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Pe F Blot

ESPECIAL: “No Céu nos Reconheceremos”


Nota do blogue: Publicarei esse livro em capítulos. Agradeço imensamente ao sr. Teodomiro Tadeu Viana Franco
pelo envio do material, que Deus o ajude. Para baixar esse livro em Word clique AQUI.

______________________

NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

PELO

Pe. F. BLOT, DA COMPANHIA DE JESUS

VERSÃO DA 19ª EDIÇÃO FRANCESA

PELO

Pe. FRANCISCO SOARES DA CUNHA

ÍNDICE

PRÓLOGO

I – Ocasião e motivos desta obra...................................................................... 5

II – Juízo que dela fazem algunseminentes bispos e sacerdotes.......................... 6

III – Vantagens desta publicação...................................................................... 12

CARTAS DE CONSOLAÇÃO

1 – Estado da questão ..................................................................................... 15


Primeira parte
Segunda parte
Terceira Parte
Quarta parte

2 – No Céu todos se conhecem ....................................................................... 27


Primeira Parte
Segunda Parte

3 – Resposta a algumas objeções .................................................................... 37


Primeira parte
Segunda Parte
Terceira Parte
Quarta parte
Apêndice

4 – Reconhecimento dos parentes ou a família no Céu ....................................... 59

Primeira parte

Segunda parte

5 – Reconhecimento dos amigos, ou a amizade no Céu ..................................... 63


Primeira parte
Segunda Parte
Terceira Parte
6 – O homem conhece os anjos, ou a união dos anjos e dos homens no Céu....... 83
Primeira Parte
Segunda parte
Terceira parte

7 – Conclusões práticas ................................................................................... 93


Primeira parte
Segunda parte
Terceira parte

ORAÇÕES PARA TORNARMOS A VER NO CÉU AS PESSOAS

QUE NOS SÃO QUERIDAS

1) Oração à Santíssima e adorável Trindade ........................................,,,........ 103

2) Oração a Nosso Senhor Jesus Cristo ........................................................ 105

3) Oração à Santíssima Virgem, a S. José e a todos os Santos ....................... 107

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Introdução I


Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

INTRODUÇÃO

No princípio do ano de 1859, numa cidade do Oeste, onde ensinávamos teologia, soubemos que um pregador
dissera, da cadeira da verdade, que os membros da mesma família não se reconheceriam no Céu.

Entre os seus ouvintes encontrava-se um ancião que ao ouvir isto se afligiu muito, porque tinha perdido a sua
virtuosa esposa, que sempre esperara tornar a ver junto de Deus. Foi confiar sua aflição ao seu confessor, que era o
Superior da mesma casa que habitávamos.

Este, sabendo que andávamos procurando nas obras dos Padres da Igreja os materiais necessários para a
composição duma obra, que esperávamos publicar um dia, sobre o dogma da comunicação dos santos, convidou-nos
especialmente a recolher todos os testemunhos que assegurassem que os parentes e os amigos se reconhecem na
eterna bem-aventurança.

Disse-nos que estas autoridades nos serviriam para consolar as almas, e disse a verdade; tivemos a prova disto três
anos depois, em seu próprio país.

Corria o ano de 1862, e pregávamos a Quaresma na catedral duma cidade do Leste. No fim duma instrução
mostramos a família recomposta no Céu. Este quadro pareceu próprio a regozijar santamente uma viúva e uma mãe
angustiada, bem conhecida em toda a cidade por sua virtude, mas a quem uma indisposição tinha impedido de ir
ouvir-nos.

Uma de suas parentes que ela amava ternamente contou-lhe, em resumo, o que tínhamos desenvolvido, e veio da
sua parte suplicar-nos que lho déssemos por escrito.

Pouco tempo depois, a piedosa senhora reiterava-nos pessoalmente esta súplica e contava-nos que, muitos anos
antes, tendo perdido uma de suas filhas ainda jovem, quisera consolar-se com a esperança de tornar a vê-la no
Paraíso, mas que um eclesiástico a repreendera severamente, porque esta esperança, segundo a sua opinião, não
tinha fundamento algum, e que nutrir-se dela era uma grande imperfeição, pois que só Deus nos deve bastar.

Uma resposta tão dura não satisfazia nem o seu espírito nem o seu coração. Como um dos seus filhos era então
aluno da Companhia de Jesus, no célebre colégio de Friburgo, na Suíça, suplicou ao padre Reitor que o fizesse
acompanhar até a casa no tempo das férias mais próximas, por um religioso que a instruísse sobre este ponto, a fim
de assegurá-la e tranqüilizá-la, sendo possível.

As exagerações duma certa escola tinham, pois, formado como que uma nuvem que ocultava aos olhos dum grande
número de pessoas aflitas, o vivo resplendor desta verdade tão consoladora: No Céu nos Reconheceremos. Se lhe
não negavam absolutamente a existência, via-se pouco, e mostrava-se ainda menos todo o bálsamo que encerra
para adoçar as mais cruéis dores.

Foi o que determinou a pessoa de que temos falado, digna de todos os nossos respeitos e atenções, a pedir-nos
instantemente estas Cartas de Consolação, nas quais nos esforçamos em apresentar a verdade com toda a sua
clareza, para que o coração aflito a veja, sinta e se regozije.

Pelo mesmo motivo, muitos de nossos leitores desejariam encontrar aqui as altas aprovações que recebemos.
Fomos graciosamente autorizados a satisfazer um desejo que tende unicamente a tornar este opúsculo ainda mais
consolador.

Estes testemunhos são efetivamente um novo alívio para as almas provadas por uma cruel separação; servem de
lição para todos, e são uma censura para os contraditores, antes que um elogio para um escrito sem importância e
sem merecimento. Longe de assemelhar-se a essas obras doutrinais que têm um grande alcance, não é mais do que
um tecido de citações onde o coração dos santos e dos doutores está aberto para que a alma atribulada tire daqui as
consolações de que tem necessidade.

Contudo, seria necessário atrair a atenção dos homens para uma coisa em si tão simples e tão evidente?

Eis o que a este respeito nos dizem pessoas de autoridade indiscutível:

– Monsenhor Dupanloup, Bispo de Orleans:

“Desde há muito tempo que fazia votos para que uma tal obra saísse a público”.

– Monsenhor Filion, Bispo de Mans:

“Li com vivo interesse o opúsculo – No Céu nos Reconheceremos. As verdades que com tanta felicidade exprimistes,
servindo-vos da linguagem da Escritura e dos Santos Padres, são mui necessárias a todos durante o exílio da vida
presente; e é isso o que poderosamente concorrerá para que o seu livro tenha uma grande extração. Faço sinceros
votos para que assim aconteça”.

Um veterano do Sacerdócio, um dos padres mais experimentados que possuía a Alsácia, M. F. Muhe, dizia-nos: “O
seu livro é um bálsamo para a alma aflita pela perda de seus parentes. Ai! e quantas vezes no nosso santo ministério
não temos nós ocasião de difundir este bálsamo! Fez, pois, um grande serviço, com a edição deste excelente
pequeno tratado, não só aos fieis, mas ainda a todos os padres encarregados da direção das almas. Além disso, esta
matéria é mui raras vezes tratada nas mesmas obras teológicas. Portanto, exerceu por este motivo uma boa obra de
misericórdia – consolar os aflitos”.

Monsenhor Pie, Bispo de Poitiers, escrevia-nos: “O seu pequeno livro – No Céu nos Reconheceremos – é uma
verdadeira pérola engastada em textos seletos dos Padres da Igreja. Li-o com fruto e consolação, e regozijo-me com
a esperança do grande alívio que levará a certas almas faltas de doutrina sobre este ponto, ou que facilmente se têm
deixado impressionar pelos ditos dalguns pseudo-teólogos que se crêem sempre mais próximos da verdade, quando
se mostram mais severos. Obrigado, pois, meu querido Padre, por todo o bem que há de fazer este pequeno
volume”.

Sua Exa. não se contentou só com esta aprovação. O “Courrier”, jornal de Viena, de 6 de Novembro de 1862,
terminava assim um longo artigo sobre o nosso livro:

“Acrescentarei como o mais belo elogio, que, em sua eloqüente homilia da festa de Todos os Santos, Sua Exa.
aconselhou a todos a leitura e a meditação destas páginas consoladoras, ditadas pela fé e pelo coração.

A obra do R. P. Blot, efetivamente, tem um lugar distinto em todas as bibliotecas cristãs e sobre a mesa de todas as
famílias piedosas que conservam fielmente o culto e a memória de seus membros falecidos”.

O padre Gratry escrevia-nos rapidamente as seguintes linhas: “Li o seu livro. Propaguei-o por dezenas, e tenho-o
feito propagar. Li-o com avidez, tão ligeiramente que talvez mesmo omitisse algumas páginas, mas tornei-o a ler. A
idéia que teve não podia ser mais feliz. Fez absoluta justiça, uma vez para sempre, duma verdadeira perversão
jansenista acerca da idéia da vida futura. Edificou-me e instruiu-me plenamente sobre este ponto. Ignorava,
confesso-o, quanto a sua tese é teológica e incontestável em presença de tantas autoridades. Tinha a firme
convicção, mas não a ciência teológica desta verdade. Agradeço-lhe vivamente, meu bom Padre, por ma haverdes
dado. Agradeço-lhe o bem que tendes feito e fareis a milhares de almas, a quem muitas vezes o próprio diretor
espiritual, como dizeis, hesita em consolar sob este ponto de vista. Não se hesitará mais”.

Poderiam ainda outras causas tornar oportuno o nosso trabalho?

Monsenhor Darboy, Arcebispo de Paris, dignou-se escrever-nos depois de ter lido os opúsculos – No Céu nos
Reconheceremos e as Auxiliadoras do Purgatório:

“Quero unir o meu voto às felicitações, que lhe atrairão de todas as partes estes livros cheios de doutrina e de
piedade. Há muitos motivos de abrir diante de nossos contemporâneos os horizontes da outra vida, e de premuni-
los contra as ilusões e atrativos desta.

Olho, pois, como oportunas e mui úteis estas curtas, mas substanciosas páginas, onde excitais a piedosa compaixão
dos vivos a favor dos mortos, e reanimais nos corações o desejo do Céu. É para mim um dever, assim como uma
satisfação, aplaudir o merecimento do seu trabalho e animar os seus estudos. Suplico a Deus que lhe aplique as suas
melhores graças e o gênero de triunfo que lhe é mais caro, quero dizer, à edificação das almas”.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Introdução II


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

II

Mas conviria tratar um objeto tão mavioso em presença duma geração a quem o trovão da divina vingança e os
estilhaços do raio dificilmente despertam do seu letargo?
Monsenhor Malou, Bispo de Burges, respondendo a um amigo, escrevia-lhe:

“Acabo de ler o opúsculo No Céu nos Reconheceremos. Pergunta-me o que penso a seu respeito. Todas as obras que
tratam do Céu, da sua felicidade, da sua eternidade, etc., causam-me muito prazer, porque são estas que em nossos
dias produzem nas almas o maior bem. Outrora recolhiam-se maiores frutos, ao que parece, falando da Morte, do
Juízo e do Inferno. O temor tinha então mais poder do que o amor. Hoje o amor é mais poderoso para converter os
corações.

É, pois, o amor que convém inspirar, não só para firmar os justos, mas também para converter os pecadores.

O objeto de que trata este livro é cheio de interesse. Responde a uma pergunta que as pessoas piedosas nos dirigem
repetidas vezes: ‘Reconhecer-nos-emos no Céu?’ Sim, certamente, reconhecer-se-ão reciprocamente as almas e se
amarão, e este amor fará parte da felicidade acidental do Céu. Segundo a minha opinião, o autor é exato e nada
exagera. Se tem algum defeito, é, talvez, o de não ter esgotado o assunto de que se propôs tratar.”

O autor diz que o sábio prelado entra, depois disto, em considerações que lhe teriam sido dum grande auxílio se
quisesse tratar este assunto debaixo doutro ponto de vista e com mais extensão; mas que, por uma parte, pessoas
muito autorizadas o aconselharam a conservar neste opúsculo a sua primitiva filosofia; e que, por outra, a nobre
senhora, a quem foram dirigidas estas cartas de consolação, tinha rendido naquela ocasião a sua bela alma a Deus, e
que por isso lhe não era permitido acrescentar novas cartas às antigas, mas que unicamente lhe parecera
conveniente completar estas, porque junto às orações que vão no fim deste opúsculo, lhe aumentarão muito
interesse.

Em seguida, discorre sobre as considerações de Monsenhor Malou, e diz por conclusão, que quase todas estas
provas se acham melhor desenhadas, mais claramente enunciadas, e têm ao mesmo tempo mais desenvolvimento e
precisão nas seguintes páginas do mesmo ilustre prelado:

“A sociedade dos santos, me dizia eu, constitui a Jerusalém Celeste, a Santa Sião, a cidade de Deus. Mas uma cidade
tem os seus magistrados e seus príncipes, assim como os seus cidadãos. Supõem, entre as pessoas que a compõem,
relações de superioridade e de subordinação na ordem moral, relações que não podem existir sem mútuo
conhecimento”.

“A sociedade dos santos é a família de Deus; família espiritual, transportada da Terra ao Céu, família de que Maria é
ainda Mãe e distingue seus filhos muito amados. Ora, pode conceber-se uma família cujos membros não se
conheçam entre si? Poderá acontecer que os filhos conheçam seu pai e sua mãe, sem que os irmãos e as irmãs
tenham relações fraternais?”

“A sociedade dos santos forma uma hierarquia celeste, à imitação da dos anjos, se todavia se não confunde”.

Ora, nós sabemos que os anjos se conhecem entre si, visto que as ordens superiores iluminam as inferiores, e que
todos se auxiliam mutuamente em louvar, bendizer e adorar o Deus três vezes santo.

Os bem-aventurados obrarão da mesma forma, e visto que os santos anjos os conhecerão como substitutos dos
anjos caídos, eles também conhecerão os anjos, e se conhecerão reciprocamente.

“Além disto, não é a Igreja Militante uma, ainda que imperfeita, imagem da Igreja Triunfante? Sendo assim, como é
na realidade, a Igreja Triunfante conservará, pois, em seu seio o selo – permita-se-nos a expressão – da Igreja
Militante.

Quero dizer que a ordem e harmonia que reinam cá na terra entre os filhos de Deus, a fim de se prepararem para a
felicidade do Céu, passarão com eles à habitação dos escolhidos.

Assim, os pastores se encontrarão no Céu à frente dos seus rebanhos; os bispos à frente dos fiéis das suas dioceses;
os Soberanos Pontífices à frente de toda a Igreja Católica; os Patriarcas das Ordens Religiosas à frente de suas
famílias espirituais e de todos aqueles que seguiram a sua regra, trouxeram o seu hábito e imitaram o seu exemplo.

Mas esta ordem e esta harmonia repousam sobre o conhecimento recíproco das pessoas, e sobre as relações da
ordem moral que, sem conhecimento recíproco, são impossíveis.
A mesma natureza da bem-aventurança celeste fornece, a este respeito, provas irrefutáveis.

Esta bem-aventurança repousa completamente sobre a visão beatífica, isto é, sobre a vista intelectual da Divindade.

E que é a vista intelectual senão o conhecimento e a ação do espírito? O desenvolvimento e a ação da inteligência
será, pois, de alguma sorte, a medida da felicidade do Céu.

A felicidade resulta, é verdade, do amor; mas este é necessariamente proporcionado ao conhecimento que se tiver
do objeto da sua felicidade. Não se ama o que se ignora, e ama-se infinitamente o que se conhece como
infinitamente amável.

A inteligência é, pois, a faculdade pela qual os bem-aventurados apreendem e se apossam da felicidade; e poderia
supor-se nos escolhidos uma completa ignorância de tudo o que os rodeia e interessa no mais alto grau?

Poder-se-á crer que gozem do conhecimento da essência de Deus, e que nesta essência não contemplem os gozos
que dela tiram os outros bem-aventurados? Isto é inteiramente impossível. O poder que adquiriu o seu espírito para
contemplar a Divindade, origem de toda a felicidade, auxilia-os poderosamente a conhecer aqueles a quem a
essência divina beatifica e enche de felicidade. Não gozam somente do raio de luz que os põe em contato com a
Divindade, mas também do oceano de claridade que os inunda e põe em relação com todas as felicidades do Céu.

“Ainda que a felicidade essencial dos escolhidos consista na visão e posse da essência divina, todavia sua bem-
aventurança completa-se e acaba-se, se assim posso falar, pelo conhecimento que adquirem da felicidade dos
amigos de Deus”.

No Céu, como na Terra, Deus recebe não somente homenagens isoladas, mas também coletivos louvores de todos
os seus filhos reunidos.

Demais, por que no Céu estas auréolas ou sinais particulares de virtude e de glória? Por que trarão os mártires, as
virgens, os confessores, os doutores, etc., um sinal distintivo no meio da luz comum, senão para serem mais
facilmente reconhecidos e glorificados por seus irmãos? Certamente não é para atrair a vista da Divindade ou dos
anjos, que estes selos particulares de merecimento e de glória são necessários, mas sim para atrair a vista dos outros
escolhidos.

Os bem-aventurados reconhecerão, pois, e distinguirão os mártires dos confessores e das virgens; e, reconhecendo
inteiramente seus merecimentos, reconhecerão também suas pessoas. Há, pois, entre os bem-aventurados uma
série de mútuas relações de admiração, de felicitações, de aplausos e de reconhecimento, que supõe um
conhecimento pessoal, claro e direto.

Ainda mais: cremos na ressurreição dos corpos. Isto não é rigorosamente necessário para que os escolhidos se
reconheçam entre si. As almas despojadas de seus corpos revestem formas intelectuais que as inteligências
desembaraçadas da carne podem perceber, distinguir e conhecer.

Todavia, é certo que a reunião do corpo à alma, que reconstitui a individualidade terrestre quebrada pela morte, é
um meio poderoso de distinguir os escolhidos uns dos outros. E ainda que a ressurreição da carne tenha outros fins
sublimes, que é inútil enumerar aqui, é permitido crer que ela contribuirá também, por sua parte, para facilitar aos
bem-aventurados o conhecimento que possuírem de seus parentes, de seus amigos e benfeitores.

Sob este ponto de vista, o dogma da invocação dos santos também nos fornece luzes.

O apóstolo S. Pedro, escreveu aos fiéis que tinha convertido, que depois da sua morte se lembraria deles. Estes fiéis
tinham, pois, um direito mui particular de invocá-lo depois da sua morte. Este direito temo-lo nós também, de certo
modo, a respeito de todos os santos, mas especialmente a respeito daqueles cujo nome temos, ou que, por um
título qualquer, se tornaram nossos protetores particulares.

Chegados ao Céu, os santos que conhecemos na Terra conhecem-nos ainda.

Mas que digo eu? Os santos que reinam no Céu desde há séculos, os santos mártires que verteram o seu sangue na
primeira idade da Igreja, muito tempo antes do nosso nascimento, conhecem-nos e amam-nos em Jesus Cristo. Nós
os invocamos com bastante confiança e bom sucesso.
Ora, se os escolhidos nos não conhecem no Céu, é forçoso que estes bem-aventurados protetores que nos seguiram
na terra, nos percam de vista quando lá subirmos, e deixem de se interessar pela nossa felicidade.

Mas, isto é impossível.

Longe de se quebrarem, quando subimos ao Céu, as cadeias de amor que nos unem aos santos; fortificam-se, pelo
contrário, e estreitam-se ainda mais.

A fé e a esperança deixam então de existir; mas a caridade permanece sempre. Os santos que nos conheciam na
terra conhecem-nos quando chegamos ao Céu; e como esta prerrogativa é essencialmente comum a todos os
escolhidos, todos estes se conhecem mutuamente por toda a eternidade.

Enfim, se os bem-aventurados se não reconhecessem uns aos outros, que idéia se poderia fazer da felicidade do
Céu? Seria necessário imaginar-se uma multidão de seres separados uns dos outros, sem ação nem relações
recíprocas, imóveis, absorvidos numa contemplação imutável, e de alguma sorte materializada.

O espírito e o coração dos escolhidos seriam absorvidos, concedo-o, no conhecimento e no amor da natureza divina,
mas o seu todo não formaria nem uma sociedade de amigos, nem a família espiritual, nem a Cidade de Deus.

O Céu não seria a habitação de delícias onde todas as faculdades da alma racional têm uma ação própria,
concorrendo para a felicidade desta alma e dos outros escolhidos; tornar-se-ia, permita-se-me a expressão, uma
espécie de prisão celular, onde as almas, cativadas pela felicidade essencial da visão beatífica, não saberiam o que se
passa em volta delas, e viveriam numa espécie de isolamento sem motivos.

“Atenhamo-nos, pois, à imagem da sociedade dos santos, onde a caridade reina como soberana; à da família de
Jesus e de Maria, cujos membros todos se conhecem e amam; à do Reino de Deus, onde tudo se passa com ordem e
harmonia para maior felicidade de todos.

Estas idéias, e algumas outras ainda, apresentaram-se ao meu espírito enquanto lia o opúsculo do R. P. Blot, donde
concluo que é a ele que as devo.

Agradeço-lhe mui sinceramente por mas ter sugerido, e reenvio-lhas como uma dívida de reconhecimento. Possa o
seu excelente livro derramar o bálsamo da esperança cristã em muitas almas aflitas e, fazendo inteiramente sentir os
laços espirituais que nos unem entre nós, unir-nos cada vez mais no Senhor!

Depois do que acabo de dizer é inútil declarar que aprovo o livrinho e que desejo vê-lo espalhado pela minha
diocese”.

Nunca o nosso reconhecimento será demasiado para com a memória do venerando prelado que, apesar das dores
duma cruel enfermidade a que devia em breve tempo sucumbir, se dignou escrever-nos de seu próprio punho uma
tão longa e benévola carta.

Ela permite-nos esperar que este humilde trabalho fará algum bem às almas, sobretudo àquelas que, não tendo uma
fé assaz viva, murmuram contra a Providência por ocasião da perda dum ente querido, e são tentadas a abandonar
as práticas da piedade cristã.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Introdução III


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NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus


Versão 19.ª edição francesa
pelo
Pe. Francisco Soares da Cunha

Esta esperança é-nos dada ainda por Monsenhor Wicart, Bispo de Laval:

“Li, diz ele, com muito prazer e fruto o seu livro – No Céu nos Reconheceremos.

Continuai, meu bom Padre, a escrever obras tão piedosas e atraentes ao mesmo tempo; muitas pessoas vos deverão
a felicidade de se resolverem a marchar com passo firme no caminho que conduz à pátria celeste, onde se tornarão
a encontrar para viverem eternamente em Deus”.

O sr. Hamon, pároco de S. Sulpício, escrevia-nos assim:

“O seu agradável opúsculo é muito próprio para consolar tantas pobres almas aflitas, que, tendo gozado na terra a
felicidade de amarem certas pessoas queridas, têm dificuldade em conceber que se possa ser feliz longe delas.

Sem dúvida, Deus só, basta ao coração; mas a parte sensível da nossa alma tem repugnância de se elevar a esta
verdade; e se o conhecimento que tivermos uns dos outros no Céu não aumentar a felicidade essencial no seio de
Deus, a esperança deste conhecimento aumentará imensamente a nossa consolação nesta vida. É o fim que vos
propusestes, e que haveis perfeitamente conseguido.

O seu livro é, pois, uma boa obra, um verdadeiro ato de caridade que lhe agradeço pela minha parte”.

O bem que produziu este opúsculo prova-se por cinqüenta mil exemplares em língua francesa, espalhados no espaço
de quatro anos; pelas numerosas traduções feitas no estrangeiro; pelos novos opúsculos que suscita cada ano sobre
o mesmo objeto, e por fatos que nos têm sido contados muitas vezes.

Aqui é uma mulher do mundo, sem alguma piedade que, por ocasião da morte de seu único filho, recebe de uma de
suas amigas estas cartas de consolação; percorre-as e resolve-se a mudar de vida para estar segura de ir reunir-se no
Céu ao pequeno anjo que a precedeu.

Ali é um homem ainda jovem que, na morte imprevista de sua muito amada esposa, é tentado pelo desespero, mas
encontra entre os livros da defunta o opúsculo – No Céu nos Reconheceremos. Lê-o com empenho, e sente-se
inteiramente mudado. Vai confessar-se, comunga e marcha daí por diante sobre as pisadas de sua virtuosa esposa,
na esperança de se lhe reunir para sempre junto de Deus.

Acolá é uma filha cujo pai, à hora da morte, tinha dado todos os sinais exteriores de impenitência. Ela olhava como
inútil tudo quanto pudesse fazer em benefício de sua alma; mas lê o apêndice à terceira carta e toma a resolução de
multiplicar as suas orações e sacrifícios por esta alma tão querida, até ao último instante da sua vida.

O bom resultado que tem obtido este modesto escrito foi uma doce consolação para a alma sensível que no-lo
pediu, e que quis aliviar-se a si, aliviando os outros. Ela mesma nos escreveu:

“Sou-lhe, por certo, devedora de muitas consolações e bons desejos. Tendes sempre a delicadeza de me dar parte
dos bons resultados do livrinho - No Céu nos Reconheceremos. Agradeço-lhe de todo o meu coração.

Quando penso que foram os meus suspiros e as minhas lágrimas que tiraram do seu coração esta excelente obra,
não me canso de admirar a Providência que, dum grão de mostarda, formou uma árvore onde repousam as almas
aflitas”.

Ai! a morte levantou de novo a sua espada, por bastante tempo suspensa, e descarregou um terrível golpe,
arrancando ainda a esta pobre mãe uma filha muito querida. Mas a graça deu-lhe alguma semelhança com Maria,
por meio duma religiosa resignação: “Consagrei-me, diz ela, a esta boa Mãe no mais terrível momento da minha dor,
e ela me auxiliou. Ainda que me não foi dado ficar de pé como ela junto da cruz, fiquei assentada, e não a tenho
abandonado. Esta graça, foi ela que ma obteve”.

Possam todas as mães, a quem a morte arrebata um filho, invocar e imitar assim aquela que viu crucificar seu Filho
único!

Possam todos aqueles que lerem este livro recorrer à Consoladora dos Aflitos, e ficar pelo menos assentados ao pé
da Cruz, se junto dela não puderem permanecer de pé.

A virtuosa viúva, cujas palavras há pouco citamos, assemelhava-se, desde há muitos anos, àquelas árvores fecundas
e robustas que são abatidas, cortando-se uma após outra as suas raízes, e algumas vezes os seus principais ramos.

Deus tirou-lhe, pouco a pouco, os ramos brotados da sua fecundidade; desprendeu-a da terra onde a retinham
profundas raízes, preparando-a para cair sem muita dificuldade.

Tempo antes, a sua queda, isto é, a sua morte teria mergulhado na dor a seu esposo e a seus numerosos filhos.
Agora aqueles que a precederam no Céu vão regozijar-se, pois vêem que a morte só a inclina para a terra, a fim de
apressar a sua reunião com eles na pátria celeste.

Aqueles que ficam neste mundo, como estas tenras vergônteas que ela via crescer junto de si, vão adoçar, pelos
testemunhos do seu amor, o momento da separação. Mas, antes de chamá-la a si, Deus reservava-lhe uma grande
alegria.

A 12 de Março de 1865, a Senhora *** assistiu, em Paris, à primeira missa do mais jovem de seus filhos, e recebia de
suas mãos a Sagrada Comunhão. Deste modo tinha um ante-gosto da felicidade que gozarão os pais na glória,
quando se virem com seus filhos assentados ao banquete do Senhor.

Pela sua parte, o novo padre, por mais ocupado que estivesse de Deus e do Augusto Sacrifício, conservava em sua
alma a viva lembrança de sua família, e não se esqueceu de sua mãe, orando pelos vivos, nem de seu pai, orando
pelos mortos.

Quando desceu os degraus do altar para dar o Pão dos Anjos àquela que lhe havia dado o ser, distinguiu-a, sem
dúvida, entre todas as outras pessoas queridas a quem ia administrar a Sagrada Eucaristia, e as pulsações de seu
coração lhe fizeram sentir que, se é doce para um filho reconhecer sua mãe à mesa eucarística, será muito mais doce
ainda reconhecê-la no eterno banquete dos Céus.
Feliz, mil vezes feliz a mãe cristã que deixa depois da sua morte, para continuar o hino começado por ela à glória do
Senhor, um filho sacerdote, ministro de Jesus Cristo, uma filha no claustro, esposa do mesmo Jesus Cristo, e um filho
no século à frente de uma família onde se perpetua a fidelidade a Jesus Cristo, a dedicação à sua Igreja e a
misericórdia para com os seus pobres!

A Senhora *** teve esta rara felicidade, antes de adormecer no Senhor, a 4 de Março de 1866, tendo sessenta e
nove anos de idade. Podem-se-lhe aplicar sem exageração nem lisonja, estas santas palavras:

– Ela passou fazendo o bem (At. X, 38);

– A sua memória não se apagará jamais, e o seu nome passará de geração em geração (Eccles. XXXIX 1,3); – Os seus
filhos se levantaram e a proclamaram bem-aventurada (Prov., XXXI, 28);

– Regozijar-vos-eis em vossos filhos, porque eles serão abençoados e se reunirão todos junto do Senhor (Tob., XIII,
17);

– Desprezei todas as vaidades do século por amor de Jesus Cristo que contemplei, que amei, em quem cri
firmemente e a quem dei todo o meu coração (Brev. Rom. Commune non Virg., R. VIII).
Os restos mortais da Senhora *** foram depostos no mesmo túmulo em que seu marido e três de suas filhas a
haviam precedido, e pareciam esperá-la, a fim de que seus ossos, aproximando-se sob a terra, fossem como que
uma prova de que suas almas se tinham reunido no Céu; porque o desejo de ser sepultado junto de um parente ou
de um amigo foi muitas vezes olhado como expressão de um outro desejo, de uma piedosa esperança: a de se
reunirem um dia na pátria celeste, junto de Deus[1].

Agora, quando o seu filho se prepara a fim de celebrar a Santa Missa e volta as folhas do missal, encontra muitas
vezes diante dos olhos um título que faz estremecer o seu coração: Pro pater et mater – por meu pai e minha mãe.

E que diz o padre nestas orações? Três vezes pede que reconheça seus pais na eterna bem-aventurança:

“Ó Deus, que nos mandastes honrar nosso pai e nossa mãe, tende piedade das almas de meu pai e de minha mãe;
perdoai-lhes os seus pecados; fazei que eu os veja no gozo da eterna claridade; reuni-me com eles na felicidade dos
santos; e permiti que a vossa eterna graça aí me coroe com eles!”.

[1] Amsaldi, Della speranza et della consolazione di rivedere i cari nostri nell’altra vita, cap. XVI, pag. 174

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Primeira carta / Parte I


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

PRIMEIRA CARTA

Estado da questão

É permitido afligir-nos pela morte dos nossos parentes, contanto que não cessemos de esperar. – Testemunho de
Santo Agostinho. – Prática da Igreja – Palavras de S. Paulino. – Exemplo de Jesus Cristo.

SENHORA,

A morte descarregou o seu terrível golpe junto de vós, sobre as pessoas que vos eram mais caras. A vossa dor é
extrema, e é legítima, ainda que não duvideis da eterna salvação daqueles cuja falta lamentais.

Por que motivos vos será proibido chorar por vossos parentes e amigos que adormecem no Senhor, contanto que,
seguindo o conselho do Apóstolo, vos não entristeçais como os que não têm esperança? (I Thess. IV 12).

Santo Agostinho comentava assim estas palavras:

“É natural entristecermo-nos com a morte daqueles que nos são caros, pois que a natureza tem horror à morte, e a
fé nos ensina que ela é um castigo do pecado.
A tristeza é uma necessidade: Hinc itaque necesse est ut tristes simus, quando aqueles que amamos deixam de
existir. Porque, ainda que saibamos que nos não abandonam para sempre, como aconteceria se devêssemos ficar
sempre na terra, mas que nos precedem pouco tempo, porque estamos destinados a segui-los talvez muito breve;
todavia, como não contristaria o sentimento do nosso amor a inexorável morte que se apodera do nosso amigo?

Que seja permitido, pois, aos corações amantes entristecerem-se com a morte das pessoas amadas, contanto que
haja um remédio para esta dor e uma consolação para estas lágrimas, na alegria que a fé nos faz gozar, assegurando-
nos da sorte de nossos queridos defuntos, que se apartam somente por algum tempo de nós e passam a melhor
vida.”[1]

A Igreja, pelo seu exemplo, permite-nos chorar, e pelo seu ensino ordena-nos esperar.

Como nós, toma luto por ocasião da morte de nossos parentes, e a sua voz, como a nossa, é cheia de tristeza.

Com o tato, que é particular às mães, e que elas sabem empregar em todas as coisas para se tornarem mais
persuasivas, a Igreja, tem-se dito, pede de empréstimo à dor as suas lúgubres harmonias, tão bem adaptadas ao
estado da alma aflita, que crê mitigar a sua dor nutrindo-se da mesma dor.

Mas, misturando os seus gemidos com os nossos gemidos e as suas lágrimas com as nossas, declara-nos, em nome
de Deus vivo, que o que julgamos ser uma morte, não é mais do que uma separação momentânea, um ponto fixo de
reunião que a pessoa tão chorada nos dá na habitação da vida, onde a reencontraremos em breve tempo para não
mais a perdermos.

Acrescenta que, “mesmo na terra, não acabou tudo entre nós e esta alma; que ainda podemos amá-la e sermos dela
amados, apesar da morte”.

A mesma Igreja ainda no-lo mostra na morada dos sofrimentos, implorando com voz aflitiva o fraternal tributo de
nossas esmolas, de nossas orações e de nossas boas obras. Ou então, no-la faz ver já revestida da incomparável
beleza do Céu, e repousando no seio de Deus, donde sobre nós lança olhares duma doçura e ternura inefáveis; faz-
nos vê-la, preparando-nos com amor um lugar a seu lado, e oferecendo a Deus incessantemente as suas mais
ferventes orações a fim de obter-nos o merecimento de possuí-la e de nunca mais a perder”[2].

S. Paulino, Bispo de Nola, consolou a Pamáquio, por ocasião da morte de Paulina, sua mulher, filha de Santa Paula e
irmã de Santa Eustáquia.

O virtuoso esposo vertia lágrimas tão abundantes como as suas esmolas. Que vai fazer o seu amigo? Irá censurar
estas lágrimas? Louva-las-á pelo contrário, e colherá nas Sagradas Escrituras todos os exemplos de santas lágrimas
vertidas por ocasião da morte duma pessoa querida.

Depois acrescentará: “Para que censurar as lágrimas dos santos mortais? Não chorou o mesmo Jesus a morte de
Lázaro, a quem amava?”

Não se dignou Ele condoer-se da nossa desgraça, até derramar lágrimas sobre um morto? Não se dignou chorar,
acomodando-se à fraqueza humana, aquele a quem ia ressuscitar por um efeito da sua divina virtude?

“Eis o motivo, ó meu irmão, por que vossas lágrimas são piedosas e santas”: Idcirco et tuae, frater, lacrymae sanctae
et piae. Porque uma semelhante afeição as faz correr; e se chorais uma digna e casta esposa, não é porque duvideis
da ressurreição, mas porque vosso amor tem pesares e desejos[3].

Diante daqueles que vos repreenderem de vossas lágrimas, abri, pois, o Evangelho, e por única resposta, apontai-
lhes com o dedo estas palavras de S. João: Et lacrymatus est Jesus – e Jesus chorou; e ainda as seguintes: Et turbavit
seipsum – e se perturbou a si mesmo. (Joan., XI, 33, 35 ).
Mostrai-lhes estas linhas dum escritor que há bem merecido de todas as pessoas aflitas:

“Jesus quis privar-Se desta doçura que se encontra no sossego da aflição, quis ser perturbado. A Sua natureza divina
não Lhe permitia sê-lo senão tanto quanto Ele mesmo concorresse para esta perturbação; foi isso o que fez; assim
no-lo diz o Evangelho.
Depois dum semelhante exemplo, não mais atribuamos à nossa imperfeição as lágrimas que a aflição nos arranca,
nem a perturbação em que ela nos lança: Jesus chorou, Jesus perturbou-Se.

É necessário, porém, que esta perturbação não degenere em inquietação, para se não perder a semelhança com
Jesus.

Não é do agrado de Deus que eu desaprove as lágrimas de um esposo que, depois de ter levantado os olhos ao Céu
para aí ver a sua esposa coroada de imortalidade, os sente encherem-se de lágrimas quando, abaixando-os para a
terra, não encontra já esta companheira muito amada.

O sentimento que faz chorar a pessoa cuja companhia formava a nossa felicidade, não poderia ser condenado,
quando não é o único motivo das lágrimas que vertemos na sua perda. Este desejo de gozar da sociedade da pessoa
que se ama, é de tal sorte natural ao homem, que Deus lhe propõe o seu complemento como eterna recompensa de
sua fidelidade em o amar durante a vida”.[4]

[1] Santo Agostinho, Serm. 172, no. 13.

[2] Marc, Le ciel, apêndice sobre o amor beatífico, cap. I.

[3] S. Paulino, Epist. XIII, no. 4, 5.

[4] Luiz Provana de Collegno – Consolações da religião na perda das pessoas que nos são queridas, Carta I.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Primeira carta / Parte II


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Observação: A parte onde está dito: Mas que sentimentos os deste inimigo de toda a religião revelada,
protestante ou católica, presta ao ministro que corre a consolar e fortificar a enferma? (negritei e sublinhei no
texto), não está bem dito. O protestantismo é uma heresia da Religião Revelada; se o é, é porque é uma negação
dela - ainda que creia em coisas ditas pela Religião Revelada.

NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

II

Bem-aventurança essencial e bem-aventurança acidental. – Três erros sobre esta bem-aventurança acidental citados
pelo filosofismo. – Confissão de J. J. Rousseau. – Refutam-se estes três erros.

Gozar plenamente do que temos amado pura e santamente na terra, eis para nós o Céu. Gozar de Deus constitui a
bem-aventurança essencial.
Este gozo da criatura que nos tem sido mais querida, sem deixar de ser secundário, torna-se para a alma uma doce
consolação, desde que a morte nos arrebata aqueles que mais amávamos; e Deus nos envia, para moderar nossos
pesares, a esperança de torná-los a ver, de reconhecê-los, de amá-los ainda muito especialmente no Céu, e de
receber deles também os testemunhos duma especial afeição.

Quantas vezes não tem servido esta esperança de remédio a vossas feridas e de alívio a vossas dores?

Mas, eis que muitas pessoas, aquelas mesmas cujos lábios devem guardar a ciência e cujo coração deve ser o
depositário da lei (Malach. II, 7) ousaram primeiramente dizer-vos que não nos reconheceríamos no outro mundo,
nem mesmo no Paraíso; depois repreenderam, como uma imperfeição, o vosso vivo desejo de possuir no Céu, além
do Criador, certas pessoas ternamente queridas, vosso esposo e vossos filhos.

Finalmente, fazem crer ao mundo que a perfeição cristã, mais ainda a vida religiosa, esgota no coração humano a
fonte da sensibilidade, para deixá-lo seco e gelado para com seus pais, irmãos ou irmãs e seus amigos.

No Céu tudo se esquece em Deus, dizem elas. Deus não vos será suficiente? Os santos nunca amaram senão a Deus,
chamado pela Escritura um Deus cioso (Exod., XXXIV, 14).

Tais são os três erros que me proponho combater, escrevendo-vos estas cartas.

Aqueles que os sustentam marcham após os quietistas e jansenistas, sem o saberem talvez, sob os estandartes do
filosofismo anti-religioso.

No desejo do gozo de Deus, o quietismo via um ultraje ao puro amor e uma brecha no desinteresse; o jansenismo,
polido, mas frio como gelo, comunicava a sua sequidão e aspereza a uma religião de amor. Os filósofos incrédulos
aproveitaram-se destas disposições para atacarem a Igreja e desacreditarem os padres.

Um sábio religioso de S. Domingos, tratando, no século XVIII, do objeto de que me entretenho hoje, fazia notar esta
tática da impiedade.

Entretanto tudo se concede na nossa religião, para torná-la mais amável e consoladora, um filosofismo mentiroso
atribuía-lhe dogmas sombrios e desesperados, que lhe arrebatam toda esta força atrativa de que necessita para
levar as almas a amarem e a seguirem a Jesus Cristo[1].

Quereis um exemplo disto? Rousseau fez dizer por uma pessoa moribunda: “Cem vezes tenho recebido grande
satisfação em fazer alguma boa obra, imaginando minha mãe presente, que lia no coração de sua filha e aplaudia.
Tem alguma coisa de consolador viver ainda sob os olhos da pessoa que nos foi querida! Isto faz que sintamos a
sua morte só por metade”. Mas que sentimentos os deste inimigo de toda a religião revelada, protestante ou
católica, presta ao ministro que corre a consolar e fortificar a enferma?

Lede:

“Ainda que o pastor respondesse a tudo com muita doçura e moderação, e afetasse mesmo não a contrariar em
coisa alguma, com receio de que se tomasse o seu silêncio, sobre outros pontos, por uma confissão, não deixou um
momento de ser eclesiástico, e de expor sobre a outra vida uma doutrina oposta.

Disse que a imensidade, a glória e os atributos de Deus seriam o único objeto de que se ocuparia a alma dos bem-
aventurados, que esta sublime contemplação apagaria toda e qualquer outra lembrança, que as almas se não veriam
nem se reconheceriam no Céu, e que, em presença deste aspecto arrebatador, se não pensaria em coisa alguma
terrestre”[2].

Todo aquele que propagar esta negra doutrina, ministro sincero da religião ou piedoso fiel, veja pois, a causa que
serve, e em que fileiras se coloca!

Para vos mostrar toda a sua falsidade, quero, Senhora, fazer passar diante de vossos olhos um grande número
destes autores, cuja antiguidade, ciência, ortodoxia e santidade fez chamar Padres e Doutores da Igreja. Cada um
deles vos deixará penetrar em seu coração. Ser-vos-á tão agradável como útil ver quanto eles foram sempre
sensíveis à esperança de reconhecerem e amarem, ainda depois da morte, aqueles que tinham conhecido e amado
durante esta vida.
Mas quero primeiro resolver, ainda que brevemente, as três objeções que vos fiz, a fim de que me escuteis depois
com um espírito mais livre e um coração mais dilatado. Assim, abraçareis com mais confiança e consolação a
verdade que devo oferecer-vos.

Quão pouco vos aliviaria agora a esperança deste mútuo reconhecimento se devêsseis ser-lhe indiferente, ou se não
viesse acompanhado de alegria e amor!

[1] Ansaldi, Della speranza..., cap. X.

[2] J. J. Rousseau, Julie, IV part., Carta IX ; edição de Paris, 1823, in-8a. , t. II, pag. 482.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Primeira carta / Parte III


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

I I I

Será verdade que os santos só amam a Deus? – Eles amam-se entre si como concidadãos, como irmãos, como dois
amigos que vêem todas as perfeições um do outro. – Deus só é cioso do nosso amor de adoração. – O amor
recíproco dos santos glorifica-o como Criador, como Pai, como princípio de toda a amabilidade.

Disseram-vos que os santos amariam só a Deus.

Ouvi a resposta do abade Marcos no seu belo livro sobre a felicidade dos santos:

“A pátria celeste é-nos incessantemente apresentada no Evangelho sob o símbolo dum reino, duma sociedade,
duma família. Mas uma sociedade, um Estado, uma família não é simplesmente uma aglomeração de
individualidades estranhas umas às outras; mas sim uma reunião de seres inteligentes e racionais, obedecendo a leis
comuns e obrigatórias para todos, que fazem um só e mesmo corpo da harmônica união destes diversos membros.

Ora, entre todas estas leis, há uma que é salvaguarda, e como que o laço de todas as outras; é a lei da solidariedade
social ou fraternal, que ordena a todos se dediquem por cada um, e que cada um se dedique por todos, à proporção
das forças e necessidades de cada membro. É, por outros termos, a lei da mútua caridade, a lei do amor.

No Céu nos amaremos como se amam os filhos dum mesmo pai, como irmãos queridos e ternas irmãs; amar-nos-
emos, como se amam dois amigos que só se conhecem desde ontem, e cujos corações, apenas se encontraram, se
compreenderam e encadearam um no outro, por uma simpatia que sentem ser indestrutível e eterna.

Desde o momento em que nossas almas tiverem penetrado no seio de Deus, encontrar-se-ão abrasadas duma
fervente caridade de umas para com as outras. A sua vista e recíproca presença serão como que uma faísca que
operará este abrasamento, assim como na natureza física se vê muitas vezes um corpo inflamar outro corpo,
somente pelo efeito do choque ou simples contato.

Eis como se pode, até um certo ponto, explicar este fenômeno.

Estas almas, iluminadas da plenitude da luz de Deus, a qual porá a descoberto todas as Suas perfeições, e envolvidas
no reflexo de Sua glória como num esplêndido vestido (Ps. CIII, 2); apresentarão os atrativos do coração, como num
maravilhoso feixe, o conjunto de todas as Suas amabilidades; pela sua parte, este coração, livre desde este momento
de todas as suas fraquezas, de suas ilusões e de suas trevas, este coração, faminto de amor e restabelecido na sua
integridade afetiva, será levado por um irresistível atrativo para o seu natural alimento e único depois de Deus, isto
é, para as almas feitas para serem amadas por Ele.

É verdade que Deus é cioso do nosso coração, mas somente no sentido de que não devemos amar alguma criatura
tanto ou mais do que a Ele. Se assim não fora, como nos ordenaria, sem se contradizer, que amássemos o nosso
próximo como a nós mesmos?

Além disto, segundo o contexto, o sentido próprio destas palavras da Escritura, é que o Criador é cioso do amor de
adoração: Não adoreis Deus alheio; o Senhor chama-Se o Deus cioso (Exod., XXXIV, 14).

Mas vai grande distância do amor que nos faria amar certas pessoas até à adoração, ao amor que no-las faz amar
conforme a vontade do Criador. Tanto falta para que o mútuo amor dos escolhidos possa ser uma injustiça ou um
roubo feito a Deus, que será Ele, depois da pura caridade, a mais preciosa e querida homenagem que Lhe possamos
render, como Criador, como Pai e como princípio de todo o amor e de toda a amabilidade.

Tendo criado todas as coisas para nós, se as fez maravilhosamente belas (Eccles., XI, 4), foi para que as
admirássemos; se as fez excelentemente boas (Idem, XXXIX, 21), foi para Lhe pedirmos o bem que encerram; se as
fez desejáveis (Ibidem, XLII, 23), foi para que lhe concedêssemos ao menos uma pequena parte do nosso coração.

Além disto, nenhum ser inteligente, seja Deus ou seja homem, pode racionalmente deixar de ser cioso da obra que
criou. Pois, do contrário, seria melhor ter produzido uma obra vil e desprezível, ou então não ter produzido
nenhuma.

Todos nós somos filhos de Deus, e Ele mesmo quis que O chamássemos nosso Pai (Matth., VI, 9). Mas a condição da
paternidade no Céu será a mesma que na terra, exceto que possuirá, no mais alto grau de perfeição, os caracteres
que a distinguem neste mundo. Ora, qual é nesta vida a paternidade modelo? Por que sinal reconheceremos nós que
uma paternidade é verdadeiramente feliz?

Feliz paternidade, é o estado dum pai cercado de numerosos filhos que rivalizam em cuidados e ternura para com
ele. Mas isto apenas seria metade da sua felicidade, ou antes toda a sua felicidade se encontraria envenenada e
destruída, se não reinasse uma verdadeira união entre todos os seus filhos.

Toda a afeição legítima, isto é, ordenada ou autorizada pela lei eterna, vem de Deus.

A caridade que testemunhamos às criaturas, é como um rio que tem a sua origem em Deus, que ordena ou permite
que vamos matar a sede que temos n’Ele, em objetos distintos do mesmo.

O rio, continuando sempre o seu curso, volta outra vez para a sua nascente, onde chega sem alteração.

Todas as belezas que divisamos nas criaturas, e que nos atraem tão vivamente para si, não são outra coisa mais do
que o reflexo da eterna e divina beleza, do seio da qual se desprendem, assim como vemos soltar ondas luminosas
do disco solar, que vêm alegrar e vivificar a natureza.

Mas como é sempre o Sol que admiramos mesmo em seus raios e reflexos, é igualmente a Deus que admiramos e
amamos de longe, nos esplendores e encantos que derrama sobre Suas criaturas.

Poderia Ele, pois, olhar como um atentado contra os Seus direitos ou à Sua glória, o atrativo que nos impele para as
belezas e perfeições que de si mesmo derrama sobre Suas obras?

Se os Seus encantos e amabilidades não são mais do que uma irradiação da amabilidade e dos atrativos divinos, já
vemos como a beleza incriada não eclipsará as belezas criadas, e como se dará no Céu o amor mútuo dos escolhidos
sem risco nem perigo.

Na terra, o imortal raio só nos aparecia por um único ponto, aquele por onde tocava e iluminava a criatura. No Céu,
vê-lo-emos descer do seu centro e tornar a voltar ao mesmo.

Será a Deus que procuraremos e a que aspiraremos, dirigindo-nos para as criaturas; Deus a quem admiraremos,
admirando-as, Deus a quem acharemos, amando-as”[1].
[1] Marc, Le Ciel, apêndice sur l’amour béatifique, chap., I, II ; IV question.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Primeira carta / Parte IV


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

IV

Porque Deus só basta aos escolhidos, seguir-se-á que terão a Deus unicamente? – A sua liberalidade em todas as
ordens conhecidas prova qual seja a mesma na ordem da glória. – É falso que nos esqueçamos no Céu ou que
sejamos insensíveis à felicidade de nos tornarmos a ver. – Palavras de S. Francisco de Sales sobre este mútuo
reconhecimento e sobre a alegria que dele resulta.

Disseram-vos ainda:

“Só Deus é suficiente aos escolhidos!

Sem dúvida, deixando-se ver e possuir por nós, só Deus seria bastante para nos tornar a todos felizes. Mas que se
pode concluir daqui?

Se bastava a si mesmo desde toda a eternidade, direis vós que nada criou no tempo e que nós não existimos? O
menor sofrimento do Redentor bastava para nos salvar a todos: negareis Sua Paixão e Sua Morte?

A Sua Divindade é suficiente a si mesma: credes que ela não tenha cuidado algum da Sua humanidade?

Descei desta ordem toda divina até à ordem da graça e da mesma natureza, e contai todos os socorros que nos são
oferecidos para santificar nossas almas, todas as iguarias que nos são dadas para nutrir nosso corpo, contai todas as
flores que ornam a terra e todos os astros que brilham no firmamento, e dizei se o Senhor se contentou de criar para
nós o suficiente, ou se passou muito além dele.

E querer-se-ia que na ordem da glória, quando houver de recompensar os Seus fiéis servos, os Seus apóstolos, os
Seus mártires, os Seus pontífices, os Seus confessores e as Suas virgens, se limitasse a dar-lhes estritamente o
necessário!

Não, não. Deus mostrar-se-á ainda mais generoso e mais pródigo para com os santos do Céu do que para com os
justos da terra.

Vemos e sabemos o que fez para nós na ordem da natureza e da graça; mas o grande Apóstolo nos afirma que os
nossos ouvidos nada ouviram, e que o nosso coração nada conjeturou que seja comparável ao que Deus prepara, na
ordem da glória, àqueles que O amam (1 Cor., II, 9).

Pela graça possuímos a Deus neste mundo, e será verdade que aquele que tem a graça não necessita de mais coisa
alguma?

É certo, pelo contrário, que tem ainda necessidade de exortações e de bons exemplos, da intercessão dos santos, da
participação dos sacramentos, de mortificações e de orações para conservar e aumentar esta graça.
Assim, no outro mundo, sem que isto seja então para nós uma necessidade, mas porque desejará encher-nos
inteiramente de seus dons, o mesmo Deus, que só por si bastaria para a nossa felicidade essencial, se dignará
aumentá-la acidentalmente pela sociedade das santas almas que tivermos conhecido e ternamente amado na terra.

E do mesmo modo que, em tudo o que nos dá segundo a natureza ou segundo a graça, é Ele que se nos comunica
por diferentes maneiras e em muitos graus; assim, também na bem-aventurança será ainda Ele, sempre Ele, que se
dará a nós por meio de todas as criaturas glorificadas, as quais nos permitirá contemplar e admirar, reconhecer e
amar.

Não temais, Senhora, que as almas se esqueçam mutuamente no Céu, ou que sejam insensíveis a tudo que não for
Deus.

A caridade nunca pode ser indiferente nem insensível. Por isso mesmo que as ama, o Criador é sensível a tudo o que
diz respeito às suas criaturas.

Nosso Senhor é sensível à presença de sua Mãe, e Maria não é indiferente à glória da humanidade de Jesus.

Se nós devêssemos ser insensíveis à felicidade de tornarmos a encontrar no Paraíso as pessoas mais queridas, a
nossa alma devia ser indiferente à ressurreição do seu próprio corpo: e assim caducariam muitos argumentos
empregados pelos teólogos para provarem a ressurreição da carne.

No Céu seremos capazes de tudo conhecer ao mesmo tempo, com amor, e de tudo sentir com alegria, sem que um
conhecimento ou um sentimento seja nocivo a outro.

Sentiremos tão vivamente como na terra o amor para com nossos parentes e nossos amigos, ainda que o nosso
amor para com Deus seja então incomparavelmente mais ardente e mais sentido.

Nunca estaremos absorvidos em Deus a tal ponto que nos esqueçamos de tudo que não for Ele. Mas, como se tem
dito, os amigos, os irmãos, os parentes, se reconhecerão, conversarão e se lembrarão de suas lágrimas, de seus
combates e de suas tribulações; porque esta vida momentânea lega à vida infinita uma eterna lembrança e infindas
gratulações.

A vista e o pensamento das criaturas não farão um só momento olvidar o Criador; a vista e o amor do Criador não
impedirão de ver e de amar as criaturas. Unidas e distintas, todas estas alegrias, todos estes louvores e todos estes
amores se fundirão no louvor e amor de Deus, e formarão em Sua glória um concerto único, sempre variado, sempre
o mesmo, o aleluia eterno[1].”

Deixai, Senhora, deixai nutrir vosso coração desta doce esperança, e permiti-me que acrescente a esta ainda mais
algumas linhas que vos tranqüilizarão. São estas de S. Francisco de Sales, explicando a transformação de Jesus Cristo
sobre o Tabor, que foi como uma reprodução do Céu (Math. XVIII, 1-9): “Todos os bem-aventurados se conhecerão
mutuamente por seus nomes, como nos afirma o Evangelho de hoje. Pedro viu ainda Moisés e Elias que nunca tinha
visto, os quais conheceu perfeitamente, tendo o primeiro um corpo transparente como o ar, e o segundo seu
próprio corpo como quando foi arrebatado num carro de fogo.

