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INTRODUÇÃO À LÓGICA

autora

CLARA MARIA CAVALCANTE BRUM DE OLIVEIRA

1ª edição SESES rio de janeiro

2019

INTRODUÇÃO À LÓGICA autora CLARA MARIA CAVALCANTE BRUM DE OLIVEIRA 1ª edição SESES rio de janeiro

Conselho editorial

roberto paes e gisele lima

Autor do original

clara maria cavalcante brum de oliveira

Projeto editorial

roberto paes

Coordenação de produção

andré lage, luís salgueiro e luana barbosa da silva

Projeto gráfico

paulo vitor bastos

Diagramação

bfs media

Revisão linguística

bfs media

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antonio sérgio giacomo macedo

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
O48i
Oliveira, Clara Maria Cavalcante Brum de
Introdução à lógica / Clara Maria Cavalcante Brum de Oliveira.
Rio de Janeiro: SESES, 2019.
112 p: il.
isbn: 978-85-5548-686-9.
1. Lógica Clássica. 2. Cálculo Proposicional. 3. Silogismo. 4. Dedução.
I. SESES. II. Estácio.
cdd 160

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj cep 20261-063

Sumário

Prefácio

5

1. O que é lógica?

7

Por que a Lógica é importante para a Filosofia?

13

Um pouco de história não faz mal a ninguém

15

Termos importantes no contexto da investigação lógica

20

Raciocínio, juízo e conceito

20

Inferência, proposição e argumento

22

2. Proposições e o argumento

29

Os termos da proposição

30

Classificação das proposições

30

Oposição das proposições

34

A conversão das proposições

38

A

argumentação

40

Entimemas, Sorites e Dilemas

46

3. A linguagem da lógica

51

A

linguagem simbólica

52

Tabelas de verdade

60

A

estrutura do silogismo categórico e seus princípios lógicos

64

4. Estudo dos predicados

71

Da predicação

72

A

lógica de predicados

76

5. Falácias

89

O estudo das falácias

90

Sofismas e paralogismos

98

Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

A formação acadêmica em Filosofia envolve, primeiramente, a formação de

pessoas e tem como compromisso o ideal de um pensamento reflexivo, crítico, no horizonte do correto pensar. Assim, o presente livro representa uma primeira aproximação com a Lógica, uma área da Filosofia tão importante quanto a Ética,

a Metafísica, a História da Filosofia e outras. E, neste horizonte, o olhar filosófico oportuniza um modo singular de proceder, bem como problematizar o conheci- mento, a linguagem e o pensamento. Nesse sentido, o livro foi estruturado em cinco capítulos. No Capítulo 1 – O que é Lógica? Buscou-se compreender o que é lógica e sua importância como uma área da Filosofia. No Capítulo 2 – Proposições e argumentos, a análise priorizou as proposições como elementos importantes para argumentação, bem como os silo- gismos dedutivos e indutivos. No Capítulo 3 – A linguagem da Lógica, buscou-se conhecer as especificidades da linguagem simbólica ou proposicional para análise das inferências e avaliação dos argumentos. No Capítulo 4 – Estudo dos Predicados,

investigou-se os tipos de predicáveis, as categorias e os predicamentos aristotélicos. E, por fim, no Capítulo 5 – Falácias, analisou-se o fenômeno das falácias ou sofis- mas como erros de raciocínio.

O estudante encontrará, portanto, um estudo propedêutico que não dispensa

a leitura de obras clássicas, em especial, do Organon de Aristóteles, por ser a obra inaugural e fundamental no campo da Lógica. Deste modo, pode-se indagar: por que ler os clássicos? Porque esse é o método inerente à própria Filosofia, ler os

autores diretamente, para conceder às ideias e à reflexão o mais acirrado rigor para

o melhor filosofar, que não se confunde com o ato de citar filósofos, mas construir novas ideias num movimento de afastamento de crenças irrefletidas.

Bons estudos!

1

O que é lógica?

O que é lógica?

Neste primeiro capítulo, com caráter propedêutico, estudaremos o que podemos entender por lógica e sua importância como uma área da Filosofia. Identificaremos que nossa inteligência natural é capaz de utilizá-la nas inferências mais simples do cotidiano, mas poderá falhar diante de argumentos complexos. Assim, conheceremos as definições para lógica, seus termos mais importantes, a sua origem no pensamento aristotélico e, veremos também, que a lógica possui uma história que se confunde em certo sentido com a própria história da razão.

em certo sentido com a própria história da razão. OBJETIVOS • Analisar o conceito de lógica

OBJETIVOS

• Analisar o conceito de lógica e suas características;

• Reconhecer a importância da lógica para o filosofar;

• Identificar a origem da lógica no pensamento aristotélico;

• Definir os termos raciocínio, juízo, conceito, inferência, proposição e argumento.

“Todo dia ela faz tudo sempre igual/me sacode às seis horas da manhã/me sorri um sorriso pontual/ e me beija com a boca de hortelã”. Neste pequeno trecho da música “Cotidiano” de Chico Buarque podemos identificar a ideia de cotidiano. Sim, co- tidiano, esse lugar que habitamos todos os dias em que nos dispomos a conversar com nossos familiares, amigos, estranhos e com nós mesmos. Há quem fale mui- to, quem fale pouco e quem fale mesmo depois de falar. E como falamos! Somos mediados pela linguagem que nos aproxima, nos afasta do outro e nos humaniza. Em muitas situações no dia a dia conversamos, discutimos sobre diferentes assuntos, tais como amor, escolhas de vida, lazer, política, ética etc. Julgamos o tempo todo e somos desafiados a explicar melhor nossas opiniões. Muitas vezes não estamos apenas expondo nossas ideias a respeito de algo, precisamos ir além, precisamos persuadir (ARANHA; MARTINS, 2003). Precisamos convencer o outro e, até mesmo, provocar reações no outro. Pense agora em suas conversas, em todos os momentos em que você desejava convencer alguém e se esforçou para isso. Se somos assim, seria possível fazer tudo isso sem ter minimamente ideias organizadas em nossas mentes? Se o seu interlocutor não demonstrar uma boa organização das ideias, em sua fala, certamente você dirá: “de que se trata?” ou “o que você diz não tem lógica!”

capítulo 1

8

e será uma colocação verdadeira de sua parte. A lógica faz parte de nossa vida, pois é um importante instrumento da comunicação (CHAUÍ, 2010). Mas o que podemos entender por lógica? Nossa intuição imediata nos remete ao conceito de coerência, conexão entre duas ideias, harmonia e até razoabilidade. “uma pessoa

com espírito lógico é uma pessoa ‘razoável’; um procedimento ‘irrazoável’ é aquele que se considera ilógico” (COPI, 1978, p. 19, destaques do autor).

Em muitas situações usamos a palavra lógica para expressar alguma coisa evi-

dente, ou seja, uma conclusão compartilhada e que se pretende óbvia. Imagine que você foi convidado para o show de uma banda com muito sucesso. Possivelmente sua resposta será: “É lógico que eu vou!”. É lógico, mas o que significa isso? Significa dizer que em nossa existência mais cotidiana, mais espontânea, consi- deramos como bom, atraente, seguro e interessante, aquilo que se apresenta com coerência ou por meio de um raciocínio que denote uma organização das ideias, com início, meio e fim. A lógica é uma ciência que faz parte do nosso existir e muitas vezes nem temos consciência disso.

O filósofo italiano, Nicola Abbagnano (1901-1990) 1 , em seu célebre

Dicionário de Filosofia (2009, p. 596), observa que a palavra “lógica”, do inglês lo- gic, francês logique e alemão logik, tem origem etimológica no grego, no termo lo- gos que significa palavra, proposições, oração e pensamento. Esta origem etimológica nos permite observar que o pensar e o pensamento estão interligados e viabilizam compreender o que é lógica. Por quê? Porque quando alcançamos a fase racional identificamos que nosso pensar opera por meio de uma ordem, segue um processo para se alcançar conclusões, descobre-se que existem regras. Trata-se do raciocínio. Segundo Irving M. Copi (1978, p. 19) 2 , o estudo da lógica é aquele que investiga “os métodos e princípios usados para distinguir o raciocínio correto do incorreto”. O sujeito que pensa são os sujeitos do pensar e esse sujeito produz um pensa- mento que é o resultado deste ato. Pensar é um ato que sempre se renova a cada momento. Penso sobre um remédio, penso sobre uma flor, penso sobre um livro, uma pessoa e etc. Cada pensamento é um ato do pensar renovado. Os objetos pensados reais ou não se tornam pensamentos e deixam de existir no tempo e no espaço, como objetos concretos, passam a habitar as mentes humanas. Viram conceitos que ficam em nossas mentes. E podemos pensar em tais conceitos ainda que não se produza um contato físico com o objeto material.

1 Nicola Abbagnano (1901- 1990) filósofo e autor italiano, professor de História da Filosofia na Universidade de Turim. Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicola_Abbagnano>.

2 Irving Marmer Copi (1917-2002) foi um Filósofo especializado em lógica de origem norte americana, autor

de vários livros sobre Lógica, Professor Emérito do Instituto de Lógica das Universidades de IllInois, Princeton, Georgetown e Michigan. Fonte: <https://en.wikipedia.org/wiki/Irving_Copi>.

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9

Posso pensar que necessito comprar determinado livro, sem, no entanto, vê-lo numa livraria. Então, nossa inteligência natural nos diz que temos o sujeito, o ato do pensar e o pensamento. A lógica estuda o pensamento (SANTOS, 1959). Mas não é qualquer tipo de pensamento, pois “se pensamento é qualquer tipo mental que se produz na psique das pessoas, nem todo o pensamento constitui um objeto de estudo lógico. Todo raciocínio é pensamento, mas nem todo pensamento é raciocínio” (COPI, 1979, p. 20). Pensamentos de livre associação, divagações e similares são mais interessante para psicólogos e não para a Lógica. Conforme preleciona Mario Ferreira dos Santos 3 (1959, p. 15): a lógica é “a ciência dos pensamentos enquanto pensamentos, prescindindo dos outros as-

pectos e dos outros elementos que se relacionam com eles, (

) permite a melhor

aplicação do pensamento, evitando erros comuns”. Desta definição precisamos perceber que não são todos os pensamentos e sim no processo do raciocínio, no caminho que se percorreu para se chegar à conclusão, se as premissas fornecem sustentação para essa conclusão. Segundo Irving M. Copi (1979, p. 21):

Ao lógico só interessa a correção do processo, uma vez completado. Sua interrogação

é sempre esta: a conclusão a que se chegou deriva das premissas usadas ou pres-

supostas? Se as premissas fornecem bases ou boas provas para a conclusão, se a

afirmação da verdade das premissas garante a afirmação de que a conclusão também

A distinção entre o raciocínio correto e o

incorreto é o problema central que incumbe à lógica tratar.

é verdadeira, então o raciocínio é correto. (

)

De um modo geral, entende-se por lógica uma área do conhecimento humano que investiga o raciocínio dedutivo, a relação de consequência dedutiva para conclusões váli- das. Trata-se de uma investigação sobre como funciona a nossa razão, a forma como ra- ciocinamos para o conhecimento verdadeiro. Seguindo essa mesma concepção, da lógica como o estudo do ato de raciocinar, Jacques Maritain 4 (1970, p. 17) reforça que

A lógica estuda a razão como instrumento da ciência ou meio de adquirir e possuir

a verdade. Pode-se defini-la: a arte que dirige o próprio ato da razão, isto é, que nos

permite chegar com ordem, facilmente e sem erro, ao próprio ato da razão. ( nome de ciência da razão ou do logos.

daí seu

)

3 Mario Ferreira dos Santos (1907-1968), Jurista e filósofo brasileiro, criador do sistema filosófico designado como Filosofia Concreta. Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Ferreira_dos_Santos>.

4 Jacques Maritain (1882-1973) foi um famoso filósofo francês, autor de várias obras clássicas em Filosofia.

Algumas de suas ideias foram incorporadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Disponível em:

<https://educacao.uol.com.br/biografias/jacques-maritain.htm>.

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Henri Lefebvre 5 (1991, p. 81) observa, no mesmo sentido, que a lógica:

determina através do puro pensamento as regras do seu emprego correto, ou seja, as

regras gerais da coerência, do acordo do pensamento consigo mesmo. (

sempre verdadeiro que o pensamento deve ser coerente. Temos aí uma lei universal, ne- cessária, objetiva, que se impõe, por conseguinte, a todo ser humano capaz de reflexão.

É, e será

)

O dicionário Caudas Aulete Digital define lógica como um substantivo femi- nino que designa “forma de raciocinar coerente em que se estabelecem relações de causa e efeito; a coerência desse raciocínio; modo de raciocinar próprio de alguém; modo coerente pelo qual coisas ou acontecimentos se encadeiam; parte da filosofia que estuda as leis do pensamento e que expõe as regras que devem ser observadas na exposição da verdade”. 6 Hilton Japiassú e Danilo Marcondes (2001, p. 120), observam que podemos definir lógica como “o estudo da estrutura e dos princípios relativos à argumenta- ção válida, sobretudo da inferência dedutiva e dos métodos de prova e demonstra- ção”. Outros estudiosos de filosofia como Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins (2003, p. 100), definem como “estudo dos métodos e prin- cípios da argumentação. Ou, então, como a investigação das condições em que a conclusão de um argumento se segue de suas premissas”. Cada autor com suas palavras apresentou a lógica como o estudo do pensar correto quanto à validade das inferências, do raciocínio. Uma das finalidades da lógica é justamente organizar as regras para o racio- cínio para que nossa inferência seja válida. Então, inferir significa partir de certas proposições, afirmativas ou assertivas que a lógica designa pelo nome ‘premissas’ para alcançarmos uma conclusão válida. Interessa à lógica perceber esse movimen- to das premissas à conclusão e verificar se estamos realmente apresentando uma conclusão válida ou não (ARANHA; MARTINS, 2003). Por isso, alguns autores em Lógica propõem como definição para lógica a ideia de uma ciência da conse- quência e da verdade da argumentação (VAN ACKER, 1971). Existe uma discussão interminável se a lógica é teórica, normativa, uma arte ou técnica. Alguns autores como Mario Ferreira dos Santos (1959), entendem que num aspecto ou em outro a lógica envolve todos esses elementos. Jacques Maritain (1970, p. 17), afirma que a “lógica é a arte que nos faz proceder, com ordem, fa- cilmente e sem erro, no ato próprio da razão”.

5 Henri Lefebvre (1901-1991) filósofo marxista e sociólogo francês. Disponível em: <http://henrilefebvre. blogspot.com/>.

6 O dicionário Caudas Aulete Digital está disponível em: <http://www.aulete.com.br>.

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E podemos dizer, considerando-se a lógica de Aristóteles que ela possui as se-

guintes características: é instrumental porque é uma ferramenta para o pensar corre- to; é formal porque não se ocupa com conteúdos e sim com a forma; é propedêutica porque configura um conhecimento preliminar importante antes de se iniciar uma investigação; é normativa porque nos oportuniza princípios, regras para o pensa- mento correto; é uma doutrina da prova porque observa as condições e fundamentos para as demonstrações. “dada uma certa hipótese, a lógica permite verificar suas

consequências necessárias; dada uma certa conclusão, a lógica permite verificar se é verdadeira ou falsa” (CHAUI, 1995, p. 255); é atemporal e geral porque fornece

formas para o pensar em geral e suas regras e princípios são atemporais, “universais, necessárias e imutáveis como a própria razão (CHAUÍ, 1995, p. 255).

A partir de tais considerações, temos que destacar, também, que a lógica se

divide em duas partes: a lógica menor ou formal e a lógica maior ou material.

Segundo o filósofo francês Maritain (1970, p. 26-27), a lógica menor “estuda as

ensina as regras a se seguir para que o raciocí-

condições formais da ciência; (

nio seja correto ou bem construído”. Analisa-se a forma do raciocínio em que a dedução foi bem realizada e, neste caso, não se observa o conteúdo, a matéria. O que está em jogo nesta parte da lógica é o raciocínio, a abstração feita. Van Acker (1971, p. 12), define a lógica formal como aquela que

)

examina as condições da consequência da argumentação. (

que a consequência, por ela examinada, é a própria forma ou estrutura da argumenta- ção, a ponto de não poder, sem consequência, haver argumentação genuína, quer seja verdadeira ou falsa, ou puramente formal, sem sentido determinado.

