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A ESCRITA DA CULTURA: POERTICA E POLITICA DA ETNOGRAFIA James Clifford e George E. Marcus Organizacio ‘Tradugio: Maria Claudia Coelho ‘Trabalho de campo em lugares comuns Mary Lonise Pratt Em sua introdugio aos Argonantas do Pacifico Ocidental (1922), Bronis- jaw Malinowski celebra o advento da etnogtafia cientifica e profissional: “A €poca em que podiamos tolerat relatos que nos apresentavam o nativo como uma caricatura infantilizada e distorcida de um ser humano ja passou”, de- clara ele. “Essa imagem é falsa, e, como muitas outras falsidades, foi morta pela Ciéncia” (Malinowski, 1961, p. 11). A afirmativa é sintomatica de um habito comum entre os etndgrafos de definir a escrita etnogrifica por opo- sigio a outros géneros mais antigos e menos especializados, tais como livros de viagem, memétias pessoais, jornalismo e relatos escritos pot missionarios, colonizadores, administradotes coloniais e outros. Embora a etnografia pro- fissional no v4 suplantar inteiramente esses géncros, supde-se que v4 usur- par sua autoridade e corrigir seus excessos. Em quase todas as etnogtafias surgem, de vez em quando, figutas insossas chamadas de “simples viajantes” ou “observadores casuais”, cuja “fungio” € permitir que suas percepges supetficiais sejam cortigidas ou corroboradas pelo cientista sétio. Essa estratégia de se definit por contraste com discursos vizinhos ¢ anteriores limita a capacidade da etnografia de se explicat ou se autoexami- nar como um tipo de escrita. Na medida em que legitima a si mesma por oposigao a outros tipos de esctita, a etnografia fica cega para o fato de que suas ptdprias praticas discursivas sio, muitas vezes, herdadas desses outros genetos € so, ainda hoje, compartilhadas com eles. Por vezes, ainda se es- cuta, como um ideal para a etnografia, um discurso neutro, sem figuras de linguagem, que apresentatia outras realidades “exatamente como sao”, sem serem filtradas por nossos proprios valores ou esquemas interpretativos. Em 64° A escrca de culture: poticae politica da emnografia getal, contudo, ja nfio se persegue esse Santo Graal, e é possivel sugérit que a esctita ctnogtifica € tio perpassada por figuras de linguagem quanto qual- quet outta formagio discursiva. Esse reconhecimento é, obviamente, fun- ~ damental pata os interessados em mudar ou entiquecer a escrita etogrifica ou, simplesmente, em aprimorar a compreensio que 2 disciplina tem de si mesma. Neste ensaio, minha proposta é examinat a forma como algumas imagens da esctita etnogtifica sio empregadas ¢ 0 modo como sto deriva- {das de tradigdes discursivas anteriores. Proponho, em particular, abordar a sclagio incmoda, porém importante, entre natrativa pessoal e descticéo im- pessoal na escrita etnogrifica ¢ examinar parte da historia dessa configuracio | discursiva, em especial sua histéria nos relatos de viagem. - Uma controvérsia recente publicada na revista American Anthropologist ressalta as dificuldades que a etnografia teve em estabelecer suas relagdes com os discursos vizinhos. A controvérsia se deu em torno do livro de Flo- tinda Donner intitulado Shabono: a true adventure in the remote and magical heart of the South American jungle (1982). O livro é um relato pessoal da experiéncia de tama estudante de pés-graduaciio de antropologia que, enquanto faz trabalho de campo na Venezuela, é escolhida por membros de um grapo Yanoma- mi distante para motar com eles ¢ aprender seu modo de vida. O livro fez muito sucesso. Na quatta capa da edicio em brochura, Catlos Castafieda o sada como “ao mesmo tempo atte, magia ¢ extraotdindria ciéncia social”; um antropélogo do Queens College refere-se 4 obra como “um livro raro © bonito [.] fque] ilumina o mundo dos indios Yanomami [e] nos dé uma jdeia do mistétio e do poder que ainda podem ser encontrados os rituais”; a ‘Newsweek o clogia por ix “muito além das questdes e categorias antropolégi- cas, adentrando os confins de uma fascinante ¢ estranha cultura’. "A controvérsia em tomo de Shabono eciodiu quando o miimero de setembro de 1983 da American Anthropologist publicou wm comentério em que se acusa Donner de pligio ¢ fraude. “Francamente”, afirma Rebecca B. DeHolmes, “acho dificil de acreditar que Donner tenha passado um minuto sequer com os Yanomami” (DeHolmes, 1983, p. 665). Os dados etno; cos de Donner, sugere ela, foram “tomados de empréstimo de forma muito hnabil de outras fontes c artanjados em um tipo de mescla entre fato e fantasia pela qual Castafieda é tio famoso” (bid). A acusagao mais séria de DeHol- mes é que muitos dos empréstimos de Donner sto um pligio completo de outro livro extraordinario, uma narrativa contemporinea de cativeiro inti- Trabalho de campo cm lugares comuas $5" tulada Yanoama: the narrative of a white girl kidnapped by Amazonian Indians, que foi publicada em italiano, em 1965, e traduzida para o inglés em 1969. Esse livro, cuja autenticidade ninguém questionou, conta 2 histétia de vida de uma brasileira, Helena Valero, que viveu da infancia A idade adulta com um grupo ‘Yanomami que a capturou em um ataque a sua familia’ A acusacio de pligio feita por DeHolmes baseia-se em uma série de passagens dos dois livros e uma lista consideravel daquilo a que ela se refere como “relatos patalelos dos mesmos acontecimentos, além de sequéncias temporais semelhantes ou idénticas”. Os antropélogos com quem falei ha- viam prontamente considerado essas evidéncias convincentes. Haviam con- cordado com DeHolmes que 0 livto inteiro de Donner eta uma invencio € que Donner, provavelmente, nunca havia vivido com os Yanomami. Fiquei surpresa tanto com a pressa com que as pessoas chegaram a essa conclusio tadical quanto com 0 esquematismo dos termos em que 0 problema foi discutido. O livro de Donner ou era verdadeito ou era falso, o que aparentemente queria dizer que ou ela tinha vivido com os Yanomami ou nfio tinha, e nada mais havia em questo. Fiquei também desconfiada, em particular, com a ansiedade em resolver rapidamente a questo, ¢ as custas de Donner, apesar do fato de que muitos antropélogos aparentemente ha- viam lido e gostado do seu livro, e 0 considerado crivel. Minha impressio eta de que Shabono estava sendo “motto pela ciéncia”, para usar as palavras de Malinowski, ¢ sem passar por qualquer julgamento. O caso, obviamente, ameacava algumas fronteiras disciplinares delicadas. De forma ainda mail aguda, trazia a superficie a mescla angustiante e confusa de contradicdes incettezas que cercam as inter-relacdes entre experiéncia pessoal, nartativa pessoal, cientificismo ¢ profissionalismo na escrita etnogréfica. Como forma de explicar, deixem-me aprofandar o exemplo um pouco mais. Para alguém de fora, um dos enigmas mais intrigantes do debate sin- gularmente pobre em torno de Shabana era que a ptecisio factual do livro no parecia estar em questo. O meticuloso escrutinio de DeHolmes havia revela- + Bese livro, a propésito, deveria ter gerado seu pr6ptio escindalo, pois sen editor transcxitos, Ettore Biocca, o reivindica como seu e, de forma indesculpével, niio dé o crédito adequado a ‘Valero pela sua propria histéria, O nome dela no aparece em lugar algum na capa, € espera- -se que, além de ficar com o crédito editorial, Biocca ao esteja também recebendo os diteitos autorais. Ao final da histéria, Valero esté sozinha em uma cidade brasileira, lutando para con- seguir que seus filhos possam estadat. 66 A cscrita da cultura: pottica politica da etnografia do um tinico erto etnografico ao longo de 300 paginas (ama referéncia a uma corrida entre fileiras de mandiocas). De forma implicita, aceitava-se que, dada uma certa quantidade de material secundirio, era possfvel de fato construir um relato convincente, vivido e etnograficamente preciso da vida em outra cultuta sem ter excperiéncia pessoal de campo. Pot que, eu me perguntava, os etnd- grafos concordavam com isso tio prontamente? E, se era assim, qual seria exa- tamente o tipo de ameaca publica que a (suposta) fraude de Donner colocatia? O que estava em questo nfo era a preciso etnografica, mas um con- junto de vinculos problematicos entre a autoridade etnografica, a expetiéncia pessoal, o cientificismo ¢ a originalidade de exptessiio. Se Donner realmente viveu com os Yanomami, por que seu texto se parecia tanto com o de Va- lero? Mas, pelos padrdes da etnografia, podemos nos fazer também a pet- gunta oposta: como poderia seu relato nfo se parecer com o de Valero? As passagens supostamente plagiadas citadas por DeHolmes sio, de fato, muito patecidas com o texto de Valero, embora nunca uma repeti¢io exata. Os ptimeiros cinco casos citados so: a) a luta de tacos nabrushi dos homens; b) as técnicas femininas de pesca; ¢) a reclusio das meninas que alcancam a maioridade e sua apresentacio subsequente ao grupo como mulheres; d) a preparacio do curare e seu teste em