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ADVERTÊNCIA: ORIENTAÇÕES DA OBRA

Antes de uma análise mais aprofundada, postulamos como


quase equivalentes os termos antropologia e etnologia.
Esta introdução apenas conseguirá abarcar as partes essen-
ciais da produção de uma disciplina. Propomo-nos aqui sablinhar
assuntos de estudo e categorias de análise, enunciar tentativas de
método e de reflexão visando a apreensão dos fenômenos socio-
-culturais, apontar campos de pesquisa, fragmentos de cultura e
debates teóricos, que permitam ulteriores opções e especializa-
ções do estudante. Para melhor focalizar o que é importante,
vamos excluir temas periféricos, como sejam as ligações da
etnología à arqueologia ou à biologia humana. Acentuaremos as
distinções conceptuais e as grelhas.de análise úteis ao principian-
te, embora correndo, por vezes, o risco de que a esquematização
prejudique a subtileza da interpretação, ao mesmo tempo que
facilita a assimilação da disciplina. A referência aos autores só
será activada para as obras fundamentais, a fim de evitar que o
estudante se perca num dédalo de nomes, cuja cronologia tem
dificuldade em situar, e com os quais, no início, apenas relaciona
algumas ideias simplificadas.

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fNTRODUÇf\O À ANTROPOLOGIA

Após uma abordagem dos conceitos e dos métodos vamo 1


~façal' um rãpido historial das principais correntes teóricas d:
;m~opologla e vamos estudar sucessivamente as quatro pedras CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA
<ll~gul~es de to~o e qu~~uer sistema social, a saber: o paren-
tesc,o, a e~onoillla: a política, a religião. O último capítulo será
d.edicado a actualidade da antropologia. Serão sublinh d
te dê , a as as
en encias marcantes das pesquisas efectuadae e
• '. « m dirversos
países e os objectos da etnologia relacionados com os din ic.,
mos con~emporâneos das sociedades europeias e das sOcie::::s
do Terceiro Mundo.

A antropologia tem como postulado a unidade do género


humano, o que não significa que se ocupe do homem simples-
mente, As sociedades ditas arcaicas ou primitivas, numa lin-
guagem evolucionista, foram os primeiros objectos sociais anali-
sados por especialistas, que as consideravam mais autênticas e
mais transparentes do que as sociedades ditas civilizadas, fossem
elas rurais ou industriais. A ciência do homem em geral (antro-
pos, em grego) aplicou-se, de seguida, à interpretação de todas as
diversidades culturais e sociais, pondo em causa as ideias de pro-
gresso contínuo da humanidade. de supremacia de uma civiliza-
ção sobre outra, depois, mais recentemente, propondo o reorde-
namento das relações interculturais, principalmente na época das
descolonizaçõcs. Embora a corrente folclorista europeia surja no
início do século XX, é sobretudo após a Segunda Guerra
Mundial que se desenvolve a aplicação dos métodos da etnolo-
gia ao mundo industrial e que a exigência social leva à valoriza-
ção dos patrimônios culturais, nacionais e locais.
O antropólogo que deseja trabalhar sobre a sua própria
sociedade e não sobre sociedades diferentes da sua, deve repen-
sar noções como a distanciação em relação ao outro, tanto mais
que as sociedades do Terceiro Mundo, no seu funcionamento
económico o~ político, tornam-se cada vez mais semelhantes às
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INTI\.ü))1.IÇ;\O À ANTROPOLOGIA CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

sociedades europeias, e que o olhar lançado sobre as sociedades a estudar uma aldeia rural da Bretanha, uma comunidade de mar-
industriais retoma, corrigindo-as, as formas de abordagem outro- ginais, um bairro de lata ou o bairro asiático de ~~s, há uma d~-
ra aplicadas às sociedades exóticas. A modemidade introduz-se tância não já geográfica mas sim social e cogmtiva, em relaçao
nas sociedades tradicionais e, inversamente, as nossas próprias ao seu objecto. Pertencer a uma cultura estudada ~ão é ne~ uma
sociedades reinventam tradições. Tal como o saber global do desvantagem nem uma necessidade para o antr?pologo, o lmpo~-
antropólogo vai beber no saber local do autóctone, que aquele tante é possuir a bagagem teórica e metodológica que lhe pemn-
formaliza, da mesma forma as sociedades locais procuram cada ta uma distanciação científica, quando estuda os Bororos ou os
vez mais conhecer-se a si próprias, graças ao olhar lançado sobre Provençais os Zulos da África do Sul, ou os "zulos" de uma
elas pelo antropólogo. Veremos, sobretudo no último capitulo, banda de r~ppers. O olhar que se lança sobre o outro implica o
que a antropologia é uma ciência do que é actual tanto quanto do estabelecimento de relações e tem como consequência um
que é tradicional. melhor conhecimento de si mesmo e da sua própria cultura, por
comparação.
A distinção entre eu e o outro, eles e nós, é proposta apenas
I -Conceitos fundamentais com uma finalidade heurística, quer dizer, de pesquisa e não para
reforçar tipos ideais, muitas vezes opostos em pares: ~rimi~-
a) O outro vo/civilizado, sociedades tradicionais/sociedades ractonars,
Uma vez que a antropologia estuda as diferenças entre comunidade/sociedade.
sociedades e culturas, destina a si própria a tarefa de pensar o
outro. Esta alteridade, inicialmente, foi concebida como históri- b) O etnocentrismo
ca (o primitivo) e como geográfica (fora da Europa), e esquema- Falar dos outros não é falar nas costas dos outros ne~ con-
tizada com o auxílio de caricaturas verbais: despotismo oriental, tra eles. Nada difícil, no entanto, atendendo ao ,etnoceritrismo
irracionalidade africana, selvajaria índia... arreigadas desde o natural a todo o ser humano, seja ele Indiano ou Arabe, Francês
século XVI. Neste nosso século, contudo, os termos positivo e ou Lapão! Cada um deles, pela língua, pe~o aspec.to, pela
negativo destes preconceitos conseguiram inverter-se: liberdade, maneira de viver, identifica-se com uma comumdade cujos valo-
igualdade, fraternidade, parece terem-se concretizado mais do res assimilou. Todos têm a tendência para rejeitar, criticar ou
lado dos "bons selvagens", na medida em que a nossa sociedade, desvalorizar os que não são como ele. Quando da desc<:be~a da
considerada alienada, desigual, sociedade da competição e do América, os Espanhóis recusaram inicialmente aos Indios o
contra-senso, pareceu repulsiva aos que denunciavam o "etnocí- carácter de humanidade, por vezes. para justificar a escravatura;
dio" e a "des-civilização" sofridos pelo Terceiro Mundo, devido por outro lado, os Índios mataram Espanhóis para comprovar que
à colonização. Tão exagerados uns como outros, estes pontos de eles eram mortais. Os Bantos dizem ser "os homens".
vista não passam de adesões ideológicas, refutadas ou muito O etnocentrismo, de que o etnólogo procura livrar-se, é a ati-
marcadas pela análise comparativa refinada do social e do cul- tude que consiste em julgar as formas morais, religios~s ~ sociais
tural. de outras comunidades de acordo com as nossas propnas nor-
O outro não está etiquetado como tal, num quadro neces- mas, e,portanto, em considerar as suas diferenças como ~ma
seriamente longínquo. Quando o antropólogo moderno se dedica anomalia. Já alguma vez provou lagartas grelhadas, para dizer