Chama-se formal, por-

)

A lógica maior ou material é aquela que investiga o conteúdo para que se ob-

tenha a conclusão verdadeira. Podemos ter um raciocínio correto, segundo as suas regras, mas não verdadeiro quanto ao conteúdo que está sendo demonstrado. E, neste aspecto, Van Acker (1971, p.12) nos auxilia dizendo que

A lógica material é assim chamada, porque a verdade da argumentação, por ela exami- nada, não depende da estrutura consequente da argumentação, mas sim da verdade das proposições que a compõem e lhe são, neste sentido, uma espécie de material.

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Por que a Lógica é importante para a Filosofia?

Argumentos são os tijolos com os quais se constroem as teorias filosóficas; a lógica é a palha que mantém os tijolos unidos. Boas ideias valem pouco, a menos que sejam sustentadas por bons argumentos – estes precisam ser justificados racionalmente, e isso não pode ser feito sem bases lógicas firmes e rigorosas (DUPRÉ, 2015, p. 112).

A lógica é uma disciplina filosófica, é uma área da Filosofia que estuda e iden- tifica nossa maneira de argumentar. Por isso já conversamos na seção anterior que a lógica se interessa pelo estudo cuidadoso dos nossos argumentos. Mas você pode estar pensando: o que são, efetivamente, argumentos? O que estamos imaginando quando falamos a palavra “argumento”? Será que somos sempre claros em nossos ar- gumentos? Às vezes sim, por vezes não. Dependerá de a maneira como organizarmos

as ideias para o nosso interlocutor. E não raro proferimos frases que são, em verdade, conclusões de raciocínios que carregamos em nossas mentes, a partir de premissas implícitas ou subentendidas. Ora o argumento é o raciocínio, a conclusão, a infe- rência que realizamos ao pensar. “Pensar é raciocinar” (MURCHO, 2015, p. 19). Tente abstrair momentaneamente a informação segundo a qual a Lógica é uma área da Filosofia. Imagine que você não tem essa informação e alguém indaga qual a relação entre lógica e Filosofia. Como responder a essa pergunta? Em geral podemos começar lembrando que a Filosofia é um saber teórico e crítico que investiga os fundamentos de todas as coisas, problematiza a vida e o mundo, busca a verdade. Podemos ir ao seu nascimento na Grécia antiga com os pré-socráticos, demonstrando que o seu advento se deu na passagem da narrativa mítica à narrativa racional. Ou, ainda, podemos invocar o célebre confronto entre Sócrates e os Sofistas que nos legou Platão em seus diálogos. Diálogos que nos lembram a palavra dialética. Filosofia envolve ideias, argumentos, diálogo, debate, investigação e fundamentação (ARANHA; MARTINS, 2003). Pensando nisso, podemos afirmar que a lógica é para o filósofo uma ferramen-

ta para construir suas teorias, enfrentar objeções de interlocutores como demons- trou Platão na maiêutica de Sócrates, para organizar as ideias de maneira crítica e fundamentada como reivindicou Descartes no Discurso do Método e tantos outros.

O estudo da Filosofia nos proporciona uma atitude crítica diante da realidade e

sem esta atitude crítica não há que se falar em olhar filosófico ou atitude filosófica.

E o que seria essa atitude crítica se não discutir ideias, considerar argumentos,

dissecá-los, apontar suas fragilidades e pontos fortes.

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Em Filosofia estudamos os filósofos e suas teorias, ou seja, seus argumentos, por- que as teorias são construídas a partir de argumentos. Nesse estudo não vale tanto repetir o que dizem os pensadores, mas compreender como chegaram à determinada ideia, por isso que se diz que em “Filosofia aprende-se a filosofar” (KANT, 1992), a pensar melhor sobre a vida e sobre si mesmo. E para pensar melhor é fundamental o estudo de instrumentos que viabilizam as condições de possibilidade para o correto pensar, porque esta não é uma habilidade espontânea do senso comum.

A lógica é uma condição necessária que precisa ser alcançada com esforço e de-

dicação, embora não seja suficiente. A lógica é importante para a atitude filosófica porque fornece os instrumentos elementares para a argumentação. Immanuel Kant (1724-1804), por exemplo, afirma que a Lógica é uma “ciên- cia das leis necessárias do entendimento e da razão em geral” (1992, p. 30, A4/ AK13), o que a torna uma propedêutica a todo o uso do entendimento. Então, pelo que verificamos até agora é inegável o seu valor e utilidade para Filosofia, confirmada pelos próprios filósofos, como disse Kant, porque a arte de filosofar é

a arte de construir argumentos sólidos e não falácias (argumentos inválidos).

E por falar em falácias, que estudaremos mais adiante, mas só para ilustrar

melhor a relação entre Lógica e Filosofia, podemos imaginar uma pessoa sem qual- quer treino lógico, usa sua inteligência natural. Imagine que ela faz uma leitura de um editorial de um periódico qualquer e aceita passivamente um argumento

como válido, sem, no entanto, identificar as premissas subjacentes a esse argumen- to que, em verdade, o tornam inválido. Ela poderá reproduzir uma visão equivo- cada da vida, poderá perpetuar preconceitos.

É claro que essa invalidade não é grosseira, nem evidente, mas não passaria

despercebida ao olhar de uma pessoa com algum conhecimento em lógica. Em si- tuações com argumentos complexos, uma inteligência sem intimidade com a lógica pode falhar. Então, “uma pessoa com conhecimento de lógica tem mais probabili- dades de raciocinar corretamente do que aquela que não se aprofundou nos princí- pios gerais implicados nessa atividade” (COPI, 1979, p. 20). Como estar preparado

para o debate filosófico, debate sobre argumentos complexos, sem o apoio da lógica?

A Filosofia nos impõe o pensamento fundamentado em motivos que podem

ser compartilhados, comunicados; e, através da Lógica, nos preparamos melhor

para isso. Podemos até errar porque somos seres falíveis e enxergamos o mundo

a partir de nosso quadro conceitual, mas nos esforçaremos para ter uma postura

mais cautelosa a partir de uma reflexão ponderada que nos adverte que não deve- mos formular conclusões falsas.

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A lógica é importante à Filosofia porque a leitura de textos filosóficos exige o

contato com um conhecimento filosófico que passa necessariamente pelo conheci- mento dos filósofos envolvidos, seus conceitos, os problemas filosóficos que iden- tificaram e as soluções por eles proposta. O conhecimento filosófico se faz com o tempo, disciplina e dedicação em leituras abundantes e seguidas. É equivocado pensar que nesta área do conhecimento lidamos com dados, fatos exteriores ao pensamento para apenas identificar ou registrar. O pensamento filosófico nos re- mete a uma interioridade, a uma emergência de novos sentidos, a uma razão livre que constrói sua leitura sobre o que já foi pensado por outros. Reproduzir o que disse um pensador não é filosofar. Por isso, a lógica é indissociável da Filosofia; é indissociável do próprio pensamento (FOLSCHEID; WUNENBURGER, 2006). Mário Ferreira dos Santos (1959, p. 21, grifos da autora), observa ainda que possivelmente, para Aristóteles, a lógica era muito mais que o estudo do pen- samento, era uma metodologia necessária para a Filosofia, sobre isto assevera:

“Aristóteles, porém, nunca considerou a lógica apenas formal, como um estudo do pensamento como pensamento, mas sim como uma espécie de introdução me- todológica para a Filosofia”. Através do estudo da lógica podemos evitar os erros de raciocínio nas leituras dos filósofos, podemos analisar com ponderação os problemas que identificaram, avaliar as fragilidades e pontos fortes de suas teorias e argumentos. Podemos discu- tir filosoficamente suas ideias. Conforme a epígrafe, a lógica é a palha que mantém os tijolos unidos.

Um pouco de história não faz mal a ninguém

A inteligência está ausente. Estas palavras foram proferidas por Platão, ao verificar, certo dia, que Aristóteles não se encontrava na Academia. Contemporâneos dos dois filósofos declararam que Platão costumava chamar seu maior discípulo de o Espirito, o Entendimento, o Ledor. (Goffredo Telles Júnior, estudo introdutório, In: Aristóteles, Arte Retórica e Arte Poética)

Agora que já compreendemos, em linhas gerais, o que é lógica e sua importân-

cia para a atitude filosófica podemos voltar nossa atenção para uma curiosidade:

como ela surgiu? Em que autor ou autores?

A história da Filosofia nos revela que o próprio advento da Filosofia por oca-

sião do surgimento dos pré-socráticos denota que alguns sábios estavam inquietos

capítulo 1 15

diante da realidade e da resposta que a tradição mítica ofertava a essa inquietude. As indagações que surgiram nesta primeira fase, demonstram que buscavam coe- rência, relações válidas entre fenômenos, justificativas para explicar o mundo da physis (REALE; ANTISERI, 1990).

É fato que o pensamento destes primeiros filósofos seguiram um raciocínio,

um sentido, buscaram os nexos causais, nomearam coisas e objetos. É possível que estivessem mergulhados em questões lógicas, sem ainda surgir um estudo sistemá-

tico com esse nome, porque lhes faltavam instrumentos para tal. Mais tarde com

o deslocamento da temática da natureza para o ser humano teremos em Sócrates e Platão a mesma possibilidade (REALE; ANTISERI, 1990).

É evidente que nos diálogos de Platão através do método maiêutico, Sócrates

buscava refutar falsas ideias em nome de um conhecimento verdadeiro. Os sofistas com soberba e ‘ar de quem sabe tudo’ desafiavam o filósofo com seus argumentos. Segundo Reale e Antiseri (1990, p. 99), “Sócrates pôs em movimento o proces- so que levaria à descoberta da lógica, contribuindo de modo determinante para essa descoberta, mas ele próprio não a alcançou de modo reflexo e sistemático”. Abriu caminho para o estudo do conceito e da definição, mas não estabeleceu sua estrutura. Platão, por exemplo, na busca de sua realidade inteligível, caminhou na di- reção de uma libertação dos sentidos do mundo sensível, do simulacro para o

nível do raciocínio puro, lugar do intelecto. Por meio de uma dialética ascendente colocou o filósofo liberto dos sentidos em direção às ideias, em direção à verdade (REALE; ANTISERI, 1990). Igualmente enfrentou questões lógicas ao reunir em sua doutrina das ideias o devir de Heráclito e a permanência de Parmênides. De qualquer sorte, foi Aristóteles (384-322 a.C.) quem elaborou o primeiro estudo sistemático sobre a lógica. Esse estudo se encontra em escritos organizados

e designados pelo nome de Organon, que significa instrumento para o correto pensar (ABBAGNANO, 2009). Os escritos que compõem o Organon são:

1. Categorias;

2. Da interpretação;

3. Analíticos Primeiros;

4. Analíticos Segundos;

5. Tópicos;

6. Refutações sofísticas.

capítulo 1 16

O que podemos considerar como tratado da lógica aristotélica pode ser iden-

tificado nos Analíticos Primeiros em que o estagirita 7 apresenta a estrutura do ra- ciocínio por meio do silogismo. A seguir, nos Analíticos Segundos em que faz o estudo de um tipo específico de silogismo, que é o silogismo científico que busca a verdade. E os Tópicos e Refutações Sofísticas em que analisa o raciocínio que, embo- ra correto, apresenta uma conclusão inválida. Antes desses textos, temos Categorias

e Da interpretação que são textos com conhecimentos gerais que estudam o voca-

bulário, os termos ou palavras que precisamos conhecer para a investigação lógi- ca. Marilena Chauí (1994, p. 256), sinaliza que “do ponto de vista cronológico,

Aristóteles escreveu primeiro as categorias e parte dos Tópicos ( livros II a VII), e só mais tarde, ao estudar as regras do raciocínio, escreveu os dois Analíticos.”

A ideia de Aristóteles era que a lógica ao apresentar como funciona o pensa-

mento, sua estrutura, seus elementos se torna um instrumento importante para qualquer investigação ficando como instrumento para todas as ciências, as teo- réticas, práticas, poiéticas ou produtivas. Não faz parte de nenhuma destas três ciências em particular, mas está na base para o pensar correto de um modo geral, pressuposto necessário para o conhecimento seja teorético, prático ou poético. Segundo Reale e Antiseri (1990, p. 211), a lógica

não encontra lugar no esquema com base no qual o estagirita subdividiu e sistemati- zou as ciências porque considera a forma que deve ter qualquer tipo de discurso que pretenda demonstrar algo e, em geral, que queira ser probante.

Foi Alexandre de Afrodísia (198 – 209 d.C.) quem usou o termo Organon para designar o conjunto de escritos de Aristóteles, o que já indica em si a ideia de a lógica ser um instrumento necessário e básico para qualquer investigação, conforme ressaltou o próprio filósofo (REALE; ANTISERI, 1990). No início do escrito com título de Analíticos, Aristóteles apresenta uma obser-

vação sobre a necessidade de definição. Ele diz: “Nossa primeira tarefa consiste em indicar o objeto de estudo de nossa investigação e a que ciência ele pertence: que concerne à demonstração e que pertence a uma ciência demonstrativa” (Analíticos,

I, 24a10; 2010, p. 111), mas não nomeou com o nome de “Lógica”. O termo que

usava era “analítica”, o que justifica o título de seus primeiros escritos considerados como fundamentais. A palavra analítica decorre do grego análysis que significa

7 Aristóteles nasceu na cidade de Estagira, cidade grega e então colônia da Macedônia Sobre os dados biográficos cf. ARISTÓTELES. Órganon. Tradução Edson Bini. 2. ed. São Paulo: Edipro, 2010, p. 9-15.

capítulo 1 17

resolução e designa o método por meio do qual investigamos uma dada conclusão

a partir dos elementos da qual resulta e, portanto, buscamos seu fundamento, sua justificação (REALE; ANTISERI, 1990).

O que Aristóteles quis dizer é que a analítica ou lógica é o conhecimento que

precisamos desenvolver antes de um aprofundamento filosófico ou uma investiga- ção científica. Em Aristóteles, é “uma disciplina vestibular, um conhecimento que deve anteceder aos outros conhecimentos, sendo por isso uma propedêutica (de

pró-, antes e paideía, formação: propaideía)” (CHAUÍ, 1994, p. 255).

É interessante perceber que mesmo considerando-o como pai da lógica, de-

signada posteriormente como lógica aristotélica ou lógica clássica o termo apareceu somente nos escritos estoicos com o sentido de arte do discurso dirigido à persua- são. Sobre isto diz Abbagnano (2009, p. 597): “Aristóteles deixou a Lógica não somente sem um nome próprio para designá-la, mas também equívoca em seu status como disciplina e não bem determinada com relação à sua matéria subietcta”. Após os estoicos a nomearem como Lógica, com os comentadores peripatéti- cos, neoplatônicos e ecléticos como Cícero, por exemplo, e nas próprias reflexões de Alexandre de Afrodísia, que o termo apareceu como a doutrina apresentada na obra Analíticos de Aristóteles. Surgiu a Lógica como a doutrina do silogismo e demonstração (ABBAGNANO, 2009). Ocorre que com Boécio (477 – 524 d.C.), a doutrina contida no Organon também recebeu o nome de Lógica e, por vezes, de Dialética. É interessante que Boécio introduziu a obra Isagoge de Porfírio, que ele havia traduzido para o latim atribuindo esse nome, como se fosse uma introdução geral à Lógica de Aristóteles.

Porfírio de Tiro era um filósofo grego famoso por ter elaborado a biografia do filó- sofo platônico Plotino. E ficou conhecido, também, por ter difundido o neoplato- nismo durante o Império Romano. O nome original da obra traduzida por Boécio como Isagoge era Introductio in Praedicamenta que apresentava um comentário sobre o primeiro texto que compõe o Organon, intitulado Categorias (REALE; ANTISERI. 1990; ABBAGNANO, 2009).

