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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO


FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

Filologia Portuguesa
Prof. Phablo Fachin

Lima Barreto: estudo crítico textual da transmissão de Agaricus Auditae


Gislene Figueira Severino (FFLCH - USP) - 8579060

Resumo: Este trabalho visa a analisar, por meio da crítica textual, a transmissão do conto Agaricus Auditae, de Lima
Barreto. Tem por objetivo verificar como se deu o seu processo, procurando constatar a genuinidade dos textos transmitidos e
averiguar qual o caminho a ser percorrido para restitui-los à forma mais próxima da última vontade do autor. Para tal,
definiu-se como testemunho de base o conto publicado na primeira edição do livro “Histórias e Sonhos” (Barreto, 1920),
ainda em vida do autor. O corpus selecionado na recensão inclui edições subsequentes ao texto-base e edições mais atuais,
procurando diversificar as amostras para a comparação e busca variantes, de pontos divergentes, na etapa de colação. A
classificação dos resultados variantes foi feita de acordo com a tipologia estabelecida no “Manual de crítica textual”, de
Blecua (Blecua, 1983).

Palavras-chave: Lima Barreto; Agaricus auditae; crítica textual; variantes; transmissão.

Introdução
O objetivo inicial deste trabalho era analisar o processo de criação do conto, revelar o trajeto
percorrido pelo autor, do manuscrito ao texto escrito. Tal análise possibilitaria, entre outras coisas,
realizar um maior aprofundamento na obra, trazendo à tona características que estão apenas sugeridas no
texto final. Além de colocar em cheque afirmações correntes como as de que Lima Barreto possui uma
escrita marcada pelo desleixo e textos pouco elaborados. No entanto, a análise de 55 páginas de
manuscrito, considerando as inúmeras dificuldades com ele (estado geral, letra do autor, etc.), a pouca
habilidade que tenho nesta tarefa e, principalmente, a falta de tempo, relegaram este para um projeto
futuro.
Frustrado o projeto inicial (ou, ao menos, adiado), os objetivos e métodos de abordagem sofreram
algumas alterações. Como só houve uma edição, do conto Agaricus auditae, publicada em vida do autor
(no livro Histórias e Sonhos, publicado em 1920 pela Gianlorenzo Schettino), esta foi adotada como
texto-base para o cotejo com obras póstumas. As edições selecionadas foram: Histórias e Sonhos – Rio de
Janeiro: Gráfica Editora Brasileira, 1952; Histórias e Sonhos – São Paulo: Editora Brasiliense, 1956;
Contos Reunidos – Belo Horizonte: Crisálidas, 2005 e Contos Completos de Lima Barreto – São Paulo:
Companhia das Letras, 2010. A escolha de edições subsequentes à de 1920 (1952 e 1956) se deu com o
intuito de acompanhar a transmissão do conto desde o início, para detectar onde as variantes começariam
a surgir. Com base em pesquisa feita pela internet, constatou-se ainda a existência de mais umas seis
edições do livro (em circulação em sebos e livrarias), mas, como recorte, foram escolhidas as duas
coletâneas de contos, com datação mais recente, visando estabelecer um contraponto com as mais antigas
e também diversificar o corpus.
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Para identificar e ordenar os pontos divergentes encontrados, foi seguida a tipologia estabelecida
pelo Blecua, que classifica em quatro tipos os erros que podem ocorrer na transmissão de uma obra: por
adição, omissão, alteração e substituição.

1. Abordagem teórica

Lima Barreto nasceu em 1881, no Rio de Janeiro. Romancista e contista, além de cronista,
publicou seu primeiro livro em 1909. Seu último livro em vida foi publicado em 1920 e trata-se da obra
Histórias e sonhos, que contém o conto aqui analisado. Tinha problemas com a bebida e foi internado
mais de uma vez no hospital de alienados. Morreu em 1922. Sua obra é conhecida, principalmente, pelo
caráter crítico-social e pelo uso de anotações de cunho pessoal e de referências que fazia de seu tempo.
Em uma breve síntese, o conto Agaricus auditae conta a história de Alexandre Ventura Soares, um
bacharel em ciências físicas e naturais que se vê obrigado a escrever as suas “memórias”, que consiste
numa tese nova sobre algum assunto científico, para ingressar na “Academia dos Esquecidos” e conseguir
a permissão do desembargador Monteiro para se casar com a sua filha, Nenê. Nele, entre outras, Lima
Barreto faz uma crítica à grande mística que havia no Brasil em torno do cientista e da cultura de
aparência.
Conforme já mencionado, a classificação dos resultados variantes foi feita de acordo com a
tipologia proposta por Blecua. Para ele, a crítica textual é a arte que tem por objetivo apresentar um texto
depurado o máximo possível de todos os elementos estranhos ao autor e, para isto, deverá, em primeiro
lugar, se ater aos erros próprios da cópia (1983: 18-19). Os erros, que podem ocorrer na transmissão do
texto, são classificados em quatro tipos:
En las cinco operaciones que se efectúan en el acto de la copia el tipo de error varía, pero de
acuerdo con las categorías modificativas aristotélicas, los cuatro tipos de errores posibles son: a)
por adición (adiectio), b) omisión (detractatio); c) alteración del orden (transmutatio), y d) por
sustitución (immutatio) (BLECUA, 1983: 19-20).

