los, nem de descobrir sua verdadeira causa. Tal é a verdade que arrasta o testemunho histórico acerca de semelhantes acontecimentos ".

O Dr. Middleton, em sua "Investigação Livre", obra que escreveu acerca de tais

fenômenos, dezenove anos após haverem eles começado e quando estavam em franca decadência, declara que a evidência de tais milagres é tão plena e indiscutível,

discursos

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pelo menos, como as das maravilhas a que se referem os apóstolos. Com efeito, os ditos fenômenos, cuja autenticidade está provada por tantos milhares de testemunhos, perante magistrados e a despeito do clero, então onipotente, devem ser colocados entre os mais surpreendentes que a História registra. Carré de Montgeron, membro do Parlamento, que se fez famoso por suas relações com os jansenistas, enumera-os cuidadosamente nos quatro grossos volumes, dedicados ao rei, sob o título de "La Verité des miracles operés par l'intercession de M. de Paris, demonstrée contra l’Archevêque de Sens". Por suas irreverências para com o clero foi encerrado na Bastilha; porém, era tal o acúmulo de testemunhos pessoais e oficiais aduzidos para provar cada um dos casos, que a obra foi aceita. "Uma das convulsionárias - diz Figuier - apoiada por seu dorso na ponta de uma aguda estaca, mantinha-se dobrada em forma de arco, na maior impassibilidade. O prazer maior que se podia dar a essa criatura era o de receber, em tal posição e sobre

o estômago, o golpe de um pedrouço de cinquenta libras, suspenso de uma roldana.

Montgeron e muitas outras testemunhas acrescentam que a moça não só não mostrava equimoses, como pedia, gritando, que lhe golpeassem ainda com mais força. Jeanne Maulet, outra jovem de vinte anos, apoiadas suas costas contra a parede, recebia sobre o epigastro, centenas de golpes dados por um forçudo lavrador, com um martelo de trinta libras, sobre um trado de ferro apoiado sobre a boca do estômago

da débil paciente. Poder-se-ia crer - acrescenta Montgeron ao relatá-lo - que o trado deveria aprofundar-se nas entranhas desta, mas, ao contrário, ela gritava, com as feições radiantes de felicidade: Oh! que delícia! Quanto prazer causa-me este espancamento! Ânimo, irmão! golpeie com dupla força, se puder!

A relação oficial de tais maravilhas, que é muito mais completa que a de Figuier,

acrescenta outros detalhes, tais como o daqueles que, serenamente, punham-se a descrever acontecimentos distantes, logo infalivelmente comprovados; o manter-se no ar, destes convulsionarios, mercê de uma força invisível e sem que todos os esforços reunidos dos membros da Comissão fossem capazes de obrigá-los a baixar. Viram-se

anciãs subindo, com agilidade de gatos monteses, por muros verticais de até trinta pés de altura.

O Dr. Calmeil, diretor do Hospital de Loucos de Charenton, deu, acerca destes e

de outros fenômenos análogos, a costumeira explicação que deles dão os médicos: "o meteorismo ou plenitude de gases no tubo digestivo; o estado espasmódico do útero das mulheres; o entumecimento das envolturas adiposas das capas musculares que protegem e cobrem o abdome, etc; acrescentando que a assombrosa resistência oferecida pelo corpo dos convulsionários era devida ao histerismo ou à epilepsia, força que tem alguns pontos de contato com as mudanças de sensibilidade que se produzem por medo cólera, em uma palavra: por qualquer paixão de ânimo levada ao paroxismo. Porém,

o terrível crítico católico Des Mousseaux, em sua obra citada, replica, cheio de indignação ante esta e outras opiniões semelhantes de nossa ciência médica:

"Estaria completamente desperto, o ilustre médico quando formulou tais teorias? "Se ele e o Dr. Figuie; quisessem manter, seriamente, suas categóricas afirmações, poderíamos dizer-lhes: "Permitir-nos-íeis uma vez, por experiência, insultar-vos tão duramente que

