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ANTROPOS

~simulacros e Simu-
lação», escrito em 1981,
mantém-se como um dos o
mais inovadores livros de •<(
Jean Baudrillard, soció- <..>
<(
logo e filósofo francês de -'
reputação internacional.
Nesta sua obra, e através
de exemplos dos novos
::::>
::;:
Ui SIMULACROS
E SIMULAÇÃO
centros de espectáculos, w
hipermercados, acidentes (/)

nucleares e novas tecno- o


logias, Baudrillard aborda
a:
ü
a questão dos simulacros <(
e da simulação. Esta não -'
::::>
seria já a de um território,
de um ser referencial. ou
de uma substância, mas a
geração, através de mode-
::;:
(/) Jean OauOrillara
los, de um real sem origem
nem realidade.

RELÓGIO D'ACUA
Scan by J.H.
~l,vrem-1e d.:.s welh.ls C.1t~Oti3S do neQ.lhvo (.Jiel, o ..m•te. ;:,s
c.:~stro1ç~s. o f3110l . .:. I.Xun.l) que por t.:~nto tempo o
~ns.:~mento octdent3i constderou 1.lQr.ld.ls, como form.l de JEAN BAUDRILLARD
poder e modo de .xesso ,\ re:illcbde . Preht.:Jm o que t pcn.~hvo e
mUtttplo, a d•f~enç:t à uNf Ofm•d.lde, os nu1os às umd3des. os
~'-lmentos móve•s .x~s s•ste~s·
- ~IC.htl f"OUC3Ull'

SIMULACROS
E SIMULAÇÃO

4!Jlr.
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Kw ~ylvtO Rebrio, 15
ICX:O l..itboa- Tt'tdone 8410775

OtdltiOntGalllk.l981
Tfhrh Simut.m. e S.mu~
ra.,, or"'"'' Simulao-es et Qmubüon
Awtor" }Nn S.udnllard
TNifwtOI'II Mana joio <b Costil rertin
c.,..: Fffn.tndo MalotUJ
O Relósio d 'Água, 1991
(x«u((o t rlfia: R1inho & NeWJ. Lda. I Sanu Mari.ll da f'tm
Dtpósito ltgal n.": 45675/91 ANTROPOS
Índice

A precess.1o dos s imulacros 7


A história: um cenA rio retro .... 59
Holocausto .................... 67
China Syndrorn ........................................................................ 71
Apocalypse N ow .... ......................................... 77
o creito Beaubourg. implosão c d issuasão .... 81
Hipermercado e hipcrmercador~' .................. ..... . ............. 97
A implosão d o sentido nos ma/ia ..................... . 103
Publicidade absoluta~ publicidade zero ............................... 113
C&one story ................... .............................. 123
HologT<UTmS ........................................................ 133
Crash .......... 139
Simulação c fiC(3o cientifica .. 151
Os animais, território e metamorfose .. ...................... 159
O resto................................................................... 175
O cadáver cm espi.ra.l ............................................................... 1&3
O último tango d o valor ..... 191
Sobre o niilismo ........ ........................... 195
A precessão
dos simulacros

O simul«ro ru1nc4 i o que oculta 11 vtTdadt


- i i i vtnlAdt: qut oc-ulta qut ttlo uislt.
O sinutbacro i vmladtiro.

Se outrora pudemos tomar pela mais bela alegoria da


simulação a fábula de Borges em que os cartógrafos do
Império desenham um mapa tão detalhado que acaba por
oobrir exactamente o território (mas o d eclínio do Império
assis te ao lento esfarrapar deste mapa c à sua ruína, podendo
ainda localizar·se alguns fragmentos nos desertos- beleza
metafísica d esta abstracc;ão arruinada, testemunha de um
orgulho à medida do Império e apodrecendo como uma
carcaça, regressando à substância do solo, de certo modo
como o duplo acaba por confundir·se com o real ao enve--
lhecer)- esta fábu la está tenninada para nós e tem apenas
o discreto encanto dos simulacros da segunda categoria m.

1. J. Baudrillard, L'kNmgt symboliqut t i lll "tOrt, cl'ordre des simu·


lacres•, Paris, Gallimard, 1975.
Simulacros r Simula(lo }tlm Baudrilli1rd

Hoje a abstra«;iio i' não é a do mapa, do duplo, do Nesta passagem a um espaço cuja curvatura já não é a do
espelho o u do conceito. A simulaçlo já não é a simulação de real, nem a da verdade, a era da simulaç~o in icia-se, pois,
um território, de um ser referencial, de uma s ubstância. É a com uma liquidação de todos os referenciais - p ior: com a
geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: sua ressurreição artificial nos s istemas d e signos, material
hiper-real. O território i' não precedo o mapa, nem lhe sobn.~ mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a
vive. É agora o mapa que precede o território - precessão todos os s istemas de equivalência, a todas as oposições
dos s im ulacros - é ele que engendra o território cujos frag- bino1rias, a toda a álgebra combinatória. já não se trata de
mentos apod recem lentamente sobre a extensão·do mapa. E imitaç:io, nem de dobragem, nem mesmo de paród ia. Trata-
o real, e não o mapa, cujos vestígios subsistem aqui e ali, nos -se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de
desertoo que já não são oo do Império, mas o nosso. O desrrto uma operação de dissuasão de todo o processo rea l pelo seu
do pr6prio rtrzl. d uplo operatório, máquina sinalética mctaestável, progra-
De facto, mesmo invertida, a fábula é inutilizável. Talvez mática, impecável, qu e o ferece todos os signos do real e lhes
subsista apenas a alegoria do Império. Po is é com o mesmo curto-ci rcuita todas as peripécias. O rea l nunca mais terá
imperialismo que os simuladores actuais tentam fazer coinci- oportunidade de se produzir - tal é a função vital do modelo
dir o real, todo o real, com os seus modelos de simulac:;ao. num sistema de morte, ou antes de ressurreição antecipada
Mas jti não se trata de mapa nem de território. Algo desapare- que não deixa já qualquer hipótese ao próprio acontecimento
ceu: a diferença sobera na d e um para o outro, que ronstitufa da morte. 1-lipcr-real, doravante ao abrigo do imaginário,
o encanto da abstracç.lo. Pois é na diferença que cons iste a não deixando lugar senão à recorrência orbital d os modelos
poesia d o mapa e o encanto do território, a magia doronceito c à geração simulada das diferenças.
e o encanto do real. Este imaginário da representação, que
culmina c ao mesmo tempo se afunda no projecto louco dos
cartógrafos, de uma coextensividade ideal do mapa e do ter-
ritório, d esaparece na simulação-cuja operação é nuclear c A irreferência divina das imagens
genética c já não especular e discursiva. E toda a metafísica
que d esaparece. já não existe o espelho do ser e das aparên-
cias, do real e do seu conceito. Já não existe coextensividade Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir
imaginária: é a miniaturização genética que é a d imensão da ter o que não se tem. O p rimeiro refere-se a uma presença, o
simulação. O real é produzido a partir de células miniaturiza- segundo a uma ausência. Mas é mais complicado, pois simular
das, de matrizes e de memórias, d e modelos de comando - e não é fingir: •Aquele que finge uma doença pode simples-
pode ser reproduzido um número indefinido de vezes a parti r mente meter-se na cama e fazer crer que estA doente. Aquele
daí. Já não tem de ser racional, pois já não se compa ra com que simula uma doença determina em si próprio alguns dos
nenhuma instância, ideal ou negativa. ~apenas operacional. respectivos sintomas.» (Uttré.) Logo fingir, ou dissimular,
Naverdade, j!i não é o real, pois já nãoestáen vohocm nenhum deixam intacto o principio d a realidade: a diferença continua
imaginário. t um hiper-real, produto de síntese irradiando a ser clara, está apenas disfarçada, enquanto que a simulação
modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera. põe em causa a diferenc;a do • verdadeiro» e d o • falso•, d o
lO Sirrwlacros t SimuMÇIJo }ttm &wdrillard ll

.creal• e do «imaginário•. O simulador está ou nio doente, se Que pode fazer o exército com os s imuladores? Trad i-
produ z • verdadeiros» sintomas? Objectivamen te n3ose pode cionalmente desmascara-os e pune-os, segu ndo um principio
tratá· lo nem como doente nem como n!CHJoente. A psicologia claro de localização. Hoje o exército pode dar como incapaz
e a med icina detêm-se ar perante uma verdade da doença para o servic;o militar um bom simulador como sendo exac-
que já não pode ser encon trada. Pois se qualquer sintoma ta mente equivalente a um homossexual, a um cardíaco ou
pode ser •produzid o• e já não pode ser aceite como um facto a um louco •Verdadeiros•. Atê mesmo a psicologia militar
da natureza, en tão toda a doença pode ser considerada recua ·dian te das clarezas cartesianas e hesita e m fazer a
simulável e s im ulada e a med icina perde o seu sentido, u ma distinc:;.\o do falso e do verdadeiro, do si ntoma '"produzido»
vez que só sabe tratar d oenças «verd adeiras» pelas s uas e do s intoma a utêntico. «Se ele imita tão bem um lo uco é
causas objectivas. porque o~. » E não deixa de ter razão: neste sentido todos o~
A psicossomática evolui de maneira incerta nos confins loucos simulam e esta indistinção é a pior das subversões. E
do principio da doença. Qu anto à psicanálise, ela devolve o contra ela que a razão clássica se armou com todas as s uas
sintoma do d ominio orgânico ao dominio inconsciente: este categorias. Mas é ela hoje em d ia que d e novo as u ltrapassa
é de novo supost·o ser • verdadeiro•, mais verdadeiro que o c submerge o princípio de verdade.
outro - mas por que é que a simulaç~o se detém às portas Para além d a medicina e do exército, terrenos de eleição
do inconsciente? Por que é que o • trabalho» do inconsciente da simulac;to, a questão prende-se com a religião e com o
não há-de poder ser • produzido• do mesmo modo que simulacro d a divindade: 4(Eu proibi a existência nos templos
qua lquer sintoma da medicina clássica? Os sonhos já o são. d e qualquer simulacro fX)rque a divindade que anima a
Claro que o médico alienista faz crer que .:para cad a natureza não pode ser representada.• Na verdade pode sê-
forma d e alienação mental existe uma ordem particular na -lo. Mas em que é que se toma quando se divulga em icones,
sucessão dos sintomas que o s imulador ignora c cuja ausência quando se desmu ltip lica em simulacros? Continua a ser a
não poderia enganar o médico alienista». Is to (que data de instância suprema que s imp lesmente se encarna nas imagens,
1865) pa ra salvar a todo o custo o princípio de uma verdad e num a teologia visível? Ou será que se volatili za nos
e iludir a intcrrogaç3o que a simulação coloca -ou seja, que simulacros que, só eles, osten tam o seu fausto e poder de
a verdade, a referência, a causa objectiva d eixaram de existir. fascinação - com o aparato visível d os rconcs s ubstituindo-
Ora que pode fazer a medicina com o que paira aquém e -se à Ideia pura e in teligível de Deus? Era disso justa mente
além da doença, aquém e além da saúde, com a reiteração d a que tinham receio os ~oonoclastas, cuja qu erela milenária é
doença num d iscurso que não é nem verdade.iro nem falso? ainda hoje a nossa Ot. E precisamente porque estes apresen·
Que pode fazer o psicanalista rom a reiteração do inconsciente tavam esta omnipotência d os simulacros, esta faculdade que
num d iscurso de s imulação que nunca mais pode ser têm de apagar Deus da consciência dos homens e esta verdade
desmascarado, já que também não é falso e»? que deixam entrever, destruidora, an iquiladora, de q ue no
fu ndo Deus nunca existiu, que nu nca existiu nada senão o

2. E que nao f 1uscq>tivel de resoluçao na trans~rf:ncb. to enredar


destes dois discursos que toma a psicanálise interminável. 3. Cf. M. Pem lola, lclt1es, Visions, Simu~crt:S, p.'g. 39.
12 Simulacros e Simulaçlo /tarl &udrilU.rd 13

simulacro e mesmo que o próprio Deus nunca foi senão o como poder dialictico, mediação visível e inteligível do Real.
seu próprio simulacro- daf vinha a sua raiva em destruir as Toda a fé e a boa fé ocidental se empenharam nesta aposta da
imagens. Se eles tivessem podido acredita.r que estas apenas representação: que um signo possa remeter para a profun-
ocultavam ou disfarçavam a Ideia de Deus segundo Platão, didade do sentido, que um signo possa trocar-se por sentido
não haveria motivo para as destruir. Pode viver-se com a c que alguma coisa sirva de caução a esta troca - Deus,
ideia de uma verdade alterada. Mas o seu desespero meta- certamente. Mas e se o próprio Deus pode ser simulado, isto
físico provinha da ideia de que as imagens não escondiam é, reduzir--se aos signos que o provam? Então todo o sistema
absolutamente nada e de que, cm suma, não eram imagens perde a força da gravidade, ele próprio não é mais que um
mas de facto simulacros perfeitos, para sempre radiantes no gigantesco simulacro - não irreal, mas simulacro, isto é,
seu fascinio próprio. Ora é preciso conjurar a todo o custo nunca mais passível de ser tTocado por real, mas trocando-se
esta morte do referencial d ivino. em si mesmo, num circuit·o ininterrupto cujas referência e
Vemos assim que os iconoclastas, acusados de desprezar circunferência se encontram em lado nenhum.
e negar as imagens, eram os que lhes davam o seu justo Assim é a si mulação, naquilo em que se opõe à represen -
va lor, ao contrário dos iconolatras, que nelas apenas viam tação. Esta parte do princípio de equivalência do signo e do
reflexos c se contentavam em venerar Deus em filigrana. real (mesmo se esta equivalência é utópica, é um axioma fun-
Mas podemos dizer, contrariamente, que os iconolatras foram damental). A simulação parte, ao contrário da utopia, do prin-
os espíritos mais modernos, mais aventureiros, uma vez que, cipio de equivalência, parte d4 negaç4o radical do signo romo
sob a luz de uma transparic;ão de Deus no espelho das valor, parte do signo como reversão e aniquilamento de toda
imagens, representavam já a sua morte e a sua desaparição a referência. Enquanto que a representação tenta absorver a
na epifania das suas represcntac;ões (das quais talvez sou- simulação interpretando-a como falsa representação, a simu·
bessem que já não representavam nada, que eram um jogo lação envolve todo o próprio edifício da representação como
puro, mas que era esse precisamente o grande jogo- sabendo si mulacro.
tam~m que é perigoso desmascarar as imagens, já que elas Seriam estas as fases sucessivas da imagem:
d issimulam que não há nada por detrás delas. Assim farão - ela é o reflexo de uma realidade profunda
os jesuítas, que fundarão a sua política sobre a desaparição - ela mascara e defonna uma realidade profunda
virtual de Deus e a manipulação mundana e espectacular - ela mascara a ausência de realidade profunda
das consciincias- desvanecimento de Deus na epifania do - ela não tem relação com qualquer realidade: ela é o seu
poder - fim da transcendência que já não serve senão de
próprio simulacro puro.
aHbi a uma estratégia comple tamente livre das influências e
dos signos. Por trás do barroco das imagens esconde-se a No primeiro caso, a imagem é uma boa aparência - a
eminência parda da politica. representação é do domínio do sacramento. No segundo, é
Assim a questão terá sempre sido o poder assassino das uma má aparência - do domínio do maldício. No terceiro,
imagens, assassinas do real, assassinas do seu próprio modelo, finge ser uma aparência - é do domínio do sortilégio. No
como os ícones de Bizãncio o podiam ser da identidade quarto, já não é de todo do domínio da aparência, mas da
divina. A este poder assassino opõe-se o das representações simulação.
14 Sirmdacros f! Simulaçdo fttm&udrillord 15

A passagem dos signos que dissimulam a lguma coisa aos Para que a etnologia viva é preciso que o seu objecto
signos que dissimulam que não há nada, marca a viragem morra, o qual se vinga morrendo por ter sido '~(descoberto» e
decisiva. Os primeiros referem-se a uma teologia da verdade desafia com a sua morte a ciência que o quer apreender.
e do segredo (de que faz ainda parte a ideologia). Os segundos Não vive toda a ci~ncia nesse plano inclinado paradoxal
inauguram a era dos simulacros e da simulação, onde já não a que a votam a evanescência do seu objecto na sua própria
existe Deus para reconhecer os seus, onde já não existe Juizo apreensão e a reversão impiedosa que sobre ela exerce esse
Final para separar o falso do verdadeiro, o real da sua res- objecto morto? Como Orfeu, ela volta-se sempre cedo de
surreição artiftcial, pois tudo estA já antecipadamente morto mais e, como Euridice, o seu objecto recai no Inferno.
e ressuscitado. Foi contra esse inferno do paradoxo que os etnólogos
Quando o rea.l já não é o que-era, a nostalgia assume todo quiseram premunir-se ao voltarem a fechar o cordão de
o seu sentido. Sobrevalorizac;3o dos mitos de origem e dos segurança da floresta virgem em redor dos Tasaday. Ninguém
signos de realidade. Sobrevalorização de verdade, de objec- mais ai tocará: o jazigo volta a fechar-se como uma mina. A
tividade e de autenticidade de segundo plano. Escalada do ciência perde com isso um capital precioso mas o objecto
verdadeiro, do vivido, ressurreição do figurativo onde o será salvo, perdido para ela, mas intacto na sua «virgindade•.
objecto e a s ubstância desapareceram. Produção d esenfreada Não se trata de um sacriffdo (a ciênda nunca se sacrifica, é
de real e de referencial, paralela e superior ao desenfreamento sempre assassina), mas do sacriHcio simulado do seu objecto
da produção material: assim surge a simulação na fase que a fim de salvar o seu principio de realidade. O Tasaday
nos interessa - uma estratégia de real, de neo-real e de congelado na sua essência natural vai servir-lhe de alibi
hiper-real, q ue faz por todo o lado a dobragem de uma perfeito, de caução eterna. Aqui com~a uma antictnologia
estratégia de d issuasão. que nunca mais acaba rá c da qual jaulin, Castaíi.eda, Clastres
constituem alguns testemunhos. Em todo o caso, a evolução
lógica de uma ciência~ de se distanciar cada vez mais do seu
objecto até passar sem ele: a sua autonomia não pode ser
Ramsés ou a ressurreição cor-de-rosa mais fa ntástica, atinge a sua forma pura. O índio assim
devolvido ao ghetto, no sepulcro de vidro da floresta virgem,
·volta a ser o modelo de s imulação de todos os índios possíveis
A etnologia roçou a mo rte pa radoxal no dia de 1971 em de antes da etnologia. Esta dá-se assim ao luxo de se encarnar
que o Governo das Filipinas decidiu devolver ao seu primi- para lá de si própria, na reaüdade ~bruta• destes índios
tivismo, fora do alcance dos colonos, dos turistas c dos etnó-- inteiramente inventados por ela - selvagens que devem à
logos, as escassas dezenas de Tasaday, recentemente desco- etnologia o serem ainda selvagens: que reviravolta, que
bertos no fundo da selva onde tinham vivido durante oito triunfo para esta ciência que parecia votada a destruí-los!
séculos sem contacto com o resto da espécie. E isto por Claro q ue esses selvagens são póstumos: gelados, crioge-
iniciativa dos próprios antropólogos, que viram os indígenas nizados, ~terilizados, protegidos t~ti d morte, tomaram-se
decompor-se imediatamente, ao seu contacto, como uma simulacros referenciais e a própria ciência se tomou simulação
múmia ao ar livre. pura. O mesmo tm Creusot, no âmbito do museu ttSem
16 Simulacros e Simula(lo /tDII &udrillard 17

fron teiras• onde se museificaram no local, como testemunhas senão morrer contaminada pela morte deste objecto q ue é o
• históricas» da sua época bairros operários inteiros, zonas seu espelho inverso. Aparentemente é ela que o domina mas
metalúrgicas vivas, uma cultura completa, homens, mulheres, é ele que a investe em profundidade, segundo uma reversão
crianças incluídos-gestos, linguagens, costumes incluídos, inconsciente, dando apenas respostas mortas e circulares a
fossilizados vivos como num instantâneo. O museu, cm vez uma interrogação morta e circular.
de estar circunscrito como lugar geométrico, está agora em Nad a muda quando a sociedade quebra o espelho da
toda a parte, como uma dimensão da vida. Assim, a etnologia, .loucura (abole os asilos, dá a pala vra aos loucos, etc.) nem
em vez de se circunscrever como uma ciênda objectiva, vai quando a ciência parece quebrar o espelho da sua objectivi-
doravante, liberta do seu objecto, generalizar-se a todas as dade (abolir-se dian te do seu objecto, como Castai\eda, etc.)
coisas vivas c tornar-se invisível, como uma quarta dimensJ.o e inclinar-se perante as «diferenças,, À forma do encarce-
presente em toda a parte, a do simulacro. Somos todos Tasoday, ramento sucede a de um dispositi vo inumerável. d ifractado,
índios que tornaram a ser o que eram, ou seja, ta is como em desmulti plicado. À medida que a etnologia se afunda na sua
si próprios a etnologia os mudou - índios simulacros que instituição clássica, ela persist·e numa antietnologia cuja tarefa
proclamam enfim a verdade universal da etnologia. consiste em rcinjectar por toda a parte diferença-ficção, sel-
Todos passámos vivos para a luz espectral da etnologia, vagem-ficção, para esconder que é este mundo, o nosso, que
ou da antietnologia, que não é mais que a forma pura da voltou a tomar-se selvagem à sua maneira, isto é, devastado
etnologia triunfal, sob o si~o das diferenças mortas e da pela difere.nça e pela morte.
ressurreição das diferenças. É, pois, de uma grande ingenui- E também assim, a pretexto de preservar o original, se
dade ir procurar a etnologia junto dos selvagens ou num prolbc o acesso de visitantes às grutas de Lascaux, mas que
qualquer Terceiro Mundo- ela está aqui, em toda a parte, se construiu a réplica exacta a quinhentos metros de distân-
nas metrópoles, nos Brancos, num mundo inteiramente recen- cia, para que todos possam vê-las (dá-se uma olhadela à
seado, analisado, depois ressuscitado artificialmetlte sob as gruta autêntica pelo postigo e depois visita-se o todo recons-
espécies do real, num mu ndo da simulação, da alucinação da truido). É possfvel que a própria recordação das grutas de
verdade, da chantagem com o real, do assassfn_io de toda a origem se desvaneça no espírito das gerações futuras, mas
forma simbólica e da sua retrospecção histérica, histórica - desde já não há diferença~ o desdobramento basta para as
assassfnio q ue os selvagens, nobl~obligt, foram os primeiros remeter para o domínio d o artificial.
a pagar, mas que desde há muito se estendeu a todas as Assim, toda a ciência e a técnica se mobilizaram recente-
sociedades ocidentais. mente para salvar a múmia de Ramsés n. depois de a terem
Mas ao mesmo tempo a etnologia dá-nos a sua única e deixado apodrecer durante algumas dezenas de anos no
última lição, o segredo que a mata (e que os selvagens fundo de um museu. O Ocidente foi tomado de pânico perante
conhecem bem melhor que ela): a vingança do morto. il ideia de não pode.r salvar o que a ordem simbólica tinha
O encarceramento do objecto cien tifico é igual ao dos sabido conservar durante quarenta séculos, mas longe do
loucos e dos mortos. E da mesma maneira que toda a socie- olhar e da luz. Ramsés não significa nada para nós, apenas a
dade está irremediavelmente contaminada por este espelho múmia é de um valor incalculável, pois é ela que garante que
da loucura que ela entregou a si própria, a ciência não pode a acu mu lação tem um sentido. É toda a nossa cultura linear
18 Simulacros t Sinwlaç4o Jean Baudrillard 19

e acumulativa que se desmorona se n ão p udermos armazenar ordem da história, da ciên cia e do mu seu, a nossa, que já não
o passado à lu z do dia. Para isso é preciso fazer sair os faraós domina nada, que só sabe votar o que a procedeu à podrid ão
da sua tumba e as múmias do seu s ilêncio. Para isso é preciso e à morte e tenta r em segu ida ressuscitá-lo pela ciência.
exumá-las e prestar-l hes honras m ilitares. Elas são s imulta- Violência irreparável para com todos os segredos, violência
neamente presa da ciência e dos vermes. Só o segredo absoluto d e uma civilização sem segredo, ódio de toda uma civilização
lhes assegurava este poder milenário- dominio d a podridão contra as suas p ró prias bases.
que s ig nificava o domín io do ciclo total das trocas com a E tal como a etnologia , fingindo desligar~se do seu objecto
morte. Nós não sabemos senão colocar a nossa ciência ao para melhor se a firmar na sua forma pura, assim a desmu-
serviço da reparação da múmia, isto é, restaurar uma ord em seificação não é senão uma espiral a mais na artificialidade.
visível, enquanto que o embalsamento era um traba lho mitico Testemunha d isso é o claustro de S. Miguel de C u xa, que vai
que pretendia imortalizar uma d imensão oculta. ser repatriado com grandes despesas pelos Cloysters de Nova
Precisamos de um passado visível, um continuum visí- Iorque, para ser reinstalado no c~seu local original)•. E todos
vel, um mito visível da origem, que nos tranquili ze sobre os aplaudem esta restituição (como na ~~operação e xperimental
nossos fins. É que no fundo nunca acreditámos n isso. Daí de reconqu is ta d os passeios•• dos Champs Elysées!). Ora se a
essa cena histórica da recepção da múmia no Aeroporto de exportação dos capitéis foi com efeito um acto arbitrário, se
Orly. Porque Ramsés era uma figura despótica e militar? os Cloysters de Nova Iorque são bem um mosaico artificial
Decerto. Mas sobretudo porque a nossa cultura sonha, por de todas as culturas (segundo u ma lógica de centralização
detrás desse poder defunto que tenta anexar, com uma cap italista do valor), a reimportação para o local de origem,
ordem que não tenha nada que ve.r com ela, e sonha com isso essa é ainda mais artificial: é o simulacro total que se junta à
porque a exterminou exumando-a como o seu pr6prio passado. «realidade» mediante uma circunvolução completa.
Estamos fascinados com Ramsés como os cristãos da O claustro tivera de ficar em Nova Iorque num ambiente
Renascença o estavam com os índios da América, esses seres simulado que pelo menos não enganava ninguém. Repatriá-
(huma nos?) q ue nunca tinh am con hecido a palavra d e Cristo. -lo é apenas um s ubterfúgio adicional para fazer de conta
Houve assim, nos princípios da colonização, um momento que nada se passou e gozar a alu cinação retrospectiva.
d e estupor e deslumbramento perante a própria possibilidade Assim se gabam os Americanos de ter conseguido voltar a
de escapar à lei universal do Evangelho. Então,. das duas, igualar o número de índios existente antes da Conquista. Apa-
uma: ou se admitia que essa lei não era universal ou se exter- ga-se tudo e reco meça-se. Gabam-se mesmo de fazer melhor
m inavam os índios para apagar as provas. De uma maneira e de ultrapassar o número orig inal. Será a prova da superio-
geral contenta ram-se com convertê-los ou mesmo si m- ridad e da civilização: ela produzirá mais índios que os que
plesmente em descobri-los, o que bastaria para a sua exter- estes eram capazes de produzir. (Com uma irrisão s iRistra,
minação lenta. esta s uperprodução é ainda ela uma forma de os destruir: é
Deste modo terá bastado exumar Ramsés para o extermi- que a cultura fndia, como toda a cultura tribal, baseia-se na
nar ao museificar : ~ que as múmias n ão apodrecem com os limitação do grupo e na recusa de todo o crescimento «livre»,
vermes: elas morrem por transumarem d e uma ordem lenta como se vê em lshi. H á aí, pois, na sua «promoção>• demo-
do simbólico, senhora da podridão e d a morte, para u ma gráfica, mais um passo para a exterminação simbólica.
20 SimultJcros t Sim lllaç4o J~n &udrillnrd 21

Assim, vivemos por toda a parte num universo estra- multidão. Todos os valores são aí exah ados pela miniatura e
nhamente semelhante ao original - a s coisas são a í dobradas pela banda d esenhada. Embalsamados e pacificados. Donde
pelo seu próprio cenário. Mas este duplo na o significa, como 0 possibilidade (L. Marin fê-lo muito bem em Utopiques, jeux
na tradição, a iminência da sua morte - elas estão já expur- d'espoces) de uma análise ideológica da Ois neylândia: selecção
gadas da sua morte e melhor ainda que da sua vida: mais do american UHlY of life~ pancgírico dos valores americanos,
sorridentes, mais autênticas, na luz do seu modelo, como os transposição idealizada de uma realidade cont-raditória.
rostos dos fun eral Jromes. · Decerto. Mas isto esconde uma outra coisa e esta trama
j(ideológica» serve ela própria de cobcrturn a uma sim ulação
de terceira categoria: a Oisneylãndia exis te para esconder que
é o país .. real ~.. toda a América «real• que é a Disneylândia
Hiper-rcal e imaginário (de certo modo como as prisões existem para esconder que é
todo o socia l, na sua omnipresença banal, q ue é carceral). A
A Disneylândia é um modelo perfeito d e todos os tipos de Dis neylând ia é colocada como im aginário a fim de fazer crer
s imula c ros con fundidos. t antes de mais um jogo de ilusões que o resto é real, q uando toda Los Angeles e a América qm~
e de fantasmas: os Piratas, a Fronteira, o Future World, etc. a rodeia já não são reais, mas do d o mínio do hiper-real e da
Su põe--se que este mundo imaginário constitui o êxito da ope- simulação. Já não se trata d e uma representação falsa da rea-
raçAo. Mas o que atrai as multidões é sem dúvida muito mais lidade (a ideologia), trata-se de esconder q u e o real já não é
o m icrocosmos social, o gozo religioso, miniaturizado da Amé- o real c portanto de salvaguardar o principio de realidade.
rica real, dos seus constrangimentos e das suas al cgrias.,Esta- O imaginário da Disneylãndia não é verdadeiro nem falso,
ciona-se no exterior, faz-se a bicha no interio r, é-se totalmente é uma máquina de dissuasão encenada para regenerar no
abandonado à saída. A única fantasmagoria neste mundo p lano oposto a ficção do real. Oaf a debilidade deste imaginá-
imag inário é a da ternura e do calor inerente à multidão e a rio, a sua degenerescência infantil. O mundo quer-se infantil
de um número suficiente e excessivo de gadgets próprios para para fazer c re r que os adu ltos estão noutra parte, n o mundo
mante r o efeito multitudinário. O conha stc com a solidão *real•, e para esconder que a verdadeira infantilidade está
absoluta d o parque de estacionamento - verdadeiro ca mpo em toda a parte, é a dos próprios adultos que vêm aqui fingi r
d e concentra~ão - é total. Ou antes: no interior todo um que são crianças para iludir a s ua infantilidade real.
leque de gadgtts magnetizam a multidão em dois fluxos De resto, a Disneylândia nao é caso único. Enchanted
dirig idos- noexterior, solidãodirigida para um únicogndgtt: Village, Magic Mountain, Marine World: Los Angeles está
o auto móvel. Por uma extraordinária coincidência (mas isso cercada desta espécie d e centrais imag inárias que alimentam
resuJ ta sem dúvida do e ncantamento próprio a este universo) com o real, em energia do real, uma cid a de cujo misté rio
este mundo inJantil congelado foi concebido c realizado por consiste justamente em não ser mais que uma rede de
um h o mem, ele próprio hoje em dia c rioge.n izad o: Walt ci rculaçlo incessante, irreal - cidade de uma extensJio
Oisney, que espera a ressurreição a 180 vaus negativos. fabulosa, mas sem espaço, sem dimensões. Tal com o a s
( Na Disneyl:lndia desenha-se, pois, por toda a parte, o perfil 1.."Cntrniscléctricas e a tóm icas, tal como os estúdios de cinema,
l o bjectivo da América, até na morfologia dos indivíduos e da esta cidade, não sendo ela própria mais que um imenso
22 Sirmllacros e Simu1aç4o Jtan BnudriUord 23

cenário e um travtlling perpétuo, tem necessidade deste velho O encantamento político


imaginário como de um sistema simpático, feito de sinais de
infância e de fantasmas falsificados.
Disneylândia um espaço de regeneração do imaginário Watergate. O mesmo cenário que na Disneylândia (efeito
como noutros sítios, e mesmo aqui, as fábricas de tratamento de imagiMrio escond endo que não há mais realidade além
de detritos. Por toda a parte, hoje em dia, é preciso reciclar os como aquém dos limites do pcrimetro artifidal): aqui efeito
detritos, os sonhos, os fantasmas; o imaginário histórico, · de escândalo escondendo que não há qualquer diferença
feérico, lendário das c.rianças e dos aduJtos é um detrito, o entre os factos c a sua denúncia (métodos idênticos por parte
primeiro grande resíduo tóxico de uma civilização hipe:r- dos homens da CI A e dos jornalistas do Washington J'ost). A
real. A Disneylândia é o protótipo desta função nova no mesma operaç:io, tendente a regenerar atra,•és do escândalo
plano mental. Mas do mesmo tipo s:io todos os instintos de um prindpio moral c politico, atnvés do imaginário um
reciclagem sexua l, psíquica, somática, que pululam na principio de realidad e cm dissipaçâo.
Califórnia. As pessoas já não se olham, mas existem institutos A denúncia do esdndalo é sempre uma homenagem que se
para isso. já não se tocam, mas existe a contactoterapia. Já rende à lei. E Watergate conseguiu sobretudo impor a ideia
não andam, mas fa zem jogging, etc. Por toda a parte se de que Watcrgate era um escâ ndalo - nesse sentido foi uma
reciclam as faculdades perdidas, ou o corpo perdido, ou a operação de intoxicação prodigiosa. Uma boa dose de rein-
sociabilidade perdida, ou o gosto perdido pela comida. )ecção d e moral política à escala mundial. Poder-se-ia dizer,
Reinventa·se a penúria, a ascese, a naturalidade selvagem como Bourdieu: co:O que é próprio a toda a correlação de
desaparecida: ""''""' food, healt/1 food, yoga1 Verifica-se, mas forças é dissimular·sc enquanto tal e não assumir toda a sua
ao segund o nível. a ideia de Marshall Shalins, segundo o força senão porque se dissimula enquanto tal», e ntendendo-
qual é a economia de mercado, e de maneira nenhuma a .-o assim: o capita l, imoral e sem escrúpulos, só pode exercer·
nah1reza, que segrega a penúria: aqui, nos confins sofisticados ·se por detrás de uma superstrutu ra moral, c quem quer que
de uma economia de mercado triunfante, reinventa~se uma seja que regenere esta mora lidade pl1blica (pela ind ignação,
penúria/signo, uma penúria/simulacro, um comporta men to pela den úncia, etc.) trabal ha espontaneamen te para a ordem
simulado de subdesenvolvido (i nclusive na adopção das teses do capital. Foi esse o caso dos jornalistas do Washington Post.
marxistas) que, sob uma capa de ecologia, de crise energética Mas isto não seria aind a sen3o a fórmula da ideologia e,
e de critica do capital, acrescenta uma última auréola esotérica quando Bourdieu a enuncia, subentend e a ((correlação d.e .
ao triunfo de uma cultura exotérica. Contudo, talvez uma forças» como wrdrule da dominação capitalista e dtnutrcra
catástrofe mental, uma implosão e uma involução mental esta mesma corrcln(ãO de forças como escândalo - está,
sem precedentes espreitem um sis tema deste género, cujos pois, na mesma posição determinista e moralista dos joma·
sinais visíveis seriam essa obesidade estranha, ou a incrível listas do Wasl1itrgton Post. Faz o mesmo trabalho de resgate
coabitação das teorias e das práticas mais bizarras, em ... de relançamento de uma o rdem mo ral, de uma ordem
resposta à improvável coliga~~ de luxo, do céu e do dinheiro, Je verdade em que se engendra a verdadeira violência sim·
à improvável materialização luxuosa da vida e às contradições bóJica da ordem social.. bem para além de todas as correla-
que é impossível encont rar. C:."'lles de forças que não são mais que a sua configuração
24 Sim ulacros e Simulaçdo Jean Baudriffnrd 25

movente e indiferente na consciên cia m oral e política dos A n egatividade em espiral - Moebius
homens. Tudo o que o capital nos pede é que o recebamos
como tradicional ou que o combatamos e m nome da mo ra-
lidade. Pois é a mesma coisa, o que pode ver-se sob umn outra Wa tergate não foi, pois, senão uma armadilha armada
forma: outrora tentava-se dissimular um escândalo - hoje pelo siste ma aos seus adversários - simulação de escân-
tenta -se esconder que ele não existe. Wntergate uãot wn escân- dalo com fins regeneradores. Is to é encarnado no íilme
dalo, é o que é preciso dizer a tod o o custo, pois é o que todos · pelo personagem de «Deep Throat», de quem se disse ser
tentam esconder, mascarando esta dissimulação um apro- a eminência parda dos republicanos manipu lando os
fundamento da moralid ad e, do pânico moral, à medida que jornalistas de esquerda para se ver livre de Nixon - por
nos aproximamos da en(cena )ção primitiva do capital: a sua que não? Todas as hipóteses são possíveis, mas esta é
crueldade instantânea, a s ua ferocidade incom preensíve l, a supérfl ua: a esquerda dá multo bem conta d e si própria e
sua imoralidade fundamental - é isso que é escandaloso, faz espontaneamente o trabalho da direita. Seria, de res to,
inaceitável para o sistema de equiva lência moral e económica ingénuo ver nisso uma boa consciência amarga. E q ue
q ue consti tui o axioma do pensamen to de esquerda, desde<" a d ireita fa z tam~m ela espontaneame nte o traba lho da
teoria das Luzes até ao comunis mo. Imputa-se este pensa- esquerda. Todas as hipóteses de ma nipulação são reversí-
mento do contrato ao capital mas este está-se absolutamente veis num torniquete sem fim. É que a manipulação é uma
nas tintas para ele - é uma empresa monstruosa, sem prin- causalidade flutua nte onde positividade e nega tividade se
cípios, um ponto, nada mais. É o pensamen to «esclarecido» engendram e se recobrem, onde já não há acti vo nem pas-
que procura controlá-lo impondo-lhe regras. E toda a recri- sivo. É pela paragem arbitrtfria d esta causalidade rodopiante
minação que é considerada como pensamento revolucionário que pode ser salvo um princípio de realidade politica. É p:>r
volta hoje a incriminar o capital por não respeitar as regras simulação de um cam po perspectivo restrito, convencional,
do jogo. uO poder é injusto, a sua justiça é uma justiça de em que as premissas e as consequências de um acto ou de
classe, o capital explo ra-nos, etc.)) - como se o capital um aco ntecimento são calculáveis, que pode manter-se uma
esti vesse ligado por um contrato à sociedade que rege. É a verosimilhança política (e, claro, a análise «Objectiva))' a luta,
esquerda que estende ao ca pital o espelho da equivalência, etc.). Se se enquadra o ciclo completo de qualquer acto o u
esperando que ele vá virar-se contra este, agarrar-se a esta acontecimen to num sistema onde a contin uidade linear e a
fantasmagoria do contrato social e cumpri_r as s uas obrigações p:>laridade dialéctica já não existem, num campo deseq1tilibrado
para com toda a sociedade (ao mesmo tempo não há neces- pela simulação, toda a dissimulação se desvanec-e, todo o acto
sidade de revolução: basta que o capital se submeta à fórmula se abole no fim do ciclo, e todos tendo aproveitado e tendo-
tradicional da troca). O capital, esse, n unca esteve ligado por -se ventilado e m todas as direcções.
con trato a esta sociedade que domina. É uma feitiçaria da Um dado atentado à bomba em Itália é obra dos extremis--
relação social, é um desafio d sociedade e deve ser-l he dada uma tas de esquerda ou provocação de e xtrema-direita, ou encena-
resposta em conformidade. Não é um escâ ndalo a denunciar ção centrista para desconside rar todos os extremos terroristas
segundo a racionalidade moral ou económica, é um desafio c depreciar o seu poder vacilante, o u ainda cenário policial e
a aceitar segundo a regra simbólica . l'hantagem à segurança pública? Tudo is to é verdadeiro ao
26 Simulacros ~ Sunulat;lo Jtrm Bdudrillttrd 27

mesmo tempo e a busca da prova e mesmo da ob jectividade - que, d e facto, o poder, o verdadeiro poder, já n ão existe
dos factos não pára esta vertigem da interpretação. É que e portanto não há q ualquer risco de que a lguém o tome
estamos n uma lógica de si mula ção, que já nada tem a ver ou o reto me;
com uma lógica dos factos e uma ordem das razões. A - mais ainda: cu, Bcrlinguer, não tenho medo de ve r os
si mulação caracteriza-se por u ma precess4o do modelo, d e comunistas to ma r o poder na Itália - o que pode parecer
todos os modelos sobre o mínimo facto - os modelos já evid e nte ma s não tan to como isso já que
e xistem antes, a s ua circulaç~o. orbital como a da bomba, - isso JXX!e q u erer d izer o contrá rio (n:to é preciso psi-
const it ui o verdadei ro campo magnét ico d o acontecimento. canálise p..1ra tal): te nho medo d e ver os comunistas tomar
Os factos já não têm trajectória própria, nasec:m na intcrsec- o poder (e exis tem boas razões para isso, mesmo para um
ç3o dos modelos, um único facto pode ser engendrado por comunista).
todos os modelos ao mesmo tempo . Esta antecipaçAo, esta Tudo isto é verdade simultan eamente. ~o segredo de um
p recessão, este curto-circuito, esta confusão do filcto com o discurso que já não é somente a mbíguo, como o podem ser
seu modelo (acabam-se a falta de sentido, a polaridade d ia- us discursos políticos, mas que tradu z a impossibilidade de
léctica, a electricid ad e nega tiva, a implosão d os pólos a nta- u ma posição determinada de discu rso. E esta lógica n ão é
gón icos), é sempre ela q ue d á lugar a todas as interpreta- nem d e um partido nem d e ou tro. Ela atravessa todos os
ções possíve is, m esmo a s mais contraditórias - todas discursos independentemente da sua vontade.
verdadeiras, no sen tido em que a s ua verdad e é a de se tro- Quem desenredará este imbrógHo? O nó górdio podia ao
carem, à semelhança dos modelos dos q u ais procede m, num menos cortar-se. A fita de Moebius, essa, se a dividirmos,
ciclo generalizad o. forma uma espiral suplementar sem que scjt1 resolvida a
Os comunis tas atacam os socialistas como se quisessem reversibilidade das superficies (aqui a continuidade reversí-
quebrar a união da esquerda. Dão crédi to à id eia d e que estas vel da s hipóteses). Infe rno da si mulação, q u e já não é o da
resistências viriam de u ma exigl!ncia política mais radical. tortura mas d a torção su btil, maléfica, impossível d e captar,
De facto, é porque não q u erem o poder. Mas não o querem do sentido'4' - onde mesmo os co ndenados d e Burgos são
nesta conjuntu ra, desfavorável para a esquerda em gera l, ou aind a um p resente dado por Franco à d e mocracia ocid ental,
desfavorável para eles no interio r da União d a Esquerda - que encontra assim a ocasião de regenerar o seu próprio
ou já não a querem por defin içdo? Quando Berlinguerdcclara: human ismo vacilante e cu;o protesto indignado, em contra-
• N:to há que ter medo de ver os comunistas toma r o poder partida, consolida o regime de Franco, u nindo as massas
na Itália,., isto sig nifica ao mesmo tempo: l"Spanho las contra esta intervenção estrangeira? O nde está a
- q ue não há l{UC ter medo porque os comunistas, se verdade e m tudo isto, quando tais cumplicidades se unem
chegarem ao poder, não mud arão nada ao seu meca- admiravelme nte mes mo sem os seus autores o s.1bcrem?
nismo capitalista fundamenta l;
- que não existe qualq u er risco d e eles a lgu ma vez che-
garem ao poder (pela razão de eles não o q uererem); 4. Isto nlo resulta forços.am{'nte num des(!fpc-ro do s-entido, mas
- e mesmo se o alcançarem nunca farão mais que exer- t;~mbém numa improvisac;Ao de sentido, de nlo.sentkk>, de driossentklos
cê-lo por procu ração; ...imult1neos que se destroem.
28 SimulaCTO$ t Simula(do /nan &udrillilrd 29

