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CO©NPEG Stmasmaarsc CAMARA TECNICA EXCELENTISSIMO SENHOR DOUTOR MINISTRO CELSO DE MELLO DO COLENDO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ~ RELATOR(A) da ADI n. 6.198/ MT Processo: ADI n. 6.198/MT Requerente: Procuradora-Geral da Replica Requeridos: Governador do Estado de Mato Grosso ¢ Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso Objeto: Pedido de intervencio (amicus curiae) OS ESTADOS DO ACRE, ALAGOAS, AMAP. AMAZONAS, BAHIA, CEARA, ESPIRITO SANTO, GOIAS, MARANHAO, MATO GROSSO, MATO GROSSO DO SUL, MINAS GERAIS, PARA, PARAIBA, PARANA, PERNAMBUCO, PIAUI, RIO DE JANEIRO, RIO GRANDE DO NORTE, RIO GRANDE DO SUL, RONDONIA, RORAIMA, SANTA CATARINA, SERGIPE, TOCANTINS E O DISTRITO FEDERAL, por seus respectivos Procuradores ao final nomeados, vém, respeitosamente, a presenga de Vossa Exceléncia, requerer o ingresso no feito na condicao de amici curiae, com fundamento no art. 138 da Lei 13.105/2015 (NCPC), art. 131, § 3° do RISTF e no art. 7°, § 2°, Lei n° 9,868/99, com o objetivo de ampliar o debate em torno da matéria discutida, como a seguir sustentado, K \y | ‘AMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS ESTADOS EDISTRITO FEDERAL |, Pagina I de 21 M4 C©ONPEG ee CAMARA TECNICA 1- RELEVANCIA TEMATICA. A Procuradora-Geral da Repiblica ajuizou ago direta de inconstitucionalidade com pedido de medida cautelar, dirigida contra os artigos 120, 121 122 da Lei Complementar estadual n.° 11/2002, do Estado de Mato Grosso, na redagtio conferida pela Lei Complementar estadual n.° 483/2012. Em suas razdes, a PGR alega que os dispositivos questionados afrontam os arts. 5°, caput, 22, inciso I, 37, inciso XI e 39, §§ 2° e 4°, da Constituigtio Federal, visto que a disciplina do pagamento de honoririos judiciais aos advogados piblicos seria incompativel com o regime de subsidio, 0 teto remuneratério constitucional e os principios republicans da isonomia, da moralidade, da supremacia do interesse piblico e da razoabilidade, uma vez que entende serem os honorétios parcela de indole remuneratéria que integra a receita pablica, Nesse contexto, 0s ora requerentes, na qualidade de entes federativos com atribuigdo especifica para regulamentar a matéria, qualificam-se como potencialmente afetados pelo paradigma a ser produzido pelo julgamento desta Agio Direta de Inconstitucionalidade, detendo, por conseguinte, conhecimento especifico sobre a matéria, justificando, assim, o deferimento do pedido posto na presente pega, pela colaboragao que podem prestar & construgio s da solugao da demanda. Il - DA CARACTERIZACAO DOS HONORARIOS SUCUMBENCIAIS COMO VERBA NAO PUBLICA. ‘A Requerente impugna a norma estadual sob 0 argumento de que a percepcao de honorérios sucumbenciais pelos advogados piblicos violaria os 5°, caput, 22, inciso I, 37, inciso XI ¢ 39, §§ 2° € 4°, da Constituigéo Federal. Em suma, violaria 0 ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL Pagina 2 \ AL wi CONPEG a= CAMARA TECNICA teto estabelecido no inciso XI do art. 37 e a remuneragdo exclusiva por subsidio fixado em parcela iinica. Dito, importa esclarecer que os valores correspondentes aos honorarios sucumbenciais so aqueles pagos pelo particular vencido na demanda em face do ente piiblico estadual, seja na condigdo de autor ou réu, sendo, portanto, impréprio falar-se que, na hipétese, hé movimentagdo de recursos piblicos. Inicialmente, interessa contextualizar 0 marco legislativo federal sobre a matéria, apontando que o art. 23 da Lei n. 8.906/94 — dispde sobre o estatuto da advocacia e a Ordem dos Advogados do Brasil - estipula que “os honordirios incluidos na condenagdo, por arbitramento ou sucumbéncia, pertencem ao advogado, tendo este direito auténomo para execular a sentenga nesta parte, podendo requerer que 0 precatério, quando necesséirio, seja expedido em seu favor”. Por sua vez, 0 novo Cédigo de Processo Ci trouxe expressamente regulamentago no que se refere aos advogados piblicos quando dispde no art, 85, §19 a prerrogativa funcional e profissional de que “os advogados piiblicos perceberdo honordrios de sucumbéncia, nos termos