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explodísseis de justa indignação contra nós, ao ouvir de nossos lábios, por exemplo, que falseastes a ciência e ludibriastes vosso público e, aproveitando tal momento, repetíssemos convosco as experiências de Cevennes dando-vos uma saudável massagem com estacas ou garrotes, seguros de que outra coisa não resultariam destes terríveis golpes, dado o estado de insensibilidade a que seguramente, vos levaria a vossa cólera?" Inútil é acrescentar que o repto de Des Mousseaux permaneceu, para sempre, sem resposta. Voltemos aos feitos de vampirismo. Verdadeiras, ou falsas, existem entre os orientais "superstições" de natureza tal como jamais puderam sonhar um Edgar Poe ou um Hoffmann e estas crenças acham-se infiltradas no próprio sangue das nações que lhes deram vida. Cuidadosamente expurgadas de todo o exagero, ver-se-á que encerram uma crença universal naquelas almas astrais, inquietas e errantes, conhecidas com os nomes de gulas ou vampiros. Um bispo armênio do século V, chamado Yesnik, cita alguns exemplos desta espécie, no livro I, parágrafo 20 e 30, de uma obra manuscrita que se conservava há uns trinta anos na biblioteca do mosteiro de Etchmeadzine, na Armênia russa. Entre outras, existe uma tradição que data dos tempos do paganismo e, segundo a qual, sempre que um herói, cuja vida seja necessária na Terra, cai no campo de batalha, os aralez, ou sejam, os antigos deuses populares do país, os quais possuem a faculdade de poder devolver à vida os que morreram no combate, lambem as sangrentas feridas da vítima e sopram sobre elas até que lhes tenham comunicado uma vida nova e vigorosa, depois do que o guerreiro se levanta; desaparecem todos os seus ferimentos e volta a ocupar seu posto na batalha. Porém, o espírito imortal do herói voa para muito longe, entretanto, e vive o resto de seus dias num templo abandonado e longínquo. Tão logo, por outro lado, como adepto, era iniciado no último e mais solene mistério da transmissão da vida, o sétimo e temível ritual da grande operação sacerdotal, que constitui a mais elevada teurgia, já não pertencia mais a este mundo. Sua alma já estava livre, desde aquele momento, e os sete pecados mortais, até então sempre à espreita para devorar seu coração, ao mesmo tempo que sua alma, libertada pela morte, cruzasse as sete escadas e os sete portais, já não podiam molestá-lo em morte, ou em vida, porquanto havia passado as sete provas e os doze trabalhos da hora final. O Sumo Hierofante era, unicamente, quem sabia como levar a cabo esta solene operação de infundir seu próprio alento vital e sua própria alma astral a um adepto escolhido por ele para sucedê-lo, e quem, desta sorte, ficava assim dotado de uma vida dupla. (1) (1). O cruel costume, introduzido posteriormente entre o povo, de sacrificar vítimas humanas é uma simples cópia, pervertida, dos Mistérios Teúrgicos. Os sacerdotes pagãos, que não pertenciam à classe dos hierofantes, continuaram praticando, algum tempo, este horrível ritual, o qual servia para ocultar seus verdadeiros propósitos. Porém, o Héracles grego está representado como o adversário dos sacrifícios humanos e como o destruidor dos homens ou monstros que os ofereciam. Bunsen demonstra (apoiando-se no fato de que, nos mais antigos monumentos, não se nota figura ou sinal algum que indiquem que, então, se verificassem sacrifícios

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humanos) que este costume havia sido abolido no antigo Império, no fim do sétimo século, depois de Menés. Ademais, três mil anos antes de Jesus Cristo, Hipócrates havia proibido, severamente os sacrifícios humanos entre os cartagineses. Défilus ordenou que as vitimas humanas fossem

substituídas por touros. Amoris obrigou os sacerdotes a substituírem, por figuras de cera, aquelas vítimas. A Epístola V aos Hebreus trata dos sacrifícios de sangue. "Onde existe um testamento -

Sem derramamento de sangue

O sangue produz fantasmas e suas emanações

proporcionam, a certos espíritos, o material necessário para formar suas aparições transitórias. "O sangue - diz Eliphas Lévi - é a primeira encarnação do fluido

universal, a luz vital materializada. Sua produção, a mais maravilhosa de todas as maravilhas da Natureza; vive, porque se transforma, perpetuamente, sendo o real Proteu universal. O sangue procede de princípios nos quais. antes, não existia nada

