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SANTIDADE: UMA CONVOCAÇÃO DO SENHOR.

Por Jefferson Rodrigues1

INTRODUÇÃO:

A carta de Pedro é um chamado a esperança como bem colocou o autor da lição bíblica
de jovens deste trimestre, Valmir Nascimento Milomem Santos. Contudo, além de convidar os
crentes perseguidos a viverem a Esperança de Cristo, o apostolo pescador faz um chamamento
que nos apresenta uma forte ligação com o texto levítico, livro que estabelece um verdadeiro
manual de separação para o povo de Deus. De igual modo, Pedro chama o povo de Deus da
Nova Aliança a viver uma vida de santidade, afinal, para ele, a Igreja deveria ser santa, como
Santo é aquele que nos chamou (1 Pe 1.16)

Diante do exposto, e como subsídio para a terceira lição é pertinente que


compreendamos o conceito que envolve a santidade, bem como sua exposição nas Sagradas
Escrituras, especialmente nestes últimos tempos, onde santidade tornou-se apenas um tema
para as inúmeras festas promovidas pelas igrejas no Brasil. É urgente que o apelo de Pedro para
um viver santo seja ouvido e praticado por todos aqueles que mantém a esperança da fé acesa.

I. CONCEITUANDO SANTIDADE

Conhecer a origem das palavras é um passo importantíssimo para que tenhamos


maiores recursos na exposição do tema. O adjetivo santidade, pode ser definido como “a
qualidade ou característica de quem pode ser considerado santo, ou seja, dotado de virtudes,
inocência, piedade e pureza2”. Este é um conceito intimamente relacionado com a religiosidade
e a fé. Para nós cristãos, a santificação é o processo de tornar algo ou alguém santo, ou seja, que
possui santidade. Em outras palavras a santidade é um processo de separação do cristão das
coisas que o afasta de Deus.

Ao estudarmos a exposição do substantivo santo, do verbo santificar e do adjetivo


santidade nas Escrituras veremos que sua abrangência é ainda maior. No Antigo Testamento
veremos as palavras hebraicas Qodesh, Qadash, Quidash e Qadosh, todas com a raiz qdsh,
apresentando um significado bem expressivo: separação. De acordo com o biblista Champlin:
“[...] no emprego dessa raiz temos a ideia de ‘separação’ para uso santo ou reconhecimento
como sagrado3”. Veremos que para o povo de Deus no Antigo Testamento esta palavra era
importantíssima, pois só no pentateuco ela ocorre 350 vezes, destacando que o povo de Deus
deve ser separado das práticas dos demais povos.

No Novo Testamento o termo prioritário para santidade é o adjetivo grego “hagios”,


que de acordo com o dicionário Vine: “ [...] significa fundamentalmente ‘separado’, e por
conseguinte, nas Escrituras, em seu significado moral e espiritual, separado do pecado e,
portanto, consagrado a Deus4”. Assim, em ambos os testamentos vemos que as palavras usadas
pelos autores sacros para definir santidade têm a ideia geral de uma separação entre o crente e
o mundo que o cerca. É logico que tal separação não é uma alienação da realidade que nos

1
Jefferson Rodrigues, é Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Piauí, Licenciado em História
pela Universidade Estadual do Piauí, com especialização em Estados, Movimentos Sociais e Cultura pela
mesma universidade. É Evangelista na Assembleia de Deus em Teresina-PI, Campo do Aeroporto, onde é
coordenador de EBD. Também é membro da Academia Evangélica de Letras do Piauí. Cadeira 32.
2
Disponivel em: <https://www.significados.com.br/santidade/> acesso em 18/07/19
3
CHAMPLIN, 2015, p.83, Vl 6.
4
VINE; UNGER e et al, 2012, p. 970
rodeia e muito menos uma convocação para um viver monástico e isolacionista. Não obstante,
mesmo vivendo no mundo, o cristão precisa compreender que Deus requer de nós uma vida
que o agrade e para tal é fundamental que nossas escolhas deixem claro quem ocupa o primeiro
lugar em nossas vidas.

II. UM DEUS SANTO CHAMA PARA SI UM POVO SANTO

Quando falamos em santidade é preciso estabelecer que tal atributo jamais poderá ter
início no homem, pois em essência o homem é pecador. A santidade tem seu início no próprio
Deus, que é Todo Santo. Fazemos esta afirmação com base no conceito primaz de que Deus é a
própria essência da santidade. Na verdade, a Bíblia nos diz que o Senhor Deus é Santo (Lv 19.2),
portanto, ele não se tornou, nem foi, Ele é. O ato de ser mostra seu caráter continuo de
santidade e sua total separação do pecado. Por Ele ser totalmente santo, é preciso que o seu
povo busque separar-se para que mantenham um relacionamento de reciprocidade com ele. É
por esta razão que encontramos Wayne Grudem trazendo uma valorosa afirmação: “A
santidade de Deus traça o parâmetro que o seu povo deve imitar5”. Tanto no Antigo como no
Novo Testamento a ordem do Senhor para seu povo é uma só: Sejam Santos (Lv 19.2; 1 Pe 1.16)!

