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04/04/2016 200.198.41.151:8081/tribunal_contas/1998/02/02/2002_11_11_0002.2xt/­versao_impressao?

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Revista do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais
Edição 2002_11_11_0002.2xt Página impressa
www.tce.mg.gov.br/revista
de 02 ­ Ano em 04/04/2016
Doutrina

O ESTADO ÉTICO E O ESTADO POIÉTICO*
Joaquim Carlos Salgado 
Professor Titular da Faculdade de Direito da UFMG. Assessor Jurídico do Presidente do TCMG.

A expressão Estado Poiético parece inusitada. Serve, porém, para precisar uma realidade do Estado
contemporâneo, sobre a qual estudiosos começam a refletir.

Esta conferência desenvolve­se em torno de três conceitos básicos: o poder, como conteúdo essencial do
Estado, o ético e o poiético. Convém esclarecê­los, primeiramente, para depois discorrermos sobre o tema
propriamente dito.

A ­ O Poder, o Ético e o Poiético

I ­ O Poder

O termo pode ser analisado em dois sentidos: 1) o poder em si mesmo considerado e 2) considerado na esfera
do político. No primeiro sentido, poder é uma "vontade determinante". Aqui aparecem dois conceitos
fundamentais: o de vontade, que pode ser considerada como impulso do querer ou como razão de querer,
querer racional aferido na relação de meio a fim, na medida em que o meio seja adequado e o fim, compatível,
realizável, valorável. O segundo conceito, "determinante", significa que essa vontade determina uma outra
vontade, o que pode ocorrer pela força ou por convencimento. É, contudo, o elemento força que especifica o
poder, considerado o convencimento apenas como uma dimensão analógica do conceito de poder1. A força
pode ser natural ou humana. A natureza tem força, mas não tem poder, pois não tem vontade.

O conceito de poder pode ainda ser mais restrito, para ganhar precisão científica: essa vontade determinante
tem de ser aceita. Para haver eficácia do poder tem de haver a força que o garanta. A eficácia é garantida pela
força, mas aceita. Exclui­se da esfera do poder a pura coação; tem de haver aceitação, senão será violência. É
uma orientação e determinação de outra vontade, mas aceita por esta. Se não há aceitação da vontade
determinada, ainda que na forma de submissão (coactus volui e sed volui),2 será violência. Essa aceitação, na
esfera do político ou na esfera pública, aparece na forma de aceitação universal ou reconhecimento, ainda que
formal e tácito.

Então, pode­se fazer uma restrição ainda maior: o poder propriamente dito é poder político.

Ao conceito de poder, não como impulso, mas como vontade determinante, dirigida racionalmente, e na medida
em que esse poder se garante pela força (para determinar a vontade do outro com sua aceitação), é
necessário acrescentar a noção do político, ou seja, a sua institucionalização como um poder, cujas
características são a supremacia, a universalidade e a necessidade (não­contingência) ou irresistibilidade. Essa
institucionalização implica uma organização do poder e uma ordenação normativa, na forma de uma
constituição.

É na constituição que se dá o encontro do político (poder) e do jurídico (norma) e é na constituição democrática
contemporânea que se dá a superação da oposição entre poder e liberdade. E isso na forma de uma
organização do poder e de uma ordenação da liberdade, qual se mostra como ordem jurídica ou liberdade
objetivada. Com relação ao direito, diz­se ordenação, norma; com relação ao poder, diz­se organização. A
organização só é possível por normas; a ordenação, por órgãos. Não há função para a norma, ou para o
sistema, como quer a teoria funcionalista ou a teoria dos sistemas. Isso por um defeito metodológico, pois não
observam um recorte correto entre o político e o jurídico. É preciso separar direito e poder, numa primeira
instância de abordagem. A teoria monista, a funcionalista ou a sistêmica (Kelsen, Malinowski, Cohen e
Luhmann) perdem muito de sua força. Órgão é que tem função, enquanto uma pessoa age no exercício do
poder. Somente no plano filosófico é possível a superação da diferença entre direito e poder; não no plano
científico stricto sensu. Neste há que se fazer o recorte epistemológico, segundo o objeto formal de cada
ciência. Recorte temático e metodológico; não da realidade, que é objeto material, pois essa é um todo

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contínuo. Direito (ordenamento jurídico) é inseparável do poder (Estado) e vice­versa; formam um todo, mas
esse todo é estudado em aspectos diferentes, inconfundíveis.

Pode­se, portanto, dizer que o poder político tem como elemento material a força e como elemento formal a
sua institucionalização através da constituição, que é o encontro do político e do jurídico, ou seja, que tem como
elemento formal o direito.

A par desses elementos, há ainda um outro também essencial, de natureza ideal ­ a ideologia. A força
meramente física não poderia dar unidade a um Estado, senão através de um elemento espiritual, que,
combinando­se com os demais, formassem a organização política do poder.3

Todo poder se orienta por uma ideologia. Não no sentido reducionista de interesses de ide, mas de um conjunto
de idéias que dá unidade à cultura de um povo, embora possa ser usada no interesse de uma classe ou facção,
às vezes de modo deformado. São idéias cupulares que dão unidade à cultura humana. Daí sua importância na
gestão política: ela propõe um programa, um projeto para a sociedade. Toda sociedade política tem um projeto
com pretensão de universalidade, para dar unidade ao organismo político, ou seja, um projeto para toda a
sociedade e não só para uma facção. Um partido político, por exemplo, tem na sua ideologia um projeto para
toda a sociedade e não apenas para o grupo. A ideologia tem essa pretensão de universalidade, ainda que seja
justificação ideária de interesses de classe. Pois esta, para dar unidade à sociedade, tem de ser interesse de
toda a sociedade (assim foi a liberdade e a igualdade burguesa na Revolução de 1789), sob pena de deformar­
se em alienação, sectarismo ou ação de bando.

Essa organização da força, espiritual e material, na forma de uma ordem normativa, apresenta, assim, os
momentos do querer racional determinante, da aceitação e do resultado positivo, a eficácia do poder.

II ­ O Ético

Ethos: há duas acepções no grego para essa palavra. São padrões de comportamento. Padrões que formam a
ordem normativa de um povo (moral, religião, direito, etc.). É o que organiza a cultura e ordena objetivamente,
de modo racional, a conduta humana. É o ethos (com h, em grego) como costume (mores). Quando é
interiorizado, temos o ethos (com e, em grego) como hábito. É criado pelo homem e, como tal, obedece a um
princípio de racionalidade. O ethos existe do ponto de vista racional, é característica da liberdade do homem.
Porque o homem é livre cria sua cultura e, nela, seu mundo ético, a sua ética. Não é determinado
instintivamente a criar, por nada: cria a partir da razão. O conceito de ético e de liberdade implicam um no
outro.

A liberdade pode ser pensada num sentido transcendente, Deus, ou no sentido imanente: a cultura e, dentro
dela, o tempo ético, a história. A liberdade é um absoluto e, como tal, é o bem que caracteriza o mundo
humano; nesse sentido, não se encontra na natureza, que é carência.