análogo e que se converte em carne, ossos, cabelos, suor, lágrimas

universal, com seu duplo movimento, é o grande arcano do SER, o sangue é, por sua vez, o grande arcano da vida". "O sangue - diz o hindu Ramatsariar - contém todos os segredos da existência; nenhum ser vivente pode existir sem ele. Beber sangue é profanar a obra do Criador". Por isso Moisés, seguindo a tradição universal, proíbe fazê-lo. Paracelso escreve que com os vapores do sangue, pode-se evocar qualquer espírito que se deseje ver, posto que, como suas emanações, formar-se-á uma aparição, um corpo visível - mas isto é perfeita feitiçaria e necromancia. Os hierofantes de Baal produziam profundas incisões em seus corpos e, com seu próprio sangue, produziam aparições objetivas e tangíveis. Os sequazes de determinada seita persa, muitos dos quais encontram-se nas imediações das instituições russas de Temerchan-Shoura e Derbent, têm seus mistérios religiosos, durante os quais formam um grande círculo e giram em frenética dança. Estando seus templos arruinados, os rituais têm lugar em edifícios retirados e fechados à. vista do exterior, edifícios esses com uma grossa camada de areia por pavimento. Todos se vestem com esvoaçantes roupas brancas e têm as cabeças descobertas e raspadas. Armados de facas e excitados pela dança macabra, chegam logo a um grau de excitação furiosa, começando a ferir-se, a si e aos outros ficando o pavimento empapado de sangue. Antes que semelhante "Mistério" termine, cada homem tem um companheiro com quem dança. Algumas vezes, os espectrais bailarinos têm cabelos em seus crânios, os quais se diferenciam dos cabelos naturais das suas inconscientes cabeças. Como prometemos solenemente, não divulgar os detalhes desta terrível cerimônia, que só uma vez presenciamos, devemos abandonar este ponto, acrescentando que, durante o tempo em que estivemos em Petrovsk do Cáucaso, presenciamos outro mistério semelhante. Antigamente as feitiçarias da Tessália, acrescentavam, algumas vezes, ao sangue do célebre cordeiro negro o de um menino, para melhor evocar as sombras. Aos sacerdotes ensinava-se a arte de evocar os espíritos dos mortos assim como os dos

diz - necessariamente deve medir a morte do testador "

não há remissão alguma

A substância

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elementos, porém, sua maneira de proceder não era certamente a daquelas terríveis feiticeiras. Entre os yakuts da Sibéria, nos próprios confins do Lago Baikal e junto ao Rio Vitema, existe outra tribo que pratica feitiçaria, tal como a exerciam as famosas

bruxas da Tessália. Suas crenças religiosas são uma mescla estranha de superstições

e de filosofia

condenadas a vagar sobre a Terra, até que se verifique certa mutação, ora favorável,

ora adversa, que explicam por suposição. As sombras luminosas, ou sejam, as dos bons, convertem-se em guardiães ou protetores daqueles a quem hajam amado na Terra. As sombras escuras sempre procuram, ao contrário, causar danos a quantos em vida conheceram, incitando-os ao crime e a outras más ações, assim

Durante os sacrifícios de sangue, que

sempre se verificam à noite, os yakuts evocam as sombras escuras, ou malvadas, para delas saberem como hão de conter sua malignidade. O sangue lhes é necessário para isto, porque sem seus vapores, não poderiam aquelas se fazerem visíveis e também seriam, acreditam, mais perigosas, pois, o sangue, extrairiam das pessoas vivas, por meio da transpiração. Quando às sombras boas ou luminosas, estas não precisam ser evocadas assim, porque isso desagrada-lhes e porque, quando querem, podem fazer sentir sua presença, sem necessidade de nada. A evocação, por meio de sangue, também se pratica, embora com objetivo diferente, em distintos pontos da Bulgária e da Moldávia, especialmente nos distritos vizinhos dos muçulmanos. A tirania e escravidão horríveis a que têm estado sujeitos estes desgraçados cristãos, durante séculos, fê-los mil vezes mais impressionáveis e

prejudicando, por todos os meios, os mortais

Segundo elas, as almas dos mortos convertem-se em sombras

supersticiosos. No dia sete de maio de cada ano, os habitantes da Bulgária e Moldávía Válaca celebram “a festa dos mortos". Com efeito, depois do sol posto, uma multidão de homens e mulheres, cada qual levando um círio na mão, acodem aos cemitérios e oram sobre as tumbas de seus defuntos. Esta antiga e solene cerimônia. chamada Trizna, é uma reminiscência geral dos primitivos ritos cristãos, todavia era mais solene

enquanto durou a escravidão muçulmana

cerimônia já é meramente ritual; porém, entre alguns camponeses, o rito toma proporções de toda uma evocação teúrgica. À véspera do dia da Ascenção, as mulheres búlgaras acendem uma porção de lâmpadas e círios; junto às tumbas, colocam crisóis sobre tripeças e o incenso perfuma, ao redor, a atmosfera, num

grande raio. Desde que anoitece, até um pouco antes da meia-noite, e em memória do morto, convida-se os amigos, e um certo número de mendigos, para comer, obsequiando-os com vinho e raki, ou aguardente, distribuindo-se dinheiro aos pobres. E, quando termina a festa, acercam-se da tumba os convidados, chamando o defunto por seu nome, dando graças pelas bondades de que têm sido objeto. Quando

já todos, inclusive os parentes mais próximos, vão se retirando a pé, uma mulher,

geralmente a de mais idade, deixa-se ficar só com o morto, e, asseguram que procede, então, à cerimônia de evocação. Prosternada de joelhos e depois de ferventes súplicas ao morto, uma e mil vezes repetida, para que apareça, a mulher extrai de si um número maior ou menor de gotas de sangue, do lado esquerdo do

