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Artigo Original

Desafios para a gerência do cuidado em


emergência na perspectiva de enfermeiros
Challenges for the management of emergency
care from the perspective of nurses
José Luís Guedes dos Santos1
Maria Alice Dias da Silva Lima2
Aline Lima Pestana1
Estela Regina Garlet2
Alacoque Lorenzini Erdmann1

Keywords Resumo
Nursing administration research; Objetivo: Analisar os desafios para a gerência do cuidado em um serviço hospitalar de emergência, com base
Nursing service, hospital; Nursing care; na perspectiva de enfermeiros.
Management; Emergency nursing Métodos: Pesquisa qualitativa, do tipo descritiva e exploratória, realizada de junho a setembro/2009, por meio
de entrevista semiestruturada com 20 enfermeiros do Serviço de Emergência de um Hospital Universitário da
Descritores Região Sul do Brasil. Os dados foram analisados mediante análise temática.
Pesquisa em administração de Resultados: Os principais desafios dos enfermeiros na gerência do cuidado em emergência foram
enfermagem; Serviço hospitalar gerenciamento da superlotação, manutenção da qualidade do cuidado e utilização da liderança como
de enfermagem; Cuidados de instrumento gerencial. As sugestões citadas para superá-los foram reorganização do sistema de saúde para
enfermagem; Gerência; Enfermagem atenção às urgências, alteração no fluxo de atendimento dos pacientes e realização de capacitação sobre o
em emergência gerenciamento de enfermagem.
Conclusão: Tais desafios e estratégias representam um impulso para o desenvolvimento de novas práticas por
intermédio de um trabalho colaborativo e articulado com a rede de atenção às urgências.
Submetido
03 de Março de 2012 Abstract
Aceito Objective: To analyze the challenges for the management of care in a hospital emergency department, based
21 de Fevereiro de 2013 on the perspective of nurses.
Methods: A qualitative, descriptive and exploratory study, conducted from June to September 2009, through
semi-structured interviews with 20 nurses in the Emergency Department of a university hospital in southern
region of Brazil. Data were analyzed using thematic analysis.
Results: The main challenges of nursing in managing care in emergency units were: management of
overcrowding, maintaining quality of care, and utilization of leadership as a management tool. The suggestions
mentioned to overcome these were: reorganization of the health system to focus on emergencies, changes in
the flow of patient care, and implementation of training on nursing management.
Conclusion: Such challenges and strategies represented a boost to the development of new practices through
collaborative and coordinated work with the emergency care network.

Corresponding author
Nome: José Luís Guedes dos Santos
Endereço: Rua Servidão Donato José
Alves, 95/4, Córrego Grande,
Florianópolis, SC, Brasil. 1
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.
CEP 88037-415 2
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.
E-mail: joseenfermagem@gmail.com Conflito de interesses: não há conflitos de interesse a declarar.

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Introdução cessidade da busca constante pelo desenvolvimento