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INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGlA

que não presta? Tal como os Franceses chamam aos Italianos do de um reagrupamento efectuado por necessidades da adminis-
macaronis, os Ingleses tratam os Franceses porfroggies, ou seja, tração colonial. O nome pelo qual um grupo se designa, valo-
"comedores de rãs". Achamos natural dormir deitados; o pastor rizando-se, pode diferir daquele que os vizinhos utilizam para o
l11assa~,do Quénia ou da Tanzânia, dorme de pé, apoiado na sua designar. Em muitas etnias, de grandeza variável, de entre as
vara. E o etnocentrismo que encobre o orgulho local, o espírito doze mil que se arrolaram em todo o mundo, a unidade foi
de corpo dos estudantes ou dos empregados de uma grande reconstruída miticamente e as tradições locais propagaram mitos
empresa, a intdlerância religiosa ... e está presente até nos confli- respeitantes tanto às cisões como às fusões, após conquista,
tos internacionais, sob formas de expressão perigosas para a migração, federação, aliança. Por vezes, as pessoas de uma etnia
ordem social. dominada adoptaram a língua do seu dominador. O mesmo ter-
O exotismo, como culto pelo pitoresco, visando reter tudo o ritório pode ser partilhado por diversas etnias e a mesma etnia
que é curioso e bizarro nos outros, pode transformar-se em etno- pode encontrar-se em territórios muito afastados por exemplo,
centrismo, quando é acompanhado por uma atitude desvalo- Arménios na Ásia e Fulas em África. Visto que a história oral
rizadora a respeito dos outros e em racismo quando produz esteve sujeita a manipulações, aquilo que especifica a etnia como
rejeição e hostilidade. Quando L. Lévy-Bruhl opõe a mentali- tal é a identificação dos elementos com determinada etnia e o seu
dade pré-lógica à mentalidade lógica, dá provas de etnocentris- sentimento de parentela bilateral (lado do pai e lado da mãe).
mo, da mesma maneira que R. Lowie, aliás um excelente Na realidade, foi uma concepção da etnia, própria do sécu-
antropólogo, quando tenta reduzir os regimes de parentesco e de lo XIX, que levou à construção da etnologia como ciência das
casamento a variantes da família monogârnica. O etnólogo deve etnias. Contudo, reconhecendo que as sociedades que estudare-
sempre evitar a tentação de reduzir o pensamento de outrem às mos não são apenas etnias, daremos preferência ao termo
suas próprias grelhas de interpretação, tanto quanto a de se con- antropologia.
siderar superior àqueles que analisa.
d) Etnologia e antropologia
c) A etnia O facto de a mesma disciplina se chamar etnografia, etnolo-
Não é impossível que a própria ideia de etnologia possa con- gia, antropologia social ou cultural explica-se por ligeiras dife-
duzir sub-repticiamente à depreciação do seu objecto, na medida renças de conteúdo, de objecto, de método e de orientações teóri-
em que será aplicada a grupos de homens unidos num sistema cas, muitas vezes próprias das tradições nacionais, embora se
que não é o nosso, mesmo que tenha sido ~ dos Gregos, dos possam também ver nisso momentos sucessivos do trabalho
Francos, dos Visigodos, dos Tártaros ou dos Chechenos. antropológico. A etnografia é a etapa de recolha dos dados, a
A etnia defme-se geralmente como uma população (etnos etnologia a fase das primeiras sínteses, a antropologia a fase das
significa povo, em grego), que adopta um etnónimo e que recla- generalizações teóricas, após a comparação. Na realidade, esta
ma LIma mesma origem, possuindo uma tradição cultural distinção, embora não seja de todo aceitável, acentua, entretanto,
comum, especificada por uma consciência de pertença a um algumas tendências.
grupo, cuja unidade se apoia em geral numa língua, numa A etnografia corresponde a um trabalho descritivo de obser-
história e num território idênticos. Mesmo assim, cada um destes vação e de escrita, comportando a recolha de dados e de docu-
critérios precisa de ser ponderado. O etnónimo pode ter resulta- mentos e a-sua primeira descrição empírica (grafia), sob a forma

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CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA
INTRODUçAo .À. ANTROPOLOGIA

