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São Paulo — Nas duas últimas semanas, não param de chegar pacotes embrulhados para presente no
número 367 da Rua Formosa, no centro de São Paulo. Ali funciona o Instituto Fernando Henrique
Cardoso, onde o ex-presidente despacha todas as tardes. No instituto, inspirado nas fundações americanas
e mantido com recursos de empresas privadas e um naco da Lei Rouanet, para digitalização do acervo, a
maior joia é o próprio FHC. Ele completa 80 anos amanhã com uma disposição de fazer inveja aos mais
jovens. Escolhe entre uma ou outra conferência no exterior (“faço palestras em quatro línguas, sem
tradutor”). Frequentemente, é consultado para falar sobre a descriminalização da maconha. De forma
tímida, reserva espaço na agenda para Retomar a vida afetiva, três anos depois de se tornar viúvo. “Não
namoro bastante porque seria ridículo um velho namorar assim.” E não se furta a participar de discussões
ligadas ao PSDB. Quando requisitado, diga-se. Na última quinta-feira, FHC mudou parte da rotina.
Encastelado em função de uma gripe — “a saúde não é mais a mesma” —, recebeu a reportagem do
Correio em seu apartamento de 300m² na rua Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis. Discorreu sobre
vários temas nos 45 minutos de conversa. Separa Dilma do PT. “O PT é o rei da infâmia”, diz. Dilma?
“Ela me parece uma pessoa íntegra, menos leniente com desvios.” Sobre a demissão de Palocci da Casa
Civil, justo o principal ministro, diz que “são decisões difíceis, mas cabe aos presidentes tomá-las”. Qual
a maior alegria política que o senhor teve ao longo da carreira?Minha maior alegria pessoal foi ter
sido eleito duas vezes presidente. Na verdade, a alegria política é que eu fiz muita coisa pelo Brasil.
Quando você chega lá, ou faz muita coisa ou não faz nada. A minha alegria é que mudei muita coisa. A
minha intenção é continuar fazendo coisas por aí.Qual a maior tristeza política?Não ter conseguido
fazer tudo o que queria e tentado demais mexendo em várias coisas ao mesmo tempo, quando talvez não
fosse a tática adequada. Mandei tantas reformas estruturais que foi difícil tocar. A verdade é que não dei
folga ao Congresso. O tempo todo estávamos de rédea curta, trabalhando, e agenda, agenda, agenda. A
reforma da Previdência: se eu tivesse me concentrado num ponto só, talvez tivesse sido mais eficaz do
que assustar tanta gente, quando o que queríamos era salvaguardar o sistema previdenciário. Eu talvez
devesse ter desvalorizado a moeda antes de 1999. O sistema nosso deixou de ser fixo, era flutuante, mas
flutuava pouco. A certa altura mudei a política, mas poderia ter feito antes. Se tivesse, teria evitado a crise
de janeiro de 1999.Na época, o PT dizia que o senhor não mudou por conta da reeleição.
Não tem nada a ver com isso. O PT é o rei da infâmia. Imagina se àquela altura a questão central ia ser a
reeleição? Até porque eu ia ganhar a eleição. Os efeitos da mudança da moeda só se fizeram sentir meses
depois. O mercado foi quem tomou uma decisão por nós. Insistimos em não mudar porque a equipe
estava convencida de que não deveria. Eu estava convencido de que era possível mudar. Só que precisava
de gente. Não se muda sozinho, não é um ato de vontade, Havia muita resistência na equipe. Tive que
tirar o Gustavo Franco (à época, presidente do Banco Central). Eu gostava muito dele. Se ele tivesse ido
para o governo depois de começar a flexibilizar, teria sido melhor. Nunca esteve em cogitação a relação
entre câmbio e reeleição. Isso é invenção do PT. Outra invenção: as reformas pararam por causa da
reeleição. Ora, reeleição foi em um mês, janeiro de 1997, e toda a população queria, tanto que ganhei.
Quem é que não queria? Os candidatos a presidente da República e seus partidos, Lula, Maluf e alguns
até do meu partido.O senhor acha que a reeleição está consolidada no Brasil ou prefere um mandato
de cinco anos?Acho que está consolidada. Precisa ser aperfeiçoada com maior restrição ao uso da
máquina. Mas é difícil. Fui candidato e não usei a máquina. No pleito de 2010, não era reeleição e o Lula
usou. Não dá para reinventar a roda. Os sistemas que têm dado certo são os de reeleição. Para a
construção de uma obra, quatro anos não são suficientes. Nem mesmo cinco. Já seis eu acho muito.
O senhor vai inaugurar um portal. Esse meio de comunicação já se consolidou como instrumento
político?No Brasil, ainda não é como nos outros países, mas é uma força e acho que está se consolidando.
A nossa sociedade se modernizou. As pessoas se modernizaram e as instituições políticas, não. Há um
descasamento entre a vida na sociedade e a vida política. O Congresso vai para um lado e a sociedade,
para o outro. Tirar do Congresso o debate foi uma contribuição negativa do governo Lula. As grandes
questões são decididas sem debate. Quem decidiu a expansão das usinas nucleares? Ou a mudança na lei
do petróleo? E a construção do trem-bala? Pode ser certo tudo isso, mas não foi debatido. Mas essas
questões foram debatidas no Congresso.Muito pouco. Sobre petróleo, por exemplo, só se debateu a
distribuição dos royalties. E tudo em regime de urgência, urgentíssima ou medida provisória. O debate
amorteceu em função da prosperidade, que é evidente, da possibilidade de o governo dar mais benesses,
inclusive ao próprio Congresso.O senhor falou em prosperidade. Isso significa que a presidente
Dilma e o PT podem ficar no governo por mais tempo que os quatro anos? Como a oposição vai
construir um discurso capaz de quebrar essa onda?Essa onda (de prosperidade) no mundo está
arrefecida. Você não tem a situação que tinha há dois anos para o Brasil. Agora teremos que enfrentar
problemas mais complicados. Há um tremendo deficit de infraestrutura. Portos, aeroportos, estradas. E
falta dinheiro. O governo vai ter que tomar medidas. A primeira ideia que tiveram (sobre a concessão dos
aeroportos) achei boa. Eu tenho que dizer com franqueza: a Dilma tem me surpreendido. Em que pontos
ela o surpreendeu?Por exemplo, todo mundo diz que a Dilma é uma pessoa agressiva. Comigo não foi
de forma alguma.E na parte administrativa? Ela agiu certo ao demitir o ministro Palocci?
Ainda é cedo para julgar. São decisões difíceis, mas cabe aos presidentes tomá-las.Qual a sua opinião
sobre repassar a administração dos aeroportos à iniciativa privada?É bom que se faça. É corajoso.
Isso requer que as agências reguladoras funcionem.E como vê essas agências? Certa vez, o senhor disse
que criou esses mecanismos de forma a deixar o Estado mais leve, a infraestrutura seria tocada pela
iniciativa privada.Exatamente, desde que as agências controlassem o bem do consumidor, com
fidelidade aos contratos. As agências não deveriam ser politizadas. A Agência Nacional do Petróleo foi
anulada. Hoje, a Petrobras reina sozinha. A ANP está cheia de pessoal do PCdoB e do PT. Agência não é
para isso. Na questão dos aeroportos, é bom que a agência tenha vigor para fazer concessão. O setor
privado vai sempre puxar para interesse próprio. O Estado tem que estar presente para que não haja
distorção. A Dilma lhe enviou uma carta elogiosa. Vi com prazer. Ela foi generosa. Reconheceu o que o
antecessor costumava dizer que não era assim.Algumas notas dizem que o senhor está magoado com o
Lula. É verdade? Ainda espera uma ligação dele para cumprimentá-lo pelo aniversário?Não estou
magoado. Ele nunca me ligou por aniversário algum. O Lula e eu, quando estamos juntos, nos damos
bem. Agora, ele deve ter algum problema psicológico, tem dificuldade em fazer gestos comigo.A
interlocutores, ele disse ter mágoa em função das campanhas, críticas em tom agressivo.Isso não.