de melhores estratégias que lhes permitam superar
A organização do atendimento e a gerência do cui- os desafios impostos por um ambiente de trabalho
dado prestado aos pacientes nos serviços hospitala- marcado pela procura constante por atendimento.
res de emergência são questões discutidas em vários Estudos anteriores identificaram que a gerência
países, em função da transição epidemiológica e é uma atividade essencial e predominante no tra-
demográfica da população mundial. A maior expec- balho dos enfermeiros em serviços de emergência.
tativa de vida da população e o aumento da morbi- Cabe a esses profissionais a busca de meios para ga-
dade e mortalidade por doenças cerebrovasculares rantir a disponibilidade e a qualidade de recursos
e coronarianas, por exemplo, são fatores que têm materiais e de infraestrutura para a equipe atuar no
contribuído para o aumento dos índices de procura atendimento a pacientes com necessidades comple-
por atendimento nesses serviços e fomentado a dis- xas, visualizando não só as necessidades do paciente,
cussão em torno da necessidade da adoção de novos mas também conciliando os objetivos organizacio-
modelos de atenção visando à prestação de cuidados nais e os da equipe de enfermagem e estabelecendo
mais complexos e prolongados.(1,2) interfaces com outros setores do hospital e sistema
No Brasil, a Política Nacional de Atenção às Ur- local de saúde, visando à produção de um cuidado
gências, instituída em 2006 e atualizada em 2011, integral, eficaz e seguro.(5-8) Além disso, informal-
determina que o atendimento aos usuários com qua- mente, são os enfermeiros que, muitas vezes, nego-
dros agudos deve ser prestado por todas as portas de ciam no dia a dia a resolução de problemas internos
entrada dos serviços do Sistema Único de Saúde, e externos do trabalho em emergência, o que possi-
possibilitando a resolução integral dos problemas bilita o bom funcionamento do serviço.(2)
ou transferindo essa clientela, responsavelmente, a Para atingir a esses objetivos, os enfermeiros de
um serviço de maior complexidade, dentro de um unidades de emergência devem aliar controle do
sistema hierarquizado e regulado, organizado em re- tempo à fundamentação teórica, ao discernimento,
des regionais de atenção às urgências como elos de à iniciativa, à maturidade e à estabilidade emocional
uma rede de manutenção da vida em níveis crescen- e à capacidade de liderança, o que requer o desen-
tes de complexidade e responsabilidade.(3) volvimento de habilidades como comunicação, re-
No entanto, os serviços hospitalares de emer- lacionamento interpessoal e tomada de decisão.(7) A
gência continuam sendo o local para onde con- liderança é um instrumento gerencial fundamental
fluem problemas não resolvidos nem diagnostica- para o trabalho do enfermeiro, pois é ela quem faz a
dos em outros níveis de atenção. Para grande parte coordenação do trabalho de enfermagem e a inter-
da população que não tem acesso regular a um ser- mediação entre os diferentes profissionais da equipe
viço de saúde, as emergências hospitalares represen- de saúde, ela pode ser compreendida e desenvolvi-
tam a principal alternativa de atendimento para às da, desde que haja interesse e iniciativa.(9)
mais diversas situações, pois, no senso comum, es- Com base no exposto, pontua-se a importân-
ses serviços reúnem um somatório de recursos que cia da realização de um estudo sobre os desafios
os tornam mais resolutivos, quais sejam consultas, vivenciados pelos enfermeiros na gerência do cui-
remédios, procedimentos de enfermagem, exames dado em emergência, bem como as sugestões para
laboratoriais e internações.(4,5) enfrentá-los e exercer uma prática profissional
Como consequência, observa-se que a utilização alicerçada nos princípios éticos, humanísticos e
caótica, a superlotação dos serviços de emergência científicos que balizam o exercício da Enferma-
e a falta de leitos hospitalares acarretam inúmeras gem. Assim, estabeleceram-se como questões de
dificuldades de atendimento, tanto aos pacientes pesquisa: Quais são os desafios dos enfermeiros
como à equipe de saúde.(2,4) Especificamente em re- na gerência do cuidado em um serviço hospitalar
lação à atuação dos enfermeiros na gerência do cui- de emergência? Que sugestões são apontadas por
dado em um serviço de emergência, destaca-se a ne- eles para superar tais desafios?

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Desafios para a gerência do cuidado em emergência na perspectiva de enfermeiros