Vedes, pois, muito bem que todos nos reconheceremos mutuamente na eterna felicidade, visto que nesta pequena
amostra que Nosso Senhor se dignou apresentar sobre a montanha do Tabor a Seus apóstolos, quis que estes
conhecessem Moisés e Elias que nunca tinham visto.

À vista disto, que contentamento o nosso, vendo aqueles que tivermos extremosamente amado nesta vida! Sim,
conheceremos mesmo os novos cristãos, que se converterem agora à nossa santa fé, nas Índias, no Japão e nos
antípodas; as santas amizades, da mesma forma que tiverem sido começadas por Deus nesta vida, continuarão na
eterna. Amaremos pessoas particulares, mas estas amizades não formarão parcialidades, porque todas as nossas
amizades tomarão a sua origem no amor de Deus, que, conduzindo-as todas, fará que amemos a cada um dos bem-
aventurados com o puro amor com que somos amados por sua divina Bondade.

Ó Deus! que consolações receberemos na celeste conversação que tivermos uns com outros!

Na bem-aventurança, os nossos bons anjos nos darão uma consolação muito maior do que se pode dizer ou ainda
imaginar, quando se nos fizerem reconhecer e nos representarem mui amorosamente o cuidado que tiveram da
nossa salvação enquanto estivemos na terra, lembrando-nos as santas inspirações que nos ofereceram como um
leite sagrado que iam tirar dos peitos da divina Bondade para nos atrair à indagação dessas divinas suavidades, de
que então estivermos gozando. Não vos recordais, nos dirão, duma tal inspiração que vos sugeri em tal tempo, lendo
um tal livro, ouvindo um tal sermão ou fitando tal imagem, inspiração que vos incitou a converter-vos a Nosso
Senhor, e que foi o motivo da vossa predestinação?

Ó meu Deus! e não se derreterão nossos corações num indizível contentamento?!”[2]

[1] Guiton, L’homme releve de as chute, II partie, épilogue, pág. 364, 365.

[2] Sermão sobre a Transfig., na 2.ª Dom. da Quaresma.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Segunda carta / Parte I


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Versão 19.ª edição francesa

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Pe. Francisco Soares da Cunha

SEGUNDA CARTA

No Céu todos se conhecem

Provas da Sagrada Escritura: a parábola do rico avarento, explicada por Santo Irineu, e sobretudo por S. Gregório
Magno. – Fato que ele cita em apoio. O juízo final, base da argumentação de S. Teodoro Studita.

SENHORA,

Todos os bem-aventurados admitidos no Céu conhecem-se perfeitamente, antes mesmo da ressurreição geral.
Provam-no tanto a Sagrada Escritura como a Tradição.

Limitar-me-ei a citar-vos o Novo Testamento, tomando apenas dele a parábola do rico avarento e algumas palavras
que se referem ao juízo final.

Está parábola é tão bela que não posso resistir ao desejo de apresentar a vossos olhos as suas passagens principais:

Havia um homem rico que trajava esplendidamente e se banqueteava com magnificência, todos os dias.

Havia também ao mesmo tempo um pobre, chamado Lázaro, deitado à sua porta, todo coberto de úlceras, que
desejava ardentemente saciar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava, e os cães
vinham lamber as suas feridas.

Ora, aconteceu morrer este pobre, e foi transportado pelos anjos ao seio de Abraão. O rico morreu também e teve
por túmulo o Inferno. E quando estava em tormentos, levantou os olhos para o Céu e viu, ao longe, Abraão e Lázaro
em seu seio; e, exclamando, diz estas palavras:

“Pai Abraão, tende piedade de mim, e enviai-me Lázaro, a fim de que molhe na água a ponta do seu dedo para me
refrescar a língua, porque sofro horríveis tormentos nesta chama”.
Mas Abraão respondeu-lhe: “Meu filho, lembra-te que recebeste muitos benefícios na terra, e que Lázaro só teve
por companheira a miséria e o sofrimento; e é por isso que está gozando agora das maiores consolações, e tu estás
em tormentos”.

Replicou o avarento: “Suplico-vos então, Pai Abraão, que o envieis à casa de meu pai, onde tenho cinco irmãos, a fim
de adverti-los, pois receio que venham também para este lugar de tormentos”. (Luc., XVI, 19-28).

Santo Ireneu, combatendo os hereges, escrevia no princípio do século III:

“O Senhor revelou-nos que as almas se lembram na outra vida das ações que praticaram nesta. Não nos ensina Ele
esta verdade por meio da história do rico avarento e de Lázaro? Visto que Abraão conhece o que diz respeito a um e
outro, as almas continuam portanto a conhecerem-se mutuamente e a recordarem-se das coisas da terra”.[1]

No fim do século IV, o Papa S. Gregório Magno perguntava a si mesmo se os bons conheceriam os bons no reino do
Céu, e se os maus conheceriam os maus no Inferno. Sustentou a afirmativa:

“Vejo, diz ele, uma prova disto, mais clara do que o dia, na parábola do rico avarento. Não declara aqui o Senhor
abertamente que os bons se conhecem entre si, e os maus também? Porque, se Abraão não reconhecesse Lázaro,
como falaria de suas passadas desgraças ao rico avarento que estava no meio dos tormentos?

E como não conheceria este mesmo avarento os seus companheiros de tormentos se tem cuidado de pedir pelos
que ainda estão na terra? Vê-se igualmente que os bons conhecem os maus e os maus os bons. Com efeito, o
avarento é conhecido por Abraão; e Lázaro, um dos escolhidos, é reconhecido pelo avarento, que é do número dos
réprobos.

Este conhecimento põe o remate ao que cada um deve receber. Faz com que os bons gozem mais, porque se
regozijam com aqueles que amaram na terra. Faz com que os maus, por isso que são atormentados com aqueles que
amaram neste mundo até ao desprezo de Deus, sofram não só o seu próprio castigo, mas ainda, de alguma sorte, o
dos outros.

Há, mesmo para os bem-aventurados, alguma coisa mais admirável. Além de reconhecerem aqueles que
conheceram neste mundo - Agnoscunt quos in hoc mundo noverante - reconhecem também, como se os houvessem
visto e conhecido, os bons que nunca viram: Velut visos ac cognitos recognoscunt.

Que podem ignorar os bem-aventurados no Céu, vendo em plena luz o Deus que tudo sabe?

Um dos nossos religiosos, muito recomendável pela sua santidade, viu junto de si, por ocasião da sua morte, os
profetas Jonas, Ezequiel e Daniel, e designou-os por seus nomes.

Este exemplo faz-nos claramente perceber quão grande será o conhecimento que teremos uns dos outros na
incorruptível vida do Céu, visto que este religioso, estando ainda revestido da corruptibilidade, conheceu os santos
profetas que nunca tinha visto”[2].

Encontramos um fato muito semelhante na vida da fundadora das Anunciadas Celestinas, Maria Vitória Fornari.
Interrogava ela uma irmã conversa, pobre aldeã, sobre os Bem-aventurados que a honravam com suas aparições,
como a Santíssima Virgem, Santo Onofre, Santa Catarina de Sena, etc.. Surpreendida por ver que uma rapariga sem
letras tinha um tão distinto conhecimento de tantos santos, a bem-aventurada perguntou-lhe onde havia aprendido
tudo o que sabia a este respeito: “Minha madre, disse ela com grande simplicidade, todos os santos se conhecem
distintamente em Deus”[3].

S. Gregório Magno foi citado por escritores eclesiásticos muito antigos: na Alemanha, no século IX, por Haymon,
Bispo de Halberstadt; na Inglaterra, no século VIII, pelo venerável Beda; na Espanha, no século VII, por S. Julião,
Bispo de Toledo. Todos participam do seu sentimento e o afirmam sem rodeios.

S. Julião, por exemplo, antes de referir estas palavras do grande Pontífice, diz: “As almas dos defuntos, privadas de
seus corpos podem reconhecer-se mutuamente; o Evangelista assim o atesta. Não se pode duvidar de que as almas
dos mortos se reconheçam: 'Non est dubitandum quod se defunctorum spiritus recognoscant’.[4]

Sobre o juízo final, temos as seguintes palavras de Jesus Cristo a Seus discípulos:
“Em verdade vos digo que, quando chegar o tempo da regeneração, e o Filho do Homem estiver sentado no trono da
Sua glória, vós, que me tendes seguido, estareis sentados sobre doze cadeiras e julgareis as doze tribos de Israel”
(Matth., XIX, 28.).

Temos também estas palavras do grande Apóstolo aos Coríntios:

“Não sabeis que os santos devem um dia julgar o Mundo? Não sabeis que nós seremos os juízes dos mesmos anjos?”
(1 Corinth., VI, 2, 3).

Tal é a base da argumentação de S. Teodoro Studita, num discurso que fez no fim do VIII século ou princípio do IX,
para refutar o erro que nos esforçamos por combater aqui.

“Alguns oradores, diz ele, enganam os seus ouvintes, sustentando que as criaturas ressuscitadas não se
reconhecerão quando o Filho de Deus vier julgar-nos a todos.” “Como, exclamam, quando de frágeis nos tornarmos
incorruptíveis e imortais; quando já não houver gregos, nem judeus, nem bárbaros, nem citas, nem escravos, nem
homens livres, nem esposo, nem esposa; quando formos todos semelhantes em gênios, poderíamos reconhecer-nos
mutuamente?”.

Respondemos, em primeiro lugar, que o que é impossível aos homens é possível a Deus. Doutra sorte não
acreditaríamos na ressurreição da carne, pretextando raciocínios humanos.

E, efetivamente, como se poderá reorganizar no último dia um corpo desfeito em podridão, devorado talvez por
animais ferozes, pelas aves ou pelos peixes, e estes devorados por outros e isto de muitas maneiras, e
sucessivamente?

Todavia, assim há de ser, e o secreto poder de Deus reunirá todas as suas partes espalhadas e as ressuscitará. Então,
cada alma reconhecerá o corpo com que viveu.

Mas cada uma das almas reconhecerá também o corpo do seu próximo?

Não se pode duvidar, sem que se ponha ao mesmo tempo em dúvida o juízo universal. Porque não se pode ser
citado em juízo sem ser conhecido, e para julgar uma pessoa é preciso conhecê-la, segundo estas palavras da
Sagrada Escritura: “Convencer-vos-ei, e porei diante de vossos olhos vossos pecados” (Ps., XLIX, 21).

O valor deste raciocínio depende da seguinte distinção: no juízo particular, somos julgados só por Deus; mas, no
juízo universal, julgaremos de alguma sorte uns aos outros.

Entretanto, o primeiro só manifesta a justiça à alma que é julgada, o último a manifestará a todas as criaturas. Assim
todas esperam, para o grande dia, a revelação dos filhos de Deus (Rom., VIII; 19) que fará mudar muito as
apreciações dos homens.

O Santo continua nestes termos:

“Portanto, se nos não reconhecermos mutuamente, não seremos julgados; se não formos julgados, não seremos
recompensados ou punidos pelo que tivermos feito e sofrido neste mundo. Se não devem reconhecer aqueles a
quem hão de julgar, verão porventura os Apóstolos o cumprimento desta promessa do Senhor: Assentar-vos-eis
sobre doze tronos para julgardes as doze tribos de Israel?” (Matt., XIX, 28). E por estas palavras: “Onde o próprio
irmão não resgata, um estranho resgatará” (Ps. XLVIII, 8), não supõe o santo rei David que o irmão reconhecerá seu
irmão?

Muitas são as razões e autoridades que se opõem àqueles que pretendem negar o mútuo reconhecimento das almas
no Céu; asserção insensata, asserção comparada pela impiedade às fábulas de Orígenes. Enquanto a nós, meus
irmãos, acreditemos sempre que ainda havemos de ressuscitar, que nos tornaremos incorruptíveis, e que nos
reconheceremos mutuamente, como nossos primeiros pais se conheciam no paraíso terrestre, antes do pecado,
quando estavam ainda isentos de toda a corrupção.

Sim, é necessário crê-lo: Gredendum fore ut fratrem agnoscat frater, liberos pater, uxor maritum, amicus amicum – o
irmão reconhecerá seu irmão, o pai seus filhos, a esposa seu esposo, o amigo seu amigo; digo mais: o religioso
reconhecerá o religioso, o confessor reconhecerá o confessor; o mártir, o seu companheiro de armas; o apóstolo, o
seu colega no apostolado; todos nos conheceremos - quo omnium in Deo laetum domicilium sit - a fim de que a
habitação de todos em Deus se torne mais agradável pelo benefício, além de tantos outros, de nos reconhecermos
mutuamente”[5].

[1] Santo Irineu, - Contra haereses, lib. II, cap. XXXIV, no. 1.

[2] Saint Grégorie le Grand, Dialog. I, IV., cap. XXXIII et XXXIV.

[3] Collet, La vie de V. M. Victoire Fornaire, I, II, no. 9.o.

[4] S. Julião de Toledo, Prognosticon, I. II, cap. XXIV – Haymon, De Amore caelestis patriae, I. I, cap. VIII. – V.
Beda, Aliquot quoestionum liber, q. XII.

[5] Saint Theodore Studite, Serm., catech., XXII. – Migne, Patrologie grecque, t. XCIX, pág. 538, 539.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Segunda carta / Parte II


Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

II

Provas da tradição: o fato simplesmente afirmado por Santo Atanásio, S. Paulino, Santo Agostinho, Honório e
Berti – As consolações tiradas deste fato, por Santo Ambrósio para os irmãos; por Fócio para os parentes; por S.
Jerônimo, Santo Agostinho e, mais ainda, S. João Crisóstomo, para as viúvas.

A luz despedida sobre este objeto pela tradição católica é tão viva e constante que passa através de todas as nuvens
dos sofismas e da preocupação.

Os testemunhos podem dividir-se em duas classes: os que afirmam simplesmente o fato, e os que dele tiram uma
consolação.

Entre as obras muitas vezes atribuídas a Santo Atanásio, esta glória tão pura do IV século, encontra-se uma que tem
por título: Questões necessárias que nenhum cristão deve ignorar. Ora, na resposta à XXII questão lê-se: “Deus
concede às almas justas, no Céu, um grande bem, o de se conhecerem mutuamente”.[1]

No fim do mesmo século, S. Paulino, que mais tarde foi Bispo de Nola, escrevia ao seu antigo preceptor, o poeta
Ausónio:

“A alma sobrevive ao corpo, e é necessário que ela guarde os seus sentimentos e as suas afeições, tanto quanto a
sua vida. Ela não pode esquecer que é imortal. Para qualquer lugar que Nosso Senhor me mande depois da minha
morte, levar-vos-ei em meu coração, e o fatal golpe que me separar do meu corpo não porá termo ao amor que vos
consagro”.[2]
No século V, o grande Bispo de Hipona dizia a seu auditório: “Conhecer-nos-emos todos no Céu. Pensais vós que me
conhecereis, por me haverdes conhecido na terra, mas não conhecereis meu pai, porque nunca o vistes? Repito-vos,
conhecereis todos os santos. Eles se conhecerão, não porque vejam a face uns dos outros, mas verão como os
profetas costumam ver na terra; ou ainda dum modo bem mais excelente. Verão divinamente. Por isso que estarão
cheias de Deus”[3].

“E vós, S. Paulo e Santo Estêvão, o perseguidor e a vítima, não reinais juntamente com Jesus Cristo? Aí, vede-vos
ambos mutuamente, ouvis o nosso discurso; orai ambos aí, orai ambos por nós. Aquele que vos coroou a ambos, vos
ouvirá também a ambos”[4].

No século XII, Honório d'Antun perguntava a si mesmo:

“Os justos conhecem-se na glória?”

Eis a sua resposta:

“As almas dos justos conhecem todos os justos, até mesmo o seu nome, a sua raça e seus merecimentos, como se
tivessem vivido sempre com eles. Conhecem também todos os maus, sabendo por que falta cada um deles está no
inferno. Os maus conhecem os maus, e ainda conhecem os justos que vêem, e até sabem seus nomes, como o rico
avarento sabia o nome de Abraão e de Lázaro. Os justos oram por aqueles que amaram no Senhor ou que os
invocam. Mas a sua alegria só se completará depois da ressurreição, quando tiverem recuperado os seus corpos e
estivermos reunidos com eles; pois a nossa ausência causa-lhes, por enquanto, alguma solicitude - De abcentia lutem
nostra sollicitantur”[5].

Se quisesse interrogar sobre isto os teólogos modernos, seriam unânimes em responder afirmativamente. Que um
só fale em nome de todos: “Os Santos, diz ele, vêem-se reciprocamente; assim o pede a unidade do reino e da
cidade em que vivem na companhia do próprio Deus. Revelam espontaneamente uns aos outros os seus
pensamentos e as suas afeições, como pessoas da mesma casa que estão unidas por um sincero amor.

Entre os seus concidadãos celestiais, conhecem aqueles mesmos que não conheceram neste mundo, e o
conhecimento das belas ações leva-os a outro conhecimento mais pleno daqueles que as praticaram”.[6]

Os maiores santos e os homens mais eminentes da Igreja não receavam de recorrer a esta verdade, como a um
fecundo manancial, para daqui haurirem as cristalinas águas das celestes consolações que distribuíam às pessoas
aflitas.

Quem, pois, ousaria ainda acusar de imperfeição este vivo desejo e esta doce esperança?

Perdestes um irmão ou uma irmã? Consolai-vos como Santo Ambrósio se consolava a si mesmo: “Ó meu irmão, dizia
ele, visto que me precedestes aí, preparai-me um lugar nessa habitação comum, que daqui por diante será para mim
a mais desejada. E assim como neste mundo tudo foi comum entre nós, também no Céu desconheceremos a lei de
partilhas. Não façais esperar por muito tempo, eu vos suplico, aquele que experimenta um tão vivo desejo de se vos
reunir. Esperai aquele que avança, auxiliai aquele que se apressa e, se vos parece que ainda tardo muito, fazei-me ir
com mais ligeireza. Nunca estivemos na terra separados um do outro por muito tempo; mas éreis vós que
costumáveis visitar-me. Agora, visto que o não podeis fazer, pertence-me ir para junto de vós. Ó meu irmão, que
consolação me resta, a não ser esta esperança de nos reunirmos o mais breve possível? Sim, consola-me a esperança
de que a separação que se efetuou entre nós pela vossa partida, não será de longa duração, e que por vossas
súplicas obtereis a graça de atrair a vós com mais brevidade aquele que vos chora tão vivamente”[7].

Perdestes um filho ou uma filha? Recebei as consolações que um Patriarca de Constantinopla dirigia a um pai aflito.
Este Patriarca não pode ser contado entre os homens eminentes, e ainda menos entre os santos. É Phócio, o autor
do cruel cisma que separa o Oriente do Ocidente. Mas suas palavras provam tanto mais, quanto que indicam ser
idêntico o parecer dos gregos e latinos sobre este ponto. Ei-las:

“Se vossa filha vos aparecesse e vos falasse, tendo a sua mão apertada na vossa e o seu risonho semblante chegado
ao vosso, não vos faria ela a descrição do Céu?

Depois acrescentaria: Por que vos afligis, ó meu pai? Estou no paraíso, onde a felicidade não tem limites. Ireis para lá
um dia com minha querida mãe, e então achareis que nada vos disse de mais deste lugar de delícias, cuja realidade
excede muito as minhas palavras.

Ó querido pai, não me retenhais por mais tempo em vossos braços, mas deixai-me com satisfação voltar para o Céu,
onde me arrasta a violência do meu amor! – Expulsemos, portanto, a tristeza, conclui Phócio, porque vossa filha está
cheia de felicidade no seio de Abraão. Expulsemos a tristeza; porque, dentro de pouco tempo, a veremos ali exultar
de alegria e contentamento”[8].

Perdestes vosso marido? Ai! os vestidos de luto, que trajais continuamente, manifestam bem a desgraça que vos
feriu, e a afeição que sobrevive ao vínculo que a morte quebrou. Aproveitai-vos, pois, das consolações que os Padres
da Igreja ofereceram por tantas vezes às viúvas cristãs.

S. Jerônimo escrevia a uma viúva: “Chorai vosso Lucínio como um irmão, mas regozijai-vos por ele reinar com Jesus
Cristo. Vitorioso e seguro da sua glória, olha-vos do alto do Céu, anima-vos nas vossas aflições, e prepara-vos um
lugar junto de si, com tal amor e caridade que, esquecendo-se do seu direito de esposo, começa ainda na terra por
vos considerar como sua irmã, ou antes, como seu irmão, porque uma casta união não conhece esta diferença de
sexo que se requer para o matrimônio”[9].
Santo Agostinho escrevia a outra viúva:

“Não perdemos aqueles que saem dum mundo donde nós devemos também sair; mas enviamo-los, primeiro que
nós, para essa outra vida, onde nos serão tanto mais queridos quanto mais conhecidos nos forem – Ubi nobis erunt
quanto notiores, tanto utique cariores. Vós víeis melhor o seu rosto, mas ele via melhor o seu coração.

Ora, quando o Senhor vier, porá em plena luz tudo o que estiver envolvido nas trevas, e manifestará os pensamentos
do coração.

Então cada um saberá o que disser respeito a todos, e não haverá distinção alguma entre os nossos e os estranhos
para revelar um segredo aos primeiros e ocultá-lo aos segundos, pois na pátria celeste não haverá estranhos.

Mas qual será a natureza, qual a intensidade da luz que assim manifestará tudo quanto o nosso coração encerra
agora na obscuridade? Quem poderá dizê-lo? Quem poderá somente concebê-lo?”[10].

S. João Crisóstomo, numa das suas homilias sobre o Evangelho de S. Mateus, dizia a cada um de seus ouvintes:

“Desejais ver aquele que a morte vos arrebatou? Segui a mesma vida que ele no caminho da virtude, e muito
brevemente gozareis desta santa visão. Mas quereríeis vê-lo aqui mesmo? Ah! quem vos poderá estorvar? Se sois
prudente, é-vos permitido e fácil vê-lo; porque a esperança dos bens futuros é mais clara do que a própria vista”.

Este sublime orador encontrava, na sua própria história, tudo o que podia torná-lo mais sensível às tristezas da
esposa que perdera seu marido. Filho único de uma viúva, que vivia no meio da sociedade, entregue à fraqueza de
sua idade e do seu sexo, tinha sido ele o confidente das suas lágrimas e da sua dor, até que a deixara só, como em
segunda viuvez, fugindo ao seu amor para encerrar-se na solidão. Ele mesmo nos contou que Libânio, orador pagão,
sabendo que sua mãe conservava casta viuvez desde a idade de vinte anos, e nunca tinha querido passar a segundas
núpcias, exclamou, voltando-se para os que o cercavam: “Oh! que mulheres que são as cristãs!”[11].

A Providência soube proporcionar a Crisóstomo a ocasião de aproveitar estas disposições do seu coração,
consolando outra jovem, que só tinha vivido cinco anos com Terásio, seu marido, um dos principais homens do seu
tempo. Escreveu a seu respeito dois tratados, que são tidos na conta dos seus mais notáveis livros. Entre outras
muitas mais consoladoras, diz-lhe:

“Se desejais ver o vosso marido, se quereis gozar da vossa mútua presença, fazei brilhar em vós a mesma pureza de
vida que resplendecia nele, e estai certa que ireis assim fazer parte do mesmo coro angélico em que ele está.

Habitareis em sua companhia, não por espaço de cinco anos, como na terra, mas por toda a eternidade. Tornareis
então a encontrar vosso marido, não já com aquela beleza corpórea de que era dotado neste mundo, mas com outro
esplendor, com outra beleza, que excederá em brilho os raios do Sol.

Se vos tivessem prometido de dar a vosso esposo o império de toda a terra, com a condição de vos separardes dele
por espaço de vinte anos; e se, além disto, prometessem restituir-vo-lo passado este espaço de tempo, ornado com
o diadema e a púrpura, colocando-vos no mesmo grau de honra; não vos resignaríeis a esta separação, observando a
castidade? Veríeis mesmo nesta proposição um insigne favor e um objeto digno de todos os vossos desejos.

Suportai, pois, agora, com resignação e paciência, uma separação que dá a vosso marido a realeza, não da Terra,
mas do Céu; suportai-a para o encontrardes entre os bem-aventurados habitantes do Paraíso, coberto, não dum
manto de ouro, mas dum vestido de glória e de imortalidade. Portanto, pensando nas honras de que Therásio goza
no Céu, ponde termo às vossas lágrimas e aos vossos suspiros. Vivei como ele viveu, ou ainda com mais perfeição,
para que, depois de haverdes praticado as mesmas virtudes, sejais recebida nos mesmos tabernáculos, unindo-vos
novamente com ele por toda a eternidade, não pelo vínculo do matrimônio, mas por outro ainda melhor. O primeiro
une somente os corpos, entretanto que o segundo, mais puro, mais agradável e mais santo, une também as
almas”[12].

[1] Questiones ad Antiochum principem, q. XXII.

[2] S. Paulino, Poema, XI, V. 59-67.

[3] Santo Agostinho, Sermo 243, cap. VI.

[4] Ibid., Sermo 316, cap. V.

[5] Honorius d’Autun, Elucidarium, lib. III, no. 7, 8.

[6] Berti, De Theologicis disciplinis, lib. III c. XIII, no. 2

[7] Santo Ambrósio, De Excessu fratris sui, lib I, nos. 78, 79

[8] Ibid., lib. III, no. 135

[9] Phócio, Epistol. t. III, epist. 63, Tarasio, patrício, fratri

[10] Santo Agostinho, Epis., 92, nos. 1,2

[11] S. João Crisóstomo, Ad Viduam juniorem, tract. I, no. 2

[12] S. João Crisóstomo, Ad Viduam Juniorem, trat. I, nos. 3 e 4.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Terceira carta / ParteI


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa


pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

TERCEIRA CARTA

Resposta a algumas objeções

É perigoso não responder às objeções. – As de que falamos, resultam da idéia falsa ou acanhada que se faz do Céu
– O pensamento católico exprimido com felicidade por Dante. – Luzes que os bem-aventurados têm. – Eles não
ignoram as nossas necessidades. – Desejo que têm de nos socorrer. – A sua lembrança de tudo.

SENHORA,

Nenhuma das verdades solidamente estabelecidas na Igreja deve ser abalada em nossas almas, por uma ou muitas
objeções, cuja solução nos escapa.

“A verdade é do Senhor e permanecerá eternamente”, diz a Escritura (Ps. CXVI, 2); as objeções são do homem, o
tempo muda-as, e o sopro da ciência as dissipa.

Todavia, acontece que uma verdade claramente demonstrada, não penetra profundamente em nossa alma,
enquanto tivermos uma dificuldade a que não achemos resposta. Algumas vezes mesmo a objeção apodera-se de tal
modo do nosso espírito, que chega a expelir dele a verdade.

É o que se deu em muitas pessoas a respeito do objeto de que nos ocupamos. Não sabendo como rasgar o véu de
algumas dificuldades que lhes ocultava esta luz tão consoladora, têm dito que não nos reconheceremos no Céu. A
sua imprudência poderia comparar-se à dum menino que, não podendo dissipar o espesso nevoeiro, negasse a
existência do Sol.

As objeções que vos têm feito, e que me haveis transmitido, resultam de se não formar uma idéia assaz justa e
grande do Céu.

Muitos supõem que Deus se dispusera a construir o edifício da nossa grandeza sobre a indiferença ou
insensibilidade, a coroar-nos de glória e inebriar-nos de felicidade no meio da ignorância ou das trevas. Aderir a esta
idéia é provar que nem mesmo se leu aquele príncipe de poetas cristãos, que pôs ao serviço da fé a sua poderosa e
bem regulada imaginação e que cantou numa língua e num país a que vossa família não pode chamar estrangeiro.
Cito-o, não para lhe atribuir uma autoridade que não tem, mas porque exprime felizmente o pensamento católico.

“O Céu, disse ele, é um admirável e angélico templo, que tem por confins só o amor e a luz. E uma luz pura, luz
intelectual carregada de amor, amor do verdadeiro bem, cheio de alegria que excede toda a suavidade.

O estado da bem-aventurança funda-se sobre a ação de ver, seguindo-se-lhe a de amar, e tanto que a alegria dos
bem-aventurados, como a dos anjos, é maior ou menor segundo a sua vista se fixa mais ou menos na verdade, onde
se repousa toda a inteligência”[1].

Eis aqui, pois, o princípio de solução para as objeções: no Céu, que é mais um estado do que um lugar, tudo é luz,
tudo é amor.

Por esta luz, os escolhidos que gozam da visão de Deus, conhecem, com os prodígios da natureza e da graça, tudo o
que se refere ao estado próprio de cada um.
Assim, os pontífices vêem o que diz respeito ao governo da sua Igreja, e os reis o que concerne ao seu reino. Deve
crer-se, pois, que gozam da bem-aventurança, que o seu estado é perfeito pela reunião de todos os bens, [2] sê-lo-ia
sem este conhecimento?

Deve também crer-se que vêem a Deus face a face: por que motivo não verão também o que lhes diz respeito, neste
espelho da Divindade, sempre patente a seus olhos e fiel em tudo refletir?

Os bem-aventurados têm uma ciência infusa e atual, que lhes vem por via de revelação ou iluminação, seja da parte
de Deus, seja da parte dos anjos ou dos santos mais elevados em glória.

Têm também uma ciência natural e adquirida, que obtiveram durante a sua vida mortal, seja pelo trabalho, seja pela
experiência, e que conservam no Céu.

Perderiam, pois, na habitação da felicidade, o gozo de todos os seus conhecimentos adquiridos que pode aumentar
mais a sua ventura, o conhecimento dos parentes e dos amigos que tiveram na terra?

Eles não ignoram as necessidades nem as orações de seus parentes que ficaram neste mundo.

Depois da morte de S. Bernardo, um abade de Claraval consolava os seus religiosos dizendo-lhes: “Quanto mais no
Céu do que na Terra, nosso Pai vê, sente e conhece tudo o que nos toca! A sua espiritual paternidade não se
dissolveu com o corpo, ele nada ignora das necessidades de seus filhos, e ouve-nos do fundo de seu túmulo”[3].

O mesmo Deus que é a suma verdade, ilumina e penetra os santos, anima-os e inflama-os com o seu amor.

Eles são também caridade com Ele, amam-nos como Ele, lembram-se de nós, ocupam-se de nós; e esta
misericordiosa solicitude – diz Augusto Nicolas – concilia-se tanto neles como n’Ele, com a suprema felicidade. Que
digo eu? É esta mesma felicidade que, inebriando-os de suas delícias, os inebria também, de alguma sorte, da
necessidade de comunicá-la, porque é ela a felicidade de amor, que só se enche para se derramar [4].

Eles governam-nos, dirigem-nos e intercedem por nós. S. Gregório Nazianzeno, concluindo o elogio de S. Cipriano,
exclamou:

“Ó vós, do alto do Céu, olhai-nos com bondade, guiai nossos discursos e nossa vida, apascentai este virtuoso
rebanho e auxiliai o seu pastor”[5].

No segundo livro dos Macabeus (XV, 12-16), vemos Onias e Jeremias, já mortos, interessarem-se pela sorte dos
judeus, orarem pela sua liberdade e entregarem a Judas a espada que devia assegurar-lhe a vitória.

No Apocalipse (V, 8; VI, 10) vemos os bem-aventurados oferecerem ao Senhor as orações que se elevam da terra,
como perfumes, e queixarem-se de seus perseguidores estarem ainda impunes. Por que, pois, seriam os únicos a
não serem reconhecidos, aqueles que foram na terra seus protetores ou seus protegidos, e que lhes fazem agora
companhia na glória? Por que esta exceção inteiramente semelhante a um castigo? Por que esta pobreza do
coração, que seria assim privado de todas as santas afeições, a que deve talvez a sua entrada na pátria da caridade,
ou pelo menos um grau mais elevado no reino da pura luz e do verdadeiro perfeito amor?

O Cristão não tem necessidade de passar o rio do esquecimento para chegar ao eterno repouso.

O santo nunca perde a memória do menor de seus triunfos, nem o mais obscuro dos seus merecimentos.

A nossa mão esquerda, que não sabe na terra o bem que faz a direita (Math. VI, 3), sabê-lo-á um dia no Céu, e se
regozijará por isso eternamente.
Neste mundo, morremos em nós mesmos, por um esquecimento que cada vez se torna maior; mas no Céu,
ressuscitaremos em nós mesmos pela mais completa lembrança: Todo o bem que tivermos feito, reviverá em nossa
memória com uma fresquidão e vivacidade de sentimentos, que nunca houvéramos conhecido. Conservaremos a
lembrança das nossas provas interiores e espirituais; recordar-nos-emos das nossas dores físicas e de todos os
nossos trabalhos.

Como nos será doce então repassar, pela imaginação, todas estas rugas do tempo, onde as lágrimas dos nossos
olhos e os suores dos nossos membros caírem, como orvalho fecundo, para enriquecer a colheita dos nossos eternos
merecimentos!

Mas como! Os felizes habitantes do Paraíso, em suas íntimas conversações, nunca falariam do seu passado,
deixariam ignorar a grandeza e multiplicidade dos seus combates neste mundo, e não revelariam entre si uma única
circunstância que lhes fizesse conhecer que foram contemporâneos, vizinhos, parentes ou amigos?! É impossível.

[1] Dante, Paradiso, canto XXVIII e XXX.

[2] Boécio, De Consolatione, lib. III, prosa II.

[3] Gautridus, Sermo in anniversario obitus sancti Bernardi, nos. 4 et 15.

[4] Augusto Nicolas, La Vierge Marie vivant dans l’Eglise, lib. I, cap. IV, § 3, n.o 4.

[5] S. Gregório Nazianzeno, Oratio XXIV, no. 19.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Terceira carta / Parte II


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pel

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

II

Com a ciência cresce no Céu o amor. – Aumento deste mesmo amor. – Palavras de S. Bernardo em diferentes
ocasiões. – Doutrina de S. Tomás de Aquino. – Revelação feita a Santa Catarina de Sena. - Harmonia do
conhecimento e do amor. - Nem inveja nem ciúme, mas completa resignação.

Ora, no Céu, com a ciência cresce a caridade, o amor.

Assim como o Sol nos envia num só e mesmo raio duas coisas ao mesmo tempo: a luz e o calor; assim também este
mútuo conhecimento que Deus permite aos seus escolhidos, é sempre acompanhado de amor. E da mesma forma
que se tornariam mais abrasados, à medida que se aproximassem da chama; assim também, quanto mais se
aproximam deste grande Deus que é um fogo consumidor (Deut., IV, 24), tanto mais amam e são amados.

A caridade nunca se extingue, diz o Apóstolo, (I Cor., XIII, 8); e este amor infinito, abraça a Deus em sua unidade, a
nós mesmos e ao próximo.
E efetivamente não existem duas ou três virtudes da caridade, mas só uma. Se, pois, o amor do justo sobe com ele
ao Céu depois da sua morte, se brilha mesmo com um esplendor mais radioso sobre o imaculado horizonte da bem-
aventurada eternidade, como um astro que, elevando-se, aumenta os seus esplendores, por que razão deixaria este
justo de inflamar-se também em caridade para com todos aqueles que amou santamente na terra? Por que motivo,
quando é maior o seu amor para com Deus, e para consigo mesmo, não seria maior também para com o seu
próximo?

O santo abade de Claraval chorou a perda de seu irmão Gerardo com uma ternura maravilhosa. Um de seus sermões
sobre o Cântico dos Cânticos, não é mais do que uma oração fúnebre a respeito deste irmão querido. Que diz ele
sobre este ponto? Atendei e consolai-vos:

“Quanto mais se estiver unido a Deus, mais cresce o amor. Ora, se Deus não pode sofrer, pode condoer-se; porque
ter piedade dos desgraçados e perdoar aos culpados, é próprio da sua infinita misericórdia. É forçoso, pois, meu
irmão, que estejais comovido das misérias do próximo, visto que estais tão intimamente unido à divina misericórdia.
Assim a vossa afeição por nós, longe de diminuir, chegou, pelo contrário, à sua perfeição; e tendo-vos revestido de
Deus, não vos despojastes da vossa solicitude para conosco, visto que o mesmo Deus tem cuidado de nós (1 Petr. V,
7). Ter-vos-eis despojado de tudo o que era fraqueza, mas nunca da piedade ou compaixão. Enfim, visto que a
caridade não morre, vós nunca me olvidareis.” [1]

Baseado neste motivo do amor para com o próximo, o abade de Claraval dirigia-se a S. Malaquias nos termos
seguintes: “Longe de nós o pensamento de que a vossa caridade, tão ativa na terra, esteja, não digo esgotada, mas
somente diminuída, quando vos achais junto da mesma nascente da eterna caridade, tirando dela a longos tragos
aquilo de que anteriormente tínheis sede e que só podíeis beber gota a gota! O amor nunca pode ceder à morte,
pois que é mais forte do que ela”[2].

O santo abade dizia a respeito de outro seu amigo:

“Ele era meu em quanto vivia, será meu depois da sua morte, e reconhecê-lo-ei por meu na pátria celeste – Meum in
patria recognoscam”[3].

Num sermão de S. Vítor, mostrava-o tão cheio de solicitude por nós como de segurança a seu respeito; “porque,
dizia ele, não é numa terra de esquecimento que habita a alma de Vítor. Porventura a celeste habitação endurece as
almas que recebe, ou priva-as da memória, ou despoja-as da piedade? Meus irmãos, a amplidão do Céu dilata os
corações e não os restringe, dilata os espíritos e não os dissipa, não diminui as afeições, mas aumenta-as. Na eterna
luz, a memória é aclarada e não obscurecida, aprende-se o que se ignora e não se esquece o que se sabe – discitur
quod nescitur, non quod scitur dediscitur.”[4].

O doutor angélico, S. Tomás de Aquino, diz que os bem-aventurados se amam entre si tanto mais quanto maior é a
sua união com Deus; entretanto, na terra nos amamos mais ou menos, segundo a maior ou menor união entre nós,
pelas diferentes relações que nos são necessárias ou permitidas. Todavia, ainda que no Céu não tenhamos de prover
às necessidades uns dos outros, cada um conservará uma afeição especial por aqueles que lhe foram unidos, e
continuará a amá-los com mais particularidade, ou por motivo de parentesco, de amizade, de aliança, de benefícios
concedidos ou recebidos, por serem patrícios ou da mesma vocação. Porque nenhum motivo de pura afeição deixará
de operar sobre o coração dum bem-aventurado – Non enim cessabunt ab animo beati honestae dilectionis
causae.[5]

O próprio Deus dizia a Santa Catarina de Sena: “Ainda que todos os meus escolhidos estejam indissoluvelmente
unidos por uma perfeita caridade, todavia, entre aqueles que se amavam reciprocamente neste mundo, reina uma
singular comunicação e uma alegre e santa familiaridade. Por este mútuo amor se esforçavam por crescer na minha
graça, caminhando de virtude em virtude; por ele, um era para o outro um meio de salvação; por ele, todos se
auxiliavam reciprocamente em me glorificar em si mesmos e no seu próximo. Assim, este santo amor nada diminui
entre eles na vida eterna; pelo contrário, ocasiona-lhes muito maior alegria e contentamento espiritual”[6].
Sem esta admirável harmonia do conhecimento e do amor, o Céu seria triste. Acendei nele o facho da ciência sem a
fornalha da caridade, e os ciúmes estenderão suas redes, como na terra.

Fazei do amor um cego correndo nas trevas em procura do seu objeto, e vê-lo-eis, dentro em pouco, vítima dos mais
sombrios pesares.

Sem o amor, nada faria contrapeso à desigualdade, porque deixaríamos de possuir no próximo o que não temos em
nós mesmos.

Sem a luz, nada nos consolaria do desgraçado fim dum ente querido, infiel ao comparecimento no ponto
determinado para a reunião, porque não se veriam já os decretos da eterna justiça, nem a marcha da amável
Providência.

Mas, unir à perfeição da ciência a perfeição da caridade é excluir do Céu os ciúmes do egoísmo e os amargos
pesares.

Os santos gozam do que têm, e não se afligem do que não têm. Aqueles mesmos que passaram uma parte da sua
vida no pecado, nem por isso gozam menos duma pura alegria e duma completa felicidade, ainda mesmo que o seu
grau de glória seja inferior.

O grande Bispo de Hipona dizia às virgens: “A multidão que vos vir seguir o Cordeiro, sem poder acompanhar-vos,
não terá ciúme. Tomando parte na vossa alegria, ela terá em vós o que não tem em si mesma – collaectando vobis,
quod in se non habet, habebit in vobis. Sem dúvida, ela não poderá entoar o novo cântico, que só vos é próprio
(Apoc. XIV, 3, 4); mas poderá ouvi-lo e regozijar-se com a vossa imensa felicidade”[7].

Dizia ainda:

“Na mesma bem-aventurança, nenhum daqueles que tiver um grau mais inferior terá inveja dos que estiveram
colocados numa ordem mais superior, assim como os anjos não têm ciúme dos arcanjos. Ninguém quererá ser mais
do que aquilo para que Deus o fez, assim como em nosso corpo o olho não pode invejar a sorte do dedo. A todo
aquele que recebeu dons menores, dá Deus a graça de os não ambicionar maiores”[8].

Se vos repugna consultar, sobre esta matéria, os sérios e mui importantes livros dos doutores, lançai mãos da Divina
Comédia, e lede uma página deste poema, que vos agradará, por isso mesmo que tem nele grande parte a teologia.

Na sua graciosa viagem ao Paraíso, o autor perguntava a uma alma que encontrou no mais ínfimo grau, se ela não
desejava subir mais acima para mais ver e mais amar.
“Irmão, respondeu ela, há uma virtude de caridade que modera o nosso querer e que, fazendo que queiramos
somente o que temos, nos impede de desejar outra qualquer coisa. É mesmo essencial à nossa bem-aventurada
existência manter-se cada qual na vontade divina, de maneira que todas as nossas vontades não façam mais do que
uma.

Que sejamos distribuídas em graduações diversas neste reino, é uma disposição que agrada a todo ele, assim como
ao Rei que absorve o nosso querer no seu. Na sua vontade está a nossa paz. A sua vontade é este mar para o qual se
move não só o que ela diretamente criou, mas também o que a natureza produz.

Conheci então, conclui o poeta, que todo o lugar no Céu é Paraíso, ainda que a graça do Soberano Bem se não
derrame por toda a parte com a mesma intensidade”[9].

[1] S. Bernardo, in Cant. Serm. XXVI, no. 3.

[2] Ibid., Epístola 374, no. 2.

[3] Ibid., Epístola 65, no. 2


[4] In Natali sancti Victoris, sermo II, nº 1

[5] S. Tomás, Summ. 2. 2, q. 26, art. 13

[6] Sainte Catherine de Siene, Le Dialogue, cap. XLI.

[7] Santo Agostinho, De Sancta Virginitate, cap. XXIX

[8] Ibid., De Civitate Dei, lib. XXIII, cap. XXX, no. 2.

[9] Dante, Paradiso, cant. III.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2013/12/no-ceu-nos-reconheceremos-terceira_25.html

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Terceira carta / Parte III


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

III

Não haverá necessidade de desviar os olhos do Criador para ver as criaturas – O Céu não é um êxtase onde se
esquecem os parentes e os amigos. – A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. – A graça não a repele,
mesmo na terra.

O Céu é luz; não digais pois: –Encontrando-se em Deus em toda a Sua plenitude a perfeição que nos torna amável
um ser criado, poder-se-á desviar os olhos do centro dos eternos esplendores e do oceano das perfeições infinitas,
para seguir com a vista um raio separado, um pequeno regato?

Os bem-aventurados nunca têm necessidade de desviar os olhos do Criador para reconhecerem uma criatura. É
n'Ele, é no Verbo que contemplam ao mesmo tempo o centro luminoso e os raios, o fecundo manancial e os arroios.

“É no Verbo divino, escrevia o autor da Vida dos predestinados, que se verá a verdade claramente, e sem estes véus
que nos não deixam vê-la neste mundo em toda a sua pureza e a descoberto.

No Céu já não haverá dúvida, ou incerteza. É neste Verbo que o predestinado verá, como num admirável espelho,
este espetáculo do mundo desenvolver-se na mais pequena circunstância de cada sucesso. Será n’Ele que aprenderá
a série dos eternos conselhos de Deus nos interesses da Sua glória. Aí divisaremos ao mesmo tempo o presente, o
pretérito e o futuro, e marcharemos, com a graça desta luz, nos imensos caminhos da eternidade, sem nos
perdermos nem ainda nos afastarmos deles.

– Leremos aí a descrição universal de todos os tempos, e o que se passou de mais curioso no decurso de cada século,
não só no mundo exterior, mas ainda no interior, isto é, nos lugares mais recônditos do coração humano. Será neste
livro, patente aos escolhidos, que se terá o prazer de estudar a história secreta da celeste Jerusalém, que contém o
mistério da salvação de cada predestinado, e que encerra a narração do procedimento de Deus em relação aos
homens, no admirável desejo da sua predestinação”[1].
O Céu é amor; não digais portanto: –Não há necessidade de amigos. Os santos no êxtase esquecem até os seus
parentes, e além disso a maior parte das nossas afeições têm um princípio inteiramente natural que deixará de
existir na eternidade.

Pobre filosofia, que circunscreve os sentimentos do coração nos limites da utilidade presente, e não compreende
que o principal bem da amizade é o mesmo amor ou a correspondência estabelecida entre duas pessoas
sinceramente unidas entre si! Quantos sábios monarcas se têm crido mais felizes por terem um amigo do que por
terem um reino!

Não nego que os santos, em certos momentos de consolação espiritual, sobretudo no êxtase ou arrebatamento,
tenham banido toda a lembrança de seus parentes e ainda das pessoas mais virtuosas; não nego que tenham
perdido todo o sentimento exceto o de Deus. Mas estavam na terra e em provação; cumpriam penosamente a
primeira palavra do Mestre: “Deixai casa e campos, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos”, e não viam ainda
cumprir-se a segunda: “Recebereis o cêntuplo e possuireis a vida eterna” (Math., XIX, 29).

O Céu não é um êxtase, nem um estado violento e transitório; é a cidade permanente, onde não há mortificação
nem sacrifícios a fazer para subir mais alto, mas onde se encontra em Deus o que se deixou por Deus. É o termo da
viagem e dos combates, onde se repousa na posse tranqüila de uma eterna recompensa.
No Céu, o Senhor prodigaliza a todos, luzes que recusa na terra a Seus maiores servos; e dá à caridade para com o
próximo uma liberdade de expansão que a prudência cristã ou religiosa deve, muitas vezes, restringir neste mundo.

A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. Será no Céu para a glória o que é na terra para a graça, o apoio
necessário.

A natureza é uma árvore silvestre, mas a graça é-lhe engastada como um enxerto divino. Este enxerto dá
primeiramente flores, pintadas com as cores de Jesus Cristo, que exalam no tempo a sua ótima fragrância. Produz
em seguida frutos de salvação que serão a glória dos bem-aventurados na eternidade.

Toda esta árvore com o seu fruto será transplantada no Céu. Teremos aqui mesmo, com todas as faculdades da
nossa alma, todos os sentidos do nosso corpo sem defeito algum. Aquele que morrer ainda criança ressuscitará
homem feito.

Ouviram-se os vossos gemidos quando a morte arrebatou do berço uma de vossas filhas; sentir-se-ão vossas alegrias
e cânticos ao Senhor, quando tornardes a encontrar junto do mesmo Deus, sobre um trono, esta filha querida,
chegada de improviso a uma permanente madureza, eternamente bela, eternamente jovem!

Chamando-a para si, Deus encarregou-se de a criar, e Ele mesmo cuidou da sua educação. Ora, não receeis que Ele
não vos deixasse lugar em seu coração. Na terra, ela não pôde conhecer-vos nem amar-vos; mas no Céu, por causa
destas relações de origem que são naturais, Deus lhe fará conhecer sua mãe, e lhe dará a piedade filial como virtude
sobrenatural.

Mesmo na terra, como já se disse, a graça não repele a natureza; pelo contrário, estende-lhe a mão, torna-se seu
guia e seu apoio. Algumas vezes mesmo leva a condescendência até ao ponto de deixá-la marchar diante de si,
vigiando sobre os seus movimentos com uma doce solicitude maternal, tendo sempre a mão levantada para regular
os seus passos e prevenir suas quedas.

O autor da graça, não contente com amar sobrenaturalmente sua divina Mãe, amou-a também naturalmente, e não
se dedignou de ser por ela amado. E quando verteu lágrimas sobre o túmulo de Lázaro, seu amigo, foi a natureza
que as deixou cair.

“A graça e a natureza são, ambas, filhas do Céu; mas uma pode ser considerada como filha da esposa, a outra como
filha da escrava. A primeira será herdeira do pai de família, por direito de nascimento; a segunda será admitida a
uma parte da herança, pelo privilégio duma benévola e gratuita adoção. Aquela será a rainha, esta a favorita da
mesma rainha”[2].
[1] P. Rapin, La Vie des prédestinés dans la bienheurese éternité, cap. V

[2] Marc, Le Ciel, appendice, III question

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2013/12/no-ceu-nos-reconheceremos-terceira_27.html

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Terceira carta / Parte IV


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

IV

No Céu, os bem-aventurados não se afligem pela condenação de pessoa alguma. – Não têm já afeição alguma por
um condenado. – Ele não conserva um só elemento de amabilidade. – A vontade dos bem-aventurados é
inteiramente conforme à de Deus, mesmo para a reprovação dum amigo, como diz Santa Catarina de Sena,
Honório e os teólogos.

O Céu é amor e luz; não digais, pois: –Imensa será a aflição dum santo ao lembrar-se do parente ou do amigo que
jamais irá reunir-se-lhe.

Das sublimidades da glória descobre-se melhor o horror e a justiça de sua condenação.

Sol do mundo moral, Deus é o centro cuja atração livremente sujeita mantém nossa alma na órbita da salvação,
apesar das paixões que sempre nos impelem a afastar-nos dela.

Das eternas colinas, os santos seguem atentamente as vicissitudes desta luta, cujos resultados devem ocasionar às
pessoas que lhes são queridas, o Céu ou o Inferno. Vêem, desde há muito tempo, a divina atração, que é a mesma
força da misericórdia, obrar sobre o pecador e vencer resistências insensatas ou culpadas.

Mas, enfim, vêem este pródigo obstinado, este homem que segunda vez crucifica a Jesus Cristo, ceder
voluntariamente às seduções do pecado e ao ímpeto das paixões, e sair inteiramente da órbita da salvação. Como
um astro extinto ou quebrado, projetado no espaço, corre veloz, afastando-se cada vez mais do seu centro, e chega
assim, pela condenação, a uma infinita distância de Deus.

Ora, a afeição dos bem-aventurados, por qualquer pessoa, enfraquece e diminui em proporção da distância em que
esta se achar do soberano bem; e como é infinita a distância que medeia entre Deus e o condenado, nenhuma
afeição pode haver por este.

O afeto que lhe consagravam na terra, não era mais do que uma irradiação dos atrativos divinos. Esta afetuosa
inclinação será destruída pela reprovação divina, e o raio que os iluminava e atraía voltará para Deus da mesma
forma que, no mundo material, quando uma nuvem se mete de permeio entre o sol e um corpo, o raio que
iluminava este corpo desaparece no mesmo instante, e volta para o astro donde saíra.
Rompida assim a cadeia do afeto, esta criatura, que outrora nos era tão querida, deixou inteiramente de o ser. Só
veremos nela uma estranha, uma inimiga, a inimiga do nosso Deus, do nosso Pai, do nosso bem supremo. Não
teremos a fazer esforço nem violência para nos desligar dela. Proferida a sentença de reprovação pelo supremo Juiz,
o afeto que nutríamos pela pessoa condenada, desaparecerá de nosso coração como por encanto. Porque entre nós
e ela não havia atrativo necessário, assim como não há qualidade alguma de atração entre dois fragmentos de ferro
antes de um deles ser tocado pelo ímã, ou depois de ter perdido esta propriedade emprestada.

Não podemos, é verdade, eximir-nos de um imenso desgosto na vida presente, lembrando-nos desta separação.

Mas aqui é só a sensibilidade que raciocina e se entristece; a fé não entra nisto: não é mesmo propriamente a
sensibilidade, que é um dom de Deus e tem uma razão de ser. Pelo contrário, esta perseverança na afeição por
criaturas que já não têm elemento algum de amabilidade, é um contra-senso e uma espécie de aberração: é a ilusão
da sensibilidade. As recordações das nossas antigas e verdadeiras afeições fixam-se em nós e molestam-nos, como
as impressões dum sonho, quando se está meio acordado, apesar mesmo duma suficiente luz para nos demonstrar a
sua frivolidade.

A nossa sensibilidade em relação a estas afeições está atualmente neste estado que tem uma espécie de meio entre
o sonho e a vigília; mas apenas soe o eterno despertar, veremos claramente que tudo eram fantasmas, e a nossa
sensibilidade não se preocupará mais delas.[1]

Esta objeção é, algumas vezes, apresentada e sustentada por pessoas que se consolam muito facilmente com a
indiferença prática ou triste fim de seus parentes, e que pouco fazem por convertê-los neste mundo, ou socorrê-los
no outro. Mas, será possível porventura que no Céu amemos pessoas condenadas a eternas penas mais do que a nós
mesmos? Todavia cada um de nós saberá quais foram as suas próprias faltas, verá os graus de glória que estas lhe
fizeram perder, e nem por isso seremos infelizes, nem mesmo nos entristeceremos. Será possível que os amemos
ainda mais do que os amaram Deus e Jesus Cristo? Contudo a felicidade de Deus não é perturbada pela sua
condenação, e Jesus Cristo não se aflige com a perda de Judas.

Finalmente, como só amam o que Ele ama, os bem-aventurados querem unicamente o que o Senhor quer. Assim
dizia Ele a uma grande santa:

“Os habitantes do Céu têm os seus desejos inteiramente completos, e nunca estão comigo em desacordo. O seu livre
arbítrio está de tal sorte ligado pela caridade, que eles só podem querer o que Eu quiser. A sua vontade está tão
conforme e unida à minha que os pais que vêem seus filhos no Inferno, ou filhos que vêem seus pais condenados,
não se afligem por isso; regozijam-se até de vê-los punidos pela minha justiça, visto que estes filhos ou estes pais se
obstinaram em ser meus inimigos”[2].