F. Boas, é uma diligência específica no interior de uma disci-


de registo dos factos humanos, traduções, classificação dos ele-
plina. Diz respeito ao relativismo cultural, e parte das técnicas,
mentos que se consideram pertinentes para a compreensão de
dos objectos, dos traços de comportamento para conseguir sinte-
uma sociedade ou de uma instituição. Abre o caminho a mono-
tizar a actividade social. É atribuída importância aos traços cul-
grafias sobre diversos aspectos desta sociedade. Uma mono-
turais e aos fenômenos de transmissão da cultura.
grafia pode muito bem tratar tanto de uma etnia da Oceânia como
O termo etnologia continua a estar em voga, embora haja
de uma aldeiaeuropeia, de uma festa regional como dos tifosi no
tendência para o substituir pelo de antropologia social e cultural;
futebol italiano. Descrição, inventariação, classificação dos cos-
são os qualificativos que diferenciam esta disciplina da
tumes e tradições exóticas ou populares são também tarefas efec-
antropologia filosófica, discurso abstracto sobre o homem, e da
tuadas pelos museógrafos.
antropolQgia física, que tem por objecto o estudo biológico e
A etnologia, ao elaborar os materiais fornecidos pela etno-
físico das características de raça, de hereditariedade, de nutrição,
grafia, visa, após análise e interpretação, construir modelos e
de sexo, e que compreende a anatomia, a fisiologia e a patologia
estudar as suas propriedades formais a um nível de síntese teóri-
ca, tomado possível pela análise comparativa. Fala-se de etno- comparada.
A ligação do homem e da história com a filosofia permitiu
grafia de uma aldeia, mas de etnologia dos países mediterrânicos
desenvolver rapidamente o estatuto teórico da etnologia,e o vín-
para designar um conju-Óiü de trabalhos. A palavra etnologia,
culo deste à acção (mesmo colonial: conhecer os povos
introduzida pelo moralista suiço Chavannes, em 1787 (a palavra
estrangeiros, para agir sobre eles) foi uma condição da vitalidade
etnografia [1810] é atribuída ao historiador alemão B. C.
da disciplina, especialmente quando os etnólogos foram render
Niebuhr), abarcava, no século XIX, o estudo das sociedades
os exploradores, administradores e missionários.
primitivas, particularmente do homem fóssil e o da classificação
das raças.
e) Objecto e atitude da antropologia
A antropologia quer ser ainda mais generalizadora do que a
A antropologia tem como objecto unidades sociais coerentes
etnologia. J.Copans vê-a: 1) como um conjunto de ideias teóri-
e de fraca amplitude que ou constituem uma amostra representa-
cas, referidas aos homens e às suas obras, aos precursores, con-
tiva da sociedade global que se deseja apreender (o estudo da
traditores e sucessores, conduzindo debates de ideias sobre os
vida quotidiana de, por exemplo, uma aldeia) ou então têm uma
agrupamentos humanos e as suas culturas; 2) como tradição inte-
situação original pela sua subcultura específica. A atitude con-
lectual e ideológica, própria de uma disciplina que tem uma
siste em extrapolar o global a partir do local, mediante a apreen-
forma de apreensão do mundo; 3) como prática institucional
são das relações interindividuais e institucionais, dos princípios
definindo os se~s objectivos, os seus objectos, as suas ideias; 4)
de organização e de produção, dos valores que dirigem a vida
como método e prática de campo.
comunitária'. Na falta de temas exóticos, muitos antropólogos
A antropologia social, incluída na antropologia geral, estab-
modernos descobrem actualmente locais de insularidade no
elece as leis da vida em sociedade, especialmente sob o ângulo
coração dos seus países, quer na cidade moderna, quer nos refú-
do funcionamento das instituições sociais, como a família e o
gios das tradições, tanto mais que muitas comunidades locais
parentesco, classes etárias, organização política, formas de pro-
procuram valorizar cada vez mais o seu património etnológico e
cedimento legal ...
A antropologia cultural, nascida nos Estados Unidos com histórico.

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IN'l'RODuçAo À ANTROPOLOGIA
CONCblTOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

