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Peter Gowan A ROLETA GLOBAL Traduglo de REGINA BHERING —_f§ Pn AROLETA GLOBAL 5, Uma importante excegio a essa cegueira foi o trabalho de Susan Strange, que ios e fie tentou com afinco nos ensinar acerca da p nanceitos internacionais, principalmente em seu cléssio, Sterling and British Policy (Oxford University Press, 1971). Um artigo desbravador sobre o papel dos na globalizagdo é 0 de Leo Panich, “The Role of States in Globalisation’, So Register (1995). 6, Nio desejo sugerir que as tensbes entre as metas dos governos e a dinamica dos estigagao. Ver Robert Boyer € ‘mercados néo sejam um importante objeto de Daniel Drache (org.), States against Markets: (Routledge, 1996). - 7. Samuel Huntington: “Transnational Orgenisations in World Politics, World Politics, 25 (abril de 1973). 2 ——________ “Mercados de Capital”, Sistemas Financeiros e o Sistema Monetdrio Internacional do Pés-guerra A maior parte das vérias concepgées relativas a0 que seja a globalizacio se concentra na mobilidade crescente do capital pelo planeta no “mercado glo- bal de capital” e no impacto dessa mot Mas 0 termo “mercado de cay lidade sobre as economias nacionais. ‘mente incoerente, porque abran- ge fenémenos radicalmente diferentes no campo das finangas, a maioria dos. quais nfo tem nada a ver diretamente com capital no significado comumente utilizado do termo, enquanto ao mesmo tempo exclui grande parte das ope- rages do que o capital realmente faz. Sendo assim, precisamos esclarecer nossos conceitos sobre “mercados de capital”, globais ou de outro tipo, de modo a compreender esse fendmeno internacional conhecido como globalizagao. ” €ani (Os Chamados Mercados de Cay Em linguagem comum, nés associamos a palavra capital com a i ia de fun- dos para investimento produtivo, para reunir maquinaria, matéria-prima e ‘empregados para produzir artigos vendaveis. Esse é um ponto de partida para 0 uso da palavra capital, cca dentro de um sistema capit ‘Uma das principais confusoes relativas & globalizagao esté na crenga am- plamente difundida de que os chamados “mercados globais de capital”, nos quais trilhoes de d6lares saltam de um lado para o outro através do globo, estdo de alguma forma ajudando 0 desenvolvimento do setor produtivo do orque enfatiza sua funcao socialmente benéti- L 30 [A ROLETA GLOBA\ capitalism £ pelo fato de imaginarmos que os “mercados globais” sto essen- ais & produgio que n6s acreditamos nao ter outa escolha sendo accit-tos Entretanto, na verdade, a maior parte do que acontece nos chamados “merca- dos globais de capital” deveria ser encarado mais como uma ‘mudanga em re- lagio ao sistema produtivo do que como uma fonte de recursos para nove sia de que as formas comuns de “mercados de capital” sejam is 6 um erro grave. produgo. A 4 ‘mecanismos de investimento funcionalmente indispen: © “mercado de capital” &a0 mesmo tempo muito mais e muito menos do que o funil para o investimento produtivo, £ muito mais porque incl todas as formas de crédito, poupanga e seguros, bem como amplos ¢ di smercados de titulos de renda futura e nao apenas créditos para inves produtivo. E é muito menos porque enormes fluxos de recursos de inves ento produtivo nto passam de forma alguma pelos chamados ‘mercados de capi ‘Essa confusto acerca do papel dos mercados de capital est ligada a outra, relativaa fusoes e aquisigdes. Assim, supoe-sé muitas vezes que quando a empresa assume 0 controle de outra empresa, algum tipo de isnot e capital esté ocorrendo. No entanto, freqientemente tais aquisicOes AS ativos podem nao ter nada a ver com um novo investimento rea n= verdade, 0 con- trério pode estar acontecendo: a aquisicdo pode estar relacionada com 0 78> esse em parat as atividades da empresa adquirida, para que o comprador Posse pater a concorréncia e ganhar um maior poder de mercado. Durante 0 quarto de século, esse procesto de “centralizacto de capital” tem continuado ripidaeinternacionalmente.B chamado de"Investimento Externe re naioria dos casos significa simplesmente mudangas na propriedade de empresas e pode ter mais aver com desinvestimento na produsio do que com + comprometimento de novos recursos para aexpansio da produsio, "A idéia de que uma grande expansZo no tamanho dos “mercados de caPi- tal” sea um sintoma de tend&ncias positivas na producto capitalista ¢ uo fal- sa quanto imaginar que uma grande expansio do setor de seguros sta sina de que o mundo esti se tornando um lugar mais seguro. O seguro pode foncionar da maneira contréra: quanto mais crimes, maior o mercado de se- guros de propriedade. Da mesma forma, quando esto surgindo grandes for race da noite para 0 dia nos “mercados de capita’ a regra prética mais atl para se interpreta tas tendéncias éa que diz que alguma coisa no capitalismo esté funcionando muito mal de um ponto de vista social. ireto”, mas “MERCADOS DE CAPITAL’, SISTEMAS FINANCEIROS E © SISTEMA. 