Dessa forma, este estudo teve como objetivo representatividade, homogeneidade e pertinência.
analisar os desafios para a gerência do cuidado em Feito isso, procedeu-se à exploração do material no
um serviço hospitalar de emergência pautado na intuito de destacar as unidades de registro, trans-
perspectiva de enfermeiros. formar os dados brutos em núcleos de compreen-
são do texto e construir categorias empíricas. Na
fase final, procedeu-se ao tratamento dos resulta-
Métodos dos e interpretação, mediante articulação entre o
material empírico estruturado e a literatura, emer-
Estudo de abordagem qualitativa, exploratório, des- gindo três categorias temáticas que compuseram
critivo, cujos dados foram coletados no Serviço de o tema Desafios no gerenciamento do cuidado e
Emergência de um Hospital Universitário localiza- sugestões para superá-los.
do na Região Sul do Brasil. O desenvolvimento do estudo atendeu as nor-
A coleta de dados ocorreu entre os meses de ju- mas nacionais e internacionais de ética em pesquisa
nho e setembro de 2009, por meio de entrevistas envolvendo seres humanos.
semiestruturadas com 20 dos 32 enfermeiros que
atuam no setor. As perguntas norteadoras enfoca-
ram os desafios enfrentados na gerência do cuidado Resultados
em um serviço hospitalar de emergência e as suges-
tões para superá-los. Uma amostra intencional foi Os resultados são apresentados em três categorias:
definida, e envolveu a seleção de sujeitos conside- gerenciamento da superlotação, manutenção da
rados representativos, conforme seu interesse pela qualidade do cuidado e utilização da liderança,
problemática investigada e os objetivos do estudo. como instrumento gerencial.
Assim, foram incluídos enfermeiros que aceitaram
participar da pesquisa e trabalhavam há mais de Gerenciamento da superlotação
seis meses no serviço de emergência. Para definição O gerenciamento da superlotação é um desafio
desse período, considerou-se seis meses como um aos enfermeiros, à medida que eles necessitam pla-
tempo suficiente para adaptação do profissional às nejar a realização do cuidado e organizar o trabalho,
rotinas do setor e à equipe de trabalho, podendo, adequando às condições de atendimento disponí-
desse modo, contribuir de forma mais efetiva com veis à quantidade e gravidade do quadro clínico dos
a investigação. pacientes, visando à realização da melhor assistência
As entrevistas foram gravadas em um dispositi- possível, diante do cenário marcado pela procura
vo eletrônico de áudio, perfazendo entre dez e 50 constante por atendimento, conforme evidenciado
minutos e depois transcritas. O número de entre- na seguinte fala:
vistas realizadas foi definido com base no critério “[...] o gerenciamento da superlotação, do ex-
de saturação dos dados, ou seja, quando as informa- cesso de pacientes com as nossas condições [...], eu
ções obtidas começaram a se repetir, possibilitando gosto de ter a unidade o mais organizada possível
a identificação de convergências e o estabelecimento dentro da desorganização da emergência, a gente
de um encadeamento entre as evidências. vive e convive com ela, sempre procurando amenizá
Para a análise dos dados, foi empregada a técni- -la, mas é um setor que daqui a pouco tem 20, 60,
ca de análise de conteúdo, do tipo análise temática, 100 pacientes, e tu está vendo as coisas, um paciente
que se constitui em três etapas: pré-análise, explo- por cima do outro e tal [...]”(E1).
ração do material e tratamento dos dados obtidos, Entre os motivos que geram a superlotação do
inferência e interpretação.(10) Na fase de pré-análi- serviço de emergência, os enfermeiros destacaram a
se, por meio de leitura flutuante, organizaram-se e constante procura por atendimento de pacientes de
sistematizaram-se as ideias principais do material baixo risco, que sobrecarregam a equipe de enferma-
coletado baseadas nos critérios de exaustividade, gem e podem dificultar o atendimento aos pacientes