Ela nos dá a noção de bem. Não é possível encontrar o bem senão no ser livre. Mesmo no caso do bem
ontológico (Aristóteles) em que a carência é o mal, e a perfeição, o bem. Mas só se valora o bem e o mal a
partir da razão, que tem como parâmetro a liberdade. O que veda a liberdade é o mal. O termo que Aristóteles
usa para designar a ação ética, como livre, é pratein; daí, razão prática. A ação ética segue­se a uma
deliberação (proairesis), livre, com vistas ao bem ético, cujo momento final é o político.4

Essa liberdade, na medida em que o homem a constrói para si e para toda a sociedade, só se concretiza no
mundo do direito. A liberdade objetivada, o ethos na sua forma e conteúdo mais elevados, é a ordenação
jurídica, na medida em que garanta direitos subjetivos (quem não os tem, não tem liberdade), ou seja, a
reintegração da essência que se alienou da sua realidade substancial pela cisão do poder e da liberdade
individual, o que se opera no advento do Estado democrático de direito contemporâneo.

III ­ O Poiético

Vem de poiein (fazer, produzir) e se distingue da techné (Lima Vaz). O poiético é o fazer humano para
conseguir um resultado, um produto. Exemplo: fazer um móvel. Esse ato que resulta num produto é a poiésis;
o meio (como tal) é que é a técnica.

Uma razão poiética é uma razão servil; o fato, a coisa conduz a razão. Ex: a construção de uma parede.
Quando se pensa "como fazer" há o comando do intelecto. Quando, porém, se põe a fazer, se coloca cada
tijolo, mecanicamente, a razão é determinada pela realidade; se se desmancha a parede, então se vê com
mais clareza como a razão é determinada pela coisa.

A razão serve ao fazer, às mãos, que seguem a coisa; não é determinante como nas ciências, na Ética. É
instrumental. É a razão servil.

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Na Ética a Nicômaco (1140 a), Aristóteles faz a distinção entre a ação de produzir (poiein) e a ação ética
(pratein), que se segue a uma deliberação (proairesis), no plano ético. Essa diferença se esclarece ainda mais,
quando se verifica que o resultado da ação de produzir é um produto artefato, operando essa ação sobre
coisas, ao passo que o resultado da ação ética é um bem caracterizado na perfeição de ser do homem, a
liberdade, que lhe dá o caráter de pessoa.

Na ação de produzir tem­se o impulso de atuar sobre a coisa segundo uma necessidade, e o resultado desse
atuar é o produto. Mediando esse momento inicial e o final está a habilidade de produzir, ou seja, o domínio da
atividade sob regras dadas na experiência individual para atuar sobre as coisas, a técnica (techné), pela qual se
sabe como se faz, mas não o porquê do que se faz.5 Essa atividade traz em si um elemento de racionalidade,
pois não é um acaso, ou uma ação instintiva (tyché), mas se determina pela própria estrutura da coisa a que se
dirige, de tal modo que há a técnica, a habilidade consciente das regras do fazer (techné) e o fazer como um
todo, que resulta num produto (poietiké), mas que pode ser tão mecânico a ponto de aproximar­se de uma
produção quase sem pensar. De qualquer modo, a coisa dirige a ação. Na ação ética não há a coisa
determinando as regras técnicas; o bem é que dirige a ação segundo normas (nomos) do próprio sujeito, que é
o fim absoluto da ação moral, a pessoa. O bem que se quer realiza­se não através de regras técnicas, mas pela
mediação de leis éticas.

B ­ O Estado Ético

A história do pensamento ocidental é um embate entre a liberdade e o poder. Trata­se de um movimento
dialético da mesma realidade ética, a política e o direito, ou da liberdade na sua face subjetiva e da liberdade
no seu aspecto objetivo, que aparecem numa unidade imediata no Estado grego. Com a dissolução do Estado
ético grego, que representa no aspecto político a unidade desses dois elementos no momento da imediatidade,
ocorre uma cisão, que só no Estado Democrático contemporâneo se supera. É no Estado de Direito Democrático
contemporâneo que surge a idéia de autonomia (Kant) privada e pública (participação na elaboração das leis
que regem a própria conduta), na experiência da Revolução, com o que se põe em definitivo a unidade do
poder e da liberdade.

O embate "poder e liberdade" tem dimensões bem diferentes na cultura ocidental, que é por excelência, ou pelo
menos assim se mostrou, uma cultura da liberdade ou que revela e realiza a liberdade, pois esses dois termos
aparecem no mundo ocidental não como oposições abstratas, mas dialéticas, isto é, não cristalizadas e
afastadas uma da outra, como incompatíveis, de modo a sujeitar o poder à liberdade, mas como momentos que
apontam um momento posterior e superior à sua oposição, pela sua superação. O poder e a liberdade, após
cumprirem uma trajetória de lutas na história do ocidente surgem como faces de uma mesma realidade, o
poder político na sua forma democrática ou do Estado de Direito contemporâneo.

Podem­se distinguir três planos teóricos na busca da justificação do poder ou do Estado,6 vale dizer, podemos
distinguir na história do ocidente, então considerada como história da revelação e da realização da liberdade
através da dialética do poder e da liberdade, portanto da revelação e realização do poder político democrático
de direito, três momentos fundamentais: o período clássico, o moderno e o contemporâneo, que poderíamos
designar como Estado Ético Imediato, Estado Técnico e Estado Ético Mediato ou Estado de Direito.

a) O Estado Ético Imediato. No Período Clássico, a justificação do Estado ou do poder ocorre em função do
fim do Estado, ou seja, o Estado se justifica ou se legitima pela sua finalidade, que para os gregos era
eminentemente ética. Exemplificativamente, podem figurar como representantes do pensamento político dessa
época, justificando o Estado pelo seu destino ético, Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e Santo
Tomás de Aquino.

Assim, o Estado Ético imediato, que abrange do período greco­romano até a Idade­Média, caracterizado pela
dimensão ética, é um "Estado para", que se justifica por uma finalidade; o poder é para realizar alguma coisa,
não é em si mesmo. E o que o justifica é ético: o bem para o indivíduo, enquanto existente numa comunidade.

Platão desenvolve o conceito de poder político ético a partir de Sócrates, o primeiro a pôr o problema ético
perante o poder político como o mais importante. A República de Platão, a par de ser um tratado do poder
político, do Estado, é ao mesmo tempo um tratado da justiça e um tratado da educação. Aí desenvolve Platão
esses três momentos que formam o conceito de Estado. A justiça é nesse movimento a finalidade do Estado,
fornecendo ao mesmo tempo a forma de sua estruturação, já que o justo, como tarefa fundamental do Estado,
é dar a cada um o que é seu, o seu lugar na sociedade, segundo seu mérito, aferido por suas aptidões.7 Justo,
na República de Platão, é distribuir os cargos e encargos do Estado segundo essas aptidões. Entretanto, para
isso ser feito, e o Estado funcionar como tal, como justo, era necessário formar o cidadão para suas funções e
tarefas; isso era feito pela educação, voltada para o desenvolvimento do cidadão quanto à sua formação ética e
inserção na vida social e política.

