Você está na página 1de 3

Universidade Estadual de Londrina

1° ano de Comunicação Social – Relações Públicas


Teoria da Comunicação
Docente: Rodolfo Rorato Londero
Discente: Beatriz Molari

O mito do Superman – Umberto Eco

O livro “Apocalípticos e Integrados” tem como autor Umberto Eco, este


faz uma análise das ações culturas. A segunda parte, intitulada “Personagens”,
na qual está inserido o texto “O Mito do Superman”, refere-se aos “heróis” que
são acolhidos pela população, mediante a identificação por características
comuns.
O autor inicia seu texto apresentando o conceito de mito. Este se refere
a uma narrativa que tem a função de projetar em uma imagem os receios de
algum indivíduo ou de um grupo. Quando se fala em mito, logo se pensa em
mitologia: a reunião de narrativas que se baseavam em heróis, deuses e outras
criaturas para explicar fatos e o “por que” de tudo acontecer de uma
determinada forma. A população acolheu os mitos, contudo instituições
começaram a utilizar-se dessas narrativas para transmitir mensagens. Pode-se
compreender que esta apropriação tem como objetivo influenciar e,
evidentemente, orientar o povo para que tenham um comportamento pré-
estabelecido. A partir de então começaram a surgir os símbolos, sendo estes
imagens que transmitem ideias, mas de um modo subjetivo.
Os símbolos adquiriram significados, não muito diferente do que ocorre
na atualidade. Assim como o autor coloca, o status oferecido através de um
símbolo (uma marca, por exemplo) torna-se uma imagem, adquirida por uns e
desejada por outros. Com relação a esta afirmação, concordo com o autor
quando ele diz que o objeto visto como marco de personalidade, ao mesmo
tempo anula este propósito. Utilizo como exemplo para defender tal argumento
a indústria automobilística: uma mulher compra um carro seminovo porque o
modelo atende as suas necessidades, mas para as pessoas sua escolha não
será compreendida desta forma, mas sim como alguém que não possui
dinheiro o suficiente para adquirir um modelo novo, tendo que contentar-se
com o que seus recursos possibilitam.
Tal ponto chega-se isto que o homem passa a ser visto a partir de seus
bens, suas posses ditam o modo que ele será compreendido pelos outros. Mas
será que é assim que queremos nos apresentar ao mundo? Então vem a
questão: qual reação caberia à população adotar? Eco sugere a
desmistificação, que tem como objetivo compreender o que está por trás das
imagens, as intenções ocultas e entender os objetivos que o objeto tem. Tal
atitude seria um rompimento com a passividade em que a sociedade se
encontra.
Enquanto esta atitude não é tomada, a população ainda convive com a
mistificação de objetos, sobretudo dos meios de comunicação de massa. Eco
apresenta como exemplo para defender suas ideias as HQs, histórias em
quadrinhos que divulgam personagens e são amplamente consumidas pela
população mundial. Personagens como os presentes nos HQs da Marvel
ilustram diversos objetos, desde bolsas, canecas e roupas, a pôsteres
pregados nos quartos dos fãs. Tem-se ai apropriação feita pela indústria do
consumo. Quando esta passa a transmitir mensagens que vão além de incitar a
compra de produtos, e sim ideias, esta indústria torna-se persuasiva. A
população recebe essas mensagens e passa a acreditar naquilo, apegando-se
a mitos, histórias e personagens. A dependência causada na população é
tamanha que a uma necessidade de acompanhar os seus heróis de perto,
sofrer junto, comemorar quando um vilão é vencido; estabelecendo uma
aproximação entre a projeção e a realidade. Compreendo isto como uma “rota
de fuga”, uma alternativa dos homens para esquecer-se de seus problemas e
idealizar algo bom para seu futuro, valendo-se da máxima de que o que
acontece com os personagens, tornará sua realidade.
Aqui se encontra a essência do mito do Superman: a história de Clark
Kent, um jornalista tímido, míope, sem grandes aspirações e quem nem
consegue a afeição da mulher que ama; mas que atrai a atenção das pessoas
que encontram neste personagem características comuns. Contudo, é na
identidade de super-heroi que o mito se sustenta: o homem comum vê Clark
Kent se transformar em Superman e visualiza o seu desejo de que aquilo
possa acontecer também com ele, transformar-se em um homem com muitos
poderes, amado por todos e que consegue realizar as mais difíceis façanhas.
Engana-se quem pensava que somente crianças queriam ser super-
