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PRODUÇÃO TEXTUAL I

autora
MARIA BEATRIZ GAMEIRO CORDEIRO

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2015
Conselho editorial  luis claudio dallier; roberto paes; gladis linhares; karen
bortoloti; marilda franco de moura

Autor do original  maria beatriz gameiro cordeiro

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  gladis linhares

Coordenação de produção EaD  karen fernanda bortoloti

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  bfs media

Revisão linguística  amanda carla duarte aguiar

Imagem de capa  mizar219842013 | dreamstime.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

G184p Gameiro, Maria Beatriz


Produção textual I / Maria Beatriz Gameiro.
Rio de Janeiro : SESES, 2015.
232 p. : il.

isbn: 978-85-5548-055-3

1. Leitura e escrita. 2. Produção e compreensão. 3. Linguagem.


4. Comunicação. I. SESES. II. Estácio.
cdd 808

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 7

1. A Importância da Leitura e da Escrita e


a Atribuição de Sentidos ao Texto 9

Objetivos 10
1.1  A importância da leitura e da escrita 11
1.2  O texto e a construção de sentido. 14
1.2.1  A antecipação ou inferência. 17
1.2.2  Conhecimento prévio da leitura 18
1.2.3 Pressuposição 24
1.2.4 Inferências 24
1.2.5 Implicatura 25
1.3  O texto como discurso 26
1.4  Texto enunciado, enunciação 30
1.5  O discurso e os elementos que o compõe 30
1.6  A linguagem como fator primordial da
condição humana e o texto escrito 34
1.7  Textos orais e escritos 36
1.7.1  O continuum oral e escrito 38
1.8  A adequação vocabular 41
1.9  A variação linguística 44
Atividades 46
Reflexão 47
Referências bibliográficas 47
2. Os Níveis de Leitura de um Texto,
o Sincretismo da Linguagem e a Distinção
entre os Textos Literários e Utilitários. 49

Objetivos 50
2.1  Níveis de leitura de um texto 51
2.2  Estrutura profunda do texto 55
2.3  Temas e figuras: a depreensão do tema 58
2.4  Temas e figuras: o encadeamento de figuras 61
2.5  O Sincretismo de linguagens 64
2.5.1  A produção de sentidos em textos sincréticos. 70
2.5.2  Sentidos construídos no texto 72
2.5.3  Análise textual do texto sincrético 74
2.6  Considerações iniciais sobre a linguagem 76
2.6.1  Principais critérios para distinção entre
o texto literário e o não literário 85
2.6.2  As funções da linguagem 86
2.7  O texto e sua forma 93
Atividades 97
Reflexão 100
Referências bibliográficas 100

3. A Construção do Parágrafo e
Aspectos Normativos da Língua 103

Objetivos 104
3.1  O que é escrever bem? 105
3.2  A clareza 110
3.3  A presença do sujeito e a clareza 112
3.3.1  A estrutura da frase e a clareza 113
3.3.2  A clareza e a ordem direta 119
3.3.3  A concisão, a objetividade e a clareza 119
3.3.4  Informações secundárias e a clareza 122
3.3.5  O uso da vírgula e a clareza 125
3.3.6  A construção do parágrafo e a clareza 129
3.4  Breves aspectos da norma padrão que
conferem clareza e precisão ao texto: o uso da vírgula,
a regência, a crase e a acentuação. 132
3.4.1  As regras de pontuação 132
3.4.1.1  Regência Nominal 136
3.4.1.2  Regência verbal 136
3.4.2  A crase 140
3.5  Regras de acentuação 140
Atividades 142
Reflexão 143
Referências bibliográficas 144

4. Mecanismos de Textualização:
Coesão Textual e Coerência Textual 145

Objetivos 146
4.1  O conceito de coesão e coerência. 148
4.2  Tipos de coesão 152
4.2.1  A coesão referencial 152
4.2.2  Coesão Sequêncial 158
4.3  Quebra da coesão textual 160
4.4  Coerência textual 161
Atividades 167
Reflexão 167
Referências bibliográficas 168

5. As Tipologias Textuais: a Narração,


a Descrição e a Dissertação 169

Objetivos 170
5.1  Narrativa: um estudo teórico 171
5.2  Esquema narrativo 173
5.2.1  Fases da narrativa 174
5.2.1.1 Manipulação 174
5.2.1.2 Competência 175
5.2.1.3 Performance 175
5.2.1.4 Sanção 175
5.3 Narração 178
5.3.1  O narrador 179
5.3.2  Os personagens 180
5.3.3  O tempo, o espaço e o enredo na narrativa 183
5.4  Formas de discurso 183
5.5  Transportando-se para um lugar 186
5.5.1  Mas afinal, o que é descrever? 189
5.5.2  A descrição a serviço da caracterização dos personagens 191
5.5.3  Os tipos de descrições 193
5.5.3.1  Descrição dos personagens- uma questão de ponto de vist 193
5.5.3.2  A descrição objetiva 198
5.5.3.3  A descrição do lugar 201
5.6  O que é dissertar? 203
5.6.1  A dissertação nos gêneros textuais 207
5.6.2  Características do texto dissertativo. 211
5.6.3  A estrutura dissertativa 213
5.6.4  Estratégias de argumentação 216
5.6.5  A conclusão 219
5.6.6  A linguagem no texto dissertativo 220
Atividades 221
Reflexão 223
Referências bibliográficas 223

Gabarito 224
Prefácio
Prezados(as) alunos(as),
Provavelmente, você deve lembrar-se da emoção que sentiu quando apren-
deu a ler. É comumas crianças ficarem encantadas com a descoberta deste novo
mundo, neste momento, leem tudo o que podem: rótulos de embalagens, placas
de trânsito, cartazes, anúncios publicitários, nada escapa à leitura atenta do novo
leitor mirim.
Ficamos felizes quando vemos que o percentual de analfabetismo vem re-
duzindo no Brasil, pois sabemos que a leitura é uma das maneiras de inserir
o cidadão na sociedade. Entretanto, podemos fazer as seguintes indagações:
– Todas as pessoas que frequentaram a escola sabem de fato ler e escrever
adequadamente?
– Formamos leitores de fato proficientes, capazes de entenderem o que le-
ram e refletirem sobre o assunto?
– Como estamos lendo e escrevendo na era da informação e da tecnologia?
Pensem a respeito! Certamente, a resposta de todos será a mesma: a escola
não tem cumprido satisfatoriamente o compromisso de ensinar o aluno a com-
preender e produzir textos com proficiência. Mesmo com os oito anos de ensino
fundamental e três de ensino médio, o estudante não tem sido capaz de extrair
do texto os sentidos que os textos podem transmitir. Por isso, todos temos o com-
promisso de aprimorar o ensino da leitura e da escrita. Mas antes de ensinar, é
preciso que nós saibamos ler e escrever bem! Para ler e escrever bem, não há re-
ceitas prontas e simples, todavia, algumas reflexões teóricas aliadas à leitura e ao
exercício da escrita possibilitam o desenvolvimento de tais habilidades.
Os questionamentos propostos acima estão relacionados à maneira como
esse livro apresenta a leitura e produção de texto: sob o enfoque do letramento,
segundo o qual não basta apenas saber ler e escrever, mas sim saber fazer uso
da leitura e da escrita mediante as exigências que a sociedade impõe. Assim,
discutiremos alguns aspectos fundamentais relacionados à leitura para que
você também se torne um leitor e produtor de textos mais eficiente.
Você, estudante de Letras, que possivelmente atuará na formação de leito-
res, terá um papel de suma importância para o desenvolvimento de pessoas
letradas, sendo essencial que você também seja um bom leitor e produtor de
textos. Desta forma, o conteúdo desse livro constitui a base de todo o curso,
bem como de sua formação pessoal, estude-o com dedicação!

Bons estudos!

7
1
A Importância da
Leitura e da Escrita
e a Atribuição de
Sentidos ao Texto
Neste primeiro capítulo, trataremos de aspectos gerais relacionados à leitura e
à produção de textos, como por exemplo, o conceito de texto, o papel primor-
dial que a leitura e a escrita têm na sociedade moderna, a função destas ativi-
dades e os atos que as envolvem. Dessa forma, já podemos pensar na seguinte
questão: escrever e ler para quê?
Ler, interpretar, criticar e produzir textos é papel do ouvinte/falante do por-
tuguês, ou seja, de todos que estão inseridos no mundo das comunicações e
deles dependem. Tais atividades não são instintivas, mas apreendidas e, por
isso, devem ser trabalhadas e aperfeiçoadas ao longo de nossa vida.
Deve ser de conhecimento de todos que é por meio da língua que agimos
no mundo e, assim, o construímos, é por meio da língua e da literatura que
refletimos sobre a nossa realidade e tentamos modificá-la. Quem nunca sentiu
vontade de escrever algo acerca de um assunto ou sentimento?

OBJETIVOS
•  Discutir o conceito de texto;
•  Reconhecer o papel primordial da linguagem;
•  Ampliar o conceito de leitura;
•  Refletir sobre estratégias cognitivas;
•  Apresentar brevemente a adequação vocabular e a variação linguística;
•  Observar a importância da leitura na produção e compreensão.

10 • capítulo 1
1.1  A importância da leitura e da escrita
Escrever é uma das funções culturais e essenciais do comportamento humano,
desde a pré-história, o homem procurou comunicar-se; inicialmente, por meio
das pinturas rupestres, posteriormente, desenvolveu a escrita cuneiforme, os
hieróglifos e assim, foi surgindo a escrita tal qual a conhecemos hoje.
©© PEDRO ANTONIO SALAVERRÍA CALAHORRA | DREAMSTIME.COM

Pintura rupestre.

As pinturas rupestres traduzem o modo de vida de nossos ancestrais, forne-


cendo-nos informações sobre dança, práticas sexuais, caça e manifestações rituais
na pré-história. Atualmente, tais pinturas constituem um legado cultural. Pinilla,
Rigoni e Indiani, afirmam, a respeito da relação entre linguagem e cultura:

Também a linguagem é uma manifestação cultural – ao criar um novo sentido para


uma palavra, ao criar novas maneiras de expressar significados, ao traduzir em textos
suas experiências e o mundo em que vive, o homem está criando cultura. Nesse con-
texto mais amplo de construção da cultura, a linguagem é a faculdade que o homem
possui de poder comunicar seus pensamentos. (http://acd.ufrj.br/~pead/index.html)

capítulo 1 • 11
No entanto, escrever não é algo simples e natural como pode aparentar, a
atividade escrita exige não só conhecimento linguístico e capacidade cognitiva,
mas também conhecimento de mundo, sendo, portanto, uma atividade extre-
mamente complexa. Pressupõe ainda, o uso de objetos como signos e símbolos.
A leitura e a escrita estão presentes nas mais diferentes situações que vive-
mos, por isso, representam ferramentas fundamentais para a formação social e
cognitiva do sujeito, inserindo-o na cultura. Nessas situações, o ato de ler exige
habilidade, sensibilidade, que não é um dom inato, é uma qualidade que se
desenvolve a compreensão por meio de um processo, no qual a interpretação
do que é lido depende do texto verbal ou visual, do conhecimento prévio do lei-
tor para desvendar os implícitos encontrados e nas conexões intertextuais que
permitem a leitura significativa.
A leitura na universidade é enfatizada por Witter (1990) como um dos cami-
nhos que levam o aluno a ter acesso à produção científica e ressalta a importância
de uma leitura crítica por parte do estudante, de modo a recuperar a informação
acumulada historicamente, utilizando-a para uma prática profissional eficiente.
Além disso, Santos (1997) afirma que o curso de formação superior quase
sempre se constitui na última oportunidade formal de ensino que pode garan-
tir ao aluno o desenvolvimento do hábito de leitura e da compreensão de textos,
indispensáveis ao profissional que ela se propõe a formar.
Não ignoramos que ninguém chega à escrita sem antes ter passado pela lei-
tura. Independentemente da concepção de compreensão que cada leitor adota,
considera-se fundamental o diagnóstico do conhecimento prévio, a habilidade,
a sensibilidade, de reconhecer as inferências, a forma como está tecido o texto.
O homem ouve ou lê sobre determinado assunto, registra provisoriamente
em sua memória, escreve-o, registra-o fazendo uma marca que, quando lida,
trará de volta à mente o que registrou. Essa atividade contribui para o desenvol-
vimento cognitivo do homem, exercitando inclusive a percepção. “A linguagem
e a percepção estão tão ligadas que mesmo nas soluções de problemas não-ver-
bais, se o problema for resolvido sem a emissão de nenhum som, ainda assim
a linguagem tem papel no resultado” (Vygotsky, 1998b, p.43). Tal afirmação de
Vygotsky é importante porque nos revela duas concepções intrínsecas à leitura
e à produção, a primeira é que a linguagem não é constituída apenas de signos1
verbais, mas também de linguagem não verbal, que inclui gestos, imagens, ex-

1  Conceito criado pelo linguista Ferdinand Saussure (1975). O signo é formado pela união do sentido (conceito) e
da imagem acústica (forma), ou do significado e significante, que são interdependentes e inseparáveis.

12 • capítulo 1
pressões corporais, olhares, símbolos, dentre outras formas de comunicação.
Certamente, você já ouviu o sábio ditado popular, segundo o qual, uma imagem
vale mais do que mil palavras.
É, portanto, necessário saber interpretar, ler não somente textos escritos,
constituídos de linguagem verbal, mas também, a linguagem não verbal, per-
ceber a intenção do outro, ler sua face, seu gesto, enfim, ser perspicaz, desen-
volver o senso crítico.
A segunda implicação da afirmação de Vygotsky é que a leitura amplia nos-
sa visão de mundo, nossa percepção acerca dos fatos que nos rodeiam. Uma
pessoa que lê muito, além de provavelmente possuir grande conhecimento cul-
tural e em diversas áreas (história, geografia, ciências etc), consegue expressar-
se melhor e perceber o mundo que a rodeia, podendo, desta maneira, exercer
mais facilmente domínio sobre os demais. A argumentação e a persuasão são
aprimoradas por meio da leitura, sendo desta maneira, a língua um instrumen-
to de dominação. Conforme a metáfora da imagem abaixo demonstra, quem lê
tem o mundo em suas mãos:

Ferrari (2008) apresenta em artigo da Nova Escola o psicólogo bielo-russo


Lev Vygotsky, que abordou temas fundamentais da pedagogia e ficou muito conhecido
por atribuir um papel preponderante às relações sociais no processo de desenvolvi-
mento intelectual, tanto que, segundo Teresa Rego, professora de Educação da USP,
a corrente pedagógica que se originou de seu pensamento é chamada de sociocons-
trutivismo ou sociointeracionismo. Porém, seus estudos não se restringiram apenas à
pedagogia, o estudioso trabalhou também com a linguagem escrita.
©© DERRICK LIN | DREAMSTIME.COM

Pinilla, Rigoni e Indiani, em um site atualização


de conhecimentos sobre a língua da UFRJ, apresen-
tam uma definição de linguagem que pode ser rela-
cionada à discussão feita acima:

“O mundo em suas mãos”.

capítulo 1 • 13
CONEXÃO
Acesse o link disponibilizado abaixo que traz um breve resumo sobre a vida e obra de Vygot-
sky, ressaltando alguns dos principais aspectos dos seus estudos. Com uma linguagem clara
e sucinta, o artigo apresenta a você o universo do estudioso.
http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/lev-vygotsky-
teorico-423354.shtml

As relações que unem entre si vários homens, na realização de certas atividades


comuns, fundamentam-se no uso de diferentes linguagens, em que são utilizados
gestos, sinais de trânsito, símbolos matemáticos, lógicos ou químicos, pala-
vras, cores, configurações sonoras da arte musical etc. Desse modo, linguagem
pode ser concebida como uma atividade manifestativa do homem. Sempre que se atri-
bui um valor convencional a determinado sinal, existe linguagem. Devido à linguagem,
o homem acumula e transmite experiências, partilha-as com seus semelhantes, as-
segurando a continuidade do aprendizado, imprescindível à criação e manutenção da
cultura. (http://acd.ufrj.br/~pead/index.html)

As referidas autoras destacam que dentre os diversos tipos de linguagens


existentes, a de maior destaque é a língua2 verbal-escrita, pois apresenta grande
potencialidade criativa, constituindo uma atividade cultural e própria do ser
humano. Por isso, a linguagem permite formação de uma comunidade.
Finalizamos esta seção da unidade com a definição de linguagem, pois além
de sintetizar tal conceito, evidencia sua relação com a cultura.

1.2  O texto e a construção de sentido.


Para Platão e Fiorin (2006, p.5), a “capacidade de compreender textos com au-
tonomia é indispensável para acompanhar os constantes e rápidos avanços do
conhecimento”, e acrescentamos, da tecnologia e ciência. Uma das condições
básicas para que haja compreensão do texto é que o estudante decifre o sentido
de uma palavra, sendo que este depende da forma que ela é empregada, isto
2  Linguagem verbal: capacidade do homem de comunicar-se por meio de um sistema de signos vocais – a língua.
Caracteriza-se pelo seu funcionamento simbólico, pela sua organização articulada e pela produção de discursos a
partir de determinados conteúdos.

14 • capítulo 1
é, do contexto. Assim, o sentido de uma palavra não é único nem permanece
inalterável, mas é dado de acordo com o entorno3 situacional, com o contexto
histórico, podendo ainda ser alterado conforme o passar dos anos, o que a lin-
guística denomina “mudança semântica”.
Wedwood (2002) afirma que as pesquisas no campo semântico pareceram
indicar que as mudanças de significado podem ocorrer devido a diversos fa-
tores, porém, para ela, talvez um dos mais influentes seja o tempo. A título de
ilustração, a linguista cita como exemplo, a palavra carro, que remonta, através
do latim carrus, a um termo celta que designava uma carroça de quatro rodas.
Atualmente, tal termo nomeia um veículo muito diferente. A autora afirma ain-
da que algumas mudanças no significado das palavras são causadas por seu
uso habitual em contextos particulares, como a palavra veado, que adquiriu um
significado especializado, designando um tipo especial de animal selvagem, ao
passo que o latim venatu significasse “caça morta” de maneira geral.

Podemos afirmar, de uma maneira simplificada, que a semântica é uma área de estudos da
Linguística que analisa um meio de representação do sentido dos enunciados, isto é, ana-
lisa o significado das palavras e expressões. Acesse o link abaixo para ler a resenha sobre
Introdução à Semântica. Brincando com a Gramática, do linguista Rodolfo Ilari:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502002000200008&script=sci_arttext

Devemos ressaltar, por outro lado, que para que haja comunicação, isto é,
para que o receptor compreenda a informação que o emissor transmite, é ne-
cessário haver certa estabilidade no valor semântico dos termos. E este é for-
mado por elementos que foram sendo associados à palavra ao longo do tempo,
o que faz com que se considere o significado um sistema estável de generaliza-
ções, compartilhado por diferentes pessoas com níveis culturais, idade e sexo
diferentes.
Desta forma, o leitor proficiente deve ser capaz de interpretar o sentido de
uma palavra ou expressão de acordo com o contexto, conseguindo ainda reco-
nhecer os objetivos ou propósitos do autor do texto, não apenas literalmente, é
o que Koch e Elias (2009, p. 460) denominam conhecimento ilocucional. Há um
texto de Ignácio de Loyola Brandão intitulado “Para quem não dorme de touca”,
que relata, com muito bom humor, a história de um homem que interpretava
3  Entorno: envolve as circunstâncias da fala, como mímicas, gestos, expressões corporais e até mesmo o silêncio.

capítulo 1 • 15
tudo literalmente, ou “ao pé da letra”, como dizemos informalmente, assim,
podemos dizer que o protagonista não possuía conhecimento ilocucional.
Leiam um trecho deste texto e observem como o humor é construído ao evi-
denciar que “nem tudo o que está dito é o que está dito”.

Na infância, ele era diferente. Acreditava nos outros, acreditava nas coisas. Quando
alguém dizia:
— Por que não vai ver se estou na esquina?
Ele corria até a esquina, olhava, esperava um pouco (apud Koch, 2009, p. 47)

Além dos fatores acima citados, deve-se considerar a pluralidade de senti-


dos, ou seja, a possibilidade de se aceitar diferentes leituras e sentidos referen-
tes a um mesmo texto. A fim de exemplificar a pluralidade de leituras, Kock e
Elias (2009, p.21), apresentam uma tirinha que mostra três diferentes leituras
acerca do mesmo fato: o esmagamento de um mosquito na parede. Cada pes-
soa, dependendo de sua formação e vivência, lê ou interpreta o mesmo fato de
uma maneira diferente, veja:

Folha de S. Paulo, 11 ago. 1997.

Muitas pessoas acreditam que a pluralidade de sentidos seja equivalente a


aceitar qualquer leitura, contudo, não podemos fazer tal afirmação, a leitura
deve ser pautada em pistas linguísticas e sociais, não há total liberdade na com-
preensão textual.

16 • capítulo 1
CONEXÃO
Pesquise, por meio dos principais sites de busca e em bibliotecas e revistas especializadas, a
questão da pluralidade de sentidos, segundo a qual, não deve haver uma abordagem restriti-
va na interpretação textual, sem, contudo, permitir qualquer leitura.

A questão dos sentidos que o leitor confere às palavras pode estar relaciona-
da ao papel ativo do leitor na construção de sentidos do texto, que Koch (2009,
p.13) tanto enfatiza. Para ela, o leitor necessita utilizar estratégias, como a sele-
ção, antecipação, inferência, verificação, dentre outras, para que possa criticar,
argumentar, rechaçar ou concordar com o que lê. Passemos, desta maneira, a
averiguar algumas destas estratégias de leitura.

CONEXÃO
Para saber mais a respeito do entorno linguístico, isto é, as circunstâncias que envolvem a
fala, pesquise sobre este assunto em revistas especializadas em Linguística disponíveis na
Internet, como a revista do Gel (Estudos Linguísticos), a Filologia, a base Scielo, dentre ou-
tras. Um importante linguista que também abordou o tema foi Coseriu (1967), em Teoria da
Linguagem e Linguística Geral.

1.2.1  A antecipação ou inferência.

Antes mesmo de iniciar a leitura de um texto, é possível prever seu tema, formu-
lar hipóteses sobre sua tipologia, sobre a linguagem, dentre outros aspectos.
A antecipação ou inferência pode ocorrer com base em dados como: o nome
do autor, o meio de veiculação (jornal, revista, Internet etc.), o gênero textual,
o título do texto etc. Por exemplo, ao se deparar com um texto escrito por Luís
Fernando Veríssimo, o leitor pode prever que se tratará, muito provavelmente,
de um texto humorístico, como uma crônica, por exemplo. Poderá presumir,

capítulo 1 • 17
assim, que a linguagem será informal e desta forma, o leitor vai formulando
outras hipóteses que se confirmam ou não durante a leitura. Ao ler “Era uma
vez”, o receptor se lembrará dos contos de fadas tradicionais, que geralmen-
te começam desta forma, no entanto, é preciso continuar com a leitura para
certificar-se, pois, para tornar o texto mais expressivo, um autor pode iniciá-lo
da mesma maneira, mas pertencer a outro gênero textual. Veja: “Era uma vez,
um garoto que sonhava em ser músico, tinha 18 anos, gostava de esportes, mas
sua vida foi tirada por um acidente brutal”. Graças à repercussão na mídia de
um acidente envolvendo o filho de uma importante atriz brasileira, todos sa-
beriam, pelo contexto, que não se trata de um conto de fadas, mas sim de um
artigo de opinião ou uma notícia sobre o caso que chocou o país. Este exemplo
demonstra também a importância do conhecimento prévio e do conhecimento
de mundo que o leitor tem, pois se ele não está informado sobre os principais
acontecimentos da sociedade, apresentará dificuldades na atribuição de senti-
do ao texto. Discutiremos, agora, sobre o conhecimento prévio.

1.2.2  Conhecimento prévio da leitura

Tomar a leitura como um processo interativo significa considerá-la como ar-


ticulação de processos ascendente (bottom-up) e descendente (top-down) de
fluxo de informação (KATO, 1987, apud GERHARDT et al, 2009).
Gerhardt (2009, p.2) ressalta que nesta abordagem de leitura, o conheci-
mento prévio ganha destaque e, normalmente, é conceituado como o “conjun-
to de saberes que a pessoa traz como contribuição à sua própria leitura, e que
toma parte no movimento descendente de fluxo informativo”. Ainda segundo
a estudiosa, para os que pesquisam o conhecimento prévio, como Kleiman,
1995; Leffa, 1996; Koch e Elias, 2006, ele não deve ser considerado uma “massa
amorfa de informações”, mas sim um universo altamente estruturado de repre-
sentações baseadas em padrões de compreensão de mundo.
Kleiman (1995) afirma que, por intermédio do conhecimento prévio do lei-
tor, tornam-se viáveis as inferências que ele atribui a um texto para chegar à
sua compreensão. Entende-se por inferência aquilo que se usa para estabele-
cer uma relação, não explícita no texto, entre dois elementos (Koch & Travaglia,
1993, p. 70). Julgamos importante ressaltar que o texto não muda, mas o conhe-
cimento prévio do leitor altera sua compreensão ao buscar na memória (reposi-
tório de conhecimento) informações para realizar a compreensão.

18 • capítulo 1
Koch e Elias (2008, p.39) ressaltam que as estratégias socio-cognitivas mobi-
lizam vários tipos de conhecimento armazenados na memória do leitor, dentre
os quais, destaca: o conhecimento linguístico, o de mundo ou enciclopédico e
o interacional.
O conhecimento linguístico refere-se ao conhecimento da língua, à pronún-
cia, ao léxico e às regras e ao funcionamento da própria língua, abrangendo o
domínio gramatical e lexical. Observe, por exemplo, o trecho abaixo extraído
de uma peça jurídica, se o leitor não for advogado e, portanto, não dominar os
termos técnicos da área, certamente terá dificuldades para compreensão:

“B”, qualificada na inicial, interpôs estes EMBARGOS à EXECUÇÃO DE TÍTULO EX-


TRAJUDICIAL que lhe é movida por “A”, qualificada nos autos, visando a desconstitui-
ção do título exequendo. A embargante alega, em resumo, que a embargada não está
legalmente representada e não possui titulo hábil para a Execução, porque não com-
provou a entrega e o recebimento da mercadoria nem a recusa do aceite; o título não
é líquido porque não corresponde ao débito real; a duplicata foi efetivamente liquidada
http://www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es/eSSe1/2005-eSSe1-W.R.MAGRI.pdf

CONEXÃO
O texto acima faz parte de uma análise semiótica de textos jurídicos, confira no seguinte
endereço: http://www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es/eSSe1/2005-eSSe1-W.R.MAGRI.pdf

O conhecimento de mundo ou enciclopédico relaciona-se “a conhecimen-


tos gerais sobre o mundo – uma espécie de thesaurus mental – bem como a
conhecimentos alusivos a vivências pessoais e eventos espácio-temporalmente
situados, permitindo a produção de sentidos” (KOCH e ELIAS, 2008, p.44), por
isso, desempenha papel importante na coerência. Observemos o texto abaixo:
O conhecimento de mundo ou enciclopédico relaciona-se “a conhecimen-
tos gerais sobre o mundo – uma espécie de thesaurus mental – bem como a
conhecimentos alusivos a vivências pessoais e eventos espácio-temporalmente
situados, permitindo a produção de sentidos” (KOCH e ELIAS, 2008, p.44), por
isso, desempenha papel importante na coerência. Observemos o texto aseguir:

capítulo 1 • 19
“e pensar que Arruda governou
o centro político do país...”.

Se o leitor não tiver conhecimento de mundo de quem é José Arruda, se não


reconhecer a imagem e associá-la à capital, não atribuirá sentido ao que lê, daí
a suma importância de o leitor manter-se atualizado, buscar várias informa-
ções, pois a leitura não é essencial apenas para melhorar a escrita, como tam-
bém a compreensão. Este conhecimento prévio é essencial para a compreensão
do texto.
O conhecimento interacional, segundo Koch e Elias (2008, p. 45), abrange
as “formas de interação por meio da linguagem e engloba os conhecimentos:
ilocucional, comunicacional, metacomunicativo e superestrutural”. Para as au-
toras, o conhecimento ilocucional permite ao leitor entender os objetivos ou
propósitos pretendidos pelo produtor do texto, em uma dada situação intera-
cional. Ressaltamos que dentre as habilidades de leitura, a que exige o reco-
nhecimento da intenção do autor –objetivo do texto– é uma das mais cobradas
em importantes avaliações do país, como o Saresp, Sistema de Avaliação de

20 • capítulo 1
Rendimento do Estado de São Paulo. Reproduzimos abaixo uma questão da re-
ferida prova para que você, futuro docente, veja como tal habilidade é cobrada
dos estudantes. A questão que segue, retirada da prova de Língua Portuguesa
de 2008, foi baseada em um trecho da Introdução do livro: Redação empresa-
rial: escrevendo com sucesso na era da globalização. Observe:
Em relação ao trecho lido, é correto afirmar que o gênero e a finalidade do
texto são respectivamente:
a) ata; registrar os acontecimentos de uma reunião convocada pela
Agência Centro.
b) relatório; narrar os fatos ocorridos em um treinamento de Power Point.
c) crônica; contar a história dos quatro funcionários que compareceram
ao treinamento.
d) comunicado; convidar formalmente os funcionários a participar do
treinamento.
Habilidade - Identificar a finalidade de um texto, seu gênero e assunto
principal.

Disponível em: http://saresp.fde.sp.gov.br/2008/pdf/conheca%20o%20sa-


resp.pdf, acesso: novembro de 2009. Acesse o site para ler o texto na íntegra.

O conhecimento comunicacional diz respeito a três fatores:


a) ao grau de informação necessário para que os interlocutores reconstru-
am o objetivo do texto;
b) ao uso que se faz da língua (variante linguística escolhida);
c) à adequação do gênero textual à situação comunicativa (KOCH e ELIAS,
2008, p. 45).
Desta forma, se um falante produz um texto para se comunicar com seu
superior usando gírias, termos chulos e um vocabulário informal, não estará
sendo competente, demonstrando falta de conhecimento comunicacional. A
escolha do gênero que condiz com o tema é outro aspecto fundamental para a
produção de textos. O poema, por exemplo, não é o gênero ideal para transmis-
são de informações, mas sim um artigo, uma notícia, dentre outros.

capítulo 1 • 21
©© OTNAYDUR / DREAMSTIME.COM

Refletir sobre a escolha do gênero.

Imagine um advogado referindo-se de uma maneira muito informal a um


juiz, além de marcar a inadequação do uso da língua em relação aos papéis dos
interlocutores, demonstra também uso incorreto da variedade da língua, ao
propósito comunicacional, como a imagem a seguir demonstra:

Ôh, seu juiz, o senhor pode


fazer o favor
di mi iscutá agora?

22 • capítulo 1
Koch e Elias (2008, p.52) definem o conhecimento metacomunicativo como
aquele que:

permite ao locutor assegurar a compreensão do texto e conseguir a aceitação pelo


parceiro dos objetivos com o que é produzido. Para tanto, utiliza-se de vários tipos de
ações linguísticas configuradas no texto por meio de sinais de articulação ou apoios
textuais [...].

O conhecimento comunicativo fica muito evidente em propagandas, que


“usam e abusam” dos recursos linguísticos para atrair o consumidor e destacar
as qualidades do produto anunciado. Assim, o realce de um termo, comentá-
rios sobre o próprio texto, enfim, atividades de construção textual. Também as
histórias em quadrinhos fazem grande uso dos recursos metacognitivos.
Por fim, o conhecimento superestrutural é também denominado “conheci-
mento sobre gêneros textuais”, é ele que possibilita que o leitor considere um
texto pertencente a determinado gênero. Para tanto, é necessário que o recep-
tor do texto saiba a estrutura, a linguagem e o conteúdo típico dos principais gê-
neros, como por exemplo, ao ler “Sagitário: Fique atento, se algum turrão pas-
sar pelo seu caminho, não se desgaste, hoje não é um bom dia para discussões”,
sabemos tratar-se de um horóscopo, publicado normalmente em jornais, re-
vistas femininas, cujo objetivo é aconselhar as pessoas sobre amor, dinheiro,
trabalho etc. São marcas linguísticas deste gênero: verbos no imperativo (fique,
não se desgaste), a interpelação ao leitor por meio do pronome de tratamento
você, dentre outros recursos, que juntamente com seu propósito comunicativo,
possibilitam sua classificação.
Os conjuntos de conhecimentos supracitados receberam também as se-
guintes denominações: “frames”, “modelos episódicos”, ou “modelos de si-
tuação”, pois, segundo Koch e Elias (2008, p.56), são socioculturalmente de-
terminados e vivencialmente adquiridos, revelando como agir em situações
particulares e realizar atividades específicas. Todos esses conhecimentos ex-
tralinguísticos são relevantes, pois, em alguns textos, ou melhor, na maioria
deles, nem todas as informações são transmitidas explicitamente (PLATÃO e
FIORIN, 2006, p.306).

capítulo 1 • 23
1.2.3  Pressuposição

Uma leitura eficiente precisa captar tanto as informações explícitas quanto as


implícitas, assim, um leitor perspicaz é capaz de ler nas entrelinhas (PLATÃO
e FIORIN, 2006, p.306). A pressuposição, que ocorre na maioria dos textos, é o
conteúdo que fica à margem da discussão, isto é, também definida como con-
teúdo implícito. Tomemos como exemplo a frase “Carlos continua dando che-
ques sem fundo”, dela, pressupõe-se que ele já deu cheques sem fundo antes.
Em “Renato parou de fumar”, a pressuposição é que ele fumava antes. É impor-
tante observar que a pressuposição é marcada linguisticamente pelos verbos
parar de, passar a, ficar, começar a, passar a, deixar de, continuar, permanecer,
tornar-se, na maioria, verbos que indicam mudança ou permanência de estado.
Estes elementos linguísticos introdutores de pressupostos são chamados por
Koch (2004) de marcadores de pressuposição.

1.2.4  Inferências

Para Koch (2004), quando não há marcadores de pressuposição, isto é, quan-


do há ausência de qualquer tipo de marca linguística, ocorrem subtendidos,
pressuposições em sentido amplo ou, simplesmente, inferências. Se dissermos
“Maria comprou um Volvo zero km”, podemos inferir, deduzir que Maria seja
rica ou que possua dinheiro suficiente para adquirir o carro.
Os subentendidos são informações que se apresentam por raciocínios, sem
marcas linguísticas, mensagens claras no momento da produção do texto. Ao
ler uma frase como “Roberta foi ao teatro, assistiu à peça sobre o renascimen-
to”, o ouvinte/leitor recupera os conhecimentos referentes ao ato de ir ao te-
atro: no teatro existem cadeiras numeradas, palco, bilheteria; há uma pessoa
que vende bilhetes, outra que os encaminha ao lugar reservado; a sala fica em
silêncio durante a apresentação, as pessoas aplaudem os atores etc. Enfim, isto
não precisa ser dito explicitamente. Caso contrário, teríamos que fornecer to-
das estas informações sempre que necessário. Daí a importância das inferên-
cias na interação verbal. Se quiséssemos dizer que Roberta não conseguiu ver a
peça até o final, isso teria que ser explicitado, porque, normalmente, a pessoa
assiste à peça toda.

24 • capítulo 1
1.2.5  Implicatura

É um sentido que atribuímos a um enunciado depois de constatar que seu sen-


tido literal é irrelevante ao contexto. Se perguntarmos: Qual é a função de Luís
na empresa? E ouvimos “Luís é o filho do chefe”, podemos depreender dessa
resposta que Luís não tem função nenhuma, não faz nada ou não precisa traba-
lhar. Ao dizermos: “Chegou a onça”, em uma empresa, deduzimos que alguém
bravo, severo tenha chegado, provavelmente um superior, um chefe.
As implicaturas e as pressuposições não fazem parte do conteúdo explícito.
A diferença entre elas está no fato de que, com respeito às pressuposições, as
frases possuem uma estrutura com elementos que permitem compreendê-la;
enquanto as implicaturas dependem do conhecimento do contexto, compar-
tilhado pelo falante/ouvinte. As pressuposições fazem parte do sentido literal
das frases, enquanto as implicaturas são estranhas a ele.
Podemos distinguir num raciocínio dois tipos de proposições:
•  As proposições das quais partimos (o antecedente ou premissas).
•  A proposição final a que chegamos (a consequente ou conclusão).

Exemplo I:
Os vertebrados são animais (premissa)
O javali é vertebrado (premissa)
Logo, o javali é animal (conclusão).

Exemplo II:
– O ferro dilata com o calor; a prata dilata com o calor; o cobre dilata com o
calor; O ouro dilata com o calor.
– O ferro, a prata, o cobre e o ouro são metais.
Conclusão:
– Os metais dilatam com o calor.
A partir desses exemplos, podemos verificar que o sujeito falante realiza in-
ferências ligadas à sua própria experiência, o que leva a respostas subjetivas.

capítulo 1 • 25
1.3  O texto como discurso
Como já foi dito, dominar a leitura, saber reconhecer, perceber o sentido do
texto e produzir textos escritos são condições básicas para o sujeito enfrentar
o desafio no mundo e, assim, o construir. Os textos como ação do sujeito têm
uma significação e levam a mudanças em nosso conhecimento (crenças, atitu-
des, valores etc.). Pode-se dizer que poderíamos argumentar, iniciar guerras ou
contribuir para transformações educacionais, sociais, empresariais, políticas
por meio da produção de textos orais ou escritos. No entanto, os textos preci-
sam ser compreendidos e qualificados, assim, podemos fazer a seguinte per-
gunta: o que é texto afinal?
Já se tem estudado a origem de algumas palavras usadas ao longo dos sé-
culos. Palavras que vão tomando sentido diferente do que tiveram na origem e
que, às vezes, passam a ter outros significados.
De acordo com documentos históricos, a origem da palavra “texto” é muito
antiga e começa, no século XII, com o significado “livro de evangelho”. No sécu-
lo XIII, passa, então, a designar qualquer texto, sagrado ou profano. Do mesmo
modo, no meio do século XII, temos a palavra interpretar, assim como a palavra
interpretação. Cabe notar que a interpretação era única e cabia apenas ao mes-
tre fazê-la e jamais podia ser contestada. O sujeito leitor “o intérprete” somente
aparece no século XIV.
No latim, passou a designar também texto textum (tecido), quaestio (per-
gunta simples), “disputatio” (questões alternativas) e “determinatio” (resposta
objetiva). Porque, segundo alguns estudiosos, esses exercícios de interpretação
apenas possibilita um modo de relação do sujeito com o signo, com a escrita,
mas não modifica o conhecimento.
Assim se desencadeiam novos estudos sobre a linguagem e começa, então,
a aparecer um sujeito explícito somente no século XIX. “Século do individualis-
mo triunfante” (ORLANDI, 1988, p.48).
Essas definições, com o tempo, passam a ter novos significados. O tex-
to é uma unidade básica de organização e transmissão de ideias, conceitos e in-
formações. Seja uma escultura, um quadro, um símbolo, um sinal de trânsito,
uma foto, um filme, uma novela etc. Todos esses objetos de análise geram uma
produção de sentido.

26 • capítulo 1
O cartum acima é constituído apenas de linguagem não verbal- imagens-
mas é capaz de transmitir informação. A leitura que se faz dele dependerá,
como vimos acima, do conhecimento de mundo, mas fica clara a intenção do

capítulo 1 • 27
autor em ironizar, satirizar um importante problema que assola nosso país: as-
saltos, roubos, violência, falta de respeito ao próximo, etc. Ao observarmos o
segundo quadrinho, esperamos que o personagem salvasse a pessoa que estava
se afogando, e, no entanto, a surpresa e o humor vieram no terceiro quadrinho,
em que o personagem, ao invés de salvar a vítima, acabou lesando-a.
Para tanto, o texto deve ser definido “como gerador de sentido”. Uma pala-
vra ou frase não possui independência e não podem ser analisadas isoladamen-
te, pois uma parte liga-se a outra e fora do contexto a palavra pode fugir de seu
sentido pretendido pelo autor. Um texto sempre revela perspectivas (a visão de
mundo) que o autor constroi da realidade e são dotados de intencionalidade.
Traz consigo valores, ideologias, cultura, formação histórica e social. Pelo fato
de ser um produto de uma época e de um lugar, deixa marcas de tempo e espaço
determinado. Sendo assim, nenhum texto é isolado, ele sempre dialoga com
outros textos e com o contexto. Eni Orlandi afirma que “para se compreender
um discurso é importante se perguntar: o que não está querendo dizer ao dizer
isto?”.
O texto a ser examinado é um poema de Newton de Lucca

Provérbio revisto
Newton de Lucca

A voz do povo
©© WIKIMEDIA
é a voz de Deus...
Que povo?
Que Deus?
O que beijou Stálin?
O que delirou com Hitler?
Ou o que soltou Barrabás?
(será que Deus já não teria se
enforcado em suas próprias
cordas vocais?)

Quando se leem apenas os versos “a voz do povo é a voz de Deus...” teremos


um provérbio que afirma a supremacia dos desígnios do povo, visto que há uma
identidade entre este e Deus. Porém, ao continuar lendo o poema, percebemos
que o autor elaborou um falso axioma, ao qual o eu-lírico opõe uma série de

28 • capítulo 1
situações históricas, como o fato bíblico em que o povo pediu a libertação de
Barrabás no lugar de Jesus Cristo, o que, pela lógica do provérbio, teria tido o
aval de Deus. A glorificação de Hitler – alemão – e de Stálin – soviético – que
tiveram apoio popular e foram responsáveis pela morte de milhões de pessoas
também teriam o consentimento de Deus se “a voz do povo é a voz de Deus”. Na
verdade, o autor do poema está questionando este ditado: Estes fatos tiveram
o aval divino? A voz do povo é a voz de Deus? Portanto, o título insinua que o
enunciador está querendo que o leitor faça uma revisão do provérbio. Isolando
também os dois últimos versos não teríamos um todo de sentido. Analisemos,
pois, o sentido do texto produzido em sua totalidade. Como seria interpretado?
Com quais textos este dialoga?
No poema, os fatos constituintes dos textos Bíblia e provérbio dialogam em
contextos temporais (Europa anos 30 e 40). Por outro lado, se o leitor desconhe-
cesse os personagens Hitler e Stálin ou Barrabás, a leitura, a partir do título, não
se completaria, é preciso ter um conhecimento prévio do contexto, que é a base
do enunciado.
Todo texto, além de dialogar com diferentes vozes por meio de vários meca-
nismos linguísticos, dialoga também com os dizeres da sociedade, na medida
em que o enunciatário, ao depreender os sentidos, julga-os em função de seu
repertório e conhecimento adquirido. Assim, a leitura inicial desses versos le-
varia a pressupor que o autor estivesse decretando a morte de Deus. Fica, então,
projetado que o sujeito leitor deva ler e observar todas as marcas e recorrências
daquilo que é dito ou que tenha um modo próprio de dizer o mundo. Essas re-
corrências encontradas no texto não são aleatórias, elas inter-relacionam para
determinar a organização do poema, daí depreender o sentido produzido.
Após essa reflexão, pode-se concluir que "o texto hoje é considerado" naqui-
lo que é dito; no como é dito; no porquê do dito; na aparência; na imanência;
como signo; como História [...]. Texto é entendido como discurso, se observa-
do como enunciado em relação com o sujeito da enunciação. (DISCINI, 2005,
p.13). O texto é produzido por um sujeito que pertence a um determinado gru-
po social num espaço e tempo determinado, expõe suas ideias, insatisfações,
medos e suas expectativas. Todo texto tem caráter histórico, revelando seus
ideais numa determinada época.

capítulo 1 • 29
1.4  Texto enunciado, enunciação
O texto é, em princípio, um signo, possui um significado, um conteúdo veicula-
do por meio de uma expressão, que pode ser verbal, visual, entre outros tipos.
No texto verbal escrito, temos as ideias expressas em frases encadeadas em pa-
rágrafos, os quais, por sua vez, também se encadeiam entre si. No texto visual,
temos as ideias expressas num conjunto formado pelas combinações de cores,
distribuição de formas, jogos de linhas e volumes, unidades todas encadeadas
no espaço da tela, do papel, da madeira etc. Um único texto pode apresentar
a união de vários tipos de expressão, como a verbal e a visual. O texto é dito
sincrético, se juntar em si dois meios diferentes de expressão. O anúncio pu-
blicitário, que na maioria das vezes, une o verbal para construir sentido, é um
exemplo de texto sincrético.
O texto, seja verbal, visual ou sincrético, não pode, entretanto, ser visto
apenas como signo, união de um veículo significante e de um conteúdo signi-
ficado. Primeiro, porque tanto o conteúdo como a expressão, constituintes de
qualquer significado, supõe cada qual relações internas de sentido. Segundo,
porque o próprio texto deve ser considerado situação de comunicação, o que
supõe um enunciado em relação com uma enunciação. A enunciação, sempre
pressuposta ao enunciado, compreende o sujeito do dizer, que se biparte entre
enunciador, projeção do autor, e enunciatário, projeção do leitor.
Compete ao analista descrever e explicar os mecanismos de construção do
sentido, observando as relações dadas no plano do o conteúdo e no plano da
expressão dos textos, bem como as relações entre um plano e outro. Também
compete ao analista observar as relações entre enunciado e enunciação, para
recuperar não apenas o que o texto diz, mas o porquê e o como do ato de dizer.
(DISCINI, 2005)

1.5  O discurso e os elementos que o compõe

Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova


luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.
(Fernando Pessoa, em “O Eu Profundo”)

30 • capítulo 1
O tempo todo, estamos pronunciando sobre fatos que ouvimos ou que pre-
senciamos em nosso meio, com a intenção de produzir efeitos sobre os inter-
locutores que também produzem efeitos sobre nós. Renovamos sempre os co-
nhecimentos, passamos a nos conhecer melhor e entramos em conflito. Todas
essas manifestações concretizam-se por meio da linguagem. Os nossos discur-
sos em conflito com o discurso do outro têm sua base nos textos.
Para apreender um texto, é preciso analisar as suas condições de produção
e, com sensibilidade, perceber os mecanismos estruturadores do texto, orga-
nização sintática, as figuras, os temas, produtores de significação. “Em todos
há um olhar analítico diversificado, semântico e sintático, mas esse olhar não
pressupõe a obrigatoriedade de uma disposição linear e ordenada de sentidos,
pois se norteia pelo paralelismo do plano de expressão (significante) e do plano
de conteúdo (significado)” (Vasconcelos, 2003).
A fim de exemplificar toda a discussão que fizemos até agora sobre conheci-
mento prévio na leitura, inferência, a noção de texto e discurso, apresentamos
a análise de Tecendo a manhã, com base em Platão e Fiorin (2006).
A análise do texto deve começar pelo título, que nos remete a termos implí-
citos. Leia-o cuidadosamente.