Conjunção do sistema e da sua extrema alternativa como provar a etnologia pela despossessão do seu objecto- sem
das duas extremidades de um espelho curvo, curvatu ra t(vi- contar:
ciosa ~ de um espaço político doravante magnetizado, cir· - provar o teatro pelo antiteatro,
cula rizado, reversibilidade da direita à esquerda, torção que - provar a arte pela ant iartc,
é como o génio m aligno da comutação, todo o sis tema , o - provar a pedagogia pela antipcdagogia,
infinito do capital tomou a dobra r~se sobre a sua própria - provar a psiqu iatria pela antipsiquiatria, etc.
s uperfície: transfinito? E não se passa o mesmo com o desejo Tudo se metamorfoseia no seu te rmo in ve rso para
e o espa<;o libidinal? Conjunção do desejo e do valor; d o sobreviver na sua forma expurgada. Todos os poderes, todas
desejo e do capital. Conjunção do desejo e da lei, gozo última as instituições falam de si próprios pela negativa, para tentar,
metamorfose da lei (por isso ela está tão generosamente na por simulação de morte, escapar à sua agonia real. O poder
ordem do dia): só o capita l goza, dizia Lyotard, antes de pode encamar a s ua própria morte para reencontrar um
pensar a partir de agora que "ós gozamos no capital. Aterra- vislu mbre de existência c de legitimidildc. Foi o caso dos
dora versatilidade do desejo cm Deleuzc, viragem enigmá- presidentes america nos: os Kennedy morriam por t_crem ainda
tica pelo avesso, portadora do d esejo 4(revolucionário por si uma dimensão política. Os outros, johnson, Nncon, Ford,
próprio e como que invo luntariamente; querendo o que ele não tiveram direito senão a atentados fantoches, a assassí-
quer», a querer a sua própria repressão e a investir e m sis~ nios simulados. Mas faltava-lhes apesar de tudo essa aura de
temas paranóicos e fascistas? Ton;âo maligna que remete ameaça artificial para esconder que não passavam de mane-
esta revolução do desejo para a mesma ambigu idade funda~ qui ns de poder. O rei tinha de morrer o utrora (o deus
mental que a outra, a rcvoluçao his tórica. também), residia ar o seu poder. Hoje esforça·sc miseravel~
Todos os referenciais misturam os seus discursos numa mente por fingir morrer, a fim de preservar a graça do poder.
oom pulS<'io circular, moebiana. Sexo e trabalho foram, não há Mas esta está perdida.
muito tempo, termos ferozmente opostos: hoje em d ia Procurar sangue fresco na sua própria mo rte, relançar o
resolvem-se ambos no mesmo tipo de pretensão. Ou trora o ciclo pelo espelho da crise, da negatividade e do an tipoder:
d iscurso sobre a história adquiria a sua força no facto d e se única solução-alibi de todo o poder, de toda a instituição que
opor violentamente ao da natureza, o de d esejo ao de poder tenta romper o círculo vicioso da s ua irresponsabilidade e da
- hoje trocam os seus significantes e os seus cenários. sua existência fundamental, do seu já-visto e do seu já-morto.
Seria demasiado demorado pe.roorrer todo o espectro da
negatividade operacional. de todos estes cenários de d is-
suas..'o que, como Watergate, tentam regenerar um prindpio
moribundo pelo escândalo, o fantasma, o assassinio sim u- A estratégia do real
lados - espécie de tra tamento hormonal pela negatividade
e pela crise. Trata-se sempre de pro var o real pelo imaginário,
provar a verdade pelo escânda lo, provar a lei pela transgres- Do mes mo tipo que a impossibilidade d e voltar a
são, provar o trabalho pela greve, provar o sistema pela crise ' 'IK"'ntrar wn nível absoluto do real é a impossibilidade de
e o capital pela revolução, como noutros lugares (os Tasaday), ''U(:·cnar a ilusão. A ilus.:'io )á não é possfvel porque o real já
Simul4cros t Simulll(do 31

não é possível. É todo o problema político da parddin, da hipcr- devorar toda a tentativa de simulação, reduzir tudo a real-
simulação ou simulação ofensiva, que se coloca. ·' ordem estabelecida é mesmo isso, bem antes da entrada em
Por exemplo: seria inte ressan te ver se o aparelho repres- l'cna das instituições c da justiça.
sivo não reagiria mais violentamente a um assalto" simu lado I lá que ver nesta imposs ibilidade de isolar o processo de
que a um assalto real. f! que este apenas desorganiza a ord e m simulação o peso de uma ordem que J«"i.O pode ver nem
das coisas, o direito de propriedade, e nquanto que o outro l"onceber senão o real, porque não pode funciona r em
a tenta contra o próprio princípio de realidade. A transgres- · nenhuma outra parte. Uma s imulação de delito, se for
são, a violência são menos graves porque apenas contestam averiguada, será ou punida mais levemente (porque ."~o ~e?'
a partilha d o real. A simulação é infinita mente mais perigosa, .. consequências,.) ou punida conlO ofensa ao Mtmsteno
pois deixa sempre supor, para além d o seu objecto, que a PúbJico (por exemplo, se foi desencadeada u.ma ope.ra~1io d e
própria ordem e n prdprin lei poderiam uão str mais que ~#nwln~ifo. policia upara nadan) - mas nunca como smwlnçif~, já~ q~e
Mas a dificuldade está à alturil do perigo. Como fingir justamente enquanto ta l não é possível qualqucrequtvalen cta
um delito e prová-lo? Simule-se um roubo numa grande loja: '-"um o real nem, logo, qua lquer repressão. O desafio da
como conven cer o serviço de segurança de que se trata de :oimula<;:ãoéimperdoc'\vcl pelo poder. Como punir a s imulação
um roubo simu lad o? Nenhuma diferença ~object iva,.: &10 os de virtude? Contudo, enquanto tal, ela é tão g rave como a
mesmos gestos, os mesmos signos que para um roubo real, simulação de crime. A p.1r6dia faz equivalere~-se submissão
ora os signos não pend em nem para um lado nem par.t o c transgressão e esse é o crime mais g rave, ~ que auuta a
outro. Para a o rdem estabelecida são sempre do domínio do 11i{trtnça em qut seba~ia n lti. A ordem estabelecida nada ~e
real . ('Ontra isso, pois a lei é um simulacr? de scgu~da categorta
Organize-se um falso assalto. Verifique-se bem a inocência t•nquanto que a simulaçi\o é de tercetra cat~ona, p~ra além
das armas e faça-se o refém mais seguro para que nen huma d o verdadeiro e do falso. para além das cqu tvalênctas, para
vida h umana fique em perigo (pois aí cai--se sob a alçada do nl~m das distinçõ<.•s racionais sobre as qut~is funcionam t~o
direito penal). Exiía-se um resgate e proceda-se d e maneira n social e todo o poder. É pois a í, na falta de real, que é prcctso
que a operaç~o tenha toda a repercussão possível - cm fa7..cr pontaria à ordem.
s uma, imite-se o mais possfvel a .-verdade• a fim de testar a E por isso mesmo que esta escolhe sempre o rea~ . Na
reaC('30 do aparelho a um s imulacro perfei to. Não será pos· dúvida, prefere sempre esta hipótese (ta mbé~ no exérctto se
s fvel: a rede de signos artificiais va i-se imbricar inex-trica- prefere tomar o simulad o r por um verdadeirO lou.co). Mas
velmente com os element·o s reais (um polícia vai realmente is to toma-se cada vez ma is difícil, pois se é prattcamente
disparar à v ista; um cliente do banco vai desmaiar e morrer impossível isolar o processo de simulação, pela força ~e
de um ataque card íaco; vai ser realmente pago o resgate inércia do real qu e nos rodeia, o inverso também. é vc':'~deiTO
fingido), em su ma, ser-se-á devolvido imediatamente, sem o (lo esta mesma reversibilidad e faz parte do d tsposttavo de
q uerer, ao real, uma das fu nções do q ual é precisa mente simulação e de impotência do poder): a saber que t tloravante
im~fvel isolar o proc:csso do real e pro~ar o rea~. _
É assim q ue todos os assaltos, desvtos de avtõcs, e.tc., sao
• Hold up. Em inglfs no ori_g.inal. (N dil T.) .t~ora, d e certo modo, assaltos de simulação, no sentido em
32 Smrulacros e Sinrula(6o ''"" &udritlard 33

que estão antecipadamente inscritos na decifração e na 1111Vir-se como último slogtm do poder, pois num mundo
o rquestração rituais dos media, antecipados na sua encenação 1rrderencial, até a confusão do princípio de realidade e do
e nas suas consequências possíveis. Em suma, onde ek-'S princípio de dL"sejo é menos perigosa que a hiper-reaHdade
funcionam como um conjunto de signos votados apenas à \'tmtagiosa. Fica-se entre p rindpios c ar o poder tem sempre
sua recorrência de signo e já não de todo ao seu rim «real». r.lz.io.
Mas isto não os toma inofensivos. Pelo contrário, é enquanto A hiper- realidõlde e a simulação, essas, são dissuasiva s
acontecimentos hiper· reais, que já não Ulm exactamente ·~h· todo o princípio e de todo o fim, viram contra o poder esta
conteúdo ou fins próprios, mas indefinidamente rcfractndos d i:.:suasão que dur<lntt! muito tempo e le tão bem utilizou. É
uns pelos outros (tal como os acontecimentos ditos históricos: ~1uc finalmente é o capital q u e se a limento u, no decurso da
g reves, manifestações, crises, etc. "o;', é nisto que s.io incon~ su,, história , da desestruturação de todo o referencial, de
troláveis por uma ordem que só pode exercer-se sobre o real tod o o fim h umano, que rompeu todas as distinções ideais
ou racional, sobre causas e fins, ordem referencial que só dn verdadeiro e do falso, do bem e do mal, para estabelecer
pode reinar sobre o referencial, poder determinado que só uma lei radical de equivalências e de trocas, a lei de bronze
pode reinar sobre um mundo determinado mas que nenhum do seu poder. Ele foi o primeiro a brincar à dissuasão, à
poder exerce sobre esta recorrência indefinida da simulação, .1hstracçAo, à desconexão, à desterritorializac;3o, etc., c se foi
sobre esta ne\>ulos.' sem Iorça de gravidade que já n.lo obedece ,.,,.que fomcntvu a realidade, o principio de realidade, foi
às leis da gravitação do real, acabando o próprio poder por t.unbém ele o p rimeiro a tê-la liquidado no extermínio de
se d esmantelar neste espaço e por se tomar numa simulação h111.loo valor de uso, de toda a equivalênci11 real, da produção
de poder (desligado dos seus fins c dos seus objectivos c t ' d í'! riquc7..1, na própria sensação qu e nós temos da irrealidade
vot~do a efeitos de poder e de simulação de massas). d,l/'i questões e da omnipotência d(& manipulaçJo. Ora é esta
A única arma do poder, a sua única estratégia cont ra esta llll':'lma lógica que hoje se radicaliza contra ele. E quando
descr<i'O é a de reinjectar rea l e referencial em toda a parte, ~)Ul'r combater es ta espiral catastrófica segrega ndo um último
é a de nos COilvenccrda realidade do social, da gravidade da vi/'ilumbrc de poder, não faz mais que multip licar-lhe os
economia e das rinalidades da produção. Para isso usa, de l'li~nos c acelerar o jogo da simulação.
preferência, o discurso da crise mas também, por que nào?, o Enquanto a ameaça histórica lhe vinha do real, o poder
do dese;o. «Tomem os vossos desejos pela realidade! • pode hri nrou à dissuasão e à simulação, desintegrando todas as
funtradições à força de produção de signos equivalentes.
llcJjc, quando a ameaça lhe vem da simulação (a de se vola-
S. A crise energétkll, " e ncenaçlo e:ologam sAo ~us próprias, no SN h lit..1r no jogo dos signos) o poder brinca ao real, brinca à
conJUnto, um filJM d4' Cllt4,;.tnrfr, do mesmo e&lilu (c do nwsmo valor) que ,·rb.c, brinca a refabricar questões artificiais, sociais, econó-
aqu~IM q~ faum .c:tw.lmente a glóna de Hollywood. é inótd interpretar mk,, s, poHticas. É para ele uma questão de vida ou de morte.
JabonosamentetSil"' filmes na sua relação com uma cti.J;,cfOdaJ wobjectiva•, M.l:>~ é tarde de mais.
ou mnmo com u.m fantasma ..objectivo• da cat.btrofe. lt no outro SCI,tido
queM' impõe db:~rquclo próprio socif;rt qu~. no di$CUT$0 actual, se organizn
Daí a histeria característica do nosso tempo: histeria d a
seyrmdo 11m (tlltlrio dt film~ de mtdstroft. (CI. M. Makarlus, IA stralt'!\it' dt fH'oduc;ão e da reprodução do real. A outra produção, a dos
laet~tastropltt, p•ig. 11 5,) v.durcs e das mercadorias, a dos bons velhos tempos da
34 SimulaCt'O$ t Simul~t(tlo lnm &JudriiiArd 35

economia política, desde há muito não tem sentido próprio. tivessem suprimido - o q ue é verdadeiro fantasmatica-
O que toda uma sociedade procura, ao continuar a _produzir mcnte, se não de facto. Eles têm de resgatar esta tara e esta
e a reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa. E por isso <-umpliddade pelo seu assassinio simulado. É que este não
que ~ta produç4o • malt!rial• é hoje, ela próprin, hiper-real. Ela pode ser senão simulado. Os presidentes Johnson, Ford,
conserva todiJS as características d o discurso da produção rnram ambos alvo de atentados falhados, dos quais pode
tradicional mas não é mais que a sua refraa;ão desmul- pcnsar~se que foram, senão encenados, pelo menos perpe--
tiplicada (assim, os hiper-realistas fix:am numa verosimilhança "trados por simulação. Os Kennedy morriam porque encar·
alucinante um real de o nde fugiu todo o sentido c todo o navam algo: o político, a substância politica, enquanto que
charme, toda a profundidade e a energia da representação). us novos presidentes não são mais que a caricatura e a pelí·
Assim, cm toda a parte o hiper-realismo da simulação traduz- l'Uia fantoche dessa s ubstânda política- curiosamente todos
-se pela alucinante semelhança do real consigo próprio. dt-s. Johnson, Nixon, Ford, tê m esse ros to simiesco, os
Também o poder desde há muito que não produz senão macacos do poder.
os signos da sua semelhança. E de repente é uma ou.tra A mort·c nunca é um critério absoluto mas neste caso é
figura do poder que 54': manifesta: a de uma procura colechva significativa: a era dos James Dean. Marylin Monroe e dos
dos sig11os do poder- união sagrada que se refaz em tomo Kenned y, daque.les que morriam de facto justamente porque
do seu desaparecimento. Praticamente todos aderem a ela, tinham uma dimensão mítica que implica a morte (não por
no terror desta dissipação do político. E o jogo do poder mmantismo, mas pelo principio fundamental de reversão e
acaba por não ser maís que a obsessão crflica do_pod~r ­ de troca)- essa era terminou. De agora em diante é a era do
obsessão da sua morte, obsessão da sua sobreviVêncta, à oiSS35SÍOÍO por simulação, da est~tica generalizada da SÍffiU·
medida que vai des..1.parecendo. lação, do assassínio--alibi - ressurreição alegórica da morte
Quando ti ver desaparecido por completo estaremos ~1ue já não existe senão para sancionar a instituição do poder,
logicamente na alucinação total do poder - um~ o~essào o qual, sem isso, já não tem substância nem realidade autó--
tal como ~i se vai perfilando por toda a parte, cxpnnundo ao noma.
mesmo tempo a compulsão de desfazer·sc dele (j..í ninguém
o quer, todos o querem impingir aos o utros) e a nostalgia Estas encenações de assassfnios presidenciais são revela·
pãnica da sua perda. Melancolia das sociedades sem poder: limas porque assinalam o estatuto de toda a negatividade no
foi ela que já suscitou o fascismo, essa owrdose de _um Ocidente: a oposição política, a «esquerda• . o discurso
referencial forte numa sociedade que não consegue temunar político, etc. - simulacro-cinzel com o qual o poder tenta
o seu trabalho de luto. 'JUt--brar o drculo vicioso da sua inexistência, da sua irrespon·
!'l.lbilidade fundamental, da s ua «flutuaç~o•. O poder flutua
Com o esgotamento da esfera política, o ~residente toma· ••nmo a moeda, como a linguagem, como as teorias. A critica
·se cada vez mais parecido com esse m1mequm1 de poder que é •• ,, negatividade sJo as únicas que segregam ainda um
o chefe nas sociedades primitivas (clastrts). f.111tasma de realidade do poder. Se se esgotarem por uma ou
Todos os presidentes u1tcriores pagam e conti nuam a outra razão, o poder não terá outra solução senão ressuscitá·
pagar o assass{nio de Kennedy como se fossem eles que o l.1s artificialmente, aluciná-las.
36 Simulacros e Simulaçtfo fenn Baudrillard 37

É deste modo que as execuções espanholas servem ain da destituído, denunciado e liquidado. Ford já nem sequer tem
de estímulo a u ma democracia libera l ocidental, a u m sistema essa sorte: simulacro de um poder já morto, já não pode
de valores democrático agonizante. Sangue fresco, mas por senão acumular contra s i próprio os signos da reversão pelo
quanto tempo? A degradação de todos os poderes prossegue assassín io - d e facto, está imu nizado pela sua impotência, o
irresistivelmente: não são tanto as ·~forças revolucio ná rias» ~1uc o desespere~.
que aceleram este processo (é mes mo muitas vezes o inverso), Ao contrário do rito primitivo, que prevê a morte oficial
é o próprio sistema que exerce sobre as suas próprias estru- · c sacrificial do rei (o rei ou o chefe nad a são sem a promessa
turas essa violência anuladora de tod a a s ubs tâocia e de tod11 do seu sacrifícío), o imaginário político moderno vai cada vez
a finalidade. Não h á que resistir a es te processo procurando mais no sentido de retardar, de esconder d u rante o máximo
afrontar o sistema e destruí·lo, pois ele, qu e morre por ser de tempo possível a morte d o che fe de Estado. Esta obsessão
desapos~'ldO da sua morte, não espera o ut ra coisa de nós: ;~centuou-se a partir da era da s revoluções e d os líderes caris-
que lha restituamos, que o ressuscitemos pela negativa. Fim máticos: Hitler, Franco, Mao, não tendo herd eiros «legítimos••,
das praxes revolucionárias, filn da dialéctica. - Cu riosamente filiação de podt>r, vêem-se forçados a sob reviver indefínid a·
Nixon, que nem sequ er foi considcre1do digno de morrer men te a si próprio~- o mito popular recusa-se a reconhecer
pelo mais ínfimo desequ ili b rado oca sion al (e que os q ue estão mortos. Já assim era ..:om os faraós: era se mpre
presidentes sejam assassinados pelos d esequilibrados, o que uma única e mesma pessoa que os su cessivos faraós encar-
pode ser verdade, não muda 11ada à h is tória: a sa nha d e navam.
esquerda em detectar a í u m complot de direita levanta um Tu d o se passa como se Mao ou Franco já tivessem morrid o
falso prob lema - a função de usar a morte, ou a profecia, várias vezes e s ido substituídos pelos seus sósias. Do ponto
e tc., contra o poder, sempre fo i exercida, desde as sociedades d e vista político isso não muda estritamente nada ao facto d e
primitivas, por dementes, loucos ou neu róticos, que nem por ~1ue um chefe de Estado seja o mesmo o u outro, sempre e
isso s..io menos portadores de u ma função social tão funda- q uando se pare<;am. De todas as maneira s há muito que um
men ta l como a d os presid entes) foi ritualmente a niquilad o L'hefe de Estado - um qualquer - não f: mais que o s imula-
por Watergate. Watergate é ainda u m d ispositivo de assas- çro d e s i próp rio e que só isso lhe dá o poder e a qualidade para
sini o ritua l do poder (a inst ituição am erican a da Presidên cia ...:vvernar. Ni nguém daria o menor apoio, nem teria a menor
é, a esse título, bem mais apaixonante que as europeias: d evoção por uma pt..>ssoa real. ~ para o seu duplo, estando já
mantém à s u a volta toda a violência e a s vicissitudes dos s..•mpre morto, que vai a fidel idade. Este mito não faz mais
poderes primiti vos, d os rituais selvagens). Ma s o impeach- ~ 1ue traduzir a persistência, e ao mes mo tempo a d ecepção,
nmlt "" já não é o ass assínio: passa pela co nstitu ição. Nixon, d i\ exigência da morte sacrificial do rei.
a pesa r de tud o, conseguiu o objectivo com que sonh a todo o
poder: ser levado s uficientemente a sério, cons tituir para o Continuamos o n de estávamos: nenhuma d as nossas
grupo um perigo s uficien temente morta l para ser u m dia sociedades S(lbe levar a cabo o seu trabalho d e luto do real,
d o poder, d o próprio social, que está implicado na mesma
perd a. E é por u ma recrudescência d e tudo is to qu€' tenta·
• Acusação, denúncia. Em inglês no original. (N. da TJ tnos escapar·lhe. Sem d úvida que isto acabará mesmo por dar o
38 Simulacros t Simula(dO Jton &wdrillarrl 39

socialismo. Por uma torção inesperada e uma ironia q ue já que para o poder: o cenário d e trabalho exis te para escon-
não é a da história, é da morte do social que surg irá o der que a realid ade de trabalho, a rea lidade da produ<;ão,
socialismo, como é da morte de Deus que s urg·e m a s reli- desapareceram. E o real da greve também da mesma maneira,
giões. Chegada astuciosa, acontecimento perverso, reversão o qual já não é uma paragem de trabalho, mas o seu pólo
inint'cligivcl à lógica da raz.ão. Como o é o facto de o poder j.í alternativo na medição ritua l do a no social. Tudo se passa
não existir, cm suma, senão para esconder que não existe. como se cada um tivesse ccocupado-., após d eclaração de
Simulação que pode durar indefinidamente pois, contra- greve, o seu lugar c posto de trabalho c retomado a produ-
riamente ao «verdadeiro~' poder q u e é, ou foi, uma estrutura, c;Jo, como é de rigor numa ocup~ção ccautogcrida », exacta·
uma es tratégia, uma correlação de força, um problema, este, mente nos mesmos tennos que antes, mas d eclarando-se ao
não sendo mais que o objecto de uma procura social, c portanto mesmo tempo (c ~stando vi rtuaJme nle) em estado de greve
objecto da lei da oferta e da procura, já não está sujeito nem permanente.
à violência nem à morte. Completamente expu rgado da Isto não é um sonho de ficc:;ào cie nt{fica: trata ·sc, cm toda
dimensão polftica, o poder depende, como qualq ue r outra a parte, de uma dobragem do processo de trabalho. E d e
mercadoria, da produçao e do consumo de massas. Texto o uma dobragem d o processo d e greve - g reve incorporada
bri lho desapareceu, s6 se salvou a ficção de um universo como a obsolescência nos ob;ectos, como a crise na produção.
político. Entao ~i n Jo há nem greve, nem trabalho, mas os dois
O mesmo se passa com o trabalho. O brilho da produçJ.o, a simultaneamente, is to é, há outra coisa diferente: uma magia
violência das questões que com ela se prendem já não existe. de trabalho, uma aparência enganadora, um cenodrama da
Todos continuam a produzir, e cada vez mais, mas s ubtil· prod ução (para não dizt!r um melodrama), dramaturgia
mente o trabalho to rnou-se noutra coisa: uma necessidade colecti va na ce na vazia do social. Já não se trata da ideologia
(como o concebia idealmente Marx, mas de modo nenhum do traba lho - a ética tradicional que ocultaria o processo
no mesmo sentido), o objecto de uma «procura ~t social, como «real» de lrélbalho c o processo ccobjectivo)) de exploração-
o tempo livre, ao qual é equivalente no dispntchiug " geral mas d o cenário de trabalho.
da vida. Procura exactamente proporcional à perda de pro- A ideologia n ão corresponde senão a uma malversação
blemática no processo de trabalho l6l. É a mesma peripécia da rcalidíldc pelos sign os, a simulac:;ão corresponde a um
cur to--ci rcui to da realidade e à sua reduplicac;ão pelos s ig n os.
A finalidade da análise ideológica continua a ser restituir o
• Rapkln. pressa. Em ingWS. no ongiNI. (N. da T.) processo objectivo, é semp re um falso problema q ue rer
6. A estaflexlo do Investimento de tral».lho corresponde uma baixa rei nserir a verdade sob o simulacro.
paralel.a do invntimento de COI'$UinO. Acabou o valor d~ uso ou o pres«fgto
do automóvel, aabou o discurso carinhoso qu(! opunha claramente o
objecto dt go:w ao objecto de trabaJho. Um outro diJcurso se lhe substitui por invcrslodos pólos. O 1raOOiho tom~..se o ob,ec10 de uma necessídad~.
e que é um dlscurso de trabalho sobre o oo;ecto de consumo, com visla a o auto1nóvel tornaooSt' o objecto d~ um trabalho. Nlo há melhor prova de
um rt'!invHti~nto activo, constrangedor, puritano (uM m<"ROS gasolina, indifcrcndl'lc;lo d~ todos os problemas . é ptlo mesmo deslizar do "'di!'f'ito•
cuide da sua segurança, ultrapassou a velocidade, etc.), ao qual as caracte~ de vohl para Kdcver• eleitori\1 que se assinala o desinvestimento da esfera
rísticas dos a utomóveit: fingem a daptar-se. Encontr.tr um novo problema poUtic.a.
40 Simulacros e Simulação fl'an Ba11drillard 41

É por isso q ue o poder, no fundo, está tão de acordo com arrepio de exactidão vertiginosa e falsificada, arrepio d e dis-
os d iscursos ideológicos e os discursos sob re a ideologia; é tanciação e d e ilmpli(l:çào ao mesmo tempo, de distorção de
que são d iscursos de verdade - sempre bons, mesmo e escala, de uma transparência excessiva.
sobretudo se forem revolucionários, par;. opor aos golpes Gozo de um excesso d e sentido, quando a barra do signo
mortais da simulação. desce abaixo da linha de flutuação habítual do sentido: o
insignific(l:nte é exaltado pela filmagem. Aí se vê o que o real
·nunca foi (mas cccomo se você aí estivesse))), sem a distãncia
que faz o espaço perspectivo e a noss.a vis.;o em pro fu ndi dade
O fim do panóptico (mas «ma is verdadeiro que ao natural»). Gozo d a si mulação
microscópicit q u e fé1Z o re<tl passar para o hjper-real. (É um
pouco assim n a pornografia também , cujo fascínio é mais
É ainda a esta ideologia do vivido, de exum ação do real metafísico que sexua l.)
na s ua banalidade d e base, na s ua autenticidade radica l que De resto, esta família era já hiper-real pela s ua própria
se refere a experiência americana de TV-verdade tenhlda cm escolha: família amcrican..'\ ideal típ ica, domicí1io californiano,
1971 sobre a família Loud: s ete meses de rodagem inin- três garagens, cinco filhos, estatuto social e profissional
terrupta, trezentas horas de filmagem directa, sem g uião acomociado, housewif~· decorativa, standi11~ uppermiddle .... De
nem cenário, a odisseia d e uma fam flia, os seus dramas, as certa maneira é esta perfeição estatística que a vota à morte.
sua s alegrias, as s uas peripécias, 110u stop- resumindo, um Heroína ideal do americau way of life-•, ela é, como nos
documento histórico «bruto», e a «mais bela proeza da sacrifícios antigos, escolh ida para ser exaltada c morrer sob o
televiSc'io, comparável. à escala d a nossa quotidianidade, ao fogo d o ml'dium ......., moderno destino. É que o fogo do céu já
filme d o desembarque na Lua•>. A coisa complica-se com o não cai sobre as cidades co rrompidas; é a ob jectiva que vem
facto de esta família se ter desfeito durante a rodagem: a cortar a realidade vivida como um laser, pa ra a aniquila r. «Os
crise explodiu, os Loud separaram-se, etc. Donde a insolúvel Loud: s implesmente uma família q ue aceitou entreg ar-se à
controvérsia: a TV é responsável? Que se te ria passado St' a televisão e morrer às s uas mãos)~, dirá o reali7..ador. Trata-se,
TV não tivesse lá estado? pois, com efeito, de um processo sacrificial, de um espectáculo
Mcüs interessa nte é o fan tasma de filmar os Loud como se sacrificial oferecido a vin te milhões de americanos. O drama
a TV ltf não estivt..'Sse. O triunfo do realizador era dizer: «Eles litúrgico de u ma sociedade de massas.
viveram como se n ós lá não estivéssemos.» Fórmula absu rdn, TV-verdade. Termo admirável na s ua a nfibologia, trata-
parad oxal - nem verd adeira, nem falsa : utó pica . O «como -se da verdade desta família ou da verdade d a TV? De facto
se n ós lá não (..OSti véssemos» sendo equivalente ao «como se
você lá estivesse». Fo i esta utopia, este paradoxo, que filscinou
os v inte milhões de telespectadores, muito ma is que o prazer
• Dona de ca:s.a. Em ingl~ no origin.1l. (N . d<t TJ
((perverso>> de violar uma intimidade. N ão se trata de segredo ... Nível social méd io a lto. Em inglk no original. (N . da T.)
nem de perversão na experiência «verdade•), mas de u ma ••• Modo de vida americano. Em inglês no original. (N . da T.)
espécie d e arrepio do real, ou de uma estética do h i per-real, ..... Ou ci\nal de conmnicaylo. (N. da T.)
42 Smwlacros r Simulaç4o jn:m &wdrillard 43

é a 1V que é a verdade dos Loud, é ela que é verdadeira, é ela toma impossível localizar uma instânciil do modelo, d o p<XIer,
que toma verdadeiro. Verdade que não é a verdade reflexiva d o olhar, do próprio medium, pois que voeis )á estão semp re
do espelho nem a verdade perspectiva do sistema panóptico do o u tro lado. Já não h á s u jeito, nem ponto focal. já não há
e ~o ol ha r, mas a verdade manip uladora, do teste q ue sonda centro n<>m periferia: p ura flexão ou inncxiio circular. Já não
e mterroga, do lnser que explora e que corta, das ma trizes h..'\ violência nem vigilância : apenas a .. in formação"', virulên·
que ~nservam as vossas sequê ncias perfuradas, do código da secreta, reacção cm ca deia, implosão lenta e s imulacros
genético que ma nda nas vossas combinações, d as célul as de (!Spaços o nde n d eito d e real a ind a vem jogar.
que inform am o vosso universo sensoria l. Fo i a cssn verd ad e Assisti mos ao fim do espaço perspectivo e panó ptico (hi-
que .a família Lou d se subme teu pelo mediaan TV e, nes te ~tcsc mom l aind a e solidária com todas a~ an álises clássic~s
sentid o, tra ta-se d e facto d e uma aniq uilação (mas tratar-se- sob re a essência «Objecl'ivan do poder) c portanto à próprm
-á ainda de verdade ?). abolição do t'Sptctacular. A televisão, por exemplo, no caso dos
Fim do sistema panóp tico. O o lho da TV já não é a fonte Loud, ~i não é um medi11m espt..--cta cula r. Já não estamos na
d e um o lha r absoluto c o id eal do controle já não é o da sociedade do t'Spectáculo de q u e fa lavam os situacionistas,
transpa~ ncia. Este supõe a inda u m espaço objectivo (o da nem no tipo de alienação e de repressdo específicas que ela
Renascença) e a o mn ipotência d e um o lha r despótico. É a inda, im plicava. O pró p rio medi11m já n5o é apreensível enqua nto
se não u~ siste ma de encerramen to, pelo menos um sistema tal, e a COJ\fusão do medium e da mensagem (Mac Luhan) m
?e quadnrulac;ão. Mais su btil, mas sempre em exterioridade,
.rogando na oposição do ver e d o ser visto, podendo mesmo 1 A confuslo mtdntm/ mensagem ~ rom cert~u C()t'T'elativa do desti-
o ponto foca l do panóptico ser cego. nador e do destinatllrio, autentic.,ndo ;~ssim o dl'Nparedmento de todas
Outra coisa se passa q uando com os Loud: «Você já não •se.1nlfuralll duais, polares, que faziam a orga nl7.aç3odisn.arl>iva da lingua-
está a ver TV, é a televis:to que o vê a s i (viver)~ o u aind a: gem, de toda a a rt iculaç~o determinada do SC!:ntldo que rtmete para a céle·
«Você jt. não está a o uv ir. Não entre cm Pânico, é Não entre brc r,relha diis funÇ'OeS de }akobson. Dizer que o discurso ..çircula,. deve
ser tomAdo na sua acepçlio literal: quer dizer qu~ já ni!io v~t i de um ponto
e m Pâ n ico q u e o ouve a s i>> - viragem d o dispositivo par., outro ponto, mas que percorre um odo que c nglo!M i11dislinlamt:nlt.
~nóptico de vi gilância (vigiar e p unir) para um s istema d e as poslc;OOS de emissor e de receptor, de agora em diante nl\o identificáveis
dtssuas..,o onde é abolid<1 a d istinção entre o passivo e o enquanto to~ Is, Assim, ;A não existe insta.ncia de pod~r. mst~ncia emissora
acti vo. Já não há impera tivo d e submissão ao modelo ou ao - o poder é algo que circula e cuja fonte )á nlo se •dentífl(.ll, um (.,do em
ol har . .c VOC~ são o modelo! » • VOC.ÊS são a maioria!• Esta que ~ trocam as posições de dominante e de dominado numa Nver$ão
&em fim que é tamb(om u fim do poder na sua dcfini('lo ctAs.iica.. A cir-
é a vertente de uma socialid ade h iper· realista, em q ue o real (UIMll.~ do poder, do saber, du dlSCUrso. p6t fim a toda a locahzaçlo
se confunde com o modelo, como na operação estatística , o u d~ iru,tlnaas e dos pólos. Na própria interpreQ(Jo psacanalftica.. o ..poder-
com o mtdiwn, como na operação Lou d. Este é o estád io do interpMAdOr nM l~ vem de quA!qu~r iR!otJnriA externa, mas do
ulterior da relação social, o nosso, que já não é o da persuasão próprio inttrpretado. Isto modifica tudo, pois aos detentores tradidoR~.is
(a era clássica da propagand a, d a ideologia, da publicidade, pode sempre pergunt;u-w de ondf" m::~am o pod~. Quem te fez duqtW?
etc.) mas o da dissuasAo: .. voct;s são a info rmação, vocês O rei. Quem te fez rei? Deus. Só Deus jj nio responde. MAS à pergunta:
quem te fez psacanalista? O analista pode muito bem rcspond~ tu.
são o social. voe~ são o acon tecimen to, isto é convosco Assim se exprun€!. por uma simulação inv~r""·" passagem do •anahsado•
vocês t~m a palav ra, etc.>t Virage m do avesso pela qua l ~ para o ~<anllllu.dor•, do passivo para o activo, que não faz m ais qu€! des-
44 Simulacros I! Simulaçifo Jrou&mdrillflrd 45

é a primeira gra nde fórmula desta nova era. Já n ão existe efeitos - espectralizado, como as esculturas publicitárias a
mediwu no sentido literal: ele é dorava nte inapreensível, laser no esp aço vazio do acontecimento filtrado pelo medium
difu so e difractado no real e já nem seq uer se pode dizer que - dissoluç:io da televisã o na vida, dissolução da vida na
este te nha sido, por isso, alterado. televisão - solução q u ímica iJldiscernível: somos todos Loud s
Uma tal ingerência, uma tal presen<;a virai. en d émica, votados não à i rrupção, à pressão, à violência e à chantagem
crón ica, p ânica do medium, sem que se lhe possam isolar os dos nmlin e d os modelos, mas à sua indução, à s ua infiltra-
·ção, à sua vio lên cia ilegível.
Mas é necessário cautela co m a faceta negativa que o d is-
c reví'rtl efeito de n>demoinho, de mo vimentac;ãudos pólo5, de circularidade curso impõe: não se trata nem d e doença nem de afecção
onde o puder se perde, se disso lve, se resolve em manipulação perfeita (já virai. Há que pensar an tes nos media como se fossem, na órbita
nilo é d o dom ínio da. instância d iroctiva c do olhar, mas d o domínio da
tactalidade e da comutação). E até também a circularidade do Estadu/
externa, uma espt..icie de código genético que comanda a
/famflia.asscgurada pela flutuação e a regulaçtio metaestática das ma rgen.<; mutação d e rea l em hiper-real, assim como o outro código, o
d o soei:~ I c do priv;'ldo. (J. Don1.elot, LA Polia d1os Famiflts.) micromolccular, comanda a p assagem de uma esfera, repre-
A p;ulír de agora toma·se impossível fa:r.cr a famosa pergunta: .. De senta tiva, do sen tido, para a esfera genética, do sinal progra-
ond~ fala?.. - «De onde o sabe?.. «De onde rt>eebe o poder?» Sf'm ouvir mado.
imedia tamente ~ponder: ..:M3S é de vocts (é a partir de vock que t!U É todo o modo tradicio nal d e causalidade que está em
falo» - subentende--se, s.'io v~ que falam, s-'o voe~ que sabem, são
vocês o poder. Gigantesca drcunvoluç.\o, circunvolu<ào da palavra, qut' questão: modo perspectivo, determinista, modo ~~activo>,,
cquiv;'l(c a uma chantagem sem salda, a uma dissuasão sem apelo do crítico, modo analítico - d istinção da causa e do efeito, d o
sujeito SUJXIStO falar, m as deixa sem resposta, jA que às perguntas que faz activo e do passivo, do sujeito e do objecto, do fim c dos
lhe respondem ínclut,welmente: mas vocC é a própria res~ta ou: a sua meios. É sobre este modo que pode d izer-se : a televisão olha-
pergunta é ~i uma resposta, etc. - toda a sof!stica cstrangulatória da -nos, a televisão manipula-nos, a televisão in forma-nos ... Em
captação da palavra, da ronfis.'ião fon;ada sob uma capa de liberdadl' dl' tudo isto fica-se tributário da con cepção analítica dos media,
expresSlo, do ab.1.timento do sujeito sobr e a sua própria interrogaçlo, da
precessão d<t resposta sobre a pergunta (toda a violência da interpretação a con cepção de um agente exterior activo e eficaz, a concepção
está lá c é a au togest<lO consciente nu inconsciente da «palavra•). Este de uma informação c.o:perspt..:.ctiva » tendo como ponto de fuga
simulacro de inversao ou de involuç.ao dos pólos, este subterfúgio genial o horizonte do real e do sentido.
que é o segredo de todt• o discurso da manipulação e portanto, ho~ em Ora há que conceber a tele visão segundo o mOOo ADN,
dia, em todos os domíniO!', o segredo de todo o novo poder, no apagamento como um efeito ond e se d esvanecem o s pólos ad versos
da Ct'na do poder, na assunção dt>: todas as palavras de que resultou esta
fantástica ma ioria silenciosa {1ue ~a caracterislica do nosso tempo- tudo da determinação, segundo uma contracção, uma retracção
isto rome(ou certamente na esfera política com o simulaçro democrático, nucl ear do velho esquema polar que mantinha sempre uma
i~to é, a substituição da instância de Deus pela inst;lncia do povo como distâ ncia mínima entre uma causa e um efeito, entre um
fontt> do poder e do poder romo ('manat;Ao pelo poder oomo repr~ntaçílo. s ujeito e um objecto: precisamente a distância d o sentido, o
Rcvoluç.ão anticopernian.a: acabou a instância transcendente do Sol e da desvio, a diferença, o menor d esvio possível (MDP!), irre-
fonte luminosa do poder t>: do saber - tud o provém do povo e tudo a ele
retorna. ~ rom esta rnilgnífica reciclagem que começa a instalar-se, desde
dutível, sob pena de reabsorção num processo aleatório e
o cenário do sufrágio de massas até aos fantasmas actuais das sondagens. indeterminad o e d o qual o discurso já nem sequer p ode dar
o simulacro universal da manipulação. conta, já qu e é ele próprio uma categoria d eter minad a.
46 Simulacros t Sinmlação ]etJn Baudri11ard 47

É este desv io que se d ilui no processo do código gené- O orbita l e o nuclear


tico, onde a indeterminação não é tanto a do acaso das molé-
culas corno a da abolição pura e s imples da relação. No
processo de comando molecu lar, q u e «vai» do núcleo AON A apoteose d a s imulação: o nuclear. Contudo, o equilf-
à (<substância» que ele «informa» já n ão há encamin hamento brio do terro r nunc(l é mais que a vertente espectacular de
de um efeito, de uma energia, de uma determinação, d e uma um sistema de dissuasão que se insinuou do i11teriorem todos
mensagem. ((Ordem, s inal, impulso, mensagem>>: tudo isto .os interslícios da vida. O susptmse nuclear não faz mais que
tenta dar-nos a coisa inteligível, mas por analogia, retrans- consolidar o s istema lxmalizado da d issuasão que está no
crevendo em te rmos de inscrição, d e vector, de d escodifica- coração do media, d a violência sem consequências que reina
ção, u ma dimensão da qual nada sabemos - já ne m sequer em todo o mundo, do dispositivo a leatório d e todas as
é uma c<dimensão» ou ta lvez seja essa a quarta d ime nsão escolhas que nos são feitas. Os nossos mais ins ignificantes
(a qual se defin e, de resto, cm relativ idad e einste iniana comportamentos são regulados por sign os n eutralizad os,
pela absorção dos pólos distintos d o espaço c do tempo): indiferentes, equivalentes, signos d e soma nula, como o são
De facto, todo este processo não pode ser enten dido por os qu e regulam a ~~estratégia dos jogos» (mas a verdadeira
nós senão sob forma n egativa: já nada sepa ra um pólo do equação (.'Stá noutra parte e o d esconhecido é jus ta mente esta
outro, o inicial d o terminal, há uma espécie de esmaga men to variável de s imulação que co ns titui o a rsenal atómico, ele
de um sobre o ou tro, de encaixamento fantástico, de afu n- próprio uma forma h iper-real, um simu lacro que n os domina
d amento d e um no outro d os dois pólos tradicionais: implo- a todos e reduz todos o s acontecimentos <cao solo», a não
são - absorção do mod o radiante da causalidade, d o modo serem mais que cenários efémeros, trans forma ndo a vida
~ferencia l ~a d eterminação, com a sua electricidade posi- que nos é d eixada em sobrevivência num p roblema sem
h va e n egativa - implosão do sentido. É af que a simulação problema - nem sequer numa ((letra » q u e será descontada
começa . com a morte: numa «letra)) an tt.'Cipa damen te d esvalorizada.
Por toda a parte, em todo e q ualquer dom ínio, político, Não é a ameaça d irecta d e d estruição atómica que pa ralisa
b iológico, psicológico, mediático, onde a distinção dos dois as nossas vidas, é a d issuasão que a s leucemiza. E esta dissua-
pólos já não pode ser mantida, entra-se na simulação e, são vem do facto d e q ue mesmo o «clashl+ ,. atómico real es tá
portatlto, na manipulação absoluta - não a passividade, exclufdo - excluído a ntecipadamente como a eventualidade
mas a indistinção do activo e do passivo. O ADN realiza esta do real n um s is tema de ~ignos. Todos fingem crer na realidade
redução aleatória ao nível da substân cia viva. A televisão , no desta ameaça (isso compreende-se por parte dos militares,
e~emplo d os Loud, atinge também ela esse limite indefin i- toda a seriedad e do seu exercício está em jogo, bem como o
tzvo ond e estes, em relação à televisão, não são nem mais discu rso da s ua ((estra tégia»), mas justamen te n ão existem
activos nem m ais passivos que u ma s ubstâ ncia viva em prob lemas estratégicos a este nível. e toda a originalidade da
relação ao seu código molecular. Num caso como no outro, situação rt-side na improbabilidade da destruição.
uma única nebulosa indecifrável n os seus e lementos simples,
indecifrável n a verdade.
• Conflito. Em inglês no original. (N. da T.)
48 Sirmdacros t Simulação /Mfl 8audrill1ml 49

A dissuasão exclui a guerra - violência arcaica d os sis~ de controle, por tOOa a parte onde a n()(:ão de segurança se
temas cm exp.'lnsào. A dissuasão, essa, é a violência neutra, torna todo--poderosa, por toda a parte ond e a norma de
implosiva, dos s istema s metaestáveis ou em involução. Nãu segurança s ubstitui o antigo arsenal d e leis e de violência
existe ~i o objecto da dissuasão, nem adversário, nem estra- (i nclusive a guerra), é o sistema da dissuasao que aumenta,
tégia - i uma estrutura planetária d e an iquilamento d os e à sua volta aumenta o deserto h istórico, social e político.
problemas. A guerra ató mica, como a de Tróia, não terá Uma involuç,'\o gigantesca faz contrair todos os conflitos,
lu gar. O risco de pulverização nuclear serve apenas d~ todas <IS fino lidades, todos os confrontos à medida d esta
prdcxto, por meio da sofisticação das armM - ma s L"Siíl chantagem q ue os interrompe a todos, os neu traliza, os con·
sofisticação ultr11passa de tal modo qua lquer objectivo que gela. Nenhum" revolta, nenhuma his tó ria se podem já
ela próprir~ é um sintoma de nu lidade - à instalação de um desencadear segundo a s u a própria lógica, pois correm o
s is tema universal d e seg urança, de aferrolhamcnto e d e risco d o aniquilamt!'nto. já nenhuma estratégia é possível e a
controle cujo efeito d issuasor não vis..1 d e modo algum o esca lada n3o ~ mais q ue u m jogo pueril d eixado aos mili ta·
conflito atómico (este nunca esteve em caus.c1, salvo com res. O problema político está morto, só restam os s imulacros
ce.rte7.é1 nos prime iros tempos da guerra fricl, quando aind01 de conflitos c de q u estões cuid adosamente circunscritos.
se confundia o dispositivo nuclear com a guerra tradicion ill), A •a ven tu ra espacial,. d esempenhou exactamen te o
mas sim a p robabilidade muito mais vasta de todo o aconte- mesmo papel que a escalada nuclear. Por isso a pôde render
cimento real. d e tudo o que consti tulsse um acontecimento tão facilmente nos anos 60 (Kenned y / Kruchtchev) ou desen-
no s is tema geral e lhe quebrasse o equilíbrio. O equilíbrio do vol ver~ paralelamente num modo de «coc)(istência pacífica».
terror é o terror d o equilíbrio. Pois qual é a função última da corrida ao espaço, da conquista
A dissuasão não é uma estrat(>gia, ela circu la c troca-se da Lua, d o lançamento d os satélites, senão a instituição de
entre os protago nistas nucleares muito exactamente como os um modo de gravitação universal, de sateli.zac;!\o, cujo módulo
capitais internacionais nessa zo na orbital de CSJX'CUié1ção lunar é o embrião ~rfcito: microcosmo programado, ond e
mo netária cujos fluxos bastam para con tro lar todas a s trocas 11ada podt• s1•r deixado ao acaso? Trajectória, energ ia, cálculo,
mundiai s. Assim, a moeda de destruição (sem referência de fisiologia, psicologia, ambiente - nada pode ser deixado à
d es tn1i<;ão real, como os capitais flutuantes não têm refe rente contingência, é o universo total da no rma - a lei aí já não
d e p rodução real) que circula na órbita nuclear basta para existe, é a imanência operacio nal de todos os detillhcs que
controlar toda a violência e os conflitos potenciais do g lobo. faz a lei. Un iverso expurgado de toda a a meaça de sentido,
O que se trama à sombra deste d ispositivo, sob o pretexto em estado de asscpsia e de ausência de g ravid ade - ~ esta
de uma ameaça toeobjectiva» máxima, e g raças a esta espada própria perfeiç3o que é fascinante. Po is a exalta ção das mul-
nuclear d e Dãmocles, é o aperfeiçoamento do s istema máximo tidões não ia par.1 o acontecimento do d esembarque na Lua
de controle jamais existente. E a satelizaçJo progressiva de ou a marcha d e um ho mem no espaço (isto seria antes o fim
todo o planeta por este h ipermodelo de segurança. de um sonho anterior) não, a s idera<;Jo está de acord o com a
O mesmo ~ válido para as centrais nudeares /Mcíficas. A programi'çáo e a manipulação técnica. Com a maravilha
pacificação não estabelece d iferenças entre o dvil c o militar: imanente do d esenvo lvimento programado. Fascinação pela
em toda a parte onde se elaboram dispos itivos irreve rsíveis norma máxi ma e pelo domínio da p robabilidade. Vertigem
50 Simulacros~ Simulaçdo Jttm Baudril/ard 51

do modelo que se junta com a da morte, mas sem perturbação -sistetn..'lS terrestres que são sateHzados e perdem a sua aut~
nem pulsão. É que se a lei, com a sua a ura de transgressão, a nomia. Todas as energias, todos os acontecimen tos são
ordem, com a sua aura de violência, drenassem ainda um absorvidos por esta gravitação excêntrica, tudo se condensa
imaginário perverso, a nonna, essa, fixa, fascina, sidera e faz e implode na direcção do único micromodelo de controle (o
involuir todo o imaginário. já não se alimentam fantasmas satélite orbital) como, inversamente, na outra dimensão, a
sobre a minúcia de um programa. Só a sua observâ ncia é biológica, tudo converge e implode sobre o micromodelo
vertiginosa. A de um mundo sem falhas. molecular do código genético. Entre os dois, na assunção
Ora é o mesmo modelo de infalibilidade programática, simultânea dos dois códigos fundamentais da d issuasão,
de segurança e de dissuas3o máximas que rege hoje em dia tod o o pri ncípio de sentido é absorvido, todo o desen-
a extensão d o social. Também aqui mais nada strá deixado RO volvimento do rea l é impossível.
acoso, de resto é isso a socializaçJo, que começou há séculos A simuJtaneidade de dois acontecimentos no mês de Julho
mas que entrou a partir de agora na fase acelerada, dirigindo- de 1975 ilustrava isto mesmo de uma maneira estrondosa: a
-se para um limite que se julgava explosivo (a revoluc;ão), reunião no espaço de dois supersatélites americano e sovié-
mas que para já se traduz num processo inverso, implosivo, tico, apoteose da coexistência pacifica - a supressão pelos
irreversível: dissuas..'o generalizada de todo o acaso, de todo chineses da <.'SCrita ideográfica c a sua adopção a prazo do
o acidente, de toda a transversalidade, de toda a finalidade, alfabeto romano. Este último significa a indifcrenciac;ão
de toda a contradição, ruptura ou complexidade numa socie- «Orbital• d~ um sistema de s ignos abstracto e modelizado,
dade irradiada pela norma, votada à transparência sinalética na órbita do qual se vão reabsorver todas as formas, outrora
dos mecanismos de i1úormac;ào. De facto, os modelos espacial :-;ingulares, do (.'Stilo c da escrita. Satelização da Hn gua: é a
e n uclear não têm fins próprios: nem a descoberta da Lua, maneira de os chineses entrarem no sistema de coexistência
nem a su perioridade militar e estratégica. A su a verdade é a pacifica, o qual se inscreve no seu céu justamente ao mesmo
de serem os modelos d e simulação, os vectores modelos de tempo pela junção dos dois satélites. Voo orbital dos dois
um sistema de controle planelário (do qual nem mesmo as 14randes, neu tra lização e homogeneização d e todos os o ut-ros
poderosas vedetas deste cenário estão livres - todos estão no solo.
satelizados) 00 • Contudo, apesar desta dissuasão pela instância o rbital -
Resistir à evidência: na S.."\tclização, aquele q ue está sateli- dldigo nuclear ou código molecular - os acontecimentos
zado não é aquele que julgamos. Pela inscrição o rbital de um l't.mtinuam n o solo, as peripécias são mesmo cada vez maiS,
objecto espacial, é o planeta Terra que se toma satélite, é o d,,do o processo mundial de con tiguidade e de simulta-
principio terrestre de realidade que se torna excêntrico, hiper- m·idade da informação. Mas subtilmente perdem o sentido,
-reaJ e insignificante. Pela instanciação orbital de um sistema n3o são senão o efeito dúplex da simulação no apogeu. O
de controle como a coexistência pacifica, são todos os micro- mt•lhor exemplo não pode deixar de ser a guerra do Vietname,
~~ tJUC esta se encontrou na intersea;ão de uma questão
h i.. t6rica e • revolucionária,. máxima e da implementação
8. P111Rdoxo· todas as bomb» tio hmpu: a sua única poluiçio é o dtosla ins tãnda dissuaslva. Que sentido teve esta guerra, e a
sistetT\111 d~ seguranç.a c de controle quif! irrikl'ilm tfiUI,.do 11111J o:plodmt. ,.u,, '!Volução n:tio terá sido a de consolidar o fim da história
52 Simutt~cros e Simulaçcfo ftan Boudriltard 53

no acontecimento h istórico ful minante e decisivo d a nossa no fundo não é g rave: esta já d e u a s suas p rovas, pode-se
época? ter con fiança nela. É mesmo mais eficaz que o cap italismo
Por q ue motivo esta g ue rra tilo dura, tão longa, tão feroz na liq ui dação das esl'ruturils p ré-capitalis tas •sel vagens,. e
se dissipou de um di a para o outro como por cnc,,nto? arcaica s.
Por q ue é que esta d e rrota a mericana (o maio r revés d a O mesmo cen ário na g uerra d a Argélia.
histó ria dos Estados Unid o s) n3o teve qualq uer repercus54'\o O o utro as~to d esta g u erra e de qua lq ue r g u erra a
interna na América? Se tivesse de facto significc.d o o fracasso partir d e agora: por d etrás d a violên cia armada, do antag o-
da estra tégia planetária dos Estados Unidos tcría tam bém nismo homicid a dos advers.irios - q ue parece u ma questão
necessaria mente d e ter a lterado o equ ilibrio intern o c o sis- d e vida ou de morte, q ue se joga como tal (senão já não se
tema potrtico a mericano. N ada d isso aconteceu. poderia mandar as pessoas a rriscar a pele neste tipo de
O utra coisa, pois, se passou . Esta guerra, no fundo, não coisas), por detrás deste simu lacro de lu ta de morte e de
te rá passad o d e um e pisód io crucia l da coexist~ncia pacífica . d isp u ta mundial im piL"CCOSc1, os d ois adversários são fu nda-
A não intervenção da Ch ina, conseguida e co ncreti zada ao menta lmen te so lid á rios contra uma outra co isa, ino minada,
longo de muitos anos, a aprendizagem por pa rte da China nunca dita, ma s cu jo res ultado objectivo da gu erra, com a
de um modus vive,di mund ial, a passagem de u ma cstra t6gia mesma cumplicid ade dos d ois ad versários, é a liq uid ação
de revolução mund ial para uma o u tra de partilha das forças to tal d as estruturas tribais, comunitárias, pré-cilpitalistas,
c d os impérios, a transição d e uma aJtc ma tiva rad ica l pa ra a todas as forma s d e troca, de l!n gua~ de orga nizac;ão simbó-
a lternância política num sis tema d o ravante regu lado pelo licas; é isso que é preciso abol ir~ é o aniq uilamento d e tudo
essencial (norma lização das relações Pequim-Wash ington): isso o objectivo d a guerra - e esta no seu imen~ d isposi·
era isso a questão fulcral d a gue rra d o Vie tna me c, n este tivo espectacular de morte, não é senão u":' med1um ~est.e
sent ido, os Estados Unid os a bando naram o Vietna me mas processo d e racionalização terroris ta d o soc1al - o antqm-
ga nhara m a gu erra. lamcnto sobre o q u al se vai poder ins taura r a socialidade,
E a g uerra chegou no fim «espontaneamente», q uand o o sendo ind ife rente a s ufl o bediência, comunis ta o u capitalista.
objectivo fo i atingid o. Por isso se desfez, se deslocou com tal Cumplicidad e total ou d ivisão d o trabalh~ en tre dois ~d_v~r­
facilid ade. sários (qu e podem mesmo, pa ra o conseguar, fazer sacnft?OS
Es ta mesma dep reciação é indecifrável n o terre no. A enormes) com o mesmo fi m de aviltamento c d e domeshca-
guerra d urou ta n to que n ao fora m liq uidad os os e lemen tos c;:io das relações sociais .
irredutíveis a uma política sã c a uma disciplina de poder; .:Os vietnamitas d o Norte foram aconselhados a prestar-
mesmo qu e se tratasse d e um poder com unis ta. Quando por -se a u m cená rio d e liqu id ac;ão da presença americana n o
fim a gu erra passou para a s mãos d as tropas regulares d o d ecu rso do qua l, claro, é preciso salvar a face. ,.
Norte e escapou às da gue rril ha, e ntão a g uerra pôde pa rar: Este cenário foi o d os bomba rdeamen tos extremamente
11ting iu o seu objectivo. A questão é, pois, a d e uma rendição duros sobre H anó i. O seu carácter insuportável não d eve
po lítica. Quando os vietnam itas p rovaram que já não era m esconder que não passavam d e u m s imulacro para ~nni tir
portado res de uma subvers..\ o impre visível, então pod ia-se- aos vietna mitas s im ularem prestar-se a um comp romtsso e a
-lhes passa r o testemu n ho. Q ue seja uma ordem comunista, Nixon fazer engolir aos americanos a retirada d as suas tropas.
54 Simulacros t Sim1tlaçtfo 55