3 Examinaremos alguns desses termos, comecando com 0 aspecto mais 6b- vio dos sistemas financeiros, a sua fungao de fornecer crédito, crédito envolve emprestar dinheiro a pessoas, entendendo que elas pa- {gardo mais tarde com um bonus ou “royalty” (dividendo), geralmente na for- ma de uma taxa de juros.' Nao hé nada necessariamente capitalista a respeito do crédito e grande parte dos sistemas de crédito nacional nao estdo de forma alguma relacionados com a produgio. Os trabalhadores podem colocar suas poupangas em uma cooperativa de crédito e obter empréstimos delas em tem- pos dificeis na esperanga de pagar esse empréstimo em tempos melhores. Eles pagam um royalty pelo servico, mas este pode ser pequeno, porque a coopera~ tiva nao tem fins lucrativos. Tais cooperativas servem a necessidades de con- sumo, ndo a produgio, endo sao capitalistas. A formagao de sociedades restritas ‘ao mercado de habitagao tem um papel similar ao de fornecer crédito para que as pessoas comprem uma casa. Um aspecto comum a esses tipos de orga- nizagdes € que o dinheiro-crédito que elas emitem é diretamente derivado de ‘poupangas depositadas dentro delas. Em outras palavras, os seus recursos vem da producio anterior de valor na economia: as poupangas dos empregados vvém dos salirios que eles j4 receberam pela produga0? (Os bancos sio diferentes porque eles so capazes de criar dinheiro novo em suas operagbes de crédito. N6s podemos ver isso quando nos damos conta de que a um s6 tempo os bancos poderiam estar permitindo saques a desco- berto a todas as pessoas em toda a economia. Dessa forma, circula pela econo- mia muito mais dinheiro do que aquele derivado de poupangas geradas pela criagao de valor passada. Parte do dinheiro é realmente o que nés chamamos de dinheiro ficticio— dinheiro derivado nao do pasado, mas de expectativas «que serao validadas pela atividade produtiva futura.? No capitalismo, os ban- cos também nao precisam funcionar como empresas capitalistas privadas. No inicio da década de 1990, por exemplo, mais da metade dos maiores bancos a Europa eram piiblicos e seus critérios financeiros de operaséo eram, em principio, questaes de escolha publica. E, mesmo quando sao privados, os ban- ‘cos desempenham um papel tao essencial e poderoso na economia publica, devido a sua capacidade de emitir dinheiro-crédito, que qualquer classe capi- talista sensivel asseguraria que o Estado esta constantemente interferindo em suas operagdes (embora, por razes ideol6gicas, sempre se queira manter es- sas fungées do Estado pouco divulgadas). Como afirma Kapstein: “Os bancos sao avisados a respeito de quanto capital devem conter, onde eles podem ope- 3 AROLETA GLOBAL rar, que produtos podem vender e quanto podem emprestar a qualquer outra eel desse dinheiro-crédito ficticio é muito benéfica para toda a economia por sua fungao de facilitar a circulagao de mercadorias. Sem isso, 0 desenvolvimento econdmico seria muito mais lento. Ele é especialmente im- portante para os empregadores, permitindo que levantem grandes quantias de dinheiro para equipamentos que renderao o seu valor total na produgao somente muitos anos no futuro. Se os empregadores pudessem investir ape- nas a poupanga real — 0 dinheiro detivado da criacao de valor passada —, investir em capital fixo seria muito mais dispendioso, dispendioso demais para ‘uma grande quantidade de investimentos. Eo crédito também se tonnou um meio muito importante de expandir a venda de mercadorias para os consu- midores. Esta é outra maneira de dizer que as economias modernas adminis- tram grandes quantidades de débito. Assim, os bancos realmente desempenham ‘um importante papel tanto na canalizag3o da poupanga quanto na criaga0 de novos recursos (dinheiro ficticio) para o investimento produtivo. Uma eco- nomia capitalista inteira poderia funcionar com um sistema financeiro que consistisse inteiramente em tais bancos. ; Historicamente, porém, outras formas de instituicao financeira cresceram, prineipalmente no mundo anglo-saxao que desempentiou um papel