Honório exprime por outros termos, e com não menos energia, o meu pensamento:

“Os bem-aventurados não se afligirão à vista dos condenados e de seus tormentos. Quando mesmo o pai vir seu
filho no meio dos suplícios, o filho a seu pai, a filha a sua mãe ou esta àquela, não só se não entristecerão, mas ainda
se deleitarão à vista deste espetáculo, como nos acontece quando vemos os peixes brincarem num pego. Não está
escrito (Ps. LVII, 11): ‘O justo se alegrará quando vir tirar vingança dos pecadores?’”[3].

Neste mundo, segundo o parecer do Cardeal Caetano, um pai cristão, um bom pai, não seria feliz se soubesse que
seu filho estava condenado às penas eternas; mas, no Céu é ainda feliz na mesma hipótese, ainda que se possa dizer
que, em certo sentido, tem pesar desta condenação[4].

E por que será ele feliz? Porque uma grande parte da nossa eterna felicidade, segundo Vasquez, consistirá na inteira
conformidade da nossa vontade com a divina.
Efetivamente, na eterna glória, a nossa vontade e a vontade divina estarão tão perfeitamente de acordo, como estão
os olhos do mesmo rosto, um dos quais não pode olhar para um objeto sem que o outro o siga.
Veremos, pois, todas as coisas como Deus as vê: assim como cada um de nossos olhos encontra no mesmo objeto a
mesma aparência[5].

Mas, Senhora, ouço-vos repetir-me o que me dissestes por tantas vezes: –Como nos consolaremos neste mundo
depois da desgraçada morte duma pessoa querida que se viu expirar sem alguma aparência de reconciliação com
Deus?

Ainda que esta proposta se afaste um pouco do meu objeto, não quero deixá-la sem resposta. Vou, pois, acrescentar
algumas páginas a esta carta para vos dizer: Consolai-vos, orando.
Previstas por Deus, vossas atuais orações talvez obtivessem, antes da morte, a secreta conversão do pecador cuja
perda chorais.

[1] Marc, Lê Ciel, appendice, III question, note.

[2] Sainte Catherine de Sienne, Le Dialogue, chap. XLI.

[3] Honorius d’Autun, Elucidarium, lib. III, no. 5

[4] Cajetan, Comment. In S. Thom., III, p. 9, 46, art. VII, ed. Rome 1773, t. VIII, p. 16.

[5] Vasquez, in Summ., 1ª., 2ª., q. 19, Disput. 72, cap. V. – Cf. Eadmer, De sancti Anselmi similitudinibus, cap. LXIII.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2013/12/no-ceu-nos-reconheceremos-terceira_31.html

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS- APÊNDICE À TERCEIRA CARTA


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

Oremos pelos pecadores mesmo depois da sua triste morte

Mistérios da graça por ocasião da morte. - Como se podem explicar. - Eficácia das orações feitas pelos pecadores
depois do seu falecimento, segundo a opinião do P. de Ravignam. – Testemunho de S. João Crisóstomo.

SENHORA,

A Igreja não condena pessoa alguma. Publica os seus decretos em que nos declara que esta ou aquela pessoa está no
Céu, o que nunca fez a respeito dos condenados.

Tenho a satisfação de saber que lendo vós uma obra que merece toda a consideração, notastes particularmente
estas linhas:
“O Padre de Ravignam gostava de falar dos mistérios da graça, que cria passarem-se no momento da morte, e
parece ter sido o seu sentimento de que um grande número de pecadores se convertem nos seus últimos
momentos, e expiram reconciliados com Deus.

Há, em certas mortes, mistérios de misericórdia e rasgos de graça em que os olhos humanos só vêem golpes de
justiça. À luz dum último raio, Deus revela-se algumas vezes a certas almas cuja maior desgraça fora ignorá-lo; o
último suspiro, compreendido por Aquele que sonda os corações, pode ser um gemido que implore o perdão”.

O marechal Exelmans, a quem uma queda do cavalo subitamente precipitou no túmulo, não praticava a religião.
Tinha prometido confessar-se, mas não teve tempo. Todavia, no mesmo dia da morte, uma pessoa habituada às
celestes comunicações acreditou ouvir uma voz interior que lhe dizia:

“Quem conhece a extensão da minha misericórdia? Sabe-se porventura a profundeza do mar e as águas que
encerra? Muito será perdoado a certas pessoas que muito ignoram”.

Como explicar estes rasgos da graça? Pelo preço duma alma que vale o sangue de Jesus Cristo, vertido por ela, e pela
misericórdia que não conhece limites, por alguma boa obra, esmola ou oração que o pecador tiver feito durante a
sua vida; pelo invisível ministério do Anjo da Guarda, sempre disposto a trabalhar a bem da salvação do seu
protegido; pelas precedentes orações dos santos do Céu e dos justos da terra, e sobretudo pela intercessão da
Virgem Maria; finalmente, pelas orações feitas pelos pecadores depois da sua morte, quando mesmo não tenham
dado algum sinal de arrependimento.

É este último ponto que me limito a explicar-vos aqui.

Lestes com prazer na obra que há pouco citei, as seguintes linhas traçadas pelo santo religioso para consolar uma
rainha cujo filho morrera, caindo duma carruagem.

“Cristãos, colocados sob a lei da esperança não menos que da fé e do amor, devemos erguer-nos incessantemente
do fundo das nossas aflições, até ao pensamento da infinita bondade do Salvador. Nenhum limite, nenhuma
impossibilidade se mete de permeio entre a graça e a alma enquanto restar um sopro de vida. Convém, pois, esperar
sempre e dirigir ao Senhor humildes e perseverantes instâncias. Não se poderá dizer até que ponto elas podem ser
atendidas. Grandes santos e eminentes doutores estiveram bem longe, falando desta poderosa eficácia das orações
por almas queridas, de dizerem qual tenha sido o seu fim. Conheceremos um dia estas inefáveis maravilhas da divina
misericórdia, as quais nunca devemos deixar de implorar com uma profunda confiança”[1].

Visto que o P. de Ravignan apela para os santos e para os doutores, quero apresentar-vos o testemunho dum grande
doutor e duma grande santa.

O mais eloqüente Arcebispo de Constantinopla, provando que não é conveniente chorar muito pelos nossos
queridos defuntos, mas antes auxiliá-los com as nossas orações e boas obras, supõe que um de seus ouvintes o
interrompe para lhe dizer:

– “Mas eu choro este querido defunto, porque morreu como um pecador - Propter hoc ipsum plango, quod peccator
excessit!”.

Que responde S. João Crisóstomo?

“Não será isto um vão pretexto? Pois se tal é o motivo das vossas lágrimas, por que não fazíeis mais esforços para
convertê-lo durante a vida? E se morreu verdadeiramente pecador, não devereis regozijar-vos, por isso mesmo, que
a sua morte veio pôr termo ao número de seus pecados que, desde então, já não pode aumentar? É sobretudo
necessário ir em seu socorro, tanto quanto puderdes, não por meio de lágrimas, mas de orações, súplicas, esmolas e
sacrifícios. Nenhuma destas coisas são efetivamente loucas invenções. Não é inutilmente que nos divinos mistérios
comemoramos os mortos; não é infrutiferamente que nos aproximamos do sagrado altar e oramos por eles ao
Cordeiro que apaga os pecados do mundo; pelo contrário, tudo isto lhes serve de muita consolação.

Se Job purificava seus filhos, oferecendo por eles um sacrifício, de quanto mais alívio deve ser para os nossos
defuntos aquele que por eles oferecermos ao Senhor? Não costuma Deus fazer bem a uns em consideração a
outros? Mostremo-nos cuidadosos em socorrer os nossos queridos defuntos, e ofereçamos por eles as nossas
orações.

A Missa é uma expiação comum de que todo o mundo se pode aproveitar. Portanto oramos na Missa por todo o
Universo, e nesta multidão nomeamos os mortos com os mártires, com os confessores e com as virgens. Pois todos
nós somos um só corpo, ainda que este tenha membros mais brilhantes do que outros. Pode mesmo acontecer que
obtenhamos para nossos defuntos um completo perdão. Et fieri potest ut veniam eis omni ex parte conciliemos –
pelas súplicas e dons que oferecem em seu benefício aqueles que são nomeados com eles.

Por que estais ainda angustiado? Para quê estas lamentações? Não se poderá obter uma tão sublime graça para
aquele que perdestes?”[2].

II

Exemplo tirado da vida de Santa Gertrudes. – Esta verdade não é mais do que uma particular aplicação do
princípio geral da Redenção. – A fecundidade que ela pode dar à dor.

Encontra-se nas célebres revelações de Santa Gertrudes um exemplo que confirma esta doutrina e lhe dá uma nova
luz.

Em presença de Gertrudes, deu-se a uma pessoa a notícia da morte de um de seus parentes. Temendo esta que ele
não tivesse morrido no estado de graça, mostrou-se muito aflita. Foi tão grande a sua perturbação que, comovida a
Santa, se ofereceu para pedir a Deus pela alma do defunto, o que fez, principiando por dizer a Nosso Senhor:

“Vós podíeis bem ter-me dado o pensamento e a graça de orar por esta alma sem que a isso fosse levada por este
movimento de ternura e compaixão”.
Jesus respondeu-lhe:

“Comprazo-me singularmente nas súplicas que se me dirigem pelos mortos, quando nelas se encontra a natural
compaixão junto à boa vontade que a torna meritória, e estas duas coisas se aliam e concorrem para darem a esta
obra a plenitude e perfeição de que é capaz”.

Tendo a abadessa orado depois disto, por muito tempo a favor desta alma, conheceu que o seu estado era
lastimoso; porque lhe apareceu horrivelmente disforme, negra como um carvão, e semelhante àquelas pessoas que
se confrangem pela violência das dores. Contudo ninguém se via que a atormentasse; mas parecia claramente que
eram seus antigos pecados que faziam sobre ela o ofício de carrasco.

“Senhor, exclamou a caritativa religiosa, não quereis ceder aos nossos rogos, perdoando a esta criatura?

– Queria por amor de ti, responde o divino Salvador, ter piedade não só desta, mas ainda dum milhão de outras.
Queres, pois, que lhe perdoe todos os seus pecados e a livre de toda sorte de sofrimentos?

– Talvez, replicou a Santa, não é isso conforme ao que ordena a vossa justiça!

– Não seria contrário, acrescentou Nosso Senhor, se mo pedisses com bastante confiança. Porque a minha divina luz,
que penetra no futuro, tendo-me feito conhecer que me farias esta súplica, excitei nessa alma boas disposições, para
prepará-la a gozar dos frutos da tua caridade.[3]

Oh! palavras cheias de consolação!


Primeiramente, Deus, prevendo nossas futuras súplicas, digna-se de conceder ao pecador moribundo boas
disposições que assegurem a salvação da sua alma; depois, por virtude das nossas orações presentes, consente em
livrar esta mesma alma de toda a sorte de penas, e em retirá-la das chamas expiatórias.

A última confidência do Salvador à sua virginal esposa, não é mais do que uma aplicação particular dum principio
geral.

Antes que os homens tivessem podido abaixar seus olhos sobre o Presépio e levantá-los para o Calvário; antes que o
Sol da Redenção fosse para eles visível, neste humilde vale do nosso exílio, já podiam deixar-se conduzir pela sua luz
e vivificar pelo seu calor.

Por quê? Porque Deus Pai, da sublimidade das eternas colinas, via já as orações, os sofrimentos, as virtudes e os
merecimentos do seu único Filho, que devia encarnar-se para salvar o mundo.

Não é assim que a Virgem bendita, que devia ser a Mãe deste único Filho, foi preservada de toda a mancha em sua
própria conceição, porque, diz-nos a Igreja, Deus considerava antecipadamente a Jesus Cristo crucificado? – Ex
morte ejusdem Fielii tui praevisa, eam ab omni labe preservasti.[4]

Esta verdade, bem compreendida e posta em prática, pode dar à dor a sua maior fecundidade.

“Toda a minha vida está nisto presentemente”, dizia a pessoa que me fez notar esta passagem das revelações de
Santa Gertrudes; “antes que meu marido morresse, Deus sabia o que eu faria por ele!”.

E assim fez um completo sacrifício de si mesma. Consagrou-se ao Senhor, tomando por divisa: Orar, sofrer,
trabalhar[5] e o Senhor a consolou, dando-lhe por família, com os pobres enfermos da terra, as atribuladas almas do
Purgatório.

Orai, pois, e fazei orar: o Deus cuja misericórdia é alta e vasta como o Céu (Ps. LVI, 2; CVI1, 5), conheceu, no
momento em que ia expirar o vosso parente ou amigo, as orações que mais tarde faríeis por ele, hoje, amanhã,
depois de terdes lido estas páginas e seguido o meu conselho.

Orai e fazei orar: vossas orações, santificando-vos e consolando-vos nesta vida, concorrerão para salvar aqueles que
amais.

[1] P. de Pontlevoy, Vie du P. X. De Ravignan, chapp. X et XXI.

[2] S. João Crisóstomo, in I ad Cor. Hom. XLI, nos. 4, 5.

[3] Les Insinuations de la divine piété, liv. V, chap. XIX.

[4] Collecta da Missa da Imaculada Conceição.

[5] Simart, estatuário, membro do Instituto, Étude sur sa vie et sur son oeuvre, par Gustave Eyriès, chap. X, p. 402,
403.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2013/12/no-ceu-nos-reconheceremos-apendice.html

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - I- QUARTA CARTA Reconhecimento dos


parentes ou a família no Céu
Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa


pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

QUARTA CARTA

Reconhecimento dos parentes ou a família no Céu

Reflexo dos três principais mistérios da nossa religião na família cristã. – A família recomposta no Céu. – Palavras
de Tertuliano. – Exemplo de Nosso Senhor. – Tocante espetáculo que oferecerá o Paraíso. – Jesus e Maria
reconhecem-Se. – Maria tem cuidado de Jesus no Sacramento do Seu amor. – Ela conserva sobre o Seu Coração
um soberano poder.

SENHORA,

Desejaríeis saber, particularmente, o que acontece à família no Céu, isto é, se Deus ali a recompõe, e se a esperança
de possuir vossos parentes na pátria celeste é uma consolação de que possais gozar sem receio, sem escrúpulo e
sem imperfeição. Podereis duvidá-lo, quando tantos santos personagens vo-lo afirmam, tanto por seus exemplos
como por suas palavras?

Deus coroou de glória e honra a família cristã, e faz brilhar em sua fronte o reflexo dos três principais mistérios da
nossa religião. Vede por onde ela começa: – Por um Sacramento que é o sinal sagrado da união do Verbo de Deus
com a natureza humana, da união de Jesus Cristo com a sua Igreja, e da união do mesmo Deus com a alma justa.

Quem o disse? Um grande Papa, Inocêncio III[1]. Vede por onde continua: “Maridos, amai vossas mulheres como
Jesus Cristo amou a sua Igreja e se entregou por ela; mulheres, amai vossos maridos como a igreja ama a Jesus Cristo
e se entrega por Ele”.

Quem o disse? O grande apóstolo S. Paulo (Eph., V, 25).

Vede por onde acaba: – Pelas relações de origem que os anjos nos enviam, tanto elas nos recordam as da Trindade
e nos procuram alegrias; porque o homem é do homem como Deus é de Deus. Homo est de homine, sicut Deus de
Deo. Assim o disse um grande doutor, S. Tomás de Aquino[2].

Mas teria mais poder o sopro da morte para destruir esta obra prima, do que a virtude força para lhe conservar o
esplendor? E visto que o amor é forte como a morte (Cant., VIII, 6), dar-se-á que a caridade de Deus, que criou a
família, que a caridade do homem que lhe santifica o uso, não queira ou não possa refazer eternamente no Céu o
que a morte desfez temporariamente na terra?

Tertuliano dizia:

“Na vida eterna, Deus não separará aqueles que unira na terra, cuja separação também não permite nesta vida
inferior. A mulher pertencerá a seu marido, e este possuirá o que há de principal no matrimônio – o coração. A
abstenção e ausência de toda a comunicação carnal, nada lhe fará perder. Não será tanto mais honrado um marido
quanto mais puro for?”[3].

Aquele que nos deu este preceito: Não separe o homem o que Deus uniu (Math., XIX, 6), deu-nos também o
exemplo. O Verbo contratou com a humanidade um divino desponsório: repudiou ele porventura a sua esposa
subindo ao Céu?

Pelo contrário, fê-la assentar consigo à direita do seu Eterno Pai.


O Homem Deus tem uma Mãe que é bendita entre todas as mulheres: dedignou-Se Ele de fazê-la participante da Sua
glória? Depois de associá-la à Sua Paixão na terra, fê-la gozar das alegrias da Sua Ressurreição e dos esplendores do
Seu triunfo, atraindo ao Céu, após de Si, o Seu corpo e Sua alma.

Jesus Cristo tinha dado a alguns homens o nome de irmãos: desconhecê-los-ia mais tarde? Não. Reconheceu os Seus
Apóstolos no martírio que sofreram por Ele, e fez-Se reconhecer por eles no esplendor de que os cerca na Corte
Celeste.

Mas o Filho de Deus que assim Se dignou recompor, em redor de Si, a sua família por natureza e por adoção, não
quereria recompor da mesma forma, no Paraíso, esta cristã e religiosa família, que é a vossa e também a sua? Quer,
sim, e o Céu oferecerá um espetáculo não menos tocante do que admirável.

Assim como a primeira pessoa da Augustíssima Trindade, dirigindo-se à segunda, lhe diz: Tu és meu Filho, eu hoje te
gerei (Act., XIII, 33); e a segunda diz à primeira, com o acento da piedade filial: Meu Pai, Pai justo, Pai santo, guarda
aqueles que me foram dados em teu nome para que sejam um, como nós somos um, vós em mim e eu neles (Joan.,
XVII, 11, 22-25): assim também uma criatura humana se voltará para outra e lhe dirá com ternura: Meu filho, minha
filha! E do coração desta subirá para aquela, esta exclamação de amor: Meu Pai!

Assim como o único Filho de Deus se regozija de poder dizer a uma mulher: Vós sois minha Mãe; também
inumeráveis escolhidos exultarão de alegria dizendo igualmente a uma mulher: Minha mãe!

Ora, se fosse verdade que os membros da mesma família se não reconhecessem no Céu, Jesus não reconheceria já
Sua Mãe nem seria reconhecido por Ela. Não será horrível pensar nisto e muito mais dizê-lo? Um piedoso autor
estava por certo mais bem inspirado, quando escrevia:

“A Santíssima Virgem conserva intacta a Sua autoridade maternal sobre o corpo do Seu Filho, Nosso Senhor, mesmo
depois da Ressurreição e Ascensão; porque o Seu direito é perpétuo e inalienável.

Depois de se ter deleitado, durante a Sua vida mortal, na submissão a Maria, Jesus compraz-Se ainda em mostrar-Se
Seu filho na bem-aventurada imortalidade, e em reconhecê-lA por Sua Mãe. Temos a prova disto nessas numerosas
aparições, em que Ele se tem feito ver sob a forma de um menino entre os braços de Sua Mãe, e se tem mesmo
dado a alguns Santos por Suas virginais mãos. Na glória, os parentes conservam um contínuo cuidado de seus
próximos, e particularmente dos filhos, que são uma parte deles mesmos, e por assim dizer, outros eles. É, pois,
indubitável que a Mãe de Jesus tem sempre o pensamento unido a tudo o que toca ao corpo do Seu querido Filho,
tanto na obscuridade do Sacramento como nos esplendores da glória. Segue-O, do alto do Céu, com a vista e com o
coração em todos os lugares em que Se encontra presente na terra, pela consagração eucarística”.[4]

A eterna duração desta maternal ternura e desta filial piedade, explica e justifica o belo título de Nossa Senhora do
Sagrado Coração, dado a Maria pelos nossos contemporâneos.

“Tomando a natureza humana, disse o sr. Bispo de Rodes, o Verbo Divino apropriou-se de todos os elementos que a
compõem, no estado de perfeição a que a elevou a união hipostática – Debuit per omnia fratribus similiari (Hebr., II,
17).

Nosso Senhor possui no mais alto grau o sentimento do amor filial, um dos mais nobres do coração humano, e longe
de Se despojar dele depois da ressurreição e da Sua gloriosa ascensão, tê-lo-ia dilatado, fortificado e elevado no seu
mais sublime poder, se fora permitido dizê-lo, no Seu estado de bem-aventurada transfiguração, em que está
assentado à direita de Seu Pai.
Daqui é fácil de concluir que a augusta Virgem Maria possui sobre o Seu divino Coração um soberano poder, de que
Ela é verdadeiramente a Senhora ou a Rainha”[5].

[1] Inocêncio III, Prima collectio Decretalium, titul. XL, epist., t. I, p. 600, édit. Baluz.

[2] S. Tomas, Summ. I, p., q. 93, art. 3.


[3] Tertuliano, De Monogamia, cap. X.

[4] De Machault, Le Trésor dês grands biens de la T. S. Eucharistie, Nat. de la T. S. Vierge, III. p.

[5] Notice sur l’association em l’honneur de N. D. du Sacré-Coeur, no. 1.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - QUARTA CARTA / II - Parte


Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

QUARTA CARTA

II

A segurança de se reconhecerem os parentes no Céu tem consolado todos os santos. – O B. Henrique Suso. – S.
Tomás de Aquino. – S. Francisco Xavier. – Santa Tereza. – O seu pensar a respeito da felicidade de uma mãe. –
Felizes as pais que têm filhos religiosos.

Esta certeza de uma especial união com os nossos parentes na eterna bem-aventurança, é uma consolação tão pura
e tão doce que tem chegado a fazer as delícias dos próprios santos. Por todos os ventos do Céu, do Oriente, do meio
dia, do Ocidente e do Setentrião, nos chegam vozes que testemunham esta verdade.

A Alemanha apresenta-nos, entre muitos outros, o B. Henrique Suso, religioso da Ordem de S. Domingos. O seu
nome era Henrique Besg, mas preferiu o nome de Suso, que era o de sua mãe, para honrar a sua piedade e recordar-
se dela incessantemente[1].

Esta virtuosa mãe morreu numa Sexta-feira Santa, à mesma hora em que Nosso Senhor foi crucificado. Henrique
estudava então em Colônia. Ela apareceu-lhe durante a noite, toda resplandecente de glória:

“Meu filho, lhe disse, ama com todas as tuas forças o Deus onipotente, e fica bem persuadido de que Ele nunca te
abandonará em teus trabalhos e aflições. Deixei o mundo; mas isto não é morrer, pois que vivo feliz no Paraíso, onde
a misericórdia divina recompensou o imenso amor que eu tinha à Paixão de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

– Ó minha santa mãe, ó minha terna mãe, exclamou Henrique, amai-me sempre no Céu, como fizestes na Terra, e
não me abandoneis jamais nas minhas aflições!”

A bem-aventurada desapareceu, mas seu filho ficou inundado de consolação[2].

Em outra ocasião viu a alma de seu pai, que tinha vivido muito apegado ao mundo. Apareceu-lhe cheia de
sofrimentos e aflições, fazendo-lhe assim compreender os tormentos que sofria no Purgatório, e pedindo-lhe o
socorro das suas orações.
Henrique derramou tão ferventes lágrimas que alcançou quase logo a sua entrada no Paraíso, donde ele veio
agradecer-lhe a sua felicidade.[3]

Os gauleses poderiam reivindicar, quase tanto como os italianos, o Anjo da escola. A alma de S. Tomás de Aquino
não estava absorvida pela ciência, mas a caridade conservava em seu coração um lugar distinto para seus irmãos e
irmãs segundo a natureza.

Durante a sua estada em Paris, uma de suas irmãs lhe apareceu para dizer-lhe que estava no Purgatório. Pediu-lhe
que dissesse um certo número de missas, esperando que a bondade de Deus e a intercessão de seu irmão a livrariam
das chamas.

O Santo pediu aos seus alunos que orassem e dissessem missas pela alma de sua irmã.

Depois disto, quando ele estava em Roma, tornou-lhe a aparecer, dizendo que estava livre do Purgatório e já gozava
da glória do Céu, por virtude das missas que ele tinha dito ou feito dizer.

“– E quanto a mim, minha irmã, exclamou o Santo, nada sabeis?”

– Quanto a vós, meu irmão, sei que a vossa vida é agradável ao Senhor. Vireis muito breve reunir-vos a mim; mas o
vosso diadema de glória será muito mais belo do que o meu.

– E onde está meu irmão Landulfo?


– Está no Purgatório.
– E meu irmão Reinaldo?
– Está no Paraíso entre os mártires, porque morreu pelo serviço da Santa Igreja[4]”.

Na Espanha, encontramos S. Francisco Xavier, partindo para as Índias, e passando perto do castelo de seus pais.
Excitaram-no para que entrasse em casa de sua família, representando-lhe que, deixando a Europa para talvez nunca
mais a ver, não podia honestamente dispensar-se de visitar os seus naquela ocasião, e de dizer um último adeus a
sua mãe que ainda vivia.

Não obstante todas estas solicitações, o Santo seguiu caminho direto, e somente respondeu que se reservava para
ver seus pais no Céu, não de passagem e com o pesar que os adeuses causam ordinariamente, mas para sempre e
com uma alegria verdadeiramente pura[5].

Encontramos a ilustre reformadora do Carmelo, a seráfica Teresa de Jesus. Dentro das grades do seu convento,
apesar da austeridade da sua vida, cultivava em seu coração as puras afeições da família; e esperava que o Deus que
promete o cêntuplo a quem deixar tudo pelo seu nome (Math., XIX, 29), lhe restituiria centuplicado o amor dos seus
parentes no Céu.

Uma tarde, Teresa, encontrava-se tão incomodada e aflita que julgava não poder fazer oração, e tomou o seu
Rosário para orar verbalmente sem algum esforço de espírito. Que fez Nosso Senhor para a consolar? Ela mesma no-
lo diz por estas palavras:

“Tinham decorrido apenas alguns instantes, quando um arrebatamento veio, com irresistível impetuosidade, roubar-
me a mim mesma. Fui transportada em espírito ao Céu, e as primeiras pessoas que vi foram meu pai e minha
mãe”[6].

Sabeis, Senhora, que uma igual graça foi concedida à Senhora Acaria, que depois veio a ser carmelita no mesmo
convento de Pontoise, onde uma de vossas irmãs ora por vós e se santifica entre as filhas de Santa Teresa, e que é
agora honrada sob o nome de Beata Maria da Encarnação? Ela viu um dia seu esposo, um ano depois dele ter
falecido, no meio dos santos do Paraíso[7].
Deus compraz-se em tomar o coração da esposa cristã, como recebeu em suas mãos o pão no deserto (Marc. VI.,
41), para o multiplicar, abençoando-o tantas vezes quantas lhe dá filhos, que estão esfaimados do seu amor, aos
quais ela deve saciar, não só para glória do Senhor, mas também para a sua própria felicidade.

Santa Teresa louva uma piedosa senhora que, para ter posteridade, praticava grandes devoções e dirigia ao Céu
ferventes súplicas. “Dar filhos à luz que, depois da sua morte, pudessem louvar a Deus, era a súplica que
incessantemente dirigia ao Céu. Sentia muito não poder, depois do seu último suspiro, reviver em filhos cristãos, e
oferecer ainda por eles ao Senhor um tributo de bênçãos e de louvores”.

A austera carmelita diz de si mesma:

“Penso algumas vezes, Senhor, que vos comprazeis em derramar sobre aqueles que vos amam a preciosa graça de
lhes dar, em seus filhos, novos meios de vos servir.”

Diz ainda: “Demoro-me muitas vezes neste pensamento: Quando estes filhos gozarem no Céu das eternas alegrias, e
conhecerem que as devem a sua mãe, com que ações de graças lhe não testemunharão o seu reconhecimento, e
com que reduplicada ventura se não sentirá palpitar o coração desta mãe em presença da sua felicidade!”[8].

Eis o que pensaram, eis o que disseram, a respeito da família recomposta no Céu, santos que têm direito à auréola
da virgindade, e que passaram nalguma Ordem ou comunidade religiosa quase toda a sua vida.

Livrai-vos, pois, de acreditar que o filho que, desde seus primeiros anos, se consagra a Deus para sempre, olvide seu
pai, sua mãe e seus irmãos. Pelo contrário, o seu coração torna-se o depósito da caridade.

Se, pelas fendas das paixões, ela se escapasse de todos os outros para só deixar neles a indiferença e o
esquecimento, o seu guardaria este precioso tesouro para incessantemente o derramar por todos os canais da
virtude.

Tanto o religioso ancião, como o jovem, é ouvido muitas vezes pelo seu bom anjo durante o silêncio do sacrifício ou
da oração, dizendo ao Senhor: Memento, lembrai-vos de meus parentes que ainda vivem; memento, lembrai-vos de
meus parentes que já morreram; e abençoai uns e outros para além de quanto o meu coração pode desejar.

Feliz mãe que tivestes a ventura de poder dar a Jesus dois filhos e duas filhas para glória do seu nome e amor do seu
Coração; não temais que estes filhos sejam infiéis ao quarto preceito da lei divina.

Frutos separados da família, os religiosos, voltam-se muitas vezes, pela mesma força da sua tendência à perfeição da
caridade, para a árvore que os produziu, a fim de a louvar e abençoar. Todas as bênçãos, temporais ou espirituais,
que lhe obtêm de Deus, serão conhecidas somente no Céu.

[1] Oeuvres du B. Henri Suso, traduzidos por Cartier, prólogo p. XIII.

[2] Idem, idem, Vida, no. 39.

[3] Ib., Vida, no. 8.

[4] Acta sanctorum, VII martii, auctore Guillelmo de Troco, cap. VIII, no. 45

[5] Bouhours, La vie de Saint François Xavier, 1. 1.

[6] Vida de Santa Tereza, escrita por ela mesma, cap. XXXVIII.

[7] Boucher, Histoire de la B. Marie de l’Incarnation, publicada pelo Exmo. Bispo d’Orleans ; liv. VI, cap. VI, t. II, 264,
265.

[8] Le livre des fundations, chap. XI, XX, XXII.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - QUARTA CARTA / III - Parte


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

QUARTA CARTA

III

Conformidade de sentimento e de linguagem em todos os lugares. – S. Cipriano. – S. Teodoro Estudita. – Elogio


que faz de sua mãe. – Cartas de consolação que ele escreve. – Pura alegria dos esposos no Céu. – Santa Francisca
Romana e seu filho Evangelista. – Alegria dos pais e dos filhos no Paraíso.

Mas esquecia-me de que prometera percorrer todo o horizonte da Igreja, para vos mostrar a sua conformidade de
sentimentos e de linguagem sobre todos os pontos.

Na África, eis S. Cipriano que foi educado no paganismo, e só abraçou a continência depois da sua conversão. Eleito
Bispo de Cartago e condenado ao martírio, consolou os fiéis por ocasião duma epidemia que então grassava e que os
ameaçava de morte. Que lhes disse ele? Dirigiu-lhes palavras que a Santa Igreja recorda aos seus sacerdotes, na
oitava da festa de Todos os Santos. Ei-las:

“Visto que vivemos na terra como estrangeiros e viajantes, suspiremos pelo dia que nos conduzirá à nossa habitação
e nos reintegrará no Reino dos Céus. Qual é aquele que, estando exilado, não se apressaria a voltar à sua pátria?

Qual é aquele que, obrigado a regressar por mar aos lares pátrios, não desejaria ardentemente um vento favorável,
a fim de poder mais cedo abraçar aqueles que lhe são queridos?

A nossa pátria é o Paraíso, e os patriarcas, nossos antepassados, já aí nos precederam. Apressemo-nos, pois, e
corramos para ver a nossa pátria e saudar os nossos maiores! Somos esperados por um grande número de pessoas
que nos são queridas; somos desejados por uma grande multidão de parentes, de irmãos e de filhos que, seguros da
sua imortalidade, se conservam ainda solícitos pela nossa salvação. Ir vê-los, ir abraçá-los, ah! que alegria para nós e
para eles![1]”

Entre os gregos, em Constantinopla, um dos campeões mais intrépidos da ortodoxia contra os iconoclastas do
Oriente, S. Teodoro Estudita, tinha entrado em religião na idade de vinte e dois anos, sob a direção dum tio materno,
a quem sucedeu no governo. Teve a ventura de fazer, na presença de todos os religiosos, o elogio fúnebre de sua
mãe, panegírico que o cardeal Mai traduziu e publicou, elogio que um coração amoroso não pode ler sem uma
profunda comoção. Apenas soube que a sua enfermidade era mortal, escreveu-lhe uma carta afetuosa e
consoladora, em que chegou a dizer:

“Ó minha mãe, se me retivessem somente cadeias de ferro, o amor que vos consagro as quebraria, e teríeis a alegria
de me ver ainda. Mas, vós o sabeis, outros vínculos me retêm, vínculos que era indigno de gozar; e posso somente
fazer-me representar junto de vós, por alguém que vos é agradável e querido”[2].
No elogio que dela fez, diz que esta mãe, verdadeiramente cristã, ia todas as noites, quando seus filhos estavam
deitados, fazer sobre eles o sinal da cruz; conta como ela levou após de si para a vida religiosa seu marido, três
filhos, uma filha e três cunhados; diz com que docilidade ela foi mais tarde submissa a ele próprio.

Teodoro termina a exposição das admiráveis virtudes desta heróica mulher, por este brado dum coração ternamente
filial:

“Oh, minha mãe e minha filha, oh vós que fostes duas vezes minha mãe, quanto desejo tornar-vos a ver! Vós habitais
com todos os santos, no meio das solenidades e das alegrias do Céu; habitais com os nossos irmãos que tanto
amáveis nesta vida. Ah! não vos esqueçais de mim que sou o mais pequeno de vossos filhos; mas orai, orai por mim
com mais instância do que em tempo algum. Dirigi-me, fortalecei-me e preservai-me de todos os perigos do pecado.
Visitai-me por uma presença espiritual – Spiritali praesentia visita – e fazei ainda por mim o que fazíeis na minha
infância: conduzi, observai como me levanto, como me deito, observai as agitações da minha alma e do meu corpo, a
fim de que, depois da presente vida, obtenha estar com meus discípulos debaixo da vossa proteção, e ocupar um
lugar convosco à direita de Jesus Cristo nosso Deus”[3].

Este ilustre confessor da fé consolou muitas famílias aflitas. A um pai que tinha perdido todos os seus filhos,
escrevia:

“Vossos filhos não estão perdidos, mas antes existem sãos e salvos para vós; e quando chegardes ao termo desta
vida temporal, torná-los-eis a ver cheios da mais pura e santa alegria”[4].

Também escrevia a uma viúva:

“O Deus que vos tirou do nada para dar-vos a existência, o Deus que vos conduziu a uma idade florescente para vos
unir a um homem ilustre, saberá unir-vos ainda outra vez a ele pela ressurreição. Olhai, pois, a sua partida como
uma viagem. Não vos resignaríeis se um rei da terra a ordenasse? Resignai-vos, portanto, com esta ausência, pois
muito bem sabeis que aquele que ordenou esta viagem é o verdadeiro Rei, o único Rei do universo. Exorto-vos a
isso, e espero que possuireis novamente vosso marido no dia do Senhor”[5].

A um homem que acabava de perder sua mulher dirigiu também as seguintes linhas:

“Foi para junto de Deus que enviastes uma tão digna esposa; não será isto bastante para vossa consolação? E que é
o que deveis procurar agora? Deveis trabalhar para encontrar no Céu, no momento fixado pela Providência, esta
excelente companheira que se regozijará convosco, por todos os séculos, na participação de bens inefáveis”[6].

Sem dúvida, aqueles que na terra se acharem ligados pelo vínculo matrimonial, subindo ao Céu, serão como os
anjos: Neque nubent, neque nubentur (Matth. XXII, 30). Mas, despidos de toda a sensualidade, gozarão sempre do
casto prazer do espírito, e se recordarão que, na terra, não só foram dois corações num e duas almas numa, como os
primeiros cristãos (Act., VI, 32), mas também uma só carne, como os nossos primeiros pais (Gen., II, 24; - Matth., XIX,
6).

Na Itália, Santa Francisca Romana foi casada, teve filhos e, depois de viúva, fez-se religiosa.

Despertando do sono ao romper da aurora de certo dia, levantava seu coração para Deus, e abaixava os olhos para
sua jovem filha que dormia perto dela. De repente, viu o seu quarto cheio duma nova luz, no meio da qual apareceu
um de seus filhos que, havia um ano, tinha falecido. A sua estatura e todo o seu exterior era o mesmo que quando
vivo; mas a sua beleza era incomparavelmente mais arrebatadora: chamava-se Evangelista.

Este filho, sempre amoroso, aproximou-se de sua mãe, e saudou-a com profundo respeito e uma graça encantadora.
Que fez então Francisca, transportada duma inexplicável alegria? O que toda a mãe teria feito: estendeu ávidos os
braços para estreitar ainda uma vez contra o peito este filho querido. E que lhe disse? O Céu é a lembrança de tua
mãe: Num matris suae meminisset in coelis.

– “Ó minha mãe, respondeu Evangelista, vede se penso em vós e se vos amo! Não divisais um outro menino, de pé, a
meu lado, duma beleza muito superior à minha? É meu companheiro no coro dos arcanjos, pois o meu lugar no Céu
é no segundo coro da hierarquia angélica. Todavia, este arcanjo está colocado na glória em grau superior ao meu, e
contudo, Deus vo-lo dá. Deus vai deixa-lo ocupar junto de vós o meu lugar e o de minha irmã Inês que, muito
brevemente, voará ao Paraíso, para aqui gozar comigo das alegrias eternas. Este celestial espírito vos consolará na
vossa peregrinação, vos acompanhará assiduamente e permanecerá dia e noite ao vosso lado, de maneira que o
possais ver com os vossos próprios olhos”.

Este colóquio durou por espaço de uma hora; e, antes de se ausentar, o filho pediu a sua mãe licença para regressar
ao Céu, deixando-lhe o arcanjo[7].

Se já lestes a vida de Santa Francisca Romana, composta por um nobre e zeloso católico da vossa província, não
podeis ignorar o importante papel que desempenhou junto desta santa mulher, o arcanjo, este celestial
companheiro, devido às orações dum filho que a precedera na pátria dos escolhidos[8].
Deus é sempre admirável em seus santos (Ps. LXVII, 36). O que acabais de ver, mostra que o não é menos pela
delicadeza das consolações de que inunda o seu coração, do que pela grandeza das provas ou dos milagres de que se
serve para os conduzir à perfeição ou para fazer brilhar a sua santidade. Em volta deles, disse um orador francês, que
foi confessor de Henrique IV, em volta deles estarão seus parentes, seus amigos, seus aliados e todos aqueles que
lhes forem iguais em glória: todos, muito nobres, muito santos, muito sábios, muito opulentos, muito afáveis, muito
eminentes, muito agradáveis de condição, de excelente temperamento, de belas maneiras, de inteligência, de
coração, de discrição e de todas as virtudes; todos, lírios sem más ervas, rosas sem espinhos, ouro sem liga, grão sem
palha e trigo sem joio!

E, ainda que o seu número seja grande, todos se conhecem reciprocamente, e conversam com tanta familiaridade
como se o seu número fosse pequeno.

Então o filho agradecerá a seu pai a sã instrução que lhe tiver procurado, e a filha a sua mãe os bons exemplos que
lhe tiver dado. Deus vos recompensa, minha muito querida e digna mãe, dirá a filha, Deus vos inunda para sempre
de felicidade por tantos cuidados, que tivestes de mim! Sois minha mãe e duplamente minha mãe; porque me
destes a vida temporal e a eterna. Foi por meio de vós que a divina bondade me tornou tão feliz.

– Bendito seja Deus, minha filha, bendita sejas tu nele para sempre! A tua bem-aventurança é um apanágio da
minha, e esta é uma adição da tua; amemos o Senhor e louvemo-lo incessantemente. Felizes as entranhas que te
geraram e o seio que te amamentou, e um milhão de vezes bendito ainda mais Aquele de quem possuímos todas as
coisas! Glória a Ele, honra, luz e bênção em todos os séculos dos séculos[9].

Eis aqui, Senhora, a conversa que tereis, eis a felicidade que gozareis tantas vezes quantos filhos tiverdes.

Todavia, Deus não se contentará somente com vos consolar pelas alegrias da família que recomporá no Céu; mas
ainda multiplicará vossas consolações pelas doçuras da amizade que ali transplantará.

[1] S. Cipriano, De Mortalitate, in fine. – Brev.

[2] S. Teodoro Estudita, Epist. lib. I, epist. VI.

[3] Ibid., Epist., lib. I, ep. 29, Leoni orphanotropho

[4] Ibid., Oratio, XII, Laudatio funebris in matrem suam, no. 14

[5] Ibid., Epist. 1, II. Ep. 110. Uxori Demochari.

[6] Ibid., 1. II, ep. 186, Nicethoe spathario.

[7] Acta sanctorum, IX martii, Vita Sanctae Franciscae, cap. III, nos. 21,22, 23.
[8] Vie de Sainte Françoise Romaine, pelo visconde Bussiére, cap. VI

[9] Sermons sur lês principales et plus difficiles matières de la foi, pelo r. P. Cotou, da Companhia de Jesus, confessor
e pregador ordinário do rei, reduzidos por ele mesmo à forma de meditações. – Rouen, 1926, Du Paradis, meditação
XXIa.
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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Quinta carta/ Parte 1


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

QUINTA CARTA

Reconhecimento dos amigos ou a amizade no Céu

Todos os santos se têm comprazido no pensamento de reconhecer e amar ainda no Céu os seus amigos. –
Sentimentos do B. Etelredo. – Palavras do P. Rapin. – Santo Ambrósio. – O Santo Cura d'Ars.

SENHORA,

Além do estreito círculo da família, pode a amizade estender a vasta esfera das nossas afeições.

O Homem-Deus quis ter amigos na terra, e dignou-se reuni-los em volta de Si no Céu. A Seu exemplo, os mais santos
personagens deixaram dilatar o amor de seu coração; todos tiveram amigos escolhidos entre mil, e todos se têm
regozijado com o pensamento de os reconhecerem e amarem ainda na eterna glória.

Também escreveram admiráveis páginas a respeito da verdadeira e perfeita amizade, que é toda espiritual.

Apenas vos citarei uma que diz particular respeito ao nosso assunto. É do bem-aventurado Etelredo ou Aelredo,
contemporâneo de S. Bernardo e abade da ordem dos Cistercienses, na Inglaterra. É uma conversa com um amigo.

Aelredo. Suponhamos que não haja neste mundo pessoa alguma além de vós, e que todas as delícias, com todas as
riquezas do universo, estejam à vossa disposição, ouro, prata, pedras preciosas, cidades muradas, acampamentos
fortificados por torres, grandes edifícios, esculturas e pinturas. Suponhamos ainda que estejais restabelecido no
antigo estado, e que todas as criaturas vos sejam submissas como ao primeiro homem. Pergunto-vos: Todas estas
coisas poderiam ser-vos agradáveis sem um companheiro?

Gualter. Não, por certo.

Aelredo. Mas se tivésseis somente um companheiro cuja língua ignorásseis, cujos costumes desconhecêsseis, e cujo
coração e espírito vos fossem ocultos?
Gualter. Se, por qualquer sinal, eu não pudesse saber se sim ou não ele era meu verdadeiro amigo, desejaria antes
estar só do que ter um tal companheiro.

Aelredo. Mas se houvesse alguém a quem amásseis como a vós mesmo e que vos amasse também do mesmo modo,
sem que nenhum de vós o pudesse duvidar, todas as coisas que até ali vos apareciam amargas não se vos tornariam
doces e suaves?

Gualter. Sim, certamente.

Aelredo. Não será ainda verdade que quanto maior fosse o número de tais amigos, mais feliz vos julgaríeis?

Gualter. É muito verdade.

Aelredo. Eis precisamente a grande e admirável felicidade que esperamos gozar no Céu. Deus operará, Deus
derramará, entre si e a criatura que tiver elevado ao Paraíso, entre os graus, ou ordens que tiver distinguido, entre
todos os predestinados que tiver escolhido, uma tão grande amizade, uma tão grande caridade, que se amarão
reciprocamente como a si mesmos. Resultará deste mútuo amor o regozijar-se cada um com a felicidade do próximo
tanto como com a sua própria. Assim a felicidade de cada um será comum a todos, e a soma destas bem-
aventuranças, será própria a cada um.

Ali nenhum pensamento será oculto, ali nenhuma afeição se dissimulará, tal é a eterna e verdadeira amizade que
tem princípio na terra e se completa no Céu; que na terra pertence a um pequeno número, porque também aqui são
poucos os bons, mas que no Céu pertence a todos, porque todos ali são bons.

Neste mundo é necessário experimentar nossos amigos, porque os sábios estão misturados com os tolos; no Céu
não há necessidade de se ser provado, porque todos gozam duma perfeição angélica e quase divina.

Procuremos, pois, encontrar semelhantes amigos, que nos amem e a quem amemos como a nós mesmos, que nos
descubram todos os seus segredos, e a quem descubramos todos os nossos, que sejam firmes, estáveis e constantes
em todas as coisas.

Com efeito, pensais vós que se encontre alguém entre os mortais que não queira ser assim amado?

Gualter. Não creio.

Aelredo. Se vísseis alguém, vivendo no meio dum grande número de homens e tendo-os a todos por suspeitos,
temendo-os mesmo como se quisessem atentar contra a sua vida, não amando pessoa alguma e crendo não ser
amado por ninguém, não o consideraríeis o mais desgraçado de todos?

Gualter. Sem dúvida.

Aelredo. Não negareis, pois, que o mais feliz será aquele que habita e repousa no coração daqueles entre os quais
vive, que os ama a todos e que é igualmente amado, sem que esta suavíssima tranqüilidade seja diminuída pela
suspeita ou repelida pelo temor.

Gualter. Muito bem, certissimamente.

Aelredo. Se é difícil que todos obtenham esta felicidade no presente, ao menos o futuro no-la reserva; e julgar-nos-
emos tanto mais felizes no Céu, quanto maior for o número de semelhantes amigos que tivermos na terra.

Antes de ontem passeava eu em volta do mosteiro, enquanto meus irmãos reunidos e assentados formavam a mais
amável companhia, e como se estivera no meio das delícias do Paraíso, admirava as folhas, as flores e os frutos
destas místicas árvores. Não divisando nesta multidão pessoa alguma que não amasse, e de quem não tivesse a
segurança de ser amado, fiquei inundado duma tão grande alegria que excedia a todos os prazeres deste mundo.
Sentia o meu coração entornar-se em todos, e os corações de todos entornarem-se em mim, de sorte que dizia com
o Profeta:

“Oh! como é bom; oh! como é agradável viver unidos como irmãos (Ps. CXX11, 1)”[1].

Estes sentimentos do bem-aventurado Aelredo justificam estas palavras de um autor mais moderno:

“Ah! se eu tivera expressões assaz ternas e fortes para descrever a doçura das castas e espirituais amizades que
terão lugar no Céu, onde não se amará senão pelo espírito, e para explicar todas as santas ternuras, que os bem-
aventurados terão uns para com os outros, e as comunicações amorosas em que os impuros vapores da carne e todo
o comércio vergonhoso dos sentidos não terão parte; que prazeres e que delícias não faria eu sentir às almas puras
que só aspiram ao gozo destas celestes afeições, que farão uma das grandes felicidades da outra vida, porque
estarão misturadas com o gozo do mesmo Deus, e com as inefáveis doçuras de seus divinos abrasamentos! Que
poderá aqui haver de delicioso aos sentidos que mereça ser comparado a estes prazeres? Se uma amizade sincera,
honesta, fiel e inocente faz muitas vezes a doçura desta vida, que fruto se não tirará destas espirituais amizades, que
se praticarão no Céu, acompanhadas de todas estas circunstâncias? E se um amigo seguro e fiel pode, na terra,
tornar um outro amigo feliz, qual será a felicidade da vida eterna, onde todos os bem-aventurados serão verdadeiros
amigos?”[2].

Ora, uma das alegrias destes verdadeiros amigos será reconhecerem-se na Igreja Triunfante, assim como na Igreja
Militante é também uma das suas alegrias vazarem o coração no seio uns dos outros.

Assim pensava Santo Ambrósio, quando comentava estas palavras de Nosso Senhor: “Vós sóis meus amigos, porque
vos revelei tudo o que aprendi de meu Pai” (Joan., XV. 15).

“Por estas palavras, diz ele, deu-nos, o Salvador, a forma da amizade que devemos seguir. É necessário que
revelemos ao nosso amigo todos os segredos que se encerram no nosso coração, e que não ignoremos também os
seus. Abramos-lhe, pois, o nosso coração, e que ele nos abra igualmente o seu.

Um amigo nada tem de oculto. Se ele é sincero, patenteia o seu espírito, como Jesus patenteava os mistérios de seu
Pai”[3].

Assim pensava esse humilde e santo padre de nossos dias, que foi um grande apóstolo sem sair da sua pobre aldeia
onde a multidão o visitava quando vivo e o visita ainda depois da sua morte. Eis aqui algumas das suas consoladoras
frases:
Com quem estaremos no Paraíso? Com Deus que é nosso Pai, com Jesus Cristo que é nosso Irmão, com a Santíssima
Virgem que é nossa Mãe, com os anjos e os santos que são nossos amigos. Um rei dizia com bastante pesar em seus
últimos momentos:

“É necessário, pois, que eu deixe o meu reino a fim de ir para um país onde não conheço ninguém!

É que ele nunca tinha pensado na felicidade do Céu. É preciso desde já arranjarmos verdadeiros amigos, a fim de os
tornarmos a encontrar depois da morte; e não teremos receio, como este rei, de não conhecermos ninguém”[4].

Não disse o próprio Salvador:

“Empregai as riquezas injustas em obter amigos, a fim de que, quando morrerdes, eles vos recebam nos eternos
tabernáculos?” (Luc. XVI. 9).

[1] B. Aelredus, De spiritali amicitia, lib. 111.

[2] P. Rapin, La Vie des prédestinés dans la B. Eternité, cap. IX

[3] Santo Ambrósio, De Officiis, liv. III, cap. XXII, no. 135.
[4] O Santo cura d’Ars, Vie de J. B. Marie Vianney, por Alfredo Monuin, liv. IV, cap. XV, homilia para a última dominga
do ano.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Quinta carta/ Parte 2


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Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

II

Flor duma especial e santa amizade no Paraíso. – Durar assim para sempre é também da verdadeira amizade,
segundo S. Jerônimo. – A santa amizade é o prelúdio ou o gozo antecipado do Céu, segundo S. Francisco de Sales.
– Célebre visão de S. Vicente de Paulo. – A continuação da amizade depois da morte consolou S. Gregório
Nazianzeno, Santo Agostinho e S. Cipriano.

Talvez vos pareça que só tenho falado, até aqui, dessa geral amizade que existirá no Céu entre todos os religiosos
que vivem na mesma comunidade. Mas não se aplicará com mais razão, tudo o que tenho dito, a essa flor duma
especial e santa amizade, que o tempo vê algumas vezes germinar entre dois corações pela virtude do sangue de
Jesus Cristo? Crede firmemente que esta flor, depois de ter feito as vossas delícias na terra, continuará a exalar o seu
perfume na bem-aventurada eternidade, para embalsamar a corte celeste e dar aos santos mais uma alegria.

Os doutores consideram ainda como essencial à amizade, o poder seguir-nos assim até ao seio de Deus.

A afeição que não possa entrar onde nada penetrará que não seja puro, é indigna do nome de amizade. Diz S.
Jerônimo: Amicitia quae desinere potest, vera nunquam fuit – a amizade que pode acabar nunca foi verdadeira[1].
Logo que ela não pode ser eterna, não é real; desde que não merece durar sempre, só é aparente ou impura.

A verdadeira, a sincera, a virtuosa e santa amizade sobrevive a todas as separações da morte, para reunir nas
sublimidades do Céu, no ápice da bem-aventurança, os corações e as almas que ela unia neste vale de lágrimas e de
misérias.

Quem não leu estas linhas em que S. Francisco de Sales considera a verdadeira amizade como prelúdio ou ante-
gosto do Céu?

“Se a vossa mútua e recíproca comunicação, diz ele, se transforma em caridade, em devoção, em perfeição cristã, ó
Deus, quanto será preciosa a vossa amizade! Ela será excelente, porque vem de Deus, excelente porque tende a
Deus, excelente porque o seu liame é Deus, excelente porque durará eternamente em Deus.
Oh! como é bom amar na terra como se ama no Céu, e aprendermos a querer-nos mutuamente nesta vida como nos
queremos e nos amaremos eternamente na outra! O delicioso bálsamo da devoção destila-se dum dos corações no
outro, por uma contínua participação, de sorte que se pode dizer que Deus derramou sobre esta amizade a sua
bênção e a vida, por todos os séculos dos séculos. Esta casta união nunca se converte senão em uma união de
espíritos, mais perfeita e pura, imagem viva da bem-aventurada amizade que se exerce no Céu”[2].
É um exemplo desta bem-aventurada amizade o próprio fundador e a fundadora da Visitação. S. Vicente de Paulo foi
dela testemunha, numa célebre visão que refere nestes termos:

“Tendo esta pessoa (ele mesmo) notícia da perigosa enfermidade da nossa defunta, ajoelhou para orar a Deus por
ela; e imediatamente depois, apareceu-lhe um pequeno globo como de fogo, que se elevava da terra, e ia reunir-se,
na região superior do ar, a um outro globo maior e mais luminoso, e ambos reunidos se elevaram mais, entraram e
derramaram-se noutro globo infinitamente maior e mais luminoso do que os outros; e foi-lhe interiormente dito que
este primeiro globo era a alma da nossa digna mãe (Santa Chantal), o segundo, a do nosso bem-aventurado pai (S.
Francisco de Sales), e o terceiro, a Essência Divina; que a alma da nossa digna mãe se tinha reunido à do nosso bem-
aventurado pai, e ambas a Deus, seu soberano princípio. Além disso, a mesma pessoa, que é um padre, celebrando a
santa missa pela nossa digna mãe, como se de repente tivesse recebido a notícia do seu feliz passamento, e estando
no segundo Memento em que se ora pelos mortos, pensou que faria bem em orar por ela; e viu novamente a
mesma visão, os mesmos globos e a sua união”[3].

Quando a morte vos arrebatar alguma pessoa querida, não tenhais, pois, algum escrúpulo de vos consolar,
repetindo: Ela não me esquece; ora por mim e vela sobre mim. Permanecemos unidas!

Assim se consolava S. Gregório Nazianzeno depois da morte de S. Basílio, seu perfeito amigo:
“Agora, dizia ele, Basílio está no Céu. É lá que oferece por nós os seus antigos sacrifícios e recita pelo povo novas
orações. Porque, indo-se desta vida, não nos deixou inteiramente. Vem ainda algumas vezes advertir-me por meio
de visões noturnas, e repreende-me quando me desvio do meu dever”[4].