E assim, durante a Idade Média, a partir do séc. XII, se estudava primeiro a

obra porfiriana para depois ingressar nas leituras do Organon. Posteriormente, o pensamento medieval acrescentou mais doutrinas aos escritos originais de origem aristotélica. Foram inseridas partes que integram a doutrina da Lógica conhecida como semântica (ABBAGNANO, 2009). Durante a idade média a obra Isagoge e os escritos aristotélicos desencadearam

o que se denominou de querela dos universais. A questão central era se os universais

capítulo 1 18

seriam ou não substâncias reais. De um lado, os realistas como Anselmo di Aosta, que afirmavam a existência real dos universais e, de outro, os nominalistas, como Abelardo discutiam essa questão negando a existência real dos universais. A lógica medieval passou a ser pensada a partir das duas correntes ou métodos. Sendo o ponto de vista de Abelardo o que predominou, de certo modo, até início da Idade Moderna, divulgando-se a tese de que o problema dos universais estaria mais vin- culado a metafísica e gnosiologia que a Lógica propriamente (ABBAGNANO, 2009). No período moderno, a lógica sofreu influência do pensamento de Galileu Galilei (1564-1642) e de Francis Bacon (1561-1626), assimilando método de experimentação e da matemática, bem como novas regras a partir da influência de John Stuart Mill (1806-1873) (SANTOS, 1959). Podemos organizar os escritos de Aristóteles em áreas porque o estagirita es- tudou praticamente todos os ramos do saber de sua época. Na área da lógica:

Organon. Na área da filosofia natural, Física, o Céu, A geração e a corrupção e a Meteorologia. Na área da psicologia, o tratado Sobre a Alma e opúsculos sob o título Parva naturalia. A famosa Metafísica composta de 14 livros. As obras de filosofia moral e política como Ética a Nicômaco, Grande Ética, Ética a Eudemo e a Política. Poética e Retórica e sobre ciências naturais História dos animais, As partes dos animais, O movimento dos animais e A geração dos animais (REALE; ANTISERI, 1990). De qualquer sorte a contribuição de Aristóteles foi inestimável e podemos dizer que ainda enxergamos o mundo e vivemos nele seguindo muitas de suas ideias. Por exemplo, até hoje usamos os princípios da lógica aristotélica e que figuram na base de toda argumentação, tais como o princípio da não contradição, o princípio de iden- tidade e o princípio do terceiro excluído. Imagine-se convivendo com alguém que age de uma maneira e depois nega o que falou ou fez, uma pessoa que menciona que branco é verde e verde é azul, ou que confunde a verdade com a falsidade e tenta criar um terceiro modo que seja ao mesmo tempo verdadeiro e falso. Complicado. O princípio lógico da não contradição é aquele que diz que ‘o que é, é; o que não é, não é’. Se o objeto que tenho nas mãos é um livro, é um livro e não po- derá ser, simultaneamente, uma cadeira. Este princípio lógico está intimamente ligado ao princípio da identidade porque estabelece que nenhum objeto poderá, ao mesmo tempo, ser ele mesmo e outro. Se afirmo que o objeto que seguro em minhas mãos é um livro e depois afirmo que é uma caneta estou produzindo um conhecimento contraditório, ferindo os dois princípios, o da identidade e o da não contradição (REALE; ANTISERI. 1990; ABBAGNANO, 2009).

capítulo 1 19

O princípio da identidade traz a ideia de coerência, de rigoroso pensamento

e apresenta uma repetição: o carro é o carro – o ser é o ser. Se estamos lendo con- tos, fantasias, mitos, carregados de uma linguagem simbólica, temos consciência disso. Enfrentamos contradições admitidas no pensamento enquanto tais. Todavia

a contradição irrefletida, não consciente, fere a exigência básica de coerência. O princípio da identidade nos permite perceber também a diferença (cadeira não é mesa), a relação e a contradição (LEFEBVRE, 1991). E o princípio do terceiro excluído? O que significa? É plenamente aceito que

o contrário de certo é o errado. Certo e errado são termos contrários como noite/

dia, por exemplo. Ora, se já identificamos que dois enunciados contraditórios não podem ser ambos certos, consequentemente um será errado. E pelo princípio do terceiro excluído, se um for certo o outro será necessariamente errado, pois não há um terceiro elemento designado como certo-errado, ou será certo ou será errado (ARANHA; MARTINS, 2003; SANTOS, 1959). Então, é inegável que a lógica continua vinculada às suas raízes no pensamento Aristotélico.

Termos importantes no contexto da investigação lógica

Raciocínio, juízo e conceito

Já identificamos que a lógica definida, de um modo geral, como a ciência

das leis do pensamento, não trabalha com qualquer tipo de pensamento que é produzido por nossa inteligência. O pensamento que interessa ao campo da ló-

gica é o pensamento identificado por um raciocínio. A lógica estuda a forma do raciocinar. E o que podemos designar como raciocínio? Como posso identificar um raciocínio?

O filósofo Irving M. Copi (1978, p. 21), define raciocínio como “um gênero

especial de pensamento no qual se realizam inferências ou se derivam conclusões

a partir de premissas”. E o que realmente vai interessar nessa forma do pensar

é como as premissas se relacionam com a conclusão. Se as premissas sustentam a

conclusão teremos um raciocínio correto ou válido, se as premissas não sustentam a conclusão teremos um raciocínio incorreto ou inválido.

O racionar é uma operação complexa, mas indivisa ou uma, que realizamos

para se alcançar uma conclusão, ou seja, tornar algo evidente. Como é uma ope-

ração complexa é constituída por atos distintos e cada um dos atos é designado como juízo. O raciocínio supõe o juízo, o julgar. Quando julgamos afirmamos

capítulo 1 20

ou negamos algo e nos colocamos na posse de uma verdade sobre determinado assunto ou objeto (MARITAIN, 1970). Segundo Abbagnano (2009), o juízo é um termo oriundo da linguagem ju- rídica e que apresenta quatro significados distintos, a saber: como faculdade de distinguir ou avaliar; uma parte da lógica; ato no qual se baseia uma proposição discordando-se ou não sobre algo e, por fim, uma operação intelectual que se afigura na proposição. Na obra Sobre a alma, Aristóteles a identifica como uma faculdade da alma que permite discriminar, avaliar (III, 9, 15). Julgar significa avaliar, escolher e sempre indica o sentido de uma atividade julgadora. Uma ati- vidade valorativa. Assim como o raciocínio pressupõe o juízo, este pressupõe outra operação designada pelo nome concepção ou percepção. Maritain (1970, p. 19), define con- ceber como o ato de “formar em si uma ideia, na qual se vê, atinge ou apreende alguma coisa”. Conceber significa formar uma ideia. Exemplo: chuva, inverno, criança etc. Para proferirmos um juízo, temos que ter essa capacidade de conceber. Como sei o que significa doce posso proferir o seguinte juízo: o doce contém açú- car. Lefebvre (1991, p. 143), observa que a fórmula “A é B” é a “forma de todo o juízo”. Essa fórmula liga por meio do verbo “ser” que em lógica chama-se cópula, “um sujeito e um atributo que não seja a repetição do sujeito”. O raciocínio pres- supõe o juízo que pressupõe o ato de conceber ou perceber. O conceito é aquilo que a inteligência é capaz de produzir e, segundo a lógica aristotélica, precede o juízo. No ato de intelecção produzimos ideias em nós mes- mos. Ao olharmos uma cadeira, independente de sua matéria, identificamos que aquele objeto é uma cadeira. Criamos uma imagem ou como diz Maritain (1970, p. 42), “similitude espiritual da coisa em nós” e, acrescenta, “denomina-se ainda ideia, noção ou verbo mental, e, mais precisamente, conceito mental ou conceito formal.” Por isso, através dos conceitos somos capazes de conhecer alguma coisa. Os conceitos integram as proposições. Abbagnano (2009), observa que conceituar significa descrever, classificar os objetos cognoscíveis. Por isso, podemos construir um conceito de mesa, do núme- ro cinco, por exemplo, de um período da nossa história, e, esse conceito, não se confunde com o nome que atribuímos às coisas porque por equívoco um mesmo nome poderá conter muitos conceitos. O conceito poderá se referir a fatos, dados, coisas inexistentes, situações passadas. É um símbolo linguístico comunicável e a sua função principal é a comunicação.

capítulo 1 21

Quanto à sua natureza, o conceito revela a essência das coisas, uma essência necessária, sem a qual deixaria de existir. Essa foi a contribuição que a filosofia grega nos ofertou. E para se alcançar a essência é preciso subtrair a diversidade, a mudança, as opiniões e buscar os traços que não se alteram, no sentido do que o objeto é realmente. Essa era a tarefa que os gregos entendiam como a do ser huma- no enquanto ser racional – uma tarefa da razão (ABBAGNANO, 2009). Para Aristóteles, por exemplo, conceito pode ser visto como idêntico à subs- tância que significa a ideia de estrutura necessária do ser. Ele diz: “Temos conhe- cimento das coisas particulares somente quando conhecemos a essência necessária das mesmas” (Metafísica, VII, 6, 1031 b 6). A função mais importante do conceito

é permitir a descrição dos objetos da experiência para viabilizar seu reconheci-

mento, bem como a de organizar os dados da experiência para que as conexões de ordem lógica sejam possíveis (ABBAGNANO, 2009). Através dos conceitos identificamos as características e os aspectos que distin-

guem algo. Imagine o conceito ‘cachorro’. Podemos observar várias características

e aspectos Inteligíveis que definem um cachorro: um mamífero carnívoro, domes-

ticável e que possuem quatro patas, por exemplo. Neste caso, não iremos confun- dir com o sentido figurado do termo que designa alguém com conduta perversa. Então, conceito, percepção, juízo e raciocínio estão intimamente relacionados.

Inferência, proposição e argumento

Inferência é um termo especial usado pelo filósofo lógico e aponta para um

procedimento por meio do qual se alcança uma proposição, construída, tendo-se por base outras proposições anteriores. Proposições podem ser falsas ou verdadeiras

e representam o significado de uma sentença ou uma oração. Aristóteles (Da int., IV, 30, 16b1, 2010, p. 84) define sentença como:

fala dotada de significação, sendo que esta ou aquela sua parte pode ter um sig-

nificado particular de alguma coisa, ou seja, que é enunciado, mas não expressa uma afirmação ou negação. Que eu o explique mais minuciosamente. Tomemos a palavra homem. Com certeza esta encerra um significado, porém nem afirma nem nega; é preciso que algo lhe seja acrescentado para que possa afirmar ou negar.

) (

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Então, percebemos que o silogismo das mulheres e as rosas ofereceu um ra-

ciocínio incorreto. Irving M. Copi (1978, p. 22), oferece um bom exemplo para essa ideia:

1. “João ama Inês”;

2. “Inês é amada por João”.

Temos duas sentenças ou orações diferentes (1 e 2), mas apresentam o mesmo

significado de que uma pessoa ama a outra. A palavra proposição refere-se a esse significado que é identificado. A proposição é o significado de uma sentença ou oração. E Aristóteles (Da int., IV, 30, 17a1, 2010, p. 84) nos diz: “Chamamos de proposições somente as que encerram verdade ou falsidade em si mesmas”, porque afirmam ou negam alguma coisa. Para clarificar um pouco mais se enten- de pelo termo proposição podemos destacar mais um exemplo do filósofo lógico Copi (1978, p. 22):

1. “Chove”;

2. “It is raining”;

3. “Il pleut”;

4. “es regnet”.

Neste exemplo temos quatro diferentes sentenças, em idiomas diferentes, mas o que guardam em comum? O mesmo significado. Em todas o significado é o mesmo: está chovendo. Diferentes sentenças ou orações podem apresentar a mes- ma proposição, ou seja, o mesmo significado. Existem autores em filosofia que usam os termos enunciado ou declaração para designar o mesmo que proposição, mas de um modo geral usa-se com mais frequência o termo proposição. E o argumento? O que se entende por argumento? Em cada inferência se iden- tifica um argumento correspondente que é o objeto de investigação para o filósofo lógico. Copi (1978, p. 23), define argumento como “qualquer grupo de proposi- ções tal que se afirme ser uma delas derivada das outras, as quais são consideradas provas evidentes da verdade da primeira”. Um argumento possui uma estrutura específica. Nessa estrutura temos as premissas e uma conclusão, por isso o filósofo definiu como um grupo de proposições em que uma (conclusão) é derivada de outras (premissas).

capítulo 1 23

Então, podemos descrever a estrutura de um argumento da seguinte maneira:

temos a conclusão do argumento que, na verdade, é uma proposição, um signifi- cado que se afirma com base em duas outras proposições e, essas proposições, na estrutura de um argumento, ganham o nome de premissas. Vejamos um exemplo clássico para identificarmos a estrutura de um argumento:

Todo homem é mortal (sentença com significado = proposição) — PREMISSAS Sócrates é homem (sentença com significado = proposição) — PREMISSAS

Logo, Sócrates é mortal (proposição final) — CONCLUSÃO

Neste exemplo, percebemos a estrutura de um argumento que é constituída por premissas que são as proposições enunciadas como razões para justificar uma

possível conclusão, ou seja, proposição final, a partir do que foi enunciado antes. Pode-se argumentar a partir do seguinte silogismo:

1. Todo homem é mortal. (premissa 1)

2. Pedro é homem. (premissa 2)

3. Logo, Pedro é mortal. (conclusão)

Esse é um silogismo clássico que apresenta um argumento válido, porque a

conclusão é válida e segue o que foi dito nas afirmativas – a forma lógica é válida; Se olharmos o conteúdo de cada proposição, identificaremos que são verdadeiras – a forma lógica é válida e a conclusão é verdadeira. Todavia, podemos criar muitos silogismos semelhantes, mas nem todos podem trazer um argumento válido e uma conclusão verdadeira. Em alguns casos fica clara a validade do argumento, mas a não veracidade do conteúdo da conclusão. Vejamos:

1. Todas as rosas são flores. (premissa 1)

2. Algumas mulheres são Rosas. (premissa 2)

3. Algumas mulheres são flores. (conclusão)

As duas premissas estão corretas, mas a conclusão, embora válida quanto a forma do raciocínio, é falsa no seu conteúdo, mulheres não são flores. Mulheres

podem ter o prenome “Rosa”, mas não significa dizer que são flores, são seres hu- manos. Vejamos mais um exemplo:

1. Todos os taxistas conduzem automóvel. (premissa 1)

2. Alguns taxistas são idosos. (premissa 2)

3. Logo, todos os taxistas são idosos. (conclusão)

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Neste último silogismo também podemos identificar que as premissas são ver- dadeiras, mas a conclusão, embora válida sob o ponto de vista da forma lógica, traz uma informação falsa, pois nem todos os taxistas são idosos. Esses silogismos nos ajudam a perceber outro detalhe em lógica. Alguns lógi- cos fazem uma distinção entre argumentos válidos e argumentos corretos. Quando mencionamos que um argumento é válido estamos no plano da forma lógica como visto anteriormente. A conclusão segue a partir das premissas. Quando menciona- mos que um argumento é correto podemos prová-lo, justificá-lo. Nos dizeres de Harry J. Gensler (2016, p. 10-1):

Dizer que um argumento é ‘válido’ não diz nada sobre se suas premissas são verdadei- ras. Mas dizer que um argumento é “correto” quer dizer que ele é válido (a conclusão segue a partir das premissas) e que suas premissas são verdadeiras.

Assim, podemos identificar uma sentença e sua proposição, ou seja, em língua portuguesa, uma oração e seu significado. E podemos, também, identificar as partes integrantes de um argumento, as premissas (duas ou mais proposições que nascem de sentenças) e a sua conclusão (proposição final). Quando se pensa em argumentos, se pensa nessa estrutura complexa que revela o processo de inferência que a nossa inteli- gência é capaz de realizar. É essa estrutura que interessa para investigação lógica. O filósofo Irving Copi (1978, p. 23), observa uma importante advertência essa estrutura:

Nenhuma proposição, tomada em si mesma, isoladamente, é uma premissa ou uma conclusão. Só é premissa quando ocorre como pressuposição num argumento ou ra- ciocínio. Só é conclusão quando ocorre num argumento em que se afirma decorrer das proposições pressupostas nesse argumento.