da lei”. Definido 0 marco regulatério federal, cada Estado federado possui regulamentagdo propria sobre o tema, no coincidente na forma de regulamentagdo, justamente por entender que cada ente federativo possui atribuigo e competéncia cons itucional federativa para dispor sobre a matéria, em especial por visar estabelecer 0 regime juridico funcional da respectiva carreira de advogado piblico, bem como da propt instituigao de representacdo judicial do Estado e DF. ‘CAMARA TECNICA DO COLLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS(60S ESTAQOS E DISTRITO FEDERA| Pagina 3 de 2 CO©NPEG Simic CAMARA TECNICA Neste sentido, importante apontar também que, desde novembro de 2012', 0 Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil editou, dentre outras orientagdes normativas, a Simula n°. 8, com o seguinte teor “os honordrios constituem direito autonomo do advogado, seja ele piblico ou privado. A apropriagdo dos valores pagos a titulo de honorérios sucumbenciais como se fosse verba piiblica pelos Entes Federados configura apropriacao indevida”. Portanto, diivida no parece existir que o marco legal VIGENTE, estabelece serem os honordrios sucumbenciais (arbitrados judicialmente) verbas privadas de titular lade dos advogados (piiblicos) que atuaram na ago judicial patrocinando os interesses da parte vencedora (Estado) como prerrogativa inerente a atividade profissional qualificada de advogado, A construgiio jurisprudencial nao é diferente, muito pelo contrério. No julgamento ocorrido no Superior Tribunal de Justiga, em dezembro de 2009, do Recurso Especial n° 886.178-RS, da relatoria do entio Ministro Luiz Fux, a Corte de Justiga entendeu que “a condenagdo nas verbas de sucumbéncia decorre do fato objetivo da derrota no processo, cabendo ao juiz condenar, de oficio, a parte vencida, independentemente de provocagdo expressa do autor, porquanto trata-se de pedido implicito, cujo exame decorre da lei processual civil” A ementa de julgamento consignou, ainda, que “a prefensdo & condenagao em honordrios é dever do juiz e a sentenca, no que no que se refere a eles, é X\ \ sempre constitutiva do direito ao seu recebimento, revestindo-o do cardter de "Bada do enero etic s/n ah ng b/sisi/24762 cosh federalnc- diz: \ dehssdaadvoct alien Nocera SS 4 ciuaartoveoo aso mont oe moanapo casa bistro PeDERAL Pagina 4 de 2) " “A W\ wy C@©@NPEG Siar CAMARA TECNICA execuloriedade, por isso, a ndo impugnagdo tempestiva do julgado, que omite a fixagdo da verba advocaticia ou o critério utilizado quando de sua fixagdo, néo se submete & irreversibilidade decorrente do instituto da coisa julgada”. Assim como este, so diversos os julgados, antes mesmo da vigéncia do novo Cédigo de Processo Civil, apontando que os honorarios sucumbenciais constituem-se em direito auténomo do advogado, nao havendo diivida quanto ao fato de serem verbas privadas de titularidade dos advogados que atuaram na agdo judicial na defesa dos interesses da parte vencedora. Neste sentido, no Ambito doutrindrio, importante apontar a opinido dos Professores Luiz Guilherme Marinoni e Daniel Mitidiero, no Parecer “Honoririos do Advogado Publico”®, formulado em novembro de 2017, por consulta da Associagiio Nacional dos Procuradores dos Estados e do DF — ANAPE, a seguir: “[-.] Se & verdade, porém, que os honorérios advocaticios contratuais perderam paulatinamente esse cariter (mutatis mutandis, também os honorérios devidos em razdo do exercicio do cargo de advogado piiblico, 0s quais assumiram a forma de remuneracdo no direito brasileiro), & absolutamente certo que os honorérios advocaticios oriundos da sucumbéncia permanecem regidos pelo signo da eventualidade. Como é evidente, o art. 85, CPC, adotando a regra da causalidade no que tange a distribuicdo das despesas do processo, atribui ao vencido a responsabilidade pelos honordrios advocaticios “Resumo: E constitucional a previsdio de atribuigdo de honorérios de sucumbéncia aos advogados piiblicos, na medida em que semelhante verba ndo se confunde com a remuneragdo legal (art. 41, Lei n. 8.112/90), ndo se sujeitando, portanto, ao regime consttucional (art. 39, $4”, CREB