Você está na página 1de 43

MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO

PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) JUIZ(A) DO TRABALHO __ DA VARA DO


TRABALHO DE CUIABÁ/MT

O Glifosato destrói a vida no seu nível mais fundamental


ao promover a inclusão de um amino ácido sintético
(glifosato), que não existe na Natureza, em proteínas,
enzimas e peptídeos. Essa falsa incorporação muda
drasticamente a função para a qual aquela proteína ou
aquela enzima estava programada e, devido a isso, uma
série de eventos bioquímicos indesejáveis passam a
acontecer, o que explicaria essa gama tão vasta de doenças
causadas pelo glifosato

(Samsel, A.(2016) Glyphosate herbicide pathway to


Modern Diseases- Synthetic . Amino Acid analogue of
Glycine misincorporated into diverse proteins, U.S. .
Congressional Hearing on Glyphosate, June 14, 2016.
Fonte DSP:
https://institutodeagriculturabiologica.org/2017/01/19/glifo
sato/amp/. Acesso em 19.04.2019)

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO – PROCURADORIA


REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO, inscrito no CNPJ sob o n.
26.989.715/0055-03, com sede na Rua Arnaldo Lopes Sussekind, nº 236, bairro Jardim
Aclimação, em Cuiabá-MT, CEP 78050-258, por intermédio dos Procuradores do Trabalho
signatários, MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO, inscrito no
CNPJ sob o n. 03.507.415/0018-92, por intermédio das 15ª e 16ª Promotorias de Justiça de
Defesa do Meio Ambiente Natural da Capital, pelos Promotores de Justiça também signatários,
com endereço na Avenida Desembargador Milton Figueiredo Ferreira Mendes, s/nº, Setor D –
Centro Político Administrativo, Cuiabá-MT, CEP 78049-928, MINISTÉRIO PÚBLICO
FEDERAL, inscrito no CNPJ sob o n. 26.989.715/0018-50, por meio do Ofício Ambiental,
1
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

pelo Procurador da República signatário, com endereço no Edifício Jardim Cuiabá Office &
Flat - Av. Miguel Sutil, 2625, bairro Jardim Primavera, Cuiabá - MT, 78043-305, vêm à
presença de Vossa Excelência, com fundamento nos art. 127, caput, e art. 129, III, da
Constituição da República Federativa do Brasil; art. 6º, VII, e art. 83, III, da Lei Complementar
75, de 20 de maio de 1993; art. 5º, I, da Lei 7.347, de 24 de julho de 1985, e art. 177 do Código
de Processo Civil, propor:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA com pedido de tutela provisória de urgência antecipada


incidental (art. 294, 295 e 300 do CPC)

em face da ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE SOJA E MILHO DO ESTADO DO


MATO GROSSO (APROSOJA), CNPJ 07.265.758/0001-09, com sede em Rua Engenheiro
Edgard Prado Arze, n°1.777 - Edifício Cloves Vettorato, CPA CEP: 78.049-932,
FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO ESTADO DO MATO GROSSO
(FAMATO), CNPJ 03.489.457/0001-08, com sede na R. Eng. Edgar Prado Arze, SN - Centro
Político Administrativo, Cuiabá - MT, 78049-908, e ASSOCIAÇÃO MATO-GROSSENSE
DO ALGODÃO (AMPA), CNPJ 03.286.988/0001-95, com sede no Ed. Cloves Vettorato - R.
Eng. Edgar Prado Arze, 1777 - Centro Político Administrativo, Cuiabá - MT, 78049-015, pelos
seguintes fundamentos de fato e de direito:

1. DO OBJETIVO DA DEMANDA.

A presente demanda tem como objetivo impor um dever jurídico a uma


coletividade, a qual será representada, no polo passivo, pelas associações e sindicatos
especificados.

Pretende-se, assim, constituir e impor à coletividade de produtores


rurais, no Estado de Mato Grosso, a obrigação de abster-se de utilizar agrotóxicos que
contenham o princípio ativo glifosato em seu processo produtivo, com a finalidade de proteger
a saúde e vida dos trabalhadores rurais do Estado.
2
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Portanto, a tutela buscada diz respeito à defesa do meio ambiente de


trabalho no meio rural, assegurando bens jurídicos consubstanciados na saúde e na vida aos
trabalhadores rurais do Estado. Ela se instrumentaliza mediante a imposição, a todos os
produtores rurais do Estado que empreguem trabalhadores, do dever de não utilizar
agrotóxicos que contenham glifosato, satisfazendo, com isso, a situação jurídica ativa,
titularizada pela coletividade de trabalhadores, de ter seu ambiente de trabalho livre de
substâncias que violem seu direito à saúde e à vida.

A atuação consistente na presente demanda foi fruto de Notícia de Fato


instaurada a partir de deliberação do Fórum Mato-Grossense de Combate aos Impactos dos
Agrotóxicos, sugerindo-se a adoção de providências que envolvessem, do ponto de vista da
saúde do trabalho, a utilização do glifosato, princípio ativo altamente prejudicial à saúde,
conforme a seguir explicado.

Assim, o expediente consistente na ata de reunião do Fórum Mato-


Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos foi autuado, gerando a Notícia de Fato
000561.2019.23.000/7, regularmente distribuída.

Reputa-se, nessa linha, que a providência cabível, diante dos elementos


trazidos pelo Fórum Mato-Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, é o
ajuizamento da presente ação civil pública.

2. QUESTÕES PROCESSUAIS. COMPETÊNCIA TERRITORIAL


E MATERIAL. LITISCONSÓRCIO ATIVO.

De início, necessário observar Justiça do Trabalho é competente para


julgar lides a envolver o meio ambiente do trabalho, na forma do art. 114, I, CF e da súmula
736 do STF.

Destaque-se, nessa linha, que a presente demanda procura resguardar a


saúde da coletividade de trabalhadores rurais expostos aos agrotóxicos. Por isso, ainda que a
obrigação possa ter implicações ao meio ambiente em geral, o enfoque específico e imediato
da pretensão (causa de pedir e pedido) diz respeito a questões relacionadas ao meio ambiente

3
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

de trabalho, razão pela qual é inequívoca a competência desta Justiça Especializada.

Além disso, ocorrendo as ilicitudes e o dano combatidos no Estado de


Mato Grosso, é territorialmente competente uma das Varas do Trabalho de Cuiabá, conforme
art. 2º da Lei 7.347/85 e da OJ 130, II, da SDI-II do TST.

Por fim, com relação ao litisconsórcio ativo, a presente Ação Civil


Pública está sendo ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho, Ministério Público do Estado
do Mato Grosso, e Ministério Público Federal. Nesse sentido, o art. 5º § 5º da Lei da Ação
Civil Pública autoriza expressamente o “o litisconsórcio facultativo entre os Ministérios
Públicos da União, do Distrito Federal e dos Estados na defesa dos interesses e direitos de
que cuida esta lei”.

No caso, em que pese a presente demanda tenha foco na saúde do


trabalhador, é certo que o meio ambiente, de forma geral, é marcadamente holístico e
indivisível (art. 225 da CF), de modo que determinada providência ou conduta pode,
simultaneamente, tutelar bens jurídicos diversos, como o meio ambiente do trabalho, o meio
ambiente natural, e a saúde e segurança da população em geral.

Além de a providência solicitada na presente ação proteger mais


imediatamente a saúde e segurança dos trabalhadores rurais, seus efeitos se desdobram para
resguardar, também, o meio ambiente natural e a saúde coletiva.

Acresça-se que tanto o Ministério Público do Estado do Mato Grosso


quanto o Ministério Público Federal possuem procedimentos a investigar os impactos dos
agrotóxicos e do glifosato para a saúde humana, justificando-se, também por isso, o presente
litisconsórcio entre diferentes ramos do Ministério Público, na forma do art. 5º, § 5º, da Lei de
Ação Civil Pública.

3. POLO PASSIVO. LEGITITIMIDADE. DEVERES


INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS, DETIDOS PELA
COLETIVIDADE DE PRODUTORES RURAIS DO ESTADO DO
MATO GROSSO. LEGIMIDADE PASSIVA DAS ENTIDADES.

4
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

AÇÃO COLETIVA PASSIVA. VINCULAÇÃO DA DECISÃO AOS


PRODUTORES SUBSTITUÍDOS.

3.1. Caracterização dos deveres individuais homogêneos

De início, observe-se que é fato público e notório, na forma do art. 374,


I, do CPC, a utilização, por parte de produtores rurais no Estado de Mato Grosso, de
agrotóxicos contendo glifosato, especialmente no cultivo de soja, milho e algodão.

Utiliza-se referido princípio ativo de forma intensa, popularizando-se no


produto da Monsanto de nome Roundup, também conhecido no Brasil como “mata mato”.
Contudo, após a expiração da patente da Monsanto, passaram a entrar no mercado diversos
produtos à base do glifosato.

O veneno atua na agricultura para matar ervas daninhas, mas, em


contrapartida, é altamente tóxico e causa de agravos à saúde, sobretudo para a população de
trabalhadores rurais, que tem contato direto com a substância.

Nessa linha, conforme ampla fundamentação a seguir exposta, o


glifosato está associado ao surgimento de diversas doenças crônicas e malefícios à saúde. Não
há, assim, como os produtores rurais assegurarem seu uso seguro, de modo que a única forma
de tutelar, de forma real e efetiva, a saúde da coletividade dos trabalhadores rurais é mediante a
proibição de sua utilização.

Assentadas essas premissas, é possível chegar-se às seguintes


conclusões: i) é incontestável a utilização do Glifosato por parte de produtores rurais no Estado
do Mato Grosso, no cultivo especialmente da soja, milho e algodão; ii) a utilização do referido
princípio ativo importa risco inaceitável à saúde dos trabalhadores rurais, impondo-se a
abstenção de seu uso como único modo viável para tutelar de forma efetiva o meio ambiente
de trabalho no meio rural e a saúde e vida dos trabalhadores rurais.

Os contornos da situação acima narrada são aptos a ensejar a


caracterização de deveres individuais homogêneos, detidos por todos os produtores rurais do
Estado de Mato Grosso, relacionados ao dever de abster-se de utilizar o glifosato no processo
de produção.

5
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Nessa linha, os produtores rurais do Estado do Mato Grosso compõem


uma coletividade detentora de um dever jurídico comum. Há, portanto, uma homogeneidade
na situação passiva de todos os produtores rurais, consistente na utilização do glifosato e na
exposição à saúde dos trabalhadores rurais.

Essas singularidades são bastantes a possibilitar o tratamento


diferenciado da situação retratada nos presentes autos, por meio de uma ação coletiva passiva.
Na dicção de Fredie Didier Jr. e Hermes Zaneti Jr1:

Há ação coletiva passiva quando um agrupamento humano for colocado como


sujeito passivo de uma relação jurídica afirmada na petição inicial. Formula-se
demanda contra uma dada coletividade. (...).

O que torna a ação coletiva passiva digna de um tratamento diferenciado é a


circunstância de a situação jurídica titularizada pela coletividade encontrar-se
no polo passivo do processo. A demanda é dirigida contra uma coletividade,
sujeita de uma situação jurídica passiva (um dever ou um estado de sujeição,
por exemplo). Da mesma forma que a coletividade pode ser titular de direitos
(situação jurídica ativa), ela também pode ser titular de um dever ou um estado
de sujeição.

