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PROBLEMA SÓ DOS FILMES OU O PROBLEMA TAMBÉM SOMOS NÓS?

*
Heitor Augusto**

Há pouco mais de duas semanas fui convidado para participar esse ideal, lamentamos ou ignoramos os que não atingem. Esse
da 20ª Mostra de Tiradentes de duas formas: tanto para compor me parece um lugar com alguma justeza, relevância e, evidente-
o júri – que premiou, na Mostra Aurora, o longa Baronesa e, na mente, tem lastro na história das formas – no caso do cinema, a
Mostra Foco, o curta Vando Vulgo Vedita – quanto para participar mise en scène seria, grosso modo, a verificação final, a prova cabal
do debate sobre o eixo da mostra deste ano, “Cinema em reação, de um acerto ou de um erro num filme. Sendo eu uma pessoa
cinema em reinvenção: questões de representatividade e de pro- com olhar cinematográfico formado dentro dos paradigmas da
posta estética”. Justamente por estar atrelado às obrigações de júri, crítica, esse pensamento pautou diretamente a minha maneira
decidi não publicar de imediato o texto que serviu de base para a de me relacionar com os filmes: partindo dessa não enunciada
minha fala em Tiradentes. Passadas essas semanas, retorno ao percepção universalista.
assunto porque ele não se esgota na mostra mineira. Pelo contrário, Contudo, de alguns anos para cá – dois anos e meio, três –,
trata-se de uma reflexão que, penso, deve ser feita pelo chamado na minha práxis, tenho cada vez mais me sentido desconfortável
“circuito de festivais” e, sendo mais específico ainda, pelo “campo com essas chaves já previstas de reações a filmes, e ficado mais
do cinema”. Eis o texto: e mais incomodado com quais filmes elegemos para falar (e para
“Tenho a sensação de que, em conversas e debates, toda assistir) e aqueles que invibilizamos. Além de enfezado com o
vez que vem à tona algum tipo de demanda política ou quando discurso universalista, que não se enuncia enquanto tal, e com
está em questão que lugares o cinema pode ocupar enquanto esse lugar confortável de reconhecer a existência de desigualdades
expressão crítica, nós nos concentramos na preocupação da no cinema (seja na produção, na circulação ou na reflexão acerca
oposição Cinema versus Política e, enquanto guardiões da forma, de filmes), mas pouco fazer para, de fato, alterar esse quadro.
nós – críticos, curadores, pesquisadores –, de certa maneira, Olho essa questão a partir do meu lugar de homem gay
seríamos a trincheira última para não se perder atenção à forma, e negro que trabalha como crítico, o que, evidentemente, é um
para que a forma fílmica não seja diminuída em prol de qualquer lugar para lá de minoritário no panorama de circulação de ideias,
outra demanda. especialmente no Brasil – e isso sim é um problema, e já passou
Dessa maneira, nada mais lógico que nós, de um pretenso da hora de desnaturalizar essa sub-representação. Percebo que,
lugar universal de percepção, interpretação e leitura, cobremos conforme surge o desconforto, surge também um desejo de ver
que o filme alie o que entendemos como político na estética e outros filmes, de me encontrar ou encontrar outros ‘eus’ nos
nas suas afirmações, em suma, na sua forma e no seu conteúdo. filmes que assisto e nos filmes sobre os quais escrevo, descobrir
Assim, usamos certas categorias para dar conta dos filmes que outros sujeitos atrás das câmeras. De levantar outras questões,
conseguem essa aliança – os chamados ‘filmes potentes’ – e dos de experienciar por meio de outras portas e atravessar os filmes
que falham – aqueles cujo mérito seria unicamente levantar de outras formas. Fui encontrando, aos trancos e barrancos,
uma discussão ou apontar uma urgência. E, como sabemos, no uma série de filmes merecedores desse lugar digno de ‘escrever
caso do cinema brasileiro e do circuito de festivais – sejam os sobre’. E também fui percebendo que pouca gente ouviu falar
hegemônicos ou os contra-hegemônicos –, predomina uma certa desses filmes, menos gente ainda escreveu sobre eles e uns
percepção universalista política de esquerda. gatos pingados acham que eles são imprescindíveis, inevitáveis
Em suma, celebramos e damos atenção aos que atingem de serem exibidos para se pensar o cinema.

* Este artigo foi publicado originalmente no site Urso de Lata (https://www.ursodelata.com/), em 9 de fevereiro de 2017.
** Crítico de cinema, pesquisador, professor e jornalista.

