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DJAMILA

RIBEIRO
55

Por que eu escretto?


Por que tenha que
Porque minha voz
em todas suas dialéticas
foi silenciada Por muíto temqo

|acob Sam-La Rose32

Todos os caminhos percorridos até aqui foram impor-


tantes para que pudéssemos ter tm maior entendimento
do que é lugar de fala. O lugar social que as mulheres
negras ocupam, e o modo pelo qual é possível tirar pro-
veito disso, nos apresenta uma trilha interessante' Esse
percurso foi necessário porque existem muitas dúvidas
em relaçáo ao conceito.
Antes de mais nada, é preciso esclarecer que quando
utilizarmos a palavra discurso33 no decorrer do liwo e
a importância de se interromper com o regime de
auto-
Djamila fiibeiro
il ill.ll i ||:1,* L: fÀLl]

rizâÇão cliscursi.n'a, estamos nos referindo à noção Íbu- [...] instrumento teórico - metodológico que cria um amhiente
explicativc para evidenciar que os jornais populares ou de reíe-
car-rltiana cle cliscurso. Ou seia, de não pensar discurso
rência falam de iugares riiÍerenles e concedem espaços diversos
como amontoado de palavras ou concatenação de frases
à íalas das fcntes e dos ieitores. (ÂMAR,AL,20Ü5, p. lÜ5 )
qr-repretenclem um significtrclo em si. m:rs colno L1m
sistema que estrutura determir.rado imaginário social' Ainda segundo o artigor5
pois estaremos tàlando de poder e controle' o apcrte que píopoinos reconhece as implicaçoes oas posi-
1...]

Acredito qr-re muitas Pessoas ligadas a movimentos çôes sccrais simbolicas Cojornal e do leitor e incorpora a nccjo
sociais, em cliscr-rssões nas redes sociais, já devem ter de rrercado de leitores, a partir cia ideia de que para expircai r,

o'ur.ido a seguinte frase "fique quieto, esse náo é seu 1r-r- tliscurso, é preciso conhecer as condições de consiituição do

gar de fala', ou já deve ter lido textos criticando a teorii'' qrupo n0qual elefunciona (AMAÊAL, 2005, p 104.)

sem base algr,rma com o único intuito cle criar po1êmica Nesse sentido dado pela comunlcaçáo, o concelto serr-i
vazia. Nào se trata aqui de climinuir a militância Íêita no ria para analisar que o lugar de tàia da imprensa popular
mundo virtual, ao contrário, mas de ilustrar o quanto seria diferente do lugar de fala do que eles chamam de
muitas vezes há um esvaziamento de conceitos irupor'- jornais de referência, e, nesse artlgo especiÍicamente, mos-
tantes por conta dessa urgência que as redes geram' Ou tra que esse lugar da imprensa popular vai além do sen-
porque gruPos que sempre estiveram no poder passam sacionalismo. Para a autora e necessário compreender as
a se incomodar com o avanço de discursos de grupos posições sociais e capitais simbólicos de modos distintos.
minoritários em termos de direitos. Antes cle chegarmos a
1...] no lugar tio sensacionalismo, rótulo que nos indica a ittten
aLrtoras como Grada Kilomba, Patricia Hill Coliins, Linda sidade de sensações geradas por estrâtégias como invenções
Alcoffe Gayatri Spivak, vamos abordar esse conceito por exageros, distcrções e omissões, lugar de fala busca explicar
outras perspectivas. Não é a êl.rfase que preter.rdemos porque a imprensa dirigida a esse público opera com Modos de
aqui, mas julgamos importirnte apresentar aos leitores EndereÇamento distintos dos usados na imprensa de reíerência a
e leitoras or,rtras visões para enrlquecimento conceitual' e constrói sua credibilidade de outras manerras. Do n0sso p0nto
=a
pH =
ô
ql de vista, o lugar de onde Íala o segmento popular da grande im-
Em comunicaçào, o conceito de lugares de Íà1a, segun =
=.?. prensa é diferente do lugar de onde lala o segmenlo de referência.
do o artigo Lugares defala: um conceito para abordar o =
u
==
4À segmento popular da grande imprensa'ra seria un-r
(AMARAL, 2005, p. I 04.) r
Djamila Ribeiro
I OU[ É LtjGÀI] DÊ IALÀ?

Percebemos, então, a tentativa de analisar discursos autoras e, principalmente, de Patricia Hiil Collins, a partir
diversos a partir da localização de grupos distintos e dofeminist standpoint e Grada Kiiomba, em Plantations
mais, a partir das condições de construçáo do grupo
no Memories: Episodes o.f Everyday Racism.
qual funciona, existiria uma quebra de uma visáo domi-
Patricia Hill Collins é um nome importante para nos
da
nante e uma tentativâ de caracterizar o lugar de fala aprofundarmos em nossa questão aqui proposta. Em
imprensa popr'rlar de novas formas' Interessante notar
1990, na obra"Pensamento do feminismo negro",]6 ela
as simiiaridades com o que iremos nos focar' argumenta sobre o feminist standpoint Segundo o Dosslá
Mulheres negras: retrdto dos condições de vida. das mtilhe-
Para além dessa conceituação dada pela comunicação'
é