Assim, a presente demanda é deduzida em face da coletividade de


produtores rurais do Estado do Mato Grosso, coletividade que é titular do dever individual
homogêneo de abster-se de utilizar o princípio ativo glifosato em seu processo produtivo,
como forma de tutelar a saúde dos trabalhadores rurais.

Identificada a demanda como dirigida a uma coletividade de pessoas


físicas e jurídicas (produtores rurais), configurando uma ação coletiva passiva, cabe tratar da
legitimidade passiva adequada para o caso.

3.2 Legitimidade passiva das rés. Representação adequada.

1 DIDIER JR, Fredie e ZANETI JR, HERMES. Curso de Direito processual Civil, Volume 4, 10ª edição, pp.
457-458.
6
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Como se anotou acima, a presente demanda é dirigida contra uma


coletividade de entes jurídicos, detentores de um dever jurídico específico, cuja imposição é o
objeto da presente Ação Civil Pública.

Contudo, tal coletividade deve ser “representada”, no caso, por um


legitimado extraordinário, o qual, atuando em nome da coletividade, é chamado ao processo
para defender interesse alheio – no caso, interesse da coletividade de produtores rurais.

Nesse sentido, Fredie Didier Jr. e Hermes Zaneti Jr observam que


“seguindo o regime jurídico de toda ação coletiva, exige-se para a admissibilidade da ação
coletiva passiva que a demanda seja proposta contra um “representante adequado”
(legitimado extraordinário para a defesa de uma situação jurídica coletiva) e que a causa se
revista de interesse social”2.

No caso dos autos, não resta dúvida de que a Associação ré APROSOJA


é “representante” adequada, que também deve figurar no polo passivo da demanda, em defesa
dos produtores rurais que integram a coletividade demandada.

E isso porque, conforme consta do site da Associação


(http://www.aprosoja.com.br/aprosoja/quem-somos/):

APROSOJA

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) é


uma entidade representativa de classe sem fins lucrativos, constituída por
produtores rurais ligados às culturas de soja e milho de Mato Grosso. Seu
objetivo central é unir a classe, valorizando-a.

Criada em fevereiro de 2005, a Aprosoja representa os direitos, interesses e


deveres dos produtores de soja e milho. Para isso, desenvolve ações e projetos
que visam o crescimento sustentável da cadeia produtiva da soja e do milho em
Mato Grosso.

A sede da Aprosoja é situada em Cuiabá, mas para facilitar a comunicação com

2 DIDIER JR, Fredie e ZANETI JR, HERMES. Curso de Direito processual Civil, Volume 4, 10ª
edição, p. 458.
7
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

os associados, a entidade possui núcleos regionais, instalados nos Sindicatos


Rurais das maiores cidades sojicultoras do estado.

Perceba-se que se trata de Associação atuante há mais de 10 anos em


defesa dos produtores de milho e soja, representando, como ela mesmo diz, os direitos, mas
também os deveres dos referidos produtores.

Ainda, a pertinência temática também resulta de a associação ré possuir


diversas comissões, entre elas a de Defesa Agrícola, que busca especificamente discutir temas
relacionados a agrotóxicos (http://www.aprosoja.com.br/comissao/defesa-agricola)

Objetivos:
Articular a criação, o aperfeiçoamento e a aplicação de Diretrizes públicas
voltadas às áreas de pesquisa agronômica, insumos de produção e demais itens
envolvidos na produção agrícola.

Coordenadores:
Jorge Diogo Giacomelli e Naildo Silva Lopes

Diretrizes:

1. Proteger o sistema produtivo e garantir a sustentabilidade da produção;

2. Garantir diretrizes públicas que protejam os interesses produtivos;

3. Garantir a qualidade dos insumos e defensivos comercializados em MT;

4. Promover a defesa vegetal do estado de Mato Grosso;

5. Garantir a pesquisa e o desenvolvimento técnico do sistema produtivo;

6. Disponibilizar ferramentas técnicas e serviços ao associado.

Apenas para ilustrar de forma exemplificativa a atuação da ré, percebe-


se, no seu site oficial, diversas notícias dando conta da participação da associação em diversas
reuniões a discutir importantes temas relacionados ao Brasil:

8
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Região Leste recebe 14º Circuito Aprosoja na próxima semana


Encerramento do evento está marcado para o dia 10 de junho, em Cuiabá

29/05/2019
O 14º Circuito Aprosoja encerra os trabalhos no interior pela Região Leste de
Mato Grosso. Entre os dias 03 e 07 de junho, a caravana composta por direto-
res, delegados, convidados e colaboradores da Associação dos Produtores de
Soja e Milho do Estado (Aprosoja-MT) vão percorrer os municípios de Gaúcha
do Norte, Canarana, Querência, Porto Alegre do Norte, Água Boa e Nova Xa-
vantina. Encerramento do evento está marcado para o dia 10 de junho, em Cui-
abá.
O tema escolhido pela diretoria este ano foi “Custo + Tributação = Agricultura
em Risco”. Durante o evento os participantes vão assistir uma palestra com
economista e comentarista do Canal Rural, Miguel Daoud, que fará um panora-
ma político-econômico do Brasil e do mundo, com foco no agronegócio.
Depois, o especialista se une ao presidente da Aprosoja Mato Grosso e vice-
presidente da Aprosoja Brasil, Antonio Galvan, diretor-executivo da Aprosoja
Brasil, Fabricio Rosa, e delegado coordenador de cada núcleo para um bate
papo sobre o tema central. A mediação da conversa fica por conta do jornalista
e apresentador do programa Direto ao Ponto (Canal Rural), Glauber Silveira.
A 14ª edição do Circuito Aprosoja já percorreu as regiões Norte, Oeste e Sul,
respectivamente. “É bastante gratificante ver a participação em massa do pro-
dutor rural durante o Circuito Aprosoja. Em todos os núcleos sempre casa
cheia, com a participação efetiva no momento aberto para perguntas. Vimos
que o tema agradou, o produtor está preocupado com o alto custo com as inú-
meras taxações e a nossa diretoria está fazendo o papel dela que é ouvir as ba -
ses para depois tomar as melhores decisões e trabalhar, brigar e lutar em prol
dos nossos mais de 5.500 associados. Convido todos da Região Leste para que
contribua conosco nessa construção e participem do evento, que está muito pro-
dutivo, com certeza”, disse Galvan.
O encerramento está marcado para o dia 10 de junho, às 19h, no Cenarium Ru-
ral, em Cuiabá, com a palestra “Cenário Político-econômico: Onde Estamos e

9
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

para Onde Vamos”, com jornalista Willian Waack. Também estão confirmadas
as presenças da ministra da Agricultura Tereza Cristina e do deputado federal,
presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Alceu Moreira. Ins-
crições gratuitas a partir da próxima segunda-feira (03) no site www.aprosoja.-
com.br..

Defesa Agrícola
Aprosoja debate os desafios do combate à ferrugem asiática da soja
O evento continua nesta sexta (31/5)

30/05/2019
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Bra-
sil), Bartolomeu Braz Pereira, e o diretor administrativo da Associação dos Pro-
dutores de Soja e Milho de Mato grosso (Aprosoja MT), Lucas Beber, partici-
pam de Workshop sobre Ferrugem Asiática da Soja – Situação Atual e Desafi-
os, promovido pela Embrapa, nesta quinta-feira (30/5), em Brasília.
Bartolomeu sugeriu a realização de “estudo cientifico para apoiar qualquer de-
cisão que seja adotada em torno do calendário do plantio de soja e do vazio sa -
nitário em todo o país”.
O presidente da entidade defendeu realização de consulta junto a produtores ru-
rais para revisão das regras atuais de calendarização de acordo com as caracte-
rísticas para produção em cada estado.
Lucas Beber externou a “insatisfação de produtores de Mato Grosso e de outros
estados com a calendarizacão atual”, que inviabiliza a produção de sementes
por parte dos produtores.
Ele ressaltou também que as regras atuais acabam provocando aumento do uso
de fungicidas para conter o aumento da incidência de ferrugem asiática no perí-
odo de plantio.

10
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Participaram do debate produtores, pesquisadores e representantes da Organiza-


ção das Cooperativas do Brasil (OCB), da Confederação da Agricultura e Pe-
cuária do Brasil (CNA), da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), do
Ministério da Agricultura e da Embrapa Soja.
O evento continua nesta sexta (31/5) com a participação de representantes da
Universidade Federal de Viçosa (UFV), da Associação Nacional de Defesa Ve-
getal (Andef), do Comitê de Ação a Resistência a Fungicidas (FRAC Brasil) e
do Comitê de Ação à Resistência a Inseticidas (IRAC Brasil).

De outro lado, também se encontra no polo passivo, na qualidade de le-


gitimado adequado, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Mato Grosso, a qual
integra formalmente o sistema de representação sindical do setor agrícola (art. 533 e 534 da
CLT).

Como exposto em seu próprio site, trata-se de “entidade-mãe que con-


grega os elos do sistema sindical rural do Estado. Em âmbito federal está ligada à Confedera-
ção da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que congrega também as federações dos de-
mais estados brasileiros”. Ainda segundo seu site:

“A reconhecida força de mobilização em Mato Grosso decorre das ações re-


presentativas, institucionais e políticas que realiza tendo como norte o atendi-
mento aos interesses da classe produtora rural do Estado e de seus mais de 33
mil produtores rurais associados.” (http://sistemafamato.org.br/portal/quem_so-
mos.php)

Além disso, o ente sindical é órgão constitucionalmente vocacionado à


defesa dos interesses da categoria, na forma do art. 8º, III, da CF/88, circunstância que o legiti -
ma para figurar no polo passivo, em pretensão dirigida à categoria econômica dos produtores
rurais.

Por fim, com a finalidade de ampliar as possibilidades de defesa dos in-


teresses da coletividade demanda, figura no polo passivo também a Associação Mato-grossen-
se do Algodão (AMPA), que é “uma entidade sem fins lucrativos, fundada com o propósito de
congregar os produtores em torno de um mesmo objetivo: incentivar a produção de algodão
de forma organizada” (http://www.ampa.com.br/site/quem_somos.php).

11
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Ante todo o exposto, com a inserção das duas associações e da federação


no polo passivo, entende-se que a coletividade demandada (produtores rurais do Estado do
Mato Grosso) se encontra devidamente representada no polo passivo, de modo a atestar a regu-
laridade da presente ação coletiva passiva. Atende-se, com isso, inclusive orientação da doutri-
na de que

“para garantir a adequação da representação de todos os interesses em jogo, se-


ria recomendável que a ação coletiva passiva fosse proposta contra o maior nú-
mero possível de associações conhecidas que congregassem os membros do
grupo-réu”3

Assim, pode-se concluir pela legitimidade dos entes demandados para fi-
gurar no polo passivo da presente demanda, para defender, como substitutos extraordinários, a
coletividade de produtores rurais a quem a presente ação é direcionada.

3.3. Admissibilidade da tutela coletiva passiva. Extensão dos efeitos


da decisão a todos os produtores rurais integrantes da coletividade
demandada.