herois, ávidos por ouvir cada história referente ao seu “ídolo”, mesmo que tais
já sejam de seu conhecimento. Cabe então aos autores continuarem com o
desenvolvimento dos personagens, aproximando cada vez mais estes da
realidade, do homem comum. Aqui, como em qualquer outro “produto” da
indústria de consumo, o heroi é adequado ao seu público, ou seja, as histórias
(batalhas a serem enfrentadas) são escritas de acordo com quem irá as
comprar. Eco afirma que o Superman, talvez mais que outros personagens,
seguem a linha temporal, ou seja, suas histórias têm começo, meio e fim, ou
seja, o super-heroi enfrenta seus problemas de uma só vez, sem deixar nada
para depois. Esta característica mostra a determinação do personagem, o que
só aumenta a admiração por parte do público.
Entretanto, essa projeção feita pelo homem tende a lhe trazer prejuízos.
Quando se vislumbra demais um personagem, a identidade pessoal se perde,
juntamente com sua racionalidade e faculdade de crítica. Observa-se isso
claramente quando Eco afirma que o Superman é um modelo de heterodireção,
ou seja, sua imagem é utilizada como numa campanha publicitária,
persuadindo o homem a realizar ações e a pensar conforme lhe é imposto.
Entendo e concordo com tais afirmações do autor, realmente algumas pessoas
chegam a um limite de admiração e obcessão que o outro passa a basear sua
vida no personagem, revelando comportamentos agressivos se algo acontecer
com ele. Os fãs mais extremos reagem desta forma, não só nesta área, mas
também quando se fala em música, filmes, artistas de televisão, enfim.
A subjetividade também se mostra marcante no mito do Superman, o
seu próprio nome sugere o objetivo de sua existência, tudo isto segundo Eco:
composto pelas palavras super e man, que dão a entender que o homem
também pode vir a se tornar um super, alguém tão poderoso quanto o heroi.
O autor traz a tona o ápice, o que faz do mito do Superman algo tão
fascinante para o público: a história que se desenvolve sem cair na
previsibilidade, sem tornar-se romanceada e tão comum. Esta atitude por parte
dos roteiristas mostra claramente a intenção da indústria: manter seu público
cativo, em manter essa projeção do homem comum sobre o personagem. Sem
abrir para a possibilidade de o público explorar a sua criatividade, as histórias
do Superman são contadas tão “apressadamente” que o leitor (no caso das
HQs) não tem oportunidade de pensar, raciocinar acerca do que está
acontecendo. As informações (e soluções) dos casos são apresentadas logo
em seguida, encerrando o conto. Esse esquema não se altera, estando
presente na maioria dos seriados americanos como, por exemplo, “Law &
Order: Special Victims Unit” e “CSI”.
Eco ressalta constantemente em seu texto a identificação por parte do
público sobre alguns personagens. Em Sherlock Holmes temos o seu
cachimbo; para o rabugento Dr. House a sua bengala assume funções além de
ajudá-lo a andar. Pois bem, são traços que além de cativar o público, fazem
que este reconheça seus personagens em qualquer situação. Um argumento
que reforça esta posição de Eco é o fato de que tais símbolos que compõem
todo o visual de um personagem (cachimbo, bengala) tornam-se sua “marca
registrada”, mais um produto para as mãos habilidosas da propaganda.
Encontrada a chave para o sucesso de vendas, a indústria certamente
vai investir no que está obtendo lucros, dessa forma essa “receita” de criar e
promover um personagem se mantém, tornando as histórias contadas
totalmente redundantes, uma verdadeira história para a massa. Comprovamos
isto analisando o que é proposto nos canais de televisão: o mesmo programa
(com leves alterações), a mesma estrutura, o mesmo objetivo: prender o
telespectador em frente da televisão, impossibilitando este de parar, pensar e
decidir quais informações ele quer realmente obter.
Compreendo e concordo com o que o autor propõe em seu texto,
realmente se vê que tantas são as artimanhas utilizadas pela indústria para
“controlar” o homem, entre estas criando personagens que são idolatrados por
multidões que se preocupará mais com o porquê do heroi não se casar com
sua amada ou qual será sua próxima batalha, deixando de lado sua própria
vida, sua identidade, sua razão. Falta ao homem alcançar, primeiramente, o
desejo pela independência, sendo responsável por suas escolhas, utilizando-se
de sua razão para definir o seu ideal, não se baseando em uma mera fantasia.

Você também pode gostar