Tecendo a manhã
João Cabral de Melo Neto

Um galo sozinho não tece a manhã:


ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele


e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,


se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

capítulo 1 • 31
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão”.

MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas.


Rio de Janeiro: Olympio, 1979.

Se lermos este poema apenas uma vez, sem ter em mente que se trata de
um texto literário, que trabalha mais com a sugestão do que a informação, que
presa mais a forma do que o conteúdo, é muito provável que não atribuamos
sentido algum a ele. Toda vez que formos interpretar um texto, devemos seguir
os seguintes passos, de acordo com Platão e Fiorin (2005):

•  Nenhum texto é um evento isolado, ao contrário, é marcado pelo momen-


to histórico; por isso, pesquise as condições de produção.
•  Há mecanismos de produção de sentido, mas não há receita.
•  Cada texto é uma realidade única: exploram-se: elementos fônicos, oposi-
ções temporais, similaridade...
•  Quem analisa um texto, deve debruçar-se sobre ele, lê-lo muitas vezes,
apreender seus mecanismos estruturadores e ir pacientemente organizando o
sentido que dele vai emergindo.
•  O leitor precisa ter sensibilidade para encontrar a chave do texto, ou seja,
seu princípio estruturador básico: ora a organização sintática, ora a cobertura
figurativa etc.

Em posse de tais informações, voltemos ao poema, releia-o antes de come-


çar esta análise. O autor João Cabral de Melo Neto utiliza-se de recursos, como
o vocabulário adequado, elementos fônicos, figuras de linguagem, oposições
temporais para veicular o seu discurso num encontro do plano da expressão
com o plano do conteúdo para construir um todo significativo.

Lembram-se das aulas de introdução à Linguística? Pois é, o conceito de signo linguís-


tico proposto por Saussure é fundamental, pois a toda hora, no curso de Letras, se faz
referência a ele. A definição de plano de conteúdo e plano da expressão também está
ligada a tal termo. A expressão constitui a parte material do texto, é um significante visual,

32 • capítulo 1
as formas que constituem o texto, já o conteúdo diz respeito ao significado veiculado
por esta expressão. Assim, se tomarmos um poema concreto como o de Augusto de
Campos – rosa para gertrude-, teremos, no plano da expressão, um formato circular,
semelhante ao miolo de uma flor, e esta forma, esta expressão, pode transmitir, no pla-
no do conteúdo, o significado de amor, de ciclo, de beleza etc. Pesquise nos principais
sites de busca o poema que você o encontrará facilmente.

Os autores explicam que a expressão, isto é, na forma como Tecendo a ma-


nhã, a primeira e segunda orações são coordenadas entre si, sugerindo que as
afirmativas por elas expressas são categóricas. A terceira e a décima orações es-
tão estreitamente interligadas, podendo ser divididas em três blocos, os dois
primeiros apresentam uma estrutura sintática perfeitamente simétrica, su-
gerindo um resultado da soma de esforços de pessoas. O entrelaçamento de
orações simula a articulação dos fios que se cruzam para formar um tecido. O
caráter proverbial da primeira estrofe: “uma andorinha só não faz verão”, reve-
la que tudo resulta da ação coletiva. As frases, com vários elementos implíci-
tos vão se avolumando, ganhando corpo com a força solidária. Observe que há
muitos termos implícitos, como os que estão entre parênteses: “(ele precisará)
de um (galo) que apanhe esse grito que ele (emitiu) e o lance a outro”. A alter-
nância entre singular e plural na palavra galo(s) demonstra que a criação não
exclui a participação dos outros, mesmo havendo um indivíduo agente imedia-
to no processo. Após esta belíssima leitura que Platão e Fiorin (2005) fizeram
do texto, ficou fácil compreendê-lo e perceber que João Cabral de Melo Neto
criou uma metáfora para a criação literária, os galos seriam os escritores, que
em conjunto a outras pessoas e a outros textos, vão tecendo o texto (a manhã), e
assim, como um balão, este texto, este produto literário, “voa” mundo afora, o
balão voa ao sabor do vento.
Com a interpretação acima, você deve estar muito intrigado, pensando
como fará para conseguir realizar uma compreensão como esta. Não se deses-
pere! Muitos conceitos e definições, como por exemplo, a conotação, as figuras
de linguagem, dentre outros, serão trabalhados, para que ao longo da discipli-
na, você tenha recursos para compreender bem um texto. Mas deve ter percebi-
do também que a leitura e o conhecimento de mundo são essenciais para uma
boa compreensão. Portanto, leiam sempre!

capítulo 1 • 33
1.6  A linguagem como fator primordial da
condição humana e o texto escrito

Sautchuk (2011) explica que o homem não vive sem a comunicação e que comu-
nicar-se é “pôr em comum” alguma ideia, sentimento, opinião, enfim, dividir
algo. Ressalta que há maneiras básicas de se comunicar: por meio da fala (co-
municação verbal oral), por meio da escrita (comunicação verbal escrita) ou por
meio de gestos, imagens, cores, símbolos (comunicação não verbal). Embora a
sociedade moderna atribua grande importância à escrita, não há uma forma
mais importante ou superior que a outra, mas XXX ressalta:

Quando se pensa nas sociedades atuais, não há como negar o lugar privilegiado ocu-
pado pela escrita, a ponto de colocar em condição de inferioridade os sujeitos que a
ela não têm acesso. Conforme argumenta Fischer (2009, p.110), "a capacidade de ler
e escrever se tornou, no mundo moderno, a segunda capacidade mais importante, per-
dendo apenas para a aquisição da própria língua". Isso, segundo o autor, torna a escrita
indispensável à humanidade. (DUTRA, J. A. S.; ROMAN, E. C. 2012, p.47)

A escrita é posterior à fala, mas mesmo sendo criada tardiamente, “permeia


hoje quase todas as práticas sociais dos povos em que penetrou” (MARCUSCHI,
L. A, 2010, p. 19). O autor acentua que o letramento constitui uma prática social
ligada à escrita e em uma sociedade como a nossa,

[...] a escrita, enquanto manifestação formal dos diversos tipos de letramento, é mais
do que uma tecnologia. Ela se tornou um bem social indispensável para enfrentar o dia
a dia, seja nos centros urbanos ou na zona rural. Neste sentido, pode ser vista como
essencial à própria sobrevivência no mundo moderno. Não por virtudes que lhe são
imanentes, mas pela forma como se impôs e a violência com que penetrou nas socie-
dades modernas e impregnou as culturas de um modo geral. Por isso, friso que ela se
tornou indispensável, ou seja, sua prática e avaliação social a elevaram um status mais
alto, chegando a simbolizar educação, desenvolvimento e poder.(MARCUSCHI, L. A,
2010, p. 17-18)

34 • capítulo 1
Deve-se deixar claro que Marcuschi não defende a superioridade da escrita, e
sim, combate esse mito, apenas explica que a sociedade valoriza muito a escrita.
Sautchuk (2011) explica que em uma sociedade como a nossa, em que é im-
perativo comunicar-se, é importante produzir bons textos, sejam eles orais ou
escritos. Muitos pensam que o texto é apenas o que se encontra nos livros, mas
há diversos textos que circulam na sociedade, tais como: um bilhete, uma tese
de doutorado, uma receita médica, uma notícia de jornal, um horóscopo, um
e-mail, uma carta, um currículo, uma conferência, uma entrevista, um telefone-
ma etc. Dessa forma, o que define um texto não é sua extensão ou o local onde é
veiculado, como livro ou dicionário, por exemplo, mas sim sua função comunica-
tiva. Uma palavra isolada não constitui um texto, mas em uma situação, adquire
sentido. Como exemplo, podemos citar a palavra “avalanche”, que, em situação
de dicionário, é apenas uma palavra, mas se uma pessoa que se encontra em uma
estação de esqui, olha para o alto e grita “avalanche”, nesse caso, essa simples
palavra passa a ser um texto, pois tem sentido, significa: “Corram, perigo!”
©© MIKLE15 | DREAMSTIME.COM

CONEXÃO
O conceito de texto é bastante discutido pela Linguística Textual.
Acesse o link a seguir e leia algumas considerações sobre o texto:
http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao21/artigosic/ic04.pdf

capítulo 1 • 35
1.7  Textos orais e escritos
Antes de apresentar as diferenças entre os textos orais e escritos, é conveniente
tecer algumas considerações, como, por exemplo, o fato de que nenhuma mo-
dalidade é superior a outra, a escrita não e superior à fala por ser valorizada so-
cialmente e a fala não é superior à escrita por ser algo natural e constitutivo do
ser humano. O bebê inicia o aprendizado da fala, segundo Marcuschi, desde o
primeiro sorriso que a mãe lhe dá. Já a escrita necessita de uma sistematização
para ser adquirida.
Outro aspecto relevante a ser destacado é que a escrita não pode ser vista
como uma representação da fala, visto que não é capaz de reproduzir boa parte
dos fenômenos da oralidade, tais como: os gestos, os movimentos do corpo e
dos olhos, o volume da voz etc. da mesma forma, não há, na fala, elementos
típicos da escrita, como o tamanho e o tipo das letras, cores e formatos, elemen-
tos pictóricos. Marcuschi enfatiza: “Oralidade e escrita são práticas e usos da
língua com características próprias, mas não suficientemente opostas para ca-
racterizar dois sistemas linguísticos nem uma dicotomia.” (MARCUSCHI 2010,
p. 17). Nas duas modalidades, falada e escrita, há textos coesos e coerentes,
ambas permitem a elaboração de raciocínios lógicos, abstratos, exposições for-
mais e informais, variações estilísticas, sociais, dialetais etc. explica o estudio-
so. Ele ainda esclarece que as limitações e os alcances de cada uma decorrem
do meio básico de sua realização: som de um lado e grafia de outro, mesmo não
se limitando a essas características apenas. Fica comprovado, portanto, que efi-
cácia comunicativa e potencial cognitivo não distinguem oralidade de escrita.
Marcuschi questiona os usos e as finalidades das duas modalidades tanto em
ambientes de trabalho como em familiares;em casa, usa-se a escrita e a leitura
para escrever listas, cartas pessoais, recados, pagar contas, ouvir músicas, re-
gistrar ocorrências etc. E no trabalho, a escrita possui finalidades específicas
dependendo da profissão, o que é certo é que quase sempre há uma “secretá-
ria que sabe escrever”. Essas informações evidenciam que tanto a fala como a
escrita são atividades comunicativas e práticas sociais situadas e em ambas,
há um uso real da língua. Os usuários da língua falam e escrevem por meio de
gêneros textuais em situações concretas.

36 • capítulo 1
©© GUILLERMO DAMBROSIO | DREAMSTIME.COM

A fala apresenta os gestos, tom de voz, expressões faciais e outros elementos


ausentes na escrita.
©© ALEXANDRMITIUC | DREAMSTIME.COM

Os tamanhos e tipos das letras, as cores e elementos pictóricos estão ausen-


tes na fala.

capítulo 1 • 37
Finalizamos essa seção, antes de apresentar o continuum entre fala e escri-
ta, transcrevendo as palavras do supracitado autor:

Na sociedade atual, tanto a oralidade quanto a escrita são imprescindíveis. Trata-se,


pois, de não confundir seus papéis e seus contextos de uso, e de não discriminar seus
usuários. Por exemplo, há quem equipare a alfabetização (domínio ativo da escrita e da
leitura) com desenvolvimento. Outros sugerem que a entrada da escrita representa a
entrada do raciocínio lógico e abstrato. Ambas as teses estão cheias de equívocos e
não passam de mitos. (MARCUSCHI 2010, p. 22)

1.7.1  O continuum oral e escrito

As primeiras tendências consideravam a modalidade escrita e falada como dico-


tômicas, como se fossem realidades opostas, como a tabela abaixo demonstra:

FALA ESCRITA
contextualizada descontextualizada
dependente V autônoma
implícita E explícita
redundante R condensada
não-planejada S planejada
imprecisa U precisa
não-normatizada S normatizada
fragmentada completa (p. 27)

Tabela 1.1 – Dicotomias estritas. Fonte: MARCUSCHI, L. A., 2010, p. 27.

Essa visão dicotômica é equivocada porque considera apenas as condições


empíricas de uso da língua e não características dos textos produzidos, e entre-
tanto, é a visão predominante nos manuais escolares, reduzindo o ensino de
língua ao ensino de regras gramaticais. Um texto falado como um discurso de
um presidente, embora oral, é planejado, explícito, completo etc., fato suficien-
te para demonstrar a limitação da visão dicotômica.

38 • capítulo 1
Contudo, pesquisas mais recentes tratam suas relações dentro de um contí-
nuo, evidenciando que a visão dicotômica constitui um equívoco. Assim, a ora-
lidade, segundo Marcuschi, constitui uma prática social interativa para fins co-
municativos apresentada sob diversos gêneros, desde os menos formais, como
conversas espontâneas, telefonemas pessoais, até os mais formais, como, con-
ferências, discursos etc. Da mesma forma, a escrita também se apresenta sob
diversos gêneros, dos menos formais aos mais formais.
Esse é um dos fatores que nos levam a concordar com a visão se Marcuschi,
segundo a qual: “fala e escrita não são propriamente dois dialetos, mas sim
duas modalidades de uso da língua” (2010, p. 32). Portanto, a fala não apresen-
ta características intrínsecas negativas e a escrita também não tem as proprie-
dades intrínsecas privilegiadas.
©© SIMONEMILLWARD | DREAMSTIME.COM

Concordamos com Marcuschi ao defender que: “as diferenças entre fala e escri-
ta se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e
não na relação dicotômica de dois polos opostos” (MARCUSCHI, L. A., 2010, p. 37).

capítulo 1 • 39
Gêneros da escrita,
GE1, GE2... GEn Escrita

GE!

FALA GF1
Gêneros da escrita,
GE1, GE2... GEn

Fonte: MARCUSCHI, L. A., 2010, p. 38.

O gráfico apresenta os dois domínios linguísticos (fala e escrita) em que se


realizam os diversos gêneros textuais (G), assim, há os gêneros típicos da fala
(GF1), como, por exemplo, uma conversa espontânea, e os gêneros típicos da
escrita (GE1), como por exemplo, uma conferência em um congresso acadêmi-
co. Na realidade, existe uma série de textos produzidos em condições naturais
e espontâneas nos mais diversos domínios discursivos das duas modalidades e
os textos se entrecruzam, como é o caso dos noticiários televisivos, que embora
sejam transmitidos oralmente, são escritos previamente. Assim, trata-se de um
gênero cujo meio de produção é sonoro, mas a concepção discursiva é a escrita.
Já uma conversa de MSN, WhatsApp, sala de bate-papo tem como meio de pro-
dução o gráfico, mas a concepção discursiva é o oral.
Com base na concepção discursiva e no meio de produção, Marcuschi apre-
senta o seguinte Tabela:

GÊNEROS TEXTUAIS MEIO DE PRODUÇÃO CONCEPÇÃO DISCURSIVA DOMÍNIO


Sonoros Gráficos Oral Escrita
Conversação x x A
Artigo científico x x B
Notícia de TV x x C
Entrevista publica na veja x x B

Fonte: MARCUSCHI, L. A., 2010, p. 40.

40 • capítulo 1
A produção do domínio “a” − conversação espontânea − é protótipo da ora-
lidade por ser um texto tipicamente oral, visto que é sonoro e oral. A produção
do domínio “b” – entrevista publicada na revista Veja – não é um protótipo nem
da escrita nem da oralidade por ser um texto misto, já que é gráfico apesar de
oral. A produção do domínio “c” – notíciade TV – também não é um protótipo,
é misto, uma vez que é sonoro apesar de escrito. A produção do domínio “d” –
artigo científico − é protótipo da escrita, uma vez que é um texto tipicamente
escrito, pois é gráfico e escrito.
Finalizamos essa seção com as próprias palavras de Marcuschi (2010, p. 42):

O contínuo de gêneros textuais distingue e correlaciona os textos de cada modalidade


(fala e escrita) quanto às estratégias de formulação que determinam o contínuo das
características que produzem as variações das estruturas textuais-discursivas, sele-
ções lexicais, estilo, grau de formalidade, etc. que se dão num contínuo de variações,
surgindo daí semelhanças e diferenças ao longo de contínuos sobrepostos.

Assim, comparando uma carta pessoal, em estilo descontraído com uma


narrativa espontânea oral, notar-se-á poucas diferenças. As variações na fala e
na escrita dependerão do uso e não do sistema.

1.8  A adequação vocabular


Pode-se estabelecer uma relação entre a adequação vocabular e o contínuo en-
tre oral e escrito, considerando-se para quem se escreve ou fala, e em que situ-
ação se escreve ou fala.

Adequação da linguagem: refere-se à relação do texto ao seu contexto. A forma como


o texto (oral ou escrito) é construído depende dos interlocutores, da relação entre am-
bos, do espaço e do tempo da enunciação, da intenção comunicativa, do mundo com-
partilhado, do papel e do lugar social. Por exemplo, em uma entrevista de emprego,
deve-se usar a formalidade, a impessoalidade e a norma padrão. Já entre amigos, em
que o grau de intimidade com os interlocutores é alto, a informalidade é aceitável.

capítulo 1 • 41
Em uma conversa entre amigos no aplicativo WhatsApp, por exemplo, mes-
mo sendo uma modalidade escrita, a concepção oral aí implícita e a relação de
proximidade entre os interlocutores podem permitir o uso de um vocabulário
mais informal, descontraído, repleto de gírias, como por exemplo:
– E aí, cara, beleza? Tá de pé nosso jogo amanhã?
– Fala, mano, tá sim, cara! Fechô!!
Contudo, ainda nessa mesma concepção discursiva, se o usuário da língua
dirigir-se a alguém com quem não tenha muita intimidade, como, por exem-
plo, a um médico, não será adequado tratá-lo dessa mesma forma; uma conver-
sa com um tratamento mais formal seria o adequado:
– Bom dia, doutor Silva, gostaria de confirmar o nome do remédio que recei-
tou para o meu filho.
Assim, para usar a linguagem adequada, além de conhecer a língua,
suas regras, é preciso conhecer os elementos da comunicação e refletir sobre
eles antes de produzir o texto, verificando se a linguagem, a sintaxe e o estilo
estão adequados ao receptor, ao gênero textual e à situação. Veja, a seguir, os
elementos da comunicação:

Emissor: aquele que produz a mensagem (fala ou escreve);


Receptor: aquele que recebe a mensagem;
Mensagem: o conjunto de informações transmitidas;
Código: elementos linguísticos e não linguísticos utilizados na transmissão de uma men-
sagem. Canal de Comunicação: meio que veicula a mensagem, como: TV, rádio, jornal...
Contexto: a situação a que a mensagem se refere, também chamado de referente.

Imagine que um presidente da república, em um pronunciamento oficial, ini-


cie seu discurso dizendo: “Fala, galerinha!”, claro que não estaria adequado. Mas
se um professor de ensino fundamental, por exemplo, quiser dirigir-se aos alunos
dessa forma para aproximar sua linguagem da deles, não haverá uma inadequação.
Textos que priorizam a clareza, a concisão, a objetividade, como alguns gê-
neros jornalísticos, da comunicação organizacional e outros devem priorizar a
precisão vocabular, usando, sempre que possível, vocábulos com sentidos es-
pecíficos. É preciso cautela na escolha dos termos abstratos, pois podem ter
sua significação ampliada ou distorcida pelo leitor, como, por exemplo, o ter-
mo reacionário, que pode ser entendido simplesmente como “retrógrado” ou
como “um opositor às transformações sociais, agindo como opositor ao pro-
gresso”. O sentido do termo dependerá não só do foco e do conhecimento de

42 • capítulo 1
mundo do leitor, como também do contexto, por isso, é preciso escolher com
cautela os termos a serem usados em um texto, pois há a plurissignificação.
O uso adequado do código é demasiado importante, pois transmite credi-
bilidade e confiança ao leitor. Uma pessoa pública que comete muitos desvios
gramaticais, como os de ortografia, concordância e regência, normalmente tor-
na-se alvo de críticas, já que em situações formais, espera-se o uso da norma pa-
drão. Por outro lado, o uso da norma culta em situações informais pode parecer
pedantismo e não é adequado. Imagine o estranhamento que causará se um
estudante dirigir-se a um colega de classe da seguinte forma: “Por obséquio,
empreste-me o lápis! Far-te-ei uma bela ilustração!”
Os falantes são muito criativos e inovam muito o sistema linguístico, des-
sa forma, a todo ano, aparecem gírias, expressões da moda e vocábulos que
em textos referenciais e organizacionais devem ser evitados, mas em poesias,
músicas e outros gêneros em que há maior liberdade de expressão são usados
com frequência. A partir do substantivo “diva” (mulher formosa, deusa), alguns
segmentos da sociedade passaram a usar o neologismo “divar”, usado para ex-
pressar quando alguém faz algo digno de uma diva. Imagine, agora, um padre
usando tal termo em uma cerimônia religiosa!
Agora, idealize um artigo de opinião em um jornal em que o autor discute
as ideias de um grande pensador e refere-se a elas utilizando o verbo “dizer”:
“Gandhi dizia que aquele não é capaz de governar a si mesmo, não é capaz de
governar os outros”. Se o escritor quiser ser mais formal, deve utilizar outros
verbos, como: “declarar, anunciar, proferir, asseverar” etc. A escolha lexical
adequada depende do conhecimento que o emissor tem do vocabulário de sua
língua. Estima-se que quem lê mais, quem possui um nível de escolaridade alto
tenha um vocabulário mais amplo. Portanto, uma boa dica é usar dicionários
no momento de escrever um texto, pesquisando por termos sinônimos, mais
cultos ou mais populares, de acordo com o público-alvo, o gênero e o contexto.
Em estudo sobre o ensino do léxico e a adequação vocabular, Oliveira cons-
tata que, além das falhas gramaticais nas redações de vestibular e em trabalhos
de calouros universitários, há uma frequência considerável de improbidade vo-
cabular, ou seja, o emprego de palavras em contextos inadequados. Tal impro-
bidade decorre, segundo o autor, dos seguintes fatores4:

4  O texto de Oliveira encontra-se disponível no link: http://www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga19/


matraga19a03.pdf

capítulo 1 • 43
a) Substituição de vocábulos em expressões idiomáticas;
b) Criação de neologismos comunicacionalmente inadequados;
c) Incompatibilidade entre a palavra escolhida e o tema ou o gênero do
texto;
d) Conflito entre a natureza pejorativa ou meliorativa das escolhas lexicais
e a orientação argumentativa do texto;
e) Conflito semântico (incompatibilidade semântica entre vocábulos no
interior da sentença);
f) Inexatidão com redundância;
g) Emprego de vocabulário informal em situações formais e vice-versa;
h) Emprego de palavras de baixa densidade semântica, gerando vaguidade;
i) Confusão entre parônimos;

Ilustramos, a seguir,dois casos apresentamos pelo estudioso:


a) “O nome desse hotel se chama Intercontinental”. Nesse exemplo, ve-
rifica-se uma inexatidão decorrente de redundância, pois conceito do termo
“nome” já está contido no verbo “chamar”. O emissor teria duas opções para
adequar sua linguagem valendo-se da propriedade vocabular: O nome desse
hotel é Intercontinental” ou: “O hotel chama-se Intercontinental”.
b) “Costurando arestas”. Nesse caso, houve uma substituição do vocábulo
“aparar” na expressão idiomática. Ao substituir equivocadamente “aparar” por
“costurar”, o emissor alterou o sentido da expressão idiomática.

1.9  A variação linguística


Atualmente, já é difundida a ideia de que a variação linguística é intrínseca à
língua, conforme vimos, ao tratar da adequação vocabular, há a possibilidade
de o falante expressar-se de diversas maneiras. A grande questão é escolher os
termos adequados.
A Sociolinguística vem demonstrando que a língua varia em diferentes ní-
veis em decorrência de fatores geográficos, culturais, econômicos, situacionais
etc. Muito se avançou com as contribuições dessa área no combate ao precon-
ceito linguístico, pois nenhum fator torna uma variedade melhor ou mais boni-
ta que a outra, são apenas diferentes.

44 • capítulo 1
/r/ retroflexo, como o falar caipira, /r/chiado do
carioca etc. Um carioca, por exemplo, pronuncia
uma frase como: “Meu Deus! É mesmp? Que
VARIAÇÃO FONOLÓGICA (PRONÚNCIA) lindo!São muito bons!” da seguinte forma: “Meu
Deush! É mêishmo? Que liundo! São muito
boinsh!”
“Os trabalhadores reivindicaram...”; “Os trabalha-
VARIAÇÃO SINTÁTICA dôreivindicô”...
“peixeira = faca; guri =criança; aipim=macaxeira”
VARIAÇÃO LEXICAL (VOCABULÁRIO) etc.
carioca: “keimar a largada”: sair antes para
VARIAÇÃO SEMÂNTICA (SENTIDO) almoçar;
“pegajoso e peguento” (mesmo sentido: sufixos
VARIAÇÃO MORFOLÓGICA diferentes).

As variações nos diferentes níveis da linguagem decorrem dos fatores:


a) geográfico - responsável pela diversidade do dizer causada pelos dife-
rentes locais de origem dos interlocutores, como o fato de eles terem sempre
sido urbanos, de serem rurbanos ou falantes de dado ambiente geográfico pre-
sentes temporariamente em outro;
b) sociocultural - responsável pelas discrepâncias sociais, econômicas,
educacionais e culturais entre os interlocutores, inseridos em situações de in-
teração assimétrica, dadas por relações diversas (de poder, de escolaridade, de
condições socioeconômicas, de profissões, de gênero, de idade, de condições
de vida na comunidade discursiva etc.);
c) situacional ou estilístico - pragmática - responsável pelos fatores pro-
venientes das condições nas quais a conversação se desenvolve, como o local,
o grau de intimidade, o tema das conversas, o grau de envolvimento emocional
dos interlocutores etc., que afetam o monitoramento de sua linguagem;
d) modal - responsável pelo envolvimento dos interlocutores em práticas
de interação oral, que, na escrita, inclui nos textos traços da oralidade, instau-
rando hibridismos entre a fala e a escrita;
e) gíria (de grupo e comum) - responsável tanto pelo enquadramento dos
interlocutores em universos de dados grupos sociais (dos marginais, dos ho-
mossexuais, dos surfistas), detentores de códigos criptológicos, quanto por seu
enquadramento em situações espontâneas de comunicação, às quais o uso gí-
rio (gíria comum) é afeito.
Conhecer a variação linguística é essencial não só para a leitura e compre-
ensão de textos, mas também para a produção, pois, não há certo ou errado e

capítulo 1 • 45
sim, adequado ou não ao contexto. A variação pode servir também como recur-
so expressivo e estilístico na produção de textos e confere verossimilhança ao
que se diz, como faz, por exemplo, Rachel de Queiroz no trecho abaixo. Para
demonstrar a realidade do nordestino, usa elementos léxicos-semânticos que
se referem à realidade vivida por eles:

Claro que esses três são apenas os termos essenciais. O alpendre é o abrigo, a rede
é o repouso, o açude a garantia e água e vida. [...] À mão direita da casa o roçado – só
uma garra de terra com quatro pés de milho e feijão para se ter o que comer verde. O
chiqueiro da criação, com a sua dúzia de cabeças, entre cabras e ovelhas. Talvez uma
vaca, dando leite. [...] (QUEIROZ, R., 2004, p. 104.)

ATIVIDADES
01. Com base no conhecimento adquirido sobre adequação vocabular, analise as três frases
a seguir, escritas para uma notícia de jornal, e assinale a alternativa em que o termo destaca-
do foi usado indevidamente nesse contexto. Justifique sua resposta5:
a) O gorila fugiu da jaula. O animal, no entanto, já foi capturado pelos seguranças do
zoológico.
b) O gorila fugiu da jaula. A fera, no entanto, já foi capturado pelos seguranças do zoológico.
c) O gorila fugiu da jaula. O primata, no entanto, já foi capturado pelos seguranças do
zoológico.

02. Há inadequação vocabular nas frases a seguir? Justifique e corrija, se houver.


a) "Talvez pelo fato de os pais possuírem um maior diálogo com os filhos nos dias atuais,
tal tabu foi sendo deixado de lado”.

03. Você deve ter percebido a importância da leitura e notado que ela não é uma tarefa
simples, visto que há muitos “não ditos” nos textos. Com base nessa afirmação, especifique
os Pressupostos e os subentendidos na manchete: “Globo muda programação para atender
a nova classe C.”

5  Os exemplos das atividades foram retirados do artigo disponível em: http://www.pgletras.uerj.br/matraga/


matraga19/matraga19a03.pdf

46 • capítulo 1
REFLEXÃO
Ao longo do capítulo, vimos que o ato de ler não é algo mecânico e simples, ao contrário, é
uma tarefa que exige esforço, dedicação e estratégias. Ficou claro também que a compreen-
são depende muito do conhecimento de mundo e da vivência do leitor, que tem papel ativo
na interpretação, pois quase todos os textos trazem conteúdos implícitos, que não estão
formalmente expressos, cabendo a nós inferir seu sentido. Portanto, é impossível dissociar a
compreensão da leitura. Quem lê pouco, não é informado, tem mais dificuldade para compre-
ender um texto e consequentemente, para produzi-lo também. Por isso, leia tudo que puder!
Discutimos também a importância da escrita, algumas das diferenças entre a fala e a escrita
e adequação vocabular. Você deve ter percebido que é preciso pensar muito edesenvolver
estratégias cognitivas para ler e escrever bem.

LEITURA
Para ampliar as discussões realizadas neste capítulo, observar como o texto pode ser explo-
rado, sem perder de vista a perspectiva da leitura como construção de sentidos, leia o pri-
meiro capítulo do livro indicado abaixo. Ele aborda questões essenciais para a compreensão,
dando-nos lições, como, por exemplo, nunca podemos analisar partes isoladas do texto, e sim
sua totalidade. Confira:
A lição 20” trata das informações implícitas, também estudadas aqui, desta forma, desen-
volva seus estudos e leia mais este capítulo, você irá divertir-se.
PLATÃO & FIORIN. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2005.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DISCINI, Norma. Comunicação nos textos. São Paulo: Contexto, 2005
DUTRA, Jaqueline Aparecida dos Santos and ROMAN, Elódia Constantino. Um olhar sobre a
linguagem escrita e os processos de referenciacão em cartas notariais. Ling. (dis)curso [online].
2012, vol.12, n.1 [cited 2015-01-26], pp. 47-70 .Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S1518-76322012000100003&lng=en&nrm=iso>. ISSN 1518-7632.
http://dx.doi.org/10.1590/S1518-76322012000100003.

capítulo 1 • 47
FERRARI, M. Lev Vygotsky - O teórico do ensino como processo social. Nova Escola online. Edição
especial, 10/2008. Disponível em: http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/lev-
vygotsky-teorico-423354.shtml(acesso: 29 jun. de 2010).
GERHARDT et al. A cognição situada e o conhecimento prévio em leitura e ensino. In: Ciências &
Cognição, vol. 14 (2): 74-91, 2009.
KATO, M. O aprendizado da leitura. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
KLEIMAN, A. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas: Pontes, 1995.
KOCH, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem. São Paulo: Contexto, 2004, p.29-65.
(disponível em: http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:M3-keD2QqIMJ:www.
fortium.com.br/faculdadefortium.com.br/scheyla_brito/material/Operadores%2520argumentativos.doc
+pressuposi%C3%A7%C3%A3o+lingu%C3%ADstica&cd=4&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br acesso: 20
julho de 2010)
KOCH e ELIAS, Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2008.
MARCUSCHI, L. A Da fala para a escrita: Atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2010.
MELO NETO, João Cabral de. Poesias completas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979
PLATÃO & FIORIN. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2005
_________. Lições de texto: leitura e redação.São Paulo: Ática, 2006
QUEIROZ, R.. Um alpendre, uma rede, um açude. Melhores crônicas. São Paulo: Global, 2004, p. 104.
SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral, Trad de A. Chelini, José P. Paes e I. Blikstein. São Paulo:
Cultrix, 1975.
SAUTCHUK, I. Perca o medo de escrever: da frase ao texto. São Paulo: Saraiva, 2011.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
WEEDWOOD, B. História concisa da linguística. São Paulo: Parábola, 2002.

48 • capítulo 1
2
Os Níveis de Leitura
de um Texto, o
Sincretismo da
Linguagem e a
Distinção Entre os
Textos Literários e
Utilitários.
No capítulo de abertura deste material, realizamos uma discussão sobre aspec-
tos essenciais que envolvem o processo de leitura e escrita, a saber: o conheci-
mento prévio, a inferência, a noção de texto e discurso. Explorou-se de forma
breve a adequação da linguagem e a variação linguística, além das diferenças
entre fala e escrita. Todos estes fatores fazem parte da competência comunica-
tiva e leitora dos usuários da língua. Essa competência diz respeito à capacida-
de de produzir e compreender textos em situações de comunicações variadas.
O autor do texto, para criar um determinado efeito de sentido, pode escolher
temas, figuras, vocabulários, dentro de um determinado contexto. Faz parte
ainda da competência leitora, a compreensão da estrutura profunda do texto,
sendo que para alcançá-la o leitor necessita observar os níveis de leitura do tex-
to. Para ampliar a concepção de texto, serão abordadas as diferenças entre o
texto literário e o não literário, bem como as características do texto sincrético.

OBJETIVOS
•  Distinguir o nível superficial e o profundo de um texto;
•  Analisar os níveis de leitura de um texto;
•  Compreender as relações sentido estabelecidas na estrutura profunda do texto;
•  Depreender temas e figuras;
•  Conhecer e refletir sobre o sincretismo da linguagem;
•  Analisar a composição de um texto sincrético;
•  Compreender as relações entre imagem e sentido;
•  Apreender as características do texto literário e do utilitário.

50 • capítulo 2
2.1  Níveis de leitura de um texto
Os níveis de leitura do texto serão apresentados com base em duas unidades
das “lições” de Platão e Fiorin (2000), pois entendemos que os autores abordam
a questão de uma maneira muito didática e clara.
Vejamos, à semelhança do que fizeram os supracitados autores, as duas
imagens abaixo demonstrando que subjacente à pintura, existe toda uma geo-
metria. Da mesma forma, subjacente à materialidade do texto, depreendemos
seu sentido profundo:
©© WIKIMEDIA

Santíssima Trindade, de Andrej Rublev. Estrutura Geométrica.

Platão e Fiorin (2000, p.35) afirmam que na diversidade de assuntos da su-


perfície do texto, isto é, no que está escrito explicitamente, é preciso encontrar
uma unidade implícita. Para exemplificar, citam a fábula, em que surgem per-
sonagens diferentes, lugares, tempos e ações diversas na estrutura1 superficial,
e em uma primeira leitura, fica mais difícil encontrar um ponto convergente
entre todos estes elementos.
O grande desafio do leitor é, de posse de um bom texto, agrupar todos os ele-
mentos deste “aparente caos”, conforme afirmam Platão e Fiorin (2000, p.35),
para encontrar “o fio condutor”, a coerência (sentido geral do texto).
1  Os termos estrutura superficial e estrutura subjacente foram utilizados, inicialmente, na Linguística, nas análises
gerativas. De uma estrutura superficial como “Fogo!”, pode-se depreender, na estrutura profunda, no nível subjacente,
não explícito, um enunciado do tipo: “Corram, o prédio está em chamas”, ou então “atirem”, por exemplo.

capítulo 2 • 51
A fábula por eles apresentada para ilustrar tal assunto foi “O galo que logrou
a raposa”, de Monteiro Lobato. Leia o texto de Esopo, no qual o brasileiro se
inspirou:

O Galo e a Raposa
No meio dos galhos de uma árvore bem alta um galo estava empoleirado e
cantava a todo o volume. Sua voz esganiçada ecoava na floresta. Ouvindo aquele
som tão conhecido, uma raposa que estava caçando se aproximou da árvore. Ao
ver o galo lá no alto, a raposa começou a imagina algum jeito de fazer o outro
descer. Com a voz mais boazinha do mundo, cumprimentou o galo, dizendo:
– Ó meu querido primo, por acaso você ficou sabendo da proclamação de
paz e harmonia universal entre todos os tipos de bichos da terra, da água e do
ar? Acabou essa história de ficar tentando agarrar os outros para comê-los.
Agora vai ser tudo na base do amor e da amizade. Desça para a gente conversar
com calma sobre as grandes novidades!
O galo, que sabia que não dava para acreditar em nada do que a raposa dizia,
fingiu que estava vendo uma coisa lá longe. Curiosa, a raposa quis saber o que
ele estava olhando cm ar tão preocupado.
– Bem – disse o galo – , acho que estou vendo uma matilha de cães ali adiante.
– Nesse caso, é melhor eu ir embora – disse a raposa.
– O que é isso, prima? - disse o galo. – Por favor, não vá ainda! Já estou des-
cendo! Não vá me dizer que está com medo dos cachorros nesses tempos de
paz?!
– Não, não é medo – disse a raposa – mas... e se eles ainda não estiverem
sabendo da proclamação?
Moral: cuidado com as amizades muito repentinas

Fábulas de Esopo, Ed. Companhia das Letrinhas Disponível em: http://re-


vistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/leitura-textos-com-
plexidades-diferentes-466478.shtml
Segundo eles, no primeiro nível de leitura, os significados depreendidos são:

- um galo espertalhão, consciente de que a raposa é inimiga, coloca-se sob proteção,


fora do alcance de suas garras;

52 • capítulo 2
- a raposa tenta convencer o galo de que não há mais guerra entre os animais e que
se instaurou a paz;
- o galo finge ter acreditado na fala da raposa, mostra-se alegre e convida-a a esperar
três cães para que também eles participem da confraternização;
- a raposa, sem negar o que dissera ao galo, alega ter pressa e vai embora. (PLATÃO e
FIORIN, 2000, p. 36)

No segundo nível, teríamos os dados acima, mais concretos, organizados


num plano abstrato:

- um dos personagens do texto (o galo) dá mostras de ter consciência de que os ani-


mais estão em estado de guerra;
- outro personagem (a raposa) dá mostras de que os animais estão em estado de paz;
- no nível do fingimento, isto é, da aparência, ambos percebem ter entrado em acordo,
mas no nível da realidade, isto é, a essência, os dois continuam em desacordo. (PLATÃO
e FIORIN, 2000, p. 36)

Há ainda, o terceiro nível, mais abstrato que os anteriores, resumindo o tex-


to todo. Nele, há a afirmação da belicosidade (da guerra), a negação da beli-
cosidade e a afirmação da pacificação no nível do fingimento. Já na realidade,
observamos a esperteza do galo quando ele finge concordar com a raposa para
preservar sua vida.
Para os autores, estes três níveis distinguem-se pelo grau de abstração, sen-
do o primeiro nível – concreto –, o mais complexo e o terceiro, o mais abstrato
e simples. “As diversidades se manifestam no nível da superfície do texto, e a
unidade se encontra no nível mais profundo” (PLATÃO e FIORIN, 2000, p. 37).
Os autores resumem os três planos do texto da seguinte maneira:
1. estrutura superficial (estrutura discursiva): de onde se depreendem os
significados mais concretos e diversificados: o narrador, os personagens, os ce-
nários, o tempo e as ações concretas;
2. estrutura intermediária (estrutura narrativa): os valores dos sujeitos
são definidos.
3. estrutura profunda (estrutura profunda): onde ocorrem os significa-
dos mais básicos e abstratos que conferem a unidade ao texto.

capítulo 2 • 53
CONEXÃO
Acesse o link abaixo da Revista Nova Escola, ele traz um artigo que analisa questões da
Prova Brasil a respeito da fábula trabalhada nesta unidade. Vale a pena ler, pois nos mostra
como algumas habilidades de leitura são exigidas dos alunos.
A Prova Brasil checa as habilidades essenciais em Língua Portuguesa e Matemática,
sendo considerada a principal avaliação do rendimento das escolas públicas do país. É parte
integrante do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/fundamentos/leitura-textos-com-
plexidades-diferentes-466478.shtml

Com base nas experiências didáticas, poderíamos acrescentar à estrutura-


ção proposta pelos autores um quarto nível: a estrutura mais que profunda, a
partir de onde deduziríamos os propósitos, os implícitos e a intencionalidade2
do autor. Por exemplo, nesta fábula, Monteiro Lobato mostra que não devemos
ser inocentes e acreditar em qualquer pessoa, mesmo as que aparentam ser
amigas, como a raposa da fábula, que chega toda amigável para conseguir o que
deseja. Além disso, mostra ainda que a “esperteza” é necessária à sobrevivência.
Reconhecer o objetivo do emissor do texto, sua intenção é uma importante
habilidade de leitura muito cobrada em avaliações, como o Saresp e o Enem,
por exemplo. Observe uma questão retirada do Exame Nacional do Ensino
Médio de 2009, que exige tal habilidade.
Em Touro Indomável, que a cinemateca lança nesta semana nos estados de
São Paulo e Rio de Janeiro, a dor maior e a violência verdadeira vêm dos demô-
nios de La Motta – que fizeram dele tanto um astro no ringue como um homem
fadado à destruição. Dirigida como um sendo vertiginoso do destino de seu
personagem, essa obra-prima de Martin Scorcese é daqueles filmes que falam à
perfeição de seu tema (o boxe) para então transcendê-lo e tratar do que impor-
ta: aquilo que faz dos seres humanos apenas isso mesmo, humanos e tremen-
damente imperfeitos.

Revista Veja, 18 fev 2009 (adaptado).

2  A intencionalidade é um fator de coerência investigado pela linguística textual. Ele diz respeito ao modo como
os autores/emissores usam textos para atingir seus propósitos, produzindo textos adequados aos seus objetivos,
revelando assim, sua intenção. Se quiser se passar por louco ou embriagado, por exemplo, o emissor pode deixar seu
texto incoerente propositadamente.

54 • capítulo 2
Ao escolher este gênero textual, o produtor objetivou:
a) Construir uma apreciação irônica do filme.
b) Evidenciar argumentos contrários ao filme de Scorcese.
c) Apresentar ao leitor um painel da obra e se posicionar criticamente so-
bre ela.
d) Afirmar que o filme transcende seu objetivo inicial e, por isso, perde
sua qualidade.

Disponível em: http://www.enem.inep.gov.br/

Nesta questão, o aluno deveria ser capaz de reconhecer a intencionalida-


de, isto é, o objetivo do produtor do texto (apresentar ao leitor um painel da
obra e se posicionar criticamente sobre ela.) considerando seu gênero: resenha
crítica.
Para exemplificar mais ainda os níveis de análise, na seção “texto comen-
tado”, Platão e Fiorin (2000, p.38) analisam os três níveis de leitura da crônica
“Recado ao senhor 903”. Leia aqui um trecho deste belíssimo texto, depois, leia
o texto na íntegra e tente identificar os três níveis de leitura. Compare suas res-
postas com os comentários de Platão e Fiorin (2000, p.38-39):

2.2  Estrutura profunda do texto


Platão e Fiorin (2000, p.45) propuseram que imaginássemos um texto que abor-
dasse os problemas advindos da urbanização intensa ocorrida em nosso sécu-
lo, destacando os efeitos negativos da urbanização nas grandes cidades, como:
violência, poluição, trânsito, precariedade os transportes coletivos etc. Os au-
tores sugeriram ainda que tal texto defendesse que a salvação da humanidade
estaria apenas no abandono das cidades e no contato com a natureza, a vida em
pequenas comunidades, etc.
Imaginaram? Pois bem, este texto poderia ser dividido em dois blocos con-
forme os autores, no primeiro, estariam os problemas da vida urbana, a saber:
poluição, trânsito caótico, precariedade dos transportes coletivos, violência
crescente, ausência de relações interpessoais mais profundas. Por outro lado,
em outro bloco, agruparíamos os elementos que negam esta vida caótica: a na-
tureza, as delícias do ar puro, da vida em pequenas comunidades etc. Assim,
teríamos: natureza vs civilização.

capítulo 2 • 55
©© LIESKA | DREAMSTIME.COM

O que você prefere: ir ao trabalho de bicicleta ou ficar preso em seu veículo


no congestionamento? Com qual posição do texto concorda?
Platão e Fiorin (2000, p.45) afirmam que o nível profundo do texto proposto
é constituído de dicotomias3, oposições do tipo: liberdade vs submissão; vida
vs morte; natureza vs civilização, unicidade vs
©© SUPRIJONO SUHARJOTO | DREAMSTIME.COM

multiplicidade etc.
Os autores ressaltam que a análise de um
texto não deve ser reduzida apenas à oposição
reguladora de seus sentidos, pois corremos o
risco de reduzir muito a riqueza significativa
do texto. Por outro lado, destacam também a
importância de se detectar a estrutura funda-
mental, visto que ela concede uma unidade
profunda aos elementos superficiais, que, em
um primeiro momento, parecem dispersos e
caóticos.