Uma vez o Lula foi lá me ver, no Palácio, quando eu era presidente. Ele tinha perdido a eleição, em 1998.
Depois que fui reeleito. Cristovam Buarque presenciou a conversa. Uma certa hora, eu disse: “Ô Lula,
nunca vi você na tevê me atacando porque não queria ficar com raiva de você”. E era verdade, eu não via.
O pessoal da máquina dizia que eu tinha que ver. Eu não via porque ele era agressivo. Outra vez,
estávamos no Alvorada, eu, Ruth, ele e Marisa. Falamos de novo sobre isso e ele, “Ah, mas
pessoalmente...”, e eu disse. “Então você depende: tendo gente na frente, pode dizer qualquer coisa, né?”.
Não tenho mágoa do Lula. Conheço o estilo. Não é que me doa. Mas, do ponto de vista do Brasil, ex-
presidente é bom que tenha uma relação civilizada. Infelizmente, não pude ter uma relação mais
civilizada com o Lula. A carta que Dilma lhe mandou, alguns viram como ponte entre governo e
PSDB. Que interpretação o senhor faz?Primeiro, acho que é uma coisa pessoal. E não é o primeiro
gesto. Fui convidado para o almoço do Obama e ela me tratou bastante bem e vice-versa. Em segundo
lugar, acho que ela entendeu que era melhor a distensão de um clima crispado. Mas acho que para aí. Não
acho que ela queira brigar com Lula.Uma leitura possível é que ela quer acabar com o clima de
guerra entre PT e PSDB?De alguma maneira, essa coisa cansou, porque é falsa. Os projetos são meio
parecidos.Onde PSDB e PT se afastam? É a disputa pelo poder pura e simples?É essencialmente a
disputa pelo poder. Dizem que um é de esquerda e o outro é conservador. Não é verdade. Não tem nada
disso. Um é privatista, outro não. Não é verdade, está se vendo aí (questão dos aeroportos). Um não liga
para o povo o outro liga, também não é verdade, e por aí vai. O que discrepa? O PT mantém uma certa
visão de partido, Estado e sociedade que é diferente do PSDB. O PT ainda acredita que o melhor para o
país é que um partido, eles, ocupe o Estado e que o Estado mude a sociedade. O PSDB não vai nessa
direção. É mais republicano, no sentido de separar mais. Não quero com isso tirar o mérito do governo
Lula, do que fez de expansão dos programas sociais. Sendo ele um líder sindical, tendo uma base ligada a
esse setor, tem mais facilidade de atender aos reclamos do que outros governos. Agora, os programas
sociais todos começaram no meu governo. Do Luz no Campo, distribuição de livros, as bolsas.Foi
correto juntar todas as bolsas no Bolsa Família?Já havia uma tendência. Era uma questão técnica. As
bolsas surgiram como uma proposta do Banco Mundial, hostilizada pelo PT e por muita gente. Depois,
houve um movimento de criar um fundo para combate à fome, que o ACM capitaneou. Era dar comida.
Isso não é correto do ponto de vista de políticas sociais gerais. Em certas situações extremas, sim, dar
comida. Fora disso, tem que dar emprego, instrução ou auxílio transitório. Usamos a educação primeiro,
fizemos a Bolsa Escola. E no Ministério da educação, tivemos um problema tremendo: quem iria receber
a bolsa? Não queria que fosse por influência política. Criamos então o cartão da cidadania, que copiei do
Marconi Perillo, que já fazia em Goiás. A mãe de família e não o homem ia lá sacar o dinheiro. Minha
intenção era não politizar as bolsas, não fazer populismo. Quando começou a ideia de integrar — tinha
Bolsa Escola, alimentação, vale-gás e tirar criança do trabalho forçado. Cada ministério olhava para o
objetivo da bolsa. Ao juntar tudo, complica, cria uma burocracia nova, que não tem o mesmo interesse
específico. Por isso, eu tinha resistência a juntar todas. Mas, tecnicamente, a CEF já estava fazendo os
procedimentos porque é mais econômico. O que o governo Lula fez, além de juntar tudo, foi a
apropriação política da bolsa, o populismo. E perdeu o objetivo. Aliás, o Fome Zero, sob esse ponto de
vista, era melhor porque queria ensinar a pescar e não dar o peixe. Por que fui para a Bolsa Escola?
Porque o objetivo é educação. O que liberta é o trabalho.E a política externa? Está correta essa
estratégia multifacetada do governo?Está correta e eu comecei, ou melhor, o Sarney começou e depois
seguimos. Não é verdade que era só Estados Unidos. No meu discurso de posse, como chanceler, eu disse
que tinha que ir para a Ásia. E fui. Fui ao Japão, à Índia, à China, o primeiro a ir à Malásia. África
também fomos. O PT gosta de dizer que começou a história. Já estávamos nessa direção. A diferença do
Lula é que ele queria obter uma cadeira no Conselho de Segurança.O senhor não acha isso correto?
Não vai haver essa cadeira porque não está havendo a mudança. Vamos ter uma cadeira lá, um dia. Mas
não agora. O que eles fizeram? Abriram embaixadas. Isso custa caríssimo. Com o objetivo de obter essa
cadeira, que não obtiveram. Boa parte das viagens e de apoios em países menores não foi outro senão
político, de um protagonismo que não funcionou.E em relação à ampliação de gestão do FMI, do
Banco Mundial?Acho corretíssimo. Não fiz outra coisa que não fosse pedir isso. Acho que será a médio
prazo. Estava lendo um artigo de Ricardo Lagos. Mostra que há uma aceleração desse processo. Quando
havia reunião do G-7, eu mandava cartas pedindo a regulação financeira. Apoiei a taxação de fluxos de
capitais. Na reunião que tivemos na chamada governança progressiva, em Florença, com vários líderes
internacionais, defendi essa tese e não foi aceita. A China cresceu e puxou todos os países. Como é a vida
de ex-presidente? O que o senhor faz no dia a dia?Fico em casa pela manhã. Trabalho no computador,
leio, escrevo. Nada pela manhã é voltado para o lazer. Almoço em casa e, à tarde, vou para o Instituto
(Fernando Henrique Cardoso). Recebo gente, tem reuniões, seminários e não sei mais o quê. No que o
senhor se ocupa?Logo que deixei a Presidência, resolvi desencarnar. Viajei, fui para a França com a
Ruth, sem segurança alguma. Andávamos de metrô como pessoas normais. Voltei à vida comum. Depois
fomos para os Estados Unidos e eu ficava na biblioteca do Congresso, lendo e escrevendo o livro A arte
da política. Também andava de metrô. A Embaixada do Brasil nos oferecia um carro e eu recusava.
Queria levar uma vida normal. Só quando era assunto oficial da Embaixada eu aceitava o carro. Nos
Estados Unidos, assumi uma posição na Universidade de Brown conhecida como professor-at-large que,
em tese, é um professor que faz o que quer, mas eu acabava dando aula magna, seminários e atendia
alunos de graduações, o que eu adorava fazer. Fui convidado para a Universidade de Harvard, mas
recusei. E olha que estava sem dinheiro. Foi aí que eu descobri que podia ganhar dinheiro falando.Por
falar em estar sem dinheiro, de onde vem essa sua fama de pão-duro?Realmente tenho essa fama.