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Aristóteles desenvolve, em primeiro lugar, um estudo antropológico, a par de um estudo ético do homem.
Animal racional implica animal político, pois não se conhece o racional como isolado. Razão, logos, é palavra, e
palavra é a comunicação do pensar. O logos, com efeito, não é algo que ocorre enclausurado no interior do
homem, mas tem na sua essência o manifestar­se para comunicar com o outro logos. Um conceito de qualquer
realidade só tem sentido se for comunicado. Isso significa que o homem só pode realizar sua essência racional
com o outro, na sociedade. Desse modo, Aristóteles trata da Ética enquanto ciência do indivíduo e sua formação
para a sociedade e, depois, da política como lugar da realização plena do indivíduo.

Ora, a organização política é para Aristóteles o modo pelo qual o homem realiza plenamente o seu ser e, por
isso, sua felicidade. O Estado tem como finalidade realizar a felicidade dos indivíduos, o verdadeiro objetivo da
ética: a eudaimonia. Realizar as potencialidades do ser humano no sentido de realizar a sua perfeição de ser,
física e intelectual, é o sentido da vida do homem, e isso só é possível no Estado, cuja finalidade é proporcionar
que o indivíduo realize suas virtudes e natureza, com que adquire a felicidade. Das três estruturas sociais que
propiciam esse desenvolvimento ou que pelo menos estabelecem as bases para a sua realização, a família, a
relação de senhorio e o Estado, este é o único onde isso é plenamente possível, pois existe para realizar a
eudaimonia em toda a sua plenitude (família, vida social e política), segundo Aristóteles. Essa plenitude de ser
significada pelo conceito de eudaimonia, a justa medida e a ordenação hierarquizada do bem (Lima Vaz) só se
realiza como perfeição de ser na sociedade. O homem só se realiza, só encontra a sua felicidade na
convivência com o outro, numa organização de poder que torna isso possível.

O Estado Romano não perde a característica ética. Entretanto, o ethos grego, que configurava todo um
comportamento da comunidade por regras e princípios, assume uma característica específica. O Estado não tem
apenas de formar o indivíduo para a felicidade, mas para a comunidade, para servi­la. A dimensão ética do
Estado concentra­se em função de uma técnica específica: o Estado garante aos indivíduos o justo, e o justo é o
direito de cada um. Garantir o direito de cada um, essa era a tarefa do Estado ou sua finalidade mais
importante com relação ao indivíduo.

Isso mostra que, analogicamente à resposta dada pelos gregos à crise de ethos com a ética (Lima Vaz), o
romano responde com o direito a essa crise ou ruptura. O justo, que tinha no sujeito virtuoso o seu pólo, passa
para o pólo oposto, o sujeito de direito e não apenas de dever moral.

Com Santo Agostinho, o Estado continua com sua dimensão ética, pois que tem a missão de preparar o
indivíduo para a felicidade espiritual. Decepcionado como magistrado, depois da queda de Roma e invasão dos
bárbaros, o que pôs em cheque uma civilização e cultura que pareciam ser eternas, converte­se ao cristianismo
e encontra na vida espiritual o único lugar da felicidade. O poder é um mal, algo demoníaco, fonte do pecado
maior: a guerra, que, por sua vez, é fonte da desigualdade entre os homens. O poder espiritual, este sim
justifica­se por ser santo. Daí distinguir a cidade dos homens, o poder do Estado, e a cidade de Deus, o poder
espiritual ou a comunidade dos cristãos. O Estado só pode justificar o seu poder se a serviço da cidade de Deus,
se se submete ao poder espiritual e o serve no sentido de converter os homens para a cidade de Deus, em que
se realiza a felicidade. É conhecida e muita citada, para significar como Santo Agostinho igualava todas as
formas de poder entre os homens como poder para o mal, a anedota atribuída a Alexandre no diálogo com o
pirata. Ao ser interrogado por Alexandre sobre o direito de infestar os mares com seus navios, teria respondido
o pirata: com o mesmo direito com que infestas o mundo com seu exército. Não há distinção entre poder do
Estado, considerado em si mesmo, e não como instrumento da vida espiritual, e o poder do bando.

Em Santo Agostinho, essa justificação ética do Estado também se dá pela sua finalidade. É para realizar o bem
que existe o Estado; entretanto, a eudaimonia, que em Aristóteles era a realização da felicidade na sua pólis, é
agora a beatitude, o bem supremo que só se realiza na Cidade de Deus, pois a cidade dos homens é a origem
do mal maior, a guerra, o que fez do poder do Estado um mal, semelhante ao do pirata. O poder só será
verdadeiro se for para realizar o bem, que é a salvação espiritual. Aqui o Estado aparece como instrumento de
salvação do homem. Nessa salvação, o bem por excelência, está sua finalidade ética.

O poder justifica­se pela sua finalidade, mas também se legitima pela sua origem, que é mais do que o senatus
populusque romanus, isto é, a potestas do povo e a auctoritas do senado,8 mas a potentia Dei absoluta, Deus
legislador, ou o absoluto transcendente.

Em Santo Tomás, refaz­se a teoria aristotélica, aliada evidentemente à de Santo Agostinho: a finalidade maior
era o homem salvar­se, mas sem deixar de buscar ser feliz aqui na Terra. O bem comum dá o conteúdo ético
do Estado, na medida em que realiza o bem do indivíduo como pessoa. Essa concepção, segundo a qual a
finalidade do Estado é realizar a felicidade ética do indivíduo, reaparece em Santo Tomás, que retoma e
incorpora toda a filosofia e a ética de Aristóteles. Entretanto, em vez de conceber o poder político como um
mal, entende­o com um instrumento de realização do bem comum, enquanto contempla o bem de todos e, ao
mesmo tempo, o bem de cada indivíduo. O poder temporal está submetido, sim, ao espiritual, como o corpo à

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alma, mas o homem busca legitimamente sua realização temporal. O Estado deve realizar essa felicidade aqui
na Terra.

b) O Estado Técnico Moderno. No séc. XVII, surge o conceito de Estado Técnico, com Maquiavel: o poder pelo
poder. O poder é considerado como poder em si mesmo e não "poder para". A justificação do poder é a técnica
para alcançá­lo e preservá­lo (o princípio de inércia do poder). O que justifica o poder é ele mesmo, na medida
em que o que importa é desenvolver técnicas para alcançá­lo e mantê­lo. Maquiavel rompe com o conceito de
Estado Ético, cuja finalidade era realizar a felicidade das pessoas. O poder político não tem de buscar sua
justificação fora dele. Justifica­se em si e por si mesmo. A questão não é buscar a justificação do Estado, quer
pela sua origem, quer pela sua finalidade. O poder justifica­se internamente pelo próprio mecanismo da sua
conquista e do seu exercício. Poder é a "aptidão" para agregar, em um determinado momento histórico, "as
forças e os meios adequados a conservação e objetivos historicamente propostos".9 É o que Maquiavel designa
como virtù, a capacidade de obtê­lo e mantê­lo por meios adequados. Eis como se justifica o poder.