A propósito das sociedades que estuda, o antropólogo faz


perguntas do género: qual é a natureza e a origem dos costumes na filosofia. O pensamento reflexivo (pesquisas classificarivas,
e das instituições? De que forma é que o indivíduo vive a sua cul- esquemas de evolução, valorização dos tipos como raças. e
t~~a? De que significados se revestem, entre grupos afins, as etnias) apoia a acção de reforma social e visa "civilizar" os assim
dIferenças sociais e culturais? chamados primitivos.
O ponto de vista comparativo permanece, pois, sempre em Embora as primeiras investigações de Bachofen, Tylor,
plano postt;.rior, quando se procuram semelhanças e diferenças Morzan nos anos 1860-1870, sejam contemporâneas das de Le
entre grupos humanos, quando se acentuam as clivagens entre Play~ M'arx, Spencer, Espinas, a etnologia ~ a s~ciol.?gia afir-
homens e mulheres, novos e velhos, dirigentes e dirigidos no mam-se diferentes devido ao seu campo de mvestigaçao. Para a
interior de um grupo, ou então quando se confrontam em espelho primeira: as sociedades relativamente ~o~?géneas ~ ~e p~quena
as antropologias de dois países. escala 'sem história conhecida, ditas pnminvas, tradicionais, sem
Preocupada com a totalidade, a antropologia estuda o escrit;; para a outra: as sociedades complexas, heterog~n~s, de
homem sob todas as dimensões, mostrando como, no interior grande profundidade histórica, ditas civilizadas, industnahzad~s,
daquilo a que Mareei Mauss chama o fenómeno social total, os letradas, modernas. O objecto do sociólogo aparece menos dIS-
elementos de uma econ~mia, por exemplo, só podem ser enten- tante e mais visível do que o do etnólogo, e a sociologia es~olhe
didos e explicados se fófém relacionados com fenómenos políti- como método preferido a amostragem sobre um vasto con~u.nto,
cos, religiosos, parentais, técnicos, estéticos. Cada elemento iso- enquanto a etnologia prefere elaborar inventários descritivos
lado ganha significado a partir do conjunto cultural e social em completos das culturas de pequena dimensão. .
que está inserido. O mesmo conjunto social pode também ser Na realidade, porém, as duas ciências humanas carmn~a~ .a
captado por outras disciplinas, com as quais a antropologia entra par, seguindo sucessivamente a via dos gr~des frescos históri-
em complementaridade. cos, depois a da paciente acumulaça? de docum~ntos.
Permanecem ligadas às teorias e às políticas da sua e~oca,
encontram perspectivas comuns (organização: .in:ti~ição, mte-
II-RELAÇÕES E~TRE DISCIPLINAS AFINS gração, adaptação), constroem-se atr~:és de dilige,n~las bast~te
semelhantes de comparação e de crítrca rnetodológica e episte-
a) Antropologia e sociologia mológica. O interesse dos sociólogos e dos etnólogos co~verge,
A antropologia constituiu-se em estreita relação com a sua a partir de agora, sobre a pesquisa das estrut~ras e funço~s so-
irmã quase gémea, a sociologia. No século XIX, a necessidade ciais fi sobre uma análise da dinâmica das SOCIedades actuais, No
de reorganização social, após as revoluções política e industrial início dos anos cinquenta, enquanto os antropólogos começ,a:n a
origina o nascimento da sociologia. Pouco depois, o interesse dedicar-se ao estudo das sociedades complexas (redes poh::cas
romântico pelo exótico, o desejo kantiano de criar uma na Índia pàrentesco americano, economia informal), os sociólo-
antropologia de orientação filosófica e o projecto colonial, con- gos, por:seu turno, debruçam-se sobre os aspectos s~bóli~os, d.o
vergem para a fundação da etnologia. comportamento, sobre as micro-relações de ordem ritual, jurídi-
Esta tem por padrinhos a história natural e o espírito de ca e cultural e adaptam os seus métodos de forma a a~ordarem o
antiquãrio; quanto à sociologia, enraíza no reformismo social e político, o econômico, o cultural em todas as SOCiedades do
Terceiro Mundo,
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INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA
CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

b) Antropologia e história pela oralidade, a espacialidade, a alteri~ade, o incons~iente,


,11tH' outro, a história, delimitada pela escnta, a temporalidade,
Não há qualquer dúvida de que a história, como discurso
iU~!ltidadc e a consciência. As clivagens herdadas do passado
formalização da temporalida,de escorado na história co
tIlI1J1í1l11-SC caducas à medida que a etno-história elabora a história
sucessão dos acontecimentos, não possui um passado anterío
sociedades que eram ditas sem história, à medida que a
mundo grego. Perante ela, a antropologia tem o aspecto de uma
tlilll6ria do Ocidente é tratada sob o ângulo antropológico e que
recém-chegada, esclarecida sobre o exotismo pelo Iluminismo e
~lItuda a vida colectiva e não apenas os altos feitos e os grandes
que, desde há século e meio, analisa principalmente as insti-
homens, as sociedades de Estado e as classes dominantes.
tuições dos "selvagens". No último quartel do século XIX,
Ilmbora a etnologia se proponha ser generalizante e comparativa
sociólogos e antropólogos empenham-se em pôr em evidência
om relação a uma etnografia preferentemente descritiva, a
relações estáveis, que possam tomar a forma de "leis" de estru-
Ilirst6ria conceptualizante e comparativa distancia-se também,
tura ou de evolução, à semelhança das ciências naturais. Quanto
a uma história-narração factuaL
aos historiadores, por seu lado, trabalham nessa época sobre a
cronologia, a individualidade e o fenómeno político. Consideram
A partir de agora, a etno-história, elaborada inicialmente
os acontecimentos como,~)1Ícos e contingentes, até ao momento
para conhecer o passado dos Índios da Am~rica, p~rticula:"I~len:e
em que se instala um debate, no inicio deste século, entre histo-
nos Estados asteca e inca, graças aos códices pré-coloniais, as
riadores sociologistas e historiadores historicistas (Simiand Con-
tra Seígnobos). crónicas espanholas e aos arquivos notariais, paroquiais, judi-
ciários, etc., combina as técnicas dos historiadores e as dos
Nos anos trinta, a antropologia funcionalísta marcará o seu
antropólogos. Relaciona o passado e o presente, examinando os
território metodológico - observação, inquérito oraL-, enquan-
valores e a linguagem de um grupo visto de dentro. Utiliza méto-
to os historiadores trabalham a partir de fontes escritas. Para uma
dos de investigação das tradições orais, perscruta a memória de
análise das sociedades pretensamente arcaicas, considerará
sociedades e tenta estabelecer cronologias. Investigadores
mesmo inútil a abordagem pelo lado da sua história, a pretexto
africanistas como J. Vansina, C. H. Perrot, E. Terray, M. Izard
de que esta não passa de conjecturas, de que o fenómeno social
casam as duas competências: a do historiador e a do etnólogo.
se basta a si mesmo como sistema e que ~ão se deve sacrificar a
ordem cultural à ordem histórica. .
Há cerca de trinta anos que a antropologia histórica também
Quando Lévy-Strauss, em 1958, distingue entre sociedades
se tem desenvolvido fortemente. Em França, a escola dos
frias, "que se esforçam por esterilizar no seu seio o devir históri-
Anndles, interessada no quotidiano e nas transformações ocorri-
co" e sociedades quentes, que produzem uma história "termodí-
das a longo prazo, orientou os historiadores para o terreno, a
nâmica" e acumulativa, acentua a diferença plimitivo/civilizado,
micro-histó~ia e as estruturas sociais. Temas caros aos antropó-
110 momento em que os movimentos de independência agitam a
logos, como o quotidiano, o corpo, as técnicas, o~ mitos, o.par~n-
geografia e a história política e o Terceiro Mundo se toma mais
quente do que a Europa. , tesco, acabaram por se tomar temas caros tambem aos história-
dores, que se interessam por A Família e o Parentesco no
Uma vez que a historicidade é inerente ao social, convém
Ocidente Medieval (Colóquio de Paris), pelas relações entre Mito
!lã\) forçar a oposição entre, por um lado, a etnologia, caracteri-
e Sociedade na Grécia Antiga (J.-P. Vernant), por Montaillou,