Não sei de onde vem. A verdade é que eu saí da Presidência e fiquei sem dinheiro. Por causa disso, não
era e nem sou consumista.Hoje o senhor tem investimentos financeiros, dinheiro guardado?Hoje, sim.
Mas quando deixei o governo não tinha nada. Presidente da República não tem salário de aposentado.
Assim que saí do governo eu sobrevivia com salário de aposentado da Universidade de São Paulo. Mas eu
e a Ruth nunca tivemos aperto de dinheiro. Como professores universitários, levamos uma vida de classe
média confortável.A população tem na figura do presidente uma imagem de pessoa poderosa e com
dinheiro. Não é?Realmente tem essa imagem, mas não corresponde à realidade. Para você ter uma ideia,
para eu comprar o apartamento em que moro hoje, tive de vender dois e ainda assim a soma não era
suficiente. A editora Record me antecipou um dinheiro de um livro que eu ia escrever e assim consegui
comprá-lo.A fama de pão-duro então é injusta?Não sei. Só sei que não gosto do ato de tirar o dinheiro
do bolso. Se for para pagar com cartão, não ligo. Mas se for com dinheiro vivo, complica. Não gosto de
dinheiro.Como pesquisador, como o senhor vê essa polêmica dos documentos secretos? Tenho uma
explicação difícil de acreditar. No último dia do meu governo, 31 de dezembro de 2002, assinei uma pilha
de documentos e decretos que alguém havia levado ao gabinete. Era uma pilha de decretos e assinei. Não
tem nesse documento o nome do ministro Pedro Parente nem do general Cardoso, então tem boi na linha.
Dois anos depois deu aquela confusão. A verdade é que nunca fui pressionado por nenhuma instituição
nesse sentido, nem pelos militares nem pelo Itamaraty. A assinatura adveio de um equívoco e não porque
esse ou aquele órgão me alertou.Mudando de assunto, como o senhor está vendo essa briga dentro do
PSDB que parece não ter fim?Não é possível que o PSDB não aprenda com a história. Governamos São
Paulo e Minas, os dois estados mais populosos e mais ricos. Ao unir São Paulo e Minas, temos chances
boas de ganhar a eleição presidencial. Temos que ter a capacidade de unir esses dois estados.O senhor se
propõe a fazer essa unidade?Eu não, já chega.Na sua leitura, por que o Serra perdeu a eleição?Por
muitos fatores. O mais importante é que o Lula tem muita popularidade e jogou com a máquina, fez uma
vasta aliança e teve recursos infindáveis. Tudo isso é verdade e conta. A gente tinha chance de ganhar.O
PSDB tem algum mea-culpa a fazer?Sempre tem, não só do Serra, mas de todo o partido. O PSDB
nunca foi forte em deixar uma marca e trabalhar essa marca. O partido erra ao esconder os benefícios das
nossas gestões. Esconde a mim. Mas não estou disputando eleição, nem sou personalista para ir lá e
brigar. Acontece que eu já passei da idade dessas coisas. Isso é um erro do ponto de vista do partido. A
meu ver, o PSDB também errou ao não politizar as questões.A violência no campo foi um problema
acentuado em seu governo e, 16 anos depois, ainda persiste, principalmente no Pará. Esse tipo de
barbárie não tem solução?Na época do massacre de Eldorado dos Carajás, fui pessoalmente
responsabilizado e acusado por PT e MST. O governador do Pará na época, Almir Gabriel, foi processado.
Agora, que morreram camponeses e sindicalistas, ninguém acusou o Lula e a Dilma. A verdade é que,
apesar de o Brasil ter um PIB não sei de que tamanho, não é um país civilizado completamente. Não é um
país em que a cidadania exista pra valer. O senhor disse que os partidos pequenos se organizam para
usufruir de cargos do governo e que o Lula fez a política do toma lá da cá com o Congresso para
governar. O senhor acha que a Dilma vai cair nessa armadilha?
Não, porque me parece que a Dilma é uma pessoa íntegra. Ela tem sido mais resistente nessa questão, mas
é lógico que há limites para essa resistência. Não sei qual é a tese dela. Ela parece menos leniente com
desvios. O senhor defendia de maneira velada a descriminalização do uso da maconha quando era
presidente e agora passou a defender abertamente. O senhor acha que o Brasil realmente está
preparado, inclusive na questão da saúde pública, para lidar com o usuário e as consequências que
o uso contínuo dessa droga acarreta?O uso de todas as drogas faz mal, inclusive o cigarro, o álcool e a
maconha. Todas as drogas fazem mal. Acho que temos que ter sempre campanha de prevenção. A meu
ver, acho que até o uso do álcool deveria ser regulado no Brasil. Queria deixar claro que a minha posição
não é do “libera geral”. A minha posição é: não basta pôr na cadeia. O problema é que não há receita geral
que dê certo no Brasil. Sempre uso o seguinte exemplo: gosto de vinho, tomo quase todas as noites no
jantar. Se tomar no almoço, prejudica o meu trabalho. Se eu pedir uma taça de vinho pela manhã, me
levem para o hospital, pois estou doente. O mesmo vale para a maconha. Se a pessoa fumar o dia inteiro,
vai ter problemas psicológicos.O senhor está viúvo há três anos e é um homem bastante admirado
pelas mulheres. Como está o seu coração? Já refez a vida afetiva?Evidentemente, sou um ser humano.
Mas isso não quer dizer que tenha alguém efetivamente, que vá casar e tal. Não penso nisso. Aos 80 anos,
me casar seria uma temeridade. Além disso, tenho uma família forte e muito ligada a mim. Agora,
evidentemente, me relaciono com muitas pessoas. Não namoro bastante porque seria ridículo um velho
namorar assim. Não me incomodo em ser admirado de longe pelas mulheres. De perto, vamos devagar
porque o santo é de barro e, nesse caso, o santo sou eu.Agora que o Lula é ex-presidente e começou a
dar palestras para sobreviver, assim como o senhor faz, já deu para sentir a concorrência do petista
nesse mercado?Imagina. Eu dou muitas palestras pelo mundo. Não tem uma semana que não receba até
três convites para dar palestras fora do Brasil. Todas muito bem remuneradas e algumas até recuso. Eu
dou palestra em quatro línguas, não preciso de tradutor. Não existe concorrência. Hoje, não faço mais
tantas palestras porque não preciso de dinheiro. Passei a ser muitoNunca consegui trabalhar fora de casa -
conta, revelando o vício do intelectual que detesta escrever de terno e gravata. - Já escrevi de pijama e até
de calção, mas no Alvorada não dava para pisar naqueles tapetes de pé molhado - brinca.O estilo
sociólogo chique predomina na decoração do apartamento. É refinado, mas despojado e com marcas de
uso. Pelas paredes e estantes, objetos de arte e quadros, muitos deles recebidos de presente na época de
presidente. À vista, livros de arte, álbuns com fotos ao lado de Ho-Chi-Min numa viagem ao Vietnã, um
tucano enquadrado e uma bússula pintada a óleo perto de uma grande mesa de madeira na sala de jantar.
Em lugar de destaque, dois Mirós, uma foto de Dona Ruth e, na parede ao lado, uma imagem da casa
onde nasceu, agora quase toda tomada pelas raízes de uma árvore, na Rua Bambina, em Botafogo, no Rio.