É importante a posição de Maquiavel, pois a partir daí funda­se a ciência política, com objetivo próprio distinto
da Ética, da Religião e da Filosofia. Une a coerção e a ideologia, tornando possível o estudo do poder como
objeto autônomo em relação a outros fenômenos humanos.

Em Hobbes há uma decadência no estudo do poder, em virtude do psicologismo metafísico do seu método de
tratá­lo, pois procura fundá­lo na natureza humana, nas faculdades (poder natural) do homem, em meras
qualidades psíquicas e físicas do homem individual, cujo resultado é o fantasmagórico contrato social
(configurador da vontade psicológica) histórico, resultante do temor da selva social, sem qualquer traço de
prova, ou então no fato de ser adquirido, instrumental do homem, buscando sua origem, nesse caso, no
contrato histórico, mera hipótese. Esse empirismo limitado, que se conservou e ainda faz sucesso aos olhos dos
estudiosos sob a capa de cientificidade, enganosa como em toda incursão empirista, não acompanha a
contribuição de Maquiavel e degrada a busca da origem do Estado, já preocupação dos gregos.

c) O Estado Ético Mediato ou Estado de Direito. A legitimação do poder entre os gregos e romanos pela sua
finalidade ética, técnica do exercício do poder em Maquiavel, origem psicológico­metafísica, imaginária, em
Hobbes e outros, são características do estudo do poder até o advento do iluminismo no seu nível mais
desenvolvido, a retomada da legitimidade e da técnica pela qual se possa garantir essa legitimidade:
Montesquieu, Rousseau, Robespierre, D’Alembert, etc. O racionalismo, a partir de Descartes e Galileu (que
introjetou a matemática na natureza), caracteriza o modernismo, o novo modus pelo qual a realidade é
configurada e conhecida, cujo instrumento é a razão. O iluminismo é uma derivada do racionalismo, com
alcance principalmente no estudo e organização da sociedade humana, tendo seu momento de chegada no
enciclopedismo, com a conhecida recusa da fé como instrumento da verdade.

O que caracteriza o Estado de Direito a partir da Revolução Francesa é a legitimidade. O Estado ou o poder
político legitima­se ou justifica­se pela sua origem, pela técnica com que o poder se exerce e pela finalidade.
A origem legítima do poder não está em um ser transcendente ao homem, mas nele mesmo, na vontade do
povo, pelo seu consentimento, pela técnica com que o poder se exerce segundo procedimentos pré­
estabelecidos, com o voto popular, as regras de decisão da maioria e de respeito à minoria, e pela finalidade,
que volta a ser ética: a declaração e realização dos direitos fundamentais. A finalidade do poder é realizar o
direito no seu todo e a partir do momento da constituição e estruturação do poder, pela declaração e realização
dos direitos fundamentais. Estado de Direito não é apenas o que garante a aplicação do direito privado, como
no Estado romano, mas o que declara os direitos dos indivíduos e estabelece a forma do exercício do poder
pelo povo, reconhecido como seu único detentor, de tal forma que a estrutura de poder traçada pela
Constituição do Estado é montada tendo em vista essa declaração e garantia, como ocorre com a divisão da
competência para o exercício do poder do Estado.

A justificação do Estado de Direito deve dar­se de modo racional e em três momentos:

1 ­ O da legitimidade do poder10 na sua relação com o povo. Legítimo se diz quanto à origem,
quanto ao exercício direto e quanto à finalidade. O momento da legitimidade é a esfera da potestas. A
potestas é o momento imediato do desenvolvimento do poder que se manifesta originariamente, por exemplo,
com um sim ou um não, para que se dê o exercício pleno, na esfera da auctoritas, já dentro da ordem jurídica
ou da legalidade.

2 ­ O da legalidade, enquanto o poder se considera na sua relação com o direito. Nesse caso, não se
trata de justificar o Estado em razão de sua origem, mas segundo a sua estrutura normativa e sua função
orgânica, no momento da execução do poder. Indaga­se da validade dos atos praticados pela autoridade. O ato
de autoridade vale segundo a legalidade, a sua conformação com a lei, o que liga toda a execução da lei à
origem, isto é, à legitimidade. O exercício do poder se dá face à criação e execução de normas jurídicas. Só a
autoridade competente é autorizada por norma superior a criar norma ou executá­la, dentro de um quadro de
competência e segundo um processo regular; é a esfera da auctoritas.
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3 ­ O da justiça ou ético, na relação com o indivíduo, segundo a sua finalidade, que é realizar a
liberdade, enquanto Estado de Direito. A liberdade, porém, concebida não apenas como livre arbítrio, mas como
autonomia, é a capacidade de o indivíduo determinar a sua própria conduta a partir da razão prática, tanto no
que se refere à sua ação na esfera privada, como na esfera pública ou política, na medida em que age como
autor das normas jurídicas que regulam sua conduta. Essas duas faces da liberdade estampadas no
pensamento kantiano, e que aparecem sob a forma de ordem normativa, liberdade objetivada, e de direito
subjetivo, liberdade subjetivada, constituem a própria essência do Estado de Direito, de tal modo que grave e
incivil afronta à consciência jurídica e ao Estado de Direito é o desrespeito ao direito adquirido de
modo justo.

O poder legítimo não é aquele outorgado pelo povo, como transferência, por ato formal de poucos segundos e
que depois desaparece. A legitimidade do Estado está na vontade do povo, que dá origem ao poder, mas está
também no exercício do poder, permanente ação do povo na relação de poder, quer através de instrumentos
políticos (como plebiscito, destituição, resistência, etc.), quer através de mecanismos administrativos, do que se
chama administração participativa, que é um direito fundamental.

O Estado de Direito é, assim, o que se funda na legitimidade do poder, ou seja, que se justifica pela sua origem,
segundo o princípio ontológico da origem do poder na vontade do povo, portanto na soberania; pelo
exercício, segundo os princípios lógicos de ordenação formal do direito, na forma de uma estrutura de
legalidade coerente para o exercício do poder do Estado, que torna possível o princípio da segurança jurídica
em sentido amplo, dentro do qual está o da legalidade e o do direito adquirido; e pela finalidade ética do poder,
por ser essa finalidade a efetivação jurídica da liberdade, através da declaração, garantia e realização dos
direitos fundamentais, segundo os princípios axiológicos que apontam e ordenam valores que dão conteúdo
fundante a essa declaração.

Isso, porém, só poderá ser possível através do assentamento de regras procedimentais, de natureza técnico­
jurídica, pelas quais se garanta a dinâmica dos princípios de legitimidade. Tais regras, já citadas ­ regra ou
decisão da maioria, de respeito à minoria e de divisão da competência no exercício do poder ­, realizam o
momento técnico do Estado, superado na unidade com a sua natureza ética no Estado de Direito.

C ­ O Estado Poiético

O Estado Poiético é a ruptura no Estado Ético contemporâneo que alcançou a forma do Estado de Direito.

