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LETRAMENTO RACIAL CRÍTICO – REFLEXÕES EM CONTEXTO ESCOLAR

SOBRE A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DE RAÇA

Marivete Souta (Mestre)


Vanessa Makohin Costa Rosa (Mestre)

Resumo
O contexto da pesquisa é uma escola de ensino fundamental e médio da cidade de Ponta
Grossa/PR, tem como objetivo refletir sobre a construção da identidade de raça e o
letramento racial crítico. As identidades se constroem na relação do sujeito com o
mundo (HALL, 2009; MOITA LOPES, 2009), desse modo, trabalhar com o letramento
racial crítico (FERREIRA, 2009, 2012, 2014) nas escolas é fundamental para a
construção da identidade de raça. Pensando na sociedade atual, que apesar de existirem
inúmeras políticas afirmativas voltadas a diminuir o preconceito, ainda temos muitos
casos de preconceito e exclusão, assim sendo, tem se pensado em medidas para
corroborar com estas políticas. Para chegar a possíveis respostas ao objetivo, foi
proposta a realização de relatos para os alunos dos 9º anos com o seguinte tema: Como
me dei conta de que o racismo existe? As análises destes relatos apontam para a
necessidade de inclusão do letramento racial crítico no contexto escolar, evidencia-se
que o letramento racial crítico pode contribuir para efetivação da Lei 10.639/03,
colaborando para diminuir o preconceito, o racismo e a exclusão, além de contribuir
para uma formação identitária construída pelo empoderamento que o letramento racial
crítico proporciona.

Palavras-Chave: Letramento racial crítico. Identidade. Empoderamento.

0. Introdução

As diversas ações afirmativas têm possibilitado oportunidades para os negros


que até pouco tempo eram bem restritas. A Lei 10.639/03 veio colaborar para a
diminuição do preconceito e da exclusão, contudo é preciso que o(a) aluno(a) seja
letrado desde cedo para que obtenha o empoderamento que o fará capaz de enfrentar o
preconceito e racismo, assim justificamos a relevância desta pesquisa.
Assim sendo, o objetivo desta pesquisa é refletir sobre a construção da
identidade de raça e o letramento racial no contexto escolar, para isso, serão analisadas
narrativas autobiográficas com o tema: Quando me dei conta de que o racismo existe?
A pesquisa foi realizada nas aulas de Língua Portuguesa, pois as DCEs Paraná
(2008) propõem que o tema das questões étnico-raciais deve ser abordado nas
disciplinas, articulando com os respectivos objetos de estudo das mesmas. Moita Lopes
(2002) afirma que talvez a sala de aula de línguas, mais que qualquer outra, tenha a
função central na definição dos significados construídos pelos sujeitos, construindo
assim, os significados para agir no mundo pelo discurso.
O artigo terá quatro seções. A primeira seção faz a diferenciação entre
preconceito, discriminação e racismo e por que o letramento crítico é necessário; na
segunda: A construção da identidade racial na perspectiva do letramento crítico
apresenta o letramento racial crítico como uma alternativa para se efetivar a Lei
10.639/03; Na terceira: A construção da identidade racial na perspectiva do letramento
crítico discute como essa teoria pode contribuir para a diminuição do preconceito; Na
quarta: A escola e o letramento crítico mostra a importância da escola na (re) construção
da(s) identidade(s) na perspectiva do letramento crítico.