Entre os habitantes das cidades, a

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peito, e as deixa cair lentamente sobre a tumba. Isto dá forças ao invisível espírito do morto que vaga ao redor do sepulcro, permitindo-lhe, por alguns instantes, assumir forma visível e dar instruções adequadas à crista teurgista, ou então, abençoando-a simplesmente e desaparecendo até o ano seguinte. Tão firmemente está arraigada esta crença que, por motivo de uma dificuldade de família, ouvimos a uma mulher moldávia propor a seu irmão para retardar toda a decisão acerca do assunto debatido, até que, na noite da Ascensão, pudesse o pai resolver a dificuldade - coisa a que o irmão acedeu, como se o pai estivesse na casa vizinha. Que na Natureza existem segredos terríveis, pode crer quem, como nós, foi testemunha do caso do zuachar russo, caso no qual não pôde o feiticeiro morrer, até que conseguisse comunicar, a outro, a palavra - o que raras vezes deixam de fazê-lo, de sua parte, os hierofantes da Magia Branca. Os hindus acreditam, firmemente, como os sérvios e húngaros, nos vampiros. "O fato de um espectro que reaparece para chupar o sangue humano - diz o Dr. Pierart, famoso mesmerizador, em um sábio artigo da "Révue Spiritualiste", vol IV - não é tão inexplicável quanto parece, e menos ainda para os espiritualistas que admitem os fenômenos chamados de bi-corporificação ou duplicação da alma. Essas mãos espectrais que temos apertado, esses membros materializados, que tão palpavelmente temos visto nas sessões mediúnicas, são uma prova evidente acerca de quantas e quantas coisas são possíveis, sob condições favoráveis, para esses espectros do astral, evocados por elas". Ao assim expressar-se o respeitável médico, não faz senão reproduzir a teoria cabalística sobre os shandins, ou seja a categoria mais inferior de todos os seres espirituais. Maiomônides conta-nos em sua obra "Abodah Sarah" que as gentes de seu tempo viam-se obrigadas a manter íntimas relações com os seus defuntos e descreve as festas de sangue que, em tais casos, se celebravam. Cavavam, com efeito, no solo um buraco, no qual vertiam sangue fresco e, colocando em cima uma mesa, evocavam os espíritos que, pressurosos, acudiam, respondendo a todas as perguntas. Não obstante isso, Pierart, com toda a sua doutrina teurgista acerca do vampirismo, mostra-se indignadíssimo contra a superstição do clero, ao ordenar que se atravessasse com um espeto de pau o coração de todo o cadáver sobre o qual houvesse recaído suspeita de vampirismo. Enquanto a forma astral do morto não esteja completamente desprendida do corpo, existe, com efeito, certa interligação, em virtude da qual, mediante a atração magnética, pode-se obrigar àquela forma retornar e apossar-se novamente do corpo. Acontece, em certas ocasiões, que a forma astral não se desprendeu deste, senão pela metade, por assim dizer, quando o corpo é enterrado, por apresentar todas as aparências de morte verdadeira. Em semelhantes horríveis casos, a alma astral, aterrada, retorna violentamente ao seu invólucro de carne; então, a desditosa vítima, ou bem acaba de morrer realmente, sob o paroxismo das atrozes angústias da sufocação, ou bem se converte num vampiro, se durante a existência terrestre foi grosseiramente material Neste segundo caso, começa para o mísero cataléptico, assim enterrado em vida,

