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Os 300: fragmento encontrado entre inéditos de

Fernando Pessoa, reunidos em Hermetismo e Iniciação,


organizado por Manuel J. Gandra.

«A razão e a técnica de infiltração consiste no seguinte: todo o princípio


político, estético, filosófico tem duas características, tem uma ideia central
que o distingue dos outros; é composto de elementos vários subordinados a essa
ideia central. Há, portanto, três maneiras de arruinar, por infiltração, um
princípio qualquer. A primeira, é exagerar até ao desequilíbrio - sobretudo ao
desequilíbrio com a realidade - a ideia central, que o distingue. A segunda é
erigir em principal qualquer dos elementos secundários, ou em principais
qualquer deles. A terceira é liga-lo, quer por meio da sua ideia central, quer
por meio de qualquer das acessórias, exageradas em importância para esse fim,
a qualquer outro princípio com que forçosamente ou não convém ou, posto em
prática, não convirá.

Vamos dar exemplos destas três tácticas.

A certa altura do século XIX começou a manifestar-se uma reacção contra o


Romantismo. Esta reacção surgiu em parte como «avançada» em relação a ele
(naturalismo) em parte como «retrógada» (neoclassicismo). Como este último
ameaçava reconstruir o ideal pagão, era mister desvirtuá-lo. Assim se fez. O
que tendia para ser um critério neoclássico puro foi desvirtuado, pelo exagero,
em oposição ao romantismo, do espírito estético central do classicismo, para o
chamado movimento estético, representado principalmente por Oscar Wilde.

Os «Trezentos» não inventaram Oscar Wilde, é certo; o que fizeram foi, por
acção insistente sobre ele no meio em que vivia, impeli-lo cada vez mais no
exagero da parte infecunda do seu helenismo, o que fizeram foi, conseguido
isto, espalhar por toda a europa o conhecimento da sua obra. A «propaganda»
de Wilde é mais alguma coisa que o simples desenvolvimento natural da sua
reputação.

Outro exemplo. A certa altura do século XIX e mais claramente no século XX,
surgiu uma corrente monárquica, nacionalista e tradicionalista na Europa e
sobretudo em França. Este elemento representava um perigo, tanto mais que
ameaçava tornar-se forte, como, com efeito, se tornou. Era forçoso desvirtuá-
lo. Assim se fez. Por uma acção insistente e disfarçada junto de elementos
componentes desse movimento, conseguiu-se que esse monarquismo assumisse
um aspecto absolutamente anti-individualista, fazendo-o ir simular as
instituições da Idade-Média. Sabedores os trezentos, ou quem os dirige, que a
civilização europeia, pelos seus fundamentos gregos, é radicalmente
individualista; que a civilização moderna é, de per si individualista também,
pois que avançou para além da fase corporativista que é característica do início
de todas as civilizações e do seu estado semi-bárbaro, viram bem que,
convertendo em anti-individualista e corporativista o novo monarquismo,
conseguiam um triplo resultado, de três modos servidor dos seus fins: nulificar
a acção futura profunda desse monarquismo desadaptando-o do individualismo
fundamental da nossa civilização; pô-lo em conflito com o individualismo
moderno, nascido do progresso das nações e da multiplicação de entrerelações
e culturas; atirar com ele contra os princípios helénicos e clássicos.

A queda do Império Alemão, preparada de longe, desde que se conseguiu


afastar Bismarck da sua governação, é dos trabalhos mais assombrosos da
direcção secreta que pode imaginar-se. Organizado em bases estatísticas, e,
portanto, contrária às da substância da nossa civilização, o Império Alemão
tinha que cair. O que não era forçoso é que caísse da forma que caiu, ou que
se prolongasse a guerra em que ruiu, ou se tivesse conseguido a intervenção da
América [...] ».