1. Letramento crítico – uma possibilidade para aplicação da lei 10.639/03

A Lei 10.639/03 preconiza incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a


obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira", o estudo da História da
África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro
na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas
social, econômica e política pertinente à História do Brasil. Ferreira (2006) afirma que
vários exemplos têm comprovado que as escolas não têm sabido lidar com situações que
colocam em xeque o direito à cidadania. Completa dizendo que para que o sujeito negro
ou branco tenha voz dentro e fora do espaço escolar é preciso que se reconheçam como
indivíduos, para isso é necessário o reconhecimento da identidade étnica. Ferreira
(2010), também percebe a presença de estereótipos que reforçam ainda mais o
preconceito e o racismo em pesquisas que analisam o livro didático.
Os livros didáticos, segundo Ferreira (2010) demonstram que os alunos estão em
contato com estereótipos que precisam ser desconstruídos para que não reforcem ainda
mais o preconceito. Muito se fala em preconceito, discriminação e racismo. Qual seria a
diferença entre eles? Para uma melhor reflexão Giddens (2005) os diferencia: o
preconceito ocorre quando alguma pessoa ou grupo é alvo de opiniões preconcebidas.
Discriminação é quando se desqualifica alguém ou grupo do acesso às oportunidades
que são para todos. É um comportamento que deriva do preconceito. E o racismo seria
o pior de todos. Enquanto os primeiros seriam uma reação à diferença, o racismo reflete,
persiste e recria a distribuição desigual de poder na sociedade.
Ferreira (2010) argumenta que os exemplos apresentados pelos professores
pesquisados por ela, questionam assuntos relacionados à sensibilidade do tema racismo
e a preparação dos professores para lidar com esse assunto. Assim,

[..] as pessoas preferem adotar uma estratégia de não encarar o problema, ou seja, de não
interagir ou falar sobre o assunto. A estratégia de não encarar a questão tem outros
desdobramentos, pois parece que os professores deixam de compreender como a ideia de
racismo é construída e quem se beneficia com o racismo. (FERREIRA, 2010, p. 09).

É preciso, primeiramente, perceber que vivemos numa sociedade que esteve por
muito tempo sob o mito da democracia racial, ou seja, com a ideia de que no Brasil não
havia racismo e por isso não fomos ensinados a “ler” o que está implícito em textos
verbais e não verbais relacionados ao preconceito e ao racismo e, assim, se não tivermos
o letramento para perceber isso, podemos reforçar o preconceito. Pennycook (2010),
pensa que temos que começar a assumir projetos morais e políticos, precisamos nos
preocupar com as desigualdades múltiplas e manifestadas pelas sociedades e pelo
mundo em que vivemos, é necessário se engajar num trabalho crítico que não é fácil, no
entanto é essencial.

2. A construção da identidade racial na perspectiva do letramento crítico

Atualmente as pessoas que se sentem discriminadas em geral não se calam,


enfrentam a discriminação e lutam pelos seus direitos. Isso não acontecia até pouco
tempo, no entanto, ainda há muito racismo, apesar das leis que foram criadas e do
espaço que se abriu para a discussão em toda sociedade.
As “identidades sociais são construídas no discurso, portanto, as identidades
sociais não estão nos indivíduos, mas emergem da interação entre os eles agindo em
práticas discursivas particulares nas quais estão posicionados.” (MOITA LOPES, 2002,
p. 37).
Ferreira (2012) fala sobre o papel que as ações afirmativas tiveram para a
construção da igualdade racial. Pesquisadores e líderes negros, preocupados com a
questão étnico-racial, pesquisam e estudam o tema com o objetivo de que os negros
sintam orgulho de sua ascendência, de sua cor e sintam o desejo de pertencimento. Essa
estratégia, afirma Ferreira, (2012, p. 196) é para que “os negros se reconheçam como
um povo que fez sua própria história e para mostrar que eles podem fazer seu próprio
futuro”. Dessa forma são incentivados a valorizar sua identidade e suas contribuições
para a cultura brasileira em vários aspectos como: costumes, religião e origem.
Com isso “construir uma identidade negra positiva em uma sociedade que,
historicamente, ensina aos negros, desde muito cedo, que para ser aceito é preciso
negar-se a si mesmo é um desafio enfrentado pelos negros e pelas negras
brasileiros(as).” (GOMES, 2005, p. 43).
Para Ferreira (2012), há uma dificuldade para que a população negra afirme sua
identidade em termos de sua ascendência, completa:

Eu diria que essa relutância também pode impedi-los de discutir assuntos que dizem
respeito a seu próprio interesse, como as ações afirmativas, a baixa porcentagem de
pessoas negras que entram na universidade, o baixo número de pessoas negras em cargos
de liderança e a falta de representação de profissionais negros em todas as escalas sociais,
etc. (FERREIRA, 2012, p. 196 – 197)

A autora revela que a Lei 10.639/03 e outras políticas de ações afirmativas só


foram possíveis por causa de pessoas comprometidas com a luta pela igualdade, uma
luta de brancos e negros com essa questão. Segundo a autora, o Censo de 2000 revelou
um aumento de negros no Brasil, ou seja, possivelmente mais brasileiros se
identificaram como negros. E no último Censo de 2010, podemos confirmar essa
tendência de aumento no número de negros. Assim, é preciso ter um sentimento de
pertencimento ao grupo para se identificar com ele.
Outro ponto fundamental para a construção da identidade racial positiva é a
escola. A Lei 10.639/03 veio para garantir isso. Mas, é importante frisar que primeiro
deve-se investir na formação de professores, os quais muitas vezes na tentativa de
colaborar podem reforçar o racismo, reitera Ferreira, (2006, p. 33), dizendo que “o
ensino crítico relaciona-se com a forma como se ensina em sala de aula, seus objetivos,
seu papel na sociedade e a habilidade de agir reflexivamente”.
Ferreira (2006), afirma que os professores que adotam um objetivo crítico em
suas aulas colaboram para que os alunos desenvolvam uma consciência deles mesmos
como agentes sociais, é preciso “que professores e alunos se envolvam em discussões
relacionadas a assuntos que reflitam suas experiências de vida, por exemplo, entender a
relação social entre escola, raça e etnia” (FERREIRA, 2006, p. 37). Assim, Ferreira
(2006) afirma que educadores críticos, pedagogos e professores, são empoderados ao
transformar a cultura da escola, como por exemplo, quando desafiam os estereótipos. O
letramento crítico pode ser uma possibilidade para a aplicação da Lei 10.639/03 e
conforme reitera Ferreira (2006, p. 27), a identidade étnica, sexual ou profissional, “faz
com que sujeitos negros e brancos se reconheçam como indivíduos. E possam ter voz
dentro e fora do sistema escolar.” E é nesse sentido que o letramento crítico pode
contribuir para diminuir a exclusão.

3. A escola e o letramento crítico

A identidade é algo que se constrói nas práticas sociais. Ela não existe sem as
ações do sujeito, são representações que se constituem nas práticas discursivas com o
outro. Nesse sentido, os questionamentos e as reflexões permitem que as identidades
sejam reconstruídas, reforçando as afirmações de Ferreira (2012), a respeito da
importância da escola trabalhar com o letramento racial crítico.
Moita Lopes (2002), e Hall (2009), compartilham da ideia de fragmentação do
individuo, que já não sabe quem é. Moita Lopes (2002) fala da instituição escolar como
lugar privilegiado para a construção das identidades. Ainda afirma que como vivemos
num mundo de discursos e atividades, muitas vezes as identidades são contraditórias e
fragmentadas.
As diferenças, para o autor, ainda são tratadas na escola como naturais e não
como fruto de um processo de construção sociodiscursiva. Assim a escola se cala diante
da exclusão, quando deveria construir discursos emancipatórios. O autor propõe que nas
aulas de línguas sejam reconstruídas as identidades, para ele as identidades emergem do
discurso, portanto são construídas. Ninguém nasce racista, torna-se racista, portanto o
papel da escola é fundamental na construção de identidades.
Ferreira (2012) afirma que no Brasil as pessoas se autoidentificarem como
morenas é uma das maneiras mais comuns dentre as 136 existentes. Mas, por que essa
preferência? Para a autora, devido ao preconceito existente no Brasil, há a tendência em
“embranquecer” a cor de sua pele, demonstrando assim, o desejo de não ser negro para
que possa ser aceito. A autora afirma que é preciso falar dos aspectos positivos da
história dos negros brasileiros, de sua luta pela liberdade e igualdade como cidadãos. A
história que é contada não aborda esses aspectos.
Dessa forma, é importante que a escola faça o seu papel de colaboração na
construção de uma identidade positiva para a população negra, como sugere a Lei
Federal nº 10.639/2003.
Com a teoria Racial Crítica, para Ferreira (2006), os padrões raciais e culturais
sistêmicos que operam nas escolas se tornam mais visíveis, desafiando a afirmação de
não ver cor, a opressão racial e também pode dar suporte a quem experiencia o racismo,
enfim, essa abordagem empodera quem dela se utiliza. O “contar histórias” faz parte das
estratégias dessa abordagem.