É um dado essencial, pelo qual o homem se afirma como ser livre, que nele a pessoa nunca é conceito
heterônomo ou externo, pois é sempre fim em si mesmo (Kant). Fim em si mesmo é ter em si o logos da
liberdade, que a tradição ocidental denomina substância espiritual, ou o absoluto imanente, que essa mesma
tradição denominou imago Dei.

a) Como surge o Estado Poiético?

Uma das características da sociedade civil é ser ela um sistema das necessidades e, como tal, não realizar no
indivíduo a sua liberdade, ou seja, o que ele é em si, pessoa. Como pessoa, o homem é ser­para­si, portanto
livre, na medida em que é autônomo e sabe dessa liberdade. Essa substância espiritual do homem, esse logos
theoretikós­praktikós, digamos, só é possível realizar­se na sua plenitude na vida social, e essa só pode existir
enquanto sociedade livre num sistema de normas, autodeterminações que o homem cria para tornar possível
essa sociedade, de indivíduos como pessoas. Não é necessário, portanto, provar a liberdade numa primeira
instância (embora o faça Hegel). É suficiente tê­la como postulado transcendental, a priori (Kant), mas que
explica a realidade do mundo normativo. A esfera da pessoa, portanto, realiza­se na organização política da
sociedade, segundo a tradição que vai de Aristóteles, através de Hegel, até nossos dias. Mesmo a idéia de uma
revolução socialista como abolição do Estado outra coisa não preconizou, implicitamente, senão tentar repatriar
a idéia aristotélica de Estado.

A atualidade da análise de Hegel sobre a sociedade civil como sistema das necessidades, não ético, embora não
anti­ético, mostra, com clareza, a nova forma desse sistema: em vez de progredir para a superação das
conexões de mercado que determinam a vida das pessoas, a sociedade civil faz do Estado o instrumento da
despersonalização, da perda da substância espiritual da liberdade. Com efeito, não é simplesmente a valoração
do homem pelo que ele faz, indiferente do saber consciente desse fazer, o que em si mesmo não compromete
a sua liberdade, mas a sua instrumentalização enquanto é reduzido à pura dependência como ser­para­um­
outro, com total supressão do seu ser­para­si livre, ou fim em si mesmo. Na sociedade civil contemporânea, o
homem passa a ser instrumento para algo e, na medida em que é instrumento para algo, coisa, é instrumento
para o outro, pessoa, que o domina, segundo a estrutura da relação senhor­escravo, guardada evidentemente
a essencial diferença entre a relação de servidão ou escravidão e a do trabalho livre. O que se quer dizer é que
a sociedade civil criou um grupo que domina a técnica através do econômico, ou seja, transformou em
mercadoria a força de trabalho e, como qualquer outro valor quantitativo, não vê no trabalhador senão a força

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do trabalho e sua capacidade de fazer, impondo­lhe o regime da oferta e da procura, expulsando­o da estrutura
essencial da unidade de produção, a empresa. O trabalhador é descartado quando não necessário ou quando
diminui o lucro; a empresa é do capitalista, não da unidade dialética do trabalho e do capital. A palavra mágica
com que se opera essa transformação é o econômico. Mágica porque o econômico é apenas uma ficção, pois o
real é a técnica de produzir coisas na natureza, que depois são transformadas em mercadorias pela magia do
econômico. O econômico, porém, é também uma técnica, mas tautológica: produção do que está produzido
pelo trabalho (da natureza transformada pelo fazer). O fazer econômico, o produzir o econômico, esta é a
determinante da sociedade civil. E os que dominam esse fazer econômico, que não são as ides trabalhadoras,
não se limitam ao controle da economia na sociedade civil; precisam de um instrumento poderoso; não mais
para servir de porrete contra os trabalhadores, como pensou Marx, mas como instrumento de produção das
regras do jogo das relações sociais, especificamente da economia, com subordinação de todas as demais
relações. Precisa da organização política.

No Estado poiético, o produto do fazer é o econômico, que nenhum compromisso tem com o ético, e procura,
com a aparência de cientificidade, subjugar o político, o jurídico e o social. Não é ético, porque o seu fazer não
se dirige a realizar os direitos sociais. Evidentemente, se o Estado realiza os direitos sociais, esse fazer é ético.

Cria­se, então, no Estado, um corpo burotecnocrata que passa a exercer a soberania, com total sujeição do
político e do jurídico em nome do corpus econômico da sociedade civil. Não se nega que o técnico ou o cientista
econômico sejam essenciais no Estado contemporâneo. Não, porém, o tecno­crata, detentor do poder de
decisão política, que no Estado democrático não lhe pertence. Com o aparecimento desse aparelho, abre­se
uma cisão no Estado: de um lado, a organização ética da sociedade em que as decisões de soberania se
dirigem ao bem comum ou à realização de uma ordem social justa e, de outro, a burotecnocracia malabarista,
que impõe o fazer do produto econômico sobre o interesse social e jurídico, procurando mostrá­lo, através de
sua cartola e de sua hábil prestidigitação, como interesse público absolutamente sobrevalente.

A cisão do Estado está, pois, nesse embate que se trava dentro dele mesmo, criando dois estados: o estado
poiético do domínio burotecnocrata e o estado ético do domínio da sociedade política, enquanto Estado
Democrático de Direito. É fácil verificar isso no fortalecimento do aparelho burocrático denominado Banco
Central, em todo o Ocidente, das bolsas de valores e da massificação globalizada do consumo das mercadorias,
mas com a concentração da produção de tecnologia de ponta e do controle do capital financeiro.

A bifurcação do Estado começa a partir de uma divisão anterior, operada pelo Estado liberal: a separação da
sociedade civil e do Estado. Não há um Estado separado da sociedade, pois é ele a própria sociedade
politicamente organizada, ou uma organização política da sociedade, segundo a qual os indivíduos exercem os
direitos políticos. Não só a autonomia privada, mas também a autonomia política. A característica do Estado
liberal é a autonomia privada, enquanto que a do Estado democrático é a autonomia política.11 Por isso, um
Estado pode ser ao mesmo tempo liberal e autocrático, havendo liberdade de pensamento, de mercado, etc.,
mas não a participação no poder político.

A sociedade civil funciona diante das necessidades dos indivíduos, segundo um sistema das necessidades
econômicas dos indivíduos, na total contingência da livre concorrência, da oferta e da procura. Nela
encontramos facções que organizam e dominam a economia e que irão desempenhar papel importantíssimo na
formação do Estado Poiético. Em vez de a sociedade civil, como sistema das necessidades, superar­se no
Estado, que é o sistema das liberdades organizadas, em que o indivíduo aparece como pessoa, cria­se um
órgão burotecnocrático que controla o poder político.

b) Como se organiza o Estado poiético?

A sociedade civil, como se disse acima, é a ambiência em que se desenvolve o sistema das necessidades ­
necessidades que criam setores de produção, ou produção criando necessidades ­, e na qual o Estado é uma
entidade separada, característica do Estado liberal, que aparece como órgão de tutela e fiscalização do livre
jogo econômico da sociedade civil, através da força coativa. Cria­se um órgão burotecnocrata que privilegia o
econômico, fazendo do Estado um instrumento da produção dos efeitos econômicos, especificamente financeiro
e monetarista, cujo produto significativo é o dinheiro. A produção é de dinheiro, que não é um bem econômico
em si, mas uma ficção jurídica, pois vale, é vigente, tem força circulante obrigatória porque institucionalizado
formalmente pelo direito. Economicamente, apenas tem função referencial simbólica. Representa coisas ou
bens.