t20 fun- damental no desenvolvimento histérico do capitalismo, Primeiramente hou- ve o desenvolvimento de aces ¢ titulos como meio de levantar recursos. Uma empresa pode oferecer ag6es utilizar os recursos obtides com a venda para investir no negécio. As agdes sto pedagos de papel que outorgam titulos legais ‘a uma reivindicagao sobre lucros futuros advindos das atividades da empresa. Empresas ou governos podem também vender titulos ¢ utilizar os recursos obtidos com a venda para uma infinita variedade de propésitos. Esses titulos so, da mesma forma, pedagos de papel que outorgam titulos legais ao porta- dor sobre um fluxo fixo de recursos por um perfodo fixo de tempo. Um as- pecto especial das agbese titulos (conhecidos coletivamente na Inglaterra desde 6 século XVIII como “stocks” — agdes) € que os mercados secundirios cres- ceram, permitindo que as pessoas comprassem e vendessem esses pedagos a papel, dando direito a0 portador a futuros royalties. Hoje existe todo o tipo de pedaco de papel que pode ser comprado e vendido e que assegura a0 portador algum tipo de royalty ou direito futuro. Eu posso comprar e vender papel me dando 0 direito de comprar ou vender uma moeda corrente a uma certa taxa EEE oOo oOo OOOO EEE EEE OE EO EO OO Ee ee “MERCADOS DE CAPITAL", SISTEMAS FINANCEIROS EO SISTEMA... 33, €a um certo tempo no futuro. Houve um grande crescimento nos mercados nna demanda por tais papéis. © termo genérico para todos esses pedacos de papel negociveis é “valores mobilirios”. £ importante reconhecer que enquanto a emissio inicial de um conjunto de agoes ou titulos é um meio de levantar fundos que podem (ou nao) ser utilizados para um investimento de capital produtivo, os mercados secundé- rios desses valores mobilidrios nao estao de forma alguma contribuindo dire- tamente para 0 investimento produtivo. Em ver. disso, as pessoas nesses ‘mercados (como 0 mercado de a¢des) esto comprando e vendendo reivindica- s0es sobre um valor futuro criado por uma atividade produtiva futura, Nao es- {ao transferindo recursos para aquela atividade produtiva; esto reivindicando faturos royalties dela. Essas reivindicagdes sobre futuros royalties de uma pro- dugao futura so diretas ou indiretas. Uma agdo da Ford Motors é uma reivindicagao direta sobre um valor futuro criado na Ford. Um titulo do go- Yerno russo que eu possua é uma reivindicagao indireta sobre uma futura pro- ugao de valor da Russia. Eu conservo o titulo nao porque pense que o governo rrusso produziré o valor, mas porque imagino que ele me pagaré royalty extra- indo tributos sobre a atividade produtiva de outros na Ruissia: sem producio, sem royalty para o meu titulo. Diante do que foi exposto, podemos agora voltar & expresso “mercado de capital”: Na verdade essa expressao refere-se principalmente (embora nao sem- pre) a mercadas de valores mobilidrios. E assim nés descobrimos que mercados de capital, no sentido de um mercado de valores mobiliitios, pode nao ter nada a ver diretamente com fornecer recursos para investimentos de capital. Pode ter a ver com o processo contririo: negociar reivindicacOes para obter lucros de criagoes de valor produtivo futuras, Ao mesmo tempo, os créditos e titulos bancarios podem ser utilizados para fungdes de levantamento de capital, mas também podem ser igualmente utilizados para outros propésitos. E nem os ‘mercados de cambio exterior, nem os chamados mercados de derivativos tém relagdo direta com investimentos de capital — examinaremos mais tarde quais io as suas fungoes. ‘Como poderia ocorrer tal aparente abuso de linguagem, pelo qual varios tipos de mercados financeiros sio descritos como mercados de capital? A res- posta & que nio é um abuso de linguagem para um grupo da populagao: rentiers © especuladores. Rentiers sao aqueles cuja receita deriva de extrair royalties de uma producao futura. Os especuladores so aqueles cuja receita deriva da ne- “ ‘AROLETA GLOBAL ‘gociagzo de valores mobilirios ou moeda corrente, tentando vendé-los por pregos maiores do que aqueles pelos quais eles os compraram. 