Com efeito, quando estamos lendo um texto, filosófico ou não, nem sempre os argumentos estão organizados dessa maneira. É muito frequente identificar a conclusão em primeiro lugar ou de forma mais evidente e, depois, as premissas que estariam justificando-a. Não podemos esquecer que um argumento envolve uma conclusão e duas outras proposições, não importa se estão localizadas de maneira diferente da forma como didaticamente identificamos e estudamos a sua estrutura. “A conclusão de um argumento não tem de ser enunciada, necessaria- mente, no seu final ou no seu começo. Pode estar – e frequentemente está - inter- calada entre as diferentes premissas oferecidas em seu apoio” (COPI, 1978, p. 24).

capítulo 1 25

A tarefa do filósofo lógico não é tão fácil assim, porque identificar e distinguir

argumentos num texto, separando as premissas e suas conclusões requer certo treinamento. Como podemos reconhecer argumentos num texto? O que poderá nos auxiliar nesta tarefa? Quando estudamos lógica aprendemos que existem pa- lavras ou frases que denunciam tratar-se de uma conclusão de um argumento, por exemplo. Que palavras ou frases seriam? Posso indicar ao meu leitor uma conclu- são quando uso os termos: portanto, logo, daí, consequentemente, assim, conclui-se,

podemos inferir que, segue-se que, dentre outras semelhantes.

E as premissas? Como posso localizá-las? Copi (1978), observa que autores

usam termos como porque, desde que, pois, que, como, dado que e semelhantes para indicar as premissas que fundamentam a conclusão do argumento. Tais elementos que estruturam o argumento podem estar localizados em diferentes partes do tex- tos. Essas palavras podem ser úteis para a identificação de argumentos num texto

que poderá apresentar dados e informações, às vezes, irrelevantes. O autor de um texto poderá construir um argumento central, argumentos menores interligados ou não. Jacques Maritain (1970, p. 17), nos oferece um silogismo que podemos rees- crever para exemplificar como, num texto, os termos nem sempre estão ordena- dos. Podemos dizer:

1. “É claro que a alma humana é incorruptível”

2. “Ora, a alma humana é espiritual”.

3. “Tudo o que é espiritual é incorruptível.”

Veja que nesse exemplo, que tomamos emprestado do filósofo francês, come- çamos pela conclusão. Se reordenarmos os termos do argumento ficaria assim: as duas premissas e a sua conclusão. Nada obsta de que uma pessoa, na sua escrita ou em sua fala, comece pela conclusão.

“Tudo o que é espiritual é incorruptível Ora, a alma humana é espiritual Logo, ela é incorruptível”

Se nos aproximarmos um pouco mais da experiência lógica, aos poucos identi- ficaremos com mais clareza os argumentos de um autor, de seus personagens numa obra literária, independentemente da ordem de seus termos. Saberemos identi- ficar argumentos centrais e secundários, fortes ou fracos, em qualquer escrito,

capítulo 1 26

acadêmico ou não. Aprenderemos a examiná-los com cuidado e pensamento críti- co, não apenas no aspecto formal, mas também no material. Como uma ciência, a lógica nos ensina a raciocinar metodicamente, ou seja, uma disciplina que proporciona um conhecimento estruturado sobre o próprio raciocinar, investigando as condições da consequência e da verdade.

investigando as condições da consequência e da verdade. ATIVIDADES 01. Estudar lógica pode fazer toda diferença

ATIVIDADES

01. Estudar lógica pode fazer toda diferença para quem deseja ingressar nos estudos filo-

sóficos, mas sem dúvida será interessante, também, em outras situações. Pesquise e aponte, pelo menos, três vantagens que justifiquem por que precisamos estudar lógica em pleno século XXI.

02. Estudamos que um argumento poderá ser válido ou inválido. Assim, analise os argumen-

tos a seguir e diga se apresentam forma lógica válida ou inválida.

a) Pedro está no Brasil, está na América Latina. /Pedro não está no Brasil/ Logo, Pedro não está na América Latina.

b) Todos os ricos têm contas a pagar. / Carlos tem contas a pagar. / Logo, Carlos é rico.

c) Todos os cachorros latem. / Lucky é um cachorro. /Logo, Lucky é um latidor.

latem. / Lucky é um cachorro. /Logo, Lucky é um latidor. REFLEXÃO Neste capítulo identificamos que

REFLEXÃO

Neste capítulo identificamos que a lógica é uma ferramenta realmente importante para análise crítica de argumentos, nos auxilia a clarificar nossas próprias ideias e é um instrumen- to imprescindível para quem deseja ingressar nos estudos filosóficos. A lógica nos convida a desenvolver habilidades analíticas para o correto raciocinar. As contribuições de Aristóteles são inestimáveis.

As contribuições de Aristóteles são inestimáveis. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO, Nicola. Dicionário

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1982. ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. 3.ed. São Paulo:

Moderna, 2003.

capítulo 1 27

ARISTÓTELES. Organon. Analíticos Anteriores. Tradução de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimaraes Editores, 1985. V.2. Órganon. Categorias. Da interpretação. Analíticos Anteriores. Analíticos Posteriores. Tópicos. Refutações Sofísticas. Tradução Edson Bini. 2. ed. São Paulo: EDIPRO, 2010. Sobre a alma. Tradução de Ana Maria Lóio. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2010. CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia. Dos pré-socráticos a Aristóteles. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. Iniciação à filosofia. São Paulo: Ática, 2010. COPI, Irving M. Introdução à lógica. Tradução de Álvares Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1978. D’OTTAVIANO, Ítala Maria L.; FEITOSA, Hércules de A. Sobre a história da Lógica, a Lógica Clássica e o surgimento das Lógicas não clássicas. Curso História da lógica e o surgimento das lógicas não clássicas. V Seminário Nacional de História da matemática. UNESP, 2003. Disponível em:

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Martins Fontes, 2006. GALVÃO, Pedro (Org.). Filosofia. Uma introdução por disciplinas. Lisboa: edições 70, 2014. HEGEMBERG, Leonidas; ANDRADE E SILVA, MAKILUZE F. Novo dicionário de Lógica. Rio de Janeiro: Pós-Moderno, 2005. KANT, Immanuel. Lógica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1992. LEFEBVRE, Henri. Lógica formal, Lógica dialética. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. MARITAIN, Jacques. A ordem dos conceitos. Lógica menor. Tradução de Ilza das Neves e Adriano Kury. 6. ed. Rio e Janeiro: AGIR, 1970 MURCHO, Desiderio. O lugar da Lógica na Filosofia. [livro digital]. Plátano, 2015. Paulo: Moderna, 2003. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Antiguidade e Idade Média. São Paulo:

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capítulo 1 28

2

Proposições e o argumento

Proposições e o argumento

Neste capítulo, estudaremos as proposições como elemento importante para argumentação. Para tanto, analisaremos a sua classificação em proposições univer-

sais, particulares, singulares, indefinidas, simples ou compostas. Identificaremos também as regras para oposição das proposições em contrárias e contraditórias e

a conversão de seus termos. Finalizaremos essa parte do estudo com os silogismos dedutivo e indutivo e as figuras do entimema, sorites e dilema.

e indutivo e as figuras do entimema, sorites e dilema. OBJETIVOS • Identificar os tipos de

OBJETIVOS

• Identificar os tipos de proposições que integram um argumento;

• Aplicar as regras para oposição das proposições em contrárias e contraditórias;

• Evidenciar as diferenças entre o silogismo dedutivo e indutivo;

• Identificar silogismos contendo entimemas, sorites e situações de dilema e contra dilema.

Os termos da proposição

Classificação das proposições

Os autores em lógica geralmente definem proposição como elemento da argu-

mentação em que um termo, premissa ou conclusão, pode ser afirmado ou negado

a partir de sua relação com outro. De uma proposição podemos construir muitas

argumentações possíveis e a ligação entre elas se dá por negação ou afirmação. Podemos enumerar as proposições em simples e compostas segundo a diversida- de de cópulas. Se analisarmos uma proposição perceberemos que existe o sujeito da proposição e o seu predicado ligados por uma cópula que é o elemento formativo das proposições. Numa proposição em que temos tais termos ligados por uma có- pula verbal “é”, por exemplo, identificamos esta proposição como simples, categó- rica ou atributiva. Se encontrarmos duas proposições consideradas simples ligadas por meio de uma outra cópula, com “e” ou “se”, recebe o nome de hipotética ou composta (MARITAIN, 1970).

capítulo 2 30

Considerando tais elementos, podemos dividir as proposições em uma di- mensão material quando falamos em sujeito e predicado e uma dimensão formal quando observamos a cópula (VAN ACKER, 1971). Por exemplo:

Todo homem é racional (proposição) “homem” = sujeito “é” = cópula (poderá ser afirmativa ou negativa) “racional” = predicado

A cópula poderá ser afirmativa ou negativa. Evidencia-se uma cópula afirma- tiva quando identifica o sujeito ao predicado e, por outro lado, negativa, quando pretende distinguir os termos negando uma relação. Se digo “O homem não é imortal” estou usando a cópula da maneira negativa, negando a relação entre ho- mem e imortalidade. Normalmente, os estudiosos em lógica convencionaram usar o símbolo mate- mático atribuído à divisão (:) para representar o termo cópula no sentido negativo. A cópula afirmativa é representada, em geral, pelo sinal de igualdade (=). Frise-se que é apenas uma representação por sinal, não possui o mesmo sentido de uma operação matemática que divide, soma ou subtrai. É importante observar também que a cópula poderá estar implícita numa proposição. Segundo Van Acker (1971, p. 26), podemos identificar uma cópula implícita na seguinte frase: “Deus existe” e a explícita na proposição “Deus é existente”. As proposições lógicas podem ser classificadas segundo sua quantidade, sua qualidade essencial ou qualidade contingente. Temos, por exemplo proposições com quantidade quando afirmamos “Todo homem é mortal”. São designadas como proposições com quantidade “totais” ou “universais” – uma generalidade abstrata. Podemos usar também, no mesmo sentido de universalidade, o termo “nenhum”. E este tipo universal se opõe às proposições com quantidades parti- culares ao usarmos a palavra “algum” ou “alguns” ou prenomes designando uma individualidade. Vejamos:

Todo homem é mortal – proposição com quantidade total ou universal Algum homem é desonesto – proposição com quantidade particular

Existem ainda proposições compostas do tipo “Os valentes se sacrificam e os covardes se enriquecem” (MARITAIN, 1970, p. 127) e aquelas que não indi- cam quantidade, são proposições singulares ou indefinidas. Quando menciono “Sócrates é mortal”, identifico um sujeito singular. Numa proposição indefinida

capítulo 2 31

posso dizer “O francês não é simpático”. Significa dizer que muitos ou alguns, não são simpáticos, embora nem todos sejam assim. Fica indefinido. Sócrates é mortal – proposição sem quantidade singular

O

francês não é simpático – proposição sem quantidade, indefinida

Se

analisarmos a proposição sob o aspecto da cópula podemos classificá-la em

proposições categóricas afirmativas ou negativas; proposições hipotéticas condicionais,

disjuntivas ou conjuntivas. O nome “categórico” significa que as proposições apre- sentam uma cópula lógica no sentido de ligação atributiva por afirmação (“é”) ou negação (“não”). Atribui um predicado ou o nega. Exemplo:

Todo homem é mortal - proposição categórica afirmativa Todo homem não é imortal – proposição categórica negativa

As proposições hipotéticas apresentam uma cópula chamada de hipotética ou supositiva, além da cópula atributiva que é aquela que já vimos e que atribui algo a alguém. Neste caso, alega-se uma hipótese, uma suposição com possibilidades de

outras proposições. Se é condicional, a cópula hipotética “se”, ou, seu equivalente, estabelece um antecedente e um consequente (VAN ACKER, 1971).

E se observarmos a partir da estrutura do raciocínio podemos dizer que a

premissa apresenta o antecedente e a conclusão o consequente. Para este tipo de proposição, Van Acker (1971, p. 34), nos oferece o seguinte exemplo: “Se todo homem é racional, todo homem é social”. A condição liga-se ao consequente, de maneira a destruição da condição ocasiona eliminação da conclusão. Entretanto, nem sempre as premissas apresentarão essa relação recíproca verdadei- ra e, mais, nem todas as proposições são lógicas. Não podemos confundir a proposi-

ção condicional lógica com simples proposições gramaticais do tipo: “Se estudar muito, passarei na prova”. Neste último exemplo não há nexo lógico ligando o antecedente e o consequente. Por quê? Porque o examinador poderá ser mais rigoroso, poderá o can- didato passar mal durante a realização da prova, dentre outras variáveis interferem no resultado eliminando uma relação, um nexo lógico entre antecedente e consequente. As proposições disjuntivas são aquelas em que a cópula hipotética assume a

ou”. Temos, pelo menos, dois elementos equivalentes em que um

forma: “ou

sendo escolhido, elimina o outro e vice-versa. Exemplo: “Haverá um único chefe, ou as coisas serão mal governadas” (MARITAIN, 1970, p. 127). E, neste caso, cabe a mesma advertência para não confundirmos com as proposições puramente gramaticais (VAN ACKER, 1971).

capítulo 2 32

No caso de uma disjuntiva lógica eliminando-se um elemento, frise-se, necessa- riamente teremos que assumir ou outro, na gramática não há essa situação. Posso di- zer: “Vou viajar, mas não sei se vou de avião ou de trem”. Existem outros transportes tais como automóvel particular, navio, helicóptero etc. No exemplo: “A prova deverá ser feita com caneta preta ou azul” – tenho uma disjuntiva lógica, pois se não usar caneta preta necessariamente usarei a caneta azul (VAN ACKER, 1971). As proposições conjuntivas lógicas são aquelas em que a cópula hipotética traz um sentido que nega que duas proposições podem ser verdadeiras simultaneamen- te. “Não se pode ser ao mesmo tempo ator e espectador” (MARITAIN, 1970, p. 127). Vejamos outro exemplo de proposições conjuntivas que nos auxilia a perce- ber que os dois elementos são mencionados no raciocínio e que não são válidos ao mesmo tempo (VAN ACKER, 1971, p. 38):

“No mesmo tempo, Sicrano ou está em casa, ou fora dela. Ora, ontem ao meio dia, Sicrano estava em casa. Logo, ontem ao meio dia, Sicrano não podia estar fora de casa”.

Existem proposições modais ou com modalidade. Entende-se por modalidade um aspecto ou forma que algo pode ter. Neste tipo observamos o uso de palavras como necessário e contingente. Immanuel Kant (1724-1804), em suas lições de lógica nos ajuda a compreender o que seriam características necessárias e caracte- rísticas contingentes. Preleciona o filósofo (1992, AK 60, A89):

são aquelas que têm que ser encontradas sempre

na coisa representada. Semelhantes características chamam-se também essenciais e se opõem às características extra essenciais e contingentes, que podem ser separa- das do conceito da coisa.

As características necessárias (

)

Daí chamarmos de proposições modais necessárias ou proposições modais contin- gentes. Nas proposições: “É necessário os homens serem racionais” e “É contingente algum homem ser alto” – percebemos que expressam o sentido de proposições mo- dais necessárias e modais contingentes. Lembrando-se que o que é necessário não poder ser de outro modo, mas o que é contingente reduz-se ao sentido do possível, do provável. “É contingente que alguém vá ao supermercado hoje” é uma propo- sição que evidencia essa probabilidade (VAN ACKER, 1971). Então, no estudo das proposições lógicas verificamos que podemos classifi- cá-las em proposições com quantidade (universais, totais ou particulares) e sem

capítulo 2 33

quantidade (singulares e indefinidas), em categóricas afirmativas ou negativas, hipo- téticas condicionais, disjuntivas ou conjuntivas quanto à cópula e, pela modalidade, em necessárias e contingentes. E mais, vimos a advertência de não as confundir com simples proposições gramaticais.

 

• Universais ou totais;

 

Proposições com quantidade

• Particulares.

 

• Singulares;

Proposições sem quantidade

• Indefinidas.

 

• Simples: afirmativas ou;

 

Proposições categóricas

• Compostas:

hipotéticas

condicionais,

disjuntivas ou conjuntivas.