4. Como me dei conta que o racismo existe?

Para esta pesquisa foi realizada uma atividade em sala de aula sugerida no
Curso: Narrativas Autobiográficas e Formação de Professores sobre Identidades Sociais
de Raça, Gênero e Classe, ministrada pela professora Aparecida Ferreira. A atividade
tem o objetivo de identificar se as(os) alunas(os) têm consciência da presença do
racismo em situações da vida cotidiana delas(es). Primeiramente foi apresentada uma
tabela com a percentagem de negros e brancos que frequentam as universidades, de
acordo com uma pesquisa do IBGE. Foi muito intrigante a fala do aluno Leandro ao
perceber que pardos e pretos ficavam na mesma classificação, “então eu sou negro!?
Não sabia.” Percebemos através do discurso revelando o espanto do aluno ao lançar seu
olhar para a questão racial, tomando conhecimento que pelo IBGE, ele se classifica
como negro, foi uma descoberta para ele. Ele seria um dos alunos que diria “Não sou
negro, sou moreno”? Como nas várias afirmações de alunos ao serem chamados para
serem fotografados para a exposição do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro
de 2014? Adotamos aqui a concepção de raça de acordo com Nilma Lino Gomes “as
raças são, na realidade, construções sociais, políticas e culturais produzidas nas relações
sociais e de poder ao longo do processo histórico. Não significam, de forma alguma, um
dado da natureza. É do contexto da cultura que nós aprendemos a enxergar as raças”.
(GOMES, 2005, p. 49).
Nessa perspectiva, podemos concluir que o que causou o espanto no aluno
Leandro foi não se considerar negro. Ser negro é muito mais que ter o fenótipo racial
negro. É se sentir negro, se identificar como tal, conforme explica a autora acima.
No entanto, no relato de Carmem (negra), fica evidente que desde muito cedo ela
se deu conta da questão racial, pensou sobre isso, sofreu com isso.

Me dei conta de que o racismo existia quando eu fui para a escola na 1ª série e a
professora falou que era para eu ficar na última carteira para não contaminar os outros
alunos, e toda vez que eu ia falar ou perguntar alguma coisa ela nem dava bola ou
mandava eu ficar quieta, porque negro não precisava saber de nada porque não iriam
conseguir emprego de nenhum jeito.

Observamos nesse relato que a menina negra foi discriminada pela primeira vez
pela própria professora.

Se as próprias instâncias governamentais se preocupam atualmente em trabalhar, no


interior dos currículos, temas voltados para a superação da discriminação e da exclusão
social étnico-raciais, deve-se considerar que estas mesmas instâncias reconhecem a
existência da discriminação. Portanto, a resposta para a problemática das relações raciais
no espaço escolar poderia ser buscada, especialmente, no interior mesmo das escolas.
Porém, poucos foram os estudos que se propuseram a observar as interações e relações
entre professor-aluno e aluno-aluno, no interior da escola. Menos ainda, a relação alunos-
agentes educativos (diretores, coordenadores, inspetores de aluno, equipe operacional).
(SILVA JR, 2002, p. 31-32).