Não há como não se admitir a tutela coletiva passiva, especialmente


quando ela se afigura como único instrumento hábil a tutelar, de forma eficaz e abrangente, re-
levantes situações coletivas ativas.

De início, note-se bem que a possibilidade de defesa coletiva de direi-


tos é expressamente reconhecida pelo art. 81, parágrafo único do CDC, em se tratando de di-
reitos coletivos. Não há qualquer limitação quanto a se cuidar de situação jurídica ativa
ou passiva aquela a ser objeto de tutela, pelo que não se pode deixar de admitir o proces-
so coletivo passivo.

Desta maneira, conforme registra a Antônio Gidi, o processo coletivo


passivo tanto quanto o ativo tem o potencial de proporcionar significativa economia processual

3 GIDI. Antonio. A class action como instrumento de tutela coletiva dos direitos. São Paulo: RT, p. 415. O
12
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

e facilitar o acesso à justiça, além de contribuir positivamente com a harmonização dos julga-
dos4.

Com efeito, no presente caso, cuidando-se de deveres individuais homo-


gêneos suportados por todos os produtores rurais do Estado do Mato Grosso, decerto a possibi-
lidade de propositura de ação contra apenas 3 (três) entidades legitimadas extraordinariamente
tem o condão de propiciar verdadeiro acesso à justiça (art. 5º XXXV, CF/88), solucionando
eficazmente o conflito existente.

Caso não admitida a ação coletiva passiva, teriam de ser acionados abso-
lutamente todos os produtores rurais do Estado do Mato Grosso que aplicam agrotóxicos com
glifosato, para o cumprimento de um mesmíssimo dever, o que é impossível. Ademais, tal situ-
ação fragilizaria bastante a tutela coletiva, havendo ainda riscos de decisões contraditórias so-
bre o mesmo tema, em prejuízo ao princípio da isonomia.

De outro lado, a efetiva defesa da coletividade acionada se dá com a


existência de representantes adequados (legitimados extraordinários) no polo passivo, as 3
(três) entidades rés (duas associações e uma federação), que, com demonstrado acima, têm
toda aptidão técnica, financeira e jurídica para defender os interesses da coletividade acionada.

Nessa linha, não há como afastar a possibilidade da ação coletiva passiva


no processo civil brasileiro.

Inicialmente, tem-se que há súmula do próprio TST entendendo viável a


defesa dos substituídos, em ação rescisória, pelo sindicato autor da demanda originária, confor-
me súmula 406, item II:

II - O Sindicato, substituto processual e autor da reclamação trabalhista, em cu-


jos autos fora proferida a decisão rescindenda, possui legitimidade para figurar
como réu na ação rescisória, sendo descabida a exigência de citação de todos os
empregados substituídos, porquanto inexistente litisconsórcio passivo necessá-
rio

4 GIDI, Antônio. A class action como instrumento de tutela coletiva dos direitos – as ações coletivas em uma
perspectiva comparada. São Paulo: RT, 2007, p. 391
13
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Ora, nessa hipótese os substituídos poderão ter sua esfera jurídica direta-
mente atingida pela Ação Rescisória, porém sua intervenção no feito não é necessária, ante a
existência do ente sindical – que, aliás, promoveu a ação originária –, havendo aqui nítida hi-
pótese de ação coletiva passiva aceita tranquilamente pela jurisprudência.

Além dessa situação, há ainda o dissídio coletivo econômico e dissídio


de greve, em que não se verifica cizânia em aceitar a validade e efetividade do processo coleti-
vo passivo.

No dissídio de greve, não é incomum que seja exarada ordem do tribunal


para que os trabalhadores retornem ao trabalho (em casos de abusividade), sendo que apenas o
sindicato atua no processo, em legitimação extraordinária passiva quanto aos trabalhadores in-
tegrantes da categoria. Perceba-se que a ordem de voltar ao trabalho é dirigida aos trabalhado-
res (o sindicato não é empregado da empresa e não pode voltar ao trabalho), satisfazendo-se,
contudo, a Justiça do Trabalho com a presença apenas do ente sindical.

Outrossim, nos dissídios econômicos promovidos contra sindicatos de


empresas ou federações patronais, eventuais obrigações criadas por meio da sentença normati-
va atingirão toda a categoria composta de diversas empresas, sendo que não se exige a citação
de todas elas para a validade e eficácia das normas produto do processo, dispostas na sentença
normativa.

Em todos esses casos nunca se questionou a possibilidade de ação co-


letiva passiva. Caso esta fosse incompatível com o sistema processual, não deveriam ser
admitidas.

A ação coletiva passiva, com efeito, é um meio necessário para promo-


ver o verdadeiro acesso à justiça, sendo que sua inadmissão violaria frontalmente a regra cons-
titucional de que nenhum conflito poderá estar imune à apreciação do judiciário (art. 5º,
XXXV, CF/88).

Há conflitos, como o presente, que não podem ser resolvidos a contento


sem que a coletividade violadora de direitos seja representada por outro ente com legitimação
adequada, sob pena de ineficácia de uma atuação dirigida a cada um dos produtores rurais que
utilizam agrotóxicos com o princípio ativo glifosato.
14
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

A ação coletiva passiva é aceita no sistema norte-americano de tutela co-


letiva, como evidencia Rafael Caselli Pereira5:

A notoriedade dos estudos de Story repercutiu na Suprema Corte norte-ameri-


cana que, em 1842, promulgou uma equity rule, admitindo expressamente o li-
tígio de grupo.

Conhecida como Equity Rule 48, a disposição não fazia distinção entre a exis-
tência de coletividade no pólo ativo ou passivo da demanda.

Em 25 de abril de 1854, a Suprema Corte do EUA decidiu de forma contrária à


Equity Rule 48, permitindo, em um leading case[_16_] (Smith v. Sworms-
tedt[_17_]), a vinculação integral de uma coletividade aos termos da sua deci-
são, incluindo os membros ausentes.

Em 1898, outra ação coletiva, em que a coletividade se encontrava no pólo pas-


sivo, foi julgada pela Suprema Corte norte-americana, com efeito vinculante à
integralidade do grupo. Em American Steel & Wire Co. v. Wire Drawers’ &
Die Makers’ Unions o autor, uma empresa privada, ajuizou ação em face de
trabalhadores que, em abuso de direito de greve, perturbavam o exercício regu-
lar de suas atividades.

Em seu voto, o MR. Justice J. Hammond mencionou que uma das característi-
cas da tutela pretendida pelo autor (injunction) era o seu alcance a todo o gru-
po, independente de haver citação pessoas ou participação no processo e, prin-
cipalmente, que o seu resultado, de forma natural deveria vincular a todos, in-
distintamente[_18_].

No mesmo tom, garantiu o magistrado Hammond a apreciação do mérito da de-


manda, explicando que o fato de não haver personalidade de sua inclusão no
pólo passivo, na medida em que, tecnicamente, o processo não era em face da
entidade, mas de seus membros, por ela representados. Finalmente, reconheceu
o julgador o que seria mais importante em termos de ação coletiva passiva: a
coletividade se fazia representar de forma adequada pelas partes trazidas a juízo

5 PEREIRA, Rafael Caselli. Ação Coletiva Passiva (Defendant Class Action) no Direito Brasileiroa.
Processos Coletivos, Porto Alegre, vol. 2, n. 3, 01 jul. 2011.
Disponível em: http://www.processoscoletivos.net/revista-eletronica/25-volume-2-numero-3-trimestre-01-07-
2011-a-30-09-2011/114-acao-coletiva-passiva-defendant-class-action-no-direito-brasileiro - Acesso em: 19-Aug-
2016
15
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

(pelos líderes no movimento paredista), o que daria legitimidade ao caso para


prosseguir e vincular a todos de forma coletiva, de acordo com o caso concre-
to[_19_].

(...)

Dispensável mencionar que, admitida a demanda coletiva em face da coletivi-


dade, ocorrerá o que se denomina de collateral estoppel, ou seja, a extensão
dos limites subjetivos da coisa julgada material, que não mais se restringirá ao
demandado (class member que teve a sua condição de representante adequado
reconhecida). A eficácia atingirá a todos do grupo, categoria ou classe de pes-
soas atingidas pelo resultado da demanda, que sofrerão a imposição dos efeitos
da sentença.

Na lição de Ronaldo Lima dos Santos, citando Ada Pellegrini Grinover,


o fundamento, no sistema jurídico, para a ação coletiva passiva, também estaria no artigo §2º
do artigo 5º da Lei nº7347/85 e no artigo 107 do CDC:6

Ada Pellegrini Grinover demonstra entendimento favorável à legitimidade pas-


sivado grupo representado. Lembra a jurista que o § 2º do art. 5º da Lei da
Ação Civil Pública possibilita a habilitação dos co-legitimados como litiscon-
sortes de quaisquer das partes, autor ou réu, de modo que a demanda também
pode ser proposta contra o representante da classe, que, igualmente, figurará
no pólo passivo da demanda. Demonstra, também, que o representante
pode figurar como parte em convenção coletiva de consumo (art. 107 do CDC),
cuja lide por ela suscitada terá duas categorias, cada uma em um dos pólos da
demanda.

Admitida a ação coletiva passiva, é natural que seus efeitos se estendam


à coletividade substituída, sendo meio eficaz para impor-lhe deveres, sob pena de revelar-se de
pouco utilidade. Nesse sentido, Fredie Didier Jr. e Hermes Zaneti Jr lecionam que “se a coisa
julgada, nestes casos, não vincular os membros do grupo no caso de procedência, este tipo de
ação não terá qualquer utilidade”7.

6 SANTOS, Ronaldo Lima dos. “DEFENDANT CL CLAS AS ASS S ACTIONS” - O GRUPO COMO
LEGITIMADO PASSIVO NO DIREITO NORTE-AMERICANO E NO BRASIL, in Boletim Científico da
Escola Superior do Ministério Público da União, Brasília, a. III – n. 10, p. 139-154 – jan./mar. 2004.
7 DIDIER JR, Fredie e ZANETI JR, HERMES. Curso de Direito processual Civil, Volume 4, 10ª edição, p. 472.
16
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Note-se que o que torna legítima e razoável a imposição de deveres, por


meio desta ação, aos produtores rurais integrantes da coletividade demandada é, justamente, a
representação adequada das entidades rés, objeto de item específico.

Nesse sentido, a conclusão de Fredie Didier Jr. e Hermes Zaneti Jr8:

Não admitir a ação coletiva passiva é negar o direito fundamental de ação àque-
le que contra um grupo pretende exercer algum direito: ele teria garantido o di-
reito constitucional de defesa, mas não poderia demandar. Negar a possibilida-
de de ação coletiva passiva é, ainda, fechar os olhos para a realidade: os confli-
tos de interesses podem envolver particular-particular, particular-grupo e
grupo-grupo. Na sociedade de massas, há conflito de massas e conflito entre
massas.

O art. 83 do CDC determina que, para a defesa dos direitos coletivos (lato sen-
so), são admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua ade -
quada e efetiva tutela.

A inexistência de texto legal expresso que confira legitimação coletiva passiva


não parece obstáculo indisponível. Conforme já visto, a atribuição de legitima-
ção extraordinária não precisa constar de texto expresso, bastando que se a reti-
ra do sistema jurídico.