res negras no Brasil, publicado pelo Instituto de Pesquisa


preciso dizer que não há uma epistemologia determinada
Econômica Apiicada em 2013,
sobre o termo lugar de fala especiÍicamente' ou melhor'
a origem do termo é imprecisa, acreditamos que
este
0 foco do Íeminismo negro é salientar a diversidade de experiências

surge a partir da tradição de discussáo sobre Jeminist tanto de mulheres quanto de homens e os diferentes pontos de
stand point - em uma tradução literal
"ponto de vista vista possÍveis de análise de um fenômeno, bem como maÍcar 0
feminista" -diversiclade, teoria racial crítica e pensamento lugar de fala de quem a propõe. Patricia Hill Coilins é uma das
decolonial. As reflexões e trabalhos gerados nessas pers- principais autoras do que é denominado de feminist standpoint.
foram sendo moldados no
Pectivas, consequentemente, Em sua análise, Collins (-l990) lança mão do conceito de matÍiz de

seio dos movimentos sociais, muito marcadamente no domrnação para pensar a intersecção das desigualdades, na qual a

debate virtual, como forma de fêrramenta política e com mesma pessoa pode se encontrar em diíerentes posiçoes, a depen'

o intuitc de se colocar contra uma autorização discursiva' der de suas características. Assinr, o elemento representativo das

Porém, é extremamente possível pensá-lo a partir de experiências das diferentes Íormas de ser mulher estaria assentado

certas referências que vem questionando quem pocle


falar' no entrecruzamento entre gêneÍ0, raça, classe, geraçã0, sem pre-

dominância de algum elemento sobre outro. (S0TERO, 201 3, p. 36.)


Há estudiosos que pensam lugar de fala a partir da psi-
,...]
|-
,^ canálise, anaiisando obras de Michel Foucault' de estudos A nossa hipótese é que a partir da teoria do ponto
ô za
5H
Ii de Linda AIcoÍI, filósofa panamenha, e de Gayatri Spivak' de vista feminista, é possível falar de lugar de fa1a. Ao

= orofessora indiana, como em LImLt epistemologia para a reivindicar os diferentes pontos de análises e a afirmaçào =<
-e.
=1
=É de que um dos objetivos do feminismo negro é marcar
5 proxima rct'oluÇao e Pode o subalterno falari' respecti- =D
r-
=
E; vamente. Aqui' pretendemos pensar a partir das últimas o lugar de Íãla de quem as propõem, percebemos que rÀ
[ üi"li: {: tl.]lÀil lr rÂLl? 0jamila Ribeiro

essa marcaÇão se torna necessária para entenclermos Como explica Collins, quando falamos de pontos de
realidâdes que foram consideradas irnplícitas dentro da partida, não estamos falando de experiências de indi-
normatização hegemônica. víduos necessariamente, mas das condições sociais que
No artigo Comentário sobre o artigo de Hekman'Truth permitem ou não qLle esses grupos acessem lugares de
and Method: Feminist Standpoint Theory RevisiteC: Onde cidadania. Seria, principalmente, um debate estrutural.
esta o poder?,t; Collins contesta crÍticas a teoria do ponto Não se trataria de afirmar as experiências individuais,
de vista fbminista que resultam em pensarmos em Iugares mas de entender como o lugar social que certos g[upos
de fala. Neste, a autora rebate as afirmações de Hekmam ocupam restringem oportunidades.
que versam sobre a perspectiva de que a teoria do ponto Ao ter como objetivo a diversidade de experiências,
de vista feminista retbre-se a indivíduos dizendo: há a consequente quebra de uma visáo universal. Uma
Em primeiro lugar, a standpoittt theory reÍere-se a experiôncias mulher negra terá experiências distintas de uma mulher
historicamente conrpartilhadas e baseadas em grupos. Grupos branca por conta de sua localização social, val experenciar
tem uln grau de continuidade ao longo do ten-rpo de tal ntodo que gênero de uma outra forma.
as realidades de grupo lranscendern as experiências individuais. Segundo Collins, a teoria do ponto de vista feminista
Por exenrplo, afro-americanos, c0m0 um grupo racial estigma precisa ser discutida a partir da localização dos grupos nas
tizado existru ntuitc anies de eu nascer e irá, provavelmente, relações de poder. Seria preciso entender as categorias de
continuar depcis de minha morte. [mbora minha experiôncia raça, gênero, classe e sexualidade como elementos da estru-
individual com o racisrno institucional seja única, os tipos de opor- tura social que emergem como dispositivos fundamentais
tuniclades e conslrangimentos qLle me atravessam diariamente que favorecem as desigualdades e criam grupos em \,-ez
serão semelhantes con'r os que aÍro-americanos confrcntam-se de pensar essas categorias como descritivas da iclentidade
cür'i'10 un"r grupo. AÍgumentar que cs negÍos, como grttnc. irà: aplicada aos indivíduos.3* Hekman, em sua crítica a Collins,
se transfermar ou desaparecer baseada na minha participação entendeu a teoria como uma multidão de vozes a partir das
soa narcisista, egocênirico e arquetipicamente pós-m0deÍno. Im experiências dos indlvíduos em vez cle analisar as categorias
3a
5H contraste, a teoria do ponto de vista íeminista enfatiza men0s as
ql que causam as clesigualdades em que esses indlvíduos se =a
5H
experrências individuais deniro de grupos socialmerlte c0nstru' encontram. Collins utiliza como exemplo a segregaçào
=gl ídos do que as condições soctais que constituenr estes grupos.
=<
- rP.