3  Dicotomia: (grego dikhotomía, divisão em dois) s. f. 1. Divisão em dois; oposição entre duas coisas. http://www.
priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=dicotomia

56 • capítulo 2
Os polos de oposição trazem em si uma apreciação valorativa, assim, no tex-
to que imaginamos no início dessa discussão, a natureza tem valor positivo ao
passo que a urbanização, valor negativo. Os termos utilizados para se referir
a ela, como “problema e caos” revelam este aspecto negativo. Esta oposição é
estruturada da seguinte maneira:

•  apresentação dos elementos relativos à civilização urbana; (afirma-se o termo civili-


zação);
•  propõe-se o abandono das cidades (negação da civilização);
•  apresentação dos elementos concernentes à natureza (afirmação da natureza).

Apresentamos abaixo o resumo das ideias de Platão e Fiorin (2000, p.46)


acerca da estrutura narrativa com base no seguinte esquema:

Afirmação de um dos termos da oposição

Negação do termo anteriormente afirmado

Afirmação do outro termo

Encadeamento dos significados

Os autores encerram a unidade com “Morte e Vida Severina”, de João Cabral


de Melo Neto, texto construído com base na oposição semântica vida vs morte.
Leia um pequeno trecho do poema:

capítulo 2 • 57
Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto
(Auto de Natal Pernambucano)

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,


como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias. [...]

http://www.releituras.com/joaocabral_morte.asp

Façamos a leitura do conto “A carteira”, de Machado de Assis, realizando os


três níveis de leitura para identificar sua estrutura profunda.

2.3  Temas e figuras: a depreensão do tema


No capítulo homônimo a esta seção, os autores apresentam-nos dois textos,
o primeiro narrativo: uma fábula de Buridan, filósofo da Idade Média e o segun-
do, uma assertiva, vejamos:
a) Um asno, vítima da fome e da sede, depois de longa caminhada, en-
controu um campo de viçoso feno ao lado do qual corria um regato de límpidas
águas. Consumido pela fome e pela sede, começou a hesitar, não sabendo se
antes comia do feno e depois bebia da água ou se antes saciava a sede e depois
aplacava a fome. Assim, tomado pela indecisão, morreu de fome e de sede.

Fábula de Buridan, filósofo da Idade Média. Disponível em: http://www.diaa-


dia.pr.gov.br/ceja/arquivos/File/FormacaoContinuada/SIMPOSIO2009/
Texto_para_Pagina_migliozzi.pdf)

58 • capítulo 2
b) Um indivíduo, colocado diante de dois objetos igualmente desejados,
pode ficar de tal forma indeciso que acaba por perder a ambos. (apud: PLATÃO
e FIORIN, 2000, p.71)

CONEXÃO
O filósofo francês Jean Buridan viveu na Idade Média, foi mestre e reitor da Universidade de
Paris. O caso do asno de Buridan, como ficou conhecido o texto apresentado, não se encon-
tra em suas obras, mas sim suas premissas. Para ele, a vontade segue o intelecto, onde a
decisão é pelo bem maior, o problema ocorreria especificamente quanto o intelecto julga que
dois bens são iguais, e assim a vontade acaba não se decidindo nem por um nem por outro
e a escolha acaba não acontecendo. Buridan julga, porém, que o homem, diferente do asno,
pode não morrer de fome, já que tem a faculdade de suspender ou impedir o juízo do intelec-
to. Diante de um impasse paradoxal, a escolha deve ser adiada até se obter informações mais
aproximadas sobre o resultado de cada ação possível. Disponível em: http://casadafilosofia-
clinica.com/index.php?option=com_content&task=view&id=79&Itemid=2

Os autores afirmam que se trata de dois textos que expressam o mesmo sen-
tido, contudo, de maneiras diferentes. Algumas destas diferenças apontadas
por Platão e Fiorin (2000, p.71) podem ser estruturadas da seguinte forma:

TEXTO 1: FÁBULA TEXTO 2: INFORMATIVO


Concreto (remete a elementos do mundo natural: Abstrato (explica certos aspectos da conduta hu-
água, campo, feno, etc.) mana: indivíduos, objetos desejados etc.)

Um dado interessante exposto pelos autores é que subjacente aos dois tex-
tos, o esquema narrativo é o mesmo, conforme explicitado a seguir:
a) Um sujeito encontra-se privado de dois objetos e quer conquistar a pos-
se de ambos;
b) Devendo optar por um deles e sendo igualmente atraído pelos dois, é
incapaz de realizar a escolha;
c) Permanece privado de ambos. (PLATÃO e FIORIN, 2000, p.71).

É possível, desta forma, basear-se em um esquema narrativo para trabalhar


com termos abstratos e assim, elaborar um novo texto ou concretizar um texto
abstrato por meio do uso de termos concretos que representam coisas, ações

capítulo 2 • 59
e qualidades encontradas no mundo natural e, portanto, perceptíveis pelos
sentidos. Os autores denominam de figuras4 os termos concretos e temas5, os
abstratos.
Devido a esta diferenciação entre temas e figuras, temos dois tipos de tex-
tos: os figurativos e os temáticos. Os figurativos criam efeito de realidade, pois
constroem cenas semelhantes às reais, com pessoas, animais, já os temáticos
buscam classificar, ordenar e explicar os fatos da realidade.
Assim como em quase todos os assuntos relacionados à língua, as classifi-
cações feitas acima não devem ser seguidas como se fossem regras invioláveis,
pois pode haver um texto predominantemente figurativo, mas que apresente
termos abstratos, ressaltam Platão e Fiorin (2000, p.72). Desta maneira, a clas-
sificação será pautada na predominância de um aspecto sobre o outro.
Os autores finalizam a unidade com o seguinte parágrafo:

Como o nível temático e o nível figurativo são dois níveis sucessivos de concretização,
podemos ter textos temáticos, isto é, sem a cobertura figurativa, mas todo texto figura-
tivo pressupõe, sob as figuras, um tema. (PLATÃO e FIORIN, 2000, p.72)

Esta última afirmação, segundo a qual todo texto figurativo possui um tema
subjacente, é fundamental para a compreensão de um texto. Os autores desta-
cam que um leitor “ingênuo”, que lê apenas o conteúdo figurativo, não compre-
ende o texto em sua totalidade. Para eles:

[...] se permanecesse apenas no nível figurativo, poderia dizer que o texto não passa
de uma grosseira mentira, pois os anos não têm decisões. Um leitor avisado, porém,
procuraria logo um significado mais amplo para o texto, que fosse além desses fatos
concretos e mentirosos. Um texto figurativo sempre joga dados concretos para, por
meio deles, revelar significados mais abstratos. (PLATÃO e FIORIN, 2000, p.72)

Temos, portanto, que buscar sempre a temática por trás de um texto


figurativo.
4  Figuras: palavras ou expressões correspondentes ao mundo natural: substantivos concretos, verbos que indicam
atividades físicas, adjetivos que apresenta qualidades físicas. Mundo natural pode referir-se também a um mundo fictício.
5  Tema: palavras e expressões que não correspondem a algo do mundo natural, mas a elementos que organizam,
categoriza, ordenam a realidade percebida pelos sentidos. (ex. humanidade, idealizar, privação, feliz, necessidade).

60 • capítulo 2
2.4  Temas e figuras: o encadeamento de
figuras

A primeira lição que os autores nos transmitem é que geralmente, a figura não
traz o significado em si mesma, mas pode indicar sentidos muito variados e
noções muito vagas quando isolada.
Segunda lição: “tudo no texto, é relação”, assim, o sentido das figuras será
dado pelo seu encadeamento. O tema é que dá sentido às figuras, então, encon-
trar o seu sentido encadeado é decifrar seu tema.
Para exemplificar a teoria, Platão e Fiorin (2000, p.79) citam uma campanha
publicitária que deve associar um produto, como um refrigerante, por exem-
plo, à ideia de juventude e saúde. Assim, para chegar a este tema, os publicitá-
rios terão que usar as seguintes figuras: jovens atléticos e saudáveis praticando
esportes, divertindo-se, vestindo roupas brancas, num lugar amplo, com muito
verde, um céu azul, brilhante etc. O encadeamento de todas estas figuras nos
remete ao tema da saúde e juventude.
Se um leitor insistisse em interpretar a imagem de um garoto mais alto no con-
texto da propaganda citada acima como um traço da inferioridade feminina, não
poderíamos aceitar tal leitura, pois não há uma rede coerente de figuras apontando
para este tema. “Para compreender o tema de um texto figurativo, é preciso perce-
ber primeiro as redes coerentes formadas pelas figuras” (2000, p.79).
Os autores ressaltam que se quebrarmos a coerência interna das redes de
figuras, o texto ficará inverossímil6 ou adquirirá um novo sentido.
Se na propaganda imaginada acima, os jovens tivessem trajando vestes pre-
tas, de mangas longas, com rendas, haveria uma ruptura na rede figurativa, que
não mais remeteria ao mesmo tema.
A propaganda abaixo faz uma associação absurda: uma vaca nadando junto
a um golfinho, algo inverossímil, porém, esta inverossimilhança tem um obje-
tivo: chamar a atenção do leitor e convencê-lo que a Mac Needs pode elaborar
coisas incríveis, propagandas inimagináveis que farão o produto ou serviço ter
muito sucesso.

6  verosímil (latim verisimilis, -e)


1. Que tem aparência de verdade.
2. Semelhante à verdade. = PLAUSÍVEL, PROVÁVEL
A verossimilhança é uma qualidade que todo o texto deve possuir, a não ser que o absurdo faça parte da
construção de sentido desejada.

capítulo 2 • 61
©© MAC NEEDS PROPAGANDA

Inverossimilhança a favor do sentido.

Embora as figuras oscilem quanto aos sentidos, existe, segundo Platão e


Fiorin (2000, p.80), uma solidariedade entre seus significados. A conclusão a
que chegam é que:

As múltiplas significações possíveis de uma figura isolada estão sob o controle de um


contexto, no qual se encaixam com coerência apenas algumas dessas possibilidades
significativas. Em vista disso, a depreensão dos temas subjacentes a um texto figurativo
só é possível a partir do confronto cuidadoso de figuras que se articulam e se enca-
deiam no interior dele, formando uma rede.

62 • capítulo 2
Poderíamos citar também, uma propaganda de um veículo que quisesse en-
fatizar características como a força, a tração, o 4x4; tal tema poderia ser figura-
tivizado por imagens que retratassem lugares inóspitos de difícil acesso, suge-
rindo que com um carro resistente, você poderia alcançar tais locais. Sugeriria
ainda que o público-alvo fossem os jovens, que normalmente gostam de aven-
tura, adrenalina etc.
©© OLEG KOZLOV | DREAMSTIME.COM

As propagandas trabalham muito com a sugestão de ideias, analise com


atenção o texto a seguir:
©© TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

Tema: altura; figura: Rapunzel.

capítulo 2 • 63
Observamos que a modelo que está no interior do carro possui tranças tão lon-
gas quanto as de Rapunzel, remetendo à história do conto em que a princesa, presa
em uma torre, jogava suas longas tranças para o príncipe subir até ela. Esta associa-
ção diferente, não usual, destaca uma grande qualidade do carro: sua altura.
Vale ressaltar que um mesmo tema pode ser manifestado por redes figurati-
vas diferentes. Observe outra versão da propaganda que também ilustra o mote
“Você se sente mais alto em um Fox” recorrendo à outra figura: a asa delta.
©© TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

Tema: altura; figura: asa-delta.

2.5  O Sincretismo de linguagens


Quem nunca se comunicou sem falar, usando apenas gestos e olhares?
Acredito que quase todos. Portanto, quem respondeu afirmativamente, já fez
uso da linguagem não verbal, definida como apropriação de imagens, figuras,
cores desenhos, símbolos, dança, tom de voz, postura corporal, pintura, músi-
ca, mímica, escultura e gestos usados como meios de comunicação. Até mes-
mos os animais comunicam-se por meio de gestos e atitudes, os cachorros, por
exemplo, ao balançarem a cauda de alegria, ao emitirem um olhar conquista-
dor, ao abaixarem a cabeça de tristeza e dor, estão se comunicando por meio da

64 • capítulo 2
linguagem não verbal e surpreendendo seus donos. Observe que os textos abai-
xo, constituídos apenas de linguagem não verbal, transmitem claramente seus
sentidos, a saber: sinal fechado, faça silêncio, está tudo bem, respectivamente:

©© VONKARA | DREAMSTIME.COM

©© HELDER ALMEIDA | DREAMSTIME.COM


©© RONALD VAN DER BEEK | DREAMSTIME.COM

©© COMSTOCK IMAGES | GETTY IMAGES

Já a linguagem verbal acontece quando fazemos uso da escrita ou da fala


para nos comunicarmos, lembrando que a comunicação ocorre quando produ-
tor e receptor compreendem mutuamente as mensagens. A linguagem verbal,
assim como a não verbal, está presente em nosso cotidiano, nas notícias, arti-
gos de opinião, reportagens, bulas de remédio, receitas etc.
Há a discussão em relação à importância de cada código, qual seria fun-
damental: a palavra ou a imagem (gesto, cor, som...)? Acreditamos que cada
forma de comunicação possua sua relevância, a escrita, como não dispõe da

capítulo 2 • 65
entonação, dos gestos, da participação ativa com o escritor, possibilita o de-
senvolvimento da imaginação, a possibilidade de várias leituras, enfim, enri-
quece a compreensão textual. Já a linguagem visual ou não verbal também é
fundamental, pois agiliza a comunicação no dia a dia, ao nos depararmos com
o sinal vermelho num semáforo, paramos imediatamente. Além da rapidez, a
linguagem não verbal é também rica nas entonações, nas ironias - que permi-
tem a geração de sentidos-, nos gestos, enfim, são todos recursos facilitadores
da compreensão textual. Desta forma, não há que se discutir qual código é mais
importante, mas sim o mais adequado a cada situação.
Outra discussão suscitada é: qual linguagem é mais comum na sociedade
atual? A verbal ou não verbal? A Internet demonstra a força da linguagem não
verbal, a burocracia e o cotidiano revelam a recorrência da linguagem escrita,
no metrô, por exemplo, há o nome e o número da linha para onde ele vai, nas
embalagens, as informações sobre o produto são expressas por palavras e etc.

CONEXÃO
Para refletir melhor, pesquise nos principais sites de busca, bem como em livros e revistas,
o papel da linguagem não verbal na sociedade contemporânea, sabemos que vive-se na era
da imagem, talvez em decorrência do apelo das propagandas e do consumismo. O sucesso
que os vídeos do Youtube, bem como os clássicos publicados em quadrinhos, por exemplo,
demonstram a supremacia do visual.

Inúmeras discussões podem ser levantadas em torno do código usado, mas


como sabiamente afirmou Aguiar (2004), não se trata de analisar os benefícios
de cada um, e sim de aceitá-los, observá-los e aprender sempre com o uso.
Feitas estas observações sobre a linguagem verbal e a não verbal, podemos
passar a comentar sobre o sincretismo, comumente definido como o emprego
simultâneo da linguagem verbal e não verbal. O discurso sincrético encontra-se
presente com maior frequência na maioria dos textos veiculados pelos meios
de comunicação de massa.
Domingos (2003) afirma que após a segunda metade do século passado, os
textos verbais começaram a “sofrer assédio da linguagem não verbal”, devido

66 • capítulo 2
à influência que receberam da mídia televisiva, do vídeo, do cinema, do com-
putador, da fotografia, das publicidades, com seus ícones, índices e símbolos.
Não concordo com o uso do termo “assédio”, penso que ele tenha uma conota-
ção negativa. Creio que o sincretismo da linguagem acompanha a evolução tec-
nológica pela qual a sociedade passa, vivemos na era da informação e da comu-
nicação que, aliadas à tecnologia, inovaram a maneira de criar textos, assim, as
imagens complementam os textos que acompanham.
Para Lévy (1998, apud DOMINGOS, 2003), existe um imenso fascínio pelas
imagens animadas, já o “mundo do papel impresso” torna-se cinzento, menos
atraente, ainda mais para uma juventude que já nasceu em meio à tecnologia, à
interação, à imagem. Isso causa um grande abismo entre o “cultural midiático
e o domínio cognitivo7” humano.

CONEXÃO
Leia o artigo A desmontagem do texto sincrético, de Domingos (2003), na íntegra no site
disponibilizado abaixo, nele, o autor propõe uma maneira de se analisar textos sincréticos de
acordo com a semiótica, importante área de análise da Linguística.
http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/volumes/32/htm/comunica/ci005.htm

A discussão proposta por Levy (apud DOMINGOS, 2003) nos remete à ou-
tra indagação: as crianças e jovens preferem realizar uma leitura ou ver víde-
os, navegar pela Internet, ouvir músicas? É mais atraente navegar pelo Orkut,
Facebook, Youtube, Twitter e sites de humor ou ler algo impresso? Cabe aqui
uma importante observação: nestas navegações dos jovens, eles lêem muito,
porém, realizam uma leitura diferente, não linear do texto que também é dife-
rente, sincrético. Então, a discussão não seria se os jovens leem ou não, mas sim
a qualidade do que andam lendo nos referidos sites, e como fazem tal leitura.

7  Cognição: “aquisição de conhecimento”. Embora esta definição dada seja clara e simplista, o termo envolve uma
gama de estudos, por isso, apresenta variações no sentido. Quem quiser aprofundar-se no assunto, pesquise nos
principais sites de busca, bem como em livros e revistas, pois para os fins deste material, estamos usando o senso
comum de cognitivo ou cognitivismo (relativo ao conhecimento).

capítulo 2 • 67
©© PHOTODISC IMAGES
©© MARK KARRASS | CORBIS

©© MONKEY BUSINESS IMAGES | SHUTTERSTOCK IMAGES

Com base nessas considerações, concordamos com Domingos (2003) quan-


do afirma que esta nova linguagem deve constituir objeto de reflexão dos pe-
dagogos e professores de línguas. Por este motivo, apresentaremos algumas
considerações a respeito da análise feita pelo estudioso. Um aspecto muito im-
portante da leitura sincrética é que, segundo Domingos (2003), nosso olhar é
direcionado, em um primeiro momento, às cores primárias, à concentração de
luz e aos movimentos que o discurso nos apresenta.

68 • capítulo 2
Pense em uma fotografia, ao selecionar seu ângulo, o enunciador (nesse
caso, o produtor do texto, o “fotógrafo8”) escolhe o que quer mostrar ao “leitor”
(enunciatário), revelando algo subjetivo. A imagem escolhida já não é mais algo
impessoal, pois se tornou aquilo que seu autor quis transmitir, a câmera da má-
quina são os olhos do fotógrafo. Tanto esta afirmação é verdade, que grandes
fotógrafos escolhem ângulos diferentes e fazem belíssimas fotos, que provo-
cam reflexão.
©© OLIVIER MEERSON | DREAMSTIME.COM

A foto acima, por exemplo, traz a “opinião” do enunciatário, demonstra que


ele se preocupa com as crianças, com o lixo, com o meio ambiente, com a qua-
lidade de vida, pois ele poderia ter escolhido fotografar um animal, uma rua
bonita, uma paisagem paradisíaca, mas escolheu este ângulo, este momento
para discutir sobre a pobreza, a forme, o lixo etc. A foto revelaria, portanto, a
ideologia do autor. Devemos ressaltar que a fotografia não é um texto sincréti-
co, pois faz uso apenas da linguagem não verbal.
Após essa introdução ao sincretismo da linguagem, estamos prontos para
analisar como ele ocorre nos textos. Selecionamos as propagandas porque
acreditamos que elas constituam um gênero bastante atraente por trabalhar
com nossa criatividade.

8  Não usamos o termo fotógrafo para designar o profissional da área, mas sim a qualquer pessoa que esteja
tirando fotografia no momento.

capítulo 2 • 69
2.5.1  A produção de sentidos em textos sincréticos.

Comunicação é manipulação entre sujeitos que compartilham do mesmo


conhecimento. Pela leitura do texto acima, vê-se que a manipulação se apre-
senta no gênero publicitário sincrético, pois produz um todo de significação
no plano de conteúdo em função da combinação de diferentes linguagens, por

70 • capítulo 2
meio da imagem (signo visual) e por meio da palavra (signo verbal). No plano da
expressão, podem-se identificar as recorrências dos procedimentos de compo-
sição do texto que leva o sentido nesta publicidade. O foco de interesse da aná-
lise do texto sincrético reside nos efeitos de sentido produzidos pelas relações
entre as linguagens.
Na manipulação pressuposta a esse gênero apresentado está um destinador
que propõe a um destinatário objeto-valores a ser partilhados, estabelecendo,
assim, um contrato. Esse objeto a ser oferecido é discursivizado por meio de
linhas visuais, que representam um copo, inferindo o tipo de bebida, o sincre-
tismo das formas como estão disponibilizadas as frases que circulam o copo,
num movimento circular provocando uma leitura contínua da frase. Como um
simulacro essa leitura leva a desencadear o sentido de “Mexa o gelo”, manipula-
ção por tentação ao desejo de beber e/ou ameaça de desconforto e insegurança.
O prêmio a que se propõe inicialmente o destinador, uma sensação boa, tran-
quilizante, é transformado em ameaça e intimidação, uma sensação constran-
gedora, que leva o leitor consciente a dever fazer algo para transformar-se em
sujeito eufórico. Esse gênero analisado “Alcoólicos Anônimos” diferentemente
de outros modelos publicitários, não vende produto e sim uma mensagem de
alerta para os perigos do consumo excessivo do álcool. As figuras verbais e visu-
ais tentam mostrar as consequências do hábito de beber e pretendem induzir o
leitor a abandonar esse hábito.

CONEXÃO
Você encontra a análise deste anúncio no livro “A comunicação nos textos”, faça uma pesqui-
sa, vale a pena conferir o original.

capítulo 2 • 71
2.5.2  Sentidos construídos no texto

Passemos a mais uma interpretação, observem a imagem abaixo:

Medicina & Saúde familiar


©© BENIS ARAPOVIC | DREAMSTIME.COM

“Sujou: se você não tem seguro


saúde é porque não se
preocupa com o bem-estar
de sua família.”

Ao ler a propaganda, observamos como os publicitários buscam a adesão


do consumidor nessa briga entre concorrentes. Obviamente, por ser um tipo
de texto bastante carregado de intencionalidade, ele merece atenção especial.
Além disso, por conter, quase sempre, imagens, é preciso um tratamento que
explore a relação entre o verbal e o visual.
Segundo Kleiman (1996, p. 93-94), a interpretação de pistas locais e contex-
tuais, numa unidade coerente, implica atribuir uma intencionalidade ao autor.
Descobrir as pintas dentro do texto é o primeiro passo para uma boa compre-
ensão para depois fazer análises semelhantes em outros textos. Deve-se sempre
priorizar que o texto foi escrito para dizer algo, persuadir, chocar ou enganar.
Para se desenvolver e praticar a capacidade de perceber a relação entre a fun-
ção do texto e a intencionalidade é importante fazer constantemente análise de
diferentes gêneros que ajudarão a perceber elementos que depois o levarão a
perceber em outros textos.

72 • capítulo 2
A leitura atenta da publicidade mostra que o sentido é construído com a
articulação do verbal a outras linguagens e que muitos são os fatores que con-
tribuem para a construção dos sentidos: a forma, a cor, a utilização de recursos
do tipo diagramação, dentre tantos outros.
O vocabulário desempenha papel fundamental. “Sujou: se você não tem se-
guro saúde é porque não se preocupa com o bem-estar de sua família. Agora
está na lama”
O leitor, por seu conhecimento de mundo, é capaz de fazer inferências lexi-
cais adequadas e imediatamente chegar ao novo sentido que o termo adquiriu
atualmente.
Aspecto bastante explorado na construção de propagandas costuma ser a
relação entre significado e contexto, com bom aproveitamento da ambiguida-
de. Isso é claramente observado na propaganda do seguro saúde.
©© MARTHA ANDREWS | DREAMSTIME.COM

Realize o sonho do concorrente:


suspender nossa entrega.

Suspenda a entrega do
Jornal no dia em que
você sair de férias.
Se o concorrente não faz
isso, mude para
o “Jornal do dia”.

Uma palavra muda de classe gramatical. Em realize o sonho do concorrente:


suspender nossa entrega. Este último termo, que, numa derivação regressiva,
tornou-se um substantivo abstrato, à primeira vista pode confundir o leitor (o
substantivo coincide com a 3ª pessoa do indicativo). Entregar (verbo) – entrega
(substantivo).

capítulo 2 • 73
2.5.3  Análise textual do texto sincrético

Passaremos neste momento, à análise do texto sincrético à luz da Linguística


Textual. Faremos uma interpretação do sincretismo na propaganda do Fox Spa-
ce, sem usar a terminologia semiótica. Observe a propaganda com atenção:
©© TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

É preciso analisar esta propaganda atentamente, pois se a observarmos de


modo superficial, poderemos não perceber que cada item do carro é indicado
por um animal distinto. À primeira vista, podemos pensar que não há sentido,
que se trata de um texto incoerente, mas uma apreciação mais cuidadosa revela
o oposto. A mão do gorila, por exemplo, está justamente na posição que indica
“pare”, acompanhando o sensor de estacionamento; o “rabo”– maior do que
o tamanho real – da girafa segura as malas e precisamente indica o tamanho
do porta-malas; a tromba do elefante carrega o computador de bordo e assim
sucessivamente. Desta forma, é uma imagem que chama muito a atenção do
leitor, pois associa seres a objetos que aparentemente não teriam nenhuma re-
lação, pois são muito diferentes, despertando assim, nossa curiosidade.
O fato de todos esses animais estarem no compartimento interior do carro
sugere que se trata de um veículo extremamente espaçoso, que possui muitos
recursos tecnológicos para garantia do conforto, praticidade e segurança dos
passageiros; repare que para acompanhar o ar-condicionado, os publicitários
escolheram, muito apropriadamente, um sorvete.

74 • capítulo 2
Além de todo o sugerido, a imagem está intimamente relacionada ao texto
verbal, que se encontra no canto inferior esquerdo da propaganda: “Novo Space
Fox. Cabe tudo que você imaginar.” Realmente, há duas partes de animais, uma
que acompanha o retrovisor e a outra, a direção hidráulica, que nem consegui-
mos identificar, pode ser uma parte de uma cobra, de um peixe, e a outra, de um
sapo, de uma perereca, de um dinossauro, depende de sua imaginação, cabe
tudo o que você quiser! Todos estes recursos visuais, aliados à palavra, tentam
convencer o público a adquirir o produto por se tratar de um negócio vantajoso,
constituindo esse, o objetivo central da propaganda, além do de informar aos
leitores os dispositivos de que o automóvel dispõe.
O público-alvo, a quem a propaganda é destinada, são principalmente os
chefes de família, visto que no carro cabem todos os integrantes da família e
muitos objetos. Tal público é uma classe de médio poder aquisitivo, pois o va-
lor do automóvel não é tão baixo. Em letras bem miúdas, o anunciante afirma
que o preço divulgado inclui apenas pintura sólida, e informa que alguns itens
são acessórios, assim, o preço tende a aumentar, pois o valor é a partir do preço
mínimo dado.
Além destes fatores, devemos considerar ainda o local de publicação da
propaganda: uma revista semanal que traz as principais notícias do país e do
mundo, portanto, um público que lê, que goza de certa cultura e se mantém
informado.
Desta forma, concluímos que um texto sincrético, como a propaganda que
acabamos de analisar, pode ser muito rico em detalhes e por isso, despertar
o interesse de nossos alunos que normalmente não se animam a ler qualquer
gênero textual.
Como já afirmamos no capítulo anterior, não existe uma receita pronta e es-
pecífica para melhorar a leitura e compreensão, mas há algumas questões que
devemos fazer ao abordar qualquer gênero textual, as quais reproduzimos abaixo:
– Qual o objetivo do texto? Ele foi escrito com que intenção? Informar, con-
vencer, instruir, provocar reflexão, emocionar, entreter etc.
– Qual a estrutura do texto? Como ele é constituído, como as palavras e ima-
gens estão organizadas?
– Que tipo de linguagem foi utilizada, informal, formal, por quê?
– Qual o tema central, isto é o assunto? Levante o problema central e os
secundários.

capítulo 2 • 75
– Qual é o meio de veiculação? Onde ele foi publicado? Jornal, revista,
Internet, livro etc
– Qual o gênero textual? Bula de remédio, carta, artigo de opinião, notícia,
reportagem, e-mail, poema, etc.
– Qual a tipologia do texto? Narrativo, descritivo, injuntivo9, poético ou
argumentativo?
– Como a coesão e a coerência são construídas no texto? Ele está bem liga-
do, bem organizado, esta organização sugere algum sentido, contribui para a
coerência?
– Existem figuras de linguagem, o que elas expressam?
– Verifique o significado das palavras desconhecidas;
– Relacione o título ao texto;
– Contextualize a obra no espaço e tempo, esclareça fatos históricos perti-
nentes ao texto;
– Pesquise dados biográficos do autor;
Estes são apenas alguns questionamentos e atitudes que devemos tomar
automaticamente ao ler qualquer gênero textual.
Até o presente momento, apenas citamos os conceitos de tipologia e gênero
textual, termos que ganharam evidência com a Linguística Textual, e por isso,
serão vistos mais detalhadamente na disciplina de mesmo nome. No entanto,
é importante que o estudante de Letras tenha o domínio básico de tal termino-
logia logo no início do curso para que possa compreender melhor a estrutura e
funcionamento do texto, assim, passemos a uma breve explanação da tipologia
e gênero textual.

2.6  Considerações iniciais sobre a linguagem


Você deve estar ansioso para saber exatamente quais as diferenças de um
texto literário e um não-literário, também denominado utilitário. Mas antes de
partirmos para tal discussão, é importante que você reflita sobre a linguagem.
A linguagem é de tal forma integrante de nossas atividades diárias que mui-
tas vezes a tratamos como um fato mais ou menos natural e automático, como
respirar ou piscar. Em nosso meio, estamos sempre em contato com vários

9  Texto injuntivo: aquele que tenta convencer o leitor a realizar algo, pode transmitir uma série de informações
instruindo-o a realizar uma atividade, aconselhar a fazer algo. Neste sentido, são exemplos de textos injuntivos
receitas culinárias, manuais de instruções, dentre outros que procuram regular o comportamento do leitor.

76 • capítulo 2
gêneros textuais que circulam na sociedade, sejam eles discurso político, bu-
las de remédios, letras de músicas, placas, romances, contos, novelas e outros.
Entretanto, na realidade, não há nada de automático em relação à linguagem,
pois normalmente pensamos antes de falar, ler e escrever. Como vimos nas uni-
dades anteriores, é necessário muito trabalho e estratégia para ler e escrever.
Some-se a isso, o fato de que nossos discursos baseiam-se, comumente, em
outros textos, a todo o momento, referimo-nos a uma notícia que lemos, refle-
timos sobre um livro de que gostamos etc. Saber diferenciar os tipos de texto,
reconhecer sua função e estrutura são fatores fundamentais e é por isso que
estudaremos textos literários e textos não-literários.
Para iniciarmos nossa discussão, recorremos ao discurso proferido pelo
candidato Amir Lando (PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro
/RO) em 06/09/2001 no Senado Federal:
O SR. AMIR LANDO (PMDB - RO. Como Líder. Pronuncia o seguinte discur-
so. Sem revisão do orador.)
– Sr. Presidente, Sras e Srs Senadores, venho a essa tribuna hoje abordar
um assunto que, como disse anteriormente, preocupa sobremodo a família
peemedebista.
O Partido político, Sr. Presidente, nada mais é do que uma sociedade consti-
tuída por um vínculo que une os seus membros no sentido de buscar objetivos
comuns que constituem o cerne do programa partidário.
Há, em toda a sociedade, um vínculo, um elo que faz do todo uma unidade,
tanto quanto possível, porque um Partido democrático é constituído, também,
de divergências, de diferenças. Mas a essência deve constituir uma unidade -
uma unidade na diversidade, é fato. E o Partido subsiste enquanto há hegemô-
nicos interesses da maioria, ao menos.
[...]
Que fazer? Quando as divergências nos separam em poças como um rio res-
sequido, sem discurso para projetar a ação eficiente mirando o social. O PMDB
não pode perder o movimento, a mobilização da corrente do entusiasmo e iso-
lar-se nas fossas dos interesses menores. O poeta João Cabral de Melo Neto, em
seu poema “Rio sem discurso”, definiu discurso de maneira fantástica:

Quando um rio corta, corta-se de vez


o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,

capítulo 2 • 77
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda
e muda porque com nenhuma comunica, porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

É exatamente isto que falta ao nosso Partido: esse movimento, não esse
isolamento, não essa formação de fossas estanques que não se comunicam.
Queremos, sim, poços de água limpa e cristalina para refazer a corrente, por-
que não tenho dúvida, Sr. Presidente, de que, quebrada essa corrente, difícil
será reatá-la.
Secretaria-Geral da Mesa
Subsecretaria de Arquivo

http://legis.senado.gov.br/pls/prodasen/PRODASEN.LAYOUT_DISC_DE-
TALHE.SHOW_INTEGRAL?p=317377

MELO NETO, João Cabral de. In: A educação pela pedra. Rio de Janeiro:
José Olympio. 1979, p.26.

78 • capítulo 2
O Sr. Amir Lando parece expressar, em seu discurso, a angústia em relação
aos membros do partido que não se comunicam, segundo ele, é necessário
“um rio com muito fio de água”

©© ADAM GAULT / VALUELINE | GETTY IMAGES


para que haja comunicação. Você
já imaginou uma sociedade sem
comunicação? O que ocorreria?
Se não houvesse nenhum
tipo de linguagem, não haveria
comunicação e sem esta, reina-
riam o caos e a desordem. É por
meio da comunicação, e conse-
quentemente da linguagem, que
ocorre a transmissão cultural
e tecnológica, sem ela, não ha-
veria progresso nem sociedade
estruturada.

Quando falamos em caos na sociedade, lembro-me do livro de José Saramago, Ensaio


sobre a cegueira, que virou filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. É possível
ver como a sociedade desestrutura-se facilmente e até que ponto o ser humano pode
chegar. Leia o livro e depois assista ao filme, ambos são ótimos.

Por sorte, vivemos na era da


comunicação e da informação,
o que garante nosso desenvolvi-
mento e permanência na Terra,
mesmo havendo falhas na co-
municação, como desabafou
o Sr. Lando. “A comunicação
possibilitou a organização do
homem em sociedades com-
plexas. A linguagem é o espelho
da sociedade” (CHERRY, 1990).
Voltemos ao poema. Rios
sem discurso certamente deve

capítulo 2 • 79
ter chamado sua atenção, mas se fizermos uma leitura rápida e superficial,
sem nos atermos aos detalhes e implícitos, provavelmente, não atribuiremos
sentidos a ele. O que poderiam significar estes versos “Quando um rio corta,
corta-se de vez o discurso-rio de água que ele fazia”? A resposta seria “nada” se
os interpretássemos sem uma contextualização, sem entender a função de um
texto como esse. No entanto, Rios sem discurso é um texto literário, cuja fun-
ção primordial não é transmitir informações, dados ou contar uma história, e
sim entreter, nos fazer refletir sobre nossas atitudes e acontecimentos da vida.
Desta forma, uma boa estratégia para compreensão do texto literário é não in-
terpretá-lo apenas em seu sentido literal, denotativo10, pois o artista/escritor
quer expressar-se de uma maneira distinta, expressiva, por isso, utiliza-se de
recursos insólitos muitas vezes.
A fim de ilustrar ainda mais a linguagem conotativa ou figurada, leia a frase:
“Muitas vezes, o Garfield é um ‘mala’, um chato com seu dono!” O conhecimen-
to prévio nos permite concluir que “mala” foi utilizada em seu sentido figura-
do, Garfield é chato, e não no denotativo, objeto usado para transportar roupas
e objetos para viagem.

©© ALEXANDRE17 | DREAMSTIME.COM
Agora, voltemos novamen-
te ao poema de João Cabral de
Melo Neto, já sabemos que ele
não deve ser interpretado em
seu sentido denotativo, real,
então, necessitamos buscar os
sentidos implícitos para com-
preender a conotação cons-
truída; o que o poeta queria
revelar?

Agora que você já relembrou os conceitos de conotação e denotação, confira no link


abaixo, um breve texto que os explica de um modo mais teórico e formal.

10  O sentido denotativo ou literal ocorre quando o significado da palavra em questão é usado em seu sentido
objetivo, isto é, em seu sentido real, “é a palavra em estado de dicionário”, como em: “Preciso de uma mala nova para
viajar”. Já no sentido figurado ou conotativo, a palavra adquire um novo sentido, diferente do “real”, “objetivo”, sendo
este dado pelo falante, como ocorre em: “esse garoto é um mala” (chato, inconveniente).

80 • capítulo 2
A conotação resulta do acréscimo de outros significados paralelos ao significado de
base da palavra, isto é, um outro plano de conteúdo pode ser combinado ao plano da
expressão. Este outro plano de conteúdo reveste-se de impressões, valores afetivos
e sociais, negativos ou positivos, reações psíquicas que um signo evoca. Portanto, o
sentido conotativo difere de uma cultura para outra, de uma classe social para outra, de
uma época a outra. Desta maneira, podemos dizer que os sentidos das palavras com-
preendem duas ordens: referencial ou denotativa e afetiva ou conotativa. A palavra tem
valor referencial ou denotativo quando é tomada no seu sentido usual ou literal, isto é,
naquele que lhe atribuem os dicionários; seu sentido é objetivo, explícito, constante. Ela
designa ou denota determinado objeto, referindo-se à realidade palpável. PINILLA, A.,
RIGONI C., INDIANI, M. T., disponível em: http://acd.ufrj.br/~pead/tema04/denotacao-
econotacao.html acesso: jul. de 2010.

Continuemos a interpretação de nosso texto, e neste momento, já temos


uma informação relevante sobre ele, seu gênero: poema. Já a tipologia pode ser
discutida, feita a ressalva que um texto não se enquadra facilmente em uma
tipologia ou gênero. Considerando que existem apenas cinco tipologias básicas
(descrição, narração, exposição, argumentação e injunção), creio que o poema
se encaixaria melhor na tipologia expositiva. Mas por que se trataria de um poe-
ma expositivo? Antes de prosseguir a leitura, leia o Box conexão.

CONEXÃO
No texto disponibilizado no link abaixo, o autor, de uma maneira concisa e clara problematiza
a divisão da tipologia textual propondo uma nova tipologia. Embora ele use a palavra gênero
no lugar de tipologia, o texto evidencia que as definições não precisam ser acatadas como
leis, mas podem e devem ser questionadas.Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.
br/teorialiteraria/955283 (acesso: jul de 2010)

capítulo 2 • 81
A resposta é: a tipologia seria expositiva porque o eu-lírico mostra como é
um rio sem discurso. Segundo ele, é difícil reatar o curso de um “rio” (texto)
da mesma maneira que é difícil compreender o sentido de um poema. Como
não há uma história envolvendo personagens, nem a discussão clara de ideias,
o poema não pode ser narrativo nem argumentativo. A injunção também não
seria a classificação mais adequada, pois não há ordens e orientações explícitas
predominando no poema. Estas considerações não significam que não possa
haver outra leitura, outra interpretação do poema, pois se considerássemos o
rio um personagem, um rio que seca, que morre, como ocorre no Nordeste, re-
gião onde morou o poeta, um rio em que “cortou-se a sintaxe”, poderíamos até
pensar em uma tipologia narrativa.

Eu-lírico e eu-poético são palavras usadas como sinônimas, isto é, apresentam sen-
tidos semelhantes.
De acordo com Arder, a palavra lírico significava, no grego,
©© MARTIN MALCHEV | DREAMSTIME.COM

a lira, um instrumento musical. A palavra lírica, por sua vez,


referia-se à canção que se entoava ao som da lira. O termo
lírico acompanhou os poemas, pois estes eram, inicialmente
cantados, só depois de um tempo passaram a ser declamados.
Atualmente, a expressão eu-lírico é utilizada para indicar a voz
que fala no poema. É fundamental ressaltar que nem sempre
esta “voz”, esta ideologia corresponde à do autor.
Disponível em: http://www.vaniadiniz.pro.br/ma_eu_lirico.htm

Com base nessas informações, podemos prosseguir nossa interpretação,


Cyntrão (2010) realizou, juntamente com o Grupo de Estudos em Literatura
Brasileira Contemporânea, uma pesquisa que procurou identificar, a partir de
um detalhado levantamento bibliográfico, o perfil do escritor de poesia hoje: o
que representa, quais os lugares e os entre-lugares de sua fala poética e como
se manifesta esteticamente. Segundo a autora, para interpretar um poema con-
temporâneo devemos fazer os seguintes questionamentos:

No artigo, não há a referência completa, portanto, não é possível indicar o ano de publicação, apenas o link onde
o artigo está disponível: http://www.onda.eti.br/revistaintercambio/conteudo/arquivos/1961.pdf (acesso em jul de
2010)

82 • capítulo 2
•  Quem é o escritor de poesia?
•  Sobre o que escreve, quais são seus temas?
•  Qual verso usa?
•  Que tipo de imagem (tropos) utiliza?
•  Qual o universo semântico de seu léxico?
•  Quais são os gêneros com que dialoga?
•  Qual sua relação com o universo da prosa?
•  Os textos poéticos tentam falar por si, ou falam por um determinado gru-
po social?

Eis algumas das perguntas que devem ser feitas ao texto de poesia contem-
porânea, segundo a autora.
Vejamos uma belíssima imagem do poeta:
©© MARCUS GUIMARÃES | WIKIMEDIA

A escultura representa João Cabral, sentado em um banco de praça em gesto


contemplativo, no colo segura um livro com seu poema sobre o rio Capibaribe,
“O cão sem Plumas”
Seguiremos, desta maneira, nossa interpretação buscando dados sobre o
escritor João Cabral de Melo Neto. O fato de o poeta ser conhecido como “ar-
quiteto das palavras” já pode nos auxiliar na compreensão do texto. Pensemos
agora no título: Rios sem discurso; parece óbvio que a palavra rios não tenha
sido utilizada em seu sentido denotativo, e sim em seu sentido figurado, cono-
tativo, simbolizando o texto, o ato de criar um poema. Desta forma, um rio sem
discurso seria um texto vazio, vago.

capítulo 2 • 83
João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade de Recife-PE, no dia 09 de janeiro de
1920, assim, teve uma infância humilde em meio aos engenhos. Em 1940, viajou com
a família para o Rio de Janeiro, onde conheceu escritores importantes, como Drum-
mond e Murilo Mendes. Sua obra prima, Morte e vida Severina, que relata a história de
um retirante, é um dos livros mais lidos em todo o Brasil e um dos mais reconhecidos
pela crítica. Estas informações biográficas foram retiradas do site Releituras, onde você
pode encontrar maiores detalhes.
©© 3000AD | DREAMSTIME.COM

“Rios sem discurso” – letras e palavras isoladas não constituem um texto

Os verbos que acompanham esse “rio-texto” indicam ação, mostrando que


o ato de escrever exige esforço: “Quando se corta um rio, corta-se de vez o dis-
curso-rio”. Nos versos “em situação de poço a água equivale a água paralítica”,
o autor quer demonstrar que a palavra isolada de seu contexto nada significa,
não tem valor.
As considerações feitas acima demonstram que o autor utiliza dois univer-
sos semânticos, isto é, palavras da mesma área de sentido; o primeiro campo é
o da natureza: água, poço, rio, parada, fio de água, escorre; e o segundo campo
de sentido é o da língua, da criação literária, que inclui termos como: discurso,
dicionário, comunicação, sintaxe, grandiloquência, sintaxe, etc.

84 • capítulo 2
CONEXÃO
Pesquise sobre o grupo de estudos referido, bem como o artigo na íntegra: “O LUGAR DA
POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA: UM MAPA DA PRODUÇÃO”, ele sintetiza a pes-
quisa de Cyntrão (2010) e do Grupo de estudos, vale a pena conferir este trabalho quantita-
tivo de análise poética!

A leitura aqui proposta do poema não é a única, podem existir outras inter-
pretações plausíveis, desde que justificadas com base em pistas linguísticas e
no contexto sócio histórico. Ela nos revelou a importância de se compreender a
essência do texto literário, que pode ser mais bem definida ainda com base em
alguns critérios e nas funções da linguagem.