Ante todo o exposto, a par da admissão da presente ação civil coletiva,


há de ter-se que todas as decisões nela tomadas, inclusive as liminares, atingirão, obrigando-os
juridicamente, todos os produtores rurais que compõem a coletividade demandada, ora repre-
sentados pelas entidades rés.

4. PROTEÇÃO INTERNACIONAL, CONSTITUCIONAL E


LEGAL AO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO. PRINCÍPIOS
DA PREVENÇÃO E PRECAUÇÃO.

A garantia de um meio ambiente de trabalho saudável constitui


finalidade expressa na Constituição Federal, conforme artigos 200, VIII e 225 da CF/88, bem

8 Op. Cit, p. 474


17
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

de uso comum do povo, cabendo ao empregador, no contexto da relação empregatícia, a


adoção de providências tendentes ao cumprimento das normas de saúde e segurança no
trabalho (art. 157, I, CLT).

O meio ambiente do trabalho, direito eminentemente difuso (art. 225 da


CF/88), envolve “o local de trabalho, os instrumentos de Trabalho, o modo de execução de
tarefas e a maneira como o trabalhador é tratado pelo empregador ou tomador de serviço e
pelos próprios colegas de trabalho”9.

Nesse sentido, pontua ainda RAIMUNDO SIMÃO MELO 10 que “o meio


ambiente do trabalho adequado e seguro é um dos mais importantes direitos do cidadão
trabalhador, o qual, se desrespeitado, provoca agressão a toda sociedade, que, no final das
contas, é quem custeia a Previdência Social”, sendo certo ainda que “no Direito do Trabalho, o
bem ambiental envolve a vida do trabalhador como pessoa integrante da sociedade, devendo
ser preservado por meio da implementação de adequadas condições de trabalho, higiene e
medicina do trabalho” (p. 34).

Acerca do tema de saúde e segurança no trabalho, a Constituição da


República Federativa do Brasil prevê que:

Art. 7º. São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que
visem à melhoria de sua condição social:

XXII – redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde,
higiene e segurança

Vale destacar que a convenção 155 da OIT impõe, como dever jurídico,
a adoção de medidas necessárias para a promoção da segurança no trabalho, com o objetivo de
prevenir acidentes e danos para a saúde (arts. 3º e 4º).

A corroborar a proteção, em documentos internacionais, do meio


ambiente de trabalho, registe-se que o PACTO INTERNACIONAL SOBRE DIREITOS

9 MELO. Raimundo Simão de. Direito Ambiental do Trabalho e Saúde do Trabalhador. 5ª Edição. São Paulo:
LTR, 2013, p. 29.
10 Op. cit., p. 32.
18
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

ECONÔMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS estabelece como obrigatórias, em seu art. 12º,


medidas necessárias para “a melhoria de todos os aspectos de higiene do trabalho e do meio
ambiente” e seu artigo 7º assegura aos trabalhadores “a segurança e a higiene no trabalho”.

A ordem econômica, por sua vez, funda-se na valorização do trabalho


humano e na livre-iniciativa, sendo assegurado a todos uma existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observados os princípios da defesa do meio ambiente, da função
social da propriedade e da busca do pleno emprego, entre outros insertos na disposição do art.
170 da Carta Magna de 1988.

De outra parte, a Lex Legum consagrou o princípio da função


socioambiental da propriedade privada (arts. 5º, XXIII, e 170, III, CF/88). Em virtude desse
princípio, a propriedade privada deve ser utilizada de modo a promover as finalidades da
ordem jurídica, inclusive mediante condutas positivas. É essa a lição do civilista italiano Pietro
Perlingieri11:

Em um sistema inspirado na solidariedade política, econômica e social e ao


pleno desenvolvimento da pessoa (art. 2º da Const.) o conteúdo da função
social assume um papel de tipo promocional, no sentido de que a disciplina das
formas de propriedade e as suas interpretações deveriam ser atuadas para
garantir e promover os valores sobre os quais se funda o ordenamento

Visualiza-se, assim, que a normatividade decorrente da Constituição,


considerada em sua totalidade (arts. 1º, IV; 5º, XXIII; 7º, XXII; 100, VIII; 170 caput, III, VI;
196 e 225 da CF/88), aponta para a necessidade de real proteção da saúde com trabalhador,
com a efetiva redução dos riscos afetos ao meio ambiente laboral, com o que se consegue
valorização do trabalho humano. Daí resulta a existência de um bloco constitucional irradiador
de normatividade capaz de vincular as condutas dos agentes privados, no sentido de que seja
efetivamente garantida a existência de um ambiente de trabalho saudável e adequado, inclusive
mediante comportamentos ativos.

Ao tratar do tema, o Constituinte consagrou o PRINCÍPIO DA


PREVENÇÃO, determinando ao Poder Público e à coletividade o dever de defesa e

11 PERLINGIERI, Pietro. Perfi s do direito civil: introdução ao direito civil constitucional.2. ed. Tradução: Maria
Cristina de Cicco. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 226
19
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

preservação do meio ambiente para as presentes e futuras gerações. A defesa e preservação do


meio ambiente, segundo a própria Constituição da República, não se refere tão-somente ao
meio ambiente ecológico natural, mas também ao meio ambiente do trabalho, conforme
disposto em seu art. 200, inciso VIII.

A Declaração do Rio de Janeiro de 1992, por sua vez, tratou do


PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO ao prescrever no item 15, que para proteger o meio
ambiente medidas de precaução devem ser largamente aplicadas pelos Estados segundo suas
capacidades. Em caso de risco de danos graves e irreversíveis, a ausência de certeza científica
absoluta não deve servir de pretexto para procrastinar a adoção de medidas visando a prevenir
a degradação do meio ambiente do trabalho. Os princípios da precaução e prevenção têm
sentido de previdência, de antecipação a danos ao meio ambiente, em qualquer de suas formas
(natural, cultural, artificial e do trabalho).

A diferença doutrinária entre os princípios da prevenção e da precaução


é que, no primeiro, já se sabe de antemão sobre as consequências de determinado ato danoso,
pois o nexo causal já é cientificamente comprovado e certo; já no segundo, é quando não se
sabe quais serão as consequências decorrentes do ato supostamente danoso, diante da incerteza
científica.

Tais princípios sugerem cuidados antecipados, cautela para que uma


atitude ou ação não venha resultar em efeitos indesejáveis e prejudiciais a outrem. Mesmo na
incerteza do risco, mas diante da irreversibilidade dos prejuízos eventuais ao ser humano,
deve-se adotar medidas preventivas, pois o aspecto humano prevalece em face do econômico.

Assim, decorre do princípio da precaução a necessidade, sempre, de se


atuar preventivamente, independentemente do conhecimento ou desconhecimento de possíveis
danos, de análises ou pareceres anteriores. Isso porque as lesões ao meio ambiente, inclusive
do trabalho, são quase sempre irreparáveis.

A sociedade não pode suportar o ônus da dúvida e de possível agressão


decorrente da atividade do agente. Este deve suportar os riscos e ônus de sua própria atividade.

A Convenção 170 da OIT é expressa ao determinar os deveres do


empregador quanto ao uso de substâncias químicas pelos empregados, estipulando obrigações
20
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

no que concerne à segurança dos trabalhadores, na exposição a esses elementos, ao controle


operacional do uso, manuseio e aplicação, na eliminação de produtos químicos perigosos e no
direito à informação do obreiro, conforme artigos 12, 13, 14 e 15 da referida Convenção.

O art. 5º12 da Convenção 170 da OIT autoriza expressamente a proibição


ou restrição de certos produtos perigosos, vedando ainda o art. 12, “a” da mesma convenção a
exposição a produtos químicos nocivos em desconformidades com normas nacionais ou
internacionais.

Assim, devem ser compreendidas como juridicamente vinculantes todas


as medidas que sejam essenciais para a garantia da saúde e da vida dos trabalhadores (art. 6º
“caput” e art. 196 da CF).

Nesse contexto, evidenciado que o emprego, no processo produtivo, de


uma substância química impõe severos, irreversíveis e inexoráveis prejuízos à saúde humana,
em especial dos trabalhadores diretamente expostos, impõe-se a não utilização de tal
substância.

Tal providência pedida (abstenção de utilização do princípio ativo


glifosato) é a única que tem aptidão para garantir a saúde e vida dos trabalhadores rurais,
conforme a seguir demonstrado.

5. PANORAMA NORMATIVO E CIENTÍFICO DA SITUAÇÃO


DOS AGROTÓXICOS EM GERAL.

Como se sabe, a Lei 7.802/89, com a redação que lhe deu a Lei 9.974/00,
dispõe, em linhas gerais, sobre o tratamento legal dos agrotóxicos no país.

Pelo termo agrotóxico se denomina uma grande gama de substâncias,


que abrangem (1) os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, desti-
nados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrí-
colas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas

12 A autoridade competente, se for justificado por motivos de segurança e saúde, deverá poder proibir ou
restringir a utilização de certos produtos químicos perigosos, ou exigir notificação e autorização prévias para a
utilização desses produtos.
21
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composi-
ção da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados no-
civos e (2) as substâncias e produtos, empregados como desfolhantes, dessecantes, estimulado-
res e inibidores de crescimento (art. 2º , inciso I, “a” e “b” da Lei 7.802/89).

O processo produtivo agrícola brasileiro está cada vez mais dependente


dos agrotóxicos e fertilizantes químicos. É crescente o consumo de agrotóxicos e fertilizantes
químicos pela agricultura brasileira, proporcional ao aumento das monoculturas (soja, milho,
algodão e cana), cada vez mais dependentes dos insumos químicos. Em Mato Grosso, o consu-
mo superou os 45 litros por habitante, em 2013, sendo que, segundo dados do IBGE (dossiê da
Abrasco, 2015), Mato Grosso é o maior consumidor de agrotóxicos do país, representando
18,9%. Em alguns municípios chegou-se a registrar os assustadores índices que beiram os 400
litros por habitante. Esses números não consideram os produtos clandestinos ou contrabandea-
dos.

Esse veneno todo está sendo dispersado sobre lavouras, campos, rios,
florestas, tribos, cidades, animais, creches, escolas, hortas e casas. Ano após ano. É importante
atentar para o detalhe cumulativo da exposição. É ele que vai gerar as doenças crônicas.

Com relação aos efeitos nocivos, ressalte-se que os agrotóxicos foram


desenvolvidos para dificultar ou exterminar formas de vida; justamente por essa característica,
são capazes de afetar a saúde humana. “O desenvolvimento de moléculas cada vez mais pode-
rosas em seus efeitos biocidas não poupa as estruturas biológicas de seres que não são seus al-
vos”, diz Lia Giraldo, especialista em saúde ambiental, pesquisadora do Centro de Pesquisas
Aggeu Magalhães (CPqAM/Fiocruz13).

Assim, Co-organizador do livro É veneno ou é remédio? (Editora Fio-


cruz), sobre o tema, Frederico explica que os efeitos dos agrotóxicos podem ser agudos ou
crônicos. Os agudos são mais frequentes em trabalhadores rurais, com sintomas que aparecem
até 24 horas depois da exposição: espasmo muscular, convulsão, náusea, desmaio, vômito, di-
ficuldade respiratória. Os crônicos decorrem da exposição prolongada a baixas doses das subs-
tâncias, inclusive via alimentação, podendo surgir anos após o contato.