Tudo estava decidid o, nad a estava objectivamen te e:m jogo hemo-nos (os comunistas ~no podeu cm Itália, a redescoberta
senJo a verosimilhança da montagem final. póstuma, rctro, d os goulags e d os dissid entes soviéticos, como
Que os moralistas da guerra, os defensores dos altos a redescoberta, quase con tem porânea, por uma etnologia
valores guerreiros não fiquem demasiado desolados: a guerra moribunda, da ~diferença• perdida d os selvagens) d e q u e
não é menos atroz por ser apenas s im ulacro, sofre--se ainda estas coisas acontecem d emasiado tarde, com uma história
na ca rne c os mortos e os an tigos combatentes valem bem os de atraso, uma espira l de atraso, que esgotaram o seu sentid o
o utros. Esse objectivo continua a ser atingido, do mesmo com muita antecipação e vivem apenas de uma efervescência
modo que o da quad riculação d os territórios c de socialidade a rtificial de signos, que todos estes acontecimentos se sucedem
d iscipli na r. O q ue já não exis te é a a d versidade dos adver~ sem lógica, numa (.'quivalência total da s mais contmd itórias,
sários, é a realidade das causas antagon istas, é a seriedade numa indiferença pro fund a pelas suas consequên cias (mas é
id eológica da guerra. É também a realidade da vitória ou da que já n3o têm mais: esgotam-se n a s u a promoção especta-
derrota, sendo a guerra um processo que tr iunfa bem para cular) - todo o filme da ....actualidade,. d á assim a impressão
além destas aparên cias. sinistra de kitscll, de retroe d e porno ao mesmo tempo- isto
De todas as maneiras, a pacificação (ou a dissuasão) que sem dúvida que todos o sabem e, no fundo, n ing uém o
hoje em d ia nos domina está para além da guerra e da paz. é aceita. A realidade da sim ulação é ins uportável - mais cruel
a equivalência, a todo o moment·o , d a paz ~ da guerra . «-A q ue o Tlaldtre d~ ln Cruauté de Artaud , que era ai nda o ensaio
guerra é a pav, d izia Orwcll. Também af, os d o is pólos de uma dramaturgia da vida, o últ imo sob ressa lto de uma
d iferencia is implodem um n o o ut ro ou reciclam-se um no idealidade do corpo, do sa ng u e, da viol~ncia de um siste ma
outro- simultaneidade d os co n traditórios que ~ ao mesmo que }á estava a gan har, no sentido da rcabson;ão de todos os
tempo a J><"'lródia e o fi m de toda a dial(>ctica . Assim se pode problemas sem u m vestígio de san gue. Para nós os dados
passar com ple tamente por cima da verdade de uma guerra: estão la nçados. Toda a dra maturgia c mesmo tod a a escrita
a saber q ue ela acabou mu ito an tes d e acabar, que se pôs fim real d a c rueld ade desapareceu. A simulação é ama c senho ra
à guerra, no auge mesmo da guerra, c que talvez ela nun ca e já só h!mos direito à ou tra coisa, à reabilitação fantasmá tica,
tenha começado. Mu itos o u tros acontecimentos (a crise periódica, d e todos os referenciais perdidos. Todos se d esen -
petrolífera, e tc.) mmca começaram, nunca exis tiram,. senão rolam a inda à nossa volta, na lu z fria d a d issua são (inclusi-
como peripécias artificiais - abstrnct , substituic;ão • e arte- vamente Artaud, que tem direito, como todo o resto, ao seu
factos de história, d e catástrofes e de crises destinadas a reviver, a uma exlslência segunda como referencial da cruel-
manter um investimento histórico sob hipnose. Tod os os d ade).
media e o cenário oficial da informação existem apenas Nra Por isso é q ue a proliferação nudear ji nlo é um risco de
manter a iluslo de uma acon tecimentalidade. de u ma reali- conflito ou de acidente a tó mico - salvo no interva lo em q ue
dade dos problemas, de uma objedividade d os factos. Todos as • jovens• potências pudessem ser ten tadas a utilizá-las
os acontecimentos devem ser lidos ao contrá rio, ou aperce- pa ra fi ns não d issua s ivos, - reais» (como fi zeram os
americanos em Hirosh ima - mas p recisa mente eles foram
os únicos a terem d ireito a este t~valor de uso» da bomba;
• ErSIIIZ. Em a lcmlo no original. (N. da T.) tod os os que a ela tiveram acesso a partir de agora serão
56 Smmlacros t Simula(tfo 57

dissuadidos de a usarem pelo próprio facto de a possuírem. a partir de agora neutralizadas, inutilizáveis, ininte ligíveis,
A entrada para o, tAo elegantemente designado, clube ató-- inexplosivas scnl'lo a possibilidade de uma expl~o p~ra
mico apaga muito rapidamente (como a sindicalização para o intcri<Jr, dt! uma implosão onde todas essas energli'tS
o mundo operário) toda a veleidade de intervenção vio lenta. se aboliriam num p rocesso catastrófico (no sentido litera l,
A responsabilidade, o controle, a censura , a autodissuasão isto é, no sentido de uma reversão d e todo o ciclo para um
crescem sempre mais depressa que as forças o u as armas ponto mínimo, d e uma reversão d as energias p~ua um limiar
de que dispõe: esse é o segredo da ordem sociaL A~im, a · mrnimo).
própria possibilidade de paralisar um país inteiro ao p uxar
u m manípulo, faz com que os t('Cnicos da electricidade nunca
usem esta arma: é todo o mito da g reve total e revolucionária
que se desmorona no próprio momento em que os meios
para isso estão dados - mas, ai! precisonrentc porque os mdos
lhe são d<ldos. Está nisso todo o processo de dis.'>uas..:'io.
É, pois, perfeitamente provável ver um dia as potências
nucleares exportar centrais, annas e bombas atómicas para
todas as latitudes. Ao controle pela ameaça sucederá a t.-stra~
t~ia bem mais eficaz da pacificação pela bomba e pela posse
da bomba. As «pequenas» potências, julgando compr.1r a
força de ataque autó noma, comprarão o vfrus da d issuasão,
da s ua própria dissuasão. O mesmo para as centrais a tó micas
que já lhes en tregámos: outras tantas bombas de neutrões
desactivando toda a virulência histórica, todo o risco de
ex plosão. Neste sentido, o nuclear inaugura em toda a parte
um processo acelerado de implosdo, congela tudo à sua volta,
absorve t·o da a energia viva.
O nuclear é ao mesmo tempo o ponto culminante da
e nergia disponível c a maximização dos sistemas de controle
de toda a energia. O a fcrrolhamento e o controle crescem de
acordo (c sem dúvida ainda mais depressa) com as virtuali-
dades libertadoras. Foi a aporia das revoluções modernas. É
ainda o paradoxo absoluto do nuclear. As energias congelam-
-se no seu próprio fogo, dissuadem-se a si próprias. Já não
se vê de todo que projecto, que poder, que estratégia, que
assunto poderia existir por detrás desta cla usura , d es ta
saturação gigantesca de um sistema pelas suas próprias forças
A história:
um cenário retro

Num período d e his tó ria violenta e act ual (digamos, entre


as duas guerras e a guerra fria). é o mito q ue in vade o cinema
como conteúdo imagi nário. É a idade d e ouro da s grandes
ressurreições despóticas c lend árias . O mito, expu lso d o rea l
pela violência da h is tória, encontra reft1gio no cine ma.
Hoje em dia é a própria história que invade o cinema
segund o o mes mo cenário - o problema expulso da n ossa
vida por esta cspt.."cie de neutralização g igantesca, que tem o
no me de coexistência pacífica à escala mund ial. e monotonia
pacificada à escala quotidiana- esta história exorcizada p or
uma sociedade de congelação len ta ou brutal, festeja a s ua
ressurreição em força nos ecrãs, pelo mesmo processo q ue aí
fazia o utrora reviver os mitos perdid os.
A história é o nosso referencial pe rdido, isto é, o nosso
mito. É a esse título q u e se faz a rendição d os m itos no ccrã.
A ilusão seria regozijarmo-nos com esta j<tomada de cons-
ciência da h istória pelo cinema >~, como nos regozijámos com
a ~<entrada da política na universidade». É o mesm o mal-
---entendido, a mesma m istificação. A política que entra na
universidade é a q ue sai da histó ria, é uma política retro,
c.."Svaziada da sua s ubstâ ncia e legalizada no seu exercício
s uperflcial, zo na de jogo e terreno de a ventura, essa política
Simulllcros ~ Simulnç4o Jtan Baudr•IIRrd 61

é como a sexualidade ou a formação permanente (ou como a mais precisamente, d iz Freud, esse objecto nJo é um qualquer,
segurança social no seu tempo): liberalização a título póstumo. é muitas vc-.tcs o último objecto vislumbrado antes d a d es-
O grande acontecimento deste período, o grande trauma- coberta traumatizante. Assim, a história fetich izada será de
tis mo é esta agonia dos referenciais fortes, a agonia do real e preferência a imediatamente anterior à nossa era ..irreferen-
do raàona l q ue abre as suas portas para uma era de simulação. cial•. Donde a preponde râ ncia do fasci smo c da g uerra no
Enq u anto tantas ge rações e singularmente a lHti ma, vive- retro - coincidência, afin idade nada política, é ingénuo
ra m na peu ga d a da his tó ria, na perspectiva, eufórica o u co ncluir a partir da evocação fascista uma renovação actual
catastrófica, de u ma revolução - hoje tem-se a impressão de d o fascis mo (é justumentc porque já não cst.-mos n essa época,
que a história se re ti rou, deixando a trás de si uma nebulosa porque esta mo:; noutra, q ue é ainda menos divertida, é por
indiferente, atravL--ssada por fluxos (?), mas esvaziada das isso q ue o fascismo pode volta r a torna r-se fasci na nte na sua
suas referências. É neste vazio que reOuem os fa ntasmas de crueldade fi ltrada, estilizada pelo retro) m.
uma his tória passada, a panóplia dos acontecimentos, das A h istó ria faz assim a sua entrada triunfal no dnema a
ideologias. das modas retro - não tan to porque as pessoas título póstumo (o termo ..histórico* teve a mesma sorte: um
acreditem ou depositem aí q u alq u er esperança, mas s imples- momento, um monumento, um congresso, uma figura • his-
mente para ressuscitar o tempo em que pelo me,os ha via tóricos• sJo com isso mesmo designados como fósseis). A
histó ria, pelo menos havia violência (mesmo que fosse sua rcinjccção não tem o valor de uma tomada de consciência,
fascista), cm que pelo me nos havia uma questão de vida ou mas de nostalgia de u m referencial perd id o.
d e morte. Tudo serve para escapar a este vazio, õt esta leucemja lsto não significa que a história nunca tenha aparecido no
da história c do político, a esta hemorragia dos valores - é cinem a como tem po forte, como p rOCt$SO actual. como
de acordo com esta penúria que todos os conteúdos são
evocáveis na confusão, que toda a his tória anterior ve m
1. O próprio f"~ismo, u mistério du Sl'U ll pM·\'Cinwnto ~da sua energia
ressuscitar a gra nel - já nenhu ma ideia-força selecciona , colectiva, que nenhuma interprctaç~o ronscgulu l~gota r (nem a mar xista
apenas a n ostalgia acumula sem fim: a guerra, o fascismo, o com a sua manipulaçdo politica pcl a~ clasSd don,mantt.-:., nem a rekhiana
fa usto da bellt tpoque o u as lutas revolucionárias, tudo é com OJCU recak.t mentu !>exual das massas, nem a dL'ieu7.lana com a para·
equivalente e se mistura sem disti nção na mesma exaltação n6ia despótica) pode interpretar-se fá como t.Obrcvaloti~.açM • ltracional•
sombria e fúnebre. no mesmo fascínio rctro. Há, contudo, dos refe:re•\CN~i) mllioiS c políticos, inten'\lik;.ç.\o luuca do valorcolectJ\'O
(o sangut!, a r,lc;a., Q po,·o, etc.), rt!injeo;.\o da morte, de vma •estética poli·
um p rivilégio da época imediatamente p.."lssada (o fascismo, tk:a d a moc1e•, um monwntu em qu\' o processo de dcscncantamentu do
a guerra, o imediato pós-guerra - os inúmeros filmes cuja vator e dos ''"~ cul«tivos, d~ .s«ularizaç.\ó r.teiONI c de umdtmcn-
acc;ão aí se situa, tê m para nós u m perfume mais próximo, sion.all7..ac;lo de toda iii vkiill, de upnacionahYA('Iu de toda a vida social e
mais perverso, mais denso, mais perturbador). Pode-se expli- u~ividu.al ~ 1~-z ,a sentir duramente no Ocid ~nte. ~bis uma ve?~ tudo

cá-lo evocando (hipótese talvez ela também retro) a teoria serve para escapar a esta catástrofe do valor, anta neutrahuç.\oe padfia.-
\iio da vid;a. O (a~nw ~ t.:ma rt'Sisl~a a isto, reslstt nda pn;>funda, írra-
freudiana do fetich ismo. Este tra uma (pe.rda d e referenciais) don.~l, demente, rnlio interessa, não tln'ia atrafdo esta enrrgi.a m.-.ciçill seNo
é semelhante ~ descoberta da diferença dos sexos pela criança, fusse un11 rt.~ i:UCnda " qualquer coisa a inda pior. A sua crueldade, o ~u
tão gra ve, tão profunda, tão irreversível: a fetichização de tl>rror est.lo de acordo rom tslt outro ltrror qul' I 11 nmfu• do rtal t do
um objecto surge pa ra ocultar esta descoberta ins uportável, r11dona/, qtJe se tem aprofundado no Ocidente c é umJ rcspo5ta a isso.
62 Sim11tacros t S1mulaçlo fttrn &udríltard 63

insurreição e não como ressurreição. No • real " como no que são, para os que conhecemos, o que o andróide é para o
cinema~ houve história mas já não há. A história que nos é homem: artefactos maravilhosos, sem falhas, simulacros
•entregue• hoje em d ia (justamente porque nos foi t omad..1) geniais aos quais não fa lta sen ão o imaginário, e esta
não tem mais relação com um • real histórico .. que a neofi· alucinação própria que faz o cinema. A maior parte dos que
g urac;ão em pintura com a figuração clássica do real. A neo- vemos hoje (os melhores) são já dessa categoria. Barry Lyndon
figurac;ão é u ma itrvocação da semel hança, mas ao mesmo é o melhor exemplo: n u nca se fez melhor, nunca se fará
tempo a prova flagrante do desapa recimento dos objt-ctos na melhor cm ... cm quê? Na evocação não, nem mesmo evocação,
sua própria representação: hiper~real. Os objectos t·êm aí, d e é sim11laçtlo. Tod ;~s <lS radiac;OC'S tóxicas foram filtradas, todos
alguma ma neira, o brilho d e uma hipersemclhanc;a (como a os ingredientes estão lá, rigoro samente doseados, nem um
his tória no cinema actua l) que faz com que no fundo não se só erro.
assemclhc~n a nada senão ~ fi~ura vazia da semelhança, à Prazer rucJi •, frio, nem sequer esti!tico no sen tido rigoroso
fo rma vazta da representaçao. É uma questão de vida ou de do termo: pra?er funcional. prazer equacional, prazer de
morte: esses objectos já não são vivos nem mortais. É por isso maquinação. Basta pensarem Visconti (0 l,~Dpartlo, Senso, etc.,
que são tão exactos, tão minuciosos, tão condensados, no qu,.e cm certos aspectos fazem pensar em Barry Lymlorr) para
estado em que os teria captado uma perda brutal do real. captar a diferença, não só de estilo mas no ado cinemato-
Todos estes filmes históricos mas não só: Chinatown, Os Três gráfico. Em Visconti há sen tido, histó ria, uma retórica sensual,
Dias do Cotrdor, Barry Lyndon,1900, Os Homens do Presidente, tempos mortos, um pgo apaixonado, não só n os conteúdos
etc., cuja própria pe.rfeição é inquie tante. Tem--se a impress.'o históricos mas na c ncenaç..io. Nada disto cn1 Kubrick, que
de se estar perante remakes perfeitos, montagens extraordi- manobra o seu filme como um ;ogo de xad rez, que faz da
nárias que relevam mais de urna cultura combina tória (ou his tória um cenário operacionaL E is to não remete para a
mosaico no sentido maclu han<:sco), a grande máquina de velha oposição do espírito de fiuesse c do cspfrito de gt.-ometria:
(oto, quino, his tó rio-síntese, etc., que de verdadeiros fílmes. isto releva ai nda d o jogo e de uma q u estão de sentido. E isto
Enten damo-nos: a sua qualidade não está ern causa. O pro- quando entramos numa era de filmes que não terão p ro-
blema é antes que n os deixam d e certo modo tota lmente p riamente sentido, d e g rand es máqu inas d e s íntese com
indiferentes. Tomemos l..ast Pidure Show: é preciso ser, como geometria variável.
cu, bas tante distraído para o ter visto como produção original l-lá já algo disto nos tvestems de Leone? Talvez. Todos os
dos anos 50: um muito bom filme de costumes c de ambiente regis tos deslizam neste sentido. Chiuatowt~: é o polar redese-
numa pequena cidade americana, etc. Só uma ligcira. s uspeita: nhado a laser. Não é verdade iramente uma q uestão de
era um pouco bom de mais, mais bem ajus tado, melhor que perfeição: a perfeição técnica pode fnur parte do sentido e,
os outros, sem as bravatas psicológicas, morais e sentimentais nesse caso, não é nem retro, nem hiper-realista, é um efeito
dos filmes da época. Confusão quando se d escobre q ue é um da arte. Aqui é um efeito de modelo: é um dos valores
filme d os anos 70, perfeito retro, expurgado, inoxidável, tácticos d e referência. Na ausência de sintaxe real do sentido,
restituição hipcr-realista dos filmes dos anos 50. Fala-se de
voltar a fazer filmes mudos, melhores, sem dúvida, também
eles que os d a época. Ergue-se toda uma geração de filmes • Dhcontrafdo. Em inglês no original. (N . do T.)
Srmul#cros e Srmulnção Jam Baudrillard 65

já não se têm senão os valores tticticos de um con junto onde, tica. A relação que se estabelece hoje cm dia entre o cinema
por exemplo, a C IA como máquina mitológica de fazer tudo. e o real é uma re lação inversa, negativa: resu lta d a perda de
Robert Redford como star"' polivalente, as relaÇÕt.'S sociais especificidade d e um e de o utro. Colagem a frio, pro-
como referência obrigatória à h istória, Q virtuosidndt' tlcuicn miscuida de rool, bodas assexuadas de dois mtdin frios que
como referência obriRnlória ao cinema se conjugam admiravel- evoluem em linha assimp tótica um em d irecção ao outro: o
mente. cinema te ntando abolir-se no absolul'o do real, o real desde
O cinema c a sua trajectória: do mais fantástico ou mítico há muito absorvid o no hiper-real cinematográfico (ou tele-
ao realístico c ti hipcr-realística. visionado}.
O cinema nas suas tentativas actuais aproxima-se cada A his tória era um mito forte, talvez o ú ltimo grande mito,
vez mais, e com cada vez mais perfeição, d o real absoluto, na a pardo inconsciente. Era um mito que s ubentendi_a a<:' mesmo
sua banalidade, na sua veracidade, na sua evidência nua, no tempo a possjbilidade de um encadeamento ~bJCCl iVOlt dos
seu aborreci mento c, ao mesmo tem po, na sua pn.•sunção, acontecimentos e das causas, e a possibilidade de um encadca·
na sua p retensão de ser o real, o imediato, o ins ig nificado, o mento narrativo do d iscurSO. A e ra da h istória, se se pode
q ue é a empresa mais louca (como a prctens.:'lo do funciona - dizer é também a e ra d o romance. é. este carácter falmiOStJ, a
li smo de designer - dtsig11 - o mais alto g rau do objecto na energia mftica de um acon tecimento ou d e uma narração,
sua coincidência com a sua função, com o seu valor de uso, que parece perder-se cada vez mais. Por detrás de uma l_ó gica
é uma empresa propriamente louca) nenhuma cu ltura jamais competen te e demo nstrativa, a obsessão de uma fidelidade
teve sobre os sig n os esta vis3o ingénua e paranóica, puri ta na histórica, de um resultado perfe ito (como o do tempo real o u
e terrorista. da quotidianidade minuciosa de Jean~ Hilmann la~a~do a
O t·e rmrismo ~sempre o do real. louça), esta fidelidade nega ti va e encarmçada à matenaltdad_e
Simultaneamente a esta tentativa de coincidência absoluta do pass.:1d o , d~ tal cena do passado ou do presente, à rcstt-
com o real. o cinema aproxima-se tam~m d e uma coinci- tuição de um s imulacro absoluto do passado ou d o p resente,
d ência absolu ta consigo próprio - e isto não é contraditó- e que se s ubstituiu a qualquer o utro valor - somos todos
rio: é mesmo a d efinição d e hiper-real. Hipoti pose e espe- cú mplices e isso é irreversível. É que o próprio cinema co~­
cularidadc. O cinema plagia-se, recopia--se, refaz os seus tribuiu para o d esaparecimento d a h_is tória e par_a o ..apareo-
clássicos, retroactiva os mitos originais, refaz. o mudo mais mento do arquivo. A fotografia c o cmema contnbUJram lar-
perfeito que o m udo d e origem, etc.: tudo isto I! lógico, o gamente para secu larizar a histó ri~, para a fixar n a sll:a forma
ci"emn está firschmdo cousiKo próprio como objecto perdid" tnl vis ível, «objectiva ~. à custa d os mttos que a percornam.
como está· (e 116s) rstamos fasciundos pelo real como re11l em O cin ema pode ho)e coloca r todo o seu talento, toda a sua
dissipação. O cin ema c o imag inário (roman esco, mftico, técnica ao serviço da reanimação daquilo q ue ele próprio
irrea lidade incJujn do o uso deli rante da sua própria técn ica) contribuiu para liquidar. Apenas ressuscita fa ntasmas e ai se
tinham outrora uma relação viva, dialéctica, p lena, dramá - perde ele próprio.

• Em ingl~ no original. (N. da T.)


Holocausto

O esquecimento da extermin ação faz parte d a extermi-


na~ão, pois o é também da memória, da história, do social,
etc. Esse esquecimento é tào essencial como o acontecime nto,
de qualquer modo impossível de encontrar para nós, inaces-
sfvel na sua verdade. Esse esquecimento é ainda demasiado
perigoso, é preciso apagá-lo por uma memória artificial (hoje
cm dia, por tcxJa a parte, são as memórias artificiais que
apagam a memória dos homens, que apagam os homens da
Hua própria memória), F...sta memória artificial será a reence-
nação da exterminação - mas tarde, d emasiado tarde para
poder fazer verdadeira s ondas e incomodar profundamente
Rlguma coisa e, sobretudo, sobretudo através d e um medium
ele próprio frio, irradiando o esquecimento, a dissuasão e a
-..xterminação de uma maneira ainda mais s is temát ica, se é
possível, que os próprios campos de concentrac;Ao. A tele-
visão. Verdadeira solu ção final para a historicidade de todo
u acontecimento. Fazem-se passar os judeus já não pelo forno
rn•matório ou pela câmara de gás, mas pela banda sonora e
pt'la banda-imagem, pelo ccrã catódico e pelo microproces-
""'dor. O esquecimen to, o aniquilamento alcança assim, por
fim, a s ua dimcnsiio estétjca - cumpre-se no retro, aqui
t•nfim elevado à d imensão de massas.
68 Simulacros e Simulaçlo /mil &mdrillard 69

A espécie de dimensão social histórica que restaria ainda lhes fará lançá-lo no esquecimento com uma espécie de boa
ao esquecimento sob a forma de culpabilidade, de latência consciência estética da catástrofe.
vergonhosa, de não dito, já nem mesmo existe, pois que a Para aquecer tudo isso, nao foi demasiada toda a orques-
partir de agora «toda a gente sabe», toda a gente vibrou e tração política e pedagógíca vinda de todo o lado para tentar
choramingou perante a exterminação- indício certo de que dar um sentido ao acontecimento (ao acontecime nto tele-
• isso... nunca mais ocorrerá. Mas o que assim com pouco visivo, desta vez). Chantagem e pânico à volta das conse-
esforço se cxorci7..a, a troco de i11gumas lág rimas, não ocor- quências possíveis desta emiss.."io na imaginação das c.r ianças
rerá de facto nunca mais porque desde sempre tem vindo, e d os outros. Todos os pedagogos e trab(llhadores sociais
actualmente, a reprod uzir-sc e precisamente na própria mobilizados para filtrar a coisa, como se houvesse algum
fonna em que se quer de.nundar, no próprio medium deste perigo de virulência nesta ressuscitação artüicial! O perigo
pretenso exorcismo: a televisão. ~ o mesmo processo de era, bem pelo contrário, o inverso: do frio para o frio, a
esquecimento, de liquidação, de exterminação, a mesma inércia social dos sistemas frios, da televisão em particulí'IT.
liquidaç~o das memórias e da h istória, a mesma radiação Era, pois, pn..'Ciso que todos se mobiHzólssem para voltar a
inversa, implosiva, a mesma absorção sem eco, o mesmo fazer social. social quente, dissuasão quente e, logo, comu-
buraco negro que Auschwitz. E querem-nos fazer crer que a n icação, a partir do monstro frio da exterminação. Faltam
televisão vai levantar a hipoteca de Auschwitz fazendo questões, investimento, história, palavras. Este é o problem<l
irradiar urna tomada de consciência colectiva, quando ela é a fund amental. O objectivo é, pois, o d e produzir isso a todo o
sua perpetuação sob outras espécies, sob os auspícios, desta custo e esta cmiss.''o servia esse fim. Captar o calor artificial
vez já não de um lugar de aniquilamento mas de um medium de um acontecimento morto para aquecer o corpo morto ào
de dissuasão. social. Desde a adição de mais mtdium adicional para reforçar
O que ninguém quer compreender é que o Holocausto é, o efeito por fecd-bnd:: sondagens ime<:Hatas vaticinando o efeito
em primeiro lugar (e exclusivamente) um acontecimento tele- maciço da emiss.'\o, o impacte colectivo da mensagem -
visivo (regra fundamental de Macluhan.. que não há que enquanto que c1s sondagens apenas verificam, como é
esquecer), isto é, que se tenta aquecer um acontecimento evidente, o êxito televisual d o próprio medium. Mas o
histórico frio, trágico mas frio, o primeiro grande aconteci- problema d esta confusão nunca deve ser susci tado.
mento d os sistemas frios, dos sistemas de arrefec.imento, de A partir daí, seria preciso falar da luz fria da televisão,
dissuasão e de extenninação que em seguida se vão desdobrar por que é que ela é inofensiva para a imaginação (inc.luindo
sob outras formas (inclusive a guerra fria, etc.) e dizendo a das crianças) pela razão de já não veicular nenhum imagi-
respeito a massas frias (os judeus, mais envolvidos pela sua nário e isto pela simples razão que não i mais qu~ unra imngtm.
própria morte, e autogerindo, eventualmente, massas mais Opô-la ao cinema dotado ainda (mas cada vez menos porque
revoltadas: dissuadidas até à morte, d issuadidas da sua cada vez rna.is contaminado pela televi~"io) de um intenso
própria morte) de esquecer este acontecimento frio através imaginário - porque o cinema é uma imagem. Isto é, não
de um mtdium frio, a te levisão, e para as massas elas próprias apena s um ec:rã e uma forma visual, mas um mito, uma coisa
frias, que terão aí oca sião de senti r apenas um calafrio tácti1 que ainda tem a ver com o duplo, o fantasma, o espelho, o
e uma emoção póstuma, calafrio dissuasivo também ele, que sonho, etc. Nada disso existe na imagem -televisão~t, que
70 Sim11lacros e Simulação

não sugere nada, q ue magnetiza, que não é, ela própria, mais C hina Syndrom
que um ecrã e nem mesmo isso: um ter minal m iniaturizado
que, de facto, se acha imediatamente na nossa cabeça - nós
é que somos o ecrã, e a televisão olh a para nós- tra nsis tori-
za-Jhe todos os neurón ios e passa como uma fita magnética
- uma flta, não u ma imagem.

A questã o fund amen tal está ao n ível da televisão e d a


informação. Ta l como a extermin ação d os judeus d esapare-
cia por d e trá s do aconteci mento televisivo de Holocausto -
tendo-se o medium frio da televis..'lo s ubstituíd o ao sistema
frio de e xter minação que a través dela se julgava exo rcizar -
também a Síndrome da Chím1 é um belo exemplo d a s upre-
macia do acontecimento nuclear que, esse, continua a ser
impn.wável c, de certa maneira, imaginário.
O filme mos tra-o, de resto (sem querer): não é uma
coincidê ncia que faz com que a televisão esteja justamente
no local o nde a acção se desenro la, é a intr usão da televis.1.o
na central que faz como que surgir o incidente nuclear -
porque é como que a sua anh..>Cipação e o seu modelo no
unive rso quo tidian o: televisão do real e do mundo real -
porque a televisão e a i nform;;tção em geral são uma forma
de catástrofe no sentido formal e topológico d e René Thom:
mu dança q ualitativa radical de um sistema completo. Ou
an tes, televisão e nuclear são da mesma natureza: por detrás
dos con ceitos «quentes» e neg u en trópicos de energia e d e
informação, têm a m~ma força d e dissuas."io dos s istem.-s
frios . A televisão é ela também um processo nuclear e m
cadeia, mas implosivo : arrefece e neutraliza o sentido c a
72 Simulacros t Sinwla{ão Jnm Ba~tdrillard 73

energia dos acontecime ntos. O mesmo se passa com o mesmo processo constituem muito exactam ente aquilo a que
nuclea r, por detrás de um p res u mível risco de explosão, isto chama mos u ma sfndrome - que seja d a China acrescenta-
é, de catástrofe quente, esco nde uma lenta catástrofe fria, n -lhe ai nd a u m perfume poético e mental de quebra-cabeças
u niversali zação d e um siste ma d e dissu as..i.o. ou d e s u plício.
Ainda sobre o fim d o filme, é a intrusão maciça d a Obcecante conju nção da Sfndrome du Clliua e de Har-
im prens.1. e da televisão q ue provoca o d rama, o homicí- risbu r~. Mas será tudo isto involuntário? Sem discernir elos
d io d o d irector técnico pelas Brigad as Especiais, d ra ma mágicos entre o simulacro c o real, é claro q ue a Sínd rome
substitutivo à catástrofe nuclear q ue não chegará a vcrifi- não é estra nha ao acidente «real» d e Harrisburg, nJ.o segundo
c.u -se. uma l~ica causal, mas pelas relações de contágio e de
A homologia do n uclear c da televisão lê-se d irl"Cta mentc analogia sílcnciusa q ue ligam o real aos modelos e aos
nas imagens: nada se parece mais com o núcleo d e etmtrolc simu lílcros: à induçtro do nuclear pela televis:\o no filme
c d e telecoma ndo da central que os estúd ios da tclc\•isão, c responde, com uma evid ência pe~rbad~rêl, a i ud11çtio pe! o
as consolas nucl eares confundem-se, no mt.>smo imflgin j rio, filme do acid e nte n udcélr d e J-larnsburg. Estra nha p rcccssao
com as dos estúdios d e g ravação e d e d ifus.io. Ora tudo se de um fil me sobre u rc<tl, n ma is t."Spantos.1 à qual nos foi
passa en tre estes dois pólos: do ou tro «nücleo~. o d n reactor, dado as.-.;istir: o real n..'Spondeu, ponto por ponto, ao simulacro,
em p rincípio o verdade iro núcleo d a q uestão, não saberemos inclusivamente no carácter suspensivo, inacabado, d a
nada , esse é como o real, fugidio e ilegível, e no fundo sem catástrofe, o que é t.•s.••cncial do ponto de vista da dissu asão:
importância no filme (quando tentam sugeri-lo, na catástrofe o real acomodou -!:>C, à imagem do filme, para produzir u ma
iminente, n."io resu lta no plano imagi nário: o drama d\."SC:t\rola- simulação de catt\s tro(c. .
--sc nos ecrãs, e em mais n enhum lado). Daí a invt>rlt•r a m~~1 lógica e a ver nn Sfudmme da Chmn
o verdadeiro acuntL'Cimcnto c c m Harrisbu rgo seu s imulacro,
Hurrisburg 111, Wntergnte e Network : é essa a trilogia d a Sfn- não vai mais qui.! um passo q ue se d eve dM alcgrcmcn~e. É
d rome da China - trilogia incxtricável e m q ue ~í não se sabe pela mesma Júgica <1uc a realid ade nuclear procede n~ f1lme
q u al é o efeito ou a sfnd rome do outro: o argumento id eo- do efeito tclcvis.'"io e q ue Harrisbu rg proa.:d c na «rcah dade»
lógico (efeito Watergate) não é mais qu..e o sin toma do do efeito de cinema Sfmlrume da Cititra.
nuclear (efeito Harrishurg) ou do modelo info rmático (efeito Mas este também não é o protótipo origi nal de 1-larrisbu rg,
Network) - o real (Harrisburg) não é mais que o sin toma do u m não é o simulacro de q u e o outro seria o rea l: não há
imaginário (Network e Síndrome da Ch ina) ou o inverso? senão simulilcros c t-larrisburg é uma espécie de si mulação
Maravilhosa indistinção, cons tela ção id eal da simulação. de 5q,.Pllnda categoria. Há de facto algu res u ma reacção em
Maravilhoso título, pois, esse d e Sfndrome da Oriua, pois a cadeia c talvez ven hamos a morrer por sua caus..--. , mas esta
reversibilidade dos sintomas c a sua convergên cia num rtncçtJo m1 cadeia """'" ~ n do n uclear, é a dos si, wlncros .e d a
simulação em que se afunda e fectiva mente toda a energ1a d o
real, já não numa explos..'l.o nuclear espectacular, mas n u ma
1 O acidente na Cftltra l nuclear de Thrce Miles lsland, que H deu imp losãosec:retacconHnua e que toma h oje talvez uma forma
pouco depoi~ da estreia do fil~. mais mortal q ue todas as explosões com q u e nos embalam.
74 Simulacros e S im1dação /Mil Baudrillard 75

É que a ex plosão é sempre u ma promessa, é a nossa esfX-~ jornalistas, que se reprod u zisse n essa ocasião o acid ente
rança: veja-se como, no filme como em Ha rrisburg, toda a ligado ao olho mágico, à presença provocadora dos media.
ge nte espera a explosão, que a destruição m ostre o seu rosto Infelizmente nada aconteceu . E no entan to aconteceu! tão
e nos liberte deste pâ nico inominável, deste pânico de d issua- poderosa é a lógica dos simulacros: uma semana d epois, os
são que esta exerce sob a forma invisível do n uclea r. Q ue o sindicatos descobriam fissuras nas centrais. Mílagre dos
«n úcleo>' do reactor revele por fim a sua ca lorosa potên cia d e contágios, mi lagre das reacções a nalógicas em cadeia!
destruiçào, que nos sossegue sobre a presença, mesmo ca tas· O essen cial do filme não é, pois, de modo algum, o efeito
trófica, d a energia e nos gratifique com o seu espectáculo. A Watcrgate na pessoa de Ja ne Fonda, de modo algu m a tele-
infelicidade é que não exis te espectáculo do nuclear, da ener- visão reveladora dos vícios do nuclear, mas pelo contrário a
gia nuclear em si própria (H iroshima acabou --se} e é por isso televisão como órbita gémea e reacção gémea em cadeia da
qu eel<t é recusad a - seria perfeitamente aceite se se prestasse do nuclear. De resto, mesmo no fi m - e aí o filme é impiedoso
ao espectáculo como as formas d e energia anteriores. Pa rusia para com o seu próprio argumen to - q uan do Jan e Fonda
d a catástro fe: alimento su bstancial d a nOSSc1 libido messiânica. fa z eclodir a verdade em directo (e feito Waterga te máximo),
Mas justamentt! isso já não acontecerá. O q u e acontect!rá a sua imagem e ncontra-se justaposta àq uela que lhe vai
já nunca mais será a explosão mas a implosão. Nunca mais a suceder sem apelo e apagá-la no ecrã: um flash p ublicitário
energia sob a forma espectacular e paté tica - todo o roman- qualquer. O efei to Network leva de lo nge a melhor sobre o
tismo da explos.:'lo, que tin ha tanto en canto, q ue era ao mesmo efeito Watcrgate e expande-se misteriosa men te no efeito
tempo o encan to da revolução - mas a e nergia fria do Ha rrisburg, isto é, não no perigo nuclear, mas na simulação
s imulacro e a sua d estila ção e m dos<.-s homeopá ticas nos de catástrofe nuclear.
s istemas frios d a informação.
Ora é a si mulação q ue é eficaz, nunca o real. A simulação
Com q ue ou tra coisa sonham os media senão com ressus- de catástrofe nu clear é o meio estratégico desta empresa
ci tar o acontecimento pela sua s imples p resen ça ? Todos o genérica e u niversal de d issu asão: adestrar os povos n a ideo-
deplora m mas todos estão secre tamente fascinados com essa logia e na d isciplina da segurança absolu ta - adestrá-los na
eventualidad e. Essa é a lógic21 d os sim ulacros, já n ão é a me tafísica d a fiss.:io e da fissura. Para isso é preciso que a
predestinação d ivina, é a pn..""Cessão dos modelos, mas é fissu ra seja uma ficção. Uma catástrofe real atrasaria as coisas,
igua lmente inexorável. E é por isso que os acontecimentos constituiria um acidente retrógrado, de tipo explosivo (sem
já não têm sentid o: não é que sejam insignifican tes em si mudar nada ao cu rso das coisas: terá, por acaso, H irosh ima
próprios, é que foram p reced idos pelo modelo, com o qual o retardado sensivelmente, d issuadido o processo universal
seu p rocesso mais não faz que coin cidir. Assi m, teria sido de dissuasão?).
maravilhoso q ue o cen ário da Sí11dromc da China se repetisse No filme também a fusão real seria u m mau argumento:
em Fessenheim , aquando da visita oferecida pela EDF"" aos cairia ao nível d e u m filme de catástrofe - fraco, por defi-
nição, pois remeteria as coisas para o ~u acontecimento
puro. A Sfndrome da China, essa, retira a sua força da filtra-
• EIKtricité de france. (N. da T.) gem da catástrofe, da destilação da obsessão nuclear através
76 Simulacr05 e Simulação

d as mediações h ertzia nas o mnip resen t·e s d a info rmação. Apocalypse Now
Ensina (mais uma vez sem querer) q ue a cattfst rofe nuclear não
existe, ntJo l feUa para existir, tão-pouco no real, tal como se
passa com o conflito atómico à beira da gue rra fria. O equilí-
brio do terror repousa no e te rno suspense do conflito a tó mico.
Átomo e nuclear ,5('o feitos para serem d isseminados com
fins dissuasivos, é predso q u e a potência da catástrofe, em
vez d e explod ir estu pidamen te, se~, d isseminada e m d oses
homeopáticas, mo leculares, nos canais contínuos da informa-
ção. É aí que está a verdad ei ra contam inação: n unca biológica
e rad ioactiva, mas uma descstru turac;-'o mental mediante
uma estratégia me ntol) da catástrofe.
Se vi rmos bem, o filme introd uz -nos nisso e, ao ir ainda
ma is longe, dá-nos mesmo um ensina mento d iametralmente Cop pola faz o seu film e como os a merica nos fizeram a
oposto ao de Wa tcrga tc: se toda a estraté'gia hoje e m d ia é de gue rra - neste sentido é o melhor testemu nho possível -
terror mental c de d issua~"lo ligada ao suspcn~ e à eterna com o mesmo exagero, o mesmo excesso de meios, a mesma
simulação de catástrofe, e ntão a única ma neira de remediar candura mons truosa... e o mesmo êxito. A g uerra como meio
este cenário seria {nu11do ncoutccer a catástrofe, produzindo de a rruinM, como fantas ia tecnológica e psicadélica, a g uerra
ou reprod uzindo 3 ca tástrofe real. Ao que a N aturez..'l se como sucessão de efcitos especiais, a guerra que se transfor-
entrega de tempos a te mpos: nos seus mo mentos de inspi- mou em filme muito a ntes de ser rodada. A guerra abole-se
ração é Deus que, pelos seus cataclismos, desfa z o equilíbrio no teste tecno lógico c pa ra os ame rica nos ela foi mesmo um
do terror em que os humanos esUio encerrados. Mais perto primeiro mo mento: um banco de ensaio, um gigantesco ter-
d e nós é a isso que se entrega ta mb6m o terrorismo: a fazer reno pa ra testar as suas armas, os seus métodos, o seu poder.
s urgir a viol ência real, palpá vel, contra a vio lência invisível Coppola faz isso mesmo: testa r o poder de intervenção do
da seg urança. 't af, de resto, que reside a s ua ambiguidade. cinema, testar o impacte de um cinema que se tornou n uma
máquina des med ida de efeitos especia is. Neste sentido o seu
filme é, ai nda assim, de facto, o prolongamento da g uerra
por outros meios, o remate desta guerra inacabada e a sua
apoteose. A guerra faz-se filme e o filme faz-se g uerra, ambos
se junta m pd a sua efusão comu m na técnica.
A verdadei ra g uerra é feita por Cop pola como por West-
moreland: sem contar com a ironia ge.n ial d as florestas e das
aldeias filipinas queimadas com uapal m para reconstituir o
inferno do Vietname do Sul: retoma~ tudo isso pelo cinema
e recomeça-se: a alegria molochiana da rod agem , a alegria
78 Simulacros t Sim ulnção fmn &udrillnrd 79

sacrificial d e tantos milhões gastos, de um tal holocausto d e mente), esta ganharam-na com toda a certeza. Apocalypse Now
meios, d e tantas peri pécias e a para nóia g ritante q ue desde é uma vit·ória mundial. Poder cinema tográfico igual e supe-
o principio concebeu este filme como u m acontecimento rior ao das máquinas ind ustriais e militares, igua l ou supe-
mundial, histórico, no qual. no espírito do seu criador, a rior ao d o Pentágono e dos governos.
g uerra do Vietname não tivesse s ido o que é, não tivesse E ao mesmo tempo o filme não deixa de te r in teresse:
existido, no fundo- e bem podemos acreditar nisso: a guerra esclarece retrospectivamente (nem sequer é retrospectivo~
do Vietname ..:cm si mesma » talvez d e facto nunca tenh.t1 pois o fi lme é uma fase d esta guerra sem d esenlace) como
existido, é um sonho, um sonho barroco de uapalm e de esta g ue rra estava já Oipada~ louca em termos políticos.,: os
trópico, um sonho psicotróp ico onde n ão estava em causa americanos e os vietnam itas já se reconcilia ram~ imediata·
uma vitória ou uma política, mas a osten ta ção sacrificial. mente após o fim d as hostilidades os a merican os o fereciam
d estemida, de uma potência filmando-se já a s i p rópria no a sua ajuda económica, exactamente da mesma maneira que
seu d esenvolvime nto, n ão cspcr11ndo talvez. n.;'lda mais que a.niqu ilaram a selva c as cid ades, exactamente da mesma
a consagração de um supcrfilme, que remata o efeito de maneira que fazem hoje o seu filme. Não se te rá compref:m-
espectáculo de massas desta guerra. dido nada, nem da guerra n em do cinema (dt."Ste, pelo menos)
Nenhum distanciamento real, nen hum sentido critico, se não se percebeu esta indis tinçdo q ue j.í não é a indistinção
nenhuma vontade de .c tomada de consciência" em relação à ideológica o u mo ral, do bem e do mal, ma s a da reversibi-
guerra: e de uma certa maneira é a qualidade brutal d este lidade da destruição c da produç;io, da imanência d e uma
filme não estar corrompido pela psicologia mo ral da guerra. coisa na s ua própria revolução, do metabolismo orgân ico de
Coppola bem pode rid icu larizar o seu capitão de he licóp tero todas as tec.nologías, d1.."Sde o tapete de bombas até à película
fazend~o usar um chapéu da cavalaria lig eira e fazen do-o filmica ...
destruir i' aldeia vietnamita ao som da música d e Wagner -
não se trata af de sinais criticos, d ista ntes, é algo de imerso
na máquina, fazem parte do efeito l'SJX.'Cial c ele próprio faz
cinema da mesma maneira, com a mesma megalomania retro,
com o mesmo furor insignificante, com o mesmo efe ito
sobremultipHcado de fantoche. Ma s ele d esfecha-nos isso, af
está, é assombroso e pode pensar-se: como é que tal horror
é possível {J\ão o d a guerra, mas o do filme)? Não há, con-
tudo, resposta, nAo há ju{zo possfvel, e podemos mesmo
rejubila r com este truque monstruoso (exacta mente como
com Wagner) - mas pode, porém, assi nalar-se uma ideiazi-
n ha, que não é má, que não é um juízo de valor, mas que n os
d iz que a guerra do Viet nJme e esse filme são talhad os no
mesmo material, que nada os sepa ra, q ue esse fi lme faz parte
da guerra -se os americanos perderam a outra (aparente-
O efeito Beaubourg
Im plosão e dissuasão