2.6.1  Principais critérios para distinção entre o texto literário e o não


literário

Embora Platão e Fiorin (2006, p.349) afirmem que não haja critérios que de-
terminem a diferença exata entre tais textos, apresentam alguns elementos
distintivos:

a) O tema
Não existem, segundo os autores, temas exclusivos da literatura “nem aves-
sos ao seu domínio”, por isso, tal critério não deve ser adotado. No entanto, sa-
bemos que alguns temas, como o amor, a paixão, o ódio, enfim, os sentimentos
humanos, são mais abordados com frequência na literatura.

b) Ficcional e não-ficcional
Embora a literatura recrie a realidade e o texto não literário interprete as-
pectos da realidade efetivamente, os autores problematizam esse critério devi-
do à dificuldade em “discernir o real do fictício em certas situações”, como por
exemplo, um texto religioso.

c) Função:
Segundo os estudiosos, atualmente, diz-se que os textos literários têm fun-
ção estética (belo) ao passo que os não literários apresentam função utilitária

capítulo 2 • 85
(informar, explicar, documentar, convencer...). No entanto, Platão e Fiorin (2006,
p.350) questionam-se: em que consiste a função estética? Na função estética, há a
preocupação com o plano da expressão (sons), exemplificada pelos autores com
a seguinte frase de Oswald: “E tia Gabriela sogra grasnadeira grasnou graves gro-
sas de infâmia” (apud PLATÃO E FIORIN, 2006, p.350). Neste enunciado, a for-
ma, o plano da expressão (o trabalho com o som explorado pela aliteração de gr)
simboliza, representa o caráter enfadonho e desagradável da personagem. Por
isso, para compreender um texto literário, é preciso fruí-lo, isto é “perceber essa
recriação do conteúdo na expressão e não meramente o conteúdo; é entender os
significados dos elementos da expressão.” (2006, p.351).

d) Intangibilidade
O texto literário seria intangível, intocável, dele, não poderíamos alterar
uma palavra sequer ou mesmo resumi-lo. Assim, a intangibilidade não per-
mite que troquemos palavras e termos, façamos substituições ou inversões no
enunciado do literário, pois a forma é muito importante e se alterada, o texto
pode perder sua beleza. Valéry, (apud PLATÃO E FIORIN, 2006, p.351) afirma
que “quando se faz um resumo do texto não-literário, apreende-se o essencial;
quando se resume o literário, perde-se o essencial”.
Embora tais critérios sejam discutíveis e não esgotem toda a riqueza da dis-
cussão, eles nos indicam alguns caminhos para diferenciar tais textos. Assim,
Platão e Fiorin (2006, p.353) resumem os principais aspectos da linguagem em
função estética, característica do texto literário “plurissignificação, desauto-
matização11, conotação, relevância no plano da expressão e intangibilidade da
organização linguística”.
Outro assunto importante que nos auxilia a distinguir um texto literário de
um texto utilitário são as funções da linguagem, assunto da seção abaixo.

2.6.2  As funções da linguagem

Ao realizar um ato de comunicação verbal, o enunciador da mensagem es-


colhe, seleciona as palavras para depois disponibilizá-las conforme o objetivo
pretendido, conforme a função do texto. Daí resultam as funções da linguagem.
Gameiro (2010) apresenta a definição de cada função proposta pelo linguista
Romam Jakobson, vejamos cada uma delas:

11  Desautomatização: criação de novas relações entre as palavras.

86 • capítulo 2
1. Função referencial ou denotativa: centra-se no conteúdo da mensa-
gem, buscando transmitir informações objetivas sobre ela. Essa função é pre-
dominante em textos científicos e jornalísticos, essencialmente informativos,
tais como: um artigo de opinião, uma notícia, uma reportagem, uma receita,
um informativo etc. Para estes textos, o assunto, o conteúdo é mais importante
do que a forma, do que a maneira como o autor transmitirá tais dados.
©© ANDREAS GEBHARD / DPA | AFP

Jornais - veículos que trazem muitos textos em que a função referencial predomina.

2. Função expressiva ou emotiva: seu objetivo é demonstrar o sentimento


do emissor, também denominada emotiva. Por expressar seus sentimentos, o
uso da 1a pessoa do singular (eu), de interjeições e de exclamações é frequente.
Tal função é encontrada principalmente em biografias, memórias, poesias líri-
cas e cartas de amor e músicas.
Leia alguns lindos versos de “As sem razões do amor”, de Carlos Drummond,
que expressam o sentimento do eu-lírico:

capítulo 2 • 87
Os jornais são um suporte que trazem inúmeros gêneros textuais, como Histórias em
Quadrinhos, horóscopo, receitas, sinopses, resenhas, palavras cruzadas, mas os essen-
cialmente informativos são as notícias, reportagens, artigos de opiniões.

As sem-razões do amor
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga. [...]

http://www.pensador.info/poesias_de_carlos_drumond_de_andrade/

3. Função conativa ou apelativa: essa função procura organizar o texto de


forma a que se imponha sobre o receptor da mensagem, persuadindo-o, sedu-
zindo-o. Nas mensagens em que predomina essa função, busca-se envolver o
leitor com o conteúdo transmitido, levando-o a adotar este ou aquele compor-
tamento. A própria denominação desta função já auxilia em seu entendimento,
nela, há o apelo para convencer o receptor, por isso, um texto tipicamente ape-
lativo são as propagandas que tentam convencer o leitor a adquirir um produto
ou serviço. Devido a esse apelo ao leitor, a referência a ele, por meio de tu e você,
ou pelo nome da pessoa, além dos vocativos12 e imperativo13 é corriqueiro.
4. Função fática: a palavra fático significa “ruído, rumor”. Foi utilizada
inicialmente para designar certas formas que se usam para chamar a atenção
(ruídos como: psiu, ahn, ei). Essa função ocorre quando a mensagem se orienta
sobre o canal de comunicação ou contato, buscando verificar e fortalecer sua
eficiência, como ocorre nas saudações, nas ligações telefônicas, por exemplo.

12  Vocativo: função sintática que indica a quem o emissor se refere, usada para interpelar alguém: Ei, Camila,
venha até aqui, por favor. Neste exemplo, Camila é o vocativo, a quem o emissor se dirige.
13  Imperativo: modo verbal que expressa ordem: Faça, leia, compre, veja, acesse...

88 • capítulo 2
CONEXÃO
Para refletir melhor, pesquise nos principais sites de busca, bem como em livros e revistas,
reflexões interessantes sobre o uso da função fática em nosso cotidiano. Muitos autores
concordam que já que na função fática simplesmente testamos o canal, como um “alô, oi”,
muitas vezes, até nosso “bom dia” torna-se fático.

5. Função metalinguística: quando a linguagem se volta sobre si mesma,


transformando-se em seu próprio referente, ocorre a função metalinguística.
6. Função poética: quando a mensagem é elaborada de forma inovadora e
imprevista, utilizando combinações sonoras ou rítmicas, jogos de imagem ou de
ideias, valorizando as palavras, temos a manifestação da função poética da lingua-
gem. Essa função é capaz de despertar no leitor prazer estético e surpresa, pois tra-
balha com a imaginação, sendo afetiva, sugestiva, conotativa e metafórica. É en-
contrada principalmente na poesia e em textos literários, como poemas, crônicas,
contos, romances, letras de música, até mesmo em algumas propagandas.

Observe o esquema que representa as funções da linguagem, montado por


Roman Jakobson:

(Função referencial)

Referente

Mensagem
(função poética)
Destinador Destinatário
Contato
(Função expressiva) (função fática) (Função conativa)

Código

(Função metalinguística)

Disponível em: http://acd.ufrj.br/~pead/imagens/codigo.jpg,


acesso: 10 jan, 2010

capítulo 2 • 89
ELEMENTOS DA COMUNICAÇÃO

aquele que emite, envia, elabora e codifica a mensagem. É um termo


EMISSOR técnico, mais amplo do que autor.

o destinatário da mensagem, isto é, quem a recebe, decodifica a


RECEPTOR mensagem, lê, vê ou ouve a mensagem.

MENSAGEM conteúdo, texto comunicado pelo emissor.

conjunto de signos usado na transmissão e recepção da mensa-


CÓDIGO gem, o código pode ser a língua escrita ou falada, uma mensagem
eletrônica, uma videochamada etc.

REFERENTE assunto abordado na mensagem.

meio pelo qual se veicula a mensagem, seria seu “meio de transpor-


CANAL te”, uma revista, um jornal impresso, um telejornal, uma rádio, a TV,
um celular, dentre outros.

todo e qualquer problema que possa ocorrer na transmissão/elabo-


ração ou na recepção/entendimento de uma mensagem, tais como
RUÍDO as diferenças culturais, as condições acústicas e/ou visuais da si-
tuação de comunicação, a predisposição dos interlocutores e suas
diferenças.

Disponível em: http://www.graudez.com.br/literatura/funling.htm

As funções da linguagem ajudam a diferenciar um texto literário de um tex-


to não-literário. Relacionando o texto literário ao não-literário, devemos consi-
derar que no texto literário, o produtor pretende expressar seus sentimentos e
emoções, o texto é sempre subjetivo, tem uma dimensão estética, é dinâmico,

90 • capítulo 2
que possibilita a criação de novos sentidos, com predomínio da função poética
da linguagem. É, portanto, um espaço relevante de reflexão recriação lúdica da
realidade. Assim, nos textos literários, predominam as funções poética e emoti-
va, principalmente. É importante perceber que o texto literário não é exclusivo
da poesia, pode-se encontrá-lo em textos escritos em prosa ou em provérbio etc.
No texto não-literário, as relações são mais restritas, tendo em vista a ne-
cessidade de uma informação mais objetiva e direta ao transcrever fatos da
realidade exterior ou anunciar uma verdade científica. O texto não é literário,
mesmo que, ao elaborar a linguagem, seu autor tenha feito uso de figuras de
estilo, utilizado recursos estilísticos de expressão. Linguagem é organizada em
função do referente, ou seja, do que se fala: na manchete, no texto geográfi-
co, sustentado por dados comprobatórios. A função referencial predomina no
texto não-literário. Portanto, nos textos não-literários, predominam as funções:
referencial, apelativa e metalinguística.
Já o texto literário não tem essa função nem esse compromisso com a rea-
lidade exterior: é expressão da realidade interior e subjetiva de seu autor. São
textos escritos para emocionar, que utilizam a linguagem poética. Funções
emotiva e poética predominam no texto literário.
São esses os critérios que devemos considerar ao analisar e classificar um
texto em literário e não-literário. No entanto, devemos ressaltar que esta clas-
sificação não é estanque, não raro, podemos encontrar em apenas um texto,
mais de uma função, e para diferenciá-lo entre literário e não-literário, deve-
mos observar a função principal deste texto. Também pode ocorrer de uma fun-
ção aparecer tanto em um texto literário como em um não literário, observe os
exemplos:

Poesia
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.

Carlos Drummond de Andrade

capítulo 2 • 91
Verbete de dicionário:
Metalinguagem: substantivo feminino (s.f.)
1. Língua especializada que se utiliza para descrever uma língua natural.
2. Linguagem de descrição de uma outra língua formal ou informática.
Sinônimo Geral: METALÍNGUA

http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=metalinguagem

Ambos têm como função da linguagem a metalinguística, mas no poema,


há também o trabalho com a linguagem (escolha do vocabulário, combinação
das palavras, ritmo etc), que se referem à função poética, além da expressão dos
sentimentos do emissor, que se demonstra inquieto por não conseguir escrever
um poema. O uso da primeira pessoa, “minha”, evidencia esta função emotiva,
portanto, trata-se de um texto literário. Já no verbete do dicionário, o objetivo
básico é informar o sentido de metalinguagem, portanto, a função primordial
é a referencial, que nos permite classificá-lo como um texto não-literário, utili-
tário, objetivo e claro.

CONEXÃO
No site da Unicamp, você encontra análises de textos literários feitas pelos pesquisadores, o
poema “Poesia”, por exemplo, é assunto de um dos trabalhos dos alunos disponíveis no site
da universidade, confira!

Metalinguagem é a propriedade que tem a língua de voltar-se para si mesma, é a for-


ma de expressão dos dicionários e das gramáticas. O significado do termo, entretanto,
ampliou-se e hoje o encontramos associado aos vários tipos de linguagem. Uma música
cujo tema seja o próprio fazer musical terá empregado esse recurso.
Quem não se lembra do conhecido “Samba de uma Nota Só”, de Newton Mendonça,
imortalizado na voz de João Gilberto? Diz ele: “Eis aqui este sambinha/ feito numa nota
só/ outras notas vão entrar/ mas a base é uma só”, trecho entoado em uma nota só.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u1745.shtml

92 • capítulo 2
2.7  O texto e sua forma
Ao selecionar e combinar as palavras, o enunciador busca o ritmo, a sonori-
dade, uma bela imagem, as conotações e as figuras de palavras. O uso literário
da língua caracteriza-se por um cuidado especial com a forma, visando à explo-
ração de recursos que o sistema linguístico oferece, nos planos fônico, prosódi-
co, léxico, morfossintático e semântico. Essa exploração se dá por meio de vá-
rios recursos: “ritmos, sonoridades, distribuição das sequências por oposição
ou simetria, repetição de palavras ou de sons, repetições de situações ou descri-
ções etc.” (Platão e Fiorin, 2006, p.351) A maneira como o texto é explorado for-
malmente vai caracterizá-lo como literário ou não, pois como já dissemos, não
há temas específicos para caracterizar um texto como sendo literário, embora
os mais recorrentes sejam: o amor, a paixão, a vingança, enfim, os sentimentos
e as ações do homem.
Serão apresentados a seguir dois textos, um literário e um não-literário. Os
dois possuem o mesmo tema “O açúcar”: no primeiro, predomina a função po-
ética. Enquanto no segundo, há o predomínio da função referencial. Muitas
vezes, a dificuldade que se enfrenta para tal distinção deriva do fato de que o
leitor não consegue ler com sensibilidade para reconhecer as figuras que pre-
dominam em determinados textos.

Texto I

O açúcar

O branco açúcar que adoçará meu café


nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
[...]
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco [...]
e tampouco o fez o dono da usina.
[...]

capítulo 2 • 93
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
]...]

Ferreira Gullar. Toda poesia. Rio de Janeiro,


Civilização Brasileira, 1980, pp.227-228

Texto II

A cana-de-açúcar

Originária da Ásia, a cana-de-açúcar foi introduzida no Brasil pelos coloni-


zadores portugueses no século XVI. A região que durante séculos foi a grande
produtora de cana-de-açúcar no Brasil é a Zona da Mata nordestina, onde os fér-
teis solos de massapé, lém da menor distância em relação ao mercado europeu,
propiciaram condições favoráveis a esse cultivo. Atualmente, o maior produtor
nacional de cana-de-açúcar é São Paulo, seguido de Pernambuco, Alagoas, Rio
de Janeiro e Minas Gerais. Além de produzir o açúcar, que em parte é exportado
e em parte abastece o mercado interno, a cana serve também para a produção
de álcool, importante nos dias atuais como fonte de energia e de bebidas. A
imensa expansão dos canaviais no Brasil, especialmente em São Paulo, está li-
gada ao uso do álcool como combustível.

Vesentini, J.W. Brasil, sociedade e espaço. São Paulo, Ática, 1992, p.106

Comecemos por analisar a estrutura dos textos “O açúcar” e “A


cana-de-açúcar”.
No primeiro texto, a leitura parte de uma palavra do domínio comum - açú-
car - e vai ampliando sua significação, apontando os recursos formais para, as-
sim, estabelecer um paralelo entre o açúcar - branco, doce, puro - e a vida do
trabalhador que o produz - dura, amarga, triste. Percebam o uso de termos do
mesmo campo semântico, como: Açúcar/açucareiro/adoçar/dissolver/usina/

94 • capítulo 2
cana/canavial/plantar/colher/mercearia/compra /vender. Por meio do sentido
contrário de termos, como “amarga e doce, açúcar branco e usinas escuras,
vida dura e afável paladar”, o autor constrói a oposição existente entre as pesso-
as que produziram o açúcar, que têm uma vida difícil, não têm hospital, escola,
em contraposição aos que adoçam o café afável numa bela manhã em um local
aprazível. As comparações constantes também contribuem para evidenciar a
oposição entre a vida difícil e amarga do produtor do açúcar e a vida boa do
consumidor.

©© DIGITAL VISION | GETTY IMAGES


©© VGM | DREAMSTIME.COM

Vida doce do consumidor. Vida amarga do produtor.

Além de expressar o sentimento de tristeza do eu-lírico perante à desigual-


dade social (função emotiva), o poema demonstra ainda o trabalho com a men-
sagem (escolha das palavras de sentido opostos, comparações, frases organi-
zadas em versos etc.): função poética. Como seu objetivo é nos fazer refletir,
entreter, trata-se, indiscutivelmente, de um texto literário.
No segundo texto, o autor informa o leitor sobre a origem da cana-de-açú-
car, os lugares onde é produzida, como teve início seu cultivo no Brasil, portan-
to, predomina a função referencial, típica de textos não-literários.
Tomando ainda outros exemplos para caracterizar uma função informativa
e função literária da linguagem, seguem algumas situações, que trazem a reali-
dade e seu valor artístico:

capítulo 2 • 95
a) o barulho de sirene de ambulância e uma música que possui som
semelhante;
b) trotes de cavalos e a música Disparada (Geraldo Vandré);
c) uma foto retirada no alojamento dos sem-terra e quadro “Os retirantes”
de Portinari;
d) o som de vozes de crianças brincando e a música Domingo no Parque
(Gilberto Gil);
e) cenas de presidiários nus e um quadro com nus numa galeria de arte.

CONEXÃO
Procure em sites de busca “Os retirantes”, de Cândido Portinari: texto não verbal literário.
E observe como ocorre uma representação subjetiva da realidade. Ao invés de retratar fiel-
mente a realidade, os artistas recriam-na. Comparem com fotografias que retratam com mais
fidelidade a situação:
©© CORES DO BRASIL

Foto retirada de um jornal: texto não verbal não literário. Representação objetiva da realidade.

Para finalizar esta unidade, destacamos uma questão do ENEM/2009,


(Exame Nacional do Ensino Médio) que ratifica a importância de se reconhe-
cer a linguagem literária e saber diferenciá-la da utilitária. É apresentado ao

96 • capítulo 2
candidato um trecho da crônica “Uma vela para Dário”, de Dalton Trevisan.
O enunciado da questão é: “No trecho, um acontecimento é contado em lin-
guagem literária. Esse mesmo fato, se relatado em versão jornalística, com ca-
racterística de notícias, seria identificado em...”. A seguir, apresentavam-se as
alternativas de resposta. O aluno deveria ser capaz de reconhecer em qual al-
ternativa o mesmo assunto estava expresso em uma linguagem objetiva, clara,
concisa.
Se você ainda não leu crônica de Trevisan, leia-a, e pense como poderia
transformá-la em uma notícia.

ATIVIDADES
01. Pesquise a Fábula “O homem e a galinha”, que conta a história da galinha que todo dia
bota um ovo de ouro. E reflita:
a) Botar ovos é o trabalho da galinha. O ovo de ouro é o produto de seu trabalho. No en-
tanto, ele não pertence à galinha, mas ao dono, que, ao fim de um certo período, estará rico.
Qual é o tema que se pode extrair dessas figuras?
b) Em troca do ovo de ouro (produto do trabalho), a dona dá sucessivamente à galinha:
mingau, pão-de-ló e sorvete, farelo, milho. O que significam as figuras mingau, pão-de-ló etc.,
considerando que elas constituem o que se recebe para produzir ovos de ouro?
c) As figuras mingau, pão-de-ló, sorvete, farelo e milho mostram que a retribuição à gali-
nha é cada vez menor, enquanto o fruto de seu trabalho permanece constante (todos os dias,
bota um ovo de ouro). Como gasta cada vez menos com a galinha, o homem vai ficando mais
rico. Que tema aparece sob essas figuras?
d) A galinha foi embora porque quase não lhe davam nada em troca do que produzia.
Dizem que está numa casa onde a tratam a pão-de-ló. Essas figuras recobrem que sentido
mais abstrato?

02. Leia com atenção os textos abaixo e identifique a função da linguagem predominante
em cada um deles, a seguir, classifique-os em literário ou não literário.

capítulo 2 • 97
Texto 1:

Lula apela ao líder do Irã para enviar condenada à morte por apedrejamento ao
Brasil (DIMITRI DO VALLE, DE CURITIBA)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse neste sábado, em Curitiba (PR), que vai pedir
ao líder do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que envie a iraniana condenada à morte por apedreja-
mento ao Brasil, onde poderá receber asilo. Sakineh Ashtiani já recebeu 99 chibatadas como
punição por manter "relacionamento ilícito" com um homem.
"Se vale a minha amizade com o presidente do Irã e se ela [a mulher condenada] estiver
causando incômodo lá, nós a receberemos no Brasil de bom grado", disse Lula, acrescentan-
do que vai telefonar para o iraniano e conversar sobre o assunto. [...]
“Acho que nada justifica o Estado tirar a vida de alguém. Só Deus pode fazer isso", disse
o presidente.
A candidata à Presidência Dilma Roussef, em entrevista também em Curitiba, falou que a
decisão do governo de Teerã "fere" a "nós que temos sensibilidade, humanidade".
Os dois participaram no Paraná de um evento da campanha da candidata à Presidência.
[...]
ENTENDA O CASO

Mãe de dois filhos, Ashtiani recebeu 99 chicotadas após ter sido considerada culpa-
da, em maio de 2006, de ter uma "relação ilícita" com dois homens. Depois, foi declarada
culpada de "adultério estando casada", crime que sempre negou, e condenada a morte por
apedrejamento.
O anúncio de que a aplicação da pena poderia ser iminente despertou uma grande mo-
bilização internacional, e países como França, Reino Unido, EUA e Chile expressaram suas
críticas à decisão de Teerã. O governo islâmico disse então que suspenderia a pena, até
segunda ordem.

Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/775799-lula-apela


-ao-lider-do-ira-para-enviar-condenada-a-morte-por-apedrejamento-ao-brasil.
shtml Acesso em: jul de 2010

98 • capítulo 2
Texto 2:

Pesquise o texto: “Poema tirado de uma notícia de jornal” nos principais sites de busca e
verifique se ele é literário ou não literário.

(Disponível em: http://www.revista.agulha.nom.br/manuelbandeira04.html#poema.


Acesso: 20 jul. de 2010)

Texto 3:

“Meu verso nasce duro como pedra


Às vezes áspero e pontudo.
Preciso cortar. Esculpir. Bater forte. Ajeitar-lhe um jeito.
Tem vez é fácil de trabalhar.
Outros há, dura tempo.
Bem que gostaria de escrevê-los como quem chupa laranja:
Sentindo o caldo a escorrer-me macio dentro da boca”.

Disponível em: http://www.rauldeleoni.org/pensando_o_texto/06_poemas_


metalinguisticos.html Acesso: 20 jul de 2010

03. Leia com atenção a tirinha abaixo e identifique os elementos da comunicação nela pre-
sentes, isto é, especifique quem é o emissor, o receptor, a mensagem, o referente, o canal, o
código, a situação e o ruído da história do “Benedito Cujo”.

04. Leia um trecho da crônica “Medo da eternidade”, de Clarice Lispector e justifique, com
base nos critérios que diferenciam o texto literário de um utilitário (tema, texto ficcional; fun-
ção; intangibilidade), por que se trata de um texto literário.
“Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era
muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles.
Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu
tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas (...)”
(LISPECTOR, C. Medo da eternidade. As cem melhores crônicas brasileiras. SANTOS,
J. F. (Org.) Objetiva, p. 223).

capítulo 2 • 99
REFLEXÃO
Esperamos que este capítulo tenha contribuído para sua compreensão leitora, pois procura-
mos demonstrar os níveis de profundidade da leitura, a composição de um texto sincrético e
alguns critérios que distinguem um texto literário de um utilitário. Toda vez que ler um texto,
primeiro, identifique sua função: ele é referencial, está centrado no conteúdo? Ou se trata de
um texto literário, cujo objetivo e entreter, provocar reflexão, trabalhar com a palavra? Após a
identificação do objetivo do texto, procure buscar seu sentido subjacente: o que está por trás
da história, das figuras, das colocações e imagens criadas pelo autor, com certeza, sua leitura
irá melhorar muito! Tente estabelecer relações a outros textos, a assuntos diversos, pois sua
leitura será mais eficiente.

LEITURA
Recomenda-se, nesse capítulo, a leitura do artigo “Ensino e Aprendizagem de leitura literária:
um olhar sobre os poemas na sala de aula”, deLidiane Tavares do Nascimento e Silvana Oli-
veira, em que discutem o trabalho com o texto literário na sala de aula. Tão importante quanto
conhecer as características do texto literário é saber trabalhar com ele. Um dos pontos que
os PCNs destacam citado pelas estudiosas é a fruição do texto literário, tão esquecida nas
escolas: “é justamente para este plano de fruição que a literatura se destina, sobretudo quan-
do se trata de poemas; a literatura enquanto arte, “como meio de educação da sensibilidade;
como meio de atingir um conhecimento tão importante quanto o científico”.

Leia o artigo na íntegra em:


http://periodicos.unifap.br/index.php/letras/article/viewFile/586/pdf_46

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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AMARAL, Aracy. A sabedoria do compromisso com o lugar. Estudos avançados. São Paulo, v. 9, n.
23, Abr. 1995. Disponível na Scielo.
CHERRY, C. A. A comunicação humana. São Paulo, Cultrix, 1990.
CYNTRÃO, S. H. e Grupo de Pesquisa “Poesia contemporânea: representação e crítica”. O lugar da
poesia brasileira: um mapa da produção contemporânea Revista Intercâmbio. São Paulo. Disponível
em: http://www.onda.eti.br/revistaintercambio/conteudo/arquivos/1961.pdf (Acesso: jul de 2010)

100 • capítulo 2
DISCINI, N. A comunicação nos textos. São Paulo: contexto, 2007
DOMINGOS, A. A. A desmontagem do texto sincrético. Revista Estudos Linguísticos. São Paulo,
nº 32, 2003. CD-Rom. Disponível em: http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/volumes/32/htm/
comunica/ci005.htm (acesso: jul de 2010).
GAMEIRO, M. B. Teorias linguísticas. São Paulo: COC, 2010
KLEIMAN, Ângela Bustos. Texto e leitor. Campinas: Pontes, 1996.
KOCH e ELIAS, Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2008.
PLATÃO & FIORIN. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2000
_________. Lições de texto: leitura e redação.São Paulo: Ática, 2006
SANTOS, A. A. Psicopedagogia no 3º grau: Avaliação de um programa de remediação em leitura e
estudo. Pro-posições, 1(22), 27-37, 1997
SILVA, S. R. Gênero Textual e Tipologia Textual. Algosobrevestibular. http://www.algosobre.com.br/
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WITTER, G. P. Pesquisa documental, pesquisa bibliográfica e busca de informação. Estudos de
Psicologia, 7(1), 5-30, 1990.

capítulo 2 • 101
102 • capítulo 2
3
A Construção
do Parágrafo
e Aspectos
Normativos da
Língua
A construção do parágrafo e aspectos normativos da língua
Othon Garcia, autor ilustre de “Comunicação em prosa moderna” afirmou,
muito sabiamente, que não basta apenas o conhecimento das regras grama-
ticais para escrever bem, é necessário conhecer o assunto, ter ideias sobre o
que se vai abordar no texto escrito. Contudo, ele esclarece que é preciso domi-
nar pelo menos um mínimo de regras gramaticais para se escrever bem, como
por exemplo, a pontuação. Dos casos de pontuação, um que gera muitas dú-
vidas é o uso da vírgula, um dos principais tópicos abordados neste capítulo.
Outros aspectos da norma padrão, como a regência e acentuação também se-
rão estudados.

OBJETIVOS
•  Discutir o conceito do que é escrever bem;
•  Apresentar aspectos que conferem clareza ao texto;
•  Analisar a estrutura da frase;
•  Estudar a ordem direta;
•  Analisar aspectos da norma culta, como: o uso da vírgula, a regência, a acentuação

104 • capítulo 3
3.1  O que é escrever bem?
É extremamente comum ouvirmos, de estudantes em geral e até de pessoas com
nível superior, as frases: “Não sei escrever!”, “Sou ruim de redação”, “Travo na
hora de escrever”, “Escrevo tudo erado” etc. Você deve ter claro em sua mente que
não há segredos para escrever, milagres, dicas mirabolantes, regras simples...
Isso tudo é ilusão! A pessoa que escreve (o emissor) deve, em primeiro, conhecer
a língua, as regras da norma padrão, conhecer as características e as funções dos
diversos gêneros literários e utilitários que circulam na sociedade,refletir sobre o
destinatário a quem o texto se dirige e sobretudo, dominar o assunto a ser abor-
dado no texto. O trabalho com a escrita é árduo, mas prazeroso.
Muitos estudantes concluem o ensino médio sabendo de cor “as regras”
para escrever um texto dissertativo, por exemplo. Sabem que deve ter intro-
dução, desenvolvimento, conclusão, são capazes de especificar as formas de
introduzir os argumentos, os tipos de argumentação e, no entanto, produzem
textos mal elaborados, sem coesão (conexão entre as partes do texto) e coerên-
cia (sentido). Por quê? Porque não conhecem a língua (não conectam as partes
do texto, deslizam nas regras gramaticais, não possuem amplo vocabulário...),
os gêneros e, sobretudo, não têm conhecimento de mundo, não saber discutir
temas relevantes.
Chamamos, para ratificar as ideias acima desenvolvidas, o célebre Othon
Garcia, linguista, crítico literário e autor de Comunicação em Prosa Moderna
(1975, p. 275), que afirma:

Aprender a escrever é, em grande parte, se não principalmente, aprender a pensar,


aprender a encontrar ideias e a concatená-las, pois, assim como não é possível dar o
que não se tem, não se pode transmitir o que a mente não criou ou não aprovisionou.
Quando os professores nos limitamos a dar aos alunos temas para redação sem lhes
sugerirmos roteiros ou rumos para fontes de ideias, sem, por assim dizer, lhes ‘fertili-
zarmos’ a mente, o resultado é quase sempre desanimador: um aglomerado de frases
desconexas, mal redigidas, mal estruturadas, um acúmulo de palavras que se atropelam
sem sentido e sem propósito; frases em que procuram fundir ideias que não tinham ou
que foram mal pensadas ou mal digeridas. Não podiam dar o que não tinham, mesmo
que dispusessem de palavras-palavras, quer dizer, palavras de dicionário, de noções
razoáveis sobre a estrutura da frase

capítulo 3 • 105
É que palavras não criam ideias; estas, se existem, é que, forçosamente, acabam cor-
porificando-se naquelas, desde que se aprenda como associá-las e concatená-las, fun-
dindo-as em moldes frasais adequados. Quando o estudante tem algo a dizer, porque
pensou, e pensou com clareza, sua expressão é geralmente satisfatória. [...]
Todos reconhecemos ser ilusão supor – como já dissemos – que se está apto a escre-
ver quando se conhecem as regras gramaticais e suas exceções. Há evidentemente
um mínimo de gramática indispensável (grafia, pontuação, um pouco de morfologia e
um pouco de sintaxe), mínimo suficiente para permitir que o estudante adquira cer-
tos hábitos de estruturação de frases modestas mas claras, coerentes, objetivas. A
experiência nos ensina que as falhas mais graves das redações dos nossos colegiais
resultam menos das incorreções gramaticais do que da falta de ideias ou da sua má
concatenação. Escreve realmente mal o estudante que não tem o que dizer porque não
aprendeu a pôr em ordem seu pensamento, e porque não tem o que dizer, não lhe bas-
tam as regrinhas gramaticais, nem mesmo o melhor vocabulário de que possa dispor.
Portanto, é preciso fornecer-lhe os meios de disciplinar o raciocínio, de estimular-lhe
o espírito de observação dos fatos e ensiná-lo a criar ou aprovisionar ideias: ensinar,
enfim, a pensar.

Portanto, passamos a discutir, inicialmente, o que é escrever bem!


Escrever bem é escrever o texto adequado ao destinatário (ao receptor, lei-
tor), à situação, ao objetivo, utilizando a linguagem apropriada ao público e ao
canal de veiculação e que aborda o tema em consonância a esse objetivo e ao
gênero.

A tipologia textualdesigna, segundo Marcuschi, “uma espécie de sequência teorica-


mente definida pela natureza linguística de sua composição”, ou seja, textos que são
construídos basicamente da mesma forma: narrando, argumentado, expondo, descre-
vendo, fazendo injunções, serão pertencentes a um mesmo tipo. Então “tipo textual” é
o texto em que há a predominância de uma dessas sequências: narração, descrição,
dissertação, injunção. Já os gêneros textuais são os textos que circulam em situações
específicas de comunicação e possuem características semelhantes quanto ao tema,
estrutura de composição que permitem que sejam agrupados em gêneros.

106 • capítulo 3
Dessa maneira, uma notícia, uma crônica, um conto e um romance pertencerão à mes-
ma tipologia: narrativa, pois todos relatam histórias. Um artigo de opinião, um editorial,
uma crônica opinativa são gêneros do tipo argumentativo, isto é, que discutem temas.
Gêneros como receitas culinárias, bulas de remédio, manuais de instrução, receitas mé-
dicas e outros em que há a injunção (ordem, prescrição, imposição) são considerados
do tipo injuntivos.

Imagine uma reunião de negócios de uma grande empresa cujo público


sejam investidores ávidos para conhecerem os dados sobre a empresa. O con-
dutor da reunião deverá planejar um texto oral, uma breve exposição dos da-
dos que pode ser acompanhada de um texto escrito, como uma apresentação
de “Power Point”, por exemplo. Nessa exposição, o emissor deverá priorizar a
clareza, a objetividade, a concisão, a impessoalidade, a exatidão, o rigor com a
linguagem (seguindo as prescrições gramaticais), estilo elegante e outros as-
pectos que devem ser observados nesse contexto, conforme esquema a seguir
ilustra:

Emissor: diretor de empresa ou assessor da direção Receptor: investidores

Objetivo: apresentar dados que convençam os investidores a serem parceiros da empresa


(situaçã formal exige objetividade, clareza, impessoalidade etc.)
De acordo com o objetivo e a situação, escolhe-se o gênero textual: exposição oral.

Gênero e situação determinam: escolha do vocabulário, forma de tratamento, uso da


linguagem padrão, conteúdo a ser abordado, estilo, formato de apresentação, etc.

Planejando a produção textual. Fonte: elaborado pela autora.

capítulo 3 • 107
©© DMITRIYSHIRONOSOV | DREAMSTIME.COM

Planejamento, revisão, troca de ideias e escrita colaborativa são tendências na redação atual.

O planejamento é um passo essencial à escrita, tanto quanto a revisão, é


nele que o autor define as estratégias a serem utilizadas para convencer o pú-
blico-alvo, seleciona os argumentos ou recursos, define a linguagem, o estilo,
o gênero e o vocabulário do texto. Na revisão, o emissor checa se atingiu a seus
objetivos de forma satisfatória, reescrevendo e eliminando aspectos negativos.
O esquema apresentado remete aos elementos da comunicação definidos
por Jakobson (emissor, receptor, referente, mensagem, canal, código), pois ao
escolher a linguagem a ser usada, determina-se o código, a elaboração do texto
constitui a mensagem, o referente é o assunto e a situação, o canal, o meio de di-
vulgação. Quanto ao objetivo, se o texto está centrado na transmissão do assunto
de forma clara e pontual, foca-se no referente (função referencial ou denotativa),
se, por outro lado, centra-se no código, ocorrerá a função metalinguística, se está
centrado no emissor, tem-se a função emotiva, na mensagem, a função poética.
Creio que nesse esquema está uma das bases para elaborar um bom texto, você
não precisa decorá-lo, mas entender que quem escreve (emissor) a alguém (re-
ceptor) precisa elaborar uma mensagem (texto) adequada à situação.
Caso você, estudante, se torne professor (independentemente da área),
seus alunos deverão aprender desde cedo a adequação da linguagem, do tex-
to ao público, produzindo textos reais, gêneros que circulam efetivamente na

108 • capítulo 3
sociedade1 . E para saber produzir, eles precisam de modelos. Então, antes de
solicitar a produção de qualquer gênero, é preciso ler, interpretar e analisar as
suas características com afinco. O professor também deve adequar a escolha
do gênero à faixa etária, não seria adequado, por exemplo, trabalharparlendas,
trava-línguas, cantigas e outros gêneros do universo infantil com estudantes do
ensino médio. E você que não almeja ser professor, apenas deseja escrever me-
lhor? As considerações acima também dizem respeito a você: quer aprender a
escrever determinado gênero? Leia muitos textos do tipo!
A grande dificuldade dos estudantes não se encontra nos gêneros em que há
maior liberdade de expressão e menos rigor formal, mas sim nos gêneros for-
mais, que exigem clareza, precisão, linguagem culta, vocabulário diversificado
etc. Por isso, passamos a discutir alguns desses aspectos nas próximas sessões
desse capítulo.
©© ARVACSABA | DREAMSTIME.COM

A clareza de ideias é essencial em um texto.

1  Atualmente, recomenda-se que todos os docentes devem trabalhar a leitura e a interpretação do texto, não
somente os professores da área de Língua Portuguesa e Literatura.

capítulo 3 • 109
3.2  A clareza
Mattoso Câmara (1977) explica que há dois tipos de clareza: a interna e a exter-
na. A que nos interessa no momento é a interna, entendida como a capacidade
e a habilidade de recortar, no mundo das ideias, extratos significativos, articu-
lados em unidades maiores, que produzem o nexo nas frases.
Genericamente, a clareza é definida como a qualidade do texto que permite
seu rápido e fácil entendimento. Para analisar a clareza, Sautchuk (2011) apre-
senta duas versões mal escritas de um texto de difícil compreensão. Na primei-
ra versão, a má ordenação dos termos, os problemas na organização sintática
impedem a clareza, tornando-o obscuro, como se observa a seguir:

Um otorrinolaringologista confirma por muitas sensações que a gula é estimulada e


que a principal das sensações é o sabor.
Entre muitos voluntários, comparando o olfato e o paladar, o último é o que faz
a gula, os voluntários, ao sentirem o cheiro dos biscoitos com queijo com o na-
riz tampado, sendo este mais difícil de conter o impulso de querer comer mais.
(apud SAUTCHUK, I., 2011, p. 8)

Certamente, você encontrou dificuldades para compreender o parágrafo re-


produzido acima, tentando esforçar-se para completar os dados que faltaram
no texto e o tornaram ininteligível. Essa falta de clareza constitui um dos prin-
cipais obstáculos para a compreensão. Agora, observe a segunda versão apre-
sentada pela autora:

A gula não é estimulado pelo cheiro dos alimentos, e sim pelo paladar. De acordo
com um estudo de uma Universidade dos EUA mostrou um texte feito com quei-
jo cream cheese, utilizando pessôas com o nariz tapada e outras respirando. Com-
provou que o problema da gula na maioria das vezes é provocada pelo paladar.
(apud SAUTCHUK, I., 2011, p. 10)

Apesar dos desvios da norma padrão, como a falta de concordância

110 • capítulo 3
(construção padrão:“A gula não é estimulada”/problema provocado; nariz tam-
pado), os acentos desnecessários (pessoas, acordo) e o erro ortográfico (teste;
tampado), essa segunda versão do texto é mais clara do que a primeira, segun-
do Sautchuk; entretanto, não constitui uma versão perfeitamente clara. O texto
pode ser melhorado em relação à construção frasal, tal como a versão seguinte
ilustra:

A gula não é estimulada pelo cheiro dos alimentos, e sim pelo paladar. Um estudo de
uma Universidade dos EUA mostrou um teste feito com queijo cream cheese, utilizando
pessoas com o nariz tampado e outras respirando. Comprovou-se que o problema da
gula na maioria das vezes é provocado pelo paladar. (apud SAUTCHUK, I., 2011, p. 10)

Além das correções gramaticais, a autora realizou apenas duas alterações


sintáticas, porém, significativas: acrescentou um sujeito ao verbo mostrar,e-
liminando a expressão “De acordo”, que não estava adequada no contexto:
Quem mostrou?: “Um estudo mostrou” e não “De acordo com um estudo de
uma Universidade dos EUA mostrou”. A segunda correção foi o acréscimo do
“se”, como índice de indeterminação do sujeito, para não deixar o verbo “com-
provar” sem sujeito. Tais correções não tornaram o texto perfeito, mas facilita-
ram sua compreensão.

A tradição gramatical da língua Portuguesa recomenda a presença do sujeito na frase


para obtenção da clareza. No Português, ao contrário do inglês, as frases sem sujeito
são exceção. Contudo, não se costuma repetir o sujeito quando ele é o mesmo pra dois
ou mais predicados próximos, é o que denomina-se como: “sujeito elíptico”. Também
para evitar a repetição de um termo claro, utilizam-se pronomes. “Para a eficiência da
comunicação, é importante que o leitor, ao se encontrar diante de uma frase com su-
jeito subentendido ou expresso por pronome, tenha elementos suficientes e condições
para perceber de pronto o termo lexical que o autor tem em mente para denotar o ser
referencial do qual se afirma o conteúdo do predicado”.
O sujeito indeterminado deve ser usado se for irrelevante ou impossível de reconhe-
cê-lo. (BERSCH, R. D. Revista Eletrônica PUCRS, disponível em: file:///C:/Users/
Rogerio/Downloads/18563-73711-1-PB.pdf)

capítulo 3 • 111
A seguir, apresento a versão realmente melhor:

Uma pesquisa feita nos EUA revelou que o sabor dos alimentos é mais
importante do que o aroma para induzir à gula. Foram feitos testes em pes-
soas que comiam batatas fritas fechando ou não as narinas. A ausência do
olfato não foi fator que impediu um consumo maior da comida. Pôde-se
concluir, assim, que é mesmo o sabor dos alimentos que estimula a vonta-
de de comer mais. (apud SAUTCHUK, I., 2011, p. 12)

3.3  A presença do sujeito e a clareza


A clareza de um texto está diretamente ligada à construção frasal. E ao elabo-
rar uma frase, o escritor precisa planejá-la de forma que todos os elementos
possam ser recuperados com rapidez e facilidade. Tudo na língua é referência,
as palavras se referem umas às outras no texto para a construção de um todo
significativo.
Uma relação essencial na frase é a estabelecida entre o verbo e o sujeito.
Muitas frases são obscuras porque essa relação não fica nítida. De acordo com
a tradição gramatical da língua portuguesa, o sujeito pode ser omitido em con-
textos em que sua referência estiver clara. Essa possibilidade de omitir o sujeito
deve-se ao fato de que a desinência verbal o indica2. Contudo, no português atual,
principalmente na linguagem falada espontaneamente, o paradigma flexional
vem se alterando, conforme inúmeros estudos linguísticos atestam. Antes, havia
seis pessoas (eu, tu, ele, nós, vós, eles) e uma desinência para cada uma delas,
atualmente, há apenas três desinências distintas, como se ilustra a seguir:
Eu falo
Você fala
Ele/ela Fala
A gente fala
Vocês/Eles falam

2  Apresentamos, a seguir, a conjugação do verbo “falar” no presente do indicativo, grifando as terminações


(desinências) que indicam as pessoas verbais expressas entre parênteses: Falo (eu); Falas (tu); Fala (ele); falamos
(nós); falastes (vós); eles falam (eles)

112 • capítulo 3
CONEXÃO
Acesse o link indicado a seguir e leia um artigo que trata da realização do sujeito no portu-
guês brasileiro.
http://www.orbilat.com/Languages/Portuguese-Brazilian/Studies/Subject_realization.htm

Devido a essa alteração no paradigma flexional, a tendência é a de expressar


o sujeito, e não omiti-lo. Mas a dificuldade não ocorre nas frases escritas em
ordem direta e com sujeito expresso por substantivo, como em: “O gato pulou o
muro”; não há grande dificuldade para o falante reconhecer o sujeito: “o gato”.
A dificuldade ocorre quando a relação com o referencial se dá de forma indire-
ta, por meio de um elemento intermediário: um pronome ou a própria pessoa
gramatical, como em: “Este só sabe falar, não faz nada!”; “O meu é melhor!”;
“Saíram cedo!”; “Qual é o ideal?”. Nesses exemplos dados, só há clareza se a
relação sujeito-predicado estiver clara e bem definida, a quem “este, o meu, sa-
íram e qual” se referem? Somente o contexto pode indicar. Os seguintes con-
textos podem esclarecer a relação sujeito-predicado dessas expressões: “Pedro
e João fizeram um ótimo discurso ontem, mas este só sabe falar, não faz nada”;
“Carlos possui um ótimo celular, mas o meu é melhor!”; “Os estudantes que
saíram cedo perderam essa explanação”; “Tenho dois tipos de tecido, qual é o
ideal?”.

3.3.1  A estrutura da frase e a clareza

Para Sautchuk (2011, p. 15), a frase é o elemento central do texto, ela veicula
sentidos e pode se agrupar a outras formando períodos e parágrafos. A frase
pode ser constituída de uma única palavra, como: “Fogo!”, por exemplo. Pode
organizar-se também em torno de um verbo, sendo classificada, nesse caso,
como oração. As análises sintáticas, baseadas nessa classificação, são essen-
ciais para escrever bem, pois há um padrão de construção de frases em portu-
guês. Sautchuk (2011, p. 15), explica que esse padrão é representado pela se-
guinte fórmula:

capítulo 3 • 113
S + V + C
Sujeito + Verbo + Complemento
O prefeito + aumentou + os impostos.

É nesse padrão, isto é, nessa matriz, que pode ser modificada ou expandi-
da, que se apresentam as ideias centrais. Em torno delas, acrescentam-se ter-
mos acessórios que expressam ideias secundárias ou suplementares, como por
exemplo em:
6. Logo após a reeleição, o prefeito (S), que durante a campanha eleitoral,
havia negado a alta de tarifas, aumentou (V) os impostos (C), velhos vilões dos
cidadãos.
Observe que no período acima, foram adicionados diversos elementos ao
padrão SVC que acrescentaram informações complementares à ideia central:
“o prefeito aumentou os impostos”. Essas informações complementares indi-
cam o tempo (“Logo após a reeleição”), em que circunstância (“havia negado
a alta de tarifas”). Há também termos que podem ser usados para expressar a
opinião de quem escreve, como é o caso do aposto “velhos vilões dos cidadãos”.
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Organize as palavras e frases começando pela ordem direta: SVC.