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INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

aldeia ocitana, de 1294 a 1324 (E. Leray-Ladurie*). ! Iíngua e a estrutura social (E. Benveniste, A. Haudricourt). As

Antropólogos e historiadores trabalham de braço dado num questões importantes são as seguintes: como é que os falantes
campo de actividade comum, embora com diferenças nas heran- representam a sua língua e que lugar tem ela em determinada cul-
ças, nas aprendizagens, nas carreiras e na textura da profissão. tura?
Há elementos fonéticos que se alteram de uma subcultura
c) Rumo a uma etnolinguística pura outra. A linguagem do burguês não é a do carroceiro.
Tal como o termo etno-história, também o termo etnolin- Matizes diferenciados aqui linguisticamente são designados
guística marca bem a ligação entre duas disciplinas afins. A lín- noutro local pelo mesmo termo. Entre os Bambaras do Mali,a
gua, no século XIX, não deixa de ser apreendida simultanea- palavra vermelho inclui também o violem. Noutros sítios, ver-
mente como instituição social e tesouro de uma civilização. melho, alaranjado e amarelo são designados pela mesma palavra
Elemento essencial da tradição, tem a sua vida própria dos pon- "claro", preto e azul por "escuro". Os Euas do Togo, tem até
tos de vista fonológico (os sons), sintáctico (construção da como cor o sarapintado. É possível que duas línguas coabitem
frase), semântico (sentido das palavras) ... , como escreveu E de na mesma cultura; assim, ao lado do coreano popular, a língua
Saussure (falecido em 1~.13), o primeiro a entender a língua chinesa continua a ser língua de prestígio entre as classes de élite
como um sistema de relà~ões interdependentes e a dar à linguís- coreanas, Se a língua não possui escrita, corno na maioria dos
tica a sua autonomia. Entre os discípulos de Saussure, esta lin- povos negros da África, então desenvolve-se a memória como
guística torna-se estrutural quando se considera a língua como paliativo e a tendência para memorizar.
um código e um produto do espírito humano (ponto de vista que
influencia Lévy-Strauss), ou então generativa, quando se encara d) Outras afinidades e especializações
a língua como um conjunto de regras de produção de frases. Foi graças ao desenvolvimento simultâneo dos métodos de
No entanto, formas e regras são menos de considerar, pen- militas outras ciências como a demografia, a tecnologia, a genéti-
sam EBoas e o seu discípulo E. Sapir, do que a influência de uma ca, a geografia, e graças aos pesquisadores de campo, que se
língua sobre o pensamento de um povo e sobre a sua visão do aperfeiçoaram os dispositivos de investigação (cartografia,
mundo. Desta corrente de antropologia linguística, conjugada estatística, fichas museogrãficas, pesquisas com o carbono 14).
com o estudo das condições sociais da variação das línguas e Nesta breve enumeração de algumas ciências afins, seria injusto
com as pesquisas centradas sobre as estratégias do discurso para omitir os contributos da arqueologia e da pré-história como ciên-
a produção de sentido, nascem as diversas tendências da etnolin- 'ias do passado. As técnicas de percussão na pedra lascada ou
guística contemporânea, que coloca as questões do relaciona- policia, os vestígios do homem de Neandertal ou de Cro-Magnon,
mento entre língua e cultura a partir de inquéritos de campo, dos "(I guerra do ~ogo", evocada por Y. Coppens, a olaria babilónica,

efeitos de sentido no discurso, estudados a partir de léxicos, clas- li moldagem dos objectos de bronze, o tesouro de Tutancámon, o
sificações, literatura oral (G. Calame Griaule), das relações entre cinzelado das jóias merovíngias, constituem outros tantos teste-
munhos da vida de sociedades que nos precederam.
* Publicado em 1984 por Edições 70 com o título Montaillou, Cátaros e
Católicos numa aldeia francesa -1294-1324; e que será ieeditado, numa edição
revista e aumentada, no início do ano 2000, com o título Montaillou, câtaros e Não falaremos dos contributos da psicologia e da psi-
católicos numa aldeia ocitana, de 1294 a J 324; com prefácio do Autor (N. do canálise, que projectam, cada uma delas, um tipo de iluminação
E.)

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INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA
CONCEllDS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