de 1988). Ndo hd incompatibilidade teleolégica entre art. 39, §4°e 135, CREB de 1988 que visam a simplifcagao da forma ‘CAMARA TECNICA DO COLIGIO NACIONAL DE PROCURADORES Gtk Pagina 5 dj Sinatra CAMARA TECNICA oriundos da sucumbéncia em funcdo do fato eventual da derrota no Processo. Vale dizer: a verba oriunda da sucumbéncia & uma verba eventual, subordinada ao evento futuro e incerto consubstanciado na vitéria no processo. Nao se trata, portanto, de vantagem permanente, percebivel todos os meses ou mediante intervalos regulares capazes de configurar a permanéncia. Alidés, a verba honordria oriunda da sucumbéncia & eventual ndo sé no que tange & sua percepcio, mas também no que atine ao seu valor: tudo depende do fato objetivo da vitéria e do valor envotvido no proceso. Em outras palavras: trata-se de verba duplamente eventual, 0 que afasta obviamente qualquer possibilidade de caracterizd-la como permanente. [...]” Deste arrazoado surgem duas caracteristicas da verba honorétia: primeiro que se cuida de algo incerto e eventual, decorrente de um evento futuro, qual seja a vitdria no proceso, e, ademais, do valor atribuido 4 demanda; e, segundo, que 0 valor é suportado pelo vencido no proceso, no caso um particular que litiga contra a Fazenda Piiblica, e se torna sucumbente em razio da decisao final prolatada na demanda. Desta dupla eventualidade, quanto sua percepco, em razio de um fato futuro € incerto, ¢ ainda quanto ao seu valor, resulta que tal verba ndo pode ser considerada como receita publica, mas sim como verba privada resultante do exercicio exitoso, pelos advogados piiblicos, de suas fungdes essenciais ao aprimoramento da Justiga, conforme disposigao constitucional (arts. 131 a 133), podendo ser considerado, ainda, como um estimulo no desempenho destas fungdes. k \ 1 romana des arora pilin «perce de horns scandent, pages pa pre SYS acho darted do advgac fart 303 Len 806 1998 at 85 capa CPO k ut A A vigneeae CONPEG Samo CAMARA TECNICA Neste sentido, importante ressaltar que a Lei n. 4.320/64 quando conceitua receita publica no art. 11° em nenhum instante aponta a verba honordria sucumbencial dentre aquelas previstas para o sistema orgamentirio piblico. Interessante ressaltar, ainda, que os Estados federados regulamentam de forma distinta a matéria, Somente a norma editada em cada Estado e DF, dentre da sua esfera de atribuigtio constitucional e federativa, poderd definir a destinagfo da verba, Conforme demonstrado, nao existe previstio legal (normas gerais) que sustente a apropriago dos honordrios sucumbenciais pelo eréio. Situago distinta 6 a natureza juridica do subsidio, que tem previsdio em lei especifica e & pago pelo Estado em parcela unica, como retribuigao pecuniaria pelo exercicio de cargo piblico, cuja remuneragao determina-se seja feita por este regime, 0 que implica efetivo pagamento de despesa piblica. Trata-se de valor expressamente consignado em lei e previsto no orgamento dos Estados e DF. No caso dos honorétios, a despesa nao é do ente piblico, mas da parte que sucumbiu na demanda judicial contra o Poder Pablico. Repita-se: trata-se de receita incerta, eventual e oriunda da parte que litigou com o Estado. * Ant, 11 - A receita classificar-se-é nas seguintes categorias econdmicas: Receitas Correntes e Receitas de Capital. § 1° - Sao Receitas Correntes as receitas tributéria, de contribuicdes, patrimonial, agropecuéria, industrial, de servicos e outras e, ainda, as provenientes de recursos financeiros recebidos de outras pessoas de direito piblico ou privado, quando destinadas a atender despesas classificdveis em Despesas Correntes.