Essa estrutura básica, SVC, é internalizada aos falantes nativos do portu-


guês, não é necessário saber a nomenclatura, as classificações; intuitivamente,

114 • capítulo 3
os falantes conhecem características do sujeito, tais como: ele nunca vem an-
tecedido de preposição e será sempre representado por um substantivo ou
palavra substantivada (pronomes, adjetivos e outras classes que possam de-
sempenhar o papel de substantivo), conforme nos recorda Sautchuk (2011). A
estrutura SVC é tão internalizada aos falantes nativos, que quando se lê uma
frase iniciada por qualquer termo que não seja o sujeito, o leitor fica à espera
de que algo apareça na frase como sujeito, que funcione como o ponto de apoio
inicial para formar um SVC: “No começo da noite, com as janelas fechadas, sem
um único som na sala, entre móveis cobertos de pó...” (SAUTCHUK, 2011, p.
21). A autora explica que o leitor espera o sujeito da frase e quando ele aparece,
procura um verbo que se conecte a ele e conclua o sentido: “No começo da noi-
te, com as janelas fechadas, sem um único som na sala, entre móveis cobertos
de pó, um estranho vulto aparece” (idem).
S V

Dependendo do verbo, o leitor ainda pode ansiar por um complemento: “No


começo da noite, com as janelas fechadas, sem um único som na sala, entre mó-
veis cobertos de pó, um estranho vulto ergue uma estatueta esquisita.” (ibidem).
S V C

Ficou claro que a estrutura SVC pode variar em função de o verbo ser tran-
sitivo (exigir complemento) ou intransitivo (não exigir complemento) e que a
esse padrão fixo, podem ser acrescidas outras ideias expandindo os períodos,
conforme destaca a autora:

(eu) Utilizo qualquer tipo de computador.


(eu) Utilizo, quase sempre, qualquer tipo de computador.
Esta notícia interessa a todos.
Esta notícia interessa a todos, em qualquer circunstância.
O vencedor da prova dedicou a vitória aos filhos.
O vencedor da prova, muito emocionado, dedicou a vitória aos filhos.
(SAUTCHUK, 2011, p. 24).

Outros elementos podem ser acrescentados a esses exemplos, em diferen-


tes posições, portanto, a estrutura SVC ou SV não são exclusivas. Um aspecto
importante que você deve ter observado é que os elementos inseridos entre os
elementos básicos: SVC são isolados por vírgula.
capítulo 3 • 115
Essas informações parecem básicas porque o falante nativo elabora cons-
truções desse tipo automaticamente, principalmente na fala, mas quando se
escreve, a dificuldade aumenta e as frases e os períodos são construídos preca-
riamente. Essa estrutura é importante e básica, como ratifica Bersch:

As situações de frase sem sujeito são de exceção e, em diversos sistemas linguísti-


cos e mesmo em diversas situações do Português, deparamos com argumentos que
provam esse caráter de excepcionalidade. As frases sem verbo são características da
linguagem em que predomina a afetividade.[...] A frase é o suporte da comunicação lin-
guística [...]. para que haja clareza na comunicação, deve haver uma estruturação clara
no binômio sujeito-predicado. (BERSCH, R. D., 1980, p. 109)

Para finalizar essa seção, apresentamos outro exemplo dado por Sautchuk
(idem) que ilustra uma dificuldade de localizar a informação principal devido
à distância entre o sujeito (S) e o verbo (V) e grande número de informações
intercaladas entre eles:

O anúncio de transmissão da nova gripe no país, em decorrência da morte de uma


paciente em Osasco, ocorrida em 30 de junho, e dos casos confirmados entre seus
familiares, sem relato de viagens ao exterior nem de contato com pessoas que tiveram
a doença, [não deve ser], em nenhuma hipótese, [motivo para pânico].
(Folha de S. Paulo, C4, 17 jul. 2009 apud SAUTCHUK, 2011, p. 26)

Observe a quantidade de informações encaixadas entre a ideia central: “O


anúncio de transmissão da nova gripe no país não deve ser motivo para pâni-
co.” Uma grande quantidade de elementos intercalados entre sujeito e verbo,
como no exemplo, dificulta a clareza. “A ordem SVC é tão importante para sus-
tentar a facilidade de leitura, que os jornalistas sempre a usam quando com-
põem os títulos de abertura das notícias” (SAUTCHUK, 2011, p. 27).
Por fim, vale ressaltar metáforas que têm sido amplamente usadas para
abordar a produção textual: quando você redige um texto, é como se estives-
se tecendo um tapete com fios ou linhas, sendo que as palavras, as frases são
como as linhas que vão se entrelaçando para formar o tecido/texto. A elabora-
ção de um texto pode, ainda, ser comparada a montagem de um quebra-cabe-
ças, em que ajustamos e posicionamos as frases (peças do quebra-cabeça) até

116 • capítulo 3
montarmos um todo de sentido, ou até conseguirmos expressar com exatidão o
que gostaríamos de exprimir.
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Como unir ideias (as peças do quebra cabeça) que estão em sua mente para compor um texto?

Penso ser oportuno exibir três versões de frase que escrevi para expressar
uma das frases contidas nesse livro:

Foram feitas alterações, segundo a estudiosa, pequenas, mas sig-


1ª VERSÃO nificativas...

As alterações feitas pela autora foram pequenas, porém, significa-


2ª VERSÃO tivas...

3ª VERSÃO A autora realizou poucas alterações, mas significativas...

4ª VERSÃO A autora realizou apenas duas alterações, mas significativas...

capítulo 3 • 117
Qual versão você considera mais clara e precisa? A quarta não é? Note que
nas primeiras versões, eu não havia usado o padrão: SVC, ao invés dele, havia es-
colhido a ordem inversa, com a construção na voz passiva, construção essa que
dificulta a compreensão do texto por parte do leitor. Além disso, havia muitos
elementos intercalados entre o sujeito e o verbo, como se observa:

1ª Versão
Foram feitas alterações, segundo a estudiosa, pequenas, mas significativas...
V S elemento intercalado adjunto adnominal

Essa primeira versão dificulta a leitura porque além da ordem indireta, há


elementos intercalados e um número maior de pausas. Já a quarta versão é
mais clara e precisa não só devido à ordem direta (SVC) e a voz ativa, mas tam-
bém à exatidão vocabular. Troquei o adjetivo mais vago “pequenas alterações”
pela precisão vocabular: “duas alterações”.
Portanto, além da ordem, o produtor de textos deve buscar a exatidão, preci-
são vocabular, deve analisar se os termos escolhidos se “encaixam”, pois, mui-
tas vezes, escreve-se muito e não se diz nada, como o exemplo a seguir ilustra:
“O desenvolvimento deste trabalho revelou, na possibilidade de ser tam-
bém para nós, um veículo condutor, capaz de acessar-nos, no momento neces-
sário, a aprendizagem com ele adquirida.” (SAUTCHUK, 2011, p. 29).
Embora seja possível encontrar a oração principal depreendida da ordem
SVC, “O desenvolvimento deste trabalho revelou um veículo condutor”, não
há coerência alguma, não há sentido! O que exatamente o trabalho revelou?
Condutor de quê? O leitor pode até imaginar o que o autor quis dizer, como
bem alerta Sautchuk, mas um texto referencial deve deixar claro o que realmen-
te está escrito. Isso ocorre porque as ideias são claras na mente do emissor,
mas na transposição à escrita, muitas vezes, ficam confusas, por isso, é preciso
reler SEMPRE o que escreveu procurando facilitar a compreensão para o leitor.
Nas próximas seções, explicaremos brevemente sobre fatores que determinam
a clareza, como a inversão, o uso e a extensão de ideias acessórias, as intercala-
ções, dentre outros.

118 • capítulo 3
3.3.2  A clareza e a ordem direta

A estrutura SVC discutida acima também é conhecida como “ordem direta”,


na língua portuguesa. Conforme observamos, ela não é fixa, pode ser alterada
em função do estilo do autor, do seu objetivo etc. A ordem inversa costuma ser
usada em gêneros literários, como na poesia, crônicas literárias, contos, ro-
mances etc. Sautchuk (2011, p. 32) alerta-nos que se no texto poético a ordem
inversa apresenta função expressiva, estilística, em textos referencias (cujo ob-
jetivo está na transmissão do conteúdo de forma clara e direta), tal ordem deve
ser evitada, pois prejudica a falta de clareza. Segundo a autora, é impossível ne-
gar a beleza de uma frase poética como: “Menino, fui, como os demais, feliz”,
mas também, não se pode negar a falta de clareza em: “Da verdade aqueles fun-
cionários todos muito honestos você pode acreditar que sabiam” (Sautchuk,
2011, p. 33). Contudo, ela nos adverte também que a ordem inversa é comum e
usual na língua em certos tipos de construção, como a que ocorre com os ver-
bos intransitivos (VI). Nesses casos, a ordem inversa não compromete a clareza.
Como ilustração, apresenta os exemplos:

Ordem inversa: "Intensamente, brilhava O sol."

Advérbio VI Sujeito

Ordem direta: "O sol brilhava intensamente."

Sujeito VI Advérbio

3.3.3  A concisão, a objetividade e a clareza

Certamente, você já ouviu dizer que para escrever bem, é preciso ser objetivo e
conciso, mas pode-se perguntar: como escrever com concisão e objetividade? A

capítulo 3 • 119
resposta é simples: destaque as ideias essenciais; corte informações totalmen-
te supérfluas; evite a repetição de palavras desnecessárias; foque-se no assunto
principal e use a precisão vocabular evitando a redundância.
Sautchuk (2011, p. 83) apresenta os seguintes exemplos de termos redun-
dantes que, embora sejam comuns na linguagem espontânea, no texto escrito,
devem ser evitados:

a) Criar mais de um milhão de empregos novos (só se pode criar o novo);


b) Elo de ligação (toso elo serve para ligar);
c) Superavit positivo (se é superavit, já é positivo);
d) Surpresa inesperada (não é surpresa se for esperada);
e) Fica a seu critério pessoal (se é seu, só pode ser pessoal);
f) Velhas tradições (não há tradições novas);
g) Acabamento final (todo acabamento é dado sempre no final);
h) O general do exército ficou num beco sem saída (só há generais no exér-
cito e todo beco é sem saída).

Eliminando a redundância, tem-se:


a) Criar mais de um milhão de empregos;
b) Elo;
c) Superavit esperado/animador;
d) Surpresa emocionante/decepconante;
e) Fica a seu critério;
f) Tradições renovadas;
g) Acabamento excepcional;
h) O general ficou num beco sem respostas.

SAUTCHUK, 2011, p. 83

A autora apresenta outro exemplo interessante de redundância, em que o


autor, talvez por não dominar o assunto, apenas repete as ideias, não informan-
do nada de novo:
“O Brasil possui uma população altamente miscigenada, tornando-o um
país com uma imensa mistura de raças. Esta mistura de raças faz com que
o país possua pessoas completamente diferentes umas das outras” (apud
SAUTCHUK, 2011, p. 84). Nesse exemplo, não há praticamente a evolução de

120 • capítulo 3
informações novas, no texto todo, o autor fala a mesma coisa com outras pala-
vras, criando um “conteúdo circular”, totalmente deselegante e desnecessário.
Uma das formas de evitar a redundância e o conteúdo circular é usar a pro-
priedade vocabular e a exatidão de sentido. A impropriedade vocabular e a im-
precisão de sentido decorrem do desconhecimento dos sentidos da palavra ou
do fato de a pessoa acreditar que sabe o que o termo significa e por isso, são
comuns textos como os que seguem:

a) A amostra cultural será no salão nobre do palácio do governo. (amostra


é uma porção, uma parte representativa de algo, “amostra grátis”; mostra que é
exposição de obras artísticas em geral);
b) As novelas cada vez mais trazem cenas exóticas, impróprias para meno-
res de idade. (exóticas = excêntricas, extravagantes; eróticas = relativo ao amor
sensual ou sexual);
c) Existem cenas violentas que intuem a agressividade dos jovens. (in-
tuem= do verbo “intuir”, significa “deduzir por intuição”; provavelmente seria
incitam, estimulam”).
d) O rapaz caiu, depois que foi almejado na cabeça. (almejado= desejado;
“avejão” seria o correto).

Para não cometer tantas inadequações como estas, consulte sempre o


dicionário, e para evitar a repetição e termos próximos uns aos outros, use
sinônimos.
Outro aspecto relacionado ao vocabulário na composição do texto é o uso
de neologismos e estrangeirismos, também discutido por Sautchuk (2011, p.
90). O neologismo nomeia o processo de criação de novas palavras na língua. A
todo tempo, surgem novas palavras decorrentes das transformações sociais, do
desenvolvimento tecnológico e também devido à criatividade dos falantes. Nos
textos informais, conversas espontâneas, mensagens de celular, se houver inti-
midade com o receptor, não há problemas em usar essas criações, entretanto,
nos textos que exigem formalidade, clareza e precisão, é preciso ter cautela ao
usar neologismos e também estrangeirismos (termos de outras línguas).
Dessa forma, não é adequado, em gêneros como: artigos científicos, confe-
rências, redação oficial, dissertações de vestibular e outros o uso de neologis-
mos e estrangeirismos, quando há o termo equivalente em português. Tanto
que Sautchuk (2011, p. 91) apresenta uma lista de termos neologismos que de-
vem ser evitados:

capítulo 3 • 121
NEOLOGISMOS TERMOS PREFERÍVEIS:
Otimizar Aumentar, melhorar
Contabilizar Calcular, somar
Agudizar Intensificar, complicar
Problematizar Indagar, debater
Quantificar Somar
Priorizar espaços Destacar
Equacionar Apresentar
Alavancar Apoiar, sustentar, impulsionar
Embasar Fundamentar
Conscientizar-se Conhecer

3.3.4  Informações secundárias e a clareza

As ideias suplementares, como o próprio nome indica, visam complementar,


especificar, ampliar, aperfeiçoar ou esclarecer a ideia principal, explica Saut-
chuk (idem).
Ao lado de uma ideia principal como “Um grande número de pessoas preci-
sará de ajuda emocional”, pode-se acrescentar informação suplementar como:
“Em algum momento de sua vida” em diversas posições, observe:

Posição 1: informação suplementar à esquerda da ideia principal:


“Em algum momento de sua vida, um grande número de pessoas precisará
de ajuda emocional.”

Posição 2: intercalada à ideia principal:


a) “Um grande número de pessoas, em algum momento de sua vida, pre-
cisará de ajuda emocional”.
b) “Um grande número de pessoas precisará, em algum momento de sua
vida, de ajuda emocional”.

Posição 3: no final da ideia principal:


“Um grande número de pessoas precisará de ajuda emocional, em algum
momento de sua vida”.

SAUTCHUK, 2011, p. 33.

122 • capítulo 3
A opção “a” da segunda posição não prejudica tanto a clareza como “b”, que
quebra bruscamente a ordem direta (SVC); O leitor espera que após o sujeito
e o verbo venha o complemento, mas não é isso que ocorre. Excetuando-se os
gêneros textuais que não priorizam a clareza, como os poéticos, por exemplo,
o produtor de um texto deve preferir a ordem direta, dispondo as informações
adicionais à esquerda ou à direita da ideia principal. Sautchuknos orienta que
a escolha da disposição (à direita ou à esquerda) depende da ênfase que o escri-
tor quer conferir a esta informação adicional. Você deve imaginar que toda in-
formação localizada no início da frase é mais considerada mais relevante pelo
receptor, pois e retida em sua memória mais facilmente. Observe a mudança de
sentido decorrente da posição nos exemplos a seguir:

a) Inconformado com a repercussão das notícias, o superintendente da


empresa pediu demissão logo que chegou do exterior.
b) Logo que chegou do exterior, o superintendente da empresa pediu de-
missão, inconformado com a repercussão das notícias.
c) O superintendente da empresa pediu demissão, logo que chegou do
exterior e inconformado com a repercussão das notícias.

SAUTCHUK, 2011, p. 37.

Além da ordem, Sautchuknos adverte que quando escrevemos, devemos


nos preocupar também com o número de informações suplementares ou aces-
sórias acrescidas à ideia principal. Para discutir esse assunto, apresenta o se-
guinte enunciado:

Na última semana, uma de nossas colegas de trabalho, a do setor de planejamento finan-


ceiro, sofreu, na parte da manhã, em virtude da imprudência de alguns colegas que insis-
tem em jogar cascas de frutas no chão, um grave acidente.(SAUTCHUK, 2011, p. 38).

Leu com atenção? Conseguiu depreender a ideia essencial rapidamente? A


resposta provável foi negativa, não é? Isso porque o emissor acrescentou muitas
informações secundárias (na última semana, a do setor de planejamento finan-
ceiro, sofreu, na parte da manhã, em virtude da imprudência de alguns colegas

capítulo 3 • 123
que insistem em jogar cascas de frutas no chão) ao primordial: “Uma de nos-
sas colegas de trabalho sofreu um grave acidente.” Com base nesse exemplo,
a estudiosa recomenda que, ao escrever, o emissor selecione as informações
verdadeiramente úteis, como “em virtude da imprudência de alguns colegas
que insistem em jogar cascas de frutas no chão” e descarte as informações des-
necessárias ao objetivo, como “na última semana, a do setor de planejamento
financeiro, na parte da manhã”. Por fim, declara: “É preciso estabelecer um
equilíbrio entre detalhes relevantes ou não e uma escolha criteriosa de posição
e de número de acessórios num único período.” (ibidem). Também é essencial
que se determine a extensão dessas informações suplementares.
Para finalizar a discussão sobre a quantidade de ideias suplementares,
Sautchuk discute o seguinte texto:

“O cineasta americano, John Ronald, especializado em roteiros de terror- o mais famo-


so deles, Vampiros covardes, que se transformou em filme de grande sucesso- chegou
ontem ao Brasil, logo cedo”. (SAUTCHUK, 2011, p. 38).

Para analisar o que é dispensável e o que é essencial, a autora propõe os se-


guintes questionamentos:

1. O que é dispensável? (logo cedo)


2. Quais são as informações suplementares? (especializado em roteiros
de terror- o mais famoso deles, Vampiros covardes, que se transformou em fil-
me de grande sucesso ontem ;ao Brasil).
3. Quais são as informações suplementares de outra ideia suplementar?
(o mais famoso deles, Vampiros covardes, que se transformou em filme de
grande sucesso).
4. Qual a ideia central? (O cineasta americano chegou ontem ao Brasil).

Sautchuk (2011, p. 39) apresenta duas versões mais claras e objetivas:


a) O cineasta americano, John Ronald, especializado em roteiros de terror
chegou ontem ao Brasil.
b) John Ronald, especializado em roteiros de terror, chegou ontem ao
Brasil. O cineasta americano é autor de Vampiros covardes, que se tornou filme
de grande sucesso.

124 • capítulo 3
Diante desses exemplos, ficou claro que para escrever com clareza, além de se
priorizar a ordem direta, deve-se evitar acrescentar um grande número de informa-
ções secundárias e quando elas são importantes, devem vir após a ideia principal.
Feitas essas considerações relacionadas à clareza, passaremos a discutir ou-
tro aspecto importante ligado a ela: a pontuação.
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Quais são as ideias mais importantes?

3.3.5  O uso da vírgula e a clareza

Parece irrelevante, mas não é, o uso da vírgula é essencial para a construção


de sentido do texto, como se observa nos exemplos a seguir:
1. Não vou abordar esse tema hoje.
2. Não, vou abordar esse tema hoje.

No primeiro caso, o emissor não tratará do assunto, já na segunda constru-


ção, provavelmente ele dá uma resposta negativa a alguém e depois afirma que
irá abordar o tema. Viu como a vírgula é importante? Há muitas regras para seu
uso, mas discutiremos apenas a regra geral, que está diretamente relacionada
à clareza.
Sautchuk (2011) inicia a explicação sobre a pontuação com a seguinte ressal-
va: ao contrário do que muitos pensam, a vírgula não é usada porque é preciso
respirar e sim o oposto: a pausa respiratória ocorre por causa da vírgula. “O que
determina a colocação de vírgulas é o modo como se constrói a frase e o sentido

capítulo 3 • 125
que se quer dar a ela, e não o momento de o leitor respirar.” (SAUTCHUK, 2011,
p. 41). Sendo assim, a primeira regra para o uso da vírgula é claro: Não se usa
a vírgula entre os elementos da estrutura básica SVC; a vírgula é usada apenas
para assinalar elementos encaixados nessa estrutura central. Leia a manchete a
seguir e observe que não há vírgulas porque não se intercalou nenhum elemen-
to na estrutura básica SVC:

"Governo de SP pede ajuda a empresas para solucionar crise da água.”

Sujeito verbo complemento

Atenção: Em todos os manuais de gramática você encontrará essa regra básica: A


estrutura SVC não pode ser fragmentada!

Agora, imagine se o jornalista acrescentasse informações suplementares à


ideia principal veiculada pela estrutura SVC, observando as três opções a seguir:

1. “Em gesto desesperado, governo de SP pede ajuda a empresas para so-


lucionar crise da água”.
2. “Governo de SP pede ajuda a empresas para solucionar crise da água
Em gesto desesperado.
3. “Governo de SP pede, em gesto desesperado, ajuda a empresas para so-
lucionar crise da água”.

Você deve ter concluído que a melhor opção é a primeira ou a segunda, visto
que a terceira fere a clareza por encaixar informações suplementares entre os
elementos da estrutura básica (SVC). Entretanto, você já deve ter aprendido que
essa intercalação não é proibida, a posição dos elementos em português é vari-
ável e de acordo com a ênfase que o emissor quer conferir à mensagem, organi-
za-a de determinada forma. O que você precisa entender também é que quando
ocorre essa intercalação, ela precisa ser isolada por vírgulas, como ocorre no
terceiro exemplo.

126 • capítulo 3
Sautchuk fornece uma boa dica para o uso da vírgula: Se você estiver em
dúvida se há ou não vírgula, destaque a estrutura SVC e analise se existe algum
elemento intercalado a ela, se houver, isole-o com vírgulas. Caso não haja inter-
calação, a vírgula é desnecessária.
©© NELOSA | DREAMSTIME.COM

O uso correto da vírgula é determinante para a clareza de uma frase.

A fim de ampliarmos a discussão sobre o uso da vírgula em elementos in-


tercalados, reproduzimos um dos exemplos citados por Sautchuk (2011, p. 44):

A aprendizagem da leitura de obras literárias implica acima de tudo a aquisição da


capacidade de aprender na situação representada os questionamentos acerca do ser
humano e de suas contingências. Essa aquisição só se efetua num compromisso do
leitor com o texto pela atividade crítica que supera o plano do simples prazer.

capítulo 3 • 127
É provável que você tenha sentido dificuldade para compreender a mensa-
gem principal em virtude da falta de virgulação e do excesso de informações
acessórias. Releia o mesmo texto, agora, com os termos intercalados devida-
mente isolados por vírgulas:
A aprendizagem da leitura de obras literárias implica, acima de tudo, a aqui-
sição da capacidade de aprender, na situação representada, os questionamen-
tos acerca do ser humano e de suas contingências. Essa aquisição só se efetua,
num compromisso do leitor com o texto, pela atividade crítica que supera o pla-
no do simples prazer.
Essa nova versão está mais clara em função do isolamento dos elementos
intercalados. Dizer que eles devem estar isolados, significa que é necessário
colocar vírgula no início e no final do “encaixe”. Sautchuk (2011, p. 45) orienta
que se o escritor usa apenas uma vírgula, comete um erro, como nos exemplos
a seguir:

1. Os manifestantes, em seu movimento de greve estavam em frente à


prefeitura.
2. Os manifestantes em seu movimento de greve, estavam em frente à
prefeitura.
Para corrigir o uso da vírgula, é preciso isolar os elementos intercalados,
acrescentando vírgula no início e no fim do “encaixe”, como em:
3. Os manifestantes, em seu movimento de greve, estavam em frente à
prefeitura.

Além das regras básicas estudadas (não se usa vírgula entre os elementos da
estrutura SVC; usam-se vírgulas para isolar informações adicionais à estrutura
SVC), há outra importante: usa-se a vírgula para marcar uma informação adi-
cional inserida no início ou no final da ideia principal representada pela estru-
tura SVC, isto é, nas extremidades dessa estrutura. Veja os exemplos:

Durante todo o horário de verão, o governo estimou uma economia de


R$405 milhões.

128 • capítulo 3
Durante todo o horário uma economia de
o governo estimou
de verão, R$405 milhões.

Informação adicional S verbo complemento

O governo estimou uma economia de R$ 405 milhões, durante todo o horá-


rio de verão

uma economia de durante todo o horário de


O governo estimou
R$405 milhões, verão

S Verbo complemento Informação adicional

Atenção: o emprego da vírgula é facultativo quando a informação adicional é acrescen-


tada ao final da estrutura SVC.

3.3.6  A construção do parágrafo e a clareza

Othon Garcia (1975) explica que o parágrafo é uma unidade de composição que
pode ser formada por um ou mais de um período. Nele, o autor deve elaborar
uma ideia central ou nuclear, agregando a elas outras secundárias, intimamen-
te relacionadas pelo sentido e logicamente decorrentes dela. Garcia explica
que se trata de uma definição variável, pois na prática, há diferentes usos do
parágrafo:

capítulo 3 • 129
Trata-se evidentemente de uma definição que a prática nem sempre confirma, pois
assim como há vários processos de desenvolvimento e coordenação de ideias, pode
haver também diferentes tipos de construção de parágrafo, tudo dependendo, é claro,
da natureza do assunto, do gênero de composição, do propósito e idiossincrasias do
autor e da espécie de leitor a que se destina o texto escrito. (GARCIA 1975, p. 185)

No texto, identifica-se o parágrafo pelo recuo na margem esquerda.


Garciaexplica que cada língua pode disponibilizar seus próprios recursos para
delimitar o início ou o fim de um parágrafo, entretanto, o traço característico e
mais importante do parágrafo é sua unidade temática. No caso de um parágrafo
narrativo, essa unidade se constrói em torno de um participante; no caso do
discurso expositivo, de uma ideia. Parágrafos argumentativos podem ser cons-
truídos por indução ou comprovação.
Em relação à extensão do parágrafo, não há um tamanho ideal, ela pode variar
dependendo do assunto abordado; o que realmente importa é a relação entre os
assuntos nele desenvolvida. Dessa forma, o que determina a extensão e a mudan-
ça de parágrafo não é a modificação de assunto, mas o enfoque na ideia principal,
o ponto de vista e os detalhes complementares, adverte Sautchuk (2011, p. 69).
A autora ressalta oportunamente que se em cada parágrafo, o autor abordar um
assunto diferente, o texto ficará sem nexo, “uma colcha de retalhos”. Ela ainda
recomenda a seguinte forma para separação de parágrafos: o autor deve, no pri-
meiro parágrafo, expor o assunto principal e enumerar as causas ligadas a ele, em
seguida, construir um parágrafo para desenvolver cada uma das ideias levanta-
das no primeiro parágrafo, como ocorre no texto a seguir:

Os brasileiros, ultimamente, têm revelado uma profunda descrença nas instituições po-
líticas do país. Vários fatores têm concorrido para isso, podendo ser citadas a incapa-
cidade do governo de controlar os gastos públicos e a impunidade dos que fazem mau
uso do dinheiro público. Além disso, os legislativos estão cada vez menos atuantes, não
exercendo nenhuma função de auditoria. (apudSAUTCHUK, 2011, p. 70).

Lima e Silva (2015) orientam o escritor principiante a iniciar o parágrafo


pelo tópico frasal, que é formado habitualmente por um ou dois períodos cur-
tos iniciais, constituindo a introdução da unidade de composição e fornecendo
o tema a ser desenvolvido.

130 • capítulo 3
O tópico frasal, segundo os estudiosos citados, pode apresentar-se sob di-
versas maneiras, tais como:

a) uma declaração inicial: nela, o autor elabora uma afirmação ou nega-


ção do assunto abordado, e na sequência, justifica a sentença;
b) definição: nesta forma, o tópico frasal elucida um conceito;
c) divisão: para buscar a clareza e objetividade, o autor pode dividir o tópi-
co frasal ao longo do texto.

No artigo “A construção do texto pelo parágrafo”, os autores Lima e Silva ex-


plicam que embora a maioria dos escritores inicie o parágrafo com o tópico fra-
sal, existem outras maneiras de começar tal construção, tais como: alusão histó-
rica (introdução com dados históricos que chamem a atenção do leitor); omissão
de identificadores (omitir a identificação de personagens, ativando a curiosidade
do leitor); interrogação (fazendo uma pergunta, que logicamente exigirá do leitor
maior atenção), dentre outras. Sautchuk (2011) também elucida que a elabora-
ção do parágrafo depende do tipo textual desenvolvido, nos textos narrativos, a
elaboração do parágrafo é feita de uma forma, nos dissertativos, de outra e nos
descritivos, de outra. Devido às limitações de tempo e espaço, abordaremos ape-
nas a construção do parágrafo no geral, baseados em Lima e Silva (2015).

Os autores explicam que o parágrafo, assim como o tópico, pode ser desen-
volvido de diversas maneiras, dentre elas, destacam:
1. Enumerando ou descrevendo detalhes: O autor enumera e detalha a
ideiaapresentada;
2. Confrontando, fazendo analogia ou comparando: Parao confronto de
ideias, o autor pode contrapor seres, coisas, fatos, opiniões ou fenômenos.
Nesse paralelo, o autor pode apresentar semelhanças e diferenças, fazer analo-
gias e comparações.
3. Definindo, dividindo e citando exemplos: De maneira clara e concisa, o
autor delimita o objeto, ser, fato ou fenômeno apresentado, envolvendo ou não
a divisão e a citação de exemplos.
4. Apresentando causa, motivo ou razão; consequência ou efeito: O au-
tor esclarece a causa, motivo ou razão, bem como a consequência ou efeito do
acontecimento ou fato apresentado como ideia principal. Quando se trata de
fenômenos físicos, empregamos os termos causa e efeito; se humanos, usamos
os termos motivo, razão e consequência.

capítulo 3 • 131
Conforme discutimos acima, para escrever bem e de forma clara, não bas-
ta conhecer o assunto, delimitá-lo de forma clara e concisa, é preciso, tam-
bém, obedecer às normas do português-padrão prescritas pelas Gramáticas.
Portanto, é oportuno apresentar algumas dessas regras. Ressaltamos apenas
que devido às limitações de tempo e espaço, abordaremos de forma sucinta o
uso da vírgula, a regência, a crase e a acentuação.

3.4  Breves aspectos da norma padrão que


conferem clareza e precisão ao texto: o uso
da vírgula, a regência, a crase e a acentuação.
O domínio da norma padrão constitui uma exigência não somente em redações
de vestibular, na redação oficial, mas também na comunicação do cotidiano,
pois além de permitir a rápida compreensão do texto, confere credibilidade
ao autor, conferindo-lhe uma “boa imagem”. A linguagem usada em um texto
permitirá que o leitor tenha uma boa impressão do seu autor. Assim como uti-
lizamos a roupa adequada à ocasião, devemos usar a linguagem adequada ao
contexto, e a linguagem “universal” á a padrão, que segue as prescrições grama-
ticais e que em muitos casos, distancia-se da linguagem usada informalmente,
seja na escrita, ou na fala. Há muitas gramáticas de qualidade, dentre as quais,
citamos, a de Evanildo Bechara, a de Rocha Lima, a de Celso Cunha, dentre ou-
tras, contudo, elegemos a de Cegalla. Dessa forma, as regras apresentadas nas
próximas seções foram transcritas da “Novíssima Gramáticada Língua Portu-
guesa”, de Domingos Paschoal Cegalla (2008).

3.4.1  As regras de pontuação

Antes de expor as normas que regem o uso da vírgula, Cegalla (2008, p. 428)
adverte que o uso dos sinais de pontuação não é consenso entre os escritores,
sendo difícil, portanto, apresentar normas rígidas. Contudo, uma regra encon-
trada em todos os manuais é a que afirma que não se pode separar o sujeito do
verbo, quando juntos, por vírgula, como por exemplo: “A maioria dos estudan-
tes, tem dificuldade para saber as regras de acentuação”. A vírgula usada nesse
exemplo não está de acordo com a norma padrão e é considerada desvio grave

132 • capítulo 3
pelos gramáticos. Mas se houver adjuntos ou oração entre o sujeito e o verbo,
eles virão isolados entre vírgulas, como em: “A maioria dos estudantes,mesmo
os que já terminaram o nível superior, tem dificuldade para saber as regras de
acentuação”. Feitas essas ressalvas, Cegallaexplica que os sinais de pontuação
servem a três finalidades e passa a expor as normas:

1. Assinalar pausas e as inflexões de voz (entonação) na leitura;


2. Separar palavras, expressões e orações que devem ser destacadas;
3. Esclarecer o sentido da frase, afastando qualquer ambiguidade.

Diante dessas informações iniciais, é possível iniciar as regras que determi-


nam o uso da vírgula, isto é, nos seguintes casos, você deverá usar as vírgulas:

a) Para separar palavras ou orações justapostas assindéticas:


Ex.: Os bebês, as crianças, os jovens, os adultos, todos sofrerão com a falta
de água.

b) Para separar vocativos:


Ex.: João,tragao livro aqui!

c) Para separar apostos e certos predicativos:


Ex.: O curso de Letras, licenciatura em Português, forma professores do
Ensino Fundamental e Médio. (aposto)

Audacioso e corajoso, o homem desbravou o mundo.


(predicativo)

d) Para separar orações intercaladas e outras de caráter explicativo:


Ex.: O vocativo, conforme entendem hoje, é um termo que serve para cha-
mar, interpelar, invocar alguém.
O aposto, orienta a professora, explica ou especifica uma expressão.

e) Para separar certas expressões explicativas ou retificativas, como: isto é,


a saber, por exemplo, ou melhor, ou antes, etc.
Ex.: O verdadeiro amor, isto é, o sentimento mais lindo e puro do ser huma-
no, é um excelente remédio.

capítulo 3 • 133
f) Para separar orações adjetivas explicativas:
Ex.: Pelas 11h da noite, que foi de muito vento, o soldado não aguentava
mais caminhar e caiu!

g) Para separar orações adverbiais desenvolvidas:


Ex.: Enquanto o marido trabalhava fora, a mulher ficava cuidando dos fi-
lhos e da casa.

h) Para separar orações adverbiais reduzidas:


Ex.: Ali eu entendi, sem receber explicação, aquela dura lição.

i) Para separar adjuntos adverbiais:


Ex.: No meio da noite, ouviram-se muitos gritos.
Observação: é comum não usar a vírgula quando os adjuntos adverbiais são
curtos:
À noite ouviram-se muitos gritos.

j) Para indicar elipse de um termo:


Ex.: Uns afirmam que deve existir vida além da terra, outros, que a vida ter-
mina aqui.

k) Para separar conjunções pospositivas, como: porém, contudo, pois, en-


tretanto,portanto etc.:
Ex.: Vens, entretanto, querer exigir minhas coisas!

l) Para separar elementos paralelos de um provérbio:


Ex.: Mocidade ociosa, velhice vergonhosa.

m) Para separar termos que se quer realçar:


Ex.: O dinheiro, o homem coloca em primeiro lugar.

n) Para separar o nome do lugar nas datas:


Ex.: Rio de Janeiro,10 de janeiro de 1500.

134 • capítulo 3
Você, estudante atento, deve ter observado que existe uma certa regulari-
dade em todas as regras para o uso da vírgula: sempre que houver qualquer ex-
pressão entre os elementos da estrutura SVC, haverá vírgulas!
Cegalla (208, p. 483) explica que a regência trata das “relações de depen-
dência que as palavras mantêm na frase”. Há dois tipos de regência: a verbal,
que trata das relações entre o verbo e seus complementos, e a nominal, que
cuida dos arranjos entre os nomes (substantivos e adjetivos) e os termos a eles
ligados.
Exemplos:
a) É um homem propenso ao vício.
Adjetivo complemento

O adjetivo “propenso” é o termo regente, e “ao vício”, o termo regido. Como


o adjetivo é considerado um nome, trata-se de um caso de regência nominal.
b) Assistimos à peça de teatro.
Verbo complemento

O verbo “assistimos” é o termo regente, e “à peça”, o termo regido. Quando


a relação se dá entre o verbo e seu complemento, ocorre um caso de regência
verbal.
É muito comum alguns termos regidos serem ligados aos regentes por meio
de preposições. Por isso, estudar regência é importante não só para saber se
determinado termo exige preposição ou não, mas também para conhecer qual
a preposição usada com tal termo regente e regido.
No caso dos verbos, quando há preposição entre o termo regente e o
regido, este é considerado objeto indireto. Porém, há também os objetos dire-
tos, termos regidos que se ligam diretamente aos verbos, sem preposição. Veja,
agora, a lista de substantivos e adjetivos acompanhados das preposições mais
usuais que Cegalla (2008, p. 487-488) apresenta. Note que, em alguns casos, ad-
mite-se mais de uma preposição:

capítulo 3 • 135
3.4.1.1  Regência Nominal

Afável com, para com Aversão a, para, por


Afeição a, por Alheio a, de
Aflito com, por Avesso a
Ansioso por, de Aliado a, com
Análogo a Feliz com, de, em, por
Antipatia a, contra, por Fértil de, em
Apto a, para Hostil a, para com
Atencioso com, para com Junto a, com
Imune a, de Lento em
Indulgente com, para com Pasmado de
Inerente a Passível de
Coerente com Peculiar a
Compaixão de, para com, por Pendente de
Compatível com Preferível a
Conforme a, com Propício a
Constituído de, com, por Próximo a, de
Contente com, por, de, em Rente a
Contíguo a Residente em
Cruel com, para, para com Respeito a, com, de, para com, por
Curioso de, por Simpatia a, para com, por
Desgostoso de, com Situado a, em, entre
Desprezo a, de, por Solidário com
Devoção a, para com, por Suspeito a, de
Devoto a, de Último a, de, em
Dúvida acerca de, de, em, sobre União a, com, entre
Empenho de, em, por Versado em
Fácil a, de, para Vizinho a, com, de
Falho de, em

3.4.1.2  Regência verbal

Cegalla (2008, p. 490) explica, inicialmente, que a regência dos verbos pode al-
terar seu sentido, em alguns casos, como, por exemplo, em:
Aspirei o aroma das flores (sorver, absorver).
Aspirei ao sacerdócio (desejar, pretender).
Ele assistiu ao jogo (presenciar, ver).
O médico assistiu o enfermo (prestar assistência, ajudar).

136 • capítulo 3
Olhe para ele (fixar o olhar).
Olhe por ele (cuidar, interessar-se).

Ele não precisou a quantia (informar com exatidão).


Ele não precisou da quantia (necessitar).

Cegalla (2008, p. 490-515) recomenda a regência de vários verbos, dentre os


quais listamos os seguintes:

a) Abdicar (desistir, renunciar ao poder, cargo, título, dignidade) pode ser


transitivo direto (TD) ou transitivo indireto (TI) (preposição de):
Exemplos:
– D. Pedro I abdicou em 1831 (VI).
– Nãoabdicarei a coroa (VTD).
– Não abdicarei de meus direitos (VTI).

b) Agradar (causar agrado, contentar, satisfazer, aprazer): usa-se, atual-


mente, com mais frequência, com objeto indireto, sendo o sujeito da oração
nome de coisa (uma coisa agrada a alguém):
– A canção agradou ao público.
– Minha proposta não lhe agradou.

Atenção: Quando osujeito da oração é nome de pessoa (alguém agrada al-


guém), é comum usar o objeto direto, isto é, sem preposição:
– O pai agrada os filhos. [alguém agrada alguém]
– Procura agradá-lo de todas as formas.

Usa-se o verbo como intransitivo na acepção de causar satisfação, ser agra-


dável ou atraente.
– A exibição do balé não agradou.
– Em certas horas, nada agrada tanto quanto uma boa música.
Apresenta-se com a forma pronominal, no sentido de gostar:
– Leila agradou-se muito do rapaz.
– A virtude de que Deus mais se agrada é a humildade.

capítulo 3 • 137
c) Ajudar (alguém, prestar ajuda, auxiliar a alguém) é TD:
– Antônio ajudava o pai.
– Nós os ajudaremos.
– Elas não queriam que as ajudássemos.

d) Aludir (fazer alusão, referir-se a) é VTI, isto é, constrói-se com OI:


– Na conversa, aludiu-se brevemente ao seu novo projeto.
– A que o senhor está aludindo?
– O jornal a que o ministro aludiu lhe fazia duras críticas.

Atenção: Não admite, como complemento, o pronome lhe, mesmo sendo


VTI:
Como era melindroso, não aludi a ele (e não lhe aludi).
Aquela moça o destratara, mas ele nem sequer aludiu a ela.

Outros verbos TI também não admitem o complemento lhe(s), sendo, por isso, constru-
ídos com as formas preposicionadas:
Aspiro ao título. → Aspiro a ele.
Assistimos à festa. → Assistimos a ela.
Refiro-me a João. → Refiro-me a ele.
Recorri ao ministro. → Recorri a ele.
Dependo de Deus. → Dependo dEle.
Prescindimos de armas. → Prescindimos delas.

e) Ansiar (desejar ardentemente) é TI. Use-o com a preposição [por]:


– Ansiou por ir ao seu encontro.
– Ansiava por me ver fora de casa.
Ansiar (= causar mal-estar, angustiar) é TD:
– O cansaço ansiava o trabalhador.
O cansaço ansiava-o.

f) Atender (acolher ou receber alguém com atenção): VTD:


– O diretor atendeu os alunos.
– O médico sempre os atende bem.
– O tenista não atendeu o repórter.

138 • capítulo 3
Atender (dar atenção a alguém, ouvir-lhe os conselhos, levar em considera-
ção o que alguém nos diz): VTI:
– Não atendera aos amigos, fora entregar-se a impostores.

Atender (considerar, prestar atenção, levar em consideração, satisfazer):


– Atenda bem ao que lhe digo.
O Corpo de Bombeiros atendeu a doze pedidos de socorro.

g) Bater (dar pancadas): VTI:


– Os colegas mais fortes batiam nos mais fracos.
– Por que batiam no menino? Por que lhe batiam?

Bater (bater a porta, fechar com força): VTD


– Furioso, bateu a porta.

Bater(junto à porta para que abram ou atendam): VTI


– Bateram à porta e fui atender.
©© ALPHASPIRIT | DREAMSTIME.COM

Ao estudar pela primeira vez a regência, pode parecer um assunto difícil, mas com o tempo,
assimilam-se os diferentes casos.

capítulo 3 • 139
3.4.2  A crase

A crase é o nome que se dá ao processo de fusão de dois “as”, do artigo e da pre-


posição. Para saber quando usá-la, basta verificar a regência de nomes e verbos
que exigem a preposição “a” e verificar se seus complementos aceitam o uso
do artigo feminino, se houver tal contração, a crase ocorrerá. A crase é marcada
pelo acento grave.
Não ocorre crase antes de verbo, numeral ou qualquer outra palavra mascu-
lina porque eles não admitem o artigo “a”!
Uma boa dica para aplicar a regra geral é a seguinte: se você puder substituir
o termo regido feminino por um masculino e ele for introduzido por “AO”, na
expressão feminina haverá a crase, observe:

Fui à igreja. Assisti à peça.


Fui ao parque. Assisti ao filme.

Quando se trata do uso do acento grave antes de nomes próprios geográfi-


cos, substitui-se o verbo da frase pelo verbo “vir” ou “voltar”. Caso resulte na
expressão “voltar da”, “vir da”, há a confirmação da crase.
Exemplos:
Vou à Bahia.
Volto da Bahia. Venho da Bahia (crase confirmada).
Vou a Roma.
Volto de Roma, Venho de Roma.

Há até um famoso jingle para lembrar-se da regra: “Venho da, crase há, ve-
nho de, crase pra quê?”. Essas são as duas regras gerais, os casos específicos e
exceções serão abordados em momento oportuno do curso.

3.5  Regras de acentuação


1. OXÍTONAS (última sílaba tônica):
Acentuam-se as oxítonas:
a) terminadas em “A”, “E”, “O”, "ÊM", "ÉM", "ÊNS", seguidas ou não de “S”.
Exemplos: Marajá, aliás; freguês, café; pontapé, dominó; Jericó; refém; ar-
mazém, vinténs...

140 • capítulo 3
b) terminadas em ditongos abertos, como “ÉI”, “ÉU”, “ÓI”, seguidos ou
não “S”.
Exemplos:
Méis, chapéus, anzóis.

c) formadas de muitos verbos que, ao se combinarem com pronomes


oblíquos, produzem formas monossilábicas e devem ser acentuadas por acaba-
rem assumindo alguma das terminações contidas nas regras, como as formas
verbais oxítonas terminadas em “A”, “E”, “O”, (com ou sem “S”) quando segui-
das de “LO(s)” o u “LA(s)”:
Exemplos:
Amá-las; perdê-las; repô-las..

2. PAROXÍTONAS (penúltima sílaba tônica):


a) Acentuam-se as paroxítonas terminadas em:
L – afável, fácil, cônsul, desejável, ágil, incrível.
N – pólen, abdômen, sêmen, abdômen.
R – câncer, caráter, néctar, repórter.
X – tórax, látex, ônix, fênix.
PS – fórceps, Quéops, bíceps.
Ã(S) – ímã, órfãs, ímãs, Bálcãs.
ÃO(S) – órgão, bênção, sótão, órfão.
I(S) – júri, táxi, lápis, grátis, oásis, miosótis.
ON(S) – náilon, próton, elétrons, cânon.
UM(S) – álbum, fórum, médium, álbuns.
US – ânus, bônus, vírus, Vênus.

b) Acentuam-se as paroxítonas terminadas em:em ditongos crescentes


(semivogal+vogal):Névoa, infância, tênue, calvície, série, polícia, residência,
férias, lírio.
Antes do acordo ortográfico, acentuavam-se também as paroxítonas termi-
nadas em ditongo aberto, como: ideia, Coreia, que, após o acordo, deixaram de
ser acentuadas.

capítulo 3 • 141
3. PROPAROXÍTONAS (antepenúltima sílaba tônica):
Todas as proparoxítonas são acentuadas.
Exemplos:
México, música, mágico, lâmpada, pálido, pálido, sândalo, crisântemo, pú-
blico, pároco, fotógrafo, linguística, metódico...