um macaco; € €) 0 convite para um banquete (DeHolmes, 1983, p. 665). Destes, um descteve uma pritica ou um costume generalizado (técnicas de pesca), e os outros quatro sao rituais — eventos que os antropdlogos sempre se especializaram em tratar como for- mas codificdveis e passiveis de repeticao, ao invés de eventos tinicos. Se os relatos de Donner acerca desses rituais do fossem idénticos em detalhes aos de Valero, 4 luz da prdpria antropologia a fraude seria certa. Mas a alegacio era exatamente 0 oposto. © ponto é que, para DeHolmes, a autoridade do texto etnografico ditetamente constituida pela experiéncia pessoal do escritor, a qual, por sua vez, é atestada pela originalidade de expressio: “se 0 Shabono de Donner € de fato ‘ciéncia social extraordinétia’, como diz Castafieda, é preciso provar que os dados etnograficos nos quais ela baseia sua hist6ria foram realmente obti- dos pessoalmente por ela enquanto vivia com os Yanomami, e nfo reescritos a partir de obras anteriormente publicadas”. Em contraste, para Debra Pichi, que publicou uma resenha do livro fa mesma revista, o fracasso de Shabono como ciéncia vem, ao contratio, do seu “foco natcisista” no “crescimento pessoal de Donner no campo”. “Res- ‘Trabalho de campo em lugares comuns “67 tringir a antropologia as experiéncias pessoais de antropélogos especificos negar seu staius como ciéncia social” e “torna a disciplina trivial e inconse- quente” (Pichi, 1983, p. 674). Donner no consegue demonstrat aquilo que, para Pichi, é a caracteristica distintiva do projeto antropolégico, a saber, “ut compromisso com a documentagio de telagdes entre variaveis com- portamentais em uma base compatativa entre culturas”. Pata Pichi, a ideia de tomar de empréstimo e reescrevet no é um problema. Como Donner rejeitou os métodos de campo formais, destruindo seus cadernos de campo n0 inicio do jogo, “pode-se assumir”, diz Pichi, “que as infotmagées antto- polégicas padrio inclufdas no livro so o resultado de uma reconstrugio de memétia ou de pesquisa da j4 extensa literatura sobre os indios Yanomami” (ibid.). Picchi encara 0 livto como uma etnogtafia genuina “dos indios Yano- mami [...] baseada em 12 meses de trabalho de campo” ¢ o recomenda aos professores de introducio & antropologia. Por que as afirmagées bastante explicitas de Donner de NAO estar es- ctevendo uma obra de antropologia ou de ciéncia social sio irrelevantes para essa discussaio? Embora sua narrativa pessoal nio seja esctita no idioma pa- dro da descricio etmografica, o que a coloca no raio de alcance da antro- pologia? Uma vez ai colocada, por que tanta confusio sobre 0 modo como deveria set avaliada? Por alguma tazio, tudo isso me fez pensar em um adolescente na porta de uma casa de sirip tease, que € atrastado pata dentro para set denunciado a policia ¢ expulso de 14 — isso vai lhe ensinar uma liao. E assim que mnuitas vezes se “disciplina”, se nao nas casas de sirip #ast, mas, certamente, nas aca- demias. O que Donner claramente fez foi escrever um livro irritantemente _ambiguo} que pode ou nfo set “verdade”, € ¢ niio é etnogtafia, é e nfo é au- tobiogtafia, reivindica e nao teivindica autoridade académica e profissional, & e nfio é baseado em trabalho de campo, ¢ por ai vai. Um aprendiz ingrato nao faria pior. Pois, se Flotinda Donner de fato inventou boa patte da sua histéria (como talvez tenha feito), ela desgragou a profissio ao mentir, ¢ a0 mentir tio bem que ninguém percebeu. E, se cla nao inventow a histétia, en- to conseguiu um dos faros antropolégicos do século. Pois sua experiéncia, da forma como a conta, é, sob muitos aspectos, o sonho de todo etnégrafo. Ela € convidada pelo grapo para estudar seu modo de vida; em vez de sessdes nas quais cla os entrevista, so eles que se sentam para ensinat a ela. Ela é poupada da angiistia e da culpa de comprar seu espaco distribuindo bens oci- 68 A cscrita da cultura: potticae politica de etnografia dentais; 0 grupo escolheu ficar to afastado que se trata praticamente de um primeiro encontro. Realizar esse sonho etnogrifico e, em seguida, se recusar a converté-lo na moeda da disciplina que o tornou posstvel: isso é, de fato, uma ttai¢io monumental. Dediquei-me ao caso de Shabono porque ele ilustra parte da confusio ¢ da ambiguidade que 2 narrativa pessoal, nfo tendo sido morta pela ciéncia, suscita no “espaco discursivo” da etnografia. Narrativas pessoais como essa de Donner nio sio desconhecidas na antropologia académica. De fato, os relatos pessoais das experiéncias de campo sio um subgénero antropolégico reco- nhecido, mas sempre vém acompanhados — em geral, precedidos — por uma cetnografia formal, o livro que Donner (ainda?) nfo escreveu. Podemos pensar em pares de livros, tais como The savage and the innocente Akawe-Shavante society, de David Maybury-Lewis; Under the rainbow e The Headman and I, de Jean-Paul Du- mont; Yanomamo: the fierce people e Studying the Yanomamo, de Napoleon Chagnon; Symbolic domination © Reflections on fieldwork in Morocco, de Paul Rabinow. Entre os exemplos mais antigos, podemos citar os esctitos de Clyde Kluckhohn e Roy- “Franklin Batton; esse subgénero pessoal é também o espaco textual conven- cional no qual os ditios de Malinowski foram publicados. Nesses pares de livros, a etnografia formal é aquela que conta como capital profissional ¢ como representagio de autoridade; as narrativas pesso- ais sio, em getal, consideradas autoindulgentes, triviais ou hexéticas, de algu- ma forma. Mas, apesar dessa “disciplinarizacio”, elas continuaram sutgindo, sendo lidas ¢, acima de tudo, sendo ensinadas las fronteiras da disciplina, por razdes que, precisamos assumis, sfio poderosas. ‘Mesmo quando nfo ha um volume autobiogriifico separado, a natrati- va pessoal é um componente convencional das etnografias. Fla surge quase que invatiavelmente como introdugio ou primeiro capitulo, nos quais as nar- rativas de abertuta costumam relembrar a chegada do esctitor a0 campo, por exemplo, a recepsio inicial pelos moradores, o lento e agoniante processo de aprender a lingua e superar a tejeicao, a angistia e o sentimento de perda da pattida, Emboza s6 existam nas matgens da descri¢io etmogréfica formal, es- sas nartativas de abertura convencionais nao sio triviais: Elas desernpenham © papel crucial de ancorar a descricao na experiéncia pessoal do trabalho de campo, experiéncia esta intensa e fonte de autotidade. Simbdlica ¢ ideologi- camente ricas, elas, muitas vezes, acabam pot Ser Os fragmientos mais memo- rhveis de uma obra etnogrifica — ninguém'se esquece da introducac'civada Trabalho de campo em lugares comuns 69 de frustracdo de Evans-Pritchard em Os Nuer, Sio também responsiveis por definis as posigées iniciais dos sujeitos do téxto etnogréfico: 0 etndgrafo, 0 nativo € 0 leitor. Acho muito significative que esse tipo de narrativa pessoal, sob a for- ma tanto de livros quanté de historietas de aberura, no tenha de fato sido “morta pela ciéncia”, que persista como uma forma convencional da escrita . etnografica. Esse fato € particularmente digno de nota dadas as milltiplas pressées que militam na etnografia contra a narrativa (“metas anedotas”) ea desvalorizam enquanto um veiculo de conhecimento wtil. Contra essas pres- ses, atua um sentido de urgéncia de que a descri¢io etnografica, de alguma forma, no é 0 bastante por si mesma. O fato de que a narrativa pessoal te- nha seu lugar convencional no discurso etnogrfico sugere o porqué de Sha- bono, a despeito dos préprios desejos de sua autora, ficar dentro do taio de alcance da antropologia e precisar ser enfrentado. O fato de que a narrativa pessoal seja marginal e estigmatizada explica por que um livro como Shabono tem que ser reconhecido para poder ser rejeitado. Para mim, muito claro que a narrativa pessoal persiste na escrita etnografica, lado a Jado com a descti¢ao objetificadora, porque ela realiza uma mediacdo em uma contradic, interna 4 disciplina, entre a autoridade pessoal cientifica, uma contradigo que se tornou particularmente aguda desde 0 advento do trabalho de campo como uma norma metodolégica. James Clifford refere-se a isso como “a tentativa impossfvel da disciplina de \ fundir priticas objetivas e subjetivas” (ver pégina 165 a seguir). O trabalho | de campo produz um tipo de autoridade que se ancora, em larga medida, na expetiéncia subjetiva e sensorial. © antropélogo expetimenta o ambiente 08 modos de vida nativos por si mesm6, vé Com seus prdprios olhos, chega até mesmo a desempenhar alguns papéis, muito embora inventados, na vida cotidiana da comunidade. Mas o texto profissional que resulta de um encon- tro desse tipo deve se conformar as normas de um discurso cientifico cuja autotidade reside na absoluta anulaco do sujeito que fala e experimenta. Nos termos de suas prOprias metéforas, a posicio cientifica de fala. é aquela de um obsetvador parado a borda de