Moita Lopes (2002) diz que o papel que os professores desempenham na


construção das identidades sociais deve ser enfatizado, é como se a vida de um aluno,
que não consegue se encontrar no mundo social descrito pelos professores, não
existisse. Na sala de aula, os sujeitos não estão igualmente posicionados e o professor
exerce uma posição de poder sobre a definição das identidades sociais. E nesse caso
acima, a professora usou dessa posição para discriminar.
Nos relatos a seguir podemos observar as diversas formas do racismo se
manifestar: Nando (negro) relata: “Uma vez eu entrei num supermercado e me dei conta
que o segurança estava me seguindo sei lá... é estranho porque somos todos iguais não é
cor que vai fazer a gente ser diferente, somos todos iguais, negro ou não.” Bruno
(branco): “Nunca sofri racismo, mas já vi pessoas sofrerem racismo. Um dia eu estava
com meu amigo no ônibus e chegou um menino e falou que queria passar, meu amigo
saiu da frente dele e o menino falou: „Melhor sair da frente mesmo, preto encardido... O
piá ficou com vergonha, abaixou a cabeça e ficou quieto com a cabeça baixa.” Mauro
(negro): “Não sei como dizer como é o racismo. Você sofre nas mãos do agressor, não
tem vontade de fazer nada”.
Para Cavalleiro (2012), não se preocupar com a convivência multiétnica, na
escola ou na família, pode colaborar para a formação de indivíduos discriminadores e
preconceituosos. Quando não há questionamento à possibilidade de crianças e
adolescentes cristalizarem aprendizagens baseadas, muitas vezes, no comportamento
acrítico dos adultos a sua volta é muito maior. Embora os alunos Nando, (negro) e
Bruno, (branco), tenham consciência do racismo, ambos parecem não estar preparados
para situações envolvendo racismo, ou seja, parece que estão de certa forma silenciando
o racismo, Nando não reagiu, nem criticou, apenas afirmou o que sempre ouviu “Somos
todos iguais”, Bruno não se manifestou, só percebeu a situação.
Lucas comenta que “Me dei conta de que o racismo existe quando eu ainda
estudava na escola municipal. Tinha um garoto na minha sala que era negro, todos os
outros da sala eram brancos. Teve um dia em que um menino xingou ele de macaco e aí
eles brigaram, deu o maior B.O., teve até patrulha.” O aluno Jonas (branco) menciona:

Vivi um fato de racismo quando tinha 10 anos e estava jogando videogame on line e
apareceu um cara da Espanha, que perdeu para mim e ficou bravo. Quando ele viu que eu
estava jogando do Brasil, começou a me xingar de macaco, king kong, ticão e mais coisas
que tive que bloqueá-lo para ele parar de mandar mensagens ofensivas.

O aluno Bernardo comenta que “Me dei conta de que o racismo existe quando
minha mãe me contou que quando seu pai foi em um restaurante comprar 3 marmitex, e
por causa da sua cor escura, os funcionários disseram para ele: „Os restos de comida era
depois do almoço‟”.
Carol, (branca) esclarece que

Me dei conta de que o racismo existe quando fui fazer compras em um mercado e reparei
que todos os funcionários tinham a pele clara. Indignada, perguntei ao meu tio que
trabalhava lá o porquê de não vermos nenhuma pessoa com pele escura e ele relatou que
só eram escolhidas pessoas brancas porque a dona não gostava de pessoas com pele
escura.