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mais graves. Desse modo, alguns enfermeiros mos- é que é complicado. O certo seria dar o primeiro
traram-se críticos em relação ao desconhecimento atendimento e encaminhar os pacientes, mas eles
das pessoas sobre a finalidade do serviço em atender acabam ficando, e a gente não consegue prestar um
às urgências propriamente ditas e à falta de paciên- atendimento adequado” [...] (E8).
cia daqueles que procuram as unidades básicas de A realização dos cuidados relacionados à higiene
saúde para atendimento: e ao conforto dos pacientes que permanecem em
“Um dos principais desafios é a superlotação, observação é a principal dificuldade enfrentada pe-
principalmente devido ao atendimento daqueles los enfermeiros e pela equipe de enfermagem, tendo
pacientes que não são urgência” (E13). em vista o número excessivo de pacientes e a inade-
“[...] Tenho dificuldade em entender, porque quação do espaço físico do serviço de emergência
as pessoas não conseguem definir que aqui é uma para esse atendimento. Nesse sentido, a qualidade
emergência, e elas têm que evitar vir por causa de do cuidado prestado nas salas de observação do ser-
dor de garganta, unha encravada, dor abdominal. viço de emergência preocupa os enfermeiros:
Essa é uma questão cultural das pessoas de que os “Não adianta ver se tem material suficiente,
postos não funcionam. Só que não é bem assim, são se a unidade está organizada, se o número de
as pessoas que não querem mais se sujeitar e esperar, técnicos na escala está certo e, às vezes, deixar o
porque elas vêm aqui e fazem tudo, fazem raio-x, paciente de lado. Ontem, tinha um paciente em
hemograma e não precisam ficar correndo de um mau estado geral que tinha prescrição de aspi-
lado para o outro [...]”(E15). ração de vias aéreas. Eu olhei para a parede não
Para contornar a superlotação, os enfermeiros tinha frasco, daí, eu busquei um frasco, sonda,
sugeriram a reorganização do sistema de saúde para luva, todo o material e chamei a técnica e disse
atendimento das urgências de menor complexidade para ela: ‘olha a boca desse paciente’, mostrei para
nas unidades básicas e centros de saúde. ela, era uma crosta. Com a superlotação, esquece-
“É toda uma rede que tem que mudar, não é só se de cuidados que parecem insignificantes, mas,
aqui dentro, não dá para a gente tentar fazer um me- que são fundamentais” (E17).
lhor trabalho enquanto a rede não mudar” (E10). Como sugestões para buscar uma qualidade
“[...] o sistema de saúde é ruim, se a gente ti- maior do cuidado prestado no serviço de emergên-
vesse um bom atendimento no posto, muita gente cia, os enfermeiros pontuaram a necessidade de alte-
não viria” (E14). ração no fluxo de atendimento dos pacientes e a am-
“Tem que melhorar o sistema de saúde como pliação da estrutura física do serviço de emergência.
um todo, a atenção básica atender os pacientes Quanto à alteração no fluxo de atendimento dos
menos graves e a gente poder trabalhar mais pacientes, os enfermeiros destacaram a importância
tranquilo” (E20). de agilizar as internações e a liberação dos pacientes:
“O que poderia ser agilizado é a questão das in-
Manutenção da qualidade do cuidado ternações e liberação dos pacientes, e isso é uma coi-
Em decorrência da superlotação, surge como sa que depende muito da área médica [...]” (E12).
desafio a manutenção da qualidade do cuidado “[...] eu gostaria que aqui na emergência, o
prestado aos pacientes no serviço de emergência. serviço fosse realmente de urgência e emergên-
Muitos pacientes, após o primeiro atendimento e cia, porque 90% dos pacientes que estão na sala
estabilização de suas condições clínicas, permane- de observação tinham que estar nas unidades de
cem no serviço de emergência e necessitam de uma internação” (E15).
atenção que nem sempre a equipe de enfermagem “Diminuir o número de pacientes da unidade,
consegue corresponder em função das característi- mas isso não depende apenas da enfermagem, de-
cas do trabalho da unidade, como relata o entrevis- pende do fluxo do paciente desde a triagem de agi-
tado:“O atendimento de emergência a gente con- lizar a liberação ou transferência do paciente para a
segue prestar muito bem, mas a continuidade disso internação” (E19).