um espago, élhando para dentro e/ou para baixo para aquilo que € outro. A experiéncia subjetiva, pot sua vez, é enunciada a partir de uma posicéo em movimento, que ja se situa dentro ou embaixo em meio as coisas, olhando e sendo olhado, ditigindo-se aos outtos € sendo abordado por eles. A conversio do trabalho de campo, por meio de notas 70 A cxcrita da cultura: poéticae politica da etnografia, de campo, em uma etnografia formal requer uma mudanca tremendamente dificil da tltima posigéo discursiva (face a face com 0 outro) para a primeira. E preciso 'deixar muita coisa para tras durante esse processo. Johannes Fabian caractetiza 0 aspecto temporal dessa contradic quando fala de “uma ciséo aporética entre o reconhecimento da coexisténcia em algumas pesquisas etnograficas ea negacdo da coexisténcia na maior parte da teorizacio e da escrita antropolégicas” (Fabian, 1983, p. 36). Em outras palavras, o famoso “presente etnogrifico” situa o outro em uma ordem de tempo diferente daquela do sujeito que fala; o trabalho de campo, por sua vez, localiza tanto o se/fquanto 0 outro em uma mesma ordem de tempo. Hi fortes razGes para que os etndgrafos de campo se queixem, com tanta frequéncia, de que seus esctitos etnograficos deixam de fora, ow inevitavelmente empobrecem, parte do conhecimento mais importante que obtiveram, incluindo 0 autoconhecimento. Para um leigo, assim como eu, a principal evidéncia de que h4 um problema é o simples fato de que a escrita etnografica tende a set surpreendentemente chata. Como, perguntamo-nos constantemente, podem essas pessoas tao interessantes, que fazem coisas tio interessantes, produzir livros tio sem graca? O que foram obtigados a fazer com eles mesmos? ‘A natrativa pessoal media essa contradic&o entre o envolvimento exi- gido pelo trabalho de campo ¢ 0 autoapagamento exigido pela descticio etnografica formal, ou ao menos suaviza parte de sua angiistia, pot meio da insergio, no texto etnografico, da autoridade da experiéncia pessoal a partir da qual a etnografia é feita. Recupera, assim, pelo menos alguns fiapos da- quilo que foi exorcizado na conversio do encontro de campo face a face em ciéncia objetificada. i por essa razio que tais natrativas nao foram mortas pela ciéncia, e é também por essa razo que clas sio dignas de aten¢o, em particular por parte daqueles interessados em se contrapor a tendéncia para a alienagio e a desumanizacio encontradas em boa parte da descri¢io etno- grafica convencional. Nio se pode, contudo, dizer que a pritica de se combinar narrativa pessoal com descricio objetificada seja uma invencio da etnografia moder- na. Essa combinacdo tem uma longa histéria naquelas formas de escrita das quais a etnografia tradicionalmente se distinguiu. No inicio do século XVI, era convencional, na Europa, que os relatos de viagem consistissem em uma combinacio de narrativa na primeira pessoa, relato da proptia viagem e des- ctigo da flora e da fauna das regides percorridas, bem como das maneiras ‘Trabalho de campo em lugares comuns 71 e dos costumes dos seus habitantes. Esses dois discursos podiam ser cla- ramente distinguidos nos livros de viagem, com a nattativa predominando sobte a descticéo. As partes descritivas cram, as vezes, vistas como local de despejo dos “dados excedentes” que no se encaixavam na narrativa. Para dar um exemplo tepresentativo, um livro chamado The captivity of Hans Stade of Hesse in A.D. 1547-1555 among the wild tribes of Eastern Brazil alcancou um amplo piblico, nos séculos XVI e XVIL? O telato de Staden foi dividido em duas partes desse tipo, a primeira com cerca de cem pfgi- nas, contando seu cativeiro entre os Tupinambé, e a segunda com cerca de cinquenta paginas, trazendo um “relato curto ¢ veridico de todas as manei- ras ¢ costumes dos Tuppin-Imbas presenciados por mim, tendo sido deles ptisioneiro” (Stade, 1874, p. 117). Nessa segunda se¢io, a agenda desctitiva de Staden tem muito em comum com a agenda da etnografia moderna, in- cluindo capitulos sobre “suas moradias”, “como fazem fogo”, “os lugares em que dormem”, “suas habilidades em matat animais selvagens ¢ peixes com flechas”, “como cozinham sua comida”, “que tipo de regime ¢ ordem tém em seu governo e suas leis”, “suas crengas”, “quantas mulheres cada um deles tem e como lidam com elas”, “como atranjam os casamentos”, “como fazem as bebidas com as quais se embebedam ¢ como organizam a atividade de beber”, e por af vai. Além disso, as descrigdes de Staden assemelham-se Aquelas da etnografia moderna em sua especificidade, sua busca por neu- tralidade ¢ imparcialidade, sua vinculagio entre as ordens social e material, como em sua descri¢o de uma casa, cuja organizagio espacial é vista como determinada por relacées sociais: iS Biles preferem erguer suas casas em lugares proximos de madeira ¢ Agua, bem como dos jogos e dos peixes. Apés haverem destruido tudo em um local, mi- ‘gram para-outros lugares; ¢, quando querem construit suas cabanas, um chefe retine um grupo de homens ¢ mulheres (cerca de quatenta casais), ou tantos quantos conseguir, ¢ estes vivem juntos como amigos e telagBes. Constroem uma espécie de cabana, com cerca de quatotze pés de largura ¢ talvez cento ¢ cinquenta pés de comprimento, de acordo com 0 mimero de 2 Reproduzo, aqui, o titulo em inglés, tal como citado pela autora. Entretanto, em consulta a diversas fontes, fica evidente que se trata de Hans Staden, tal como é amplamente conhecido ‘no Brasil. Opto, assim, pela grafia mais conhecida pelo pablico brasileiro no restante deste capitulo (@ excecéo da mengio do some em referéncia bibliogréfica & obra citada). 72 A cscrita da calnura: poética e politica da etografia habitantes. As habitagSes tém cerca de duas bracas de altura, arredondadas em cima como em um teto abobadado; o telhado é feito com folhas de pal- meiras, para que no chova no interior, ¢ a cabana nio tem divisbes internas, Ninguém tem um quarto especifico; cada casal, homem ¢ mulher, tem um espaco de doze pés de um lado; do outro lado, da mesma forma, vive outto pat. Assim, suas cabanas sio cheias, e cada casal tem sua ptépria fogueira. O chefe das cabanas também tem seu alojamento na habitaco. Todas clas tém, em geral, trés entradas, uma de cada lado e outra no meio; as entradas so baixas, ¢ por isso é preciso se abaixar para entrar ¢ sair. So poucas as aldeias que tém mais do que sete cabanas (Stade, 1874, p. 125). Utilizo o exemplo de Hans Staden com a intengio deliberada de enfa- tizar que essa configuracio discursiva sobre a qual falo no é produto nem de uma tradigao erudita nem da ascensio da ciéncia moderna, apesar de suas semelhancas com a etnografia contemporfnea. Hans Staden era um artilhei- ro de nayio com pouca educagio formal; seu livro tornou-se muito popular, e antecede o surgimento da “hist6ria natural” no século XVIIL Em alguns casos, nos zelatos de viagem, o discurso descritivo pode ser encontrado embutido na natrativa, conforme ilustra este extrato de Travels in the interior districts of Affica, de Mungo Park (1799): Paramos um pouco em uma aldeia chamada Dangali; a noite, chegamos a Dalli. Vimos na estrada dois grandes tebankos de camelos pastando. Quando 05 moutos soltam seus camelos para pastar, amatram uma das pernas dian- teiras pata evitar que se desgarrem [...) As pessoas estavam dancando diante da casa dos Doty. Mas quando souberam que um homem branco havia che~ gado aldeia, pararam de dancar e vieram até meu alojamento, caminhando organizadamente, dois a dois, precedidos pela miisica. Bles tocam um tipo de Alauta; mas, 20 invés de soprar em um buraco lateral, soptam obliquamente na ponta (Park, 1860, p. 46). Embora entrelacadas, a narrativa pasticularizada e a desctigio detalha- da permanecem ainda passiveis de distincio aqui, e as mudangas de uma para outra sio clatas, com os sinais mais evidentes sendo, é claro, a substituicio dos tempos verbais, do passado para o presente, ¢ de pessoas especificas ‘Trabalho de campo em lugares comuns 73 para r6tulos tribais. (Conforme mostrarei mais adiante, essa é a configuracéo que surge nas obras de Malinowski e Raymond Firth.) Em suas diversas aparéncias, a dualidade narragdo-descrico permane- ceu notavelmente estavel nos relatos de viagem até o presente, bem como a ordenacio tradicional — primeiro a narraco, depois a descticao; ou a su- bordinagao da descticio 4 narracdo. Ao final do século XIX, contudo, os dois modos, muitas vezes, tinham pesos semelhantes nos livros de viagem, ¢ era comum que uma viagem resultasse em dois volumes sepatados, como na obta-prima de Maty Kingsley, Travels in West Africa (1897) ¢ West African studies (1899). The Lake Regions of Central Africa, de Richard Burton (1868), alterna capitulos de natragéo com capitulos que descrevem a “geografia € etnologia” de cada regifio percottida. A etnografia moderna obviamente guarda uma continuidade direta