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Surgem, então, algumas dúvidas, e gostaria de dividi-las • O fomento efetivo à chegada de outros seres históricos,
com vocês para, quiçá, tentar avançar na questão da nossa dis- outros corpos, outras cores, outros gêneros escrevendo
cussão. Uma dúvida primeira: só eu vejo valor nesses filmes? Por sobre filmes, curando filmes, debatendo filmes. Estando
quê? Não reivindico um lugar nem de gênio louco que percebe o atento, obviamente, aos riscos do essencialismo,2 minhas
imperceptível, nem de Messias que vai guiar os escolhidos rumo últimas experiências (especialmente ministrando oficinas de
à terrinha dos filmes ‘certos’. Seria apenas pura idiossincrasia, crítica) só reforçam a sensação de que conviver com outros
ou fetiche pelo obscuro, enxergar valor nesses filmes – falarei seres históricos conscientes dos lugares que ocupam nas
sobre alguns deles no final da minha exposição – ou isso estaria relações em sociedade, em especial negros e mulheres, é
atrelado ao fato de que eu observo filmes a partir de um outro imprescindível para que coisas outras sejam vistas e apon-
lugar, lugar esse, repito, de minoria dentro da crítica, digamos, tadas nos filmes, maneiras outras de se reconhecer num
contra-hegemônica? filme sejam estabelecidas.
Prolongamento dessa dúvida: a ênfase da nossa questão
sobre representatividade, sobre como lidar com essas sensibi- • Um autoquestionamento contínuo, um estado de colocar-se
lidades latejantes que estão chegando ao cinema, deve ser só em dúvida, sobre os nossos pontos cegos ao lidarmos com
nos filmes – perguntar aos filmes, atestar méritos ou demé- filmes em que o ‘outro’ da tela (e por detrás da câmera) não
ritos, acertos ou falhas – ou também passa, inevitavelmente, seja ‘nós’.
por pensar de qual lugar observamos os filmes, lidamos com
filmes, em suma, pensamos sobre cinema? Não passa também • Uma ida, especialmente enquanto crítico, a esses filmes
por pensarmos os nossos lugares históricos, de classe, de raça, considerados aquém do cinema ou unicamente panfleto
de gênero, de sexualidade? Não passaria por reconhecer que ou militante. Escrever sobre esses filmes, inclusive, como
temos pontos estruturalmente cegos que não nos permitem nos um gesto necessário de formação de olhar – nosso, de quem
reconhecermos na sensibilidade do outro?1 escreve, e daqueles que fizeram o filme, colocando essas
Essa é uma dúvida central que tenho. sensibilidades para conversar.
Outra dúvida: enquanto pessoas que veem filmes e pensam
sobre eles, ao entrarmos em contato com trabalhos que, segundo • Rever drasticamente quais são os filmes que fazem parte do
a nossa percepção, não atendem aos critérios de qualidade da nosso cardápio de observação e desnaturalizar o fato de que,
forma, devemos apenas lamentar que esses filmes não atingi- mesmo no nosso dia a dia de cinefilia, ainda vemos poucos
ram esse paradigma formal e ignorá-los? Não existe uma outra filmes dirigidos, por exemplo, por mulheres ou por negros.
práxis que ultrapasse o conforto da melancolia ou do ‘foda que
isso não é um filme’? Como ficou evidente até agora, tentei fazer um deslocamen-
Não tenho respostas muito claras, definitivas ou um to, colocando a questão não só nos filmes, mas também em nós,
programa explícito que diga ‘ah, mas o que devemos fazer é isso aqueles que olhamos filmes. Falei dos pontos cegos, de como a
aqui, aquilo outro’. Tenho dúvidas e uma tremenda desconfiança nossa incapacidade de se reconhecer no ‘outro’ afeta percepções.3
que essa lamentação ou o ‘isso não é um filme’ já não é mais Penso num filme brasileiro recente que ilustra a necessidade
suficiente. E também desconfio da percepção universalista que de deslocar a ênfase, e esse filme é o Kbela, da Yasmin Thainá.
define o que é cinema – assim como desconfio seriamente dessa Para quem não viu, Kbela é um curta que organiza em
mesma percepção universalista que define o que é história, o que blocos a experiência de várias mulheres negras que passam a
é civilização e o que é barbárie. se reconhecer como tais. O cabelo é o componente central que
Tenho tentado investigar algumas pistas que poderiam une essas experiências. Pois bem, a praticamente inexistente
oferecer possíveis respostas. Elas passam por alguns lugares circulação de Kbela pelos festivais coloca uma questão séria: o
que me parecem inevitáveis: problema é o filme ou somos nós? O problema é a ausência de
cinema no filme ou a falta de reconhecimento na nossa sensi-
bilidade de se relacionar com os ‘eus’ presentes naquele filme,