Tem dois escritórios em casa, mas só guarda nas estantes uns 500 livros. A maior parte de sua biblioteca
de 20 mil volumes está no Instituto Fernando Henrique, onde à tarde trabalha.- Agora, quando eu quero
um livro, tenho de pedir à bibliotecária. Fica um vai e vem... Quando estou escrevendo, vou procurar o
texto que quero, o livro não está... Mas, na vida atual, morando em vários países, não dá para ter grandes
bibliotecas em casa, desapeguei desde que a polícia (na ditadura) levou meus livros lá da casa do meu pai
- diz, contando que agora viaja só com um iPad. Em sua nova rotina doméstica, mais de oito anos depois,
ele não desdenha, mas não sente saudades da vida nos palácios de Brasília, onde não conseguia abrir uma
porta e nadava observado por seguranças.- Palácio é lugar de intriga. Se tiver imaginação, você acha que
é rei. Mas, se tiver senso de realidade, percebe que mora mesmo é numa repartição pública - diz com
humor.Uma repartição pública com perigosas armadilhas, como a dos documentos oficiais protegidos por
sigilo eterno que deixou para seus sucessores. Assinado no último dia do seu mandato, em 31 de
dezembro de 2001, o projeto chegou à sua mesa numa pilha de papéis.- Não recebi pressão nem do
Itamaraty, nem dos militares. Mas alguém botou isso lá, sem ter passado pela Casa Civil.Neste sábado,
vai festejar o aniversário só com a família, mas o festival de comemorações promete durar. Neste
domingo, a Osesp fará um concerto em sua homenagem. Semana passada, jantou na Sala São Paulo com
500 amigos, daqueles cultivados pela vida, nenhum deles encontrado na lista de Facebook. Em agosto,
pretende fazer uma festa no Rio, mas a agenda por agora está cheia.Nesses 80 anos de vida, em que
momentos ou em que papéis o senhor se sentiu mais confortável Para ser franco, eu me sinto à
vontade em muito papéis. Eu não desgostei do exercício da Presidência. Nunca me queixei de doença,
cansaço, embora às vezes estivesse cansado. Eu não achava mau, assim como me adaptei imediatamente a
outro estilo de vida (ao deixar a Presidência). Fui dar aula de novo. Aula é um modo de dizer porque em
Brown (University), onde eu era professor-at-large, mas recebia alunos, dava seminários. Eu me adaptei.
Depois, passei a ter funções em organizações internacionais, fui presidente do Clube de Madrid. Hoje
participo do grupo do (Nelson) Mandela, que é muito ativo, negociações pelo mundo afora, uma porção
de coisas. E participo de vários conselhos e fundações...Mas no Palácio era possível conciliar os papéis
de presidente e intelectual?FH: Com dificuldade. Nunca deixei de ter um certo olhar distante, que é o do
intelectual, o que é uma desvantagem na vida política.Por que é desvantagem?FH: Porque você se
refreia, tem um olhar crítico, então não faz uma porção de coisas que os políticos têm que fazer. Você tem
mais autocrítica, mais freios. Mas isso tem uma vantagem, que me ajudou muito, que foi não entrar no
olho do furacão. Quando, por exemplo, atacam muito pela imprensa, ou a própria imprensa ou os
políticos, percebo que estão atacando um personagem, não eu como pessoa. Sei me distanciar.Como
presidente, qual a principal lição que o senhor tirou para o pensamento do sociólogo, para a sua
percepção da realidade brasileira?FH: Você fica com uma visão muito mais rica e vê que as coisas são
muito mais difíceis e complicadas. Os interesses são muito mais emaranhados, é muito mais difícil obter
uma convergência para alguma coisa, e você não tem soluções simplistas para os grandes problemas. Se
tivesse, estariam resolvidos. Você passa a ser mais tolerante, não no sentido de permissivo, mas entende
mais o outro. Vê como são as pessoas. Acho que, em parte, a liderança presidencial tem de ser intuitiva,
veja o Lula, mas, quando você tem um pouco mais de capacidade de análise, fica vendo por que as
pessoas estão fazendo isso ou aquilo. Ao mesmo tempo que desculpa umas, condena outras.Mas isso faz
ficar mais pessimista ou otimista a respeito do mundo?FH: Mais realista. Não digo pessimista porque
dá para avançar. Meus colegas acadêmicos puro-sangue sempre ficavam um pouco horrorizados de ver
como é que eu lidava com o que, para eles, é uma gente despreparada. Eu dizia que eles não eram
preparados para umas coisas, mas muito bem preparados para o que eles fazem. E eu já tinha a
experiência do Senado. Minha transformação de papéis foi aos poucos, porque fui senador por muito
tempo. É verdade que era diferente; quando fui para o Senado, no tempo do governo Figueiredo, o poder
do Congresso era pequeno, e a pressão sobre ele era menor. Mas depois veio a fase da Constituinte, que
foi uma grande escola. Foi um momento muito rico da nossa História, e nunca estudado. Fui um dos
relatores das regras para fazer a Constituição, eu e (Nelson) Jobim. Abrimos espaço para emendas
populares, a quantidade de pessoas que se manifestou foi brutal. Então, você vê um país sonhando, às
vezes delirando, às vezes com pesadelo... Fui forçado a participar dos processos de negociação. Era muito
interessante o que estava acontecendo. E aí você vê como é intrincado mexer numa sociedade como a
brasileira.Qual a mais forte ilusão de sociólogo que a Presidência destruiu? O senhor entendia
menos como agiam os políticos ou os empresários, o mercado?FH: Os políticos eu entendia, mas a
inexperiência maior era com o mercado. Não era fácil entender como funcionava o mercado financeiro.
Naquela época, eram crises sobre crises. Muitas vezes a situação objetiva não era tão ruim, e a bolsa
caía... Nunca houve pressão no sentido de que alguém vem aqui para pressionar. Isso não existe. Mas
especulação (financeira)...E as divergências dentro do governo?FH: Também havia, mas você tem que
mediar essas divergências e, quando necessário, tomar partido.Foi um dos momentos mais difíceis do
seu governo (a crise cambial de 99)?FH: Sem dúvida. Foi a mais difícil de todas. Mas veja como há
pouca compreensão de como é o processo real. A uma certa altura, o Köhler (Horst), que era o diretor-
geral do FMI, veio ao Brasil, eu estava no Rio, e nos encontramos no BNDES. Saiu na imprensa que ele
veio aqui para me dar instruções. Na realidade, ele veio aqui para me agradecer, porque para a eleição
dele - o Schröder (Gerhard), que era o chanceler da Alemanha, tinha me pedido para apoiar o Caio Koch-
Weser, um brasileiro, e eu concordei. Acontece que o Caio não foi aceito pelos americanos. Então, o
Schröder me ligou de novo e pediu para eu ajudar com uns votinhos na América Latina para o Köhler.
Havia um outro que era muito bom, o Stanley Fischer, que tinha ajudado no Plano Real, deu uns palpites.
Mas, enfim, Köhler veio para agradecer, não havia pressão do FMI. Não é assim que as coisas acontecem.
Mas o mais difícil, pessoalmente, vou dizer: é demitir um ministro que é seu amigo e que não fez nada de
errado, mas a situação o obriga.O senhor se refere a...FH: Ao Clóvis Carvalho e ao Celso Lafer. É
difícil.O senhor acha que a presidente Dilma já conheceu esse lado amargo logo de início? FH: Sim,
não sei se na mesma proporção que eu, porque o Clóvis e o Celso eram meus amigos. Eles são hoje do
conselho do meu instituto. Demiti o Xico Graziano, que está comigo também. No caso do Clóvis, o
motivo foi um discurso que foi parar na imprensa como se fosse um choque com o que defendia o Malan.