=D racial nos Estados Uniclos e como esse fato histórico criou


r-
rÀ (C0LL|NS, I997, p 9.)
=D
U-

bairros segregados e, consequentemente, experiências dis-
Djamila Ribeiro
i] Í]i]T T LL]OÀB ü[ FAiA?

gualdade Íoi revisada para reíletir um maior grau de complexidade,


tintas nos ambientes educacionals, de lazer, no sistema de
especialnrente de raça e gênero. 0 que temos aqora é ufirâ crescente
saúde e, sobretudo, em reiação às oportunidades de acesso
sofisticação sobre como discutir localização de grupo, nâo no quadro
a alguns espaços, como a Academia. A autora segue em
singular de classe social proposto por l\4aÍx, nem n0s mais recentes
sua análise aÍirmando que mesmo as pessoas negras de
enquadramentos feministas que deÍendem a prinrazia tle gênero, mas
classe n:édia não estão isentas dos efeitos da discriminaçào
dentro de construçoes múltiplas residentes nas próprias estrutuÍas
de oportunidades geradas peia segregação racial e, por
sociais e não em mulheres individuais. (C0LL|NS,1997, p 9 )
conseguinte, pela discriminação de grupo, e evidencia:
Com a citaçáo de Coilins ao equívoco de Hekntan,
[...] é a locallzaÇão social comum nas relações hierárquicas de
percebemos que a pensadora não está sozinha em seu
poder que cria grupos e não o resultado de decisôes coietivas
erro. No Brasil, comumente ouvimos esse tipo de crítica
tomadas por indivíduos desses grupos. (C0LLlNS, I 997.)
em relação ao conceito, porque os críticos partem de
A abordagem escolhicla por Hekman de entender gru- indivíduos e não das mirltiplas condiçÕes que resr.rltam
pos como amontoado de indivíduos e'irão como indi- nas desigualdades e hierarquias que localizam grupos su-
r,idualidades em sua própria realidade'lre faz com que a baltemizados. As experiências desses grupos localizados
autora tenha construído sua crítica de forma equi.n'ocada, socialmente de Íbrma hierarquizada e não humanizada
segundo Collins. faz com que as produções intelectuais, saberes e vozes
sejam tratadas de modo igualmente subaiternizado, alenr
Hekn-ran analisa ponto de vista e iugar de fala pela pers-
pectlva individual. Esse pressuposto permite que e1a conflua
das condiçôes sociais os manterem num lugar siienciado
indivíduo e grupo como unldades de análise e não alcance estruturalmente. Isso, de forma alguma, significa que
esses grupos não criam ferramentas para enfrentar es-
a reflexão de que indivíduos pertencentes a determinados
ses si1êncios institucionais, ao contrário, existem r,árias
grupos partilhem experiências similares. O fàto de Hekman
fbrmas de organização políticas, culturais e intelectuais.
se fixar no indivíduo como representante para o grupo,
prej udica seu entendimento.
A qr.restão é que essas conclições sociais dificultam a t'isi-
bilidade e a legitimidade dessas produções. Uma simples =a
5H
qQ
=a
5H
ql
lnicialmente examinando apenas a dimensão das relações de poder,
pergunta que nos ajuda a refletir é: quantas autoras e
de classe social, Marx postulava que, por mais desarticulados e inci' -a?
autores negros o leitor e a leitora, que cursaram a fa-
-.?.
_H
pientes, os grupos oprimidos possuíam um ponto de vista particular =3
=3
r-
G4 sobre as desigualdades. Em versões mais contemporâneas, a desi-
culdade, leram ou tiveram acesso durante o período da rÀ
I.] [LjI I LU§ÀII II FÀLÀ?
Djamila Ribeiro