13 Rerportagem no site http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/95/reportagens/protecao-para-quem,


acessada em 23/07/2018.
22
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

O inseticida Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT), por exemplo, foi


proibido a partir da década de 1970 em todo o mundo: descobriu-se que interferia na cadeia
alimentar animal, contribuía para o desenvolvimento de câncer em seres humanos e se espalha-
va facilmente pelo ar. Muitas outras substâncias foram e são apontadas por cientistas como
cancerígenas, como os fenoxiacéticos (encontrados em herbicidas) e os ditiocarbamatos (que
tem ação fungicida). Disponível em: <http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/95/repor-
tagens/protecao-para-quem > Acesso em: 23 jul. 2018).

Como destacado, esses produtos, via de regra e em exposição prolonga-


da a baixas doses, não causa acidentes ou doenças visíveis a curto prazo, mas deterioram a saú-
de do homem aos poucos, atingem órgãos vitais, causam amputamentos de membros e até a
morte, a exemplo do DDT que tem sido apontado como causa da morte de 240 pessoas no AC
e por deixar mais 15 na “fila da morte”, conforme notícia “Uso de inseticida pode ter matado
240 no AC; 15 estão na ‘fila da morte’” (Disponível em: <http://g1.globo.com/ac/acre/noticia/
2015/02/uso-de-inseticida-pode-ter-matado-240-no-ac-15-estao-na-fila-da-morte.html>. Aces-
so em: 23 jul. 2018).

Nesse sentido, pode-se dizer que a intoxicação aguda se manifesta atra-


vés de um conjunto de sinais e sintomas, que se apresentam de forma súbita, alguns minutos ou
algumas horas após a exposição excessiva de um indivíduo ou de um grupo de pessoas a um
agrotóxico. Tal exposição geralmente é única e ocorre num período de até 24 horas, acarretan-
do efeitos rápidos sobre a saúde.

Contudo, a intoxicação também pode revelar-se como crônica, caso em


que os efeitos danosos sobre a saúde humana, incluindo a acumulação de danos genéticos, sur-
gem no decorrer de repetidas exposições ao toxicante, que normalmente ocorrem durante lon-
gos períodos. Nestas condições os quadros clínicos são indefinidos, confusos e muitas vezes ir-
reversíveis. Os diagnósticos são difíceis de serem estabelecidos e há uma maior dificuldade na
associação causa/efeito, principalmente quando há exposição a múltiplos produtos, situação
muito comum na agricultura brasileira. Deste modo, a intoxicação crônica manifesta-se através
de inúmeras patologias, que atingem vários órgãos e sistemas, com destaque para os problemas
imunológicos, hematológicos, hepáticos, neurológicos, malformações congênitas e tumores.

23
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Acresça-se a isso tudo que a utilização desses produtos em sistemas


abertos (meio ambiente) impossibilita qualquer medida efetiva de controle. Não há como en-
clausurar essas fontes de contaminação e proteger os compartimentos ambientais (agua, solo,
ar) e os ecossistemas. De forma difusa e indeterminada, os consumidores e os trabalhadores
são expostos a esses venenos, que, de modo geral, estão presentes na alimentação da população
e no ambiente de trabalho do agricultor.

Foram divulgadas informações pelo INCA – Instituto Nacional de Cân-


cer José de Alencar Gomes da Silva, em 2012, através do documento denominado “Diretrizes
para a vigilância do câncer relacionado ao trabalho”, cujo trecho transcrito a seguir destaca a
presença de agentes cancerígenos nos agrotóxicos, incluindo o glifosato:

Alguns compostos testados em animais evidenciaram carcinogenicidade, como


os organocloradados, alguns derivados do enxofre e o creosoto, um composto
formado por hidrocarbonetos aromáticos, ácidos e alcatrão, muito utilizados na
preservação da madeira. Outras substâncias são promotoras de tumor, como o
diclorodifeniltricloroetano (DDT), clordane e lindane (IARC, 2010). Em huma-
nos, compostos derivados do arsênio e inseticidas têm sido classificados pela
IARC como cancerígenos.

Estudos epidemiológicos são controversos nos achados que identificam a rela-


ção entre a exposição a agrotóxicos e o aumento do risco de câncer. Associa -
ções positivas entre cânceres hematológicos e exposições ocupacionais a subs-
tâncias químicas foram observadas em estudos de caso-controle no sul do Esta-
do de Minas Gerais para trabalhadores expostos a agrotóxicos ou a preservantes
de madeira e para trabalhadores expostos a solventes orgânicos, lubrificantes,
combustíveis e tintas (Silva, 2008). Solomon et al. (2000) e Clapp et al. (2007)
encontraram relação entre agrotóxicos e câncer, incluindo os cânceres hemato-
lógicos, do trato respiratório, gastrointestinais e do trato urinário, entre outros.
Wijngaarden et al. (2003) descrevem a exposição intrauterina e a ocorrência de
câncer do cérebro na criança. Miligi et al. (2006) associaram a exposição a her-
bicidas fenoxiacéticos com aumento de risco para sarcoma, linfoma não
Hodgkin, mieloma múltiplo e leucemias; exposição a triazinas (herbicidas) ao
aumento de risco para câncer do ovário; exposição a inseticidas organofosfora-

24
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

dos ao aumento de risco para linfoma não Hodgkin, leucemias e câncer da


próstata e a exposição a organoclorados ao aumento de risco para câncer da
mama. Ainda sobre o câncer da mama, Snedeker (2001) observou resultados
controversos entre câncer e níveis sanguíneos ou no tecido adiposo do insetici-
da DDT e de seu metabólito diclorodifenildicloroetileno (DDE).

Para o herbicida Glifosato, amplamente comercializado no país, estudos relaci-


onam a ocorrência de linfoma não Hodgkin (Hardell et al., 2002; De Ross et
al., 2003; Cox, 2004) e mieloma múltiplo (De Ross et al., 2005).

Outros estudos indicam associação positiva entre o uso de carbofurano (metil-


carbamato de benzofuranila) e o desenvolvimento de câncer do pulmão (Bon-
ner et al., 2005) e o uso do herbicida Paraquat e tumores no SNC (Lee et al.,
2005). Além dos agrotóxicos já citados, alguns contaminantes em formulações
comerciais também podem apresentar aumento de risco para câncer.

O grande número de estudos que apontam o potencial cancerígeno dos agro-


tóxicos e a ocorrência de outros agravos à saúde humana relacionados a esses
produtos colocam o uso extensivo desses químicos no centro das preocupações
da Saúde Pública. A complexidade das medidas de prevenção que urgem ser
discutidas e adotadas no país resultam de sua utilização de forma descontrola -
da, a associação entre diversos tipos e marcas de agrotóxicos e a naturalização
de sua manipulação. (INCA. Coordenação Geral de Ações Estratégicas. Coor-
denação de Prevenção e Vigilância. Área de Vigilância do Câncer relacionado
ao Trabalho e ao Ambiente. Diretrizes para a vigilância do câncer relacionado
ao trabalho. Organizadora Fátima Sueli Neto Ribeiro. Rio de Janeiro: INCA,
2012, p. 37-38)

Conforme dados retirados do Dossiê Abrasco14, há cerca de 430 ingredi-


entes ativos (IAs), 750 produtos técnicos e 1.400 formulações de agrotóxicos estão autorizados
no Brasil. Porém, dos cinquenta mais utilizados nas lavouras de nosso pais, 22 são proibidos na
União Europeia. Com relação a alguns ingredientes ativos, o referido Dossiê menciona estudos
a respaldar as seguintes conclusões: a) a cipermetrina induziu a promoção de tumores em ca-
14 Dossiê Abrasco: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. 2015 Rio de Janeiro / São Paulo
Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio Expressão Popular. Acessado em 23 de julho de 2018:
https://www.abrasco.org.br/dossieagrotoxicos/wp-content/uploads/2013/10/DossieAbrasco_2015_web.pdf

25
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

mundongos (SHUKLA; YADAV; ARORA, 2002); b) a permetrina (classe III), inseticida, esta
associada a mieloma múltiplo em seres humanos (RUSIECKI et al., 2009) e é classificada
como possível carcinógeno pela agencia de proteção ambiental norte-americana (US-EPA); c)
o endosulfan induziu a proliferação, in vitro, de células de câncer de mama humanas – MCF-7
(JE et al., 2005) e pode, dessa maneira, estar envolvidos no desenvolvimento de câncer de
mama, provavelmente devido ao seu potencial estrogênico (SOTO; CHUNG; SONNENS-
CHEIN, 1994).

Em março de 2015 a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer –


IARC – analisou 5 ingredientes ativos de agrotóxicos em 11 países, incluindo o Brasil. Con-
cluiu, em consonância com pesquisas do INCA, que o glifosato – usualmente usado para eli-
minação de ervas daninhas no Brasil, tanto que os produtos que o contém são popularmente
chamados de “mata mato” – e os inseticidas malationa e diazinona são prováveis agentes carci-
nogênicos (causadores de câncer) para humanos. Os inseticidas tetraclorvinfós e parationa fo-
ram classificados como possíveis agentes carcinogênicos para humanos.

O problema do uso irregular e abusivo de agrotóxicos é tal grave


que um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contamina-
do pelos agrotóxicos, segundo análise de amostras coletadas em todas os 26 estados do Brasil,
realizada pelo Programa de Analise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) da
Anvisa (2011)15. As amostras evidenciaram que 28% apresentaram Ias (ingredientes ativos)
não autorizados (NAs) para aquele cultivo e/ou ultrapassaram os limites máximos de resíduos
(LMRs) considerados aceitáveis.

A gravidade do tema também se manifesta na circunstância de que re-


cente publicação relevou que a água do brasileiro está contaminada com substâncias que
podem causar doenças graves, tendo sido encontrado um coquetel que mistura diferentes
agrotóxicos na água de 1 em cada 4 cidades do Brasil entre 2014 e 2017 16. Os dados são do
Ministério da Saúde e foram obtidos e tratados em investigação conjunta da Repórter Brasil,
Agência Pública e a organização suíça Public Eye. Os números revelam que a contaminação da

15 Estudo contido no seguinte site: http://portal.anvisa.gov.br/documents/111215/446359/Programa+de+An


%C3%A1lise+de+Res%C3%ADduos+de+Agrot%C3%B3xicos+-+Relat%C3%B3rio+2011+e+2012+
%281%C2%BA+etapa%29/d5e91ef0-4235-4872-b180-99610507d8d5. Acesso em 23.07.2018.
16 https://exame.abril.com.br/brasil/1-em-4-municipios-tem-coquetel-com-agrotoxicos-na-agua-consulte-o-seu/
26
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

água está aumentando a passos largos e constantes. Em 2014, 75% dos testes detectaram agro-
tóxicos. Subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. Nesse
ritmo, em alguns anos, pode ficar difícil encontrar água sem agrotóxico nas torneiras do país.

É sabido que os trabalhadores representam o lado mais fraco na relação


e, justamente por isso, há necessidade de empreender ações que visem resguardar a saúde e in-
tegridade física deles.