Santo Agostinho também se consolava do mesmo modo, depois que um dos seus amigos foi transportado pela
morte à eterna bem-aventurança. “É aí, escrevia ele, que vive o meu Nebrídio, ele, meu doce amigo, ele, vosso filho
adotivo, ó Senhor! É aí que ele vive, é aí que sacia à vontade a sede da sabedoria. Contudo, não penso que ele esteja
inebriado desta sabedoria até ao ponto de se esquecer de mim. E, como se esqueceria ele, visto que vós mesmo,
Senhor, vós, de quem se inebria o meu amigo, vos lembrais de nós?”[5].

A mesma consolação tomava um santo bispo, escrevendo a um santo Papa, prevendo a morte que não podia tardar
em feri-los:

“Lembremo-nos um do outro, em toda a parte e oremos sempre um pelo outro, adocemos nossos pesares e
angústias com o nosso mútuo amor; enfim, se um de nós, por um efeito da bondade divina, preceder o outro no
Céu, que a nossa amizade dure ainda junto do Senhor, e que a nossa oração não cesse de solicitar a misericórdia do
nosso Pai, em favor dos nossos irmãos e irmãs”[6].

[1] S. Jerônimo, Epist. I, class. epist. III, no. 6.

[2] S. Francisco de Sales, Introduction à la vie dévote, IIIa. p., cap. XIX e XX.

[3] Abelly, Vie de saint Vincent de Paul, t. II, cap. VII.

[4] S. Gregório Nazianzeno, Oratio XLIII, no. 80.

[5] Santo Agostinho, Confess., liv. IX, cap. III, no. 3.

[6] S. Cypriano, Epist., LX, Cornélio, fin.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Quinta carta/ Parte 3


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Pe. Francisco Soares da Cunha

III

Podemos mesmo excitar-nos ou animar-nos pela esperança de nos unirmos a um amigo junto de Deus. – Grandes
santos foram sensíveis a esta esperança. – Confissão de S. Francisco Xavier. – União sobrenatural de dois corações.
– Gradação no parentesco espiritual das almas. – Fraternidade inteiramente espiritual e de escolha.

Podeis ainda ir mais longe. Depois de vos terdes primeiramente consolado, de alguma sorte, pela firme esperança de
que a vossa amiga oraria mais eficazmente por vós, se fosse a primeira a subir ao Céu, regozijar-vos-eis também de
ali vos reunirdes a ela com o pensamento, e lhe direis: Estaremos um dia reunidas no Paraíso, sim, reunidas junto de
Deus: quanto mais nos amaremos então!

Mas talvez se encontre alguém que tente repelir violentamente todos estes sentimentos dum coração amoroso,
dirigindo-vos esta censura: “Quê! animar a vossa coragem e excitar-vos a sustentar generosamente os combates
deste mundo, em parte pela esperança de vos repousardes no Céu sobre o coração das pessoas que amais, não será
uma clara e grosseira imperfeição?”

Respondei que os maiores santos foram sensíveis, ainda mais do que vós, a esta esperança, e que desejavam gozar,
ainda na eternidade, dos castos abraços de seus amigos. O apóstolo das Índias e do Japão confirma isto mesmo por
sua confissão, feita ao fundador da Companhia de Jesus.

“Dizeis, escrevia S. Francisco Xavier a Santo Inácio, no excesso da vossa amizade por mim, que desejaríeis
ardentemente ver-me ainda uma vez antes de morrer. Ah! só Deus, que vê o interior dos nossos corações, sabe quão
viva e profunda impressão causou em minha alma este doce testemunho do vosso amor para comigo. Cada vez que
me lembro dele, e isto acontece muitas vezes, involuntárias lágrimas me rebentam dos olhos; e se a deliciosa idéia
de que poderia abraçar-vos ainda uma vez, se apresenta ao meu espírito (porque, por mais difícil que isto pareça à
primeira vista, não é coisa que a santa obediência não possa efetuar), encontro-me num instante surpreendido por
uma torrente de lágrimas que nada pode fazer parar”[1].

“Peço a Deus que se nos não pudermos tornar a ver na terra, gozemos unidos, na feliz eternidade, do repouso que
se não pode encontrar na vida presente[2]. E efetivamente, não nos tornaremos a ver na terra senão por meio de
cartas; mas, no Céu, ah! será face a face! E então, como nos abraçaremos!”.[3]

Com efeito, quem poderá descrever os transportes de alegria que dois amigos experimentarão, um pelo outro, no
Céu, depois de se terem mutuamente excitado à perfeição, e de terem verificado estas palavras da Escritura: “O
amigo fiel é um remédio que dá a vida e a imortalidade, e aqueles que temem o Senhor encontram um tal amigo”
(Eccl., VI, 16).

Escutai, sobre esta amizade dos santos, um autor que merece ser citado ainda uma vez:

“Dominado, neste mundo o nosso coração pelas sensíveis impressões, e não julgando o mais das vezes senão por
elas, nem sempre se dá conta exata das delícias desta união sobrenatural das almas. Admite-as pela fé, mas são-lhe
mistério; mostra-se-lhe ordinariamente insensível, porque as não compreende. Algumas vezes, contudo, desprende-
se do oceano da divina graça um como raio que, rompendo a nuvem dos sentidos, vem iluminar certas almas
privilegiadas e dar-lhes um ante-gosto destas inefáveis uniões que são, à vista das da natureza, o que seria um
perfume emanado do Céu ao pé dos mais esquisitos perfumes da terra.
Vê-se algumas vezes, e mesmo não é raro, na vida dos santos, uma alma unida a outra por uma destas misteriosas
atrações, fortes e serenas, que admiram e confundem a natureza. A alma que assim ama, vê na sua amiga uma
companheira duma beleza inexplicável, cujos espirituais encantos ela aprecia como tipo divino, em conformidade do
qual fora feita. Vê nela a imagem de Deus, e só esta imagem; emprega todos os meios, ofertas, sacrifícios e orações,
para que ela se torne cada vez mais semelhante ao modelo, para assim aumentar a sua amabilidade e amá-la ainda
mais. São como duas irmãs, saídas à luz no mesmo dia, do lado de Jesus no Calvário, pelos mais dolorosos
sofrimentos.

No Céu, este parentesco espiritual terá uma graduação análoga à da natureza: uma hierarquia de pais, de filhos, de
irmãos e de irmãs. “Os bem-aventurados verão um pai em todo o homem que, pela efusão do seu sangue, de seus
suores e orações, os tiver, de perto ou de longe, gerado em Jesus Cristo; e este homem contará tantos filhos muito
amados quantas as almas que tiver lucrado para o seu Deus.

Oh! quanto será bela esta paternidade! Quão ricos e preciosos serão os tesouros da sua fecundidade!

O cego mundo apieda-se destas almas sobre-humanas que, calcando aos pés os atrativos e as seduções da natureza,
renunciam às alegrias mais legítimas da família; e não vê que, em troco do seu sacrifício, Deus as dotará com uma
outra família, que lhes fará gozar duma felicidade e de consolação incomparavelmente mais doces do que jamais
sentiu alguma mãe da terra.

Um dia seremos testemunhas disto, e veremos quanto estas almas eram mais dignas de inveja do que de
compaixão. Assim, a glória terá a sua doce fraternidade, formada entre duas ou mais almas por vínculos próprios e
pessoais. Esta especial fraternidade nascerá primeiramente dessas ligações que uma comunidade de deveres, de
regras e de práticas, forma entre todos os filhos do mesmo pai ou da mesma mãe espiritual.
Nascerá, em segundo lugar, daquelas cadeias mais particulares que uma comunhão de boas obras e de orações
forma por si entre duas almas, unidas uma à outra por um atrativo comum para com Deus: simpatia de todo o ponto
celeste, afeição inteiramente divina de dois corações, dando-se o ponto de reunião no Coração de Jesus, cioso da
perfeição um do outro, e pondo todo o ardor do seu zelo em procurá-la e aumentá-la”[4].

Tendes admirado, Senhora, tendes abençoado esta fraternidade inteiramente especial, esta doce e santa amizade,
unindo sob a vossa vista maternal, duas almas que pareciam ser-vos igualmente queridas, e que honravam a Virgem
das Virgens mais ainda imitando a sua piedade do que possuindo o seu nome.

Agora que uma delas, vossa filha por natureza, subiu ao Céu, a outra ficou junto de vós como filha por adoção. A sua
presença é-vos deliciosa, como muitas vezes me dissestes, porque credes encontrar nela a vossa filha muito querida.
Encontrá-las-eis unidas no Paraíso, encontrá-las-eis continuando a santa intimidade da sua recíproca afeição,
encontrá-las-eis, finalmente, rivalizando para convosco em respeito e amor.

A vossa própria felicidade aumentará muito à vista desta venturosa união.

[1] Lettres de saint François Xavier, traduzidas por A. M. F., t. II, p. 203, carta XCIII no. 3.

[2] Ibid., t. I, p. 161, carta XLIII, no. 4.

[3] Ibid., p. 8, carta II, no. 1.

[4] Marcos, Le Ciel, apêndice, IIIa. questão.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sexta carta/ Parte 1


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Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

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Pe. Francisco Soares da Cunha

SEXTA CARTA

O homem conhece os anjos, ou a união dos anjos e dos homens no Céu

Deus renovará o Céu e a terra para que gozemos dos seres materiais. – Comparação de S. Tomás. – Comparação
de S. João Crisóstomo. – Quanto mais nos fará ele gozar dos puros espíritos! – No Céu, estaremos colocados entre
os anjos. – As crianças formarão como que um décimo coro. – Visão de santa Francisca Romana.

SENHORA,

Deus não se contenta de nos conceder somente a bem-aventurança essencial, a visão e o gozo do bem incriado, que
é Ele mesmo.

Está tão longe de nos recusar a parte da bem-aventurança acidental, que é o conhecimento e o amor dos nossos
parentes e amigos, que multiplicará as alegrias e prazeres para os olhos, língua, gosto, olfato, tato e ouvidos; numa
palavra, para todos os sentidos do nosso corpo[1]. “Renovará mesmo o Céu e a terra” (Isai. LXV, 17). – (Apoc., XXI, 1)
para que gozemos tanto pelos nossos sentidos como pelo nosso espírito, dos seres privados de razão.

“Se os corpos, disse S. Tomás, nada mereceram por si mesmos, mereceu o homem por eles: mereceu que a glória
lhes fosse dada, para aumentar a sua própria glória. Assim, quando alguém adquire uma nova dignidade, é justo que
os seus vestidos recebam mais belos ornamentos em testemunho da sua nova glória”[2].

S. João Crisóstomo emprega duas outras comparações. “Quando um príncipe real, diz ele, toma posse do trono
paterno, a ama que o criou não receberá novos benefícios, novas graças? Ora, as criaturas materiais, são nossas
amas. Quando um filho deve aparecer em público revestido de alguma dignidade, não tem o pai cuidado para honrá-
lo, de dar a seus criados um vestuário mais esplêndido? Assim também quando o nosso Pai celeste nos apresentar
no mundo superior, com a branca toga da virilidade, com as insígnias devidas ao nosso grau, aumentará a nossa
glória, revestindo dum brilho incorruptível os seres materiais que são nossos servos”[3].

Quanto mais devem gozar os santos, assim antes como depois da ressurreição bem-aventurada, dos puros espíritos
que dominam as outras criaturas, e com os quais temos, por parte da nossa alma, um verdadeiro parentesco? Nós já
os amamos e honramos. Mas, além disso, então vê-los-emos e cada um de nós conhecerá o seu amável guarda.

Seremos colocados no Céu entre os coros angélicos, num lugar determinado pelo grau dos nossos merecimentos ou
pela natureza das nossas virtudes[4]. O quarto abade de Claraval, pregando de S. Bernardo, no ano de 1163,
recordava-o aos religiosos como coisa conhecida de todos, e mostrava-lhes como o seu glorioso predecessor
merecia ser provido a todas as ordens ou graus angelicais, pelas qualidades que desenvolvera e pelos ministérios
que cumprira[5].

S. Tomás crê que algumas almas bem-aventuradas já têm os seus tronos nas graduações mais elevadas dos espíritos
celestes, donde vêem a Deus mais claramente do que os anjos inferiores[6]. Nenhum coro angélico será excetuado;
mas todos verão, cedo ou tarde, os tronos vagos pela queda dos espíritos rebeldes ocupados pelos homens.
S. Boaventura partilha esta opinião, e pensa que os bem-aventurados que não chegam em merecimento ao nível dos
anjos menos elevados em glória, formam uma décima ordem ou um décimo coro[7].

Neste estão, sem dúvida, colocados os meninos que, arrebatados pela morte, não puderam ajuntar algum
merecimento pessoal à graça do seu batismo: anjos benditos a quem suas mães invocam para se consolarem da
pena de os não verem mais neste mundo, e que são os protetores de suas famílias.

Portanto, de que mal se tornam culpadas tantas mulheres cristãs que recuam diante das dores do parto ou dos
trabalhos da educação! E de que alegrias se não privam elas para sempre, recusando povoar o Céu de pequenos
anjos, que viriam saudá-las à sua entrada na glória e formariam eternamente a sua corte?

Enquanto vós, mais feliz, vereis os vossos numerosos filhos, os vossos parentes e todos aqueles que amastes na
terra, engrossar as fileiras dos anjos e ornar talvez cada um dos seus coros. Possa esta esperança consolar-vos, como
consolou uma outra mãe aflita por causa da morte dos seus!
Numa visão, Santa Francisca Romana viu subir algumas almas bem-aventuradas que iam tomar lugar no grau que
Deus lhes assinalara na glória eterna: Todos os coros angélicos que estas almas atravessavam para chegar a uma
ordem mais elevada, prodigalizavam-lhes os testemunhos do mais sincero amor e da mais viva alegria.

Sempre assim é. Mas o coro onde a alma novamente chegada ocupa um trono, excede todos os outros em
brilhantes felicitações e em transportes de alegria. Entoa um cântico de louvores e ações de graças em honra do
Deus de bondade, e prolonga esta doce festa por muito tempo depois dela ter cessado nos outros coros.

Depois desta visão, todas as vezes que a Santa queria exprimir esta alegria dos anjos à chegada das almas bem-
aventuradas, com esta admirável união da criatura humana com a criatura angélica, o seu rosto inflamava-se, e toda
ela parecia derreter-se como a cera em presença do fogo[8].

Com que alegria não terá sido acolhida, e até que ponto não terá subido a alma da vossa filha que possuía o nome da
Rainha dos Anjos, e que foi ela mesma, na terra, um anjo de pureza e dedicação? Todas os dias ela pedia a vossa
bênção, e à vista do seu retrato ainda a vossa mão se levanta para a abençoar.

Agora é ela que, todos os dias, faz descer do alto do Céu, as bênçãos que pede para vós ao Senhor, todas aquelas
que os santos desejam, bênçãos de sofrimento e de cruz, mas de paciência e de amor ao mesmo tempo. Gozai, pois,
da sua felicidade que deve ser a vossa; porque Maria está mais bem colocada no Céu do que na terra, melhor entre
os anjos do que entre os homens.

[1] Belarmino, De aeterna felicitate sanctorum, liv. IV, cap. V-VIII – Drexelius, Caelorum Beatorum civitas, liv. II, cap. I-
V.

[2] S. Tomás, Summ, supp., q. 91, art. 1, ad. 5.

[3] S. João Crisóstomo, In Rom. Hom. XIV.

[4] Potho, presbítero Prumiense, de Statu domus Dei, liv. IV, cap. XIV. – De Barry, La Dévotion aux anges, cap. III. –
Santa Catarina de Senna, Le Dialogue, cap. XLI.

[5] Gaufredo, Sermo in anniversario obitus sancti Bernardi, no. 18-21.

[6] S. Tomás, Summ. 1ª., 2ª., q. 4, art. 5 ad 6.

[7] S. Boaventura, in lib. II Sentent., Dist. IX, art. unic., q. VII.

[8] Acta Sanctorum, IX, martii, Acta sanctae Franciscae, lib. III, cap. IX, no. 91.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sexta carta/ Parte 2


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NO CÉU NOS
RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

II

Não estaremos mais absortos do que os anjos, na contemplação do Criador. – Como eles, contemplaremos as
criaturas, e poderemos entreter-nos com elas. – Veremos os condenados. – Reconhecer-nos-emos tão facilmente
como se reconhecem os puros espíritos. – Nada teremos de oculto, segundo S Bernardo, S. Gregório e Santo
Agostinho. – Todavia os nossos pensamentos, assim como os dos anjos, não serão conhecidos contra nossa
vontade.

Esta mistura dos homens e dos anjos nas mesmas hierarquias e nos mesmos coros, permite-nos responder a
algumas dificuldades, cuja solução parece estar na semelhança que teremos com os puros espíritos.

Não existe motivo algum pelo qual devêssemos estar mais absortos na contemplação de Deus do que os próprios
anjos. Desde o momento em que eles foram confirmados na graça, gozaram duma perfeita bem-aventurança e
ficaram arrebatados de admiração em presença da glória e da majestade do Criador. Não se distraem d'Ele, quando
lhes mostram as criaturas que são obra Sua, e que Ele lhes permitiu contemplar e admirar, e quis mesmo que as
conduzissem e governassem.

Não estão distraídos, quando nos acompanham durante a nossa peregrinação neste mundo, para nos guardar e
sustentar no bom caminho. Não o estão, finalmente, quando se interessam pela conversão dum pobre pecador a
ponto de se regozijarem mais da sua volta para Deus do que da perseverança de noventa e nove justos (Luc., XV, 7,
10).

Da mesma sorte, diz Ansaldo, por mais ocupados que estejamos no Céu, da glória e da imensidade do Soberano
Bem, poderemos ainda ocupar-nos de todos os nossos amigos; não só dos que tiverem ficado na terra, mas também
dos que participarem da nossa felicidade.[1]

Esta mesma caridade que, na terra, eleva o homem mortal da criatura ao Criador, o fará inclinar-se das sublimidades
da Pátria para o mundo inferior, quando se tiver tornado imortal e glorioso, assim como impele os anjos fiéis a
descerem do Céu à terra, do Criador à criatura.

O argumento que resulta desta semelhança foi desenvolvido por S. Bernardo:

“Os espíritos superiores, que desde todo o princípio estão no Paraíso, desprezarão a terra porque habitam o Céu?
Não. Visitam-na, pelo contrário e a freqüentam. Por isso mesmo que vêem sempre a face do Pai celeste, não se
desempenharão mais do ministério da compaixão? Todos eles são enviados, diz o Apóstolo, para exercerem o seu
ministério em favor daqueles que recebem a herança da salvação (Hebr., 1, 14). Como assim? Pois se os anjos vão e
vêm para socorrer os homens, os bem-aventurados, que são da nossa raça, não nos conheceriam nem poderiam
mais condoer-se de nós em certas circunstâncias em que eles mesmos tiveram que sofrer?! Os espíritos, que nunca
experimentaram dor alguma, sentem contudo as nossas dores; e os santos que passaram por grandes tribulações,
não reconheceriam já o estado em que estiveram?!”[2]

O Anjo da Escola, S. Tomás, demonstra que nem a contemplação da Essência Divina impedirá os bem-aventurados
de sentirem as coisas sensíveis, de contemplarem as criaturas, e mesmo de operarem; nem este sentimento, esta
contemplação e esta ação, os distrairá da beatífica vista de Deus. Não se daria istoem Nosso Senhor durante a sua
peregrinação na terra?[3]. Sem nada perderem deste divino gozo, os bem-aventurados poderão conversar com os
seus parentes, com os seus amigos e com os mesmos anjos, como estes conversam entre si.

Quando aplicamos fortemente, neste mundo, uma das nossas faculdades a um objeto difícil, todas as outras ficam
sem força e ação. Mas, no Céu, cada uma das nossas potências terá toda a plenitude da perfeição de que é capaz.

A inteligência dos santos será iluminada pela luz da glória, e a sua vontade será fortificada pela pátria sobrenatural
da caridade, a tal ponto que nenhum esforço terão a fazer para nunca perderem de vista a Divindade; mas
contemplando-a e amando-a inteiramente, lhes será fácil também contemplar os globos celestes, conversar com os
escolhidos e amar todos os bem-aventurados, como nos é fácil e natural neste mundo ver a luz, conversar ao mesmo
tempo com os nossos parentes ou amigos, e amá-los ternamente[4].

Mas os santos verão os condenados e os condenados verão os santos? Reconhecer-se-ão ao menos no juízo final. A
Escritura não nos permite duvidá-lo, pois que nos mostra os maus exclamando, em presença dos bons: “São estes
que outrora foram o objeto das nossas zombarias! Quão insensatos éramos!” (Sap., V, 3, 4.)

Segundo Honório, os justos verão os pecadores nos tormentos, para se regozijarem mais de se terem livrado deles.

Também os condenados, antes do juízo universal, verão os justos na glória para mais se afligirem de a terem
desprezado. Mas os bons verão sempre os maus nos suplícios depois do juízo, entretanto que os maus nunca mais
tornarão a ver os bons.[5] Não se deve, porém, concluir daqui, que a bem-aventurança seja tanto uma visão do
inferno, como do Céu.

Só Deus pode ver tudo ao mesmo tempo. Os santos, bem como os anjos, não contemplam incessantemente as
simples criaturas, nem todas ao mesmo tempo. Eles não vêem, pois, sem interrupção, as horríveis torturas dos
condenados. O Senhor mesmo desvia delas, quando lhe apraz, os seus pensamentos e os seus olhos.

Os anjos não têm feição alguma corpórea, e todavia reconhecem-se entre si, tanto como as três divinas Pessoas. Não
podemos negar o fato, ainda que ignoremos o modo.

Porque não admitiremos igualmente este reconhecimento entre as almas dos bem-aventurados, antes da
ressurreição da carne? Porventura a alma de Jesus Cristo morto e sepultado, quando desceu ao limbo, não foi
reconhecida dos patriarcas, dos profetas e de todos os justos do Antigo Testamento de quem ela se dignava ser
consoladora? E como os teria consolado, se não fosse vista, ouvida e reconhecida por eles? Pode mesmo dizer-se
com Monsenhor Malou, cujas palavras citamos na carta que serve de introdução a este livro:

“As almas despojadas de seus corpos revestem formas intelectuais que as inteligências separadas da carne podem
perceber, distinguir e conhecer”.

Finalmente, até que ponto se conhecem os santos entre si? O abade de Claraval diz em geral: “Os bem-aventurados
então ligados entre si por um amor tanto maior quanto menor é a distância em que se acham do próprio amor que é
Deus.

Nenhuma suspeita pode introduzir a divisão nas suas fileiras, porque entre eles nada há de oculto: o raio da verdade
que tudo penetra não o permite”[6].

Antes de S. Bernardo, tinha dito um grande papa, que o coração dos bem-aventurados será brilhante como o ouro, e
transparente como o cristal, de sorte que se conhecerão entre si melhor no Céu do que durante a sua vida na
terra[7].
Antes de S. Gregório, dizia também o ilustre Bispo de Hipona: “Nesta sociedade dos santos, verão todos
reciprocamente os pensamentos que só Deus vê agora. Assim como quereis que neste mundo se veja o vosso rosto,
também querereis que no outro se veja a vossa consciência[8]. Todos os espíritos bem-aventurados formarão
somente uma cidade, um coração e uma alma; e, nesta perfeição da nossa unidade, os pensamentos de cada um de
nós não serão ocultos aos outros”[9].

Contudo, a condição dos homens não deve diferir, sob este ponto de vista, da condição dos anjos. Ora, um sábio
teólogo prova que estes puros espíritos têm uma linguagem que, sem ser sensível ou corporal, é todavia mui
inteligível; mas que os seus pensamentos não chegam ao conhecimento uns dos outros, senão tanto quanto eles
querem. É necessário que um ato da sua vontade dirija este pensamento ou esta “palavra espiritual” àquele a quem
lhe agrada que seja conhecida. Podem assim falar a uns sem falar a outros e sem ser entendidos ou compreendidos
por todos. Pois a linguagem angélica não parece ser outra coisa mais do que o destino ou a direção dum
pensamento, por um ato de vontade a algum destes puros espíritos que só então o conhece[10].

[1] Ansaldo, Della sperança..., cap. X.

[2] S. Bernardo, in Natali sancti Victoris, sermo II, no. 3.

[3] S. Tomás, Summ., IIa. p, q. 84, art. II, 4.

[4] Ansaldo, Della speranza..., cap. X.

[5] Honório d’Autum, Elucidarium, liv. III, no. 3.

[6] S. Bernardo, In Dedication e Ecclesiae, sermo I, no. 7

[7] S. Gregório Magno, Moralium, liv. XVIII, cap. XLVIII, no. 77, 78

[8] Santo Agostinho, Sermo CCXLIII, cap. 5

[9] Santo Agostinho, De bono conjugali, cap. XVIII, no. 21.

[10] Petau, De Angelis, liv. I, cap. XII, nos. 7 e 11.

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sexta carta/ Parte 3


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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

III

Cada um de nós reconhecerá o seu anjo da guarda, e será também reconhecido por ele. – Alegria que disto
resultará. – Os santos comparados por Dante com as flores e os anjos, com as faíscas. – Todos os santos
comparados a uma rosa somente, e os anjos, às abelhas. – 0 Céu comparado por Jesus Cristo a um banquete. –
Troca recíproca entre os anjos e os santos.

As doçuras da santa união formada na Pátria Celeste entre os anjos e os homens, foram-nos desenhados pelos
grandes gênios católicos.
S. Tomás de Aquino faz-nos perceber que os anjos põem uma parte da sua felicidade em reinar cada um com o bem-
aventurado que lhe foi confiado, em assentar-se no mesmo trono, em cingir-se, por assim dizer, com a mesma coroa
e em fazer juntamente com ele um só coração e uma só alma: pois que todo o homem deve ter no Céu um anjo para
reinar com ele, ou, no inferno, um demônio para o atormentar –Habebit in regno Angelum conregnantem, in inferno
daemonem punientem[1].

S. Boaventura diz-nos que a alegria do anjo aumentará pela bem-aventurança do homem que guardou na terra, não
só quanto à extensão, visto que cresce o número daqueles com cuja glória se regozija, mas também quanto à mesma
intensidade. É verdade que esta não se deve entender da recompensa essencial, mas somente da acidental. Ela
explica-se pelo próprio bem dos anjos, pelo bem das criaturas santificadas que eles amam ternamente, e sobretudo
pelo bem daquela que lhes está mais intimamente unida, porque foram os ministros da sua salvação e fizeram por
ela milhares de ações boas. Por isso se regozijam e se felicitam[2].

Então efetuam-se, entre o anjo da guarda e o bem-aventurado que ele conduziu, mistérios de amor que não
podemos ver nem compreender enquanto as sombras deste mundo não forem dissipadas pelos esplendores dos
Céus. O espírito faz passar, perante o homem, o comovente quadro de todos os seus esforços para contê-lo no bem,
e conduzi-lo à perfeição; desenrola na sua presença todo o plano da Providência a respeito da obra da sua salvação.
O santo responde ao espírito celeste, testemunhando-lhe mil vezes o seu reconhecimento, recordando a confiança
com que se lhe recomendava, assegurando-o de que este feliz passado está sempre na sua memória, e que estas
doces lembranças são um perfume que ainda respira com delícias, no meio mesmo das alegrias do Paraíso.

Muitas vezes, nestes amáveis entretenimentos, o anjo e o homem inclinam-se um para o outro, sob o impulso deste
sopro divino que se denomina caridade da pátria, e do coração de um para o outro a efusão daquela penetrante
alegria, que é semelhante ao orvalho do Céu.

Assim, nos jardins terrenos, vêem-se, sob a ação duma doce brisa, duas flores vizinhas inclinarem-se uma para a
outra como para se darem o beijo da paz e confundirem os seus tesouros.

O grande poeta que tão admiravelmente descreveu o Paraíso, tem pois, ainda mais uma vez razão.

Por uma parte, mostra que os homens se conhecem reciprocamente no Céu, quando mesmo se não tenham
conhecido na terra. S. Tomás reconhece o seu mestre Alberto Magno; mas conhece também Dionísio Areopagita,
Beda e Isidoro. S. Bento reconhece os seus discípulos, e o príncipe dos Apóstolos reconhece S. Tiago; mas o grande
abade de Claraval conhece também o pai da humanidade, Adão; e o pai da Igreja, Simão Pedro, com S. João, Santo
Agostinho e com muitos outros que não pode conhecer na terra. Por outra parte, os anjos e os homens também se
conhecem entre si. S. Bernardo conhece o arcanjo Gabriel, e todos os puros espíritos conhecem a incomparável
Virgem Maria, Mãe de Deus[3].

Umas vezes, este poderoso gênio figura-se o Céu como um jardim onde passa um rio de resplandecente luz, entre
duas margens matizadas duma admirável primavera. Deste rio de luz saem vivas faíscas, que de todas as partes vão
pousar nas flores, semelhantes a rubis engastados em ouro. Depois, como inebriados de perfumes, remergulham-se
no brilhante pego, e quando uma aqui entra, sai outra. Estas faíscas são os anjos, e os santos são as flores.

Outras vezes, diríeis que é inspirado pela bênção dessa rosa que nos recorda todas as Jerusalém, e nos convida a
figurar pela alegria da Igreja Militante o prazer da Igreja Triunfante[4].

Representa-se o Paraíso como uma rosa branca, exalando um perfume de louvor ao sol que produz uma eterna
primavera.

Com efeito, porque os bem-aventurados chegados da terra estão colocados em círculo sobre mais de mil degraus e
como este círculo se alonga à medida que os degraus se elevam, esta coordenação faz lembrar a forma da rosa, cujas
pétalas aumentam de elevação à medida que se afastam do centro, onde se desabrocham os jaldes([5]) filamentos.
“Eis porque, diz ele, se me mostrava, na forma duma rosa branca, a milícia santa que Jesus Cristo desposou ao
derramar o seu sangue.

Mas os anjos que, voando duma para outra parte, não cessam de ver e de cantar a glória do seu Criador, tinham o
semblante radioso de chamas, as asas de ouro, e o resto do corpo mais branco do que a neve. Sobre qualquer
degrau que pousassem, aí entornavam as doçuras da paz e as chamas do amor. Ora desciam para a grande flor,
ornada de tantas folhas, ora subiam para a constante habitação do seu amor, isto é, para o Coração de Deus, bem
como um enxame de abelhas que umas vezes se engolfa nas flores, e outras se volve à sua morada onde o seu
trabalho se dulcifica”[6].

Senhora, podeis, sem temor, recorrer a estas poéticas imagens, para vos representardes a santa sociedade dos anjos
e dos homens.

Quando se trata do Céu e da felicidade que nele se goza, todas as imagens terrenas de que nos sirvamos como
termo de comparação nada exageram. Antes, ficam muito abaixo da realidade. Demais, não foi o mesmo divino
Mestre que se serviu duma imagem terrena, quando comparou o Céu a um banquete? (Luc., XXII, 29)

Assim como os sete filhos de Job se convidavam alternativamente, cada um em seu dia, para um esplêndido festim
(Job, I, 4), também, no Paraíso, os filhos de Deus se convidam uns aos outros para participarem de suas felicidades.

Grande devia ser o amor recíproco dos filhos de Job, para que pusessem em comum todas as suas riquezas; mas
quanto não excede o mútuo amor dos anjos e dos santos ao amor fraternal cá na terra!

Qual, pois, não será a magnificência do banquete a que é convidado cada um dos coros dos anjos por cada coro dos
santos que, deste vale de lágrimas, subiram às eternas colinas da Pátria!

Belo Céu, delicioso banquete, onde os Querubins e os Serafins fazem circular, como precioso licor e vivificante maná,
a manifestação dos segredos divinos, os esplendores das suas contemplações e o ardor e afeto do seu amor; onde os
Tronos, as Dominações, os Principados, as Potestades, as Virtudes, os Arcanjos, os Anjos e os homens, patriarcas,
confessores e virgens se derramam alternativamente no coração uns dos outros, como numa taça encantada que
sempre transborda e sempre conserva o seu conteúdo, o vinho de Deus, o vinho da sabedoria e da pureza, o vinho
do reconhecimento e da alegria!

Assim nas sublimidades dos Céus, sob as vistas do Pai de família, todos os seus filhos, não só os puros espíritos, mas
também os que estiverem envolvidos num véu de carne, se conhecem, estimam, amam e entretêm numa perpétua
comunicação, numa recíproca permutação de glória, de felicidade, de luz e de amor.

Todos estes astros que brilham no firmamento da eternidade, sem nunca temerem o eclipse, cruzam os seus raios e
os seus fogos, inundam-se reciprocamente do seu brilho, e parecem nadar num oceano de esplendores.
Todos estes instrumentos animados que não cessam de retinir sob o impulso do divino amor, formam um
harmonioso mar, em que as ondas se confundem reciprocamente, as vagas mais fortes se unem às mais fracas para
enriquecê-las e fortificá-las, a fim de que os seus movimentos, semelhantes aos das vagas regulares e irresistíveis,
invadam, abalem e arrebatem tudo para Deus.

[1] S. Tomás, Summ., I, p., q. 113, art. 4.

[2] S. Boaventura, in lib. II Sentent. Dis XI , art. II. q. 2.

[3] S. Boaventura, in lib. II Sentent., dist. XI, art. II, q. 2.

[4] Inocêncio III, Sermo XVIII, Dominica Laetare sive de Rosa.

[5] Amarelo vivo; cor de ouro.

[6] Dante, Le Paradis, cantos XXX e XXXI.


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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sétima carta/ Parte 1


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Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

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Pe. Francisco Soares da Cunha

SÉTIMA CARTA

Conclusões práticas

O conhecimento das criaturas, comparado ao do Criador, é muito diminuto. – É todavia uma parte da bem-
aventurança acidental. – Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e deles se regozijam. –
Sabem especialmente o que se refere aos seus parentes e amigos. – Nuvem luminosa dos testemunhos que o
provam. – Os contraditores fazem um grande mal.

Tudo quanto vos tenho escrito até aqui não deve fazer-vos esquecer que a essência da bem-aventurança é a clara
visão ou a intuição do próprio Deus.

O conhecimento das criaturas, acrescentado ao do Criador, parece aos bem-aventurados menos do que uma gota de
água lançada no mar. Eles dizem com o filho de Amós: “Todas as nações, todas as famílias dos homens, dos anjos e
dos astros, não podem, de modo algum, comparar-se com Deus; elas estão na sua presença como se não estivessem,
e pesam tanto na sua balança como se não existissem”. (Is., XL, 15, 17)
Dizem ainda com o filho de Mônica: “Senhor, Deus de toda a verdade, quão desgraçado é o homem que conhece
todas as criaturas, e não vos conhece a Vós! Quão afortunado é todo aquele que vos conhece, quando mesmo não
conheça mais coisa alguma! Aquele que une estas duas ciências, a do Criador e a das criaturas, não vê aumentar a
sua felicidade pelo conhecimento dos seres criados; mas só Vós, ó meu Deus, o tornais feliz”[1].

Nem por isso é menos verdade, como creio ter-vos suficientemente demonstrado, que uma parte da bem-
aventurança acidental reservada pelo Senhor a todos os seus escolhidos, consiste no conhecimento das criaturas.

É este um belo ponto de meditação, que o célebre P. Coton não receava de propor a uma rainha de França[2], e que
um beneditino também propunha aos seus religiosos para os consolar no momento da morte[3].

Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e alegram-se com um espetáculo que muitas vezes nos
entristece.

“Que direi, escrevia um sábio e piedoso cardeal, tratando da eterna felicidade dos santos, que direi do decurso dos
tempos e dos séculos, desde o seu princípio até ao fim? Que deleite não causará aos escolhidos a lembrança de
tantas vicissitudes e mudanças entre as coisas que a inimitável Providência governa com sabedoria e conduz a seus
fins? Lá haverá esta impetuosidade do rio, que tão maravilhosamente alegra a Cidade de Deus – Fluminis impetus
laetificat civitatem Dei! (Ps. XLV, 5).
O que será, efetivamente, a ordem ou a sucessão dos séculos, que passam rapidamente e nunca interrompem o seu
curso, senão a impetuosidade dum rio que, sem descanso, faz girar as suas águas, arrastando-as até ao mar, onde se
mergulham e desaparecem? Entretanto, o rio passa e os tempos correm, muitos homens duvidam da Providência de
Deus.

Entre os seus próprios servos, há muitos que são perturbados ou gravemente tentados, e que se queixam do seu
governo. Porque esta rápida corrente do rio causa muitas vezes grandes danos aos bons, e grandes vantagens aos
maus, pois leva a boa terra dos campos do justo para deixá-la nos do ímpio.

Mas, quando os tempos finalizarem a sua carreira e o rio tiver entrado no mar com todas as suas águas, os santos
lerão claramente, no livro da Divina Providência, as razões de todas as desordens e de todas as revoluções.

Então a impetuosidade deste rio, representada pela imaginação, alegrará a Cidade de Deus acima de tudo o que
pode dizer a língua dum mortal”[4].

Mas, segundo Bossuet, “no infinito espelho da Divina Essência, onde se vê tudo, as almas dos bem-aventurados
descobrem principalmente o que toca às pessoas que lhes estão unidas por ligações particulares”[5].

É o que provam de sobejo todos os testemunhos que tenho referido, em vez de falar por mim mesmo. Fi-lo assim
para que vos fosse mais fácil consolar-vos, vivendo deste modo, durante algumas horas, na companhia e mesmo na
intimidade dos santos e dos doutores, cujo coração foi sempre tão sensível e compassivo.
Se alguém, pois, ainda ousar dizer-vos que não nos reconheceremos no Céu, mostrai-lhe esta nuvem de
testemunhos de que fala o Apóstolo (Hebr. XII, 1 ), e que paira sobre a vossa cabeça.

Todos os autores que vos tenho citado, e muitos outros de que me poderia ter servido, são sábios e virtuosos. Eles
formam uma nuvem cujo brilho rende testemunho ao Sol da verdade, que nasceu no mundo, e os doura com seus
raios. Formam uma nuvem cuja suavidade e escuridão faz repousar docemente os nossos olhos e deixa esperar aos
nossos corações uma chuva fecunda em consolações celestes.

Os seus contraditores também formam nuvens, mas tenebrosas e ameaçadoras. Aumentam o horror da noite que
nos envolve, derramam negra tinta sobre o eterno dia que esperamos. Roubam ao nosso conhecimento e ao nosso
amor esses brilhantes astros a que chamamos bem-aventurados do Paraíso, e forçam os nossos olhos a fixarem-se
dolorosamente nos túmulos, quando teríamos maior necessidade de os levantar para o Céu, a fim de nele
encontrarmos alguma luz e alegria. Negar que nos reconheceremos no seio da glória, junto de Deus, é fazer-nos um
grande mal, aumentar-nos a tristeza e lançar-nos no desespero ou desalento.

Mas divulgar a importante verdade que se acaba de estabelecer é aliviar a aflição, sustentar a piedade e reanimar o
zelo.

Eis as três conclusões práticas que me resta desenvolver-vos.

[1] Santo Agostinho, Confissões, liv. V, cap. IV, no. 7.

[2] Sermons sur les principales et plus difficiles matières de la foi, feitos pelo P. Coton, e reduzidos pelo mesmo à
forma de meditações. Du Paradis, medit. XXI, profits, no. 14.

[3] Le Religieux mourant, ou Préparation à la mort pour les personnes religieuses, por um beneditino de S.
Mauro. Avinhão, 1731, cap. XI, & 5 e 6. t. I, p. 257, 266.

[4] Bellarmino, De Aeterna felicitate sanctorum, liv. IV, cap. IV.

[5] Bossuet, Sermon pour profession d’une demoiselle que la reine mère avait tendremente aimée – Péroraison.

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pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

II

A esperança de nos reconhecermos no Céu é um alivio para a dor. – Exemplo e palavras de Fénelon. – É-nos útil
entretermo-nos com os nossos virtuosos e queridos defuntos. – Podemos até invocá-los. – Prática de S. Francisco
Xavier, de S. Luís Bertrand, de M. Emery. – As almas do Purgatório pedem por nós.

Poucos homens têm sido tão sensíveis à perda dos seus amigos, como o amável Arcebispo de Cambrai. Eis uma
prova disto nas suas próprias palavras:

“Seria tentado a desejar que todos os bons amigos esperassem para morrerem juntos no mesmo dia. Aqueles que
não amam pessoa alguma quereriam enterrar todo o gênero humano com os olhos secos e o coração alegre; tais
pessoas, porém, não são dignas de viver. Custa muito ser sensível à amizade; mas aqueles que têm esta sensibilidade
envergonhar-se-iam se a não tivessem; desejam antes sofrer do que serem insensíveis”[1].

Vede, todavia, como ele sabia aliviar a sua própria aflição, consolando as pessoas mais angustiadas. Por ocasião da
morte do duque de Beauvilliers, seu amigo, escrevia à duquesa:

“Só os nossos sentidos e a nossa imaginação perderam o objeto do nosso amor. Aquele que já não podemos ver,
está conosco mais do que nunca. Encontramo-lo incessantemente no nosso centro comum. Ele vê-nos aí, e lá
mesmo nos procura os verdadeiros socorros. Conhece melhor, onde está agora, as nossas enfermidades, do que nós
mesmos, ele que já não tem nenhuma; e procura os remédios próprios e necessários para a nossa cura. Quanto a
mim, eu, que estava privado de o ver desde há tantos anos, falo-lhe, abro-lhe o meu coração e creio encontrá-lo na
presença de Deus; e ainda que o tenha chorado amargamente, não posso todavia acreditar que o perdesse. Oh!
quanta realidade nesta íntima sociedade!”[2].

Fénelon escrevia ainda à viúva do duque de Chevreuse:

“Unamo-nos de coração àquele que choramos; ele não se ausentou de nós pelo fato de se tornar invisível. Vê-nos,
ama-nos e comove-se das nossas necessidades. Chegado felizmente ao porto, ora por nós, que ainda estamos
expostos ao naufrágio. E diz-nos com uma voz secreta: Apressai-vos a unirmo-nos. Os puros espíritos vêem, ouvem,
e amam sempre os seus verdadeiros amigos no seu centro comum. A sua amizade é imortal, como a fonte donde
nasce. Os incrédulos só amam a si mesmos; do contrário, deveriam desesperar-se de perderem para sempre os seus
amigos; mas a amizade divina torna a sociedade visível numa sociedade de pura fé; chora, mas consola-se na
esperança de tornar a reunir seus amigos no país da verdade, e no seio do próprio Amor”[3].

Que coisa mais adequada à sustentação da piedade do que estas afetuosas e íntimas relações, que podem
estabelecer-se entre nós e os nossos queridos defuntos, desde que nos é permitido esperar que, tendo morrido na
graça de Deus, não se lembram menos de nós do que nós deles! Sem dúvida, gozar da presença do Senhor e
entreter-nos com Ele, mesmo nesta vida mortal, é o que nutre mais a nossa piedade. Todavia, conversar, tratar e
entretermo-nos com os santos do Céu, por longo tempo e repetidas vezes, sempre que nos agrade, não será um
meio poderoso de nos santificar e consolar ao mesmo tempo? Deste modo, não participamos, de alguma sorte, do
privilégio dos anjos que têm contínuas relações e a mais doce familiaridade com todos os santos?
A lembrança dum amigo virtuoso e fiel que possuamos neste mundo, basta muitas vezes para afugentarmos de nós,
com os desgostos e tristezas, as tentações, os desesperos e todos os maus pensamentos. Quanto mais eficazes e
salutares devem ser para a nossa alma a conversação e convivência destes parentes e amigos que vêem o Senhor
face a face e gozam da sua glória!

Um piedoso autor, o P. de Barry, aconselha-nos a que invoquemos aqueles que a Igreja não designa ao nosso culto,
mas que tiveram uma vida santa neste mundo, ou pelo menos uma boa morte, sobretudo, se o seu amor por nós foi
agradável ao Senhor. Fazei, diz ele, o catálogo dos seus nomes, e uma vez por ano, ou antes, uma vez por semana,
percorrei-o, invocando aqueles que nele estão inscritos. Isto fará que desejeis com mais ardor encontrar no Céu a
feliz sociedade daqueles que vos eram unidos na terra.

E quão grande será a alegria do vosso coração quando obtiverdes de Deus, por sua intercessão, o que durante muito
tempo debalde tiverdes solicitado! Pois não duvido que, por seu intermédio, algumas vezes sejamos ouvidos.

Se eles nos amavam durante a sua vida e não ousavam repelir as nossas súplicas, que não farão agora, visto que o
seu amor se tornou mais ardente e estão em grande honra junto de Deus!

S. Francisco Xavier invocava muitas vezes os religiosos da Companhia de Jesus que tinham passado a melhor vida.
Recorria a todos aqueles que tinha conhecido e com os quais vivera; recomendava-lhes as suas empresas,
considerava-os como seus protetores na corte celeste, e confessava que suas orações lhe eram duma freqüente
utilidade.

S. Luís Bertrand, dominicano, compôs um catálogo com os nomes dos seus mais queridos amigos, que julgava
estarem já de posse da eterna bem-aventurança, e invocava-os muitas vezes nas suas necessidades[4].

Um livro que saiu à luz neste corrente ano de 1862, fornece-nos outro exemplo muito semelhante. Na Vida de M.
Émery, nosso superior de S. Sulpício, lê-se, a respeito dos antigos padres desta Companhia que mais o tinham
edificado por suas virtudes:

“Em muitos de seus retiros, tomou a resolução de redigir, segundo o mapa das sepulturas do seminário, uma nota
que lhe recordasse os dias do falecimento daqueles santos padres por quem tinha mais devoção, a fim de invocá-los
nos mesmos dias com fervor, e de render graças a Deus pela eminente santidade a que os elevara”[5].

Podeis fazer sobre esta piedosa prática a seguinte objeção: Acaso estarão no Céu os meus parentes e amigos?
Estarão eles no Purgatório?

É verdade que a Igreja não tem declarado onde eles estão. Mas a oração não se desencaminha, e, entre o grande
número dos que assim invocardes, alguns devem ter já certamente chegado ao porto da felicidade.

Muitos e graves teólogos são de parecer que as almas do Purgatório podem orar por nós; porque não são de pior
condição do que os pecadores, inimigos de Deus. Estão mesmo confirmadas na graça e amizade do Senhor, têm a
perfeição do amor, recordam-se de tudo o que nos devem, e podem conhecer as nossas orações pelos seus anjos da
guarda.

E por que não orariam elas a Deus por nós, visto que vêm algumas vezes pedir-nos por si mesmas, como aconteceu
com Santa Brígida a quem seu marido apareceu, pedindo-lhe que fizesse celebrar missas e distribuísse esmolas por
sua alma?[6]

Santa Catarina de Bolonha invocava freqüentemente as almas do Purgatório, e dizia que tinha obtido de Deus, por
sua intercessão, os maiores e mais numerosos benefícios. “Muitas vezes mesmo, acrescentava ela, o que não tinha
podido obter durante muito tempo, pelas orações dos santos do Céu, consegui-o depois que recorri a estas almas
padecentes”[7].

[1] Histoire de Fénelon, pelo cardeal de Bauset, liv. VIII, morte do duque de Chevreuse.

[2] Correspondance de Fénelon, no. 340.


[3] Histoire de Fénelon, par de Bausset, liv. VII, morte do duque de Chevreuse.

[4] P. de Barry, Sanctum faedus cum sanctis caeli civibus, cap. V.

[5] Vie de M. Émery, 1ª. P., no. 52, t. I, p. 195.

[6] Révélations de sainte Brigitte, liv. Des Révélations extraor., cap. LVI.

[7] P. de Barry, Sanctum faedus, cap. VI – Acta sanctorum, die 9 martii. Vita, auctore Grassetti, cap. XII, no. 118

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NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Sétima carta/ Parte 3


Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI

NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

III

O reconhecimento no Céu é um estímulo para o zelo. – Zelo para o alívio de nossos queridos defuntos. – Zelo para
conversão dos pecadores. – Zelo para a nossa própria santificação. – O Céu começa no tempo e continua na
eternidade. A glória só fará desenvolver o gérmen da graça. – Nós saberemos tudo o que alguma pessoa fizer em
nosso beneficio, e a nossa felicidade, como a sua, será por isso maior. – Cada florão da coroa duma mãe será uma
alegria a mais para todos os seus filhos.

Finalmente, que a esperança de torná-los a ver no Céu, de reconhecê-los e de serdes por eles reconhecida, reanime
o vosso zelo e vos faça trabalhar com mais ardor no alívio destas pobres almas, na conversão dos pecadores e na
vossa própria santificação.

As almas do Purgatório são tão reconhecidas, que as pessoas que as têm aliviado, têm recebido provas da sua
gratidão, antes de se lhes reunirem na bem-aventurança. Foi mesmo concedido muitas vezes a Santa Gertrudes, mui
zelosa em aliviar as almas do Purgatório, ver, durante a sua vida, e mesmo entreter-se com aquelas que havia
socorrido[1].

Um dia, depois da comunhão, Gertrudes oferecia a adorável Hóstia pelo eterno descanso das almas de todos os
parentes dos membros da sua comunidade. Apenas tinha acabado de fazer este precioso oferecimento, quando viu
sair das trevas um grande número de almas, semelhantes a faíscas ou estrelas:

“Senhor, exclamou ela, esta multidão de almas é só de nossos parentes?”

– Sou eu mesmo, respondeu o Senhor, o mais próximo de vossos parentes: sou vosso pai, vosso irmão e vosso
esposo. Todos aqueles que são especialmente meus, tornam-se, portanto, vossos parentes e aliados, e quero que
eles tenham parte nos frutos das orações que fazeis pelos vossos parentes”[2].
Continuai, pois, Senhora, a orar por vosso marido, por vossos filhos e por todos os vossos parentes que já acabaram
a sua peregrinação na terra. Se as suas almas, como espero, estiverem já em lugar de refrigério, de luz e de paz, as
vossas orações aliviarão outros membros da família de Jesus Cristo, retirando-os das chamas expiatórias para
introduzi-los na infinita bem-aventurança.

Mas não limiteis aos mortos o vosso zelo; que seja católico ou universal, como a Igreja.

Quantos pecadores e infiéis, entre os vivos, cujo regresso para Deus podeis apressar por meio dos vossos cuidados,
orações, esmolas e de todos os vossos merecimentos! Tende compaixão da sua miséria; porque são cegos, levados à
destruição de todo o amor pela mesma desordem de suas mentirosas afeições.

A ninguém se aplica tanto, como aos condenados, o que S. Paulo dizia dos pagãos: “Nenhuma afeição há neles – Sine
affectione” (Rom., I, 31).

Se é verdade que o princípio natural das nossas afeições subsiste no inferno, só o devemos entender assim quando
ele é mau ou separado de Jesus Cristo. Desta forma, só produz frutos muito amargos e um ódio eterno onde parecia
haver um grande amor.

Mas reconduzindo a seu Pastor as ovelhas desgarradas, e ao Pai de família os filhos pródigos, preparareis no Céu a
vós mesma um círculo de ternos e reconhecidos amigos, que permitirão se vos apliquem estas palavras do profeta:
“Erguei os olhos e correi a vista em volta de vós; todos estes que se acham aqui reunidos são vossos. Sereis deles
revestida como dum ornamento; sereis rodeada por eles como uma esposa ou uma mãe o é por seus filhos, ainda
que os não tenhais gerado segundo a natureza.” (Is., XLIX, 18. – LIV, l . )

Àqueles que tiverdes convertido, podereis mesmo dizer com o Apóstolo:

“Vós sois meus filhos muito amados, meus irmãos desejados, minha alegria e minha coroa.” (Gal., IV, 19 - Philip. IV,
1)

Ao pensar, ao ver antecipadamente esta coroa de alegria que encontrareis no Paraíso, quando chegar o tempo de
deixardes este triste lugar de desterro, tereis a consolação de dizer a vós mesma: Vou reunir-me àqueles que enviei
para a Pátria, vou vê-los e reconhecê-los, vou gozar dos testemunhos da sua gratidão e do seu amor.

Podereis mesmo dizer àqueles que deixardes na terra o que o divino Mestre dizia a seus discípulos:

“Vou preparar-vos o lugar para que habiteis comigo” (Joan. XVI, 2, 3); “Dentro em pouco já me não vereis, mas bem
depressa me tornareis a ver, porque vou para junto do meu Pai. Também em breve tempo vos tornarei a ver, e o
vosso coração se regozijará, e ninguém vos tirará a vossa alegria” (Joan., XVI, 26, 22).

Esta alegria de vos tornarem a ver, Senhora, será tanto maior naqueles que vos conheceram, quanto mais tiverdes
trabalhado na vossa santificação pessoal. Quando nos esforçamos por santificar-nos, o Céu começa para nós no
tempo para continuar na eternidade.

Assim como a planta se despoja sucessivamente de seus grossos invólucros, até a haste saída do tronco se coroar
duma bela flor, assim pelo seu trabalho santificador, a alma se despoja de tudo o que tinha de mais terrestre, e se
transforma, pouco a pouco, em Jesus Cristo, que se compara na Escritura à rosa dos campos, ao lírio dos vales (Cant.,
II, 1). Para ela, o Céu começa pelo louvável desenvolvimento das suas faculdades, e acabará pela sua completa
dilatação.

Porque, mesmo no Paraíso, não seremos preguiçosos, mas ativos. Teremos sempre alguma coisa que aprender, pois
que Deus é um fundo inesgotável, e nunca seremos capazes do infinito.
Para termos alguma idéia do que a glória causará então numa alma, bastaria, pois, estudar e conhecer o que a graça
produz agora na mesma, tirado o sofrimento e a luta, que já não existirá. Toda a luz e amor que a graça produz em
nós, não será o gérmen que a glória desenvolverá? Ora, o que a graça nos dá presentemente para iluminar os nossos
espíritos e inflamar os nossos corações, é imenso e incalculável.

Imenso e incalculável também será o eterno peso de glória de que nos fala S. Paulo (II Cor., IV, 17), isto é, o aumento
de esplendor e caridade que nos merecem, a paciência em nossas provações, a atividade para o bem, o zelo pela
salvação das almas e o cuidado do nosso progresso espiritual.

E assim como os condenados serão punidos por onde tiverem pecado (Sap., XI, 17), também os bem-aventurados
serão recompensados por onde tiverem merecido.

Toda a mãe que se santifica educando seus filhos, receberá neles um aumento de recompensa eterna.

Todo o filho que diz para consigo: Faço este sacrifício para honrar meus pais, para que Deus abençoe meu pai e
minha mãe, prepara-lhes, e prepara a si mesmo, um aumento de eterna felicidade.