7 ‘Como a nossa anilise deu a entender, os rentiers nao so, em principio, ‘um elemento essencial do capitalismo. Aquelas partes da reproducio do siste- ‘ma que envolvem necessariamente a canalizagdo de recursos monetarios oriun- dos da criagao de valor e de créditos na forma de dinheiro ficticio poderiam ser inteiramente controladas por bancos comerciais (que poderiam ser eles mesmos piiblicos). ‘Assim, quando examinarmos o crescimento dos chamados “mercados glo- bais de capital”, descobriremos que grande parte de sua atividade nao esta re- lacionada com o fornecimento de capital para a atividade produtiva. Ela esta relacionada com a negociasao de royalties sobre produgao futura em diferen- tes partes do mundo, ou com negécios dedicados a virio: contra riscos. E a tendéncia na organizagao dos fluxos financei cada vez mais aquela que privilegia os interesses dos rentiers e especuladores em detrimento das exigéncias funcionais do investimento produtivo. Esse fato 6 revelado por um exame das tensdes entre o que podemos chamar de dois pélos do capitalismo, o do capital que negocia dinheiro e aquele dos que em- no setor produtivo. pregam 0 caj Os Dois Polos do Capitalismo e sua Regulamentagao Quer o sistema financeiro esteja organizado predominantemente na forma de bancos comerciais ou na forma de mercados de valores mobiliérios, percebe- ‘mos uma divisdo que é inerente ao capitalismo: a divisdo entre o capital que negocia dinheiro, de um lado, e 0 capital produtivo de outro. Essas duas entida- des tém dois tipos diferentes de preocupasdes devido aos diferentes circuitos de seus capitais. Para aquele que emprega 0 capital no setor produtivo, ocircuito se da da seguinte forma: o capital comega como dinheiro (parte do qual é tomado emprestado do capitalistafinanceiro), que & entdo transformado em instalagbes, ‘matéria-prima e empregados no processo de producao. O capital entao emerge a producao como uma massa de mercadorias para venda; quando a venda é concluida, 0 capital reaparece na forma de dinheiro com o excedente extraido do processo de produgao. Desse excedente, o empregador paga ao capitalist fi- nanceiro a soma inicialmente adiantada, juntamente com os royalties. “MERCADOS DE CAPITAL", SISTEMAS FINANCEIROS EO SISTEMA... 35 Mas do ponto de vista do capitalista financeiro, o circuito parece diferen- te, Ele comeca com um fundo em dinheiro. Esse dinheiro € entio encerrado em um projeto durante um certo tempo. Ao final desse periodo de tempo, 0 capitalista financeiro espera receber o dinheiro de volta com um royalty. Para © capitalista-financeiro absolutamente qualquer projeto que vé oferecer um futuro royalty é capitalismo. Se uma agao da Ford d4 um royalty de 6 por cen- to em um ano, enquanto um titulo do governo ucraniano rende dividendos de 34 por cento e comprar uma caixa de Chateau Lafitte para vender um ano depois iré render 150 por cento, a problematica é a mesma para o cay financeiro em cada caso: em um futuro incerto, qual desses diferentes “merca- dos de cay dard a melhor combinagio de seguranga e alto rendimento? A propriedade que pode ser utilizada como capital aparece entio simulta- tas financeiros controlando enormes quantidades de recursos; e de outro lado estdo os empregadores de capital, administrando as empresas. Essas sio duas formas da mesma coisa, andlogas a Deus Pai e Deus Filho. Mas sua polariza- 40 € muito importante porque permite que o capital-dinheiro como controlador de recursos desempenhe um papel planejador no desenvolvimento capitalista. Contudo, sendo distante e relativamente a empregadores de capital no setor produtivo, 0s cay escolher para quais setores adiantar capital em dinhei ou “maturidade”, quase nao atingindo a taxa m momo em relagao aos tas financeiros podem . Se um ramo alcan- de lucto, entao os recur- 0s de valor daquele setor, bem como o dinheiro ficticio, podem ser adiantados Para outros setores que paregam ter mais probabilidade de produzir taxas mai altas de retorno. Mediante tais remanejamentos, presume-se que o sistema fi- nanceiro nas maos dos capitalistas financeiros cresga a passos largos. Para aqueles que apdiam o capitalismo, esse papel de coordenagio do de- senvolvimento dos capitalistas financeiros & considerado um dos aspectos mais engenhosos e belos de todo o sistema. Pode-se dizer que a relagao entre 0 se- tor produtivo e o setor financeiro é aquela onde o setor produtivo é determinante, mas o setor financeiro é dominante. O setor produtivo é de- terminante porque produz.o fluxo de valor de onde os capitalistas financeiros do setor financeiro vao fundamentalmente receber seus royalties, diretamente. Por outro lado, 0 setor financeiro é dominante porque decide para onde ird canalizar a poupanga passada e o novo dinheiro-crédito fi que acompanharé os fluxos financeiros e o que nao ird. Os verdadeiros equili- 36 ‘AROLETA GLOBAL brios de poder entre os dois setores