O efeito Beaubourg, a máq u ina Bcaubourg, a coisn


Beaubourg - como dar~lhe um nome? Enigma desta carcaça
de flu xos e de signos, de redes e de circuitos- última velei-
dade d e trildu zi r uma estrutura que ~""\ nlio tem nome, a
estruturil das r~laçiM!S sociais cntrcgul."S à ventilação super-
ficial (animaçiio, autogcstão, i nformaç~o. mi!din ) c a uma
i mplos.~o irrcvcrsivcl cm p rofundidade. Mon umento aos
jogos de simulação de massas, o cent ro funciona como um
incincraUor qt~e .-.bsorve toda a energia cultural d evorando-
-a - d e certo modo como o mon ólito n egro de 2001: con -
veo;ào lou ca de todos os conteúdos q ue aí vieram mate-
rializar-se, absorver-St: e an iquilar-se.
Tudo à volta do bairro não é mais que um verniz -
limpeza da fachada, desi n fecção, d~ign st~ob c higiénico -
mas sobretudo mentalmente: é uma máquina d e produzir
vazio. Decerto modo romo as centrais nucleares: o verdadeiro
perigo qut! t!las constitu em não é a inseguran~a, a poluição,
,, explosão. mas o siste ma de segu rança máximo q u e irradia
.'\ sua volta, um verniz de controle e de dissuasào que se
t-stend e, a pouco e pouco, a todo o território, ve rniz técnico,
t'COlógiro, económico, geopolítico. Que importa o nuclear se
,, central ~ uma matriz onde se ela bora um mod elo d e segu-
82 Srmulacros t SrmuiQ(Ifo Jton Baudrillard 8J

ranc;a absoluta, que vai g cncroliza r-se a tod o o campo social e contrndição que é a da coisa Beaubourg: um exterior móvel,
que é p rofu nda men te um modelo d e dissuasão (é o mesmo comutantc, roo/ c moderno - um interio r c rispado sobre os
que nos rege m u ndia lme nte sob o signo d a coexist~ncia velhos valor...~ .
pacifica e da simu lação d e perigo atómico). Este espaço de dissuasão, articulad o sobre a id eologia de
O mesmo modelo, guardand o as devidas proporÇÕL'S, ~ visibilidade, de transparência, de polivalência, de consenso e
elabora no Cen tro: fissão cultural, d issuasão política. d e contacto, é virtualmente hoje em dia o d as relações sociais.
Dito isto, a ci rculaç.lo dos flu id os é d esigua l. Vcnti la~3o, Todo o discurso social está ai presente e neste p la no, como
arrefecimento, redes eléctri ca s - os fluidos c<t ra diciona is·~ no do tratilmc nto da cu ltura, Bcaubourg é, cm total contra-
circu lam aí muito bem. Já a circu laç.lo do fluido huma no é dição com os seus objectivos expHcitos, um monu mento genial
menos bem assegurada (solu ção arcaica d as escad as rola ntes da nü,, .,., mut,:h:rnidade. É bom pensa r q ue a ide ia não veio ao
nos cilindros d e plástico, d everíamos ser aspirad os, p ropul- cspirihl de um qualquer revolucionário mas sim ao d os
sad os, sei lá, mas u ma mobilid ade que esteja à a ltura desta lógicos da ordem cstabe.lecida, d estituídos de qualque r espí-
teatralidad e barroca dos fluidos que constitui a originalidade rito critico e, logo, 1n.1is p róximos da ve rd ade, capazes, na.
da carcaça). Quanto no mate ria l d e obras, de objc<:tos, d e sua obstinaç<'to, d e pôr em funcioname nto uma máqui na no
livros c ao es pa ço interior d ito «poli va lente)•, já nadn circula fu ndo incont roltivcl, que lh es esca pa no seu p róprio êxito, e
de todo. Quanto mai s nos e nte rramos cm d irecção no int~­ que é o re flexo mais exa cto, até nas s uas co ntradições, do
rior, menos circula. ~ o oposto d e Roissy, ond e d e um centro esta d o de coisas actual.
futu rista com design •espacial» irrad ian do para •satélites• ,
e tc. se chega, muito terrenamentc a ... aviões tradicionais. Claro que todos os conteúdos culturais d e Bcaubourg
Mas a in coerência é a mesma. (Que se passa com o d il\hciro, são anacrón icos porq u e a este invól ucro arquitectón ico só
esse outro fluido, que se passa co m o seu modo de ci rculaçito, pod eria ter correspondido o vazio interior. A impressão
d e emulsão, d e recaída em Beau bou rg?) geral é de que tud o aqui está em coma profundo, que tudo
A mesma contrad ição se verifica a té nos comportamen tos se quer a n imação e n ão é mais que reani mação c q ue está
do pessoa l d estinado ao espaço •~"polivalente» e sem espaço bem assim, pois a cu ltura morreu, o que Beaubou rg d es-
privad o de trabalho. De pé e em movimento, as pesso.'ls creve ad miravel mente, mas de maneira vergonhosa, q uando
afectam um com portamento coo1 •, mais su btil, m ui to drsign, se deveria te r aceite triunfalmente esta morte e ter erigido
ad aptado à .. estrutura" de um espaço «modern o». Sentados u m monume n to ou um a ntimonum en to equivale nte à
no seu ca nto, que ne m sequ er é verdad eirame nte isso, um inanidad e: fá lica d a Torre Eiffel no seu tempo. Monumento à
ca nto, esgotam-se segregando u ma solid ão artificial, a refazer d escon exão total, à hiper· realidade e à implosão da cu ltura
a sua +~bolha». Bela táctica d e d issuasão aí tam~m: são con - - fe ita hoje e m d ia para nós como um efeito de circui tos
denad os a em p regar toda a sua energia n esta d efensiva indi- transis to rizados, sempre espreitados por um curto-circuito
vidual. Curiosamente, voltamos a e ncontrar, assim, a mesma gigantesco.
Beaubou rg é já uma comp ressão à César - figura d e
u ma tal cultura que é esmagada pelo seu próprio peso -
• Em inglês no original. (N. d a T.) como os móveis auto móveis congelados de repente d e ntro
84 Simulttcros t Sirrudaçlo Jrrm &wdr11l1rrd 85

de um sólido geométrico. Tal como as carripa nas d e Césa r bonetos, da refinação, do crackilrg • da partição de moléculas
saídas sem beliscadura de u.rn acidente ideal, já não exterior. culturais c da s ua recombinação em produtos de síntese.
mas interno;\ estrutura metálica e mecânica e que teria feito Isto, Bcaubourg-Museu q uer escondê-lo mas Beaubourg-
uma grande quantidade de ferro-velho cúbico em que o caos ~rcaça proclama-o. E é o que constitu i profundamente a
de tubos, alava ncas, ca~aría, metal e carne humana no bcle7...a da c~rcaça e o fraca sso dos espaços interiores. De
interio r é talhado à medida geométrica do mais peque no todas as m,mci r.ls, a própria ideologia da t~produção cul tu-
espaço possível - assim a cultura de Beaubourf; está fractu- ra h• é n antítese de toda a cultura, como a de visibilidade e
rada, torcido, cortada e prensada nos seus mais JX-qu cnns de esp<H:o polivalente: a cultura é um luga r d e segred o, de
elementos !'imples- feixe d e trans missões c mctélbolismo sedução, de iniciação, de uma troca si mbó lica restrita e alta-
defunto, congelado como um mecanóidc de ficçi\4..' científica. mente ritualizada. Nada a fazer. Tanto pior pa ra as massas,
Mas em vez de partir e de comprimir aqui toda a cultura tanto pior parn Beaubourg.
nesta carcaça que de tod as as maneiras tem o ar de uma com-
prl'SSc,o, em vez disso e xpõe-se César. Expl)e.SC Oubuffct e a Mas que haveria, pois, que pôr em Beaubourg?
oontracullura, cuja simulação inversa ~rvc de referencial à Nada. O vazio que significasse o d esaparecimcnt·o de
cultura defunta. Nesta carcaça que poderia ler servido de toda a cultura do sentido e do sentimento esté tico. Mas isto
mausoléu à operacionalid ad e inútil dos signos, reexpõem-se é ainda demasiado romântico e dilacerante, esse vazio teria
as máquinas efémeras e autodestruidoras de Tinguely sob o ainda o va lor de uma obra de arte de anticult u ra.
signo da eternidade da cultura. Assim se ncutrali:r...c1 lodo o Ta lvez um rodo pio de luzes estroboscópic"as e giroscó-
conjunto: Tinguely é embalsamado na instituição do museu, picas, cstria ndo o espaço d o qual a multidão teria fornecido
Beaubourg é aba tid o sobre os seus pretensos conteúdos o elemento móvel de base?
artísti cos. De facto Bcaubourg ilustra bem o ff\cto de que uma cate-
Felizmente todo L"Ste s imulacro d e va lores culturais é goria d e simulacros não se sus tenta senão com o alibi d a
aniquilad o com antecedência pela arquitectura exterior m. É categoria a nterior. Aqui, uma ca rcaça toda de nuxos c cone-
q ue esta, com as suas redes de tu bos e o seu ar de edifício de xões de supc rffcíe dá a si própria como conteúdo uma cu ltura
exposições ou de fei ra universal, com a sua fragilidade (cal- tradicional da p rofundidade. Uma ca tegoria de sim ula cros
culada?) dissuasiva de toda a men talidade ou monumentali- anterio res (a do sentido) fornece a s ubstância vazia de uma
dade tradicional, proclama aberta mente q ue o nosso tempo categoria u lterior que. essa, já nem conhece a distinção entre
nunca mais será o da duração, que a n<>S&, tcmporaHdade é o significa nte e o significado, nem entre o continente e o
a do ciclo acelerado e d a reciclagem~ do circuito c do trânsito conteúdo.
d os fluidos. A nossa ún ica cultura no fundo é a d os hidrocar- A pergunta: «Que se deveria pôr em Beaubourg?• é, pois,
absurda. Não se lhe pode responder porque a distinção tópica

1. Ainda outrJ coisa .,1niquila o pro;«to cultura l de Be.tubourg: as


próprias massas que aí anuem para o go7.ar (voltaremos a este ponto mais ~ P'rocti$o de transformação de petróleo em derivados por meio de
adia nte), calor e press3o. Em inglês no original. (N. da T.)
86 Simulacras e SimrllnçiW /toll &udrillnrd 87

entre o interior e o exterior já não deveria ser colocada. É aí p ara elevar as massas a esta nova ord em semiúrgica que elas
que reside a noSS<'\ verdade, verdade de Moebius - utopia SeiO aqui chamadas - sob o p re texto oposto de aculturá-las
irrealizável, sem dúvida, mas à qual Beaubourg não deixa de ao sentido e à profu ndidade.
dar razão, na medida em que qualquer dos seus conteúdos é Há, pois, q ue partir deste axioma: Bca ubou rg é u m monu-
um cotllra-senso e está antecipadamente aniquilado pelo con- mento de dissuasão cultural. Sob u m cenário de mu seu que só
tinente. ser ve p3ri1 s(llv.lT i1 ficção humanista de cultura, é um verd a-
No entanto - no entanto ... se d evesse haver al guma deiro trabalho de morte da cultu ra CJUe aí se faz e é a um
coisa em Beaubourg- deveria ser labirinto, uma biblioteca verd,ldí'i ro trabalho de luto cultural aquele a que as massas
combinatória infinita, uma redistrib uição aleatória dos d esti- são alegremen te chamadas.
nos pelo jogo ou pelas lotarias- em resumo, o universo de E elas precipitam-se para lá. É essa a Sllprema ironia d e
Borges- ou ainda as Ru ínas circulares: encad eamento d es- Beaubmu g: as massas precipitam-se para lá não porque
multiplicado de indivíduos sonhados uns pelos outro~ (não salivcn1 por essa cultura de que estariam p rivadas d esde há
uma Disneylândia d e sonho, um laboratório de ficção prática). séculns, mas porque têm pela primeira vez a oport u nidade
Uma experimentação d e todos o s p rocessos diferentes da de participar maciçamente nesse imenso tr<1balho de Ju to d e
representação: difracção, implosão, desmultiplicac;ào, en ca- u ma cu ltu ra que, no fundo, sempre d etestaram.
deamentos e desencadeamentos aleatórios- de certo modo O mal-entendido é, pois, to tal quan do se denuncia
como no Exploratorium de São Francisco ou n os romances Beaubourg como uma mistificação cultural de maSS('IS. As
de PhiHp Oick- em resumo, uma cultura da s imulação e da massa s, essas, p nxip itam-sc para lá para gozar CSSi\ morte,
fascinação, e não sempre a d a p rodução e do sentido: e is o essa d t>cepção, essa prostituição operacíonal de u ma cultu ra
que poderia ser proposto que não fosse uma miserável an ti- por fim verd adeiramente liquidada, incluindo toda a con-
cu ltura. Será possível? Não de maneira tão evid ente. Mas tracultura que não é senão a sua apoteose. As massas afluem
essa cul tu_ra faz-se noutro sítio, em toda a p arte, em lado a Beaubourg como afluem aos locais de catástrofe, com o
nenhum. A partir de hoje a única verd adeira prática cu ltu ral, mesmo impulso irresistível. Melhor: elas siio a catástrofe de
a d as massas, a nossa (já não há diferença) é uma prática Beaubourg. O seu número, a sua obstinação, o seu fascín io, o
manipulatória, aleatória, labirintica de sign os e que já não seu pntrido de ver tudo, de manip ula r tudo é um compor-
faz sentido. ta mento objectivamente mortal e catastrófico para qualquer
empreendimen to. Não só o seu peso põe em perigo o edifício
Contu d o, de uma outra maneira, não é verd ad e q ue em como a sua adL'São, a sua curiosidade aniq uila os próprios
Beaubourg haja incoerência entre o con tinente e o conteúd o. conteúdo~ de~ ta cultu ra de animação. Este rush"' já não tem
É verdade se se der algum crédito ao projecto cu ltural o ficial. qualque r medida comum com o que se propunha como objec·
Mas é exactamente o oposto que se faz. Beaubourg não é tivo cultural, é mesmo a sua negação radical, no seu excesso
mais que um imenso trabalho de transmutação d essa famos.'l c no seu próprio êxito. ~io, pois, as massas que fazem o
cultura tradicional do sentido para a categoria aleatória dos
signos, para uma categoria de simulacros (a terceira) perfei-
tamen te homogénea à dos fluxos e dos tubos da fachada. E é • Arremetida. Em inglês no original. (N. da T.)
88 Simui~Jcros t Simulaçdo /tall Baudrillard 89

pilpel de agente catastrófico nesta estrutura de catbtrofc, Mo homogéneo. Imenso movimento de vaivém semelhant·c ao
as pr6prias massas que põem fim A cultura dt massas. dos comm lltcrs • dos arredores, absorvidos e repelidos a horas
Circulando no espaço da transparência, são, decerto, con- fixas pelo seu local de trabalho. E é mesmo de um trabalho
vertidas em fluxo mas ao mesmo tempo, pela sua op.1cidadC' que aqui se trata- trabalho de teste, d e sondagem, de inter·
e inércia, põem Hm a este espaço «polivale nte•. São convi- rogaç~o dirigida: as pessoas vêm seleccionar aqui objectos-
dadas a participar, a simular, a brincar com os modelos - ·respo=-tas a todtiS as perguntas que podem fazer, ou antes,
fazem ainda melho r: participam e manipull"m t:to hcm qut.• vêm l'll>s l'rc5prios em resposta à pergunta funcional e dirigida
apagam todo o sentido que se quer da r à npt:raçào c põem que os objectos constituem. Mais que uma cadeiâ de trabalho
exn perígo até a infra~estrutura do edifício. Como ~mpre tratawSC, pois, de uma disciplina programática, cujas limitações
acontece uma espécie de pa ródia, de hipcrsimulru;:10 cm se ap.,garam por detrás de um verniz de tolerância. Muito
resposta à simula ç:l\o cul tural, transforma as massas, t.JUC n~o além d11s inslituiçôt.'S tritdicionais do cttpital, do hipermercado
deveriam ser mais que o cl!cptel• da cultura, no cxccuhlrque ou Bcaubourg • h ipermercado da cu ltura,. está já o modelo
mata esta cultura, da qual Beaubourg era a cnecunaçãn ver- de toda a rormól futura de socialização controlada: retotali·
gonhosa. 7Al<;~o num t-spaço-tempo homogé neo de todas as funções
Há que aplaudir este êxito da d issuas..'o cultu ral. Todc.lS disper.N'lS, do corpo c da vida social (t rabalho, tempos livres,
os antiartistas, esquerdistas e detractores de cultura 1lunca medra, cultura), retranscrição de todos os fluxos contraditórios
tiveram, nem de longe, a eficácia d issuasiva deste monu· em t~rmos de circuitos integrados. Espaço.-tempo de toda
mental buraco negro que é Beaubourg. É uma operação umn simulação operacional da vida socinl.
verdadeiramente revolucionária, justamente porque é invo· Par.1 isso é preciso que a massa d os consumidores seja
Iuntá ria, louca e incontrolada. enquanto as tentativas sensatas equivalente ou homóloga da massa dos produtos. li. o con·
de acabar com a cu ltu ra não fi7..eram ma is, como se sabe, que fro nto c íl fusão d estas duas massas que se operam no hiper·
ressuscitá· la. merendo du mt."Smo modo que em Beaubourg c que faz deste
algo de muito diferente dos locais tradicionais da cultura
Em rigor, o único conteúdo de Beaubourg são as próprias (museus. mon umentos. galerias, bibliotecas, casas da cultura,
massas, que o edifício trata como um conversor, como uma etc.). Aqui elabora.-sc " masSil crítica para al~m da qual a
câmara escura ou, cm termos de input-output, cxact<~mcnte mercadoriól se torna hi~rmercadoria, e a cultura hipercultura
como uma refinaria trata um p roduto pctrolf(ero ou um - isto é, ~~ n ão ligada a trocas distintas ou a necessidades
fluxo d e matéria bruta. determinadas, mas a uma esp&:ie de universo sinalético to-
Nunca foi tão claro que o conteúdo - aqui a cultura, ta l, ou de circuito integrado percorrido de um lado ao ou\ro
noutro sítio a informação ou a mercadoria - é a penas o por um impulso, trânsito incessante de escolhas, .de lei~uras,
suporte fantas ma da operação do próprio medilmr, cuja função d e referências, de marcas, de d escodificaç(lo. Aqut os ob,ectos
é sempre induzir massas, produzir um nuxo humano e mental

• Os que vlvt:m nos ;uT<->dures d01S cidadC't. Em inglk no original.


• O gado dado 11 criar em arrendamento. (N. da T.) (N.dt'IT.)
9Q Simulacros e Simulação Jean 8audri/lnrd 91

culturais, como nou tros sítios os objectos de con sumo, não multidão, o ar comprimido) pela sua pr6pria circulaçãv acc-
têm outro fim que o de nos ma nterem em estado de massa lernda.
integ rada, de fluxo transistorizad o, de molécula magnt!tizad(l,
É isso o q ue se vem aprender num hipermercado: a hiper- Mas se os stocks de objectos induzem o arma7..enamento
-reaHdade da mercadoria - é isso que se vem aprender a dos homens, a violência latente no stock de objectos induz a
Beaubourg: a h iper-realidade da cultu ra. violência oposta das pessoas.
Já começa com o museu lrftdicional este corte, es te Q ua lquer ::lock é viole nto e existe u ma violência em
reagrup;unento, esta interferência de todas as cu lturas, esta qualquer ma~c;., de pessoas também, pelo facto de q u e ela
estctiza ção incondicional qu e faz a hiper-rcalid<~de da cultura, implode- violênciil própria à gravitação, à sua densificação
mas o museu é ainda uma memória. Nu nca como aqui a cu l- em torno do seu próprio foco de inércia. A massa é foco de
tura tinha perdido a sua memória t.!m favor do itn nilzena- inércia c d aí loco d e uma violência completamen te nova,
mento e da redistrib u ição funcion al. E isto traduz um facto inexplicável c diferente da violência explosiva.
mais gera l: é que por todo o mun do «civilizado» a construção Mílss.."l crít ica, massa implosiva. Para além dos 30000, a
de stocks de objectos conduzi u a um processo complt:!mentar estrutura de tlem1bourg cor re o ri~<.'O de «vergar». Que a
dos slocks de pt..">SSO.:'lS, à fila, à espera, ao engar rafamen to, à massa atraída pela <..'Strutura se torne numa variávd d es-
concentração, ao campo. É is to a «produção de massas», n ão truidorêl da própria estmtura - se isto tiver sido da vontade
no sentido de uma produtiva maciça ou em ben efício das dos que a conceberam (mas como esperá-lo?), se eles pro-
massas, mas a produção das massns. As massas como produto gramaram assim a possibi lidad e de acabar de uma só vez
fi nal d e toda a socialidadc e pondo fim defin itivo à soclali- com a arq uitectura e a cultura - então Bcaubourg constitui
dade, pois estas massa s que nos querem fazer crer serem o o objecto mais aud acioso e o lmppcnir~s:,. mais bem sucedido
social, são pelo con trário o lugar de imp losão do social As do século.
massas siio t1 rsfcra ct1da Vt'Z mais densa ottdc vem implodir todo o Façam Vl."rxnr Bctmbourg! Nova palavra de ord~m revolu-
social e onde uêm devorar-se num processo de simulação cionária. In útil incendiar, inútil contestar. Força! E a melhor
inintnruplo. maneira de o destr uir. O êxi to de Beaubourg já não é mistério:
Daí o espelho cônca vo: é ao ver as massas no in te rio r que as pessoas vão lá pnra isso, precipitam-se para este edifício,
as massas serão tent<tdas a afluir. Método típico de marketittg: cuja fragilidade respira já a catástrofe, com o ú nico ob jt.-ctivo
toda a ideologia da transparência a d quireaquj o seu sentid o. de o fazer verga r.
Ou ainda : é çw encerrar um modelo ideal reduzido q u e se Decerto q ue obedecem ao imperativo de d issuasão: d á-
espera uma gravitação acelerada, u ma aglu tinação a utomática -se-lhes um ob~to para consumir, u ma cultu ra para devo-
de cu ltura como uma aglome raç3o automática das massas. O rar, um edifício para manipular. Mas ao mesmo tempo visam
mesmo p rocesso: operação nucl ear de reacção em cadeia, ou expressamente, e sem o saberem, esse aniqu ilamento. A co r-
operação especu lar de magia branca. rida preci pitad a é o ú nico acto qu e a massa pode produzir
Beaubourg é, assi m, pela primeira vez à escala da cultu ra
o que é o hiper mercado: o operador circular perfeito, a
demonstração de qualq u er coisa. (a mercadoria, a cultura, a • Em inglês no original. (N. da T.)
92 SimulAcros ~ Simula(tfo Jnw &udrillard 93

enquanto ta l - massa projéctil que desafia o edifício d a As pessoas vêm tocar, olham como se estivessem a tocar,
cu ltura de massa, que riposta com o seu peso, isto é, pelo seu o seu olhar é a penas um aspecto da manipu lação táctil. Trata-
aspecto mais destituído de sentido, mais estúpido, menos -sede facto d e um un iverso táctil. já não vis u al ou d e discurso
cult ura l, ao desa fio de cu lturali dad e que lhe é la nçado por e as pesSOc-..s es tão d irectamente implicadliS n u m p rocesso:
Beaubourg. Ao d esafio da ncu ltu ril ção maciça a u ma cultura manipular/ser m~nipu l~do, arejar/ser arejado, circu lar / fa zer
esterilizada, a massa responde por u ma irrupçao destruidora, circu lar, que já não é do domínio da representaçào, nem da
que se pro longa n uma manipulação bru tal. À dissuas..:'io distância n em da reflexão. Qualq uer coisa q u e tem a ver com
mental a mass.'l responde por uma d issuasão Hsica directa. ~ o p.'n ico e com u m mund o pân ico.
o seu p róp rio desafio. A sua astúcia, que consiste em respon·
d er nos mesmos termos em que é solicita d a, mas para além Pdnico ao rclardotdor sem móbil externo. É a violência
disso, cm responder à simulação e m que a encerram, com intern a a um conjun to saturado. A implosão.
um p rocesso socia l entus iasta que lhe ultrapaSSfl os objectivos Bca u bou rg nilo pode sequ er a rder, tu d o está p revisto: O
c desempenha o pa pel d e hipersimulaçii o dest ruidom cl>. incên dio, a cx pl u~io, f' destruição }i não &"'o n 11ltcrna tiVa
imaginária a este tipo de t.odifíd o. E a implosão a forma de
As pessoas têm vontade de tomar tud o, pilhar tud o, comer abolição do m u ndo to:quatcmárioH-, cibernético c combinatório.
tudo, ma n ip u la r tudo. Ver, decifrar, apre nder não as afecta. A subvers.--lo, a destruição violenta é o q ue respond e a um
O único a fecto maciço é o da m..·m ipulação. Os organ izado- modo d e p roduç:iu. A um universo d e redes, de combina tória
res (e os artistas e os in telect ua is) estão assustados com esta e de fluxos respon dem a reve~o e a implos..io.
veleidade incontrolável, pois nunca esperam senão a a p ren- O mcsmu se ~"lSS.'l com as instituições, o Estado, o J><?der,
d izagem das massas aoespectdculo da cultura. Nunca esperam etc. O ~unho d e ver tudo isto explodir à força de contrad tções
esse fasdnio activo, d estruidor, resposta brutal c o rig inal ao n l'lo é, justame nte, mais q ue um sonho. O que~ vc~ifi~a "?
dom d e uma cuJtu ra incompreensíve l, a tracção qu e tem todas rea li dad e é que as instituições im plodcm por s t propnas, a
as caracterfsticas d e u m arro mba mento e violação de um força de ram ificcu;&-s, d e {t.>ed-bnck, de circu itos de controle
sa ntuário. sobrcck scn volvido!'.. O pudt.•r imptode, é o seu modo actual de
Bcaubou rg poderia ou deveria ter desapa recido n o dia dt.'S<1p.1 rt."Cim~nto.
a segu ir à inauguração, d esmo ntado ou raptado pela mu l- Verifica-se o m\.~mo co m a cidade. Incêndios, guerra,
tidão, o q ue teria constitufdo a ú n ica resposta possível ao peste, revoluç<'K:s, marginalidad e crimi n~J,_ catást~fes: toda
d esafio absurdo d e tra nsparência e de democracia d a cultu ra a problemática da an ticidi\de, d a negatlv.tdade mterna ou
- le vando cad a qual um pedaço fetiche d esta cultu ra, ela exte rna à cidade, a qualque r cois.:1 d e arca 1co cm relação ao
p rópria fetichizada. seu verdadei ro modo d e aniqu ila men to.
O próprio cenário da cidnd e s ubte rrânea - vers.-'lo chinesa
de enterro d as \.~l ruturas - é in génuo. A cidade já não se
2. Em relaç!o a e$t,a mas$1J crltica e 1'i sua radical compr~o de repete segundo um esque ma d e !cprodu çtfo ainda depend~nte
Beoaubourg. eomo foi irri.sóf"ia a mani!tstaçJo dos estudantn de VincenRe$ do esqu ema da representação. (E assim que se resta ura mnd a
na noite d.a 1naugurac;;io! depois da Segu nda Guerra Mundial). A cidade já não ressus-
94 Sim ulacros e Símufnçiio featr Bnudrillnrd 95

cita, mesmo em p rofund id ade - refaz-se a partir d e u ma Esta violência é-nos ininte ligível porque todo o nos.so
espécie de código genético que permite repeti-la um número imaginário está centrado na lógica d os s is temas em e xpa n-
in definido de vezes a partir da mem ó ria cibern ética acu mu- são. É indecifrável porque ind ete rmina d a. Ta lvez nem
lada. Acabou até a utopia de Borges. do mapa coexte nsivo d epend a já do esquema da ind etermi nação. É que os mode-
ao território e a todo o red up licador: hoje o s imulacro ~í não los aleatórios qu e toma ra m o lugar d os modelos de d e ter-
passa pelo d upl o e pela red uplicação mas pela min iatu rização minação c de causa lidade clássicos não s~o fun dame n-
genética. Fim d a represcnta<,;ão e da implos..i.o, tam bém aí, de talmente d iferen tes. Tradu zem a passage m d e s is temas de
todo o espaço numa memória in fi nitesimal, que nada E..'S'J.uece expans.io d efi nidos para s istemas de produção e d e expa n·
e que n ão é d e ninguém . Simu laçiio d e uma ca tegoria irre- são e m todas as di recções- em estrela, ou em rizoma, tanto
versível, imanente, cad a vez mais d e nsa, potencialmente faz - todas as filosofias d e desconexão das energias, d e
sa tur<tda e q ue n u ncn mais conhecerá a explosão libert adora. irrad iilçào das inten~idad es e d a moleculi7.a ção do d eseto
Nósérnmos u ma cultu ra d a violên cia libertadora (a racion a- vão no mesmo sen tid o, no sentido d e uma saturação a té ao
lid ade). Quer seja a do capital, d a libertação d as fo rças produ- in tersticial e ao in fi nito d as redes. A d iferença do molar para
tivas, da extensão irreversível do cam po da razão e do campo o molecu lar ~ apen as uma modulação, talvez a ú ltima, no
d o valor, d o espaço adq uirid o e co lo nizado a té ao uni versal p rocesso energético fu ndamental dos sistemas em expanS<io.
- qu er seja a da revolução, q u e an tecipa nas formas fu tu ras
d o socia l e da en ergia do socia l - o esq uema é o mesmo: o Seria di fere nte se passássemos de uma fase m ilen ária d e
de uma es fera em expa nsão, por fases le ntas ou vio lentas, o libertação e de dt..'SCOncxào das energias para u ma fast..' d e
de uma en ergia libertadora - o imaginário da irradiação. imp losão, após u ma l.'Sp<.Scie d e rad iação má xima (rever os
A vio lê ncia q ue a acompa nha é aquela q ue dá à luz um conceitos de perda e d e dispêndio de Ba taille nt-'Stc sentido
mu nd o ma is vas to: é a da prod ução. Essa violê ncia é d ialéc- e o mito sola r d e uma radiaçiio inesgotável sobre a qua l
tica, energética, catá rtica. É aquela q u e aprendemos a analisar baseia a sua a n tropologia sumpluá ria: é o ú ltimo mito
e que nos é familiar: aquela q ue traça os caminh os d o socia l exp losivo e rad ian te da no ssa filosofia, ú ltimo fogv d e arti-
e q ue leva à satura ção de todo o ca mpo d o social. É uma fício de u ma economia geral no fundo, mas isto já não tem
violênc ia determinada, a nalítica, liberta d ora . sentido pa ra nós), para uma fase de reversão do social -
Uma ou tra v io lência com pletamen te d iferen te q ue não reversão g igan tesca de u m ca mpo, u ma vez at ing ido o ponto
sabemos analisa r a pa rece hoje, porque escapa ao esquema de satura ção. Os sistemas estelares também não deixam
tradicional da violê ncia explosiva: violência imp/osif!tl qu e de exis tir, u ma vez d issipada a sua ene rgia d e radiação:
resulta já não da extensão d e u m sistema mas da sua satura- imp lodi riõl segu nd o um processo, num p rime iro mome nto
ção e da s ua retracção, como acontece com os s is temas fís icos lento e depois acelerando progressivamen te -contraem-se
estelares. Violência consecu tiva a uma densificação d esme· com u ma aura fabu losa e torna m·se sistemas involu tivos,
d ida d o social. ao estado d e u m s is tema d e hiper-regulação, q ue absorvem toda s as ene rgias q ue os rodeiam até se tor-
de uma rede (d e saber, de in formação, de poder) sob recarre- narem bu racos neg ros o nde o mu ndo, no sentid o em que o
g ada, e d e um con trole h ipertrópico q ue cerca tod as as vias entendemos, como radiação e pote ncia l inde finido de ener·
interst:iciais. gia, se a nula.
Sinwlacros e SmwltJ(tfo

Talvez as grandes metrópoles - com certeza el."l!õ, !'C é Hipermercado


que esta hipótese tem algum sentido - se tenham tornado
locais de eleição de implos.~o neste sentido, de absorçi\o c de e hipermercadoria
reabsorção do próprio social cuja id('ld e de ouro, contl'mpt•-
rânea d o duplo conceito de capital e de revoluç,,o, es tá St..'m
dúvida ultrapassada. O social involui lentamente, ou brutal-
mente, num campo de in~rda que já envolve a pulítica. (A
energia oposta?) Devet..'Vitar-se tomar a implOS<'\o por um pro-
cesso negativo, inerte, regressivo, como a líng u a no-lo impõe
ao exaltar os tennos opostos de evolução, de revolu4;.'\o. A
implosão é um processo t.'Sp<.>cffico d e conS(.'<Ju ê ncias incal-
culáveis. O Maio de 68 foi sem dúvida o p rimeiro episódio
implosivo, isto ~. contrMiamentc à sua ree~rita cm ternms
de prosopopeia revolucio nária, uma p rimeira reacç~o vio l..:n tn N um a :irea de trinta qu iló metros em redor, as setas vão-
à saturação do social, uma retracção, um desafio à hc..-gcmun ia ·nos espicaçand o em direcção a estes g randes cen tros de
do social, de resto em contradi<;~o com a idt:.:ologia d os pró- triagem que são os hipermercados, em di recção a este
p rios participantes, que pensavam ir mai s longe no domínio hiperespaço d a mercadoria onde se elabora, sob mu itos
do social - assim é o imaginário que continua a dominar- aspectos, uma n ova socialidade. Há que ver como cen tra liza
-nos - c, de resto, uma boa parte dos aconteciml..'ntos de 68 e redistribui toda uma região e uma população, como con-
podem ter d ependido ainda d esta d inâ mica rcvoludonárií1 c centra e racionaliza ho rári os, percu rsos, prát icas - criando
d e uma violê ncia explosiva, uma outra cois.1 come<:<>u aí ~w um imenso movimen to de vaivém perfeita mente semelhante
mesmo tempo: a invo luçJo lenta do SOCi<ll, sobre um ponto ao dos commulers dos arredores, absorvid os c rcpclldos a
determinado e a implosão consccutiva c súbita do poder, horas fixas pelo seu local de trabalho.
sem u m breve lapso d e tempo, mas que desde então n unca Profundamente, trata-se aqui de um o utro tipo d e traba-
mais cessou - é mesmo isso que continua em profundidade, lho, de um trabalho de aculturação, de confron to, de exame.
a implosão, a do social, n d as instituições, a do poder - e de código e d e veredicto social: as pessoas vêm encontrar aí
de modo nenhum uma qualqu er dinâ mica revolucionária e seleccionar objectos- respostas a todas as perg u ntas q ue
impossrvel de encontra r. Pelo contTário, a próp ria revolução, podem fazer-se; ou ant'CS, vêm elas próprias em resposta à
a ideia de revolução, implodc ela também e esta implosJo pergu nta funcional e dirigida que os objectos constituem. Os
tem conscqu~ncias mais séria s q ue a própria revolu ç:io, objectos já nàu s.io mercadorias; já nem sequer são exacta·
Claro qui! d esde 68 o social, como o d eserto, au menta - mente signos cu jos sen tido e mensagem decifrássemos e dos
participação, gestão, autogcstão generalizada, etc. - mas <to q uais nos a poderássemos; são testes, são e les que nos inter-
mesmo tempo aproxima· se em múltiplos pontos, em maio r rogam e n ós somos intimados a responder-lhes e a resposta
número que em 68. do seu d esafcctamen to e da sua reve~'to está incluída na pergunta. Todas as mensagens d os media
total. Sismo lento, perceptível à razão hist6ric~1 . funcion am de maneira semelhante: nem informaç~o nem
98 Simulacros t' Sunulll{do }tdn &udrilhml !19

comunicação, mas referendo, teste perpétuo, resposta circular, das actividades. O hipermercado parece-se com uma grande
verificação d o código. fábrica de montagem, de tal maneira q ue, em vez de esta-
Não existe relevo, perspectiva, linha de fug:t ont.lt! o olhe" r rem ligad os à cadeia de trabalho por u ma limitação racio-
corra o risco de perder-se, m<1 s um ecrà total ond e o~c.-, rta:r.es nal contínua, o s agentes (ou os pacientes), móveis c descen-
publicitários e os próprios p rod utos, na suõt cxposh~;\o inin- trados, d ão a impressão de passarem d e um ponto a outro
terrupta, jogam como signos equivalentes e succ~.;.i vos. Há da cadeia segu ndo circuitos aleatórios, contra riamente às
empregadosapenasocupadoscm rcfa7.er a parte d a frente da práticas de trabalho. Mils t·rata-se mesmo assim, de (acto, de
cena, a exposiçào da m ercado ria à s uperfície, onde o lt.•v.-.nta- uma cad eia, d e uma disciplina programática, cujas interdi·
mcnto por parte dos consumidores pôde criar algum b uraco. 4:;ões se apaga ram por detrás de um verniz d e tolerância, de
O sclf-seroict contribui ainda mais ~ua esta ausênci.''l de pro- facilidade e de hiper-realidad e. O hipermercado é já, para
fundidade: um mesmo espaço homogéneo, ~m mt.xii<~ç.lo, além da fábrica e das instituições tradicionais do capital, o
rcl1ne os homens c as coisas, o espaço da manipu laçlít• directa. modelo de todil a forma futura de socialização controlada:
Mas q unl d eles ma n ip ula o outro? retotillização num cspac;c>--tcmpo homogéneo de todas as
A té mesmo a rcpress."io se integ.-a como s ig no J\este uni- fu nções dis pcr5<'}S do corpo c da vida social (trabalho, tempos
verso de simulação. A rcprt'SSão tornada dissu as.•10 é apenas livres, a limentação, higit•n e, transportes, media, cultura);
mais um signo no universo da persuasão. Os circuitos de retranscrição d e todos os fluxos contraditó rios em termos de
televisão a nti-roubo (azem também eles próprios pa rte do circuitos in tegrados; cspa~tempo d e toda uma simulação
cenário de simulacros. Uma vigilância perfeita sob todos os operncional da vid a social, d e toda uma estrutu ra de hal1it1d
pontos d e vista exigiria um d ispositivo de controle mais e de tráfego.
pesado e mais sofisticad o que a própria loja. Não seria ren- Mod.elo de antecipação d irigida, o hipermercado (sobre-
tável. Ú, portanto, uma alusão à repressão, um «ftt zcr s inal,. tudo nos Estados Unidos) preexiste à aglomeração; é ele q ue
q ue lá está instalado; este s inal pode então coexistir com provoca a aglomeração enquan to que o mercado tradicional
todos os o utros, e até com o imperativo oposto, por exemplo esta va n o coração d e uma cidade, Jocal onde a cidade e o
expn:.-sso nos enormes ca rtazes que nos convid am a d cscun- campo vinham conviver em conjunto. O h ipermercado é a
tmir-nos e a escolher com toda a seren idade. Estes cartazes, expressão de todo um modo d e vida d o qual desa parece ram
de facto. espreitam-nos c vig iam -nos tão bem ClU t3o pouco não a penas o ca mpo mas também a cidade, pa ra dar lugar
quanto a televisão •pol.ictat~. Esta olha-nos, nós olha mo-nos à -aglomeração,. - zoning"' urbana funciona l inteiramente
nela, misturados com os ou tros; é o espelho sem o respectivo si nalizada, da qual é o equivalente, o miaomodelo no plano
aço da actividade consumidora, jogo de desdobramento c do consu mo. Mas o seu papel ultrapassa de longe o «con-
redobramento que fecha este mu ndo sobre si próprio. sumo» e os objectos ~i não têm ai realidade cspcdfica: o que
O hipermercado é inseparável das auto-estradas que o é prepondera nte é a s ua disposição social, circular, especta-
recamam de estrelas e o a li mentam, dos parques de cstil- cu lar, fu turo mod elo das relações sociais.
cionamento com as suas cama das d e automóveis, d o ter-
minal de computador - mais longe ainda , cm drculos
concênt ricos - d e toda a cidad e como ecrã funciona l total • Repartiçlo ~zona>. Em ing~ no original. (N. da T.)
100 Simulacros t SimulaQJo 101

A forma «h ipermercado" pode assim ajud ar a com preen- meração de sín tese que já nada tem a ver com uma cid ade.
der o que se passa com o fim d a modernidad e. As grand es Satélites negativos d a ci dade que traduzem o fim d a ci dade,
cidad es viram nascer, no esp<u;o de aproximadamente um até da cidade moderna, como espaço determinado, qualil'a-
século (185()...1950), u ma ge.ração d e g randes armazéns ~mo­ tivo, como sintese original de uma sociedade.
demos,. (muitos tinham, d e uma maneira ou de outra, este Poder-se-ia julgar que esta implantação corresponde a
nome), mas esta modernização fundamental, ligada à dos uma racio na lização das d iversas funções. Mas de facto, a
transportes, não abalou a estrutura urbana. As cidades con - partir d o mo mento e m qu e uma fu nção se hi percspccializou
tinuaram a ser cidades, enqu tmto as cidades novas estão a ponto de poder ser projectada com todas as partes no
satelizadas pelo h ipermercado ou pe lo shoppiug cc11ter •, terreno «chaves na mão», perde" su a finalidade própria e
servidos por uma rede programada d e trâns ito, d eixando torna-se numa outra coisa completamente difere nte: núcleo
de ser cidades para se toma rem aglomerações. Apareceu polifuncion.."lt conjuntos de •caixas negraSit de ;uput--output
uma nova mo rfogénese, que depende do tipo cibernético múltiplo, local de eleição da oonvecc;ão e da desestrutu ração.
(isto é, reproduzi ndo ao nfvel d o território, do lrabitat, d o Estas fábricas c l'Sla s universidades já não são fábricas nem
t·r5nsito, os cenários de comando mo lecular que s.~o os do u niversid ad es, c os hipermercados já não têm nada de mer·
código gen ético), c cuja forma é nuclear e satelítica. O h i per· cados. Estrtlllhos objectos novos dos quais a central nuclear
mercado como m1cleo. A cidade, mesmo moderna, já não o é sem dúvida o modelo absoluto e de o nde irrCtdiam uma
absorve. É ele que estabelece uma ó rbita sobre a qual se espécie de neutralização do território, um poder de dissuasão
move a aglo me raçlo. Serve de implante aos novos agregados, q ue, por detrás d a fu nção aparente d estes objectos, consti-
como o fazem também por vezes a u n iversidade o u ainda a tuem sem d úvida a s ua fu nção profunda: a h iper· realidade
fábrica - já não a fábrica do sl:'CUIO XIX nem a fábrica des- dos núcleos funcionais q u e já não o são de todo. Est·cs novos
centralizada que, sem quebra_r a órbita da cidade, se instala objectos s.'\u os pólos da s imulação em torno dos quais se
nos arredores, mas a fáb rica de montagem, automatizada, de elabora, contrõl riamenle às a ntigas estações, fábricas ou redes
co mando electrónico, isto é, correspondendo a uma função e de transporte tr~td icionais, ou tra coisa diferente d e uma
a um processo de traba lho totalmente desterritorializados. tcmodernid ade,.: uma hiper-realid ade, uma s imultaneidade
Com esta fábrica, como com o hipermercad o o u a nova u ni- de todas as (unções, ~m passado, sem futuro, uma opera-
versidade, jã não n os confrontamos com funções (comér- cionalidad e e m todas as direcções. E, sem dúvida também,
cio, trabalh o, saber, tempos li vres) que se autonom izam e crises ou novas catástrofes: o Maio de 68 começa em Nanterre
se d eslocam (o q ue ca racteri1..a a ind a o des d obramento e não na Sorbonnc, isto t, num local o nde, pela primeira vez
te moderno~, d a cidade), mas com um modelo de desit~tegração em Fran ça, a hi pcrfuncionaliz açâo ctfora de portaS» de um
das funções, de in determinação das funções e de d esintegração lugar de saber equiva le a uma dcstcrrit'orialização, à d esa-
da própria cidade, que é transplan tado para fora d a cidade e feição, à perda d e função e de finalidade d este saber num
tratado como modelo hipe:r-real, como núcleo d e uma agl<r conjunto neofuncional programado. Aí nasceu u ma nova
violência, o riginal, em resposta à satelização orbital de um
modelo (a saber, a cultura) cujo referencial está perdido.
~ Em inglês no original. (N . da T.)
Implosão d o sentido
nos media

