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A educação e orientação profissional

em Angola
1 de Novembro, 2010

Menezes Clemente Cambinda|*


A orientação profissional tem se constituído numa problemática muito estudada, a partir
da sua incidência na actuação do homem para preparação de profissionais que sejam
capazes de enfrentar os desafios do progresso científico e de contribuir para a elevação
do nível cultural e técnico, enquanto condição necessária para preservação das
conquistas alcançadas pela sociedade.

A orientação profissional tem se constituído numa problemática muito estudada, a partir


da sua incidência na actuação do homem para preparação de profissionais que sejam
capazes de enfrentar os desafios do progresso científico e de contribuir para a elevação
do nível cultural e técnico, enquanto condição necessária para preservação das
conquistas alcançadas pela sociedade.
O desenvolvimento da orientação profissional só pode ser alcançado mediante um
tratamento científico dirigido aos aspectos teóricos, práticos e metodológicos que
caracterizam este processo. Este desenvolvimento deve ter em conta o seu carácter
complexo e contínuo que inicia desde a infância e se intensifica nos momentos cruciais
em que o indivíduo tem que decidir o seu futuro profissional.
Ocorre com frequência nos adolescentes e jovens que quando chegam ao momento de
decidir o caminho a seguir na vida enfrentam diferentes contradições, entre o que fazer,
de que maneira, em que contexto, com quem fazer, como fazer, o que ser, quer dizer,
não sabem que caminho profissional escolher. Isto pode estar condicionado, em grande
medida, pela ineficiente orientação profissional que vão recebendo durante os anos dos
seus estudos e nestes casos, a responsabilidade de orientar adequadamente ou reorientar
a imagem do futuro que o adolescente ou jovem deve ter, está a cargo de factores
educativos como a família, a escola, as organizações sociais e governamentais, cujo
trabalho deve dirigir-se a informar, desenvolver e transformar o estado das qualidades e
formações psicológicas com objectivo de propiciar a tomada de decisões, expressada
numa autodeterminação da esfera profissional.
Estes factores educativos devem realizar um trabalho de orientação profissional, com a
finalidade de preparar os estudantes para que escolham, conscientemente, uma
profissão, de acordo com as exigências económicas e sociais do país e com base nas
suas qualidades pessoais; quer dizer, formar nestes estudantes verdadeiros interesses
profissionais, de que se espera transformem numa força motivacional activa durante o
estudo da carreira que pretendam seguir.
Na Reforma Educativa em curso em Angola, como resposta ao cumprimento da Lei de
Bases do Sistema Educativo, se enfatiza a importância da sua contribuição para a
formação de futuros profissionais e para a formação de especialistas altamente
qualificados, capazes de acometer as tarefas que demandam o desenvolvimento do país,
de maneira competente e com criatividade. Nestas nobres aspirações, adquire uma
significação relevante o trabalho de orientação sobre as profissões, que pressupõe a
formação de homens e mulheres capazes de colocar-se a altura da sua época,
transformando-a ao mesmo tempo que se alcança a sua realização pessoal, onde a escola
e o professor desempenham um papel essencial. Diversas investigações demonstram
que o professor constitui a figura principal no processo de orientação profissional e na
ajuda ao estudante para a busca de uma decisão auto determinada e uma adequada
motivação profissional (T. K. Mujina 1981, Gonzalez Maura 1989,Watts, A. 1991;
Rios, J. 1993, Varela, C. 1994, Vargas, E. 1996).
A realidade da sociedade angolana encarrega cada vez mais à escola a necessidade de
elevar a sua função educativa e, dentro desta, a relacionada com a orientação da
personalidade na <a href='http://pub.sapo.pt/ck.php?n=a23f5e49&cb=887899685'
target='_blank'><img
src='http://pub.sapo.pt/avw.php?zoneid=2817&cb=887899685&n=a23f5e49' border='0'
alt='' /></a> esfera motivacional com respeito às profissões necessárias e úteis para o
país, hierarquizando a educação e a orientação profissional da personalidade dos
estudantes de acordo com as dimensões básicas como: a relação entre a quantidade e a
qualidade e entre o social e o individual no processo e no resultado da educação e
orientação profissional.
Os adolescentes e jovens quando ingressam no primeiro ciclo do ensino secundário na
República de Angola, começam a pensar e eleger o que farão. É um momento da vida
em que se debatem numa luta constante entre os seus gostos, aspirações, ilusões,
sonhos, opções, e desejos; é o momento em que necessitam do apoio de pessoas
especializadas e de familiares próximos que os ajudem a orientar-se e consentir as suas
decisões. No entanto, os conteúdos da orientação profissional não fazem parte do
currículo do primeiro ciclo do ensino secundário, o que limita em grande medida a
possibilidade de que os estudantes possam, entre outras questões, conhecer-se a si
mesmos, analisar se as suas decisões correspondem, na realidade, com os seus interesses
profissionais, resolver com ajuda especializada algumas insuficiências que na ordem
pessoal não lhes permitam um exercício eficiente da futura profissão, assim como
conjugar os interesses individuais com os sociais.
A partir de uma minuciosa análise dos documentos sobre a realidade educativa do país e
da experiência docente e investigativa do autor, detectaram-se dificuldades com a
problemática da orientação profissional no primeiro ciclo do ensino secundário, dentro
delas as seguintes: 1) não existe um programa de estudo dirigido a preparar os -
estudantes para as diferentes profissões, razão pela qual os estudantes seleccionam
aquelas carreiras onde há mais lugares em oferta, sem um conhecimento profundo do
conteúdo das mesmas; 2) há poucos especialistas para realizar um eficiente processo de
orientação profissional, existindo até agora no país uma só investigação que abordou
esta temática, ao nível de doutoramento; 3) as poucas acções que se realizam através de
actividades extra docentes e extra escolares, tais como, círculos de interesses, planos de
férias e outras actividades, têm um carácter espontâneo e de divulgação.
Em consequência da problemática atrás mencionada, se constata uma prática nula da
orientação profissional no primeiro ciclo do ensino secundário, constituindo assim uma
contradição entre o que o país necessita para a formação nas diferentes profissões e a
orientação profissional que se desenvolve no processo de ensino-aprendizagem; assim,
justifica-se a realização desta investigação, a partir da identificação do seguinte
problema científico: como contribuir para o aperfeiçoamento da orientação profissional
em Angola? A presente investigação tem como objectivo, propor um desenho curricular
para a integração dos conteúdos da orientação profissional no primeiro ciclo do ensino
secundário na República de Angola que envolva, além da escola, todos outros factores
educativos como, a família, os meios de comunicação social, organizações sociais e
governamentais.