sio parcialmente governados pelo ciclo financeiro. Na alta da produgao, o capital tem dinheiro vivo em_ abundancia e pode, por assim dizer, ditar as regras aos capitalistas financeiros; mas na recessdo 0s capitalsta financeiros se tornam tiranos impiedosos cruéis quan- do os empregadores do capital produtivo imploram por crédito para ajud- los a vencer as dificuldades. Mas as relagdes de poder entre os dois também sao crucialmente afetadas pelo modelo institucional — pelas relagdes sociais de produgio. © Estado, por um processo muito oneroso ¢ poliizado, pode mexere realmente mexe no equilibrio entre pélo do capital-dinheiro ¢o polo do capital-produtivo, e entre o polo do capital-dinheiro e todas as partes do fistema de crédito, mantendo, por exemplo, o capital-dinheiro fora de setores inteiros dc -ma de crédito, se assim 0 quiser. O- ‘Estado, também toma deci- ses cruciais acerca da estrutura interna e das interacdes no interior do pr6- prio pélo de capital-dinheiro. O que os bancos terdo permissao de fazer, ¢ do que eles ficardo de frat Teremos um mercado de valores mobiliéios privado fou no? E assim por diante. E deveos também lembrar que o Estado nio esté apenas planejando relagbes entre os dois pélos do capital ele esté tam- bém planejando a sua propria relagao com o pélo financeiro, porque ele pr6- prio também desejaré utilizar o sistema de crédito. ‘A partir de nossa andlise desses dois polos do capi 1, surge outra distin- a0 muito importante, entre os andamentos eritmos de dois tipos de luxos financeitos ligados a0s dois diferentes tipos de circuitos. No caso do capita lista financeiro, hé uma tendéncia a procurar tetornos répidos ¢ a manter 0 capital no estado mais Iiquido possivel, por razbes de seguran¢a. © empre- gador do capital procura estabelecercircuitos de prazo mais longo, princi- palmente no caso de fundos para investimentos de capital fixo, que s6 rendem ¢o seu valor total depois de muitos anos. A tendéncia do primeiro grupo € entio a de gerar fluxos de“moeda quente” (movimentos especulativos ¢ fuga de capital), extremamente sensiveis até mesmo a mudangas muito pequenas ‘em seu ambiente; enquanto o segundo grupo tende a gerar fluxos frios ¢ lon- \tivas em seu ambien- comércio de valores mol {os quanto por parte de empréstimos a smo prazo. Essa diferenga € extremamente importante quando pro~ ‘caramos analisar movimentos internacionais de recursos. Na medida em que todos os tipos de dinheiro podem fluir livremente através das fronteiras,se- “MERCADOS DE CAPITAL’, SISTEMAS FINANCEIROS E O SISTEMA. 7 ria de se esperar ver diferencas muito radicais entre esses dois tipos de fu- xos: uma pequena mudanga na taxa de juros de um pafs ou nas taxas de ju- 10s fixadas pelo governo a curto prazo em outro podem causar mudangas stibitas e fundamentais nos fluxos de “moeda quente”, mas nao exercem ne~ nhuma influéncia significativa nos fluxos de recursos concernentes a inves- timentos reais a longo prazo na produgao.* Artelagao entre capital e trabalho dentro do setor produtivo é,naturalmente, ‘uma relago social absolutamente fundamental ao funcionamento de qualquer sistema capitalista atual. Mas a relacio entre capital-dinheiro e 0 setor produ- tivo é outra relagao social absolutamente fundamental. Alguns dos conflitos mais agudos dentro das sociedades capitalistas ocorreram ao redor dessas re lagbes sociais, entre o setor financeiro e o resto da sociedade. ‘Ao final da guerra, a politica no mundo do Atlantico era governada por forcas que favoreciam o que os neoliberais chamam de “tepressio financeira” e ao que Keynes se referia aprobativamente como “eutandsia para os rentiers”. A histéria do tiltimo quarto de século foi a da ressurreigao dos rentiers em um esforgo de libertagao contra a “repressio financeira”. Isso andou de maos da- das com a idéia de que a abordagem a0 modelo dos sistemas financeiros de- {fendida por pessoas como Keynes, eos regimes de ocupagio dos Estados Unidos na Alemanha e no Japao depois da guerra — de “repressio financeira” —€ ‘uma abordagem estranha ao capitalismo genuino, aparentemente originada no Extremo Oriente! Esses debates se preocupam nao apenas com as relades de poder institucional entre o capital-dinheiro e os empregadores de capital, mas também com o papel do Estado e as formas de relagdes de classes por toda a sociedade. ‘Mas para compreender essa hist6ria devernos reconhecer que essas ques- tes de modelo social e institucional nao sao necessariamente solucionéveis