notável sobre os factos sociais. As relações interdisciplinares são


afastamento do sistema, que ajuda a comparar e a exercer a sua
tão necessárias à antropologia como as especializações:
faculdade crítica.
1) as especificações externas, nos confins de outras disciplinas:
etnobotânica, ernozoologia, ernomusicologia; , Mas a iniciação ao exótico pressupõe uma certa ascese para
viver em sociedades menos atulhadas do que as nossas de pro-
2) as especificações internas: antropologia política, econórníca,
religiosa ou do parentesco; duções materiais complexas, mas não isentas de perigo e de
desconforto: águas poluídas, paludismo, veículos atascados,
3) as especializações regionais: africanismo, 'oceanismo, ameri-
canismo, europeísmo ... ; roubo de objectos, animais perigosos, W.c. a céu abert~ ... , em-
bora as sociedades outrora tradicionais tenham assumido par-
4) as especializações de escola: em função de teorias e de temáti-
cialmente certas fachadas modernas. Seja qual for a exaltação de
cas privilegiadas em determinada época, em determinado país
(Vd. capítulo 2). um regresso provisório a uma forma mais rudimentar de existê~-
cia, existe incómodo no abandono dos artifícios e na renúncia
aos atributos materiais da nossa civilização.
O que se pode tornar mais pesado de assumir na aventura
li - A ARTE E O MÉTODO etnológica no estrangeiro é ser visto como objecto exótico, ce~-
';L~ tro de conversa e de cobiça; é estar só perante uma populaçao
a) A aventura etnológica IlO terreno que espia os nossos comportamentos, os object~s de que dispo-
mos, que significam riqueza para gente desprovida deles. Desde
Embora o etnólogo que trabalha na Europa não sinta o exílio
o primeiro contacto, pesa uma suspeição sobre todos os nossos
dos etnólogos de antigamente, não será descabido evocar a parte
actos. Donde vem ele? Que vem ele cá fazer? Será um infiel, que
de aventura que, durante muito tempo, as pesquisas no terreno
não acredita no Islão? Será que faz parte do aparelho adminis-
comportavam. Quer se leia Leiris, Lévi-Strauss, Balandier ou
trativo? Esta ~titude de suspeita é a resposta à atitude indiscreta
Condominas, as autobiografias do seu viver aventuroso, escritas
do etnólogo, que vem mendigar informações e, pela su.a s~ples
como contraponto aos trabalhos de pesquisa, mostram que o
presença, vem perturbar a vida de um grupo, com o objectivo .de
gosto pela amplidão, um fascínio de juventude, uma narrativa de
revelar depois a outros o que ali se passa. ..
I missionário, ou a existência de um tio madeireiro no Gabão
pôde servir de pretexto para a partida de espíritos amadurecidos'
A qualidade da observação participante é o mimetísmo:
fazer como os outros, para os levar a esquecer o mais possível a
~ã? necessariamente incomodados na sua própria sociedade, m~
I' ávidos, por vezes, de experiências desconcertantes e 'da reve-
sua diferença, ao mesmo tempo que se tenta comunicar, graças à
lação de si em circunstâncias inéditas. aquisição de elementos da língua da terra e à expressão de calor
humano. Partilhar a vida quotidiana do observado, os seus tra-
Sucedendo às curiosidades de Montaigne e de todos os
balhos, as suas conversas, as suas festas, impõe-se a todo aque~e
explora~ores, comerciantes e missionários, o desterro a que a
que deseja apreender a sua visão do universo, captar as moti-
etnologia pode conduzir implica a saída da sua própria civiliza-
vações dos seus actos e compreender o seu sistem~ de v~lor~s.
ção para enfrentar outras. O exílio cultural predispõe para a tole-
Esta atitude comporta riscos, por exemplo, o de, apos a pnmeira
râncía, para a rejeição de preconceitos ligados' ao seu meio, à sua
embriaguez, ser ridicularizado pelos novos amigos, o de perder:
Classe, à sua formação e liberta do etnocentrismo graças a um
confiança de uma facção da aldeia se conviver mais com um clã

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CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA


INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA

que a primeira julga inimigo, o de não conseguir recuo suficiente _ Pode tratar-se de observação interna (auto-observação ou
para compreender um grupo onde se incorporou demasiado. observação do seu próprio grupo), ou então de observação exter-
Apesar destes inconvenientes, todo o desterro é factor de nu (observação de um grupo exterior).
uma dinâmica pessoal e toda a incursão pelo exótico é instrutiva. _ A observação simples utiliza apenas os nossos sentidos; a
É claro que, sem que o deseje, o etnólogo, pela sua presença, observação equipada faz-se com gravador de som, máquina de
arrisca-se a modificar, pouco que seja, os factos que pretende filmar, fita-métrica, máquina fotográfica ...
abordar, mas o diálogo com pessoas diferentes também modifi- _ A observação contínua, por um investigador presente no
ca o próprio etnólogo. terreno durante várias semanas; difere da observação descon-
Pode acontecer que alguns, tendo enfatizado demasiado o tínua de uma reunião, de uma manifestação.
desterro, a expatriação, fiquem decepcionados por encontrar _ Eni~diversos graus, a observação pode ser descomprometi-
noutros sítios comportamentos semelhantes aos do cidadão da ou participativa, declarada ou clandestina. .
europeu e, nos campos africanos, os mesmos ciúmes, antagonis- _ Distinguem-se também a observação descritiva - relativa-
mos e deson~stidades que na sua própria terra. Por todo o lado, o mente passiva, própria do etnólogo - da observação que t~m
modernismo vive na vizi~ança da miséria e da vilania; e o ofí- como finalidade conseguir um diagnóstico para guiar a acçao,
cio de etnólogo pode ser-~xercido com a mesma paixão tanto na caso do agente de desenvolvimento local.
moderna urbanização como na aldeia mais remota. Sob a forma de conselhos ao observador, a seguir esquema-
tizamos as regras gerais da observação:
Tomemos como dado adquirido que o etnólogo não é teste- 1) Personalidade e competência do observador: a1é~ do ~gor e
munha de uma presença que se apaga, nem é só o recuperador da precisão requeridas para um trabalho exausb.~o, são-lhe
das coisas da vida rural: objectos da vida quotidiana, saberes, necessárias intuição, imaginação e uma certa empana, que con-
apetrechos e produtos do trabalho, habitats e sítios, arte popular, siste em tentar pensar e sentir como as pessoas que analisa.
música e história oral; ele pode, igualmente, aplicar a sua análise 2) Necessidade de aprendizagem: a aprendizagem incide ao
às coisas da vida moderna e urbana numa antropologia do tra- mesmo tempo sobre a capacidade para desvendar os problemas e
balho, da comida, do desporto, dos lazeres, etc. os comportamentos signjficativos, sobre a exactid~o das an?-
tações e sobre o desenvolvimento da memória. E nec~ssário
treinar-se no estabelecimento de categorias, no conhecimento
b) A observação participante dos sistemas de fichas e métodos de classificação. O etnólogo
Embora a observação não seja uma técnica de investigação deverá trabalhar previamente as técnicas de tomada de notas,
verdadeiramente codificável por ser artesanal, ela é, no entanto, para coligir o máxirno de elementos, distinguindo os factos
a mais exigente. A dificuldade resulta da posição do observador observados e as anotações por eles sugeridas.
num espaço determinado, com uma perspectiva limitada, tendo 3) Procedimento: depois de estar familiarizado com o objectivo
um determinado estatuto no sistema e sendo ele próprio nó de da pesquisa e de ter memorizado uma lista de controlo dos ele-
interacções. Algumas distinções e questionários clarificarão o mentos' que se propõe observar, tomará as suas ~otas, ~ue~ em
problema, embora todas estas formas de observação sejam uti- cima do acontecimento, na medida em que as circunstâncias o
lizadas pelo mesmo investigador num momento ou noutro. permitirem, quer o mais depressa possível, sem dar tempo a