* Doutorando em Ciências de Educação


CARLINHOS ZASSALA

Neste livro, Carlinhos Zassala propõe esclarecer as causas que determinam o fraco
rendimento dos alunos do ensino de base regular do I° nível, ensino primário, que muito
bem classifica de «pedra angular de qualquer subsistema de ensino», apontando para três
factores que, no nosso país, comprometem o desempenho escolar dos alunos do I° nível.
O primeiro, refere-se à problemática da utilização do português como língua de ensino em
Angola, questão absolutamente pertinente na medida em que o português não é a língua
materna da maioria das crianças angolanas. Na verdade muitas delas entram somente em
contacto sistemático com a língua portuguesa quando começam a frequentar o ensino
primário. Mesmo as crianças que no decorrer do processo de socialização exercitam o seu
uso, fazem-no com muitas deficiências estruturais, quer a nível gramatical quer de
vocabulário e pronunciação, factor que concorre para que, no cômputo geral, se verifique
a grande dificuldade sentida por elas no domínio da mesma. O Autor relaciona ainda o
fraco desempenho escolar com a precária formação técnico-cultural e psicopedagógica
dos professores, que para além de, por norma, estarem afectos a estruturas e organismos
disfuncionais que pouco ou nada contribuem para a promoção da sua formação
profissional, sentem-se ainda miseravelmente limitados e constrangidos pela ausência
total de incentivos que se deveriam traduzir na formação contínua e em contrapartidas
sociais e económicas. Por último, o terceiro factor apontado como condicionante do fraco
rendimento escolar dos alunos do I° nível refere-se às condições de aprendizagem na
escola e em casa, que para a maioria são praticamente inexistentes. Pode afirmar-se que
os alunos e os professores angolanos não encontram nos seus lares nem nas escolas as
condições mínimas de trabalho conducentes a uma prestação positiva de ambos.