Estamos num universo cm quc cxistc cada vez mais infor~


mação c cada vez menos sentido.
Três hipóteses:

- ou a informa~:io produz sentido (factor ncguentrópico),


mas não consegue compensar a perda brutal de signifi·
cado cm todos os domínios. Bem se podem reinjectar,
à força de uu•din, mensagens, conteúdos; a perda, adis-
sipação do sentido é mais ráp id a q u e a sua reinjecção.
Neste caso é preciso fazer apelo a u ma produtiv idade
de base, para substi tu ir os medirr defeituosos. É toda a
ideologia da liberdade de palavra, dos media desmulti-
plicados cm inúmeras células individuais de emissão e
até d os anti-mnlia (rc1d ios piratas, etc.).
- Ou a informaç.io não tem nada a ver com o significado.
É ou tra coisa, um modelo operacional de outro tipo,
exterior ílO sentido e à circulaçJo do sen tido propria-
mente dito. É 11 hipótese de Shannon: de uma esfera de
informaçilo puramente instrumenta l, mcdi1cm técnico
que não implica qué\lquer fin alid a d e de sent ido e, por·
tanto, que não pode ser sequer implic:adrt I\ um juízo de
valor. Espécie de código, como o pode ser o código
104 Srmularros t! Simulnç4o Jr:an Baudrillnrd 105

genético: é o que é, funciona assim. O sentido é outra A informação devora os seus próprios conteúdos. Dcvor.1
coisa que de certo modo vem depois, como com Monod a comunicação e o social. E isto por dois motivos.
em Lt Hasard d la Nt!c~itt•. Neste caso n..'o haveria l . Em vez de fazer comunicar, es.~otn·se rrn enct/Jac;:iiv
pura e simplesmente, relaçao s ignificativa entre ~ da rom1micaçi1o. Em vez de produ:tir sentido, esgota-se na
inflação da informação e a de0aç3o do sen tido. encenaç3o do sentido. Gigantesco p rocesso de simulação
- Ou cntã?, pelo con trário, exis te correlaç3o rigoros., e qu e é ~m nosso conht..>cid o. A entrevista não directiva, a
r\eccs&"ina entre os dois, na medida cm que a informação palavm, os telefones de auditores, a participação diversificada,
é dirt..'Ct;,men te destruid ora ou ncutrnli zadura do sen- a ch antaHcm à palavra. «Isto d iz-vos respeito, vocês são o
tido e do significad o. A perda do sentido está d irecta- aconh.:dmcn to, etc.•• A in formação é cad a vez mais invadida
mente ligada à acção dissolvente, diss uasivn, da infor- por L~ta l.>spt:.Ch.: de con teúdo fantasma , de transplantação
mação, dos media e dos mnss nu·dia. homeopática, de sonho acordado da comun icação. Dis posição
circular o nde se encena o desejo da sa la, antiteatro da comu-
Esta é a hipótese mais interessante mas va i contra as nicaç3o que, como se sabe, nunca é mais que a reciclagem em
acepc;ões recebidas. Em toda a parte a soda1izaç3o m L'Cie-sc nt.-gativo da iru.tituição tradicional, o circuito integrado do
pela ex_posiç:to às mensa~ens mediáticas. Está dessocializ.ado, negativo. Imensas energias s..'i.o gastas para manter este
ou ~ vrrtualmente assoc:~al, aquele que está subcxposto aos s imulacro, para evita r a dissimulaç3o brutal que nos con-
mttfla.. Em toda a parte é suposto que a informaç.iu produz. frontaria com a evidente realidade de uma perda radical do
uma Clrculi'tção acelerada do sentido, uma mais-valia de sen- se•Hido.
tido homólogo à ma is-valia económica que provém da rotação É inútil inh:rrogarmo-nos se é a perda da comunicação
acelerada do capital. A informação é dada co mo criadora d e que indu1. l."'Sta sobrcvalorizaçdo no si mulacro ou se é o
comunicação, e apesar do desperdfcio ser eno rme, um con- si mu lacro que está primeiro, com fins d issuasivos, os de
senso geral pretende que existe, contudo, no totat um exet."SSS curto-circuitar antecipad~men te toda a possibi lid ade de
d e sentido, q ue se redistrib ui em todos os interstícios do comunicaç3o (precessão do modelo que põe fim ao real). é
social .- assim como u m co nsenso prct·c nde que a p rodução inútil interrogarmo-nos sobre qual é o primeiro termo, não
matenal, apesar dos seus disfuncionamentos c das suas há, é um processo circular - o da s imulaçdo, o do hiper-real.
irrélcionalidades, resulta ainda assim num aumento de riqueza Hipcr-rcalidade da comunicac:~o e do sentido. Mais rea l que
e de finalidade social. Somos todos cúmplices d este mito. É o real, é assim que se anula o real.
o al~a. : o ómega da nossa modernidade, sem o quaJ a Assim. tanto a comunicação como o soc4'll funcio nam em
aed1bJhdadeda nossa organização social se afundaria. Orno circui to ft..'Chado, romo um logro- ao qual se liga a fo rc;a de
facto i qut tln se afunda, e por este mesmo motivo. Pois onde um mito. A crença, a fé na informação agarra-se a esta prova
pensamos que a informação produz sentido, é o oposto que tautológica que o sistema dá de s i próprio ao redobra.r nos
se verifica. signos uma realidade irnposslvcl de encontrar.
Mas pode pensar-se que esta crença é tão ambígua como
a que se ligava aos mitos nas sociedades arcaicas. Crê·M mas
• O Act~so e a Necessidade. mfo se crê. Não nos fazemos a pergunta. • Eu sei, mas mesmo
106 HJ7
Smtulaaos e Simulfl{l() Jtnll Btwdril111rd

assim ...• Uma espécie de simulac;3o oposta responde nas não é mais que a extensão macroscópica da implosão de_':->('"
massas, cm cada um d e nós, a esta simulaçAo de sentido e de tido ao nfvel microscópico do sig no. Isto deve ser anah!iol~lo
~municação em que o sistema nos encerra. À tautologia do a panir dn fó rmula de Macluhan tt1edium is message", cut-'~
s•s tema responde-se pela ambivalência, à dissuasão respondt.'- consequências l>stamos longe de ter esgotad.o. .
-~ pelo ~csaf~tamento ou por uma crença sem pre enig má- O seu sentido ~ de q ue todos os contcudos d! senh~t•
tica. O m1to exaste mas há que evitar acreditar que as pcsso.1s s.'lo i\bsorvidos na (mica forma dominante do medmm. 5:õ o
crêem nele: é essa a armad ilha do pensamento critico, que só meti ium constitui acontecimento - c isto qut~isquer que sef'm
pode exercer-se pnrtindo de um pressupos to de ingenu idade os conteúdos, co nformados ou s ubversivos. Trata-~ de ~ml
e de estupidez das massas. sério problema para toda a contra-informac:;~o~ rádt os ptr~­
2. Por detrás desta encenação exacerbada d a comunica- tas, anti-media, etc. Mas há coisas mais gravl'S e que o própn o
ção, os mass media, a info rmaçào em forcitt,~ "' prosseguem uma Macl uhon não pôs de lado. É que para <tlém desta ne~tra-
dl.•·s cstruluraç.1.o do real 1i7..a<;ão de todos os conteúdos poder-se-ia esperar amda
Assim, a in(onnação d issolve o sentido c dissolve o &xial modelar o mellium na s ua forma, e para transformar o real
numí'l espécie de nebulosa votada, não de todo a u m au men to utilizando o impacte do medi1mr como fo rma. Uma vez
de inovação mas, muito pelo contrário, à e ntropia totaJiu. anulados todos os conteúdos, talvez ainda haj<l um valor de
Assim, os metJ;a sào produtores não da socializaç~o mas uso revolucioná rio, subversivo do • mtdium• t uquauto tal. Ora
do seu conlrário, da implos.'io d o social nas maSSds. E isto - c é a( que conduz ao seu li_mite extremo a fórmula de
Mac Luhan - não há apenas 1mplos.'io da mensagem ~o
mcdium, há no próprio movimento implosão do própn_o
• Em inglh no ongina l. (N. da TJ
mcrlium no real, implos..i.o do • mcdittm ,. c do _rtf}l, numa es~­
I. Só aqui fal~mo; da tnformaç.lo no r~i~to social da romunic.;u,; ã,l. cic de nebulosa hiper-real o nde até a dch mc:;:to e a acçao
MaSSI.'f'la ap.1iKonant;.•lcv;ar n h ipõtcscaté ,\ /('(lriftcibcrnétk.l da infclm\a(:\u.
Tan\l'lém :'1(, l'\ tese fundamental pretende quo.• et.ta úo si nónimn d e n~ul'n­ d istil\ta d o medium ~i não são assinaláveis. . . _
tropia, de 1'(''4i~lêncra i'! cntropla, dL" au nwnto de sentido e de urg:mb:ação. O acto de pôr em ca usa o estatuto tradtc 1ona~ nao se
Mas cnnviria formu lar a hipót;;.-s.e oposta: IN FORMAÇÃO • ENTRO PIA. fica pelos próprios media, ca~act~rísticns da modcrntdade. A
Por exemplo, 11 ittfi~rm,1(1fo 011 '' Mi>r-r qu;· 1JIXIt' tt>r-K dr 1nrr sislt'tM 1111 do• fórmula de MacLuhan Medwm tS message, que~ a fórmula-
um aco tti<'CWH'IIICJ I Jllllltlll jom1a dr 1/tu l n'l/i::o::t(lo t' dt t'lllroJIIn d~lr ~~trma -chave da era da simulação (o meditml é a mensagem - o
(a l.'Stcnder As dfondas em gt"l'al e às ci~cia5 huma naJ em p.1rticularl. A emissor ~ o n...oceptor - circularidade de todos os pólos -
i ufont14(1o c•ttdt' $1" rrfl«tc ou por 01ult' 5l' dtfrnult llrrt fK'Otlft'Citllt'llfo ; JR mn~t
fomm ~nd• dNit Mmrf«1mnrW. NJo há que l\c§lt.u cm ;u'l.11i'-1r no.tl' fim do espaço p..--móptiro e perspectivo - esse é o alfa e o
sentido a mh.'f'Ven(Ao dos mtdas no Maio de M. A extcnsJo dada à acç.lu ómega da , os.,qf modemidade) esta -:ncsm.1 fórmula dev~ se~
atudanhl P'"fTT\il•u a gn.ove geral mas est~ foi prcâSOimcntc uma caixa considerada no lim ite em que, depolS de toc;los os contcud~
pf@ta de neu.tr.alizaç.\o da virulenoa orig_in• l Jo movun~nto. A sua prúpna e as mensagens se terem volatili7..ado no medmm, ser o p~pnn
amplifica(io foi uma armad1lha mortal c nAo uma t-xlens.\o J>'b•tiva. fiá mediu m que se volatiliza enquanto tal. No fundo é a mda ·'
que dcsconh.u d.l universalização das lutas por m~i4) da infurm..t<;;ãu. Há
que dtseonfiar das camJX'lnhas de solidarll!dade com tudo, t.letõta soli·
daricdade electrónica e ao nwsmo tempo mur'ldan.,, Toda a ;.>str i\tlogi.l de
u nivcrs."tlizaçAo da s diferenças t uma estratégia entrópka do slstem..1 . • Em Inglês no original. (N. da T.)
108 Simulacros~ Simadaç4o Jttm BludriiiDrd 109

mensagem que dá ao medium as s uas cartas de a p resentação, Mas há que ver que o termo d e catástrofe não te m este
é ela q ue dá ao mtdium o seu estatu to diferente, d eterminad o. sentido eccatastrófico• de fim e de a niquilamen to senão na
d e in termediário da comun icaç.jo_ Sem mensagem, também v isão li near d e acumulação, d e fi nalidade produ tiva que o
o mtdimn ca i na ind iferença característica d e todos os nossos s is tema nos impõe. O p ró p rio termo n:io s ignifica etimologi-
grandes sistemas d e juizo c d e va lor. Um ú nico modelo, cu~1 camente senão a curvatura, o enrolamento pa ra baixo de um
cficticia é imc•dinta, gera s im ulta neamente a mensagem, o ciclo que conduz ao que se pode chamar um - horizonte d e
medium c o «rea l,.. acontecimen to )•, a um h orizonte d o sent ido inu ltrapassável:
Nu ma pa lavrn, M cdium is message não significa a penas o para a lém d isso j.'l não acontece mais nada que teuha sentido
fim da m ensagem mas também o fim do mtdium. Já não há para nós- mas basta sair deste ultimato do sentido pa ra q ue
media no sentid o 1itera l d o termo (refiro -me sobretud o aos a própria catá strofe a pa rer.;a a penas como prazo último e
media electrónicos d e m ass.:1s) - ist'o é, instâ ncia med iadora n iili sta , tal como fu nciona no nosso imaginário actual.
de uma rc.1 lidade para uma o utra , de um estado do real pa ra Para além do sen tido, há o fasclnio, que resulta d a neu-
outro. Nem nos conteúdos nem na forma. É esse o sig nificado tralização c da implosão do sentido. Para alé m d o horizonte
rigoroso d a im plos.'\o. Absorc;ão d os pólos um no o utro, d o social há as massas, que resultam da ncutraliz.açao e d a
curto-circu ito entre os pólos de todo o sistema diferen<.ial de implosão d o social. .
sentido, esmagamento dos te rmos e das oposições distin tas, O essencia l hoje em dia é avaliar este duplo desaho -
ent re as quais a do mcdium c do renl - impossibilida d e, desafio ao sentido pelas massas c pelo seu silêncio (q u e n ão
portanto, d e toda a mediação, de toda a intervenção d ia léctica é de modo alg u m uma resistência passiva) - desafio ao
entre os d ois ou de um para o ou tro. Circul aridade d e todos sentido v indo dos mt'tlin e do seu fasdnio. Ten do em con ta
os efeitos uu·dia. Impossibilidade de u m sentido, n o sentido tal s ituaf;ãO, todas as tentativas marginais, alternativas, pa ra
litera l d e um vector unilateral que conduz de u m pólo a ressusci ta r sentid o são secundária s.
o u tro. Há qu e consid erar até tiO fim esta situaçl\o crítica mas Evidenteme nte q ue há um paradoxo nesta in cxtrlcável
original: é a ú nica qu ~ nos resta. É inú ti l sonhar com u ma conjunção das massas e dos media: são os me~ia que ne u-
revolu ção pela fonna, já que medium e real são a prtrtir de tra lizam o sen tido e q ue produzem a massa tcm fomle» (ou
agora u ma única nebulosa indecifrável na sua verdade. in formada), ou é a massa que resiste vitoriosa men te aos
Esta constatação de implos.Io dos conteúdos, de absorção mt did ao d esvia r ou a absorver. sem lhes responde r, toda s
do sentido, de cvancscência d o próp rio medium, de reabsorç3o as m~nsagens que estes p rod uzem? Out·r ora, em •Requie~
de toda a dialéctica da comu n icação n uma circularidade pour Jcs Media• eu tin h a analisad? (e condenado) os "~dut
total do modelo , de implosão do socia l n as massas, pode como a instituit;ão d e um modelo Irreversível de comuruca -
parecer catas trófica e dest!Sper.td a. Mas só o é, de facto, aos (âo ~m resposta. Mas hoje? Esta ausência de n:sposta pode
o lhos do idea lismo que domina toda a nossa vis.i.o da ser entendida, já não de todo como a estrat~m d o poder,
informação. Vivemos todos de um idealis mo furioso d o mas como uma con tra-estratégia, d as p róprias massas contra
sen tido e da comunicaçao, de u m idealismo da comunicação o poder. E agora? . _
pelo sen tido e, nesta pers pectiva, é a cnttfstrofe do sentido q ue Os mass media estão ao la d o d o poder n a maru p ulaçao
nos esp reita. d as massas ou estão ao lado da s m assas na liquid ação d o
110 Simulacros t: SimuiAÇtfo Jtau Ba11driiiRrd lll

sentido, na v iolência exercida contra o sentido e o fascínio? resistência-sujeito é hoje em d ia unilateralmente valorizada~
São os mtdtn que ind uzem as massas ao fasdnio, ou são as tidn por positiva - d o mesmo modo q ue na esfera política
massas que d esviam os m~dia pa ra o espectacular? Moga- s6 a~ práticas d e libertação, de emandpaç-;\o. de expressão,
discio·Sta mmheim: os media. assumem-se como veícu lo da d e constituic;i\o como sujeito político, as q u e S!.'O tidas por
condenação moral do terrorismo e d a explo ração do medo válida!-> c s ubversivas. Isso significa que se ignora o impacte
com fins políticos, mas s imultaneamente, na ma is com pleta igun l, c St!m d úvida muito s u perior1 de tod<ts as p~áticas
ambiguidade, difundem o fascínio bru to d'o acto terrorista, objt.'Ctn, d~ fl'núncia à posição de s ujeito c de sen tido -
são eles próprios terroristas, na medid a em q ue cam in ha m exact,uncn tc ns p ráticas de massa - que enterramos sob o
para o fascinio (eterno d ilema moral, ver Umberto Eco: como tcmw depreciativo de alienação e de passividttd e. A s práti-
não falar do terro rismo, como en contra r um bom IJtwdos media cas libcrtaJor~ls respondem a uma das vertentes do s istema,
- elt ullo t xiste). Os media carregam consigo o sentido e o ao uHimiltO constante qut! nos é dirigid o de nos constituir-
contra--sentido, man ipulam em todos os sentidos ao mesmo mos cm pur(• objecto, mas não respondem à outra sua exi-
tem po, nnda pode con trolar este pruccsso , veiculam a simu - gência, a de nos constituirmos em s ujeitos, de nos libertar-
lação interna ao siste ma e a sim ulaçdo dt-struidora do sish.•ma, moe,, Jc nos exprimirmos a todo o custo, de votar, d e p ro-
segundo uma 16gica absolutamente moc-biana c circular - e duzir, de dt-cidir, de falar, d e participar, de fazer o jogo-
está bem assim . Não há alternativa, não h á resoluçdo lógica. ch antagem ê u ltimato tão g rave _como o ~utro, mais gr~ve.
Apcn.."ls uma f!Xtn:erbtlç4o lógica e u ma resolução catastrófica. sem dúvida, hoje cm dia. A um StStema CUJO a rgumento e ~e
Com um correctivo. Estamos em face d este sistema numa op rt..'SS<'U c de r~press."io, a resistência cstrat~ica é d e rcivm-
situac;3o d u p la e insolúvel ~double bind• • - exactamen te dicaç~o libertadora do sujeito. Mas isto rdlcctc sobretudo a
como tts crianças perante as exigências do universo adulto. fase anterio r do sistema c, !'>e ainda nos co nfrontamos com
Sào si mu ltane.1men te intim idados a constituir-se como sujei- ela, já não é o terreno t.'Stra tégico: o arg umento actual_do
tos a utóno mos, responsáveis, livres c co nscientes, e a consti- sistc1na é de maximalização da pa lavra, de p rodução máxtma
tu ir-se como objectos s u bmissos, incrt<.'S, olx.od icntcs, confor- d e sent ido. A rt.'Sistência estratégica, pois 1 é de recusa de
mes. A criança resis te cm todos os planos, c a uma exigência sentido c de recusa da palavra - ou da s imu lação hipercon-
~ontra d itória n.'Spon de também com uma estrat('gia d u pla. fonnista aos próprios mecanismos do sistema, que é uma
A exigência de ser objl.-"Cto opõe todas as práticas d a desobe- fo rma d e rt.."C\.15<1 c de não aceitação. É o que fazem a s massas:
d iência, d a revolta , da emancipação, em s uma, toda uma reme tem pa ra o s istema a sua próp ria lógica reduplica ndo-a,
reivindicaç..'o de sujeito. À exigência de ser sujeito opõe, de d evolvem, como um espelho, o sentido sem o abso~vcr. Esta
maneira igualmente obstinada e eficaz, uma resistência de estr;~t(ogia (se é que a inda se pode falar de estratégia) leva a
objecto, isto é, exactamente o oposto: infantilis mo, hipercon - melhor hoje em d ia, porque é essa fa.se d o sistema q u e levou
form ismo, dependên cia to taJ, passividade, idiotia. Nenhuma a melhor.
d as s uas est·ratégias tem mais valor objectivo que a outra. A Enganar-se de estratégia é grave. Todos os movimentos
que só se jogam sobre a libertação, a ema ncipaçào, a ressur-
rciçJo de um sujeito da h istória , d o g rupo, da palavra sob re
• lmpa5-5e. Em inglfs no origin<tl. (N. d a T.) u ma tomada de consciência e até sob re uma «toma da de
1!2 Simulacros 1!. Simulnçdo

in_consdência» dos s ujeitos e das massa5 n ão vêem que eles


vao n.o rnesr:no sentido que o sistema, cujo imperativo é hoje Publicidade absolul<l
em dta prec1samente de sobrep rodução e de regeneração d o publicidade zero
sentido e da palavra.

O qut! ~SI (Imos" viver é a absorção de todos os modos de


cxpn..-ss.:io virtuilis no d a pub licidad e. Todas as formas cu ltu-
raisoriginetis, ttxias as linguagens determinadas absorvem-se
ne;te porque não te m profundidade, é instantâneo e instanta-
ne;tmente ~quecido. Triunfo da fom1a superficial, mínimo
denominado r comum de todos os significados, g rau zero do
sentido, triun fo da en tropia sobre todos os tropas possíveis.
Fonna mais b.1ixa da energia do signo. Esta fomla inarticulad a,
instantânea, sem passado, sem futuro, sem metamorfose possí-
vel, precisamente por ser a ú lti ma, tem poder sobre todas as
outras. Todas as formas actuais d e activid ade tendem para a
publicidade, e na sua maior parte esgotam-se aí. Não forço-
samente n a publicidade nominal, a que se produz como tal
- mas a forma publicitária, a de um modo operacional sim-
p lificado, vagamente sedutor, vagamente consensual (todas
as modalidad~:s ~stão aí confun didas, mas de um modo ate-
nuado). Mais geralmente a forma publicitária é aquela em
que todos os conteú dos singulares se a nulam no próprio
momento em que podem tran screver-se u ns nos outros,
enquanto q ue o que caracteriza os enunciados (<pesados»,
formas a rtkulad<ls de sentido (ou de estilo) é não poderem
traduzir-se uns nos outros, tal como as regras de um jogo.
114 Simulacros e Simulação Jtan Baudril/ard 115

Esta longa march a para uma tra dut.ibilid ade e, logo, uma zir: werben, werbe11"' - solicitação do social p resente em toda
combinatória total, que é a da transparerrcia superficial dt todas a parte nas paredes, nas vozes quentes e exangues das locuto-
as coisas, da sua publiddade absoluta (c da qual, mais uma vez, ras, nos g raves e agudos da banda sonora e nas tonalidadL'S
a publicidade profissional é apenas uma fom1a epis6dic.:'l), múltiplas da banda, imagem que corre em toda a parte sob
pode decifrar-se nas per:ipécias da propaganda. os nossos o lhos. Solicitude p resente em toda a parte, socia-
Publicidade e propaganda adquirem toda a s ua d imens..io lidade absoluta finalmente realiuda na publicidade absoluta
a partir da Revolução de Outubro e da crise mundial d e 29. - isto é, totalmente dissolvid a também ela, socialidade vesti-
Ambas são linguagens de massa, saídas da produção de gio alu cinado em todas as paredes sob a forma sim plificada
massa de ideias ou de mercadorias, c os seus registos, ao de uma p rocura de social imediatamente satisfeita pelo eco
princípio separados, t·endem a aproximar-se p rogressiva- p ublicitário. O socia l como cenário de que somos o público
mente. A propaganda faz-se marketing e merclumdizinK• de enlouquecido.
ideias-força, de homens políticos e de partidos com a sua Assim, a forma publicitária irnpôYse e d esen volveu-se à
•<imagem de marca~~. A propaganda aproxima-se da publici- custa de tod as as outras linguagens, como retórica cada vez
dade como do modelo veicular da única grande e verdadeira mais neutra, equivalente, sem afectos, como «nebulosa assin-
ideia-força desta sociedade concorrencial: a mercad oria c a táctica», diria Yves Stou rdzé, que nos en volve de todas as
marca. Esta convergência define a sociedade, a nossa, o nde partes (e que elimina ao mesmo tempo o problema t ão con-
já não há diferem;a entre o económico e o político, porque troverso da ~crença » e da eficácia: não propõe significados a
nelas reina a mesma linguagem de uma ponta à o utra, de investir, oferece uma equivalência simp lificada de todos os
uma sociedade onde a economia política, em sen tido literal. signos outrora d istintos, e dissuad e -os por esta mesma equi-
está enfim plenamente realizada, isto é, dissolvida como valência). Is to define os limites do seu poder actu al e as con-
instância específica (como modo h istórico de contradição d ições do seu desaparecimento, pois a publicidade já não é
social), resolvida, absorvida numa línguíl sem contradições, hoje uma questão, é ao mesmo tempo «entrada nos costumes»
como o sonho, porque percorrida por intensidad es simples- e saída desta dramaturgia social e moral que representava
mente superficiais. ainda há vin te anos a tTás.
Passou-se um estádio quando a própria linguag em do Não é q ue as ~s já não acreditem nela ou a tenham
social, depois da política, se confundiu com esta solicita- aceitado como rotina. É que, se ela fascinava por este poder
ção fascinante de uma ling uagem en fraquecida, quando o de simplificação de todas as linguagens, este poder (.._lhe
social se faz publicida de, fazendo-se plebiscitar e tentando hoje subtra ído por um outro tipo de linguagem ainda mais
impor a sua imagem de marca. De d estino histórico, o pró- ,implificado e, logo, mais ope racional: as linguagens infor-
prio social caiu nas fileiras de uma ~empresa colectiva>» máticas. O modelo de sequência, de banda sonora e de banda-
que assegura a s ua publicidade em todas as direcções. Veja- ·imagem que a publicidade nos oferece, a pa r com os outros
-se a mais-va lia de social que cada publicidade tenta p rodu-

• Seguido da preposição «fur»s ignifica «fazer a propaganda de". Em


.. Em inglês no original. (N . da T.) .l lem.\o no original. (N . da T.}
116 Simulacros t Simulaç4o Jttm Blmdritlard 117

grandes media, o modelo de perequaçâo combinatória de todos publicidade tomou-se a sua própria mercadoria . Confundt-
os discursos que ela propõe, esteco11tirruum ainda retórico de -sc consigo própria (e o erotismo com que ridiculamen tl' !"4.'
sons, d e signos, de sinais, de slogans que ela domina como veste não é mais que o indicador auto-erótico de um sistcm.1
ambiente total, está largamente ultrapassado, justamente na que ndo faz senão designar-se a si próprio- donde o absun:hl
sua função de estímulo, pela banda magnética, peloco,tiniiiWI de ver nele uma • alienação» do corpo da mulher).
electrónico que está a perfilar-se no horizonte deste fim de Enquanto mrdimn transformado na s ua própria mensagem
século. O microproccsso, a digitalid adt:, ns linguagens ciber- (o que far. com que haja a partir de agora uma procura de
nétic..'lS vão muito mais longe no mesmo sentido da simpli· p ublicidade por si própria e que, por isso, a questão de se
ficação absoluta dos processos do que a publicidade fazia ao t<fiCfloditílr" ou não nela já nem sequer se ponha), a publicidade
se\.1 humilde nível, ainda imaginário e espectacular. E é porque está to talmente cm uníssono com o social, cu ja exigência
estes sistemas vão mais longe, que polariza m hoje o fa scín io históric."l se encontra absorvida pela pura c simples procura
outrora concedido à publicidade. É a informação, no sentido d o social: procura de funcionamento d o social como de uma
informático d o termo, que porá fim, que ~'\ põe fim, ao reino empresa, como de um conjunto d e serviços, como d e um
da publicidade. ~isto que assusta e é isto q ue apaixona. A modo d e vida ou de sobrevivência (é preciso salva r o social
• paixão,. publicitá ria d eslocou-se para os compu tadon.--s e rumo é preciso preservar a nature-L-a: o social é o nosso nicho)
para a miniaturizaçào informática da vida q uotidiana. - enquanto o utrora era uma espécie d e revolu ção no seu
A ilust rac;ão antecipado ra d esta tra nsforma<;ão era o próprio projecto. Isto está perdido c bem: o social perdeu
ptfi>Dilfn de K. Ph. Dick, este implante publicitário trans is- jus tamente este poder de ilusão, caiu no regis to da oferta e
torizado, espécie de ventosa emissora, de parasita elect ró- da procura, como o trabalho passou de força antagonista do
nico que se fi xa ao corpo e de que este tem muit,, dificuldade capital ao s imples esta tuto do emprego, is to é, de um bem
em libertar-se. Mas o papoula é ainda uma forma interme- (eventualmente raro) e de um serviço como 06 outros. Vai,
diária: é já uma esp&-ie de prótese incorporada, mas recita p o is, poder fazer-se publicidade para o trabalho, a nlcgria de
aind.1 mensagens publicitárias. Um híbrido, pois, mas prefi- encontrar um trabalho, como vai poder fazer-se publicidade
g ura ção das red es psicotrópicas e informáticas de pilo tagem para o social. E a verdadeira publicidade está hoje no design
automá tica dos indivíduos, ao lado do qual o .ccondiciona - d o social, na exaltação d o social sob todas as suas formas, no
mento» publicitário parece u ma deliciosa pcrip("Cia. a pelo insisten te, obstinado a um social cuja lltcts.sidade se faz
rudemente sentir.
O aspecto actualmente mais interessante da publicidade As danças folclóricas no metro, as inúmeras ca mpanhas
é o seu dcsap.."lrccime nto, a sua diluição como forma especí- para a segurança , o slogan • amanhã trabalho,. acompanhado
fica, ou como medium, muito s implesmente. Já não é (algu ma pelo sorriso antes reservado aos tempos livres c a sequência
vez. o foi?) um meio de comunicaçã o ou de informação. Ou publicitária para a e leiçào para os Prud-Hommes •: • Não deixo
então foi tomada por essa loucura específica d os sistemas que ninguém escolha por mim)lt - slogan ubuesco e que soava
sobredcscnvolvid os de se plebiscitar a cada ins tante, e logo
de se parod iar a s i próprio. Se num d ad o momento a merca-
doria era a sua própria publicidade (não havia o u tra), hoje a • Conselho e lectivo que ju lga a s ~ndf:nclas profissionais. (N. da T.)
118 Simulacros r Simulaçdo fatn &udr!llttrd 11 9

tão espectacularmente falso, d e uma liberdade irrisória, a de ~que ainda fica o fascínio. Basta ver Las Vegas, a t.·id.•d ,.
fa7.er acto de social na sua p rópria recusa . Não é por acaso publicitária absoluta (a dos a nos cinquenta, a d os a nos lm~t-.\-S
que a publicidade, depois de ter veiculado durante muito da p ublicidade, e que guardou esse encanto, hoje em día dt•
tempo um ultimato implícito de t ipo económico, d izendo e algumõt maneira retro, pois a publicid ade está secretamen h·
repetin d o no fund o incansavelmente: ..compro, consumo, condenada pela lógica programática que cria rá cidades bem
gozo•, repete hoje sob todas as fo rmas: •Noto, participo, d iferentes). Quando se vê Las Vegas s urgir toda ela do deserto
estou presente, isto d iz-me respeito~ - espelho de uma pela radiação publicitária ao cair da noi te, e regressar au
zomba ria paradoxal, espelho da indiferença de todo o s igni- d eserto quando o d ia na sce, vê-se qu e a p ublicid ad e não é o
fica d o público. que alegra ou decora as paredes, ela é o q ue apaga as paredes,
Pânico inverso: sabe-se que o social pode dissolver-se na apaga a s ruas, as fachad a s e t·oda a arquitectura, apaga todo
reacção de pânico, reacção em cadeia incontrolável. Mas o su porte c toda a p rofundidade, c que~ esta liquidação, esta
pode d issolver-se tam bém na reacção inversa, reacção em reabsorção d e tudo à superfície (pouco importam os signos
cadeia de inércia, cada micro-universo satu rado, auto-regu- que aí circu la m) q u e nos mergulha nesta eu foria estupefacta,
lado, informatizado, isolado na s ua pilotagem automática. A h ipcr-rcal , que já não trocaríamos por nenhuma outra coisa,
p u blic.idade é a s ua prefiguração: primeiro esboço de uma e qu e é a forma vazia e sem apelo da sed u ção.
trama inin terrupta de signos, como a banda d e tele-escritu·
rários-cad a um isolado na sua inércia. Fo rma an unciadora
A lmguagtm deixa-se t1114o llffliStllr ptlo St:u duplo r juttta
de um universo saturado. Desafeiçoado, mas saturado. o mtlhor ao pior por ""14 fantasill de rruionatídadt cujR f6rmula
Insensibilizado mas p ronto a desabar. ~num universo como i: ..rodos droem acreditar nisso.• Tal i a mtusagtm do qut nos
este que adquire força aquilo a que Virilio chama a estética corrct nlra.
do d esaparecimen to. Q ue co mecem a aparecer objectos
íra ctais, fo rmas fra ctais, zonas de fractura consecutivas à J.-L. Bounk.S, IA Ck$tructeur d'lntt11Sitls
satu ra<;ão, e portanto a u m processo d e rejeição maciça, de
reacção d e exteriorização em que se liberta de um recalca· A pub licidade, pois, tal como a info rmaç.io: destruido ra
mento afectivo, ou de estupor de uma sociedade pura mente d e inl'cnsidades, acelerador d e inércia. Veja·se como todos os
transparente para si própria. Como os signos na publicidade, artifícios do sentido e do não sentido aí estão repetidos com
d esmu ltipllca.mo-nos, fazemo-nos transparentes o u inúme- lassidão, como todos os procedime ntos, todos os d ispositivos
ros, faz.c:mo-nos diáfanos ou rizo ma para escapar ao ponto da linguagem da comunica<;d.o (a função de contacto: estão a
de inércia - pomo- nos em órbita, s intonizam o-nos, sateli- ouvir-me? Estão a ver-me? Vai falar! - a fun<;ão referencial,
zamo-nos, arquivamo-nos- as pistas entrecruz.a.m-se: há a a própria fun~ão poética, a ilusão, a iro nia, o jogo de palavras,
banda sonora, a banda-imagem, como na vida há a banda- o inconsciente) como tudo isso é encenado exactamente como
- trabalho, a banda-tempos livres, a banda-transporte, etc., o o sexo na pornografia, isto é, sem acredi tar nisso, com a
todo envolvido pela banda-publicidade. Por toda a parte mesma cansada obscenidade. t!: por isso que é doravante
há três o u quatro pistas, e cad a qual está no cruzamen to. inú til analisar a publicidade como linguagem, pois é uma
Satura<;ão s u perficial e fasdnio. outra coisa completamen te diferente que tem lugar: um<~
IZO Sirrmlacros e Simulação Jean Baudrillard IZ1

dobragem da língua (e das i magen s também), à qua l não d~deiro centro comercial o u conjunto arq uitectónico, assim
respondem nem linguística nem sem.iologia, já que trabalham como Beaubourg também não é, no fundo, um centro cultu-
sobre a operação verdadeira do sentido, sem pressentir d e ral: estes estra nh os objectos, estes supergndgtds demonstmm
m odo algum esta exorbitação ca ricatural d e todas as funções simplesmente q u e a nossa monumenta lidade social se tornou
da linguagem, esta abertura sobre um imenso cam po de publicitár-ia . E é a.Lgo como o Forum que melh or ilustra o que
irrisão dos s ig nos, ((consumidos» por assim dizer na sua se tornou a publicidade, o que se tornou o domfnio pliblico.
irrisão, para a sua irrisão e o espectáculo colectivo do seu A mercad oria enterra-se, como as informações nos arqui-
jogo sem problema - com o a pornografia é ficção hipertro- vos, como os arquivos nos buukers, como os foguetões nos
fiada de sexo consumido na sua irris.1.o, para a sua irrisão, s ilos at·ó micos.
espectáculo colecti vo da inanidade do sexo na sua assu nção Fim d a mercadoria feliz e exposta, a partir de agora ela
barroca (foi o barroco que inventou esta irrisão triunfal do foge do sol, e d e repente é como o homem que perdeu a su a
estuq ue, fixando o desmaio do religioso no orgasmo da~ sombra . Assim, o Forum des Halies parece·se bastante a um
estátuas). funcra llwme ~ - luxo fúnebre de u ma mercadoria enterrada,
On de está a idade d e ouro do p rojecto publicitá rio? A transparente a um sol negro. Sc,_rcófngo da mercadoria.
exa ltação de um objecto por uma imagem, a exaltação da Tudo a í é sepulcral, mármores brancos, negros, salmão.
compra e do consu mo pela despesa publicitária sumptuária? Buuker-t'SCrfnio, desse negro rico e suob e mate, es paço mine-
Fosse qual fosse a s ubserviência da publicidade à gestão do ral muiagrouml*"'. Ausência total de fluidos, já n em sequer
ca pital (este aspecto d a questão, o d o im pacte social e econó- há u m gadget líqu ido como o man to de água d e Parly 2, que
mico d a p u blicida d e, está sempre por resolver e é no fundo ao menos c ng;m ava a vis ta - aq u i já nem h á sequer um
insolúvel), ela foi sempre mais que um<t função subjugada , subterfúg io divertido, só o lu to p re tensioso e encenad o. (A
foi um espelho estendido ao universo da econ om ia política e ú n ica ideia divertida do conjunto é justamente o humano e a
d a mercad o ria, foi por u m m o mento o seu imaginário s ua sombra que caminham em trompe-l'oeil* .... sobre u m
glo rioso, o de um mundo desfeito, mas cm expansão. Mas o pavimen to vertical d e betão: gigantesca tela de um belo tom
u niverso d a m ercad o ria já não é este: é um mundo sa tu rado cin zento ao ar livre, servindo de moldura ao trompe-1'oeil, esta
e em involução. De repente, perd eu o seu imaginário triunfal parede t.'Stá viva sem o ter querido, em contraste com o
e, do estádio d o espelh o, passou d e a lguma maneira ao jazigo de família d a a lta costura e do p ronto a vestir que o
trabalho de luto. Forum cons titui. Esta somb ra é bela porq ue é uma alusão
Já não há cena da m ercadoria: não há mais que a sua contrastada ao mundo inferior que perdeu a sua sombra.)
fo rma obscena e vazia. E a publicid ade é a ilustração dt..>Sia Tudo o que poderia desejar-se, uma vez aberto ao público
forma saturada e vazi<t. este espaço sagrado, c por receio d e q u e a poluição , como
É por isso q ue ela já não tem território. As suas formas
identificáveis já n ão são s ig nificativas. O Forum des Ha lles, • Em inglês no original. (N . da T.)
por exemplo, é um gigantesco conjunto p u blicitário - uma •• Em inglk no original. (N. d;~ T.)
o peração de publicitude. Não é a publicidade de n inguém, ... Pintura que dá a imprcss.ão da re3lidade; neste sentido, aparência
de nenhu ma firma, também não tem o estatuto de um ver- enganosa. (N. da T.).
122 Sim1dacros t Simulação

nas gru tas de Lascaux, o deteriore irremediavelmente (pen+ C lone story


semos na massa que brota do RER), é que fosse imediatamente
interdi to à circulação e que fosse coberto por uma mortalh a
definitiva para manter intacto este testemunho de uma civi-
lização arrivista, após ter passad o do estádio do apogeu para
o estádio do hipogeu, da mercadoria. Há aqu i um fresco que
d escreve o longo caminho percorrido desde o homem de
Tautavet passando por Marx e Eins tein para chegar a Doro-
lhée Bis... Por q ue não salvar este fresco da decom posição?
Mais tarde os espeleólogos redescobri-Jo-ão, ao mesmo tempo
que uma cultura que tinha decid ido enterrar-se para escapar
definitivamente à s ua sombra, enterrar as s uas seduções e os
seus artifícios como se os votasse já a um outro mundo.
De todas as próteses que marcam a his tória do corpo, o
d u plo é sem dúvida a mais an tiga. Mas o duplo não é jus-
tamell te uma prótese: é uma figura imaginária q ue, como a
al ma, a sombra, a imagem no espelho persegue o sujeito
como o seu outro, que faz com que seja ao mesmo tempo ele
próprio e nunca se pareça consigo, q ue o persegue como
uma morte subtil e sempre conjurada. Contudo, nem sempre
é assim: quando o duplo se materializa, quando se torna
visível. s ig nlfica uma mo rte imin ente.
Isto equivale a d izer que o podere a riqueza imaginária do
duplo, aquela onde se joga a estranheza e ao mesmo tempo
a intimidade do su jeito consigo próprio Uzeimlíchf u.nheimlich) ..,
residem na sua imaterialidade, no facto d e ele ser e permane-
cer um fantasma. Todos podem sonhar e devem ter sonhad o
toda a sua vida com uma duplicação ou uma multiplicação
perfeita do seu ser, mas isto não tem senão a força do sonho
e destrói -se quando se quer fo rçar o sonho no real. O mesmo