Oposição das proposições

Há a possibilidade, em lógica, de as proposições poderem se opor mutuamen- te. Nesse sentido existem regras lógicas para tal oposição. Quais seriam as con- dições para oposições lógicas? Primeiramente, para identificarmos uma oposição lógica mútua é necessário que as proposições apresentem os mesmos termos, os mesmos sujeitos e predicados, sendo que numa proposição há uma afirmação e,

em outra, há uma negação. Elas possuem cópula lógica categórica opostas . Exemplo:

a proposição “Pedro é alto” configura uma oposição lógica com a proposição

“Pedro não é alto.” Existem, portanto, oposições lógicas evidentes que identifica- mos com facilidade e outras nem tanto. Existem três graus diferentes de oposição nas proposições, a saber: a) a de- nominada contradição ou também designada como contrariedade que representa uma oposição em grau máximo e evidente. Exemplo: “João é honesto”/“João não

é honesto”; b) o que se chama contrariedade que representaria um grau mediano

de oposição em que temos situações com proposições universais opostas do tipo:

“Todo homem é moral”/“Nenhum homem é moral”; e, por fim, c) a subcontrarie- dade que apresenta um grau pequeno de oposição entre proposições particulares

capítulo 2 34

afirmativas e particulares negativas. Exemplo: “algum homem é médico” /” algum homem não é médico”. Existem alguns casos específicos de oposição que precisamos conhecer para analisarmos os argumentos, são eles: a) a oposição apenas pela cópula; b) oposição por meio da cópula e da quantidade; c) oposição pela cópula, quantidade e modali- dade; d) oposição pela cópula e modalidade. Temos que perceber que nesta primeira etapa as oposições ocorrem sempre considerando a cópula que já vimos como termo formal das proposições. Quando tratamos do primeiro tipo, a oposição pela cópula apenas, precisamos destacar que acontecem na hipótese de proposições singulares e indefinidas. De que maneira? “Aristófanes é filósofo” / “Aristófanes não é filósofo”, esta é uma pro- posição singular porque fala-se em alguém específico, com oposição apenas pela cópula ( “é” x “não é”). Na proposição “O brasileiro é poeta” / “O brasileiro não é poeta” temos uma proposição somente pela cópula, numa proposição indefinida que se refere ao brasileiro. Quando ocorre a oposição pela cópula e pela quantidade podemos encon- trar uma proposição do tipo universal afirmativa oposta a uma universal negati- va: “Todo homem é bom” / “Todo homem não é bom” ou “Nenhum homem é bom”. E podemos formular uma proposição afirmativa particular em oposição a uma negativa particular: “Algum homem é bom” / “Algum homem não é bom”. Neste exemplo podemos identificar uma relação de oposição e uma relação de contradição. Vamos identificar isso melhor formando o famoso quadrado lógico? Seguindo a sugestão de Van Acker (1971, p. 41), vamos convencionar algumas letras para representar os tipos de proposições pelas letras A, E, I e O da seguinte maneira:

“a afirmativa total [universal], designada por “A” (primeira vogal de afirmo); a afirmativa particular designada por “I” ( segunda vogal de afirmo); a negativa to- tal [universal], designada por “E” (primeira vogal de nego); a negativa particular, designada por “O” (segunda vogal de nego). O nosso quadrado lógico organiza as proposições inserindo à esquerda as afirmativas, à direita as negativas e as particu- lares abaixo das totais ou universais.

capítulo 2 35

A contrárias E contraditórias I O subcontrárias contraditórias subalternas subalternas
A
contrárias
E
contraditórias
I
O
subcontrárias
contraditórias
subalternas
subalternas

A e E ou I e O são proposições contrárias A e O ou E e I são proposições contraditórias

Se inserirmos as proposições formuladas neste quadro lógico vamos entender melhor o sentido de serem contrárias, contraditórias, subalternas e subcontrárias.

Todo homem é bom

(A) contrárias

Nenhum homem é bom

(E)

contraditórias subalternas contraditórias subalternas
contraditórias
subalternas
contraditórias
subalternas

(I) subcontrárias

Algum homem é bom

(O)

Algum homem não é bom

Em lógica, o conteúdo da letra A e I não apresentam cópula opostas, nas duas proposições a cópula é a mesma (“é”). Portanto, são chamadas de subalternas ou interdependentes. O mesmo ocorre entre as letras E e O. As proposições que estão nas letras A e E são proposições universais ou totais; as proposições nas letras I e O são proposições particulares. Como o universal é mais forte que o particular, porque o particular deriva do universal, os lógicos dizem que A e E são subalternantes e as letras I e O subalternadas. Como assevera Kant (1992, A181, AK116), “um iudicium chama-se subalternatum na medida em que está contido sob o outro; assim como, por exemplo, os juízos particulares sob os universais”.

capítulo 2 36

Existem outras formas, temos também a oposição pela cópula, quantidade e modalidade. Não podemos esquecer que quando falamos em cópula estamos pensando no verbo “ser”, no caso de quantidade em algo universal ou total em

relação a algo particular ou singular. A modalidade se refere ao que é necessário ou contingente. Vejamos, então. Vamos organizar um quadro seguindo a forma como os estudiosos em lógicas preferem construir?

Proposições necessárias:

Necessária afirmativa universal ou total – sigla NA Necessária afirmativa particular – sigla NI Necessária negativa universal ou total – sigla NE Necessária negativa particular - sigla NO (O de nego)

Proposições contingentes:

Contingente afirmativa universal ou total – sigla CA Contingente afirmativa particular – sigla CI Contingente negativa universal ou total – sigla CE Contingente negativa particular - sigla CO (O de nego)

É necessário todo ho- mem ser bom (NA)

contrárias

É necessário todo ho- mem não ser bom (NE)

←----→

É necessário algum homem ser bom (NI)

subcontrárias

É

necessário algum ho-

←-----→

mem não ser bom (NO)

É contingente todo ho- mem ser bom (CA)

contrárias

contingente todo ho- mem não ser bom (CE)

É

←-----→

É contingente algum homem ser bom (CI)

subcontrárias

É contingente algum ho- mem não ser bom (CO)

←-----→

Neste quadro lógico temos as proposições contrárias NA/NE e CA/CE. As proposições particulares NI/NO e CI/CO são subcontrárias. Temos ainda que pensar nas possibilidades de existirem proposições contraditórias. Como ficariam? As proposições NA/CO, NE/CI, NI/CE, NO/CA são contraditórias.

capítulo 2 37

É necessário todo homem ser bom (NA)

É necessário algum homem ser bom (NI)

É contingente todo homem ser bom (CA)

É contingente algum homem ser bom (CI)

homem ser bom (CA) É contingente algum homem ser bom (CI) É necessário todo homem não

É necessário todo homem não ser bom (NE)

É necessário algum homem não ser bom (NO)

É contingente todo homem não ser bom (CE)

É contingente algum homem não ser bom (CO)

Quando estamos diante de proposições opostas contraditoriamente entre si,

a verdade de uma é deduzida da falsidade da outra e vice-versa. Neste caso, Kant

acrescenta a aplicação do princípio do terceiro excluído que reforça que ambas pro- posições contraditórias não podem ser verdadeiras, nem simultaneamente falsas. Se uma for verdadeira a outra será então falsa (KANT, 1992, A182, AK117). Nas hipóteses de proposições contrárias temos uma proposição universal- mente afirmativa e outra universalmente negativa, “então é certo que os dois não podem ser verdadeiros, embora possam ser falsos ambos os dois” (KANT, 1992 A183, AK117). Quando identificamos proposições subcontrárias temos a seguinte situa- ção: duas proposições particulares em que um “afirma ou nega particularmente (particulariter) o que o outro nega ou afirma particularmente” ( KANT, 1992, A183, AK117). Neste caso, as duas proposições podem ser verdadeiras, embora não possam ser ambas falsas. O que poderá ocorrer é que uma poderá ser falsa e a outra verdadeira. Nas análises de textos, teorias ou doutrinas podemos aplicar tais regras para identificarmos se os argumentos apresentam oposição contraditória ou oposição con- trária, pois percebemos melhor sua estrutura verificando as proposições.

A conversão das proposições

Além das oposições é possível a conversão das proposições. E o que significa converter uma proposição? Significa que podemos inverter os termos mantendo

a mesma ideia. Exemplo: Nenhum homem é um anjo. Ao invertermos a ordem

dos termos temos: nenhum anjo é homem. Segundo Maritain ( 1970, p. 165), “a conversão de uma proposição é, pois, a inversão dos extremos, efetuada de manei- ra a exprimir a mesma verdade.” Ocorre que o predicado da proposição original

capítulo 2 38

se transforma no sujeito da nova formulação, mas deve-se conservar os mesmos

termos para não desvirtuar a verdade que se pretende enunciar. Algumas regras podem ser úteis para essa conversão. Numa proposição nega- tiva universal que designamos pela letra maiúscula “E” temos: Nenhum homem

é aracnídeo. A conversão simples de uma proposição universal negativa ficaria assim: Nenhum aracnídeo é homem. Se temos uma proposição particular afirmativa que designamos pela letra

maiúscula “I”, do tipo Algum homem é justo, poderia ser convertida para Algum justo é homem. E a afirmativa universal designada pela letra maiúscula “A” do tipo Todo homem é um ser sensível para Algum ser sensível é homem. Nas proposições particulares negativas que identificamos pela letra “O”, en- contramos uma dificuldade na conversão. Vejamos: “Algum homem não é justo” é

a proposição original. A conversão ficaria estranha: “Algum justo não é homem.”

O que altera a verdade da proposição original. Então, proposições do tipo “O

não podem ser convertidas por conversão simples, precisando ocorrer apenas por contradição e ficaria assim: “ Algum não justo não é não homem” que seria equi- valente a dizer “Algum não justo é homem” (MARITAIN, 1970, p. 166). Segundo Maritain (1970, p. 166-7), é interessante afinarmos nosso olhar para

as conversões porque muitos sofismas fazem conversões supostamente verdadeiras

e que poderão passar despercebidas aos olhos não treinados. E nos fornece dois exemplos de sofismas:

‘Todo artista genial assombra o vulgo’ a esta proposição: ‘Todo artista que assombra o vulgo é um artista genial’; ou desta (suposta verdadeira): ‘Todo espírito poderoso tem cérebro grande’ a esta outra: ‘Todo homem de cérebro grande tem espírito poderoso’.

Só há conversão quando se exprime a mesma verdade, ou como assevera Maritain ( 1970, p. 167), “dizer que uma proposição conversível se converte sim- plesmente, é dizer que, supondo-se verdadeira a proposição em jogo, sua conver- são simples exprime a mesma verdade.” Em síntese, quando nos deparamos com uma proposição afirmativa singular

converte-se para o tipo “I”. Na hipótese de ser uma negativa, converte-se em “E”.

E uma singular afirmativa em “A” e uma singular negativa em “E”. 1

1 Vamos relembrar essa convenção lógica? As proposições afirmativas universais, são designadas por “A” (primeira

vogal de afirmo); a afirmativa particular designada por “I” (segunda vogal de afirmo); a negativa total ou universal designada por “E” (primeira vogal de nego); a negativa particular, designada por “O” (segunda vogal de nego).

capítulo 2 39

A argumentação

Jacques Maritain (1970, p. 120) define discurso, do termo em latim oratio , como “todo encadeamento ou toda construção de conceitos ou termo.” Esse dis- curso poderá ser perfeito, completo ou imperfeito e impreciso. E podemos distinguir três tipos de discursos: o enunciado ou proposição, o discurso de intenção prática que expressa algo a se fazer e a argumentação que expressa um raciocínio. Segundo o filósofo francês, a lógica se preocupa com a proposição e a argu- mentação, porque investiga a linguagem enquanto ligada ao sentido do verdadeiro e falso (Maritain, 1970).Toda argumentação se caracteriza por ser um conjunto de proposições em que se alcança uma conclusão. Existem premissas e uma conclu- são. Os lógicos designam como antecedente as premissas e consequente, a conclusão. São elementos inferenciais que estão relacionados reciprocamente por meio de uma inferência. Do ponto de vista formal, as inferências podem ser de dois tipos:

a) argumentação dedutiva ou silogística; b) argumentação indutiva. Podemos definir silogismo como uma argumentação em que colocado um elemento antecedente, chega-se ao consequente. O próprio Aristóteles observou em seus Analíticos Anteriores (I, 1, p. 24b 18-20): “discurso em que, postas certas coisas, segue-se necessariamente algo diferente delas, mas em virtude delas”. Para Van Acker (1971, p. 55), o silogismo é

uma argumentação em que a conclusão resulta das premissas, por necessidade ou exigência formal da posição das mesmas, e independente do caráter verdadeiro ou errôneo da respectiva matéria ou assunto.

Alguns autores também definem como uma argumentação que parte formal- mente do geral para o particular com base no método dedutivo ou como o pro- cedimento que segue do formalmente geral para o particular. Van Acker (1971, p. 56, grifos do autor), apresenta os seguintes exemplos de silogismo em que o nexo entre o antecedente e o consequente está implícito:

nexo entre o antecedente e o consequente está implícito : EXEMPLOS Exemplo 1: Se algum homem

EXEMPLOS

Exemplo 1: Se algum homem é social, algum homem é racional. Ora, algum homem é

social. Logo, algum homem é racional. Subentende-se: todo social é racional, ou o social é

necessariamente racional em todo ou qualquer caso.

capítulo 2 40

Exemplo 2: Se alguma planta é animal, ela é imaginativa. Ora, alguma planta é animal.

Logo, ela é imaginativa. Subentendendo-se: todo animal é necessariamente imaginativo, sem

exceção possível.

Em regra, a interpretação do silogismo dedutivo é a de que o raciocínio par- te do geral para o particular, mas com cautela podemos identificar silogismos dedutivos que partem do geral para outro igualmente geral. Vejamos mais um exemplo: “Todo animal é instintivo, ora, todo sensível é animal. Logo, todo sen- sível é instintivo” (VAN ACKER, 1971, p. 58). Cumpre não esquecer que existe tal possibilidade. Os silogismos podem ser classificados em dois tipos. Temos os silogismos ca- tegóricos que são integrados por proposições categóricas ou somente por proposi- ções hipotéticas. Por que os lógicos também falam em proposições só hipotéticas? Porque neste caso se todas as proposições são hipotéticas o argumento se torna total, absoluto ou categórico. Van Acker ( 1971, p. 62-3), menciona dois exemplos que configuram esses dois tipos dos silogismos categóricos, a saber:

1. “Tudo o que garante melhoria social, realizada de modo justo e humano, é digno de

aprovação. Ora, toda boa revolução garante melhoria social, realizada de modo justo e humano. Logo, toda boa revolução é digna de aprovação.”

2. “Se algo garante melhoria social, realizada de modo justo e humano, é digno de

aprovação. Ora, se uma revolução é boa, ela garante melhoria social, realizada de modo justo e humano”.

O segundo tipo, o silogismo hipotético apresenta a primeira premissa como uma proposição hipotética e as demais categóricas. Percebemos neste tipo uma diferença entre a parte hipotética e a parte categórica, pois a argumentação se mo- difica e deixa o aspecto condicional teórico para o categórico. No exemplo de Van Acker (1971, p. 63), identificamos essa modificação:

Se uma revolução é boa, garantindo melhoria social realizada de modo justo e humano, ela é digna de aprovação. Ora, há uma revolução boa, garantindo melhoria social, reali- zada de modo justo e humano. Logo, esta revolução é digna de aprovação.

Além do silogismo dedutivo temos também o raciocínio indutivo ou ar- gumentação indutiva. Ambos fazem parte de nossa vivência, mas o argumento

capítulo 2 41

indutivo está muito presente na nossa vida cotidiana porque, em geral, argumen- tamos a partir de certos padrões que observamos no mundo da vida e partimos dessas percepções e crenças particulares para um raciocínio indutivo em termos de probabilidades e não certezas. Sobre isto, destaca Genslerdestaca Gensler (2016, p. 101): “muitos de nossos raciocínios do dia a dia lidam com probabilidades. Observamos padrões e concluímos que, baseados nesses, tal ou tal crença é prova- velmente verdadeira. Isso é raciocínio indutivo”. Como estudamos, o raciocínio dedutivo guarda uma relação estreita entre premissas e conclusão. A “validade dedutiva é uma questão de tudo ou nada” (GENSLER, 2016, p. 101). Todavia isso não ocorre no indutivo porque neste lidamos com probabilidades. Inspirando-nos nos exemplos do filósofo lógico Gensler (2016, p. 101), ima- gine-se fazendo uma trilha numa região árida, muito extensa e com várias paradas em abrigos para viajantes. No início do percurso você analisa em que abrigo pre- tende passar a noite para repor as energias e os suprimentos de viagem. É preciso saber se nos abrigos escolhidos realmente você encontra o que precisa. Um mem- bro do grupo menciona que em experiências anteriores 90% dos abrigos atende- ram as exigências do grupo. O raciocínio indutivo poderia ser:

Em 90% dos abrigos encontramos os suprimentos necessários. “A” é um abrigo que fica numa localidade razoável. Provavelmente “A” tem os suprimentos necessários.