Carlinho Zassala: “Nenhum país é


verdadeiramente independente quando
depende da ciência alheia”
julho 17, 2017

Luanda - Carlinhos Zassala, um dos grandes impulsionadores da Psicologia


em Angola, defende uma reforma geral no Sistema de Educação e Ensino
angolano, com vista a conferir-lhe qualidade e eficiência. Outrossim, insiste
na existência de um exame nacional para o Ensino Primário e Secundário. O
também docente universitário, autores de 5 obras científicas, bastonário da
Ordem dos Psicólogos de Angola e Presidente do Sindicato dos Professores
do Ensino Superior, em entrevista exclusiva ao ONgoma News, abordou,
igualmente, questões ligadas à educação da juventude, bem como ao papel do
psicólogo em Angola.
Fonte: ONGOMA

Como caracteriza o subsistema de


ensino superior em Angola?

Não há nenhuma sociedade que poderá desenvolver-se sem investir no


Sistema de Educação e Ensino. O nosso merece uma reforma geral, a partir do
Ensino Primário até ao Ensino Superior porque cada nível de ensino tem
objectivos a alcançar. O Ensino Primário tem como grande objectivo o
domínio da leitura, do cálculo e da escrita. Ora, o que verificámos é que
muitos dos nossos alunos que terminam o Ensino Primário não têm o domínio
nem da leitura, nem do cálculo, nem da escrita. O que significa que não
conseguem alcançar os objectivos do Ensino Primário. Essas falhas e lacunas
verificadas têm depois repercussões ao nível dos subsistemas posteriores: o
Ensino Secundário e o Superior. Ao nível do Ensino Secundário, é nesse ciclo
onde é dada a formação técnica e profissional da força de trabalho activa
porque nenhum país se desenvolve apenas com quadros superiores. Os que
fazem funcionar uma economia são os técnicos médios. Ora, felizmente, já se
está a tentar corrigir muitas falhas cometidas ao nível do Ensino Secundário
quando, em Angola, em todas as instituições existiam centros pré-
universitários (Puniv) que não davam nenhuma formação profissional aos
jovens. Entretanto, aqueles que terminavam o Puniv também não tinham
acesso ao Ensino Superior, principalmente na fase em que só existia a
Universidade Agostinho Neto. Então, há uma grande falha ao nível do Ensino
Secundário porque é a partir daqui que deve existir a orientação dos jovens, a
fim de poder formar-se nas várias áreas de formação técnico profissional. Por
isso, são necessárias reformas pontuais no Ensino Primário, no Ensino
Secundário e no Ensino Superior porque, hoje em dia - aliás, os nossos altos
responsáveis já confirmaram isso - nós já formámos muito em termos de
quantidade, mas, em termos de qualidade, estamos muito distante. Eu não
comungo com os teóricos que dizem, primeiro, a quantidade, depois, a
qualidade. Temos de combinar as duas coisas porque, por exemplo, eu sou um
docente que, às vezes, costumo visitar algumas universidades da Região,
como a de Namíbia, Kinshasa, etc. e constato com muita preocupação o facto
de o nosso país, até hoje, não existir normas curriculares para a formação ao
nível do Ensino Superior . Não encontro outro país no mundo onde , por
exemplo, indivíduos formados numa mesma área , no mesmo curso, cada um
tem uma formação diferente. Hoje em dia, o médico é formado na UAN, no
Piaget, o psicólogo é formado na UAN, na Unia, todavia, cada um tem uma
formação completamente diferente.

E não acha essa diversificação uma mais-valia?

A diversificação é saudável, mas deve existir uma base de comparação. É por


isso que felicito a nova direcção do Ministério do Ensino Superior por ter
criado uma comissão técnica, da qual faço parte, felizmente, para a
harmonização dos planos curriculares no país. Muitos estão a confundir
harmonização com uniformização. Em nenhuma parte do mundo há
uniformização. Harmonização significa que, em cada curso, temos que ter um
plano curricular básico, mínimo e obrigatório. E cada instituição, consoante a
sua missão, objectivos, pode acrescentar outras cadeiras ou cursos que vão,
justamente, diferenciar de outros cursos, mas tem de existir um plano
curricular básico, mínimo e obrigatório porque a ausência dessa harmonização
faz com que, hoje em dia, não haja possibilidade de transferir um estudante de
uma instituição para outra, não há possibilidade que haja mobilidade docente
de uma instituição para outra por que tudo é diferente. O projecto já está
elaborado pela comissão, à semelhança do que foi feito com o Estatuto da
Carreira Docente, com vista a criar-se um documento que vai definir as
normas curriculares gerais , depois de aprovadas , esta vai criar as normas
curriculares em cada curso. Só desta maneira é que haverá comparabilidade
em termos de formação e só é também desta forma que haverá mobilidade
discente, docente e de investigadores.