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Desafios para a gerência do cuidado em emergência na perspectiva de enfermeiros

Para agilizar o fluxo de atendimento dos pacien- tuição, são relutantes às mudanças, mesmo quan-
tes na unidade, os enfermeiros reconheceram a ne- do elas podem trazer benefícios ao andamento da
cessidade de participação e colaboração de todos os unidade e a si próprios como trabalhadores, o que
profissionais da equipe de saúde, em especial dos dificulta a atuação do enfermeiro, como líder da
médicos. Porém, em um dos depoimentos, chamou equipe de enfermagem.
à atenção a sugestão de que a internação dos pa- Cientes dos desafios que envolvem a liderança
cientes seja gerenciada por um enfermeiro, tendo no serviço de emergência, os enfermeiros mencio-
em vista que sua experiência e formação gerencial naram como sugestão a realização de uma capacita-
conferem-lhe uma visão mais ampla em relação a ção sobre o gerenciamento de enfermagem.
essa questão: “O ideal seria ter um curso sobre gestão de pes-
“[...] seria muito interessante se tivesse uma en- soas com alguém especializado, para vir e passar esse
fermeira responsável pela internação dos pacientes, conhecimento para nós, para a gente colocar mais
gerenciando e não um médico e secretário. As enfer- em prática” (E3).
meiras têm uma visão mais global disso, experiência A realização de uma capacitação enfocando as-
e formação gerencial para fazerem as coisas andarem pectos sobre o gerenciamento de enfermagem é uma
mais rápido” (E12). estratégia interessante, tendo em vista a importância
No que se refere à ampliação da estrutura física cada vez maior que adquire a dimensão gerencial
do serviço de emergência, os participantes do estu- no trabalho do enfermeiro nos serviços de saúde e
do apontaram como estratégia dispor de um maior a rapidez com que novos conhecimentos têm sido
número de macas para acomodar os pacientes. produzidos nessa área.
“Na parte física, nosso maior problema é a falta
de macas [...]” (E9).
“Faltam camas melhores, porque têm macas até Discussão
com a grade quebrada” (E13).
“[...] a questão maca me estressa muito! É um Esta pesquisa oferece subsídios para que enfermei-
estresse quando o paciente passa mal, fica hipotenso ros, profissionais de saúde e gestores dos serviços
e não temos maca ou quando temos que levantar de emergência reflitam sobre suas práticas e invis-
um paciente para poder deitar outro” (E15). tam no desenvolvimento/aprimoramento de es-
tratégias para potencializar a qualidade do cuida-
Utilização da liderança como instrumento do em emergência e as condições de trabalho das
gerencial equipes de saúde.
Para programar e implementar mudanças, vi- Este estudo apresenta como limitação dos resul-
sando à melhoria do cuidado no serviço de emer- tados o foco exclusivo dado aos enfermeiros. Como
gência, a liderança desponta como um instrumen- a gerência do cuidado é um processo coletivo, a im-
to gerencial importante aos enfermeiros. Exercê-la plementação das sugestões aqui apresentadas requer
é um desafio para eles em relação à resistência da uma atuação em conjunto da equipe de enferma-
equipe da enfermagem e saúde diante da proposição gem e saúde, o que remete à recomendação de pes-
de novas ações: quisas com esses profissionais a fim de acrescentar
“Um desafio que existe é essa própria questão novos olhares e opiniões sobre as possibilidades para
de ser mais líder, porque muitas pessoas que estão solucionar o problema da superlotação e contribui-
aqui dentro acham que isso não é certo, mas dizem ção para a qualidade do atendimento.
que sempre foi assim, que não adianta fazer. Eu não Nas falas dos enfermeiros, aparece a superlota-
acredito nisso, porque se eu venho para cá, é para ção como uma característica incorporada ao pro-
trabalhar” (E8). cesso de trabalho no serviço de emergência. Nesse
Para esse depoente, muitos profissionais, espe- sentido, eles referiram a necessidade de amenizá-la
cialmente, os que estão há mais tempo na insti- e gerenciá-la, procurando, conforme as condições