Com efeito, não será somente em conjunto, se assim posso falar, que reconheceremos no Céu aqueles que nos
foram queridos; conhecê-los-emos até por miúdo, saberemos o que muitas vezes ignoramos na terra, saberemos
tudo o que eles fizeram ou sofreram por nós; veremos a recompensa que por isto o Senhor lhes concede, e este
espetáculo assim como este conhecimento, será uma das nossas alegrias durante a eternidade.

Que este pensamento vos console de todos os esforços que tendes feito, de todas as fadigas que tendes suportado
para santificar vossos filhos, santificando-vos também. Que aumento de recompensa não recebereis disto na glória!

Todos os escolhidos que vos amaram na terra, o contemplarão e dele se regozijarão em vós. Não será assim que
consideraremos a auréola das virgens, dos mártires e dos doutores, e que, considerando-a, nos regozijaremos com
aqueles doutores, mártires e virgens que tivemos a felicidade de conhecer e amar?

A especial coroa que vos espera, será como a auréola da vossa maternidade cristã. Será devida a todos os santos
desejos, a todos os piedosos cuidados, a todas as dores íntimas, ignoradas na terra por aqueles que foram o seu
objeto ou causa, mas que reconhecerão no reino do Céu, pois cada um destes desejos, destes cuidados e destas
dores terá produzido um florão da imortal coroa que brilhará sobre a vossa cabeça. Os vossos filhos admirarão esta
coroa, contarão todos os seus florões, e serão por isso eternamente mais felizes.

Para vos excitar a adquirir ainda mais merecimentos ou direitos à eterna recompensa, que doce e poderoso
incentivo não tendes vós, pois, no vivo desejo de irdes, para aumentar a sua glória com a vossa, reunir no Céu todos
aqueles que mais tendes amado, ou vê-los aí subir triunfantes para junto de vós!
Mas o Senhor dignar-se-á deixar-vos ainda por muito tempo no meio de nós, tanto para felicidade de vossos filhos e
de vossos netos, como para edificação de todos os fiéis.

Tal é, pelo menos, o voto, tal é á súplica.

SENHORA,

Do vosso muito humilde e dedicado servo,

F. Blot

Strasburgo, 15 de Agosto de 1862.

[1] Les Insinuations de la divine piété, liv. V. Cap. XV, XVI, XVII, XVIII, XXIV.

[2] Ib., id., cap. XX.

http://a-grande-guerra.blogspot.com.br/2014/01/no-ceu-nos-reconheceremos-setima-carta_21.html
NO CÉU NOS RECONHECEREMOS - Orações (Final)
Nota do blogue: Acompanhe esse especial AQUI. Com esse post encerro a divulgação desse livro. Para baixá-lo,
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NO CÉU NOS

RECONHECEREMOS

Pelo

Pe. F. Blot, da Companhia de Jesus

Versão 19.ª edição francesa

pelo

Pe. Francisco Soares da Cunha

ORAÇÕES

Para tornarmos a ver no Céu as pessoas que nos são queridas

Oração à Santíssima e adorável Trindade

Um só Deus em três Pessoas que se conhecem e se amam, fizestes-nos à vossa imagem, dando-nos o conhecimento
e o amor, com o vivo desejo de sermos sempre unidos. Não permitais que este traço de semelhança convosco seja
destruído pela morte, em nenhuma daquelas pessoas que tenho conhecido e amado neste mundo. E, visto que vos
dignastes unir-nos pelos laços da família, e nos permitistes ligarmo-nos ainda por uma estreita amizade, não
consintais que tudo quanto tendes unido jamais se separe!

Não fizestes esperar ao velho Tobias, que os filhos de Jerusalém se reuniriam junto de Vós? (Tob., XIII, 17). Não
tendes por agradável que o sacerdote vos suplique, no santo altar, que lhe façais ver seu pai e sua mãe nos
esplendores da glória? Não desvieis de mim a vossa divina face, mas ouvi a minha prece, quando vos suplico com
todo o fervor de que sou capaz, que me concedais também a graça de tornar a ver no Paraíso todos aqueles que me
foram queridos na terra, particularmente a alma de N... que amo sempre ternamente.

Espírito de luz e de amor, consolador por excelência, Vós que sois a cadeia unitiva do Pai e do Filho, e que unistes os
nossos corações, derramando sobre eles a caridade, dignai-vos fazer conhecer a essa alma cuja ausência me é tão
dolorosa, quanto desejo unir-me a ela, quanto a amo ainda, que sacrifícios estou pronto a fazer para apressar a sua
entrada no lugar de refrigério e de paz, para eu mesmo entrar aí após ela, de sorte que, por uma indissolúvel união,
não façamos senão um coração e uma alma para vos amar e bendizer, com o Pai e o Filho, por todos os séculos dos
séculos. Assim seja.

II

Oração a Nosso Senhor Jesus Cristo

Divino Jesus, que pusestes em vosso Coração todas as nossas legítimas afeições para abençoá-las e santificá-las, e
vos dignastes gozar das alegrias da piedade filial e mesmo dar aos homens o doce nome de amigo: Onde estão
agora, Senhor, estes meus amigos e parentes? Estão no Céu, junto de Vós e de vossa Mãe muito amada, a quem
reconheceis como Ela vos reconhece? Ah! quanto desejo, eu também, reconhecer minha mãe na glória celeste e ser
por ela reconhecido, torná-la a ver com meu pai e meus irmãos, e tornar a ver juntamente todos os meus parentes e
amigos!

Ó Deus de amor, Deus do tabernáculo e da Santa Mesa, cujo corpo nos reúne num mesmo banquete neste mundo e
guarda as nossas almas para a vida eterna, guardai, guardai também todos os membros da minha alma, todos os
membros do meu coração, isto é, todas as pessoas que amo; guardai-as para a vida, guardai-as para a eternidade, e
fazei que nos encontremos todos no banquete dos Céus. Fazei, sobretudo, que aí encontre a alma que me era
especialmente querida. Que ela e eu nos reconheçamos, que eu saiba tudo o que ela faz em segredo por mim, e que
lho agradeça eternamente na Pátria dos bem-aventurados. Assim seja.

III

Oração à Santíssima Virgem, a S. José e a todos os Santos

Ó Maria, Mãe de Deus e minha Mãe, que depois da ascensão do vosso amado Filho, suspiráveis ardentemente por
vos reunirdes a Ele no Céu, e tivestes, com o privilégio da vossa gloriosa Assunção, o de torná-lo a ver triunfante, de
contemplá-lo daí por diante sem interrupção com os mesmos olhos que tanto gozavam com a sua vista na terra. Ó
doce consoladora dos aflitos, intercedei por mim, intercedei pela pessoa querida que eu choro, a fim de que ela e eu
nos reunamos, nos reconheçamos e nos amemos ainda na eternidade, como o filho e a mãe sob a vossa vista, e
junto do vosso Coração maternal.

Pai putativo de Jesus, e fiel S. José, vós que estivestes no limbo e soubestes, por experiência, quão longos são os dias
da expectação, qual deve ser a vossa alegria quando reconhecestes a alma do Salvador que ali desceu para anunciar
a todos os justos a sua próxima subida ao Céu! Ah! retirai, retirai prontamente do Purgatório, onde talvez ainda
esteja penando, a alma de para quem imploro, hoje, instantemente, a vossa poderosa proteção! Orai por ela, orai
por mim, a fim de que tenhamos a felicidade de nos tornarmos a encontrar e reconhecer na celeste Pátria, no meio
dos inefáveis esplendores que Nosso Senhor Jesus Cristo derrama sobre todos os anjos e santos.

E vós, bem-aventurados escolhidos, que fostes parentes ou amigos na terra, e que sempre sois sensíveis à graça de
vos encontrardes reunidos junto de Deus, orai para que os meus parentes e amigos e companheiros de luta da
Contra-Revolução formem, convosco e comigo, uma cidade e família, onde todos se reconhecem e se amam
eternamente. Assim seja.

A. M. D. G.

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Pe. F. Blot

No céu nos reconheceremos - Cartas de consolação

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS

PELO Pe. F. BLOT, DA COMPANHIA DE JESUS

VERSÃO DA 19ª EDIÇÃO FRANCESA

PELO Pe. FRANCISCO SOARES DA CUNHA

LIVRARIA APOSTOLADO DA IMPRENSA

- 1952 -

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No céu nos reconheceremos - cartas de consolação.

NO CÉU NOS RECONHECEREMOS Cartas de Consolação PRIMEIRA CARTA

Estado da questão É permitido afligir-nos pela morte dos nossos parentes, contanto que não cessemos de esperar. –
Testemunho de Santo Agostinho. – Prática da Igreja – Palavras de S. Paulino. – Exemplo de Jesus Cristo. SENHORA, A
morte descarregou o seu terrível golpe junto de vós, sobre as pessoas que vos eram mais caras. A vossa dor é
extrema, e é legítima, ainda que não duvideis da eterna salvação daqueles cuja falta lamentais. Por que motivos vos
será proibido chorar por vossos parentes e amigos que a-dormecem no Senhor, contanto que, seguindo o conselho
do Apóstolo, vos não entristeçais como os que não têm esperança? (I Thess. IV 12). Santo Agostinho comentava
assim estas palavras: “É natural entristecermo-nos com a morte daqueles que nos são caros, pois que a natureza tem
horror à morte, e a fé nos ensina que ela é um castigo do pecado. A tristeza é uma necessidade: Hinc itaque necesse
est ut tristes simus, quando aqueles que amamos deixam de existir. Porque, ainda que saibamos que nos não
abandonam para sempre, como aconteceria se devêssemos ficar sempre na terra, mas que nos precedem pouco
tempo, porque estamos destinados a segui-los talvez muito breve; todavia, como não contristaria o sentimento do
nosso amor a inexorável morte que se apodera do nosso amigo?

Que seja permitido, pois, aos corações amantes entristecerem-se com a morte das pessoas amadas, contanto que
haja um remédio para esta dor e uma consolação para estas lágrimas, na alegria que a fé nos faz gozar, assegurando-
nos da sorte de nossos queridos defuntos, que se apartam somente por algum tempo de nós e passam a melhor
vida.” A Igreja, pelo seu exemplo, permite-nos chorar, e pelo seu ensino ordena-nos esperar. Como nós, toma luto
por ocasião da morte de nossos parentes, e a sua voz, como a nossa, é cheia de tristeza. Com o tato, que é particular
às mães, e que elas sabem empregar em todas as coisas para se tornarem mais persuasivas, a Igreja, tem-se dito,
pede de empréstimo à dor as suas lúgubres harmonias, tão bem adaptadas ao estado da alma aflita, que crê mitigar
a sua dor nutrindo-se da mesma dor. Mas, misturando os seus gemidos com os nossos gemidos e as suas lágrimas
com as nossas, declara-nos, em nome de Deus vivo, que o que julgamos ser uma morte, não é mais do que uma
separação momentânea, um ponto fixo de reunião que a pessoa tão chorada nos dá na habitação da vida, onde a
reencontraremos em breve tempo para não mais a perdermos. Acrescenta que, “mesmo na terra, não acabou tudo
entre nós e esta alma; que ainda podemos amá-la e sermos dela amados, apesar da morte”.

A mesma Igreja ainda no-lo mostra na morada dos sofrimentos, implorando com voz aflitiva o fraternal tributo de
nossas esmolas, de nossas orações e de nossas boas obras. Ou então, no-la faz ver já revestida da incomparável
beleza do Céu, e repousando no seio de Deus, donde sobre nós lança olhares duma doçura e ternura inefáveis; faz-
nos vê-la, preparando-nos com amor um lugar a seu lado, e oferecendo a Deus incessantemente as suas mais
ferventes orações a fim de obter-nos o merecimento de possuí-la e de nunca mais a perder”. S. Paulino, Bispo de
Nola, consolou a Pamáquio, por ocasião da morte de Paulina, sua mulher, filha de Santa Paula e irmã de Santa
Eustáquia. O virtuoso esposo vertia lágrimas tão abundantes como as suas esmolas. Que vai fazer o seu amigo? Irá
censurar estas lágrimas? Louva-las-á pelo contrário, e colherá nas Sagradas Escrituras todos os exemplos de santas
lágrimas vertidas por ocasião da morte duma pessoa querida. Depois acrescentará: “Para que censurar as lágrimas
dos santos mortais? Não chorou o mesmo Jesus a morte de Lázaro, a quem amava?”

2 Santo Agostinho, Serm. 172, no. 13. 3 Marc, Le ciel, apêndice sobre o amor beatífico, cap. I.

Não se dignou Ele condoer-se da nossa desgraça, até derramar lágrimas sobre um morto? Não se dignou chorar,
acomodando-se à fraqueza humana, aquele a quem ia ressuscitar por um efeito da sua divina virtude?

“Eis o motivo, ó meu irmão, por que vossas lágrimas são piedosas e santas”: Idcirco et tuae, frater, lacrymae sanctae
et piae. Porque uma semelhante afeição as faz correr; e se chorais uma digna e casta esposa, não é porque duvideis
da ressurreição, mas porque vosso amor tem pesares e desejos. Diante daqueles que vos repreenderem de vossas
lágrimas, abri, pois, o Evangelho, e por única resposta, apontai-lhes com o dedo estas palavras de S. João: Et
lacrymatus est Jesus – e Jesus chorou; e ainda as seguintes: Et turbavit seipsum – e se perturbou a si mesmo. (Joan.,
XI, 33, 35 ). Mostrai-lhes estas linhas dum escritor que há bem merecido de todas as pesso-as aflitas: “Jesus quis
privar-se desta doçura que se encontra no sossego da aflição, quis ser perturbado. A sua natureza divina não lhe
permitia sê-lo senão tanto quanto ele mesmo concorresse para esta perturbação; foi isso o que fez; assim no-lo diz o
Evangelho.Depois dum semelhante exemplo, não mais atribuamos à nossa imperfeição as lágrimas que a aflição nos
arranca, nem a perturbação em que ela nos lança: Jesus chorou, Jesus perturbou-se. É necessário, porém, que esta
perturbação não degenere em inquietação, para se não perder a semelhança com Jesus. Não é do agrado de Deus
que eu desaprove as lágrimas de um esposo que, depois de ter levantado os olhos ao Céu para aí ver a sua esposa
coroada de imortalidade, os sente encherem-se de lágrimas quando, abaixando-os para a terra, não encontra já esta
companheira muito amada.

O sentimento que faz chorar a pessoa cuja companhia formava a nossa felicidade, não poderia ser condenado,
quando não é o único motivo das lágrimas que vertemos na sua perda. Este desejo de gozar da sociedade da pessoa
que se ama, é de tal sorte natural ao homem, que Deus lhe propõe o seu complemento como eterna re-compensa
de sua fidelidade em o amar durante a vida”.
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No céu nos reconheceremos - cartas de consolação.

INTRODUÇÃO

No princípio do ano de 1859, numa cidade do Oeste, onde ensinávamos teologia, soubemos que um pregador
dissera, da cadeira da verdade, que os membros da mesma família não se reconheceriam no Céu. Entre os seus
ouvintes encontrava-se um ancião que ao ouvir isto se afligiu muito, porque tinha perdido a sua virtuosa esposa, que
sempre esperara tornar a ver junto de Deus. Foi confiar sua aflição ao seu confessor, que era o Superior da mesma
casa que habitávamos. Este, sabendo que andávamos procurando nas obras dos Padres da Igreja os materiais
necessários para a composição duma obra, que esperávamos publicar um dia, sobre o dogma da comunicação dos
santos, convidou-nos especialmente a recolher todos os testemunhos que assegurassem que os parentes e os
amigos se reconhecem na eterna bem-aventurança. Disse-nos que estas autoridades nos serviriam para consolar as
almas, e disse a verdade; tivemos a prova disto três anos depois, em seu próprio país. Corria o ano de 1862, e
pregávamos a Quaresma na catedral duma cidade do Leste. No fim duma instrução mostramos a família recomposta
no Céu. Este quadro pareceu próprio a regozijar santamente uma viúva e uma mãe angustiada, bem conhecida em
toda a cidade por sua virtude, mas a quem uma indisposição tinha impedido de ir ouvir-nos. Uma de suas parentes
que ela amava ternamente contou-lhe, em resumo, o que tínhamos desenvolvido, e veio da sua parte suplicar-nos
que lho déssemos por escrito. Pouco tempo depois, a piedosa senhora reiterava-nos pessoalmente esta súplica e
contava-nos que, muitos anos antes, tendo perdido uma de suas filhas ainda jovem, quisera consolar-se com a
esperança de tornar a vê-la no Paraíso, mas que um eclesiástico a repreendera severamente, porque esta esperança,
segundo a sua opinião, não tinha fundamento algum, e que nutrir-se dela era uma grande imperfeição, pois que só
Deus nos deve bastar. Uma resposta tão dura não satisfazia nem o seu espírito nem o seu coração. Como um dos
seus filhos era então aluno da Companhia de Jesus, no célebre colégio de Friburgo, na Suíça, suplicou ao padre
Reitor que o fizesse acompanhar até a casa no tempo das férias mais próximas, por um religioso que a instruísse
sobre este ponto, a fim de assegurá-la e tranqüilizá-la, sendo possível.

As exagerações duma certa escola tinham, pois, formado como que uma nuvem que ocultava aos olhos dum grande
número de pessoas aflitas, o vivo resplendor desta verdade tão consoladora: No Céu nos Reconheceremos. Se lhe
não negavam absolutamente a existência, via-se pouco, e mostrava-se ainda menos todo o bálsamo que encerra
para adoçar as mais cruéis dores. Foi o que determinou a pessoa de que temos falado, digna de todos os nossos
respeitos e atenções, a pedir-nos instantemente estas Cartas de Consolação, nas quais nos esforçamos em
apresentar a verdade com toda a sua clareza, para que o coração aflito a veja, sinta e se regozije. Pelo mesmo
motivo, muitos de nossos leitores desejariam encontrar aqui as altas aprovações que recebemos. Fomos
graciosamente autorizados a satisfazer um desejo que tende unicamente a tornar este opúsculo ainda mais
consolador. Estes testemunhos são efetivamente um novo alívio para as almas provadas por uma cruel separação;
servem de lição para todos, e são uma censura para os contraditores, antes que um elogio para um escrito sem
importância e sem merecimento. Longe de assemelhar-se a essas obras doutrinais que têm um grande alcance, não
é mais do que um tecido de citações onde o coração dos santos e dos doutores está aberto para que a alma
atribulada tire daqui as consolações de que tem necessidade. Contudo, seria necessário atrair a atenção dos homens
para uma coisa em si tão simples e tão evidente? Eis o que a este respeito nos dizem pessoas de autoridade
indiscutível: – Monsenhor Dupanloup, Bispo de Orleans: “Desde há muito tempo que fazia votos para que uma tal
obra saísse a público”. – Monsenhor Filion, Bispo de Mans: “Li com vivo interesse o opúsculo – No Céu nos
Reconheceremos. As verdades que com tanta felicidade exprimistes, servindo-vos da linguagem da Escritura e dos
Santos Padres, são mui necessárias a todos durante o exílio da vida presente; e é isso o que poderosamente
concorrerá para que o seu livro tenha uma grande extração. Faço sinceros votos para que assim aconteça”. Um
veterano do Sacerdócio, um dos padres mais experimentados que possuía a Alsácia, M. F. Muhe, dizia-nos: “0 seu
livro é um bálsamo para a alma aflita pela perda de seus parentes. Ai! e quantas vezes no nosso santo ministério não
temos nós ocasião de difundir este bálsamo! Fez, pois, um grande serviço, com a edição deste excelente pequeno
tratado, não só aos fieis, mas ainda a todos os padres encarregados da direção das almas. Além disso, esta matéria é
mui raras vezes tratada nas mesmas obras teológicas. Portanto, exerceu por este motivo uma boa obra de
misericórdia – consolar os aflitos”.
Monsenhor Pie, Bispo de Poitiers, escrevia-nos: “O seu pequeno livro – No Céu nos Reconheceremos – é uma
verdadeira pérola engastada em textos seletos dos Padres da Igreja. Li-o com fruto e consolação, e regozijo-me com
a esperança do grande alívio que levará a certas almas faltas de doutrina sobre este ponto, ou que facilmente se têm
deixado impressionar pelos ditos dalguns pseudo-teólogos que se crêem sempre mais próximos da verdade, quando
se mostram mais severos. Obriga-do, pois, meu querido Padre, por todo o bem que há de fazer este pequeno
volume”. Sua Exa. não se contentou só com esta aprovação. O “Courrier”, jornal de Viena, de 6 de Novembro de
1862, terminava assim um longo artigo sobre o nosso livro: “Acrescentarei como o mais belo elogio, que, em sua
eloqüente homilia da festa de Todos os Santos, Sua Exa. aconselhou a todos a leitura e a meditação destas páginas
consoladoras, ditadas pela fé e pelo coração. A obra do R. P. Blot, efetivamente, tem um lugar distinto em todas as
bibliotecas cristãs e sobre a mesa de todas as famílias piedosas que conservam fielmente o culto e a memória de
seus membros falecidos”. 0 padre Gratry escrevia-nos rapidamente as seguintes linhas: “Li o seu livro. Propaguei-o
por dezenas, e tenho-o feito propagar. Li-o com avidez, tão ligeiramente que talvez mesmo omitisse algumas
páginas, mas tornei-o a ler. A idéia que teve não podia ser mais feliz. Fez absoluta justiça, uma vez para sempre,
duma verdadeira perversão jansenista acerca da idéia da vida futura. Edificou-me e instruiu-me plenamente sobre
este ponto. Ignorava, confesso-o, quanto a sua tese é teológica e incontestável em presença de tantas autoridades.
Tinha a firme convicção, mas não a ciência teológica desta verdade. Agradeço-lhe vivamente, meu bom Padre, por
ma haverdes dado. Agradeço-lhe o bem que tendes feito e fareis a milhares de almas, a quem muitas vezes o próprio
diretor espiritual, como dizeis, hesita em consolar sob este ponto de vista. Não se hesitará mais”. Poderiam ainda
outras causas tornar oportuno o nosso trabalho? Monsenhor Darboy, Arcebispo de Paris, dignou-se escrever-nos
depois de ter lido os opúsculos – No Céu nos Reconheceremos e as Auxiliadoras do Purgatório: “Quero unir o meu
voto às felicitações, que lhe atrairão de todas as partes estes livros cheios de doutrina e de piedade. Há muitos
motivos de abrir diante de nossos contemporâneos os horizontes da outra vida, e de premuni-los contra as ilusões e
atrativos desta. Olho, pois, como oportunas e mui úteis estas curtas, mas substanciosas páginas, onde excitais a
piedosa compaixão dos vivos a favor dos mortos, e reanimais nos corações o desejo do Céu. É para mim um dever,
assim como uma satisfação, aplaudir o merecimento do seu trabalho e animar os seus estudos. Suplico a Deus que
lhe aplique as suas melhores graças e o gênero de triunfo que lhe é mais caro, quero dizer, à edificação das almas”.

Mas conviria tratar um objeto tão mavioso em presença duma geração a quem o trovão da divina vingança e os
estilhaços do raio dificilmente despertam do seu letargo? Monsenhor Malou, Bispo de Burges, respondendo a um
amigo, escrevia-lhe: “Acabo de ler o opúsculo No Céu nos Reconheceremos. Pergunta-me o que penso a seu
respeito. Todas as obras que tratam do Céu, da sua felicidade, da sua eternidade, etc., causam-me muito prazer,
porque são estas que em nossos dias pro-duzem nas almas o maior bem. Outrora recolhiam-se maiores frutos, ao
que parece, falando da Morte, do Juízo e do Inferno. O temor tinha então mais poder do que o amor. Hoje o amor é
mais poderoso para converter os corações. É, pois, o amor que convém inspirar, não só para firmar os justos, mas
também para converter os pecadores. O objeto de que trata este livro é cheio de interesse. Responde a uma
pergunta que as pessoas piedosas nos dirigem repetidas vezes: ‘Reconhecer-nos-emos no Céu?’ Sim, certamente,
reconhecer-se-ão reciprocamente as almas e se amarão, e este amor fará parte da felicidade acidental do Céu.
Segundo a minha opinião, o autor é exato e nada exagera. Se tem algum defeito, é, talvez, o de não ter esgotado o
assunto de que se propôs tratar.” O autor diz que o sábio prelado entra, depois disto, em considerações que lhe
teriam sido dum grande auxílio se quisesse tratar este assunto debaixo doutro ponto de vista e com mais extensão;
mas que, por uma parte, pessoas muito autorizadas o aconselharam a conservar neste opúsculo a sua primitiva
filosofia; e que, por outra, a nobre senhora, a quem foram dirigidas estas cartas de consolação, tinha rendido
naquela ocasião a sua bela alma a Deus, e que por isso lhe não era permitido acrescentar novas cartas às antigas,
mas que unicamente lhe parecera conveniente completar estas, porque junto às orações que vão no fim deste
opúsculo, lhe aumentarão muito interesse. Em seguida, discorre sobre as considerações de Monsenhor Malou, e diz
por conclusão, que quase todas estas provas se acham melhor desenhadas, mais claramente enunciadas, e têm ao
mesmo tempo mais desenvolvimento e precisão nas seguintes páginas do mesmo ilustre prelado: “A sociedade dos
santos, me dizia eu, constitui a Jerusalém Celeste, a Santa Sião, a cidade de Deus. Mas uma cidade tem os seus
magistrados e seus príncipes, assim como os seus cidadãos. Supõem, entre as pessoas que a compõem, relações de
superioridade e de subordinação na ordem moral, relações que não podem existir sem mútuo conhecimento”.

“A sociedade dos santos é a família de Deus; família espiritual, transportada da Terra ao Céu, família de que Maria é
ainda Mãe e distingue seus filhos muito amados. Ora, pode conceber-se uma família cujos membros não se
conheçam entre si?
Poderá acontecer que os filhos conheçam seu pai e sua mãe, sem que os irmãos e as irmãs tenham relações
fraternais?” “A sociedade dos santos forma uma hierarquia celeste, à imitação da dos anjos, se todavia se não
confunde”. Ora, nós sabemos que os anjos se conhecem entre si, visto que as ordens superiores iluminam as
inferiores, e que todos se auxiliam mutuamente em louvar, bendizer e adorar o Deus três vezes santo. Os bem-
aventurados obrarão da mesma forma, e visto que os santos anjos os conhecerão como substitutos dos anjos caídos,
eles também conhecerão os anjos, e se conhecerão reciprocamente. “Além disto, não é a Igreja Militante uma, ainda
que imperfeita, imagem da Igreja Triunfante? Sendo assim, como é na realidade, a Igreja Triunfante conservará, pois,
em seu seio o selo – permita-se-nos a expressão – da Igreja Militante. Quero dizer que a ordem e harmonia que
reinam cá na terra entre os filhos de Deus, a fim de se prepararem para a felicidade do Céu, passarão com eles à
habitação dos escolhidos. Assim, os pastores se encontrarão no Céu à frente dos seus rebanhos; os bispos à frente
dos fieis das suas dioceses; os Soberanos Pontífices à frente de toda a Igreja Católica; os Patriarcas das Ordens
Religiosas à frente de suas famílias espirituais e de todos aqueles que seguiram a sua regra, trouxeram o seu hábito e
imitaram o seu exemplo. Mas esta ordem e esta harmonia repousam sobre o conhecimento recíproco das pessoas, e
sobre as relações da ordem moral que, sem conhecimento recíproco, são impossíveis. A mesma natureza da bem-
aventurança celeste fornece, a este respeito, provas irrefutáveis. Esta bem-aventurança repousa completamente
sobre a visão beatífica, isto é, sobre a vista intelectual da Divindade. E que é a vista intelectual senão o
conhecimento e a ação do espírito? O desenvolvimento e a ação da inteligência será, pois, de alguma sorte, a
medida da felicidade do Céu. A felicidade resulta, é verdade, do amor; mas este é necessariamente proporcionado
ao conhecimento que se tiver do objeto da sua felicidade. Não se ama o que se ignora, e ama-se infinitamente o que
se conhece como infinitamente amável. A inteligência é, pois, a faculdade pela qual os bem-aventurados apreendem
e se apossam da felicidade; e poderia supor-se nos escolhidos uma completa ignorância de tudo o que os rodeia e
interessa no mais alto grau?

Poder-se-á crer que gozem do conhecimento da essência de Deus, e que nesta essência não contemplem os gozos
que dela tiram os outros bem-aventurados? Isto é inteiramente impossível. O poder que adquiriu o seu espírito para
contemplar a Divindade, origem de toda a felicidade, auxilia-os poderosamente a conhecer aqueles a quem a
essência divina beatifica e enche de felicidade. Não gozam somente do raio de luz que os põe em contato com a
Divindade, mas também do oceano de claridade que os inunda e põe em relação com todas as felicidades do Céu.
“Ainda que a felicidade essencial dos escolhidos consista na visão e posse da essência divina, todavia sua bem-
aventurança completa-se e acaba-se, se assim posso falar, pelo conhecimento que adquirem da felicidade dos
amigos de Deus”. No Céu, como na Terra, Deus recebe não somente homenagens isoladas, mas também coletivos
louvores de todos os seus filhos reunidos. Demais, por que no Céu estas auréolas ou sinais particulares de virtude e
de glória? Por que trarão os mártires, as virgens, os confessores, os doutores, etc., um sinal distintivo no meio da luz
comum, senão para serem mais facilmente reconhecidos e glorificados por seus irmãos? Certamente não é para
atrair a vista da Divindade ou dos anjos, que estes selos particulares de merecimento e de glória são necessários,
mas sim para atrair a vista dos outros escolhidos. Os bem-aventurados reconhecerão, pois, e distinguirão os mártires
dos confessores e das virgens; e, reconhecendo inteiramente seus merecimentos, reconhecerão também suas
pessoas. Há, pois, entre os bem-aventurados uma série de mútuas relações de admiração, de felicitações, de
aplausos e de reconhecimento, que supõe um conhecimento pessoal, claro e direto. Ainda mais: cremos na
ressurreição dos corpos. Isto não é rigorosamente necessário para que os escolhidos se reconheçam entre si. As
almas despojadas de seus corpos revestem formas intelectuais que as inteligências desembaraçadas da carne podem
perceber, distinguir e conhecer. Todavia, é certo que a reunião do corpo à alma, que reconstitui a individualidade
terrestre quebrada pela morte, é um meio poderoso de distinguir os escolhidos uns dos outros. E ainda que a
ressurreição da carne tenha outros fins sublimes, que é inútil enumerar aqui, é permitido crer que ela contribuirá
também, por sua parte, para facilitar aos bem-aventurados o conhecimento que possuírem de seus parentes, de
seus amigos e benfeitores. Sob este ponto de vista, o dogma da invocação dos santos também nos fornece luzes.O
apóstolo S. Pedro, escreveu aos fiéis que tinha convertido, que depois da sua morte se lembraria deles. Estes fiéis
tinham, pois, um direito mui particular de invocá-lo depois da sua morte. Este direito temo-lo nós também, de certo
modo, a respeito de todos os santos, mas especialmente a respeito daqueles cujo nome temos, ou que, por um
título qualquer, se tornaram nossos protetores particulares. Chegados ao Céu, os santos que conhecemos na Terra
conhecem-nos ainda. Mas que digo eu? Os santos que reinam no Céu desde há séculos, os santos mártires que
verteram o seu sangue na primeira idade da Igreja, muito tempo antes do nosso nascimento, conhecem-nos e
amam-nos em Jesus Cristo. Nós os invocamos com bastante confiança e bom sucesso.
Ora, se os escolhidos nos não conhecem no Céu, é forçoso que estes bem-aventurados protetores que nos seguiram
na terra, nos percam de vista quando lá subirmos, e deixem de se interessar pela nossa felicidade. Mas, isto é
impossível. Longe de se quebrarem, quando subimos ao Céu, as cadeias de amor que nos unem aos santos;
fortificam-se, pelo contrário, e estreitam-se ainda mais. A fé e a esperança deixam então de existir; mas a caridade
permanece sempre. Os santos que nos conheciam na terra conhecem-nos quando chegamos ao Céu; e como esta
prerrogativa é essencialmente comum a todos os escolhidos, todos estes se conhecem mutuamente por toda a
eternidade. Enfim, se os bem-aventurados se não reconhecessem uns aos outros, que idéia se poderia fazer da
felicidade do Céu? Seria necessário imaginar-se uma multidão de seres separados uns dos outros, sem ação nem
relações recíprocas, imóveis, absorvidos numa contemplação imutável, e de alguma sorte materializada. O espírito e
o coração dos escolhidos seriam absorvidos, concedo-o, no conhecimento e no amor da natureza divina, mas o seu
todo não formaria nem uma sociedade de amigos, nem a família espiritual, nem a Cidade de Deus. O Céu não seria a
habitação de delícias onde todas as faculdades da alma ra-cional têm uma ação própria, concorrendo para a
felicidade desta alma e dos outros escolhidos; tornar-se-ia, permita-se-me a expressão, uma espécie de prisão
celular, onde as almas, cativadas pela felicidade essencial da visão beatífica, não saberiam o que se passa em volta
delas, e viveriam numa espécie de isolamento sem motivos. “Atenhamo-nos, pois, à imagem da sociedade dos
santos, onde a caridade reina como soberana; à da família de Jesus e de Maria, cujos membros todos se conhecem e
amam; à do Reino de Deus, onde tudo se passa com ordem e harmonia para maior felicidade de todos. Estas idéias,
e algumas outras ainda, apresentaram-se ao meu espírito enquanto lia o opúsculo do R. P. Blot, donde concluo que é
a ele que as devo. Agradeço-lhe mui sinceramente por mas ter sugerido, e reenvio-lhas como uma dívida de
reconhecimento. Possa o seu excelente livro derramar o bálsamo da esperança cristã em muitas almas aflitas e,
fazendo inteiramente sentir os laços espirituais que nos unem entre nós, unir-nos cada vez mais no Senhor! Depois
do que acabo de dizer é inútil declarar que aprovo o livrinho e que desejo vê-lo espalhado pela minha diocese”.
Nunca o nosso reconhecimento será demasiado para com a memória do venerando prelado que, apesar das dores
duma cruel enfermidade a que devia em breve tempo sucumbir, se dignou escrever-nos de seu próprio punho uma
tão longa e benévola carta. Ela permite-nos esperar que este humilde trabalho fará algum bem às almas, sobretudo
àquelas que, não tendo uma fé assaz viva, murmuram contra a Providência por ocasião da perda dum ente querido,
e são tentadas a abandonar as práticas da piedade cristã.

Esta esperança é nos dada ainda por Monsenhor Wicart, Bispo de Laval: “Li, diz ele, com muito prazer e fruto o seu
livro – No Céu nos Reconheceremos. Continuai, meu bom Padre, a escrever obras tão piedosas e atraentes ao
mesmo tempo; muitas pessoas vos deverão a felicidade de se resolverem a marchar com passo firme no caminho
que conduz à pátria celeste, onde se tornarão a encontrar para viverem eternamente em Deus”. O sr. Hamon,
pároco de S. Sulpício, escrevia-nos assim: “O seu agradável opúsculo é muito próprio para consolar tantas pobres
almas aflitas, que, tendo gozado na terra a felicidade de amarem certas pessoas queridas, têm dificuldade em
conceber que se possa ser feliz longe delas. Sem dúvida, Deus só, basta ao coração; mas a parte sensível da nossa
alma tem repugnância de se elevar a esta verdade; e se o conhecimento que tivermos uns dos outros no Céu não
aumentar a felicidade essencial no seio de Deus, a esperança deste conhecimento aumentará imensamente a nossa
consolação nesta vida. É o fim que vos propusestes, e que haveis perfeitamente conseguido. O seu livro é, pois, uma
boa obra, um verdadeiro ato de caridade que lhe agradeço pela minha parte”. O bem que produziu este opúsculo
prova-se por cinqüenta mil exemplares em língua francesa, espalhados no espaço de quatro anos; pelas numerosas
traduções feitas no estrangeiro; pelos novos opúsculos que suscita cada ano sobre o mesmo objeto, e por fatos que
nos têm sido contados muitas vezes. Aqui é uma mulher do mundo, sem alguma piedade que, por ocasião da morte
de seu único filho, recebe de uma de suas amigas estas cartas de consolação; percor-re-as e resolve-se a mudar de
vida para estar segura de ir reunir-se no Céu ao pequeno anjo que a precedeu. Ali é um homem ainda jovem que, na
morte imprevista de sua muito amada esposa, é tentado pelo desespero, mas encontra entre os livros da defunta o
opúsculo – No Céu nos Reconheceremos. Lê-o com empenho, e sente-se inteiramente mudado. Vai confessar-se,
comunga e marcha daí por diante sobre as pisadas de sua virtuosa esposa, na esperança de se lhe reunir para
sempre junto de Deus. Acolá é uma filha cujo pai, à hora da morte, tinha dado todos os sinais exterio-res de
impenitência. Ela olhava como inútil tudo quanto pudesse fazer em benefício de sua alma; mas lê o apêndice à
terceira carta e toma a resolução de multiplicar as suas orações e sacrifícios por esta alma tão querida, até ao último
instante da sua vida.

O bom resultado que tem obtido este modesto escrito foi uma doce consolação para a alma sensível que no-lo
pediu, e que quis aliviar-se a si, aliviando os outros. Ela mesma nos escreveu: “Sou-lhe, por certo, devedora de
muitas consolações e bons desejos. Tendes sempre a delicadeza de me dar parte dos bons resultados do livrinho -
No Céu nos Reconheceremos. Agradeço-lhe de todo o meu coração. Quando penso que foram os meus suspiros e as
minhas lágrimas que tiraram do seu coração esta excelente obra, não me canso de admirar a Providência que, dum
grão de mostarda, formou uma árvore onde repousam as almas aflitas”. Ai! a morte levantou de novo a sua espada,
por bastante tempo suspensa, e descarregou um terrível golpe, arrancando ainda a esta pobre mãe uma filha muito
querida. Mas a graça deu-lhe alguma semelhança com Maria, por meio duma religiosa resignação: “Consagrei-me,
diz ela, a esta boa Mãe no mais terrível momento da minha dor, e ela me auxiliou. Ainda que me não foi dado ficar
de pé como ela junto da cruz, fiquei assentada, e não a tenho abandonado. Esta graça, foi ela que ma obteve”.
Possam todas as mães, a quem a morte arrebata um filho, invocar e imitar assim aquela que viu crucificar seu Filho
único! Possam todos aqueles que lerem este livro recorrer à Consoladora dos Aflitos, e ficar pelo menos assentados
ao pé da Cruz, se junto dela não puderem permanecer de pé. A virtuosa viúva, cujas palavras há pouco citamos,
assemelhava-se, desde há muitos anos, àquelas árvores fecundas e robustas que são abatidas, cortando-se uma
após outra as suas raízes, e algumas vezes os seus principais ramos. Deus tirou-lhe, pouco a pouco, os ramos
brotados da sua fecundidade; desprendeu-a da terra onde a retinham profundas raízes, preparando-a para cair sem
muita dificuldade. Tempo antes, a sua queda, isto é, a sua morte teria mergulhado na dor a seu esposo e a seus
numerosos filhos. Agora aqueles que a precederam no Céu vão regozijar-se, pois vêem que a morte só a inclina para
a terra, a fim de apressar a sua reunião com eles na pátria celeste. Aqueles que ficam neste mundo, como estas
tenras vergônteas que ela via crescer junto de si, vão adoçar, pelos testemunhos do seu amor, o momento da
separação. Mas, antes de chamá-la a si, Deus reservava-lhe uma grande alegria. A 12 de Março de 1865, a Senhora
*** assistiu, em Paris, à primeira missa do mais jovem de seus filhos, e recebia de suas mãos a Sagrada Comunhão.
Deste modo tinha um ante-gosto da felicidade que gozarão os pais na glória, quando se virem com seus filhos
assentados ao banquete do Senhor. Pela sua parte, o novo padre, por mais ocupado que estivesse de Deus e do
Augusto Sacrifício, conservava em sua alma a viva lembrança de sua família, e não se esqueceu de sua mãe, orando
pelos vivos, nem de seu pai, orando pelos mortos.

Quando desceu os degraus do altar para dar o Pão dos Anjos àquela que lhe havia dado o ser, distinguiu-a, sem
dúvida, entre todas as outras pessoas queridas a quem ia administrar a Sagrada Eucaristia, e as pulsações de seu
coração lhe fizeram sentir que, se é doce para um filho reconhecer sua mãe à mesa eucarística, será muito mais doce
ainda reconhecê-la no eterno banquete dos Céus. Feliz, mil vezes feliz a mãe cristã que deixa depois da sua morte,
para continuar o hino começado por ela à glória do Senhor, um filho sacerdote, ministro de Jesus Cristo, uma filha no
claustro, esposa do mesmo Jesus Cristo, e um filho no século à frente de uma família onde se perpetua a fidelidade a
Jesus Cristo, a dedicação à sua Igreja e a misericórdia para com os seus pobres! A Senhora *** teve esta rara
felicidade, antes de adormecer no Senhor, a 4 de Março de 1866, tendo sessenta e nove anos de idade. Podem-se-
lhe aplicar sem exageração nem lisonja, estas santas palavras: – Ela passou fazendo o bem (Act. X, 38); – A sua
memória não se apagará jamais, e o seu nome passará de geração em geração (Eccles. XXXIX 1,3); – Os seus filhos se
levantaram e a proclamaram bem-aventurada (Prov., XXXI, 28); – Regozijar-vos-eis em vossos filhos, porque eles
serão abençoados e se reunirão todos junto do Senhor (Tob., XIII, 17); – Desprezei todas as vaidades do século por
amor de Jesus Cristo que contemplei, que amei, em quem cri firmemente e a quem dei todo o meu coração (Brev.
Rom. Commune non Virg., R. VIII).

Os restos mortais da Senhora *** foram depostos no mesmo túmulo em que seu marido e três de suas filhas a
haviam precedido, e pareciam esperá-la, a fim de que seus ossos, aproximando-se sob a terra, fossem como que
uma prova de que suas almas se tinham reunido no Céu; porque o desejo de ser sepultado junto de um parente ou
de um amigo foi muitas vezes olhado como expressão de um outro desejo, de uma piedosa esperança: a de se
reunirem um dia na pátria celeste, junto de Deus. Agora, quando o seu filho se prepara a fim de celebrar a Santa
Missa e volta as folhas do missal, encontra muitas vezes diante dos olhos um título que faz estremecer o seu
coração: Pro pater et mater – por meu pai e minha mãe. E que diz o padre nestas orações? Três vezes pede que
reconheça seus pais na eterna bem-aventurança: “Ó Deus, que nos mandastes honrar nosso pai e nossa mãe, tende
piedade das almas de meu pai e de minha mãe; perdoai-lhes os seus pecados; fazei que eu os veja no gozo da eterna
claridade; reuni-me com eles na felicidade dos santos; e permiti que a vossa eterna graça aí me coroe com eles!”.

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No céu nos reconheceremos - cartas de consolação.


Bem-aventurança essencial e bem-aventurança acidental. – Três erros sobre esta bem-aventurança acidental citados
pelo filosofismo. – Confissão de J. J. Rousseau. – Refutam-se estes três erros.

Gozar plenamente do que temos amado pura e santamente na terra, eis para nós o Céu. Gozar de Deus constitui a
bem-aventurança essencial. Este gozo da criatura que nos tem sido mais querida, sem deixar de ser secundário,
torna-se para a alma uma doce consolação, desde que a morte nos arrebata aqueles que mais amávamos; e Deus
nos envia, para moderar nossos pesares, a esperança de torná-los a ver, de reconhecê-los, de amá-los ainda muito
especialmente no Céu, e de receber deles também os testemunhos duma especial afeição. Quantas vezes não tem
servido esta esperança de remédio a vossas feridas e de alívio a vossas dores? Mas, eis que muitas pessoas, aquelas
mesmas cujos lábios devem guardar a ciência e cujo coração deve ser o depositário da lei (Malach. II, 7) ousaram
primeiramente dizer-vos que não nos reconheceríamos no outro mundo, nem mesmo no Paraíso; depois
repreenderam, como uma imperfeição, o vosso vivo desejo de possuir no Céu, além do Criador, certas pessoas
ternamente queridas, vosso esposo e vossos filhos. Finalmente, fazem crer ao mundo que a perfeição cristã, mais
ainda a vida religiosa, esgota no coração humano a fonte da sensibilidade, para deixá-lo seco e gelado para com seus
pais, irmãos ou irmãs e seus amigos. No Céu tudo se esquece em Deus, dizem elas. Deus não vos será suficiente? Os
santos nunca amaram senão a Deus, chamado pela Escritura um Deus cioso (Exod., XXXIV, 14). Tais são os três erros
que me proponho combater, escrevendo-vos estas cartas. Aqueles que os sustentam marcham após os quietistas e
jansenistas, sem o saberem talvez, sob os estandartes do filosofismo anti-religioso.

No desejo do gozo de Deus, o quietismo via um ultraje ao puro amor e uma brecha no desinteresse; o jansenismo,
polido, mas frio como gelo, comunicava a sua sequidão e aspereza a uma religião de amor. Os filósofos incrédulos
aproveitaram-se destas disposições para atacarem a Igreja e desacreditarem os padres. Um sábio religioso de S.
Domingos, tratando, no século XVIII, do objeto de que me entretenho hoje, fazia notar esta tática da impiedade.

Entretanto tudo se concede na nossa religião, para torná-la mais amável e consoladora, um filosofismo mentiroso
atribuía-lhe dogmas sombrios e desesperados, que lhe arrebatam toda esta força atrativa de que necessita para
levar as almas a amarem e a seguirem a Jesus Cristo. Quereis um exemplo disto? Rousseau fez dizer por uma pessoa
moribunda: “Cem vezes tenho recebido grande satisfação em fazer alguma boa obra, imaginando minha mãe
presente, que lia no coração de sua filha e aplaudia. Tem alguma coisa de consolador viver ainda sob os olhos da
pessoa que nos foi querida! Isto faz que sintamos a sua morte só por metade”. Mas que sentimentos os deste
inimigo de toda a religião revelada, protestante ou católica, presta ao ministro que corre a consolar e fortificar a
enferma? Lede: “Ainda que o pastor respondesse a tudo com muita doçura e moderação, e afetasse mesmo não a
contrariar em coisa alguma, com receio de que se tomasse o seu silêncio, sobre outros pontos, por uma confissão,
não deixou um momento de ser eclesiástico, e de expor sobre a outra vida uma doutrina oposta.

Disse que a imensidade, a glória e os atributos de Deus seriam o único objeto de que se ocuparia a alma dos bem-
aventurados, que esta sublime contemplação apagaria toda e qualquer outra lembrança, que as almas se não veriam
nem se reconheceriam no Céu, e que, em presença deste aspecto arrebatador, se não pensaria em coisa alguma
terrestre”. Todo aquele que propagar esta negra doutrina, ministro sincero da religião ou piedoso fiel, veja pois, a
causa que serve, e em que fileiras se coloca! Para vos mostrar toda a sua falsidade, quero, Senhora, fazer passar
diante de vossos olhos um grande número destes autores, cuja antiguidade, ciência, ortodoxia e santidade fez
chamar Padres e Doutores da Igreja. Cada um deles vos deixará penetrar em seu coração. Ser-vos-á tão agradável
como útil ver quanto eles foram sempre sensíveis à esperança de reconhecerem e amarem, ainda depois da morte,
aqueles que tinham conhecido e amado durante esta vida.

6 Ansaldi, Della speranza..., cap. X. 7 J. J. Rousseau, Julie, IV part., Carta IX ; edição de Paris, 1823, in-8a. , t. II, pag.
482.

Mas quero primeiro resolver, ainda que brevemente, as três objeções que vos fiz, a fim de que me escuteis depois
com um espírito mais livre e um coração mais dilatado. Assim, abraçareis com mais confiança e consolação a
verdade que devo oferecer-vos. Quão pouco vos aliviaria agora a esperança deste mútuo reconhecimento se
devêsseis ser-lhe indiferente, ou se não viesse acompanhado de alegria e amor!

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No céu nos reconheceremos- cartas de consolação.


I I I Será verdade que os santos só amam a Deus? – Eles amam-se entre si como concidadãos, como irmãos, como
dois amigos que vêem todas as perfeições um do outro. – Deus só é cioso do nosso amor de adoração. – O amor
recíproco dos santos glorifica-o como Criador, como Pai, como princípio de toda a amabilidade. Disseram-vos que os
santos amariam só a Deus.

Ouvi a resposta do abade Marcos no seu belo livro sobre a felicidade dos santos: “A pátria celeste é nos
incessantemente apresentada no Evangelho sob o símbolo dum reino, duma sociedade, duma família. Mas uma
sociedade, um Estado, uma família não é simplesmente uma aglomeração de individualidades estranhas umas às
outras; mas sim uma reunião de seres inteligentes e racionais, obedecendo a leis comuns e obrigatórias para todos,
que fazem um só e mesmo corpo da harmônica união destes diversos membros. Ora, entre todas estas leis, há uma
que é salvaguarda, e como que o laço de todas as outras; é a lei da solidariedade social ou fraternal, que ordena a
todos se dediquem por cada um, e que cada um se dedique por todos, à proporção das forças e necessidades de
cada membro. É, por outros termos, a lei da mútua caridade, a lei do amor.No Céu nos amaremos como se amam os
filhos dum mesmo pai, como irmãos queridos e ternas irmãs; amar-nos-emos como se amam dois amigos que só se
conhecem desde ontem, e cujos corações, apenas se encontraram, se compreenderam e encadearam um no outro,
por uma simpatia que sentem ser indestrutível e eterna.

Desde o momento em que nossas almas tiverem penetrado no seio de Deus, encontrar-se-ão abrasadas duma
fervente caridade de umas para com as outras. A sua vista e recíproca presença serão como que uma faísca que
operará este abrasamento, assim como na natureza física se vê muitas vezes um corpo inflamar outro corpo,
somente pelo efeito do choque ou simples contato. Eis como se pode, até um certo ponto, explicar este fenômeno.
Estas almas, iluminadas da plenitude da luz de Deus, a qual porá a descoberto todas as suas perfeições, e envolvidas
no reflexo de sua glória como num esplêndido vestido (Ps. CIII, 2); apresentarão os atrativos do coração, como num
maravilhoso feixe, o conjunto de todas as suas amabilidades; pela sua parte, este coração, livre desde este momento
de todas as suas fraquezas, de suas ilusões e de suas trevas, este coração, faminto de amor e restabelecido na sua
integridade afetiva, será levado por um irresistível atrativo para o seu natural alimento e único depois de Deus, isto
é, para as almas feitas para serem amadas por Ele. É verdade que Deus é cioso do nosso coração, mas somente no
sentido de que não devemos amar alguma criatura tanto ou mais do que a Ele. Se assim não fora, como nos
ordenaria, sem se contradizer, que amássemos o nosso próximo como a nós mesmos? Além disto, segundo o
contexto, o sentido próprio destas palavras da Escritura, é que o Criador é cioso do amor de adoração: Não adoreis
Deus alheio; o Senhor chama-se o Deus cioso (Exod., XXXIV, 14). Mas vai grande distância do amor que nos faria
amar certas pessoas até à adoração, ao amor que no-las faz amar conforme a vontade do Criador. Tanto falta para
que o mútuo amor dos escolhidos possa ser uma injustiça ou um roubo feito a Deus, que será Ele, depois da pura
caridade, a mais preciosa e querida homenagem que lhe possamos render, como Criador, como Pai e como princípio
de todo o amor e de toda a amabilidade. Tendo criado todas as coisas para nós, se as fez maravilhosamente belas
(Ec-cles., XI, 4), foi para que as admirássemos; se as fez excelentemente boas (Idem, XXXIX, 21), foi para lhe
pedirmos o bem que encerram; se as fez desejáveis (Ibi-dem, XLII, 23), foi para que lhe concedêssemos ao menos
uma pequena parte do nosso coração. Além disto, nenhum ser inteligente, seja Deus ou seja homem, pode
racionalmente deixar de ser cioso da obra que criou. Pois, do contrário, seria melhor ter produzido uma obra vil e
desprezível, ou então não ter produzido nenhuma.

Todos nós somos filhos de Deus, e Ele mesmo quis que o chamássemos nosso Pai (Matth., VI, 9). Mas a condição da
paternidade no Céu será a mesma que na terra, exceto que possuirá, no mais alto grau de perfeição, os caracteres
que a distinguem neste mundo. Ora, qual é nesta vida a paternidade modelo? Por que sinal reconheceremos nós que
uma paternidade é verdadeiramente feliz? Feliz paternidade, é o estado dum pai cercado de numerosos filhos que
rivalizam em cuidados e ternura para com ele. Mas isto apenas seria metade da sua felicidade, ou antes toda a sua
felicidade se encontraria envenenada e destruída, se não reinasse uma verdadeira união entre todos os seus filhos.
Toda a afeição legítima, isto é, ordenada ou autorizada pela lei eterna, vem de Deus.A caridade que testemunhamos
às criaturas, é como um rio que tem a sua origem em Deus, que ordena ou permite que vamos matar a sede que
temos n’Ele, em objetos distintos do mesmo. O rio, continuando sempre o seu curso, volta outra vez para a sua
nascente, onde chega sem alteração. Todas as belezas que divisamos nas criaturas, e que nos atraem tão vivamente
para si, não são outra coisa mais do que o reflexo da eterna e divina beleza, do seio da qual se desprendem, assim
como vemos soltar ondas luminosas do disco solar, que vêm alegrar e vivificar a natureza. Mas como é sempre o Sol
que admiramos mesmo em seus raios e reflexos, é igualmente a Deus que admiramos e amamos de longe, nos
esplendores e encantos que derrama sobre suas criaturas. Poderia Ele, pois, olhar como um atentado contra os seus
direitos ou à sua glória, o atrativo que nos impele para as belezas e perfeições que de si mesmo derrama sobre suas
obras? Se os seus encantos e amabilidades não são mais do que uma irradiação da amabilidade e dos atrativos
divinos, já vemos como a beleza incriada não eclipsará as belezas criadas, e como se dará no Céu o amor mútuo dos
escolhidos sem risco nem perigo.Na terra, o imortal raio só nos aparecia por um único ponto, aquele por onde
tocava e iluminava a criatura. No Céu, vê-lo-emos descer do seu centro e tornar a voltar ao mesmo.

Será a Deus que procuraremos e a que aspiraremos, dirigindo-nos para as criaturas; Deus a quem admiraremos,
admirando-as, Deus a quem acharemos, amando-as".

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No céu nos reconheceremos - cartas de consolação.