Essa mobilidade é ao nível do país ou da região?

Primeiramente, ao nível do país. Também a comissão técnica analisou não só


a mobilidade ao nível do país, mas também tivemos em conta a nossa região
da SADC. Baseámo-nos para a elaboração deste documento nas normas
curriculares de Moçambique, da RDC, etc., porque temos de colocar a vaidade
de lado. A nível do continente africano, o primeiro país que teve a melhor
universidade a Sul de Saara foi o Congo Belga - a Universidade Lovanium,
actualmente conhecida como Universidade de Kinshasa. Então, a
harmonização tem de ter também em conta a realidade da nossa região ,
principalmente a SADC.

E não tiveram em conta as normas curriculares de países para onde o


Estado angolano envia bolseiros?

Como somos um país que fala a língua portuguesa, também tivemos em conta
as normas curriculares do Brasil e de Portugal. É quase impossível nós
considerarmos todos os países para onde Angola manda os seus estudantes
porque, de uma certa forma, estamos a pagar algumas falhas que cometemos,
logo depois da independência, ao encaminharmos estudantes quase ao nível de
todos os países do mundo.

Isto pressupõe uma falta de orientação escolar ?

Exactamente!

E quem deve orientar escolar e profissionalmente o estudante?

São os psicólogos escolares, sob a responsabilidade do Ministério da


Educação. Felizmente, estamos a tentar corrigir os erros. Aqui, eu apoio um
dos lemas da [actual] campanha [eleitoral ]: “melhorar o que está bom e
corrigir o que está mal”. Em 2011, o Presidente da República aprovou um
Decreto Presidencial que obriga as escolas a terem um gabinete de apoio
psico-pedagógico e isto também está a obrigar a formação dos psicólogos
escolares porque a primeira área de aplicação da Psicologia foi a escolar e não
a clínica, nem a de trabalho. O jovem deve ser orientado a partir do Ensino
Primário não só escolar e profissionalmente, mas também a nível social, uma
vez que é justamente entre os 6 e 18 anos que ele é carente, tem muitos
problemas e precisa, portanto, de bons orientadores. Por isso, os que devem
orientar são os psicólogos escolares.

Mas as nossas escolas não têm gabinetes de apoio psico-pedagógicos. A


Ordem dos Psicólogos, junto do Ministério da Educação, já insistiu para
que se regularizasse essa situação?

Estamos a trabalhar de forma positiva para a existência desses gabinetes


porque a ausência de orientação escolar e profissional não permite uma
sociedade ou um país colocar cada indivíduo no seu devido lugar. Só o
psicólogo formado em matéria de orientação escolar e profissional tem um
conjunto de técnicas, métodos para poder conhecer o indivíduo que deve ser
orientado, para conhecer as necessidades do mercado de trabalho do país e
para conhecer as instituições onde esse indivíduo se deve formar porque todo
o exercício de uma profissão está sempre correlacionado com a personalidade
do indivíduo, então, não há nenhum pai ou nenhuma mãe que pode orientar os
seus filhos. Só o psicólogo escolar tem bagagem científica necessária para
poder justamente orientar as nossas gerações para as profissões e também
orientar as nossas gerações para a cidadania, porque é na escola onde se forma
o cidadão.

É daí os curriculuns da formação de professores deverem adequar-se a


isso?

Naturalmente. Aliás, o psicólogo escolar trabalha directamente com os


professores, os alunos, pais e encarregados de educação, bem como com
gestores escolares.
A investigação científica é um dos grandes desafios do Ensino Superior
em Angola. Há quantidade e qualidade na investigação que se faz no
país?