Com isso, o elemento central e essencial do Estado de Direito é postergado, pois o jurídico, o político e o social
são submetidos ao econômico. O Estado poiético não tem em mira a "produção social". Entra em conflito com a
finalidade ética do Estado de Direito, abandonando sua tarefa de realizar os direitos sociais (saúde, educação,
trabalho), violando os direitos adquiridos, implantando a insegurança jurídica pela manipulação sofística dos

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conceitos jurídicos através mesmo de juristas com ideologia política serviente, exercendo o poder em nome de
uma facção econômico­financeira. O Poder aparece aí, contraditoriamente, como seu fim, pois que é sua tarefa
primeira manter­se no poder e preservá­lo, e ao mesmo tempo como meio para realizar o objetivo técnico­
financeiro de uma facção da sociedade civil. Não é mais o político que toma decisões fundamentais.

No Brasil, isso ocorre de modo mais grave. O político (que tem a dimensão do ético), o jurídico e o social
entram em choque com o técnico de dimensão econômica divorciada da dimensão ética do social. O órgão do
Estado encarregado da realização de sua política econômica passa a decidir politicamente. Tal Estado passa a
ter um organismo paralelo de decisão política, o que traz como conseqüência uma dissimulada usurpação do
poder, com o alijamento do povo, pela submissão dos seus representantes, das decisões fundamentais, por não
ser conveniente a sua participação. Recentemente, um político de boa formação ética, revelou essa
sucumbência, forçado a abdicar do poder de decisão política que lhe foi dado, dizendo: "prevaleceu o critério
técnico"; sem a crítica, primeiro, da legitimidade do critério técnico, depois, da sua validade e, depois, de sua
conseqüência prática para o bem comum.

A lógica da burotecnocracia é perversa: depois de estabelecer as premissas da operação econômica, ainda que
erradas, produzindo fatos, aparência de fatos, números, profecias, argumenta com o fato poieticamente
consumado (por ela produzido), com a ameaça da catástrofe, o argumentum ad terrorem, através do qual se
sacrificam direitos, se submete a autoridade política, se instabiliza o sistema democrático, acenando com
reformas constitucionais, que a possível falta de competência de administrar dentro das regras democráticas
exige para remover pseudo­empecilhos constitucionais. E vai­se de empiria a empiria, subjugando o político e o
jurídico, até que ocorra uma reação do sistema. Por exemplo, no político, quando Itamar Franco respondeu, ao
lhe dizerem que não era possível conceder aumento aos militares, ao argumento de que as contas não
mentem: "as contas, não, mas quem as faz, sim". Ou quando Sepúlveda Pertence advertiu contra o argumento
ad terrorem ou do fato consumado: que os planos obedeçam à constituição, ou: que o fato por eles produzido
se submeta às regras do Estado Democrático de Direito.

c) Que conseqüências pode ter?

Podem­se resumi­las em três grupos.

1­ A de natureza moral. Aparece um tipo de corrupção, não apenas de indivíduos, mas da República. A
supressão da legitimidade do poder pela sua usurpação através de simulações democráticas que encobrem a
alienação do poder à burotecnocracia, técnica que freqüentemente aparece como intimidação, corrupção, sem
esconder a sua incompatibilidade com a democracia. Fácil é ainda verificar como se afronta o princípio de
moralidade da administração pública, considerado objetivamente, nos processos de privatizações, feitos à
socapa formal da aparência de legalidade.

2 ­ A de natureza política. A sua incompatibilidade com a democracia se revela no aumento do poder
burotecnocrata, que é inversamente proporcional ao exercido pelo povo.

O Estado poiético é uma das formas de usurpação ou alienação do poder, operando uma cisão profunda entre a
potestas ou titulação do poder e a auctoritas ou exercício. A alienação começa do povo para os representantes,
destes para o governo, e dentro do governo, do presidente para os burotecnocratas. É fácil ver que desde
Bernardes poucos presidentes exerceram efetivamente o poder de governo: Bernardes, Kubitschek, Jânio,
Castelo Branco, Color e Itamar, este o primeiro a impor­se à burotecnocracia econômico­financeira, ao estilo
bernardiano.

É fácil notar a evolução do plano real. Começa com a formação de lastro seguro para garantir a moeda, com
um superávit de cerca de 10 bilhões de dólares anuais, e com uma política no estilo mineiro tradicional de
desenvolvimento (Governo Itamar), através da retomada da produção de carros populares e da construção
civil, os carros­chefes da economia. Após esse Governo, com o deslocamento de decisões políticas à chamada
área técnica, implantou­se a política de recessão, cujas conseqüências futuras ainda não se avaliaram; o lastro
passou a ser feito, não mais com dólares pertencentes à nação, mas com dólares eventuais, pertencentes a
aplicadores estrangeiros, que não são especuladores no sentido pejorativo, mas simplesmente aplicadores que
observam a lei de mercado, como qualquer outro, inclusive de governo, aceitos no sistema projetado. Portanto,
a crise da bolsa era prevista, bem como o risco da perda do lastro e do desmoronamento do real, o qual foi
salvo momentânea e aparentemente com a dobra da taxa de juros para a nação pagar, pagamento garantido
com as medidas econômicas de aumento de impostos, corte nas verbas sociais, nos investimentos, etc., para
se conseguir cerca de 20 bilhões de dólares, a fim de remunerar o "especulador" e manter aqui os seus dólares
por mais um ano.

Vamos retomar isso mais detalhadamente.

http://200.198.41.151:8081/tribunal_contas/1998/02/02/2002_11_11_0002.2xt/­versao_impressao?ed=02&folder=2 8/12
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Para manter os aplicadores, teve­se de elevar a taxa de juros de modo a apetecê­los: de 23% para 48% a.a.

O lastro do plano real era de ser feito com o produto de privatizações controladas, com saldo na balança,
investimento permanente, como era a intenção do Governo Itamar.

O capital especulativo, ou seja, o capital contingente, de aplicações provisórias e retirada à vista, sujeito à
oferta de melhor rendimento, passou a formar o lastro da moeda, o real, com os dólares advindos dessa
aplicação, de investidores eventuais e provisórios, que controlam cerca de 3 trilhões de dólares nas diversas
bolsas do mundo. Sem lastro próprio, o real passa a ser como um cheque sem fundos. Porque se elegeu esse
caminho errado, pelo qual o lastro é feito de dólares que não pertencem ao País, mas "emprestados" à vista,
entrou­se num círculo. Só se captam as aplicações se derem bom lucro. Mas o lucro são os juros que o próprio
Governo paga.