' Em alemão no original. Ambos os adjectivos podem ter várias ti"a-


duções posslveis mas julgamos que as mais adequadas ao sentido em que
Daudrillud as emprega sao as seguintes: .. Jieimlid\» significa Intimo,
familiar; «Unheimlich» significa inquietante . (N. da T.)
124 Simulacros t Simula(tk fto" &wdrillnr.t 125

se passa com a cena (primitiva) da sed ução: ela só é ope- d e morte - o que nega a sexualidade e quer aniquilá-la, a
ran te ao ser fantasiada, relembrada, ao não ser nunca real. sexualidade que é portadora d e vida, isto é, de uma forma
Era próprio da nossa época querer exorcizar este fa ntasma crítica e mortal de reprodução?) e que os levaria ao mesmo
como todos os outros, isto é, rea lizá-lo, materia lizá-lo em tempo mcta(isicamente a negar toda a alteridade, toda a
carne e osso e, por um contra-senso total. mudar o jogo do altera(ào d o Mesmo para n ão visa r já senão a perpetua<áo
d uplo com uma troca s ubtil da morte com o Outro na eter- de uma id entidade, uma transparência da inscrição genética
nid<tde do Mesmo. já nem sequer votada às peripécias do cngcndra mento?
Osclotres. A clo nagem . O e nxerto humano até ao infi nito, Deixemos a pulsão de morte. Trata·SC d a ra ntasia de se
cada célula de um o rganismo individualizado que pode tornar engend rar a si próp rio? Não, pois esta passa sempre pelas
a ser a matriz de um indivíduo autêntico. Nos Estados Unidos figuras da mãe c do pai, fig uras pa ren tais se;rundas que o
uma cria nça teria nascido há alguns meses como um ger3nio. sujeito pode sonhar apagar ao s ubsti tuir-se il elas, mas sem
Por enxerto. A primeira cria nça.-clout (descendência de um negar de modo a lgum a estrutura simbólica dil procriação:
indivíduo pela multiplicação vegetativa). O p ri meiro ser ser filho de si próprio, é ainda ser o filho de alguém. Enquanto
nascido a partir d e uma só célula de um só indivfd uo , o seu que a clonagem abolt! radicalmente a Mãe, mas do mesmo
•pai•: genitor ú n ico do qual seria a réplica exacta, o g(tmeo modo o Pai, a compk>ta união d os seus genes, a imbricação
perfeato, o duplo cu. das suas diferenças, mas sobretudo o acto dual q ue é o
. ~nho de uma gemelidade eterna que se substitui à pro- e ngcndramento. O cloneur não se engendra: ele brota de cada
cnaçao sexuada que, essa~ está ligada à morte. Sonho celular um c.los seus seg mentos. Pode CS(X'CUlar-se sobre a riqueza
de ci~ip~ridade, a fom1a mais p u ra do parentesco, já que desta s ramiJicações vegetais q ue resolvem , com efeito, toda a
pcrm1te f1~almcnte ~ssar sem o outro e ir do mesmo para 0 scxualidadeed ipiana em ben efício de um sexo «não humano»,
mesmo (amda é prec1so passar pelo útero de uma mulhe r e de u m sexo por contiguidade e dcsmultiplicaç~o imediata-
por um óvulo ao qual tenh a sid o retirado o núcleo, mas o mas acontece que já não se tra ta da fantasia de se engendrar
suport·c é efé mero e d e todas as maneiras an ónim o: uma a si próprio. O Pai e a Mãe desapan:ccram, não c m benef~­
prótes_c fêmea poderia s ubstituí-lo). Utopia monocelular qu e, cio de uma liberdade aleatória do sujeito, mas uma matnz
pela v1a da genética, dá acesso aos seres complexos, ao d estino clrnmnda c6diso. j á não há m~e. já não há pai: uma ~a triz. E é
dos protozoários. ela, a matriz do código genético, que ~gera- a partrr d e agora
N.lo seria uma p ulsão de morte que leva ria os seres a té ao infinito segundo um modo operacional expurgado de
sexuados a regredir para uma forma d e reproduçAo anterior toda a sexualidade alea tória.
à sexuaçAo (~ão é, de resto, esta forma cissípa.rn, esta repro- Também já não há sujeito. porque a reduplicação iden-
duç3o .e proliferação por pura contiguidade que i para nós, titáril\ põe fim à sua divisão . O estádio do espelho é abolido
n o malS profundo do nosso imaginário, a morte e a pu lsão na clonagem, ou antes é de a lguma forma parodiado de uma
maneira monstruosa. A clonagem também não conserva nada,
pela mesma razão, do sonho im emorial e narcisista de
projecção d o sujeito no seu alter ego ideal, pois esta projecção
1978~. Vtr O. Rorvlk, À son imagt: la copie d ' un homme, l)aris, Cra~.
passa aind a por uma imagem: a im agem, no espelho, o nd e o
116 Sunw!Acros t Simulaç4o ]tQn &wdríllard 117

s ujeito se aliena para se reencontrar, ou a imagem sedutora poder ser segmentado em células adicionais, de ser uma t"C.tU-
e mortal onde o sujeito se vê para aí morrer. NAo há nada figurac::ão indivisível, de que a sua sexualidade é testemunh01
d isto n a clonagem. Já não há medium, já n ão há imagem - do (paradoxo: a clonagem vai fabricar at~ à perpetuidade scn.-s
mesmo modo que um objecto industrial nAo é o espelho do sexuados, porque semelhantes ao seu modelo, enquanto que
objecto idêntico que lhe s ucede na série. Um nunca é a mira- o sexo, por esse mesmo mot'ivo, se torna uma função inútil
gem, ideal ou mortal, do outro, só podem adicionar-se, e se -mas justamente o sexo não é uma função, é o que faz com
só podem adicionar·sc é porque não foram engendrados que um corpo seja um corpo, é o que excede todas as partes,
sexualmente c não conhecem a morte. todas as funções diversas desse corpo). O sexo (ou a morte:
Se nem sequer se trata de gemelidade, pois há nos Gemini neste sen tido é a mesma coisa) é o que excede toda a infor-
ou Gémeos uma p ropriedad e espccffica, e um fasdnio par- maç3o que pode ser reunida sobre um corpo. Ora, toda esta
ticular, c sagrad o, do Dois, o que logo à partida é dois, e informação está reunida onde? Na fórmula genética. É por
nunca foi um. Enquanto que a clonagem consagra a reiteração isso que esta tem forçosamente que abrir uma via de repro-
do mesmo: 1 + 1 + 1 + 1, etc. dução autónoma , independen te da sexualidade c da morte.
Nem criança, nem gémeo, nem o rcflc.1Co narcisista, o Já a ciência bio-fisio-anatómica, pela sua dissecação e m
clont é a ma teria lizaç3o d o duplo por v ia genética, isto é, a órgãos e em funções, dá início ao p rocesso de decomposição
abolição de toda a alteridade e de todo o imaginário. A qual anaUtica do corpo, e a genética micromolecular não é mais
se confunde com a economia da sexualidade. Apoteose deH- que a sua consequência lógia, mas a um nfvel de abstracção
rante de uma tecnologia produtora. e de simulac:;ão bem superior, o nrve.l nuclear da célula de
Um segmento não precisa de mediação imaginária para comando, o nível directo do código genético, em tomo do
se reproduzir, da mesma maneira que o verme •: cada seg- qual se organiza toda esta fantasmagoria. .
mento do verme •• reproduz-se directamente como verme Na visão funcional c mecanicista cada órgão não é amda
inteiro, d a mesma maneira que cada célula do PDG .... ame- mais que umf'l. prótese parcial e diferenciada: já simula ção,
ricano pode dar um novo PX. Da mesma maneira que cada mas «tradicional». Na visão cibernética c informá tica é o
fragmento do holograma complet·o: a informação permanece mais peque no elemento indiferenciado, é cad a célula de u m
in teira, talvez com uma defin ição menor cm cada um dos corpo que se toma uma prótese .-:embrionária• deste corpo.
fragmentos dispersos do holograma. ~a fó rmula genética inscrita em cada dlula que se toma a
é. assim que se põe fim à to taUdade. Se Ioda a informação verdadeira prótese moderna d e todos os corpos. Se a prótese
se volta a encontrar em cada uma das suas partes o conjunto é vulgarmente um engenho que supre um órgão deficiente,
perde o seu sentido. 'é também o fim do corpo, dessa singu- ou o prolongam~nto instrumental de um corpo. então a
laridade chamada corpo, cujo segredo é justamente o de não molécula ADN, que encerra toda a informação relatíva a
um corpo, é a prótese por excelência, a que v ai pennitir pro-
longar indefinidamePJte este corpo por si prdprio - não sendo
• Vtr dt ltrrt, no texto. O seu signincado figurado~ t nlr ""Jre'1o. ele próprio mais quf': a série indefinida das suas próteses.
•• Ver, no texto. Prótese cibernética infinitamente mais subtil f': mais arti-
. .. Prfsldcnt-Oirectcur Cénéral. (N. da T.) ficia l ainda que todas as próteses mecânicas. Pois o código
128 Simultat:ros e Simulaçtfo }Mn Blwdrillard 129

genético não é ..:natural»: como q ualquer parte abstracta de que o original já nem sequer tem luga.r, porque as coisas s.."io
um todo e autonomi1.ada se torna prótese artificial que altera à partida con cebidas em função da sua reprodução ilimitada.
este tcxlo substituindo-se· lh e (pro--tlrlsis: é o sentid o etimo- O que nos acontece já. não só ao n rvel das mensagens mas
lógico), pode dizer-se que o código genético, on de o todo de ao nível dos indivíduos com a clonagem. De facto é o q ue
um ser pretende conde nsar-se porque toda a .cinformação» acontece ao corpo q uand o já não é ele próprio concebido
d este ser estaria al encerrada (reside af a incrlvcl violência da senão como mensagem, como stock de informação e de mensa-
s imulação genética) é um engenh o, uma pró tese operacional. gens, como s ubstância informática. Nada se opõe então à sua
uma matri7. abstracta, da q ual vão poder proceder, nem reprodutibilidade serial nos mesmos termos que emprega Ben -
sequer já por rt!pn)(hu;ão, ma s por pura e simples reco11duçào, jamin para os ob jectos industriais c as imagens mass-mediá-
seres id~nticos adstritos aos mesmos comandos. ticas. Existe p recessão da reprodução, prec(.'"SSãO do modelo
.. Q lltt'll pntrimó,io genét ico foi fixado de uma vt'Z por todas genético sobre todos os corpos possíveis. É a irrupção da tec-
qtmudcl um c~rt o t'Spermatou5ide eucoutrou um certo óvulu. E.str nologia que coma nda esta inversão, de uma tecnologia q ue
IKifrimóuio comporta a rL"CCila de todos os proassos bioquímicos Benjamin descrevia já nas suas últimas consequências, como
qw· mt• rraliwrmu c qm· garantem Q meu {uul'io11ameuto. Uma ;ntdium total, mas a inda na era industria l-gigantesca prótese
c:6pin d,ostn receita ~tá inscrita em cada uma elas d~uas de millliit.>s que comandava a geraçào de objedos c de imagens idênticas,
de aNulas qut lrojc mt coustitutm. Gula uma delas sn~ como que ~i nada podia diferenciar u ma daoutra -esem conceber
fnbricar-mt; autes de ~r uma e/lula do meu {fKadtJ "" do meu ainda o aprofundamento contem porâneo dessa tecnologia
snugut i uma dluln de mim. É, pois, teorÍf."ttttU!IIh' ptJSSfVt•l fabri- qu~ torna possível a geração de serts idênticos, sem que nunca
ctrr um i11divfduo idlutico á mim d partir de 11mn delas.• (Profes- se possa fazer o retomo a um ser original. As próteses da era
sor A. jacquard.) industria l são ainda externas, exotlcnicas, as que conhecemos
A clonagem é, pois, o último estádio da história d a modc- ramificaram-se c interiorizaram-se: esotknicas. Estamos na era
li7..ac;âo do corpo, o estádio em que, reduzido à s u a fó rmula das tt..:ocnologias moles, software genético e mental.
abstracta e genética, o indivíduo está votado à d (.>Smul- Enquan to que a s p ró teses da velha idade de ouro indus-
tiplicac;ão seria l. Seria necessário retomar aqui o que Walt.e r trial e ram mecân icas, ainda faziam o reto rno sobre o corpo
Benjamin dizia sobre a obra de arte na era da sua rep roduti- para lhes modifica r a imagem - elas próprias, reversivel-
bilidade t·é cn ica. O que se perde n a obra serialmen te repro- mente, eram mctabolizadas no imaginário, c este metabolismo
duzida ê a sua aura, essa qualid ade singular do aqui e agora, tecnológico fazia também parte d a imagem do corpo. Mas
a sua forma estética (ela já perdeu ant<'riormente, na sua quando se atinge um ponto de não retomo <dttuMittt) na simu-
qualidade estética, a sua forma ritual) c adquire, segundo lação, isto é, quando a prótese se aprofunda, se interioriza, se
Benjamin, no seu destino inelutável de reprodução, uma infilt ra no coração anónimo e micromolccular do corpo.
fonna poUtrca. O q ue se perdeu é o o riginal, q ue só uma quando se impõe ao próprio corpo como modelo • original,..,
histó r ia, ela própria n ostálgica e retrospectiva, pode queimando todos os circuitos simbólicos u lteriores, não sendo
reconstituir como ttautêntica~+. A forma mais avanc;ada, a todo o corpo possível mais que a sua repetição imutável,
mais moderna dt.'Ste desenrolar e que ele d escrevia no cinema, en tão é o fim d o corpo, da s ua história e das suas peripécias.
na fotografia e nos mass media contemporâneos é a forma em O individuo não é mais que uma metástase cancerosa da s ua
130 /tttn &11drillard 1.1 1

fórmula de base. Serão os indivfduos saídos da clonagem do no bronzea mento por intervenção na fórmula g~..·•wtu ·,,
indivfduo X o utra coisa que uma metástase cancerosa - (estádio incomparavelmente mais avançado, mas pn'•h~·
proliferação de uma mesma célula, tal como o podemos ver aind a assim: simplesmente ela é definitivamente intcgr.HI.t,
no cancro? Existe uma relação estreita entre a ideia directo ra ~-'i nem passa pela superfície, nem pelos oriffdos do corpt•).
do código genético e a patologia do cancro: o código designa passa·se por corpos diferentes. A prótese trad icional. qut•
o mais pequeno elemento simples, a fó nnula minima à <1ual serve para refazer um ó rgão defeituoso, não muda nada iW
pode reduzir-se o indivfduo inteiro e de tal modo que não modelo gera l do corpo. As transplantações de órgãos s..i.u
pode senão reproduzir-se idêntico a s i próprio. O ca ncro é'linda desta categoria. Mas que dizer da modelizaç~o mental
designa a proli feTação até ao infinito de uma célula d e base pelos psicotrópicos e as drogas? É a una do corpo que assim
sem consideração das leis o rgânicas do conjunto. O mesmo é modificada. O corpo psicotrópico é um corpo modelizado
se passa com a clonagem: já nada se opõe à reconduç3o do ~·do interio r», sem passar já pelo espaço perspectivo da
Mesmo, à proliferação desenfreada de uma só mat riz. Outrora representação, do espelho e do discurso. Corpo silencioso,
a rcprodw:;ão sexuada ai nda se o pun ha; hoje pode e nfim mental, já molecular (e já não especular), corpo mctabolizado
isolaraSC a matriz genêtica da identidade, e vão poder elimi- directamente, sem intermédio d o acto o u do olhar, corpo
nar-se todas as ~ripécias diferenciais que fazia m o encanto imanente, sem altcridade, sem encenação, sem transccndên-
aleatório dos indivíduos. c.ia, corpo votado aos metabolismos implosivos dos fluxos
Se todas as células são in idalmente concebidas como cerebrais, endócrinas, corpo sensorial, mas não sensível,
receptáculo de uma mesma fórmula genét ica, que outra coisa porque ligado aos seus únicos terminais internos, e não sobre
seriio - 1\(.~0 somente todos os indivíduos idênticos, mas objectos de percepção (por isso é que se po<l• encerrá-lo
todas as células de um mesmo ind ivíduo - senão a extensão numa sensorial idade t~branca», nula, basta d eshgá·lo das suas
cancerosa desta fórmula de base? A metástase corncçad a pr6prias extrem idades sensoriais, sem tocar no mu ndo que o
com os objectos indus triai s aca ba na organização celular. É rodeia), corpo já homogéneo, neste es tádio de plasticidade
inútil pergu ntarm o-nos se o cancro é uma doe.nçil da e ra táctil, de maleabilidade mental, de psicotropismo em toc:tas
capitalista. tL com efeito, a doença que comanda toda a pato- as direcções, já próximo da manipulação n uclear e genéhca,
logia contem porânea, porque é a própria forma da virulência isto é, da perda absolu ta da imagem, corpos sem represet\ta-
do código: redundância exacerbada dos mesmos sinais, ç3o possíve l,. nem para os ou tros nem para si próprios, corpos
redundância exacerbada das mesmas células. enudeados do seu ser e do seu sentido por transfiguraçào
A cena do corpo muda ao longo de uma • progressdo,. numa fó rmula genética ou por enfeudamen to bioquímico:
tecnológica irreversível: do bro nzeamento pelo sol, q ue ponto de não retomo, apoteose de uma tecno logia q ue se
corresponde já a um uso artificial do meio natural. isto é, a torno u ela própria intersticial e molecular.
fazer d este uma prótese do corpo (tornando-se ele próprio
corpo simulado, mas o nde está a verdade do corpo?) - ao NOTA
bronzea mento doméstico pela lâm pada de iodo (ainda uma
boa velha técnica mecânica) - ao bronzeamen to pela pílula Hd qwt ter em co"t" t~Ut " pr0liftfd(j4o cancerosa I tambtm uma
e as hormonas (prótese química c ingerida) - e para acabar desobtdilndd silt11dosa às imposjçõts do cddigo gtnltico. O Cllncro. f.l'
132 SimufamH t Simulação

estd na 16gka dt uma uis4o molecular in{omulticA dos sem vrvos. t H o logramas
tambbn R sua tXCTe$Clncill monstruosa to SUd nega(flo, porqu~ conduz
i dlSin{onnA(Io total t A dts~~grtgaçlfo. Patologia • rtvOiucion4riR» dt
dcsprrndtmtnto org.2nico, diria RidJArd pjnJtos, in: Fictions (•Not~
synoptiqut$ A propos d'un mal mystirieux•). Dtlfrio tntr6pico dos
orgtmismot, rtsistenft a ueguentropia dos sistemas informJJciot~nis. (É a
mesma conjlmtura qut a das massas em {act d11s formaç6ts sociais
eslm tumdlls: llS massns são elas também m etdstases cancermills INlra nlt!m
dt toda a organicidadt social.)
A ambig11idacle t a mi!Sma para a clonagem: l ao mesmo lé'm po o
triunfo dt uma IJipdt~ directora, a do cddigo t da informaçtfo genética,
t 1m1a dis torçAo txclntrica que lhe dtstr6i Q coerincia. É, alids, provdT.It'l
(mas isto fica para uma história fu tura) que mesmo o •gtmto cl611ico•
nunCR snd ullnticoao~ gtnitor, nunar sud o mtsmo,por mais tf4o~~
porque hllvtrd outro anto. Nune12 sertf •tal corno tm si pr6prio o c6digo É a fantasia de ca ptar a realidade ao vivo que continua
gmiliro o Urd mudado•. Milhaus dt intnfrrlncill$ fomo dtlt , apesar dt -desde Narciso debruçado sobre a sua fonte. Surpreender
ludo, um ler di{trtnlt, qut tml. t udamtnlt 0$ olhos ttzuis do pai, o que o rea l a fim de o imobilizar, suspender o real no mesmo
ndo t novo. f a txptrimentttçilo cl6uica ltrd lido pdo mtnos a vtmtagtm
momento que o seu duplo. Debruçamo-nos sobre o holograma
dt dtmOtiStmr a impossil:tilidJJdt nulical dt dominar um proctSSO pdo
como Deus sobre a sua criatura: só Deus tem esse poder de
simplts domfnio da h!fonnAç4o t do código.
passar através das paredes, através dos seres, c de se reencon-
trar ima terialmente para além deles. Sonhamos passar através
de nós próprios e reencontrarmo-nos para além de nós
próprios: no dia cm q ue o nosso d uplo holográfico estiver lá
no cspa~. eventualmente mexendo-se c !alando, teremos
reali za do este milagre. Claro que já não será um sonho, logo
o seu encanto ter-se-á perdido.
O estúdio de televisão transforma-nos cm personagens
holográficas: tem-se a impressão de ser ma terializado n~o
espaço pela luz dos projectores, como pe:rso~agens translu-
cidas que a massa atravessa (a massa dos malhões de teles-
pectadores) exactamente como a vossa mao real atravessa o
holograma irreal sem resistência - mas não sem consequên-
cia: passar-se para o holograma tomou--a, também a ela, irreal.
A alucinafWãO é total e verdadeiramente fascinante quand''
o holograma é projectado para a frente da placa, de tal modu
que nada vos separa dele (senão o efeito continua a ser (oh•
134 Simulacros e SimulaçM ]tem Btmdrillard

gráfico ou cinematográfico). É também a característica do o lado do duplo. Se o universo é, segundo Mach, aquilo d, •
lrompe l'ot!il, por contraste com a pintura: em vez de um que não há duplo, de que não há equivalente no espt·lho,
campo de fuga para o olho, estamos numa profundidade en tão estamos já, com o h olograma .. v irtua lmen te num tmtn1
invertida, que nos transforma a nós próprios em ponto d e universo; que não é mais que o equivalente em espelho dL-sh-
fuga ... É preciso que o relevo nos sa lte à visl'a como no caso univcrso. Mas qual é este universo?
d o vagão de eléctrico c do jogo de xadrez. Dito isto, resta O holograma, aquele com que já todos sonhámos (ma!"
saber que tipo d e objectos ou d e formas serão •hologéni~, estes não são mais q ue pob res imitações imperfeitas) d á-nos
pois o h olograma tem tão pouco a vocação de produzir a cmoç3o, a vertigem d e passar para o outro lado do nosso
ci nema tridimensional como o cinema tinha a de produzir próprio corpo, p.ua o lado d o duplo, clone luminoso ou
teatro ou a fotografia de retomar os conteúdos da pintura. gémeo morto que nunca nasceu e m vez de nós e que olha
No ho lograma é a aura imaginária do duplo que é, como por nós por a ntecipação.
na história dos clonts, perseguida sem piedade. A semelhança
é um sonho e d eve continuar a sê---lo, para que possa exis tir a O holograma, imagem pc.rfcita e fim do imaginário. Ou
ilusão mínima e uma cena do imaginário. Nunca se deve antes, já não é de todo uma imagem- o verdadeiro medium
passar para o lado do real, pa.ra o lado da exacta semelhança é o laser, luz concentrada, quinta-essenciada, que já não é
d o mu ndo consigo p róprio, do sujeito consigo p róprio. Pois uma luz visível o u reflexiva, mas uma luz abstracta e de
então a imagem d esapanoce. Nunca se deve passa r para o simulaçJ,o. L.aser/cscalpclo. C irurgia luminosa cuja operação
lado do duplo, pois então a relação dual desaparece, e com é aqui a d o duplo: é-se operado ao duplo como se seria ope-
ela toda a sedução: Ora, com o holograma, como com o clone, rado a um tu mor. Ele, q u e se escondia no fundo de nós (do
é a tentação inversa, e o fasdnio inverso, do fim da ilusão, nosso corpo, do nosso inconsciente?) e cuja forma secreta
d a centt, do segredo, por projeo::ão materializada d e toda a alimentava prccis.:1 men tc o nosso imag inário, com a condição
infonnação disponível sobre o sujeito, por transparência de permanecer secreta, (> extrafdo por laser, t sintetizado e
materializada. materializado à nossa frente, tal como n os é possível passar
Depois da fan tasia de ver--se (o espelho, a foto) vem a de através e para a l~m d ele. Momento histórico: o holograma
poder dar a volta a si próprio, enfim c sobretudo a de se faz parte, a partir d e agora, desse -~<conforto inconscien te»
atravessar, d e passar a través do seu próprio corpo espectral que é o nosso desti no, d essa felicidade a partir d e agora
- e qualquer objecto h olografado é e m primeiro lug ar o votada ao s imulacro menta l e à magia ambiental dos efeitos
ectoplasma luminoso do próprio corpo. Mas isto é de a lguma especiais. (0 social, a fa ntasmagoria sociel, já n3o é ela p rópria
maneira o fim d a estética c o triunfo do mediwn, exactamente mais que um efe ito especial, obtido pelo design dos feixes de
como na cstcrcofonia que, nos seus confins sofisticados, põe participação convergentes no vácu o para a imagem espectral
exactamente fim ao encanto e à inteligência d a música. d a felicid ade oolectiva.)
O holograma n ão tem precisamente a inteligência do
lwmpe l'oeil, que é a da sedução, de proceder sempre, segundo Tridi~nsionalidade d o s imulacro - por que é que o
a regra das aparências, por ilusão e eUpse da presença. Ele simu lacro a três dimensões estaria ma is próximo do real que
espalha-se, pelo contr~rio, no fasc!nio, que é o de passar para o simu lacro a d uas dime.nsões? Ele pret·e nde-se como tal,
136 Simulacros e Simuftrção fenn Baudrillard 1.17

mas o seu e feito, paradoxal, é, in versamente, o de nos tornar passa do outro lado da verdade, não no que seria falsu, nMs
sensível a quarta dimensão como verdade oculta, dimensão no que é mais verdadeiro que o verdadeiro, mais real l( ll\'
secreta de todas as coisas, que assume de repente a força da real? Certamente efeitos insólitos e sacrílegos bem m a is
evidência. Quanto mais nos aproximamos da perfeição do destruidores para ii ord em da verdade que a sua pura nc~a ­
s imulacro (e isto é verdade para os objectos, mas igualmente ção. Poder s ile ncioso e h om icida da potencialização do ver-
para as figuras de arte ou para os modelos de relações sociais dadeiro, da potencialização do real. Talvez fosse por isso que
ou psicológicas) mais aparece à evidência (ou antes ao génio os gémeos eram deificados, e sacrificados, cm mais de uma
maligno da incredulidade que nos habita, ainda mais malíg no cul tura selvagem: a hipersemclhan ça equivalia a·um assassí-
q u e o génio maligno da simulação) por que é que todas as nio do origi nal, e, portanto, a um puro não-sentido. Qualquer
coisas escapa m à representação, escapa m ao seu próprio classificação ou significado, qualquer modalidade de sentido
duplo c à sua semelhança. Em resumo, não existe real: a ter· pode ser assim destruída por simples elevação lógica à
ceira dimensão não é mais que o imaginário de um mun do a potência X - le vada ao limite, é como se uma verdade
duas dimensões ... Escalada na produção de um real C..'\ da vez quéllq uer en golisse o seu próprio critério de verdade como
mais real por ad ição de di me nsões sucessivas. Mas exaltação se ((engole a certidão de nascime nto » e perdesse todo o seu
por consequência do movimen to inverso: só é verd adeiro, só sentido: assim o peso da terra, ou do universo, pode ser
é verdadeiramente sedutor o que joga com uma dimensão a eventualmente calculado em termos exactos, ma s parece
menos. imediatamente absurdo, porque já não tem referência, já não
De qualquer m odo, esta corrida ao real e à alucinação tem espelho on de venh a reflectir-se esta totalização, que
realista n ão tem saída pois, quando um objecto é exactamen te t..-quivi'lle muito bem às de todas as dimensões d o real no seu
semelhante a outro, não o i exactame,lte, é-o wu pouco mais. duplo hiper-real, ou à de toda a in formação sobre um indiví-
Nunca há semelhan ça, como não há exactidão. O que é exacto duo no seu duplo genético (clone), o torna imediatamente
é já demasiado exacto, só é exacto o q ue se aproxima da verdade pata físico. O próprio u niverso, tomado g lobalmente, é aqujlo
sem o pretend er. É um pouco d a mesma categoria paradoxal de que não há representação possível, d e que não há com-
qu e a fórmula que diz que quando d uas bolas d e b ilhar plemento em espel ho possível, de que não há equivalência
rolam uma em direcção à outra a p rimeira toca a outra antes em sentido (é tão absurdo dar-lhe um sentido, um peso de
d a segunda, ou e ntão: uma toca a outra antes de ser tocad a. sentido, como dar-lhe u m peso simplesmen te). O sentido, a
O que indica que nem sequer existe simu ltaneidade possível verdade, o rea l só podem aparecer localmen te, no h orizonte
na ordem do tempo e, da mesma maneira , não existe res trito, são obj('ctos parciais de espelho e de equivalência.
semelhança possível na ordem das figuras. Nada se parece e Toda a reduplicação, toda a generalização, toda a passagem
a reprodução holográfica, como toda a veleidade de sínt~ a té ao limite, toda a extens.:io holográfica (veleidad e de dar
ou de ressurreição exacta do real (isto é válido mesmo para exaustivamente conta do universo) fá-los surgir na sua irrisão.
a experimentação cientifica), já não é real, é já l1iper-real. Não Vistos sob este ân gulo, mesmo as ciências exactas se
tem, pois, nu nca valor de reprodução (de verdade), mas aproximam perigosamente da patafísica. Pois elas tf?m algu-
sempre já de simulação. Não exacta, mas de u ma vcrdad~ res a ver com o ho lograma e com a veleidade objectivista de
u ltrapassada, isto é, já d o outro lado da verdade. Que se desconstrução e de reconstrução exacta do mun do, nos seus
138 Simulacros t Simulação

pormenores, baseada numa fé tenaz e ingénua num pacto de Crash


semelha nça das coisas consigo próprias. O real, o objecto
real é suposto ser ig ual a si próprio, é suposto parecer-se
como um rosto a si próprio no espelho - e esta semel hança
virtual é com efeito a única definição do real - e todas as
te ntativas, en tre as quais a holográfica, que se apoiam nela,
não pod em deixa r d e er rar o seu objecto, porque não têm
em conta a sua sombra (e é por isso precisamente q ue não se
p;trece consigo próprio), essa face escondida onde o objecto
se afunda, do seu segredo. Ela sa lta literalmente sobre a sua
sombra, e mergulh a, para aí se perd er ela pró pria, na trans-
parência.

Na perspectiva clássica (mesmo cibernética), a tecnologia


é u m prolongamento do corpo. É a sofisticação funciona l de
um organismo humano, que lhe permite igualar-se à natureza
e investir contra ela tri unfalmente. De Marx a Maclu han, a
mesma visão inst rumentalista das máquinas e da linguagem:
são intermediários, prolon gamentos, media-mediad ores de
u ma n atureza idealmente destinada a tornar-se o corpo orgâ-
nico d o ho me m. Nesta perspectiva «racional>>, o próprio corpo
é apenas um medium.
Jnversamente, na vers.'io barroca e apocalíptica d e Craslr m,
a técn ica é d esconstrução mortal do corpo- já não medíwn
funcional, ma s extens.:'i.o de mo rte - d esmembramento e
fragmen tação, não na ílusão pejorativa de uma unidade
perdida do s ujeito (que é ainda o horizonte da psicanálise),
mas na visão explosiva d e um corpo entregue às (<feridas
simbólicas >), de um corpo confundido com a tecnologia na
sua dimensão de vio laçao e de violên cia, na cirurgia selvagem
e contínua q ue e la e xerce: incisões, exdsões, escarificações,
ca racteres do corpo, cuja chaga e gozo ((sexuais>) não são

1. J. G. &lht.rd, Crash, Paris, Calmann- Uvy, 1974.


!40 Simulacros e Simulação Jean &udrillard H/

senão um caso particular (e a servidão maquinal no trabaJho, n ossa), todo o corpo se torna signo para se oferecer .'1 ln~-. ~
a caricatura pacificada) - um corpo sem órgãos nem gozo dos sign os do corpo. Corpo e técnica difractando um .ltr.lvt'•:-.
de órgão, in teiramente submetido à marca, ao corte, à cicatriz da outra o s seus signos e nlou quecidos. Abstracção ..:an MI t '
técnica - sob o signo resplandecente de uma sexualidade design.
sem referencial e sem limites. Não existe a fecto por detrás de tudo isto, n3o cxish•
psicologia, nem fluxo, nem desejo, nem libido, nem puls.1<,
A sua morte l' a sua mutilação metamorfoseavam-se por d e morte. A morte está naturalmen te implicada numa expio~
obra e xraça de uma tecnologia fragm eutada numa celebração ração sem limite da violê ncia possível feita ao corpo, mas
de cada um dos seus membros e das perspectivas do seu rosto, isto nunca é, como no sadismo ou no masoquismo, u m objec-
dó grão da stta pele e das S llfJS atitudes... Cada um dos espec- tivo expresso e perverso da violência, uma d istorção de sen-
tadcm.>s 110 fL'atro da colisão levaria a imagem de uma viole11 la tido e d e sexo (em relação a q uê?). Não existe inconsciente
trmrsfiguraçiio desta mulher, de uma rede de feridas onde a sua recalcado (afectos ou representações), senão numa segunda
st.'Xunlidade e a ciência dura do autom6vel se erttrelaçariam. No leitura que reinjectaria, ainda aí, sentido forçado, no modelo
seu próprio carro, cada um aplicaria as suas fantasias scbre as psicanalitico. O não-sentido, a selvajaria desta mistura do
chagas da vedeta; cada rmr acariciaria as suas tetrras mucosas e corpo e da técnica está imanente, é reversão imediata de uma
as suas cames erécteis, enquan to adoptariam para cmrduzir na outra, c disto resu lta uma sexualid ade sem an tccl-dcntcs
runa misceltinea de atitudes estilizadas. Cada um pousaria os - espécie de vertigem potencial ligada à inscrição p ura d e
seus lábios sobre as fmdas ensanguentadas, [...} apertaria as signos nulos deste corpo. Ritual simbólico d e incisões e d e
pálpebras contra os tendões desfeitos do indicador, esfrexaria o marcas, como nos grnffili do metro de Nova Iorque.
fio da sua verga nas paredes hemiadas da vagina. O aciderzte da O utro ponto comum: cm Crasll não se trata de s ignos
t.'Sirada tinlm fitralmente tornado possfvef a reu nião tão esperada acidentais qu e apena s pertenceriam às margens d o s istema.
da vedeta e do ptibliro. (Pág. 215.) O Acidente já não é esse bricolage intersticial que é ainda no
acidente da estrada - bricolage residual da pu lsão de morte
A técnica nunca é captada senão no acidente (de automó- para as n ovas classes de tempos livres. O carro não é o
vel), isto é, n a violência feita a s i própria e na violência feita apêndice de um u ni verso doméstico imóvel, já não há
ao corpo. ta mesma: todo o ch oque, todo o encontrão, todo universo privado e d o méstico, existem apenas as figuras
o impacte, toda a metalurgia do acidente se lê numa serniu rgia incessan tes da circulação, e o Acidente está em toda a parte,
do corpo - n ão uma anatomia ou u ma fis iologia, mas uma figura elementar, irreversível, banalidade da an omalia da
semiurgia de contusões, de cicatrizes, de mutilações, de morte. Já não está à ma rgem, está no coração. Já não é a
ferid as q ue são o utros tantos sexos novos abertos no corpo. excepção de u ma racionalidade triunfal, tomou-se a Regra,
Assim se opõe à compilação do corpo como força de trabalho devorou a Regra. Já nem sequer é a c.:parte maldita», a que
na ordem d a produção a dispersão do corpo como an agrama é concedida ao des tino pelo próprio sistema, e in cluída no
na ordem da mutilação. Acabaram as c.: zonas erógenas»: tudo seu cálculo geral. Tudo está in vertid o. E o Acidente que d;í
se torna buraco pa ra se oferecer à descarga renexa. Mas forma à vida, é ele, insensato, q ue é o sexo da vida . E o
sobretudo (como na tortura iniciática p rimitiva, que n ão é a automóvel, a esfera magnética do automóvel, que acaba por
142 Súmllacros e Simulaçtfo /tall &mdrillard HI

investir o universo inteiro com os seus túneis, as suas au to- por eixos dt dirtcçifo, por pára-brisas (durante a 1'jn·c.)111L
-estradas, os seus toboggans, os seus permutadores, do seu Fotos de vergas mutiladas, de vuloos entalhadas e de tc~J{nllc•.-:
habitáculo móvel como protótipo universal, é apen as a sua esmagados desfilando wb os meus olhos no clarão da luz ~'~'""
imensa metáfora. do néon ... Vários destes doclantr~los eram comp/~Jado~ por
Já não há disfunção possível num universo d o aciden te uma reprodução em grar~de pltmo do elemen to medillico ou
- logo, também já n ão há perversAo. O Acidente, como a ornameutal que linha causado a ferida. A fotografia de 1111111
morte, já não pertence à categoria d o neurótico, do recal- verga rasgada em dois era acomptmhada por um separador
cado, do residuo ou da transgressão, é iniciador de uma representando rm1 tmvdo de mão. Por cima de um graude plmw
nova maneira de gozo «não perverson (contra o próprio de vulva esmagada via-Si! a imagem de um centro de volm1te
autor, que fala em introdução de uma nova lógica perversa, decorado com o emblema do construtor. Estes encontros de
é preciso resistir à tentação moral de ler Craslt como per ver- $exus desfeitus e de secções de caixa ou de painéis de bordo
s..io), d e u ma organização estratégica da vida a partir da formavam perturbadores mód1dos, as unidades monetárias de
morte. Morte, feridas, mutilações, já n ão são metáforas da uma circu lação ~1ova da dor e do desejo. ( Pág. 155.)
castraçào, exactamente o con trário - nem sequer o con trário.
Só é perversa a metáfora fetich ista, a sedução por modelo, Cada marca, cada traço, cada cicatriz deixada sobre o
por interposto fetiche, ou pelo medium d a li ngu agem. Aqu i, corpo é como u ma in vaginação artificial, tal como as esca-
a morte e o sexo são lidos n o próp rio corpo, sem fan tasia, rificações dos selvagens, as quais são sempre uma resposta
sem metáfo ra, sem frase - ao contrário da Máquina d' A veemen te à ausência d e corpo. Só o corpo ferido simbolica-
Colónia Pe11itenciária, onde o corpo, nas s ua s chagas, não é mente existe - p ara si e para os outros - o «desejo» «sexual»
ainda mais que suporte de uma inscrição textuaL Também nunca é senão esta possibi1idade que os cor pos têm de mis-
uma, a máquina de Kafka, é aind a puritana, repressiva, c<má - turar e de trocar os seus s ignos. Ora, os poucos orifícios
quina s ignificante» diria Deleuze, enquanto que a tecn ologia na tu rais aos quais se tem o costume d e ligar o sexo e as
de Craslr é resplandecente, sedutora, ou baça e inocente. actividades sexuais não são nada ao lad o de todas as feridas
Sedutora porque destituída de sentid o, e simples espelho possíveis, de todos os orifícios a rtificiais (mas porquê ~arti­
dos corpos desfeitos. E o corpo de Vaugh an é por sua vez ficiais»?), de todas as brechas por onde o corpo se reversibiliza
espelho dos cromad os torcidos, dos pára-choqu es amolgados, e, como certos t>Spaços topológicos, já não conhece nem inte-
das chapas man chad as d e esperma. Corpo e tecnologia rio r nem exterior. O sexo tal como nós o concebemos não é
misturados, seduzidos, inextricáveis. senão uma definição fnJima e especializada de todas as
práticas simbólicas e sacrificiais às quais o corpo pode abrir-
Vaughan virou em direcção a uma drea de estação de serviço -se, já não pela natureza, mas pelo artifício, pelo simulacro,
cujo reclamo a r~éon projectou um breve clarão escarlate sobre pelo acidente. O sexo é apenas a rarefacção de uma pulsão
essas fotos de emaranl1ados de feridas assustadoras: Si!ios de chamada desejo sobre zonas preparadas antecipadamente.
adolescentes deformados pelo painel de bordo, ablaç6es parciais Ele foi largamen te ultrapassado pelo leque de feridas s im-
de Si!io... mamilos seccionados pela sigla de mn construtor bólicas, q ue é de certo modo a anagramatização do sexo em
ornamentar1do um quadro de bordo, feridas genitais causadas toda a extensão d o corpo - mas en tão justamente já não é o
144 /etm &udrillard

sexo, é outra coisa, o sexo, esse, não é mais que a inscrição d e Aqui, todos os termos eróticos são técnicos. 1 ,1d.• d.·
um significante privilegiado e de algumas marcas secundárias cu, de piça, de cona, ma s: o ân us, o recto, a vulva, <t Vl'I"J~·I,
- nad a comparado com a troca d e todos os signos e feridas o coito, e tc. Nada d e calão, isto é, nad a de in timid,u f...,
de que o corpo é capaz. Os selvagens sabiam usar para este da v iolência sexual. mas uma lín g ua funcional: ,u h·
fim todo o corpo, com a tatuagem, o suplício, a iniciação - q ua.;-ão do cromado c das mucosas como de uma furm,J
a sex ualidade era apenas uma das metáforas possiveis da a nutra. O mt."Smo para a coincidência da morte c d11
troca simbólica, nem a mais significativa, nem a mais pn..-sti- sexo: são mais envolvidos ambos numa espl>cie de sup.·r·
giada- como se tomou para nós na sua referência realista e ·d4·~('{11 téc n ico que articu lados segundo o gozo. De
obsessional. à força de acepção orgâ nica e funcional (inclu- resto, não S4.!' trata d e gozo, mas de descarga pura e simples.
sivamen te no gozo). E o coito e o esperma que atravessam o livro não têm
mais valor sens ual que a filigrana das feridas tem sentid o
Lttquanto roldtxmtos pela primeira vez a rms 40 km/hora, violento, mt.-smo metafórico. São apenas assinaturas - na
Vnughmt retirou os dedos dos oriftcios da rapariga t!, girando cena finaL X rubrica com o setl esperma os dcstrcx:os de
sobre as ancas, penetrou-.n. As luzes dos carros que seguiam carros.
pelo toboggan brilhavam d nossa frente. No retrovisor eu O gozo (perverso ou nJo) sempre fo i media tizado por
continuava a ver Vaughan e a rapariga. Os StllS corpos, ihmri- um aparelh o t('C'Ilico, por uma mt.--cãnica, de objectos reais
trados pelos proj«tortS do carro qu~ nos seguia, rt{lectiam·se mas ma is fn."luentcmente de fantasias - im plica sempre
sobrt a mala preta do Lin coln t nos divtrSOS cromndos do uma m;mipulação intermediária de cenas ou de Kadgets. Aqui,
irtttrior. A ímag~rn do seio esquerdo da rapariga, com o mnmilo o gozo não é senão orga.smo, isto é, confundido sobre o
~recto, ondulava sobr~ o cinzeiro. Segmentos deformados das mesmo comprimento de o ndas com a violência do aparelho
coxas d~ Vauglu.m comp1mham com o ven tre da sua parceira técnico, c homogeneizndo apenas pela t('Cnic..1, c esta resumida
uma curiosa figu ra 1utatómicn sobre o espelho retrovisor. llutn só objecto: o auto móvel.
Vaughmt instalou a rapariga eset1rrancJradn ao ~u colo, e de
novo a sua verga a penetrou. O seu acto sexual reflectia·se Es távamos presos uum euorme enga rrafame nto. O
num triplico sobre os marcadores luminosos do contador ~~ cruwmeuto da auto tstrada e da W~terrr Avenue ati à
velocidade, do relógio ~ do contador d~ voltas ... O carro sexuUJ rampa asamdenle do toboggan, todas as vias estavam obs·
a 80 kmfhora o declüJe do toboggan. Vauglum arqueava os trufdas com wfculos. Os pára-brisas reflectiam os clarões
rins ~ expunha o corpo da rapariga ao briUro das luzes atrris de incertos do Sol que descia para al~m dos bairros a oeste de
n6s. Os seios pontiagltdos luziam na gaiola de vidro e de l...nndn·s. Os semáforos act'ndiam·se no nr da ltoite como
cromados do carro que ganltava velocidade. As violentas fogos mmm imeusn pfam'cie de corpos celutdsicos. Vauglum
convulsões p~lvicas de Vnuglrmt coiucidiam com os flashes tiPJilll passado um lnaço pela porta e tamborila va impn-
luminosos das 14mpatlas ancoradas de cem em cem metros ua cientemt•ute 110 paiuel. A alta murallla dt' um autocarro dt•
beira da estrada ... A sua vtrga mergulha va na vaghta, as suas dois andares à uQSStl direi ta davtHlOS a impresslfo dt uma
m4os afastlllJQm as uddtgas e revelavam o 4nus d clnridade que fnltsia dt• rostos. Os passageiros que nos otluroam por detrá~
tnchia o hllbitáculo. (Pág. 164.) dos vidros cvocnoom os alinhamentos de mortos de 11111
146 Sim1dncros c Sirmdaçdo Jnm BaudriUard 147

colombarium *. Toda a incrfvel energia doslculo XX,suficienlc perverso. A película cinematográfica (como a música tran:-.is-
para nos catapultar tm 6rbUa à volta de um astro rnais clemmtc, torizada nos automóveis e nos a pa rtamentos) faz pa rte d;:1
comrmrin-R para mnnttT este êxtase univtrsat. (Pdg. 173.) pelfcula universal, hiper-reat m etalizada c corporal, da cir-
À minha volta, a todo o comprimento da Western Aveurtr, cula~.lio c dos seus fluxos. A foto não é mais um medium q ue
em todos os corredores do tobogga n, o imenso t"garrafnmcnto a técnica ou o corpo- todos são simultâneos, num universo
provocfi(IO pefoacideute estend ia-se at11Jerder de vista. E l'U, de o nde a antecipação do acontecime nto coincide com a sua
pé 110 coraçho desse ciclone gelado, sentia-me completamente• reprodução, e até com a sua produção Cllrcal». Também já não
sercuo, como se por fim me tivessem aliuindo de todas as miulms há profund idade do tem po- tal como o passado, o futuro
obsess5es refativamente a estes vdculos que proliferam sem deixa, por s ua vez, de existir. De facto, foi o olho da câmara
fim. (l'dg. 178.) que se substituiu ao tem po, assim como a toda e q ualquer
profundidade, a do afecto, do espaço, da linguagem. Ele não
Contudo, em Crash, uma outra dimensão é inscpom\vcl é outra dimensão, significa simplesmente que este universo
das out-ras, confundidas, da tecnologia e do sexo (reunidas não tem segrlodos.
num trabalho de morte q ue nunca é u m trabalho de luto):
é a da fotografia e do ci ne ma. A superfície brilhante c sa tu- O ma11equim tstatm bem seguro por um cnlço, it1cJinado
rada da circulação e do acidente não tem profundidade. mas para trás, com o qucixo~rguido pelo aj111:c0 d~ nr. As suas mifos
reduplictt-se sempre na objectiva da câmara de Vaughan. Ele rstavam ligadas nos comandos do ~trg~uho como as de um
armazena e entesoura como fichas sinaléticas as fotos de kamikaze, o seu torso estava coberto de ap6rtlhos de medida.
acidentes. A rcpeti~ão geral do acon tecimento crucial q ue Em fre1lll', Ido impassíveis como el~, os quatro manequins - a
fome nta (a sua morte a utomóvel e a morte sim ultâ nea d a fmm1ia - esperavnm deu tro do ca"o. Os seus rostos estavam
vedeta n um choque com Elisabeth Ta ylor, choque meti cu lo- piutados com sig,Jos esotéricos.
sa mente simulít do e a perfeiçoado d urante meses) faz-se por Um estalido de chicote surpreendtl4 os nossos ouvidos: os
ocasião de uma fil mage m cincmatogtMica. R"tt" universo cabos de medida deseurolava m-se, patinavam na erva ao lado
não seria nada sem este desprendime nto hiper-realis ta. Só dos carris. Numa explosifo metálica, a moto bateu contra a
a rcd u plica<:ão, só o desdobramento do m~dilun visual no parte da frentr do carro. Os dois tngenlws foram disparados
segundo g rau pode operar a fusão da tecnologia, do sexo e para a primeira fi ln dos espectadorts petrificados. Moto t piloto
da morte. Mas de facto, a foto não é aqui um medi um, nem da vooram sobre a capota tSbo{tl~tmdo o pára-brisas, depois foram
ordem da representação. Não se trata d e urna abstracção dançor sobrt o lt'Cto, massa ntgra tstUhaçada. O carro recuou
.c.suplemcntao- da imagem, nem de uma compulsão espec- trk metros sobre o taipal, tennitraudo a corrida atra~SQdo
tacu lar, c a posiç:io de Vaughan nunca é a do voyeur ou do sobr~ os cnrris. A capota, o pdra-brisas to tecto tinham ficado
metidos para dentro. No interior, os membros da famD.itJ tinham
sido atirados em confusão w1s sobre os outros. O torso seccionado
- -=-õcturpa<;:lo di' palavra latina colilmbari•tm, que designa túmulos da mulher jorrava do pdra-brisas tslillraçado ... Os tapetes de
coltc:tivos paríl pessoas modestas c que eram constitufdos por amplos estilhaços dt vidro em volta do carro estavam constelados de
quartos. (N. d 1t i.) aparas de fibra de vidro arrancadas ao rosto e aos ombros do
148 Simulacros~ Sim11112çdo /ttw 8tmdnllan1 /49

mantquim, como uevt prateada ou confetti macabros. Hilhrt! este m undo cromático e metálico inte nso, mas vazio d t.• :-.t.•n-
tomOII·mt o braço. como se faz para ajudar mna criança a s ualidade, hipcrtécn ico sem finalidade - ~ bom ou mau?
Wtlctr um bloqueio mental. 4(Podemos rnJer tudo sobre o sis- Nunca o snberemos ao certo. Ele é simplesmente fa.scinantl·,
tema Amptx. EltS vão voltar a passar o acidente llO retarda- sem que t.oste fascín io impUque um jufzo de va lor. Reside e~í
dor.• (Pdg. 145.) o milag re d e Crasl1. Em parte alguma a nora esse olhar moral,
o julgame nto crítico qu e ain da faz par te da funcion alid ade
Em Crnsl1 tud o é h ipcrfuncional, porq ue a circu laç~o e o d o velho mundo. Crash é h ipercrítico (aí também contra o
acidente, a técnica e a mo rte, o sexo e a simulac;ão s.'o como seu au tor que, na introdução, fala d e «função premonitó ria ,
uma só gran de máqui na síncrona. É o m esmo universo q ue de pôr-se de sobreaviso contra esse mundo brutal co m clarões
o hipermercado, o nde a mercadoria se to m a .c hipcrmcrcado- g ritantes que nos solicita d e fom1a cada vez mais imperativa
ria •, isto é, sempre já tomada ela ta mbém, c tod o o amb iente à ma rgem da paisagem tecnológica ,.). Po ucos livros, poucos
com ela, nas figuras incessa ntes da circulação. Mas ao mesmo filmes atin gem esta resolução de toda a fina lidade ou nega-
tempo, o funcion alismo de Crash devora a s ua próp ria rado- tividade crilica, este esplendor baço da banalidade ou da
nalid ad e, porque já não con hece a d isfunção. ~ um funcio- violência. Naslrvil/(', Lararrjn Mec4rdm.
nalis mo radical. q ue atinge os seus lim ites paradoxais c os Depois de Borges, mas noutro regis to, Crash é o primeiro
queima. Volta a ser de repente um objecto indc(inrvcl, logo g rand e romance do universo da sim u lação, aqu ele com que
apa ixonante. Nem bom nem mau: ambivalentc. Como il morte todos teremos d e nos haver a partir d e agora - u niverso
ou a moda, ele volta a ser de repente u m objrcto tlr través, assimbólico mas que, por uma csp('Cie de volta r do avesso
enquanto qu e o bom velho funciona lis mo, mesmo contro- da su a s u bstâ ncia mass-mediaUzada (néon, betão, carro,
verso, já n ão o ê de todo- isto é, uma via que condu z mais mecânica erótica), aparece como se fosse percorrido por uma
dep r<.'Ssa q ue o gra nde ca minho, o u conduzindo aon d t! o i ntcnsr~ força iniciática.
grande ca minho não condu z ou, melho r ainda, c para paro-
d iar Littré num modo patafisico, «uma via q u e não conduz a A ríltima ambullincia afustou~se com um uivo de sire11as.
pa rte alg u ma, mas que leva aí mais d epressa q ue as ou tras'". As pessoas voltaram para os seus carros. Uma adolescente em
(: isso qu e distingue Crash de toda a ficção científica ou jcans ultrapassou-11os. O rapaz qut a acomptmluwa tirrha pas-
qua se, qu e ainda gira, a maior parte d o tempo, à volta d o sado um braço à volta da sua cintura t acuriciava-1/aL o seio
velho par fu nção/disfunção, o projecta no futuro segundo as dird to, f"S{regantlr.Jas falanges cotJtra o mamilo. Os dois subiram
mesmas linhas de força e as mesmas finalidades qu e as do para um cabriolt c11ja cnixa pintada de amarelo estaVtl cobuta
universo no rmal. A ficção ultrapassa aí a realidad e (ou o de autocolantes... Um intenso aroma dt ~xuaUdade flutuava
inverso), mas segundo a mesma regra do jogo. Em Cras/r já 110 ar. t.ramos os membros ele uma espécie de congregação
não existe ficção nem rea lida de, é a hi per-realidade q ue abole snimlo do snntwtrio depois de ter outrido um strtn4o que nos
a s duas. Já nem mesmo há regressão critica possfvel. Este convitltwtt a tmtn•gar-nos, amigos e desconhecidos, a uma vasta
mundo mutante e comutan te de s imulac;ao c de morte, este ce/ebrn(lfo sexual. Roldmos na noite para rtcriannos com os
mundo violentamente sexuado, mas sem d esejo, cheio de parceiros mais irtesperndos o mistério da eucaristia sangren ta à
corpos violados e violen tos, mas como que neutrali za dos, qual ncu!Jdramos de assistir. (Pág. 179.)
Simulan< •s
e ficção cien tífi, ·o~