Você não pode permitir choque público com o ministro da Fazenda. Não era a intenção dele, mas intenção
é uma coisa...O senhor então discorda do que disse o ex-presidente Lula, que a opinião pública
morreu?FH: Eu discordo. Se tivesse morrido, não teria acontecido tudo o que acontece, inclusive
agora.E como o senhor vê o papel da opinião pública?FH: O que é a opinião pública aqui?
Antigamente era quem lia a imprensa. Basicamente era isso. Agora é quem vê a televisão e a internet. E
isso faz pressão. Não morreu, não, é o contrário.O senhor identifica um novo momento na sociedade,
nesse aspecto?FH: Ah, não tenho dúvida. E crescentemente vai ser assim, você vai ter uma influência
cada vez maior da sociedade conectada, que se manifesta cada vez mais. É curioso porque essa conexão
pode produzir "derrubamentos", derruba alguém, mas não constrói, porque não tem como fazer a coisa
funcionar. É para rupturas. Veja o que aconteceu agora no mundo árabe. Dá o contágio, pega, e se
movimenta. Agora, isso não dispensa a ação institucional. O problema hoje é que você tem uma sociedade
que está se conectando crescentemente, e o lado institucional não sabe se relacionar com isso. Dá a
impressão de que algumas instituições envelheceram, não percebem que têm que mudar e não sabem para
que lado vão.Por exemplo?FH: Qualquer pesquisa de opinião põe o Congresso em último lugar. É
sintoma de que a instituição não está sendo aceita pela sociedade tal como é. E a sociedade não toma
conhecimento do Congresso. Sofre as consequências de algumas decisões, mas não se preocupa; no dia a
dia, se preocupa com outras coisas. Pode ver: quais são os temas debatidos na internet e quais os
debatidos no Congresso? São dois mundos. Acho que esse é o sintoma de um problema grave na
sociedade atual. Como o Congresso é indispensável e os partidos também, é um problema.Porque não vai
ter jeito sem partido e sem Congresso.Não se pode dizer que é porque o Congresso brasileiro é muito
ruim?FH: Não, porque é um fenômeno que acontece no mundo inteiro.

O que falta para o Brasil chegar a ser um país de primeiro mundo? Quando o senhor saiu, admitiu
que não tinha conseguido resolver a questão da segurança, e disse que o presidente que resolvesse
isso...FERNANDO HENRIQUE: O que falta? Não é renda, porque ela está encaminhada. As empresas
brasileiras, privadas e públicas, avançaram. É uma coisa importante: a empresa pública brasileira, em
função do que eu fiz, virou empresa, deixou de ser repartição pública, então ela tem capacidade. A
Petrobras, por exemplo, não foi só quebrar o monopólio; nós mudamos como é que opera, para competir.
Não estávamos preparando para privatizar, mas para funcionar como empresa privada, sem influência do
setor político. Bom, então as empresas avançaram, a mídia avançou, parte da universidade avançou. O
que não avançou? O acesso à Justiça. Toda a questão de segurança está melhorando, mas muito
lentamente. Você não tem ainda cidadania. Tem acesso à educação, mas a qualidade deixa a desejar. Tem
acesso à saúde, mas o problema também é de qualidade. Saímos da fase de escassez para uma fase do tem
mas não serve, tem mas não funciona. Em vários aspectos. Talvez a coisa seja educação mesmo. Porque
ter PIB alto é bom, mas a Dinamarca tem um PIB menor que o nosso...O que deveria ser feito para
melhorar a educação? O atual ministro da Educação diz que não pode ter um choque, que é um
processo lento...FH: É verdade. Eu não acho que o ministro atual seja um mau ministro. Paulo Renato foi
um bom ministro. Portanto, a educação teve bons ministros. Deixe-me ser um pouco mais amplo. Acho
que estamos um tanto sem estratégia no Brasil, no geral. Não estou falando só do governo. Tenho horror a
essa ideia de que falta um projeto nacional, porque isso é uma visão totalitária, a famosa utopia totalitária.
Acho que não é isso. Numa sociedade democrática você tem de ter uma convergência de objetivos. Não é
alguém que, com uma alavanca de governo ou partido, faz. Essa é a grande diferença entre o PT e o
PSDB. O PT acredita que o partido toma conta do Estado, e que o Estado muda a sociedade. Ele não
acreditava nisso no passado. Ele nasceu da sociedade, mas esqueceu disso. No fundo, é mais autoritário.
Mas precisa ter uma estratégia que seja convergente. O que todos queremos? Queremos passar de uma
sociedade rica e desigual para uma só mais igualitária ou queremos mais que isso? Cuba e Coreia são
igualitárias. Igualdade é um valor, mas não é absoluto. Precisamos querer mais do que isso, uma
sociedade com valores de participação, democracia, liberdade, respeito ao indivíduo, de Justiça. Então,
acho que não temos uma visão compartilhada do futuro. Aqui se tomam grandes decisões sem o país
saber. As decisões sobre petróleo, ninguém discutiu. Sobre ter mais usinas nucleares, ninguém discutiu.
Falta a sociedade se engajar nessa questão. Na educação é a mesma coisa. Vamos fazer o trem-bala! Por
quê? Pode ser que seja necessário, mas não foi discutido. Voltamos a um período militar, em que você não
transformava em debate público as decisões de Estado. Se não tem isso, somado a uma sociedade que não
confia nas instituições, como ter uma convergência de todos? Não tem. Fica cada um por si e Deus por
todos. E sabe quem manda? É o mercado, o que comanda mais hoje é o mercado, não o Estado. Eu sou
contra isso. Numa sociedade democrática, não pode ser o mercado que comanda, tem que ser a
sociedade.Mas no seu tempo de presidente, quais foram os grandes temas? E acha que a sociedade
se engajou e discutiu?FH: Reforma agrária, previdência social, estabilização. Como é que fizemos a
estabilização? Não foi impondo. Dissemos quais eram os passos, o tema... O Congresso discutia. Nos
últimos anos, o Congresso perdeu ressonância na sociedade porque carimba medida provisória.Mas será
que a sociedade também não perdeu o ímpeto?FH: É possível que sim, em decorrência da
prosperidade. Isso não é culpa de ninguém. Estou aqui fazendo uma análise sociológica. Há uma
desmobilização que vem junto da prosperidade. A prosperidade é boa, mas não é suficiente para se chegar
ao primeiro mundo. Acho que estamos melhorando muito. Tenho 80 anos. Nasci em 1931. Pensa o que
era o Brasil quando nasci.O senhor nasceu com a revolução de 30.FH: Junto com a revolução de 30, em
que minha família toda estava metida. O que era aquele Brasil? Quanto havia de analfabetos? 70%, 75%.
Hoje são 10%. Só havia uma estrada pavimentada, que ligava o Rio a Juiz de Fora. Quando vim para São
Paulo, tudo o que vocês veem lá (apontando para a janela de seu apartamento, de onde se vê o bairro de
Perdizes) era lama. Isso era o Brasil, não tinha estrada. Então mudou tudo no Brasil, mudou tudo, e para
melhor.Na sua biografia, o senhor disse que conheceu a pobreza por livros, que era uma
consequência desse Brasil, onde a pobreza era uma coisa distante...FH: Distante. Eu fiz pesquisa no
início da minha carreira sobre negros. Andei muito em favelas, e você entrava na maior tranquilidade
porque a diferença de classe era tão marcada que o pessoal não mexia. Estudei no Colégio Perdizes. Tinha
a serraria do Maluf, que era do pai dele, nessa rua. Então, me lembro que tinha mais adiante a fábrica do
Matarazzo. Na hora do almoço, ficavam os operários na calçada, comendo na marmita, e, se passasse
alguém engravatado, eles abriam espaço... Então a sociedade do passado é inaceitável. A de hoje é mais
igualitária, as pessoas reivindicam, olham cara a cara. Mudou para melhor.Quais os grandes momentos
de transformação no país nesses 80 anos? O primeiro choque, o senhor lembrou, foi dado por um
Estado forte; não há uma contradição aí?FH: Não, naquele momento não tinha alternativa. E até hoje o
Estado é fundamental. Não gosto é da ideia de um projeto (imposto). Mas claro que foi, o Estado é
fundamental, e até hoje. E, curiosamente, as grandes transformações econômicas do Getúlio, ele tentou
não fazer pelo Estado. Volta Redonda, ele tentou fazer pela iniciativa privada, mas não tinha como ser.