com essa tradicio, apesar da fronteira disciplinar pela qual ela se separa dos esctitos de viagem. A escrita etnogrifica subordina, via de regra, a narrativa 4 descrigao, mas a narrativa pessoal ainda é convencionalmente encontrada, seja nos volumes pessoais separados ou sob a forma de vestigios no inicio do livro, arrumando o paleo para o que se segue. Nio surpreende, assim, perceber que as natrativas de abertura das etnografias aptesentam claras continuidades em relagdo aos relatos de via- gem. Por exemplo, Firth, em We, te Tikapia (1936), aptesenta a si mesmo por meio da clissica cena de chegada 4 Polinésia. Essa cena tornou-se um lugar-comum na literatura sobre as exploracdes dos Mates do Sul de Cook, Bougainville e outros, nos anos 1760 ¢ 70. E uma passagem! notével, & qual Clifford Geertz recentemente dedicou também sua atengio (Geertz, 1983c). No ftio do inicio da manhi, logo antes do nascer do sol, a proa do Cruzeito do Sul estava voltada para o horizonte ocidental, no qual mal se podia en- trever uma leve linha azul escura. Lentamente, 2 linha se transformou em ‘uma massa montanhosa irregular, que se etguia ingreme do oceano [..] Em cerca de uma hora estévamos proximos da praia, ¢ podiamos ver canoas se aproximando, vindas do sul, contornando o recife, onde a maré era baixa. A cembarcago em formato de regata se aproximou, os homens a bordo aus da cintaca para cima, com seus cintos feitos de casca de arvore, com grandes leques enfiados na parte de tris de seus cintos, com brincos de casco de tar- taruga ou folhas enroladas nos Ibulos das orelhas ¢ no nariz, barbudos ¢ de 74 Acescrita da culeura: poética ¢ politica da etnografia cabelos compridos soltos 4 altura dos ombros. Alguns mancjavam os pesados temos, outros tinham esteiras de folhas de pindano trangadas a seu lado nos bancos, outros seguravam grandes porretes ou langas. O navio ancorou em uma pequena amarra na baia diante do recife de coral. Os nativos mal espe- raram a cortente acabar de descer para comesar a subir a bordo, escalando as laterais de qualquer jeito que conseguiam, gritando uns com os outros € ‘conosco em uta lingua da qual os natives falantes de mota que companham a tripulagio nfo entendiam sequer uma palavra. Pezguntei-me ali como um material bumano tio turbulento poderia algum dia set induzido a se subme- ter a. um estudo cientifico.. Descemos do barco na pedra de coral ¢ comegamos a caminber até a praia junto com nossos anfitsides, como criangas cm uma festa, trocando sorrisos no lugar de qualquer outra coisa mais inteligivel ou tangivel no momento. Fo- mos cercados por uma multidio de criangas nuas e tagarelas [.] Finalmente saimos da 4gua, subimos até a praia ingreme, cruzamos a areia macia ¢ seca coberta com 2s pishas marrons das casuarinas — um toque doméstico; era como uma avenida de pinhes —¢ fomos conduzidos até um velho chefe ves- tido, com enorme dignidade, com um pano amarrado em totno da cintura € ‘um manto branco, que nos aguatdava sentado em um banco debaixo de uma grande atvore frondosa (Firth, 1936, p. 1-2). Fitth reproduz, de forma notavelmente direta, uma cena utépica do primeiro contato que ganhou status mitico no,século XVII, e permanece co- nnosco até hoje, na mitologia popular do paraiso dos Mares do Sul (também conhecide como Chub Méditerranée ou Iha da Fantasia). Muito longe de ser tomado por um invasor desconhecido, o visitante europeu é bem-vindo como um messias pot uma populacio ctédula, pronta a obedecer a seu co mando. Em comparacéo, consideremos a chegada de Louis de Bougainville a0 Taiti, em 1767: “Avangamos com todas as velas igadas rumo a tetra, permanecendo a barla- ‘vento em relagdo & baia, quando notamos uma piroga se aproximando vindo da terra, usando vela e remos. O barco passou & nossa frente ¢ se juntou a inimeros outros, que navegavam 4 nossa frente, vindos de todas as partes da itha. Um avangava a frente de todos; era manobrado por doze homens nus, que nos oferecetsin cachos de bananas; ¢ suas mancitas significavarn que se ‘Teebalho de campo em lugares comuns 75 tratava de seu ramo de oliveira. Respondemos com todos os sinais de amiza- de que pudemos imaginar; em seguica, cles vieram até o lado do nosso navio; € um deles, com um cabelo prodigiosamente longo, cujos fios se erigavam fem todas as ditegSes, nos ofereceu, junto com seu zamo de paz, um pequeno porco ¢ uma penca de bananas [,.] Os dois navios logo estavam cercados por mais de cem pirogas de tamanhos diversos, todas dotadas de mastros. Estavam catregadas de cocos, bananas ¢ outras frutas do pafs. Essas frutas, que nés achévamos deliciosas, foram to- cadas de maneita muito honesta por toda sorte de bugigangas (Bougainville, 1967, p. 213). Bougainville encontra muito mais dificuldades do que Fitth para anco- rar seu navio, mas, quando consegue, o mesmo drama tem inicio: Uma vez atracados, fui a praia com alguns oficiais, para sondar o lugar em busca de égua. Uma imensa multidéo de homens e mulheres nos recebeu ali € nio se cansava de os olhat; os mais ousados vinham nos tocar; chegavam 4 puxar nossas roupas com as inlios, pata ver se éramos iguais a eles: nenhum deles portava qualquer arma, nem mesmo um galho. Expressaram sua alegria com a nossa chegada. O chefe nos levou até sua casa, onde encontramos cinco ou seis mulheres, ¢ um venetivel anciio (Bougainville, op. cit, p. 220). As semelhangas entre as duas cenas sio Sbvias, mas hé também algu- mas diferengas interessantes. A versio da cena de Bougaiaville usa uma ima- gem que Firth nao reproduz, o lugat-comum sentimental no qual os nativos tentam despir os estrangeitos para determinar sua humanidade e, simbolica- mente, nivelar a diferenca entre eles. Firth permanece vestido, como o rei que itd encontrar. Bougainville também menciona cuidadosamente a telacio ma- terial que se estabelece de imediato entre os eutopeus ¢ os nativos, uma troca cuja igualdade espontinea ele enfatiza. Em Firth, essa troca inicial também esta presente, mas sob forma no material, uma troca de “sottisos no lugar de qualquer outra coisa mais inteligivel on tangivel no momento”, sem deixar claro qual ser sua relagHo material com essas pessoas. Ao mesmo tempo, Firth desmistifica o igualitarismo da viséo convencional com seu toque de ironia sobre como todo esse material hamano poderia “ser induzido a se submeter a um estudo cientifico”. Na verdade, sua itonia, aqui, sublinha de forma leve a 76 A-cscrita da culrura: pottica¢ politica da emografia imagem da chegada teal como uma imagem, e como parte de uma linguagem de conquista. O fato de que seu ptdptio projeto é também uma afirmacio de poder é tacitamente reconhecido. A apresentacio inicial de si feita por Firth sugere a historia de como Tikopia se transformou na “sua pequena ilha”, tal como Malinowski mais tatde se referiu a ela (Firth, 1937, p. 1). Nos Argonautas, Malinowski apresenta uma autoimagem bastante dis- tinta, também retirada dos anais dos relatos de viagem. Seu “breve esbogo das atribulacdes de um Etnégxafo” abte com sua frase hoje famosa: “Imagi- ne-se 0 leitor subitamente deixado na praia, cercado pot seus equipamentos, sozinho em uma praia tropical préximo de uma aldeia nativa, enquanto a lancha ou o bote que 0 trouxe vai se afastando até nao poder mais set visto” (Malinowski, 1961, p. 4). Esta é, sem diwvida, a imagem tradicional de um proscrito. Que ela surja aqui é particularmente adequado, uma vez que cor- responde a propria situacio de Malinowski na época. Um cidadio austriaco vivendo na Australia, ele havia sido enviado para esperar a guerra passar nas Tihas Trobriand, ao invés de se artiscat a sofrer represdlias ou ser deportado. H& outras xazSes pelas quais a imagem do exilado é uma autoimagem evocativa e utdpica para o etnégrafo. Pois, conforme sugerem figuras como Helena Valero, Florinda Donner ¢ Hans Staden, proscritos e cativos reali- zam, de muitas maneitas, 0 ideal do observador participante. A autoridade do etndgrafo sobre o “simples viajante” apoia-se basicamente na ideia de que 0 Viajante est apenas de passagem, enquanto 0 etndgtafo vive com 6 grupo que estuda. Mas, evidentemente, é isso 0 que cativos ¢ proscritos mnuitas vezes também fazem, vivendo em outra cultura em todos os papéis, de principe a escravo, aprendendo linguas e modos de vida nativos com uma proficiéncia de dar inveja a qualquer etnégiafo, e muitas vezes produzindo relatos que so, de fato, completos, ricos e precisos pelos prOptios padres da etnografia. Ao mesmo tempo, a experiéncia do cativeizo lembra muito alguns aspectos da experiéncia do trabalho de campo — o sentimento de de- pendéncia, a falta de controle, 2 vulnerabilidade de estar ou completamente isolado ou nunca a s6s. Por sua vez, a imagem do prosctito mistifica a situacio do etndgrafo de formas ja mencionadas aqui. O prosctito e o etnégrafo diferentiant se basica- mente em sua telagdo material com o grupo nativo./Os prosctitos'assumem tum hugar na organizacéo social e econdmica'iativa; € assim que sobteviver — se é que chegam a sobeviver, jé que o cativeito € um empreenidimento bem ‘Trabalho de campo em lugsies comuns. 