Três categorias de simulacros:


- si mulacros naturais, naturalistas, baseados na imagem,
n a imitação e no fingimento, harmoniosos, optimistas e q u e
vi!iam a reStituição ou a institu ição ideal de u ma natu reza à
imagem d e Deus,
- simulacros produtivos, produtivis tas, baseados na
energia, na for~a, n a sua materialização pela máquina e e m
todo o sistema da produção- ob jectivo prometia no de uma
mundialização e d e uma expansão contínua, de u ma liber-
tação d e energia indefinida (o d esejo faz parte d as u top ias
relati vas a esta ca tegoria de s imulacros).
- simulacros de simulação, baseados na informação, no
modelo, no jogo cibernético- operaciona lidade total, hiper-
-rea lidade, objectivo de controle total.
À primeira categoria corresponde o imaginário da utoJiill.
À segunda a ficção científica propriamente dita. À terceira cor-
responde - haverá ainda. um imaginário que responda a t-sl.•
categoria? A resposta provável é que o bom velho imagin.írio
da ficção cien tífica morreu e que a lguma ou tra coisa t'!'ol.í ••
surgir (e não só no romanesco, também n a teoria). Um nu·s11H1
d estino de flutuação e de indeterminação põe fim ;, lh·t:·H'
científica - mas também à teoria, como géneros espt•çiJi,·u·.
152 Simulacrm- e Simulaçilo /Mn &r4drillard / 53

Não há real, n ão há imaginário senão a u ma certa d istân- operação tln gtStho c da pr6pria operaçtfo do real: já mia ltd
cia. Que acon tece q uando esta d is tâ ncia, inclusive a d istâ ncia ficçiio.
en tre o real c o imaginário, tende a abolir-se, a reabsorver-se A realidade poderia u ltrapassar a fia;ão: seria o s ina l mil is
em benefício exclusivo d o modelo? Ora, de uma categoria d e seguro d e uma sobrevalori zação possível do imaginário. Mas
simulacros a ou tra, a tendênda é bem a d e u ma reabsorção o real não poderia ultrapassar o modelo, d o qual é a pena~ o
d esta d istância, deste d esvio q ue dá lu ga r a uma p mjccc;ã o a lib i.
ideal ou crítia : O imagin ário e ra o a libi do real, n u m m un do d ominado
- e la é má xima na u topia, o nd e se desenha u ma esfera pelo princip io d e rea lidade. Hoje em dia, é o real q ue se torna
transcendente, um u niverso radicalmen te diferen te (o sonho alibi d o modelo , nu m u niverso regido pelo princip io d e
ro mântico é ainda a s ua forma individ ua lizada, o nde a tmns- s imu laç3o. E é p.uad oxa lmente o real que se tomou a nossa
cendência se desenha em p ro rund id adc, a té à s estru turas verdadei ra u to pia - mas uma u top ia q ue já não é da ord em
inconscie ntes, mas d e q ualque r modo a descolage m do d o possível, a quela com que já não pode senão sonhar-se,
mund o real é máxima, é a ilha da utopia oposta ao conti- como u m objecto perd id o.
nent~ do rea l); Talvez q ue a ficc;Jo cicn tffica d a era d bernética e hiper-
- ela red uz-se d e ma neira conside rável na ficção cien ti- · real não possa scn 3u esgotar·se na ressurrei ção tcartifidah·
fica: esta, o mai s das vezes, n ão é senão u ma projecção d e mund os tch is tó ricos,., ten tar reconstituir in vitro, até aos
d es medid a, ma s não qualita tivame nte d ife rente, d o m undo míni mos detalhes, as peripécias de um m undo a nterior, os
rea l d a p rodução. Pro longamen tos mecânicos ou e nergéti- aconteci mentos, a s personagens, as ideologias acabadas,
cos, as vel ocidad es o u as potências p.1 ssam à potência 11, mas esvaziadas d o seu sentid o , d o seu p rocesso o riginal. mas
os esq ue mas e os cená rios sõo os mesmos da mecâ nica , d a alucinan tes d e vcrd rtde retrospectiva. Assim acon tece e m
me talurgia, etc. Hi póstase p rojectiva d o rolJOt . (N o universo Simulacn•s d e Ph. Dick, a Gu erra d a Secessão. Gig an tesco
limitad o d a era p ré-in dustrial, a utopia optmlra u m u niversü h olo grama a três dime nsões, ond e a ficção nunca mais será
alternati vo id eal. Ao un iverso pote ncialme nte infin ito d a u m espelho estend id o ao fu turo , ma s realuci nação d eses-
p rodução, a ficção científica ncresctlllff a multiplicação das su as perad a do passad o.
próprias possibilidades); já não podemos imag inar outro u n iverso: a graça d a
- e la reabsorve-se to talment e n a era implosiva dos transccnd~ncia foi · nOS, tí\m~m af, tirad a. A ficção científica
modelos. Os modelos ~1 n ão cons tituem uma transcendên- clássica fo i a d e um universo c m expansão, que encontrava
cia ou u ma projecção, já não cons tituem um imag inário as s ua s vias nos relatos de exploraçdo espacial, cú mplices
rela tivamente ao real, são eles próprios an tecipação d o d as formas mai s terrestres de- exploração e de colon ização
rea l, e não dão, pois, lugar a nenh u m tipo d e a ntecjpação d os sécu los XIX e XX. Não há aí relação d e causa a e feito: não
ficcional - sào imanen tes, e não criam, pois, n en huma espé- é porque o espaço terrestre está hoje v irtualmen te codificado,
cie de transcen dência imaginária. O campo aberto é o d a cartografad o, recensead o, saturado, se fechou d e algum modo
s im ulação no ~ntido cibernético, isto é, o d a ma nipulação ao mundializar·sc - um mercado u n iversal, não somente
em todos o s sentidos destes modelos (cenários, realização d as mercad orias, mas dos valores, d os signos, dos modelos,
d e situações s imuladas, etc.) mas então "ada distitrgut tsla q ue já não d á lugar ao imaginário - n~o é exada me nte por
154 Simulacros e Símulação Jean IJaudrillard 15.S

isso que o universo exploratório (técnico, mental, cósmico) d o v ivido, de rein ventar o real co mo ficção, precisélmcnk
da ficção científica deixou também ele de funcionar. Mas os porque ele desapareceu da nossa vida. Alucinação do n •a l,
d o is estão estreitamente ligados, e são duas verten tes d e um do vivido, do quotidiano, mas reconstitu íd o, por vezL>s até
mesmo processo geral de im plosão q ue sucede ao g igan tesco aos d etalhes de un1a inquietante estra nheza, reconstituída
processo de explosão e de expa nsão cara cterís tico dos séculos como reserva an imal ou vegetal, dada a ver com uma precis..i.o
passados. Quando um sistema atinge os seus próprios limik-s tra nsparente, mas contudo sem substância, antecipadamente
c :-;e satura, produz-se uma reversão - tem lugar outra cois.:'"l, desrealizada, hiper-rca li?..ada.
também no imagi nário. A ficção cien tífi ca já não seria, neste sentido, um roma-
A h! aqu i tivemos sempre uma reserva de imaginár io - nesco em expansão com toda a liberdade e a <(ingenuid ade»
ora o coeficiente de realidad e é proporcional à reserva de que lhe dava o enca nto da descoberta, a ntes evoluindo implo-
imaginário que lhe dá o seu peso específico. Isto é verdadeiro sivamentc, à semelhança da nossa concepção act ual do u ni-
para a exp loração geo gráfica e CSJh1.cial também: quan do já verso, procurando revita lizar, ree1ctualizar, rcq uotidianizar
não há te rritório vi rgem, e logo d isponível p ara o imag iná- fragmentos de s im ulação, fragmentos dessa simulação u ni-
rio, quando o mnpn cobre todo o territdrio, q1_talquer coisa como o versal em que se tornou, para n ós, o mundo dito <•real».
princfpio de realidade desaparece. A conquista do espaço cons-
titui neste sentid o um limiar irreversível p ara a perda d o Onde estão as obras que responderiam desde já a esta
referencial terres tre . Há hemorrag ia da realidade como invel'S<i.o, a esta reversão de s ituação? Visivelmente os roman-
coerência in tema d e um universo limitado quan do os limites ces de K. Philip Dick ••gra vitam », se se pode d izer (mas já
deste recuam p ara o in finito. A co nquista d o esp aço, que não s e pode dizê-lo tanto assim, pois precisamente este no vo
veio depois da do p laneta, equivale a desrealizar o espaço u ni verso é ••a ntigravitacional» ou, se ainda g ravita, é à volta
humano, ou a revertê-lo para u m hiper-real de s imulação. do buraco do real. à volta d o buraco d o imag inário), neste novo
Testemunha disto são esses dois q uartos/cozin ha / duche esp aço. Não se tem a í em vista um cosmos alternativo , um
erguido sobre órbita, à potên cia espacial, pod.er-se-ia dizer, folclore ou um exotis mo có smico nem p roezas galácticas -
com o último módulo lunar. A própria quotidianeidade d o está-se, à partid a, numa s imulação total, sem origem, ima-
habitat ter restre elevada ao posto de valor cósmico, hiposta- nente, sem passado, sem futuro, uma flu tuação d e todas as
s iado no espaço - a satelização d o real n a transcendência do coordenadas (mentais, d e tempo, de espaço, d e s ignos) -
espaço - é o fim da metafís ica, é o fim da fantasia, é o fim não se tr.:tt"a d e u m universo d u plo, ou mesmo de u m universo
da ficção científica, é a era da hiper-realidad e que começa. possível - nem possívct n em impossível, n em real, nem
A partir d aí, algu ma coisa deve mudar: a projecção, a irreal: hipcr-rea{- é um u niverso d e simulação, o que é uma
extrapolação, essa espécie de des medida pantográfica g u e coisa completarnent~ diferente. E isto não porque Dick fale
cons tituía o encanto d a ficção cie ntífica são imp ossíveis. Já expressamente de simulacros (a ficção cien tífica sempre o
não é possível partir do real e fabricar o i rreal, o imaginário fez, mas jogav a com o duplo, com a dobragem ou o
a pa rtir dos dados do real. O processo será a ntes o inve rso: desdobramento artificial ou imaginário, enqu anto que aq u i c~
será o d e criar s ituações descent radas, mode los d e s imulação d uplo d esapareceu, já não há duplo, está·se já sempre noutrc •
e de arranjar maneira de lhes dar as cores d o real, do ba nal, mundo, que já n ão é outro, sem espeU1o nem p rojecç!\o nl'm
156 Sinwlacros e S imulaçdo }am Baudrillard l!i7

utopia que possa reOccti-lo - a s imulação é intransponível, e em todos o s postos do processo de trabalho lradi cimMI,
inultrapassável. baça, sem exterioridade- nós já nem sequer mas que não produzem 11nda, cuja actividade total se c:-i).!,Ot.l
passaremos «para o outro lado do espelho>,, isto era ainda a no jogo de mando~, de concorrência, de escritas, de co nt.lb i-
idade d e ouro da transcendência. Hdade, de uma fá brica para a ou tra, no in terior de uma V<'st,\
rede? Toda a produção materia l duplicada no vácuo (uma
Um exemplo talvez ain da mais convincente s eria o de desta s fábricas·si mulacros ch egou mesmo «realmente)) a abrir
BaJiard c da sua evolução. Desde os primeiros romances falên cia, desempre_gando u ma segunda vez os seus p róprios
muito «fantasmagóricos•,, poéticos, on íricos, confusos, até desenlpregados). E is to a simulação: não que estas lábricas
Crash, q ue é sem dúvida (mais que JGH ou L'fle de Béton) o sejam a fingir, mas precisamente que seja m reais, h iper· reais,
modelo actual d esta ficção científica que já não o é. C rash é o e que de repente remetam toda a «verdad eira~~ produção, a
nosso mundo, nada aí é «inventado)): tudo é aí hi perfuncional, das fábricas «sérias n, para a mes ma hipcr-rcalidade. O que
a circulação c o acid ent·e, a técnica c a morte, o sexo e a objec- aqui é faS<'ina nte, não é a oposição fábricas verd adeiras /
tiva fo tográfica, tudo aí é como uma gra nde máquina síncrona, / fábricas a fingi r, mas pelo contrário a indistinção das duas,
simulada, isto é, aceleração dos nossos próprios modelos, de o facto de que todo o resto da produção não h:'m mai~ refe-
todos os modelos que n os rodeiam, misturados e hiperope~ rência nem finalidade profunda a lém d este «simulacro)) de
racionalizad os no vazio. O que d is tingue Craslt de quase toda empresa. É es ta indiferença hiper-realis ta q ue cons titui a
a ficção científica, que na ma ior parte das vezes ajnda gira à verda deira qua lidade «ficção científica~~ deste episódio. E
volta do velho par (mecânico e mecanicista) funçã o/di sfun - vê-se que não é prL"Ciso inventá-lo: e le está aí, surg ido de um
ção, é que projecta no futuro segundo as mesm as lin has de mundo sem seg redos, sem profundidade.
força e as mesmas finalidades q ue são a s do universo «n or-
mal». A ficção pode aí ultrapassar a realidade (ou o inverso: O mais difícil é sem dúvida hoje em dia, no universo
é mais subtil), mas segundo a mesma regra do jogo. Em complexo da ficção científica, distinguir o que ainda obedece
Cras l!, já não há ficção nem realidade, ta hiper-realidade que (e é uma grande parte) ao imaginário da segunda categoria,
abole ambos. É essa, se é que ela existe, a tJossa ficção científica da categoria produtiva/projectiva, e o que releva já d esta
contemporânea. Jack Barron ou r Étemité, certas passagens de ind ist inção do imaginário, desta flutuação própria da terceira
Tous" Zanzibar. categoria da simu l<tçà o. Assim, pode L>Stabelecer-se cla ra-
mente a d iferença entre as máq u inas robot mec.;inicas, cMac-
De facto, a ficção científica neste sentido já n ão está em terísticas da seg1.mda categoria, e as máquinas cibernéticas,
lado nenh um e es tá em toda a parte, na circu lação d os computador, e tc., que relevam, na s u a a xiomática, da terceira
modelos, aqui e agora, na própria axio mática da s imulaçã o categoria. Mas uma categoria pode muito bem contag iar a
ambiente. Ela pode surgir no es tado bruto, por simples inércia outra, e o compu tador pode muito bem funcionar como uma
d este mundo operacional. Que autor d e ficção científica teria supermáquina mecânica, u m super-robot, máquina d e
«imagina d o» (mas p recisamente isto já não se «imagina») sobrepotên cia, expoente do génio produtivo dos simulacros
essa <<realidade>~ das fábricas -s imulacros oeste-alemãs, fábri- de segunda categoria: ele não funciona aí co mo p rocesso de
cas que reempregam os d esempregados em todas as funções simulaçào, e testemunha ainda reflexos de um u niverso
158 Simulacr os e Simulaçdo

finalizado (inclusive a ambivalência e a revolta, como o com- Os Anim a is


putador de 2001 ou Sh almanezcr em Tous d Zattzibar).
Entre o operático (o estatuto tea tral, de maquinaria teatral
e fantástica, a «grande óperan da tL>cnica) que co rrespond e à Território
primeira categoria, o operatório (o estatuto in dustrial, pro- e rnetamorfost.~
dutivo, efectuador de potência e de en ergia) que corresponde
à segunda categoria, e o operaciomrl (o estatuto cibernético ,
aleatórío, flutuante da ((metatécnl<:a>•) que correspon de à
terceira categoria, todas as inte rferên cia s podem ainda
produ zir-se hoje ao nível da ficção científica. Ma s só a última
categoria pode ain da verdadeiramente interessar-nos.

Q ue queria m os carrascos da Inquisição? A confissão do


Mal, do princípio do Mal. Era preciso fa zer os acusados d izer
que apenas eram cu lpados por acidente, pela incidência do
princípio do Mal na ordem divina. Assim, a confissão restituía
uma causalidade tranquilizadora, e o suplício, a extermin ação
do mal pelo su p lício, n ão era senão a coroa ção triunfal (nem
sádica n em expiatória ) d o facto de ter produzido o Mal como
causn. Assim também, q uand o usamos e abusamos dos
animais nos laboratórios, nos foguetões, com essa ferocidade
experimenta l, e m nome da ciência, que co nfissão procuramos
extorquir·lhes sob o escalpelo e os eléctrodos?
Justamente a confissão de um princípio de objectivid ade
de que a ciência nunca t..>stá segura, de que d esespera secreta·
mente. É preciso fazer os animais dizer que eles não o são,
q ue a bestialidade, a selvajaria, com o q u e elas implicam d e
inintcligibilidadc,dccstranhe7..a radical para a razão, não existe,
mas que pelo con trá rio os comportame.n tos mais bestiais,
mais singulares, maisanonnaisseresolvem na ciência, em meca·
nismos fisiológicos, em lig ações cerebrais, etc. É preciso matar
a bestialidade nos animais e o seu princípio de incerteza.
A experimen tação não é, pois, um meio para um fim, é
um desafio e um supl ício actuais. A experim entação não funda
160 Simulacros e Simulação /etm &udrillard 161

uma inteligibilidade, ela extorque uma confissão de ciência A histeria d os fra ngos atinge o conjunto do grupo, tcns..lo
como se extorquia outrora uma profissão de f é. Con fissão d e «psíqu ica» colectiva que pode atingir um limiar crítico: todos
que os desvios aparentes, da d oença, d a loucura , da bestiali- os animais se }Xkm a voar e a grita_r em todos os sentidos.
dade não são senão uma falha provisória n a transparência Uma vez a crise terminada, é a derrocada, terror geral, os
d a causalidade. Esta p rova, como outrora a da razão d ivina, animais refugiam-se nos ca ntos, mudos e como que parali-
precisa ser refeita continuamente e em toda a parte - nes tt• sados. Ao primeiro ch oque, a crise recome<;a. Isto pode durar
sentido somos todos an imais, e animais de laboratório, que várias semanas. Tentou-se da r-lh es tranqu ilizan tes...
são con tinuamente testados para se lhes extorquir comporta - O canibalismo dos porcos. Os animais ferem-se a s i
mentos reflexos, que são outras tanta s confissões de raciona - próprios. Os v ite los põem-se a lamber tudo o que os rodeia,
lidade em última instância. Em toda a parte a bestialid;~de por vezes até à morte.
deve ceder o passo à a nimalidade reflexa, exorciza ndo uma ((Há que constatar de facto que os animais de criação sofrem
ordem do indecifrável, do selvagem, da q ual p recisamen te psiq1ticamen te... Torna-se n ecessária uma zoopsiqu iatria ... O
os animais, pelo seu silên cio, continua m para nós a ser a psiq uis mo d e frustração representa um obstáculo ao d esen-
encarnação. volvimen to no rmal. •1
Os an imais precederam-nos, pois, na via da exterminação Escuridão, luz vcnnelha, gadgets, tranquilizantes, nada
liberal. Todos os aspectos do tratamento moderno dos animais resulta. Existe nas aves uma hierarquia de acesso à comida,
d escrevem as peripécias da manip ulação humana, da experi- o pick order•. Nestas condições de sobrepopulação, as últimas
mentação ao forci,g • industrial na criação. na ord em não chegam sequer a a limentar-se. Quis -se então
romper o pick order e democratiwr o acesso à comida mediante
outro s is tema d e repartição. Fracasso: a d estruição desta
Reunidos t•m c1.mgrcsso cm Lyon, c~s V(' faiudric•s ordem simbólica leva à confusão total nas aves e a uma insta-
preocuJMrnm-st! com ns doenças.: IN!rlurbaçdcs psfq1úcns qut' St' bilidade crón ica. Belo exemplo de absurd o: conhecem-se os
desenvolvem nn criação i11di4Strial de auimais domésticos. estragos an álogos que a boa vonta de democrática pôde fazer
(Scicuce ~~ Avcnir, Julho d~ 73)
nas sociedades tribais.
Os animais somatizam! Extraordinária descoberta! Can-
cros, úlceras gástricas, enfartes do miocárdio n os ratos, nos
Os coelhos d esenvolvem uma ansiL~ade mórbid a, tor- porcos, n os frangos!
nam-se coprófagos e estéreis. O coelh o, parece, é de na scença Em conclusão, diz o autor, parece que de fa cto o único
um «inquieto••, um ••inadaptado~·. Maior sensibilidade às remédio é o es paço - «um pouco mais d e espaço, e muitas
infecções, ao parasitismo. Os anticorpos perdem a sua eficáóa, d as perturbaÇÕt.."S observadas desapareceriam)). De todas as
a s fêmeas tornam-se estéreis. Espontaneamente, se se pode man eiras, <(o destino destes animais to rnar-se-ia menos
dizer, a mo rtalid ad e aumenta.

• A ordem hierárquica segundo a qual as aves em grupo debicam a


• Em inglis no original. (N. da T.) comida. Em inglês no original. (N. da T.)
162 Simulacros t SimulaÇifo Jean Bnudrillurd 163

miserável .... Está, pois, satisfeito com este congresso: " As Descobre-se, assim, com ingenuidade, como um c.;lmpo
preocupações actuais relativamente ao destino dos animais novo e inexplorado, o psiquismo do animal. quando
CÍI!tltf{ico
de criação v~m aliar·sc, uma vez mais, a moral c o sentido este se revela inadaptado à morte que se lhe prepara. Red~
de um in teresse bem compreendid o. » ..:Não se pode fazer cobre-se igualmente a psicologia, a sociologia, a sexualjdade
tudo com a natureza.~ Como as pertu rbações se tornaram dosprisioneirosquandose toma impossfvel encarcerá-los pum
suficientemente graves para prejudicar a rcntabilidildC da e simplesmente cu. Descobre-se q ue o prisioneiro tem neces-
emp res.1, esta baixa d e rendimento pode COil(l uzir os criadores sidade de liberdade, de sexualidade, d e «normalidade)f para
a dar aos animais condições de vida mais normais. «Para te r suportar a prisão, do mesmo modo que os animais industriais
uma criação sã, seria necessário, a partir de agora, tra tar têm necessidade de uma certa «qualidade de vida~t para mor-
tam~m do tquiUbrio mental dos auimais.... E o autor entrevê rer dentro das normas. E nada disto é contraditório. Também
o tempo em que se mandarão os animais, como os homens, o operário te.m necessidade d e responsabilidade, de autoges-
para o campo, para restaurar este equilibrio mental. tão para melhor responder ao imperativo de produção. Todos
Nunca se disse tão bem como o ..humanismo• . a "norma li· os ho mens têm necessidade de um psiquismo para estarem
dade-, a •qualidade de vida» não eram mais que uma peripé- adaptados. N3o existe outra razão para o aparecimento do
cia da rentabilidade. Existe um evidente paralelo entre estes psiquismo, consciente ou inconsciente. E a sua idade de
animais doent·e s de mais-valia e o homem da concentração ouro, que ainda dura, terá coincidido com a impossibilidade
industrial, da organi7..ação científica do t:robillho e das fábricas de uma socialjzação racional em todos os domfnios. Nunca
com cadeia de montagem. Também ai os • criadores» ca pi- teria havido ciências humanas nem psicanálise se tivesse
talistas foram levados a uma revisão dilacerante do modo de sido milagrosamente possível reduzir o homem a comporta-
explorac;ão, inovando e reinventando a «qualidade do traba- mentos e~racionais». Toda a descoberta do psicológico, cuja
lhO>', o «enriquecimento d as ta refas», descobrindo as ci~ncias complexidade pode expandir-se até ao infini to, vem apenas
«humanas,. c a dimensão ~~psicossociológica>l da fábrica. Só a da impossibilidade de explora r a té à morte (os operários), de
morte sem apelo torna o exemplo dos animais ainda mais encarcerar até à morte (os detidos), de e ngordar até à morte
fascinante que o dos homens na cadeia de montagem. (os animais), segundo a estrita lei da s equivalências:
Contra a organização industrial da morte, os animais não - tanto de energia caló rica e de tempo = tanto de força de
têm outro recurso, outro desal io possivel senão o s uicídio. trabolho
Todas as anomalias descritas são suiádárias. Estas resistências
são um fracasso da razão industrial (baixa de rendimento),
mas sobretudo sente-se que chocam com os especia lis tas na 1. Assim. no Tna.s, quatrocentos homens e cem mulheres expe:rimen·
s ua raüo ldgico. Na lógica dos comportamentos reflexos e tam a ptnitendária mais branda do mundo. Em Julho dltimo nasceu ai
do animal-máquina, na lógica racional, estas anomalias são uma ( ri.lnça e houve apenas trf:s eva.sOes em d ols anos. Os homens e as
mulheres tomam juntos a.s suas 11':~~ e encontram·H pan. sessOK dt>
inqualificáveis. Vai-se, pois, concedf'r aos animais um psi- ps1cologia de grupo. Cada prisioneiro possui a úruca ctt.ve do St>U quarto
quismo irracional e d esequilibrado, votado à te rapia liberal e individual. Alguns casais conseguem isolar-se nos quartos vazios. Até
humanis ta, sem que o objectivo final tenha alguma vez hoje trinta e cinco prisioneiros fugiram mas na sua maioria voltaram por
mudado: a morte. si próprios.
164 Sim11lacros e Sinwtaçlfo Jean Baudrillard 16.1)

- tal delito= tal cas tigo equivalente enquanto deus, o sacrifício do homem só vem depois, Sl'~IIIH lt)
- tanto de comida = peso óptimo e morte industrial. u ma o rdem d egradada. Os homens qualificam-se por fili.lt.,:.itl
Tudo isto é travado e então nascem o psiquismo, o mental, ao a nima l: os Bororos «sãO~> araras. Is to não é da ordem prl·-
a neurose, o ps icossocial, etc., de modo algum para quebrar · lóg ica o u psicanalítica - n em da ordem mental de classifi-
esta equação delirante, mas para restituir o princípio das cação, a que Lévi-Strauss reduziu a efígie animal (ainda que
equivalências que tinha sido comprometido. seja já fabuloso q ue os animais tenh am podido servir de
Animais de carga tiveram de trabalhar para o homem. lf11gua, também isso fazia parte da sua divindade) - não,
Animais de intimação são intimidados a responder ao inter- isso significa qu e Bomros e araras fazem parte de um ciclo, c
rogatório da ciência. Animais de consu mo tomara m-se carne que a figura do ciclo exclui toda a partição de espécies, todas
industrial. Animais de somatização são obrigados a falar as oposiç«k"S distintivns segundo as quais vivemos. A oposição
hoje a língua «psi», a responder pelo seu psiquismo e pelos estrutural é diabólica, divide e afronta identidades distintas:
malefícíos do seu inconsciente. Aconteceu-lhes tudo d o q ue ta l é a pa rtição do hu mano, que rejeita os animais para o inu-
a nós nos acontece. O nosso d estino nunca esteve separado mano - este ciclo, esse, é simbólico: abole as posições num
do deles, e isto é uma espécie de amarga vi ngança sobre a encadeamento reversível - n este sentido, os Bororos ~~são»
Ra zão Humana, que foi usada para edificar o privilégio abso~ araras, q ue é o mesmo sen tido em que o Ca naca diz que os
luto do H umano sobre o Bestial. mortos se passeiam en tre os vivo s. (Será que Deleu zc te m em
Os animais não passaram, de resto, ao estatuto de inu~ v is ta u ma coisa assim no seu devir-an ima l e quando diz:
manidade sen ão no decurso dos progressos da razão e do «Sejam a Pantera Cor-de-Rosa!~>?)
human ismo. Lógica paralela à d o racismo. Não existe «reino)) Seja como for, os animais sempre tiveram, até nós, uma
animal objectivo senão desde que existe o homem. Seria nobreza divi na ou sacrificial de que todas as mitologias d ão
demasiado demorado refazer a genealogia dos seus esta- conta. Mesmo a morte na caça é ainda uma relação simbólica.,
tutos respectivos, mas o abismo que hoje os separa, aquele contrariamente à d issecação e xperimental. Mesmo a domesti-
que permite que se enviem os animais em nosso lugar para cação é ainda uma relação simbólica, contrariamente à criação
os universos aterrorizadores do espaço e dos laborató rios, ind ustrial. Bas ta ver o estatuto dos animais na sociedade cam-
aquele que permite liquidar a s espécies ao mesmo tempo ponesa. E não d everia confundir-se o estatuto da domestica-
que se arquivam como espécimens nas reservas africanas ou ção, q ue supõt: uma terra, um clã, um s istema de parentesco
no inferno dos zoos - pois não há mais lugar para eles na de que os animais fazem parte, com o estatuto do anima] de
nossa cultura q ue para os mortos - o todo revestido por interio r- única espéciedeanimaisqu e nos resta fora das reser-
uma sentimentalidade racista (as focas bebés, Brigitte Bar- vas c d os locais de criação- cães, gatos, pássaros, hamsters,
dot), este abismo que os separa ~ posterior à d omesticação, todos empalhados no afecto do seu d o no. A trajectória que
como o verd adeiro racismo é posterior à escravatura. os animais seguiram, desde o sacrificio divino até ao cemitério
Outrora, os animais tiveram um carácter m ais sagrado, para cães com música ambiente, d esde o desafio sagrado a té
mais divino que os h omens. Não há sequer reino ~(humano» à sentimentalida d e ecológica, diz bastante sobre a vuJgariza-
n os primitivos, e durante muito tempo a o rdem animal é a ção d o próprio estatuto d o homem - o que mais uma v ez
ordem de referên cia. Só o animal é dign o de ser sacrificado, d escreve uma reciprocidade imprevi sta en tre ambos.
l6ó Simulacros t Si,wlllçM Jean Baudriflard

A nossa sentimeOtaudade relativamente aos animais é o dadc espectacular. a do King-Kong, arrancado à sua N·lv. • ••
sinal particularmente seguro do desprezo que lhes votamos. trans(ormado em vedeta de music-ho/1. De repen te, o t't'JI.Iríu
~proporcional a este desprezo. ~à medida da s ua relegação cullurill é invertido. Outrora, o herói cultural aniquil01v.1 11
para a irresponsabilidade, para o inumano, que o animal se animill, o dra gào, o monstro - e do ~'lngue derram.H.Iu
toma dign o do ritual h umano de afecto e de protecc;i\o, como rlascia m plantas, homens, a cultura; hoje é o animal Kin~
a crianc;-a à medida da sua relega(ão par;. um es tatuto de -Kong que vem s.1cudir as metrópoles indus triais, q ue Vl'IH
inoc€-ncia e de infan tilida de. A senti mentalidade n.'io é mais libt:!rtar·nos da nossa cultura, morta por se ter expurgado til·
q ue a forma infinitame nte degradada da bestialidade. Com i- toda n monstruosidade real c por ter rompido o pacto co m
seraç~o racista, com isto ridicularizamos os animais até se elo (que se exprimia no fihne pela dádiva primitiva d,,
tornarem eles próprios sentill\e ntais. mulher). A scx:l ução profunda do filme vem desta inversão de
Os que outrora sacrificavam os animt"is n."io os toma vam sentido: toda a inumanidade passou para o lado dos homens,
por animais. E mesmo a Idade Média que os conden ava e os toda a huma nidade p.:-.ssuu para o lado da bestinlidade cativa,
castigava nas formas estava com isto bem mais perto deles e da seduç~o respectiva da mulher c do animal, sedução
que nós, a quem esta prática causa horror. Eles consideravam· monstruu~1 de um., o rdem pela outra, o humano e o bestial.
-nos culpados: era fazer-lhes uma honra. Nós temo-los na Ko ng morre por ter reatado, pela sedução, com esta possibili-
conta de nada, é sobre esta base que somos .. humanos» com dade de metamorfose de um reino no outro, com esta promis--
eles. Já não os sacrificamos, já não os castigamos, e orgulhamo- ..:uid~ldc inccstuO!H', embora nunca rea lizada, senão de um
-nos di sso, mas é simplesmente porque os domesticámos, modo simbólico c ritual, entre os animais e os homens.
pior: porque fizemos deles um mundo racialmente inferio r, No fundo, a linha que os animais seguiram não é diferente
mais d igno da nossa justiça, justamente do nosso afecto e da da loucurn c da infâ ncia, do sexo ou da negrit ude. Ló gica
da caridade social, mais digno do castigo e da morte, mas dn exclus.c~o. da n.:dus.io, d3 discriminaç~o e, neces&'lriamente,
tam~m da experimentação e da cxtenninac;ão, como ca rne cm troca, lógica da reve rsão, violência reversfvcl q ue faz com
de talho. que toda a socit..->dade acabe por alinhar pelos axiomas da lou-
~ a reabsorção de toda a violência em relação a eles que cura, da infância, da sexualidade e das raças inferiores (expur-
constitui hoje em dia a monstruosidade dos animais. À vio- gadas, é preciso dizê-lo, da interrogac;fto radical que faziam
lência do sacrifício, que é a da «intimidadelt (Bataille), sucedeu pes..u a partir do próprio coração da sua exclusão). A conver-
a vio lência sentimental o u experi me ntal, que é a da distância. gência do processo de civilização é deslumbrante. Os animais,
A monstruosidade mudou de sentido. A monstruosidade como os mortos, e romo tantos outros, seguimm este processo
originária dos animais, objecto de te rror e de fasdnio, mas ininte rru pto de anexação por exterminação, q ue consiste em
nunca negativa, sempreambivalente, objecto de troca também liquidar c depois em fazer fa lar as espécies dl.osaparecidas,
e de metáfora, no sacrifício, na mitologia, no bestiário herál- em (azL"-las confessar o seu desa parecimento. Fazer falar os
dico e até nos nossos sonhos e fantasmas - essa mons truo- animais, como se fez falar os loucos, as crianças, o sexo
sidade, rica de todas as ameaças e de todas as metamorfoses, (Foucault). Is to é tanto mais alucinan te para os animais, cujo
a que se resolve secretamen te na cultura viva dos homens e principio de incerteza que fa zem pesar sobre o homem, dlo:-dt ·
q ue é uma forma da alia nça, trocámo-la por uma monst ruosi~ a ruptura da s ua aliança com ele, reside no facto de 11ào ftrlurmr.
168 Sim11lacros t Sim1dtJÇifo ]mn Bnmlritlard lh9

Aod~fioda loucura rtspcmdnt-~historiCDmtnlt ~ln hipdtest nem os sclva.gcns, e no fund o não sabemos nada dck~. nMs
do incon.sdmtt. O lncon.sciente é o dispositivo logístico que o essencial é que a Razão tenha salvo a face, e que tudo
permite pensar a loucura (e mais geralmente toda a formação escape ao silêncio.
estranha e an ómala) num sistema de sen tid o alargad o ao <>.; animais, e!lt..<oes não falam. Num universo de p.."tlavrn
n ão-sentido e que dará o seu lugar aos terro res do insensato, crescente, d e constrangimento à confissão e à paJavra, só ek·s
a partir de agora intcligi'vcis sob as espécies de um certo dis- pcnnaneccm mud os e, por este facto, pa recem recuar para
curso: ps iquismo, pulsó1o, recalcamento, etc. Fora m os lo ucos longe de nós, para trás do ho rizonte d.1 verdade. Mas é isso
que nos forçaram a admitir a h ipótese do inconsciente, mas que faz com q ue sc~"lmos íntimos deles. Não é o problema
fomos nós, e m troca, que aí os aprisionámos. Pois s e, num a
ecológico da s ua sobrevivência que ~ importante. aind a e
primei ro tempo, o inconsciente parece voltar-se contra o r,uão sempre o do seu silê ncio. N um mundo em v ias de não fazer
e levar até e la u ma s ubversão radical, se parece aind a cMre- mais nada além d e falar, num mundo preso à hegemonia dos
gado d o potencia l de ruptura da loucura, volta-se mais tarde signos e do discurso, o seu s ilêncio pesa cada vez mais sobre
contra ela, pois é o que permite anexá-la a uma r a71io mais a nossa o rgani7.ação d o sentido.
universal que a razão clássica. Claro, fazemo-los falar, c d~ todas as mam.~Tas, umas
Foi encontrada a grelha pela qual podem recolher-se ns ma is inocentes que as o utras. Eles falaram o d iscu rso moral
mensagens d os loucos, ou trora mudos e que hoje todos escu- do ho mem na fábula. Suportaram o discurso estrutural na
tam, mensagens out rora absurdas c indcci fráveis. As crianças teoria do totcmismo. Fornecem todos 06 dias a s u a mensagem
falam, já não s..'lo esses seres simultaneame nte estranhos c .cob,icctiva• - anatómica, fisiológica, genética - nos labora-
insignificantes para o universo adulto - as crian ças signifi- tórios. Servi ram alternadamente de metáfo ríl para as virtu-
cam, tornaram~c significa ntcs -não por uma qualq uer ~liber­ des c os vfcios, de modelo en ergético e ecológico, de modelo
tação» da s ua palavra , mas porque a razão adulta se m uniu mecânico e fo rmal na bió nka, de regis to fantasmático para o
dos meios mais subtis para conjurar a ameac:;a do seu silê ncio. inconscien te c, em data mais recente, de modelo de dcstc rri-
Os primitivos também são escutados, são solicitados, s.."io toria li zaç.'ioabsoluta do desejo no «devir anima ln d e Delcuze
ou vidos, ~1 nâo 53o animais, Lévi-Strauss d isse que a s suas (p<~radox:~ l; tomar o animal como modelo de desterritoria-
estn1turas mentais eram as m esmas que as nossas, a psica- lização q uando e le é, por excelência, o ser do território).
nálise ligou-os ao ~dipo c à libido- todos os nossos códigos Em tudo isso, me táfora, cobaia, modelo, alegoria (se.m
funcionaram bem, e eles responderam-lhes. Tinham sido esquecer o seu «valor de uso" alimentar), gs animais mantêm
e nterrados sob o silêncio, são enterrados sob a palavra, pala- um d iscu rso de rigor. Não falam verdad eirame nte em lad o
vra ..:diFerente•, decerto, mas sob a palavra de o rdem da n enhum, porque não fornecem senão as respostas que se
..:diferenc;a ~~o, como outrora sob a da unidade da Razão, n..'lo lhes pedem. ~ a sua maneira própria de remeter o humano
nos engan emos sobre isso, é a mesma orde m q ue avança. para os seus códigos circulares, d etrás dos quais o seu silêncio
Imperial ismo da razão, nco-impetialismo da d ifere nça. nos an alisa.
O esse ncial é que nada escape ao império do sentido, à Nunca se escapa à reversão que se segu e a qualquer
partilha do se ntido. Claro que, por detrás d e tudo isto, nada exclusão. Recusa r a razão aos loucos conduz, mais cedo ou
nos fa la, nem os loucos, nem os mortos, nem as crianças, mais tarde, ao desma ntelamento das bases d es ta ra zão- d e
170 Simulacros r Sim1tlu(ào ftan &mlrillard 171

alguma maneira os loucos vingam-se. Recusar aos a nimais o morfose, de todas as metamorfoses possíveis. Nada c.f.._. m,lis
incon sciente, o recalcamento, o simbólico (confundido com a erra nte, d e mais nómada e m aparência que os anilnais .._.,
linguagem), é, mais tarde ou mais cedo, podemos esperá-lo, porém, a s ua le.i é a do tcrritório m. Mas é preciso afastar hJC.h~
numa espécie de desprendimento u llcrior ao da loucura e d o os con tra-sensos sobre esta noç.lo d e território. Não é de
inconsciente, volta r a pôr em c..1 usa a validad e d estes concei- modo nenhum a relac;Ao alargada de um sujeito ou de u m
tos, tal como eles nos n..-gcm ho~ cm dia, e nos d istin guem.
Po is se outrora o p rivi légio do homem era basea do no mono-
pólio da consciência, hoje é-o no monopólio do in consciente. 2. A err.\ncia dU!Otlnln\illl.,:é um m ito, e a roprcsenlaÇ3olKtual,errática
Todos Sc1bem que us anima is não têm inconscient e. 5<-m ~ númada, d o lnc:on.<id{!nh.• '-" do dt."5q>, ~ da ~ma ordem. Os animais
d ú v ida que sonham, mas is t·o é uma conju ntura de o rdem n unc• vagm.''' "'"'- nunca furam dt"StetntNi.11i,.ados. Toda uma fantasma·
..,;oru~ hbitrtadum :ot." d~.~nh.-l cm ~t<JO 305 con•..-t...,ng•mcntos da~
bio--eléctrica, e falta-lhe. a linguagem, que é a única a dar um
d adc moderna, um.1 n.j)ft"'tCCI3(;\o da nature7..1 e dos otnimai5 como wl-
sentido ao sonho, au iru.crcvê-lo na ordem simbólica . Podemos V-I)íll'\l\, hberdadt> dt •S<Kiar todM M suas m..'n'»Jdadt'S•, hofe de "'realizar
fantasiar sobre ck'S, projectar sobre eles as nossas fan tasias c tod~ os k'\J~ d1.~~- f>'.M~ u I'O\ISSC3u nismu mod~no tornou a formo\
crer pa rtilhar esta encenaçdo. Mas isto é-nos cómodo - dt! d i\ indct('rmiMc;.lu ~la pub.lu, t.l.l ~rr.lncla du dcseju ~ Jo numddismo da
facto os an imais n ão n os si'io inteligíveis nem sob o regime mfin!t ude - "''" ~ a ml.<&m.l ml..tkõl das fotÇ.l'l soltas, nJo codificadas,
da consciêncift nem sob o do inconsc.ient•:. Não se tra ta, pois, !loem uut m fitt.."'li,ladc ~)UI.' õl ~u.n próprloll'rupç;\o.
Oro:"~ ii na1ure1.a livre, v~rw:.•m, St.om!imill' nl'm territt~rio, onde cada um
de os forçar a isso , mas justa mente, pelo contrário, d~ ver em de;;~mbula A:mn vontade, nunca -.-x1~th1, a n!'lu wr no imagin.lrio d a ordem
que é qut• d es põem em causa esta mt-sma llip6tt'se tio iucottN:ieute, llumin.a ntt', d a 'JU,II é oespcl l"'""'\luiva h~nt~. Nlll' projectamos como selva·
c tr que ou tra hit161t•se ;w:; fo rçuu. Tal ~ o sentido, ou o não ~1na 1dea l (nn tur~7a, dl"l''C)ll, ;tnimalidí'lt.k, rl.r.um<~ .. .) o p róprio esquema de
sentido, d o seu silên cio. dr.:sh.--rritnnnl1:r.1ç,\ o ~lU"-"~ Oll O ~H:tcma ~~númlo.'~ do capitaL A liberdade
Fo i assim o silên cio dos lo ucos, que nos forçou n <~ceita r a ni\u t.'!'t.\ ~1\\ Indo ll('nhum n n.'\o ser nn capil.tl, tvi ele que a produziu, foi
ele q ue n nprofun..Jm1. III\, poi!O, un1.1 cxaçt<t n~rrclaçl\u entre a legislação
hipótese do inronsdcnt·c - t.'Sla é a resistência dos animais, soci.ll do v:~lnr (urb.,na., lnd u~trlal , r'l'p rt'S.'ol\',l,ctc.) t' a selv.1j<uia imaginária
que nos força a mudar de hip6tcsc. Pois se cks nos ~=io ._. <jUC lhe t- n~ta: elAs l'~t.,o amb..1~ •dc~tl'mlorlali~adas,., e são à imagem
continuarão a ser inintelig íveis, a verdade é que vivemos, uma da o u t ra. De n...ostu, n rath c.'illitl,lllc o.hl••liCM.'JU", vli·St' nas teorias actuais,
de alguma maneira, cm i.ntdigência com eles. E se vivemos cn.'SCt' A rn«tidA dil rtbstra..:c;l\o civtll,..1tl."', d e modo ai~um como ant.1gonista,
assim, não é d ecerto sob o signo d e uma ecologia geral ou mas absolut.lmcntc scr,undo o m~.~ ~~~~ rnnvimcnto, o de uma mesma
numa espécie de nid,o pla netário, que não é mais que a fvr tn;) c.ld<l \1{'7 m.'li!i dt.'loo<'Odl(lcada, Jlllllis d t."'!~Crnlrada, m ais .. Jivre-•, q u e
~nvoJvc i\0 n'ICSmu tcmp.1 u nu!!o~ r~a l c o nosso lm.lginário. A nature:ta,
dimensão alargada drt caverna de Platão, as fa ntasias dos a liberdade, o d("'õ(in. f..'tC., nAu C')Cprlmcm Sl."fuer um sonho in verso do
animais c dos elementos naturais viriam conviver com a ca plti.ll, tradu,..em d&rl'('tanlCnle Ub prug~ ou as dC\•astações de5ta
sombra dos homens salvos da economia política - não, a cultura, a ntenpam nw..mtlaobreela, po1ssonham rum d esterTitorializ.açlo
nossa inteligência p rofund a co m os an imais, mesmo e.m vias total onde o StSteM.1lÓ 1mpõe d e!õterriton aliuc;i\o relati va: a exigência de
de desaparecimen to, é colocada sob o s igno conjugado, • ltberdade• nun('a é mi\t~ do que a de ir m.oab longe q u e o l!.istema, mas no
mesmo sentido.
inverso na apan!ncia, da mtttuno~ e do terâtório. Nem ns animAIS nem O!!o selv.;agens confw.tra'm <' •naturez,;~.. no .sentido
N ada parece mais fixo na pcrpctuac;ão da espécie q ue os que lhe: dal'r\0!0, )(\ C'Ol\hettm trmtónos, hmttad05. marçados, que sio
animais e, contudo, eles são para nós a imagem da meta~ 4?Spa(OS de reoprodd-'<1~ mtnnsponh·c•s.
172 Sim. lacras e Simultlçtfo Jean Bat1drillard 17.1

g rupo com o seu espaço p róprio, espécie de d ireito de pro- gações são aí absolutas, a reversibilidade tota l, mas n ingu(·m
priedade p rivad a o rgâ nica do individuo, d o clã o u da espécie conhece a morte porque tudo aí se metamorfoseia. Nl-'m
- ta1 é a fantasia da psicologia e da sociologia a largada a sujeito, nem morte, nem inconsciente, nem recalcamento, ~i
toda a ecologia - nem esta espécie de função vital, de bolha que nada pára o encadeamento das formas.
rtmbiental aonde vem resumi r-se todo o sistema das necessi- Os animais não têm inconsciente, porqu e têm um terri-
dades 0>. Um território também não é um espaço, com o que tório. Os h omens não têm um in consciente senão desde q ue
este termo implica para nós de liberd ade e de apropriação. já não têm território. O território e as metamorfoses foram-
Nem instinto, nem necessidade, nem estrutura (nem q ue -lhes tiradas ao mesmo tempo- o inconsciente é a estrutura
fosse «cul tural» e "comportamental>~). a noção de território individu al d e lu to onde se volta a represen ta r, sem cessar e
opõe-se também, de alguma maneira, à de inconsciente. O sem esperança, esta perda - os animais são a su a nostalg ia.
inconsciente é uma estrutu ra «enterrada », recalcada, e ind e- A pergunta q ue eles nos colocam seria, pois, esta: não vive-
fin idamente ramificada. O território é aberto e circu nscrit o. remos nós desde já para além dos efeitos de linearidade e de
O inconsciente é o lugar da repetição indefin ida do rccalc.:l- acumulação da razão, para a lém dos efeitos de consciência e
mento e das fan tasias do sujeito. O território é o lu gar de um de in conscien te, sobre este modo b ruto, simbólico, de ciclo c
ciclo finito d o parentesco e das troca s - sem sujeito, mas de reversão indefinida sobre u m espaço finito? E pa ra além
sem excepção: ciclo a nimal e vegetal, ciclo dos bens e das do esquema idea l que é o d a nossa cu ltu ra, de toda a cu1tura
ri quezas, ciclo d o parentesco c da espécie, ciclo das mu lheres ta lvez, o da acu mulação de energia, e d a su a libertação final,
e do ritual - nele n ão há sujeito e ai' tudo se troca. As obri- não sonharemos mais com implosão que rom explosão, com
meta morfose mais que com energ ia, com ob rigação e com
desafio ritual ma is que com liberdad e, com ciclo territorial
mais que com ... Mas os animais n ão pergu n tam. Calam-se.
3. As.c;irn, Henri Laborit recus.'la intcrpret;u;:ãudotcrritúrio cm termos
de instinto ou de propriedade privada: «Nunca ~ ~cm t'Vidêncía, no
hipotálamo ou nourrosítio, um grupo celular ou viM rl<'rvosas d iferenciadas
relacionadas com a nO<;ao de território ... Nilo parC<'e existir centro do ter-
ritório... N~o tem utilidade apelar a urn instinto particular,.- mas é para
o remeter melhor para uma funcionalidade das necessidades alargada <HlS
comport<~mcntus cultu rais, que é a vulgat<t hoje em dia oomum " toda a
economia, pskologia, sociologia, etc.: «Ü território tor n..1-se, assim, o e!>paço
n~sá rio à ~alização do acto gratificante, o espaço vitaL A bolha, o
território representam, assim, o pedaço de espaço em contacto imediato
com o orga nismo, aquele no qual "abre" as suas !Tocas tcrmodinl'R\ic.-s
para manter a sua própria e-strutura ... Com a interdependênci.- cresçente
dos indivfduos humanos, oom a promiscuid ad~ qu~ caractC'riza as grandes
cidades modernas, a bolha ind ividual enrolheu-sedf.'! forma considf.'!rávd .....
Concepçllo espacial, funcional, homeocstática. Como se o problema de um
grupo ou de um homem, até mesmo de um animal, fosse o equilibrio da
sua bolha e a homeostase das suas trocas, internas e externas!
O resto

Qum1do se retira tudo, multi fica.