em um nivel puramente nacional. £ na verdade uma atividade também do sis- tema interestatal, na medida em que os recursos poder fluir mais ou menos livre- mente de uma zona de moeda nacional para outra. O pélo de capital-dinheiro desempenha o seu papel somente pela atuagdo como dinheiro. E na medida em que as moedas correntes dos pafses s40 mais ou menos livremente conver- siveis por agentes econémicos privados em moedas correntes de outros pai- ses, as relagdes financeiras em uma sociedade capitalista podem estar sujeitas a influéncias poderosas por parte dos setores financeiros de outros paises ca- pitalistas 38 ‘A ROLETA GLOBAL A transformagao das relagdes entre 0 pélo de capital-dinheiro e 0 setor rodutivo dos capitalismos nacionais tem sido um aspecto fundamental do que veio a ser conhecido como “neoliberalismo” durante o titimo quarto de século, Mas essa transformagao foi alcangada em intima relacdo com profun- das mudangas no campo das relagdes monetirias e financeiras internacionais. Face a este cenério, examinaremos o sistema monetirio internacional e como ele se relaciona com os sistemas financeiros internacionais e nacionais. O Sistema Monetario Internacional A necessidade de um sistema monetério internacional nao é, em si mesma, algo derivado do capitalismo. Ela surge do fato econdmico, bem como poli- tico, de que o mundo é dividido em paises distintos com diferentes moedas correntes e do fato de que determinados grupos de um pais desejam fazer negécios com (e dentro de) outros paises. Historicamente, a maior parte do comércio internacional tem se relacionado com 0 comércio de mercadorias. problema das relagdes monetérias internacionais surge em primeiro lu- gar em relagdo a como dois grupos em zonas de diferentes moedas podem comprar e vender mercadorias. Uma maneira dbvia de lidar com esse pro- blema é nao usar nenhuma das moedas de cada pafs, e sim uma terceira for- ma de moeda, digamos, ouro, que tem um valor de troca com cada uma das duas moedas. Alternativamente, pode haver uma taxa de cambio estabelecida diretamente entre as duas moedas, e 0 vendedor das mercadorias pode estar preparado para aceitar o pagamento em qualquer uma das duas moedas etc. A questo, por enquanto, é simplesmente que algum tipo de sistema mone- tario internacional & necessério para o funcionamento da economia inter- nacional. Esses cambios no sistema monetério internacional sto rigorosamente monitorados em um nivel interestatal para responder a uma importante ques- ‘to: esto os operadores econdmicos de um pais comprando mais de outros ppafses do que vendem para outros paises? Em outras palavras, qual é a chama- da balanga de pagamentos de um pais nas transagoes em curso? A conta est em superavit ou em déficit? Essas questdes sto importantes porque, se um pais esté com um alto déficit, as pessoas comecam a se perguntar se serd possi no futuro, encontrar uma moeda internacionalmente aceita que seré necessé- “MERCADOS DE CAPITAL’, SISTEMAS FINANCEIROS EO SISTEMA... 39 tia para pagar todas as suas obrigacdes internacionais. Um pais em déficit tem Teservas suficientes de moeda internacional para continuar saldando 0 seu déficit? Ele pode pedir emprestado internacionalmente moeda aceitavel de al- gum lugar para continuar cumprindo com suas obrigagdes? Quanto mais as diividas crescem, mais os operadores econdmicos do pais em questio podem se ver diante de dificuldades de um tipo ou de outro. Mas esse sistema nao é “natural” ou puramente econdmico. Ele é a0 mes- mo tempo econémico e politico. Todo o conceito da balanga de pagamentos baseia-se na divisdo politica do mundo em diferentes paises e diferentes moe- das. As disposigdes para estabelecer formas aceitéveis de moeda internacional também sio estabelecidas por acordos politicos entre paises. E 0 tratamento relativo a paises com conta corrente deficitéria ou em superdvit também é es- tabelecido politicamente. Deveria haver um acordo pelo qual os paises com contas correntes deficitérias restringissem suas compras de fora para se ver livres de seus deficits? Ou deveriam os paises superavitarios ser pressionados a comprar mais dos paises deficitarios? Disposigdes de qualquer tipo podem ser estabelecidas. Se os paises deficitarios devem fazer ajustes, estes terdo um efei- to internacional depressivo, porque eles ter’o de restringir suas compras in- ternacionais. Se a abordagem contréria for utilizada, haveré um efeito estimulante na atividade econdmica internacional. A