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INTRODUÇÃO À ANTROPOLOGIA CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLoc:;rA

esquecer os pormenores e indicando as suas próprias acções de 2) Os informadores: se não forem impostos pelas circunstâncias
observador, que podem modificar a situação devido à sua pre- ou pela autoridade local, como frequentemente acontece, serão
sença. escolhidos em função do seu saber, identificando-se as suas
4) Conteúdo: as fichas deverão incluir a data, a hora, a duração pertenças e o ajustamento dos subgrupos de que fazem parte:
da observação, o local exacto (mapas, fotografias, esboços), as fanulia, profissão, idade, culto. É bom avaliá-los em função da
circunstâncias, as pessoas presentes e o seu papel, a aparelhagem diversidade das competências: ancião, chefe, dignitário reli-
e o equipamento utilizados, os aspectos eventualmente influentes gioso, professor primário, jovem aculturado dinâmico; em
do ambiente físico (temperatura, iluminação, ruídos). Conversas função da diversidade das origens: lugar, família, determinados
e diálogos deverão ser relatados ou resumidos em estilo directo. textos orais que podem ser propriedade de um recitador ou de um
Opiniões e observações serão anotadas à parte, no diário da feiticeiro;' em função da diversidade de caracteres: tagarela,
in vestigação. meditativo, falador de dia ou de noite.
5) Elaboração do relatório: logo que seja possível, faz-se a Há que desconfiar daquele que poderá mentir por venali-
revisão das notas tomadas, para eventualmente as corrigir ou dade, prazer, receio dos seus ou dos deuses. O não-letrado não
completar. Deverá proceder-se a uma classificação provisória está isento de respeito humano ou de tabus. O evoluído compõe
com numeração cronológica, marcação das rubricas, classifi- uma personagem e ignora com frequência as tradições ou
cação por sistemas de fichas manuseáveis. Obter-se-á assim uma despreza os irmãos. O desleixado dá informações aparentemente
documentação concreta sobre os aspectos de uma cultura de que coerentes, mas que podem ocultar o essencial.
se terão relatado os elementos imponderáveis e até anedóticos, 3) As informações: obtêm-se no momento da observação, por
que pertencem a um determinado contexto de expressão e que exemplo, da construção de uma casa, pedindo explicações, ou
permitem caracterizar uma tradição ou avaliar uma dinâmica. então através de conversas privadas, ou num círculo de discussão
com diversos interlocutores. Quer se trate de interrogatório
c) O inquérito por informadores metódico ou de conversa não dirigida, dever-se-á estar atento à
A observação não seria suficiente sem conversações junto ordenação dos discursos, aos interesses do inquirido, às suas
de informadores classificados. curiosidades e dissimulações, ao cotejo com aquilo que outros
disseram. As biografias de informadores, as genealogias, os
I) Os investigadores: o etnólogo pode certamente trabalhar so- orçamentos, os recenseamentos de bairros ... , .obtêm-se por
zinho, mas muitas vezes encontrará na proximidade do seu ter- inquérito, mas não se omitirá a recolha de conversas do dia-a-dia,
reno um linguista, um médico, um tecnólogo, um historiador das nem o registo de qualquer coisa que diga respeito à personali-
religiões, a quem poderá solicitar o alargamento da sua rede de dade do informador.
informação. Nos inquéritos de desenvolvimento, vários investi- 4) Os docwnentos: além dos documentos puramente verbais,
gadores trabalham com os mesmos objectivos com utensílios incluindo os léxicos, nomenclaturas, contas ... , o inquiridor uti-
dííercrucs - os do economista, os do agrónomo, os do sociólogo, liza os documentos materiais e todas as formas de gravação dos
por exemplo. lnquiridores locais, particularmente honestos, factos humanos, tais como desenhos, pinturas, objectos de arte
~(lrnplentes e perspicazes, conhecendo a língua do país, podem ou de culto, cartografia, fotografia, filme, canção, fita audio ou
ti svlr d intermediários com a população visada. video, seJ? esquecer a documentação escrita proveniente quer da