graduação? Quairtas protêssoras ou professores negros vidual. Todavia, aponta para o fato de que justanrente por
tiveram? Quantos jornalistas negros, de ambos os sexos, ocuparem a mesma localização social, esses indivíduos
existem nas principais redações do país ou até mesmo igualmente compartilham experiências nessas relações
nas mídias ditas alternativas? de poder. E seriam essas experiências comuns aos objetos
Essas experiências comuns resultantes do iugar social de análise. Collins lamenta o Íàto dos criticos à teoria
que ocLlpam impedem que a população negra acesse a terem dado muita atenção às questões de açáo lndividual
certos espaços. E aí que entendemos que é possível falar em vez de investigarem as experiências comuns. Como
de lugar de fala a parti r do Jeminist standpoint: não poder exernplo, a autora cita as altas taxas de encarcerárnento
acessar certos espeços, acarreta em não se ter produções de ltomens negros rras prisôes americanas.
e epistemologias desses grupos nesses espaçosr nào Poder Também podernos citar essa realidade no contexto
estar de tbrma justa nas universidades, meios de comu brasileiro, o alto índice de t-eminicídio de mulheres ne-
nicação, política institucicnal, por exemplo, imposslbilita gras, a constatação de que as mulheres negras ainda são
que âs vozes clos indir.íduos clesses grupos sejam catalo- maioria no trabalho doméstico e terceirizado e tantôs
gadas, ouvidas, incluslve, até de quem tem tnais acesso à oLltros exemplos. O fato de ocuparem iugares em que
internet. O falar nào se restringe ao ato cle emitir palavras, aumenta a situação de vulnerabilldade Íàz com que certas
r.nas de poder existir. Pensamos lugar de Íàla corno refirtar medidas consideradas como retrógradas tarnbém atln
a 1-ristoriograÍra tradicional e a hierarquização de saberes jam esses grupos de maneira mais acintosa. A Retbrnra
conseqLlente di,r hierarquia social. da Previdência, que caminha iro congresso como sob a
fbrma da Proposta de Emenda Constitr-rcional número
Quando tàlamos de direito à existência digna, à voz, es
tamos falar.rdo de locus social, de como esse iugar imposto 287, prevê allmentar o tempo de contribuicão para 25
diículta possibilidade de transcendência. Absolutamente
a anos e a idade mínima para 65 arlos para as mulheres.
nào tem a \rer com uma essencialista de que sotnente Essa medida não ieva em consideraçáo a dir.isào sexual
"'isão do trabalho impostâ em nossa sociedade. \ra1e dizer,
o negro pode frrlar sobre racismo, pol exemplo.
pois muiheres ainda sào aquelas moldadas para desent-
sH
=a
@<
E, mesnro sol:re lndir,íduos do mesmo grupo, Coilins
penhar o trabalho doméstico e obrigadas a serem as
s;rlienta que ocupaÍ iocalizaçào comum em relaçoes de
=a
;5l-
@<
-.?. maiores responsár,eis pela criação clos Ít1hos. Mr-rlheres.
pocler hierárquicas nào implica em se ter as ntesmas -n
==
4r experiências, porqr-le a autora não nega a ilin.rensão it.rdi-
sobretudo, negras, partem de pontos cliÍerentes e con-
=I
q-
sequentem ente desiguais. Éq
i OUE Ê LUSAÊ DI TALÁ? Djamiia Ribeiro

Houve uma manifestação, por parte de vários setores da 1eira, por exemplo. I)o mesmo modo, podemos apontar
sociedade, contra essa Proposta, mas para contextllalizar, para a invisibilidade da produção de mulheres negras em
de forma geral, mulheres negras, antes da proposiçào cursos e tàculdades, como colunistas de jornais e sifes,
dessa PEC, já tinham dificuldades em se aposentar. Por em cargos da política institucional. Essas experiências
conta da informalidade, de uma relação descontínua compartilhadas refletem ainda a relevância da teoria.
no mercado de trabalho e, no caso das empregadas do-
No debate r,irtual, aqul no Brasii, nos acostumamos
mesticas, de não terem selrs direitos garantidos. Esse
a ouvir os firesmos equívocos de Hekman. "Fula.na está
grupo historicamente sempre se viu à margem, para se ter
falando a partir das vivências dela I como se essas vir'ên-
uma ideia, de 2003 a2014, segundos dados da Pesquisa
cias, por mais que contenham experiências advindas da
Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD),
localização social de fulana, se mostrasse insuficiente de
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
explicar uma série de questões. Como explica Collins, a
o contingente de empregadas domésticas sem carteira
experiência cle fulana importa, sem dúvida, mas o foco
assinada que contribuíam para o iNSS aumentou de
é justamente tentar er.rtender as condições sociais que
8% para 23o/o no período. Ainda assim a categoria tem
cor-lstituem o grtlpo do qual fulana faz parte e quais sào
diÍiculdade em se aposentar por tempo de contribuição,
as experiências que essâ pessoa compartiiha ainda como
pois o setor é marcado por grande informalidade. No
grupo. Reduzir a teoria do ponto de vista feminista e
último trimestre do ano passado, 68,1% das trabalhadoras
lugar de fala somente às vivências seria um grande erro,
domésticas não possuíam carteira assinada. O mesmo
pois aqui existe um estudo sobre como as opressÔes
raciocínio se aplica em relação ao trabalho terceirizado
estruturais inipedem que indivíduos de certos grupos
para atividades meio. Existe utr grande contingente de
tenham clireito a fala, à humanidade. O fato de uma pes-
muiheres negras nessa relação de trabalho, sobretudo em
soa ser negra não significa que ela saberá refletir crítica
funções de limpeza. As mediCas contidas nessa Proposta
e filosoficamente sobre as consequências do racismo.
vão diÍicultar ainda mais a vida dessas mulheres, que já
rr il inclusive, ela até poderá dizer que nunca sentiu racismo,
viviam uma realidade precária.
que sua vivência nào comporta ou que e1a nunca passou
ê!
=a
5H Contudo, quando eram os grllpos "historicamente por isso. E, sabemos o quanto alguns grupos adoram 5l-
ol -a
invisibilizados" os atingidos, essas medidas não geravam fazer uso dessas pessoas. Mas o fato dessa pessoa dizer
-^? =r
_F
cornoçáo como têm gerado agora que passam a'tontem- que não sentiu racismo, não faz com ql1e, por conta de
=D =I
r-
ror p1ar" outros grupos, colro a classe média branca brasi- sua localização social, ela nào tenha tido menos opor- 4C
O tlUE É LUGÀR Í}E FÀLA? Djamila Ribeiro