Como a lei da oferta deu melhores condições de aplicação em outras praças que não o Brasil, como era
previsto e de se esperar, o capital começou a evadir­se, a mudar­se da praça. Na verdade, é suficiente que os
Estados Unidos aumentem os juros em pequena fração, ou que o seu tesouro emita títulos novos, para que
esses aplicadores voltem para a matriz do capital financeiro. Somente a "crença" ou a acientificidade em tratar
a questão poderia sentir­se segura com tal lastro escorregadio. Isso porque o tecnocrata não é técnico, nem
cientista; é ideólogo, com poder político "particular".

Entretanto, o investidor sabe como cuidar do seu dinheiro, ao contrário do que muitas vezes ocorre com o
administrador do dinheiro público. Ao oferecer o Governo juros tão altos e atraentes, surgiu a pergunta: de
onde tirará o Brasil dinheiro para pagar a diferença referente ao aumento da taxa de juros? Responde­se com o
pacote de medidas destinadas a diminuir as despesas e a aumentar a receita em cerca de 20 bilhões de
dólares, valor próximo ao do aumento dos juros no ano (em dezembro/97, época da medida, o aumento dos
juros a serem pagos pelo Brasil foi de cerca de 2,2 bilhões de dólares, o que daria perto de 25 bilhões ao ano).

Havia um outro caminho, o da desvalorização, ou da verdade cambial, ou seja, da demonstração de que um
real não vale, na verdade, um dólar. Vale menos. Isso traria mais exportação, não comprometeria a economia,
etc. Mas esse caminho comprometeria a reeleição do atual governo. Por isso foi necessária uma medida que
prorrogasse o plano real na sua aparência de eficácia até depois das eleições.

O custo disso: recessão (fechamento de empresas, suspensão de investimentos, de expansão, etc.) por força
dos juros altos, de nova tributação, etc., desemprego, redução do poder aquisitivo e do consumo,
decrescimento da economia com relação ao PIB em 1998, enfim, perda econômica substancial, adiamento das
soluções dos problemas sociais e da possibilidade de o País se tornar desenvolvido, crescimento abrupto do
débito, atualmente de cerca de 300 bilhões de dólares. Situação: o patrimônio decresce, a dívida cresce.

E o que é admirável: as medidas aparecem como obras geniais, salvadoras, "resposta eficaz" e tecnicamente
correta (a única) à chamada especulação. Sim, realmentte não havia outra saída ou conclusão; mas quem,
porém, criou as causas, os antecedentes, as premissas? Os mesmos.

O grave risco do Estado poiético é a sua natureza para tender para a autocracia através da burotecnocracia. É
que, depois de ter criado as premissas da catástrofe econômica, com ela ameaça para obter mais poder. Sua
lógica é a de cada vez mais aumentar o seu poder, do que se pode facilmente inferir que o seu rumo é a
eliminação dos "entraves", pois, se se perde a docilidade do parlamento, a conseqüência é caminhar para
instaurar o Estado autocrático. Para dar suporte ideológico ao processo de alienação do poder, procura­se
também justificar a alienação do direito à informação. Para isso, uma falácia prática: o povo, dono do poder,
não pode saber dos assuntos do Estado; precisa ser tutelado.

Grave decisão política encaminhada pelo aparelho tecnocrata foi a da falácia da privatização emocional e
generalizada. Falácia porque não encontra fundamentação lógica. Se a empresa estatal é viável, então o
administrador tem de administrá­la bem, a menos que não tenha competência para fazê­lo; se não é viável,
nenhum particular a comprará. Então, socorre­se de uma falsa generalização: o Estado é mau administrador.
No entanto, vários licitantes nas privatizações são estatais de outros países.

Além da falácia, ocorre ainda uma ação política não ética. Aliena­se um gigantesco patrimônio construído
durante décadas, sem consultar o seu titular e apenas com avaliações formais.

A cascata de conseqüências que surgem por força da adoção de determinadas premissas monetaristas de
graves resultados econômicos para o País, em sentido contrário ao exemplo dos Estados Unidos, principalmente
no Governo Reagan, que mandou combater a inflação "pondo a mercadoria na prateleira" (Say), produzindo
(medida que Itamar Franco, na esteira da tradição da política desenvolvimentista, pôs em prática, reaquecendo
a economia), leva seus efeitos à instância ético­administrativa, camuflada pela legalidade aparente das medidas

http://200.198.41.151:8081/tribunal_contas/1998/02/02/2002_11_11_0002.2xt/­versao_impressao?ed=02&folder=2 9/12
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provisórias, como o PROER, o festival de instalações de fábricas de automóveis onerosas para a nação, a
privatização, a exploração gratuita das rodovias implantadas com recursos públicos, deslocando o problema
para o futuro (o México, onde houve privatização, deverá gastar cerca de 18 bilhões de dólares para a sua
recuperação), cuja solução tecnocrata já se aventa com mais um tributo, o sobre combustíveis, com a
finalidade de deixar a cargo do Estado a recuperação e implantação das rodovias.

Grave é, ainda, a privatização da TELEBRÁS, da ELETROBRÁS, que, a exemplo das já feitas, não lograrão
alcançar o que valem. Além de economicamente estratégicas, é sabido que, num país subdesenvolvido, é
extremamente difícil a conciliação do lucro com o interesse público, correndo­se o risco de o Estado voltar a
comprar a sucata no futuro (veja­se o exemplo da Light­Rio).

Como se isso não bastasse, uma nova medida é posta em prática pela burotecnocracia: a Lei Kandir, cujos
efeitos jurídico­políticos e ético­administrativos são a interferência no sistema federativo, com o corte na receita
dos Estados­Membros (em Minas é de cerca de 500 milhões de dólares), e conseqüente benefício aos
importadores, pelo barateamento da matéria­prima. Entenda­se aqui o princípio de moralidade pública em
sentido objetivo, isto é, nas conseqüências negativas ao erário ou ao interesse público, independentemente do
elemento subjetivo, isto é, se houve ou não intenção do administrador ou mesmo do legislador.

Uma política orientada para o interesse público seria a formação de um pool das grandes estatais com as boas
universidades, para desenvolver a pesquisa científica e produzir tecnologia de ponta, única porta de acesso ao
denominado "primeiro mundo".

3­ A de natureza jurídica. O Estado poiético, burotecnocrata, é abertamente a­ético e a­jurídico. Busca
justificar­se pela própria técnica ou aparência técnica que o define. O regime de 64 buscou uma justificação
ética, a garantia do Estado Democrático de Direito, e, exceto no âmbito político, respeitou o elemento de base
desse Estado: a segurança jurídica na qual está o direito adquirido, embora posteriormente tenha nele se
instalado o aparelho tecnocrata. A dinâmica do sistema atual, porém, ameaça até mesmo a segurança jurídica
ou o direito adquirido, elemento básico do Estado de Direito que sempre foi apresentado como o elemento de
suporte do Estado liberal. Sofisma, por exemplo, que a estabilidade não é cláusula intangível, porque não está
garantida no art. 5º e 64 da Constituição Federal. O argumento é falso. A estabilidade não está protegida pela
intangibilidade do art. 5º, mas o instituto do direito adquirido está, no inciso XXXVI. Portanto, negar um direito
adquirido, qualquer que seja, é negar vigência ao mesmo art. 5º, XXXVI, que o protege contra qualquer lei,
sabido que, pelo menos para um jurista de razoável formação, emenda constitucional é lei, pertence ao gênero
a que se refere o citado inciso XXXVI. E a palavra lei está tomada pelo gênero naquele inciso, porque, segundo
regra hermenêutica, corroborada pelo § 2º, que insere na proteção constitucional outros direitos ali não
mencionados, a declaração de direitos deve ser interpretada amplamente. Sofismam com o nome.