abordagem a ser adota- da depende de acordos politicos internacionais acerca da natureza do regime ‘monetério internacional a ser utilizado. E esse acordo nio serd entre iguais, Os maiores poderes, ou talvez até mesmo um tinico poder maior, pode esta- belecer qual ser o regime. Todos os outros paises serao “seguidores do regi- me’, em vez de “criadores do regime"? O Regime Bretton Woods para as Relagées Monetarias e Financeiras Internacionais As preocupacoes de Keynes ¢ de Dexter White em seus esforgos para a cons- trusao de um novo sistema monetério internacional para o pés-guerra eram as de criar disposig6es que privilegiassem o desenvolvimento econémico in- ternacional. Isso exigia um regime monetario internacional previsivel e esté- vel, que se baseasse em regras e nao fosse manipulado por paises poderosos para obter vantagens mercantilistas. AROLETA GLOBAL Dessa forma eles mantiveram 0 ouro como ancora do sistema — uma ‘moeda distinta da moeda corrente de qualquer Estado-nagio. E estabeleceram que 0 délar teria o seu valor fixado a partir do ouro, Outros paises entio fixa- ram 0 valor de suas moedas a partir do délar e foram proibidos de mudar unilateralmente esse valor de acordo com sua vontade. As mudangas nos va- ores das moedas seriam estabelecidas cooperativamente entre paises por uma entidade supranacional, o Fundo Monetario Internacional, que seria obriga- do aaceitar a mudanga do valor nominal de uma moeda somente se fosse ne- cessério corrigir um “desequilibrio fundamental” na conta corrente de um pals (principalmente com relagao ao comézcio). © objetivo dessas disposigoes era 6 de assegurar que os operadores econdmicos pudessem desfrutar a estabili- dade dos valores das principais moedas em relagdo as outras, jé que todos es- ses valores seriam fixados a partir de um valor dado pelo ouro. Na pritica, 0 dolar era a principal moeda internacional utilizada para comércio, mas sew valor de troca era fixado assim como o de qualquer outra moeda, a partir do ouro, que continuava sendo numéraire do sistema como um todo. ‘A segunda caracteristica fundamental do sistema Keynes-White era a de que ele proibia em grande parte que os operadores finenceiros privados mo- ‘vimentassem livremente recursos pelo mundo, dando aos paises autoridade para controlar ¢ evitar tais movimentagoes financeiras. As finangas privadas somente podiam transferir recursos com a finelidade de financiar 0 comércio. Havia também a condigio dos recursos serem movimentados através de fron- teiras para investimento produtivo externo. Mas outras movimentagbes de fi- nangas privadas deviam ser proibidas: “repressto financeira” em escala internacional. Tal repressio significava entdo que os recursos para investimento seriam “produzidos em casa” nos prOprios paises. E também significava que 0 capital-dinheiro teria de restringir suas operagoes de busca por royalties aque- las atividades que seu Estado-nagao permitisse. Em outras palavras, era dado 0s paises 0 direito de dominar e definir as atividades de seus setores financei- 10s de modo a satisfazer os objetivos de desenvolvimento econémico do pais. regime Bretton Woods teve uma vida bastante curta e turbulenta pela simples razdo de que os dois poderes que 0 definiram, os Estados Unidos ¢ o Reino Unido, tornaram-se hostis a varios aspectos das regras que eles préprios tinham criado. O regime foi definido durante a guerra ¢ aprovado em 1944, muito antes de os Estados Unidos terem estabelecido sua estratégia politico- militar da Guerra Fria, que por outro lado se tornaria 0 alicerce da expansio “MERCADOS DE CAPITAL’, SISTEMAS FINANCEIROS E 0 SISTEMA.. a do capitalismo americano. O governo Roosevelt, no entanto, nao podi .ginar uma situagao na qual os Estados Unidos se vissem face a um déficit es- trutural em seus pagamentos externos. Mas 0 poder militar americano planejava produzir justamente esse déficit estrutural, e isso assumiria uma for- ‘ma critica com a guerra do Vietna. E 0 déficit foi exacerbado pela exportagio de capital dos Estados Unidos para a Comunidade Européia na década de 1960, ji que os Estados Unidos procuravam assegurar seu continuo dominio sobre mercados-chave da Europa Ocidental dentro da Comunidade Européia. Mas, pelas regras do sistema Bretton Woods, os paises em superivit — 0 outro lado da moeda do déficit dos Estados Unidos — podiam exigir que os seus délares excedentes fossem trocados por ouro, e ao final da década de 1960, as reservas de ouro dos Estados