tunidades e direitos. A discussão é sobretudo estrutural a própria teoria do ponto de üsta feminista ou lugar de
e não 'pós-moderna" como os acusadores dessa teoria fala, com base na existência de indivíduos como esses,
gostam de afirmar. A questão é que eles entenderam como se homens brancos heterossexuais não fossem o
equivocadamente a questão e acabam agindo, como grupo responsável e beneficiado por essas opressões. E,
afirma Collins, de modo arquetipicamente pós-moderno principalmente, porque há a tentativa de mudar o foco
ao reduzir ponto de üsta às experiências indiüduais em de realidades extremamente violentas para a constatação
vez de refletirem sobre locus social. de que pessoas de grupos oprimidos são pessoas fru-
tos dessa sociedade, assim como todas as outrís. Seria
Por isso, seria igualmente um equívoco dizer que essa
mais responsável e ético discutir o fato de que a cada
teoria perde vúdade pela existência de indiúduos rea-
23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, o
cionários pertencentes a grupos oprimidos. E assim seria
que mostra que indivíduos negros compartilham expe-
porgre Collins náo está negando a perspectiva indiüdual,
mas dando ênfase ao lugar social que ocupam a partir da
riências de violência estatal pelo fato de pertencerem
ao grupo negro (locus social), do que perder energia em
matriz de dominação. Por mais que rujeitos negros sejam
reacionários, por exemplo, eles não deixam de sofrer com falar das experiências individuais distintas como se isso
a opressão racista - o mesmo exemplo vale para outros
não fosse próprio do humano. Acredito que nem todas
as pessoas brancas se identifiquem entre si e tenham as
grupos subalternizados. O contriírio também é verdadeiro:
por mais que pessoas pertencentes a grupos privilegiados mesmas visões, mas existe uma cobrança maior em rela-
sejam conscientes e combatam arduamente as opressóes, ção aos indMduos pertencentes a grupos historicamente
elas não deixarão de ser beneficiadas, estruturalmente fa- discriminados, como se fossem mais obrigados do que
landq pelas opressôes que infligem a outros grupos. O que os grupos localizados no poder, de criar estratégias de
estamos questionando é a legitimidade que é conferida a enfrentamento às desigualdades.
quem pertence ao grupo localizado no poder. O lugar social não determina uma consciência dis-
6B Obviamente que esses indiüduos reacionários perten- cursiva sobre esse lugar. Porém o lugar que ocupamos 6E
centes a grupos oprimidos estão legitimando opressões socialmente nos faz ter experiências distintas e outras
3n proferirem certos discursos. Seria, então, necessário o perspectivas. A teoria do ponto de vista feminista e lugar =
E
I
t
q<
=H ao
6
combate a esses discursos, sem sombra de dúvida. Porém, mulh '
de fala nos faz refutar umavisão universal de
a

=E o que ocorre, geralmente, é a tentativa de deslegitimar a negritude, e outras identidades, assim como t"r.fi;:: I
rÊ luta antirracista, antimachista ou anti-LGBTT fobica ou homens brancos, que se pensam universais, se racializem, H ;
== =
O OUE É LUOAR DE FALA?
Djamila fiibeiro