IV - Porque Deus só basta aos escolhidos, seguir-se-á que terão a Deus unicamente? – A sua liberalidade em todas
as ordens conhecidas prova qual seja a mesma na ordem da glória. – É falso que nos esqueçamos no Céu ou que
sejamos insensíveis à felicidade de nos tornarmos a ver. – Palavras de S. Francisco de Sales sobre este mútuo
reconhecimento e sobre a alegria que dele resulta. Disseram-vos ainda: “Só Deus é suficiente aos escolhidos! Sem
dúvida, deixando-se ver e possuir por nós, só Deus seria bastante para nos tornar a todos felizes. Mas que se pode
concluir daqui? Se bastava a si mesmo desde toda a eternidade, direis vós que nada criou no tempo e que nós não
existimos? O menor sofrimento do Redentor bastava para nos salvar a todos: negareis sua Paixão e sua Morte? A sua
Divindade é suficiente a si mesma: credes que ela não tenha cuidado algum da sua humanidade? Descei desta ordem
toda divina até à ordem da graça e da mesma natureza, e contai todos os socorros que nos são oferecidos para
santificar nossas almas, todas as iguarias que nos são dadas para nutrir nosso corpo, contai todas as flores que
ornam a terra e todos os astros que brilham no firmamento, e dizei se o Senhor se contentou de criar para nós o
suficiente, ou se passou muito além dele. E querer-se-ia que na ordem da glória, quando houver de recompensar os
seus fiéis servos, os seus apóstolos, os seus mártires, os seus pontífices, os seus confessores e as suas virgens, se
limitasse a dar-lhes estritamente o necessário! Não, não. Deus mostrar-se-á ainda mais generoso e mais pródigo
para com os santos do Céu do que para com os justos da terra. Vemos e sabemos o que fez para nós na ordem da
natureza e da graça; mas o grande Apóstolo nos afirma que os nossos ouvidos nada ouviram, e que o nosso coração
nada conjeturou que seja comparável ao que Deus prepara, na ordem da glória, àqueles que o amam (1 Cor., II, 9).
Pela graça possuímos a Deus neste mundo, e será verdade que aquele que tem a graça não necessita de mais coisa
alguma? É certo, pelo contrário, que tem ainda necessidade de exortações e de bons exemplos, da intercessão dos
santos, da participação dos sacramentos, de mortificações e de orações para conservar e aumentar esta graça.
Assim, no outro mundo, sem que isto seja então para nós uma necessidade, mas porque desejará encher-nos
inteiramente de seus dons, o mesmo Deus, que só por si bastaria para a nossa felicidade essencial, se dignará
aumentá-la acidentalmente pela sociedade das santas almas que tivermos conhecido e ternamente amado na terra.
E do mesmo modo que, em tudo o que nos dá segundo a natureza ou segundo a graça, é Ele que se nos comunica
por diferentes maneiras e em muitos graus; assim, também na bem-aventurança será ainda Ele, sempre Ele, que se
dará a nós por meio de todas as criaturas glorificadas, as quais nos permitirá contemplar e admirar, reconhecer e
amar. Não temais, Senhora, que as almas se esqueçam mutuamente no Céu, ou que sejam insensíveis a tudo que
não for Deus. A caridade nunca pode ser indiferente nem insensível. Por isso mesmo que as ama, o Criador é sensível
a tudo o que diz respeito às suas criaturas. Nosso Senhor é sensível à presença de sua Mãe, e Maria não é
indiferente à glória da humanidade de Jesus. Se nós devêssemos ser insensíveis à felicidade de tornarmos a
encontrar no Paraíso as pessoas mais queridas, a nossa alma devia ser indiferente à ressurreição do seu próprio
corpo: e assim caducariam muitos argumentos empregados pelos teólogos para provarem a ressurreição da carne.
No Céu seremos capazes de tudo conhecer ao mesmo tempo, com amor, e de tudo sentir com alegria, sem que um
conhecimento ou um sentimento seja nocivo a outro.Sentiremos tão vivamente como na terra o amor para com
nossos parentes e nossos amigos, ainda que o nosso amor para com Deus seja então incomparavelmente mais
ardente e mais sentido.

Nunca estaremos absorvidos em Deus a tal ponto que nos esqueçamos de tudo que não for Ele. Mas, como se tem
dito, os amigos, os irmãos, os parentes, se reconhecerão, conversarão e se lembrarão de suas lágrimas, de seus
combates e de suas tribulações; porque esta vida momentânea lega à vida infinita uma eterna lembrança e infindas
gratulações.
A vista e o pensamento das criaturas não farão um só momento olvidar o Criador; a vista e o amor do Criador não
impedirão de ver e de amar as criaturas. Unidas e distintas, todas estas alegrias, todos estes louvores e todos estes
amores se fundirão no louvor e amor de Deus, e formarão em sua glória um concerto único, sempre variado, sempre
o mesmo, o aleluia eterno.” Deixai, Senhora, deixai nutrir vosso coração desta doce esperança, e permiti-me que
acrescente a esta ainda mais algumas linhas que vos tranqüilizarão. São estas de S. Francisco de Sales, explicando a
transformação de Jesus Cristo sobre o Tabor, que foi como uma reprodução do Céu (Matth. XVIII, 1-9): “Todos os
bem-aventurados se conhecerão mutuamente por seus nomes, como nos afirma o Evangelho de hoje. Pedro viu
ainda Moisés e Elias que nunca tinha visto, os quais conheceu perfeitamente, tendo o primeiro um corpo
transparente como o ar, e o segundo seu próprio corpo como quando foi arrebatado num carro de fogo. Vedes, pois,
muito bem que todos nos reconheceremos mutuamente na eterna felicidade, visto que nesta pequena amostra que
Nosso Senhor se dignou apresentar sobre a montanha do Tabor a seus apóstolos, quis que estes conhecessem
Moisés e Elias que nunca tinham visto. À vista disto, que contentamento o nosso, vendo aqueles que tivermos
extremosamente amado nesta vida! Sim, conheceremos mesmo os novos cristãos, que se converterem agora à
nossa santa fé, nas Índias, no Japão e nos antípodas; as santas amizades, da mesma forma que tiverem sido
começadas por Deus nesta vida, continuarão na eterna. Amaremos pessoas particulares, mas estas amizades não
formarão parcialidades, porque todas as nossas amizades tomarão a sua origem no amor de Deus, que, conduzindo-
as todas, fará que amemos a cada um dos bem-aventurados com o puro amor com que somos amados por sua
divina Bondade. Ó Deus! que consolações receberemos na celeste conversação que tivermos uns com outros!

Na bem-aventurança, os nossos bons anjos nos darão uma consolação muito maior do que se pode dizer ou ainda
imaginar, quando se nos fizerem reconhecer e nos representarem mui amorosamente o cuidado que tiveram da
nossa salvação enquanto estivemos na terra, lembrando-nos as santas inspirações que nos ofereceram como um
leite sagrado que iam tirar dos peitos da divina Bondade para nos atrair à indagação dessas divinas suavidades, de
que então estivermos gozando. Não vos re-cordais, nos dirão, duma tal inspiração que vos sugeri em tal tempo,
lendo um tal livro, ouvindo um tal sermão ou fitando tal imagem, inspiração que vos incitou a converter-vos a Nosso
Senhor, e que foi o motivo da vossa predestinação?

Ó meu Deus! e não se derreterão nossos corações num indizível contentamento?!

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No céu nos reconheceremos - cartas de consolação.

SEGUNDA CARTA

No Céu todos se conhecem

I - Provas da Sagrada Escritura: a parábola do rico avarento, explicada por Santo Irineu, e sobretudo por S. Gregório
Magno. – Fato que ele cita em apoio. O juízo final, base da argumentação de S. Teodoro Studita. SENHORA, Todos os
bem-aventurados admitidos no Céu conhecem-se perfeitamente, antes mesmo da ressurreição geral. Provam-no
tanto a Sagrada Escritura como a Tradição. Limitar-me-ei a citar-vos o Novo Testamento, tomando apenas dele a
parábola do rico avarento e algumas palavras que se referem ao juízo final. Está parábola é tão bela que não posso
resistir ao desejo de apresentar a vossos olhos as suas passagens principais: Havia um homem rico que trajava
esplendidamente e se banqueteava com magnificência, todos os dias. Havia também ao mesmo tempo um pobre,
chamado Lázaro, deitado à sua porta, todo coberto de úlceras, que desejava ardentemente saciar a fome com as
migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava, e os cães vinham lamber as suas feridas. Ora,
aconteceu morrer este pobre, e foi transportado pelos anjos ao seio de Abraão. O rico morreu também e teve por
túmulo o Inferno. E quando estava em tor-mentos, levantou os olhos para o Céu e viu, ao longe, Abraão e Lázaro em
seu seio; e, exclamando, diz estas palavras: “Pai Abraão, tende piedade de mim, e enviai-me Lázaro, a fim de que
molhe na água a ponta do seu dedo para me refrescar a língua, porque sofro horríveis tormentos nesta chama”.

Mas Abraão respondeu-lhe: “Meu filho, lembra-te que recebeste muitos benefícios na terra, e que Lázaro só teve
por companheira a miséria e o sofrimento; e é por isso que está gozando agora das maiores consolações, e tu estás
em tormentos”. Replicou o avarento: “Suplico-vos então, Pai Abraão, que o envieis à casa de meu pai, onde tenho
cinco irmãos, a fim de adverti-los, pois receio que venham também para este lugar de tormentos”. (Luc., XVI, 19-28).
Santo Ireneu, combatendo os hereges, escrevia no princípio do século III:
“O Senhor revelou-nos que as almas se lembram na outra vida das ações que praticaram nesta. Não nos ensina Ele
esta verdade por meio da história do rico avarento e de Lázaro? Visto que Abraão conhece o que diz respeito a um e
outro, as almas continuam portanto a conhecerem-se mutuamente e a recordarem-se das coisas da terra”. No fim
do século IV, o Papa S. Gregório Magno perguntava a si mesmo se os bons conheceriam os bons no reino do Céu, e
se os maus conheceriam os maus no Inferno. Sustentou a afirmativa: “Vejo, diz ele, uma prova disto, mais clara do
que o dia, na parábola do rico avarento. Não declara aqui o Senhor abertamente que os bons se conhecem entre si,
e os maus também? Porque, se Abraão não reconhecesse Lázaro, como falaria de suas passadas desgraças ao rico
avarento que estava no meio dos tormentos? E como não conheceria este mesmo avarento os seus companheiros
de tormentos se tem cuidado de pedir pelos que ainda estão na terra? Vê-se igualmente que os bons conhecem os
maus e os maus os bons. Com efeito, o avarento é conhecido por Abraão; e Lázaro, um dos escolhidos, é
reconhecido pelo avarento, que é do número dos réprobos. Este conhecimento põe o remate ao que cada um deve
receber. Faz com que os bons gozem mais, porque se regozijam com aqueles que amaram na terra. Faz com que os
maus, por isso que são atormentados com aqueles que amaram neste mundo até ao desprezo de Deus, sofram não
só o seu próprio castigo, mas ainda, de alguma sorte, o dos outros. Há, mesmo para os bem-aventurados, alguma
coisa mais admirável. Além de reconhecerem aqueles que conheceram neste mundo - Agnoscunt quos in hoc mundo
noverante - reconhecem também, como se os houvessem visto e conhecido, os bons que nunca viram: Velut visos ac
cognitos recognoscunt.

Que podem ignorar os bem-aventurados no Céu, vendo em plena luz o Deus que tudo sabe? Um dos nossos
religiosos, muito recomendável pela sua santidade, viu junto de si, por ocasião da sua morte, os profetas Jonas,
Ezequiel e Daniel, e designou-os por seus nomes.

Este exemplo faz-nos claramente perceber quão grande será o conhecimento que teremos uns dos outros na
incorruptível vida do Céu, visto que este religioso, estando ainda revestido da corruptibilidade, conheceu os santos
profetas que nunca tinha visto”

Encontramos um fato muito semelhante na vida da fundadora das Anunciadas Celestinas, Maria Vitória Fornari.
Interrogava ela uma irmã conversa, pobre aldeã, sobre os Bem-aventurados que a honravam com suas aparições,
como a Santíssima Virgem, Santo Onofre, Santa Catarina de Sena, etc.. Surpreendida por ver que uma rapariga sem
letras tinha um tão distinto conhecimento de tantos santos, a bem-aventurada perguntou-lhe onde havia aprendido
tudo o que sabia a este respeito: “Minha madre, disse ela com grande simplicidade, todos os santos se conhecem
distintamente em Deus”. S. Gregório Magno foi citado por escritores eclesiásticos muito antigos: na Alemanha, no
século IX, por Haymon, Bispo de Halberstadt; na Inglaterra, no século VIII, pelo venerável Beda; na Espanha, no
século VII, por S. Julião, Bispo de Toledo. Todos participam do seu sentimento e o afirmam sem rodeios.

S. Julião, por exemplo, antes de referir estas palavras do grande Pontífice, diz: “As almas dos defuntos, privadas de
seus corpos podem reconhecer-se mutuamente; o Evangelista assim o atesta. Não se pode duvidar de que as almas
dos mortos se reconheçam: 'Non est dubitandum quod se defunctorum spiritus recognoscant’. Sobre o juízo final,
temos as seguintes palavras de Jesus Cristo a seus discípulos: “Em verdade vos digo que, quando chegar o tempo da
regeneração, e o Filho do Homem estiver sentado no trono da sua glória, vós, que me tendes seguido, estareis
sentados sobre doze cadeiras e julgareis as doze tribos de Israel” (Matth., XIX, 28.). Temos também estas palavras do
grande Apóstolo aos Coríntios:

“Não sabeis que os santos devem um dia julgar o Mundo? Não sabeis que nós seremos os juízes dos mesmos anjos?”
(1 Corinth., VI, 2, 3). Tal é a base da argumentação de S. Teodoro Studita, num discurso que fez no fim do VIII século
ou princípio do IX, para refutar o erro que nos esforçamos por combater aqui. “Alguns oradores, diz ele, enganam os
seus ouvintes, sustentando que as criaturas ressuscitadas não se reconhecerão quando o Filho de Deus vier julgar-
nos a todos.” “Como, exclamam, quando de frágeis nos tornarmos incorruptíveis e imortais; quando já não houver
gregos, nem judeus, nem bárbaros, nem citas, nem escravos, nem homens livres, nem esposo, nem esposa; quando
formos todos semelhantes em gênios, poderíamos reconhecer-nos mutuamente?”. Respondemos, em primeiro
lugar, que o que é impossível aos homens é possível a Deus. Doutra sorte não acreditaríamos na ressurreição da
carne, pretextando raciocínios humanos. E, efetivamente, como se poderá reorganizar no último dia um corpo
desfeito em podridão, devorado talvez por animais ferozes, pelas aves ou pelos peixes, e estes devorados por outros
e isto de muitas maneiras, e sucessivamente? Todavia, assim há de ser, e o secreto poder de Deus reunirá todas as
suas partes espalhadas e as ressuscitará. Então, cada alma reconhecerá o corpo com que viveu. Mas cada uma das
almas reconhecerá também o corpo do seu próximo? Não se pode duvidar, sem que se ponha ao mesmo tempo em
dúvida o juízo universal. Porque não se pode ser citado em juízo sem ser conhecido, e para julgar uma pessoa é
preciso conhecê-la, segundo estas palavras da Sagrada Escritura: “Convencer-vos-ei, e porei diante de vossos olhos
vossos pecados” (Ps., XLIX, 21). O valor deste raciocínio depende da seguinte distinção: no juízo particular, somos
julgados só por Deus; mas, no juízo universal, julgaremos de alguma sorte uns aos outros. Entretanto, o primeiro só
manifesta a justiça à alma que é julgada, o último a manifestará a todas as criaturas. Assim todas esperam, para o
grande dia, a revelação dos filhos de Deus (Rom., VIII; 19) que fará mudar muito as apreciações dos homens.O Santo
continua nestes termos:

“Portanto, se nos não reconhecermos mutuamente, não seremos julgados; se não formos julgados, não seremos
recompensados ou punidos pelo que tivermos feito e sofrido neste mundo. Se não devem reconhecer aqueles a
quem hão de julgar, verão porventura os Apóstolos o cumprimento desta promessa do Senhor: Assentar-vos-eis
sobre doze tronos para julgardes as doze tribos de Israel?” (Matt., XIX, 28). E por estas palavras: “Onde o próprio
irmão não resgata, um estranho resgatará” (Ps. XL-VIII, 8), não supõe o santo rei David que o irmão reconhecerá seu
irmão? Muitas são as razões e autoridades que se opõem àqueles que pretendem negar o mútuo reconhecimento
das almas no Céu; asserção insensata, asserção comparada pela impiedade às fábulas de Orígenes. Enquanto a nós,
meus irmãos, acreditemos sempre que ainda havemos de ressuscitar, que nos tornaremos incorruptíveis, e que nos
reconheceremos mutuamente, como nossos primeiros pais se conheciam no paraíso terrestre, antes do pecado,
quando estavam ainda isentos de toda a corrupção.

Sim, é necessário crê-lo: Gredendum fore ut fratrem agnoscat frater, liberos pater, uxor maritum, amicus amicum –
o irmão reconhecerá seu irmão, o pai seus filhos, a esposa seu esposo, o amigo seu amigo; digo mais: o religioso
reconhecerá o religioso, o confessor reconhecerá o confessor; o mártir, o seu companheiro de armas; o apóstolo, o
seu colega no apostolado; todos nos conheceremos - quo omnium in Deo laetum domicilium sit - a fim de que a
habitação de todos em Deus se torne mais agradável pelo benefício, além de tantos outros, de nos reconhecermos
mutuamente”

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No Céu Nos Reconheceremos.

Continuação 2º Carta.

Provas da tradição: o fato simplesmente afirmado por Santo Atanásio, S. Paulino, Santo Agostinho, Honório e Berti –
As consolações tiradas deste fato, por Santo Ambrósio para os irmãos; por Fócio para os parentes; por S. Jerônimo,
Santo Agostinho e, mais ainda, S. João Crisóstomo, para as viúvas.

A luz despedida sobre este objeto pela tradição católica é tão viva e constante que passa através de todas as nuvens
dos sofismas e da preocupação. Os testemunhos podem dividir-se em duas classes: os que afirmam simplesmente o
fato, e os que dele tiram uma consolação.

Entre as obras muitas vezes atribuídas a Santo Atanásio, esta glória tão pura do IV século, encontra-se uma que tem
por título: Questões necessárias que nenhum cristão deve ignorar. Ora, na resposta à XXII questão lê-se: “Deus
concede às almas justas, no Céu, um grande bem, o de se conhecerem mutuamente”. No fim do mesmo século, S.
Paulino, que mais tarde foi Bispo de Nola, escrevia ao seu antigo preceptor, o poeta Ausónio:

“A alma sobrevive ao corpo, e é necessário que ela guarde os seus sentimentos e as suas afeições, tanto quanto a
sua vida. Ela não pode esquecer que é imortal. Para qualquer lugar que Nosso Senhor me mande depois da minha
morte, levar-vos-ei em meu coração, e o fatal golpe que me separar do meu corpo não porá termo ao amor que vos
consagro”.

No século V, o grande Bispo de Hipona dizia a seu auditório: “Conhecer-nos-emos todos no Céu. Pensais vós que me
conhecereis, por me haverdes conhecido na terra, mas não conhecereis meu pai, porque nunca o vistes? Repito-vos,
conhecereis todos os santos. Eles se conhecerão, não porque vejam a face uns dos outros, mas verão como os
profetas costumam ver na terra; ou ainda dum modo bem mais excelente. Verão divinamente. Por isso que estarão
cheias de Deus.
“E vós, S. Paulo e Santo Estêvão, o perseguidor e a vítima, não reinais juntamente com Jesus Cristo? Aí, vede-vos
ambos mutuamente, ouvis o nosso discurso;

Questiones ad Antiochum principem, q. XXII. 17 S. Paulino, Poema, XI, V. 59-67. 18 Santo Agostinho, Sermão 243,
cap. VI.orai ambos aí, orai ambos por nós. Aquele que vos coroou a ambos, vos ouvirá também a ambos. No século
XII, Honório d'Antun perguntava a si mesmo: “Os justos conhecem-se na glória?” Eis a sua resposta:

“As almas dos justos conhecem todos os justos, até mesmo o seu nome, a sua raça e seus merecimentos, como se
tivessem vivido sempre com eles. Conhecem também todos os maus, sabendo por que falta cada um deles está no
inferno. Os maus conhecem os maus, e ainda conhecem os justos que vêem, e até sabem seus nomes, como o rico
avarento sabia o nome de Abraão e de Lázaro. Os justos oram por aqueles que amaram no Senhor ou que os
invocam. Mas a sua alegria só se completará depois da ressurreição, quando tiverem recuperado os seus corpos e
estivermos reunidos com eles; pois a nossa ausência causa-lhes, por enquanto, alguma solicitude - De abcentia
lutem nostra sollicitantur”. Se quisesse interrogar sobre isto os teólogos modernos, seriam unânimes em responder
afirmativamente. Que um só fale em nome de todos: “Os Santos, diz ele, vêem-se reciprocamente; assim o pede a
unidade do reino e da cidade em que vivem na companhia do próprio Deus. Revelam espontaneamente uns aos
outros os seus pensamentos e as suas afeições, como pessoas da mesma casa que estão unidas por um sincero
amor.

Entre os seus concidadãos celestiais, conhecem aqueles mesmos que não conheceram neste mundo, e o
conhecimento das belas ações leva-os a outro conhecimento mais pleno daqueles que as praticaram”. Os maiores
santos e os homens mais eminentes da Igreja não receavam de recorrer a esta verdade, como a um fecundo
manancial, para daqui haurirem as cristalinas águas das celestes consolações que distribuíam às pessoas aflitas.
Quem, pois, ousaria ainda acusar de imperfeição este vivo desejo e esta doce esperança? Perdestes um irmão ou
uma irmã? Consolai-vos como Santo Ambrósio se consolava a si mesmo: “Ó meu irmão, dizia ele, visto que me
precedestes aí, preparai-me um lugar nessa habitação comum, que daqui por diante será para mim a mais desejada.
E assim como neste mundo tudo foi comum entre nós, também no Céu desconheceremos a lei de partilhas.

Não façais esperar por muito tempo, eu vos suplico, aquele que experimenta um tão vivo desejo de se vos reunir.
Esperai aquele que avança, auxiliai aquele que se apressa e, se vos parece que ainda tardo muito, fazei-me ir com
mais ligeireza. Nunca estivemos na terra separados um do outro por muito tempo; mas éreis vós que costumáveis
visitar-me. Agora, visto que o não podeis fazer, pertence-me ir para junto de vós. Ó meu irmão, que consolação me
resta, a não ser esta esperança de nos reunirmos o mais breve possível?

Sim, consola-me a esperança de que a separação que se efetuou entre nós pela vossa partida, não será de longa
duração, e que por vossas súplicas obtereis a graça de atrair a vós com mais brevidade aquele que vos chora tão
vivamente”. Perdestes um filho ou uma filha? Recebei as consolações que um Patriarca de Constantinopla dirigia a
um pai aflito. Este Patriarca não pode ser contado entre os homens eminentes, e ainda menos entre os santos. É
Phócio, o autor do cruel cisma que separa o Oriente do Ocidente. Mas suas palavras provam tanto mais, quanto que
indicam ser idêntico o parecer dos gregos e latinos sobre este ponto. Ei-las: “Se vossa filha vos aparecesse e vos
falasse, tendo a sua mão apertada na vossa e o seu risonho semblante chegado ao vosso, não vos faria ela a
descrição do Céu? Depois acrescentaria: Por que vos afligis, ó meu pai? Estou no paraíso, onde a felicidade não tem
limites. Ireis para lá um dia com minha querida mãe, e então achareis que nada vos disse de mais deste lugar de
delícias, cuja realidade excede muito as minhas palavras. Ó querido pai, não me retenhais por mais tempo em vossos
braços, mas deixai-me com satisfação voltar para o Céu, onde me arrasta a violência do meu amor! – Expulsemos,
portanto, a tristeza, conclui Phócio, porque vossa filha está cheia de felicidade no seio de Abraão.

Expulsemos a tristeza; porque, dentro de pouco tempo, a veremos ali exultar de alegria e contentamento”.
Perdestes vosso marido? Ai! os vestidos de luto, que trajais continuamente, manifestam bem a desgraça que vos
feriu, e a afeição que sobrevive ao vínculo que a morte quebrou. Aproveitai-vos, pois, das consolações que os Padres
da Igreja ofereceram por tantas vezes às viúvas cristãs.

S. Jerônimo escrevia a uma viúva: “Chorai vosso Lucínio como um irmão, mas regozijai-vos por ele reinar com Jesus
Cristo. Vitorioso e seguro da sua glória, olha-vos do alto do Céu, anima-vos nas vossas aflições, e prepara-vos um
lugar junto de si, com tal amor e caridade que, esquecendo-se do seu direito de esposo, começa ainda na terra por
vos considerar como sua irmã, ou antes, como seu irmão, porque uma casta união não conhece esta diferença de
sexo que se requer para o matrimônio”. Santo Agostinho escrevia a outra viúva: “Não perdemos aqueles que saem
dum mundo donde nós devemos também sair; mas enviamo-los, primeiro que nós, para essa outra vida, onde nos
serão tanto mais queridos quanto mais conhecidos nos forem – Ubi nobis erunt quanto notiores, tanto utique
cariores. Vós víeis melhor o seu rosto, mas ele via melhor o seu coração. Ora, quando o Senhor vier, porá em plena
luz tudo o que estiver envolvido nas trevas, e manifestará os pensamentos do coração. Então cada um saberá o que
disser respeito a todos, e não haverá distinção alguma entre os nossos e os estranhos para revelar um segredo aos
primeiros e ocultá-lo aos segundos, pois na pátria celeste não haverá estranhos.

Mas qual será a natureza, qual a intensidade da luz que assim manifestará tudo quanto o nosso coração encerra
agora na obscuridade? Quem poderá dizê-lo? Quem poderá somente concebê-lo?”. S. João Crisóstomo, numa das
suas homilias sobre o Evangelho de S. Mateus, dizia a cada um de seus ouvintes: “Desejais ver aquele que a morte
vos arrebatou? Segui a mesma vida que ele no caminho da virtude, e muito brevemente gozareis desta santa visão.
Mas quereríeis vê-lo aqui mesmo? Ah! quem vos poderá estorvar? Se sois prudente, é-vos permitido e fácil vê-lo;
porque a esperança dos bens futuros é mais clara do que a própria vista”.

Este sublime orador encontrava, na sua própria história, tudo o que podia torná-lo mais sensível às tristezas da
esposa que perdera seu marido. Filho único de uma viúva, que vivia no meio da sociedade, entregue à fraqueza de
sua idade e do seu sexo, tinha sido ele o confidente das suas lágrimas e da sua dor, até que a deixara só, como em
segunda viuvez, fugindo ao seu amor para encerrar-se na solidão. Ele mesmo nos contou que Libânio, orador pagão,
sabendo que sua mãe conservava casta viuvez desde a idade de vinte anos, e nunca tinha querido passar a segundas
núpcias, exclamou, voltando-se para os que o cercavam: “Oh! que mulheres que são as cristãs!”. A Providência
soube proporcionar a Crisóstomo a ocasião de aproveitar estas disposições do seu coração, consolando outra jovem,
que só tinha vivido cinco anos com Terásio, seu marido, um dos principais homens do seu tempo. Escreveu a seu
respeito dois tratados, que são tidos na conta dos seus mais notáveis livros. Entre outras muitas mais consoladoras,
diz-lhe: “Se desejais ver o vosso marido, se quereis gozar da vossa mútua presença, fazei brilhar em vós a mesma
pureza de vida que resplendecia nele, e estai certa que ireis assim fazer parte do mesmo coro angélico em que ele
está. Habitareis em sua companhia, não por espaço de cinco anos, como na terra, mas por toda a eternidade.
Tornareis então a encontrar vosso marido, não já com aquela beleza corpórea de que era dotado neste mundo, mas
com outro esplendor, com outra beleza, que excederá em brilho os raios do Sol. Se vos tivessem prometido de dar a
vosso esposo o império de toda a terra, com a condição de vos separardes dele por espaço de vinte anos; e se, além
disto, prometessem restituir-vo-lo passado este espaço de tempo, ornado com o diadema e a púrpura, colocando-
vos no mesmo grau de honra; não vos resignaríeis a esta separação, observando a castidade? Veríeis mesmo nesta
proposição um insigne favor e um objeto digno de todos os vossos desejos.

Suportai, pois, agora, com resignação e paciência, uma separação que dá a vosso marido a realeza, não da Terra,
mas do Céu; suportai-a para o encontrardes entre os bem-aventurados habitantes do Paraíso, coberto, não dum
manto de ouro, mas dum vestido de glória e de imortalidade. Portanto, pensando nas honras de que Therásio goza
no Céu, ponde termo às vossas lágrimas e aos vossos suspiros. Vivei como ele viveu, ou ainda com mais perfeição,
para que, depois de haverdes praticado as mesmas virtudes, sejais recebida nos mesmos tabernáculos, unindo-vos
novamente com ele por toda a eternidade, não pelo vínculo do matrimônio, mas por outro ainda melhor. O primeiro
une somente os corpos, entretanto que o segundo, mais puro, mais agradável e mais santo, une também as almas”.

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No Céu nos Reconheceremos

TERCEIRA CARTA

Resposta a algumas objeções


I É perigoso não responder às objeções. – As de que falamos, resultam da idéia falsa ou acanhada que se faz do Céu –
O pensamento católico exprimido com felicidade por Dante. – Luzes que os bem-aventurados têm. – Eles não
ignoram as nossas necessidades. – Desejo que têm de nos socorrer. – A sua lembrança de tudo.

SENHORA
, Nenhuma das verdades solidamente estabelecidas na Igreja deve ser abalada em nossas almas, por uma ou muitas
objeções, cuja solução nos escapa. “A verdade é do Senhor e permanecerá eternamente”, diz a Escritura (Ps. CX-VI,
2); as objeções são do homem, o tempo muda-as, e o sopro da ciência as dissipa. Todavia, acontece que uma
verdade claramente demonstrada, não penetra pro-fundamente em nossa alma, enquanto tivermos uma dificuldade
a que não achemos resposta. Algumas vezes mesmo a objeção apodera-se de tal modo do nosso espírito, que chega
a expelir dele a verdade. É o que se deu em muitas pessoas a respeito do objeto de que nos ocupamos. Não sabendo
como rasgar o véu de algumas dificuldades que lhes ocultava esta luz tão consoladora, têm dito que não nos
reconheceremos no Céu. A sua imprudência poderia comparar-se à dum menino que, não podendo dissipar o
espesso nevoeiro, negasse a existência do Sol. As objeções que vos têm feito, e que me haveis transmitido, resultam
de se não formar uma idéia assaz justa e grande do Céu. Muitos supõem que Deus se dispusera a construir o edifício
da nossa grandeza sobre a indiferença ou insensibilidade, a coroar-nos de glória e inebriar-nos de felicidade no meio
da ignorância ou das trevas. Aderir a esta idéia é provar que nem mesmo se leu aquele príncipe de poetas cristãos,
que pôs ao serviço da fé a sua poderosa e bem regulada imaginação e que cantou numa língua e num país a que
vossa família não pode chamar estrangeiro. Cito-o, não para lhe atribuir uma autoridade que não tem, mas porque
exprime felizmente o pensamento católico.

“O Céu, disse ele, é um admirável e angélico templo, que tem por confins só o amor e a luz. E uma luz pura, luz
intelectual carregada de amor, amor do verdadeiro bem, cheio de alegria que excede toda a suavidade.

O estado da bem-aventurança funda-se sobre a ação de ver, seguindo-se-lhe a de amar, e tanto que a alegria dos
bem-aventurados, como a dos anjos, é maior ou menor segundo a sua vista se fixa mais ou menos na verdade, onde
se repousa toda a inteligência”. Eis aqui, pois, o princípio de solução para as objeções: no Céu, que é mais um estado
do que um lugar, tudo é luz, tudo é amor. Por esta luz, os escolhidos que gozam da visão de Deus, conhecem, com os
prodígios da natureza e da graça, tudo o que se refere ao estado próprio de cada um.

Assim, os pontífices vêem o que diz respeito ao governo da sua Igreja, e os reis o que concerne ao seu reino. Deve
crer-se, pois, que gozam da bem-aventurança, que o seu estado é perfeito pela reunião de todos os bens, 29 sê-lo-ia
sem este conhecimento?Deve também crer-se que vêem a Deus face a face: por que motivo não verão também o
que lhes diz respeito, neste espelho da Divindade, sempre patente a seus olhos e fiel em tudo refletir? Os bem-
aventurados têm uma ciência infusa e atual, que lhes vem por via de revelação ou iluminação, seja da parte de Deus,
seja da parte dos anjos ou dos santos mais elevados em glória. Têm também uma ciência natural e adquirida, que
obtiveram durante a sua vida mortal, seja pelo trabalho, seja pela experiência, e que conservam no Céu. Perderiam,
pois, na habitação da felicidade, o gozo de todos os seus conhecimentos adquiridos que pode aumentar mais a sua
ventura, o conhecimento dos parentes e dos amigos que tiveram na terra? Eles não ignoram as necessidades nem as
orações de seus parentes que ficaram neste mundo.

Depois da morte de S. Bernardo, um abade de Claraval consolava os seus religiosos dizendo-lhes: “Quanto mais no
Céu do que na Terra, nosso Pai vê, sente e conhece tudo o que nos toca! A sua espiritual paternidade não se
dissolveu com o corpo, ele nada ignora das necessidades de seus filhos, e ouve-nos do fundo de seu túmulo”. O
mesmo Deus que é a suma verdade, ilumina e penetra os santos, anima-os e inflama-os com o seu amor.

Eles são também caridade com Ele, amam-nos como Ele, lembram-se de nós, ocupam-se de nós; e esta
misericordiosa solicitude – diz Augusto Nicolas – concilia-se tanto neles como n’Ele, com a suprema felicidade. Que
digo eu? É esta mesma felicidade que, inebriando-os de suas delícias, os inebria também, de alguma sorte, da
necessidade de comunicá-la, porque é ela a felicidade de amor, que só se enche para se derramar . Eles governam-
nos, dirigem-nos e intercedem por nós. S. Gregório Nazianzeno, concluindo o elogio de S. Cipriano, exclamou:

“Ó vós, do alto do Céu, olhai-nos com bondade, guiai nossos discursos e nossa vida, apascentai este virtuoso
rebanho e auxiliai o seu pastor”. No segundo livro dos Macabeus (XV, 12-16), vemos Onias e Jeremias, já mortos,
interessarem-se pela sorte dos judeus, orarem pela sua liberdade e entregarem a Judas a espada que devia
assegurar-lhe a vitória. No Apocalipse (V, 8; VI, 10) vemos os bem-aventurados oferecerem ao Senhor as orações que
se elevam da terra, como perfumes, e queixarem-se de seus perseguidores estarem ainda impunes. Por que, pois,
seriam os únicos a não serem reconheci-dos, aqueles que foram na terra seus protetores ou seus protegidos, e que
lhes fazem agora companhia na glória? Por que esta exceção inteiramente semelhante a um castigo? Por que esta
pobreza do coração, que seria assim privado de todas as santas afeições, a que deve talvez a sua entrada na pátria
da caridade, ou pelo menos um grau mais elevado no reino da pura luz e do verdadeiro perfeito amor? O Cristão não
tem necessidade de passar o rio do esquecimento para chegar ao eterno repouso. O santo nunca perde a memória
do menor de seus triunfos, nem o mais obscuro dos seus merecimentos. A nossa mão esquerda, que não sabe na
terra o bem que faz a direita (Math. VI, 3), sabê-lo-á um dia no Céu, e se regozijará por isso eternamente. Neste
mundo, morremos em nós mesmos, por um esquecimento que cada vez se torna maior; mas no Céu,
ressuscitaremos em nós mesmos pela mais completa lembrança: Todo o bem que tivermos feito, reviverá em nossa
memória com uma fresquidão e vivacidade de sentimentos, que nunca houvéramos conhecido. Conservaremos a
lembrança das nossas provas interiores e espirituais; recordar-nos-emos das nossas dores físicas e de todos os
nossos trabalhos. Como nos será doce então repassar, pela imaginação, todas estas rugas do tempo, onde as
lágrimas dos nossos olhos e os suores dos nossos membros caírem, como orvalho fecundo, para enriquecer a
colheita dos nossos eternos merecimentos! Mas como! Os felizes habitantes do Paraíso, em suas íntimas
conversações, nunca falariam do seu passado, deixariam ignorar a grandeza e multiplicidade dos seus combates
neste mundo, e não revelariam entre si uma única circunstância que lhes fizesse conhecer que foram
contemporâneos, vizinhos, parentes ou amigos?! É impossível.

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No Céu nos Reconheceremos.

Continuação da Terceira Carta.

II Com a ciência cresce no Céu o amor. – Aumento deste mesmo amor. – Pa-lavras de S. Bernardo em diferentes
ocasiões. – Doutrina de S. Tomás de Aqui-no. – Revelação feita a Santa Catarina de Sena. - Harmonia do
conhecimento e do amor. - Nem inveja nem ciúme, mas completa resignação.

Ora, no Céu, com a ciência cresce a caridade, o amor. Assim como o Sol nos envia num só e mesmo raio duas coisas
ao mesmo tempo: a luz e o calor; assim também este mútuo conhecimento que Deus permite aos seus escolhidos, é
sempre acompanhado de amor. E da mesma forma que se tornariam mais abrasados, à medida que se
aproximassem da chama; assim também, quanto mais se aproximam deste grande Deus que é um fogo consumidor
(Deut., IV, 24), tanto mais amam e são amados. A caridade nunca se extingue, diz o Apóstolo, (I Cor., XIII, 8); e este
amor infinito, abraça a Deus em sua unidade, a nós mesmos e ao próximo. E efetivamente não existem duas ou três
virtudes da caridade, mas só uma. Se, pois, o amor do justo sobe com ele ao Céu depois da sua morte, se brilha
mesmo com um esplendor mais radioso sobre o imaculado horizonte da bem-aventurada eternidade, como um
astro que, elevando-se, aumenta os seus esplendores, por que razão deixaria este justo de inflamar-se também em
caridade para com todos aqueles que amou santamente na terra? Por que motivo, quando é maior o seu amor para
com Deus, e para consigo mesmo, não seria maior também para com o seu próximo? O santo abade de Claraval
chorou a perda de seu irmão Gerardo com uma ternura maravilhosa. Um de seus sermões sobre o Cântico dos
Cânticos, não é mais do que uma oração fúnebre a respeito deste irmão querido. Que diz ele sobre este ponto?
Atendei e consolai-vos: “Quanto mais se estiver unido a Deus, mais cresce o amor. Ora, se Deus não pode sofrer,
pode condoer-se; porque ter piedade dos desgraçados e perdoar aos culpados, é próprio da sua infinita misericórdia.

É forçoso, pois, meu irmão, que estejais comovido das misérias do próximo, visto que estais tão intimamente unido à
divina misericórdia. Assim a vossa afeição por nós, longe de diminuir, chegou, pelo contrário, à sua perfeição; e
tendo-vos revestido de Deus, não vos despojastes da vossa solicitude para conosco, visto que o mesmo Deus tem
cuidado de nós (1 Petr. V, 7). Ter-vos-eis despojado de tudo o que era fraqueza, mas nunca da piedade ou
compaixão.

Enfim, visto que a caridade não morre, vós nunca me olvidareis.” Baseado neste motivo do amor para com o
próximo, o abade de Claraval dirigia-se a S. Malaquias nos termos seguintes: “Longe de nós o pensamento de que a
vossa caridade, tão ativa na terra, esteja, não digo esgotada, mas somente diminuída, quando vos achais junto da
mesma nascente da eterna caridade, tirando dela a longos tragos aquilo de que anteriormente tínheis sede e que só
podíeis beber gota a gota!

O amor nunca pode ceder à morte, pois que é mais forte do que ela”. O santo abade dizia a respeito de outro seu
amigo:
“Ele era meu em quanto vivia, será meu depois da sua morte, e reconhecê-lo-ei por meu na pátria celeste – Meum in
patria recognoscam”. Num sermão de S. Vítor, mostrava-o tão cheio de solicitude por nós como de segurança a seu
respeito; “porque, dizia ele, não é numa terra de esquecimento que habita a alma de Vítor. Porventura a celeste
habitação endurece as almas que recebe, ou priva-as da memória, ou despoja-as da piedade?

Meus irmãos, a amplidão do Céu dilata os corações e não os restringe, dilata os espíritos e não os dissipa, não
diminui as afeições, mas aumenta-as. Na eterna luz, a memória é aclarada e não obscurecida, aprende-se o que se
ignora e não se esquece o que se sabe – discitur quod nescitur, non quod scitur dediscitur.” . O doutor angélico, S.
Tomás de Aquino, diz que os bem-aventurados se amam entre si tanto mais quanto maior é a sua união com Deus;
entretanto, na terra nos amamos mais ou menos, segundo a maior ou menor união entre nós, pelas diferentes
relações que nos são necessárias ou permitidas.

Todavia, ainda que no Céu não tenhamos de prover às necessidades uns dos outros, cada um conservará uma
afeição especial por aqueles que lhe foram unidos, e continuará a amá-los com mais particularidade, ou por motivo
de parentesco, de amizade, de aliança, de benefícios concedidos ou recebidos, por serem patrícios ou da mesma
vocação. Porque nenhum motivo de pura afeição deixará de operar sobre o coração dum bem-aventurado – Non
enim cessabunt ab animo beati honestae dilecti-onis causae.

O próprio Deus dizia a Santa Catarina de Sena: “Ainda que todos os meus escolhidos estejam indissoluvelmente
unidos por uma perfeita caridade, todavia, entre aqueles que se amavam reciprocamente neste mundo, reina uma
singular comunicação e uma alegre e santa familiaridade. Por este mútuo amor se esforçavam por crescer na minha
graça, caminhando de virtude em virtude; por ele, um era para o outro um meio de salvação; por ele, todos se
auxiliavam reciprocamente em me glorificar em si mesmos e no seu próximo. Assim, este santo amor nada diminui
entre eles na vida eterna; pelo contrário, ocasiona-lhes muito maior alegria e contentamento espiritual”. Sem esta
admirável harmonia do conhecimento e do amor, o Céu seria triste. Acendei nele o facho da ciência sem a fornalha
da caridade, e os ciúmes estenderão suas redes, como na terra. Fazei do amor um cego correndo nas trevas em
procura do seu objeto, e vê-lo-eis, dentro em pouco, vítima dos mais sombrios pesares. Sem o amor, nada faria
contrapeso à desigualdade, porque deixaríamos de possuir no próximo o que não temos em nós mesmos. Sem a luz,
nada nos consolaria do desgraçado fim dum ente querido, infiel ao comparecimento no ponto determinado para a
reunião, porque não se veriam já os decretos da eterna justiça, nem a marcha da amável Providência. Mas, unir à
perfeição da ciência a perfeição da caridade é excluir do Céu os ciúmes do egoísmo e os amargos pesares. Os santos
gozam do que têm, e não se afligem do que não têm. Aqueles mesmos que passaram uma parte da sua vida no
pecado, nem por isso gozam menos duma pura alegria e duma completa felicidade, ainda mesmo que o seu grau de
glória seja inferior.

O grande Bispo de Hipona dizia às virgens: “A multidão que vos vir seguir o Cordeiro, sem poder acompanhar-vos,
não terá ciúme. Tomando parte na vossa alegria, ela terá em vós o que não tem em si mesma – collaectando vobis,
quod in se non habet, habebit in vobis. Sem dúvida, ela não poderá entoar o novo cântico, que só vos é próprio
(Apoc. XIV, 3, 4); mas poderá ouvi-lo e regozijar-se com a vossa imensa felicidade”. Dizia ainda:

“Na mesma bem-aventurança, nenhum daqueles que tiver um grau mais inferior terá inveja dos que estiveram
colocados numa ordem mais superior, assim como Sainte Catherine de Siene, os anjos não têm ciúme dos arcanjos.
Ninguém quererá ser mais do que aquilo para que Deus o fez, assim como em nosso corpo o olho não pode invejar a
sorte do dedo. A todo aquele que recebeu dons menores, dá Deus a graça de os não ambicionar maiores”. Se vos
repugna consultar, sobre esta matéria, os sérios e mui importantes livros dos doutores, lançai mãos da Divina
Comédia, e lede uma página deste poema, que vos agradará, por isso mesmo que tem nele grande parte a teologia.
Na sua graciosa viagem ao Paraíso, o autor perguntava a uma alma que encontrou no mais ínfimo grau, se ela não
desejava subir mais acima para mais ver e mais amar. “Irmão, respondeu ela, há uma virtude de caridade que
modera o nosso querer e que, fazendo que queiramos somente o que temos, nos impede de desejar outra qualquer
coisa. É mesmo essencial à nossa bem-aventurada existência manter-se ca-da qual na vontade divina, de maneira
que todas as nossas vontades não façam mais do que uma. Que sejamos distribuídas em graduações diversas neste
reino, é uma disposição que agrada a todo ele, assim como ao Rei que absorve o nosso querer no seu. Na sua
vontade está a nossa paz. A sua vontade é este mar para o qual se move não só o que ela diretamente criou, mas
também o que a natureza produz.
Conheci então, conclui o poeta, que todo o lugar no Céu é Paraíso, ainda que a graça do Soberano Bem se não
derrame por toda a parte com a mesma intensidade”41.

40 Ibid.,

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No Céu nos Reconheceremos.

III - Não haverá necessidade de desviar os olhos do Criador para ver as criaturas – O Céu não é um êxtase onde se
esquecem os parentes e os amigos. – A natureza, no que tem de bom, existirá sempre. – A graça não a repele,
mesmo na terra.

O Céu é luz; não digais pois: –Encontrando-se em Deus em toda a sua plenitude a perfeição que nos torna amável
um ser criado, poder-se-á desviar os olhos do centro dos eternos esplendores e do oceano das perfeições infinitas,
para seguir com a vista um raio separado, um pequeno regato? Os bem-aventurados nunca têm necessidade de
desviar os olhos do Criador para reconhecerem uma criatura. É nele, é no Verbo que contemplam ao mesmo tempo
o centro luminoso e os raios, o fecundo manancial e os arroios. “É no Verbo divino, escrevia o autor da Vida dos
predestinados, que se verá a verdade claramente, e sem estes véus que nos não deixam vê-la neste mundo em toda
a sua pureza e a descoberto. No Céu já não haverá dúvida, ou incerteza. É neste Verbo que o predestinado verá,
como num admirável espelho, este espetáculo do mundo desenvolver-se na mais pequena circunstância de cada
sucesso. Será n’Ele que aprenderá a série dos eternos conselhos de Deus nos interesses da sua glória. Aí divisaremos
ao mesmo tempo o presente, o pretérito e o futuro, e marcharemos, com a graça desta luz, nos imensos caminhos
da eternidade, sem nos perdermos nem ainda nos afastarmos deles.

–Leremos aí a descrição universal de todos os tempos, e o que se passou de mais curioso no decurso de cada século,
não só no mundo exterior, mas ainda no interior, isto é, nos lugares mais recônditos do coração humano. Será neste
livro, patente aos escolhidos, que se terá o prazer de estudar a história secreta da celeste Jerusalém, que contém o
mistério da salvação de cada predestinado, e que encerra a narração do procedimento de Deus em relação aos
homens, no admirável desejo da sua predestinação”.

O Céu é amor; não digais portanto: –Não há necessidade de amigos. Os santos no êxtase esquecem até os seus
parentes, e além disso a maior parte das nossas afeições têm um princípio inteiramente natural que deixará de
existir na eternidade. Pobre filosofia, que circunscreve os sentimentos do coração nos limites da utilidade presente,
e não compreende que o principal bem da amizade é o mesmo amor ou a correspondência estabelecida entre duas
pessoas sinceramente unidas entre si! Quantos sábios monarcas se têm crido mais felizes por terem um amigo do
que por terem um reino! Não nego que os santos, em certos momentos de consolação espiritual, sobre-tudo no
êxtase ou arrebatamento, tenham banido toda a lembrança de seus parentes e ainda das pessoas mais virtuosas;
não nego que tenham perdido todo o sentimento exceto o de Deus. Mas estavam na terra e em provação; cumpriam
penosamente a primeira palavra do Mestre: “Deixai casa e campos, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos”, e não
viam ainda cumprir-se a segunda: “Recebereis o cêntuplo e possuireis a vida eterna” (Math., XIX, 29). O Céu não é
um êxtase, nem um estado violento e transitório; é a cidade permanente, onde não há mortificação nem sacrifícios a
fazer para subir mais alto, mas onde se encontra em Deus o que se deixou por Deus. É o termo da viagem e dos
combates, onde se repousa na posse tranqüila de uma eterna recompensa. No Céu, o Senhor prodigaliza a todos,
luzes que recusa na terra a seus maiores servos; e dá à caridade para com o próximo uma liberdade de expansão que
a prudência cristã ou religiosa deve, muitas vezes, restringir neste mundo. A natureza, no que tem de bom, existirá
sempre. Será no Céu para a glória o que é na terra para a graça, o apoio necessário. A natureza é uma árvore
silvestre, mas a graça é-lhe engatada como um enxerto divino. Este enxerto dá primeiramente flores, pintadas com
as cores de Jesus Cristo, que exalam no tempo a sua ótima fragrância. Produz em seguida frutos de salvação que
serão a glória dos bem-aventurados na eternidade. Toda esta árvore com o seu fruto será transplantada no Céu.
Teremos aqui mesmo, com todas as faculdades da nossa alma, todos os sentidos do nosso corpo sem defeito algum.
Aquele que morrer ainda criança ressuscitará homem feito. Ouviram-se os vossos gemidos quando a morte
arrebatou do berço uma de vossas filhas; sentir-se-ão vossas alegrias e cânticos ao Senhor, quando tornardes a
encontrar junto do mesmo Deus, sobre um trono, esta filha querida, chegada de impro-viso a uma permanente
madureza, eternamente bela, eternamente jovem!
Chamando-a para si, Deus encarregou-se de a criar, e ele mesmo cuidou da sua educação. Ora, não receeis que ele
não vos deixasse lugar em seu coração. Na terra, ela não pôde conhecer-vos nem amar-vos; mas no Céu, por causa
destas relações de origem que são naturais, Deus lhe fará conhecer sua mãe, e lhe dará a piedade filial como virtude
sobrenatural. Mesmo na terra, como já se disse, a graça não repele a natureza; pelo contrário, estende-lhe a mão,
torna-se seu guia e seu apoio. Algumas vezes mesmo leva a condescendência até ao ponto de deixá-la marchar
diante de si, vigiando sobre os seus movimentos com uma doce solicitude maternal, tendo sempre a mão levantada
para regular os seus passos e prevenir suas quedas. O autor da graça, não contente com amar sobrenaturalmente
sua divina Mãe, amou-a também naturalmente, e não se dedignou de ser por ela amado. E quando verteu lágrimas
sobre o túmulo de Lázaro, seu amigo, foi a natureza que as deixou cair.

“A graça e a natureza são, ambas, filhas do Céu; mas uma pode ser considerada como filha da esposa, a outra como
filha da escrava. A primeira será herdeira do pai de família, por direito de nascimento; a segunda será admitida a
uma parte da herança, pelo privilégio duma benévola e gratuita adoção. Aquela será a rainha, esta a favorita da
mesma rainha”.

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No Céu nos Reconheceremos.

IV - No Céu, os bem-aventurados não se afligem pela condenação de pessoa alguma. – Não têm já afeição alguma
por um condenado. – Ele não conserva um só elemento de amabilidade. – A vontade dos bem-aventurados é
inteiramente conforme à de Deus, mesmo para a reprovação dum amigo, como diz Santa Catarina de Sena, Honório
e os teólogos.

O Céu é amor e luz; não digais, pois: –Imensa será a aflição dum santo ao lembrar-se do parente ou do amigo que
jamais irá reunir-se-lhe. Das sublimidades da glória descobre-se melhor o horror e a justiça de sua condenação. Sol
do mundo moral, Deus é o centro cuja atração livremente sujeita mantém nossa alma na órbita da salvação, apesar
das paixões que sempre nos impelem a afastar-nos dela. Das eternas colinas, os santos seguem atentamente as
vicissitudes desta luta, cujos resultados devem ocasionar às pessoas que lhes são queridas, o Céu ou o Inferno.
Vêem, desde há muito tempo, a divina atração, que é a mesma força da misericórdia, obrar sobre o pecador e
vencer resistências insensatas ou culpadas. Mas, enfim, vêem este pródigo obstinado, este homem que segunda vez
crucifica a Jesus Cristo, ceder voluntariamente às seduções do pecado e ao ímpeto das paixões, e sair inteiramente
da órbita da salvação. Como um astro extinto ou quebrado, projetado no espaço, corre veloz, afastando-se cada vez
mais do seu centro, e chega assim, pela condenação, a uma infinita distância de Deus. Ora, a afeição dos bem-
aventurados, por qualquer pessoa, enfraquece e diminui em proporção da distância em que esta se achar do
soberano bem; e como é infinita a distância que medeia entre Deus e o condenado, nenhuma afeição pode haver
por este.

O afeto que lhe consagravam na terra, não era mais do que uma irradiação dos atrativos divinos. Esta afetuosa
inclinação será destruída pela reprovação divina, e o raio que os iluminava e atraía voltará para Deus da mesma
forma que, no mundo material, quando uma nuvem se mete de permeio entre o sol e um corpo, o raio que
iluminava este corpo desaparece no mesmo instante, e volta para o astro donde saíra. Rompida assim a cadeia do
afeto, esta criatura, que outrora nos era tão querida, deixou inteiramente de o ser. Só veremos nela uma estranha,
uma inimiga, a inimiga do nosso Deus, do nosso Pai, do nosso bem supremo. Não teremos a fazer esforço nem
violência para nos desligar dela. Proferida a sentença de reprovação pelo supremo Juiz, o afeto que nutríamos pela
pessoa condenada, desaparecerá de nosso coração como por encanto. Porque entre nós e ela não havia atrativo
necessário, assim como não há qualidade alguma de atração entre dois fragmentos de ferro antes de um deles ser
tocado pelo ímã, ou depois de ter perdido esta propriedade emprestada. Não podemos, é verdade, eximir-nos de
um imenso desgosto na vida presente, lembrando-nos desta separação. Mas aqui é só a sensibilidade que raciocina e
se entristece; a fé não entra nisto: não é mesmo propriamente a sensibilidade, que é um dom de Deus e tem uma
razão de ser. Pelo contrário, esta perseverança na afeição por criaturas que já não têm elemento algum de
amabilidade, é um contrassenso e uma espécie de aberração: é a ilusão da sensibilidade. As recordações das nossas
antigas e verdadeiras afeições fixam-se em nós e molestam-nos, como as impressões dum sonho, quando se está
meio acordado, apesar mesmo duma suficiente luz para nos demonstrar a sua frivolidade.
A nossa sensibilidade em relação a estas afeições está atualmente neste estado que tem uma espécie de meio entre
o sonho e a vigília; mas apenas soe o eterno despertar, veremos claramente que tudo eram fantasmas, e a nossa
sensibilidade não se preocupará mais delas. Esta objeção é, algumas vezes, apresentada e sustentada por pessoas
que se consolam muito facilmente com a indiferença prática ou triste fim de seus parentes, e que pouco fazem por
convertê-los neste mundo, ou socorrê-los no outro. Mas, será possível porventura que no Céu amemos pessoas
condenadas a eternas penas mais do que a nós mesmos? Todavia cada um de nós saberá quais foram as suas
próprias faltas, verá os graus de glória que estas lhe fizeram perder, e nem por isso seremos infelizes, nem mesmo
nos entristeceremos. Será possível que os amemos ainda mais do que os amaram Deus e Jesus Cristo? Contudo a
felicidade de Deus não é perturbada pela sua condenação, e Jesus Cristo não se aflige com a perda de Judas.