Como se verá, especificamente com relação ao princípio ativo glifosato,


a única providência capaz de ensejar a proteção da saúde dos trabalhadores rurais é a vedação
de seu uso, dadas as inexoráveis consequências nocivas que a exposição a ele acarreta.

6. PRINCÍPIO ATIVO GLIFOSATO. NECESSIDADE DE SUA


NÃO UTILIZAÇÃO COMO ÚNICA MEDIDA PARA TUTELAR
DE FORMA EFICAZ A SAÚDE DOS TRABALHADORES
RURAIS.

Conforme acima afirmado, o glifosato é largamente utilizado na


agricultura no Estado do Mato Grosso, notadamente no cultivo de milho, soja e algodão.

Sucede, porém, que inúmeros estudos nacionais e internacionais


apontam para a nocividade de tal substância para a saúde humana e para o meio ambiente em
geral.

Em março de 2015 a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer –


IARC – analisou 5 ingredientes ativos de agrotóxicos em 11 países, incluindo o Brasil.
Concluiu, em consonância com pesquisas do INCA, que o glifosato é provável agente
carcinogênico (causadores de câncer) para humanos.

Parecer NEAST/ISC/UFMT sobre a Consulta Pública 631/2019 da


Resolução de Diretoria Colegiada - ANVISA, elaborado por pesquisadores da UFMT (anexo),
revela o risco que o glifosato possui para a saúde humana, conforme síntese que se passa a
realizar.

27
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Recomenda-se, contudo, a leitura integral e atenta do referido


documento.

O parecer menciona que o glifosato é utilizado sobretudo na agricultura


para matar plantas denominadas de invasoras de culturas de transgênicos [organismos vivos
geneticamente modificados, principalmente, para apresentar resistência às pragas ou resistir a
aplicação de herbicidas], além de ser usado como dessecante [produto capaz de agilizar a
secagem da planta] para facilitar a colheita de grãos como soja e trigo.

Conforme estudo mencionado sobre o glifosato 17, “o seu banimento, em


função dos efeitos tóxicos, tem sido descrito em vários artigos científicos. Mal de Alzheimer,
depressão, câncer, infertilidade, problemas de má formação em crianças, até autismo e
neurotoxidade, eram todos aspectos que não se conheciam e que agora estão sendo demonstrados.
Muitos dos problemas que o glifosato causa são por que ele interfere na atividade das bactérias
que ajudam o nosso corpo, ele mata as bactérias ”. O mesmo estudo observa que a
“produtividade agrícola está sendo ameaçada. Ele afeta o ecossistema agrícola de forma muitas
vezes até irreversível, pois o solo é um material vivo e o glifosato mata todas essas bactérias,
prejudicando sua fertilidade. Muitas cidades também já estão apresentando análise de água
contendo resíduos do herbicida”.

De acordo com o parecer, a ONG “Moms Across America” publicou


resultados de testes sobre o tema 18, concluindo que o princípio ativo está presente no leite
materno, na urina de homens e mulheres e na água.

De outro lado, o parecer menciona que a dupla de cientistas Samsel &


Seneff, um deles membro do prestigioso MIT (Massachussets Institute of Technology),
publicaram uma série de cinco trabalhos19 de revisão de literatura nos quais conseguiram
estabelecer relações, em alguns casos altamente significativas, entre o aumento do uso do
glifosato a nível mundial e a incidência de nada mais nada menos que 28 tipos de doenças
17 UFSC, 2015. Uso de glifosato pode causar riscos à saúde, indica parecer técnico de pesquisadores da UFSC.
Disponivel em http://www.ihu.unisinos.br/169-noticias/noticias-2015/545120-uso-de-glifosato-pode-causar-
riscos-a-saude-indica-parecer-tecnico-de-pesquisadores-da-ufsc. Acesso em 20.04.2019

18 (http://www.momsacrossamerica.com/glyphosate_testing_results),
19 Samsel, A. & S. Seneff. (2013) Glyphosate, pathways to modern diseases II: Celiac Sprue and gluten
intolerance, Interdisciplinary Toxicology, Review Article.

28
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

que incluem autismo, depressão, doença celíaca, intolerância ao glúten, destruição das
bactérias intestinais, depressão das enzimas CYP em plantas e animais, transporte do
sulfato do intestino para o fígado e pâncreas, deficiência de cobalamina (B12), anemia e
carência de ferro, deficiência de molibdênio, problemas tireoidianos, doenças renais,
deficiências nutricionais, câncer, Alzheimer, obesidade, diabetes, Doenças Hepáticas
(esteatose), problemas digestivos, refluxo ácido, infertilidade, distúrbios sexuais,
problemas na pele, escleroderma, falta de vitamina D e Folato, imobilização de minerais
necessários entre outros.

Nesse sentido, o estudo citado pelo parecer demonstra significativa


correlação entre incidência de autismo em crianças de 6 anos de idade e a quantidade de
glifosato usada em soja e milho, conforme quadro abaixo:

29
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Samsel declarou20, perante o Congresso dos EUA, que “ o Glifosato


destrói a vida no seu nível mais fundamental ao promover a inclusão de um amino ácido
sintético (glifosato), que não existe na Natureza, em proteínas, enzimas e peptídeos. Essa falsa
incorporação muda drasticamente a função para a qual aquela proteína ou aquela enzima estava
programada e, devido a isso, uma série de eventos bioquímicos indesejáveis passam a acontecer,
o que explicaria essa gama tão vasta de doenças causadas pelo glifosato ”.

Consoante conclusão da fase piloto do Estudo Global sobre Glifosato


conduzido por Daniele Mandrioli, coordenador da atividade de pesquisa do Instituto
Ramazzini de Bologna, o glifosato danifica o microbioma intestinal de ratos nascidos de mães
expostas a concentrações consideradas seguras desse composto, com efeitos significativos e
potencialmente prejudiciais. Além disso, "mesmo as breve exposição podem alterar o
desenvolvimento sexual e danificar a estrutura de DNA ”. De acordo com o mesmo estudo, “no
que diz respeito a genotoxicidade, foi observado um aumento significativo de aberrações
cromossômicas nas células da medula óssea dos ratos tratados com o glifosato, em especial nas
fases iniciais de vida (18). Os efeitos sobre o ser humano: os estudos em humanos parecem menos
consistentes. Análises baseadas em marcadores de sangue de comunidades expostas ao herbicida
demonstraram que o glifosato causa danos na estrutura do DNA e dos cromossomos. Mas os
efeitos a longo prazo da exposição ao glifosato são ainda pouco conhecidos. A Agência de
Pesquisa sobre o Câncer da Organização Mundial da Saúde já em 2015 tinha listado o herbicida
entre os "provavelmente cancerígenos”.

A partir dos dados trazidos, o parecer conclui que “um produto como
esse deveria ser, naturalmente, proibido em função dos danos e dos impactos que ele causa
tanto na saúde humana quanto ao meio ambiente. A impressão que tenho é que nós deveríamos
recomendar aos agrônomos que evitem fazer o receituário desses produtos. E aos agricultores
que tomem cuidado e não usem produtos como esse em larga escala porque os primeiros
prejudicados serão os próprios agricultores ” (grifei).

20 Samsel, A.(2016) Glyphosate herbicide pathway to Modern Diseases- Synthetic . Amino Acid
analogue of Glycine misincorporated into diverse proteins, U.S. . Congressional Hearing on
Glyphosate, June 14, 2016. Fonte DSP:
https://institutodeagriculturabiologica.org/2017/01/19/glifosato/amp/. Acesso em 19.04.2019.

30
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Outrossim, o parecer ressalta que o governo francês em 2017 anunciou a


proibição até 2022 para o uso do glifosato em seu território (PRESSINOTT, 2017).

O estudo ainda destaca que nos EUA a Monsanto/Bayer já foi condenada


em 3 (três) ocasiões por vítimas de câncer provocado pelo glifosato, havendo caso no qual
jardineiro era exposto diretamente a esse único princípio ativo em sua atividade laboral. Na
maior das condenações, o valor da reparação de danos chegou a U$ 2 bilhões. Há ainda mais
de 11 mil processos semelhantes tramitando.

Além dos problemas relativos à intoxicação aguda, a intoxicação crônica


é aquela que “se caracteriza pela exposição ao longo da vida, por anos, podendo ser durante dez,
15 anos. É uma exposição a pequenas quantidades, mas durante longos períodos. Neste caso, são
atingidos os trabalhadores da agricultura e da indústria, expostos no ambiente de trabalho, mas
também a população de uma maneira geral, exposta aos agrotóxicos através do consumo de água
e alimentos contaminados” (página 18 do parecer).

Com relação também à intoxicação crônica, o texto pondera que “ há


inúmeros efeitos bastante graves. Um deles é sobre o sistema nervoso central – o desenvolvimento
de Parkinson entre agricultores, por exemplo, já foi associado à exposição crônica a agrotóxicos.
Isso porque já está comprovado que os agrotóxicos atuam sobre algumas moléculas, alguns
ingredientes ativos de determinadas substâncias interagem com o sistema nervoso, causando
danos como tremores e neuropatias periféricas. Há, também, os problemas associados ao sistema
endócrino, que chamamos de desregulação hormonal, ou seja, de alteração na produção de
hormônios da tireoide, do estrogênio ou da testosterona. Nós observamos um aumento de
trabalhadores expostos a agrotóxicos com problemas de tireoide ”.

De outro lado, no que se refere à população atingida, o parecer confirma


a grave exposição de trabalhadores rurais:

Pode-se afirmar, portanto, que a população mais atingida é a rural?


Sim, tanto trabalhadores agrícolas quanto moradores do espaço rural. Há
um tipo de exposição, que chamamos de exposição ambiental, que atinge,
por exemplo, a família do agricultor. Ele tem uma lavoura em casa, por
exemplo, mas mora ao lado de uma grande plantação que faz uso de
agrotóxicos. O vento e a chuva irão trazer para perto dessa família todas as
31
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

substâncias aplicadas naquela plantação. Uma criança brincando no quintal


dessa casa, especialmente, vai sofrer com essa exposição. Além disso, tem a
questão de lavar os equipamentos usados na plantação em casa, de lavar as
roupas sujas do trabalho, contaminadas de agrotóxicos, junto com as outras
roupas da família, entre outros casos

O documento ainda relaciona a doença renal crônica (DRD) à exposição


a agrotóxicos por parte de trabalhadores rurais (página 30 e seguintes), consistindo esse agravo
na lesão renal e perda progressiva e irreversível da função dos rins (glomerular, tubular e
endócrina).

Nas proposições, o parecer sugere “como estratégia Mundial de


Precaução e pelas robustas pesquisas, já terem amplamente demonstrado o risco do Glifosato
para a vida humana e para os ambientes, que este produto seja, imediatamente, proibido no
Brasil, sob pena dos mantenedores e aprovadores da disponibilidade deste produtos, sejam
responsabilizados, civil, ambiental e criminalmente, pelos agravos humanos e danos ambientais
que ele produz, seja em que tempo for, uma vez que os agravos são imediatos (agudos) e mediatos
(crônicos)” (página 60).