entendam o que significa ser branco como metáfora do


em termos dos movimentos negro e de mulheres negras no Brasil.
poder, como nos ensina Kilomba. Com isso, pretende-se
Este seria fruto da necessidade de dar expressão a diÍerentes
também refutar uma pretensa universalidade. Ao promo_
formas da experiência de ser negro (vivida atreves do gênero)
ver uma multiplicidade de vozes o que se guer, acima de
e de ser mulher (vivida atreves da raça) o que torna supérfluas
tudo, é quebrar com o discurso autorizado e único, que
discussões a respeito de qual seria a prioridadê d0 movimento de
se pretende universal. Busca-se aqui, sobretudo, lutar
mulheres negras: luta contra o sexismo ou contra o racismo? - já
para romper com o regime de aatorizaçao discursiva.
que as duas dimensôes não podem seÍ separadas. Do pcnto de
Luiza Bairros, em Nossos/eminismos revisitados,ao ex-
vista da reflexão e da ação politicas umâ não existe sem a outra.
plica a importância da teoria do femininst standpoint
(BAlRR0S, 1 995, p. 461 .)
A outra tentativa mais recente de transformar as categorias mu_
Essa explicação de Bairros é valiosa porque nos ajuda
lher experiência e política pessoal é o ponto de vista feminista
a refutar o que costumam chamar de 'tompetição de
(feminist standpoinÍ). Segundo essa teoria, a experiência da
opres_
opressões". A autora nos ensina que o debate é sobre a
são sexista é dada pela posiçâo que ocupâmos numa matriz de
posição ocupada por cada grupo, entendendo o quanto
dominação onde raça gênero e classe social interceptam-sê em
raça, gênero, classe e sexualidade se entrecruzam gerando
diferentes pontos. Assim uma mulher negra trabalhadora náo é
triplamente oprimida ou mais oprimida do que uma mulher branca
formas diferentes de experenciar opressões. fustamente
na mesma classe social, mas experimenta a opressão a partir por isso não pode haver hierarquia de opressões, pois
de um lugar que proporciona um ponto de vista diferente sobre sendo estruturais, não existe "preferência de luta". É
o que é ser mulher numa sociedade desigual racista e sexista. preciso pensar ações políticas e teorias que deem conta
Raça, gênero, classe social e orientação sexual reconfiguram-se de pensar que não pode haver prioridades, já que essas
mutuamente formando o que Grant chama de um mosaico que dimensões não podem ser pensadas de forma separada.
1A só pode ser entendido em sua multidimensionalidade De acordo Costumo brincar que nâo posso dizer que luto contra
T
com o ponto de vista feminista, portanto, não existe uma iden_ oracismoeamanhã,às14h25e,Sedertempo,euluto
3a tidade, pois a experiência de ser mulher se dá de forma social e forma g
contra o machismo, pois essas opressões agem de
a<
=H
zE historicamente determinadas. Considero essa Íormulação par- combinada. Sendo eu mulher e negra, essas opressões me =
ticularmente importante não apenas pelo que ela nos ajuda a colocam em um lugar maior de r,'ulnerabilidade. Portanto, 5
=:.
rEL
== entender diÍerentes feminismos, mas pelo que ela permite pensar
é preciso combatê-las de forma indissociável. ü;
=
! 0l; t iiiüÀg ilr ;'Âi À? ülaniia Ribeir

Ressalto que Collins nào fala especificamente sobre 1u- E inrpossível para os intelecluais franceses ccntemporâneos rma
gar de fala, apesar de algumas traduçôes para o português girrar o tipo de Pcder e 0esejc que habitarla c sujerio inominatio
dar este significado quando traduzem o termo standpLtin.t, do 0utrc da [uropa. l'.Jãc é apenas c íalc de que iLrdo c que leeri
mas a noss.1 hipcitese e que, a partir da ieoria do ponto
- critico cu não - eslela aorrsionadc no debate sobre a producão
ile vista feminista, podemos entender tantbém o lugar
desse 0uir0, apoianCc ou crlticanr-ia a corisliiL:içàc d. Sujer:J
da fala.l' A pzrrtir de Spivak, AlcoÍFe Kilomba yamos nos r.:nrn corrin r .rnô: liPl\lÀlí ?tl i0 r' i( .lá,
aprofundar ainda mais sobre o conceito.
Spivirk concordtr com Foucault no que diz respeito ii
Spivak é uma clas autoras importantes para se perszrr
pensar a existêncía de um sistema de pocier que invia-
Itrgar de fa1a. Sua obra Pode o subalterno Jalar, publicada
biliza. impecle e ln',,alida saberes produzidos por grupos
pela prirneira vez em 1985, originalrlente conlo Llnt ar,
subalternizaclos. Foucault i.rÍrrmar.a que as massas podian-r
tigo, com o sr.rbtítulo especulações sobre os sacriJicios das
Íàlar por si, mas entendia que existia uma interdicào para
vitit,tts, traz reflexoes importantes sobre como o silêncio
que essas i,ozes pudessem ser or-rvidas. O irlósoib tian-
impostc pirra sujeitos que foram colonizados. A protês-
cês acredittu.a que o papei do intelectual era analisar as
sora intliana e um importante 1lome do pensamento
pós-colonial, que, resumidamente, pretc.nde questionat. e relações de poder entenclendo que seLi prapel nào era ser

interrogar os fundamentos da epistemologia dominante representante daqr.reles que luta\,ân1. Spivak pensaclorir
e er.iclenciar os saberes produziclos por grupos que t'oraur acredita que os grupos oprimidos poclem e dever-n fàlar
subaiternizaclos em territórios coloniiris. Spivak, itssini por s1, mas afirma que o lilósofb trancês pensou esses
como Beauvoir e Kilomba tantber-n pensa .1 categoria do gÍr.rpos tenclo como base o contexto ellrope$, citando, parir
OuÍro afirmando a clitrculdade dos intelectuais Íianceses al'gllirento, o caso das vmr-as indianas que
ehrciciarr sell
contemporâneos eln pensar esse Oulro como sujeito, pois. são obrigadas ao sacrifício. um ritu:rl chamado "intolaçào"
para a aritora. estes pensariain a constitr:ição clo Suieitc e que estariam nunr lilgar nruito mais cliÍícil i-le podcrem
corno senclo a Eurcpa.lr fniirrem por si mesmas. Aienr clisso, par.1 rL eutor?1 incliana,
os intelectr-rais, poÍ não screur us\e: slLieitor oplimidos
,A- inteiectu:r1 problematiza
cr Íàto, iresnto sendo uma u
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l-i qrarde interlocutora Foucault,rr que autores comcr
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t?- Foucar-rlt e l)eieuze , por exentp-;lo, não rotnpell total u3rs aias 3iinúlasxiclrle iaznn r.J!11: ijer!,:ierár tol;re,: ;i.:r:.-
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nrerlte com o eliscurso iteqen-rônicc ao tereni ir I ur.op.t ltple!Êlrtá,:c ,: ânlli,illl ,; Íulcirrailrriri ii; I
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ur rroilr(r centÍo ,Je aná1ise.
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Mas, quem poderia falar, então? de pensar alguma interpretação válida independente
que refute o discurso colonial.
C subalterno não pode falar Não há valor alqum atribuído à "*ru-