Finalmente, como só amam o que Ele ama, os bem-aventurados querem unicamente o que o Senhor quer. Assim
dizia ele a uma grande santa: “Os habitantes do Céu têm os seus desejos inteiramente completos, e nunca estão
comigo em desacordo. O seu livre arbítrio está de tal sorte ligado pela caridade, que eles só podem querer o que eu
quiser. A sua vontade está tão conforme e unida à minha que os pais que vêem seus filhos no Inferno, ou filhos que
vêem seus pais condenados, não se afligem por isso; regozijam-se até de vê-los punidos pela minha justiça, visto que
estes filhos ou estes pais se obstinaram em ser meus inimigos”. Honório exprime por outros termos, e com não
menos energia, o meu pensamento:

“Os bem-aventurados não se afligirão à vista dos condenados e de seus tormentos. Quando mesmo o pai vir seu
filho no meio dos suplícios, o filho a seu pai, a filha a sua mãe ou esta àquela, não só se não entristecerão, mas ainda
se deleitarão à vista deste espetáculo, como nos acontece quando vemos os peixes brincarem num pego. Não está
escrito (Ps. LVII, 11): ‘O justo se alegrará quando vir tirar vingança dos pecadores?’”.

Neste mundo, segundo o parecer do Cardeal Caetano, um pai cristão, um bom pai, não seria feliz se soubesse que
seu filho estava condenado às penas eternas; mas, no Céu é ainda feliz na mesma hipótese, ainda que se possa dizer
que, em certo sentido, tem pesar desta condenação. E por que será ele feliz? Porque uma grande parte da nossa
eterna felicidade, segundo Vasquez, consistirá na inteira conformidade da nossa vontade com a divina.
Efetivamente, na eterna glória, a nossa vontade e a vontade divina estarão tão perfeitamente de acordo, como estão
os olhos do mesmo rosto, um dos quais não pode olhar para um objeto sem que o outro o siga.

Veremos, pois, todas as coisas como Deus as vê: assim como cada um de nossos olhos encontra no mesmo objeto a
mesma aparência. Mas, Senhora, ouço-vos repetir-me o que me dissestes por tantas vezes: –Como nos
consolaremos neste mundo depois da desgraçada morte duma pessoa querida que se viu expirar sem alguma
aparência de reconciliação com Deus? Ainda que esta proposta se afaste um pouco do meu objeto, não quero deixá-
la sem resposta. Vou, pois, acrescentar algumas páginas a esta carta para vos dizer: Consolai-vos, orando. Previstas
por Deus, vossas atuais orações talvez obtivessem, antes da morte, a secreta conversão do pecador cuja perda
chorais.

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No Céu nos Reconheceremos.

APÊNDICE À TERCEIRA CARTA


Oremos pelos pecadores mesmo depois da sua triste morte Mistérios da graça por ocasião da morte. - Como se
podem explicar. - Eficácia das orações feitas pelos pecadores depois do seu falecimento, segundo a opinião do P. de
Ravignam. – Testemunho de S. João Crisóstomo.

SENHORA, A Igreja não condena pessoa alguma. Publica os seus decretos em que nos declara que esta ou aquela
pessoa está no Céu, o que nunca fez a respeito dos condenados. Tenho a satisfação de saber que lendo vós uma
obra que merece toda a consideração, notastes particularmente estas linhas: “O Padre de Ravignam gostava de falar
dos mistérios da graça, que cria passarem-se no momento da morte, e parece ter sido o seu sentimento de que um
grande número de pecadores se convertem nos seus últimos momentos, e expiram reconciliados com Deus. Há, em
certas mortes, mistérios de misericórdia e rasgos de graça em que os olhos humanos só vêem golpes de justiça. À luz
dum último raio, Deus revela-se algumas vezes a certas almas cuja maior desgraça fora ignorá-lo; o último suspiro,
compreendido por Aquele que sonda os corações, pode ser um gemido que implore o perdão”. O marechal
Exelmans, a quem uma queda do cavalo subitamente precipitou no túmulo, não praticava a religião. Tinha
prometido confessar-se, mas não teve tempo. Todavia, no mesmo dia da morte, uma pessoa habituada às celestes
comunicações acreditou ouvir uma voz interior que lhe dizia:

“Quem conhece a extensão da minha misericórdia? Sabe-se porventura a profundeza do mar e as águas que
encerra? Muito será perdoado a certas pessoas que muito ignoram”.

Como explicar estes rasgos da graça? Pelo preço duma alma que vale o sangue de Jesus Cristo, vertido por ela, e pela
misericórdia que não conhece limites, por alguma boa obra, esmola ou oração que o pecador tiver feito durante a
sua vida; pelo invisível ministério do Anjo da Guarda, sempre disposto a trabalhar a bem da salvação do seu
protegido; pelas precedentes orações dos santos do Céu e dos justos da terra, e sobretudo pela intercessão da
Virgem Maria; finalmente, pelas orações feitas pelos pecadores depois da sua morte, quando mesmo não tenham
dado algum sinal de arrependimento. É este último ponto que me limito a explicar-vos aqui. Lestes com prazer na
obra que há pouco citei, as seguintes linhas traçadas pelo santo religioso para consolar uma rainha cujo filho
morrera, caindo duma carruagem. “Cristãos, colocados sob a lei da esperança não menos que da fé e do amor,
devemos erguer-nos incessantemente do fundo das nossas aflições, até ao pensamento da infinita bondade do
Salvador. Nenhum limite, nenhuma impossibilidade se mete de permeio entre a graça e a alma enquanto restar um
sopro de vida. Convém, pois, esperar sempre e dirigir ao Senhor humildes e perseverantes instâncias. Não se poderá
dizer até que ponto elas podem ser atendidas. Grandes santos e eminentes doutores estiveram bem longe, falando
desta poderosa eficácia das orações por almas queridas, de dizerem qual tenha sido o seu fim.

Conheceremos um dia estas inefáveis maravilhas da divina misericórdia, as quais nunca devemos deixar de implorar
com uma profunda confiança”. Visto que o P. de Ravignan apela para os santos e para os doutores, quero
apresentar-vos o testemunho dum grande doutor e duma grande santa. O mais eloqüente Arcebispo de
Constantinopla, provando que não é conveniente chorar muito pelos nossos queridos defuntos, mas antes auxiliá-los
com as nossas orações e boas obras, supõe que um de seus ouvintes o interrompe para lhe dizer: –“Mas eu choro
este querido defunto, porque morreu como um pecador - Prop-ter hoc ipsum plango, quod peccator excessit!”. Que
responde S. João Crisóstomo?

“Não será isto um vão pretexto? Pois se tal é o motivo das vossas lágrimas, por que não fazíeis mais esforços para
convertê-lo durante a vida? E se morreu verdadeiramente pecador, não devereis regozijar-vos, por isso mesmo, que
a sua morte veio pôr termo ao número de seus pecados que, desde então, já não pode aumentar? É sobretudo
necessário ir em seu socorro, tanto quanto puderdes, não por meio de lágrimas, mas de orações, súplicas, esmolas e
sacrifícios. Nenhuma destas coisas são efetivamente loucas invenções. Não é inutilmente que nos divinos mistérios
comemoramos os mortos; não é infrutiferamente que nos aproximamos do sagrado altar e oramos por eles ao
Cordeiro que apaga os pecados do mundo; pelo contrário, tudo isto lhes serve de muita consolação. Se Job
purificava seus filhos, oferecendo por eles um sacrifício, de quanto mais alívio deve ser para os nossos defuntos
aquele que por eles oferecermos ao Senhor? Não costuma Deus fazer bem a uns em consideração a outros?
Mostremo-nos cuidadosos em socorrer os nossos queridos defuntos, e ofereçamos por eles as nossas orações. A
Missa é uma expiação comum de que todo o mundo se pode aproveitar. Portanto oramos na Missa por todo o
Universo, e nesta multidão nomeamos os mortos com os mártires, com os confessores e com as virgens. Pois todos
nós somos um só corpo, ainda que este tenha membros mais brilhantes do que outros. Pode mesmo acontecer que
obtenhamos para nossos defuntos um completo perdão. Et fieri potest ut veniam eis omni ex parte conciliemos –
pelas súplicas e dons que oferecem em seu benefício aqueles que são nomeados com eles.

Por que estais ainda angustiado? Para quê estas lamentações? Não se poderá obter uma tão sublime graça para
aquele que perdestes?”

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No Céu nos Reconheceremos.

II Exemplo tirado da vida de Santa Gertrudes. – Esta verdade não é mais do que uma particular aplicação do princípio
geral da Redenção. – A fecundidade que ela pode dar à dor.

Encontra-se nas célebres revelações de Santa Gertrudes um exemplo que confirma esta doutrina e lhe dá uma nova
luz.
Em presença de Gertrudes, deu-se a uma pessoa a notícia da morte de um de seus parentes. Temendo esta que ele
não tivesse morrido no estado de graça, mostrou-se muito aflita. Foi tão grande a sua perturbação que, comovida a
Santa, se ofereceu para pedir a Deus pela alma do defunto, o que fez, principiando por dizer a Nosso Senhor: “Vós
podíeis bem ter-me dado o pensamento e a graça de orar por esta alma sem que a isso fosse levada por este
movimento de ternura e compaixão”. Jesus respondeu-lhe: “Comprazo-me singularmente nas súplicas que se me
dirigem pelos mortos, quando nelas se encontra a natural compaixão junto à boa vontade que a torna meritória, e
estas duas coisas se aliam e concorrem para darem a esta obra a plenitude e perfeição de que é capaz”. Tendo a
abadessa orado depois disto, por muito tempo a favor desta alma, conheceu que o seu estado era lastimoso; porque
lhe apareceu horrivelmente disforme, negra como um carvão, e semelhante àquelas pessoas que se confrangem
pela violência das dores. Contudo ninguém se via que a atormentasse; mas parecia claramente que eram seus
antigos pecados que faziam sobre ela o ofício de carrasco. “Senhor, exclamou a caritativa religiosa, não quereis
ceder aos nossos rogos, perdoando a esta criatura? – Queria por amor de ti, responde o divino Salvador, ter piedade
não só desta, mas ainda dum milhão de outras. Queres, pois, que lhe perdoe todos os seus pecados e a livre de toda
sorte de sofrimentos? – Talvez, replicou a Santa, não é isso conforme ao que ordena a vossa justiça!

– Não seria contrário, acrescentou Nosso Senhor, se mo pedisses com bastante confiança. Porque a minha divina luz,
que penetra no futuro, tendo-me feito conhecer que me farias esta súplica, excitei nessa alma boas disposições, para
prepará-la a gozar dos frutos da tua caridade. Oh! palavras cheias de consolação! Primeiramente, Deus, prevendo
nossas futuras súplicas, digna-se de conceder ao pecador moribundo boas disposições que assegurem a salvação da
sua alma; depois, por virtude das nossas orações presentes, consente em livrar esta mesma alma de toda a sorte de
penas, e em retirá-la das chamas expiatórias. A última confidência do Salvador à sua virginal esposa, não é mais do
que uma aplicação particular dum principio geral.

Antes que os homens tivessem podido abaixar seus olhos sobre o Presépio e levantá-los para o Calvário; antes que o
Sol da Redenção fosse para eles visível, neste humilde vale do nosso exílio, já podiam deixar-se conduzir pela sua luz
e vivificar pelo seu calor. Por quê? Porque Deus Pai, da sublimidade das eternas colinas, via já as orações, os
sofrimentos, as virtudes e os merecimentos do seu único Filho, que devia encarnar-se para salvar o mundo.

Não é assim que a Virgem bendita, que devia ser a Mãe deste único Filho, foi preservada de toda a mancha em sua
própria conceição, porque, diz-nos a Igreja, Deus considerava antecipadamente a Jesus Cristo crucificado? – Ex
morte ejusdem Fielii tui praevisa, eam ab omni labe preservasti.Esta verdade, bem compreendida e posta em
prática, pode dar à dor a sua maior fecundidade. “Toda a minha vida está nisto presentemente”, dizia a pessoa que
me fez notar esta passagem das revelações de Santa Gertrudes; “antes que meu marido morresse, Deus sabia o que
eu faria por ele!”.

E assim fez um completo sacrifício de si mesma. Consagrou-se ao Senhor, tomando por divisa: Orar, sofrer, trabalhar
e o Senhor a consolou, dando-lhe por família, com os pobres enfermos da terra, as atribuladas almas do Purgatório.
Orai, pois, e fazei orar: o Deus cuja misericórdia é alta e vasta como o Céu (Ps. LVI, 2; CVI1, 5), conheceu, no
momento em que ia expirar o vosso parente ou amigo, as orações que mais tarde faríeis por ele, hoje, amanhã,
depois de terdes lido estas páginas e seguido o meu conselho. Orai e fazei orar: vossas orações, santificando-vos e
consolando-vos nesta vida, concorrerão para salvar aqueles que amais.

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No Céu nos Reconheceremos.

QUARTA CARTA

Reconhecimento dos parentes ou a família no Céu

I - Reflexo dos três principais mistérios da nossa religião na família cristã. – A família recomposta no Céu. – Palavras
de Tertuliano. – Exemplo de Nosso Senhor. – Tocante espetáculo que oferecerá o Paraíso. – Jesus e Maria
reconhecem-se. – Maria tem cuidado de Jesus no Sacramento do seu amor. – Ela conserva sobre o seu Coração um
soberano poder.

SENHORA, Desejaríeis saber, particularmente, o que acontece à família no Céu, isto é, se Deus ali a recompõe, e se a
esperança de possuir vossos parentes na pátria celeste é uma consolação de que possais gozar sem receio, sem
escrúpulo e sem imperfeição. Podereis duvidá-lo, quando tantos santos personagens vô-lo afirmam, tanto por seus
exemplos como por suas palavras? Deus coroou de glória e honra a família cristã, e faz brilhar em sua fronte o
reflexo dos três principais mistérios da nossa religião. Vede por onde ela começa: – Por um Sacramento que é o sinal
sagrado da união do Verbo de Deus com a natureza humana, da união de Jesus Cristo com a sua Igreja, e da união do
mesmo Deus com a alma justa.

Quem o disse? Um grande Papa, Inocêncio III. Vede por onde continua: “Maridos, amai vossas mulheres como Jesus
Cristo amou a sua Igreja e se entregou por ela; mulheres, amai vossos maridos como a igreja ama a Jesus Cristo e se
entrega por Ele”. Quem o disse? O grande apóstolo S. Paulo (Eph., V, 25).

Vede por onde acaba: – Pelas relações de origem que os anjos nos enviam, tanto elas nos recordam as da Trindade e
nos procuram alegrias; porque o homem é do homem como Deus é de Deus. Homo est de homine, sicut Deus de
Deo. Assim o disse um grande doutor, S. Tomás de Aquino.

Mas teria mais poder o sopro da morte para destruir esta obra prima, do que a virtude força para lhe conservar o
esplendor? E visto que o amor é forte como a morte (Cant., VIII, 6), dar-se-á que a caridade de Deus, que criou a
família, que a caridade do homem que lhe santifica o uso, não queira ou não possa refazer eternamente no Céu o
que a morte desfez temporariamente na terra? Tertuliano dizia:

“Na vida eterna, Deus não separará aqueles que unira na terra, cuja separação também não permite nesta vida
inferior. A mulher pertencerá a seu marido, e este possuirá o que há de principal no matrimônio – o coração. A
abstenção e ausência de toda a comunicação carnal, nada lhe fará perder. Não será tanto mais honrado um marido
quanto mais puro for?”. Aquele que nos deu este preceito: Não separe o homem o que Deus uniu (Math., XIX, 6),
deu-nos também o exemplo. O Verbo contratou com a humanidade um divino desponsório: repudiou ele porventura
a sua esposa subindo ao Céu? Pelo contrário, fê-la assentar consigo à direita do seu Eterno Pai. O Homem Deus tem
uma Mãe que é bendita entre todas as mulheres: dedignou-se Ele de fazê-la participante da sua glória? Depois de
associá-la à sua Paixão na terra, fê-la gozar das alegrias da sua Ressurreição e dos esplendores do seu triunfo,
atraindo ao Céu, após de si, o seu corpo e sua alma. Jesus Cristo tinha dado a alguns homens o nome de irmãos:
desconhecê-los-ia mais tarde? Não. Reconheceu os seus Apóstolos no martírio que sofreram por Ele, e fez-se
reconhecer por eles no esplendor de que os cerca na Corte Celeste. Mas o Filho de Deus que assim se dignou
recompor, em redor de si, a sua família por natureza e por adoção, não quereria recompor da mesma forma, no
Paraíso, esta cristã e religiosa família, que é a vossa e também a sua? Quer, sim, e o Céu oferecerá um espetáculo
não menos tocante do que admirável. Assim como a primeira pessoa da Augustíssima Trindade, dirigindo-se à
segunda, lhe diz: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei (Act., XIII, 33); e a segunda diz à primeira, com o acento da
piedade filial: Meu Pai, Pai justo, Pai santo, guarda aqueles que me foram dados em teu nome para que sejam um,
como nós somos um, vós em mim e eu neles (Joan., XVII, 11, 22-25): assim também uma criatura humana se voltará
para outra e lhe dirá com ternura: Meu filho, minha filha! E do coração desta subirá para aquela, esta exclamação de
amor: Meu Pai! Assim como o único Filho de Deus se regozija de poder dizer a uma mulher: Vós sois minha Mãe;
também inumeráveis escolhidos exultarão de alegria dizendo igualmente a uma mulher: Minha mãe!

Ora, se fosse verdade que os membros da mesma família se não reconhecessem no Céu, Jesus não reconheceria já
sua Mãe nem seria reconhecido por ela. Não será horrível pensar nisto e muito mais dizê-lo? Um piedoso autor
estava por certo mais bem inspirado, quando escrevia: “A Santíssima Virgem conserva intacta a sua autoridade
maternal sobre o corpo do seu Filho, Nosso Senhor, mesmo depois da Ressurreição e Ascensão; porque o seu direito
é perpétuo e inalienável.

Depois de se ter deleitado, durante a sua vida mortal, na submissão a Maria, Jesus compraz-se ainda em mostrar-se
seu filho na bem-aventurada imortalidade, e em reconhecê-la por sua Mãe. Temos a prova disto nessas numerosas
aparições, em que ele se tem feito ver sob a forma de um menino entre os braços de sua Mãe, e se tem mesmo
dado a alguns Santos por suas virginais mãos. Na glória, os parentes conservam um contínuo cuidado de seus
próximos, e particularmente dos filhos, que são uma parte deles mesmos, e por assim dizer, outros eles. É, pois,
indubitável que a Mãe de Jesus tem sempre o pensamento unido a tudo o que toca ao corpo do seu querido Filho,
tanto na obscuridade do Sacramento como nos esplendores da glória. Segue-o, do alto do Céu, com a vista e com o
coração em todos os lugares em que se encontra presente na terra, pela consagração eucarística”. A eterna duração
desta maternal ternura e desta filial piedade, explica e justifica o belo titulo de Nossa Senhora do Sagrado Coração,
dado a Maria pelos nossos contemporâneos. “Tomando a natureza humana, disse o sr. Bispo de Rodes, o Verbo
Divino apropriou-se de todos os elementos que a compõem, no estado de perfeição a que a elevou a união
hipostática – Debuit per omnia fratribus similiari (Hebr., II, 17). Nosso Senhor possui no mais alto grau o sentimento
do amor filial, um dos mais nobres do coração humano, e longe de se despojar dele depois da ressurreição e da sua
gloriosa ascensão, tê-lo-ia dilatado, fortificado e elevado no seu mais sublime poder, se fora permitido dizê-lo, no
seu estado de bem-aventurada transfiguração, em que está assentado à direita de seu Pai.

Daqui é fácil de concluir que a augusta Virgem Maria possui sobre o seu divino Coração um soberano poder, de que
ela é verdadeiramente a Senhora ou a Rainha”.

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No Céu nos Reconheceremos.

II - A segurança de se reconhecerem os parentes no Céu tem consolado todos os santos. – O B. Henrique Suso. – S.
Tomás de Aquino. – S. Francisco Xavier. – Santa Tereza. – O seu pensar a respeito da felicidade de uma mãe. – Felizes
as pais que têm filhos religiosos.

Esta certeza de uma especial união com os nossos parentes na eterna bem-aventurança, é uma consolação tão pura
e tão doce que tem chegado a fazer as delícias dos próprios santos. Por todos os ventos do Céu, do Oriente, do meio
dia, do Ocidente e do Setentrião, nos chegam vozes que testemunham esta verdade.

A Alemanha apresenta-nos, entre muitos outros, o B. Henrique Suso, religioso da Ordem de S. Domingos. O seu
nome era Henrique Besg, mas preferiu o nome de Suso, que era o de sua mãe, para honrar a sua piedade e recordar-
se dela incessantemente. Esta virtuosa mãe morreu numa Sexta-feira Santa, à mesma hora em que Nosso Senhor foi
crucificado. Henrique estudava então em Colônia. Ela apareceu-lhe durante a noite, toda resplandecente de glória:
“Meu filho, lhe disse, ama com todas as tuas forças o Deus onipotente, e fica bem persuadido de que ele nunca te
abandonará em teus trabalhos e aflições. Deixei o mundo; mas isto não é morrer, pois que vivo feliz no Paraíso, onde
a misericórdia divina recompensou o imenso amor que eu tinha à Paixão de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. –
Ó minha santa mãe, ó minha terna mãe, exclamou Henrique, amai-me sempre no Céu, como fizestes na Terra, e não
me abandoneis jamais nas minhas aflições!”

A bem-aventurada desapareceu, mas seu filho ficou inundado de consolação. Em outra ocasião viu a alma de seu
pai, que tinha vivido muito apegado ao mundo. Apareceu-lhe cheia de sofrimentos e aflições, fazendo-lhe assim
compreender os tormentos que sofria no Purgatório, e pedindo-lhe o socorro das suas orações.

Henrique derramou tão ferventes lágrimas que alcançou quase logo a sua entrada no Paraíso, donde ele veio
agradecer-lhe a sua felicidade.

Os gauleses poderiam reivindicar, quase tanto como os italianos, o Anjo da escola. A alma de S. Tomás de Aquino
não estava absorvida pela ciência, mas a caridade conservava em seu coração um lugar distinto para seus irmãos e
irmãs segundo a natureza. Durante a sua estada em Paris, uma de suas irmãs lhe apareceu para dizer-lhe que estava
no Purgatório. Pediu-lhe que dissesse um certo número de missas, esperando que a bondade de Deus e a
intercessão de seu irmão a livrariam das chamas. O Santo pediu aos seus alunos que orassem e dissessem missas
pela alma de sua irmã. Depois disto, quando ele estava em Roma, tornou-lhe a aparecer, dizendo que estava livre do
Purgatório e já gozava da glória do Céu, por virtude das missas que ele tinha dito ou feito dizer. “– E quanto a mim,
minha irmã, exclamou o Santo, nada sabeis?” – Quanto a vós, meu irmão, sei que a vossa vida é agradável ao
Senhor. Vireis muito breve reunir-vos a mim; mas o vosso diadema de glória será muito mais belo do que o meu. – E
onde está meu irmão Landulfo? – Está no Purgatório. – E meu irmão Reinaldo?

– Está no Paraíso entre os mártires, porque morreu pelo serviço da Santa Igreja”.Na Espanha, encontramos S.
Francisco Xavier, partindo para as Índias, e passando perto do castelo de seus pais. Excitaram-no para que entrasse
em casa de sua família, representando-lhe que, deixando a Europa para talvez nunca mais a ver, não podia
honestamente dispensar-se de visitar os seus naquela ocasião, e de dizer um último adeus a sua mãe que ainda vivia.

Não obstante todas estas solicitações, o Santo seguiu caminho direto, e somente respondeu que se reservava para
ver seus pais no Céu, não de passagem e com o pesar que os adeuses causam ordinariamente, mas para sempre e
com uma alegria verdadeiramente pura.
Encontramos a ilustre reformadora do Carmelo, a seráfica Teresa de Jesus. Dentro das grades do seu convento,
apesar da austeridade da sua vida, cultivava em seu coração as puras afeições da família; e esperava que o Deus que
promete o cêntuplo a quem deixar tudo pelo seu nome (Math., XIX, 29), lhe restituiria centuplicado o amor dos seus
parentes no Céu. Uma tarde, Teresa, encontrava-se tão incomodada e aflita que julgava não poder fazer oração, e
tomou o seu Rosário para orar verbalmente sem algum esforço de espírito. Que fez Nosso Senhor para a consolar?
Ela mesma no-lo diz por estas palavras:

“Tinham decorrido apenas alguns instantes, quando um arrebatamento veio, com irresistível impetuosidade, roubar-
me a mim mesma. Fui transportada em espírito ao Céu, e as primeiras pessoas que vi foram meu pai e minha mãe”.

Sabeis, Senhora, que uma igual graça foi concedida à Senhora Acaria, que depois veio a ser carmelita no mesmo
convento de Pontoise, onde uma de vossas irmãs ora por vós e se santifica entre as filhas de Santa Teresa, e que é
agora honrada sob o nome de Beata Maria da Encarnação? Ela viu um dia seu esposo, um ano depois dele ter
falecido, no meio dos santos do Paraíso. Deus compraz-se em tomar o coração da esposa cristã, como recebeu em
suas mãos o pão no deserto (Marc. VI., 41), para o multiplicar, abençoando-o tantas vezes quantas lhe dá filhos, que
estão esfaimados do seu amor, aos quais ela deve saciar, não só para glória do Senhor, mas também para a sua
própria felicidade. Santa Teresa louva uma piedosa senhora que, para ter posteridade, praticava grandes devoções e
dirigia ao Céu ferventes súplicas. “Dar filhos à luz que, depois da sua morte, pudessem louvar a Deus, era a súplica
que incessantemente dirigia ao Céu. Sentia muito não poder, depois do seu último suspiro, reviver em filhos cristãos,
e oferecer ainda por eles ao Senhor um tributo de bênçãos e de louvores”. A austera carmelita diz de si mesma:
“Penso algumas vezes, Senhor, que vos comprazeis em derramar sobre aqueles que vos amam a preciosa graça de
lhes dar, em seus filhos, novos meios de vos servir.”

Diz ainda: “Demoro-me muitas vezes neste pensamento: Quando estes filhos gozarem no Céu das eternas alegrias, e
conhecerem que as devem a sua mãe, com que ações de graças lhe não testemunharão o seu reconhecimento, e
com que reduplicada ventura se não sentirá palpitar o coração desta mãe em presença da sua felicidade!”. Eis o que
pensaram, eis o que disseram, a respeito da família recomposta no Céu, santos que têm direito à auréola da
virgindade, e que passaram nalguma Ordem ou comunidade religiosa quase toda a sua vida. Livrai-vos, pois, de
acreditar que o filho que, desde seus primeiros anos, se consagra a Deus para sempre, olvide seu pai, sua mãe e seus
irmãos. Pelo contrário, o seu coração torna-se o depósito da caridade. Se, pelas fendas das paixões, ela se escapasse
de todos os outros para só deixar neles a indiferença e o esquecimento, o seu guardaria este precioso tesouro para
incessantemente o derramar por todos os canais da virtude. Tanto o religioso ancião, como o jovem, é ouvido muitas
vezes pelo seu bom anjo durante o silêncio do sacrifício ou da oração, dizendo ao Senhor: Memento, lembrai-vos de
meus parentes que ainda vivem; memento, lembrai-vos de meus parentes que já morreram; e abençoai uns e outros
para além de quanto o meu coração pode desejar. Feliz mãe que tivestes a ventura de poder dar a Jesus dois filhos e
duas filhas para glória do seu nome e amor do seu Coração; não temais que estes filhos sejam infiéis ao quarto
preceito da lei divina. Frutos separados da família, os religiosos, voltam-se muitas vezes, pela mesma força da sua
tendência à perfeição da caridade, para a árvore que os produziu, a fim de a louvar e abençoar. Todas as bênçãos,
temporais ou espirituais, que lhe obtêm de Deus, serão conhecidas somente no Céu.

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No Céu nos Reconheceremos.

III - Conformidade de sentimento e de linguagem em todos os lugares. – S. Cipriano. – S. Teodoro Estudita. – Elogio
que faz de sua mãe. – Cartas de consolação que ele escreve. – Pura alegria dos esposos no Céu. – Santa Francisca
Romana e seu filho Evangelista. – Alegria dos pais e dos filhos no Paraíso.

Mas esquecia-me de que prometera percorrer todo o horizonte da Igreja, para vos mostrar a sua conformidade de
sentimentos e de linguagem sobre todos os pontos. Na África, eis S. Cipriano que foi educado no paganismo, e só
abraçou a continência depois da sua conversão. Eleito Bispo de Cartago e condenado ao martírio, consolou os fiéis
por ocasião duma epidemia que então grassava e que os ameaçava de morte. Que lhes disse ele? Dirigiu-lhes
palavras que a Santa Igreja recorda aos seus sacerdotes, na oitava da festa de Todos os Santos. Ei-las: “Visto que
vivemos na terra como estrangeiros e viajantes, suspiremos pelo dia que nos conduzirá à nossa habitação e nos
reintegrará no Reino dos Céus. Qual é aquele que, estando exilado, não se apressaria a voltar à sua pátria? Qual é
aquele que, obrigado a regressar por mar aos lares pátrios, não desejaria ardentemente um vento favorável, a fim de
poder mais cedo abraçar aqueles que lhe são queridos?

A nossa pátria é o Paraíso, e os patriarcas, nossos antepassados, já aí nos precederam. Apressemo-nos, pois, e
corramos para ver a nossa pátria e saudar os nossos maiores! Somos esperados por um grande número de pessoas
que nos são queridas; somos desejados por uma grande multidão de parentes, de irmãos e de filhos que, seguros da
sua imortalidade, se conservam ainda solícitos pela nossa salvação. Ir vê-los, ir abraçá-los, ah! que alegria para nós e
para eles!”

Entre os gregos, em Constantinopla, um dos campeões mais intrépidos da ortodoxia contra os iconoclastas do
Oriente, S. Teodoro Estudita, tinha entrado em religião na idade de vinte e dois anos, sob a direção dum tio materno,
a quem sucedeu no governo. Teve a ventura de fazer, na presença de todos os religiosos, o elogio fúnebre de sua
mãe, panegírico que o cardeal Mai traduziu e publicou, elogio que um coração amoroso não pode ler sem uma
profunda comoção. Apenas soube que a sua enfermidade era mortal, escreveu-lhe uma carta afetuosa e
consoladora, em que chegou a dizer:

“Ó minha mãe, se me retivessem somente cadeias de ferro, o amor que vos consagro as quebraria, e teríeis a alegria
de me ver ainda. Mas, vós o sabeis, outros vínculos me retêm, vínculos que era indigno de gozar; e posso somente
fazer-me representar junto de vós, por alguém que vos é agradável e querido”. No elogio que dela fez, diz que esta
mãe, verdadeiramente cristã, ia todas as noites, quando seus filhos estavam deitados, fazer sobre eles o sinal da
cruz; conta como ela levou após de si para a vida religiosa seu marido, três filhos, uma filha e três cunhados; diz com
que docilidade ela foi mais tarde submissa a ele próprio. Teodoro termina a exposição das admiráveis virtudes desta
heróica mulher, por este brado dum coração ternamente filial:

“Oh, minha mãe e minha filha, oh vós que fostes duas vezes minha mãe, quanto desejo tornar-vos a ver! Vós habitais
com todos os santos, no meio das solenidades e das alegrias do Céu; habitais com os nossos irmãos que tanto
amáveis nesta vida. Ah! não vos esqueçais de mim que sou o mais pequeno de vossos filhos; mas orai, orai por mim
com mais instância do que em tempo algum. Dirigi-me, fortalecei-me e preservai-me de todos os perigos do pecado.
Visitai-me por uma presença espiritual – Spiritali praesentia visita – e fazei ainda por mim o que fazíeis na minha
infância: conduzi, observai como me levanto, como me deito, observai as agitações da minha alma e do meu corpo, a
fim de que, depois da presente vida, obtenha estar com meus discípulos debaixo da vossa proteção, e ocupar um
lugar convosco à direita de Jesus Cristo nosso Deus”. Este ilustre confessor da fé consolou muitas famílias aflitas. A
um pai que tinha perdido todos os seus filhos, escrevia:

“Vossos filhos não estão perdidos, mas antes existem sãos e salvos para vós; e quando chegardes ao termo desta
vida temporal, torná-los-eis a ver cheios da mais pura e santa alegria”. Também escrevia a uma viúva:

“O Deus que vos tirou do nada para dar-vos a existência, o Deus que vos conduziu a uma idade florescente para vos
unir a um homem ilustre, saberá unir-vos ainda outra vez a ele pela ressurreição. Olhai, pois, a sua partida como
uma viagem. Não vos resignaríeis se um rei da terra a ordenasse? Resignai-vos, portanto, com esta ausência, pois
muito bem sabeis que aquele que ordenou esta viagem é o verdadeiro Rei, o único Rei do universo. Exorto-vos a
isso, e espero que possuireis novamente vosso marido no dia do Senhor”. A um homem que acabava de perder sua
mulher dirigiu também as seguintes linhas:

“Foi para junto de Deus que enviastes uma tão digna esposa; não será isto bastante para vossa consolação? E que é
o que deveis procurar agora? Deveis trabalhar para encontrar no Céu, no momento fixado pela Providência, esta
excelente companheira que se regozijará convosco, por todos os séculos, na participação de bens inefáveis”7. Sem
dúvida, aqueles que na terra se acharem ligados pelo vínculo matrimonial, subindo ao Céu, serão como os anjos:
Neque nubent, neque nubentur (Matth. XXII, 30). Mas, despidos de toda a sensualidade, gozarão sempre do casto
prazer do espírito, e se recordarão que, na terra, não só foram dois corações num e duas almas numa, como os
primeiros cristãos (Act., VI, 32), mas também uma só carne, como os nossos primeiros pais (Gen., II, 24; - Matth., XIX,
6). Na Itália, Santa Francisca Romana foi casada, teve filhos e, depois de viúva, fez-se religiosa. Despertando do sono
ao romper da aurora de certo dia, levantava seu coração para Deus, e abaixava os olhos para sua jovem filha que
dormia perto dela. De repente, viu o seu quarto cheio duma nova luz, no meio da qual apareceu um de seus filhos
que, havia um ano, tinha falecido. A sua estatura e todo o seu exterior era o mesmo que quando vivo; mas a sua
beleza era incomparavelmente mais arrebatadora: chamava-se Evangelista. Este filho, sempre amoroso, aproximou-
se de sua mãe, e saudou-a com profundo respeito e uma graça encantadora. Que fez então Francisca, transportada
duma inexplicável alegria? O que toda a mãe teria feito: estendeu ávidos os braços para estreitar ainda uma vez
contra o peito este filho querido. E que lhe disse? O Céu é a lembrança de tua mãe: Num matris suae meminisset in
coelis.

– “Ó minha mãe, respondeu Evangelista, vede se penso em vós e se vos amo! Não divisais um outro menino, de pé, a
meu lado, duma beleza muito superior à minha? É meu companheiro no coro dos arcanjos, pois o meu lugar no Céu
é no segundo coro da hierarquia angélica. Todavia, este arcanjo está colocado na glória em grau superior ao meu, e
contudo, Deus vo-lo dá. Deus vai deixa-lo ocupar junto de vós o meu lugar e o de minha irmã Inês que, muito
brevemente, voará ao Paraíso, para aqui gozar comigo das alegrias eternas. Este celestial espírito vos consolará na
vossa peregrinação, vos acompanhará assiduamente e permanecerá dia e noite ao vosso lado, de maneira que o
possais ver com os vossos próprios olhos”.

Este colóquio durou por espaço de uma hora; e, antes de se ausentar, o filho pediu a sua mãe licença para regressar
ao Céu, deixando-lhe o arcanjo.

Se já lestes a vida de Santa Francisca Romana, composta por um nobre e zeloso católico da vossa província, não
podeis ignorar o importante papel que desempenhou junto desta santa mulher, o arcanjo, este celestial
companheiro, devido às orações dum filho que a precedera na pátria dos escolhidos. Deus é sempre admirável em
seus santos (Ps. LXVII, 36). O que acabais de ver, mostra que o não é menos pela delicadeza das consolações de que
inunda o seu coração, do que pela grandeza das provas ou dos milagres de que se serve para os conduzir à perfeição
ou para fazer brilhar a sua santidade. Em volta deles, disse um orador francês, que foi confessor de Henrique IV, em
volta deles estarão seus parentes, seus amigos, seus aliados e todos aqueles que lhes forem iguais em glória: todos,
muito nobres, muito santos, muito sábios, muito opulentos, muito afáveis, muito eminentes, muito agradáveis de
condição, de excelente temperamento, de belas maneiras, de inteligência, de coração, de discrição e de todas as
virtudes; todos, lírios sem más ervas, rosas sem espinhos, ouro sem liga, grão sem palha e trigo sem joio! E, ainda
que o seu número seja grande, todos se conhecem reciprocamente, e conversam com tanta familiaridade como se o
seu número fosse pequeno. Então o filho agradecerá a seu pai a sã instrução que lhe tiver procurado, e a filha a sua
mãe os bons exemplos que lhe tiver dado. Deus vos recompensa, minha muito querida e digna mãe, dirá a filha,
Deus vos inunda para sempre de felicidade por tantos cuidados, que tivestes de mim! Sois minha mãe e duplamente
minha mãe; porque me destes a vida temporal e a eterna. Foi por meio de vós que a divina bondade me tornou tão
feliz.

– Bendito seja Deus, minha filha, bendita sejas tu nele para sempre! A tua bem-aventurança é um apanágio da
minha, e esta é uma adição da tua; amemos o Senhor e louvemo-lo incessantemente. Felizes as entranhas que te
geraram e o seio que te amamentou, e um milhão de vezes bendito ainda mais Aquele de quem possuímos todas as
coisas! Glória a Ele, honra, luz e bênção em todos os séculos dos século. Eis aqui, Senhora, a conversa que tereis, eis
a felicidade que gozareis tantas vezes quantos filhos tiverdes. Todavia, Deus não se contentará somente com vos
consolar pelas alegrias da família que recomporá no Céu; mas ainda multiplicará vossas consolações pelas doçuras
da amizade que ali transplantará.

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No Céu nos Reconheceremos.

QUINTA CARTA

Reconhecimento dos amigos ou a amizade no Céu

I - Todos os santos se têm comprazido no pensamento de reconhecer e amar ainda no Céu os seus amigos. –
Sentimentos do B. Etelredo. – Palavras do P. Rapin. – Santo Ambrósio. – 0 Santo Cura d'Ars.

SENHORA,

Além do estreito círculo da família, pode a amizade estender a vasta esfera das nossas afeições. O Homem-Deus
quis ter amigos na terra, e dignou-se reuni-los em volta de si no Céu. A seu exemplo, os mais santos personagens
deixaram dilatar o amor de seu coração; todos tiveram amigos escolhidos entre mil, e todos se têm regozijado com o
pensamento de os reconhecerem e amarem ainda na eterna glória. Também escreveram admiráveis páginas a
respeito da verdadeira e perfeita amizade, que é toda espiritual. Apenas vos citarei uma que diz particular respeito
ao nosso assunto. É do bem-aventurado Etelredo ou Aelredo, contemporâneo de S. Bernardo e abade da ordem dos
Cistercienses, na Inglaterra. É uma conversa com um amigo Aelredo. Suponhamos que não haja neste mundo pessoa
alguma além de vós, e que todas as delícias, com todas as riquezas do universo, estejam à vossa disposição, ouro,
prata, pedras preciosas, cidades muradas, acampamentos fortificados por torres, grandes edifícios, esculturas e
pinturas. Suponhamos ainda que estejais restabelecido no antigo estado, e que todas as criaturas vos sejam
submissas como ao primeiro homem. Pergunto-vos: Todas estas coisas poderiam ser-vos agradáveis sem um
companheiro? Gualter. Não, por certo. Aelredo. Mas se tivésseis somente um companheiro cuja língua ignorásseis,
cujos costumes desconhecêsseis, e cujo coração e espírito vos fossem ocultos? Gualter. Se, por qualquer sinal, eu
não pudesse saber se sim ou não ele era meu verdadeiro amigo, desejaria antes estar só do que ter um tal
companheiro.

Aelredo. Mas se houvesse alguém a quem amásseis como a vós mesmo e que vos amasse também do mesmo modo,
sem que nenhum de vós o pudesse duvidar, todas as coisas que até ali vos apareciam amargas não se vos tornariam
doces e suaves? Gualter. Sim, certamente. Aelredo. Não será ainda verdade que quanto maior fosse o número de
tais amigos, mais feliz vos julgaríeis? Gualter. É muito verdade. Aelredo. Eis precisamente a grande e admirável
felicidade que esperamos gozar no Céu. Deus operará, Deus derramará, entre si e a criatura que tiver elevado ao
Paraíso, entre os graus, ou ordens que tiver distinguido, entre todos os predestinados que tiver escolhido, uma tão
grande amizade, uma tão grande caridade, que se amarão reciprocamente como a si mesmos. Resultará deste
mútuo amor o regozijar-se cada um com a felicidade do próximo tanto como com a sua própria. Assim a felicidade
de cada um será comum a todos, e a soma destas bem-aventuranças, será própria a cada um. Ali nenhum
pensamento será oculto, ali nenhuma afeição se dissimulará, tal é a eterna e verdadeira amizade que tem princípio
na terra e se completa no Céu; que na terra pertence a um pequeno número, porque também aqui são poucos os
bons, mas que no Céu pertence a todos, porque todos ali são bons. Neste mundo é necessário experimentar nossos
amigos, porque os sábios estão misturados com os tolos; no Céu não há necessidade de se ser provado, porque
todos gozam duma perfeição angélica e quase divina. Procuremos, pois, encontrar semelhantes amigos, que nos
amem e a quem amemos como a nós mesmos, que nos descubram todos os seus segredos, e a quem descubramos
todos os nossos, que sejam firmes, estáveis e constantes em todas as coisas.Com efeito, pensais vós que se encontre
alguém entre os mortais que não queira ser assim amado? Gualter. Não creio. Aelredo. Se vísseis alguém, vivendo no
meio dum grande número de homens e tendo-os a todos por suspeitos, temendo-os mesmo como se quisessem
atentar contra a sua vida, não amando pessoa alguma e crendo não ser amado por ninguém, não o consideraríeis o
mais desgraçado de todos? Gualter. Sem dúvida.

Aelredo. Não negareis, pois, que o mais feliz será aquele que habita e repousa no coração daqueles entre os quais
vive, que os ama a todos e que é igualmente amado, sem que esta suavíssima tranqüilidade seja diminuída pela
suspeita ou repelida pelo temor. Gualter. Muito bem, certissimamente. Aelredo. Se é difícil que todos obtenham
esta felicidade no presente, ao menos o futuro no-la reserva; e julgar-nos-emos tanto mais felizes no Céu, quanto
maior for o número de semelhantes amigos que tivermos na terra. Antes de ontem passeava eu em volta do
mosteiro, enquanto meus irmãos reunidos e assentados formavam a mais amável companhia, e como se estivera no
meio das delícias do Paraíso, admirava as folhas, as flores e os frutos destas místicas árvores. Não divisando nesta
multidão pessoa alguma que não amasse, e de quem não tivesse a segurança de ser amado, fiquei inundado duma
tão grande alegria que excedia a todos os prazeres deste mundo. Sentia o meu coração entornar-se em todos, e os
corações de todos entornarem-se em mim, de sorte que dizia com o Profeta:

“Oh! como é bom; oh! como é agradável viver unidos como irmãos (Ps. CXX11, 1)”. Estes sentimentos do bem-
aventurado Aelredo justificam estas palavras de um autor mais moderno: “Ah! se eu tivera expressões assaz ternas e
fortes para descrever a doçura das castas e espirituais amizades que terão lugar no Céu, onde não se amará senão
pelo espírito, e para explicar todas as santas ternuras, que os bem-aventurados terão uns para com os outros, e as
comunicações amorosas em que os impuros vapores da carne e todo o comércio vergonhoso dos sentidos não terão
parte; que prazeres e que delícias não faria eu sentir às almas puras que só aspiram ao gozo destas celestes afeições,
que farão uma das grandes felicidades da outra vida, porque estarão misturadas com o gozo do mesmo Deus, e com
as inefáveis doçuras de seus divinos abrasamentos! Que poderá aqui haver de delicioso aos sentidos que mereça ser
comparado a estes prazeres? Se uma amizade sincera, honesta, fiel e inocente faz muitas vezes a doçura desta vida,
que fruto se não tirará destas espirituais amizades, que se praticarão no Céu, acompanhadas de todas estas
circunstâncias?

E se um amigo seguro e fiel pode, na terra, tornar um outro amigo feliz, qual será a felicidade da vida eterna, onde
todos os bem-aventurados serão verdadeiros amigos?”.

Ora, uma das alegrias destes verdadeiros amigos será reconhecerem-se na Igreja Triunfante, assim como na Igreja
Militante é também uma das suas alegrias vazarem o coração no seio uns dos outros. Assim pensava Santo
Ambrósio, quando comentava estas palavras de Nosso Senhor: “Vós sóis meus amigos, porque vos revelei tudo o
que aprendi de meu Pai” (Joan., XV. 15). “Por estas palavras, diz ele, deu-nos, o Salvador, a forma da amizade que
devemos seguir. É necessário que revelemos ao nosso amigo todos os segredos que se encerram no nosso coração, e
que não ignoremos também os seus. Abramos-lhe, pois, o nosso coração, e que ele nos abra igualmente o seu.

Um amigo nada tem de oculto. Se ele é sincero, patenteia o seu espírito, como Jesus patenteava os mistérios de seu
Pai”. Assim pensava esse humilde e santo padre de nossos dias, que foi um grande apóstolo sem sair da sua pobre
aldeia onde a multidão o visitava quando vivo e o visita ainda depois da sua morte. Eis aqui algumas das suas
consoladoras frases: Com quem estaremos no Paraíso? Com Deus que é nosso Pai, com Jesus Cristo que é nosso
Irmão, com a Santíssima Virgem que é nossa Mãe, com os anjos e os santos que são nossos amigos. Um rei dizia com
bastante pesar em seus últimos momentos: “É necessário, pois, que eu deixe o meu reino a fim de ir para um país
onde não conheço ninguém!

É que ele nunca tinha pensado na felicidade do Céu. É preciso desde já arranjarmos verdadeiros amigos, a fim de os
tornarmos a encontrar depois da morte; e não teremos receio, como este rei, de não conhecermos ninguém”. Não
disse o próprio Salvador: “Empregai as riquezas injustas em obter amigos, a fim de que, quando morrerdes, eles vos
recebam nos eternos tabernáculos?” (Luc. XVI. 9).

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No Céu nos Reconheceremos.

II - Flor duma especial e santa amizade no Paraíso. – Durar assim para sem-pre é também da verdadeira amizade,
segundo S. Jerônimo. – A santa amizade é o prelúdio ou o gozo antecipado do Céu, segundo S. Francisco de Sales. –
Cé-lebre visão de S. Vicente de Paulo. – A continuação da amizade depois da morte consolou S. Gregório Nazianzeno,
Santo Agostinho e S. Cipriano.

Talvez vos pareça que só tenho falado, até aqui, dessa geral amizade que existirá no Céu entre todos os religiosos
que vivem na mesma comunidade. Mas não se aplicará com mais razão, tudo o que tenho dito, a essa flor duma
especial e santa amizade, que o tempo vê algumas vezes germinar entre dois corações pela virtude do sangue de
Jesus Cristo? Crede firmemente que esta flor, depois de ter feito as vossas delícias na terra, continuará a exalar o seu
perfume na bem-aventurada eternidade, para embalsamar a corte celeste e dar aos santos mais uma alegria. Os
doutores consideram ainda como essencial à amizade, o poder seguir-nos assim até ao seio de Deus.

A afeição que não possa entrar onde nada penetrará que não seja puro, é indigna do nome de amizade. Diz S.
Jerônimo: Amicitia quae desinere potest, vera nun-quam fuit – a amizade que pode acabar nunca foi verdadeira.
Logo que ela não pode ser eterna, não é real; desde que não merece durar sempre, só é aparente ou impura. A
verdadeira, a sincera, a virtuosa e santa amizade sobrevive a todas as separações da morte, para reunir nas
sublimidades do Céu, no ápice da bem-aventurança, os corações e as almas que ela unia neste vale de lágrimas e de
misérias. Quem não leu estas linhas em que S. Francisco de Sales considera a verdadeira amizade como prelúdio ou
ante-gosto do Céu? “Se a vossa mútua e recíproca comunicação, diz ele, se transforma em caridade, em devoção,
em perfeição cristã, ó Deus, quanto será preciosa a vossa amizade! Ela será excelente, porque vem de Deus,
excelente porque tende a Deus, excelente porque o seu liame é Deus, excelente porque durará eternamente em
Deus. Oh! como é bom amar na terra como se ama no Céu, e aprendermos a querer-nos mutuamente nesta vida
como nos queremos e nos amaremos eternamente na outra!

O delicioso bálsamo da devoção destila-se dum dos corações no outro, por uma contínua participação, de sorte que
se pode dizer que Deus derramou sobre esta amizade a sua bênção e a vida, por todos os séculos dos séculos. Esta
casta união nunca se converte senão em uma união de espíritos, mais perfeita e pura, imagem viva da bem-
aventurada amizade que se exerce no Céu”. É um exemplo desta bem-aventurada amizade o próprio fundador e a
fundadora da Visitação. S. Vicente de Paulo foi dela testemunha, numa célebre visão que refere nestes termos:

“Tendo esta pessoa (ele mesmo) notícia da perigosa enfermidade da nossa defunta, ajoelhou para orar a Deus por
ela; e imediatamente depois, apareceu-lhe um pequeno globo como de fogo, que se elevava da terra, e ia reunir-se,
na região superior do ar, a um outro globo maior e mais luminoso, e ambos reunidos se elevaram mais, entraram e
derramaram-se noutro globo infinitamente maior e mais luminoso do que os outros; e foi-lhe interiormente dito que
este primeiro globo era a alma da nossa digna mãe (Santa Chantal), o segundo, a do nosso bem-aventurado pai (S.
Francisco de Sales), e o terceiro, a Essência Divina; que a alma da nossa digna mãe se tinha reunido à do nosso bem-
aventurado pai, e ambas a Deus, seu soberano princípio. Além disso, a mesma pessoa, que é um padre, celebrando a
santa missa pela nossa digna mãe, como se de repente tivesse recebido a notícia do seu feliz passamento, e estando
no segundo Memento em que se ora pelos mortos, pensou que faria bem em orar por ela; e viu novamente a
mesma visão, os mesmos globos e a sua união”solar, repetindo:Quando a morte vos arrebatar alguma pessoa
querida, não tenhais, pois, algum escrúpulo de vos consolar, repetindo: Ela não me esquece; ora por mim e vela
sobre mim. Permanecemos unidas! Assim se consolava S. Gregório Nazianzeno depois da morte de S. Basílio, seu
perfeito amigo:

“Agora, dizia ele, Basílio está no Céu. É lá que oferece por nós os seus antigos sacrifícios e recita pelo povo novas
orações. Porque, indo-se desta vida, não nos deixou inteiramente. Vem ainda algumas vezes advertir-me por meio
de visões noturnas, e repreende-me quando me desvio do meu dever”.

Santo Agostinho também se consolava do mesmo modo, depois que um dos seus amigos foi transportado pela
morte à eterna bem-aventurança. “É aí, escrevia ele, que vive o meu Nebrídio, ele, meu doce amigo, ele, vosso filho
adotivo, ó Senhor! É aí que ele vive, é aí que sacia à vontade a sede da sabedoria. Contudo, não penso que ele esteja
inebriado desta sabedoria até ao ponto de se esquecer de mim. E, como se esqueceria ele, visto que vós mesmo,
Senhor, vós, de quem se inebria o meu amigo, vos lembrais de nós?”. A mesma consolação tomava um santo bispo,
escrevendo a um santo Papa, prevendo a morte que não podia tardar em feri-los:

“Lembremo-nos um do outro, em toda a parte e oremos sempre um pelo outro, adocemos nossos pesares e
angústias com o nosso mútuo amor; enfim, se um de nós, por um efeito da bondade divina, preceder o outro no
Céu, que a nossa amizade dure ainda junto do Senhor, e que a nossa oração não cesse de solicitar a misericórdia do
nosso Pai, em favor dos nossos irmãos e irmãs”.

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No Céu nos Reconheceremos.

III - Podemos mesmo excitar-nos ou animar-nos pela esperança de nos unirmos a um amigo junto de Deus. –
Grandes santos foram sensíveis a esta esperança. – Confissão de S. Francisco Xavier. – União sobrenatural de dois
corações. – Gradação no parentesco espiritual das almas. – Fraternidade inteiramente espiritual e de escolha.

Podeis ainda ir mais longe. Depois de vos terdes primeiramente consolado, de alguma sorte, pela firme esperança de
que a vossa amiga oraria mais eficazmente por vós, se fosse a primeira a subir ao Céu, regozijar-vos-eis também de
ali vos reunirdes a ela com o pensamento, e lhe direis: Estaremos um dia reunidas no Paraíso, sim, reunidas junto de
Deus: quanto mais nos amaremos então! Mas talvez se encontre alguém que tente repelir violentamente todos
estes sentimentos dum coração amoroso, dirigindo-vos esta censura: “Quê! animar a vossa coragem e excitar-vos a
sustentar generosamente os combates deste mundo, em parte pela esperança de vos repousardes no Céu sobre o
coração das pessoas que amais, não será uma clara e grosseira imperfeição?”