A aluna Amanda, (branca) comenta: “uma vez eu fui ao mercado com minha
amiga, ela era negra e os seguranças ficavam nos seguindo, acho que ele estava
pensando que nós iríamos roubar algo ou não iríamos ter dinheiro para pagar.”
A aluna Franciely, (branca), relata: “meu padrasto, que é moreno, sempre que
passa em uma blits é barrado pelos policiais.” Eliane, (branca) comenta, “Os negros não
têm os mesmos direitos que brancos. Na minha escola (particular) tinha um menino que
não tinha amigos pela cor de sua pele.” Nesses relatos podemos confirmar que tanto
alunos negros quanto alunos brancos estão mergulhados em situações onde o racismo
emerge de forma, às vezes até brutal.
A questão do silêncio escolar sobre o racismo é uma forma de manutenção das
diferenças. “Entretanto, este silêncio não é em si mesmo uma ausência de discurso, mas
um discurso em que o não dito ganha significados ambíguos ou se estabelece em
relação apenas a uma das partes da relação racial.” (SILVA JR, 2002, p. 49-50). Desse
modo, é importante que ocorra um movimento de toda a sociedade em virtude de dizer
NÃO a esse silêncio, é preciso ter discursos que garantam a voz e a visibilidade da
população.
Miranda (2015, p. 156-157) afirma que “há uma tendência problemática em
torno do discurso do „somos todos iguais‟, pois tal discurso não percebe que pode
acabar reproduzindo concepções discriminatórias sobre as diferenças, que na história
mundial legitimaram a violência e as desigualdades”.
Rodrigo (branco) traz no relato essa ideia de igualdade. “Somos todos iguais.
Toda pessoa que for ofendida por conta de sua cor tem que correr atrás de seus
direitos”. O aluno repete a frase “Somos todos iguais.”, no entanto reconhece que há
diferença, portanto não somos todos iguais, pois para se ter direitos iguais é preciso que
aquele que se sente discriminado lute pelos seus direitos, revelando que há
desigualdade.
Para finalizar, trago um excerto do relato do aluno Noel (negro): “Espero da
escola um bom resultado. A escola representa tudo para a gente, pois sem ela não somos
capazes de arrumar um bom emprego e crescer na vida.” Conforme Brasil (2006),
incluir a dimensão da diversidade étnico cultural criticamente no cotidiano escolar,
integrar saberes, dentre outras ações, pode criar possibilidades para que alunos como
Noel possam contar com um mundo menos excludente, onde tenham a possibilidade de
ter oportunidades, mas conforme Munanga (2012, p. 03), só as leis não bastam, “tem
que educar também”.

5. Considerações finais

Como foi colocado anteriormente, houve um silêncio sobre a discriminação no


Brasil que talvez também tenha contribuído para a sua disseminação. Ferreira, (2010, p.
14) diz que “atos de racismo deviam ser discutidos a fim de dar “voz” para aquelas
pessoas que são oprimidas e que sentem que suas vozes não são ouvidas”, por causa
disso, a escola é uma instituição que deveria fazer esses discursos.
Conforme a autora, para que se efetive a Lei 10.639/03, é preciso que haja
preparação dos professores, que devem trabalhar em sala de aula com o objetivo de
diminuir o preconceito, a discriminação e o racismo, conforme as prerrogativas dessa
lei. Através dessa pesquisa de cunho bibliográfico, qualitativo e autobiográfico,
percebemos que com a perspectiva da Teoria Racial Crítica é possível diminuir a
exclusão, e a escola, conforme Moita Lopes (2002), é um lugar privilegiado para a
(re)construção de identidades, onde é necessário que se construam discursos realmente
emancipatórios através do letramento racial crítico.
Por muito tempo as vozes dos alunos excluídos foram silenciadas. Ferreira,
(2006) menciona que é preciso questionar essa prática do discurso, pois os mesmos
podem ser desconstruídos já que os processos de sala de aula os constroem. Na
perspectiva da Teoria Racial Crítica e da Educação Antirracista se objetiva a igualdade
e a justiça, trazendo à tona o racismo e a exclusão. Essa teoria dá força,
empoderamento, principalmente a quem experiência o racismo.
A pesquisa autobiográfica traz relatos significantes, com os quais foi possível
perceber que o racismo está presente na sociedade e que os sujeitos, muitas vezes, não
conseguem manifestar-se, pois não está criada em si a força do empoderamento que dá
suporte para a manifestação dos sujeitos diante diversas formas de racismo.

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