lher'negra, pobre" conlo uÍn item respeitoso na lista de prrorida, No capítulo anterior, trabalhamos com a ideia de
de globais. Â representação não defrnhou. A mulher ccmo umâ Collins da importância das mulheres negras se auto
inteleclual tem umâ tareÍâ circunscíitâ que ela não deve rejeitai definirem. Essa necessidade de auto definição é uma
conr um Íloreic. (SPIVAK, 2t1 0 p. I 26.) estratégia importante de entientainento a essa visào co-

Essa citação de Spivak nos ensina sobre como grupos


lonial. E,, como apresentamos no primeiro capítulo desse
subalternos não têm direito ir voz, por estarem nllm lugar iivro, mulheres negras vêm historicamente produzindo
no qual suas humanidades não foram reconhecidas. Por saberes e insurgências. Coiocá-las num lugar de quem
pertencerem à categoria 'daqueles que não importam']a1 nunca rompe o siiêncio, mesmo com todos os limites
para usar uma expressão da filósofa estadunidense iudith impostos estruturalmente, seria confiná-ias na mesma
Butler. Mas, ao mesmo tempo, Spivak enxerga a necessida- 1ógica que rrem se combatendo? Seria confiná-las num
de cla tarefa intelectual e política para a mulher. Para a au- beco sem saída, sem qualquer possiblidade de trans,
tora, o postulado subalterno eúdencia um lugar silenciado. cendência. Os saberes procluzidos pelos indir,Íc1uos de
grupos historlcamente discriminados, para alem de serem
No entanto, será que o subalterno nunca rompe o si-
contra discursos importantes, são lugares de potência e
lêncio? Tanto Patricia Hill Collins quanto Grada Kilomba
conliguração do mundo por outrcs olhares e geografias.
consideram problemática essa afirmação de Spivak do
Spivav, entretanto, se posiciona c1e forma a criticar a
silêncio do subalterno se esta for vista como uma declara-
romantizaçáo dos su.jeitos que resistem.
ção absoluta. Para as duas psn5nderas, pensar esse lugar
como impossÍvel de transcender é legitimar a norma O primeiro capítulo de Plantations Memories: Episodes
colonizadora, pois atribuiria poder absoluto ao discurso of Eteryday Racism, de Grada Kilomba, é intituiado
i! dominante branco e masculino. Collins acredita que A máscara: colonialismo, memória, trduma e descolonizn-
validar esse discurso como absoluto significaria também çao,a5 e para ilustrar há uma pintura da escrava Anastácia.r6

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5H acreditar que grupos oprimidos só podem se identificar Anastácia foi obrigada a viyer coút uma máscara cobrindo -u
ql =F
a<
com o discurso dominante e nunca serem capazes de sua boca. Kilomba explica que, formalmente, a máscara
-.P. =n
pensar suas próprias condições de opressão a que sào era usada paraimpedir que as pessoas negras escravizadas
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ro submetidos. Igualmente significaria a impossibilidade
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r-
se alimentassem enquanto eram forçaclamente obriga LÊ

I
I

l
tt Sitt L tlj§Afi ll rALil?

trabalhar nas plantações, mas segundo a alltora,


clas a Esses questionamentos sào fundamentais para a-L. :'
a máscara também tinha a função de impor silêncio e samos entender lugares de fala. Dentro desse ;t1.- 3 -:
medo, na medida em que a boca era um lugar tanto para colonização, quem foram os sujeitos autorizados r -. -

impor silêncio como para praticar tortllra. Interessante O medo imposto por aqueles que construíralrl âS Ilie:---
;:
notar que a escritora negra brasileira, Conceição Evaristo, serve para impor limites aos que foram s11encia.1, ': .

ganhadora do prêmio labuti com sLla obra Olhos d'água, rnuitas i ezes, implica etn receber castigos e rúf lç'- .'