77 mais arriscado do que o trabalho de campo. Os antropélogos costumam esta- belecer uma telacio de troca com o grupo, baseada em mercadorias ocidentais. E assim que sobrevivem e tentam fazer com que suas relagdes com seus infor- mantes percam seu catéter de exploracio. Mas, evidentemente, essa estratégia é tremendamente contraditéria, pois toma os antropélogos contribuintes re- gulares para aquilo que cles mesmos veem como a destruicao de seu objeto de estudo. O status do cativo ou do prosctito, por sua vez, é inocente, e pode-se entender por que seria uma imagem atraente para o etnégrafo dilacerado por contradigées (embora tornar-se realmente nativo, como os cativos tantas vezes fizeram, seja um tabu para os antropélogos). Firth ¢ Malinowski, assim, recorrem ambos a imagens bem estabe- lecidas da literatura de viagem em suas visdes de abertura do etndgrafo. O corpo de suas etnografias também é semelhante, ao menos em seu emprego do discurso nattativo e descritivo. Os dois autores passeiam com liberdade e fluidez entre ambos, introduzindo frequentemente epis6dios para ilustrar ou desenvolver as generalizacdes etnogréficas, de uma maneira que faz lembrar ‘0 texto de Mungo Park citado acima (p. 35). A obra de Firth € repleta de passagens complexas como esta 2 seguir, na qual se entrelacam suas gene- ralizaces etnogrificas, seus episédios presenciados em primeira mo e sua itonia pessoal: (Os parentes is vezes fazem observagées mordazes uns aos outros ser trans- gredir em nada os limites das boas maneiras. Pa Ranifuri me contou, com grande alegria, sobre 0 modo como Ariki Taumako falara com ele sobre seu genro classificatério Pa-Panisi como “Matua i te sosipani? — sesipani sendo a prontincia nativa para “panela”, um tipo de vasilha escura da qual esse ho- mem era, até onde consigo me lembrar, 0 tinico possuidor na ilha. Enquanto estrangeiro de pele escura, ele era alvo de leves zombarias (3s suas costas) por parte dos Tikopia. Xingamentos, assim me foi dito, embora fossem proibi- dos pelas convengGes se feitos diretamente, podiam ocorrer de longe Fitth, 1936, p. 274). O que Firth ¢ Malinowski (seu professor) patecem buscat € um tipo de summa, um retrato totalizador e de rica textura baseado neles mesmos, em que o “self” € entendido nfo como um observador cientifico monolitico, mas como uma entidade multifacetada que patticipa, observa e-escreve a 78 A excita da cultura: pottica ¢poltica da emografia Partir de posicdes mtiltiplas e em constante mudanga. Tamanhas so as capa- Cidades desse sujeito versétil, maior do que a vida, que ele consegue absotver ¢ transmitir a riqueza de toda uma cultura. Neste sujeito também se apoia 0 otimismo inebriante que tanto Firth quanto Malinowski transmitem em tela- Gio a0 empreendimento ctnogrifico. Hé uma ironia significativa no fato de que © sujeito que fala na obta desses fundadores da “etnografia cientifica”, como Malinowski a chamava, é tudo menos o sujeito apagado e passivo do discurso cientifico. A ctiatura textual altamente perceptiva, mas tettivelmente assistemati ca, que € 0 etndgrafo em Malinowski ¢ Firth, contrasta agudamente com a fi- gura frustrada e deprimida que aparece em algumas etnografias cléssicas sub- sequentes, tais como aquelas de Evans-Pritchard e Maybury-Lewis, Se Firth surge como um rei-cientista benevolente do século XVIII, Evans-Pritchard entra em cena com o figurino posterior do rude explorador-aventureito vi- totiano, que se expde a todo tipo de perigo e desconforto em nome de uma miss4o (nacional) mais elevada. Em sua famosa descricio de abertura das condigdes do campo em.Os Nwer (1940), Evans-Pritchard junta-se a uma linhagem de um século de existéncia de viajantes da Africa que perdem seus suprimentos ¢ no conseguem controlar seus carregadores. Sua apresentagio inicial de si mesmo é assim: Cheguei a terra dos Nuet no inicio de 1930. O tempo chuvoso impediu que minha bagagem me fosse entregue em Marselha, e, devido a ertos pelos quais nfo fui tesponsével, meu suprimento de comida no me foi enviado de Ma- Jakal, ¢ meus criados Zande nfo receberam as instrugées para me encontrar. Segui para a terra dos Nuer (a terra dos Leeli) com minha tenda, alguns equi- pamentos ¢ umas poucas provisées compradas em Malakal, com dois cria- dos, um Atwot e um Bellanda, escolhidos apressadamente no mesmo lugar. Quando cheguei a Yoahuang em Bahr el Ghazal, os missionétios catélicos de li foram muito gentis. Esperei durante nove dias junto & bacragem'do tio pelos carregadores que me haviam prometido. No dééiié-dia, apenas txés ou quatro haviam chegado. [..] Na manba seguinte parti para 4 aldeia vizinha de Pakur, onde mens carregadores largaram 2 téhida e a6 provis6es iio meio 2 James Clifford fez obsecvagées semelhantes sobre Malinowski; ¢ devo muito-a sex trabalho aqui (ver Clifford, 19854). sete ‘Trabalho de campo em lugares comuns 79 de-uma planicie sem qualquer drvore, proxima de algumas fazendas, ¢ se re- cusaram a leva-las para a sombra, cerca de meia milha mais adiante, No dia seguinte, dediquei-me a armar minha tenda ¢ a tentar convencet os Nuet [..] a levat minha moradia pata as ptoximidades da sombra e da agua, o que eles se recusaram a fazer (Evans-Pritchard, 1940, p. 5). Epis6dios desse tipo constituem um Ingar-comum entre os relatos de viagem e exploragio da Africa, no século KIX. Aqui esta, por exemplo, o eternamente rabugento Sir Richard Burton, cuja expedicio relatada em The Lake Regions of Central Africa (1868) tem inicio de forma igualmente pouco auspiciosa: Ficamos retidos dez dias em Wale Point, devido a vitias providéncias preli minates 4 partida. Said bin Salim, um arabe mestigo de Zanzibar que, intei- ramente contra a sua vontade, foi obrigado pelo principe atuar como Ras Kafilah, ou guia de caravana, havia, apés infindéveis ¢ infrutiferas stiplicas por adiamento, nos precedido em cerca de quinze dias, com 0 objetivo de conseguir cartegadotes.[..] Hle havia atravessado para o continente, no dia 1° de junho, ¢ contratado um grupo de carregadores que, contado, a0 saber que seu patro eta um Muzungu, “homem branco”, haviam se dispersado ime- diatamente, esquecendo-se de devolver o pagamento. Eram necessatios cerca de cento e setenta homens; 86 era possivel conseguir ttinta ¢ seis. [..] Foi pteciso deixar para tris, até que um grupo completo de carregadores fosse contratado, a maior parte da municio, 0 batco de metal que havia sido tio itil nna viagem costeira até Mombasah ¢ os suprimentos-reserva de roupas, cor das ¢ contas, avaliados em 359 délares. Os hindus prometeram solenemente eavié-los. [..] Quase onze meses, contudo, se passaram antes que chegassem Burton, 1961, p. 12). Eo texto assim prossegue, sucessivamente, até que a narrativa de Bur- ton — assim como a introducio de Evans-Pritchard — comeca a soar como uma longa e frastrante disputa entre mestre e servo. A escolha de Evans- -Pritchard por essa autorrepresentagio especifica no é aleatéria. A recen- te andlise de Clifford Geertz de um velho texto de memétias militares de Evans-Pritchard (Geertz, 19832) estabelece uma relagio direta entre Evans- -Pritchard e a tradigiio de exploragio e de relatos coloniais da Aftica. 80 A escrita da cultura: poética¢ politica da etnografia No que diz respeito as convengées discursivas, também se pode con- siderar que Evans-Pritchard produziu uma verso extremamente degradada da cena ut6pica de chegada exemplificada pot Bougainville e Firth. Trata-se, aqui, de um primeiro.contato em um mundo decadente, no qual o colonia- Hismo europeu é um dado, e nativos e homens brancos abordam uns aos ou- tros de forma desconfiada e triste. Maybury-Lewis oferece-nos uma versio igualmente degradada da cena em Akwe-Shavante Society. Ble consegue ajuda para levar sua bagagem, mas o chefe que o recebe no parece ser muito mag- nificente, e a troca inicial de bens nao é recfproca: Diversos Kavante da aldeia tinham vindo até a pista quando nosso aviio aterrissou ¢ ajudaram a levar nossas bagagens até 0 posto. Depositaram-nas 208 pés de um homem idoso, que descobtimos ser 0 chefe da aldeia. Ele cla- ramente espetava que nés abrissemos os batis ali mesmo e distribufssemos 0 conteiido (Maybury-Lewis, 1967, p. xxiii). O problema, aqui, conforme saberemos depois, é 2 contamina¢io pelo mundo externo. Os Xavante haviam sido estragados pelos militares brasi- leitos, que iam até 4 vé-los como uma curiosidade e traziam “presentes so- fisticados”. Como Ewans-Pritchard (seu professor), Maybury-Lewis reclama extensamente da hostilidade e da falta de cooperagio de seus informantes, da sua recusa a conversar com ele em particular, da sua recusa