§ 2°- Séo Receitas de Capital as provenientes da realizagdo de recursos financeiros driundos de consttuigdo de dividas; da conversio, em espécie, de bens e direitos; os recursos recebidos de ‘outras pessoas de direito piblico ou privado, destinados a atender despesas classificdveis em Despesas de Capital e, ainda, 0 superivit do Orcamento Corrente’ K ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAJSBOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL 4 Pagina 7 de AL \Y ay C@©@NPEG Sciaroesneeat CAMARA TECNICA Estes recursos, por serem pagos pela parte sucumbente, ¢ por se tratarem de valores cuja titularidade é, por lei, exclusiva dos advogados do Estado, decorrentes de uma relagdio juridica de natureza civil, da forma como previsto no Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil, Lei n. 8,906/94, nao cabem, também, na caracterizagiio de receita piiblica orgamentaria. Neste sentido, nao obstante o disposto no art. 39, §4° da Constituig&o, os honoririos sucumbenciais nfo se constituem alguma forma de gratificagtio, adicional, abono, prémio, verba de representago ou outra espécie remuneratéria paga pela Fazenda Publica aos advogados piblicos. Ostentando os honorarios verba de natureza privada, sua percepgao pelos advogados publicos no vulnera o art. 39, §4°, da Constituigaio Federal. Constitui, sim, verba sui generis, paga pelo particular, que nao tem necessidade de ser prevista no orgamento piiblico, que no se configura como receita publica, e diante de todo marco juridico, seja pelo E: tuto da OAB ou pelo contido no CPC/2015, e pela regulamentacio propria de cada Estado federado, passivel de ser repartido entre os integrantes da carreira de advogado piiblico, em razio de sua atuagao diligente e eficaz, nos processos correspondentes. Quando 0 Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil define que 0s honorarios de sucumbéncia so de laridade dos advogados, sejam eles privados ou piiblicos, € no da parte, nada permite concluir que naqueles casos em que vencedora a Fazenda Pablica, estes honorarios passariam a ser considerados como receita publica, Continuam sendo, como reconhecido pela Lei n. 8.906/94 ou pelo CPC de 2015, como parcela oriunda da parte vencida (particular) em litigio com a x Eisen srenesne en ba isu ne resonaseseneeot ae tneaTe Tce isa det ‘Z" Aww ? C@O@NPEG Sctsnantescnos CAMARA TECNICA Fazenda Piblica, e cuja titularidade pertence aos advogados piiblicos, em raz8o do exercicio de suas fungdes profissionais.. Eis 0 contexto inicial acerca da natureza juridica dos honordrios sucumbenciais percebidos pelos advogados piblicos que os Estados federados apresentam sobre 0 tema, a fim de desenvolver a seguir outros pontos relevantes para exame da matéria. II - DA AUTONOMIA FEDERATIVA. De acordo com a Cons igo Federal no seu art. 18, organizagdo politico-administrativa da Repiblica Federativa do Brasil compreende a Unido, os Estados, 0 Distrito Federal ¢ os Municipios, todos auténomos, nos termos desta Constituigio”. Essa autonomia confere aos Estados-membros 0 poder de auto- organizagao, autogoverno e auto-legislagao por meio da elaboragao de suas Constituigdes Estaduais, bem como a edigdo de leis nos seus respectivos ambitos territoriais. BONAVIDES* ensina que “através da lei da autonomia manifesta- se com toda a clareza 0 carditer estatal das unidades federadas. Podem estas livremente estatuir uma ordem constitucional prépria, estabelecer a competéncia dos trés poderes que habitualmente inegram o Estado (Executivo, Legislative e Judiciério) e exercer desembaragadamente todos aqueles poderes que decorrem da natureza mesma do sistema federativo, desde que tudo se faca na estrita observéincia dos principios basicos yy da Constituigdo Federal”. x y\ Aes cAMAna TentcA Do coLscro NACIONAL De ROCURADORES cunats DoS eSTADOS PRISTRITO FEDERAL Pagina 9 de 21 & A C@©@NPEG a CAMARA TECNICA ‘A autonomia federativa ¢ portanto, principio consagrado expressamente na Constituigao Federal e impde o respeito a divisio de atril competéncias de matérias reservadas & Unido aos Estados federados. Ao proferir seu voto na ADI n.1606/SC, 0 Ministro Roberto Barroso consignou sobre a autonomia federativa que: “Os entes federativos nao sido dotados de soberania — que é um atributo da Repiiblica Federativa do Brasil, pessoa juridica de direito internacional -, mas sim de autonomia constitucional (CF/88, art. 18). Isso significa que a Constituicdo Federal define, para cada um deles, wn espago préprio de atuagdo, livre da ingeréncia dos demais. No plano material, esse espago de atuagiio corresponde as competéncias confiadas as entidades politicas, que, de