Quem fez a Embraer foi a Aeronáutica. E certamente haverá hoje muitas coisa que ou o Estado faz ou
ninguém faz. A ideia de pensar que é só o mercado, não! O Estado tem um papel importante. Agora, o que
não pode é ter autoritarismo.Mas quais os momentos de grande transformação?FH: Para mim,
primeiro, a Segunda Guerra Mundial. Meu pai era militar, nós mudamos de novo para o Rio, Copacabana
tinha blecaute, ensaios de bombardeios. Então, na época da guerra, o Brasil deu um salto porque fizeram a
chamada substituição de importações forçada. Não podia importar, começou a se produzir aqui. Foi um
boom da indústria têxtil e urbanizou mais. Mais tarde, Getúlio se beneficiou disso. Depois você tem um
período bastante difícil que é o final do presidente JK. Ele fez o endividamento e fez a abertura também,
não a abertura da economia, mas trouxe o capital estrangeiro para cá. Internacionalizou a produção daqui,
não internacionalizou a economia brasileira, e fez Brasília, deu um certo otimismo. E, daí por diante, os
anos 60 foram muito difíceis, veio o golpe e foi muito complicado. Em 70, houve crescimento
econômico, mas os indicadores sociais não melhoraram tanto. Como houve uma explosão urbana, a
administração pública entrou em colapso. Aumentou a desigualdade. Aí, quando chegou nos anos 80, isso
ficou mais sensível, inflação, e não sei o quê... Nos anos mais recentes, para mim, o grande marco é a
Constituinte, a Constituição, que assegura as liberdades, dá voz ao povo, permite organização, isso é
consequência das Diretas já, das greves do passado. Daí por diante, não tem governo que não tenha que
olhar para o povo, porque o povo taí, ele pode gritar, pode ir ao tribunal , ele reclama, não faz mais greve.
No meu governo, acabou (greve).Voltou a fazer agora...FH: Agora um pouquinho, né, por causa da
inflação. Então acho que a Constituição desenhou um futuro social-democrático para o Brasil, deu muita
liberdade, inventou o SUS, permitiu reforma agrária, e com um problema: ela foi em 88 e o Muro de
Berlim caiu em 89. Então ela manteve o corporativismo, com monopólios...E isso não tem nada a ver
com a social-democracia. Tem mais a ver com o PT?FH: Nada a ver com a social-democracia, mas
com o PT. A estrutura sindical getulista... O PT aderiu a isso. O PT na Constituinte era libertário, ele
votou contra a estrutura sindical. Eu fui dos poucos que votei junto com o PT, para quebrar o fascismo
que tem ainda hoje na CLT, para empresário e para trabalhador. Os dois se juntaram porque os dois se
beneficiaram do dinheiro indevido, que é nosso, para manter essas burocracias enormes, sindicais, que
não têm mais representatividade efetiva da base. Bom, de qualquer maneira, o segundo passo importante
foi a abertura da economia no governo Collor, porque forçou o Brasil a entrar na competição. Fui ministro
da Fazenda logo depois, e a pressão que eu sofria dos amigos de São Paulo era enorme para não continuar
a abertura.Foi por causa dessa pressão que o senhor não abriu tanto?FH: Eu abri pouco, mas não foi
por causa dessa pressão. Não dá para mudar tudo de uma vez. E ao mesmo tempo jogamos o BNDES
para compensar porque várias indústrias foram abaladas. O BNDES teve papel essencial na reconstrução
dessa estrutura, e continua tendo. Então o segundo passo foi esse. O terceiro foi a estabilização da moeda,
com tudo o que isso significa. O quarto foi a reforma do Estado, que incluiu as privatizações, as agências
reguladoras, transformar o Estado numa peça eficiente. Vou dar um exemplo: o SUS só havia no papel.
Foi feito por nós. Hoje, bem ou mal, tem o SUS aí. Na Previdência ficamos canhotos porque fizemos só o
fator previdenciário que o Congresso derrubou e o Lula vetou. Houve mais mudanças, menores. Criei o
Ministério da Reforma Agrária, o Pronaf, revolucionamos a agricultura... E quinto passo: as políticas
sociais, que começam no meu governo e explodem no governo do Lula. Essa é sequência das
transformações mais recentes.O que falta?FH: Houve certos retrocessos na questão do Estado. Estão aí
os aeroportos como prova pura disso. As estradas também não avançaram mais.O Estado ficou mais
forte.FH: Mais forte para quê? Não está mexendo na infraestrutura. A economia ficou mais forte, e o
Estado está fortalecendo uma economia forte, às vezes desnecessariamente, dando dinheiro para fusões, o
que é discutível. Mas não houve uma expansão da infraestrutura. Porque ficou no Estado, e o Estado não
tem os recursos, às vezes. Eu reitero: não sou privatista, não sou neoliberal, mas tem coisas que o Estado
pode e coisas que não pode fazer. No caso dos aeroportos, é gritante que tinha que fazer concessão e não
foi feito. Mesmo no caso da energia elétrica, o dinheiro que está indo para Belo Monte é público. Se
quiser fazer o trem-bala, não tenho nada contra, mas bota dinheiro da iniciativa privada. Por que o meu, o
seu, o nosso? As agências reguladoras perderam força, a Petrobras tem penetração política, então isso é
retrocesso.Mas e de bom?FH: Primeiro, os programas sociais...Pela análise do senhor, apesar dos
retrocessos, não houve nada ainda que fizesse andar para trás, que comprometesse?FH: Não. O PT
vive dizendo: o PSDB não tem projeto. Como não tem projeto? Vocês (os petistas) estão cumprindo!Mas
o que o PT fez de bom?FH: A expansão da política social. Eu não faria a politização dela, de (atuar
como) novo pai dos pobres, não. Mas a expansão foi positiva. Na educação, acho que não paralisaram.
Houve alguns tropeços, mas, no geral, historicamente, a linha está ascendendo, não está caindo.O que
pode atrapalhar essa linha ascendente?FH: O que pode atrapalhar é o seguinte: A Previdência tem
problemas, o sistema tributário também, o mercado de trabalho também... Não houve reforma nenhuma.
Trocamos a reforma pelo bem-estar, e não houve um avanço grande de investimentos - agora está
começando a ter. O crescimento está se dando mais pelo consumo do que pelo investimento. Isso vai até
certo ponto e depois para. É o seguinte: o futuro vai depender de educação, tecnologia e inovação. O
Brasil tem hoje uma situação privilegiada porque a China voltou a ter um papel central no mundo e ela
precisa de comida e matéria-prima. E o Brasil tem espaço para continuar a plantar e tem boa mineração.
Mas isso tem um preço: nossa indústria começa a dar sinais preocupantes, o número de empregos
aumentou, mas os empregos são de baixa qualificação. País desenvolvido é país de emprego bom.Mas
está melhorando a qualidade do emprego.FH: Não, não está. A formalização uma coisa positiva no
governo Lula. Mas a propaganda diz "milhões de empregos", quando não é emprego novo. Passa a contar
porque foi formalizado, mas já existia. Com essa mudança do mundo, o Brasil não pode dispensar o
crescimento industrial. É normal que o serviço cresça bastante, em todas as economias. Mas qual serviço?