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INTRODUÇÃO À AN'I1WPOLOGIA CONCEITOS E MÉTODOS DA ANTROPOLOGIA

imprensa, quer de fontes privadas (biografias escritas, diários de de não interpretar o suficiente, de descrever simplesmente factos
missão, arquivos de organização ...), quer de fonte pública (minu- verificados empiricamente, sem referências às suas causas e
tas de julgamentos, arquivos nacionais, dados estatísticos de condições. Efectivamente, a interpretação etnológica deve ultra-
ordem fiscal. ou hospitalar, etc.). Resta-lhe produzir uma crítica passar, e até contradizer, a interpretação indígena, ou pelo
dos testemunhos e uma crítica da origem, da integridade e do sig- menos, reconstrui-Ia em outras redes semânticas.
nificado do documento, como fazem os historiadores .:
Nas obras de metodologia das ciências sociais poderá ·e) A monografia
encontrar-se um estudo das diferentes etapas do inquérito. A maior parte das vezes, uma investigação antropológica
Terminado este, importa proceder ao inventário e à' análise. termina pela redacção de uma monografia, em que se expõem os
seus resultados. Nascida em sociologia por meados do século
d) A interpretação dos resultados XIX, com os trabalhos de Le Play sobre os orçamentos fami-
Entre a utilização dos métodos e a exposição monográfica, liares e o operário europeu, este género foi adoptado pela maio-
situa-se um momento capital, o da interpretação dos resultados, ria dos antropólogos de campo, principalmente depois de, em
que supõe a construção de hipóteses e a administração da prova. 1874, ter sido elaborado pela Royal Antbropological Institute,
Não será demasiado i~istir na necessidade de uma bagagem em Notes and Queries on Anthropology [Notas e Inquéritos em
teórica e metodológica, se se quiser adaptar o próprio ponto de Antropologia], um modelo de inquérito que serviu de plano-
vista a outro diferente do do ingénuo que acredita na transparên- catálogo para cobrir sistematicamente e de forma ordenada o
cia do social e no saber imediato. Mesmo com uma longa for- conjunto das instituições e traços de cultura de uma sociedade
mação, o doutorando tropeça ao nível da explicação. Muitas particular: ambiente físico, língua, habitat, economia, organiza-
vezes contenta-se em confirmar as interpretações com exemplos ção social, organização política, leis, religião, folclore,
adequados, o que é tanto mais fácil quanto a hipótese e o exem- mudanças. Uma monografia total deste tipo pretende dizer tudo·
plo são vagos. Há hipóteses que funcionam sempre, porque elas sobre uma etnia ou sobre um grupo humano, ordenando os fac-
não ensinam grande coisa e são compatíveis com grande número tos desde o ecológico até ao espiritual. Mas acontece que pode
de dados; escapam a qualquer tentativa de prova (recurso à noção faltar-lhe uma problemática abertamente definida e, portanto,
de identidade, categoria do rito de passagem). A permanência de preocupações teóricas, o que bloqueia as categorias do obser-
um facto não constitui uma explicação, mas sim um facto a vador, em vez de analisar as categorias indígenas. Exige também
explicar. Um simbolismo universal não passa de uma muleta do investigador uma competência total, difícil de atingir. Às
para erguer, digamos, um enigma. As séries indefinidas de com- grandes monografias são preferidas, cada vez mais, quer as
parações nada provam, quando se tem por referência um conjun- monografias de aldeias, de bairro urbano, de farm1ias, servindo
to cultural homogéneo. Evidentemente, importa não ocultar os de modelos reduzidos de um grupo mais alargado (tais como
documentos incómodos e os casos de figura que invalidam a Chanzeaux, village d' Anjou, do Americano L. Wylie, ou Os
hipótese, embora se possa deixar um mínimo de resíduos por Filhos de Sanchez; de O. Lewis), quer as monografias orientadas
explicar. por um fenómeno que permite agrupar à sua volta os principais
Censura-se ao etnólogo ou de interpretar demasiado, de aspectos da vida de uma sociedade. Em Os Argonautas do
sobreinterpretar, de impor um sentido, ou então, pelo contrário, Pacifico Ocidental, Malinowski descreve-nos magistralmente a

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IN'f'RODUÇÃO À ANTROPOLOGIA

vida dos Trobriandeses da Oceânia em redor das expedições da


kula (de que voltaremos a falar). Evans-Pritchard centra a sua 2
pesquisa no pastoralismo dos Nueres do Sudão. Meillassoux AS CORRENTES FUNDAMENTAIS
descreve os Guros da Costa do Marfim a partir da sua antropolo-
gia económica. DO PENSAMENTO ETNOLÓGICO
Elabo~am-se também monografias temáticas, portanto, par-
ciais, que adquirem valor comparativo quando são colectivas e
quando analisam o mesmo fenómeno; por exemplo, o sacrifício
na África negra, entre povos diferentes, sob ângulos diferentes,
com diferentes investigadores, ainda que, por vezes, se corra o
risco de não conseguir uma perspectiva comum.
Uma monografia deve idealmente ser descritiva e explicati-
va, única e comparável, atingindo o singular e o geral. Embora,
durante muito tempo, se tenha dedicado a estudos monográficos
locais, a etnologia não.itstá vocacionada para o micro-social, uma o passado remoto da etnologia
vez que qualquer monografia deixa subentender ramificações,
relações globalizantes, relações sociais e culturais em vasta o facto de, há séculos, se manifestar uma certa curiosidade,
escala. As melhores monografias e os melhores trabalhos por vezes timidamente, valha a verdade, a respeito de sociedades
antropológicos serão dados a conhecer na breve história da dis- diferentes da nossa, tomada como ponto absoluto de referência,
ciplina apresentada no capítulo seguinte. não significa que a etnologia como ciência tenha o mesmo pas-
sado que a história escrita. Nascida, de facto, por volta de 1860,
a etnologia reivindica, no entanto, precursores e, sobretudo nos
últimos trinta anos, procura reconstruir o seu passado anterior,
Ao Grego Heródoto (séc.V a.C.) tem sido atribuído o papel
mítico de herói fundador da história, da geografia comparada e
daetnologia; após diversas viagens, demonstra que a organiza-
ção social dos Egípcios é entendida em ligação com a religião,
que a dos bárbaros (não-Gregos) é dominada pela instituição da
realeza, ao passo que os Gregos vivem em cidades governadas
pela lei. Da mesma forma que Tácito, na sua qualidade de histo-
riador romano (séc.I d.C.), fala dos costumes dos Germanos e
dos Anglos, diversos cronistas chineses, persas, indianos, mas
sobretudo árabes, relatam as suas viagens ao mundo medieval,
nomeadamente ao mundo africano no que respeita aos Árabes:
Gana do século XI (AI Bekri), Mali do século XIV (Ibn Battuta),
mundo islâmico do século XV (Ibn Khaldun).
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