Com raras excepções, como por exemplo o Centro de Investigação Científica


da Universidade Católica, não se faz uma investigação séria no país por causa
da política investigativa vigente. Os grandes investigadores são, em primeiro
lugar, os professores universitários. Não é em vão que a carreira da docência
universitária começa com a assistência estagiária e termina com o
professorado titular. Os professores associados e titulares não deviam ter
muito tempo para a docência, deviam ter muito tempo para as aulas de pós-
graduação e para a investigação científica, mas não é o que acontece em
Angola. Eu sou professor titular, quase 85% do meu tempo dedico à docência
a nível da graduação e quando é que terei tempo para a investigação? E
também não oferecem condições adequadas para a investigação. Para
investigar, em primeiro lugar, a pessoa deve ter a satisfação das necessidades
básicas: ter uma residência condigna, ter um meio de transporte, em caso de
doença, saber onde tratar-se, ter um salário condigno porque investigar exige
uma grande concentração. Ora, o professor universitário angolano sobrevive
porque não tem as mínimas condições necessárias para investigação. Em
segundo lugar, a investigação exige fundos. Ora , em Angola, não tenho o
conhecimento ao nível do de OGE uma verba destinada à investigação
científica. Nós, em Angola, ainda não podemos falar da investigação
científica, talvez de forma literária ou retórica, mas na realidade não há
condições criadas para a verdadeira investigação científica. Eu desafio todo
aquele que poderia enfrentar-me num debate porque para poder publicar uma
obra académica é um calcanhar de Aquiles. [Por isso], temos que, na
realidade, fazer um grande esforço porque, no meu livro, “Iniciação à
Pesquisa Científica”, eu afirmo que “nenhum país é verdadeiramente
independente quando depende da ciência alheia” . Todo o país deve criar a sua
própria ciência e tecnologia. Só desta forma ele poderá desenvolver-se e ser
independente. Deste modo, a investigação científica deve ser uma prioridade,
principalmente, a investigação básica ou fundamental porque concede depois
subsídios para a investigação.
Na mesma senda, não acha haver um desperdício de monografias ao nível
das instituições do Ensino Superior de Angola, pelo facto de os resultados
das pesquisas ficarem apenas no papel?

Muitas monografias produzidas em Angola não têm rigor científico,


principalmente em termos de aplicação da estatística. Quando se realiza uma
investigação, o tema é bonito, mas o trabalho de campo, os dados colectados
não são interpretados à luz da estatística exigida para interpretar dados
científicos. Há muitos trabalhos por aí divulgados e interpretam com base na
percentagem. Percentagem é para os jornalistas. Um cientista tem de recorrer
a teste de decisão, a testes adequados de acordo com a ciência estatística. Por
isso, temos de começar a tomar a sério a orientação de monografias,
dissertações e teses, porque quando leio os temas dos trabalhos que estou a
orientar, e mesmo a forma de elaborar o projecto, deixam muito a desejar.

Então, aqui a questão de investigação/ pesquisa científica tem falhado?

Naturalmente, tem falhado porque, em primeiro lugar, não existe um rigor na


admissão do corpo docente, no financiamento da investigação e,
principalmente, esse divórcio entre os detentores do saber científico e os
detentores do poder político é prejudicial, porque quem deve dar subsídios
para os detentores do poder político são os detentores do poder científico. A
universidade é o centro de produção e divulgação do saber científico, mas
lamentavelmente, no nosso país e não só, quase ao nível do nosso continente,
há divórcio entre os políticos e os cientistas académicos.

O país manda, anualmente, estudantes para o estrangeiro como bolseiros.


Em que medida, na sua óptica, os saberes desses bolseiros são
aproveitados para questões que afligem Angola?

Eggm 92, o nosso Presidente esteve no Rio de Janeiro e eu, enquanto


Presidente da Associação dos Estudantes de Pós-graduação, mantive um
encontro com ele, no qual analisámos as razões de muitos estudantes
angolanos enviados para o exterior não querem regressar para Angola quando
terminam. E esse fenómeno acontece na maioria dos países africanos porque ,
quando regressamos, somos portadores de muitos conhecimentos científicos,
mas encontramos muitos constrangimentos e dificuldades para se pôr em
prática o que aprendemos. Por isso, diria que não há incentivo. Quer dizer, os
países africanos gastam muito dinheiro com bolseiros, estes vão formar-se,
mas, no regresso, não são aproveitados. Então, são poucos aqueles que
conseguem resistir, outros acabam por abandonar o país e voltam para os
países onde foram formados, a fim de encontrarem melhores condições de
vida. Quem perde em tudo isso é o país que investiu e que depois não
aproveita os conhecimentos adquiridos. Praticamente não existe
aproveitamento científico destes quadros.

Ainda mantém a ideia de um exame nacional para o ensino geral?