em deixa-lo em paz, dos seus problemas com a lingua etc. Nesses dois exemplos antiutopicos, a narrativa de abertura serve para cexplicar as limitagdes da capacidade do etnégrafo pata levar a cabo sua mis- sao cientifica. De forma bastante paradoxal, as condigdes do trabalho de campo séo telatadas como um impedimento para a tarefa de se fazer tra- balho de campo, 20 invés de serem consideradas parte daquilo de que se deve dar conta no trabalho de campo. O contraste com o tom de Firth e Malinowski é ébvio. Evans-Pritchard e Maybury-Lewis so os herdeitos da etnografia cientifica ¢ profissional inventada pot Malinowski. O ideal cien- tifico patece exetcer muita pressio sobre cles, exigindo uma metodologia de campo codificada, distanciamento profissional, um registro sistematico. Qualquer trago das outras culturas que dificulte essas tarefas é um obsticulo etnografico, bem como um fato etnogrifico. Ambos os autores zeclamam, pot exemplo, da impossibilidade de ter conversas particulares com os infor- ‘Trabalho de campo cm lugares comuns 81 mantes, como se a conversa particular, uma vez batizada como um método de campo, tivesse que ser culturalmente possivel por toda parte. A medida que a metodologia se toma cada vez mais codificada, o choque entre “‘prati- cas objetivas ¢ subjetivas” torna-se cada vez mais agudo, No caso de Evans-Pritchard, as dificuldades traduzem-se em uma ri- gida separacéo entre natrativa pessoal (sua longa e vivida introdugio) e des- cri¢io impessoal (0 restante de seu relato). Nao se va mais a posi¢ao de fala em constante alteragio de Firth ow Malinowski, e também nio se vé mais 0 senso de autoridade, a possibilidade de uma totalizacio confifvel. Evans-Pri- tchard luta para obter um retrato totalizador dos Nuer. centtado no gado, mas sente que ptecisa ser enfitico, tanto no infcio quanto no fim de seu livzo, em relagio As limitagdes de sua capacidade e de sua tealizacio. A reagio de Maybury-Lewis, por sua vez, é tentar reafirmar a autotidade e a legitimidade da narsativa pessoal e explicité-la como um subgéneto. Ele publica primeito seu selato pessoal (The savage and she innocent, 1965), enche seu livzo etnografi- co com a nasrativa pessoal e sugere que “jé é hora de abandonat a mistica que cerca 0 trabalho de campo e tornar convencional a descri¢&io, em detalhes, das circunstancias da coleta de dados” (Maybury-Lewis, 1967, p. xx). Cada um desses autorretratos narrativos de abertura (Malinowski, Firth, Evans-Pritchard, Maybury-Lewis) emerge diretamente da tropologia dos relatos de viagem. De forma intrigante, surgem, muitas vezes, da tradicao especifica de escrita sobre a regifio na qual o etnégrafo esti trabalhando (Aftica Central, Pacifico Sul). Ao mesmo tempo, cada um deixa entrever, de forma apenas sutilmente indireta, algumas caracteristicas proprias da situago particular na qual cada etndgrafo se vé. Trata-se de autorretratos embleméticos, que funcionam como um preliidio e um comentirio daquilo que vem a seguir. Nesse sentido, no so triviais, pois uma de suas fungdes é posicionar © leitor em selagio 8 descrigo formal. Geralmente, nas etnografias, modernas, essas passagens tém a intenco de problematizar a posicZo do leitor, \ como em Evans-Pritchard e Maybury-Lewis. As provagéés do etnégrafo em | seu trabalho para conhecer outro povo transformam-se, agora, nas provacSes | do leitor para compreender o texto. / Em todos os casos que discuti, h4 muito de mistificagio no antorretrato do etnégrafo. Muita coisa é ironizada, indiretamente questionada, porém munca nomeada —em particular, a total auséncia de explicacdo ou de justificativa para a 82 A scrita da culeure: podticae politica da emografia ptesenga do etndgrafo do ponto de vista do outro, A obstinada incompreensiio de Hvans-Pritchard de uma conversa com um informante, em seu preficio, € 0 exemplo mais claro possivel. Igualmente mistificada é a agenda mais ampla da expansio europeia na qual o etndgrafo, a despeito de suas atitudes diante dela, se vé enkedado, e que determina a prdpria relacio matetial do etndgrafo com © grupo estudado. Essa relacéo é um dos grandes siléncios no préprio meio da descricio etnogrifica. Eo siléncio que molda o projeto etnogrifico tradicional de tentar descrever a cultura como era antes da intervengio ocidental. “Venho esbocando um argumento vagamente geracional neste ensaio, € proponho terminar com um ltimo exemplo, zetirado de uma geracio mais recente de etndgrafos. Nisa: the if and words of a Kung woman, de Masjosie Shostak (1981), € amplamente reconhecido como um dos mais bem-sucedi- dos experimentos recentes na re-humanizacio da escrita etmografica, A ima- gem da chegada é apenas uma das muitas convencdes da escrita etnogréfica que é remodelada em seu texto, A introdugao de Nisa traz duas versdes da cena de chegada convencional. Aqui esté a primeira: ‘Ao entrar em uma aldeia ![Kung tradicional, um visitante ficaria impressions do com sua aparente fragilidade diante da amplitude do céu e com o grat de integracéo & grama alta e as arvores esparsas do bosque 20 redor. [..J Um visi tante que chegasse no meio da estaco fria — junho e julho ~, bem na hora de nascer do sol, veria pilhas de cobertores ¢ peles de animais diante das caba nas, cobtindo pessoas ainda adormecidas préximo a suas fogueiras. Aquele: j@ acordados estariam sticando as brasas, reavivando o fogo e se aquecend: no frio at matinal. [..] Um visitante qué chegasse em outra mani, nos mese quentes e secos de outubro e novembro, encontraria as pessoas andando di ‘um lado para o outro, até mesmo na aurora, de pé cedo para dispor de algu mas horas para colher ou cagar antes que 0 calor do meio-dia as forcasse a s« ecolher para descansar sob a sombta (Shostak, 1981, pp. 7-8). Como em Firth, essa chegada hipotética se di ao amanhecer: nove dia, novo lugar. E, de forma ligeiramente diferente, apresenta uma utopi: etnogrifica: aqui esté uma sociedade’ tradiciotial: dgindo tradicionalmente cega para a presenca estmaitha qué a observa. Ao contrétio das outras cena de chegada examinadas aciina, esta € hipotética ¢ normalizada. Represent isi a vivenciatia se...”. O stata ‘Trabalho de campo em lugares comuns 83 dessa fantasia fica aparente algumas paginas depois, quando Shostak conta, de forma bastante extensa, sua propria experiéncia de chegada, a noite em que conheceu Nisa: Quando chegamos a Gausha, vindo de Goshi, onde ficava nosso acampa- mento principal, jé escurecera havia muito. Passamos no Land Rover por uma aldeia [Kung ¢ paramos em uma aldeia abandonada mais adiante na estrada. A Ina ‘cheia, alta no céu, parecia pequena ¢ langava uma luz fria. [-] Kxoma e Tuma, dois homens [Kung que visjavam conosco, sugeritam que acampassemos naquele local, onde Richard Lee ¢ Nancy Howell, outros antropélogos, haviam instalado seu acampamento quatro anos antes. Morar onde outra pessoa havia morado antes era corteto, disseramn: isso 0 conectava 20 passado. A armacio de galhos delgados da cabana de Richard e Nancy ain- da estava 4. Bla se destacava & luz da lua, um esqueleto esquisito afastado do bosque 20 redor. [..] um quadro !Kung tradicional. A cobertura de folhagem hé muito havia sido tetirada e usada na aldeia de Nisa. No estado em que estava, a cabana nfo oferecia qualquer protecio contra o tempo ou qualquer privacidade (Shostak, 1981, p. 23). Para comecar, trata-se de uma chegada noturna, o que é relativamente raro, tanto nos relatos de viagem quanto na etnografia. Para os antropdlogos, esta éa terra dos mortos —a lua é pequena e fria, e, inexplicavelmente, passam pela aldeia dos vivos e se dirigem a uma aldeia abandonada, instalando-se na carcaca de uma cabana. O proprio simbolismo de Shostak faz um contraste agudo com a compreensio [Kung do que estio fazendo. Para eles, 0 elo com © passado é um porto seguro, um conforto. Shostak se companheizo siio assombrados pelos fantasmas de seus antecessores antropolégicos. ‘Nio ha quaisquer boas-vindas nativas espontiineas no relato de Shos- tak, mas, ao contratio tanto de Firth quanto de Ewvans-Pritchard, esses antto- pélogos niio querem nem precisam disso: “Estava tarde demais para fazer visitas. Eles j4 nos conheciam: ainda estariamos 14 pela manh®”, Eles desfa- zem a bagagem sozinhos (“Pensei na ocasiio em que Nancy havia encon- trado uma vibora em seu saco de dormir”, O que niio existe aqui, é claro, éa pretensio ou a fantasia de um primeiro encontro. Muito longe de ser 2 primeira europeia na cena, Shostak esta muito distante até mesmo de ser a primeira antropéloga. E esse ponto é melancolicamente dramatizado quan- 84 A csctitada culmea: pottica politica da emografia do os anfitrides nativos, eles mesmos nao bem“vindos, chegam atrasados, quando a atrumacio das bagagens jé foi feita, e os recém-chegados j4 vio dormir: “Nisa usava uma velha coberta jogada sobre os estos de um vestido desbotado de estampa