4. MONOSSÍLABOS TÔNICOS (uma sílaba tônica):


Acentuam-se os monossílabos terminados em: “A”, “E”, “O”, seguidos ou
não de “S”.
Exemplos:
Chá, gás, pé, mês, dó, nós,
Atenção:
Assim como ocorre nas formas oxítonas, muitos verbos, ao se combinarem
com pronomes oblíquos, produzem formas monossilábicas que devem ser
acentuadas por acabarem assumindo alguma das terminações contidas nas
regras.
Exemplos:
Fez + o= fê-lo

ATIVIDADES
01. Identifique os defeitos do texto a seguir explicando-os e, em seguida, corrija-os:
Informamos com muito prazer e alegria a todos os cidadãos de nossa querida cidade, que
no ano passado, foram criados 5 mil novos empregos pelo setor da indústria, que também
elevou os índices da economia da cidade gerando um superavit positivo. Esse maravilhoso
resultado deve-se em primeiro lugar a competência da gestora.

02. Escolha, dentre os termos, aquele que der maior exatidão de sentido à frase. Consulte o
dicionário se tiver dúvida.
a) A televisão tem como intuito/objetivo distrair pessoas.
b) A tecnologia criou vários instrumentos/apetrechos inovadores.
c) Precisamos obter/atingir resultados melhores.
d) De modo geral, as pessoas que têm/possuem certo grau de cultura/conhecimento
podem escolher melhor.

142 • capítulo 3
e) Ninguém possui/tem o direito de julgar ninguém.
f) A questão circunda/apresenta diversos aspectos.
g) O ato de perdoar está relacionado à situação experienciada/vivenciada pela pessoa.
h) Vou tirar/medir a pressão.

03. Substitua os termos que estão repetidos:


a) Pediu ajuda à polícia e ajudou a prender o estelionatário.
b) A tecnologia teve uma grande melhora na área da informática, possibilitando a analistas
e técnicos melhorar programas já bemcomplexos.

REFLEXÃO
Neste capítulo, observamos a importância de se escrever bem. Vimos essencialmente duas
qualidades essenciais ao texto: a clareza e o rigor gramatical. Você deve ter notado que não é
fácil e simples obter a clareza; o autor precisa planejar muito bem o que vai escrever, reescre-
ver várias vezes até obter a ordem mais clara. Além disso, é preciso consultar o dicionário e
gramáticas para obedecer ao padrão. Diante de tais explanações, esperamos que você passe
a escrever melhor, seguindo sempre as recomendações dadas!

LEITURA
Recomendamos a leitura do capítulo 2 do livro de Sautchuk, que, com uma linguagem clara e
concisa, discute sobre os diversos aspectos que conferem a clareza a um texto. Recomenda-
mos também o terceiro capítulo, em que ela apresenta a concisão e a objetividade.

SAUTCHUK, I. Perca o medo de escrever: da frase ao texto. São Paulo: Saraiva, 2011.

capítulo 3 • 143
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERSCH, R.D. A clareza na relação sujeito-predicado. Letras de hoje. PUCRS, v.15, n 3. (1980).
Disponível em:<http://revistaseletronicas.pucrs.br/fo/ojs/index.php/fale/issue/view/862> Acesso
em: 29 de jan. de 2015
CÂMARA, J. M. Manual de expressão oral e escrita. Petrópolis, Vozes, 1977.
CEGALLA, D. P. Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 2008.
GARCIA, Othon Moacir. Comunicação em prosa moderna. 3ª. ed., Rio de Janeiro: FGV, 1975.
LIMA, B. C. E SILVA, H. T. A construção do texto pelo parágrafo. Filologia. Disponível em: http://www.
filologia.org.br/ixcnlf/10/03.htm Acesso em: 01/02/2015.
SAUTCHUK, I. Perca o medo de escrever: da frase ao texto. São Paulo: Saraiva, 2011.

144 • capítulo 3
4
Mecanismos de
Textualização:
Coesão Textual e
Coerência Textual
Segundo Abreu (1991, p.12) “um texto não é uma unidade construída por uma
soma de sentenças, mas pelo encadeamento semântico delas, criando, assim,
uma trama semântica a que damos o nome de textualidade.” Essa textualidade
é resultado da atuação de alguns mecanismos de textualização, dentre os quais
merecem atenção especial a coerência e a coesão. Para iniciar nosso estudo, é
importante saber que, enquanto a coerência se manifesta no nível macrotextu-
al, ou seja, é responsável por estabelecer alguma forma de unidade ou relação
entre os elementos do texto, a coesão está relacionada à ligação dos vocábulos
dentro de uma sequência, o que diz respeito ao nível microtextual.
Agora, analisaremos esses mecanismos separadamente, com o cuidado de
apresentar exemplos para que você consiga não só entender os procedimentos,
mas também aplicá-los quando for escrever um texto. É importante lembra que
estudaremos a coerência e a coesão separadas, mas, muitas vezes, a coesão in-
terfere diretamente no estabelecimento de coerência de um texto, em outras
palavras, não são estruturas totalmente isoladas.

OBJETIVOS
•  Apreender o funcionamento da coesão e coerência
•  Assimilar os tipos de coesão e coerência
•  Observar o mecanismo da coesão e coerência em textos literários e utilitários

146 • capítulo 4
Introdução

Antes de iniciarmos a discussão específica sobre coesão e coerência, abriremos


esta unidade com um trecho do artigo de Rodolfo Ilari (2010) que trata das con-
tribuições da Linguística para o ensino da Língua Portuguesa.
O autor afirma que embora o termo “Produção de textos” diga respeito ao
exercício tradicional da redação escolar, abrange também outros gêneros tex-
tuais em que o educando e o educador podem trabalhar juntos. Destaca que
uma das ideias “implícitas no uso dessa denominação é que há muito mais a
fazer, em matéria de textos, do que o velho exercício da redação escolar”. Para
ele, os avanços da Linguística textual contribuíram muito ao tratar vários con-
ceitos importantes, como a coerência, a coesão, a interação e o gênero que evi-
denciaram um fato óbvio, segundo o autor: “os rituais escolares haviam por
assim dizer tornado invisível: na sala de aula, produzir um texto (seja ele uma
dissertação, uma narração, uma descrição, ou mais simplesmente um bilhete
ou um recado) é muito diferente de trabalhar sentenças”. O texto passa a ser
visto como uma unidade linguística com estrutura própria. É comum as pes-
soas serem capazes de construir textos bastante eficazes mesmo quando não
dominam a língua padrão. O autor cita como exemplo a riqueza dos relatos que
marcaram a vida das pessoas mais humildes.
Há como negar a riqueza dos textos de Patativa do Assaré, por exemplo?
Creio que não, mesmo que ele não obedeça à norma padrão. Leia o poema
“Vaqueiro”.

Eu venho dêrne menino,


Dêrne munto pequenino,
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhô.
Eu nasci pra sê vaquêro,
Sou o mais feliz brasilêro,
Eu não invejo dinhêro,
Nem diproma de dotô.
[...]

capítulo 4 • 147
Da minha vida eu me orgúio,
Levo a Jurema no embrúio
Gosto de ver o barúio
De barbatão a corrê,
[...]

http://www.revista.agulha.nom.br/anton05.html

CONEXÃO
“Patativa do Assaré” chamava-se Antônio Gonçalves da Silva (Assaré CE, 1909 -+2002).
Mesmo tendo frequentado a escola por apenas quatro meses, conseguiu publicar uma série
de livros. Foi graças à viola que deu início à atividade de compositor, cantor e improvisador.
Estas informações foram retiradas da Revista Agulha, mas na Internet, há disponíveis
muitos dos seus poemas, acessem os vídeos para trabalhar com seus alunos!

Todas estas contribuições da Linguística para o ensino destacadas por Ilari


(2010) modificaram muito a maneira de se “avaliar a redação”, “porque levam
a considerar inadequado o método de avaliação mais arraigado na escola, que
consiste em “corrigir” e dar nota à redação pela quantidade de erros de gramá-
tica e de ortografia, ao mesmo tempo em que se desconsideram suas caracterís-
ticas propriamente textuais (coesão, coerência), mas isso não é tudo”.
Feitas essas observações iniciais sobre a alteração no paradigma educacio-
nal, podemos passar à definição de coesão e coerência, que são os dois grandes
fatores que são, realmente, mais importantes em um texto, e, portanto, deve ser
a ênfase no ensino e na correção das redações escolares.

4.1  O conceito de coesão e coerência.


A coesão textual é definida como o conjunto de recursos linguísticos res-
ponsáveis pelas ligações que são estabelecidas entre os termos de uma frase,
entre as orações de um período e entre os parágrafos de um texto. Segundo
Platão & Fiorin (2006, p. 370), “a ligação, a relação, a conexão entre as palavras,
expressões ou frases do texto chama-se coesão textual”.

148 • capítulo 4
Podemos pensar, assim, que a coesão é a união dos elementos linguísticos
menores para gerar a unidade textual maior. Platão & Fiorin (2006) lançam mão
de uma metáfora para demonstrar a coesão, explicam que retalhos de tecido
só passam a ter valor quando estão conectados por fios os quais costuram as
partes de uma vestimenta. É exatamente isso que ocorre na construção do
texto! Palavras ou orações isoladas não têm valor, são os elementos coesivos1
que proporcionam a construção do texto e, consequentemente, de um todo
significativo.
Da mesma forma que os retalhos isolados não têm valor, as palavras e ter-
mos isolados também não o têm, porém, juntos, formam uma bela colcha ou
“um belo texto”:
©© JEREMY ALLEN | DREAMSTIME.COM

©© ONLY_ALONE | DREAMSTIME.COM

Uma primeira e superficial vista de “Infância”, de Oswal de Andrade, po-


deria levar o leitor a pensar que o poema não tem sentido, pois é constituído
apenas de “retalhos” não formando uma “colcha”, isto é, não tem “elementos
coesivos para retomar o que foi dito ou a encadear os segmentos” (2006, p.396)
Mas leia com atenção:

1  A coesão diz respeito ao nível microtextual, seriam “as linhas” que vão costurando, unindo as partes do texto, pois
corresponde à ligação, relação entre as palavras, expressões ou frases do texto.

capítulo 4 • 149
“Infância, de Oswald de Andrade

O Camisolão
O jarro
O passarinho (...)
Adolescência
Aquele amor (...)
Maturidade
(...)”

Apud FIORIN, J. L.; SAVIOLI, F. P. Lições de Texto:


leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006, p. 395

Conforme Platão e Fiorin (2006), é perfeitamente possível atribuir um signi-


ficado unitário a tal poema, assim, com base na leitura desses autores, apresen-
tamos uma breve análise de “Infância”.
A ausência dos elementos coesivos é significativa, auxilia a coerência, pois o
poeta quer expressar flashes de cada fase da vida, assim, os “títulos” (infância,
adolescência e maturidade) contribuem para a coerência do texto. A infância é
marcada pela descoberta da vida, (sendo que o “oceano” representa tal desco-
berta) e pelas brincadeiras (jarro, que provavelmente a criança quebrara...) e
lembranças (visita a casas).
Já a adolescência é retratada pelas experiências amorosas e por amores per-
didos. E por fim, a maturidade é repleta de formalidade e responsabilidade,
que chega com o nascimento da filha.
Além do acima exposto, vale destacar que a falta de elementos coesivos é
também uma característica dos textos modernistas2.

2  Os artistas modernistas participaram do movimento artístico cultural que envolveu não só a


Literatura, mas também as artes plásticas. Foi considerado revolucionário para a época, início
do século XX, pois sua tendência vanguardista rompia com padrões rígidos e caminhava para
uma criação mais livre. Na literatura, estas inovações ocorreram na abordagem de temas do
cotidiano, (como a infância, por exemplo, como consta no poema) com ênfase na realidade
brasileira e nos problemas sociais. O texto desprendeu-se da linguagem culta e passa a ser
mais coloquial. Nem sempre as orações seguiam uma sequência lógica e o humor costumava
estar presente. É justamente esta “falta de sequência lógica” que observamos em “Infância”.

150 • capítulo 4
Descrevemos este poema a fim de demonstrar que em um texto literário,
cujo poeta tem licença poética e explora a forma, a aparente falta de coesão
pode ser significativa, que é o que ocorre também em “Circuito fechado”.

Circuito Fechado

Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água,
espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete,
água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo; pente. Cueca, camisa, aboto-
aduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. (...). Jornal. Mesa, cadeiras, xícara
e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. (...). Mesa e
poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas,
blocos de notas. (...)

Leia o texto na íntegra, disponível em:


http://recantodasletras.uol.com.br/resenhas/2276

Embora não haja elementos coesivos ligando os termos do texto, a série de


palavras é capaz de descrever a ROTINA apressada de um homem, que acorda,
vai ao banheiro, realiza sua higiene pessoal, veste-se, toma seu café da manhã,
enfim, é possível reconstruir a rotina da personagem. Fomos capazes de iden-
tificar o sexo da personagem, que está implícito, com base nos seguintes subs-
tantivos: espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, cueca, paletó...

CONEXÃO
Procure na Internet análises de “Circuito Fechado”, nelas, vocês encontrarão discussões in-
teressantes também referentes à noção de texto.
Nos enunciados abaixo, que constituem textos não-literários, a falta de coesão prejudica
a clareza e objetividade do texto, observe:

Nos enunciados abaixo, que constituem textos não-literários, a falta de coe-


são prejudica a clareza e objetividade do texto, observe:
“Marianne tentou desvendar as emoções da irmã e fazer a irmã confessar
seus sentimentos por Paulo.” (A repetição prejudica a coesão textual)

capítulo 4 • 151
O simples uso do pronome pessoal oblíquo átono evita a repetição, tornan-
do o texto coeso:
“Marianne tentou desvendar as emoções da irmã e fazê-la confessar seus
sentimentos por Paulo.”

4.2  Tipos de coesão


Existem dois tipos principais de mecanismos de coesão que serão estudados
separadamente, são eles: a anáfora3 de termos, expressões ou frases, que cha-
maremos de coesão referencial, e o encadeamento de segmentos do texto, que
trataremos como coesão sequêncial.

4.2.1  A coesão referencial

Koch (1998, p. 30) afirma que “coesão referencial é aquela em que um com-
ponente da superfície do texto faz remissão a outro(s) elemento(s) do univer-
so textual”, em outras palavras, um termo ou enunciado faz referência a outro.
Essa coesão referencial pode ocorrer por substituição ou reiteração. Há certos
itens na língua que têm a função de estabelecer referência, isto é, fazem alusão
a algum elemento necessário a sua interpretação, como por exemplo, os prono-
mes, como demonstra a frase: "Computadores não servem para nada. Eles só
podem lhe dar respostas." (Pablo Picasso). O pronome pessoal faz referência a
computador, substituindo-o.

a) Substituição
Segundo Ferreira e Pellegrini (1999, p.230), a substituição “ocorre quando
uma palavra é retomada ou precedida por um elemento gramatical que traz as
marcas do que substitui.” Em outras palavras, você perceberá que alguns ele-
mentos gramaticais atuarão para retomar ou antecipar palavras e, dessa forma,
evitar possíveis repetições sem qualquer prejuízo para o desenvolvimento do
texto. Dentre os elementos gramaticais que promovem a coesão referencial,
destacam-se os pronomes, os advérbios, os numerais e os verbos. Observemos
os exemplos.

3  Anáfora: retomada de termos


Catáfora: antecipação de termos

152 • capítulo 4
– Substituição pronominal: pronome substitui um termo ou expressão
Comprei uma televisão. Ela tem 29 polegadas.
– Substituição verbal: verbo substitui um termo ou expressão
Jorge nada todos os dias. O filho dele faz o mesmo.
– Substituição numeral: numeral substitui um termo ou expressão
Lúcia e Paulo são irmãos. Ambos cursam Administração.
– Substituição adverbial: um advérbio substitui um termo ou expressão
Estivemos em Fortaleza. Lá quase não chove!

Pronominalização:
A pronominalização, processo sintático e semântico, confere economia sintagmática ao
texto porque permite comunicar o máximo de informações com um mínimo de signos,
assim, o texto torna-se conciso e claro, evitando a prolixidade e a redundância. Fugindo
das repetições inúteis, submetemos a mensagem a um verdadeiro “enxugamento” e
conseguimos que se apresente concisa e econômica, o que vale dizer, coesa e una.
http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/volumes/32/htm/comunica/ci168.htm

Tomemos mais um exemplo: “Leia os textos e comente-os com os colegas


da sala.”. Nele, você pode observar que o pronome pessoal do caso oblíquo
os retoma “os textos”; trata-se de um bom exemplo de coesão referencial por
substituição.
Agora, observe atentamente o uso do pronome na tirinha de Garfield:
©© GARFIELD, JIM DAVIS © 1991 PAWS, INC. ALL RIGHTS RESERVED / DIST. BY ATLANTIC SYNDICATION / UNIVERSAL PRESS SYNDICATE

O humor desta tirinha advém justamente da substituição do pronome, pois


Garfield, muito maliciosa e oportunamente, interpretou este “lo” como substitu-
tivo de “biscoito” e não de “rato”, como Jon evidentemente se referia. Da leitura
desta tirinha, podemos inferir que Garfield é guloso, folgado, preguiçoso etc.

capítulo 4 • 153
Pelo contexto, na tirinha, não há dúvidas de que o pronome substituía
“rato”, mas no dia a dia, conseguir observar a qual termo o pronome se refere
é uma habilidade não muito desenvolvida pelos alunos em geral, embora seja
muito cobrada em avaliações escolares externas, como estas três questões re-
tiradas da prova de Língua Portuguesa, da 6ª série do Ensino Fundamental do
Saresp de 2007 mostram:

1. “Hoje de manhã todo mundo chegou muito contente na escola, por-


que nós vamos tirar uma fotografia da classe, que vai ficar de lembrança para a
gente guardar por toda a vida”. Nesse trecho, as palavras grifadas, todo mundo,
nós, e a gente representam
a) os alunos da classe.
b) as pessoas em geral e a professora.
c) os alunos, a professora e o fotógrafo.
d) todas as pessoas da cidade.

2. No trecho “e foi a professora que tirou o saco da cabeça dele”, a palavra


grifada quer dizer:
a) do Rufino.
b) do Godofredo.
c) do velho.
d) do Agnaldo.

3. “Com seu rifle poderoso”


A palavra seu, grifada na frase acima refere-se ao:
a) bando de Lampião.
b) cangaceiros.
c) pai.
d) Virgulino.

Disponível em: http://saresp.fde.sp.gov.br/2007/subpages/provas.html.


Acesso em: ago. de 2010

154 • capítulo 4
Com base na leitura de um texto, os discentes têm de responder às questões
propostas, não os reproduzimos aqui por questão de espaço, mas vocês devem
acessar a prova posteriormente e poderão fazer a leitura na íntegra.
As questões por nós numeradas como 1 e 2 referem-se a um trecho de O
Pequeno Nicolau, de Goscinny. Já a terceira, ao poema Lampião e Lancelote,
publicado por Fernando Vilela.

SARESP: Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo.


A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo – SEE/SP –avaliou, em 2009, todas
as escolas da rede pública estadual que oferecem ensino regular e de todos os alunos
da 2a, 4a, 6a e 8a séries do Ensino Fundamental e da 3a série do Ensino Médio. Em
cada edição, por meio de aplicação de provas cognitivas e questionários de alunos e
de gestão, o Saresp avalia o sistema de ensino paulista para monitorar as políticas
públicas de educação.

A matriz curricular do Saresp especifica as questões acima reproduzidas


como pertencentes ao tema três: “Reconstrução da textualidade.”, que incluem
as seguintes competências:

CA 3 – Analisar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a


organização e estruturação de textos.
CA 3.1. Estabelecer relações entre segmentos do texto, identificando repetições ou
substituições que contribuem para a sua continuidade.
CA 3.2. Estabelecer relações de causa/consequência entre segmentos do texto.
CA 3.3. Distinguir um fato da opinião relativa a esse fato.
CA 3.4. Identificar no texto os elementos constitutivos da argumentação.
CA 3.5. Estabelecer relações lógico-discursivas presentes no texto, marcadas por con-
junções, advérbios etc.
CA 3.6. Estabelecer relações entre recursos expressivos e efeitos de sentido.

Disponível em: http://saresp.fde.sp.gov.br/2009/pdf/Saresp2008_


MatrizRefAvaliacao_DocBasico_Completo.pdf

capítulo 4 • 155
No tema três, os autores destacam que:

Os conteúdos se organizam, num texto, com base em processos de coerência e coe-


são que se expressam por meio de recursos linguísticos específicos, responsáveis por
apresentar informações novas e resgatar as antigas, de forma a garantir a continuidade
textual nas formas previstas pelo gênero e pela tipologia em questão.
Por isso mesmo, uma das competências fundamentais do leitor, em qualquer nível de
proficiência, consiste num conjunto de habilidades relacionadas à correta apreensão da
organização textual, por meio das marcas linguísticas que a manifestam.
Neste bloco estão incluídos os seguintes conteúdos de estudo da área: Mecanismos
coesivos – coesão referencial; coesão lexical (sinônimos, hiperônimos, repetição reite-
ração); e coesão gramatical (uso de conectivos, tempos verbais, pontuação, sequência
temporal, relações anafóricas, conectores intersentenciais, interparágrafos, intervoca-
bulares). Fatores de coerência. Estrutura e organização do texto. Aspectos semânticos,
pragmáticos, estilísticos e discursivos da argumentação. Operadores discursivos. Ope-
radores argumentativos.
[...].

http://saresp.fde.sp.gov.br/2009/pdf/Saresp2008_
MatrizRefAvaliacao_DocBasico_Completo.pdf

Fizemos questão não apenas de reproduzir algumas perguntas da avaliação


que demonstram claramente a cobrança que há sobre os mecanismos de coe-
são, como também citamos a explicação sobre as habilidades nelas envolvidas,
visto que destacam a importância de o aluno dominar os conceitos de coesão e
coerência. E se nossos futuros alunos têm de saber estes fatores, imaginemos
nós, futuros professores!

b) Reiteração (repetição)
Esse mecanismo é resultado da repetição de expressões. Observe que não
se trata necessariamente de repetir uma mesma palavra, pode ser também a re-
petição pelo uso de sinônimos ou de substantivos abstratos (nomes genéricos),
por exemplo.

156 • capítulo 4
Veja o exemplo.
“Segredos de Chefs” reúne dicas dos melhores
do mundo para o dia a dia

Em “Segredos de Chefs”, que acaba de sair pela Publifolha, mais de 80 re-


nomados mestres da gastronomia mundial revelam dicas e preciosas técnicas,
explicadas passo a passo, fundamentais para quem quer cozinhar bem.
São inúmeras sugestões de famosos chefs de restaurantes consagrados do
Brasil e do mundo. Entre eles, destacam-se François Payard, Jennifer Newburry,
William Bradford Gates, Flávia Quaresma, Laurent Suaudeau e Sergio Arno.
O livro traz entrevistas com cada um dos chefs, nas quais eles revelam seus
gostos e realizações. As dicas são úteis a todos os cozinheiros: dos iniciantes,
que poderão aprender como descascar gengibre usando uma colher de chá, aos
mais sofisticados, que saberão como amaciar lagosta.

Folha Online, 23 de dezembro de 2006

Nesse texto, você encontra a palavra “chef” repetida algumas vezes, além
disso, também há coesão por reiteração no trecho em que ocorre “renoma-
dos mestres”, visto que tal expressão reproduz exatamente o mesmo valor
semântico.

- Repetição do mesmo item lexical, geralmente, enfatiza o termo repetido.


O fogo acabou com tudo. A casa estava destruída. Da casa não sobrara nada.

- Uso de sinônimos
A criança caiu e chorou. Também o menino não fica quieto!
A médica fez uma boa escolha. Ninguém melhor que a doutora para decidir
sobre o melhor momento do parto.

- Uso de hipônimos:
Não tomo muito remédio; às vezes, um Melhoral.

- Uso de hiperônimos:
Gosto de tulipas. São as flores mais lindas que já vi!

capítulo 4 • 157
©© SERGEY ROGOVETS | DREAMSTIME.COM

Flores (hiperônimo) - Tulipas, rosas, margaridas etc: hipônimos.

Hiperônimo: palavra de sentido genérico, abrangente: automóvel, flor.


Hipônimo: palavra de sentido restrito, específico: BMW, tulipa.
Para memorizar: todo hipônimo é um hiperônimo, mas todo hiperônimo é um hipônimo!
Toda rosa é uma flor, mas nem toda flor é uma rosa!

4.2.2  Coesão Sequêncial

Koch (1998, p.49) esclarece que:

a coesão sequencial diz respeito aos procedimentos linguísticos por meio dos quais
se estabelecem, entre segmentos do texto (enunciados, partes de enunciados, pa-
rágrafos e mesmo sequências textuais), diversos tipos de relações semânticas e/ou
pragmáticas, à medida que se faz o texto progredir.

158 • capítulo 4
Como se pode ver, é a coesão sequencial que proporciona a progressão do
texto, sem fazer retomada de informações, que faz com que a informação se
desenvolva.

a) Sequenciação temporal
A coesão sequencial ocorre com a ordenação linear de termos, com o uso
de expressões que marquem tempo ou ordenação temporal e com a correlação
dos tempos verbais. Observe os exemplos.
Pare, preste atenção, escute o que ela diz.
1. Antes a desculpa era a desorganização, agora é a falta de verba.
2. Preciso das passagens para viajar.
3. Precisaria das passagens para que eu pudesse viajar.
No exemplo 1, há uma ordenação linear das orações, o que proporciona a
coesão necessária; já em 2, há as expressões antes e depois que marcam orde-
nação temporal; por fim, em 3 e 4, a correlação verbal é o elemento de coesão,
vale observar que a alteração das formas verbais interfere no valor semântico
da sentença.

b) Sequenciação por conexão


Esse tipo de coesão ocorre com o emprego de elementos conectivos, por
exemplo, preposições, conjunções e, até mesmo, a pontuação.
Veja os exemplos abaixo e observe os conectivos destacados.

São os modelos anônimos que “emprestam seus traços à imagem nascida


da imaginação do artista fotógrafo”, tal como ocorrera por anos com a pintura.
(comparação)

Mesmo que não saiba resolver a questão por inteiro, demonstre até que
ponto seu raciocínio chegou. (concessão)

Comprei um peixe, mas estava estragado. (oposição)

capítulo 4 • 159
4.3  Quebra da coesão textual
Campedelli & Souza (1999, p.41) enfatizam os fatores que podem contribuir
para a ruptura da coesão textual, dentre eles, merecem destaque o uso de regên-
cia e de concordância incorretas, frases inacabadas, uso inadequado de pro-
nomes. Observe o texto abaixo, no qual aparecem em destaque os elementos
que não ajudam na construção da coesão, porque não estão vinculados a outras
ideias presentes no texto.
Eu sou um jogador onde que sempre sei que vou fazer muito.
Houve um problema de coesão, pois “onde” deve ser utilizado apenas para se
referir a um lugar: “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jan-
daia na fronde da carnaúba”. Como pronome, “onde” faz a conexão entre “verdes
mares bravios de minha terra natal” a “canta a jandaia na fronde da carnaúba”,
como terra é um lugar, está adequado o uso. (Platão e Fiorin, 2006, p.370).

Fazem cinco anos que estou na seleção brasileira.


O verbo fazer quando indica tempo é impessoal, deveria permanecer no
singular para obedecer à norma culta: “Faz cinco anos que estou na seleção
brasileira.”

Eu sou um jogador e aí é o problema, todos os jogos que joguei lutei muito


para marcar.
O uso de “aí é o problema” prejudica o sentido da frase, o fato de ele ser um
jogador constitui um problema?

Numa copa do mundo falta pouquíssimo tempo. Acho que estou dentro
desse grupo, não sei se vou entrar lá, essa copa é para o meu pai...
O autor não citou previamente a qual grupo pertence, portanto, o uso do
pronome demonstrativo foi inadequado.

Depoimento de um atleta. apud CAMPEDELLI, S. Y & SOUZA, J. B


Produção de textos e usos da linguagem. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1999.

Como já foi comentado, os elementos em negrito não estabelecem relações


adequadas entre as orações, então, não há coesão entre as ideias. Observe a ex-
pressão “desse grupo”. Ela deveria fazer referência a um grupo anteriormente

160 • capítulo 4
citado, concorda? No entanto, ao ler novamente, você percebe que não ocorre,
no texto, qualquer outra palavra que fale, de maneira explícita, em grupo, por
isso, o termo fica deslocado, e o leitor precisa usar a criatividade para compre-
ender o que o atleta quis dizer (Copa do Mundo = time de futebol = grupo de
jogadores da seleção).
Cremos ter ilustrado a relevância dos elementos coesivos tanto para a leitu-
ra como para a produção textual, portanto, podemos iniciar a discussão sobre
a coerência.

4.4  Coerência textual


Coerência é sinônimo de adequação! Se o texto faz sentido para quem fala/es-
creve e para quem ouve/lê, ele pode ser chamado de coerente.
Segundo Ferreira & Pellegrini (1999, p.220), a coerência textual é um proces-
so que inclui dois fatores:

O conhecimento que o produtor e o receptor têm do assunto tratado no texto, deter-


minado por sua visão de mundo, sua classe social, profissão, idade, escolaridade etc.
o conhecimento que eles têm da língua que usam: tipo de texto, vocabulário, recursos
estilísticos etc.

Koch & Travaglia (1993, p.50) explicam que:

O texto será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo à situação, levando em
conta intenção comunicativa, objetivos, destinatário, regras sócio-culturais, outros ele-
mentos da situação, uso dos recursos lingüísticos, etc. Caso contrário, será coerente.

Assim, podemos pensar que a coerência está relacionada à organização do


texto como um todo (subentende-se as delimitações de início, meio e fim) e à
adequação da linguagem ao tipo de texto.
Para completar, é importante ressaltar que situações diferentes geram as
possibilidades diferentes de construção de coerência, por exemplo, em um tex-
to narrativo, há uma lógica temporal que deve ser respeitada, além disso, uma

capítulo 4 • 161
personagem não pode praticar uma ação que seja incompatível com sua ida-
de. Por outro lado, podemos pensar em uma situação diferente, por exemplo,
a produção de texto dissertativo, no qual o dissertador deve ser cauteloso para
não cair em contradição ou apresentar ideias discrepantes com a realidade, em
outras palavras, a coerência está vinculada a outros elementos do discurso.
Outro dado relevante sobre a coerência é que ela não se encontra no texto,
mas a partir dele, com base na situação comunicativa (fatores: pragmáticos4,
cognitivos, interacionais e semânticos). Portanto, constrói-se pelo leitor com
base em seus conhecimentos prévios.
Para verificar a prática, leia o trecho a seguir e avalie qual seria sua reação se
encontrasse em um jornal um depoimento como o que segue abaixo:
Fomos para Belo Horizonte, mas não foi possível aproveitar a praia, porque,
além de não fornecerem transporte, nevou muito naquele janeiro.
©© CAIO CESAR | WIKIMEDIA

Neve em São Joaquim-SC.

4  Pragmáticos: relativos à situação, ao contexto extralinguístico.

162 • capítulo 4
©© DELFIM MARTINS | KEYDISC BRASIL

Lagoa da Pampulha-BH.

Certamente, ao ler, você pensou que era uma piada ou coisa de algum lou-
co. Isso é incoerência! Nós sabemos que em Belo Horizonte não há praia e que
em poucas regiões do Brasil neva (não é o caso de BH), mas nunca em janeiro.
Este exemplo ilustra outra característica da coerência: ela é resultante da não-
contradição entre os diversos segmentos textuais que devem estar encadeados
logicamente.
Agora observe esse outro trecho:
Passamos as férias de janeiro em Belo Horizonte. Foi um verdadeiro mila-
gre! Conseguimos visitar a Pampulha e outros lugares sem uma gota de chuva!
Agora sim você percebeu coerência! Dizer que é um milagre passear em ja-
neiro sem chuva pela Pampulha, faz referência à Lagoa da Pampulha, uma la-
goa artificial que tem um conjunto arquitetônico projetado por Niemeyer, e,
em janeiro, não haver chuva, confirma o milagre!
Mais um triste exemplo de incoerência era encontrado nas antigas carti-
lhas, que não se preocupavam em relacionar as ideias, observemos:

capítulo 4 • 163
Como vocês estudarão a coesão e a coerência com maior detalhe na discipli-
na Linguística Textual, no módulo seis, podemos resumir de modo simplifica-
do tais fatores. Veja as principais características da coerência:

•  Não existe o texto incoerente em si, mas o texto pode ser incoerente em/
para determinada situação comunicativa.
•  Desta forma, será incoerente se seu produtor não souber adequá-lo à situ-
ação: intenção comunicativa, objetivos, destinatários, regras sociais culturais,
outros elementos da situação, recursos linguísticos etc.
•  A capacidade de cálculo do sentido feita pelo receptor é fundamental.
•  Mesmo um texto sendo bem estruturado (pistas necessárias ao cálculo
do seu sentido), um receptor pode não ser capaz de determinar o sentido por

164 • capítulo 4
limitações próprias (não domínio do léxico e/ ou estruturas, desconhecimento
do assunto, etc.) Nesse caso, não é o texto é incoerente, seu comentário será:
“Não consegui entender este texto”.

Ingedore Grufeld Villaça Koch e Luiz Carlos Travaglia.


A coerência textual. São Paulo: Contexto, 1993.p.50.

Observe o anúncio publicitário abaixo para entendermos melhor as coloca-


ções feitas:

Fonte: revista Fama, SP: Globo, ano 1, 31 out. 2003. P.1 apud: KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS,
Vanda Maria. Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2008, p.187.

Dependendo do conhecimento de mundo do leitor, se for, por exemplo, uma


pessoa que não possua o hábito de assistir à TV, que não gostar de novelas, reality
shows, etc, provavelmente, este receptor terá dificuldades em atribuir sentido ao
texto, podendo considerá-lo incoerente. No entanto, trata-se de um texto coeren-
te sim, tudo o que foi dito (tirar a roupa, casar com um milionário, lançar um
CD...) refere-se a um jeito fácil de virar celebridade, porém, o mais fácil, segundo

capítulo 4 • 165
o anúncio, é usar “Azaléia Celebridade”. O nome do calçado faz menção a uma
novela transmitida na época por uma grande emissora de TV brasileira.
“Celebridade by Azaléia” é uma propaganda, que, assim como a maioria dos
demais textos, exige conhecimentos prévios do leitor, e estes são adquiridos
somente por meio da leitura.
Destacando a importância da leitura para o cidadão, o Governo lança todos
os anos inúmeras campanhas para incentivar este hábito entre os brasileiros. E
assim, finalizamos esta unidade: destacando que é muito difícil haver coesão e
coerência sem leitura: Leia!
©© DIVULGAÇÃO

A leitura é essencial para a compreensão e produção textual.

166 • capítulo 4
ATIVIDADES
Leia a crônica “Como Sobreviver a um Assalto”, de Leon Eliachar e pense nas questões abaixo:
“1)Não sair de casa; 2)não ficar em casa; 3)se sair, não sair sozinho, nem acompanhado;
4)se sair sozinho ou acompanhado, não sair a pé nem de carro; 5)se sair a pé, não andar
devagar, nem depressa, nem parar; 6)se sair de carro, não parar nas esquinas, nem no meio
da rua, nem nas calçadas, nem nos sinais. Melhor deixar o carro na garagem e pegar uma
condução; 7) se pegar uma condução, não pegar ônibus, nem táxi, nem trem, nem carona; 8)
se decidir ficar em casa, não ficar sozinho nem acompanhado; 9)se ficar sozinho ou acom-
panhado, não deixar a porta aberta, nem fechada; 10) como não adianta mudar de cidade ou
de país, o único jeito é ficar no ar. Mas não num avião”.
Cony acrescenta um 11º: “11) não amar a mulher do próximo, nem a própria”.

apud: KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender


os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2008, p.189-190

01. O texto “Como Sobreviver a um Assalto“ é coerente?

02. Qual o sentido do texto?

03. O que colabora para a construção desse sentido?

04. A ausência de elementos coesivos prejudica o sentido?

05. Este texto demonstra a importância de o leitor ter conhecimento prévio? Justifique:

REFLEXÃO
Com o estudo que fizemos dos principais elementos de coesão e da coerência, você perce-
beu que conhecer esses mecanismos de textualização proporciona uma segurança maior
para ler e escrever. Preocupar-se com o conectivo correto e com as ideias escolhidas para
compor um período certamente trará melhorias seu ao texto!

capítulo 4 • 167
LEITURA
Leia com atenção os dois últimos capítulos do livro Lições de Texto, de Platão e Fiorin. Além
de esclarecer possíveis dúvidas, eles dão algumas dicas interessantes que poderão ajudar
na sua didática, por exemplo, eles explicam a coesão com uma receita de bolinho de arroz.
PLATÃO & FIORIN. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006
Além disso, dedique-se ao estudo dos conectivos. Muitas vezes deixamos a gramática
tradicional de lado, acreditando na inutilidade das regras mas, sem dúvida, conhecer alguns
detalhes faz muita diferença quando o que está em jogo é a construção da coerência e da
coesão de um texto.
Leia “O texto e a construção dos sentidos”, de Ingedore Koch. Nele, você encontrará
discussões sobre a noção de texto, importantes tanto para compreensão como para a produ-
ção; explanação sobre as estratégias cognitivas e sociointeracionais envolvidas na leitura e
interpretação textual. Este livro encerra muito do que foi discutido nas unidades iniciais e já
o prepara para a disciplina “Linguística Textual”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABREU, A. S. Curso de Redação. 3. ed. São Paulo: Ática, 1991.
CAMPEDELLI, S. Y & SOUZA, J. B Depoimento de um atleta. In: Produção de textos e usos da
linguagem. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1999.
ILARI, Rodolfo. Linguística e Ensino de Língua Portuguesa. Portal da Estação da Luz da Língua
Portuguesa (disponível em: http://www.ispla.su.se/gallery/bilagor/Portal%2BAtaliba%2BModolo.doc
Acesso: 03 ago. de 2010)
KOCH, I. & TRAVAGLIA, L. C. A coerência textual. São Paulo: Contexto, 1993.
PELLEGRINI, T & FERREIRA, M. Redação: palavra e arte. São Paulo: Atual, 1999.
PLATÃO & FIORIN. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2000
_________. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006

168 • capítulo 4
5
As Tipologias
Textuais:
a Narração,
a Descrição e
a Dissertação
Já vimos, nos temas anteriores, que a leitura não pode ser vista como sinôni-
mo de recepção passiva de informação, pois o leitor tem papel ativo na inter-
pretação. De posse dessa informação, o leitor poderá elaborar um conjunto de
hipóteses que poderão ser verificadas durante a leitura de textos, sejam infor-
mativos ou literários, em verso ou em prosa, políticos, religiosos e outros. As
informações novas passam a fazer sentido e a integrar aos conhecimentos que
o leitor já adquiriu.
Essa observação introdutória pode ser eficaz para compreender e estudar as
o agrupamento dos textos em narrativos, descritivos e dissertativos. É preciso
explicar que estes tipos podem alternar-se num mesmo texto, mas para fins di-
dáticos, estudaremos cada um desses isoladamente.

OBJETIVOS
•  Analisar as características do texto narrativo;
•  Depreender o conceito de narrativa;
•  Averiguar os elementos do texto descritivo;
•  Estudar o texto dissertativo;
•  Investigar estratégias argumentativas;
•  Observar a dissertação em diversos gêneros textuais.

170 • capítulo 5
5.1  Narrativa: um estudo teórico
Para se entender melhor a narrativa, comecemos por estudar sua origem. Os pri-
meiros estudos da narrativa começaram a partir de Aristóteles (1992), escritos
em torno do ano de 335 a.C. Posteriormente, Vladimir Propp (1928/1983/2006)
retomou tais estudos analisando os contos de fada russos e assim, lançou os
alicerces da atual narratologia.

Coelho (2005) afirma que Propp demonstrava em suas obras um grande interesse
pelos contos populares, em especial pelos contos folclóricos russos. Ao investigar tais
contos, observou a semelhança com contos originários de culturas e localizações ge-
ográficas distantes, ao redor do mundo. Intrigado, resolveu desvendar os mecanismos
por trás desta profusão dos contos folclóricos a partir de três questões que lhe pare-
ciam fundamentais:
- a forma dos contos de magia,
- as transformações ocorridas entre contos (que geravam novos contos)
- as origens destes contos.
O autor participou do formalismo russo, movimento de curta duração (1915-1930) que
em muito influenciaria o Estruturalismo. Publicou Morfologia* do conto maravilhoso em
1928, período em que o movimento formalista já se encontrava em declínio. Esta obra
influenciou diversos pesquisadores em todo o mundo tornando-se referência ou objeto
de crítica para autores importantes.

Coelho, L. A. O lugar do narrativo na mídia visual: temporalidade não linear. Departa-


mento de Artes & Design, 2010.

Como Propp (2006, p.59) descobriu que nos contos encontravam-se as mes-
mas ações referentes a personagens diferentes, passou, então a estudar os per-
sonagens e suas funções. “No estudo do conto, a questão de saber o que fazem
as personagens é a única coisa que importa; quem faz qualquer coisa e como o
faz são questões acessórias”

*-Estudo das formas. Estudo das partes que constituem um todo e das relações entre essas partes e o todo (definição
utilizada em Botânica).

capítulo 5 • 171
©© WIKIMEDIA

VLADIMIR PROPP (29. 04. 1895, St Petersburg — 22/8/1970, Leningrad) — Filologista e


estruturalista russo que analisou os componentes básicos da narrativa.

Com base nestes dados, concluiu que o que define o texto narrativo é a mu-
dança de situação, a transformação. Narrativa é, portanto, uma mudança de
estado organizada pela ação de uma personagem, seja implícita ou explícita.
Essa contribuição de Propp é muito importante para o ensino da narrativa, pois
muitos alunos confundem o simples relato com a narrativa, que envolve esta
transformação, esta mudança de estado.
Há dois tipos de narrativa: de aquisição ou de perda. Em um enunciado
como “João foi nomeado para o cargo de presidente”, houve uma mudança
positiva, de aquisição. Já em “João perdeu o cargo de presidente”, houve uma
mudança negativa, de perda. Alguém o fez passar por presidente ou a perder
o cargo. Houve uma mudança de estado, uma transformação. João passa a ter
alguma coisa que não tinha. Quando se narra que João ganhou uma fortuna, ele
é o beneficiário do dinheiro.
Os contos de fada tradicionais sempre trazem uma mudança de estado, o
protagonista encontra-se de determinado modo no início da narrativa e no fim,
acabam sendo recompensados ou punidos pelos feitos que realizam.

172 • capítulo 5
©© ANASTASIA SERDUYKOVA | DREAMSTIME.COM

O mundo dos contos de fadas.

5.2  Esquema narrativo


As considerações sobre a estrutura narrativa, bem como o esquema narrativo e
as análises propostas abaixo foram baseadas em Platão e Fiorin (2000, p.54-69)
Situação inicial → Transformação → Situação final
Enunciado de estado → Enunciado de fazer → Enunciado de estado

1. Enunciados de estados: são aqueles em que se estabelece uma relação


de posse ou de privação entre um sujeito e um objeto qualquer. Incluem-se nes-
ta classe de enunciados os dois que seguem:
a) O país tem crédito no exterior.
Como se vê, um sujeito (o país) está de posse de um objeto (a confiabilidade).
b) O país não tem crédito no exterior.
Ocorre aí um sujeito (o país) que está privado de um objeto (a confiabilidade).

capítulo 5 • 173
2. Enunciados de ação: são aqueles que, em razão da participação de um
agente qualquer, indicam a passagem de um enunciado de estado para outro.
Inclui-se na classe dos enunciados de ação o seguinte:
Os bancos estrangeiros cortaram o crédito do país no exterior.
Como se pode notar, esse enunciado relata a seguinte transformação:
– de um enunciado de estado em que o país estava de posse do objeto (con-
fiabilidade), passou-se, pela intervenção de um agente (os banqueiros), a outro
enunciado de estado em que o país está privado do objeto (confiabilidade).
Dizer, entretanto, que na estrutura narrativa ocorrem enunciados de estado
e enunciados de ação não é suficiente para explicar tudo o que se passa no in-
terior dela.
Com efeito, raramente um texto é formado de um enunciado único: nele se
articulam, em geral, vários enunciados. É preciso, pois, entender o modo como
os enunciados simples se articulam entre si, para formar sequências narrativas.
Dentro da estrutura narrativa, os enunciados podem ser agrupados em qua-
tro fases distintas: manipulação, competência, performance, sanção.
Para entender cada uma dessas fases, tomemos um texto onde se procurou
arrolar os episódios mais comuns das fábulas de princesa e dragão.

5.2.1  Fases da narrativa

5.2.1.1  Manipulação
A filha do rei era muito bela. Certo dia, um dragão raptou-a, levando-a para
sua caverna. Desolado, o rei, já avançado em anos, recorre a um príncipe, ge-
neroso e forte e lhe delega
©© CARLA F. CASTAGNO | DREAMSTIME.COM

a incumbência de libertar a
filha. Neste trecho, o rei ma-
nipula o príncipe a libertar
sua filha. No dorso de impe-
tuoso cavalo, sai o príncipe
com pressa de resgatar a
princesa.

Príncipe vai à busca da princesa.

174 • capítulo 5
5.2.1.2  Competência

Na competência, o personagem consegue o que precisa para realizar a ação.