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uma existência verdadeiramente bicorpórea, na qual o corpo que jaz aprisionado na tumba é sustentado com o sangue ou fluidos vitais que seus corpos astrais, fantasmagóricos, roubam, aqui e ali, aos vivos; porque é sabido que esta última forma etérea pode ir onde queira, enquanto o laço que a mantém unida ao corpo não se rompa, e vagar, em forma visível ou invisível, alimentando-se astuciosamente de suas humanas vítimas. A julgar por todas as aparências, semelhante espírito logra, seguidamente, transmitir, mediante uma disposição misteriosa e invisível (que acaso chegue a ser explicada um dia) o produto de suas sucções fluídicas, ao corpo material que jaz inerte no fundo da tumba, contribuindo, assim, para perpetuar, de certo modo, aquele seu estado de catalepsia. Bríêrre de Boismont cita alguns casos, pelo teor, completamente autênticos e que houve por bem qualificar de "alucinações". "Uma recente investigação demonstrou - diz um periódico francês - que, em 1871, dois cadáveres foram submetidos ao infame tratamento da superstição popular, por instigação do clero Oh! que cega preocupação! Porém o Dr. Pierart, citado pelo escritor católico Des Mousseaux, que resolutamente admite o vampirismo, exclama: - Cega superstição, dizeis? Sim, tão cega quanto preferirdes, porém - de onde provêm tais preocupações? Por que perpetuaram-se elas através de todas as épocas e em tantos países? Depois da infinidade de casos de vampirismo, como se viu, devemos dizer que hoje já não sucede tal coisa e que os casos que deles se relatam jamais tiveram sólido fundamento? Do nada, nada se faz. Cada crença, cada costume, procede dos fatos e causas que lhe deram origem. Só se nunca se houvesse visto aparecer, no seio das famílias de certos países, seres revestidos da aparência comum dos mortos, indo chupar o sangue de uma ou de várias pessoas; e se disto não tivesse resultado a morte, por extenuação, da vitima; se ninguém jamais tivesse ido desenterrar cadáveres no cemitério, nem jamais tivéssemos nós presenciado o fato incrível de encontrarem-se pessoas enterradas, vários anos antes, com o corpo mole e flexível, olhos abertos, tez rosada, com a boca e nariz cheios de sangue e vertendo sangue, em torrentes, no ato de serem decapitadas". Um dos mais importantes exemplos de vampirismo figura nas cartas confidenciais do filósofo Marquês d'Argens e, na "Révue Britanique" de março de 1837, o viajante inglês Pashley descreve alguns casos de que teve notícia na Ilha de Cândia. O Dr. Jobart, sábio belga, anticatólico e antiespírita, dá testemunho de outros casos análogos em sua obra acerca de "Les Hauts Phenomênes de la Magie", pág. 199. "Não quero examinar - diz o bispo de Avrauches Huel ("Huetiana" pág. 81) - se os casos de vampirismo que se relatam diariamente são verdadeiros ou meros frutos de um erro popular, mas o certo é que foram testemunhados por tantos autores competentes e fidedignos, por um número tão considerável de testemunhas de vista, que ninguém deve pronunciar-se, nesta questão, sem contar com uma grande dose de prudência." O bom senhor Des Mousseaux, que tanto se empenhou, recolhendo materiais para a sua teoria demonológica, sai-nos com alguns exemplos sensacionais, para demonstrar que todos esses casos se devem à intervenção do diabo, o qual toma as

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formas fantásticas dos mortos, para revestir-se delas e vagar pelas noites, chupando o sangue das pessoas - explicação que a nós pareceria excelente, se não nos pudéssemos conformar com outras melhores, sem trazer à cena tão sinistro personagem. Se, de uma vez para sempre, queremos crer no retorno dos espíritos, temos uma multidão de perversos sensualistas, miseráveis e criminosos de toda a espécie, principalmente suicidas, capazes de rivalizar, em malícia, com o próprio diabo nos seus melhores dias, já sendo bastante por si só o vermo-nos obrigados a crer no que vemos e que sabemos ser um fato, ou seja nos espíritos, sem necessidade de acrescentar ao nosso panteon de espectros um diabo que ninguém nunca viu. Sem embargo, naquilo a que o vampirismo se refere, há particularidades interessantíssimas a colher, desde o momento em que a crença em tal fenômeno existiu desde a mais remota época, em todos os países. As nações eslavas, os gregos, os válacos e os sérvios duvidaram mais da existência de seus inimigos - os turcos - que do fato relativo à existência dos vampiros. Os brucolak ou vardalak, como são denominados estes últimos, são hóspedes por demais familiares nos lares eslavos, para que deles se duvide. Escritores do maior talento, tão íntegros quanto cheios de

perspicácia, têm se ocupado do assunto, nele crendo, como se supõe

esta crença máxima através dos tempos, esta identidade de detalhes e analogias nas descrições daquele singular fenômeno que encontramos no testemunho juramentado

de povos estranhos uns aos outros (e que discrepam, sem embargo, por completo a respeito de várias outras superstições)?