Unidos estavam se tornando insuficientes para honrar a exigéncia de Bretton Woods da livre conversibilidade do délar em ouro, Havia, é claro, solugdes Sbvias para esse problema, de acordo com as regras de Bretton Woods: os Estados Unidos poderiam empreender os ajustes econémicos necessérios para colocar seu déficit sob controle — cortando os gastos militares externos e reduzindo as importacdes, talvez através de defla- (40 interna — ou poderiam desvalorizar 0 délar frente a0 ouro, assegurando dessa forma que os paises superavitarios pudessem comprar menos ouro com 08 seus délares excedentes. Mas o governo Nixon nao estava preparado para dar nenhum desses passos: preferi em vez disso dissolver o regime Bretton Woods. No que se referia repressao financeira’, tanto Wall Street quanto a City londrina estavam insatisfeitos com as restrigoes impostas pelas estruturas de Bretton Woods. Jé na década de 1940, Wall Street tinha conseguido afun- dar o esquema original de White para a repressao financeira. O proprio des- tino de White simbolizava a drastica mudanga no clima politico entre 1943 0 final da década de 1940: ele morreu de ataque cardiaco diante do Comité de Assuntos Antiamericanos no final da década de 1940, acusado de ser ou de ter sido comunista. Interesses financeiros na City londrina também con- seguiram exercer influéncia politica suficiente para estabelecer-se como um centro financeiro privado internacional protegido de regulamentagao fiscal e adquiriu uma importancia crescente na década de 1960 por meio dos cha- mados mercados de euroddlares e Eurobonds. E 0 crescimento dos bancos e empresas multinacionais de Londres ¢ dos Estados Unidos operando com fundos sem regulamentacdo fiscal criow pressdes especulativas crescentes 2 AROLETA GLOBAL contra o sistema de taxas de cambio fixas, mas ajustaveis, de Bretton Woods na década de 1960. ‘A recusa do governo Nixon em aceitar a disciplina de Bretton Woods, que exigia que 0s Fstados Unidos permanecessem em supersvit, foi justficada pelo argumento de que seu déficit foi causado pelo mercantilismo europeu e japo- znés, a sua determinagao em manter moedas desvalorizadas de modo a tomar dos Estados Unidos uma participagao no mercado e desafiar o capitalismo industrial americano. Com este argumento, ele tentou justificar a sua campa- nha no inicio da década de 1970 para rejeitar as principais instituigdes do re- gime Bretton Woods.* Notas 1. O termo royalty abrange juros, foros tributos, taxas de servigos financeiros e di- videndos. Adotei a definigao de Shaikh ¢ Tonak (embora eles nao incluam dividendos em sua definigio). Ver Anwar M. Shaikh e E. Ahmet Tonak, Measuring the Wealth of Nations: The Political Economy of National Accounts (Cambridge University Press, 1994) 2, Por todo este capitulo, o termo “producio” se refere aquelas atividades que pro- ‘duzem valor de uso. Nem toda essa produsio nas sociedades capitalistas € con- trolade por capital privado: p. ex, cozinhar ou abastecer uma moradia podem no ser, Mas a maior parte do setor produtivo seré. Com relagao & definigao des- se termo, ver Shaikh e Tonak, 3. Ver Bob Rowthorn, Capitalism, C e David Harvey, The Limits of C Harvey fornece um excelente exame acerca do papel das finangas dentro do capi- talismo. 4, Ethan B. Kapstei the Global Economy: International Finance and the State (Harvard University Press, 1994). econémica para esses “mercados secundérios” éa de que a sua exis- ‘busca por parte de empresas e governos por compradores para as suas ofertas de agbes ou titulos: os compradores tem a seguranga de saber que depois podem vender seus titulos ou agbesfacilmente nos mercados secundérios. 6. Para maiores discussdes sobre essas diferencas, ver G. Eps! “International Capital Markets and National Econo International Political Economy, 2:4 (outono de 1995). “MERCADOS DE CAPITAL’, SISTEMAS FINANCEIROS E © SISTEMA... 7. Sobre essas quest0es, ver David Calleo e Susan Strange, “Money and World Politics”, em Susan Strange (org,), Paths to International Political Economy (Allen & Unwin, 1984). 8, Sobre hist6ria do regime Bretton Woods, ver M. De Cecco, “The Origins of the Post-War Payments System’, Cambridge Journal of Economics, 3 (1979); James Crotty “On Keynes and Capital Flight’, Journal of Economic Literature, vol. 21 (1983); Richard N. Gardner, Sterling-Dollar Diplomacy in Current Perspective (Columbia University Press, 1980); e Andrew Walter, World Power and World Money (Harvester Wheatsheaf, 1993).