Diante do exposto, entendemos que a santidade é ponto crucial para uma vida cristã
saudável. Infelizmente nos últimos tempos o tema parece estar fora de moda e muitos têm
seguido a ideia de que “nada que eu fizer interferirá na minha santidade”. Na verdade, parece
que estamos voltando ao século I e II, onde alguns grupos heréticos, conhecidos como gnósticos,
defendiam a ideia de que o corpo em sua essência era mal, e, portanto, nada que fosse feito no
corpo ecoaria para a eternidade. É com o propósito de combater esses ensinos heréticos que o
Apóstolo João escreve sua I Carta e declara: “Se afirmarmos que não temos cometido pecado,
fazemos de Deus um mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1 Jo 1.10). Com esta afirmação
João apontava que todos nós somos pecadores e carecemos da interferência salvífica do Senhor
para prosseguirmos (VIVERMOS) uma vida de comunhão com Deus, afinal, a santificação é pré-
requisito para contemplarmos o Senhor (Hb 12.14).

Não obstante a estas verdades, seguem-se algumas perguntas: o que posso fazer para
corroborar com este processo de santificação? Tenho alguma participação, ou tudo depende de
Deus?

São todas perguntas pertinentes que, para respondê-las como de fato deveria ser
feito, seria necessário escrever outro artigo abordando apenas estes aspectos da santidade.
Contudo, vamos tentar nestas breves linhas traçar um percurso que venha a contribuir para
dirimir tais dúvidas, especialmente, no tocante à manutenção de uma vida santa em todos os
aspectos.

Segundo o mestre Antônio Gilberto a santificação progressiva “É temporal, vivencial.


É a santificação experimental, ou seja, na experiência humana, no dia-a-dia do crente” . Desta
forma a Palavra de Deus nos orienta: “Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do
mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-
se inimigo de Deus”(Tg 4.4). O mundo aqui se refere ao seu sistema corrupto e que fatalmente
nos levará para longe da vontade do Senhor. Assim, nós, como caminhantes neste mundo não
podemos comungar de todos os modelos impostos pelo sistema vigente, afinal, “sabemos que
somos de Deus, e que todo o mundo está no maligno”(1 Jo 5.19).

5
GRUDEM, 2014, p. 148
Mas afinal, quais são os passos que devem seguir aqueles que visam alcançar uma vida
de santidade?

Talvez o leitor esteja indagando: como poderei me santificar em meio a um mundo


corrompido? Apontaremos três requisitos fundamentais para a santificação do crente e para a
consequente vitória sobre um mundo corrompido, são eles:

1. O sangue de Jesus (1 Jo 1.7 ): É através do sangue de Jesus que somos lavados


de nossos pecados e podemos novamente ter acesso à presença do Senhor. Desta forma, o
escritor aos hebreus afirmar que: “E por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu
próprio sangue, padeceu fora da porta”(Hb 13.12). Somente através do sacrifício de Jesus
obtemos a carta de liberdade e podemos então ser justificados e por fim santificados!

2. Pela Palavra de Deus (Sl 119. 11): O salmista afirma que escondeu a Palavra do
Senhor em seu coração para não pecar. Da mesma forma nós cristãos atuais e que desejamos
viver a plenitude do Reino de Deus, devemos balizar nossas ações através dos padrões da Bíblia.
Ela é a bússola que nos conduzirá a uma vida de separação das coisas profanas e nos aproximará
do Senhor, por isto Jesus declara aos seus discípulos: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos
tenho falado”(Jo 15.3). É através dela que nos limpamos do pecado e conhecemos a vontade do
Senhor. Glórias a Deus por este eficiente mecanismo de santificação proporcionado pelo nosso
Deus!

3. O Espírito Santo (Jo 16.8-13). Quando o Senhor Jesus falava a respeito da obra
do Espírito Santo, destacou o importante papel deste agente Divino no convencimento do
homem a respeito da sua condição de pecador. Assim, o Espírito Santo seria responsável por
guiar os cristãos em “toda a verdade” (Jo 16.13) e isto inclui fazer o que é do agrado do Senhor;
em escolher a melhor parte (Lc 10.42), ou seja, fazer a vontade do Pai! Sem a ajuda do Espírito
Santo não conseguiremos prosseguir nem vencer a luta contra a carne, é por isso que Paulo
afirma: “Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa
milícia não são carnais, mas sim poderosas em Deus para destruição das fortaleza;” (2 Co 10.3,4).
Nossas armas são espirituais e são oferecidas pelo Espírito Santo (Rm 8.1; Ef 6.11-18)! Só Ele nos
fará vencer as tentações diárias e nos ajudará a conseguir alcançar o padrão de excelência cristã.

Eis os primeiros e fundamentais passos para uma vida que siga na direção do Senhor!
Jesus pagou o preço, a Palavra nos dá a direção e o Espírito Santo nos alerta sobre os caminhos
inadequados que por ventura estejamos seguindo. E agora sabendo que é possível sermos
santos, podemos prosseguir na direção de uma caminhada cristã que esteja em conformidade
com a vontade de nosso Deus.

REFERENCIAL BIBLIOGRAFICO
ANDRADE, Claudionor. Adoração, santidade e serviço: Os princípios de Deus
para a sua Igreja em Levítico. 1º edição, Ed. Casa Publicadora das Assembleias de Deus-
CPAD, Rio de Janeiro, 2018.
CHAMPLIN, Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São
Paulo: Hagnos, 2015. Vol. 6.
GILBERTO, Antônio et Al. Teologia Sistemática. 2. ed. Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembleias de Deus, 2008.
SANTOS, Vladimir Milomem. A razão da nossa esperança: alegria, crescimento
e firmeza nas Cartas de Pedro. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias
de Deus, 2019.
VINE, W.E., UNGER, Merril F. Et ali. Dicionário Vinner: O significado exegético
e expositivo das palavras do Antigo e Novo Testamento. 1º edição, Ed. Casa Publicadora
das Assembleias de Deus- CPAD, Rio de Janeiro, 2002.