faz um diálogo interessante com o que Grada Kilomba tâmente por isso, muitas vezes, prefere-se Coflilrrl : '
discurso hegemônico como modo de sobrer 1\'.-- -
diz, e podemos aÍrrmar que também discorda de Spivak
fàlan.ros, podemos falar sobre tudo ou solll€llti : -
-:
no sentido acreditar na quebra do silêncio instituído. Em
uma entrevista ao ,sire Carta Capital' ela diz:
nos e permitido falar? Numa sociedade supretl:' ' ''
ca e patriarcal, mulheres brancas, mulheres ne .:.-,
[...] aquela imagern da escrava Anastácia, eu tenho
dito rriuito
negros, pessoas transexuais, lésbicas, $aYS pil*:
que a qente sabe falar pelos oriÍicios da máscara e às vezes a
mesmo modo que homens brancos cis h.:. '.
gente íala com tanta potência que a máscara é estilhacarla. E eu Existe o mesmo espaço e legitimidade? ',- -. - :

acho que o estilhaçamento é um símholo nossc, poÍque nossa aigum espaço para falar, por exempio. p.- - - - l
Íala Íorça a ntáscara.4' negra, e permitldo que ela fale sobre Ecl':l :: -

Para além da questão concreta claquela mulher ser obri- permitido quc lale sobre Ictttl' :-'-
oLr só e
ser uma travesti negra? Saberes collstt -- r - - -
gacla il calar-se, a Llsar um artefato em sua boca, Kilomba
acadêmicosãoconslderadossalrer;.t.. - - : . - -'-
pensa essa máscara como a ahrmaçào do projeto coloniai'
a pensar sobre quais são os lirnite. -,-: - i -: *i!:'l
Vê essa máscara como "c mask o-f speechless" - em tra-
1ógica colonial e nos tãz refletir s.'::. .' - ::: -.:'.Jias da
dução literal'a máscara daqr-re1as que náo podenr falarl
imposição da máscara clo siie;:r
Nessa perspectiva, essa máscara legitima a política de
silenciar "Os Otiros", aítrma a penstrdora. Às perguntas A máscara, portanto, susc 1: - - '., - =.:::s. por que a bcc:.
que a alltora tàz nesse capítu1o são importantes para a do sujeito negro deve stí:-:r: : ' :-e ela ou eie d-'ve,=
=a
5H
q! "Quer-rl silencra00? Ü que pcC;- . : := -: li i
nossa reflexào de quenl pode tãlar. Questiona: 0ÊÇ10 sÊ SLrâ -

eP-
- "O que acontece quando nós falanlos?" e fosseselada?Êoquer:.ll:.]]-ê:"0deveriaouvrr?i-]á..
pode làlar?'l
==
q-
rÊ "Sobre o que e nos permitido falar?'1 apreensivo de que se . :" . to coloniai Íaiar,0 col,; . '
O t]UE É LUOAB t]E FALA? r-l
que escutaÍ. Ele/ela seria Íorçado a um confronto desconfortável manter-se "inconsciente" diante dessas wràbc rÔ
com as verdades dos "Outros". Verdades que foram negadas, dades protegeria o sujeito branco de ter qtrEcc
reprimidas e mantidas em silêncio, como segredos. Eu gosto conhecimentos dos "OaÍros". A autora segrffi
dessa Írase "quieto na medida em que é forçado a". Essa é uma que uma vez confrontado com os segrdoo cdttirrcu-
expressão das pessoas da Diáspora africana que anuncia como dades desagradáveis da "história muito suF? coilirx
alguém está prestês a revelar o que se supõe ser um segredo. brancos, geralmente, argumentam não sabec ú ffhq,
Segredos como a escravidão. Segredos como o colonialismo. não lembrar, não acreditar ou não ter sido cmullo-
Segredos como o racismo. (K|LOMBA, 201 2, p. 20.)4 Essas expressôes seriam parte desse processo e reprcsStt
de manter essas verdades esquecidas.
Kilomba toca num tema essencial quando discutimos
lugares de fala: é necessário escutar por parte de quem Falar de racismo, opressão de gênero, é visto gcralmeme
sempre foi autorizado a falar. A autora coloca essa diicul- como algo chato, "mimimil' ou outras formas de @i-
dade da pessoa branca em ouvir, por conta do incômodo timação. A tomada de consciência sobre o que sigrifrca
que as vozes silenciadas trazeírr, do confronto que é gera- desestabilizar a norma hegemônica é üsta como tnapro-
priada ou agressiva porque aí se está confrontando poder.
do quando se rompe comavoz única. Necessariamente,
as narrativas daquelas que foram forçadas ao lugar do
Outro, serão narrativas que visam trazer conflitos ne-
cessários para a mudança. O não ouvir é a tendência a
permanecer num lugar cômodo e confortável daquele
que se intitula poder falar sobre os Outros, enquanto
esses Ozfros permanecem silenciados.

Ainda seguncio Kilomba, o medo branco em nâo ouvir


7B o que o sujeito negro pode eventualmente revelar pode
ser articulado com a noção freudiana de repressão, no
3a sentido de afastar algo e mantê-lo à distancia da consciên-
6<
=H
cia. Ideias e verdades desagradáveis seriam mantidas fora
-tf-
da consciência por conta da extrema ansiedade, culpa e
==
UH
rE< vergonha que elas causam. Mais além: o medo branco ou