O exame nacional permite, em primeiro lugar, as várias escolas


acompanharem, de perto, os programas nacionais e, ao mesmo tempo, força as
escolas a poderem dar um ensino de qualidade aos seus alunos porque ,
quando estes terminam, quem sanciona as escolas é o exame nacional.
Naquela escola em que o exame nacional proporcionar boas notas isso dá uma
imagem ao Ministério da Educação, no sentido saber em que instituições
escolares os programas foram cumpridos, em que escola temos ensino de
qualidade e até serviria de base para incentivar em termos de subsídios
aquelas escolas que vão tendo bons resultados no fim da formação. Ora,
quando não temos exame nacional, em primeiro lugar, não é possível saber se
os planos nacionais estão a ser cumpridos; em segundo lugar, não há
fiabilidade em termos de certificados. É por isso que hoje temos muitos
certificados falsos porque não existe um parâmetro nacional para poder
analisar todos os que terminam o Ensino Secundário . Por isso, até hoje eu
continuo a defender o exame nacional a nível do Ensino Secundário e, ao
mesmo tempo, tornar funcional a missão dos inspectores escolares porque há
muitos inspectores escolares que, quando vão a uma escola, não costumam
inspeccionar nada.
Defendeu, recentemente, o ensino do latim nas escolas . Em que medida
isso ajuda a emancipação do conhecimento?

O português, o francês, o espanhol, o italiano, etc., são línguas neolatinas.


Então, estudos científicos demonstraram que, para alguém ser bom professor
de línguas, tem de saber as raízes dessa língua. Como o português é uma
língua neolatina verifiquei que, se os nossos professores de português têm
muitas falhas, é porque abolimos, infelizmente, o ensino do latim para os
professores de língua portuguesa. Eu quando oriento trabalhos de fim de
curso, por exemplo, às vezes até dá vontade de desmaiar quando recebo um
finalista que apresenta o seu trabalho com erros ortográficos e gramaticais e
quando lhes pergunto o que fazem profissionalmente dizem “sou professor de
português”. Por isso, continuo a defender que devemos recuperar o ensino da
língua latina para os professores de português.

Em contrapartida, parece que a UAN tem pretensão de ensinar


mandarim. Tem conhecimento sobre isso?

Sim! Até fui convidado para a abertura dessa instituição. Penso que, quando
tomamos medidas não devemos fazer com base no sentimento ou nas
influências do momento porque se for assim agora temos muita cooperação
com a China, vamos ensinar o mandarim. Amanhã teremos mais cooperação
com o Japão e vamos ensinar o japonês e quem sabe qual será a próxima
civilização? O mais importante é reforçarmos, primeiro, a língua oficial e
também reforçar as línguas africanas.

E sobre as línguas africanas, o que acha sobre a inserção delas no Sistema


de Ensino angolano?

Na minha minha dissertação de mestrado, “Orientação Escolar e Profissional


em Angola”, eu constatei que o não ensino das línguas africanas nas escolas
não permite às nossas crianças amadurecerem a língua materna e o não
amadurecimento da língua materna complica a aprendizagem de outras
línguas porque há um grande filósofo francês, Jean Jacques Rosseau , em
cujos estudos chegou a conclusão de que “ quem não conseguiu amadurecer a
língua materna ao longo de toda a vida não saberá ter o domínio de uma
língua”, porque o homem, na sua vida, só fala bem uma língua, que é a
materna. A outra traduz. Por isso, verifiquei que uma das coisas que está na
base do insucesso escolar no nosso país é o facto de a partir dos 6 anos o
aluno entrar para a escola primária e imediatamente começar já a aprender o
português, sem a menos ter o domínio da língua materna, sobretudo nas zonas
rurais. Também há um estudo que mostrou que aqueles que começaram a
aprender o português como língua materna, mas de forma deficiente, quando
começam a aprender o português gramatical têm dificuldade de poderem
corrigir os erros provocados pelo condicionamento operante.

Acha que há compatibilidade entre os diversos cursos existentes nas


várias universidades de Angola e as reais necessidades do país?

Mais um problema! Porque quando falei da figura do psicólogo escolar ou


conselheiro de orientação profissional é que este, quando quer orientar alguém
profissionalmente, deve ter em conta as tendências do mercado de trabalho
para que haja a menos uma aproximação entre o perfil de saída e o perfil de
entrada no mercado de trabalho. Ora, no nosso país, temos essa grande lacuna,
de tal maneira que muitos que entram no mercado praticamente encontram mil
dificuldades de adaptação porque, em primeiro lugar, o nosso ensino é
também altamente teórico, quase sem prática. Há cursos que exigem a prática
profissional durante a formação, mas tal não existe. Por outro lado, as
empresas não são exigentes, não conseguem criticar ou corrigir as falhas
verificadas naqueles que terminam a sua formação em termos de lacunas e
carências no mercado de trabalho. Então, devemos ter um mercado de
trabalho exigente.