Temos no exemplo um raciocínio indutivo que trabalha com a probabilidade

e poderá ser comprovado como falso, pois ao chegar no abrigo, os viajantes podem

constatar que não encontram ali os suprimentos necessários para a viagem. Outro

raciocínio indutivo clássico é aquele que diz: O cisne “A” é branco. O cisne “B”

é branco. O cisne “C” é branco. Logo, todos os cisnes são brancos. O observador parte de experiências particulares e posteriormente generaliza uma informação particular. Por isso, muitos também definem o raciocínio indutivo com aquela que parte do particular para o geral. Exemplo: (ARANHA; MARTINS, p. 104)

O

cobre é condutor de eletricidade.

O

ouro, o ferro, o zinco e a prata também.

Logo, o metal é condutor de eletricidade.

capítulo 2 42

Como podemos diferenciar argumentos dedutivos de argumentos indutivos? Os argumentos indutivos sempre variam conforme a força de persuasão das pre- missas para apoiar uma conclusão possível. E mais, ainda que as premissas sejam bem convincentes, há uma fraca conexão entre as premissas e conclusão. Poderá

ocorrer de as premissas serem verdadeiras como as do cisne e a conclusão ser falsa, porque poderá aparecer um cisne negro. Conforme explica Gensler ( 2016, p. 102),

o “raciocínio indutivo é uma forma de adivinhar baseada em reconhecimento e

enstender padrões conhecidos e semelhanças”. Vejamos um quadro comparativo:

ARGUMENTO DEDUTIVO

ARGUMENTO INDUTIVO

Sendo as premissas verdadeiras é logi- camente necessário que a conclusão seja verdadeira.

Se as premissas são verdadeiras é pro- vável que a conclusão também o seja.

Conforme estudamos no capítulo anterior, os argumentos dedutivos podem ser válidos quanto a forma lógica e corretos quanto ao conteúdo, porque há vera- cidade das premissas. Então, um raciocínio correto é aquele que inclui as duas pos- sibilidades: validade e veracidade. Para os indutivos não podemos usar a mesma nomenclatura porque traz uma conclusão provável. O que podemos dizer é que um raciocínio indutivo poderá ter premissas verdadeiras e fortes e uma conclusão provável e confiável. O dedutivo pode ser válido e correto enquanto o indutivo poderá ser forte e confiável (GENSLER, 2016). O argumento indutivo poderá ser forte e não confiável porque a sua conclusão

é fraca e o argumento parece-nos pouco confiável o que torna esse tipo de argu- mento controvertido. No exemplo a seguir percebemos isso:

O

time X perde 80% dos jogos.

O

time X está jogando agora.

Provavelmente perderá.

Na verdade, a conclusão não é confiável porque variáveis podem interferir e o time X vencer a partida. Irving M. Copi (1978, p. 35) menciona:

envolve a pretensão, não de que suas premissas proporcio-

nem provas convincentes da verdade de sua conclusão, mas de que somente forne- çam algumas provas disso.

Um raciocínio indutivo (

)

capítulo 2 43

Um dos argumentos indutivos mais frequentes é o argumento por analogia e, em geral, nossas inferências na experiência cotidiana utiliza muitas analogias. Como diz Copi (1978, p. 314), “A analogia constitui o fundamento da maior parte dos nossos raciocínios comuns, na qual, a partir de experiências passadas, procuramos discernir o que nos reservará o futuro.” Por ser um argumento do tipo indutivo, as conclusões são prováveis e, por isso, o argumento por analogia, o mais famoso dos argumentos indutivos pode ser classificado como fortes e confiáveis. Existem diferentes usos da analogia que não se confundem com o argumento analógico. Existe o uso literário, na metáfora, na explicação para esclarecer ideias complexas, mas é preciso caracterizar um argumento analógico que é diferente des- ses usos. Quando temos um argumento analógico a inferência parte de duas ou mais semelhanças e a conclusão apresenta a semelhança com outroa aspecto. Segundo Copi (1978, p.315), podemos representar o argumento analógico da seguinte forma:

a, b, c, d tem todos as propriedades P e Q.

a, b, c tem todos a propriedade R.

Portanto, d tem a propriedade R.

Na hipótese de argumentos analógicos, podemos afirmar que apresentam con- clusões mais ou menos convincentes, mas não que apresentam conclusão, neces- sariamente lógica. Avaliamos esses argumentos segundo as probabilidades. Vamos conhecer alguns critérios que os filósofos lógicos, como Copi (1978), destacam neste tipo de argumento indutivo analógico? Como um primeiro critério podemos destacar o número de elementos que guar- dam analogia entre si e percebemos esse critério mais forte no senso comum quan- do tentamos convencer alguém sobre algo. Imagine que você teve uma experiência ruim ao comprar numa determinada loja. Certo dia, narra seu aborrecimento a um amigo que poderá pensar que foi um fato isolado o que não significa dizer que irairá acontecer outras vezes. Agora imagine uma situação em que três ou quatro pessoas conhecidas passam pelo mesmo aborrecimento. Neste caso, há uma probabilidade maior de que a conclusão seja provável. Vejamos o exemplo de Copi ( 1978, p. 318):

Se eu conhecesse apenas um cão pequinês e este fosse de mau gênio, tal fato daria alguma probabilidade à conclusão de que o próximo pequinês que eu encontrasse também fosse de mau gênio. Por outra parte, se conheci dez pequineses, todos de mau gênio, isto dá uma probabilidade, consideravelmente, maior, à conclusão de que o próximo também tenha mais gênio.

capítulo 2 44

Outro critério que temos para os argumentos analógicos é o da quantidade de

aspectos análogos que fortalecem a probabilidade da conclusão. Posso adquirir um par de sapatos novos na mesma loja, da mesma marca, do mesmo modelo porque

o par antigo serviu muito bem durante longos anos e concluo que se comprar o

mesmo tipo no mesmo lugar terei o mesmo proveito. O que importa perceber é que a analogia precisa ser relevante para causar determinada conclusão. As cone- xões causais são importantes neste tipo de argumento.

Então, os argumentos por analogia são aqueles do tipo indutivo e que não são

válidos no sentido de que sua conclusão ser deduzida das premissas por relação lógica necessária. Em verdade, podem ser, no máximo, mais convincentes ou não, conforme

o grau de probabilidade com que suas conclusões são apresentadas. Frise-se nesta parte que no argumento por analogia não estamos considerando similaridades triviais, ao contrário, estamos destacando no nosso argumento similaridades relevantes. E como saber quais são ou não relevantes? Neste caso nosso conhecimento e informação sobre

a questão vai ser decisivo para escolhermos o que é realmente relevante. Além do exemplo de argumentos por analogia temos o argumento estatís- tico que também evidencia a mesma probabilidade. Podemos dizer que “N por cento de A são B. X é um A. Portanto, é N por cento provável que X seja B” (GENSLER, 2016, p.102). Sobre o raciocínio indutivo também podemos pensar naquele construído por amostras e sua força estará no tamanho, variedade das amostras e na prudência de uma possível conclusão. Uma amostragem restrita não é tão convincente quanto uma maior. A variação decorre da diversidade de fenômenos analisados, situações distintas identificadas e evidenciadas num estudo e de qualquer sorte o raciocínio indutivo de apresentar conclusões com muita prudência porque há riscos de um ou- tro resultado (GENSLER, 2016). Como exemplo de um raciocínio amostral temos:

60% dos eleitores não gostariam de ter eleições obrigatórias. Um grande e variado grupo de eleitores participou da pesquisa. Provavelmente, 60% de todos os eleitores preferem eleições não obrigatórias.

Em Filosofia, encontraremos, em maior quantidade, raciocínios indutivos e não raciocínios dedutivos com conexão lógica das premissas com a conclusão. Verdadeiramente, encontraremos raciocínios indutivos e o seu devido debate so- bre as razões para se aceitar ou não uma determinada conclusão.

capítulo 2 45

Entimemas, Sorites e Dilemas

Em nossas conversas e leituras percebemos alguns argumentos, mas nem sem- pre estão completos e explícitos. Então podemos perceber que muitos não foram explicitamente enunciados. Em geral, encontramos a conclusão e as premissas são subentendidas. O que acontece no caso? A premissa faltante deve ser, de algum modo, identificada. Quando menciono que João é cidadão estou pressupondo que a cidadania é

o efeito do pertencimento de alguém a um Estado, nasceu naquele lugar – nós

compartilhamos essa informação. Vamos imaginar que alguém fala: “João é cida- dão.” Entendemos essa proposição, pois todos os brasileiros natos, por exemplo, são cidadãos. Podemos identificar e construir o silogismo completo a partir da conclusão João é cidadão. Ficaria assim:

Todos os brasileiros natos são cidadãos. João é um brasileiro nato. Logo, João é cidadão. (conclusão)

Em lógica, caracteriza-se um argumento incompleto sob o ponto de vista de seu enunciado pelo nome de entimema. E podemos até afirmar que na nossa vida cotidiana nossa linguagem é entimemática. Por quê? Porque vivemos numa socie- dade, estamos mergulhados em valores, práticas compartilhadas e em nossas falas, nossa comunicação “há uma grande quantidade de proposições que se pressupõe ser de conhecimento comum” (COPI, 1978, p. 208). Frequentemente percebemos que enunciados entimemáticos são mais atraen- tes, mais retóricos, muito embora os lógicos não apreciem muito essa prática. Conforme explica Copi (1978, p. 208),

a maioria dos oradores e escritores evita mais complicações por não ter que repetir proposições bem conhecidas e, talvez, trivialmente verdadeiras, que os seus ouvintes os leitores podem perfeitamente suprir por sua iniciativa própria.

Mas como já vimos, o lógico não gosta muito dessa situação de entimema,

porque para determinar a validade de um argumento precisa verificar essa incom- pletude, as partes que foram propositadamente suprimidas em um entimema. A premissa suprimida precisa ser identificada e formulada. Subentende-se que

o autor de determinado argumento entimemático tinha em mente algo mais do

capítulo 2 46

que realmente expressou e acredita que seus leitores ou ouvintes aceitarão seu

argumento. Então frise-se no entimema, a conclusão está explícita, mas a sua pre- missa não. Os entimemas mais estudados são aqueles que apresentam silogismos expres- sos de modo incompleto e os lógicos organizam os tipos em três ordens distintas,

a saber: os entimemas de primeira ordem que são “aqueles em que não se enuncia

a premissa maior do silogismo” (COPI, 1978, p. 209). Os entimemas de segunda

ordem em termos apenas a premissa maior e a conclusão e que pode ser expresso no seguinte exemplo: “Todos os estudantes se opõem ao novo regulamento, assim como todas as alunas se opõem a ele.” Neste exemplo temos a supressão da pre- missa menor que poderia ser formulada assim: “Todas as alunas são estudantes” (COPI, 1978, p. 209). O terceiro tipo de entimema é aquele que temos as duas premissas a maior e a menor, mas não temos a conclusão que fica implícita. E

podemos identificar esse tipo no seguinte exemplo: “Nenhum verdadeiro cristão

é vaidoso, mas algumas pessoas que frequentam a igreja são vaidosas”. Conclusão

implícita: “Algumas pessoas que frequentam a igreja não são verdadeiros cristãos” ( COPI, 1978, p. 209). A partir desses tipos como podemos evidenciar que um entimema é válido? Para essa tarefa é necessário primeiramente identificar e completar o argumento com as premissas faltantes e, depois, aplicar o teste geral de validade do silogismo. Além de entimemas, temos a figura dos sorites que ocorre quando temos um silogismo, mas que não é suficiente para se extrair uma conclusão das premissas enunciadas (COPI, 1978, p. 211). Neste caso, será preciso um processo de argu- mentação em que se forma uma cadeia de silogismos, não apenas um, mas mais de um interligados para se chegar a uma conclusão. Nessa cadeia a conclusão do primeiro silogismo se torna na premissa do segundo silogismo. Vejamos o exem- plo de Copi (1978, p. 211) sobre a relação entre dois silogismos:

Todos os diplomatas são indivíduos de tato. Alguns funcionários do governo são diplomatas. Portanto, alguns funcionários do governo são indivíduos de tato. (conclusão 1 e pre- missa do segundo silogismo)

Todos os funcionários do governo são homens na vida pública. Portanto, alguns homens na vida pública são indivíduos de tato. (conclusão 2)

capítulo 2 47

Irving M. Copi (1978, p. 212), esclarece que “quando um argumento deste gênero [cadeia de silogismos] é expresso de modo entimemático, em que só são enunciadas as premissas e a conclusão final, recebe o nome de sorites”. Além do entimema e do sorites, o dilema é uma situação que pode surgir com frequência na linguagem cotidiana. Para os lógicos não é tão atraente como para os que gostam do aspecto retórico porque é um instrumento usado para persuasão. Geralmente, usamos a palavra dilema para expressar situações de escolha que nos impõe alternativas difíceis. Tradicionalmente, dilema “é um argumento destinado, justamente, a colocar um adversário nessea situação” (COPI, 1978, p. 219). Diante de um dilema, seja qual for, o interlocutor se vê perante uma escolha que poderá ser agradável ou desagradável. E sob o ponto de vista da lógica, o dilema poderá apresentar uma conclusão contendo um exemplo de proposição disjuntiva ou alternativa. Copi (1978, p. 219), nos oferece um exemplo de dilema agradável, porque nem todos podem trazer um desfecho desagradável. Vejamos

Se os bem-aventurados, no céu, não tem desejos, estarão perfeitamente contentes; também estarão, se os seus desejos são plenamente satisfeitos; mas, quer não te- nham desejos ou os tenham plenamente satisfeitos, eles serão, portanto, criaturas perfeitamente contentes.

O fato é que o maior desafio, quando estamos diante de um dilema, é saber como escapar dele ou replicá-lo por meio de um contra dilema. Tentar escapar é sempre uma opção sedutora e, se estamos diante de uma disjunção, precisamos buscar argumentos para mostrar que essa alternativa é falsa e que não há como sustentar a suposta conclusão nas premissas anteriores. No dilema “Se um estudante gosta de estudar, não necessita de estímulo al- gum, e se não lhe agrada aprender, não haverá estímulo que o satisfaça. Mas a qualquer estudante ou lhe agrada aprender ou lhe desagrada. Portanto, o estímulo ou é desnecessário ou é ineficaz” (COPI, 1978, p. 220), encontramos um argu- mento válido sob o ponto de vista da forma lógica. Mas será que a premissa disjuntiva é verdadeira? Será que não existem dife- rentes possibilidades na relação do estudante com a sua aprendizagem, ou é tudo ou nada? Alguns gostam, outros gostam um pouco e alguns gostam só de certos aspectos e assim por diante. E, para muita gente, um estímulo ao estudo pode ser eficaz. O que podemos dizer sobre este dilema? Que o argumento não oferece base para sustentar a conclusão.

capítulo 2 48

Então um caminho é rechaçar a premissa que possui a disjunção, negando uma de suas partes. Outro caminho é usar um contra dilema. O que seria um contra dilema? Usando a criatividade, o interlocutor cria um outro dilema para rebater o dilema original apresentado. Ele vai refutar um dilema apresentando um contra dilema em sua réplica, em sua resposta. Sobre esta situação sempre muito divertida sob o ponto de vista do discurso, Copi (1978, p. 2210), nos oportuniza um exemplo clássico de uma mãe grega que tentava persuadir o filho a não se envolver na política.

Mãe: “Se dizer o que é justo, os homens te odiarão; se dizer o que é injusto, os deuses te odiarão; mas terás que dizer uma coisa ou outra; portanto serás odiado.”

Filho: “Se digo o que é justo, os deuses amar-me-ão; se digo o que é injusto, os ho- mens amar-me-ão. Terei que dizer uma coisa ou outra. Portanto, eu serei amado!”

Conforme o exemplo da mãe ateniense, o contra dilema do filho serve para mostrar uma conclusão diferente e a réplica, então, vem derrubar o argumento original. “O contra dilema serve, simplesmente, para estabelecer uma conclusão diferente da do dilema original” (COPI, 1978, p. 221).

diferente da do dilema original” (COPI, 1978, p. 221). ATIVIDADES 01. Analise as frases em destaque

ATIVIDADES

01. Analise as frases em destaque e diga se a classificação apresentada está correta ou er-

rada.

a)

Todo médico é formado em medicina. Nesta frase temos uma proposição contendo có-

pula lógica categórica negativa.

b)

Todos os seres humanos são mortais. Nesta frase encontramos uma proposição com

quantidade e do tipo universal ou total.

c)

É contingente algum brasileiro ser professor. Nesta frase temos uma proposição mo-

dal necessária.

d)

Algum ser humano é engenheiro. Nesta frase temos uma proposição com quantida-

de particular.

e)

O brasileiro é hospitaleiro. Nesta frase temos uma proposição universal indefinida.

f)

Se a criança está na escola, não está em casa. Nesta frase temos uma proposição hipo-

tética conjuntiva.

capítulo 2 49

02.