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disponíveis prestar um atendimento adequado e hu- blema comum nos serviços hospitalares de emer-
manizado aos pacientes. Isso pode estar relacionado gência, que decorre, entre outros fatores, da falta de
à naturalização da pressão do ambiente de trabalho uma cultura institucional com vistas à otimização
pelos profissionais de saúde e à falta de controle so- do serviço no concernente ao gerenciamento de
bre sua prática, o que torna o exercício profissional, vaga.(13) Como consequência, os profissionais de
muitas vezes, intuitivo.(2) saúde vem-se confrontados com cargas de trabalho
A superlotação está atrelada à concepção dos elevadas, com espaços físicos inadequados e recursos
usuários que procuram por atendimento nos servi- materiais e equipamentos insuficientes, o que além
ços de emergência sobre o que é uma necessidade de comprometer a qualidade do cuidado prestado,
urgente. Ao contrário do que esperam os profissio- causa-lhes sofrimento, insatisfação e conflitos.(15,16)
nais de saúde, os usuários buscam atendimento ao A reorganização do sistema de saúde para o
apresentarem alterações de saúde que consideram atendimento das urgências de menor complexida-
importantes. Na verdade, existe um desencontro de tecnológica foi a sugestão dos enfermeiros para
entre o que pensam os usuários e os profissionais de superar o desafio da superlotação. Essa sugestão é
saúde em relação à finalidade do trabalho no serviço coerente com os princípios que regulamentam o
de emergência.(11) Sistema Único de Saúde e já é realidade em outros
A dificuldade da equipe de saúde de aceitação contextos. Há 14 anos a região de Ribeirão Preto
do paciente, que é visto como produto da falência iniciou um processo de organização do fluxo dos
da rede e como inapropriado para o atendimento pacientes de emergência que evoluiu para referen-
da emergência, pode ser enfrentada por políticas de ciamento intermunicipal e possibilitou a organiza-
humanização, estratégias de sensibilização e de acei- ção e estruturação de uma rede assistencial regional,
tação da emergência, como porta de entrada possí- hierarquizada de atenção às urgências, regulada por
vel e legítima do atual sistema de saúde. Além disso, meio da implantação da Regulação Médica e do
é importante discutir com a rede como integrar esse Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.(17)
tipo de paciente às outras possíveis portas de entra- Inserida nesse cenário, a Unidade de Emergên-
da e preparar-se para atendê-lo, já que as demandas cia do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, com
são geradas por fatores culturais e por deficiência de o apoio dos serviços clínicos vinculados a departa-
recursos tecnológicos e sociais.(12) mentos da Universidade de São Paulo e do Centro
Outro aspecto destacado pelos participantes do de Estudos de Emergências, redefiniu sua missão
estudo foi a descaracterização da missão do serviço assistencial e educacional, equacionando a super-
de emergência. A unidade, que deveria ter caráter lotação com a redução significativa do número de
transitório, onde o paciente permaneceria um curto consultas e da taxa de ocupação na unidade.(17) Tal
período, passa a funcionar como unidade de inter- experiência mostra que por meio da junção de esfor-
nação, pela à indisponibilidade de leito nos outros ços dos profissionais e serviços de saúde e a articu-
setores de internação. Desse modo, o atendimento às lação das esferas de governo, é possível a superação
necessidades básicas humanas, como sono, repouso, das dicotomias que caracterizam os atendimentos às
alimentação e higiene corporal tornam-se compro- urgências no Brasil.
metidos pela excessiva demanda de atendimento e De forma semelhante, estudos(18,19) norte-a-
pelas condições de infraestrutura inadequadas para mericanos destacam que a busca pela qualidade
realização das atividades assistenciais. Esse resultado do cuidado nos serviços de emergências deve ser
é convergente aos achados de estudos anteriores em planejada em níveis regionais, por meio de uma
que as condições estruturais são descritas, como fa- agência que coordene a padronização e os enca-
tores que dificultam a assistência com qualidade em minhamentos dos atendimentos. No âmbito es-
emergência.(7,13,14) pecífico dos serviços, sugere-se a elaboração de
A permanência dos pacientes internados após protocolos de triagem para agilizar o atendimento
serem sanadas suas necessidades urgentes é um pro- e o aumento do número de leitos em Unidades de

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Desafios para a gerência do cuidado em emergência na perspectiva de enfermeiros

