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MARQUIS, D. Por que o aborto é imoral? In: RACHELS, J. & RACHELS, S. Os


elementos da filosofia da moral. Porto Alegre: AMGH, 2014. p. 95-101.

THOMSON, J. J. Uma Defesa do Aborto. In: RACHELS, J. & RACHELS, S. Os


elementos da filosofia da moral. Porto Alegre: AMGH, 2014. p. 102-118.

Stefany Sohn

O aborto é tratado pelos dois artigos de maneiras diferentes das


perspectivas comuns sobre esse tema. Um dos artigos afirma que o aborto é
imoral e para defender esta posição, seu autor, Don Marquis, passa por
ponderações sobre o que é, de fato, um feto e por que é errado matar de uma
maneira geral. O artigo de Judith Thomson toma como premissa que um feto é
um ser humano desde sua concepção e ataca a exigência moral de uma gravidez
e a moralidade de obrigar uma manutenção indesejada de gestação. Ambos os
artigos tratam do direito à vida e sua outorga.

“Por que o aborto é imoral?” é segmentado em duas partes: a primeira


parte ocupa-se de diagnosticar os argumentos dos dois extremos da discussão
acerca do aborto, que serão identificados como “antiaborto” e “pró-escolha”. Na
segunda metade do artigo, Don Marquis desenvolve a ideia de por que é errado
matar, elenca as explicações mais comuns e desenvolve sua teoria.

Um “típico antiabortista” argumenta que a vida está presente a partir da


concepção e acredita que esta pretensão é absolutamente clara e suficiente para
aproximar o aborto de um assassinato. Também defende que “é sempre errado
matar uma vida humana” e este princípio não está incorreto, porém é
excessivamente amplo: é possível inferir que um tumor, por exemplo, não pode
ser retirado pois é uma cultura viva e humana. Do outro lado, um “pró-escolha”
afirma que um feto não é um agente racional e social e acredita que esta
pretensão é suficiente para afastar o aborto de um assassinato. É um princípio
geralmente aceito, porém limitado, pois não inclui a incorreção de matar bebês,
crianças ou indivíduos com doenças mentais graves.

Na segunda parte do trabalho, Marquis pondera sobre por que é errado


matar e passa por explicações comuns: porque brutaliza quem mata ou porque
proporciona grande perda aos outros, que sentirão falta do morto. Nenhuma é
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satisfatória, pois não explica casos específicos. A privação de todo o valor do


futuro, segundo o autor, é a resposta.

Esta teoria explica por que consideramos o assassinato um dos piores


crimes e procede independentemente da noção de personalidade ou
personalidade potencial. O autor pontua que considerações sobre dificuldades e
controvérsias ao tentar determinar qual tipo de futuro tem valor devem ser feitas,
pois a teoria tem questões complexas em relação aos direitos dos animais.

Tomando esta premissa, o aborto pode ser apenas justificado se a perda


consequente de não abortar pudesse ser tão grande quanto abortar. Abortos
moralmente permissíveis, para Don Marquis, são raros a menos que ocorram
nos primeiríssimos estágios da gestação.

Judith Thomson inicia “Uma defesa do aborto” atacando o esforço de


antiabortistas de estabelecer que um feto é uma pessoa e o descaso que os
mesmos fazem com as próximas etapas do argumento, assumindo que são
óbvias e inferem certamente na não-permissibilidade do aborto. Ela, então, acata
essa premissa como verdadeira para desenvolver seu argumento.

Um indivíduo forçado a manter-se ligado a outro não precisa consentir em


permanecer assim, ainda que a existência do outro esteja em risco. A autora
pondera sobre a obrigação de permanecer conectado a alguém independente
do tempo despendido, e qual seria mais decisivo, o direito à vida ou o direito ao
corpo. A analogia feita trata apenas de casos de estupro, e por isso, é frágil, pois
significa afirmar que alguns indivíduos têm mais direito à vida que outros.

Nos casos onde a gestante tem risco de vida, a autora afirma que
“antiabortistas” priorizam o direito do feto, pois abortar seria um assassinato
direto, enquanto não fazer nada seria apenas “deixar morrer”. O foco em o que
um terceiro indivíduo pode ou não fazer em relação a um pedido de aborto, além
de negar o status de pessoa à própria gestante, que é vista apenas como
“abrigo”, não é imparcial, como pode parecer de início. A gestante é uma pessoa
com o direito de defesa da ameaça provocada por um nascituro. É também
proprietária de seu “abrigo”, ou seja, de seu corpo, logo, deve ser priorizada.

O que é ter direito à vida? Se é receber “o mínimo necessário para


continuar a vida”, do que se trata este “mínimo necessário”? Ainda que uma
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pessoa precise de algo de outra para continuar sua vida, não ganha o direito a
isso. Pode-se argumentar também que o direito à vida é o direito de não ser
morto, mas para a autora, essa visão é problemática, pois o indivíduo cuja vida
corre risco tem o direito de pedir que evitem de o desligar.

Mesmo que uma mulher ciente da possibilidade de engravidar, tivesse se


entregado à uma relação sexual protegida e por acidente ou defeito no método,
gerasse um feto, seria absurdo, coloca a autora por meio de analogias, obriga-
la a seguir com a gestação. As responsabilidades dos genitores sobre o feto, se
estes tomaram todas as precauções razoáveis, não deve ser “especial”.

Ainda que moralmente questionável escolher não ceder o próprio corpo,


caso o tempo de “uso” do outro indivíduo fosse muito pequeno, a palavra “direito”
não se adequa, pois os direitos de um indivíduo não aparecem e desaparecem
de acordo com a dificuldade de outorgar-lhe esses direitos.

Concluindo, Thomson afirma que sua argumentação pode ser


considerada insatisfatória por pessoas “pró-escolha”, pois ela não leva à
afirmação de que o aborto é sempre permissível. Também não confunde o direito
ao corpo da progenitora com o direito assegurado da gestante à morte do feto.
Para a autora, algumas mulheres “podem ser devastadas” com o pensamento
de colocar uma criança para adoção e podem não apenas não querer a criança,
mas também querer que esta morra.

Embora os dois artigos tomem posições muito distintas e discorram sobre


o mesmo tema, eles não são mutuamente excludentes: enquanto o artigo de
Marquis trata o aborto de uma perspectiva individual, pessoal, “é imoral abortar”,
Thomson afirma que não é moralmente permitido forçar uma mulher gestante a
continuar neste estado contra a sua vontade. Pelas lentes da ética das virtudes
aristotélica, por exemplo, uma pessoa virtuosa não abortaria, mas também, não
obrigaria uma pessoa a gerar um indivíduo contra a própria vontade. Em vista da
discussão proposta pelo artigo de Marquis, sob o olhar aristotélico, os
argumentos “pró-escolha” ganham força, dado que a própria nomenclatura
utilizada já propõe que a única reivindicação dos que defendem a
descriminalização do aborto é justamente que mulheres não permaneçam
grávidas contra sua vontade, ou seja, o direito de escolher.