De qualquer maneira, volta ao tripé: educação, tecnologia, inovação. Por quê? Vamos ter de competir.
Temos que escolher: vamos ser bons no quê? Não podemos continuar com a visão autárquica que vem do
passado de querer ser bom em tudo. Tem que escolher e fazer as apostas. Creio que o BNDES tem um
pouco dessa visão. Estou falando de escolher em que setores um país tem que investir. Pega um país, a
Coreia, que esteve muito atrás do Brasil e hoje está à frente. Tem de ter um certo ingrediente de
pragmatismo na nossa formação, que não temos. Eu não sou pessimista quanto a nada disso, só estou
assinalando que é por aí que temos que caminhar. E acho que essa coisa do governo Lula de que "eu sou
tudo, o bom" e o outro é mau, isso atrapalha a convergência nacional.O senhor está dizendo que o
populismo, não só no Brasil mas em qualquer lugar, é um desastre para a convergência? FH: É um
desastre, não permite esse tipo de convergência, e fica então muito mais propaganda do que consenso
nacional. E depois que o líder sai, cadê a propaganda?O senhor considerou as privatizações um dos
grandes avanços. Mas que coisa estranha acontece que, em toda eleição, ela vira um espantalho?
FH: Faltou luta do PSDB, faltou reafirmar com força que aquilo foi positivo. E é tão fácil! Nós não nos
orgulhamos de a Embraer vender aviões no mundo todo? Temos quantidade de celular que cresce
exponencialmente, e todo mundo gosta. A Vale é a segunda maior empresa de minério do mundo, nos
orgulhamos disso, mas ao mesmo tempo...Foi erro na comunicação?FH: Sim, mas não só. A esquerda
brasileira, e eu também, foi criada com a ideia de que se não é estatal não é bom. Uma parte importante
do pensamento político brasileiro é assim, e no PSDB também.Do que o senhor se arrepende nestes 80
anos?Ah, aí você vai passar a tarde toda aqui (risos).Do que mais se orgulha?FH: Vou dizer uma coisa
que pode parecer clichê. É da minha família. Eu tenho um apoio tão forte, tinha da Ruth e tenho dos meus
filhos. Em todos os eventos da minha vida, o que não é fácil, é inacreditável. Meus filhos me ligam
incessantemente e vêm aqui, se preocupam. O que me dá possibilidade de viver com independência e
vigor é que tenho apoio brutal da minha família e dos amigos de muito tempo. Isso é necessário. E o
arrependimento?FH: O arrependimento? Olha, se for na política... O resto eu não posso nem falar,
porque tenho tantos... (Mas na política) é aquilo que eu disse, é conveniente ter a noção de que não dá
para mudar tudo de repente. Acho que forcei demais para mudar a Previdência, e isso me custou muito
caro. Não precisava tentar tanto. Nós queríamos endireitar o Brasil todo e de uma vez. Não é assim. Eu
podia ter sido mais suave, me desgastaria menos e talvez tivesse conseguido mais.Como era a rotina na
Presidência?FH: A coisa mais atormentadora é quando chega nove da noite, entra o chefe da Casa Civil
com uma pilha de documentos para assinar...E depois não se pode dizer que assinou sem ler, né?
FH: Mas não lê, né? Porque o que acontece é o seguinte: tudo passa por vários crivos, os dois principais
são o advogado-geral da União e o chefe da Casa Civil. Passou pelo ministro, passou pela Casa Civil, pela
AGU e depois pela Presidência. O chefe da Casa Civil, quando passa, ele te informa do que se trata. Se
for uma coisa mais delicada, você discute. Nesta discussão que está aí hoje (sobre a manutenção do sigilo
eterno para documentos de Estado)... Foi no dia 31 de dezembro de 2002, último dia do governo. Porque
tem dois canais, ou vem pela Casa Militar ou vem pela Casa Civil. Bem, quando veio esse negócio, eu
disse (depois): não é possível que eu tenha assinado isso. Aí chamei o Pedro Parente: vê se é possível que
eu tenha assinado isso. Reconstituiu, não passou pela Casa Civil. Foi pela Casa Militar. Sem a assinatura
do general Cardoso. Mas eu não sabia. E uma coisa me chama a atenção: nunca nem o Itamaraty nem as
Forças Armadas falaram nesse assunto comigo, nunca pressionaram.Então o senhor assinou sem ver? E
quando soube?FH: Quando saiu no jornal, um ano depois. Como eu assinei um negócio proibindo
eternamente? Mas Lula nunca desclassificou. E surpreende que o Collor e o Sarney tenham se
posicionado (para manter o sigilo eterno), então deve haver algum problema...É porque está chegando
perto do governo deles.FH: Mas será?Não faz mais sentido, mas dizem que a razão é a Guerra do
Paraguai e que o Brasil não ficaria muito bem na fita...FH: Houve outra vez em que assinei também,
com parecer e tudo aprovado, uma coisa que deixou a Ruth furiosa, porque restringia o atendimento a
aborto. Quando apareceu, você imagina lá em casa! Mas nesse caso tinha pareceres... passou por um canal
do Ministério da Saúde. Aí, depois, pedi ao Congresso que rejeitasse, ele rejeitou.Provavelmente era um
período próximo de eleições...FH: É possível. Então pode acontecer. Mas, que eu me lembro, foram
esses dois casos. Agora é eletrônico, né?, mas eu me lembro de que o Hargreaves ia para a casa do Itamar,
com pilhas e pilhas, e ele ficava desesperado também. É muito cansativo esse negócio de ser presidente,
não sei por que o pessoal quer tanto... (risos)Por que o senhor quis tanto?FH: Pois é, por engano.
(ri)Duas vezes, presidente?FH: Eu sou meio tonto...O senhor reclamava muito da solidão do
poder.FH: Isso sim. Isso é insanável. Porque não é a solidão de pessoas. É que não adianta ter um monte
de gente em volta, e você não pode partilhar. Porque, em geral, quando vem uma discussão para a mesa
do presidente, é porque as pessoas não se entenderam antes, tem ministro brigando. Não vem coisa boa
para o presidente. Só vem bola dividida. E a função da Casa Civil é arredondar a bola. Mas, quando eles
não conseguem, vem para você, e aí você tem que decidir.O senhor falava que o Palácio é um lugar de
muita intriga...FH: Palácio é um lugar de muita intriga. Eu fui funcionário das Nações Unidas - antes eu
era professor -, e lá é uma burocracia pesada, a base de organização daquilo é inglesa, e tudo é
hierarquizado, inclusive o número de janelas a que você tem direito na sua sala. Mais janelas, mais poder.