Mais ainda se agrava essa insegurança jurídica pela anarquia legislativa, pela orgia de medidas provisórias,
cuja urgência e necessidade é da competência do Supremo examinar (pois a matéria é constitucional, e não
administrativa), a instabilidade da lei e da própria Constituição, cujas reformas nada têm de necessárias e
urgentes (a não ser a tributária e a política), para quem sabe enfrentar o permanente desafio de administrar
bem dentro das regras democráticas. Não se muda a Constituição simplesmente porque o administrador se
depara com dificuldades ou problemas que deve enfrentar ou resolver. Trata­se de um vício que o Poder
Executivo contraiu: diante de qualquer problema, muda­se a Constituição.

Conclusão

O Estado contemporâneo enfrenta uma cisão no seu interior. De um lado, o Estado liberal (e mesmo
autocrático) realizando o avanço técnico na distribuição do poder a órgãos tecnocratas e burocratas,
introduzindo uma espécie de nihilismo ético e anomia jurídica, conseqüência inevitável pela legitimação formal
do poder da democracia representativa, não participativa, alienado no ato formal do voto exercido num hic et
nunc.

De outro, antagônico ao nihilismo e à anomia, o Estado que recupera o sentido ético do Estado clássico, o
Estado de Direito, que se legitima não simplesmente por uma decisão contingente do voto formal, mas pela
origem na real vontade popular, aferida na permanente participação do cidadão na vida política, e pela
declaração universal, garantia e realização dos direitos fundamentais (políticos, sociais e individuais), cujos
valores centrais são a liberdade, a igualdade, o trabalho.

O Estado técnico de Maquiavel, que a princípio aparece como mecanismo de conquista e conservação do poder,
com o advento da economia liberal, aprofunda o aspecto mecânico de uma sociedade técnica, em que a divisão
do trabalho especializa instrumentalmente o indivíduo. Esse Estado do Entendimento (entendimento é o
momento do pensar divisor e mecânico) mostra em dois aspectos a sua divisão, a economia e a política, de tal
forma que a política é a técnica da aquisição e conservação do poder, e a economia, a técnica de produção e
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distribuição de riquezas, cujo lugar é a sociedade civil, deixada ao jogo das necessidades, em que o Estado
aparece mais uma vez como árbitro técnico da livre concorrência.

O Estado liberal opera essa tarefa técnica e aprofunda a divisão do Poder Político ­ Sociedade Civil como um
todo, como se coisas diversas fossem.

O aprofundamento dessa divisão exige a sua superação, a superação da contradição do próprio conceito de
Estado com a sua "realidade empírica". O passo dessa superação é o Estado Ético Racional, portanto, o Estado
que não abandonou o elemento técnico, mas que recupera o ético como essência, não já na forma imediata do
Estado Ético antigo, mas na forma mediatizada do Estado Contemporâneo, emergente do passo trágico da
Revolução, o Estado de Direito: o Estado que declara e realiza os direitos fundamentais, individuais, políticos e
sociais, como seu fim essencial.

A perspectiva que temos é a de um Estado Racional, em que os indivíduos sejam autônomos, livres do ponto de
vista de partícipes ativos do poder, titulares de direitos fundamentais. Entretanto, a teimosia divisora do Estado
liberal permanece. A brecha que abre na sua substância real é entre a declaração dos direitos e sua realização,
ou a sua contraditória existência como Estado técnico instrumental e mecânico, separado da sociedade civil, e o
Estado de Direito finalista e orgânico, que supera a separação sociedade civil e Estado.

A interferência do técnico é fundamental no Estado Moderno, mas não como agente da soberania. O papel do
técnico é ser técnico, nunca político. O exercício do poder cabe ao político.

O traço que distingue e faz o verdadeiro político emergir no mundo social e que dele faz agente da soberania
popular, é a aptidão para captar o universal na particularidade dos interesses individuais, ou seja, superar a
particularidade técnica pela universalidade do bem comum ou da ordem justa. De sobre isso decidir não
pode abrir mão.

Notas

* Conferência pronunciada na abertura do Congresso Euro­Americano dos
Tribunais de Contas e no encerramento do ano letivo do Curso de Direito da
Faculdade de Direito do Médio Piracicaba.

1 Não se cogita de indagar a origem histórica do poder, se na força militar ou
não. Ver Foucault, Michel. Resumo dos Cursos do Collège de France (1970­
1982). Trad. Andrea Daher. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 71. Ver Bastos,
Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Saraiva, 1994. p. 12.

2 Cf. Hauriou, Maurice. La Teoria de la Instituitión y de la Fundación. Trad.
Arturo Henrique Sampay. Buenos Aires: Perrot, 1968. p. 31.

3 Cf. Dobrowolski, Silvio. Grupos Sociais e Poder. Revista de Informação
Legislativa, Brasília, n. 88, out./dez., 1980, p. 99 e segs.

4 Aristóteles. Ética a Nicômaco, 1113b. Trad. Francisco de P. Samarandi.
Madri: Aguilar, 1977. p. 1200­1201.

5 Aristóteles. Metafísica, I, 981b.

6 Vicente Barreto, em Poder e Autoridade, p. 33, fala em justificação pelo fim,
tipos e medidas do poder.

7 Cf. Salgado, Joaquim Carlos. A Idéia de Justiça em Kant. Belo Horizonte:
Editora da UFMG, 1986. § 5º.

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8 Cf. Bonfante, Pietro. Historia del Derecho Romano. Trad. José Santa Cruz
Teijeiro. Madrid: Rev. de Derecho Privado, 1944. p. 182­183. Mommsen.
Disegno del Diritto Pubblico Romano. Milano: CELUC, 1973. p. 112.

9 Maurício Godinho (Natureza Jurídica do Poder. Belo Horizonte: Del Rey, 1996.
p. 31) faz uma importante e clara exposição sobre esse tema.

10 Cf. Baracho. Legitimidade do Poder. Revista de Direito Público, 70, p. 63.
Oliveira, Janice Helena Ferreri. O Poder. Revista de Direito Constitucional e
Política, Rio de Janeiro, 2 (3): 313­35, julho, 1984, p. 327. Ferreira Filho,
Manoel Gonçalves. O Poder e seu Controle. Revista da Faculdade de Direito da
USP, n. 79: 113­39, jan./dez. 1984, p. 121.

11 O conceito de autonomia, privada ou pública, vem de Kant; em Habermas
esse conceito não é claro; toma­o num sentido adaptado, não jurídico, nem
moral, nem econômico (Faktizität und Geltung).

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