Terapia Intensiva para transferência dos pacientes menor complexidade tecnológica, têm contribuído
mais graves. para a diminuição de custos assistenciais, melhoria da
Quanto à atuação do enfermeiro, observa-se que qualidade do cuidado e redução do tempo de espera
esse profissional não consegue desenvolver um tra- para o atendimento.(6)
balho sequenciado em função da excessiva deman- Assim, os desafios apresentados pelos enfermeiros
da e pelas solicitações constantes, tanto por parte que gerenciam o cuidado em emergência reforçam a
da equipe de enfermagem, dos pacientes, como dos necessidade do profissional ser criativo, crítico e refle-
outros profissionais, o que demonstra, claramente, xivo para sugerir ações voltadas, tanto à organização
a insuficiência desse profissional e a falta de plane- e estruturação da unidade como do sistema de saúde
jamento no desempenho de seu papel.(13) Essas ca- para o atendimento às urgências. É indiscutível a ne-
racterísticas podem justificar o fato dos enfermeiros cessidade de avanços na organização do sistema de
considerarem um desafio o exercício da liderança saúde de tal modo que a atenção às urgências possa
no serviço de emergência. A liderança na enferma- ser realizada em outras portas de entrada. Porém, o
gem, além de um complexo fenômeno social, é um sistema só irá melhorar a partir do momento em que
instrumento fudamental para a gerência do cuida- cada serviço e trabalhador de saúde reconhecer e as-
do que exige do enfermeiro empenho na busca por sumir sua parcela de corresponsabilização na busca
aprimoramento contínuo de suas habilidades e po- das mudanças apontadas e de um atendimento mais
tencialidades. Para um exercício efetivo da lideran- resolutivo às necessidades de saúde da população.
ça, é importante que o enfermeiro seja responsável, Também são necessários estudos que focalizem
comprometido com o trabalho e mantenha uma co- a participação e integração dos serviços hospitala-
municação eficaz com a equipe de enfermagem.(20) res de emergência na rede de atenção às urgências,
Os desafios que envolvem o gerenciamento do explorando as interfaces estabelecidas com os com-
cuidado em emergência são coletivos e precisam ser ponentes pré-hospitalares fixos e móveis de atendi-
problematizados e discutidos no contexto institu- mento às urgências e identificando aos aspectos que
cional e político em que estão inseridos. Para isso, é requerem aprimoramento e discussão.
importante que o enfermeiro vislumbre o cuidado
de enfermagem como prática social empreendedora,
buscando mobilizar e integrar os diferentes sistemas Conclusão
funcionalmente diferenciados em uma perspectiva
de rede, potencializando e multiplicando as com- Constatou-se que os principais desafios com os
petências individuais e os recursos locais visando à quais os enfermeiros defrontam-se na gerência
criação de um plano integrado e individualizado de do cuidado em um serviço hospitalar de emer-
cuidados para o desenvolvimento de políticas so- gência são o gerenciamento da superlotação, a
ciais, capazes de compreender a complexidade dos manutenção da qualidade do cuidado e a utili-
fatores que envolvem o ser humano em seu contex- zação da liderança como instrumento gerencial.
to real e concreto.(21) Como sugestões para superá-los, os enfermeiros
Especificamente em relação à sua atuação no servi- sinalizam a necessidade de reorganização do sis-
ço de emergência, os enfermeiros sugeriram que uma tema de saúde para a atenção às urgências, al-
maior participação no gerenciamento das internações e teração no fluxo de atendimento dos pacientes,
dos leitos hospitalares poderia contribuir com o geren- ampliação da estrutura física da unidade e reali-
ciamento da superlotação em emergência. De forma zação de uma capacitação sobre gerenciamento
semelhante, no contexto internacional, a contratação de enfermagem.
de enfermeiros e a ampliação da atuação desses profis-
sionais por meio de práticas avançadas de enfermagem, Agradecimentos
envolvendo desde a realização de triagem com classifi- À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de
cação de risco até o atendimento clínico aos casos de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de mestrado, ao

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