florida, de tamanho muito grande para ela. Bo vestia um short, no qual até mesmo os remendos estavam pufdos em varios luga- tes”. La estavam eles, vestindo roupas europeias que, obviamente, jé usavam havia muito tempo. E, em vez de uma can¢So de boas-vindas para Shostak e seu patceito, o que Nisa canta é uma cancio de louvor a seus antecessotes: “Richard ¢ Nancy! Eu realmente gostava deles! Eles também gostavam da gente-— eles nos davam presentes lindos ¢ nos levavam a todos os lugares com eles. Bo ¢ eu trabalhamos muito para eles. [..] Ah, como eu queria que eles estivessem aquil”, E uma cena terrivel, um verdadeiro retorno do reprimido. Esses ou- ttos so decaidos, corrompidos nfo apenas como nfo europeus, mas espe- cificamente como informantes etnograficos. Bo e Nisa chegam elogiando a relacio culpada de troca baseada em mercadorias ocidentais, o ponto no qual 0 antropélogo preservador da cultura se tomna o intervencionista corruptor da cultura. B a prostituigao do nativo ingénuo. Em resumo, essa cena de chegada contempla, de maneira relutante e na calada da noite, o resultado do episédio etnogréfico: 0 povo nativo que, especificamente por meio do con- tato etnografico, desenvolven um interesse explicito na ocidentalizagao e um vinculo cotidiano concreto com as estruturas mais amplas de exploracéo. E como um sonho ruim, e a reagio de Shostak, do modo como ela a descteve. é tentar fingit que isso nflo est acontecendo e esperar uma cena de chegada mais padronizada pela machi, completa com a troca ritual de mercadorias: “Seria entio que dariamos (tabaco) aos outros [Kung com quem pretendia- mos trabalhar” (Shostak, 1981, p. 25). Ap6s muita resisténcia, Shostak finalmente capitula diante dese mun- do antropolégico degradado, aceita ser prostituida/seduzida por Nisaj-e-é somente ento que ela encontra uma telacao de trabalho de campo’ que é, de fato, imensamente produtiva do ponto de vista dos objetivos etnograficos Pois Nisa anuncia um talento genuino para contar histérias ¢ ia: tefletis sobre sua prépria cultura e experiéncia. A partir desse encontro, Shostak produz um texto que, de forma miuitc diferente de Malinowski e Firth, mais uma vez busca reconhecet @ autoridade da nartativa pessoal na desctigio etnografica. A historia da propria Shostal Trabalho de campo em lugares comuns 85 esta concentrada no infcio ¢ no fim do livro. Entre um e outro, a natrati- va de Nisa predomina, editada sob 0 formato de uma histétia de vida por Shostak, que ptincipia cada se¢io com algumas paginas de generalizacdes ¢ comentarios etnograficos. Assim, esse livro teata mediar a conttadicio entre a objetificacio da tepresentacio etnografica, na qual todos os natives sio equivalentes € iguais, e a experiéncia subjetiva do trabalho de campo, na qual os informantes nfo sfio equivalentes ou iguais entre si, O que se busca aqui como alternativa fio é contudo, uma totalidade ou sintese baseada na subjetividade multifacetada do etnégrafo/-viajante/cientista, mas algo menos unificado e mais polifonico.* Ha, entretanto, um elemento utdpico que persiste, pois a polifonia que Shostak cria chama a atengio pela harmonia. Hé pouca evidéncia de em- bates entre as varias vozes, apesat da consciéncia de Shostak da intolerével natuteza contraditéria da sua posicio. As concepgées atuais do Ocidente de solidatiedade e intimidade femininas parecem set parte daquilo que produz essa hatmonia transcultural: ela e Nisa esto unidas de formas que talvez transcendam a cultura. Deve-se dar a Shostak © crédito de que as tiltimas linhas do livto desafiem essa harmonia. As palavras finais de Nisa no texto: “Minha sobtinha... minha sobtinha... vocé é uma pessoa que realmente pen- sa em mim”. As palavras finais de Shostak so: “Bu sempre pensarei nela € espero que ela pense em mim como uma itma distante”, Cada uma attibui outra um parentesco honoritio diferente. Na escutidao que recobre a cena de chegada de Shostak, os leitotes oci- dentais reconheceriio o simbolismo da culpa. Em parte, hé uma culpa ligada as particularidades da situacao de Shostak como a tltima em uma série de antropélogos que trabalharam entre os [Kung. B, em parte, ha uma culpa que chega até ela vindo de muito mais longe no passado. Pois, da mesma forma como acontece com os outros exemplos discutidos, o texto de Shostak, bem como os textos de seus colegas do Projeto Kalahari de Harvard, apresenta continuidades em linha direta com uma longa tradi¢o de esctita sobte os !Kung — uma tradi¢o que j4 tem trés séculos. E. uma tradi¢ao “leiga” no profissional, da qual os antropélogos de Harvard vigorosamente se dissociam (a forma mais explicita sendo a mudanca no nome europeu antigo do grupo, * Ver também a resenha de James Clifford de Nisano The Times Literary Supplement (London), 17 de setembro de 1982, pp. 994-95. 86 A escrita da cultura: poética e politica da etnografia 08 bosquimanos). © que essa tradi¢aio documenta é uma longa e violenta tra- dicdo de perseguicio, escravizacio ¢ exterminio. Os [Kung contemporineos sdo os sobreviventes dessa hist6ria; os antropélogos contemporneos si0 os herdeiros de sua culpa. Alguns detalhes podem ajudar a esclarecet este ponto. Enno final do século XVIII que os bosquimanos comecam a surgir nos telatos eutopeus como objetos de (a) interesse e (b) pathos e culpa. Nao sem surpresa, foi também nesse momento que os bosquimanos petderam defini- tivamente a luta contra a:intromissio europeia em sua terra e em seu modo de vida. Durante o século anterior, 0s bosquimanos haviam frequentado os telatos europeus como hordas de saqueadores éelvagens e sedentos de san- gue, que resistiam bravamente contra o avango dos colonos, atacando suas fazendas 4 noite, soltando ou roubando o gado, e, as vezes; assassinando colonos ou trabalhadores. Tendo carta branca das autoridades coloniais, os colonizadores entregaram-se a uma guerra de exterminio. Tropas invadiam as aldeias bosquimanas, muitas vezes A noite, matando os homens e matando ou escravizando as mulheres e criancas. Os colonizadores foram, aos pou- cos, vencendo a guerra, de fotma tal que, nos anos 1790, “os bosquimanos ainda eram numerosos nas montanhas do interior, mas em outras partes da colénia quase nao havia nenhum” (Theal, 1897, pp. 198-201).5 E nesse momento que o discurso sobre os bosquimanos se alteta. Os viajantes do final do século XVIII, como o sueco Anders Spatrman (Voyage to the Cape of Good Hope, 1785) ¢ 0 inglés John Barrow (Travels in the interior of Southern Africa, 1801), vociferam contra a brutalidade dos colonos ¢ a injustica da campanha de exterminio. Os mesmos escritores constroem um novo retrato etnografico dos bosquimanos. Esses deixam de ser vistos como guerreitos combativos ou saqueadores sedentos de sangue e adquirem as caracteristicas que os poderosos em geral atribuem Aqueles que subjugaram: humildade, inocéncia, passividade e preguica, associadas a forca fisica, resistencia, alegria, falta de cobiga ou mesmo de desejos de qualquer tipo, igualdade interna, uma inclinagao a viver no presente, incapacidade de tomar iniciativas em seu préprio beneficio. Assim, Sparrman descreve os bosquimanos como “divres de muitos desejos que atormentam o resto da humanidade”, “avessos a qualquer tipo de trabalho”, mas ainda assim faccis de escravizar com um + Minhas observacées feitas aqui sobre a histéria do contato entre os bosquimanos ¢ 0s euro- peus baseiam-se essencialmente em History of South Africa (1892-1919), de Theal. ‘Trabalho de campo em Ingares comuns 87 Pouco de carne e tabaco (Sparrman, 1975, pp. 198-201). Barrow acha que eles so “brandos ¢ manipuliveis ao maximo, ¢ com um tratamento gentil podem set adaptados a quase qualquer coisa”. “Sua disposicao”, diz Barrow, “€ vivaz c alegre; sua personalidade € ativa, Seus talentos estiio muito acima da média”, Sua constituicio é “muito mais forte e vivem mais do que os hotentotes”; “a igualdade universal prevalece em sua horda [...] cles nfio pensam no amanhi. Nao tém qualquer tipo de administracio ou economia no que diz respeito a guardar provisdes” (Barrow, 1801, p. 287). Aptesentado como uma descricéo etnografica objetificada dos bos- quimanos (eternos) e sua disposicio (natural), esse é o retrato de um povo conquistado, que 20 mesmo tempo reconhece a inocéncia € 0 pathos de sua condicao, avalia seu potencial como forca de trabalho ¢ legitima sua domi- nagio com o argumento de que eles no sabem como cuidat de si mesmos. Preso entre celebrar ¢ lamentar, historicizar e naturalizar a coi dos bosquimanos, Battow exptessa a culpa e a angiistia de sua posigio em uma cena de chegada notuma que tem muitos pontos em comum com a cena de Shostak, apesat de ter sido esctita 180 anos antes. No relato de Barrow, o contato pessoal fundamental com o outro também s6 é alcancado através de uma espécie de descida ao inferno. Embora seus motivos sejam inteiramente benevolentes, a tinica forma que Barrow encontra de fazer contato com os bosquitnanos atettorizados é por meio da contratagio de um grupo de fazendeiros béeres para ajudé-lo a armar uma emboscada noturna pata um grupo. Da mesma forma como acontece com Shostak, o resultado é um pesadelo de contradiges, um dos poucos episédigs de narrativa pessoal do livto de Barrow. Barrow descreve o grupo de atacantes descendo das montanhas na dite¢o do acampamento adormecido: “Ficamos ensurdecidos por um barulho hottivel semelhante ao grito de guerra de selvagens; os uivos das mulheres ¢ os gritos das criangas vinham de todos os lados” (Barrow, 1801, p. 272). Apesat das instrucées de Barrow, seus guias boeres comecaram a atitar nas pessoas que fugiam; os protestos de Barrow foram ignorados. “Por Deus?, exclamou [o fazendeiro béer], ‘vocé nfo viu a chuva de flechas caindo sobre nés?” Eu certamente no havia visto nem flechas nem pessoas, mas tinha escutado o suficiente para amolecer 0 mais duro dos coragdes” (bid., p. 272). Mais adiante, Barrow observa, envergonhado, que “nada poderia ser mais injustificavel [...] do que o ataque feito por nés contra a aldeia” (ibid., p. 291). 