"Há - diz Dom Calmet, monge beneditino, cético, do século XIX, em seu artigo "Apparition" (vol. 11, pág. 47 da obra citada) - dois procedimentos distintos para

destruir a crença destes pretensos espectros

prodígios do vampirismo por meio de meras causas físicas; o segundo em negar completamente a verdade de tais relatos, o que consideramos a coisa mais segura e mais prudente. O primeiro procedimento de explicar, com efeito, o vampirismo por meio de causas físicas, se bem que ocultas, é o adotado pela Escola de Mesmerismo de Pierart e não são certamente os espíritas que possam ter mais direito de rechaçar o plausível desta explicação. O segundo plano, todavia, é o adotado pelos homens de ciência e pelos céticos. Segundo adverte Des Mousseaux, não há caminho que menos filosofia requeira que este procedimento expedito - a negação completa daquilo que se ignora. "Certo dia - continua Dom Calmet - começou a aparecer inopinadamente aos habitantes de uma aldeia. perto de Kodom, o espectro de um pastor e, em consequência do susto, ou por outra causa qualquer, todos os que o viram morreram em menos de uma semana. Exasperados diante disso, os demais camponeses foram em busca do cadáver do pastor e o desenterraram, cravando-o com uma grande estaca no solo. Novamente, naquela mesma noite, apareceu seu espectro, abismando a população num terror quase apocalíptico e matando por sufocação vários habitantes, em vista do que as autoridades locais entregaram o corpo do pastor ao verdugo que o queimou num campo vizinho. O cadáver - continua Des Mousseaux ao comentar o fato - uivava como um louco, esperneando e resistindo como se estivesse vivo, arrojando

O primeiro consiste em explicar os

Donde provém

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rubras golfadas de sangue pelo ferimento da estaca, e as aparições de seu espectro não cessaram enquanto todo o corpo não foi reduzido a cinzas. "Em mais de uma ocasião - continua ainda Calmet - vários representantes da justiça visitaram os lugares que, segundo rumores públicos, eram frequentados por espectros. Os cadáveres destes foram logo exumados e sempre se observou estarem sãos e rosados os corpos de todos os suspeitos de vampirismo. Observava-se também que os objetos familiares das casas outrora habitadas por eles, em vida, moviam-se estranhamente, sem que ninguém os tocasse. Por um zelo muito natural, as autoridades negavam-se, geralmente, à cremação ou decapitação sem antes cumprir os procedimentos legais: citavam-se, pois, testemunhas e suas declarações eram ouvidas e atentamente meditadas. Logo passava-se ao exame dos cadáveres desenterrados e, se apresentassem inequívocos sinais, ditos de vampirismo. eram entregues ao verdugo. "Porém, a dificuldade de tudo isso - termina Dom Calmet consiste em saber como e quando esses vampiros podem abandonar suas tumbas e, logo após realizarem proezas, tornar a entrar nelas, sem que pareça que a terra tenha sido removida na mais ínfima porção, tendo sido vistos por testemunhas com suas vestes habituais, comendo

e vagando, enfim, de um lado para outro corno se estivessem vivos

não é senão pura fantasia, por parte daqueles que se viram favorecidos por semelhantes visitas - porque, indefectivelmente, encontram-se logo, em suas respectivas sepulturas, os cadáveres de tais espectros, frescos e flexíveis, cheios de sangue e sem oferecer em seus corpos sinais de decomposição alguma? Como explicar que, no dia seguinte à noite em que repetidos espectros aterrorizavam, com suas aparições, os vizinhos, seus pés encontravam-se sujos e cobertos de barro, coisa que não se observava, de modo algum, nos demais cadáveres do mesmo cemitério? Por que, uma vez queimados os corpos dos vampiros, nunca tornam a aparecer seus espectros e por que, enfim, ocorreram casos semelhantes com tanta frequência nesse país, tornando impossível extirpar dele tamanhas superstições?" Existe, não há dúvida, em estado de semimorte, fenômeno de natureza desconhecida e, portanto desprezado como superstição, pela Fisiologia e Psicologia de nossa época. Em semelhante estado, o corpo está virtualmente morto e o caso daquelas pessoas em que a matéria haja predominado sobre o espírito, sem que, entretanto, uma perversão absoluta haja destruído "o fio de ouro" que une a alma humana ao seu Supremo Espírito, uma vez que o corpo físico jaz abandonado a si mesmo, a alma astral ir-se-á dele desprendendo, por meio de esforços gradativos, separando-se completamente daquele, ao romper-se o elo derradeiro dos vínculos corpóreos. A partir deste momento, uma polarização magnética repelirá violentamente o homem etéreo da massa orgânica de seu corpo, já em franca decomposição e toda a dificuldade consiste: primeiro - em que nós imaginamos que o momento de tal separação é aquele em que o homem é declarado morto, pela ciência, e não depois; e o segundo, na incredulidade dominante acerca da existência, seja da alma, seja do espírito, mantida injustamente por essa mesma ciência. Pierart trata de demonstrar, em sua obra, que são sempre perigosos os