Classifique os graus de oposição nas frases abaixoa seguir:

a)

Algum brasileiro é professor/ Algum brasileiro não é professor.

b)

A rosa é amarela/A rosa não é amarela.

c)

Todo ser humano é um ser histórico/ Nenhum ser humano é um ser histórico.

03.

Verifique os silogismos abaixo a seguir e diferencie um argumento dedutivo do indutivo.

a)

Em 90% dos encontros de jovens identificamos membros do grandes centros do país. “A” é um membro do encontro de jovens. Provavelmente “A” reside em um dos grandes centros do país.

b)

Todo engenheiro é formado em engenharia. Pedro é engenheiro. Logo, Pedro é formado em engenharia.

Pedro é engenheiro. Logo, Pedro é formado em engenharia. REFLEXÃO Neste capítulo identificamos como podemos

REFLEXÃO

Neste capítulo identificamos como podemos classificar as proposições que integram um silogismo para formar um argumento. Ademais, verificamos os tipos em relação ou não a quantidade, formação simples ou composta, as formas categóricas, as proposições modais e as especificidades do argumento por meio do silogismo dedutivo e indutivo.

do argumento por meio do silogismo dedutivo e indutivo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES. Organon .

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES. Organon. Analíticos Anteriores. Tradução de Pinharanda Gomes. Lisboa: Guimaraes Editores, 1985. V.2. Órganon. Categorias. Da interpretação. Analíticos Anteriores. Analíticos Posteriores. Tópicos. Refutações Sofísticas. Tradução Edson Bini. 2. ed. São Paulo: EDIPRO, 2010. COPI, Irving M. Introdução à lógica. Tradução de Álvares Cabral. São Paulo: Mestre Jou, 1978. LEFEBVRE, Henri. Lógica formal, Lógica dialética. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. MARITAIN, Jacques. A ordem dos conceitos. Lógica menor. Tradução de Ilza das Neves e Adriano Kury. 6. ed. Rio e Janeiro: AGIR, 1970 VAN ACKER, Leonardo. Elementos de lógica clássica formal e material. São Paulo: UCSP, 1971.

capítulo 2 50

3

A linguagem da lógica

A linguagem da lógica

Neste capítulo, estudaremos a linguagem simbólica ou proposicional para análise das inferências e avaliação dos argumentos. Para tanto, identificaremos os conectivos lógicos nos enunciados conjuntivos, disjuntivos e hipotéticos condi- cionais e bicondicionais. Ademais consideraremos também a representação gráfica das condições de verdade das proposições, as tabelas de verdade, bem como a estrutura e os princípios do silogismo categórico.

como a estrutura e os princípios do silogismo categórico. OBJETIVOS • Aplicar os recurso da linguagem

OBJETIVOS

• Aplicar os recurso da linguagem simbólica ou proposicional;

• Identificar os conectivos lógicos nos enunciados conjuntivos, disjuntivos e hipotéticos;

• Analisar as tabelas de verdade das proposições;

• Identificar a estrutura e os princípios do silogismo categórico.

A linguagem simbólica

Em lógica, existe uma linguagem simbólica ou proposicional compartilhada, para auxiliar na análise dos enunciados que integram um argumento. Num pri- meiro olhar pode parecer algo complicado, numa linguagem simbólica, mas em verdade, trata-se de uma convenção em relação a alguns símbolos para substituir as frases e expor as estruturas lógicas de uma proposição com mais clareza que na linguagem natural. Segundo Copi (1978, p. 226), o “valor dos símbolos lógicos consiste na ajuda que proporciona no uso e manipulação reais de enunciados e argumentos”. Assim, os lógicos acreditam que facilita a análise das inferências e avaliação dos argumentos. Já investigamos que podemos ter argumentos com enunciados simples e argu- mentos com enunciados compostos. Quando ele é simples, fica tranquilo, pois se apresenta num único enunciado do tipo ‘Pedro é formado em medicina’. Todavia, quando nos deparamos com um enunciado composto, temos uma outra estrutura porque neste tipo dois enunciados estão conectados. Um exemplo para enuncia- dos compostos é ‘Pedro é médico e Marcos é psicólogo.’ Temos dois enunciados diferentes ligados a partir de um conectivo.

capítulo 3 52

Quando dois enunciados estão ligados pela palavra “e” temos um enunciado composto por conjunção e designamos os dois enunciados como uma combinação conjuntiva ou enunciados conjuntivos. Se digo, ‘Pedro é médico e Marcos é psi- cólogo’ temos uma conjunção, logo dois enunciados conjuntivos. O primeiro enunciado conjuntivo é ‘Pedro é médico’ e o segundo enunciado conjuntivo é ‘Marcos é psicólogo’. Não podemos confundir enunciados conjuntivos com frases que, em verdade, não apresentam conjunção (“e”) no sentido de conexão entre dois enunciados. Por exemplo: Maria e Ana estudam juntas. Na linguagem simbólica, os filósofos lógicos usam o símbolo do ponto (.)

para designar a função de interligar conjuntivamente os enunciados. O ponto (.)

é o símbolo usado para designar a conjunção “e”. Vejamos um exemplo. ‘Pedro

é médico e Marcos é psicólogo’. Se combinarmos que o primeiro enunciado con-

juntivo é simbolizado pela letra maiúscula M e o segundo pela letra maiúscula P, podemos escrever a conjunção na seguinte linguagem simbólica: M . P. Então, sendo M e P os representantes dos dois enunciados conjuntivos usamos o ponto para representar essa relação de conjunção. Pedro é médico = M Marcos é Psicólogo = P Pedro é médico e Marcos é Psicólogo = (M e P) = ( M . P)

Pode-se escolher letras maiúsculas para representar os enunciados na sua in- tegralidade. Verifique-se que a letra “S” representa toda frase ‘eu moro em São Paulo”. Do mesmo modo a letra maiúscula “R” representa a frase ‘eu não moro no Rio de Janeiro’ também na sua integralidade. Recomenda-se que não devemos usar as letras maiúsculas A, E, I e O, porque já vimos que representam certos tipos de proposições e para não confundir, escolha outras letras do alfabeto.

 

LINGUAGEM

TIPOS DE

ENUNCIADOS

SIMBÓLICA

ENUNCIADO

Eu moro em São Paulo

S

Simples

Eu moro em São Paulo e eu não moro no Rio de Janeiro

S . R

Composto conjuntivo

capítulo 3 53

Além da conjunção, temos a disjunção na hipótese em que dois enunciados são formados com o uso da palavra “ou”, ligando-os. Quando isso ocorre designamos pelo nome de enunciados disjuntivos ou enunciados alternativos. A palavra “ou“, em lógica, é representada pelo símbolo ‘v’ (que alguns lógicos chamam de vê ou cunha). E mais, quando usamos a palavra “ou” podemos enten- der duas coisas diferentes: podemos designar o sentido de ‘um e outro’, ou seja, ambos, bem como podemos também expressar o sentido de ‘um ou outro’. Quando ocorre o sentido de ambos, um e outro, temos o sentido de uma dis- junção inclusiva. Exemplo: Não trocaremos mercadorias sem nota fiscal ou com avarias típicas do uso. Há uma disjunção inclusiva porque em ambos os casos a mercadoria não será trocada. E, lógicos como Copi (1978, p. 229), designam esta disjunção como fraca, débil e nos fornece o seguinte exemplo: “Não se pagarão prêmios no caso de doença ou desemprego” – logo, não há pagamento de prêmio nas duas hipóteses, por isso o nome de inclusiva, podemos dizer que inclui ambas as alternativas. Há também o uso da disjunção “ou” no sentido forte ou exclusivo. Vamos ver? Neste caso, o significado do uso é “pelo menos um e no máximo um”. Imagine que você vai a uma sessão de cinema com a promoção de escolher um refrigerante ou água incluída no valor do bilhete. Fica claro que o consumidor não terá direitos às duas alternativas, mas apenas uma delas. Neste caso o uso do “ou” é no sentido de exclusividade para uma das opções, por isso disjunção é designada por exclusiva. Sobre os dois usos da palavra “ou” ensina Copi (1978, p. 229):

Interpretamos a disjunção inclusiva de dois enunciados no sentido de que afirma que, pelo menos, um dos enunciados é verdade; e a disjunção exclusiva como afirmado, que, pelo menos, um dos enunciados é verdadeiro, mas não ambos são verdadeiros.

Em latim, a palavra vel expressa a disjunção débil ou inclusiva e a palavra em latim aut a disjunção forte ou exclusiva. Eventualmente, você poderá encontrar livros contendo o símbolo “v” para disjunção inclusiva e aut para disjunção ex- clusiva. De um modo geral, os lógicos mais modernos usam a letra ‘v’ (vê) para designar um enunciado disjuntivo inclusivo e “vv” para o exclusivo. Frise-se que

capítulo 3 54

os autores esclarecem as convenções feitas em suas obras para tornar seu trabalho inteligível. Se a letra maiúscula P representa um enunciado qualquer ligado a ou-

tro enunciado representado pela letra maiúscula S, numa relação disjuntiva, ficaria

assim:

1. (P v S) que é o mesmo que dizer: P ou S, ou ambos – enunciado disjuntivo inclusivo.

2. (P vv S) que é o mesmo que dizer: P ou S – enunciado exclusivo, mas não ambos.

Segundo Copi ( 1978, p. 234), “se dois enunciados se combinam mediante a

colocação da palavra se antes do primeiro e a inserção da palavra então entre eles,

o resultante composto é um condicional”. Os lógicos também denominam de

enunciado hipotético, implicativo ou simplesmente de implicação ou condicional. Este tipo apresenta uma estrutura que pode ser representada da seguinte ma- neira: se – enunciado antecedente ou implicante – então – enunciado consequen-

te ou implicado. Por exemplo: Se Pedro é vizinho de João que mora em Ipanema, então, Pedro mora em Ipanema. Neste enunciado composto percebemos que o

antecedente implica o consequente. E, neste caso, se o antecedente for verdadeiro

o consequente também o será.

Se Pedro é vizinho de João que mora em Ipanema , então , Pedro mora

Se Pedro é vizinho de João que mora em Ipanema, então, Pedro mora em Ipanema.

antecedente

consequente

Na estrutura do silogismo condicional podemos ter no antecedente uma pre- missa maior que é a proposição condicional e uma premissa menor. A conclusão dispõe o antecedente. A regra neste caso é: “posto o antecedente ou a condição, põe-se o consequente ou o condicionado” (VAN ACKER, 1971, p. 85). A implicação é ponto central e nos dizeres de Copi (1978, p. 235), “o sig- nificado essencial de um enunciado condicional reside na relação de implicação que se afirma existir entre o antecedente e o consequente nesta ordem”. Para um

correto entendimento deste tipo de enunciado preciso identificar a implicação. E,

é identificada pela palavra implicação.

é neste sentido, que a expressão “se Temos alguns exemplos:

então”

capítulo 3 55

EXEMPLOS

EXEMPLOS

Se todos os homens são mortais e Sócrates é homem, então, Sócrates é mortal.

Se Pedro é solteiro, então, Pedro não está casado.

Se moro com meus pais, então, não moro sozinho.

Os silogismos hipotéticos condicionais apresentam enunciados condicionais e bicondicionais. Neste tipo temos dois enunciados, sendo um antecedente e outro consequente. O antecedente é aquele que antecede o conectivo e o consequente é

o que fica depois do conectivo (GENSLER, 2016). Os condicionais são aqueles que apresentam uma condição no antecedente para o consequente ou conclusão que possa ocorrer, temos a seguinte estrutura proposicional: Se A, então B, colocamos as letras que representam os enunciados entre o símbolo da ferradura () ou da seta que representa condicional ou impli- cação () (GENSLER, 2016). Neste caso podemos escrever assim: (A B). Há uma hipótese inicial que precisa ocorrer.

Se Pedro é solteiro, então, Pedro não está casado.

A

B

Os enunciados bicondicionais são aqueles em que se diz: se e somente se. O antecedente e o consequente implicam-se mutuamente. Exemplo: Vou à praia se

e somente se não chover. Alguns autores gostam de usar a expressão: “se, somente

se”. Neste caso a representação seria pela figura das três linhas () ou da seta que representa equivalência (): ( A B). Então podemos ampliar o nosso quadro:

capítulo 3 56

 

LINGUAGEM

TIPOS DE

 

ENUNCIADOS

SIMBÓLICA

ENUNCIADO

 

Eu moro em São Paulo.

S

Simples

 

Eu moro em São Paulo

   

e

eu não moro no Rio de Janeiro.

S . R

Composto conjuntivo

Se chover, então, vou ao teatro.

A B

Condicional

 

Só irei à praia se e so- mente se não chover.

A B

Bicondicional

Em lógica simbólica ou proposicional, existem autores que estabelecem alguns símbolos diferentes, mas sempre informam ao leitor as convenções feitas para a inteligibilidade da escrita. Por meio dessa linguagem, podemos testar a validade dos argumentos de forma mais precisa, pois às vezes a linguagem natural pode nos confundir. Geralmente, os conectivos lógicos são representados da seguinte maneira, sen- do alguns com mais de uma forma e que você poderá encontrar em diferentes livros de lógica (GENSLER, 2016):

~

til

“não”

. OU

Ponto ou vê invertido

 

Conjunção: “e”

   

Disjunção:

V OU VV

“vê” para inclusiva e vevê para exclusiva

“ou” – inclusivo “ou” exclusivo

 

Ferradura

ou

seta

Condicional: “Se-então” – Se ocorre X, ocorre Y.

OU

condicional

 
 

Três

barras

ou

seta

Bicondicional: “Se-e-so- mente-se” – Ocorre X se, e somente se, ocorre Y

OU

bicondicional

 

capítulo 3 57

Vamos imaginar que P e S são dois enunciados e vamos aplicar os conectivos identificados. Podemos escrevê-los assim:

~

Não-P

 

~ P

. OU

Ambos P e S

(P

. S) ou (PS)

V / VV

Ou P ou S

(P

v S) ou (P vv S)

OU

Se P, então S

(P

S) ou (P S)

OU

P se, e somente se, S

(P

Q) ou (P S)

Quando temos um enunciado simples não é preciso usar o recurso do parênte- ses e podemos representar apenas por meio da letra maiúscula. Então uma frase do tipo ‘Eu moro em Niterói’, pode ser representada pela letra N. E a frase negativa ‘Eu não moro em Niterói’ pelo til (~) antecedendo a letra N: ~ N.

Eu moro em Niterói = N Eu não moro em Niterói = ~N

O uso do parênteses ( ), forma o que os lógicos chamam de expressão parentética

e, esse uso, destina-se aos enunciados compostos com os conectivos específicos para

enunciados compostos. Somente coloque entre parênteses uma proposição composta. Gensler (2016, p. 147), apresenta o seguinte exemplo: “Eu moro em Paris e eu não moro em Quebec”, uma proposição composta, do tipo conjuntiva, sendo representada da seguinte maneira: (P . ~Q). Como é composta, ficará entre parên- teses, sendo P o primeiro enunciado conjuntivo e ~Q, o segundo enunciado con- juntivo, formados pelo conectivo lógico representado pelo ponto (.) ou, se você preferir, pelo “vê” invertido (). Acrescente o parênteses sempre que vir “ambos”, “ou”, “se”, acaba sendo uma regra interessante que facilita a operação lógica. (P . ~Q) (P~Q)

O uso do recurso do parênteses evita ambiguidades na linguagem porque

a ordem dos símbolos altera o entendimento. Como podemos ler uma repre-

sentação de enunciados compostos conjuntivos ou disjuntivos? Gensler (2016,

capítulo 3 58

p. 148), observa que devemos usar parênteses e fazer a leitura da seguinte manei-

ra: se escrevo na linguagem da lógica simbólica ( ~P . Q), leio “não-P”, pausa, “e Q”. Se escrevo ~(P.Q) devo ler assim: “não”, pausa, “P e Q”. Vamos tentar algu- mas possibilidades?