88 A cscrita da culrura: poética e politica da emografia Essa cena que perturba o relato extremamente impessoal de Barrow é uma inversio explicita nfo apenas da cena ut6pica de chegada a Ja Bougain- ville, mas também da imagem tradicional da horda bosquimana atacando as estincias dos europeus. Seu simbolismo e sua posi¢ao no texto de Barrow so semelhantes ao modo como aparece no texto de Shostak, e ambos com- partilham a mesma historia discursiva. (E interessante nota que 0 colega e antecessor de Shostak, Richard Lee, também usa uma cena noturna de che- gada para relatar sua tetceira visita aos [Kung [Lee, 1979, p. xviil,) Mas os antropdlogos contemporineos compartilham mais do que so- mente cenas de chegada com os escritores que os antecederam nos relatos sobre os bosquimanos. Suas descticdes etnograficas reproduzem, da mesma maneira, a heranca discursiva, mesmo quando a repudiam abertamente. Fi chocante ver a extenso em que os antropélogos e jornalistas do século XX continuaram a celebrar ea naturalizar, nos bosquimanos, muitas das caracte- risticas destacadas por Barrow, Spartman e os demais. Alegria, humor, igua- litarismo, no violéncia, desinteresse por bens materiais, longevidade e per- severan¢a so todos sublinhados com admiragio e afeto tanto por escritos jomnalisticos como os de Laurens van det Post (The Lost World of the Kalahari 1958) quanto pelos textos do Projeto Kalahari de Harvard (1963-70). O que apatece, ao longo de toda essa literatura, é a mesma conttadicao evidente entte, por um lado, uma tendéncia a historicizar os !Kung como vitimas- -sobreviventes do imperialismo eutopeu e, por outro lado, uma tendéncia a naturalizé-los e objetific4-los como sees ptimitivos, virtualmente intocados pela hist6ria. (Em ambos os casos, os bosquimanos parecem condenados extincao,) E impossivel fazer, aqui, uma discussio detalhada da vasta litera- tura contemporanea sobre os !Kung/bosquimanos, mas o ptéprio texto de Shostak pode exemplificar essa ambivaléncia a que me refiro. Ao nos apresentar Nisa trajando um vestido e vendendo seus talen- tos no mercado livre antropolégico, Shostak repudia a imagem do primi- tivo puro tantas vezes associada aos Kung. Mas, ao final das contas, é essa a imagem do primitive que motiva a pesquisa de Shostak. Para ela, como para © grupo do Projeto Kalahari de Harvard como um todo, os 'Kung interessam como evidéncia relativa a nossos ancestrais humanos € pré-humanos. Shostak espera que as mulheres [Kung possam “esclare- cer alguns dos t6picos levantados pelo movimento feminino americano”, principalmente porque, diz ela, ‘Teabalho de campo em lugares comuns 89 [--] sua cultura, 20 contzitio da nossa, no foi contimzamente perturbada por facgées politicas sociais nos dizendo que as mulheres eratm de um jeito, depois dizendo que eram de outro. Embora os !Kung estivessem pasando pot mudangas culturais, tudo eta ainda muito tecente ¢ sutil ¢ seu sistema de - valores tradicionais ainda estava, assim, basicamente intacto, Um estudo que revelasse como eram as vidas das mulheres [Kung hoje podetia refletir como eram suas vidas pot muitas geracdes, talvez até mesmo pot milhares de anos Ghostak, 1981, p. 6). “Recente” e “sutil” nio sio os adjetivos que vém a mente quando refletimos sobte a terrivel histéria da dominagio dos bosquimanos. Shostak e seus colegas patecem, as vezes, profundamente conscientes dessa historia: outras vezes, parecem totalmente alheios a ela. Richard Lee e outtos alertam, repetidamente, que os [Kung nfo devem ser tratados como “fésseis vivos” ou “clos perdidos” (Lee, 1979, p. xvii), que seu passado colonial e seu pte- sente em mudanga merecem set plenamente reconhecidos para que a desu- manizagao ¢ a distor¢o sejam evitadas, Entretanto, a pesquisa proposta pelo grupo é explicitamente evolucionista (iniciada por ptimatdlogos), na qual os !Kung so importantes como “evidéncias que ajudario a compreendet a his- t6ria humana” (S. Washburn, apud Lee e Devore, 1976, p. xv), como exem- plos de uma adaptagio ecolégica “que até dez mil anos atrés eta um universal humano” (Lee, 1979, p. 1). Com forte énfase em tdpicos fisicos e biolégicos como dieta, fisiologia, uso do tempo, padrées de habitacio, intervalo entre os nascimentos, uso de recutsos alimentates, doencas, envelhecimento etc., essa literatura naturaliza os modos de vida atuais dos !Kurig com muito im- peto. O desejo sincero dos pesquisadores de serem sensiveis & situacio dos IKung nas circunstincias histoticas do presente é simplesmente incompativel com seu projeto de encaré-los como uma adaptaco complexa a ecologia do desetto de Kalahari, e como um exemplo de como viviam nossos ancestrais. O uso de métodos basicamente quantitativos (com a ptodugao de tabelas como “Niimero médio de atos de cuidados com as criancas por pessoa pot ctianga por hora de observacao” [P. Draper apud Lee ¢ Devore, 1976, p. 214) intensifica a reificacio. ‘Um estranho, ao let a hist6ria do contato europeu com os [Kung/bos- quimanos, inevitavelmente questionard essa imagem deles como representati- va da vida de cacadores/coletores tal como era vivida ha 10,000 anos. Sera que 90 A cerita da cultura: poéticae politica da etnografia precisamos mesmo nos petguntat se trezentos anos de guetras e perseguicdes por parte dos colonos brancos (pata nfo falar da competiciio com criadores de gado nativos) tiveram impacto sobre os modos de vida, a consciéncia, a organizacio social e mesmo sobre a fisiologia do grupo que foi submetido a esses traumas? Sera que a pritica de longo prazo de massacrar os homens € escravizar as mulheres nio teve qualquer impacto sobre “como eram as vidas das mulheres” ou sobre 0 modo como as mulheres viam a si mesmas? Que retrato pintariamos dos !Kung se, ao invés de defini-los como sobteviventes da Idade da Pedra e como uma adaptacio delicada e complexa a0 deserto de Kalahati, nds os vissemos como sobreviventes da expansiio capitalista e como uma adaptacio delicada e complexa a trés séculos de violéncia e intimidagio? Hé momentos em que essa petspectiva parece estar implicita, ainda que indite- tamente, como na caracterizacio feita por Shostak de uma aldeia [Kung como parecendo “frigil” e “integtada” (ver citacao na p. 82 acima). Para compreender as preocupacdes conflitantes do grupo de Harvard, é preciso posicioné-los, por um lado, no contexto da contracultura norte-ameri- cana dos anos 1960, cujos ideais sociais pateciam, muitos deles, concretizar-se nos !Kung, e, por outro lado, no contexto da expansio da “ciéncia dura” biolé- gica da dtea de antropologia que fez de Harvard o centro da sociobiologia nos anos 1980. Ao mesmo tempo, é preciso também reconhecer as continuidades com a histéria discursiva que vem desde Spatrman, Barrow e os demais, uma histéria discursiva que cles, as vezes, desejam “matar pela ciéncia”. Conforme argumentei 20 longo deste trabalho, os antropélogos tém muito a ganhar olhando para si mesmos como pesquisadores que escrevern tanto interna quanto externamente as tradigdes discursivas que os precedem, interna e externamente as histérias de contato as quais dio continuidade. Essa perspectiva ¢ particularmente valiosa para aqueles que quetem mudar ou entiquecer o repertério discursivo da escrita etnografica — em particular, aquela “tentativa impossfvel de fundir préticas objetivas e subjetivas”. Sem |davida, um primeiro passo em direcio a essa mudanga é reconhecer que as imagens que usamos nio sfo naturais nem, em muitos casos, intrinsecas 4 | disciplina. Com isso, poderemos, se quisermos, nos libertar delas, ndo pres- | cindindo de imagens (0 que nio é possfvel), mas nos apropriando ¢ inven- tando novos tropos (0 que, sim, é possfvel).