E, se tudo isto

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enterramentos prematuros, mesmo quando ofereçam sinais indubitáveis de putrefação. "Os infelizes mortos catalépticos - diz - enterrados (por terem sido considerados

mortos) em lugares frescos e secos, onde o corpo não pode ser destruído por causas locais seu espírito (quer dizer, seu corpo astral), revestindo-se de um corpo fluídico ou etéreo, vê-se impelido a abandonar sua tumba e executar, a expensas dos seres viventes, os atos peculiares de sua vida física, mui especialmente os da nutrição e cujos elementos - graças ao misterioso laço existente entre o corpo e a alma (laço que

ciência espiritualista um dia explicará) são transmitidos ao corpo material que jaz na sepultura, ajudando-o, desse modo, a conservar sua mísera existência. Semelhantes espíritos, vagando em seus corpos efêmeros têm sido vistos com frequência afastando-se ou retornando aos cemitérios, e tem-se conhecimento de que, caindo sobre os vivos, têm-lhes chupado o sangue, vampirizando-os. Ulteriores investigações judiciais vieram logo demonstrar que, em consequência de tamanha monstruosidade, sobrevinha às vítimas uma extraordinária sangria e, por causa disso, mais de uma tinha sucumbido." Assim, pois, segundo o teor do piedoso conselho de Dom Calmet, ou devemos persistir em negar os fatos, ou bem se é que temos de admitir os testemunhos humanos e legais, mui dignos de respeito, aceitar a única explicação possível dada por Glanvil, ao dizer, no volume II, pág. 70 de seu "Sadducimus Triumphatus" que "as almas dos defuntos encarnam-se em veículos aéreos ou etéreos, como está plenamente comprovado por homens tão eminentes, como o Dr. More, ao evidenciar que semelhante doutrina foi sempre a dos Santos Padres e dos mais antigos "

a

filósofos Antes de abandonar o repulsivo tema do vampirismo, e sem outra garantia que a de havermos comunicado vários testemunhos fidedignos, queremos citar um caso a mais, para que possa servir de exemplo.

Em princípios deste século, aconteceu, na Rússia, um dos mais horríveis casos de

vampirismo que a História registra. O governador da província de Tch

homem de uns sessenta anos, de caráter ciumento, malicioso e cruel. Investido de uma autoridade despótica, exerci-a sem contemplação alguma, levado sempre pelo primeiro impulso de seus brutais instintos. Havia se enamorado, o governador, de uma linda moça, filha de um oficial seu subordinado e, apesar da donzela estar prometida a um jovem que a amava muitíssimo, o tirano obrigou o pai da moça a que

era um

a casasse com ele e não com o jovem. Presa do maior desespero, a pobre vítima chegou a ser a esposa do velho que, bem pronto, mostrou-se cheio de ciúmes,

chegando até a bater-lhe e encerrá-la semanas inteiras em seu domicílio, sem deixá-

la falar com ninguém, a não ser em sua presença. Por fim, o odioso governador, certo

dia, caiu doente e morreu; porém, ao sentir já próximo seu inevitável fim, fez sua

esposa jurar que não se tornaria a casar, ameaçando-a, com as mais horríveis imprecações de que no caso de faltar a seu juramento, chegaria até a sair do sepulcro

e a mataria. O tirano foi enterrado no cemitério da cidade, situado do outro lado do rio. Dali a pouco, sua liberta viúva, vencendo seus escrúpulos pelo juramento que fez, deu novo