EDUCAÇÃO DA JUVENTUDE

Como encara o comportamento dos jovens angolanos na sociedade?

Muitas vezes, tenho ouvido pessoas a dizerem que os jovens de hoje não têm
rumo, estão a perder valores. Mas os que estão a perder valor são os mais
velhos porque os valores são transmitidos da geração mais velha para as novas
gerações. Hoje em dia , posso confirmar sem medo de errar que os nossos
gtjovens estão desorientados. Em Psicologia, há um capítulo que costumo dar,
que fala dos processos grupais. Existem os processos grupais benignos, que
ajudam a socialização da geração mais nova; e os processos grupais malignos,
que desorientam a juventude e parece-me que nós aqui autorizámos bastante
esses processos grupais malignos. Posso partir de um exemplo concreto. Eu
não concordo com essa forma de pipocação de seitas religiosas no nosso país
porque elas constituem uma verdadeira máquina na formação e mudança de
atitudes. Ora, quando o Governo tem conhecimento de seitas religiosas que
não são legais, mas operam livremente, mas não sabe o que ela transmite aos
jovens. Isso é preocupante. Eu tomei conhecimento com muita preocupação,
através da Rádio Luanda, de uma seita religiosa chamada “Igreja da Verdade”
que anunciava o fim do mundo em Setembro deste ano, tendo alertado aos
fiéis que não trabalhassem. Esses são processos grupais malignos . É para
semear confusão. Os jovens são muito mais influenciados pelo sentimento,
pela moda, portanto, devem ser protegidos, orientados pelo Estado.
Contrariamente, os processos malignos conduzem para a deterioração da
própria sociedade.

Qual é o papel da família na educação da juventude?

A família é o núcleo de qualquer sociedade. Mas para que seja núcleo de


qualquer sociedade, o Estado deve potenciá-la. Quando numa família os pais
não são capazes de poder satisfazer as necessidades básicas dos filhos, de ter o
poder sobre os filhos, praticamente podemos dizer que é muito do que
acontece, em muitos países, a criança, antes de atingir 18 anos beneficia de
apoio financeiro do Estado. Mas nós em Angola, se realizarmos um inquérito,
vamos verificar que há muitos pais que nem sequer se preocupam em tratar o
subsídio para os filhos menores porque não se ganha quase nada e há muita
burocracia para se tratar a documentação. A criança em Angola não é
protegida.

O PAPEL DO PSICÓLOGO EM ANGOLA


Quais são os grandes desafios da Ordem dos Psicólogos de Angola?

Disponibilizarmos uma formação de qualidade para os nossos estudantes de


Psicologia. É por isso que a Ordem tem sempre lutado e parece que estamos a
encontrar já um espaço para que haja harmonização da formação do psicólogo
em Angola. Não só o psicólogo de Angola, temos a Federação de Psicólogos
da CPLP e, portanto, é um problema recorrente nas nossas reuniões: temos de
formar psicólogos de qualidade. Também é um desafio da Ordem termos bons
professores de Psicologia porque essa não deve ser dada por aventureiros nem
amadores. Estes bons devem transmitir não só aspectos teóricos mas também
práticos. Temos uma carência de professor de Psicologia, assim, se quisermos
melhorar o ensino da Psicologia temos que abandonar a máxima que diz que “
quem não tem cão caça com gato”. Nós vamos procurar lá “o cão” onde se
encontra. A ciência é universal. Depois de a qualidade dos professores de
Psicologia melhorar, a Ordem tem como desafio organizar bem o estágio
profissional daqueles que terminam as suas licenciaturas, de maneira que
possam adquirir a prática antes de entrar para o mercado de trabalho.
Outrossim, é nossa pretensão lutar pela investigação científica em Ciências
Psicologias de qualidade porque muitos problemas sociais têm soluções na
Psicologia, sem esquecer a defesa dos interesses dos nossos membros porque
o psicólogo quando se inscreve na Ordem e recebe a cédula precisa de ter
formação permanente para pode actuar condignamente na sua profissão e
também deve ser protegido. Por exemplo, o problema de empreendedorismo
em Ciências Psicológicas, há muitos que pensam que o psicólogo só pode
trabalhar como um profissional dependente. Ele pode trabalhara também
como profissional liberal, conseguindo crédito bancário, abrindo consultório.
E, por fim , é uma preocupação da Ordem divulgar a cultura psicológica na
sociedade angolana. Temos encontrado dificuldades porque alguns confundem
uma consulta médica de uma psicológica. Dificilmente, aqueles que nos
contactam conseguem terminar as suas sessões. Basta participar na primeira,
segunda e terceira depois desaparecem porque tentam confundir a consulta
médica com a psicológica . Ora, temos que cultivar o espírito de atendimento
psicológico.
Mas as desistências não serão porque os pacientes não têm condições para
suportar as sessões?