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reconhecendo quem eles são? Kbela mal passou nos festivais NOTAS
de cinema brasileiros – lembro-me de apenas vê-lo na mostra
competitiva da 16ª Goiânia Mostra Curtas –, fazendo sua vida 1. CESAR, Amaranta. Conviver com as imagens: curadoria, reconhecimento
e sinais de vida. (Palestra durante o V Colóquio Cinema, Estética e Política,
ou exibições especiais organizadas por militantes ou em re- Belo Horizonte, UFMG, nov. 2016).
trospectivas em festivais internacionais (como é o caso agora
do Black Rebels, em Roterdã). De novo, para mim, um filme que 2. Em “Essencialismo e experiência”, sexto capítulo de “Ensinando a
Transgredir – A educação como prática de liberdade”, bell hooks avança na
transpira cinema, mas está ausente de quase todos os festivais. questão do essencialismo, apontando que as acusações rotineiras de que
Problema do filme ou o problema somos nós? Kbela tornou-se um os grupos marginais se agarrariam numa justificativa essencialista que os
filme invisibilizado desse circuito prestigioso. Isso não deveria autorizaria a versar sobre algo são, na verdade, uma cortina de fumaça que
não permitiria ver como os grupos hegemônicos se utilizam, eles sim, de
ter acontecido. uma fala essencialista para justificar o próprio ato de… falar!
Para encerrar: no começo da minha fala, comentei acerca
de filmes que descobri a trancos e barrancos. Filmes muitas 3. Um exemplo de como um filme pode ser experienciado justamente nas
zonas invisíveis para a maioria está na crítica de Karine, da Verberenas, sobre
vezes invisibilizados, mas que reagem ou reagiram a seus tem- Mate-me por favor: “E, assistindo àquele filme, uma onda de adrenalina tomava
pos, que já ofereceram, há muito, respostas para essas questões o meu corpo porque eu sabia que aquela mise en scène não denotava falta de
que estamos observando mais contemporaneamente. E, como complexidade. Não denotava ausência de subjetividade. Não denotava um
olhar apolítico e fetichista sobre garotas burguesas. Mas eu sabia também que
sou um crítico negro de cinema – um dos poucos, infelizmente, o filme seria lido por muitos dessa forma por causa do ponto cego que existe
registre-se, e esse cenário precisa ser alterado urgentemente –, no olhar que legitima os filmes”. Disponível em: <https://www.verberenas.
aponto alguns filmes de estatura imensa, que já responderam com/article/mate-me-por-favor/>. Acesso em: 29 mai. 2018.
mais que satisfatoriamente às questões de representatividade,
mas que pouco fazem parte do nosso repertório e raramente
aparecem com aquele peso de obrigatoriedade e inevitabilidade
em cursos de cinema. Por exemplo: Touki Bouki – A Viagem da
Hiena (de Djibril Diop Mambéty); Sweet Sweetback’s Baadasssss
Song (de Melvin Van Peebles); Ganja and Hess (de Bill Gunn); Space
is the Place (com o Sun Ra); os curtas em Super-8, de Barbara
Hammer; Alma no Olho (de Zózimo Bulbul); toda a obra do Idrissa
Ouedraogo; Tongues Untied (de Marlon Riggs); Nascida em Chamas
(de Lizzie Borden); The Watermelon Woman (de Cheryl Dunye);
Afronauts (de Frances Bodomo).
São exemplos rápidos, extraídos de primeira – ontem à
noite, enquanto eu estava terminando de organizar esta fala –, de
filmes que são centrais para a maneira que penso cinema, filmes
sobre os quais quero falar, filmes que trabalho em sala de aula e
que sempre dou um jeito de avisar as pessoas de suas existências.
Filmes, novamente, de estatura gigantesca. Mas pouco vistos,
pouco falados e que não atingiram status de obrigatórios como
um Godard sessentista ou até mesmo um Tsai Ming Liang dos
anos 2000. Problema exclusivamente dos filmes ou problema
também nosso?”.

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