No caminho, uma velha maltrapilha, sentindo-se perdida, rogou ao prínci-
pe que a levasse de volta para casa. Movido pela bondade do coração, ainda que
angustiado pela pressa, o príncipe desviou-se do caminho e conduziu a pobre
velha ao lar. Eis que, ante os olhos surpresos do príncipe, a velha revelou-se
como uma bela fada de vestes transluzentes. Enaltecendo a generosidade do
caráter do heroico cavaleiro, indicou a caverna do dragão, presenteou-o com
reluzente espada de ouro, advertindo-o de que somente com aquele instrumen-
to conseguiria cortar a cabeça do dragão. Junto com a espada, a bondosa fada
deu-lhe uma ânfora de prata, cheia de uma poção capaz de torná-lo invisível. A
“velha fada” auxiliou o príncipe dando-lhe a informação necessária para derro-
tar o dragão, neste momento, ele adquiriu o saber e o poder.

5.2.1.3  Performance

Seguindo as indicações da fada, o príncipe atravessa a floresta povoada de peri-


gosas feras e, sem ser visto, penetra na caverna do dragão, decapitando-o com
um só golpe de espada. Nesta etapa, o protagonista realiza a ação.

5.2.1.4  Sanção

Salva a bela princesa, o generoso cavaleiro devolve-a para o rei, que, reconhe-
cido, dá-lhe a mão da princesa e faz dele seu sucessor. Aqui, o sujeito do fazer
recebe castigo ou recompensa, como o príncipe fez uma boa ação, ganha um
“prêmio”.
No primeiro bloco dessa narrativa, o rei apela para a generosidade do prín-
cipe e lhe atribui um dever. Em outras palavras, o rei manipula o príncipe para
que ele tome uma atitude. Como é generoso, o príncipe quer salvar a princesa e
aceita o dever imposto pelo rei. Essa fase da narrativa denomina-se manipula-
ção e consiste em um personagem induzir outro a fazer alguma coisa.
Para que a manipulação seja eficiente, é necessário que o personagem ma-
nipulado queira ou deva fazer (ele pode querer e dever simultaneamente, como
no caso do príncipe).

capítulo 5 • 175
O manipulador pode usar de vários expedientes para induzir um persona-
gem a agir: um pedido, uma ordem, uma provocação, uma sedução, uma ten-
tação, uma intimidação, etc. O manipulador pode ser um personagem isolado
(o rei, por exemplo), um personagem coletivo (a pátria, o povo, os operários) e é
possível que um personagem imponha a si próprio uma obrigação. Pode ainda
ocorrer que o manipulador seja um ser animado (O capitão manda as tropas
recuar); ou inanimado (A seca fez o povo abandonar o sertão).
No segundo bloco da narrativa que acabamos de ler, o príncipe (sujeito que
vai fazer) adquire competências que ele ainda não possuía: a fada lhe ensina o
lugar da caverna e o presenteia com uma espada, portanto ele adquire saber e
poder. Por isso mesmo, essa é a fase chamada competência. Trata-se de uma
fase importante do percurso narrativo, pois, para agir, não basta que o persona-
gem queira ou deva, mas também que saiba e possa.
No terceiro bloco, o príncipe decapitou o dragão e libertou a princesa, isto é,
executou de fato aquilo que queria fazer. Essa fase é denominada performance.
Nela, há o grande feito do personagem, que normalmente luta contra as intem-
péries (dragões, bruxas, tempestades...) e salva a princesa.

O Fantástico mistério de feiurinha constitui simultaneamente uma sátira e uma ho-


menagem feita por Pedro Bandeira aos contos de fadas tradicionais. Leia e recomende
aos seus alunos das séries iniciais do ensino fundamental II e as finais do I, eles irão
adorar. Recentemente, foi lançado também o filme com base na obra de grande sucesso.

No último bloco, o rei recompensa o príncipe, ou seja, sanciona positiva-


mente as atitudes que o príncipe tomou. Por isso, chama-se essa fase sanção.

Manipulação: Um sujeito leva o outro a fazer alguma coisa. É preciso um querer e/ou
dever.
Competência: O sujeito do fazer adquire um saber e um poder.
Performance: O sujeito do fazer faz uma ação.
Sanção: O sujeito do fazer recebe castigo ou recompensa.

176 • capítulo 5
Para que vocês assimilem a estrutura da narrativa, observem o esquema a
seguir:

Esquema Narrativo

Situação Enunciado Enunciado


Transformação
Inicial de Estado de fazer

Situação Enunciado
Final de Estado

VASCONCELLOS, M. F. M.; BENEDETTI, C. R. Leitura e produção. Módulo 1.2. 1o semestre


de Letras. Ribeirão Preto: Editora COC Empreendimentos Culturais Ltda, pág. 111, 2007.
(Autoria e colaboração).

Para entender ainda mais o sentido e a estrutura de um texto narrativo, leia


Tragédia brasileira, de Manuel Bandeira.

TRAGÉDIA BRASILEIRA

Manuel Bandeira
Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa — prostituída, com sífilis, dermite nos de-
dos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no [...] Quando
Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
[...] Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
[...] Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de
inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decú-
bito dorsal, vestida de organdi azul.

BANDEIRA, Manuel Bandeira. Estrela da vida inteira.


Rio de Janeiro, J. Olímpio, 1973.

capítulo 5 • 177
À semelhança de Platão e Fiorin (2000, p.58) apresentamos uma breve aná-
lise da estrutura narrativa (performance, competência, sanção...) de Tragédia
Brasileira.
No início do texto, temos enunciados de estado, em que o autor descre-
ve os personagens: “Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa — prostituída, com sífilis, dermite nos dedos,
uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria”. Observe como os
adjetivos enriquecem a descrição.
No terceiro parágrafo do texto, iniciam-se as ações (performance) repare nos
verbos: “Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio,
pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria”. Os autores
ressaltam que a competência (tem dinheiro para realizar a mudança em Elvira)
e a manipulação (queria mudar a aparência de Elvira) estão implícitas.
Em posse do “poder” e com a “vontade”, depois que ficou com a boca boni-
ta, Maria Elvira começou a arrumar namorados e para não causar escândalos, o
marido mudava de casa, até que no fim, sancionou a esposa com a morte.
Ao longo da história, ocorreram várias transformações, Misael apaixonou-
se por Elvira; Elvira melhorou a aparência; A mulher começou a trair o marido;
eles mudaram várias vezes de casa, enfim, é justamente esta mudança que ca-
racteriza a narrativa. É interessante notar que mesmo não se tratando de um
conto de fadas tradicional, é possível aplicar os elementos propostos por Propp
(2006).

5.3  Narração
Quando criança, todo livro que ganhava de vovó, eu os nomeava, “livro de his-
torinhas”. Não sabia que a poesia começou como narrativa; só hoje estudando
as origens da poesia passo a entender que a épica é o gênero narrativo. Na épica
tem o tempo um antes, um durante e um depois.

Marilda Vasconcelos

A narração designa as grandes escolhas que regem a organização da ficção


narrativa que a expõe. Toda história é contada num tempo e espaço determina-
do e não tem uma mudança, são várias transformações.

178 • capítulo 5
Construir um texto narrativo não é apenas relatar um acontecimento. O
narrador tem como tarefa construir uma narrativa, selecionar e interpretar da-
dos e fatos, estabelecer relações e elaborar hipóteses. Terá de levar em conta a
criação de personagens, enredo, cenário e tempo. Agora, o importante é você
entender as categorias narrativas. Vamos tentar ajudá-lo nesta tarefa.

5.3.1  O narrador

Comecemos pelo narrador. Toda história precisa ser contada por alguém; esse
ser que conta a história em um texto narrativo é chamado de narrador. Por meio
deste, tomamos conhecimento do enredo, das características das personagens,
da descrição dos cenários etc. O narrador deve adotar um foco narrativo: 1a ou
3a pessoa. Se for em 3a, ele pode saber tudo, se for em 1a, depende da sua atua-
ção dentro do enredo.

É importante não confundir o narrador com o autor do texto, na realidade, o autor cria o
narrador para que este relate a história. Existem três tipos básicos de narrador:

a) Narrador-personagem: participa da história e por isso, narra-a em primeira pessoa.


b) Narrador em terceira pessoa: o narrador não participa da história, apenas relata
os fatos sem envolver-se neles.
c) Narrador onisciente: é aquele que tudo sabe e tudo vê, podendo até conhecer
o interior dos personagens.

Tomemos a história de Misael e Elvira contada acima, com narrador obser-


vador, em terceira pessoa, poderíamos mudar seu foco narrativo para primei-
ra pessoa, possibilitando a história fosse relatada tanto por Misael como por
Elvira. Teríamos algo como: “Quando encontrei Elvira, ela era uma prostituta,
doente, maltratada, mas mesmo assim, apaixonei-me por ela e a ajudei.” Um
exercício como este, de mudança de foco narrativo, é fundamental para o aluno
observar as diferenças entre os tipos de narradores. Além disso, é importante
ressaltar também que quando se pede uma narrativa em primeira pessoa, o uso
do pronome “eu” não obriga que o escritor, no caso nosso aluno, escreva sua
própria vida, ao contrário, é interessante que ele crie um personagem criativo,
com outra vivência.

capítulo 5 • 179
Notem que o narrador em primeira pessoa favorece a expressão dos senti-
mentos do personagem, por isso, sua maneira de contar é marcada pela sub-
jetividade e proximidade dos fatos, transmitindo uma visão parcial sobre eles.
Observe como o uso da primeira pessoa é constante:
Parei para conversar com o meu vizinho que me chamava. Eu notei uma
alegria em seus olhos e perguntei:
–Por que tanta alegria?
Ele me respondeu:
–Meu amigo, minha senhora está para dar a luz um filho. Por isso, estou
cantando de tanta felicidade. É o que eu sempre quis. Você sabe.

As palavras que evidenciam o uso da primeira pessoa são principalmente os verbos,


como: “falei, perguntei”, que, mesmo sem os pronomes, demonstram a pessoa pela ter-
minação verbal. Advérbios e pronomes (possessivos: meu, minha, demonstrativos, esta
e pessoais: eu, ele...) também indicam a pessoa gramatical. Fique atento!

Confiram mais um exemplo de narrativa em terceira pessoa, sem a partici-


pação do personagem, que elucida uma postura mais distante em relação aos
fatos e personagens:
“Os homens estavam felizes pulavam e cantavam sem parar. As pessoas ape-
nas observavam, quando de repente uma chuva caiu e acabou com a diversão.”
Se a história “Tragédia Brasileira” tivesse sido contada por um narrador
onisciente, talvez tivéssemos indícios sobre os sentimentos dos personagens
para “tomarmos partido” de um deles, pois o narrador onisciente é capaz de
descrever até mesmo as emoções mais íntimas dos personagens.
Como observamos na história “Tragédia brasileira”, o narrador em terceira
pessoa relata a história com certa imparcialidade, em nenhum momento, fica
clara a posição do narrador em relação aos fatos, ele parece não condenar nem
a atitude de Misael, nem a de Elvira.

5.3.2  Os personagens

Quem participa dos acontecimentos? As personagens, protagonistas e an-


tagonistas, que devem ser caracterizadas física (altura, cor dos cabelos, dos
olhos, etc.) e psicologicamente (o comportamento delas).

180 • capítulo 5
A narração pode centrar-se num conflito entre o personagem e o meio am-
biente, ou entre dois personagens, neste caso, podem ser caracterizados como
o mocinho e o bandido, seja do bem e do mal (herói e vilão). A esses persona-
gens, damos os nomes de protagonista e antagonista, respectivamente.

O Dicionário Houaiss fornece o significado original dessas palavras:


Protagonista: [Do gr. protagonistés, o principal ‘ator’, ou ‘competidor’.] S. 2g. 1. O pri-
meiro ator do drama grego. [...] 2. Teat. e Cin. A personagem de uma peça teatral, de um
filme, de um romance, etc. 3. Fig. Pessoa que desempenha ou ocupa o primeiro lugar
num acontecimento.
Antagonista: [Do gr. antagonistés, pelo lat. antagonista.]. Adj. 2 g. 1 Que atua em sen-
tido oposto, opositor, adversário. [...] S. 2g. 4. Pessoa que é contra alguém ou algo,
adversário, opositor.

As classificações das personagens apresentadas abaixo são baseadas na


classificação das personagens de Forster (apud MOISÉS, 1996, p.110) Para o
autor, na análise da prosa de ficção, ocupam papéis centrais as personagens:

1. Planas (lineares):
São personagens “simples”, estáticas, não têm profundidade, apresentam
apenas uma característica ou qualidade. Não tem uma personalidade comple-
xa, ao contrário, esta é básica e não surpreende o leitor. As personagens planas
são dividas em tipos e caricaturas:
a) Tipos: como o próprio nome indica, os traços específicos das perso-
nagens as tornam tão singulares e inesquecíveis que acabam virando ícones,
como por exemplo, o Dom Quixote, o Jeca Tatu e tantos outros que representa-
vam os tipos, como: as fofoqueiras, as carolas, os padres etc.
b) Caricaturas: estas se diferem dos tipos por apresentarem uma caracte-
rística esdrúxula, que leva ao ridículo e ao humor.

CONEXÃO
Pesquise a caricatura nos principais sites de busca e divirta-se com o “exagero” e ao mesmo
tempo “fidelidade” com que são representadas as pessoas neste gênero textual.

capítulo 5 • 181
2. Redondas:
Ao contrário das planas, as personagens redondas são complexas, dinâmi-
cas, “complicadas” por apresentarem várias características, são também cha-
madas de multiformes. Ao longo da narrativa, vão mudando. (FORSTER, 1954,
apud MOISÉS, 1996, p.110). São classificadas em:
a) Caracteres
A complexidade destes personagens é tão grande que os problemas por eles
gerados são de difícil solução, como é o caso de Édipo rei, uma verdadeira tra-
gédia grega.
b) Símbolos
Os símbolos são mais complexos ainda do que os caracteres, tanto que são
personagens que parecem ter características sobrenaturais, divinais, tanto
que são capazes de realizar múltiplas ações. São exemplos deste tipo de per-
sonagem: Diadorim, de Grande Sertão: Veredas, Ulisses, da epopeia grega, A
Odisséia, de Homero.

A classificação acima é dada com base na “personalidade das personagens”,


já a divisão em principais e secundárias diz respeito à importância que desem-
penham no enredo, vejamos os tipos:
a) Protagonistas
São as mais importantes para o desenvolvimento das ações.
b) Antagonistas
Substitui o termo antigo “vilão”, pois atualmente, o antagonista é o respon-
sável por impedir, dificultar, atormentar a “vida” dos protagonistas. Por isso,
não são necessariamente pessoas; às vezes, são representadas por sentimen-
tos, grupos sociais, peculiaridades de ordem física, psicológica ou social dos
indivíduos e até podem representar instituições. “Suponhamos que você tenha
uma história onde dois indivíduos do mesmo sexo se amem e queiram casar.
O antagonista será o Estado, a sociedade, a Constituição que os impedirá de
concretizarem seus desejos.”
c) Coadjuvantes
O mesmo que secundárias. Co-auxiliam no desenvolvimento da história

182 • capítulo 5
CONEXÃO
Para refletir melhor, pesquise nos principais sites de busca, bem como em livros e revistas,
dicas para criação de personagens que poderão auxiliá-lo na produção de textos narrativos.
Em roteiros de cinema, você encontrará facilmente estas dicas.

5.3.3  O tempo, o espaço e o enredo na narrativa

Onde e como acontece? – O cenário aparece como elemento obrigatório dentro


de um texto narrativo com a função determinada no texto de especificar o lugar
onde as ações se desenrolam. O cenário também sustenta as ações de persona-
gens ao fornecer pistas sobre acontecimentos etc.
Quando? – O tempo numa narrativa representa o transcurso de existência,
de ações possíveis na vida real, acontecimentos e ações com uma duração.
O que acontece? Como? Por quê? A consequência dos fatos. O enredo – É
dele que se tem a própria história, um centro de conflito a atuação das persona-
gens em determinados cenários, durante algum tempo, contado, para o leitor,
por um narrador.

5.4  Formas de discurso


Existem três maneiras de o narrador relatar a história, discursar, são elas: Dis-
curso direto; Discurso indireto; Discurso indireto livre.

Discurso direto
É aquele que reproduz exatamente o que escutou ou leu de outra pessoa. Isto
é, o narrador dá a voz ao próprio personagem, é como se ele estivesse falando.
O discurso direto é marcado pelo emprego de verbos de elocução, do tipo:
afirmar, negar, perguntar, responder, entre outros. Contudo, Ernani & Nicola
(2001, p.347) destacam que alguns autores modernos, como Luís Fernando
Veríssimo, por exemplo, deixam de utiliza, em alguns momentos, verbos de
elocução para conferir mais ritmo à narrativa, como se verifica em:

capítulo 5 • 183
O Paranoico só fala no telefone tapando o bocal com um lenço. Para disfar-
çar a voz.
“Podem estar gravando.
– Mas você ligou para saber a hora certa!
– Nunca se sabe.”

VERÍSSIMO, L. F. O megalo e o paranoico. O rei do rock – crônicas. Porto


Alegre: RBS/Globo, 1987, p.22 apud ERNANI & NICOLA, 2001, p.347

Observa-se no trecho da crônica, que os verbos foram omitidos para que a


leitura da crônica seja mais veloz e ágil, assim, ao invés de dizer: O paranoico
diz: [...], o autor prefere introduzir a fala do personagem diretamente.
O uso dos sinais de pontuação, como, os dois-pontos (:), as aspas (“ ”), o
travessão ( — ) e a vírgula (,) introduzem a fala do personagem separando-a da
do narrador.
Exemplo:
O homem falou:
– O meu filho está fazendo curso universitário.

Discurso indireto
É aquele reproduzido pelo narrador com suas próprias palavras, aquilo que
escutou ou leu de outra pessoa. O narrador conta com suas palavras o que o
outro disse.
Neste discurso, eliminam-se os sinais de pontuação e usam-se as conjun-
ções: que, se, como etc.
Exemplo:
O homem falou que o seu filho estava fazendo curso universitário.
Devemos atentar para as mudanças a serem feitas quando se muda do dis-
curso direto para o indireto:

Discurso direto:
Renato falou:
Meu filho está fazendo curso universitário aqui nesta cidade mesmo.
Discurso indireto:
Renato falou que seu filho estava fazendo curso universitário lá naquela ci-
dade mesmo.

184 • capítulo 5
Como outra pessoa conta o que Renato disse, seu discurso torna-se passa-
do, sendo necessário alterar: o tempo verbal, os pronomes possessivos e de-
monstrativos, que de 1a pessoa passam para a 3a, e os advérbios que expressam
lugar: aqui, lá.
A tabela abaixo evidencia as principais mudanças a serem feitas em relação
ao tempo verbal, assim, se no discurso direto temos um imperativo, como por
exemplo:
– Filho, pegue para mim esta jarra! (discurso direto, verbo no imperativo)
No discurso indireto, teremos que mudar para:
A mãe pediu ao filho que pegasse a jarra para ela. (discurso indireto, verbo
no pretérito imperfeito do subjuntivo)

DISCURSO DIRETO DISCURSO INDIRETO

•  presente do indicativo: fala •  pretérito imperfeito do indicativo: falou


•  pretérito perfeito do indicativo: falou •  pret. mais-que-perfeito do indicativo: falara
•  Imperativo: fale •  pretérito imperfeito do subjuntivo: falasse
•  futuro do presente do indicativo: falará •  futuro do pret. do ind. : falaria

Mudança no tempo verbal.


Celso Cunha (1985, p.619) afirma que o discurso direto é expressivo porque
tem capacidade de “atualizar o episódio, fazendo emergir da situação a perso-
nagem, tornando-a viva para o ouvinte, à maneira de uma cena teatral, em que
o narrador desempenha a mera função de indicador das falas”. Por isso, não
deixe de criar fala para os personagens em suas produções narrativas.

Discurso indireto livre


No discurso indireto livre, há uma espécie de mistura entre o direto e o in-
direto, pois se associam as suas características. É o mais difícil de reconhecer
porque a fala interior da personagem (as emoções, as ideias, os sentimentos,
as reflexões) insere-se na em meio à fala do narrador de forma sutil, causando
certa confusão em relação a quem está se pronunciando (ele ou a personagem).
Portanto, é comum o desaparecimento dos verbos de elocução (falou, disse,
perguntou...), travessão e dois pontos. Leia o excerto abaixo:

capítulo 5 • 185
Como nas noites precedentes, uma fila de agricultores se formou na porta
de uma padaria e o padeiro saiu a informar que não havia pão. Por quê? Onde
estava o pão? O padeiro respondeu que não havia farinha. Onde então estava
ela? Os agricultores invadiram a padaria invadiram a padaria e levaram o esto-
que de roscas e biscoitos, a manteiga e o chocolate.

Garcia de Paiva. Os agricultores arrancam paralelepípedos. Disponível em:


http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/405071
Acesso em: 03 ago de 2010

As perguntas “Por quê? Onde estava o pão?” são as falas (discurso direto)
dos agricultores, percebam que ela não está marcada por nenhum sinal de pon-
tuação nem introduzida pelos verbos de elocução. Já em: “O padeiro respondeu
que não havia farinha.”, temos o discurso indireto, mais facilmente reconhe-
cido, e logo em seguida, vem novamente a fala dos agricultores: “Onde então
estava ela?”.
O discurso indireto livre é um recurso muito utilizado nas narrativas atual-
mente, pois dá velocidade ao texto.
Define-se também o discurso indireto livre como aquele em que o narrador
reconstitui o que ouviu ou leu por conta própria, servindo-se de orações absolu-
tas ou coordenadas sindéticas e assindéticas.
Exemplo: “Sinhá Vitória falou assim, mas Fabiano franziu a testa, achando
a frase extravagante. Aves matarem bois e cavalos, que lembrança! Olhou a mu-
lher, desconfiado, julgou que ela estivesse tresvariando”. (Graciliano Ramos).
Para frisar: Discurso direto: narrador dá voz ao personagem reproduzindo
sua fala literalmente. Discurso indireto: narrador relata com suas palavras a
fala do personagem, reproduzindo-a indiretamente.

5.5  Transportando-se para um lugar


Para começar, leia o trecho com atenção observando os detalhes.

A detenção é um presídio velho e malconservado. Os pavilhões são prédios


cinzentos de cinco andares (contando o térreo como primeiro), quadrados, com

186 • capítulo 5
um pátio interno, central, e a área externa com a quadra e o campinho de futebol.
As celas ficam de ambos os lados de um corredor – universalmente chama-
do de “galeria” – que faz a volta completa no andar, de modo que as de dentro,
lado I, têm janelas que dão para o pátio interno e as outras para a face externa
do prédio, lado E.
Paredes altas separam os pavilhões, e um caminho asfaltado, amplo, conhe-
cido como “Radial”, por analogia à movimentada avenida da zona leste da cida-
de, faz a ligação entre eles.
O portão de entrada dos pavilhões é guardado por um funcionário sem ar-
mas nem uniforme. Para diferenciá-los dos presos, os carcereiros vestem calça
escura ou jeans. É proibido entrar no presídio com armas, exceção feita ao te-
mido pelotão de Choque da PM, nos dias da revista geral.
As celas são abertas pela manhã e trancadas no final da tarde. Durante o dia,
os presos movimentam-se com liberdade pelo pátio e pelos corredores. Cerca
de mil detentos possuem cartões de trânsito para circular entre os pavilhões.
São faxineiros, carregadores, carteiros, estafetas, burocratas, gente que conta
com a confiança da administração, além daqueles que conseguem por meios
ilícitos. Para os funcionários, esse passa-passa torna a cadeia incontrolável, e,
se, cada pavilhão pudesse ser isolado como unidade autônoma, ficaria mais fá-
cil vigiar.

Varella, Drauzio. Estação Carandiru. São Paulo: Companhia das letras, 1999

Ao terminar a leitura, você certamente “(re)construiu” a imagem do cenário


apresentado no trecho. Essa imagem é resultado dos elementos cuidadosamen-
te detalhados pelo escritor, que optou pela descrição para atingir um objetivo:
“transportar” o leitor para um determinado ambiente. Como você pode observar,
a descrição tem papel fundamental para os textos em geral, pois viabiliza um con-
tato maior do leitor com elementos que estão, na verdade, distantes dele.

capítulo 5 • 187
©© PHOTO12 | AFP

http://pt.globalvoicesonline.org/2008/10/04/brasil-massacre-do-carandiru-impunidade-e
-esquecimento/
©© MAURICIO LIMA | AFP

http://www.brimagens.com.br/cesta.php?foto_id=452&categoria_id=

É muito provável que se você tivesse visto as imagens antes de ler o trecho
do livro, sua imaginação não teria sido despertada e você não teria feito tantas
reflexões como certamente tenha feito com a leitura. Desta forma, temos mais
um motivo para ratificar a importância da descrição: ela desperta nossa criati-
vidade e imaginação.

188 • capítulo 5
CONEXÃO
Assista ao filme Carandiru, dirigido por Hector Babenco. Ele relata a história do médico (Luiz
Carlos Vasconcelos) que se oferece para realizar um trabalho de prevenção a AIDS no maior
presídio da América Latina, o Carandiru. Lá ele convive com a realidade atrás das grades, que
inclui violência, superlotação das celas e instalações precárias. Porém, apesar de todos os
problemas, o médico logo percebe que os prisioneiros não são figuras demoníacas, existindo
dentro da prisão solidariedade, organização e uma grande vontade de viver. Pesquise na
Internet, você encontrará muita informação sobre o filme.

5.5.1  Mas afinal, o que é descrever?

Descrever é reconstruir com palavras a imagem do objeto descrito, detalhar ca-


racterísticas de objetos, paisagens, de situações ou de pessoas e seres. Como se
pode ver, qualquer coisa pode ser descrita!
Segundo Platão e Fiorin (2004, p.240), são textos essencialmente descritivos
os de natureza morta e retratos.

©© COREL STOCK PHOTOS


©© WIKIMEDIA

Natureza morta com frutas.

Abaixo, reproduzimos mais definições da descrição:


Segundo Othon M. Garcia (1985, p.231), “Descrição é a representação ver-
bal de um objeto sensível (ser, coisa, paisagem), através da indicação dos seus
aspectos mais característicos, dos pormenores que o individualizam, que o dis-
tinguem.” Descrever não é enumerar o maior número possível de detalhes, mas

capítulo 5 • 189
assinalar os traços mais singulares, mais salientes; é fazer ressaltar do conjunto
uma impressão dominante e singular. Dependendo da intenção do autor, varia
o grau de exatidão e minúcia na descrição. Para Hamon (1981), alguns objetivos
da descrição são: Descrever para completar, descrever para ensinar, descrever
para significar, descrever para arquivar, descrever para classificar, descrever
para prestar contas, descrever para explicar.
Muitas pessoas confundem descrição com narração, mas não há motivo
para tal confusão. É fácil distingui-las, basta ter em mente que a principal di-
ferença está no fato de a descrição não apresentar progressão, transformação,
o tempo ser praticamente estático (como se fosse uma fotografia), ao contrário
do que ocorre com a narração. O esquema abaixo demonstra bem tal diferença
entre narração e descrição:

Narração Descrição

Progressão Tempo
Transformação Estático
(Filme) (fotografia)

Platão e Fiorin (2004 p. 242) reforçam que “a característica fundamental de


um texto descritivo é a inexistência da progressão temporal”. Vejam outras pe-
culiaridades da descrição segundo Platão e Forin (2004):

•  Figurativa: isto é, utilizar termos concretos;


Ex. cela, preso, cartão, pavilhão, paredes, corredor, janela.
•  Tempo: não há ocorrência cronológica, ele é, na maioria das vezes,
irrelevante;
•  Presença maciça de verbos de estado: é (são, foi), tornar, ficar...
•  Tempos básicos: presente e pretérito imperfeito.
Ex. ficam, faz, separam, possuem; ficavam, faziam, separavam, possuíam.

A eficiência da descrição depende da capacidade de observação e de exte-


riorização de quem escreve. A qualidade depende dos detalhes que vão indi-
vidualizar, pormenorizar o objeto descrito. O leitor precisa receber elementos
suficientes para “(re)construir” mentalmente o objeto.

190 • capítulo 5
Observe o texto abaixo e veja como os detalhes dão veracidade maior ao ob-
jeto descrito.

Por cima da moldura da porta há uma chapa metálica comprida e estrei-


ta, revestida de esmalte. Sobre um fundo branco, as letras negras dizem
Conservatória Geral do Registro Civil. O esmalte está rachado e esboicelado em
alguns pontos. A porta é antiga, a última camada de pintura castanha está a
descascar-se, os veios de madeira, à vista, lembram uma pele estriada. Há cinco
janelas na fachada. Mal se cruza o limiar, sente-se o cheiro de papel velho. É
certo que não passa um dia sem que entrem papéis novos na Conservatória, dos
indivíduos de sexo masculino e de sexo feminino que lá fora vão nascendo, mas
o cheiro nunca chega a mudar, em primeiro lugar porque o destino de todo pa-
pel novo, logo à saída da fábrica, é começar a envelhecer, em segundo lugar por-
que, mais habitualmente no papel velho, mas muitas vezes no papel novo, não
passa um dia sem que se escrevam causas de falecimento e respectivos locais e
datas, cada um construindo com seus cheiros próprios, nem sempre ofensivos
das mucosas olfactivas, como demonstram certos eflúvios aromáticos que de
vez em quando, subtilmente, perpassam na atmosfera da Conservatória Geral e
que os narizes mais finos identificam como um perfume composto de metade
rosa e metade crisântemo.

Saramago, J. Todos os nomes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

No excerto acima reproduzido de Todos os nomes, Saramago, com muita


sensibilidade e maestria, descreve não só o prédio da Conservatória Geral, mas
também o estado dos papéis que para lá vão. O autor associa a vida e a morte
aos cheiros que vão impregnando-se nos papéis. Assim como apenas “narizes
finos” sentem o cheiro sutil exalado pelos papéis da Conservatória, somente as
pessoas com maior sensibilidade são capazes de elaborar descrições criativas
que nos fazem refletir sobre a vida, à semelhança do que fez Saramago.

5.5.2  A descrição a serviço da caracterização dos personagens

Como já firmamos no início deste capítulo, é muito difícil encontrar um tex-


to exclusivamente descritivo. Usam-se as descrições para auxiliar na constru-
ção de personagens, na caracterização do tempo e do espaço, na exposição de

capítulo 5 • 191
problemas que poderão, depois, geram narrações ou dissertações. Observe o
trecho extraído de O Primo Basílio, de Eça de Queirós, para perceber como as
descrições auxiliam na organização da narração.
Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, múltipla, impelia-a, com um
estremecimentozinho de prazer. – Ia, enfim, ter ela própria aquela aventura que
lera tantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que ia
experimentar, sensações excepcionais! Havia tudo – a casinha misteriosa, o se-
gredo ilegítimo, todas as palpitações do perigo! Porque o aparato impressionava
-a mais que o sentimento; e a casa em si interessava-a, atraía-a mais que Basílio!
Como seria? Conhecia o gosto de Basílio, – e o Paraíso decerto era como nos ro-
mances de Paulo Féval. A carruagem parou ao pé de uma casa amarelada, com
uma portinha pequena. Logo à entrada um cheiro mole e salobro enojou-a. [...]
Este primeiro trecho revela como a descrição mescla-se à narração auxilian-
do na construção da personagem. Por meio das ações e pensamentos de Luiza
expostas no trecho acima, podemos caracterizá-la como uma mulher frívola,
curiosa que se deixa levar pela imaginação, que gosta do luxo, pois ela estava
mais interessada em saber como seria o lugar ao invés de se preocupar como
seria o encontro com o primo Basílio.
Observem a riqueza no uso de adjetivos (típica da descrição) para se referi-
rem tanto à Luiza como aos seus sentimentos e lugares: intensa, múltipla, ex-
cepcionais, misteriosa, ilegítimo, amarelada, pequena, mole, salobro.

Quem ainda não leu Primo Basílio, corra, pois se trata de uma das grandes obras re-
presentativas da escola literária denominada “Realismo”. Como o próprio nome diz,
procurava transmitir um retrato fiel da sociedade, usando e abusando das descrições.
Leia uma definição do realismo feita pelo próprio Eça de Queiroz, um dos maiores re-
presentantes desta época literária em Portugal. O Realismo ressurgiu-se contra o Ro-
mantismo, ao passo que este a apoteose do sentimento, o Realismo era a anatomia do
caráter, a crítica ao homem, descrevendo tudo de ruim e bom que havia na sociedade.

No final do trecho acima, a descrição do lugar é muito importante para o de-


senvolvimento da história, pois já indicia as verdadeiras más intenções de Basílio.
No referido trecho, lê-se “logo à entrada da casa” onde seria o encontro, lugar
este idealizado por Luiza como o “Paraíso decerto era como nos romances de
Paulo Féval”, havia um mau cheiro, “mole e salobro”, tanto que chegou a enojar

192 • capítulo 5
a protagonista. Em um dos romances de Paulo Féval, “o herói, poeta e duque,
forra de cetins e tapeçarias o interior de uma choça e encontra ali a sua amante”
(QUEIRÓS, 1981, p. 178, 179). Com base em suas leituras românticas, “Luiza as-
sim prevê o lugar em que viverá sua paixão proibida. Mas o “paraíso” é, decerto,
bem distinto dessa ingênua e romanticóide projeção” (MAFFEI, L. 2008, p.198).

CONEXÃO
MAFFEI (2008) escreve um artigo muito interessante analisando o Primo Basílio em compa-
ração a Machado de Assis. Embora seja um artigo específico da área de Literatura, você já
deve ter percebido que Literatura e Língua são indissociáveis, principalmente quando se trata
se leitura, interpretação e produção de textos.
O título do artigo já é intrigante e possibilita seu contato com a terminologia da análise
literária. “Machado versus Eça com Machado: algumas problemáticas luzes sobre o Primo
Basílio”
Disponível em: http://www.pgletras.uerj.br/matraga/matraga23/arqs/matraga23a13.pdf
(acesso: 20 jul. de 2010)

5.5.3  Os tipos de descrições

As descrições podem ser de pessoas, como um autorretrato ou uma caricatu-


ra, por exemplo, podem ser de lugar (ou de cenário), de paisagens, de estudos
científicos, de seres e mundos imaginários, enfim, tudo o que existe em nossa
imaginação ou na realidade é passível de descrição.

5.5.3.1  Descrição dos personagens- uma questão de ponto de vist

A descrição das personagens faz com que os leitores produzam uma ima-
gem em sua mente dessas pessoas imaginárias, algumas são tão fiéis que mui-
tos leitores acabam acreditando na existência.
a) Descrição Psicológica
O trecho acima discutido do Primo Basílio nos permitiu identificar um
tipo de descrição: a psicológica. Nela, o autor explicita traços do caráter, dos
hábitos, dos gostos e do temperamento da personagem. Eça de Queiroz (1981)

capítulo 5 • 193
possibilitou a caracterização de Luiza como idealista, que gosta de romances
fúteis, importa-se com a aparência, gosta de luxo, dentre outros aspectos que
podem ser depreendidos não somente da descrição, mas também por meio dos
atos da personagem. Ao trair o marido, Luiza demonstra também não ter muito
caráter. Maffei (2008, p,194) afirma que falta à Luiza é “consciência”. A perso-
nagem é representativa da burguesia lisboeta, que Eça tanto critica ou “ataca
com mais gosto”.
Mais uma vez, ressaltamos a importância da relação e fusão entre tipos tex-
tuais, pois a descrição física (assim como alguns atos) contribuem para a ca-
racterização psicológica da personagem, que é volúvel, leviana. Maffei (2008,
p.196) ressalta que “o narrador queirosiano esboça uma Luiza em diminuti-
vo, deixando entrever a pequenez da personagem e daquilo que passa por sua
cabeça: “Sacudiu a chinelinha; esteve a olhar muito amorosamente o seu pé
pequeno, branco como leite [...], pensando numa infinidade de coisinhas”
(QUEIRÓS, 1987, p. 13).”.

b) Descrição Física
Na descrição física, o autor delineará os aspectos físicos das personagens,
tais como a altura, o peso, a cor de cabelo, dos olhos, idade, aparência do rosto,
a vestimenta etc. Observe:
Houve um ruído domingueiro de saias engomadas. Juliana entrou, arran-
jando nervosamente o colar e o broche. Devia ter quarenta anos e era muitíssi-
mo magra. As feições miúdas, espremidas, tinham amarelidão de tons baços
das doenças do coração. Os olhos grandes, encovados, rolavam numa inquieta-
ção, numa curiosidade, raiados de sangue, entre pálpebras sempre debruadas
de vermelho. Usava uma cuia de retrós imitando tranças, que lhe fazia a cabeça
enorme. Tinha um tique nas asas do nariz.

Queiroz, Eça. O Primo Basílio. São Paulo: Ática, 1981

Juliana, a empregada de Luiza, é descrita fisicamente como um ser frágil:


“magríssima, feições miúdas”, doente: “amarelidão de tons baços das doenças
do coração”, assim como sua posição na casa, uma simples empregada. Mas
seus “olhos grandes, encovados, rolavam numa inquietação, numa curiosida-
de, raiados de sangue [...]” revelam a crueldade e a maldade de Juliana. Assim,
embora fosse fraca fisicamente, doente, possuía uma força descomunal para
chantagear a patroa.

194 • capítulo 5
CONEXÃO
Além do livro, vocês devem assistir ao filme “O primo Basílio”. A história é ambientada na São
Paulo, em 1958 e conta como Luisa, uma jovem romântica, frágil e sonhadora, casada com
Jorge, engenheiro envolvido na construção da nova capital nacional, Brasília, envolve-se em
uma traição. O casal faz parte da alta sociedade de São Paulo. Os problemas começam quan-
do Luísa reencontra seu primo Basílio, sua paixão da juventude. Quando Jorge é chamado
para Brasília a trabalho, Luísa fica entediada, sozinha em casa com as empregadas Juliana e
Joana. Mas seu tédio não dura muito - pois seu primo começa a visitá-la. E Basílio é pouco
discreto sobre suas intenções. Não demora muito para Basílio conquistar Luísa com as his-
tórias de suas viagens. Suas saídas frequentes com seu primo dão o que falar na vizinhança.
Mas o verdadeiro problema era a amarga empregada Juliana, que após uma vida de serviço
duro, só queria uma velhice estável. Ao achar cartas de amor de Basílio e Luísa, vê nelas sua
garantia de uma aposentadoria generosa.

Pesquisem na Internet imagens da atriz Glória Pires no filme. Comparem a


descrição feita por Eça de Queiroz com a caracterização da atriz interpretando
“Juliana” no filme. Vejam se o diretor seguiu a descrição exata no livro, se ela é
como vocês imaginaram ao ler o trecho da obra.
O poema que segue, de Cecília Meireles (1998), também traz uma descrição
física de pessoa. E novamente, vemos o entrelaçamento do físico ao psicológico.
Na primeira estrofe, ela descreve sua aparência física (rosto calmo, olhos
vazios) que revela seu estado interior, como ela se sente: triste, “lábio” amargo.
As mãos “paradas, mortas e frias” demonstram o cansaço que a idade traz; e o
“coração que nem se mostra” indica a grande serenidade que os anos acarre-
tam. E assim, o eu-lírico conclui que nem percebeu todas as mudanças, pois
passaram muito rapidamente.

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,


assim calmo, assim triste, assim magro,
[...]

capítulo 5 • 195
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
[...]
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil: [...]

MEIRELES, C. Viagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998

Agora leia um trecho de “Autorretrato” de Vinícius de Moraes, para analisar


como o poeta constrói uma descrição em que mescla aspectos físicos, psicoló-
gicos, vivências, preferências etc.

Nome: Vinicius. Por que?


O quo vadis, saindo em 13
Ano em que também nasci.
Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
[...]
Altura: um metro e setenta
Meão, pois. O colarinho
Trinta e nove e o pé quarenta.
Peso: uns bons setenta e três
[...]
Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer.
[...] Ajudo bastante em casa
Pois sou bom cozinheiro
[...]

Leia o poema na íntegra em: http://www.viniciusdemoraes.com.br/

196 • capítulo 5
Após a leitura atenta do poema, compare a imagem que você criou do poeta
por meio da leitura de seu autorretrato a uma foto dele:
©© RICARDO ALFIERI | WIKIMEDIA

Vinícius de Moraes nos anos 70

Com este belíssimo poema, encerramos a descrição física e psicológica das


personagens para tratarmos de duas maneiras diferentes de descrever pessoas,
objetos e seres: a descrição objetiva e a subjetiva.

CONEXÃO
Acesse o site de Vinicius de Moraes e navegue em seus poemas e em sua bibliografia. Há
também textos, fotos da infância do poeta, textos sobre sua vida e obra, informações sobre
música e muito mais. Não deixe de acessar!
http://www.viniciusdemoraes.com.br

capítulo 5 • 197
5.5.3.2  A descrição objetiva

Descrever objetivamente é elaborar reprodução fiel do objeto, ser, pessoa ou si-


tuação. Para assegurar a exatidão de detalhes e a precisão vocabular, o escritor
lança mão de uma linguagem objetiva e deixa de lado a emoção, neutralizando,
assim, aspectos que poderiam chamar mais ou menos sua atenção. Nesse caso,
a única preocupação é descrever com exatidão o objeto para o leitor.
A afirmação de que uma descrição totalmente objetiva será encontrada em
textos técnicos e científicos, como manuais, bulas e capítulos metodológicos
deve ser suavizada, vejamos o porquê.
Mesmo um manual, que normalmente é objetivo e imparcial, pode trazer
a impressão do fabricante, como os termos destacados no trecho a seguir de-
monstram: “o sensor do relé é uma ótima opção para economia de energia elé-
trica, além de proporcionar maior conforto, segurança e autonomia para esta-
belecimentos comerciais e residenciais”.

198 • capítulo 5
Agora, observe uma descrição científica retirada de um resumo de uma
dissertação. Nele, percebemos uma breve e simplificada descrição de como o
experimento científico foi realizado (os procedimentos metodológicos) e forte
uso de termos técnicos, o que pode dificultar sua compreensão para as pessoas
que não são da área de biológicas. No entanto, trata-se de uma descrição impar-
cial, o autor não qualifica a metodologia como boa, segura etc.

Para isso camundongos BALB/c (n=8) foram infectados com 106 leveduras de Pb
18 (i.v.) e tratados via i.p. com 250μg de ATF nos dias 3,4 e 5 pós-infecção, seguida de
1 dose semanal. Os animais foram sacrificados 14, 28 ou 56 dias após infecção para
avaliação da atividade fungicida de macrófagos peritoniais e produção de H2O2 e de
NO, recuperação de fungos viáveis nos pulmões, baço e fígado e o perfil de citocinas
produzidas por esplenócitos pela técnica de ELISpot. (GAMEIRO,2006, p.1)

Assim, tanto em textos literários como os utilitários de ampla circulação so-


cial, o que ocorre é certo grau de objetividade, pois ser totalmente imparcial é
difícil, como vimos no manual acima.

TCC: trabalho de conclusão de curso (de graduação e pós-graduação lato sensu)


Dissertação: trabalho de conclusão do curso de mestrado stricto sensu.
Tese: trabalho de conclusão do curso de doutorado

Observe o trecho de Dom Casmurro.


©© ROBERTO KROLL JUNIOR

Não podia tirar os olhos daquela criatura de qua-


torze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido
de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos
em duas tranças, com as pontas atadas uma à outra,
à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena,
olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha
boca fina e o queixo largo.

ASSIS, M. Dom Casmurro. 12. ed.


São Paulo: Ática, 1981

capítulo 5 • 199
O autor descreve no trecho a roupa da personagem (vestido de chita, meio
desbotado), sua aparência e idade, “14 anos, forte e cheia”, os cabelos etc,
enfim, faz uma descrição objetiva de Capitu, pois não faz julgamentos de va-
lor, o que tem a ver também com a escola literária em que a obra foi escrita:
Realismo-Naturalismo.

Capitu é o nome de uma das personagens mais polêmicas existentes na Literatura Bra-
sileira. A personagem casou-se com Bentinho, que passou a ter um ciúme excessivo da
esposa. Se ainda não leu Dom Casmurro, não perca!

Realismo-Naturalismo; escola literária que reflete as profundas transformações eco-


nômicas, políticas, sociais e culturais da Segunda metade do século XIX. Devido às
influências do avanço tecnológico, das teorias positivistas, buscava elaborar um retrato
fiel da sociedade, próxima do cientificismo preponderante na época. Por isso, as descri-
ções detalhadas constituíam prática comum entre os realistas. Cabe aqui uma ressalva:
o fato de Machado de Assis ser “realista” não o impede de criar uma descrição subjetiva
em seus romances, da mesma maneira, um autor romântico pode inventar cenas obje-
tivas. Ernani e Nicola (2001, p.363) exemplificam a descrição subjetiva com um trecho
de A chinela turca, de Machado de Assis.

Já a descrição subjetiva retrata, sem maiores preocupações, a realidade in-


terior do escritor, por isso, o objeto sofre interferências da sensibilidade desse
emissor-observador. Como não há mais preocupação com os detalhes, com a
exatidão, o emissor salienta características que considera mais interessantes,
reforçando, assim, as impressões pessoais que exterioriza no texto. Observe o
trecho de Lucíola, de José de Alencar.

Lúcia demorou-se algum tempo. Quando apareceu, saía do banho fresca e


viçosa. Trazia os cabelos ainda úmidos; e a pele rorejava de gotas d’água. Rica
e inexaurível era a organização dessa moça, que depois de tão violento abalo
parecia criar nova seiva e florescer com o primeiro raio de felicidade!
[...]