No erro por adição, a adição pode ser de um fonema, uma sílaba, um sinônimo, de pontuação e de
palavras ou frases repetidas. O mesmo vale para o erro por omissão. A alteração de ordem pode ocorrer
em letras, sílabas, palavras e frases. Por fim, a substituição pode afetar palavras, pontuação e até frases
inteiras.
Estes erros, intencionais ou não, podem afetar o sentido do texto e afastá-lo do que seria a última
vontade do autor. Quanto mais erros apresenta uma obra, menos fidedigna ela se torna. Daí a importância
de se empregar este método na análise da transmissão de um texto.

2. Análise do corpus
Passando para a análise do corpus, vale destacar que as atualizações gramaticais não foram
consideradas como erros. Ademais, a edição adotada como base tem uma particularidade: ela apresenta
uma lista grande de erratas, precedida pelo pedido de desculpas e aviso de que “durante a impressão deste
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livro, por motivos totalmente íntimos, foram atormentadas as condições de vida, tanto do autor como da
do seu amigo que se encarregou da revisão das respectivas provas” (BARRETO, 1920: 185). Por isso, ela
saiu impressa “cheia de gatos”, tais como omissão de palavras, troca de letras e falta de pontuação. Sendo
os casos mais graves assinalados na errata (anexo 1).
Esta informação é importante porque boa parte dos erros encontrados são, na verdade, correções
da primeira edição, cuja revisão foi falha. Um exemplo gritante disto é a troca do nome do personagem
principal, que se chama Alexandre Ventura Soares, mas que no trecho indicado abaixo aparece como
Alexandre Valentim da Costa.
Memoria apresentada á Academia dos Esquecidos, secular e vetusta
como as demais congeneres, pelo bacharel em sciencias physicas e
naturaes da Escola Polytechnica do Rio de Janeiro
Alexandre Valentim da Costa (BARRETO, 1920: 77)

Em todas as edições analisadas foi utilizado o nome correto. Caberia aqui uma análise do
manuscrito, para verificar se, em algum momento, o nome “Alexandre Valentim da Costa” foi
empregado.
No conjunto, os erros mais recorrentes foram por substituição e por adição (principalmente de
pontuação), sendo o por alteração de ordem o menos frequente.
Seguem abaixo uma amostra dos principais “erros” encontrados, classificados de acordo com a
tipologia do Blecua.

• Adição
De pontuação:
“A nossa mentecapta intelligencia nacional de que não fazem parte só as mulheres”.
“A nossa mentecapta inteligência nacional, de que não fazem parte só as mulheres”.

Somente a edição de 1956 não fez o acréscimo da vírgula, que parece pertinente gramaticalmente.

“Tinha um laboratorio onde não havia nem uma balança de Jolly, nem um maçarico (...)”.
“Tinha um laboratório, onde não havia nem uma balança de Joly, nem um maçarico (...)” – edição de
1952

Adição desnecessária de vírgula, efetuada apenas na edição de 1952, onde também ocorre a omissão
de um “l”, em “Jolly”.

De letra:
“não tivessem ella por objeto”
“não tivessem a ela” – edições de 1956, 2005 e 2010.
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“apanhava o pedregulho” – somente a edição de 1952 não adiciona o “o”.

• Omissão
“desmerito”
“demérito”

Esta omissão está presente em todas as edições. Faz parte da errata sinalizada na própria edição base.

• Alteração de ordem]
“não tivessem ella por objeto”
“não a tivesse por objeto” - edição de 1952. Além da alteração de ordem ocorre também a omissão da
letra “m” em “tivessem”.

• Substituição
De pontuação
“Alexandre Ventura Soares tinha seus vinte e cinco annos,”
“Alexandre Ventura Soares tinha seus vinte e cinco anos;”

“ás mesmas ciências”


“a semelhantes ciências”

Este também é um dos casos mencionados na errata. Foi substituído em todas as edições.