forma esquemética, podem ser reconduzidas a trés prerrogativas fundamentais: (i) Auto-organizacdo: a definigdo das linhas bdsicas da estrutura politica daquela entidade, 0 que, no Brasil, se manifesta na promulgacdo de um ato de estatura constitucional; (ii) Autogoverno: 0 poder que 0 povo de cada entidade tem de tomar as decisdes politicas que thes cabe, por si ou por meio de representantes, inclusive pela edi¢do de legislagdo prépria; (iii) Autoadministracao: cabe ao ente politico gerir a prestagdo dos seus servigos piiblicos, o seu patrimdnio e 0 seu pessoal” Importante destacar, portanto, as prerrogativas apontadas — auto- organizagdo, autogoverno e autoadministragao — que acabam por materializar um marco regulatério da autonomia federativa estabelecida na Cons ai “ BONAVIDES, Paulo. Ciéncia Politica, 17" Edigéo, Ed. Malheipd, pa. cAmaRa TEcmca Do coLEeto NACIONAL DE PROCURADoSEAGERais Dos EstabosesTaITOFEDERAL 7!) ising 10de21 Stara CAMARA TECNICA Em outra oportunidade, no julgamento da ADI n. 4060/SC, o Ministro Luiz Fux, na qualidade de relator, consignou na propria ementa do julgamento que ‘0 principio federativo brasileiro reclama, na sua dtica contempordnea, 0 abandono de qualquer leitura excessivamente inflacionada das competéncias normativas da Unido (sejam _privativas, sejam concorrentes), bem como a descoberta de novas searas normativas que possam ser trilhadas pelos Estados, Municipios e pelo Distrito Federal, tudo isso em conformidade com o pluralismo politico, wm dos fundamentos da Repriblica Federativa do Brasil (CRFB, art. 1°, V) wD A prospective overruling, antidoto ao engessamento do pensamento Jjuridico, revela oportuno ao Supremo Tribunal Federal rever sua postura prima facie em casos de litigios constitucionais em matéria de competéncia legislativa, para que passe a prestigiar, como regra geral, as iniciativas regionais e locais, a menos que ofendam norma expressa e inequivoca da Constituigao de 1988." Neste sentido, o art. 25, §1° estipula expressamente a capacidade de auto-organizagaio, uma vez que “‘sdo reservadas aos Estados as competéncias que nao Thes sejam vedadas por esta Constituigdo”, demonstrando a I6gica de um complexo sistema normativo de coexisténcia de atrib jes € competéncias, mas que sobretudo prestigia a autonomia dos entes federados. A ideia restou consignada na ementa do julgamento ocorrido da ADI n. 3829/RS, da relatoria do Ministro Alexandre de Moraes, quando, expressamente, estabeleceu raciocinio que “as regras de distribuigdo de competéncias legislativas sao ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS Dos \ ‘ quit aust rADOS EQISTRITO FEDERAL A | CAMARA TECNICA alicerces do federalismo ¢ consagram a formula de divisdo de centros de poder em um Estado de Direito. A andlise das competéncias concorrentes (CF, art. 24) deverd priorizar 0 fortalecimento das autonomias locais ¢ 0 respeito as suas diversidades, de modo a assegurar 0 imprescindivel equilibrio federativo, em consondncia com a competéncia legislativa remanescente prevista no § 1° do artigo 25 da Constituigao Federal” De outra forma, também esté correto afirmar que todas as matérias nao reservadas ao Estado federal podem ser incumbidas aos Estados federados. Na ipdtese especifica do Brasil, ainda existem os préprios Municipios que possuem atribuig6es tipicas trazidas no art. 30° da Constituigao Federal. A. doutrina classifica este modelo como sendo 0 federalismo cooperative, no qual as atribuigdes so exercidas de forma comum ou concorrente, privilegiando a atuagao em conjunto e aproximando os entes federativos. Neste sentido, o pardgrafo Gnico do art. 23 retrata exatamente a caracteristica de cooperagdio no modelo brasileiro, a seguir: “leis complementares fixardo 5 “Art. 30. Compete aos Municipios: 1 - legislar sobre assuntos de interesse local; Il ~ suplementar a legislacao federal e a estadual no que couber: Ill - instituir ¢ arrecadar os tributos de sua competéncia, bem como aplicar suas rendas, sem prejuizo da obrigatoriedade de prestar contas e publicar balancetes nos prazos fixados em lei; IV - criar, organizar e suprimir distritos, observada a