200 • capítulo 5
Lúcia expandia-se com tal efusão de contentamento, que, se há felicidade
neste mundo, devia ser a que ela sentia. Entretanto, passada essa primeira e fu-
gace irradiação, achei-a fria, quase gelada; apenas respondia às minhas carícias
ardentes e impetuosas. Naquele momento atribuí à prostração natural depois
de tão fortes emoções; porém me enganava.

ALENCAR, J. de Lucíola. 18. ed. São Paulo: Ática, 1994, grifo nosso

Comparem a descrição de Machado de Assis, realista, objetiva, à do român-


tico José de Alencar, idealista e totalmente subjetiva!
Destacamos algumas palavras que expressam essa subjetividade do autor,
isto é, as impressões que ele tem sobre a personagem descrita: Lúcia. Deve ter
ficado claro que se fizermos uma descrição subjetiva, a escolha do vocabulá-
rio, das figuras e dos tipos de frases será diferente de quando a realizarmos
objetivamente.
Othon Garcia (apud ERNANI e NICOLA, 2001, p.362) dá a seguinte dica para
elaborar uma boa descrição “Nunca é, por exemplo, boa norma apresentar to-
dos os detalhes acumulados em um só período. Deve-se, ao contrário, oferecê
-los ao leitor pouco a pouco, variando as partes focalizadas e associando-as ou
interligando-as”.

5.5.3.3  A descrição do lugar

Para Ernani e Nicola (2001, p.362) a descrição de lugar inclui:

– descrição de paisagens: planície ou praia;


– ambientes: sala, escritório, fábrica
– cenas: ambiente e ação

Leia o texto que descreve uma cena, ele foi retirado de um manual para ela-
boração de roteiros. Estes devem fornecer todas as informações necessárias
tanto para o público como para os profissionais envolvidos possam elaborar a
dramatização do texto:

capítulo 5 • 201
CENA 03 CASA DE ADERBAL – SALA INT./DIA

A sala é pequena, possui um sofá velho e uma mesinha de centro. A parede


tem partes descascadas e sobre a mesinha há uma revista.
Aderbal está sentado no sofá. Ele tem cerca de vinte anos. A porta se abre e
Flávia entra, afobada. Ela tem a mesma idade de Aderbal.

http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:ogFgnulk-
948J:www.roteirodecinema.com.br/manuais/screenwriter.sites.uol.
com.br/formato.doc+descri%C3%A7%C3%A3o+de+cenas&cd=1&hl=p-
t-BR&ct=clnk&gl=br

Para os fins da descrição, o texto deve ser curto, claro e objetivo. Veja a en-
contrada no referido manual:
Ao descrever o ambiente se atenha a informação necessária ao espectador.
Muitas vezes algumas características do ambiente são muito boas para mostrar
dados sobre a personagem (classe social ou característica psicológica), mas não
exagere em descrever estes objetos. Não se deve esquecer de citar os objetos
que serão utilizados na cena.
Assim como na descrição das personagens, também em relação aos luga-
res, devemos ter cuidado para não enumerar simplesmente as características
gerais, é preciso ressaltar seus detalhes. Num ambiente, podemos captar sons,
sensações térmicas, cheiros e outros aspectos que deverão ser transmitidos ao
leitor, mas não de maneira fria e inexpressiva, ressaltam os autores.
Agora leia uma descrição literária de Guimarães Rosa:

Onde eu estava ali era um quieto. O ameno âmbito, lugar entre-as-guerras


e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela:
alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu – uma blusa. Uma árvore disse
quantas flores, outra respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos, mei-
gos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua forma aérea. Juntos voavam,
às alamedas frutíferas, voavam com uniões e discrepâncias. Indo que mais iam,
voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive lá, por um evo, atento
apenas ao auspício.

Rosa, J. G. Ave, Palavra! 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001

202 • capítulo 5
Notaram a diferença? Também em relação ao lugar, a descrição pode ser
subjetiva ou objetiva, o importante é revermos nossos textos e atentarmos para
as características básicas da descrição em relação aos seus elementos linguísti-
cos. Destes, destacamos:
– frases nominais
a) sem verbo: “Tão lindos”
b) com verbos de estado: “O mundo é todo encantado”
– frases enumerativas, nomes em geral, sem verbos: “O ameno âmbito, lu-
gar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo de chácara. Várias árvores.”
– adjetivos, caracterizadores que atribuem qualidade, condição, estado ao
nome: limpos, lindos, meigos, encantado, aérea.
– figuras de linguagem, recursos expressivos: “O céu – uma blusa”
– as sensações (as percepções auditivas, visuais, olfativas, táteis, gustativas):
“O ar andava, terso, fresco.”

5.6  O que é dissertar?


Pacheco (1998) inicia seu texto
lembrando que a dissertação é
considerada difícil, chata por mui-
tos, como a charge abaixo ironiza:
O personagem da charge já está
não é mais criança nem para con-
tinuar morando com os pais, nem
para ser pressionado a escrever
uma dissertação.
Mesmo com todos esses
mitos, Pacheco (1988, p.1) de-
monstra que esse “velho bicho-pa-
pão”, na verdade, é o tipo textual
que mais usamos no dia a dia, sempre que reagimos aos fatos, sejam eles polê-
micos ou não, ao avaliar e emitir uma opinião qualquer, ao comprar um bem,
um raciocínio dissertativo é organizado, como a tirinha a seguir demonstra:

capítulo 5 • 203
Então, me dê dinheiro para ir
Pai, você acha que Sim, claro, meu filho! ao cinema que preciso ampliar
a cultura é boa?
meu universo cultural.

Na tirinha, o garoto apresenta um argumento ao pai para que este lhe dê


dinheiro para o cinema.
Sobre tal recorrência da dissertação em nosso cotidiano, Platão e Fiorin (2000,
p.301) ressaltam que tanto na narração como na descrição, além da dissertação, é
claro, há, explícita ou implicitamente, o ponto de vista ou a opinião de quem os pro-
duz. A diferença está no COMO a opinião é expressa. Na dissertação, o enunciador
manifesta sua opinião, julgamento de forma clara, explícita. Na descrição, o enun-
ciador se posiciona pelos aspectos que seleciona, pela adjetivação escolhida, en-
fim, manifesta sua opinião, transmitindo uma imagem do que descreve. Por fim,
na narração, as ações dos personagens podem revelar a opinião do enunciador.
Feitas estas considerações, é importante definir a dissertação, o que
Pacheco faz muito bem em: “[...] dissertação implica discussão de ideias, argu-
mentação, raciocínio, organização do pensamento, defesa de pontos de vista,
descoberta de soluções. Significa refletir sobre nós mesmos e sobre o mundo
que nos cerca.” (PACHECO, 1988, p.1).
Esta definição deixa claro que não há nada de aleatório nesse trabalho racio-
nal, pelo contrário, para perceber o fato, refletir sobre ele e emitir uma opinião
que denuncia um ponto de vista pessoal, um juízo de valor, é preciso obedecer
a certa lógica; por isso, é possível estudar e aprender técnicas dissertativas que
assegurem maior segurança e clareza para organizar opiniões e argumentos.
Faraco & Tereza (2003, p. 234) enfatizam a importância da informação no
texto dissertativo:

O texto de opinião é sempre uma dessas “chaves”, centrado sobre algum tema espe-
cífico. O que ele nos propõe é uma resposta ativa diante dos fatos. Daí que seu ponto
de partida é a informação, ainda em estado “bruto”; a partir de algumas informações
avulsas sobre um assunto, o texto de opinião procura dar sentido a elas, procura dizer,
afinal, o que as informações significam ou a que conclusões elas nos levam.

204 • capítulo 5
Esta resposta “ativa” do enunciador diante dos fatos é um dos pontos essen-
ciais não apenas para a compreensão da dissertação, como também para sua
produção. Sabemos que muitos alunos têm em sua mente toda a estrutura da
dissertação e mesmo assim, não produzem bons textos, pois é necessário que
saibam posicionar-se em relação aos acontecimentos, organizar as informa-
ções disponíveis. O que falta a esses alunos é, como ressaltam Faraco & Tereza
(2003, p. 234), organizar todas estas informações disponíveis. Mas para isso,
outras habilidades linguísticas, como selecionar um dado, analisá-lo e posi-
cionar-se perante ele são fundamentais. Destacamos que tais habilidades são
apreendidas com o tempo por meio da prática reflexiva da leitura.
Observem como o autor da charge abaixo se posiciona criticamente a res-
peito da violência escolar, criando um texto irônico que até causa humor se não
dissesse respeito a uma triste realidade:

Li uma reportagem que dizia que


bandidos foram presos Como essa, professora??
com armas do exército.

A charge não poderia ser considerada um exemplo prototípico de texto dis-


sertativo, porém, há, na maioria das vezes, uma argumentação implícita neste
gênero textual a medida em que o autor defende sua ideologia. Como na charge
acima apresentada, poderíamos depreender a opinião do autor – (tese: a violên-
cia atingiu grandes níveis na sociedade, tornou-se banal até nas escolas); argu-
mento (alunos vão armados para a escola, o que comprova a violência); conclu-
são (os professores viram reféns, tornam-se vítimas da violência).
Assim como o caráter ativo do enunciador ao selecionar e organizar as infor-
mações para produzir seu texto, a leitura de uma charge (assim como a de um
texto dissertativo típico) exige um leitor atento aos principais acontecimentos
da sociedade para ser capaz de interpretá-la.

capítulo 5 • 205
Embora não haja consenso na definição deste gênero textual, Diego Assis, colunista
da Folha, cita a definição do “Aurélio”: “Charge: representação pictórica, de caráter bur-
lesco e caricatural, em que se satiriza um fato específico, em geral de caráter político
e que é do conhecimento público”. Em interessante artigo que traz o depoimento de
chargistas. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u46871.shtml

CONEXÃO
Leia mais sobre a charge jornalística no link disponibilizado:
http://idemargareth.blogspot.com/2007/09/definio-de-charde-jornalstica.html

A charge acima apresenta um telespectador discutindo com a “TV”, sendo


que esta poderia representar o Governo. Nela, o protagonista discute a que-
da dos preços relacionada à CPMF e depois à inflação, e se o leitor não tiver
conhecimento prévio sobre tais assuntos, não assistir aos telejornais, terá

206 • capítulo 5
dificuldades ao interpretar esta charge. Ele está argumentando com a “TV” por
meio de argumentos concretos.
Como nosso objetivo com esse material não é apenas expor os conteúdos,
mas também despertar o seu interesse pela leitura, demonstrar sua importân-
cia e propiciar o contato com o maior número de gêneros textuais possíveis,
evidenciando a complexidade que envolve o processo de leitura e produção,
apresentamos abaixo mais textos para análise:

5.6.1  A dissertação nos gêneros textuais

Como afirmamos no início deste capítulo, a dissertação está presente em nos-


sa vida, por isso, queremos demonstrar diferentes gêneros em que ela pode
aparecer.

Texto 1 - Propaganda da People and Arts com o objetivo de convencer os


telespectadores a participarem do programa “Troca de esposas”.

capítulo 5 • 207
No anúncio publicitário acima, encontramos três tipologias, o que ratifica a
intersecção entre os tipos textuais nos gêneros:
Descritiva: troco esposa 25/45 anos/cozinha/varre/passa/excelente estado;
esposa procura: família que valorize/entenda necessidades e ajude a limpar a
casa.
Argumentativa: Para fazer parte da experiência televisiva que está mudando
o mundo inteiro (isto é, trata-se de um programa revolucionário, legal, etc)
Injuntiva: Participe.

Texto 2:

Rua da passagem
Arnaldo Antunes e Lenini. CD Na pressão, 1999
Os curiosos atrapalham o trânsito
Gentileza é fundamental

Não adianta esquentar a cabeça


Não precisa avançar no sinal

[...]
Pisca alerta pra encostar na guia
Pára brisa para o temporal

Já buzinou, espere, não insista,


Desencoste o seu do meu [...]
Não se deve atropelar um cachorro
Nem qualquer outro animal

Todo mundo tem direito à vida


Todo mundo tem direito igual

[...]

http://www.vagalume.uol.com.br

208 • capítulo 5
A música pode ser considerada um poema, pois é estruturada em versos,
estrofes, há trabalho com a linguagem (função poética), como, por exemplo, o
paralelismo sintático dos versos: “Todo mundo tem direito à vida/ Todo mun-
do tem direito igual// Boa noite, tudo bem, bom dia; função poética”. Além da
função poética, há também a função apelativa/conativa, tentando convencer o
leitor a agir com mais calma e cautela no trânsito: “Já buzinou, espere, não in-
sista, desencoste o seu do meu metal.”

Paralelismo sintático ocorre quando há termos com funções sintáticas idênticas (su-
jeito, objeto) ou um encadeamento de orações de valores sintáticos iguais. Orações
com a mesma estrutura sintática relacionadas.

Mesmo com todas estas características de um texto poético, literário, po-


demos identificar uma argumentação implícita, com a tese, opinião do autor,
em “É preciso gentileza no trânsito, ela é fundamental.” E argumentos para
defendê-la: “Já buzinou, espere, não insista,/ Desencoste o seu do meu metal/
Devagar pra contemplar a vista/ Menos peso do pé no pedal/Não se deve atrope-
lar um cachorro/Nem qualquer outro animal./ Todo mundo tem direito à vida/
Todo mundo tem direito igual.”

3 - Textos não verbais: esculturas de Rodin


©© WIKIMEDIA

Os burgueses de Calais, Rodin, 1895.

capítulo 5 • 209
©© JOJAN | WIKIMEDIA

©© VLADIMIR LIVERTS | DREAMSTIME.COM


Retrato de Georges Clemenceau O pensador Rodin (1889).
Rodin (1911).

Platão e Fiorin (2006, p.254, 255) apresentam-nos as três esculturas de


Rodin que retratam temas distintos. A primeira, segundo os referidos autores,
retrata o momento em que um grupo de burgueses de Calais teve de devolver
a chave da cidade ao vitorioso rei inglês, episódio referente à Guerra dos Cem
Anos, portanto, teria um caráter narrativo. O busto do estadista francês, assim
como os autorretratos na literatura e os retratos na pintura, é indiscutivelmente
descritivo. Por fim, uma das obras mais famosas do mundo da arte, O pensador
não representa um homem pensando, mas sim assinala o ato de pensar como
característico do ser humano, ou melhor, definidor do ser humano. Desta for-
ma, “procura transmitir uma mensagem de caráter abstrato e generalizante,
característica da dissertação” (2004, p.255).
Com a análise dos textos acima, ampliamos nosso conceito de dissertação e
agora sim, em posse de uma definição reflexiva, podemos averiguar as caracte-
rísticas e a estrutura desta tipologia.

210 • capítulo 5
5.6.2  Características do texto dissertativo.

Para compreendermos as características da dissertação apresentadas por


Platão & Fiorin (2004, p. 252), veremos como elas aparecem no texto abaixo.
Leia-o com atenção:
“A Copa de 2014 deverá encontrar o Brasil com uma infra-estrutura mo-
derna e mais eficiente que a atual. A Copa deixará muito mais do que estádios
modernos. Deixará uma herança para a população, como melhorias na segu-
rança pública”, afirmou em seu discurso inicial o presidente da CBF, Ricardo
Teixeira, após apresentar a comitiva brasileira presente em Zurique.
http://ultimosegundo.ig.com.br/esportes/futebol/2007/10/30/apos_64_
anos_brasil_volta_a_sediar_uma_copa_do_mundo_1062099.html
O primeiro traço observado é que ele é temático, isto é, trabalha com ter-
mos abstratos (herança, melhoria, segurança), interpretando o mundo, a reali-
dade, e não representando ou descrevendo-o. Os termos concretos empregados
(Brasil, estádio, população) não se referem a um ser em particular, ao contrário,
são abordados genericamente.

Platão e Fiorin (2004, p.88) ampliam o conceito de concreto abstrato referindo-se


até a verbos.
Concreto: todo termo que remete ao mundo natural;
Abstrato: toda palavra que não indica algo presente no mundo natural, mas uma catego-
ria que ordena o que está nele manifesto.
“Sol” remete a algo efetivamente do mundo natural, já “raiva” não (o que é concreto, e
por conseguinte, ordenado por esse substantivo abstrato é, por exemplo, gritar, ficar ver-
melho, dar murro, etc); plantar é um verbo concreto, enquanto envergonhar-se, abstrato.

A segunda característica exposta pelos estudiosos é a transformação da si-


tuação: a Copa irá trazer melhorias para o Brasil, a segurança do país mudará.

Platão & Fiorin (2004, p. 88-89), diferenciam o texto temático do figurativo com base
na distinção entre abstrato e concreto, respectivamente. Os textos figurativos repre-
sentam a realidade, criam uma imagem dele com seus seres, já o temático, segundo os
autores, explicam as coisas do mundo, ordenam-nas, classificam-nas, interpretam-nas,
fazem comentários sobre suas propriedades. Os textos figurativos têm função repre-
sentativa, ao passo que os temáticos, função interpretativa.

capítulo 5 • 211
Não há progressão cronológica dos enunciados, mas sim uma relação ló-
gica, os enunciados não obedecem ao tempo, mas sim à concatenação lógica:
analogia, pertinência, causalidade, coexistência, implicação etc.

Analogia: analogia (latim analogia, -ae) s. f.

1. Relação de semelhança entre objectos! diferentes.


2. Investigação da causa das semelhanças.
3. Razão da formação das palavras.
Implicação: neste contexto, significa: ato de implicar: dar por resultado, mas há outros
sentidos. http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=Analogia

A última característica tratada pelos autores é o tempo verbal. Normalmente,


os verbos encontram-se no presente do indicativo com valor atemporal, no en-
tanto, na fala do presidente da CBF, como se trata de um episódio que ainda não
aconteceu, o futuro do presente foi usado (deixará). Platão e Fiorin (2004, p.252)
ressaltam “admite-se o uso de outros tempos do sistema do presente, a saber, o
presente com seu valor atemporal, o pretérito perfeito e o futuro do presente”.
Baseados nos traços supracitados, definem o texto dissertativo como: “tipo de
texto que analisa, interpreta, explica e avalia os dados da realidade.(...) O discurso
dissertativo típico é o da ciência, da filosofia, o dos editoriais do jornal etc.”.

CONEXÃO
Você provavelmente já deve ter lido algum texto do editorial de um jornal. Se ainda não leu,
procure na Internet, pois a maioria dos grandes jornais disponibilizam seu conteúdo nos sites.
A leitura de jornal é essencial para aperfeiçoarmos nossa produção.
O editorial é o espaço reservado para o jornal expressar formalmente sua opinião. São
exemplos de editoriais: “O Painel do Leitor”, bem como os espaços reservados para debates,
para expressão de opiniões que complementam a do jornal ou que, ao contrário, divirjam
dela. Esses artigos são assinados, a fim de não comprometer o jornal. As entrevistas têm
por objetivo permitir que o leitor conheça as ideias, opiniões, impressões e observações do
entrevistado, por isso, as perguntas são breves e diretas. Manual da Folha. http://www.porta-
limpacto.com.br/docs/00000ArmandoVestAula16TiposdeTexto1QuantoaForma2Quantoa-
oConteudo.pdf

212 • capítulo 5
5.6.3  A estrutura dissertativa

Para perceber que há uma ordem lógica, o primeiro passo é não se contentar a
pensar em uma dissertação com introdução, desenvolvimento e conclusão, é
preciso observar como e por que essas estruturas ocorrem. Pense assim: se há
um problema, um fato, é óbvio que o contato com esse problema gerará opini-
ões, e é também óbvio que essas opiniões não valem como verdades, por isso
deverão ser defendidas com bons argumentos. Essa sequência não é aleatória,
é lógica!
Para facilitar, vamos verificar isso na prática. Leia o texto abaixo e identifi-
que a tese defendida pelo dissertador.

Penas

Dizem muito que, no Brasil, os corruptos ficam soltos enquanto os ladrões


de galinha vão para a cadeia. Dando a entender que as penas, sem trocadilho,
não são adequadas aos crimes. É um enfoque errado. Se o valor de qualquer
ação se mede pelo grau de dificuldade, então roubar galinha é um crime infini-
tamente mais importante que corromper ou ser corrompido, no Brasil.
O roubo de galinha envolve trabalho intelectual. Como o ladrão de galinha
dificilmente terá um curso superior, o planejamento é duplamente trabalho-
so. Ele precisa escolher o galinheiro. Decidir a hora e o método de ataque. No
caso de optar por uma ruptura da cerca, o ladrão de galinha necessita de instru-
mento adequado. Se optar pelo salto, precisará de uma vara. Investimento. [...]
Outra coisa. Muitas vezes o homem que rouba duzentos ou trezentos milhões o
faz porque a oportunidade se apresenta, num instante fortuito. Ele não resiste
ao impulso de colocar alguns zeros a mais na guia de pagamento do INSS, por
exemplo, ou superfaturar ou subfaturar uma transação. Rouba porque está ali,
fazendo outra coisa. Mas quem está dentro de um galinheiro alheio, no meio da
noite, não está ali para outra coisa além de roubar galinha. [...]

Luis Fernando Veríssimo, Jornal do Brasil, 6 de janeiro de 1996

A tese defendida é “Se o valor de qualquer ação se mede pelo grau de difi-
culdade, então roubar galinha é um crime infinitamente mais importante que
corromper ou ser corrompido, no Brasil.”.

capítulo 5 • 213
O mais importante nessa primeira observação é que você consiga perceber a
tese como referência para identificar a lógica trabalhada pelo dissertador. Veja
que o texto começa com informações que apresentam a situação, o problema;
em seguida, há a tese e, posteriormente, ocorrem os argumentos, que são dis-
postos com o intuito de defender a tese1 que é apresentada.
Como você pôde verificar, o que chamamos tradicionalmente de introdu-
ção deve, de preferência, conter o tema (fato) a ser desenvolvido, exposto com
clareza e convicção. Nessa etapa, o dissertador deve fazer um pequeno histórico
do problema, revelando conhecimento de sua origem e suas possíveis implica-
ções num universo de ideias para, enfim, apresentar uma opinião que pode ser
dele mesmo ou não. Essa tese pode ser apresentada de maneiras diferentes,
por exemplo, pode ser uma causa, uma consequência, uma comparação, uma
explicação, uma qualificação.
Já o desenvolvimento (argumentação) deve conter esquemas argumentativos
que organizem um pensamento lógico. O enunciador não pode esquecer que os
argumentos devem constituir prova convincente para solidificar a tese defendida,
oferecendo dados concretos que confirmem a pertinência das ideias lançadas.

O texto a seguir apresenta uma sequência de argumentos para defender a


tese que está no último período do primeiro parágrafo (Uma geração de crédu-
los sem capacidade crítica). Leia com atenção.

Em defesa da razão

Durante décadas, lutei para trazer a racionalidade às gerações que me su-


cediam, acreditando na ciência e em suas conquistas. A caminhada do homem
na Lua, as fotos dos planetas distantes, os computadores, a televisão direta dos
satélites, as vacinas que eliminaram da face da Terra a varíola, a poliomielite,
os remédios desenhados em computadores que curam câncer quando detecta-
do a tempo, os transplantes de coração e rins, a biotecnologia gerando plantas
mais resistentes e mais produtivas, que liquidaram com a profecia de Malthus,
afastando o perigo da fome universal. E apesar disso, o que colhemos? Uma
geração de crédulos sem capacidade crítica.
Até mesmo pessoas que seguiram carreira técnico-científica não entendem
a racionalidade da ciência. Consomem toneladas de pseudomedicamentos sem

1  Tese: Opinião do autor, juízo de Valor questionável, verdade pessoal

214 • capítulo 5
nenhum efeito positivo no organismo. Engolem comprimidos de vitaminas
que serão eliminadas na urina. Consomem extratos de plantas com substân-
cias tóxicas e abandonam o tratamento médico. Gastam fortunas com diferen-
tes marcas de xampu que contêm sempre o mesmo detergente, mas anunciam
“alimentos” para os cabelos, quando estes recebem nutrientes diretamente do
sangue que irriga suas raízes. Há os que untam o rosto com colágeno – geléia de
mocotó – e ovos e acham que estão rejuvenescendo. [...]
Fico pasmo ao ver que, às portas do ano 2000, as pessoas lêem horóscopo
sem jamais comparar as previsões da véspera com o que realmente aconteceu.
Desconfiam dos cientistas, mas acreditam nas cartomantes, que prevêem o ób-
vio. Formamos uma geração de pseudo-educados, que querem ser enganados
nas farmácias, pelos curandeiros que enfiam agulhas em seus pés e manipu-
lam a sua coluna, pelos ufologistas, que vêem extraterrestres chegar e sair sem
serem detectados pelos radares. Uma geração que se deixa levar por benzedei-
ras e charlatães com suas poções, por anúncios desonestos na televisão e por
pregadores a quem entregam parte do salário. Saem as descobertas e as experi-
ências e entram os duendes, anjos e bruxos.

ISAIAS RAW / Editora Abril

Isaías Raw (1996) apresenta uma sequência de argumentos para defender a


tese bastante realista que apresentou no primeiro parágrafo. Ao ler, você certa-
mente se identificou com alguns comportamentos elencados na argumentação
produzida pelo dissertador, essa identificação promove, com maior facilidade,
a adesão à tese e, consequentemente, o texto atinge seu objetivo: validar a opi-
nião defendida!
Como você conferiu na análise do texto anterior, os recursos argumentati-
vos são meios linguísticos de persuasão e convencimento acionados pelo dis-
sertador com o objetivo de levar o leitor a validar a tese defendida, o que se es-
pera é ganhar a adesão do leitor. Há várias técnicas argumentativas listadas e
estudadas em livros específicos sobre retórica, argumentação, persuasão, no
entanto, trabalharemos algumas poucas, eleitas por serem de uso mais recor-
rente no dia a dia. Cabe a você investigar um pouco mais a respeito e, assim,
ampliar sua gama de possibilidades argumentativas.

capítulo 5 • 215
5.6.4  Estratégias de argumentação

a) argumentação por exemplificação


O dissertador pode lançar mão de exemplos, fatos típicos, acontecimentos
verificáveis que favoreçam sua tese. Nesse caso, é interessante observar que
como esses fatos/exemplos ocorrem no plano da certeza, não podem ser con-
testados, facilitando, dessa forma, a tarefa de persuadir o leitor.
Para entender melhor, observe o trecho retirado do texto em questão. “E, à
exceção dos EUA, o mundo desenvolvido parece estar caminhando nessa dire-
ção. Na Europa, já são vários os países que descriminalizaram as drogas. Nesta
semana, o Canadá autorizou o uso terapêutico da maconha.”
Você pode notar que a apresentação do comportamento adotado por outros
países é um exemplo para a situação no Brasil, trata-se de dados constatáveis,
verificáveis na mídia.

b) argumentação por autoridade


Nesse caso, o dissertador utiliza uma ideia apresentada ou já defendida por
uma pessoa conhecida e reconhecida em determinada área do saber para de-
fender sua própria tese. Dessa forma, a credibilidade dessa pessoa passa a favo-
recer também a opinião do dissertador.
No texto acima temos o trecho que cita o filósofo, observe:

Em termos filosóficos, e segundo a tradição utilitarista de John Stuart Mill (1806-


1873), o Estado não tem direito de intervir para impedir que indivíduos façam algo que
os prejudique. “Sobre si mesmo, sobre seu corpo e sua mente, o indivíduo é soberano”,
proclamou o filósofo.

c) argumentação por analogia


Para utilizar a analogia, o dissertador deve construir um argumento que
transita de um caso concreto para outro caso concreto com identificação de se-
melhanças. Observe que, no terceiro parágrafo do texto, o ato de injetar heroí-
na é comparado ao ato de escalar uma montanha; na sequência, o dissertador
lança mão das semelhanças (os dois apresentam riscos, por que um deve ser
policiado e o outro é comemorado?) para induzir o raciocínio do leitor.

216 • capítulo 5
Pense assim: quando o dissertador consegue apontar alguma semelhança
entre casos concretos, outras semelhanças podem ser depreendidas com o in-
tuito de validar uma determinada tese.

d) Argumento Baseado em um consenso:


O consenso é baseado em axiomas: proposições evidentes por si mesmas,
como “o todo é maior que a parte”; “A educação é a base do desenvolvimento”
ou ainda: “Os investimentos em pesquisa são indispensáveis para que um país
supere sua condição de dependência”.

e) Argumento da competência linguística:


A variante culta da língua confere credibilidade às informações. Veja o tre-
cho abaixo:
“Não sou biólogo e tenho que puxar pela memória dos tempos de colegial
para recordar a diferença entre uma mitocôndria e uma espermatogônia. Ainda
lembro bastante para qualificar a canetada de FHC de “defecatio máxima” (este
espaço é nobre demais para que nele se escrevam palavras de baixo calão, como
em latim tudo é elevado...)”

Hélio Schwartsman (Folha S.P. 10/01/95: critica à sanção da lei de biosse-


gurança: proíbe a terapia e dificulta a vida dos
casais que querem bebê de proveta).

O autor utiliza-se de uma expressão latina para não usar termos de baixo
calão e termos técnicos da área de ciências, para assim, demonstrar que tem
cultura, que é uma pessoa inteligente, letrada etc.

f) Argumentação baseada na mensagem visual


Os autores expõem um anúncio cuja imagem sedutora de uma paisagem,
reproduzida em cores, e um rosto com uma faixa branca onde ficam os olhos,
sugerindo que o leitor faça a doação para doar “horizontes” às pessoas.

capítulo 5 • 217
g) Argumentação Baseada em Provas Concretas:
O autor utiliza-se de dados, fatos ou acontecimentos, como o enunciado
abaixo exemplifica:
“A administração Fleury foi ruinosa” (opinião que pode ser divergente);
“A administração Fleury foi ruinosa porque deixou dívidas, junto ao
Banespa, de 8,5 bilhões de dólares, porque deixou de pagar fornecedores, por-
que acumulou dívidas...” (inquestionável, pois é baseada em fatos concretos).

Chegamos ao fim dos tipos de argumentos e aqui, cabe destacar que os da-
dos devem ser pertinentes, suficientes, adequados e fidedignos. Não podemos,
por exemplo, fazer uma afirmação do tipo: “Este candidato não é competente
administrativamente porque não sabe português.” Trata-se de um raciocínio
falacioso, pois português não é pertinente para a conclusão de que alguém seja
competente para administrar, não há uma implicação entre conhecimento lin-
guístico e bom administrador.
Ao afirmar “Todos os políticos são corruptos”, o dissertador fez uma ge-
neralização, pautou-se em dados insuficientes, preconceitos e tabus, o que
não é aconselhável. Assim, não se aconselha o senso comum, pois revelam
um autor acrítico, de um universo cultural pobre, como ilustram os seguintes
enunciados:

218 • capítulo 5
•  Político não presta;
•  Brasileiro não sabe votar;
•  Funcionário público não trabalha;
•  Engenheiro é bitolado;
•  Roqueiros são todos drogados;
•  Jornal só conta mentira...

5.6.5  A conclusão

Por fim, devemos conversar sobre a conclusão (desfecho), que deve ser uma
decorrência natural dos esquemas argumentativos, uma espécie de síntese
-resposta ao problema suscitado pelo tema, fundamentada com propriedade.
Deve conter uma confirmação da posição sustentada ao longo do texto. Como
os argumentos são, na verdade, um detalhamento do tema proposto (ou seja,
elementos particulares extraídos de uma ideia central proposta no parágrafo
introdutório), o texto ficaria com uma aparência de incompleto se, por algum
motivo, fosse interrompido logo após o fim dos argumentos. Por isso, cabe à
conclusão criar um ambiente fechado para o tema, determinar o momento
preciso em que o raciocínio argumentativo se encerra e chegar a algum tipo
de conclusão, resumindo, de uma forma ou de outra, tudo aquilo que foi dito
no decorrer da dissertação, podendo, ainda, apresentar ideias para amenizar
determinadas situações. Mesmo que nem todos os argumentos e exemplos do
texto sejam novamente abordados na conclusão, é evidente que estes são leva-
dos em conta para que se alcance o fecho da dissertação.
No texto a seguir, Rubem Alves trabalha uma analogia para discutir o casa-
mento. Para concluir, o autor aponta o que prevalece na sociedade, que não é
exatamente a situação ideal.

Tênis x Frescobol

Não seria ingênuo afirmar que o casamento pode ser comparado a dois ti-
pos de esporte: há o casamento tipo tênis e há o casamento tipo frescobol. Os
casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam
sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte da alegria e tem a
chance de ter vida longa.

capítulo 5 • 219
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua der-
rota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis
para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto
fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada
– palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar,
interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portando, justamente no
momento em que o jogo não mais pode continuar porque o adversário foi co-
locado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e
uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca.
Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior es-
forço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa
pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou
os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra –
pois o que se deseja é que ninguém erre.
Infelizmente boa parte dos casais vive a experiência conjugal como se ela
fora um verdadeiro jogo de tênis. Cada um fica à espera do momento da corta-
da, o que se busca sempre é a derrota do outro. O pior de tudo é que nesse jogo
não há vencedores. Ambos perdem, não existe vitória, porque o amor fenece.

Rubem Alves – O Retorno e Terno (Adaptação)

5.6.6  A linguagem no texto dissertativo

Eis algumas características linguísticas frequentes no texto dissertativo:


Linguagem Culta;
Denotativa;
Orações subordinadas, verbos presente;
Figuras de linguagem para comprovação de ideias;
Conceitos abstratos (temático);

SARMENTO, L., TUFANO, D. Português. 1. ed.


São Paulo: Moderna, 2004, p. 397.

220 • capítulo 5
Com relação aos recursos, aos tipos de argumentação, você já sabe que eles
precisam ser organizados, então:

•  Elabore roteiro;
•  Relacione palavras e frases importantes;
•  Leia tudo o que for possível sobre o assunto;
•  Escolha um pressuposto;
•  Selecione dois ou três argumentos fortes;
•  Oriente a argumentação para uma conclusão que retome o que foi discu-
tido previamente;
•  Invente um título sugestivo.

Observe como ocorre a presença vs a ausência do Enunciador no texto: “A


falta de educação é o principal problema do Brasil”, esta construção é marca-
da pela objetividade, tem caráter científico, pois a ênfase é dada ao conteúdo e
não ao enunciador. Agora leia: “Eu afirmo que a falta de educação é o principal
problema do Brasil.”, o texto ficou mais subjetivo, mais pessoal com um caráter
menos científico, o que deve ser evitado em dissertações.

ATIVIDADES
Para exercitar os conceitos estudados até o momento, leiam os dois textos narrativos abaixo,
a seguir responda às questões propostas.

Texto I
O Socorro

Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de
repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais.Tentou sair da cova
e não conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que sozinho não conseguiria sair. Gritou.
Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enrouqueceu de gritar, cansou de es-
bravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou,
subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, não
se ouviu um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais
dos matos. Só pouco depois da meia-noite é que vieram uns passos. Deitado no fundo da

capítulo 5 • 221
cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria apareceu lá em cima,
perguntou o que havia: “O que é que há?”
O coveiro então gritou, desesperado: “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio ter-
rível!” “Mas, coitado!” - condoeu-se o bêbado - “Tem toda razão de estar com frio. Alguém
tirou a terra de cima de você, meu pobre mortinho!” E, pegando a pá, encheu-a e pôs-se a
cobri-lo cuidadosamente.
Moral: Nos momentos graves é preciso verificar muito bem para quem se apela.”

Fernandes, Millôr. In Pif-Paf. PNS, maio 20, 2004

Texto II
Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Camborá en-
trara na vida de Santa Fé. Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o
chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida
e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia
andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava num alazão, trazia bombachas claras, botas
com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola ver-
melha e botões de metal.

Veríssimo, Érico. Um certo capitão Rodrigo – Companhia das Letras, 2005

01. Por que os textos podem ser considerados narrativos? Justifique:

02. Como podem ser caracterizados os personagens de cada um dos textos? Exemplifique.

03. Explique qual o tipo de narrador de cada um dos textos.

04. Especifique o que se pede:


a) Lugar:
b) Tempo:
c) Enredo:

05. Com base na leitura atenta dos textos a seguir, responda às seguintes questões.

222 • capítulo 5
06. Leia um trecho da música: “A nossa casa”, de Arnaldo Antunes para realizar as atividades
propostas:
nossa casa amor-perfeito é mato
E o teto estrelado também tem luar
A nossa casa até parece um ninho
Vem um passarinho pra nos acordar
Na nossa casa passa um rio no meio
E o nosso leito pode Na ser o mar

a) Identifique os elementos linguísticos típicos do texto descritivo na letra da música, tais


como, adjetivos, enumeração, verbos de estado etc.

b) Que tipo de descrição é feita na música: subjetiva ou objetiva. Justifique:


c) A descrição é literária ou utilitária?
d) Um dos recursos utilizados na descrição é a comparação. A que o objeto descrito é
comparado?

REFLEXÃO
Nesse capítulo, trabalhamos as principais características da tipologia básica: narração, des-
crição e dissertação. É importante você saber que nos diversos gêneros textuais que cir-
culam na sociedade, é difícil haver um texto com uma tipologia apenas. O que ocorre é a
coexistência de mais de um tipo nos gêneros, como, por exemplo, na notícia, há narração e
pode haver também trechos descritivos. Nos manuais de instruções, há descrições e injun-
ções (ordens, prescrições, orientações), por exemplo. Portanto, você, leitor, deve identificar a
tipologia predominante no texto de acordo com a função/objetivo e contexto em que o texto
circula. Outro aspecto a ser destacado é que

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COELHO, L. A. O lugar do narrativo na mídia visual: temporalidade não linear. Departamento de Artes &
Design, 2010.
CUNHA, C. & CINTRA, L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.

capítulo 5 • 223
ERNANI, T.& NICOLA, J. Práticas de linguagem: leitura e produção de textos: ensino médio. São
Paulo: Scipione, 2001.
FARACO, C. A. & TEZZA, C. Oficina de texto. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.
GAMEIRO, M. C. Efeito Imunomodulador de Agaricus blazei ss. Heinem. na infecção
experimental com Paracoccidioides brasiliensis. 64fl. Dissertação de mestrado. Botucatu:
UNESP, 2006.
GARCIA, O. Comunicação em prosa moderna, São Paulo, 1985.
HAMON, P. Introduction à analyse du descriptif. Paris: Hachette, 1981.
KOCH, I. G. V. Argumentação e Linguagem. 5a edição. São Paulo: Cortez, 1999.
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Basílio. Matraga, Rio de Janeiro, v.15, n.23, jul./dez. 2008. Disponível em: http://www.pgletras.uerj.br/
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MOISÉS, M. A análise literária. São Paulo: Cultrix, 1996.
PACHECO, A. de C. A dissertação. São Paulo: Atual, 1988.
PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da Argumentação: a nova retórica. São Paulo:
Martins Fontes, 1996.
PLATÃO & FIORIN. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2000
_________. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2006
PROPP, V. A morfologia do conto maravilhoso. São Paulo: Editora Forense Universitária, 2006.
RAMOS, Paulo. Piadas e tiras em quadrinhos: a oralidade presente nos textos de humor.
Estudos Linguísticos XXXIV, 2005.
TRAVAGLIA, L. C. Das relações possíveis entre tipos na composição de gêneros. Anais [do] 4º
Simpósio Internacional de Estudos de Gêneros Textuais (4º SIGET). Organizadores: Adair Bonini,
Débora de Carvalho Figueiredo, Fábio José Rauen. - Tubarão: UNISUL, 2007a.

GABARITO
Capítulo 1
01. C
“primata” é um termo mais apropriado para a área das ciências biológicas e não para uma
notícia de jornal. Os termos “animal” e “fera” são adequados ao GÊNERO notícia e ao tema:
FUGA, já “primata” seria mais adequado a um livro didático ou científico da área de zoologia.
02. Sim, há, pois o verbo “possuir” seleciona objetos com especificação semântica “comer-
cializável” e diálogo não é algo que se adquire, que se compra...Possuímos bens materiais,

224 • capítulo 5
como imóveis, carros etc. Por isso, o mais adequado seria usar o verbo ter.
03. Posto: Globo muda programação para atender a nova classe C. Pressuposto 1: A TV
Globo mudou a programação que não atendia a nova classe C. Pressuposto 2: Há uma nova
classe C. Subentendido 1: A programação anterior não atendia a nova classe C. Subenten-
dido 2: Já existia uma classe C que não era contemplada pela programação da Rede Globo.
Subentendido 3: A classe C passou a ser alvo da programação da Rede Globo.

Capítulo 2

01.
a) A galinha produzindo ovos de ouro que não ficam com ela podem representar o
proletariado que enriquece os burgueses, empresários (o dono da galinhaa).
b) “Mingau, pão-de-ló e sorvete, farelo, milho”: representam o baixo salário que se paga
aos funcionários, a falta de reconhecimento;
c) A avareza, o egoísmo, a exploração etc.
d) A insatisfação, o reconhecimento etc.
02.
a) Textos 1: Linguagem utilitária; função referencial;
b) Texto2: Função poética;
c) Texto 3: Função poética e Metalinguística;
03. Emissor: pai de benedito Cujo; receptor: esposa ou o próprio filho; código: verbal; em
relação aos textos feitos por Benedito que estão colados: emissor: Benedito, código: verbal;
receptor: pai; canal: cartaz...
04. Trata-se de um texto literário, pois o essencial não está no conteúdo da mensagem e
sim na forma como a autora a transmite. Como o mais importante não é o conteúdo, e sim a
forma, não se pode resumi-lo nem sequer alterá-lo (intangibilidade).

Capítulo 3

01. R: Prolixidade e informações supérfluas: Informamos com muito prazer e alegria a


todos os cidadãos de nossa querida cidade
Falta de clareza devido à ausência de pontuação, parágrafo longo, ordem inver-
sa; voz passiva;
Repetição: cidadãos/cidade;
Redundância: criados novos empregos; superavit positivo;
Desvio da norma: acentuação: também, competência.

capítulo 5 • 225
Voz passiva: foram criados
Pontuação: deve-se, em primeiro lugar,

Reescrita:
Com prazer, informamos aos cidadãos da cidade XXX que, no ano passado, a indústria
criou 5 mil novos empregos, o que elevou os índices da economia do município, gerando
um superavit positivo. Esse resultado positivo deve-se, em primeiro lugar, àcompetencia da
gestora.
02.
a) A televisão tem como objetivo distrair pessoas.
b) A tecnologia criou vários instrumentos inovadores.
c) Precisamos atingir resultados melhores.
d) De modo geral, as pessoas que têm certo grau de cultura podem escolher melhor.
e) Ninguém tem o direito de julgar ninguém.
f) A questão apresenta diversos aspectos.
g) O ato de perdoar está relacionado à situação vivenciada pela pessoa.
h) Vou medir a pressão.
03.
a) Pediu auxílio à polícia e ajudou a prender o estelionatário.
b) A tecnologia progrediu muito na área da informática, possibilitando a analistas e
técnicos melhorar programas já bem complexos.

Capítulo 4

01. O texto “Como sobreviver a uma assalto” possui coerência externa, pragmática, pois seu
sentido depende do contexto situacional. Se o texto for considerado apenas do ponto de
vista interno, pode parecer incoerente, pois as frases apresentam contradições “1) não sair
de casa; 2) sair de casa”.
02. O sentido do texto (coerência) estabelece-se pelo contexto, na situação da falta de
segurança do país. Com base nele, pode-se atribuir coerência às recomendações aparente-
mente contraditórias, no fundo, na unidade textual, o autor quer ironizar, exagerar, explicitan-
do que não há como fugir de assaltos, ficando ou não em casa, saindo de carro ou não etc.
Trata-se de uma ironia aliada ao humor.
03. As aparentes contradições colaboram para o sentido de que é impossível evitar ser as-
saltado, não importa o que o cidadão faça.

226 • capítulo 5
04. A ausência de elementos coesivos na superfície textual não dificulta o sentido, nem o
prejudica, pois eles são recuperados com base na situação extratextual.
05. Sim, ilustra, pois se o leitor não souber da falta de segurança que aflige o país, não en-
tenderá que não estamos seguro por mais que tentemos.

Capítulo 5

01.
a) Porque em ambos há mudança de situação, em amos, ocorre a progressão tempo-
ral, além de apresentarem os elementos da narração, como personagens, enredo,
tempo, lugar etc.
b) O protagonista do texto de Millôr, o coveiro, pode ser descrito como um trabalhador
distraído, mas dedicado ao seu ofício, pois cavou tanto que nem percebe a profun-
didade da cova; representa os tipos exagerados, distraídos, azarados etc.
c) Ambos são narradores observadores, pois não participam da história, limitam-se a
contá-la.
d) – Lugar:cemitério e cidade Santa Fé;
– Tempo: a noite; um dia;
– Enredo: 1ª: um coveiro cavara tanto que ficou preso na própria cova, anoiteceu e che-
gou um bêbado, mas ao invés de ajudá-lo, jogou mais areia achando que fosse um morto
com frio.
2ª: O trecho narra e descreve a chegada do capitão Rodrigo à cidade de Santa Fé.
02.
a) Os verbos de ligação usados (é, parece) fazem com que os substantivos “mato” e
“ninho” sejam usados como adjetivos. O adjetivo “estretalado” caracteriza o “teto”.
b) A descrição é totalmente subjetiva, de acordo com a visão de mundo do autor.
c) Trata-se de uma descrição literária, em que a conotação predomina, associações
inusitadas, foco na forma e não no conteúdo etc.
d) A casa é comparada a um ninho e à natureza em geral, pois tem luar, passa um rio etc.

capítulo 5 • 227
ANOTAÇÕES

228 • capítulo 5
ANOTAÇÕES

capítulo 5 • 229
ANOTAÇÕES

230 • capítulo 5
ANOTAÇÕES

capítulo 5 • 231
ANOTAÇÕES

232 • capítulo 5

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