Eu nunca fui muito desse tipo de coisa.E no palácio...FH: Eu mal conheço o Palácio da Alvorada. Eu
conheço a sala onde eu andava, mas o presidente não vai às áreas de trabalho. O presidente anda com um
séquito, e não dá. Quando o Lula se elegeu, eu falei com o Gushiken, que foi lá, que esse negócio de
palácio é complicado, toma cuidado. Porque, se puser muito ministro no palácio, vai dar briga. Não é o
ministro que briga, são as equipes. Quanto menos ministro no palácio, melhor.O senhor já disse que no
Palácio não pode haver dois fortes.FH: Não pode. Tem que ter um único, porque se não vira briga
burocrática, vira uma coisa...E agora com três mulheres?FH: Mulher talvez se entenda melhor. Em
matéria de gênero, eu não entro. (risos)Como é conciliar essa solidão povoada com o poder supremo
que a função confere? O presidente se sente um pouco rei?FH: Se você se deixar levar pela sua
imaginação, vira rei. Se tiver um senso realista, vê que aquilo é transitório. Porque você mora numa
repartição pública, por mais bonito... O Alvorada é lindo, a parte superior dele é isolada, e, no meu tempo,
só morávamos eu e a Ruth. Eu nunca tive ajudante de ordem morando lá, ninguém. Só os garçons podiam
entrar sem avisar. Mas você desce ali, e é uma repartição pública. Moram lá, entre guardas e funcionários
do serviço, de 100 a 150 pessoas. Você vai passear no jardim, olha para trás, tem duas pessoas atrás de
você. Então, você não está na sua casa, por mais que seja agradável. Você vai nadar, tem alguém te
olhando para não morrer afogado. Ou para te afogar (risos). Agora, eu sempre procurei não mudar meu
estilo pessoal de viver. Eu e a Ruth. Então, quando vínhamos para São Paulo, íamos para o nosso
apartamento aqui. Sempre estive com os mesmos amigos, e aí não tem jeito. Você não vai ser rei. Você é
um igual. Tem algumas restrições que são grandes, você não guia automóvel...Não abre portas...FH:
Bom, isso eu sempre corria para abrir, mas sempre chegava alguém antes. Por que, quando terminou o
governo, eu e Ruth fomos correndo para a Europa? Eu andei de metrô, fiquei num apartamento da dona
Maria Sodré. Era bom, mas pequenino. De propósito, para cair na real.O senhor não teme ser vítima de
um conservadorismo moral com essa sua campanha a favor da descriminalização da maconha?FH:
Em qualquer outro país, eu temeria. A nossa sociedade é bastante aberta.O que o levou a se interessar
por esse tema?FH: Depois que deixei a Presidência, disse que iria me afastar da política partidária. Disse
que iria me afastar e procurar atuar no campo da política de participação cívica. Nesse caminho, o Kofi
Annan me colocou como assessor dele para fazer um relatório sobre como a sociedade civil poderia ter
uma conexão com a ONU. Depois fiz outro relatório sobre a Unctad. Fiquei presidente do Clube de Madri
e organizei uma reunião sobre terrorismo e democracia na Espanha. Depois me meti na questão da Aids.
Estive com o Mandela na Noruega, na França, e foi a partir daí. A droga faz parte do mundo global. Li um
livro de um amigo chamado Moisés Naím (escritor venezuelano) que mostra como houve a globalização
do crime. Foi por aí que entrei nessa questão da droga. Não pela coisa local. Guerra às drogas só não
resolve. Você tem que mudar de combater só a produção para reduzir o consumo e dar tratamento e
educação.Se um filho adolescente chegar para o senhor e admitir que fuma maconha, o que diz?FH:
Você sabe que isso faz mal. Eu não posso dizer que é pior que o cigarro porque não é. Mas vou dizer que
ele é livre para fazer isso, mas questionarei onde ele foi obter a droga, por que ele foi no crime? É melhor
regular do que fingir que não existe o problema, porque o seu filho fuma, e ele vai comprar do crime.
Agora, se for cocaína, crack, tem que ir para o tratamento.Isso chegaria ao ponto de se vender
livremente a droga?FH: Não. O álcool não deveria ser vendido abertamente. Não é na Europa, nos
Estados Unidos, onde menor de 18 não compra. Maconha tem dois problemas gravíssimos. Um é a
intensidade, e o outro é que, para obtê-la, você vai ao crime. Eu não sou favorável à legalização.
O PSDB reagiu com preocupação ao seu engajamento, dizendo que essa não é a posição do partido.
FH: Eu até entendo e acho que essa matéria não está no momento de ser politizada.Mas o senhor não
teme que numa próxima eleição isso vire munição contra o seu partido?FH: O Tarso Genro era a
favor, o Paulo Teixeira é a favor. Não sou a favor das drogas. Sou contra o uso de drogas. As pessoas não
viram o filme, têm de ver.O jogo político favorece a hipocrisia?FH: É possível que sim. Como você
aborda esses temas eleitoralmente? Eles vão ser abordados em forma de chantagem. Já fumou maconha
ou não? É a favor do aborto ou contra? Acredita ou não em Deus? Eu nunca disse coisas contrárias ao que
penso. Sabe como eu respondi à pergunta se eu acreditava em Deus? Disse que isso não era pergunta que
se faça. Religião é questão de foro íntimo. Você tem que perguntar ao candidato a prefeito se ele respeita
as religiões e não no que ele acredita. Foi a minha resposta, e disso interpretaram que eu disse que era
ateu. Na campanha, qualquer que seja sua resposta, vai ser feito assim. Perguntar essas coisas faz mal à
sociedade, porque eles (os candidatos) não vão poder responder, e é só para atrapalhar. Esse tema não
deveria ir para a política.O senhor acha que a mágoa do presidente Lula em relação ao senhor é por
ter perdido duas vezes no primeiro turno?FH: Não sei se ele tem mágoa. Quando estamos juntos, a
relação é boa. O Lula tem essa língua solta, e eu também. Acho que o Lula ficou mesquinho, e ele não
precisava renegar o que estava seguindo para ter a glória dele. Ele achou que, para ele crescer, tinha que
me botar para baixo. Um cresce no ombro do outro e vai ficando mais alto.Como o senhor vê a postura
da presidente Dilma?FH: Foi diferente. Eu até telefonei para ela para agradecer. Eu fiquei feliz com a
carta dela, que me deixou bem satisfeito. Ela reconhece algumas coisas. Meu antecessor, Itamar, embora
ele se queixe, não há uma referência minha a ele que não seja elogio. Sem o Itamar, não haveria o Plano
Real. Eu acabei de falar do Collor, que fez a abertura. História é História, você não pode borrar a História.
(...) Acho que é muito pretensioso você imaginar que os outros não fizeram nada. Se eu dissesse o que o
Lula diz, eu seria execrado. O Lula não é (execrado) porque foi trabalhador, pobre, e isso dá a ele uma
espécie de imunidade para dizer coisas que não são aceitáveis. Agora, acho que chega.O senhor nunca
voltou aos dois palácios?FH: O Lula nunca me convidou para tomar um café. Tanto o Itamar quanto o
Sarney foram ao Palácio. Fiz de propósito um gesto para o general Geisel, o convidei para almoçar. Fiz
isso porque tinha sido o primeiro presidente punido pelo AI-5 e eu queria dizer que acabou aquela época.
Não iria esquecer o que aconteceu, mas a época é nova. É uma coisa de civilidade. A Dilma me convidou
para ir lá. O Lula me convidou para ir com ele ao enterro do Papa, e eu fui. Acho errado isso (de Lula
nunca ter chamado para um café, uma conversa), tanto mais porque eu e o Lula tínhamos relação antiga.
Vou dizer uma coisa: quando houve o mensalão e razões óbvias para o impeachment do Lula, eu disse que
não achava uma boa. Justifiquei que eles iam colocar as ruas contra nós e, por outro lado, ficaria uma
marca indelével muito ruim para o país.Como o PSDB pode fazer essa aproximação com o povão?FH:
Como temos os governos de São Paulo e Minas? Porque temos o apoio do povão. Essa é uma outra
imagem que o PT joga. A diferença não é povão no voto, mas o mecanismo organizado de controle de
movimentos sociais, que é o que eles têm. O PT tem o controle dos movimentos sociais. Como todos os
sindicatos mamam na mesma teta, que é o dinheiro público, está tudo acalmado. O período de grande
crescimento econômico não facilita essa identificação?FH: Sem dúvida. A economia está por trás de
tudo.