legislago estadual; V ~ organizar @ prestar, diretamente ou sob regime de concessiio ou permissdo, os servicos publicos de interesse local, incluido 0 de transporte coletivo, que tem cardter essencial; V1 - manter, com a cooperagdio técnica e financeira da Unido e do Estado, programas de educacio infantil « de ensino fundamental: VI ~ pprestar, com a cooperagdo técnica e financeira da Unido e do Estado, servicos de atendimento & saitde da populaedo; VIII - promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupacdo do solo urbano; IX - promover a protecao do patriménio histérico-cultural local, observada a legislagdo e a agdo fiscalizadora federal e estadual K ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DO; Pagina 12 de 21 C@©@NPEG sotansarscumam CAMARA TECNICA normas para a cooperagdo entre a Unido e os Estados, 0 Distrito Federal e os Municipios, tendo em vista o equilibrio do desenvolvimento ¢ do bem-estar em dmbito nacional”. Mas é certo, também, que a cooperagio niio pode ser pretexto para tervengio do governo federal na esfera estadual, tampouco para permitir a existéncia de qualquer hierarquia federativa entre os entes federados, sob pena de afetar a harmonia € 0 proprio pacto federativo que, inclusive, é cléusula pétrea da Constituigdo, nos termos do art. 60, §4°, inciso I°. E, no caso aqui apreciado, observa-se que o Estado federado possui legislagdo prépria regulamentando nao somente o regime juridico de servidores piblicos estaduais, em especial os direitos e as prerrogativas da carreira de Procurador do Estado, como o prdprio regime juridico funcional da sua advocacia piiblica. Sobre o tema, JOSE AFONSO DA SILVA’ ensina que a érea de competéncia dos Estados federados se imita A seguinte classificagdo: 1) competéncia econdmica; 2) competéncia social; 3) competéncia administrativa; 4) competéncia financeira e tributéria, Acerca da competéneia (3), administrativa, aponta que © “Art, 60. A Constituicdo poderd ser emendada mediante proposta: (..)§ 4° Nao seré objeto de deliberagdo a proposta de emenda tendente a abolir: I a forma federativa de Estado’ 7 DA SILVA, José Afonso; Curso de Dircito Constitucional Posi 620/21. 0, 38 Edit, Ed, Malheiros, pe. ae Pagina 13 de 21 cAMaRa Técnica Do COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS BFAD aaa ok a Ae yl C@NPEG ae CAMARA TECNICA “a estrutura administrativa dos Estados-membros & por elas fixada livremente, no exercicio de sua autonomia constitucional de awo- administragdo, sujeitando-se a certos principios que sido inerentes & administracdo em geral, como sé os da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade, eficiéncia e outras determinagées constantes do art, 37, que se impdem a todas as esferas governamentais Assim, terdo as Secretarias de Estado que convierem a seus servios Instituirdéo as autarquias que julgarem necessdrias. Organizardo empresas piiblicas e sociedades de economia mista, se assim for necessdrio e 0 desejarem (...) E também de sua competéncia estatuir sobre seu funcionalismo, fixando- theo regime juridico, observados, neste caso, 08 principios constitucionais estabelecidos sobre o assunto Como se observa, 0 exercicio da autonomia conferida pela Constituigao aos Estados federados encontra limite apenas na propria Constituigao Federal. E, obviamente, no existe qualquer contrariedade a atribuigdo e & competéncia dos Estados federados estabelecida na Con: igo Federal, posto estar inserido no Ambito de competéncia normativa dos Estados e dentro da autonomia federativa preconizada pela propria Constituigo. Eis porque a norma estadual que estipula a percepgiio de honorarios sucumbenciais pelos Procuradores dos Estados ¢ do DF encontra-se estritamente na esfera polit ica de autoadministragéo dos entes federativos, por inexistir qualquer 4 proibigaio normativa na Constituigdo Federal para tal previsio. ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAS Dé DISTRITO FEDERAL a Pagina 14 \ \\ Ww \ Seeeetieemer res CAMARA TECNICA © que se observa no caso concreto & que os Estados © 0 DF signatérios da presente manifestago atuaram no Ambito de suas respectivas autonomias federat as conferidas pela Constituigo, inclusive, regulamentando o tema de modo distinto, sem uniformidade alguma, sem coordenagao, como ha de ser, haja vista as diferengas administrativas, politicas, econémicas e culturais existentes nos diversos Estados federados, bem como a prépria autonomia existente entre os prdprios entes. ‘Apenas a titulo de reforgar o argumento de autonomia federativa aqui trazido ~ ¢ importante apontar que a Unido, ao sancionar 0 novo Cédigo de Proceso |, estabeleceu no seu art. 85, §19°, expressamente, que “os advogados piiblicos perceberao honordirios de sucumbéncia, nos termos da lei”. Por sua vez, a Unido Federal também, ao editar a Lei n, 8906/94 — que dispde sobre o Estatuto da advocacia e a Ordem dos Advogados do Brasil -, no art. 23, expressamente, consignou que “os honordrios incluidos na condenagdo, por arbitramento ou sucumbéncia, pertencem ao advogado, tendo este direito auténomo para executar a sentenea nesta parte, podendo requerer que 0 precatério, quando necesséirio, seja expedido em seu favor”. Estas sdo as normas gerais sobre o tema. O exercicio da autonomia federativa foi realizado justamente com a edigiio da respectiva | propria estadual regulamentando o dreto ¢ prerogativa funcional dos advogados pblices vinculados 1) ao referido Estado e/ou DF, nao havendo qualquer violagaéo de norma constitucional federal na espécie, muito pelo contrario, apenas regulamenta o tema de acordo com a WY peculiaridade local. Pagina 15 de 21 ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS: rorom LN yy CONPE¢ siosteare CAMARA TECNICA Neste sentido é que acolher a dentincia de violagio 4 norma Constitucional no caso concreto é desprestigiar a prerrogativa de autoadministragdio dos Estados federados. enfraquecer 0 exercicio da autonomia federativa estabelecido na Constituigao. acolher uma intervengao indevida em tema de atribuigao propria dos Estados federados, desorganizando o préprio sistema complexo e distinto regulamentado em cada unidade federativa. Pelas razdes expostas, requer, desde ja, a improcedéncia dos argumentos trazidos na petigdo inicial por nfo haver na norma apontada qualquer ofensa 4 Constituigao Federal, estando esta no limite de atuagdo legislativa, governamental e admini: trativa permitidas pela propria Consti igo a cada ente federativo do pais. IV ~— DA PRESERVACAO DO CARATER DEMOCRATICO. DA EDICAO DA NORMA ESTADUAL IMPUGNADA. Como se nio bastasse o argumento da autonomia federativa dos Estados federados para regulamentar e disciplinar a matéria no seu Ambito interno, outra distorgdo de ordem republicana parece evidente nos argumentos trazidos pela Requerente. A norma estadual impugnada ¢ fruto do proceso democritico legislativo no Ambito do Estado, tendo sido cumprido o itinerério processual proprio no que se refere & iniciativa da Chefia do Poder Executivo estadual - tal como previsto no art. 61, §1°, alinea “c” da Constituigtio -, assim como o tramite regular no ambito da Assembleia Legislativa do Estado. \ . A ‘CAMARA TECNICA D0 COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DosfrADOEKDISTRITO FEDERAL —/ *) Pagina 16 de 21 \ \\ wy vw C@©@NPEG Stinmmanonat CAMARA TECNICA Isso porque, na forma do art. 61, §1°, “e”, da Constituigdo Federal, de observancia obrigatéria para os Estados e DF pelo principio da simetria, “sdo de iniciativa privativa do Presidente da Repiblica as leis que disponham sobre servidores piiblicos da Unido e Territérios, seu regime juridico, provimento de cargos, estabilidade e aposentadoria”. Portanto, € do Governador do Estado a iniciativa de leis que disponham sobre regime juridico funcional dos servidores estaduais, em especial o regime juridico dos advogados do Estado, no que se inclui a legislagdo que disciplina a percepgiio de honordirios sucumbenciais em favor dos advogados piiblicos, pressuposto constitucional devidamente atendido no processo de elaboragio das normas impugnadas na presente agao. Por outro lado, & necessétrio prestigiar 0 processo democritico de aprovacdo da respectiva lei no ambito da Assembleia Legislativa do Estado, ti inst igo com legitimidade