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ouvidos às instâncias de seu antigo noivo e ficaram comprometidos para casarem-se em breve prazo. Na própria noite da costumeira festa esponsalícia, quando todo o mundo já se tinha retirado, alvoroçou-se toda a antiga mansão com lamentos e gritos angustiosos de horror, que saíam do quarto da noiva. Forçaram logo as portas e viu-se, com surpresa, que a infeliz mulher jazia desmaiada em seu leito, ao mesmo tempo que se ouvia o ruído de uma carruagem saindo do pátio. O corpo da jovem estava cheio de equimoses produzidas, ao que parece, por fortes beliscões e no seu pescoço via-se como se fosse uma ligeiríssima punção, da qual brotavam gotinhas de sangue. Todos ficaram, de pronto, pasmados de horror, quando a viúva, ao voltar a si, narrou aterrorizada que seu falecido esposo, o governador, havia entrado, subitamente, em seu quarto fechado, exatamente como em vida, com a diferença de apresentar em seu semblante uma horrível palidez cadavérica e lhe havia batido e beliscado cruelmente, depois de lhe ter lançado em rosto a sua infidelidade. Inútil é acrescentar que ninguém deu crédito a semelhante relato, porém, na manhã seguinte a sentinela, postada no outro extremo da ponte que cruza o rio, contou que, momentos antes da meia-noite, uma carruagem puxada por seis cavalos passou em grande velocidade pela ponte, em direção à cidade e sem fazer o menor caso das vozes de "Alto!" que lhe deram. O novo governador, que não acreditara na estória de semelhante aparição, tomou, entretanto, a precaução de dobrar as sentinelas da outra parte da ponte, apesar do que, o caso repetia-se, noite após noite, com desesperante regularidade. Os soldados de guarda na barreira de portagem, declaravam unânimes que, apesar de todos os seus cuidados e dos esforços feitos para detê-la, a carruagem fantástica passava velozmente adiante, sem que fossem eles capazes de impedi-la. Todas as noites também ouvia-se, no pátio da casa, o mesmo ruído prolongado e surdo do referido coche; os vigias, juntamente com os criados e a família da viúva, ficavam imersos, logo, num profundo sono, e todas as manhãs aparecia, enfim, a pobre vítima, machucada, ensanguentada e desfalecida. Não há como dizer da consternação que tal acontecimento produzia em toda a cidade. Os médicos não conseguiam explicar aquele caso; os sacerdotes estabeleciam-se no palácio da viúva, para nele passar a noite em oração mas, ao avizinhar-se a hora da meia-noite, todos caíam presa de um letargo invencível. O próprio arcebispo chegou da Capital e praticou, em pessoa, a cerimônia do exorcismo, porém, na manhã seguinte acharam a viúva em estado mais deplorável e prestes a morrer. Para acalmar, enfim, a horrorizada vizinhança, o governador se viu obrigado a adotar as mais severas medidas. Situou cinquenta cossacos em toda a extensão da ponte, com ordem terminante de deter, a todo o transe a carruagem fantasma. Soaram, entretanto, as doze badaladas da meia-noite e viu-se vir veloz o coche pelo caminho do cemitério. O oficial de guarda e um sacerdote, crucifixo em punho, plantaram-se diante da barreira de portagem, gritando ao mesmo tempo:

- Em nome de Deus e do Czar, quem vem aí?

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Ao que uma cabeça, muito conhecida de todos, apareceu à janelinha do coche e uma voz não menos conhecida, respondeu, com energia:

- e, no mesmo instante, o

sacerdote, o oficial e os cinquenta soldados foram lançados violentamente para um lado, como sacudidos por um impulso elétrico, ao mesmo tempo que o fantástico e luxuoso carro cruzava veloz, sem que ninguém pudesse detê-lo. O arcebispo, então, e como último recurso, apelou para o processo sancionado naquele tempo, ou seja de desenterrar o corpo e cravá-lo à terra, por meio de aguda estaca de roble, que lhe atravessasse o coração - o que foi exatamente feito, com grande pompa religiosa, na presença de todo o povo. Os narradores do maravilhoso fato asseguraram-me que o corpo do governador achava-se, com efeito, repleto de sangue e com as faces e os lábios vermelhos. No momento de cravar-lhe a estaca, exalou um gemido, enquanto que um grande jorro de sangue brotou e, com ímpeto, subiu a grande altura. O arcebispo pronunciou, logo, o exorcismo costumeiro e, desde então, não se ouviu mais falar do vampiro, nem da carruagem fantástica. Até que ponto as circunstâncias do caso tenham sido exageradas pela tradição, não podemos dizer, porém nós o sabemos por uma testemunha ocular e, ainda hoje, existem famílias na Rússia, cujos membros idosos recordam fielmente o espantoso acontecimento.

- O Conselheiro Secreto do Estado e Governador C

!

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A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS

As pretensões dos amigos da ciência esotérica de que Paracelso produziu quimicamente homúnculos, por meio de certas combinações alquímicas desconhecidas, ainda são, como é natural, qualificadas de patranhas. Mas se Paracelso

não fez homúnculos, outros adeptos da Magia, desenvolveram-nos, sim, não faz um milênio e pela mesma lei, por meio da qual o biólogo chama à vida os seus animálculos, do mesmo modo que o famoso cavalheiro inglês Andrew Cross, de Somersetshire,

o que lhe valeu a consequente perseguição

Quem - disse Bain - é capaz de pôr limites às possibilidades ocultas da

vida? Numerosíssimos são os mistérios das regiões inexploradas da Natureza e, mesmo aqueles fenômenos que se têm por conhecidos oferecem sempre uma "oculta facies" que se desconhece todavia, porque não há um só mineral, uma só planta que haja