Respondei que os maiores santos foram sensíveis, ainda mais do que vós, a esta esperança, e que desejavam gozar,
ainda na eternidade, dos castos abraços de seus amigos. O apóstolo das Índias e do Japão confirma isto mesmo por
sua confissão, feita ao fundador da Companhia de Jesus.

“Dizeis, escrevia S. Francisco Xavier a Santo Inácio, no excesso da vossa amizade por mim, que desejaríeis
ardentemente ver-me ainda uma vez antes de morrer. Ah! só Deus, que vê o interior dos nossos corações, sabe quão
viva e profunda impressão causou em minha alma este doce testemunho do vosso amor para comigo. Cada vez que
me lembro dele, e isto acontece muitas vezes, involuntárias lágrimas me rebentam dos olhos; e se a deliciosa idéia
de que poderia abraçar-vos ainda uma vez, se apresenta ao meu espírito (porque, por mais difícil que isto pareça à
primeira vista, não é coisa que a santa obediência não possa efetuar), encontro-me num instante surpreendido por
uma torrente de lágrimas que nada pode fazer parar”.

“Peço a Deus que se nos não pudermos tornar a ver na terra, gozemos unidos, na feliz eternidade, do repouso que
se não pode encontrar na vida presente. E efetivamente, não nos tornaremos a ver na terra senão por meio de
cartas; mas, no Céu, ah! será face a face! E então, como nos abraçaremos!”. Com efeito, quem poderá descrever os
transportes de alegria que dois amigos experimentarão, um pelo outro, no Céu, depois de se terem mutuamente
excitado à perfeição, e de terem verificado estas palavras da Escritura: “O amigo fiel é um remédio que dá a vida e a
imortalidade, e aqueles que temem o Senhor encontram um tal amigo” (Eccl., VI, 16). Escutai, sobre esta amizade
dos santos, um autor que merece ser citado ainda uma vez: “Dominado, neste mundo o nosso coração pelas
sensíveis impressões, e não julgando o mais das vezes senão por elas, nem sempre se dá conta exata das delícias
desta união sobrenatural das almas. Admite-as pela fé, mas são-lhe mistério; mostra-se-lhe ordinariamente
insensível, porque as não compreende. Algumas vezes, contudo, desprende-se do oceano da divina graça um como
raio que, rompendo a nuvem dos sentidos, vem iluminar certas almas privilegiadas e dar-lhes um ante-gosto destas
inefáveis uniões que são, à vista das da natureza, o que seria um perfume emanado do Céu ao pé dos mais esquisitos
perfumes da terra.

Vê-se algumas vezes, e mesmo não é raro, na vida dos santos, uma alma unida a outra por uma destas misteriosas
atrações, fortes e serenas, que admiram e confundem a natureza. A alma que assim ama, vê na sua amiga uma
companheira duma beleza inexplicável, cujos espirituais encantos ela aprecia como tipo divino, em conformidade do
qual fora feita. Vê nela a imagem de Deus, e só esta imagem; emprega todos os meios, ofertas, sacrifícios e orações,
para que ela se torne cada vez mais semelhante ao modelo, para assim aumentar a sua amabilidade e amá-la ainda
mais. São como duas irmãs, saídas à luz no mesmo dia, do lado de Jesus no Calvário, pelos mais dolorosos
sofrimentos. No Céu, este parentesco espiritual terá uma graduação análoga à da natureza: uma hierarquia de pais,
de filhos, de irmãos e de irmãs. “Os bem-aventurados verão um pai em todo o homem que, pela efusão do seu
sangue, de seus suores e orações, os tiver, de perto ou de longe, gerado em Jesus Cristo; e este homem contará
tantos filhos muito amados quantas as almas que tiver lucrado para o seu Deus. Oh! quanto será bela esta
paternidade! Quão ricos e preciosos serão os tesouros da sua fecundidade! O cego mundo apieda-se destas almas
sobre-humanas que, calcando aos pés os atrativos e as seduções da natureza, renunciam às alegrias mais legítimas
da família; e não vê que, em troco do seu sacrifício, Deus as dotará com uma outra família, que lhes fará gozar duma
felicidade e de consolação incomparavelmente mais doces do que jamais sentiu alguma mãe da terra. Um dia
seremos testemunhas disto, e veremos quanto estas almas eram mais dignas de inveja do que de compaixão. Assim,
a glória terá a sua doce fraternidade, formada entre duas ou mais almas por vínculos próprios e pessoais. Esta
especial fraternidade nascerá primeiramente dessas ligações que uma comunidade de deveres, de regras e de
práticas, forma entre todos os filhos do mesmo pai ou da mesma mãe espiritual.

Nascerá, em segundo lugar, daquelas cadeias mais particulares que uma comunhão de boas obras e de orações
forma por si entre duas almas, unidas uma à outra por um atrativo comum para com Deus: simpatia de todo o ponto
celeste, afeição inteiramente divina de dois corações, dando-se o ponto de reunião no Coração de Jesus, cioso da
perfeição um do outro, e pondo todo o ardor do seu zelo em procurá-la e aumentá-la”. Tendes admirado, Senhora,
tendes abençoado esta fraternidade inteiramente especial, esta doce e santa amizade, unindo sob a vossa vista
maternal, duas almas que pareciam ser-vos igualmente queridas, e que honravam a Virgem das Virgens mais ainda
imitando a sua piedade do que possuindo o seu nome. Agora que uma delas, vossa filha por natureza, subiu ao Céu,
a outra ficou junto de vós como filha por adoção. A sua presença é-vos deliciosa, como muitas vezes me dissestes,
porque crêdes encontrar nela a vossa filha muito querida. Encontrá-las-eis unidas no Paraíso, encontrá-las-eis
continuando a santa intimidade da sua recíproca afeição, encontrá-las-eis, finalmente, rivalizando para convosco em
respeito e amor.A vossa própria felicidade aumentará muito à vista desta venturosa união.

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No Céu nos Reconheceremos.

SEXTACARTA
O homem conhece os anjos, ou a união dos anjos e dos homens no Céu

Deus renovará o Céu e a terra para que gozemos dos seres materiais. – Comparação de S. Tomás. – Comparação de
S. João Crisóstomo. – Quanto mais nos fará ele gozar dos puros espíritos! – No Céu, estaremos colocados entre os
anjos. – As crianças formarão como que um décimo coro. – Visão de santa Francisca Romana.

SENHORA,

Deus não se contenta de nos conceder somente a bem-aventurança essencial, a visão e o gozo do bem incriado, que
é Ele mesmo.Está tão longe de nos recusar a parte da bem-aventurança acidental, que é o conhecimento e o amor
dos nossos parentes e amigos, que multiplicará as alegrias e prazeres para os olhos, língua, gosto, olfato, tato e
ouvidos; numa palavra, para todos os sentidos do nosso corpo. “Renovará mesmo o Céu e a terra” (Isai. LXV, 17). –
(Apoc., XXI, 1) para que gozemos tanto pelos nossos sentidos como pelo nosso espírito, dos seres privados de razão.

“Se os corpos, disse S. Tomás, nada mereceram por si mesmos, mereceu o homem por eles: mereceu que a glória
lhes fosse dada, para aumentar a sua própria glória. Assim, quando alguém adquire uma nova dignidade, é justo que
os seus vestidos recebam mais belos ornamentos em testemunho da sua nova glória”.

S. João Crisóstomo emprega duas outras comparações. “Quando um príncipe real, diz ele, toma posse do trono
paterno, a ama que o criou não receberá novos benefícios, novas graças? Ora, as criaturas materiais, são nossas
amas. Quando um filho deve aparecer em público revestido de alguma dignidade, não tem o pai cuidado para honrá-
lo, de dar a seus criados um vestuário mais esplêndido? Assim também quando o nosso Pai celeste nos apresentar
no mundo superior, com a branca toga da virilidade, com as insígnias devidas ao nosso grau, aumentará a nossa
glória, revestindo dum brilho incorruptível os seres materiais que são nossos servos”. Quanto mais devem gozar os
santos, assim antes como depois da ressurreição bem-aventurada, dos puros espíritos que dominam as outras
criaturas, e com os quais temos, por parte da nossa alma, um verdadeiro parentesco? Nós já os amamos e
honramos. Mas, além disso, então vê-los-emos e cada um de nós conhecerá o seu amável guarda.

Seremos colocados no Céu entre os coros angélicos, num lugar determinado pelo grau dos nossos merecimentos ou
pela natureza das nossas virtudes. O quarto abade de Claraval, pregando de S. Bernardo, no ano de 1163, recordava-
o aos religiosos como coisa conhecida de todos, e mostrava-lhes como o seu glorioso predecessor merecia ser
provido a todas as ordens ou graus angelicais, pelas qualidades que desenvolvera e pelos ministérios que cumprira.

S. Tomás crê que algumas almas bem-aventuradas já têm os seus tronos nas graduações mais elevadas dos espíritos
celestes, donde vêem a Deus mais claramente do que os anjos inferiores. Nenhum coro angélico será excetuado;
mas todos verão, cedo ou tarde, os tronos vagos pela queda dos espíritos rebeldes ocupados pelos homens.

S. Boaventura partilha esta opinião, e pensa que os bem-aventurados que não chegam em merecimento ao nível dos
anjos menos elevados em glória, formam uma décima ordem ou um décimo coro. Neste estão, sem dúvida,
colocados os meninos que, arrebatados pela morte, não puderam ajuntar algum merecimento pessoal à graça do
seu batismo: anjos benditos a quem suas mães invocam para se consolarem da pena de os não verem mais neste
mundo, e que são os protetores de suas famílias. Portanto, de que mal se tornam culpadas tantas mulheres cristãs
que recuam diante das dores do parto ou dos trabalhos da educação! E de que alegrias se não privam elas para
sempre, recusando povoar o Céu de pequenos anjos, que viriam saudá-las à sua entrada na glória e formariam
eternamente a sua corte?

Enquanto vós, mais feliz, vereis os vossos numerosos filhos, os vossos parentes e todos aqueles que amastes na
terra, engrossar as fileiras dos anjos e ornar talvez cada um dos seus coros. Possa esta esperança consolar-vos, como
consolou uma outra mãe aflita por causa da morte dos seus! Numa visão, Santa Francisca Romana viu subir algumas
almas bem-aventuradas que iam tomar lugar no grau que Deus lhes assinalara na glória eterna: Todos os coros
angélicos que estas almas atravessavam para chegar a uma ordem mais elevada, prodigalizavam-lhes os
testemunhos do mais sincero amor e da mais viva alegria. Sempre assim é. Mas o coro onde a alma novamente
chegada ocupa um trono, excede todos os outros em brilhantes felicitações e em transportes de alegria. Entoa um
cântico de louvores e ações de graças em honra do Deus de bondade, e prolonga esta doce festa por muito tempo
depois dela ter cessado nos outros coros.
Depois desta visão, todas as vezes que a Santa queria exprimir esta alegria dos anjos à chegada das almas bem-
aventuradas, com esta admirável união da criatura humana com a criatura angélica, o seu rosto inflamava-se, e toda
ela parecia derreter-se como a cera em presença do fogo. Com que alegria não terá sido acolhida, e até que ponto
não terá subido a alma da vossa filha que possuía o nome da Rainha dos Anjos, e que foi ela mesma, na terra, um
anjo de pureza e dedicação? Todas os dias ela pedia a vossa bênção, e à vista do seu retrato ainda a vossa mão se
levanta para a abençoar. Agora é ela que, todos os dias, faz descer do alto do Céu, as bênçãos que pede para vós ao
Senhor, todas aquelas que os santos desejam, bênçãos de sofrimento e de cruz, mas de paciência e de amor ao
mesmo tempo. Gozai, pois, da sua felicidade que deve ser a vossa; porque Maria está mais bem colocada no Céu do
que na terra, melhor entre os anjos do que entre os homens.

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No Céu nos Reconheceremos.

II

Não estaremos mais absortos do que os anjos, na contemplação do Criador. – Como eles, contemplaremos as
criaturas, e poderemos entreter-nos com elas. – Veremos os condenados. – Reconhecer-nos-emos tão facilmente
como se reconhecem os puros espíritos. – Nada teremos de oculto, segundo S Bernardo, S. Gregório e Santo
Agostinho. – Todavia os nossos pensamentos, assim como os dos anjos, não serão conhecidos contra nossa vontade.

Esta mistura dos homens e dos anjos nas mesmas hierarquias e nos mesmos coros, permite-nos responder a
algumas dificuldades, cuja solução parece estar na semelhança que teremos com os puros espíritos. Não existe
motivo algum pelo qual devêssemos estar mais absortos na contemplação de Deus do que os próprios anjos. Desde
o momento em que eles foram confirmados na graça, gozaram duma perfeita bem-aventurança e ficaram
arrebatados de admiração em presença da glória e da majestade do Criador. Não se distraem d'Ele, quando lhes
mostram as criaturas que são obra sua, e que Ele lhes permitiu contemplar e admirar, e quis mesmo que as
conduzissem e governassem. Não estão distraídos, quando nos acompanham durante a nossa peregrinação neste
mundo, para nos guardar e sustentar no bom caminho. Não o estão, finalmente, quando se interessam pela
conversão dum pobre pecador a ponto de se regozijarem mais da sua volta para Deus do que da perseverança de
noventa e nove justos (Luc., XV, 7, 10).

Da mesma sorte, diz Ansaldo, por mais ocupados que estejamos no Céu, da glória e da imensidade do Soberano
Bem, poderemos ainda ocupar-nos de todos os nossos amigos; não só dos que tiverem ficado na terra, mas também
dos que participarem da nossa felicidade. Esta mesma caridade que, na terra, eleva o homem mortal da criatura ao
Criador, o fará inclinar-se das sublimidades da Pátria para o mundo inferior, quando se tiver tornado imortal e
glorioso, assim como impele os anjos fiéis a descerem do Céu à terra, do Criador à criatura. O argumento que resulta
desta semelhança foi desenvolvido por S. Bernardo: “Os espíritos superiores, que desde todo o princípio estão no
Paraíso, desprezarão a terra porque habitam o Céu? Não. Visitam-na, pelo contrário e a freqüentam. Por isso mesmo
que vêem sempre a face do Pai celeste, não se desempenharão mais do ministério da compaixão?

Todos eles são enviados, diz o Apóstolo, para exercerem o seu ministério em favor daqueles que recebem a herança
da salvação (Hebr., 1, 14). Como assim? Pois se os anjos vão e vêm para socorrer os homens, os bem-aventurados,
que são da nossa raça, não nos conheceriam nem poderiam mais condoer-se de nós em certas circunstâncias em
que eles mesmos tiveram que sofrer?! Os espíritos, que nunca experimentaram dor alguma, sentem contudo as
nossas dores; e os santos que passaram por grandes tribulações, não reconheceriam já o estado em que
estiveram?!”

O Anjo da Escola, S. Tomás, demonstra que nem a contemplação da Essência Divina impedirá os bem-aventurados
de sentirem as coisas sensíveis, de contemplarem as criaturas, e mesmo de operarem; nem este sentimento, esta
contemplação e esta ação, os distrairá da beatífica vista de Deus. Não se daria isto em Nosso Senhor durante a sua
peregrinação na terra?. Sem nada perderem deste divino gozo, os bem-aventurados poderão conversar com os seus
parentes, com os seus amigos e com os mesmos anjos, como estes conversam entre si. Quando aplicamos
fortemente, neste mundo, uma das nossas faculdades a um objeto difícil, todas as outras ficam sem força e ação.
Mas, no Céu, cada uma das nossas potências terá toda a plenitude da perfeição de que é capaz.
A inteligência dos santos será iluminada pela luz da glória, e a sua vontade será fortificada pela pátria sobrenatural
da caridade, a tal ponto que nenhum esforço terão a fazer para nunca perderem de vista a Divindade; mas
contemplando-a e amando-a inteiramente, lhes será fácil também contemplar os globos celestes, conversar com os
escolhidos e amar todos os bem-aventurados, como nos é fácil e natural neste mundo ver a luz, conversar ao mesmo
tempo com os nossos parentes ou amigos, e amá-los ternamente. Mas os santos verão os condenados e os
condenados verão os santos? Reconhecer-se-ão ao menos no juízo final. A Escritura não nos permite duvidá-lo, pois
que nos mostra os maus exclamando, em presença dos bons: “São estes que outrora foram o objeto das nossas
zombarias! Quão insensatos éramos!” (Sap., V, 3, 4.)

Segundo Honório, os justos verão os pecadores nos tormentos, para se regozijarem mais de se terem livrado deles.

Também os condenados, antes do juízo universal, verão os justos na glória para mais se afligirem de a terem
desprezado. Mas os bons verão sempre os maus nos suplícios depois do juízo, entretanto que os maus nunca mais
tornarão a ver os bons. Não se deve, porém, concluir daqui, que a bem-aventurança seja tanto uma visão do inferno,
como do Céu. Só Deus pode ver tudo ao mesmo tempo. Os santos, bem como os anjos, não contemplam
incessantemente as simples criaturas, nem todas ao mesmo tempo. Eles não vêem, pois, sem interrupção, as
horríveis torturas dos condenados. O Senhor mesmo desvia delas, quando lhe apraz, os seus pensamentos e os seus
olhos. Os anjos não têm feição alguma corpórea, e todavia reconhecem-se entre si, tanto como as três divinas
Pessoas. Não podemos negar o fato, ainda que ignoremos o modo. Porque não admitiremos igualmente este
reconhecimento entre as almas dos bem-aventurados, antes da ressurreição da carne? Porventura a alma de Jesus
Cristo morto e sepultado, quando desceu ao limbo, não foi reconhecida dos patriarcas, dos profetas e de todos os
justos do Antigo Testamento de quem ela se dignava ser consoladora? E como os teria consolado, se não fosse vista,
ouvida e reconhecida por eles? Pode mesmo dizer-se com Monsenhor Malou, cujas palavras citamos na carta que
serve de introdução a este livro: “As almas despojadas de seus corpos revestem formas intelectuais que as
inteligências separadas da carne podem perceber, distinguir e conhecer”. Finalmente, até que ponto se conhecem os
santos entre si? O abade de Claraval diz em geral: “Os bem-aventurados então ligados entre si por um amor tanto
maior quanto menor é a distância em que se acham do próprio amor que é Deus.

Nenhuma suspeita pode introduzir a divisão nas suas fileiras, porque entre eles nada há de oculto: o raio da verdade
que tudo penetra não o permite”.

Antes de S. Bernardo, tinha dito um grande papa, que o coração dos bem-aventurados será brilhante como o ouro, e
transparente como o cristal, de sorte que se conhecerão entre si melhor no Céu do que durante a sua vida na terra.

Antes de S. Gregório, dizia também o ilustre Bispo de Hipona: “Nesta sociedade dos santos, verão todos
reciprocamente os pensamentos que só Deus vê agora. Assim como quereis que neste mundo se veja o vosso rosto,
também querereis que no outro se veja a vossa consciência. Todos os espíritos bem-aventurados formarão somente
uma cidade, um coração e uma alma; e, nesta perfeição da nossa unidade, os pensamentos de cada um de nós não
serão ocultos aos outros”.

Contudo, a condição dos homens não deve diferir, sob este ponto de vista, da condição dos anjos. Ora, um sábio
teólogo prova que estes puros espíritos têm uma linguagem que, sem ser sensível ou corporal, é todavia mui
inteligível; mas que os seus pensamentos não chegam ao conhecimento uns dos outros, senão tanto quanto eles
querem. É necessário que um ato da sua vontade dirija este pensamento ou esta “palavra espiritual” àquele a quem
lhe agrada que seja conhecida. Podem assim falar a uns sem falar a outros e sem ser entendidos ou compreendidos
por todos. Pois a linguagem angélica não parece ser outra coisa mais do que o destino ou a direção dum
pensamento, por um ato de vontade a algum destes puros espíritos que só então o conhece.

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No Céu nos Reconheceremos.

III

Cada um de nós reconhecerá o seu anjo da guarda, e será também reconhecido por ele – Alegria que disto resultará.
– Os santos comparados por Dante com as flores e os anjos, com as faíscas. – Todos os santos comparados a uma
rosa somente, e os anjos, às abelhas. – 0 Céu comparado por Jesus Cristo a um banquete. – Tro-ca recíproca entre os
anjos e os santos.

As doçuras da santa união formada na Pátria Celeste entre os anjos e os homens, foram-nos desenhados pelos
grandes gênios católicos.

S. Tomás de Aquino faz-nos perceber que os anjos põem uma parte da sua felicidade em reinar cada um com o bem-
aventurado que lhe foi confiado, em assentar-se no mesmo trono, em cingir-se, por assim dizer, com a mesma coroa
e em fazer juntamente com ele um só coração e uma só alma: pois que todo o homem deve ter no Céu um anjo para
reinar com ele, ou, no inferno, um demônio para o atormentar – Habebit in regno Angelum conregnantem, in
inferno daemonem punientem.

S. Boaventura diz-nos que a alegria do anjo aumentará pela bem-aventurança do homem que guardou na terra, não
só quanto à extensão, visto que cresce o número daqueles com cuja glória se regozija, mas também quanto à mesma
intensidade. É verdade que esta não se deve entender da recompensa essencial, mas somente da acidental. Ela
explica-se pelo próprio bem dos anjos, pelo bem das criaturas santificadas que eles amam ternamente, e sobretudo
pelo bem daquela que lhes está mais intimamente unida, porque foram os ministros da sua salvação e fizeram por
ela milhares de ações boas. Por isso se regozijam e se felicitam. Então efetuam-se, entre o anjo da guarda e o bem-
aventurado que ele conduziu, mistérios de amor que não podemos ver nem compreender enquanto as sombras
deste mundo não forem dissipadas pelos esplendores dos Céus. O espírito faz passar, perante o homem, o
comovente quadro de todos os seus esforços para contê-lo no bem, e conduzi-lo à perfeição; desenrola na sua
presença todo o plano da Providência a respeito da obra da sua salvação. O santo responde ao espírito celeste,
testemunhando-lhe mil vezes o seu reconhecimento, recordando a confiança com que se lhe recomendava,
assegurando-o de que este feliz passado está sempre na sua memória, e que estas doces lembranças são um
perfume que ainda respira com delícias, no meio mesmo das alegrias do Paraíso. Muitas vezes, nestes amáveis
entretenimentos, o anjo e o homem inclinam-se um para o outro, sob o impulso deste sopro divino que se denomina
caridade da pátria, e do coração de um para o outro a efusão daquela penetrante alegria, que é semelhante ao
orvalho do Céu. Assim, nos jardins terrenos, vêem-se, sob a ação duma doce brisa, duas flores vizinhas inclinarem-se
uma para a outra como para se darem o beijo da paz e confundirem os seus tesouros. O grande poeta que tão
admiravelmente descreveu o Paraíso, tem pois, ainda mais uma vez razão.

Por uma parte, mostra que os homens se conhecem reciprocamente no Céu, quando mesmo se não tenham
conhecido na terra. S. Tomás reconhece o seu mestre Alberto Magno; mas conhece também Dionísio Areopagita,
Beda e Isidoro. S. Bento reconhece os seus discípulos, e o príncipe dos Apóstolos reconhece S. Tiago; mas o grande
abade de Claraval conhece também o pai da humanidade, Adão; e o pai da Igreja, Simão Pedro, com S. João, Santo
Agostinho e com muitos outros que não pode conhecer na terra. Por outra parte, os anjos e os homens também se
conhecem entre si. S. Bernardo conhece o arcanjo Gabriel, e todos os puros espíritos conhecem a incomparável
Virgem Maria, Mãe de Deus. Umas vezes, este poderoso gênio figura-se o Céu como um jardim onde passa um rio de
resplandecente luz, entre duas margens matizadas duma admirável primavera. Deste rio de luz saem vivas faíscas,
que de todas as partes vão pousar nas flores, semelhantes a rubis engastados em ouro. Depois, como inebriados de
perfumes, remergulham-se no brilhante pego, e quando uma aqui entra, sai outra. Estas faíscas são os anjos, e os
santos são as flores.

Outras vezes, diríeis que é inspirado pela bênção dessa rosa que nos recorda todas as Jerusalém, e nos convida a
figurar pela alegria da Igreja Militante o prazer da Igreja Triunfante. Representa-se o Paraíso como uma rosa branca,
exalando um perfume de louvor ao sol que produz uma eterna primavera.

Com efeito, porque os bem-aventurados chegados da terra estão colocados em círculo sobre mais de mil degraus e
como este círculo se alonga à medida que os degraus se elevam, esta coordenação faz lembrar a forma da rosa, cujas
pétalas aumentam de elevação à medida que se afastam do centro, onde se desabrocham os jaldes filamentos. “Eis
porque, diz ele, se me mostrava, na forma duma rosa branca, a milícia santa que Jesus Cristo desposou ao derramar
o seu sangue.

Mas os anjos que, voando duma para outra parte, não cessam de ver e de cantar a glória do seu Criador, tinham o
semblante radioso de chamas, as asas de ouro, e o resto do corpo mais branco do que a neve. Sobre qualquer
degrau que pousassem, aí entornavam as doçuras da paz e as chamas do amor. Ora desciam para a grande flor,
ornada de tantas folhas, ora subiam para a constante habitação do seu amor, isto é, para o Coração de Deus, bem
como um enxame de abelhas que umas vezes se engolfa nas flores, e outras se volve à sua morada onde o seu
trabalho se dulcifica”.

Senhora, podeis, sem temor, recorrer a estas poéticas imagens, para vos representardes a santa sociedade dos anjos
e dos homens.

Quando se trata do Céu e da felicidade que nele se goza, todas as imagens terrenas de que nos sirvamos como
termo de comparação nada exageram. Antes, ficam muito abaixo da realidade. Demais, não foi o mesmo divino
Mestre que se serviu duma imagem terrena, quando comparou o Céu a um banquete? (Luc., XXII, 29) Assim como os
sete filhos de Job se convidavam alternativamente, cada um em seu dia, para um esplêndido festim (Job, I, 4),
também, no Paraíso, os filhos de Deus se convidam uns aos outros para participarem de suas felicidades. Grande
devia ser o amor recíproco dos filhos de Job, para que pusessem em comum todas as suas riquezas; mas quanto não
excede o mútuo amor dos anjos e dos santos ao amor fraternal cá na terra! Qual, pois, não será a magnificência do
banquete a que é convidado cada um dos coros dos anjos por cada coro dos santos que, deste vale de lágrimas,
subiram às eternas colinas da Pátria! Belo Céu, delicioso banquete, onde os Querubins e os Serafins fazem circular,
como precioso licor e vivificante maná, a manifestação dos segredos divinos, os esplendores das suas contemplações
e o ardor e afeto do seu amor; onde os Tronos, as Dominações, os Principados, as Potestades, as Virtudes, os
Arcanjos, os Anjos e os homens, patriarcas, confessores e virgens se derramam alternativamente no coração uns dos
outros, como numa taça encantada que sempre transborda e sempre conserva o seu conteúdo, o vinho de Deus, o
vinho da sabedoria e da pureza, o vinho do reconhecimento e da alegria! Assim nas sublimidades dos Céus, sob as
vistas do Pai de família, todos os seus filhos, não só os puros espíritos, mas também os que estiverem envolvidos
num véu de carne, se conhecem, estimam, amam e entretêm numa perpétua comunicação, numa recíproca
permutação de glória, de felicidade, de luz e de amor. Todos estes astros que brilham no firmamento da eternidade,
sem nunca temerem o eclipse, cruzam os seus raios e os seus fogos, inundam-se reciprocamente do seu brilho, e
parecem nadar num oceano de esplendores. Todos estes instrumentos animados que não cessam de retinir sob o
impulso do divino amor, formam um harmonioso mar, em que as ondas se confundem reciprocamente, as vagas
mais fortes se unem às mais fracas para enriquecê-las e fortificá-las, a fim de que os seus movimentos, semelhantes
aos das vagas regulares e irresistíveis, invadam, abalem e arrebatem tudo para Deus.

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No Céu nos Reconheceremos.

SÉTIMACARTA

Conclusões práticas

O conhecimento das criaturas, comparado ao do Criador, é muito diminuto. – É todavia uma parte da bem-
aventurança acidental. – Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e deles se regozijam. – Sabem
especialmente o que se refere aos seus parentes e amigos. – Nuvem luminosa dos testemunhos que o provam. – Os
contraditores fazem um grande mal.

Tudo quanto vos tenho escrito até aqui não deve fazer-vos esquecer que a essência da bem-aventurança é a clara
visão ou a intuição do próprio Deus. O conhecimento das criaturas, acrescentado ao do Criador, parece aos bem-
aventurados menos do que uma gota de água lançada no mar. Eles dizem com o filho de Amós: “Todas as nações,
todas as famílias dos homens, dos anjos e dos astros, não podem, de modo algum, comparar-se com Deus; elas
estão na sua presença como se não estivessem, e pesam tanto na sua balança como se não existissem”. (Is., XL, 15,
17)

Dizem ainda com o filho de Mônica: “Senhor, Deus de toda a verdade, quão desgraçado é o homem que conhece
todas as criaturas, e não vos conhece a Vós! Quão afortunado é todo aquele que vos conhece, quando mesmo não
conheça mais coisa alguma! Aquele que une estas duas ciências, a do Criador e a das criaturas, não vê aumentar a
sua felicidade pelo conhecimento dos seres criados; mas só Vós, ó meu Deus, o tornais feliz”. Nem por isso é menos
verdade, como creio ter-vos suficientemente demonstra-do, que uma parte da bem-aventurança acidental
reservada pelo Senhor a todos os seus escolhidos, consiste no conhecimento das criaturas.

É este um belo ponto de meditação, que o célebre P. Coton não receava de propor a uma rainha de França, e que
um beneditino também propunha aos seus religiosos para os consolar no momento da morte.

Os bem-aventurados sabem todos os mistérios do passado, e alegram-se com um espetáculo que muitas vezes nos
entristece. “Que direi, escrevia um sábio e piedoso cardeal, tratando da eterna felicidade dos santos, que direi do
decurso dos tempos e dos séculos, desde o seu princípio até ao fim? Que deleite não causará aos escolhidos a
lembrança de tantas vicissitudes e mudanças entre as coisas que a inimitável Providência governa com sabedoria e
conduz a seus fins? Lá haverá esta impetuosidade do rio, que tão maravilhosamente alegra a Cidade de Deus –
Fluminis impetus laetificat civitatem Dei! (Ps. XLV, 5). O que será, efetivamente, a ordem ou a sucessão dos séculos,
que passam rapidamente e nunca interrompem o seu curso, senão a impetuosidade dum rio que, sem descanso, faz
girar as suas águas, arrastando-as até ao mar, onde se mergulham e desaparecem? Entretanto, o rio passa e os
tempos correm, muitos homens duvidam da Providência de Deus. Entre os seus próprios servos, há muitos que são
perturbados ou gravemente tentados, e que se queixam do seu governo. Porque esta rápida corrente do rio causa
muitas vezes grandes danos aos bons, e grandes vantagens aos maus, pois leva a boa terra dos campos do justo para
deixá-la nos do ímpio. Mas, quando os tempos finalizarem a sua carreira e o rio tiver entrado no mar com todas as
suas águas, os santos lerão claramente, no livro da Divina Providência, as razões de todas as desordens e de todas as
revoluções.

Então a impetuosidade deste rio, representada pela imaginação, alegrará a Cidade de Deus acima de tudo o que
pode dizer a língua dum mortal”.

Mas, segundo Bossuet, “no infinito espelho da Divina Essência, onde se vê tudo, as almas dos bem-aventurados
descobrem principalmente o que toca às pessoas que lhes estão unidas por ligações particulares”. É o que provam
de sobejo todos os testemunhos que tenho referido, em vez de falar por mim mesmo. Fi-lo assim para que vos fosse
mais fácil consolar-vos, vivendo deste modo, durante algumas horas, na companhia e mesmo na intimidade dos
santos e dos doutores, cujo coração foi sempre tão sensível e compassivo. Se alguém, pois, ainda ousar dizer-vos que
não nos reconheceremos no Céu, mostrai-lhe esta nuvem de testemunhos de que fala o Apóstolo

(Hebr.XII,1), e que paira sobre a vossa cabeça.

Todos os autores que vos tenho citado, e muitos outros de que me poderia ter servido, são sábios e virtuosos. Eles
formam uma nuvem cujo brilho rende testemunho ao Sol da verdade, que nasceu no mundo, e os doura com seus
raios. Formam uma nuvem cuja suavidade e escuridão faz repousar docemente os nossos olhos e deixa esperar aos
nossos corações uma chuva fecunda em consolações celestes. Os seus contraditores também formam nuvens, mas
tenebrosas e ameaçadoras. Aumentam o horror da noite que nos envolve, derramam negra tinta sobre o eterno dia
que esperamos. Roubam ao nosso conhecimento e ao nosso amor esses brilhantes astros a que chamamos bem-
aventurados do Paraíso, e forçam os nossos olhos a fixarem-se dolorosamente nos túmulos, quando teríamos maior
necessidade de os levantar para o Céu, a fim de nele encontrarmos alguma luz e alegria. Negar que nos
reconheceremos no seio da glória, junto de Deus, é fazer-nos um grande mal, aumentar-nos a tristeza e lançar-nos
no desespero ou desalento. Mas divulgar a importante verdade que se acaba de estabelecer é aliviar a aflição,
sustentar a piedade e reanimar o zelo. Eis as três conclusões práticas que me resta desenvolver-vos.

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No Céu nos Reconheceremos.

II

A esperança de nos reconhecermos no Céu é um alivio para a dor. – Exemplo e palavras de Fénelon. – É-nos útil
entreter-mo-nos com os nossos virtuosos e queridos defuntos. – Podemos até invocá-los. – Prática de S. Francisco
Xavier, de S. Luís Bertrand, de M. Emery. – As almas do Purgatório pedem por nós.

Poucos homens têm sido tão sensíveis à perda dos seus amigos, como o amável Arcebispo de Cambrai. Eis uma
prova disto nas suas próprias palavras:
“Seria tentado a desejar que todos os bons amigos esperassem para morrerem juntos no mesmo dia. Aqueles que
não amam pessoa alguma quereriam enterrar todo o gênero humano com os olhos secos e o coração alegre; tais
pessoas, porém, não são dignas de viver. Custa muito ser sensível à amizade; mas aqueles que têm esta sensibilidade
envergonhar-se-iam se a não tivessem; desejam antes sofrer do que serem insensíveis”.

Vede, todavia, como ele sabia aliviar a sua própria aflição, consolando as pessoas mais angustiadas. Por ocasião da
morte do duque de Beauvilliers, seu amigo, escrevia à duquesa: “Só os nossos sentidos e a nossa imaginação
perderam o objeto do nosso amor. Aquele que já não podemos ver, está conosco mais do que nunca. Encontramo-lo
incessantemente no nosso centro comum. Ele vê-nos aí, e lá mesmo nos procura os verdadeiros socorros. Conhece
melhor, onde está agora, as nossas enfermidades, do que nós mesmos, ele que já não tem nenhuma; e procura os
remédios próprios e ne-cessários para a nossa cura.

Quanto a mim, eu, que estava privado de o ver desde há tantos anos, falo-lhe, abro-lhe o meu coração e creio
encontrá-lo na presença de Deus; e ainda que o tenha chorado amargamente, não posso todavia acreditar que o
perdesse. Oh! quanta realidade nesta íntima sociedade!”. Fénelon escrevia ainda à viúva do duque de Chevreuse:
“Unamo-nos de coração àquele que choramos; ele não se ausentou de nós pelo fato de se tornar invisível. Vê-nos,
ama-nos e comove-se das nossas necessidades. Chegado felizmente ao porto, ora por nós, que ainda estamos
expostos ao naufrágio. E diz-nos com uma voz secreta: Apressai-vos a unirmo-nos. Os puros espíritos vêem, ouvem,
e amam sempre os seus verdadeiros amigos no seu centro comum. A sua amizade é imortal, como a fonte donde
nasce.

Os incrédulos só amam a si mesmos; do contrário, deveriam desesperar-se de perderem para sempre os seus
amigos; mas a amizade divina torna a sociedade visível numa sociedade de pura fé; chora, mas consola-se na
esperança de tornar a reunir seus amigos no país da verdade, e no seio do próprio Amor”.

Que coisa mais adequada à sustentação da piedade do que estas afetuosas e íntimas relações, que podem
estabelecer-se entre nós e os nossos queridos defuntos, desde que nos é permitido esperar que, tendo morrido na
graça de Deus, não se lembram menos de nós do que nós deles! Sem dúvida, gozar da presença do Senhor e
entreter-nos com Ele, mesmo nesta vida mortal, é o que nutre mais a nossa piedade. Todavia, conversar, tratar e
entretermo-nos com os santos do Céu, por longo tempo e repetidas vezes, sempre que nos agrade, não será um
meio poderoso de nos santificar e consolar ao mesmo tempo? Deste modo, não participamos, de alguma sorte, do
privilégio dos anjos que têm contínuas relações e a mais doce familiaridade com todos os santos? A lembrança dum
amigo virtuoso e fiel que possuamos neste mundo, basta muitas vezes para afugentarmos de nós, com os desgostos
e tristezas, as tentações, os desesperos e todos os maus pensamentos. Quanto mais eficazes e salutares devem ser
para a nossa alma a conversação e convivência destes parentes e amigos que vêem o Senhor face a face e gozam da
sua glória! Um piedoso autor, o P. de Barry, aconselha-nos a que invoquemos aqueles que a Igreja não designa ao
nosso culto, mas que tiveram uma vida santa neste mundo, ou pelo menos uma boa morte, sobretudo, se o seu
amor por nós foi agradável ao Se-nhor. Fazei, diz ele, o catálogo dos seus nomes, e uma vez por ano, ou antes, uma
vez por semana, percorrei-o, invocando aqueles que nele estão inscritos. Isto fará que desejeis com mais ardor
encontrar no Céu a feliz sociedade daqueles que vos eram unidos na terra. E quão grande será a alegria do vosso
coração quando obtiverdes de Deus, por sua intercessão, o que durante muito tempo debalde tiverdes solicitado!
Pois não duvido que, por seu intermédio, algumas vezes sejamos ouvidos. Se eles nos amavam durante a sua vida e
não ousavam repelir as nossas súplicas, que não farão agora, visto que o seu amor se tornou mais ardente e estão
em grande honra junto de Deus! S. Francisco Xavier invocava muitas vezes os religiosos da Companhia de Jesus que
tinham passado a melhor vida. Recorria a todos aqueles que tinha conhecido e com os quais vivera; recomendava-
lhes as suas empresas, considerava-os como seus protetores na corte celeste, e confessava que suas orações lhe
eram duma freqüente utilidade.

S. Luís Bertrand, dominicano, compôs um catálogo com os nomes dos seus mais queridos amigos, que julgava
estarem já de posse da eterna bem-aventurança, e invocava-os muitas vezes nas suas necessidades. Um livro que
saiu à luz neste corrente ano de 1862, fornece-nos outro exemplo muito semelhante. Na Vida de M. Émery, nosso
superior de S. Sulpício, lê-se, a respeito dos antigos padres desta Companhia que mais o tinham edificado por suas
virtudes:

“Em muitos de seus retiros, tomou a resolução de redigir, segundo o mapa das sepulturas do seminário, uma nota
que lhe recordasse os dias do falecimento daqueles santos padres por quem tinha mais devoção, a fim de invocá-los
nos mesmos dias com fervor, e de render graças a Deus pela eminente santidade a que os elevara”. Podeis fazer
sobre esta piedosa prática a seguinte objeção: Acaso estarão no Céu os meus parentes e amigos? Estarão eles no
Purgatório? É verdade que a Igreja não tem declarado onde eles estão. Mas a oração não se desencaminha, e, entre
o grande número dos que assim invocardes, alguns devem ter já certamente chegado ao porto da felicidade. Muitos
e graves teólogos são de parecer que as almas do Purgatório podem orar por nós; porque não são de pior condição
do que os pecadores, inimigos de Deus. Estão mesmo confirmadas na graça e amizade do Senhor, têm a perfeição do
amor, recordam-se de tudo o que nos devem, e podem conhecer as nossas orações pelos seus anjos da guarda.

E por que não orariam elas a Deus por nós, visto que vêm algumas vezes pedir-nos por si mesmas, como aconteceu
com Santa Brígida a quem seu marido apareceu, pedindo-lhe que fizesse celebrar missas e distribuísse esmolas por
sua alma?

Santa Catarina de Bolonha invocava freqüentemente as almas do Purgatório, e dizia que tinha obtido de Deus, por
sua intercessão, os maiores e mais numerosos benefícios. “Muitas vezes mesmo, acrescentava ela, o que não tinha
podido obter durante muito tempo, pelas orações dos santos do Céu, consegui-o depois que recorri a estas almas
padecentes”.

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No Céu nos Reconheceremos.

III

O reconhecimento no Céu é um estímulo para o zelo. – Zelo para o alívio de nossos queridos defuntos. – Zelo para
conversão dos pecadores. – Zelo para a nossa própria santificação. – O Céu começa no tempo e continua na
eternidade. A glória só fará desenvolver o gérmen da graça. – Nós saberemos tudo o que alguma pessoa fizer em
nosso beneficio, e a nossa felicidade, como a sua, será por isso maior. – Cada florão da coroa duma mãe será uma
alegria a mais para todos os seus filhos.

Finalmente, que a esperança de torná-los a ver no Céu, de reconhecê-los e de serdes por eles reconhecida, reanime
o vosso zelo e vos faça trabalhar com mais ardor no alívio destas pobres almas, na conversão dos pecadores e na
vossa própria santificação.

As almas do Purgatório são tão reconhecidas, que as pessoas que as têm aliviado, têm recebido provas da sua
gratidão, antes de se lhes reunirem na bem-aventurança. Foi mesmo concedido muitas vezes a Santa Gertrudes, mui
zelosa em aliviar as almas do Purgatório, ver, durante a sua vida, e mesmo entreter-se com aquelas que havia
socorrido. Um dia, depois da comunhão, Gertrudes oferecia a adorável Hóstia pelo eterno descanso das almas de
todos os parentes dos membros da sua comunidade. Apenas tinha acabado de fazer este precioso oferecimento,
quando viu sair das trevas um grande número de almas, semelhantes a faíscas ou estrelas: “Senhor, exclamou ela,
esta multidão de almas é só de nossos parentes?”

– Sou eu mesmo, respondeu o Senhor, o mais próximo de vossos parentes: sou vosso pai, vosso irmão e vosso
esposo. Todos aqueles que são especialmente meus, tornam-se, portanto, vossos parentes e aliados, e quero que
eles tenham parte nos frutos das orações que fazeis pelos vossos parentes”. Continuai, pois, Senhora, a orar por
vosso marido, por vossos filhos e por todos os vossos parentes que já acabaram a sua peregrinação na terra. Se as
suas almas, como espero, estiverem já em lugar de refrigério, de luz e de paz, as vossas orações aliviarão outros
membros da família de Jesus Cristo, retirando-os das chamas expiatórias para introduzi-los na infinita bem-
aventurança.

Mas não limiteis aos mortos o vosso zelo; que seja católico ou universal, como a Igreja. Quantos pecadores e infiéis,
entre os vivos, cujo regresso para Deus podeis apressar por meio dos vossos cuidados, orações, esmolas e de todos
os vossos merecimentos! Tende compaixão da sua miséria; porque são cegos, levados à destruição de todo o amor
pela mesma desordem de suas mentirosas afeições. A ninguém se aplica tanto, como aos condenados, o que S.
Paulo dizia dos pagãos: “Nenhuma afeição há neles – Sine affectione” (Rom., I, 31). Se é verdade que o princípio
natural das nossas afeições subsiste no inferno, só o devemos entender assim quando ele é mau ou separado de
Jesus Cristo. Desta forma, só produz frutos muito amargos e um ódio eterno onde parecia haver um grande
amor.Mas reconduzindo a seu Pastor as ovelhas desgarradas, e ao Pai de família os filhos pródigos, preparareis no
Céu a vós mesma um círculo de ternos e reconhecidos amigos, que permitirão se vos apliquem estas palavras do
profeta: “Erguei os olhos e correi a vista em volta de vós; todos estes que se acham aqui reunidos são vossos. Sereis
deles revestida como dum ornamento; sereis rodeada por eles como uma esposa ou uma mãe o é por seus filhos,
ainda que os não tenhais gerado segundo a natureza.” (Is., XLIX, 18. – LIV, l . ) Àqueles que tiverdes convertido,
podereis mesmo dizer com o Apóstolo: “Vós sois meus filhos muito amados, meus irmãos desejados, minha alegria e
minha coroa.” (Gal., IV, 19 - Philip. IV, 1) Ao pensar, ao ver antecipadamente esta coroa de alegria que encontrareis
no Paraíso, quando chegar o tempo de deixardes este triste lugar de desterro, tereis a consolação de dizer a vós
mesma: Vou reunir-me àqueles que enviei para a Pátria, vou vê-los e reconhecê-los, vou gozar dos testemunhos da
sua gratidão e do seu amor. Podereis mesmo dizer àqueles que deixardes na terra o que o divino Mestre dizia a seus
discípulos: “Vou preparar-vos o lugar para que habiteis comigo” (Joan. XVI, 2, 3); “Dentro em pouco já me não vereis,
mas bem depressa me tornareis a ver, porque vou para junto do meu Pai. Também em breve tempo vos tornarei a
ver, e o vosso coração se regozijará, e ninguém vos tirará a vossa alegria” (Joan., XVI, 26, 22).

Esta alegria de vos tornarem a ver, Senhora, será tanto maior naqueles que vos conheceram, quanto mais tiverdes
trabalhado na vossa santificação pessoal. Quando nos esforçamos por santificar-nos, o Céu começa para nós no
tempo para continuar na eternidade. Assim como a planta se despoja sucessivamente de seus grossos invólucros,
até a haste saída do tronco se coroar duma bela flor, assim pelo seu trabalho santificador, a alma se despoja de tudo
o que tinha de mais terrestre, e se transforma, pouco a pouco, em Jesus Cristo, que se compara na Escritura à rosa
dos campos, ao lírio dos vales (Cant., II, 1). Para ela, o Céu começa pelo louvável desenvolvimento das suas
faculdades, e acabará pela sua completa dilatação. Porque, mesmo no Paraíso, não seremos preguiçosos, mas ativos.
Teremos sempre alguma coisa que aprender, pois que Deus é um fundo inesgotável, e nunca seremos capazes do
infinito. Para termos alguma idéia do que a glória causará então numa alma, bastaria, pois, estudar e conhecer o que
a graça produz agora na mesma, tirado o sofrimento e a luta, que já não existirá. Toda a luz e amor que a graça
produz em nós, não será o gérmen que a glória desenvolverá? Ora, o que a graça nos dá presentemente para
iluminar os nossos espíritos e inflamar os nossos corações, é imenso e incalculável. Imenso e incalculável também
será o eterno peso de glória de que nos fala S. Paulo (II Cor., IV, 17), isto é, o aumento de esplendor e caridade que
nos merecem, a paciência em nossas provações, a atividade para o bem, o zelo pela salvação das almas e o cuidado
do nosso progresso espiritual. E assim como os condenados serão punidos por onde tiverem pecado (Sap., XI, 17),
também os bem-aventurados serão recompensados por onde tiverem merecido. Toda a mãe que se santifica
educando seus filhos, receberá neles um aumento de recompensa eterna. Todo o filho que diz para consigo: Faço
este sacrifício para honrar meus pais, para que Deus abençoe meu pai e minha mãe, prepara-lhes, e prepara a si
mesmo, um aumento de eterna felicidade. Com efeito, não será somente em conjunto, se assim posso falar, que
reconhe-ceremos no Céu aqueles que nos foram queridos; conhecê-los-emos até por miúdo, saberemos o que
muitas vezes ignoramos na terra, saberemos tudo o que eles fizeram ou sofreram por nós; veremos a recompensa
que por isto o Senhor lhes concede, e este espetáculo assim como este conhecimento, será uma das nossas alegrias
durante a eternidade.

Que este pensamento vos console de todos os esforços que tendes feito, de todas as fadigas que tendes suportado
para santificar vossos filhos, santificando-vos também. Que aumento de recompensa não recebereis disto na glória!
Todos os escolhidos que vos amaram na terra, o contemplarão e dele se regozijarão em vós. Não será assim que
consideraremos a auréola das virgens, dos mártires e dos doutores, e que, considerando-a, nos regozijaremos com
aqueles doutores, mártires e virgens que tivemos a felicidade de conhecer e amar? A especial coroa que vos espera,
será como a auréola da vossa maternidade cristã. Será devida a todos os santos desejos, a todos os piedosos
cuidados, a todas as dores íntimas, ignoradas na terra por aqueles que foram o seu objeto ou causa, mas que
reconhecerão no reino do Céu, pois cada um destes desejos, destes cuidados e destas dores terá produzido um
florão da imortal coroa que brilhará sobre a vossa cabeça. Os vossos filhos admirarão esta coroa, contarão todos os
seus florões, e serão por isso eternamente mais felizes. Para vos excitar a adquirir ainda mais merecimentos ou
direitos à eterna recompensa, que doce e poderoso incentivo não tendes vós, pois, no vivo desejo de irdes, para
aumentar a sua glória com a vossa, reunir no Céu todos aqueles que mais tendes amado, ou vê-los aí subir
triunfantes para junto de vós! Mas o Senhor dignar-se-á deixar-vos ainda por muito tempo no meio de nós, tanto
para felicidade de vossos filhos e de vossos netos, como para edificação de todos os fiéis.

Tal é, pelo menos, o voto, tal é a súplica.


SENHORA

Do vosso muito humilde e dedicado servo,

F. Blot

Strasburgo, 15 de Agosto de 1862.

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No Céu nos Reconheceremos.

ORAÇÕES

Para tornarmos a ver no Céu as pessoas que nos são queridas.

Oração à Santíssima e adorável Trindade.

Um só Deus em três Pessoas que se conhecem e se amam, fizestes-nos à vossa imagem, dando-nos o conhecimento
e o amor, com o vivo desejo de sermos sempre unidos. Não permitais que este traço de semelhança convosco seja
destruído pela morte, em nenhuma daquelas pessoas que tenho conhecido e amado neste mundo. E, visto que vos
dignastes unir-nos pelos laços da família, e nos permitistes ligar-mo-nos ainda por uma estreita amizade, não
consintais que tudo quanto tendes unido jamais se separe! Não fizestes esperar ao velho Tobias, que os filhos de
Jerusalém se reuniriam junto de Vós? (Tob., XIII, 17). Não tendes por agradável que o sacerdote vos suplique, no
santo altar, que lhe façais ver seu pai e sua mãe nos esplendores da glória? Não desvieis de mim a vossa divina face,
mas ouvi a minha prece, quando vos suplico com todo o fervor de que sou capaz, que me concedais também a graça
de tornar a ver no Paraíso todos aqueles que me foram queridos na terra, particularmente a alma de N... que amo
sempre ternamente. Espírito de luz e de amor, consolador por excelência, Vós que sois a cadeia unitiva do Pai e do
Filho, e que unistes os nossos corações, derramando sobre eles a caridade, dignai-vos fazer conhecer a essa alma
cuja ausência me é tão dolorosa, quanto desejo unir-me a ela, quanto a amo ainda, que sacrifícios estou pronto a
fazer para apressar a sua entrada no lugar de refrigério e de paz, para eu mesmo entrar aí após ela, de sorte que, por
uma indissolúvel união, não façamos senão um coração e uma alma para vos amar e bendizer, com o Pai e o Filho,
por todos os séculos dos séculos.

Assim seja.

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No Céu nos Reconheceremos.

II

Oração a Nosso Senhor Jesus Cristo

Divino Jesus, que pusestes em vosso Coração todas as nossas legítimas afeições para abençoá-las e santificá-las, e
vos dignastes gozar das alegrias da piedade filial e mesmo dar aos homens o doce nome de amigo: Onde estão
agora, Senhor, estes meus amigos e parentes? Estão no Céu, junto de Vós e de vossa Mãe muito amada, a quem
reconheceis como Ela vos reconhece? Ah! quanto desejo, eu também, reconhecer minha mãe na glória celeste e ser
por ela reconhecido, torná-la a ver com meu pai e meus irmãos, e tornar a ver juntamente todos os meus parentes e
amigos!

Ó Deus de amor, Deus do tabernáculo e da Santa Mesa, cujo corpo nos reúne num mesmo banquete neste mundo e
guarda as nossas almas para a vida eterna, guardai, guardai também todos os membros da minha alma, todos os
membros do meu coração, isto é, todas as pessoas que amo; guardai-as para a vida, guardai-as para a eternidade, e
fazei que nos encontremos todos no banquete dos Céus. Fazei, sobretudo, que aí encontre a alma que me era
especialmente querida. Que ela e eu nos reconheçamos, que eu saiba tudo o que ela faz em segredo por mim, e que
lho agradeça eternamente na Pátria dos bem-aventurados.

Assim seja.

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No Céu nos Reconheceremos.

III

Oração à Santíssima Virgem, a S. José e a todos os Santos

Ó Maria, Mãe de Deus e minha Mãe, que depois da ascensão do vosso amado Filho, suspiráveis ardentemente por
vos reunirdes a Ele no Céu, e tivestes, com o privilégio da vossa gloriosa Assunção, o de torná-lo a ver triunfante, de
contemplá-lo daí por diante sem interrupção com os mesmos olhos que tanto gozavam com a sua vista na terra. Ó
doce consoladora dos aflitos, intercedei por mim, intercedei pela pessoa querida que eu choro, a fim de que ela e eu
nos reunamos, nos reconheçamos e nos amemos ainda na eternidade, como o filho e a mãe sob a vossa vista, e
junto do vosso Coração maternal. Pai putativo de Jesus, e fiel S. José, vós que estivestes no limbo e soubestes, por
experiência, quão longos são os dias da expectação, qual deve ser a vossa alegria quando reconhecestes a alma do
Salvador que ali desceu para anunciar a todos os justos a sua próxima subida ao Céu! Ah! retirai, retirai prontamente
do Purgatório, onde talvez ainda esteja penando, a alma de para quem imploro, hoje, instantemente, a vossa
poderosa proteção! Orai por ela, orai por mim, a fim de que tenhamos a felicidade de nos tornarmos a encontrar e
reconhecer na celeste Pátria, no meio dos inefáveis esplendores que Nosso Senhor Jesus Cristo derrama sobre todos
os anjos e santos.E vós, bem-aventurados escolhidos, que fostes parentes ou amigos na terra, e que sempre sois
sensíveis à graça de vos encontrardes reunidos junto de Deus, orai para que os meus parentes e amigos e
companheiros de luta da Contra-Revolução formem, convosco e comigo, uma cidade e família, onde todos se
reconhecem e se amam eternamente.

Assim seja. .

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