extrafda da Constituigao para referendar ou nfo a iniciativa do Governador do Estado, até mesmo como forma de prestigiar nfio somente 0 povo que elegeu seus representantes como a propria democracia representativa adotada no pais. E sendo a norma condizente com o disposto na Constituigto Federal, ou melhor, no havendo qualquer tipo de colisio normativa com o disposto na ‘Constituigdo, uma vez tendo seguido o rito procedimental legislativo estadual proprio, ha de se preservar 0 cariter democrético e republicano na edigdo da lei impugnada. \ W\ "i ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOSE: 9ISTRITO FEDERAL Pagina 17 de 21 4 C@©@NPEG Seine CAMARA TECNICA Entender de forma contraria ¢ violar a prerrogativa nao somente da Chefia do Poder Execu fo estadual como da respectiva Assembleia Legislativa, enfraquecendo a autonomia federativa e invadindo a esfera de competéncia e atribuig’io de outros Poderes da Repiiblica. Como ja mencionado anteriormente, a matéria aqui tratada — percepedo de honordrios sucumbenciais pelos advogados publicos estaduais — foi tratada de forma diferenciada pelos distintos Estados federados, comprovando até mesmo o proprio poder de autoadministragao individual de cada ente federativo. Portanto, ha de prevalecer o argumento de preservagdo do estado democritico de direito e o poder de legislar sobre matéria tanto do Governador do Estado quanto da respectiva Casa Legislativa estadual, na qualidade de representantes democraticamente eleitos pelas respectivas populagdes ¢ legitimados para traduzir os anseios do seu povo. Somente assim, respeitando as atribuigdes e competéncias de cada Poder conferidos na Constituigdo Federal é que esta eg. Suprema Corte manteré a harmonia federativa ¢ a integridade do pacto celebrado entre os Estados federados ¢ a Unido, sem qualquer tipo de intervengio desnecesséria e, por assim dizer, indevida, como forma de reafirmar a relevancia das diferengas regionais, culturais, sociais e econémicas existentes no pais. K i ( \ CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS EStAD\ FEDERAL Ov Paging 18 de21 ys C©@NPEG Susman CAMARA TECNICA V-DO PEDIDO. Diante de todo 0 exposto, os Estados e o DF signatérios apresentam © presente requerimento de ingresso na qualidade de amici curiae, a fim de que suas raz6es de direito sejam conhecidas e consideradas no presente julgamento, esperando que a0 final sejam julgados improcedentes os pedidos trazidos nesta ago direta de inconstitucionalidade, como forma de preservar as atribuigdes dos Estados federados, o processo democratico de edigdo das respectivas leis nos Estados e DF, a fim de que seja celebrado 0 pacto federativo estabelecido na Constituigdo Federal. K 4 Procurador do Estado da Bhi (0A8/OF 14.303 ‘CAMARA TECNICA DO COLIGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL Pagina 19 de 21 C@©ONPEG ay CAMARA TECNICA Ludiana Caria Braga Faganha R Procuradora do Estado do Ceard ‘0A8/CE 16003, Renata Marinho O'Reilly Lima Procuradora do Distrito Federal (0A8 20.074/DF Ve * nee Procuradora do Estadp de Minas Gerais ‘oaB/ma 4.559 Lucas Dallamico Procurador do Est4dp do Mato Grosso ‘ons/Mf 46,30918 Viviane Rutt hd ira)Pereira Procuradora do & Para ‘0AB/F 53.4641 LN Mirella aged tei 8 Me Touriro Procuradora do Estado da Paraiba ‘OAB/DF 14.646 = Sérgio Augusto SGntana Silva Procurador do Estado de Pernambuco (OAB/PE 15.836 ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL Pagina 20 de 21 CAMARA TECNICA Procuradora do Estado fo Pie 3F do Estado do Parand ‘0AB/PR56.169, Llichiondz Procurador do €ftado do Rio Grande do Norte (OAB/DF 48.750 anus Salim Procurador do Estado do Rio Grande do Sul ‘0AB/RS 80.325 Musab. Athan 4 be Daniela Allam e Giac Procuradra do txtade do fo de oneiro gS DF 14,740. det Luiz Guarnieri Procurafor do Estide de Rondénia ‘0AB/RO 794-8| Mbrcelo de S4 Mendes Procure dp fino de Rare Fernando Filguelras Procurador do Estado de Santa Catarina Procu de Sersing (0A8/0F 25.287 S pee Procurader do Estado do Tocantins (OAB/OF 18.487 (0A8/To 4038-A, ‘CAMARA TECNICA DO COLEGIO NACIONAL DE PROCURADORES GERAIS DOS ESTADOS E DISTRITO FEDERAL Pagina 21 de 21