Os dados, estudos e pesquisas científicas acima mencionados apontam


para a conclusão de que não é possível ao produtor rural assegurar o uso do glifosato de forma
completamente segura aos trabalhadores.

Diante de todo o exposto, está claro que a classe dos trabalhadores rurais
é aquela mais intensamente exposta aos efeitos deletérios do princípio ativo glifosato. É o
trabalhador rural que tem o contato mais próximo e imediato com a referida substância, seja no
seu armazenamento, transporte, preparo, aplicação ou descarte.

Por mais que haja medidas de proteção abstratamente cominadas,


inclusive na NR 31, é notória a dificuldade de assegurar seu cumprimento no contexto do
interior do Estado do Mato Grosso.

A NR-31 enfatiza a leitura das informações contidas no rótulo, mas as


pesquisas de percepção de risco dos trabalhadores em contato com os agrotóxicos indicam que
32
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

boa parte deles tem baixo grau de escolaridade e dificuldades em compreender os rótulos
e bulas dos produtos, o que tem relação direta com o fato de que estes possuem uma
linguagem técnica que não é alcançada pelos trabalhadores em razão das deficiências de
formação destes, conforme demonstram diversos estudos (ABREU; ALONZO, 2014;
BOHNER, 2015; ESPÍNDOLA, 2011; MOURA, 2005)21.

A informalidade no campo e a baixa instrução dos trabalhadores rurais


(muitos analfabetos, que não tem capacidade de ler bulas) e até de muitos produtores, ademais,
são fatores que embaraçam significativamente a observância das normas de segurança.

As altas temperaturas do Estado, ainda, impedem o uso correto dos


Equipamentos de Proteção Individual (EPI´s), os quais não devem propiciar “desconforto
térmico prejudicial ao trabalhador” (item 31.8.9, “a” da NR 31). Mas como garantir conforto
térmico considerado todo o aparato exigido para a aplicação do veneno e as altas temperaturas
no campo dentro do Estado?

A impossibilidade de seguir as normas de segurança resulta ainda das


próprias recomendações dos fabricantes. A bula do ROUNDUP ORIGINAL DI (anexa) da
Monsanto, por exemplo, prescreve recomendações inexequíveis no Estado do Mato Grosso
para aplicação de veneno por pulverização aérea:

Condições climáticas:

Temperatura máxima: 28° C

21 ABREU, P. H. B. de; ALONZO, H. G. A. O agricultor familiar e o uso (in)seguro de agrotóxicos no


município de Lavras/MG. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.191, n. 10, p. 4197- 4208, 2014.
Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbso/v41/2317-6369-rbso-41-e18.pdf>. Acesso em 02.03.2017.
BOHNER, T. O. L. Agrotóxicos e Sustentabilidade: percepção dos sujeitos sociais no meio rural. 2015. 103f.
Dissertação (Mestrado em Extensão Rural). – Centro de Ciências Rurais – Universidade Federal de Santa Maria,
Santa Maria, 2015. Disponível em: <http://w3.ufsm.br/ppgexr/images/dissertacoes/Disserta
%C3%A7%C3%A3o_TANNY_OLIVEIR A_LIMA_BOHNER.pdf>. Acesso em 12.02.2018.
ESPÍNDOLA, E. A. Análise da Percepção de Risco do Uso de Agrotóxicos em Áreas Rurais: um estudo junto
aos agricultores no município de Bom Repouso/MG. 155f. Tese (Doutorado em Ciências da Engenharia
Ambiental) – Escola de Engenharia de São Carlos – Universidade de São Paulo. São Carlos, 2011. Disponívem
em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18139/tde- 09062011-152841/pt-br.php>. Acesso em
12.02.2018.
MOURA, N. N. Percepção de risco do uso de agrotóxicos: o caso dos produtores de São José de Ubá/RJ. 92f.
Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade) – Instituto de Ciências Humanas e Sociais
– Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2005. Disponível em:
<http://livros01.livrosgratis.com.br/cp051136.pdfhttp://livros01.livrosgratis.com.br/cp051136.pdf >. Acesso em
12.02.2018.
33
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Umidade relativa mínima: 55%

Velocidade do vento máx.: 10 km/h (3 m/s)

Em caso de dúvidas ou mudança de aeronave, realizar testes de campo com


papel sensível, ou consultar empresa aplicadora ou o departamento técnico da
MONSANTO DO BRASIL LTDA.

Nesse cenário, desfalece o discurso de que seria viável garantir a


utilização segura do glifosato, dada a total impossibilidade de cumprimento inclusive das
recomendações do fabricante.

Contudo, ainda que se observando todas as normas de segurança, não é


possível garantir, efetivamente, a saúde dos trabalhadores rurais no que se refere à exposição
ao glifosato.

Caso se cumpram todos as regras existentes, como fornecimento de


capacitação (item 31.8.8 da NR 31), observância da receita e indicações do rótulo e bula (item
31.8.4 da NR 31), fornecimento de EPI, vestimentas adequadas ao risco e sua higienização
(item 31.8.9), entre outras dezenas de normas de segurança, pode-se até garantir a não
ocorrência de intoxicações agudas dos empregados, que se manifestam através de um conjunto
de sinais e sintomas, que se apresentam de forma súbita.

No entanto, a exposição contínua a esse princípio ativo, inclusive com a


sua acumulação no corpo através do tempo, provoca doenças crônicas aos trabalhadores
expostos. Não é concebível, aqui, nenhuma providência capaz de neutralizar os riscos à saúde
que não seja evitar a exposição de seres humanos, impondo-se a proibição de utilização do
princípio ativo.

Lembre-se que inseticida Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT), por


exemplo, foi proibido a partir da década de 1970 em todo o mundo: descobriu-se que interferia
na cadeia alimentar animal, contribuía para o desenvolvimento de câncer em seres humanos e
se espalhava facilmente pelo ar. Será que é prudente aguardar que todos esses efeitos, também
advindos da exposição ao glifosato, se produzam plenamente, para só então proibir seu uso?

34
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

É necessário que vários seres humanos adoeçam e morram


“comprovadamente” em razão do glifosato até que venha a sua proibição?

Há, nos Estados Unidos, mais de 11 (onze mil) ações indenizatórias


ajuizadas contra determinado fabricante (Monsanto) em razão dos danos causados por
agrotóxico (roundup) à base de glifosato. Tanto que referida empresa já foi condenada ao
menos três vezes, ante a associação do glifosato a ao câncer22.

Assentadas todas as premissas, não há como garantir o uso seguro


de agrotóxicos contendo glifosato para os trabalhadores rurais.

A utilização de substância química notoriamente nociva importa ofensa à


saúde do trabalhador (art. 6º e 196 da CF), à regra que impõe a redução dos riscos do trabalho
(art. 7º, XXII, CF) e aos princípios ambientais da prevenção e precaução. Os riscos à saúde e à
vida decorrentes da exposição ao glifosato se encontram devidamente documentados
cientificamente. Contudo, ainda não haja certeza absoluta sobre essas conclusões, impõe-se a
aplicação do princípio da precaução, ante a existência de danos graves e irreversíveis,
proibindo-se, por conseguinte, a utilização de referido princípio ativo.

A própria lei veda o registro de agrotóxicos que revelem características


teratogênicas, carcinogênicas ou mutagênicas, de acordo com os resultados atualizados de
experiências da comunidade científica (art. 3º, § 6º, “c” da Lei 7.802 de 1989).

Nessa linha, a legislação internacional preceitua que “a autoridade


competente, se for justificado por motivos de segurança e saúde, deverá poder proibir ou
restringir a utilização de certos produtos químicos perigosos ” (art. 5º da Convenção 170 da
OIT). Há, portanto, o dever, e não a faculdade, de proibir, por razões de segurança e saúde
devidamente justificadas, a utilização de produtos químicos nocivos, dever que alcança toda
autoridade competente, inclusive aquelas detentoras do poder jurisdicional.

Destarte, conclusão que decorre disso tudo é a necessidade de imposição


à coletividade substituída do dever de abster-se de utilizar, em seu processo produtivo,
quaisquer agrotóxicos que contenham o princípio ativo glifosato em sua composição.

22 https://exame.abril.com.br/negocios/monsanto-e-condenada-a-pagar-indenizacao-de-us-81-milhoes-
por-negligencia/
35
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

7. NECESSIDADE DA TUTELA INIBITÓRIA, MEDIANTE A


CONDENAÇÃO EM OBRIGAÇÕES DE FAZER E NÃO FAZER.

A tutela inibitória diz com o futuro.

É espécie que se volta contra a prática da própria conduta contrária ao


direito, independentemente da existência de dano ou culpa, tendo viés eminentemente
preventivo, porque se destina a evitar a repetição ou a continuidade de conduta contrária ao
direito.

Nesse sentido esclarecem LUIZ GUILHERME MARINONI e


SÉRGIO CRUZ ARENHART23:

A tutela inibitória é essencialmente preventiva, pois é sempre voltada para o


futuro, destinando-se a impedir a prática de um ilícito, sua repetição ou
continuação.

Trata-se de uma forma de tutela jurisdicional imprescindível dentro da


sociedade contemporânea, em que se multiplicam os exemplos de direitos que
não podem ser adequadamente tutelados pela velha fórmula do equivalente
pecuniário. A tutela inibitória, em outras palavras, é absolutamente necessária
para a proteção dos chamados novos direitos.

O art. 3º da Lei n. 7.347/85, ao destacar que “a ação civil poderá ter por
objeto a condenação em dinheiro ou o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer”,
conferiu expressamente a possibilidade de se postular a tutela inibitória em sede de ação civil
pública. Nesse sentido, também, o art. 497 e 536 do CPC

Art. 497. Na ação que tenha por objeto a prestação de fazer ou de não fazer, o
juiz, se procedente o pedido, concederá a tutela específica ou determinará
providências que assegurem a obtenção de tutela pelo resultado prático equiva-
lente.
Parágrafo único. Para a concessão da tutela específica destinada a inibir a
prática, a reiteração ou a continuação de um ilícito, ou a sua remoção, é ir-
relevante a demonstração da ocorrência de dano ou da existência de culpa
ou dolo.

23 Curso de processo civil - processo de conhecimento. 7ª ed. São Paulo : Revista dos Tribunais,
2008. v.2. pp. 442/443
36
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Art. 536. No cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de obri-


gação de fazer ou de não fazer, o juiz poderá, de ofício ou a requerimento, para
a efetivação da tutela específica ou a obtenção de tutela pelo resultado prático
equivalente, determinar as medidas necessárias à satisfação do exequente.

Na hipótese dos autos, a tutela inibitória está consubstanciada no pedido


de imposição de obrigação de não fazer em face da coletividade demandada (composta por
todos os produtores rurais do Estado do Mato Grosso), ora representada, passivamente, pelas
entidades colocada no polo passivo.

8. TUTELA PROVISÓRIA DE URGÊNCIA ANTECIPADA.

Acham-se devidamente presentes os requisitos para a concessão de tutela


provisória de urgência antecipada incidental, com referências às obrigações de fazer e não
fazer, a teor do arts. 294 e 330 do CPC, 84 § 3º do CDC e art. 12 da Lei 7.347/85.