Segue abaixo planilha com a indicação das variantes mais recorrentes:


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Tipologia de erros
Edição
Adição Omissão Alteração de ordem Substituição
, por ;
ás mesmas ciências por a
semelhantes
... por . (Bonifácio...)
. por : (parte dela:)
negrito por itálico - (doutor)
? por ! - (bem)
... por . - (safira)
Jolly - Joly " " por itálico - (rochas)
, (nacional, de) Haüg - Haug normal por itálico - (História
, (laboratório, onde) Hein - Ein Natural)
, (assim mesmo,) Lhes - lhe Alexandre Valentim da Costa
, (seriadas,) Desmerito - demérito não tivessem ela - não a por Alexandre Ventura
, (enfim) " " - "(A Academia dos tivessem Soares
1952

– (– Srs. Academicos) Esquecidos) viajantes, (poetas...) - negrito por itálico -


, (desde logo,) Negrito - Ptérodactylus viajantes (poetas...), (memórias...)
, (te, sem vada) Longisrostris ." - ". (sciencia.") itálico por sem itálico
, (sabios,) Parágrafo - Sciencia! seres por seus
, (andrajos) Não... que vai por com que
" " ("agaricus") Ciencia! Não... itálico por sem itálico
, (Monteiro,) "Habitat" - habitat U.E.A. por U.S.A.
Globo por globo
( ) por " " - (não fosseis
esquecidos) - ,não fosseis
esquecidos,
um por uma - (Lazarone)
senhores por srs.
doutor por Dr.
as por os - (Os devia)
menos por nervos

afim por a fim


M por m - (museu)
d por D - (desembargador)
Haüg por Haüy
Itálico por " " - (granadas)
D. por Dona
sr. por Senhor
A por a - (Academias)
ás mesmas por a
semelhantes
1956

a - (tivessem a ela) Parágrafo - "Pois bem"


. por : - (dela:)
o - (o pedregulho) desmérito por demérito
negrito por " " - ("doutor")
? por ! - (casar bem)
... por . - (safira)
Alexandre Valentino da
Costa por Alexandre Ventura
Soares
F. Huxley por T. Huxley
as por os - (devia)
menos - nervos
trad por tradução
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M por m - (mineralogia)
Haüg por Hauy
: por ; (as sua duas obras:)
C por c (cristais)
leva-o por levando-o
D. por Dona
sr. por Senhor
ás mesmas por a
semelhantes
equitativa - eqüitativa
A por a (a "Academia")
a (não tivessem a ela)
, (ruas) . por : (dela:)
2005

, (nacional,)
, (mas) negrito por " " (doutor)
o - (o pedregulho)
desmerito por demérito ? por ! (bem)
, (assim mesmo,)
" " por itálico (rochas...)
Petro-Silex - Petrossilex
d por D (Desembargador)
N por n (natural)
as por os - (devia)
Alexandre Valentim da Costa
por Alexandre Ventura
Soares
F. Huxley por T. Huxley
do por no (Rio)
. por : - (dela)
menos por nervos
afim por a fim
M por m (museu)
M por m (mineralogia)
Haüg por Hauy
leva-o por levando-o
D. por Dona
sr. por Senhor
ás mesmas por a
semelhantes
A por a - (a "Academia")
Itálico (El Levante por el ) . por : - (dela:)
, (nacional,)
2010

, (talvez) negrito por " " (doutor)


Itálico (estrutura...) não tivessem ela - a ela
, (mas) ? por ! (bem)
o (o pedregulho)
desmerito por demérito " " por itálico (rochas...)
d por D (Desembargador)
N por n (natural)
as por os (devia)
Alexandre Valentim da Costa
por Alexandre Ventura
Soares
F. Huxley por T. Huxley
do por no (Rio)
menos por nervos
trad por tradução
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Conclusão
Os resultados obtidos na análise do corpus selecionado mostram que toda transmissão textual vem
acompanhada de modificações, de variantes que podem alterar o sentido do texto, distanciando-o da
última vontade do autor e comprometendo a sua genuinidade. No entanto, este caso em particular, mostra
também que as variantes podem ser correções de uma edição mal revisada, que mesmo tendo sido
publicada em vida do autor, não corresponde totalmente à sua última vontade. Lima Barreto morreu dois
anos após a primeira edição de Histórias e sonhos, que foi o seu último livro em vida. Se tivesse
acompanhado uma segunda edição dele, provavelmente faria inúmeras alterações. Um dos caminhos
possíveis, a ser percorrido para restituir o conto à forma mais próxima da vontade do autor, é através da
análise do manuscrito que, neste caso, encontra-se disponível.
Outra observação que pode ser feita é a de que a distância temporal entre as edições cotejadas não
resultou em variações significativas, ainda que as obras apresentem diferenças entre si.

Referências bibliográficas
BARRETO, Lima. Agaricus auditae. In: Histórias e sonhos. Rio de Janeiro: Gianlorenzo Schettino,
1920.
_______________. Agaricus auditae. In: Histórias e sonhos. Rio de Janeiro: Gráfica Editora Brasileira,
1952.
_______________. Agaricus auditae. In: Histórias e sonhos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1956.
_______________. Agaricus auditae. In: Contos reunidos. Belo Horizonte: Crisálidas, 2005.
_______________. Agaricus auditae. In: Contos completos de Lima Barreto. São Paulo: Companhia
das Letras, 2010.
BLECUA, Alberto. Manual de Crítica Textual. Madrid: Editorial Castalia, 1983.
CAMBRAIA, César Nardelli. Introdução à Crítica Textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto - triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
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Anexos

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