É falso.
A equação do tud o e do nada, a subtracção do resto, ê
fttlsa de uma ponta à outra.
Não é que não haja resto. Mas este nunca tem realidade
autónoma, nem lugar própri o: é aquilo q u e a partição, a cir-
cunscrição, a exclusão designa ... que outra coisa? é: a su b-
tracção do n..--sto que se fu nda e toma força de realidade ...
q ue outra cois.:'l?
O estranho é que n~o há jus tamente termo oposto na
oposição binária: pode dizer•se a direita/ a esquerda, o p ró-
prio/o outro, a maioria/a minoria, o louco/ o normal. etc. -
mas o resto/ ?. Nada d o outro lado d a barra . .,A soma e o
resto•, a adição e o resto, a operação e o resto - não são
o~içõcs distintivas.
E cont·u do, o que está do o utro lado do resto existe, é
mesmo o termo marcado, o tempo forte, o elemento p ri-
vileg iado nesta oposi<;ão estranhamente di ssimé tríca, nesta
t."Strutura que não é uma estrutura. Mas este le rmo marcado
não tem nome. É anó nimo, é instável e sem definição. Positivo,
mas só o negativo lhe dá força de rea lidade. Em rigor, não
poderia ser definido senão como o resto do resto.
176 Simulacros e Simulaçlo Jean &udrdlnrd 177

O resto re.mete assim muito mais para uma partiç3o clara seu lugar numa socialidade alargada. !! sobre este rcstu l)Ut.'
de dois termos locali7.ados, para uma estrutura giratória e a máquina social .se relança e encontra uma nova encrgi.\.
reversível. estruhJra de reversão sempre iminente, em que Mas que é que acontece quando tudo é apagado, quand o
11ào se sa~ mmca qtml f o r~to do outro. Em nenhuma outra tudo é sociali7...-"ldo? Então a máquina pára, a dinâmica inver-
estrutura se pode operar esta revers3o, ou esta derrocada: o te-se, c é tudo o sistema social que se torna resíduo. À medida
masculino n ão é o feminino do feminino, o n ormal não é o que o sucinl, na sua progressão, elimina todos os resíduos,
louco do louco, a direita não é a esquerda da esquerda, d e. turn(l-SC ele próprio residual. Ao designar como «Société>>
Talvez só no espelho a pergunta possa ser Colocada: quem, as categorias residuais, o social dt."SiWW-Sl.' n si. próprio como
do real ou da imagem, é o reflexo do outro? Neste sentido n·sto.
pod!! falar-se do resto como de um espelho, ou do espelho A impossibilidade de dete rminar o que é o rl""SlO do o utro
do resto. ~que, em ambos os casos, a linhn d e demarcé'Çào ec,ractcri1oo~1 a fa se de simulação e de agonia dos sistemas dis-
estrutural, a linha de partilha do sentido, to rnou-se flutuante, lintivos, fase em que tudo se torna resto e residual. Inversa-
é que o sentido (mais literalmente: a possibilidade de ir de mente, o dl!Soo,p.,n."Cimento da barra (atid ica e estrutural que
um ponto ao outro segundo um vector determinado pela isolava o r<.>::olu do??? e que permite, a partir de agora, a cada
posição Tl'Spectiva dos tennos) já não existe. Já não há posi- termo ser o t\.'Slo do outro, caracteriza uma fase de reversi-
ção respectiva - desvanecendo-se o real para dar lugar a bilidade onde, virtualmente, já utfo Irá rrsto. As suas propo-
uma imagem mais real que o real, e inversamente - des- ~içÕL-s ~o .. verdadeiras• simultanea mente c não se excluem.
vanecendo-se o resto do lugar atribu(do para ressurgir d o ~lo elas próprias reversíveis.
avesso, naquilo de que era o resto, etc.
O mesmo se passa com o sociaL Quem dirá se o resto do Outro aspecto tão insólito qu<tnto a ausência de termo
social é o resíduo não socializado, ou se não é o próprio oposto: o resto di'\ vontade de rir. Qualquer discussão sobre
socia l que é o rt.osto, o detrito gigantesco... de que outra coisa? este tema dt.'S~ncoldeia os mesmos jogos de linguagem, a
De um proct.'SSO de qu e se tivesse desaparecido compl~ta­ mesma mnbiguidade c a mesma obscenidade que as dis-
mente e se Mo tivesse sequer outro nome que o de socu,l, cussões sobre o sexo ou a morte. Sexo e morte são os dois
não seria mesmo assim senão o resto. O rcsfduo pode ser à grandes temas rt.'COnlu.'Ci.dos pela sua capacidad e de descn-
dimensão total do real. Quando um sistema absorveu tudo, cadeólr a a mbiva lênci<l e o riso. Mas o resto é o t·e rceiro, e
quando se adicionou tudo, quando. não resta nada, a soma talvez o único, os outros d ois juntam-se-lhe como à própria
toda rcwrte para o rtsto e torna-se resto. figura da reversibilidade. Pois, por que nos rimos? Só nos
Ver a rubrica .cSociété,. do Monde, onde, paradoxalmente, rimtnt da reversibilidade d as coisas, e o sexo e a morte são
só apa.recem os imigrantes, os delinque ntes, as mulheres, figuras eminentemente reversíveis. ~ porque a questão é
etc. - tudo o que não foi socializado, casos •sociais,. ;má- sempre reversível entre o masculino e o feminino, entre a
logos aos casos patológicos. Bolsas a reabsorver, ~gmen­ vida c a morte, que nos rimos do sexo e da morte. Por
tos que o t~social» isola à medida que ~ alarga. Destgna.dos maioria de razão o fazemos do resto, que nem sequer conhece
como «residuais » no horizonte do soctal, passam, por tsso termo oposto, que percorre sozinho todo o ciclo, e corre
mesmo, sob a s ua jurisdição e estão d estinados a cncontrnr o infinitamente atrás da sua própria barreira, atrás do seu
178 Simulacros e Simulação /tml 8cwdrWard 179

p róprio duplo, como Peter Schlemihl atrás da suit sombra m? à luz de todos os restos, em todos os d omfnios, do n:iu-dito,
O resto é obsceno, porque é reversível e se troca em si mesmo. do feminino, do louco, do marginal, do excremento ~ Jo
É obsceno e faz rir, como só faz rir, rir profun damen te, a detrito em arte, etc. Mas isto é aind a apenas uma espécie dl'
indistinção do masculino e do feminino, a indistinção da inv<'rsão da estrutura, d e regresso do recalcado como tempo
vida e da morte. forte, de regresso do resto como acréscimo de sentid o, como
excedente (mas o exceden te n i'io é formalmente diferente do
O resto tornou-se hoje o vocábulo forte. É sobre o resto resto, e o problema da delapidação do excedente em Bataille
que se baseia uma inteligibilidade nova . Fi m de u ma certa não é d iferente do d a reabsorção dos restos numa economia
lógica das oposições d istintivas, on de o vocáb u lo fraco jogava política do cálcu lo e da penúria: só as filosOfias são diferen-
como vocábulo residu al. Tudo se inverte hoje em dia. A tes), de u ma sobrevalorização de sentido a partir do resto.
própria psicanálise é a primeira grande teori7..ação dos res í- Segredo de todas as «libertações», qu e jogam sobre as ener-
duos (lapsos, sonh os, etc.). Já não é uma economia política g ias escondid as do outro lado d a barreira.
d a produção que nos d irige, mas uma economia política da Ora nós estamos perante uma situação muito mais ori-
reprodução, da reciclagem - ecologia c poluição - uma g inal: n ão a da inversão pura e simples e da promoção dos
economia política do resto. Toda a normalidade se revê hoje restos. mas a de um en feudamento d e toda a estrutura e de
toda a oposição que faz com qu e r~em sequer haja resto, pelo
facto de este estar em toda a parte e, ao procurar-se sem se
1. A aluslo a l'rler Sdtfcmilll, L'Homml? q11i n ptrdu son Ombrt', não(: e ncon trar, se a nu lar enquant·o tal.
acidental. Pvis a ~mbra,como a imagem noespelho(no f sl•ldallli'de l'ra,i,>a), Não é quando se retira tudo q ue não resta nada, mas
é por exC(>l~ncia um resto, algo que pode t~cair .. do corpo, assim como~ quando as coisas se revertem sem cessar e a própria adição já
cabelos, os excrementos ou os detrítos de unhas aos quajs estão assimiladas não faz sentido.
em toda a magia arcaica. Mas sliu também, S<lbcmo·lo, O!metátoras,. da
alma, da respiração, do Ser, da ~nda, do que dâ um p rofundo sentido
ao sujeito. Sem imagtm ou sem sombra, o corpo torna-se um nada tra nS· O n ascimento é residua l se não for retomado simboli-
parente, jd 111io 1 elt: 1~r6prio 11ada mais qui' mio. 11 a subst.lnda diMana que camente pela iniciação.
fica, uma ve7. que a sombra se vai. Já n1!1o há realidade: foi a sombra que A morte é residual se não for resolvida n o luto, na festa
levou consigo toda a re;.lidade (o mesmo se passa em O z.:studa~tftfle Pr~ga, colectiva d o luto.
a imagem quebrada com u t.'l>pclho implica a morte imediata do heró1 - O valo r é residual se não for reabsorvido e volatilizado
sequência clássica dos contos fantásticos - ver também A sombru de Hans
Christian Ander~n). Assim, o corpO pode ser ;~penas o detrito do ~u
no ciclo das trocas.
própriu rC'sfduo. rt.'C<Iída da sua própria recaída. Só a ordem dita real A sexualidade é residual quando se torna produção de
pérmitc privilegiar o corpo comu referência. Mas nada na ordem simbólica relações sexuais.
pennite fazer uma aposta sobre a prioridade de um ou do outro (do corpo O próprio social é residual quando se torna produc;ão de
ou da sombra). E~ esta reversão da sQmbra sobre o corpo. esta recaída do «relaç<Jes sociais».
t>s~nriat no limite do essencial. sob o golpe do insignificante, ('Ssa derrota
Todo o real é residual,
incessante do sentido perante o que dele resta, quer sejam os detritos de
unhas ou o objecto «alinea a) .. , que constitui o encanto, a beleza C' a e tudo o q ue é residual está destinado a repetir-se indefi-
inquietante estranheza destas histórias. nidamente no fantasmal.
180 Simulacros e S 1mula(io jnm Baudnllnrd 181

Toda a acumulaç~o oão é senão resto, e i\CUmulaça.o de quando o último indí~ena tiver s ido analisado (pl.·lo ültimn
res to, no sentido em q ue é ruptura da aliança, e compcns.' no etnólogo}, qu ando a última mcrcttdoria tiver s ido prod u zida
infinito linear da produção, da energia c do valor o que se peJa última .. (or~a d e trabalho., q ue reste, q uando a ú lti ma
cumpria anteriormente no ciclo da aliança. Ora, o que percorre fantasia tiver sido elucidada pelo último analista, qua ndn
um ciclo cumpre-se totalmen te, enquanto que na dimensJo tudo tiver sid o libertado c cons umido tcrom a última energia•,
d o infinito tudo o que está abaixo da barra do infin ito, abaixo então dar-m~cmos cunta de que esta gigantesca espiral da
da barra da eternidade (esse stock de tempo que é também energia c da p rodução, d o r<.ocalca mento c do inconscie nte,
ele, como qualquer stock, ruptura d e aliança ), tudo isso não é graça~ ao qual se conseguiu e ncerrar tudo numa equação
mais que resto. cntrópica c coltastrófica, que tudo isto é, com efeito, apenas
A acumulação não é mais que resto, ~ o r~alcamcnto não uma metafísica do resto, e esta será resolvida de repente em
é mais q ue a sua fom1a inversa e simétrica. E sobre o stock de todos os seu!» dei tos.
afectos e d e reprcsenta<;ões recalcadas que se baseia a nossa
nova aliança.
Mas quando tudo é recalcado já nada o é. Não estamos
longe desse ponto a bsoluto do recalcamento em que os
p róprios stocks se d esfazem, em qu e os slocks d e fanta smas
se desmoronam. Todo o imaginário do stock, da ener~;ia e de
tudo o que dela resta, vem-nos d o recalcamento. Quando
este atinge um ponto de saturação critica em que a s ua
evidência cai por terra, então as energias já não têm de ser
libertadas, gastas, economizadas, produzidas: é o próprio
conceito de energia que se volatilizará por s i próprio.
Hoje em dia faz-se do resto, das e nergias que nos restam,
da restituição e da conservação dos restos, o problema cru-
cial d a h uman idade. t u ma questão insolúvel enquanto tal.
Toda a nova Cllergia libertada o u gasta deixará um novo
resto. Todo o desejo, toda a energia libidinal produzirá um
novo recakamento. Qual é a ad mimt;ão, já que a própria
e nergia apenas se con cebe no movime nto que a armazena e
a liberta, que a recalca e a «produz", isto é, na figura do resto
e do seu duplo?
~preciso levar ao consumo insensato da energia para lhe
exterminar o conceito. ~ preciso chegar ao recalcamento
máximo para lhe exterminar o conceito. Quando o últi mo
litro de energia tiver sido cons umido (pelo último ecologista),
O cadáver
em espiral

A Uni versidade é deliqu esccnh:: nl\o funcional no plano


MJCial do mercado e do emprego, sem substâ ncia cultural
nem finalidade d e saber.
Para fala r com rigor, já nem sequ er há poder: também ele
é dcliym-'SCCnte.
.. Daí a impossibilidade do regresso das chamas
d e 68: rcgr("SSQ do questionamento do &1ber contra o próprio
p<Kter- contradição explosiva do saber c do poder (ou reve-
laçdo do seu conluio, o que vai d ar ao mesmo) na Univcrsi-
d.1dc c, de repente, por contágio simbó1ico (mais q ue politico)
em toda a ordem institucional e social. Porquê os sociólogos?
marcou esta vi ragem : o impasse do saber, a vertigem do não
saber (isto~- ao mesmo tempo o absurdo e a im possibilidad e
de acumu lar valor na o rdem do saber) volta-se mesmo como
uma arma absoluta cont ra o próprio poder, para o d es-
mantelar segundo o mesmo cenário vertiginoso de desis-
tê ncia. ~ isto o e feito de Maio de 68. É impossível, hoje em
dia, quando o próprio poder, depois do saber, desandou, se
tornou impossível de captar. Ele próprio está despojado.
Nu ma instituição a partir d e agora flutuante, sem conteúdo
de saber, sem estrutura de poder (sen ão uma feudalidade
arcaica que gera u m si mulacro d e máquina cujo d estino lhe
escapa e cu ja sobrevivência é superficial como a das casernas
184 Simulacros t Simulaçtfo /ttm Blludn'llard

e dos teatros), a irrupc;âo ofensiva é impossível. Não tem servem para nada: por que motivo se recusaria a d.l-los, dt.•
mais sentido que o que precipita o apodredmento, acen- resto o poder está pronto a dá-los a toda a gente- a J"•lílir<l
tuando o lado paródico, simulacro, dos jogos de saber c de provocóldora serve apenas para cristalizar as e nergias subrc
poder agonizantes. uma quest"o fictícia (selecção, trabalho, diplomas, etc.), sobre
A greve faz exactamente o inverso. Regenera o ideal de um referencial já morto e apodrecido.
uma universidade possível, a fi~!\o de um acesso de todos à Ao apodrecer, a Universidade ainda pode fazer bastantc
cultura (impossível d e encontrar e que já não tem sentido), mal (o apodrecimento é um dispositivo simbóUco - não
substitui-se ao funcionamento da universidâ.dc como a sua pulítico, mas simbólico, logo para nós subversivo). Mas para
alternativa crítica, como a sua terapêutica. Sonha ainda com isso seria preciso partir deste mesmo apodrecimento, e não
uma substância e urna democracia do sabcT. De r<.~to, cm sonhar com ressurreição. Seria p reciso transformar este
toda a pa rte hoje em dia, a esquerda desempenha este papel: apodreci mento e m processo violento, cm morte violenta,
é a justic;a de esquerda que rcinsufla uma ideia de justiça, umn pela irrisão, o desafio, por uma s imulação multiplicada que
ex igência de lógica c de moral social num aparelho podre, ofereceria o ritu al de morte da universidade como modelo
que se d esfaz, que perde toda a consciência da sua legitimi- de apodrecimento a toda a sociedad e, modelo contagioso de
dade e renuncia quase por si a funcionar. 11 a esquerda que desafectamento de toda uma estrutura social, onde a morte
segrega e reproduz desesperadamente poder, pois o quer, e faria finalmente os seus estragos, que a greve tenta deses-
togo crê nele e ressuscita-o onde o poder lhe põe fim. Como peradamente conjurar, cm conspiração com o sistema, e não
o sistema põe ftm, um por um, a todos os axiomas, a todas as consegu indo mais q ue mudá-la numa morte lenta, ao retar-
suas instituições, e realiza, um por um, todos os objectivos dador, que já nem sequer é o lugar possCvel de uma subver-
da esquerda histórica e revolucionária, esta v~-se impelida são, de uma rcvcrStio ofensiva.
a ressuscita r todas as engrenagens do capital para poder É o que o Maio de 68 tinha conseguido. Num momento
investir con tra elas um dia: da propriedade privada~ p(:quena menos avançado do p rocesso de liqucfacçlio da universi-
empresa, d o exército à grandeza nacional, da moral puritana dílde e da cultura, os estuda ntes, longe de q uererem salvar
à cultura pequen()<-burgucsa, da justiça à universidade - é os móveis (ressuscitar o objecto perdido, num modo ideal),
preciso conservar tudo o que está a desaparecer, o que o tinham reto rquido ao lançar ao poder o desafio de uma
próprio sistema, na sua atrocidade certamente, mas também morte total, imediata, da instituição.. o desafio de uma des-
no seu impulso irreversfvcl. liquidou. territorializaç~o bem mais intensa ainda que a proveniente
Donde a inversão paradoxal mas necessária de todos os do s istema, e intimando o poder a responder a esta deriva
termos de análise política. total da instituição de saber, a esta inexigência total de
acumular num dado sítio, a esta morte pretendida no limite
O poder (ou o que ocupa o seu lugar) já não acredita na - não a crise da universidade, isso não é um desafio , pelo
Universidade. No fu !'\do sa be que ela não ~ mais que uma contrá rio, é o jogo do sistema, mas a morte da Universidade
zona de alojamento e de vigit~ncia para todo um grupo - a isto o poder não pOde responder, senão pelo retorno d a
etário n3o tendo, pois, senllo de seleccionar - encontrará a sua própria dissoJução (por um instante talvez. mas nós
sua llitt noutro sitio, ou de outra maneira. Os diplomas não vimo-lo).
186 Simulncros e Simtdaçdo Jt.an 8audrillard 1~7

As barricad as do 10 de Ma io pa reciam defensivas e cén io. Por não sei que efeito d e Moebius, também a p n.,p,·i,,
d efender u m te"itório: o Bairro Latin o, velha boutiq1u!. Mas representação se voltou sob re si mesma, e todo o univt'J"S( '
não é verdad e: por d etrás d esta aparência, é a un iversidad e lógico do político se dissolve ao mesmo tempo, dando lu~.-r
morta, a cu ltura morta cujo desafio lançavam ao poder, e a a um u ni verso transfinilo da simulação, onde à partiJól
s ua p rópria mo rte eventual, ao mesmo tempo - trans- n in guém já é rep resentado o u representa tivo do qu e qu~r
f ormaç.lo cm SDcri{fcio in~tUtJto, o que não era mais qu e a q ue seja, o nde tudo o q u e se acumula se desacumula ao
p rópria operação do sistema a longo prazo: liquid ação d a mesmo tem po, o nde mesmo o fantasma axial, directivo c
cultura e do saber. Eles não estavam lá para salvar a Sorbon ne protector do poder d esaparece u. Universo para nós ainda
mas para brandir o cadáver na cara dos outros, como os incomp reensível, irreconhldvel, de uma curva maléfica à
negros d e Watts e de Detroit brandiam as ruínas dos seus qual as nossas coordenad as mentais ortogonais e levadas ao
bairros, a q ue eles próprios tinham lançado fogo. infinito lin ear da critica e da história rL>Sis tem violentamente.
Que é que se pode brandir hoje em d ia? Já nem sequ er ti;, oontu do, af que há q u e lu tar, se é que mesmo isso fa z
as ru ínas do saber, da cultura - as próprias ruinas estão sen tido. Somos s imuladores, somos s imula cros (n ão no
defuntas. Nós sabemo-lo, durante sete anos fizemos o trabalho sentido clássico de ..a pa rência»), espelhos côncavos irradia -
de luto d e Nantcrre. 68 está morto, repetfvel somente corno d os pelo social, irradiação sem fonte lum inosa, poder sem
fantasia d e luto. O que seria o seu equ iva len te em violência origem, sem d istância, e é neste universo táctico do si mu·
s imbólica (isto é, para além do poUtico) seria a mesma lacro que vai ser p reciso lutM - sem esperança, a esperança
operação q ue tem feito percutir o nâo s..1bcr, o apodrecimento é um valor fraco, mas no dL'Safio c no fascínio. Pois não há
do saber contra o poder - volta r a encontrar essa e nergia que recu.sar o fasdnio intenso que emana desta liq uefacção
fabulosa já não d e modo alg um ao mesmo nível. mas na de todas as instâncias, de textos os e ixos d o va lor, d e toda a
espiral su perior: fa1..cr percutir o não poder, o ap<?dredmcnto axio logia, inclu indo a política. Este espectácu lo, que é ao
do poder contra - contra o quê, exactamente? e; af q u e es tá mesmo tempo o d a agonia c do apogeu d o capital, u ltrapassa
o problema. Talvez seja insolúvel. O poder perdL'-se, o poder c m muito o d a mercado ria d escrita pelos s ituacionis tas. Este
pcrdcu~se. Já n ão existe m à n ossa volt a mais do q ue espectácu lo é a nossa força essencial. Já não estamos numa
manequi ns de pode r, mas a ilusão maquinal d o poder rege correlação d e forças incerta ou vitoriosa, mas politica, relati-
ainda a o rdem social, detrás d a qual cresce o terror ausente, vamente ao capita l, esse é o fantas ma da revolução. Estamos
iJegívet do controle, terror de um código definitivo, d o q ual numa rc laç3o de d d..'lfio, d e sedução e de morte rela tiva·
todos nós somos ín fimos te rminais. mente a l'Ste universo que já não o é, pois que, p recisame nte,
toda a axialid a d e lhe escapa. O desafio que o capital, no seu
Atacar a rep resentação também já n ão faz muito sentid o. delírio, nos la nça - liquidando sem vergonha a lei do lucro,
Sentimos de facto que todos os conflitos estuda ntis (como a mais-valia, as finalidades produtivas, as esln.lturas de poder
de ma neira mais ampla, ao ntvel da sociedad e global) em e voJtand o a e ncontrar no Lcnno do seu p rocesso a i.mo rali·
torno da representacão, d a delegação de poder, já não são, dade p rofunda (mas também a sedução) d os rituais primitivos
pela mesma razão, mais que peripécias fantas ma is que ainda de d estruição, esse desafio, é preciso aceitá-lo numa sobre-
chegam, con tudo, para nosso d esespero, para ocupar o pros- valorizaç3o insensata. O capita l é irresponsável, irreversível,
188 Simulacros t Simulaç4o /tttn &wdrrUnrd IX9

inelutável como o valor. Por si só é capaz de oferecer u.m ciência imaginária, só uma pnla{fska dos simulacros pod"· f..'""·r-
espectáculo fantástico da sua decomposição- só pai ra ainda ~nos sair da estratégia de simula<;ão do sistema e do imp.1::..."-'
sobre o deserto das estruturas clássicas do capi tal o fantasma de morte em que nos encerra.
do valor, como o fantasma da religião paira sobre um mundo
desde há muito dessacralizado, como o fan tasma do saber Maio de 197ó.
paira sobre a unive.rsidade. Cabe-nos a nós vol tarmos a ser
os nómadas deste deserto, mas desliga dos da ilusão maqui nal
do va lor. Viveremos neste mundo, q ue tem para nós toda a
inquietante estranheza do deserto e do simu lacro, com toda
a veracidade dos frm tasmas vivos, dos animais errantes c
simuladores q ue o capital. q ue a morte do capital fez de nós
- pois o deserto das cidades é igual ao desert'o das areias, a
selva dos signos é igual à das florestas, a vertigem dos simu-
lacros é igual à da natureza - só subsiste a seduc:ão verti-
ginos.1 de um sistema agonizante, onde o trabalho enterra
o trabalho, onde o valor enterra o valor - deixando um
espac:o virgem, assombrado, sem trilhos, contfnuo como o
queria Bataille, onde só o vento levanta a areia, onde só o
vento vela pela areia,
Que se passa com tudo is to na ordem politica? Muito
pouco,
Mas devemos lutar também contra o fasdni o profundo
que exerce sobre nós a agonia do capital, contra a encenação
pelo capital da sua própria agonia, da qual somos os ago-
nizantes reais. Deixar-lhe a iniciativa da sua próp ria morte é
deixar-lhe todos os privilégios da revolução. Cercados pelo
sim111acro do va lor e pelo fantasma do capital c do poder,
estamos bem mais desarmados e impotentes que ce.rcados
pela tti do valor e da mercadoria, já que o sistema se mostrou
capaz de integrar a sua própria morte, e que a responsabi-
lidade respectiva nos é retirada e,logo, o problema da nossa
própria vida. Esta astúcia suprema do sistema, a do simu-
lacro da sua morte, através do qual nos mantém em vida
tendo liquidado por absorção toda a nega tividade possível,
só pode ser impedida por uma astúcia superior. Desafio ou
O último ta ngo
do valor

Omlc mulfi1'Sld 110 se11 rugar t! a rlt~rdem


011dc tiO 114Kilr pretendido wfo Juf 11ada, I a ordem

O pânico dos responsáveis da Universidade perante a


ideia de que se vão distribuir diplomas sem contrapartida
de trabalho «real», sem equivalência d e saber. Este pânico
não~ o da subversão política, é o d e v er o valor dissociar-se
dos seus conteúdos c funcionar sozinho, segundo a sua forma
própria. Os v~lorl'S universitários (os diplomas, etc.) vão
prolifera r c continuar a ci rcular, um pouco como os capita is
flutuantes ou os eurodólarcs, vão rodopiar sem critério de
referência, completamente desvalori7...1dos até ao limite, mas
não tem importância: a s ua simples circulaçAo basta para
criar u m horizonte social do valor, e a obsessão do valor
fantasma será ainda maior, mesmo quando o seu referencial
(o seu valor de uso, o seu valor de troca , a «forc:;a de trabalho»
universitária que ela abarca) se perde. Terror do valor sem
equivalência.
Esta situação não é aparen temente nova. 1!-o para aqueles
que pensam ainda que se elabora na universidade um pro-
192 SimuiPcros t Sltmllaçdo 193

cesso real de trabalho, e que investem ar a sua vivência, a sua diplomas a toda a gente. Su bversJo? De maneira nenhuma.
neurose, a sua razão d e ser. A troca de s ignos (de: saber, d e Uma vez ma is, éra mos os promotores d a forma avançada, d a
cultura) na Universidad e, ent re tcdocentes• c fidiscen tes• já forma p ura do va lor : diplomas sem traba lho. O sistema não
não é. desde há um certo tempo, mais q u e um conluio acom- q ue r mais, mas q uer isso- valores o peracionais no vácuo -
p."lnhadoda a margura d a ind iferença (a ind ifere nça d os sig nos e fomos nós q ue o inaugurámos, na ilusão inversa.
q ue nrrnsta consigo a d esafeição d as relações soc iais c hu ma- A a ngús tia estudantil ao ve r q ue são concedid os diplo mas
n<ls ), u rn sim u lacro acom pan hado d e u m ps icodram<l (o de sem traba lho é igual e co mplementar à dos doce ntes. é ma is
uma procu m vergonhosa de calor, de prcscnçn, de t nx.1 secreta c mais insidiosa q ue a angús tia trad icional d e fracassar
edip iana , d e iuccsl o pt!dllgógico que p rocura substitu ir-se à ou d e o bter d ip lomas sem va lo r. O segu ro contra todo s os
troca pt!rd id a d e trabal ho e de saber). Neste sentid o, a Uni- riscos do di p loma, q ue esvazia d e conteúdo as peripécias d o
versid <l de contin ua a ser o luga r de u ma iuidaçtfo dt-:oc'!'llt"- saber e da sciL't.'Çãu, é d ifícil de suporta r. E a inda se complica
rada à forma vazia do t1fllor, e os q ue a í v ivem desde há alguns mais, q uer com uma prestac;áo-alibi, simulacro d e trabalho
anos conhl.'Cem esse traba lh o estranho, o vcTdad eiro dCSt...'S- trocado contra u m simu lacro d e diploma, qu er com uma
pero do nâo trabalho, d o não saber. Puis as gt•rações actu ais forma de agressão (o docente intimado a dar o UV, o u tratado
son ha m ainda com ler. a p render, riva l izar~ mas o coração como d istribu idor a u to mático) o u de ran cor,. pa ra q u e pelo
já não está ar - em bloco, a me ntal idad e cuJtur<ll ascétia me nos passe ainda algu ma coisa de u ma relação «real•. Mas
afundou corpo c bens. É por isso que a g reve j.i não s ignifica nad a disso resulta. Mesmo as cenas d omésticas entre docen-
nad a 111 • tes e estud a ntes,. que constituem hoje em d ia u ma boa parte
É por isso também q ue fo mos a pa nhados na armad ilha, das suas trocas, não são mais que a record ação , e como que
nos emboscám os a nós p ró p rios, d epois d e 68, ao d a r os a nostalgia d e u ma violência ou d e uma cu mpl icid ad e q u e
o utrora os opunha o u os reunia cm to rno d e uma questã o de
saber ou de u ma q uestã o política .
L De r<$10 fi g reve õtctual assume naturalmente Oi mesmo~ aspcct~ É tristc c a ssus tador sermos aband onad os pela ~<du ra le i
quen tnbalho:o mtsmoiH4!CJIIi!llse, a mesma au~ncia de gravidade, a mesma do valo r», a «lei d e bronzf')IO. É por isso q u e ain d a há d ias
a usf:ncia de ~tiv05, a me)ma alergi.l à ded~o. o mesmo rodopinr cm p ropícios pa ra os métodos fascis tas e au toritá rios, pois estes
droJio de ln~tSnci.l, o mesmo luto da cncrgít~, " mcsm.1 circularidade ressuscita m algo d a vio lência qu e é necess.i ria pa ra viver -
ind~finida na grn'~ ~como no trabalho ontem.. a n\CSm."l $1tu~âo na
sofrida o u infligida, pouco importa. A violência d o ritual,. a
rontr.HnstitutÇJo que na mstituiçâo: o contágio aumenta, o f«ho esd
fechado depots dis to v,li ser preciso descompnmir noutro ~ftio. Ou
violência d o tra balho, a vio lência d o saber,. a violên cia d o
antes No tomar e5le mesmo impasse como s ituac;lo de ~. fazer voltar sangue, a violência d o poder e d o político, é boa. ~ daro, é
a indecb.lo e 11 ausência de oo,ectivo t.•m t-ilu~o ufensiVa, cm t.'5Cra t~ia luminoso, as correlações de força, as contradições, a exp lo-
Procurando 1 todo ocusto .subtra• r-se a e:.ta situação mortal, a Hl.l anorexia rac::ão, a repressão! Isso faz·nos falta, hoje em d ia, e a s ua
mental un1Vcrs1t.irta, os ~~.~tudante<i não fazem mais que reinsuflar energ1a necessi d ade faz-se sentir. t todo um jogo,. por exemplo, na
a uma institui~Jo e m coma profu ndo, é a sobrevlv&nda forçada, é a medi-
Un iversid ade ainda (mas toda a esfera poHtica se articula d a
cina do dC5CSpcro, qul' soe prahca hoje nas instituições como nns indivfduos,
e que f ~m toda a parte o signo da mesma incapacidade de e nfrentar" mesma maneira) qu e o reinvestimento do seu poder pelo
morte. .,f! preciso em purrar o qve se está a a fu nd ar... dizia Nict"l.s<:he. d oce nte a través da (<palavra livre)), a a utogestão d o g·r upo e
194 Sim1~ lacros e S imulação

outras trelas modernas. Ninguém é parvo. Simplesmente, Sobre o n iilismo


para escapar à decepção profunda, à catástrofe que arrasta a
perda dos papéis, dos estatutos, das responsabilidad es e a
demagogia incrível a que aí se dá largas, é p reciso recriar no
prof nem que seja um manequim de poder e d e saber, nem
que seja uma parcela de legitimidade vinda da ultra-e59uerda
- caso contrário a s ituação é intolerável para todos. E sobre
este compromisso- figuração artificial do d ocente, cumpli-
cidade equívoca do estudante, é sobre este cenário fantas ma
de pedagogia que as coisas continuam, e podem desta vez
durar indefinidamente. Po is há um fim para o valor e para
o trabalho e não o há para o simulacro do valor e do traba ·
lho. O universo da simulação é transreal e transíinito: já
nenhuma p rova de realidade lhe v irá pôr fim - só o afun- O niilismo já não tem as cores escuras, wagnerianas,
damento total e o deslizar de terreno, que continua a ser a s penglerianas, fuliginosas, do fim do século: Já não procede
nossa mais louca esperança. de uma Welttmschauung • da decadência nem de uma radi-
calidade metafísica nascida da morte de Deus e de todas as
Maio d e 1977. consequências que da( há a retirar. O niilismo é hoje em dia
o da transparência, e é de alguma maneira mais radical, mais
crucial que nas formas a nteriores e históricas, pois esta trans-
parên cia, esta flutuação é indissoluvelmente a do sistem a, e
a de toda a teoria que preten de ainda analisá-la. Quand o
Deus morreu aind a h avia Nietzsche para o dizer - grande
niilista perante o Eterno e o cadáver do Eterno. Mas perante
a transparência simulada de todas as coisas, perante o simu-
lacro de realização materialista ou idealista do mundo na
hiper-realidade (Deus não morreu, tomou-se hiper-real), já
não há Deus teórico e crítico para reconhecer os seus.
O universo, e todos nós, entrámos vivos na simulação, na
esfera maléfica, nem sequer maléfica, indiferente, da dissua-
são: o niilismo, de maneira insólita, realizou-se inteiramente
já n ão na destruição, mas na s imulação e na dissuasão. De

~ Conce~o do mundo. Em alemão no original. (N. da T.l


196 SimulAcros t Simula(IO Jmn Boudrillard 197

fantasma activo, violento, de mito e de cena que ele era, que se agarrava ao sentido) é uma paido niilista por exce-
historica mente também, passou para o funcionamento trans- lência, é a paixão própria ao modo de desaparecimento.
parente, falsamente transparente, das coisas. Que resta, pois, Estamos fascinados por todas as formas de desaparecimento,
de niilismo possível em teoria? Que nova cena pode abnr~se, do nosso desapar<.'Cimcnto. Melancólicos e fascinados, tal é a
onde pudesse voltar-se a jogar o nada e a morte como desafio, nossa sítuação geral n uma era de transparência involuntária.
como questão?
Estamos numa posição nova, e sem dúvida insolúvel. Eu sou niilista.
relativamente às formas anteriores do niilismo: Constato, aceito, assumo o imenso processo de destru.iç~o
O romantis mo é a sua primeira grand e aparição: COfl"eS- das aparências (e da seduc:ão das aparências) em benefício
ponde, juntamente com a Revolução das LU7.es, à destruição do sentido (a representação, a his tó ria, a c.ritica, etc.) que é o
da ordem das aparências. facto capital do século XIX. A verdadeira revolução do século
Surrealismodadaísmo, o absurdo, o niilismo polftico, são XIX, da modernidade, é a destruição radical das apa rêndas,
a sua segunda g rande manifestação, que corresponde à des- o dese ncantamento do mundo c o seu abandono à violência
truição da ordem do sentido. d a interpretação e dn história.
O primeiro l! ainda uma forma estética de niilismo (dan- Constato, aceito, assumo, analiso a segu nda revolução, a
dismo), o segundo uma forma politica, histórica e metaHsica do século XX, a da pós-modernidade, que é o imenso pro-
(terrorismo). cesso de destrulc;ão do sentido, igual à destruição ante-
Estas duas fonnas já só nos dizem respeito em parte, o u rior das aparências. O que pelo sentido mata, pelo sentido
não nos dizem respeito de todo. O nülisrno da transparência morre.
já não é ne m estético, nem político, já não ~ai beber, n~m à A cena d ialéctica, a cena crítica estão vazias. Já não há
exterminação da s aparências, nem à do sentido dos ulttmos cena. E não há tera pia do sentido ou terapia pelo sentido: a
fogos, ou dos últimos mati zes de um apocalipse. Já não há própria terapi a fa~ parte do processo generalizado de indi-
apocalipse (só o terrorismo aleatório tenta ai nda reflecti-lo, ferenciação.
mas justamente já não é polftico, e já só tem um modo d_e A própria cena da análise tornou-se Incerta, aleatória: as
aparic:ão que é ao mesmo tempo um modo de desapareci- teorias flutuam (de facto, o niilismo é impossivel, pois é
mento: os malia - ora os mtdia Mo são uma cena onde se ainda uma teoria desesperada mas determinada, um imagi-
representa qualquer coisa - é uma band~ uma pista, um nário do fim, uma Wtltanschnuung d a catástrofe) 111•
cartão perfurado de que já nem somos espectadores: recep- A própria análise talvez seja o elemento decisivo do
tores). Acabou o apocalipse, hoje em dia é a precessão do imc.nso processo de congelação do sentido. O acréscimo de
neu tro, das formas do neutro e da indiferenc:a. Deixo à
considerac:ão se poderá haver um romantismo, uma estética
do neutro. Não creio - tudo o q ue resta é o fascínio pelas 1. Há culh.lril! que só têm imagindrio da sua origem e nlo t~m ne:nhuJ_"
forma s desérticas e indiferentes, a través da própria operação imaginário do seu fim. Há cuJturas que estio obctcadu por am~ ..._DoLS
outros caso5 s3o po5SiveiJ... Apenas ter imaginilrio do HU própno fim (a
do sistema que nos anula. Ora o fascínio (em oposic:ão à nos.sa cultura, nüUst:a). }' nlo t~ quaJquer i.tNgi.Nrio, ne-m da origem
sedução que se agarrava às aparências, e à raz.lo dialéctica ~do fim (a que nt~ por vir, aleatória).
198 Simul11cros t Simul~o Jtan &udriiiiJrd 199

sentido que as teorias trazem, a sua competição ao nível do Verschwit~dt"s •. Transpolftica é a esfera electiva do modo de
sentido é absolutamente secundário tendo em conta a sua desaparecimento (do real, do sentido, da cena, da história,
coligação na operação g laciar e quaternária de diSS<.."Caç!io e do social, do indivíduo). Em rigor, já não é tanto niilismo: no
de transparência. É preciso estar consciente de que, seja qual desaparecimento, na fonna desértica, aleatória c indiferente,
for a maneira como a análise proceda, ela procede no sentido já nem sequer há o pathos, o patético do niilismo- esta energia
da congelação do sentido, ajuda à precessão dos simulacros mítica que constitui ainda a força do niilismo, radicalidade,
e das formas indiferentes. O deserto aumenta. recusa mitica, antecipação d ramática. Já nem sequer é desen-
Implosão do sentido nos media. Implosão do social nn cantamento, com a tonalidade ela própria encantdda, sedutora
massa. Crescimento infinito da massa em função da aceleração e nostálgica do desencantamento. É apenas desaparecimento.
do sistema. Impasse energético. Ponto de inércia. Encontram-se já vt.-stfgios desta radicalidade do modo de
Destino de inércia de um mundo saturado. Os fenómenos desaparecime nto em Adorno e Benjamin, paralelamente a
de inércia aceleram·se (se assim nos podemos exprimir). As um excrdcio nostálgico da dialéctica. Pois há uma nostalgia
formas pa.radas proliferam, e o crescimento imobiliza-se na da dialéctica, e sem dúvida que a dialéctjca mais subtil é à
excrescência. Esse é também o segredo da hipertelia, do que partida nostálgica. Mas mais profundamente, h~ em Benjamin
vai mais longe que o seu próprio fim. Seria o nosso modo e Adorno uma outra tonalidade, a tonalidade de uma melan-
próprio de destruição das finalidades: ir mais longe, dema- colia agarrada ao próprio sistema - essa incurável e para
siado longe no mesmo sentido- destruição do sentido por além de toda a dialéctica. É esta melancolia dos sistemas que
simulação, hipersimu lação, hipcrtelia. Negar o seu próprio está hoje na mó de cima através das formas ironicamente
fim por hiperfinalidade (o crustáceo, as estátuas da ilha da transparentes que nos rodeiam. ~ ela que se toma a nossa
P~sc~,) - não será também o segredo obsceno do cancro? paixão fundamental.
Vingança da excrescência sobre o crescimento, vingança da ]á não é o spltm ou o vazio de alma do fim do século. Tão-
velocidade na inércia. ·pouco é o niilismo, que tem cm vista normalizar tudo pela
Também as massas são apanhadas neste gigantesco pro- destruição, a paixão do ressentimento. Não, a melancolia é a
cesso excrescente, devorador, que aniquila tod o o crescimento tonalidade fundamental dos sistemas funcionais, dos sistemas
e todo o excesso de sentido. Elas são esse circuito curto- actuais de simulaç.io, de programação e de informaç.io. A
-circujtado por uma finalidade monstruosa. melancolia é a qualidade inerente ao modo de desapareci·
J:: este ponto de iné rcia que é hoje em dia fascinante, mento do sentido, ao modo de volatilização do sentido nos
apaixonante, e o que se passa nos arredores deste ponto de sistemas operacionais. E nós somos todos melancólicos.
inércia (acabou, pois, o discreto encanto da dialéctica). Se ser A melancolia é essa desaJeic;3o brutal que é a dos siste-
niilista é privilegiar este ponto de in~rda e a análise desta mas saturados. Quando se desfaz a esperança de equilibrar
irreversibilidade dos sistemas até um ponto de não retorno, o bem c o mal, o verdadeiro c o falso, e mesmo de confrontar
então cu sou niilista. alguns valores da mesma categoria, e a esperanc;a mais geral
Se ser niilista é estar obcecado pelo modo de desapa-
recimento, e já não pelo modo de produção, então sou
njilista. Desaparecimento, ocultamento, implosão, Fúria des • Fúria do dnaparecimento. Em aJemJo no original. (N. da T.).
200 SimulacrO$ t Simulaçio Jtttn &mdnrturd 201

de uma correlação d~ forças e de uma q uestAo. Em toda a anu lam-se pcl.."'t indiferen<;a, é aí que o terrorismo é cúmplice
parte, sempre, o sistema é demasiado forte: hegemónico. involuntário do conjunto do sistema: não politicamente, mas
Contra esta hegemonia do sistema podem cxalta r·se as na forma acelerada da indiferença q u e contribui para impor.
astúcias do desejo, fazer a micrologia revolucionária do quoti- A morte já não tem cena, nem fantasmática nem política,
diano, exaltar a deriva molecular ou mesmo fazer a apologia onde representar~sc, onde jogar-se, cerimonial ou violenta. E
da culinária. Isto não resolve a imperio sa n ecessidad e de isto é a vitória do outro niilismo, do outro terrorismo, o do
fazer fracassa r o sistema na claridade plena. s istema.
Isso, só o terrorismo o faz. já ntlo há cena, ~í ne m sequer há a ilusão mfnima que faz
Ele é o vestfgio de reversão que apaga o resto, como um com que os acontecimentos possam adq uirir força de reali-
só sorriso irónico apaga todo um discurso, como um só dade - já n:to há cena n em solida riedad e mental o u política:
lampejo de recusa no escravo apaga todo o poder c o gozo do q ue nos importa o Chile, o Biafra, os boat people, Bolonha ou
amo. a Po lónia? Tudo isso vem aniq uilar-se no ecrã da televisão.
Quando mais hegemónico é um sistema, tanto mais a Estamos na era dos acontecimentos sem consequências (c
imaginação é atingida pelo seu menor revés. O d esafio, das teorias sem consequências).
mesmo infinitesimal, é a imagem de uma falha cm cadeia. Só j á não h á esperança para o sentido. E sem dúvida que
esta reversibilidade sem medida comum constitui um acon - cst.á bem assim: o sentid o é mortal. Mas aquilo sobre o que
tecimento hoje em dia, na cena niilista e desafectada do polí- ele impôs o seu I'"Cino efémero, aquilo que ele pensou liquidar
tico. Só ela mobiliza o imaginário. para impol'" o reino das Lu zes, as aparências, essas, são
Se ser niilista é levar, até ao limite insuportável dos sis- imortais, invu lneráveis ao próprio niilismo do sen tid o o u d o
temas hegemónicos, este vestígio de irrisão e de violência, não sentido.
este des..1fio ao qual o s istema é intimado a responder pela É a r que começa a S<.>d ução.
sua própria morte, então eu sou terrorista e niilista em teoria,
como outros o são pelas armas. A violência teórica, não a
verdade, é o único recurso q ue nos resta .
Mas há aí uma utopia. Pois bem poderia ser-se nülista se
ainda houvesse uma rad icalid ade - como poderia muito
bem ser-se terrorista se a morte, inclusive a do tcrrorist~
tivesse ainda um sentido.
Mas é aí que as coisas se tomam insolúveis. Pois a este
niilis mo activo da radicalid ade, o s istema opõe o seu, o
niilismo da neutralização. O sistema é também ele niilista,
no sentido em que tem o poder para reverter tudo, inclusi-
vamente o que ele nega, na indiferença.
Neste sistema, a própria morte brilha pela sua ausência.
Estação de Uolonha, Oktoberfest de Munique: os mortos