(P . ( Q R) ) = P, e se Q então R.

(( P . Q ) R ) = Se P e Q, então R. (~A v B ) = Não-A ou B

~ (A v B) = Não A ou B

( ( A . B ) C ) = Se ambos A e B, então C

~( ~A . B ) = Não ambos não A e B

(A (B . C ) = Se A, então B e C

( ( A B) . C) = Se A, então B, e C

No exemplo de Gensler ( 2016, p. 149), “Se nevar, então eu vou para fora e eu

vou esquiar” podemos fazer assim: a letra N representa o enunciado “ se nevar”,

a letra V representa “eu vou para fora”, a conjunção “e” coloco o sinal de ponto

(.) e a frase “eu vou esquiar” a letra K, ficando, portanto, na linguagem lógica:

(N (V . K)).

Se nevar, então eu vou para fora e eu vou esquiar.

N

V

K

(N (V . K))

Podemos escolher a letra que for conveniente e tomar cuidado na ordem dos

enunciados, sobretudo, quando usarmos o conectivo da ferradura () ou seta ()

e, mais uma vez, vamos nos socorrer nos exemplos de Gensler ( 2016, p. 149): “Se

é um cachorro, então é um animal” esta frase ficaria representada assim: (C A)

ou (C A). A letra C designa “é um cachorro” e a letra A designa “é um animal”,

o símbolo da ferradura ou seta, o sentido de “se-então”. Se decidir inverter as frases será necessário inverter as letras na representação, combinado? Portanto, na frase “se é um animal, então é um cachorro” devo colocar invertendo a posição das letras (A C) ou (A C) (GENSLER, 2016). Podemos resumir os tipos de enunciados e os cinco conectivos estudados para

a linguagem simbólica da seguinte maneira. Alguns autores preferem designar

capítulo 3 59

como conectivos verofuncionais, ou seja, conectivos funcionais de verdade em que o valor de verdade da proposição está ligado a esses elementos. Conectivos são palavras ou expressões que podem trazer mais conteúdo e criar uma frase.

ENUNCIADOS

SIGNIFICADO

CONECTIVO

FORMA DO

LÓGICO

ENUNCIADO

Negação

Não-A

~

( til)

~A

Conjuntivo

A e B

. (ponto) ou (vê invertido)

(A . B)

Disjuntivo

   

(vê)

(A v B)

Inclusivo

A e/ou B

v

Disjuntivo

 

vv (duas vezes o vê)

 

exclusivo

A ou B

(A vv B)

Condicional

Se A, então B.

(implicação)

(A B)

Bicondicional

A se e somente se B

(equivalência)

(A B)

Tabelas de verdade

O que são tabelas de verdade? São representações gráficas das combinações de valores nas proposições. Quando elaboramos argumentos os seus enunciados ou proposições podem ser verdadeiros ou falsos, o que significa dizer que possuem valores de verdade (GENSLER, 2016). Temos dois valores de verdade possíveis: o verdadeiro que simbolizamos pela letra “V” e o falso que representamos pela letra “F”. Então dependendo do valor de verdade dos enunciados numa conjunção, disjunção ou condicional, a conclu- são poderá ser verdadeira ou falsa. Na hipótese de negação simples, num enunciado simples, a tabela de verdade ficará com o valor de verdade invertido. Se P é verdadeiro, não-P será falso e vice versa. Vejamos:

P ~P V F F V
P
~P
V
F
F
V

capítulo 3 60

Na hipótese de enunciados conjuntivos que são aqueles representados pelo ponto (.) ou a letra vê invertida (), formamos a seguinte ideia: considerando P e Q como dois enunciados diferentes e que (P . Q) é uma conjunção em que os dois enunciados estão conectados pela palavra “e”; se P é um enunciado verdadeiro, Q é um enunciado verdadeiro. Logo, a conjunção (P . Q) será verdadeira. Se P é ver- dadeiro, mas Q é falso, a conjunção será falsa. Se P é falso e Q é verdadeiro, a con- junção será falsa. Se P e Q são falsos, a conjunção será falsa (GENSLER, 2016).

Se P é verdadeiro, Q é verdadeiro. Logo, a conjunção (P . Q) será verdadeira. Se P é verdadeiro, Q é falso. Logo, a conjunção (P . Q) será falsa. Se P é falso, Q é verdadeiro. Logo, a conjunção (P . Q) será falsa. Se P é falso, Q é falso. Logo, a conjunção (P . Q) será falsa.

Podemos formar a seguinte tabela de verdade para conjunção e evidenciar que no caso de conjunção o resultado do enunciado composto só será verdadeiro se os enunciados conjuntivos forem, ambos, verdadeiros. Vejamos a tabela:

P

Q

(P . Q)

V

V

V

V

F

F

F

V

F

F

F

F

Na hipótese de enunciados disjuntivos, o símbolo “v” representa o sentido inclusivo da palavra “ou”. No caso de “ou” exclusivo, lógicos usam “vv” quando apenas um enunciado será escolhido, será verdadeiro. E como ficará a tabela de verdade para disjunção?

P

Q

(P V Q)

V

V

V

V

F

V

F

V

V

F

F

F

capítulo 3 61

Quando P for um enunciado verdadeiro e Q for verdadeiro, a disjunção será

verdadeira. Quando P for verdadeiro e Q for falso, a disjunção será verdadeira. Quando P for falso e Q for verdadeiro, a disjunção será verdadeira. Quando P e

Q forem falsos, a disjunção será falsa (VAN ACKER, 1971; GENSLER, 2016).

Você observou que só teremos uma opção com falsidade no caso da disjun- ção inclusiva em que os dois enunciados forem falsos? Por que na relação entre um enunciado falso e outro verdadeiro terei uma disjunção verdadeira? O lógico Copi (1978, p. 230), poderá nos socorrer nesta parte quando apresenta o seguinte exemplo:

O cego tem um chapéu vermelho ou o cego tem um chapéu branco [1ª premissa

com disjunção].

O cego não tem chapéu vermelho [2ª premissa é uma negação de um disjuntivo da

primeira premissa].

Portanto, o cego tem um chapéu branco [conclusão].

Então, neste exemplo, quando a segunda premissa nega o primeiro enunciado

da primeira premissa do enunciado composto por disjunção, ao mesmo tempo,

confirmou o segundo enunciado disjuntivo, não foi? Se o segundo foi confirmado, a conclusão só poderá ser verdade, o chapéu é branco. Ele tem um chapéu branco. Na tabela lógica de verdade da disjunção, a relação entre enunciado falso e ou- tro verdadeiro, resultará no verdadeiro. Frise-se, neste caso, o silogismo será válido porque existem duas alternativas e se há uma verdade em alguma delas, será ver- dadeira. E somente quando os dois enunciados forem falsos a disjunção será falsa. Existem os enunciados que apresentam um condicional “se então” e que já vimos que podemos simbolizar com a ferradura () ou seta (). No enunciado composto com uma condicionante: Se eu fui para São Paulo, então eu fui para Bahia, posso representar da seguinte maneira: (P B) ou (P B) em que P é o enunciado antecedente e B é o enunciado consequente. Como ficaria a tabela lógica para enunciado condicional? Vejamos!

P

B

(P B)

F

F

V

F

V

V

capítulo 3 62

P

B

(P B)

V

F

F

V

V

V

Na primeira verificação de verdade podemos dizer que se não fui para São Paulo e não fui para Bahia, o enunciado composto está correto, apresenta uma informação verdadeira, não fui a esses dois lugares. Na segunda verificação posso dizer que não fui a São Paulo, mas fui para Bahia, logo o enunciado composto apresenta uma informação também verdadei- ra, porque fui para Bahia e este enunciado é o consequente e está correto. Como o segundo enunciado é o consequente, na hipótese de esse estar incorreto, o resulta- do será falso (COPI, 1978; VANACKER, 1971; GENSLER, 2016). Não posso dizer que se fui a São Paulo, então eu fui a Bahia, o antecedente é verdadeiro, logo o seu consequente será falso e o resultado será falso. E, por fim, se o antecedente e o consequente forem verdadeiros, o resultado será também verdadeiro. Vamos ver como ficaria uma tabela completa:

ANTECEDENTE

 

CONSEQUENTE

 

(P B)

Se eu fui a São Paulo (Falso = eu não fui)

 

então fui à Bahia

que afirmo é verdadei-

ro, não fui a ambos os lugares. Logo, F+ F = V.

O

(

falso = eu não fui)

Se eu fui a São Paulo (Falso = eu não fui)

então fui à Bahia (verdadeiro = eu fui)

O

que afirmo é verdadei- ro. Logo, F + V = V.

Se eu fui a São Paulo (verdadeiro = eu fui)

 

então fui à Bahia

O que afirmo no conse- quente é falso. Logo, V+F = F.

(

falso = eu não fui)

Se eu fui a São Paulo (verdadeiro = eu fui)

então fui à Bahia (verdadeiro = eu fui)

O

que afirmo é verdadei- ro. Logo, V+ V = V.

E como ficaria a tabela de verdade dos enunciados bicondicionais, ou seja, aqueles que apresentam a expressão “se, e somente se”? Os enunciados bicondi- cionais serão verdadeiros se, e somente se, P e B apresentam o mesmo valor de verdade. Se ambos forem verdadeiros, será verdadeiro. Se ambos forem falsos, será verdadeiro. Nas demais hipóteses serão falsos (GENSLER, 2016).

capítulo 3 63

P

B

(P B)

V

V

V

V

F

F

F

V

F

F

F

V

Enfim, a análise do valor de verdade de uma proposição é a verdade ou falsida- de dessa proposição que identificamos, por isso, é importante conhecer as tabelas de verdades básicas aqui estudadas.

A estrutura do silogismo categórico e seus princípios lógicos

O silogismo apresenta uma estrutura constituída por proposições e termos. As proposições são designadas por Premissa Maior (PM), premissa menor (pm) e conclusão (c). Além desses três elementos, sob o ponto de vista material temos três termos, a saber: o termo maior (TM), o termo médio (Tmed) e o termo menor (tm). Ao observarmos os seis elementos que integram a estrutura silogística, temos o que os lógicos designam por matéria do silogismo (VAN ACKER, 1971; COPI, 1978; GENSLER, 2016). No clássico silogismo de Sócrates, podemos identificar tais termos. A Premissa Maior é aquela que contém o termo maior (TM), com maior extensão, abrangên- cia, amplitude. O termo extensão em lógica significa “um conjunto dos seres ou indivíduos que designa, isto é, todos os homens no caso do termo ‘homem’”. E, por outro lado, acrescenta Lefebvre, ele tem também uma compreensão: o con- junto das qualidades possuídas pelo ser designado, como por exemplo, no caso do homem, o fato de ser vertebrado, mamífero, racional, mortal etc.” (LEFEBVRE, 1991, p. 139). A premissa menor (pm), a que expressa o termo menor (tm) que aparece na conclusão e que tem uma extensão consequentemente menor. O ter- mo médio (Tmed) deve aparecer nas duas premissas porque ele é justamente o intermediário entre os dois termos, o maior e o menor, e evidencia a ligação entre ambos. Vejamos como podemos identificá-los:

capítulo 3 64

Tmed

tm

Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Sócrates é morta.
Todo
homem
é mortal.
Sócrates
é homem.
Sócrates
é morta.

TM

TM

Termo maior

Aparece como predicado na conclusão.

Tmed

Termo médio

Apresenta uma extensão intermediária e estabelece a conexão entre as premissas.

tm

Termo menor

Apresenta uma extensão menor e aparece como sujeito na conclusão.

Existe a possibilidade de formarmos quatro figuras a partir da localização do termo médio na estrutura do silogismo. Ora o termo médio ocupa o lugar do sujeito (Sub do latim subjectum), ora ocupa o lugar do predicado (Prae do latim praedicatum). Por isso, os lógicos designam como Sub-Prae, Prae-Prae ou bis Prae, Sub-Sub ou bis Sub e Prae-Sub. As figuras do silogismo recebem essas abreviações porque decorrem dos termos em latim. Outro elemento são os modos do silogismo que são variações da estrutura silogística conforme a quantidade e qualidade (GENSLER, 2016; LEFEBVRE, 1991; VAN ACKER, 1971; COPI, 1978). Para tanto, aplicamos aquela conven- ção que estudamos com as letras maiúsculas A, E, I e O. Vamos lembrar? Quando encontramos uma afirmativa total ou universal, designada por “A” que representa a primeira vogal de afirmo, temos uma proposição afirmativa uni- versal ou total; a afirmativa particular designada por “I” em razão da segunda vogal de afirmo, nos fala de um proposição afirmativa particular; a negativa total ou universal, designada por “E” por causa da primeira vogal de nego, nos fala de uma proposição universal negativa; a negativa particular, designada por “O” por conta da segunda vogal de nego, evidencia uma proposição negativa particular.

capítulo 3 65

   

LUGAR

 

ESTRUTURA DO

SILOGISMO E

SEUS TERMOS

EXEMPLOS DE

SILOGISMOS

 

DO

TERMO

MÉDIO

MODOS DO

SILOGISMO

     

AAA

1.

Tm / Tmed (pm)

Tm / TM (C)

Tmed / TM (PM)

Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.

Sub-Prae

EAE

AII

EIO

 

Há animais que têm asas.

   

2.

TM / Tmed (PM)

Ora,

alguns

insetos

Prae

-

EAE

AEE

Tm / Tmed (pm) Tm / TM (C)

têm asas.

Logo,

os

insetos

são

Prae

EIO

animais.

AOO

 

Os pardais são mamíferos. Os pardais são voadores. Alguns voadores são mamíferos.

 

AAI

3.

Tmed /Tm (pm) Tm / TM (C)

Tmed / TM (PM)

Sub-Sub

IAI

AII

EAO

 

Os

brasileiros são

 

AAI

4.

TM /Tmed (PM)

homens.

AEE

Tmed /Tm (pm) Tm / TM (C)

Os homens são racionais.

Prae-Sub

IAI

Alguns

racionais são

EAO

 

brasileiros.

 

EIO

Agora que já identificamos as quatro figuras e os modos dos silogismos, pode- mos construí-los na forma das proposições A, E, I e O. Vejamos:

1ª Figura

Modo: AAA Todo Tmed é TM. Todo Tm é Tmed. Logo, todo Tm é TM.

Modo: EAE

Modo: AII Todo Tmed é TM.

Modo: EIO Nenhum Tmed é TM. Algum Tm é Tmed. Logo, Algum Tm não é TM.

Nenhum Tmed

é

TM.

Algum Tm é Tmed. Logo, algum Tm é TM.

Todo Tm é Tmed. Logo, nenhum Tm

 

é

TM.

 

capítulo 3 66

2ª Figura

 

Modo: EAE

Modo: AEE

Modo: EIO

Modo: AOO

Nenhum TM

Todo TM é Tmed.

Nenhum TM

Todo TM é Tmed.

é

Tmed.

Nenhum Tm

é

Tmed.

Algum Tm não

Todo Tm é Tmed. Logo, nenhum Tm

é

Tmed.

Algum Tm é Tmed. Logo, algum Tm

é

Tmed.

Logo, nenhum Tm

Logo, algum Tm não é TM.

é

TM.

é

TM.

não é TM.

3ª Figura

 

Modo: AAI

Modo: IAI

Modo: AII

Modo: EAO

Todo Tmed é TM. Todo Tmed é Tm. Logo, Algum Tm

Nenhum Tmed

Algum Tmed é TM.

Nenhum Tmed

é

TM.

Todo Tmed é Tm. Logo, algum Tm

é

TM.

Todo Tmed é Tm.

Algum Tmed é Tm.

é

TM.

Logo, algum Tm não é TM.

é

TM.

Logo, Algum Tm não é TM.

4ª Figura

 

Modo: AAI Todo TM é Tmed.

Todo Tmed é Tm. Logo, Algum Tm

Modo: AEE

Modo: IAI

Modo: IAI

Todo TM é Tmed. Nenhum Tmed

é

Tm.

Algum TM é Tmed. Todo Tmed é Tm.

Logo, algum Tm

Algum TM é Tmed. Todo Tmed é Tm. Logo, algum Tm

é

TM.

Logo, nenhum Tm