É que há probabilidade do direito, que está retratada no conjunto de


elementos trazidos auto. Isso porque é fato público e notório, na forma do art. 374, I, do CPC, o
uso massivo de agrotóxicos contendo glifosato por produtores rurais no Estado do Mato
Grosso, bem como está documentado, cientificamente, as consequências inexoravelmente
nocivas que o seu uso acarreta para a saúde dos trabalhadores rurais.

Por outro lado, o perigo de dano se manifesta na circunstância de que as


obrigações requeridas dizem respeito ao meio ambiente do trabalho, com evidente caráter
preventivo, cujo propósito se dirige precipuamente a evitar acidentes de trabalho e doenças
profissionais.

Nessa linha, o contato com glifosato tem aptidão para acarretar o


aparecimento de doenças crônicas, conduzindo ao adoecimento de trabalhadores, com
consequências irreversíveis quanto à sua integridade física e moral, havendo, assim, perigo de
dano necessário ao deferimento da tutela de urgência pretendida.

Note-se que o perigo de aparecimento de doenças crônicas é concreto,

37
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

havendo, nos Estados Unidos, mais de 11 (onze mil) ações indenizatórias ajuizadas contra
determinado fabricante (Monsanto) em razão dos danos causados por agrotóxico (roundup) à
base de glifosato. Tanto que referida empresa já foi condenada ao menos três vezes, ante a
associação do glifosato a ao câncer:

O grupo Monsanto foi declarado culpado, nesta quarta-feira, 28, de


negligência por um júri da Califórnia e condenado a pagar cerca de 81 milhões
de dólares a um aposentado americano que sofre de um câncer que ele atribui
ao polêmico herbicida Roundup.

A sentença representa um grave revés para o gigante alemão Bayer, o


proprietário da Monsanto, que já foi condenada em um julgamento similar
realizado em agosto passado nos Estados Unidos.

O júri considerou que a Monsanto foi “negligente” ao não fazer o suficiente


para alertar os usuários do risco potencialmente cancerígeno do seu produto,
que contém glifosato. Os jurados determinaram que o Roundup tinha um
“defeito de design”, que “carecia” de advertências sanitárias sobre os riscos e
que a Monsanto tinha sido “negligente”.

Em sua decisão, os jurados determinaram que a Monsanto pague ao aposentado


Edwin Hademan 75 milhões de dólares em danos punitivos por conduta, 5,06
milhões de dólares em indenização e 200 mil dólares por gastos médicos.

Em um comunicado, Bayer disse estar “decepcionado com a decisão do juri”,


mas considerou que o veredicto “não muda o peso de 40 anos de ciência e as
conclusões das agências reguladoras de todo o mundo” que afirmam que o
herbicida é “seguro e não cancerígeno”.

Na semana passada, o mesmo júri determinou que a exposição ao Roundup foi


um “fator determinante” no desenvolvimento do câncer de Edwin Hardeman.
Após essa decisão, foi aberta a segunda fase do julgamento, dedicada à
responsabilidade da Monsanto, que se encerrou com a condenação desta quarta-
feira.

A pedido da Bayer, os debates foram organizados em duas fases: uma


“científica”, dedicada à responsabilidade do glifosato na doença, e outra para
abordar uma possível responsabilidade do grupo.
38
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Os advogados de Hardemann, que abraçaram seu cliente quando foi anunciado


o veredicto, se disseram encantados com a decisão unânime do juri. “Está claro
pelas ações da Monsanto que ela não está preocupada se o Roundup causa
câncer, e sim em manipular a opinião pública e desacreditar qualquer um que
expresse preocupações genuínas e legítimas sobre o Roundup”, assinalaram as
advogadas Aimee Wagstaff e Jennifer Moore.

“Diz muito que nenhum funcionário da Monsanto tenha comparecido (ao


julgamento) para defender a segurança do Roundup ou as ações da Monsanto”,
prosseguiram. “Hoje, o juri responsabilizou a Monsanto por seus 40 anos de
malversação corporativa e enviou uma mensagem que a empresa deve mudar
sua forma de fazer negócios”, finalizam.

O caso Hardeman é apenas um dos 11.200 processos similares nos Estados


Unidos envolvendo o Roundup.

(https://exame.abril.com.br/negocios/monsanto-e-condenada-a-pagar-
indenizacao-de-us-81-milhoes-por-negligencia/) grifei

Nos últimos dias, aliás, foi publicada matéria jornalística narrando que
“Áustria é o primeiro país da UE a proibir o glifosato, principal agrotóxico utilizado na
produção de soja” (https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/07/02/austria-e-
o-primeiro-pais-da-ue-a-proibir-o-glifosato-principal-agrotoxico-utilizado-na-producao-de-
soja.ghtml ).

Portanto, o deferimento da tutela de urgência é essencial para ao menos


diminuir os efeitos negativos à saúde humana causados pelo referido princípio ativo, evitando-
se a exposição prolongada que gera graves doenças crônicas.

A Justiça tem uma decisão a tomar. Acolher a tutela de urgência para ao


menos mitigar e neutralizar parcialmente o aparecimento de doenças crônicas como o câncer,
ou se contentar a, no futuro, proferir condenações em pecúnia em virtude de danos à saúde já
materializados.

39
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Lembre-se que inseticida Dicloro-Difenil-Tricloroetano (DDT), por


exemplo, foi proibido a partir da década de 1970 em todo o mundo: descobriu-se que interferia
na cadeia alimentar animal, contribuía para o desenvolvimento de câncer em seres humanos e
se espalhava facilmente pelo ar. Será que é prudente aguardar que todos esses efeitos, também
advindos da exposição ao glifosato, se produzam plenamente, para só então proibir seu uso?

No que diz respeito à aplicação de astreintes, em caso de


descumprimento das obrigações supra, pleiteia-se multa no valor R$ 1.000.000,00 (um milhão
de reais), por produtor rural que venha a descumprir a decisão judicial, a cada constatação de
descumprimento.

Com relação ao prazo para cumprimento, considerando que o


adimplemento da obrigação de não fazer é de complexa materialização, bem como a larga
utilização do glifosato na agricultura do Estado, reputa-se razoável a concessão de prazo de 12
meses (365 dias) para seu cumprimento, a contar do ajuizamento da presente ação, ou outro
prazo a ser fixado por Vossa Excelência.

9. PEDIDOS

Em face do exposto, pleiteia o Ministério Público do Trabalho a


procedência dos pedidos da presente ação civil pública para condenar toda a coletividade
substituída (produtores rurais no Estado do Mato Grosso), em sede de tutela provisória, a ser
posteriormente confirmada em sede de tutela definitiva, no cumprimento da seguinte
obrigação de não fazer:

9.1 Abster-se de utilizar, em seu processo produtivo, quaisquer


agrotóxicos, adjuvantes e afins (art. 2º da Lei 7.802/89) que contenham o princípio ativo
glifosato em sua composição.

Deve ser declarado, de forma expressa, que a decisão atingirá, obri-


gando-os juridicamente, todos os produtores rurais que compõem a coletividade demandada,
ora representados pelas entidades rés.

40
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

No que diz respeito à aplicação de astreintes, em caso de descumprimento


das obrigações supra, pleiteia-se multa no valor R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais), por
produtor rural que venha a descumprir a decisão judicial, a cada constatação de
descumprimento.

Com relação ao prazo para cumprimento, considerando que o


adimplemento da obrigação de não fazer é de complexa materialização, bem como a larga
utilização do glifosato na agricultura do Estado, reputa-se razoável a concessão de prazo de 12
meses (365 dias) para seu cumprimento, a contar do ajuizamento da presente ação, ou outro
prazo a ser fixado por Vossa Excelência.

Requer-se, por fim, sejam oficiados o IBAMA – Instituto Brasileiro do


Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Av. Historiador Rubens de Mendonça,
5350 - Centro Político Administrativo, Cuiabá - MT, 78050-970), e o INDEA – Instituto de
Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Avenida Arquimedes Pereira Lima, 1.000 - Bairro
Jardim Itália - Cuiabá - Mato Grosso – Brasil CEP: 78060-746) para tomar ciência da decisão e
realizar cronograma de ações a fim de fiscalizar a determinação judicial, juntando-o nos autos
no prazo de 60 dias.

10. REQUERIMENTOS FINAIS

O Ministério Público do Trabalho, ainda, requer:

10.1 A citação dos réus no(s) endereço(s) indicado(s) no preâmbulo,


para, querendo, contestar a presente ação, sob pena de se presumirem verdadeiros os fatos ora
articulados;

10.2 A produção por todos os meios de prova em direito admitidos, tais


como o depoimento pessoal da ré, juntada de documentos e oitiva de testemunhas, dentre
outros;

10.3 A intimação pessoal e nos autos do Ministério Público do Trabalho,


na forma do disposto no art. 18, inciso II, alínea 'h', da Lei Complementar Nº 75/93, e no art.

41
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

75 da Consolidação Normativa de Provimentos da Corregedoria Regional do TRT da 23ª


Região (MT);

10.4 A procedência dos pedidos e a condenação da demandada ao


pagamento das custas e despesas processuais; e

10.5 A não designação de audiência inicial, exceto se a demandada


formalizar requerimento manifestando interesse na celebração de acordo, nos termos do
artigo 1º e 5º24 da Recomendação nº 5/2019 da Corregedoria-Geral da Justiça do
Trabalho, exceto se as rés manifestarem interesse na celebração de acordo;

Considerando a relevância da presente demanda, inclusive do ponto de


vista econômica, dá-se à causa o valor de R$ 10.000.000,00 (dez milhões de reais).

Pede deferimento.

Cuiabá, 31 de julho de 2019.

Leonardo Osório Mendonça


Procurador do Trabalho
Coordenador Nacional da CODEMAT/MPT

Ana Gabriela Oliveira de Paula


Procuradora do Trabalho
Coordenadora do GT Agrotóxicos do MPT

Douglas Nunes Vasconcelos


Procurador do Trabalho

24 Art. 1º - Recomendar que, nos processos em que forem partes os entes da Administração Pública Direta, Autarquias e Fundações Públicas, não
seja designada audiência inicial, exceto quando, a requerimento de quaisquer das partes, haja interesse na celebração de acordo.
(...)
Art. 2º – Na hipótese do artigo 1º, o(s) Reclamado(s) será(ão) notificado(s) para, no prazo de 20 (vinte) dias, apresentar defesa escrita mediante
inserção no Processo Judicial Eletrônico (PJe-JT), acompanhada dos documentos que a instruem.
(..)
Art. 5º - Aplicam-se, no que couber, as disposições do presente Provimento às ações civis públicas e ações civis coletivas ajuizadas pelo
Ministério Público do Trabalho, ainda que em face de pessoa jurídica de direito privado.
42
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO

Bruno Choairy Cunha de Lima


Procurador do Trabalho
Coordenador Regional da CODEMAT em Mato Grosso

André Canuto de Figueirêdo Lima


Procurador do Trabalho

Rafael Mondego Figueiredo


Procurador-Chefe da PRT23

Marcelo Caetano Vacchiano


15ªPromotoria de Justiça

Joelson de Campos Maciel


16ª Promotoria de Justiça

Luiz Alberto Esteves Scaloppe


Procurador da Justiça

Erich Raphael Masson


Procurador da República

43