Naturalmente! As consultas psicológicas são sempre caras em qualquer parte


do mundo. É por isso que, na maior parte das obras profissionais, tanto a nível
da CPLP como do mundo, eles recebem sempre um apoio do Governo.
Significa que beneficiam do estatuto de utilidade pública para poderem
atender aqueles que não têm muitos recursos financeiros. Então, essa
justamente é uma luta que estamos a levar a cabo. Hoje vivemos apenas de
contribuições das quotas dos nossos membros e de donativos. Não
beneficiamos de nenhuma verba do OGE, então, não há possibilidade de
podermos atender àqueles que não têm recurso.

Quais são os critérios para se filiara à Ordem dos Psicólogos de Angola?

O critério fundamental é ter licenciatura em Psicologia e nas áreas que a


Ordem reconhece.

Quais são essas áreas?

Psicologia Clínica, Psicologia do Trabalho, Psicologia Organizacional,


Psicologia Escolar, Psicologia Educacional, Psicologia Forense, Psicologia
Criminal, Psicologia Desportiva. Também estamos a prever a Psicologia
Comercial. Acho que neste momento, com a industrialização do país, vamos
precisar de psicólogos comerciais. Então, essa área a OPA reconhece.

Onde é feito o estágio profissional?

No local de trabalho. Por exemplo, o psicólogo escolar faz na escola, o clínico


faz nos hospitais.

E a ordem tem uma relação com instituições onde acontecem os estágios?


Naturalmente! Todo aquele que é inscrito para o estágio profissional tem um
supervisor ao nível da instituição e um orientador ao nível da Ordem.

Quantos filiados tem a ordem?

Temos neste momento 664 membros efectivos. Já é um bom número porque


há dois anos tínhamos dificuldades de os psicólogos se inscreverem, vinham
com tanto preconceito e argumento. Agora estamos a verificar essa cultura de
inscrição. Nós orientámos as instituições públicas e privadas no sentido de não
admitirem ninguém como psicólogo se não for portador da cédula
profissional.

E têm cumprido com esse facto?

Estão a cumprir, principalmente o Ministério da Saúde e o Ministério da


Educação.

Qual é a periodicidade de reuniões da ordem?

O Conselho Nacional da OPA reúne semestralmente; a direcção, sempre que é


necessário. Mas temos a dificuldade em reunir a assembleia geral devido a um
problema que até agora não conseguimos resolver, que se prende com o facto
de, apesar da ordem ter sido apreciada pelo Conselho de Ministros, no dia 23
de Março, os estatutos não foram ainda publicados no Diário da República e,
por esse facto, as contas da Ordem são solidárias. Então, muitos ainda
desconfiam, pensam que o dinheiro vai para conta de indivíduos e não
podemos abrir as contas bancárias em nome da Ordem, enquanto não
apresentarmos o Diário da República.

E qual é o impedimento para os estatutos constarem do Diário da


República?
Estou sempre atrás dos dois ministérios que tutelam a ordem: o Ministério da
Saúde e o Ministério da Educação. As últimas informações que tive é que tudo
está pronto para se publicar no Diário da República. Mas houve uma certa
confusão porque o Presidente da República disse, devido a dificuldades
financeiras, para suspender todas as solicitações de estatuto de utilidade
pública. Ora, nós não estamos nessa fase, mas sim na de divulgação do
estatuto orgânico. Esclareci esse problema e os dois ministros que tutelam a
ordem disseram que vão actuar junto do Conselho de Ministros para que se
acelere o problema da divulgação dos estatutos.