Você está na página 1de 125

2012

Resistência dos Materiais I

Edição 2012
Marco Andre Argenta
Universidade Federal do Paraná
Setor de Tecnologia
Departamento de Construção Civil
1
PREFÁCIO

Esta apostila é baseada na apostila de resistência dos materiais idealizada pelos professores Antônio
Stramandinoli Jr., Luiz Carlos Giroldo, Mauro T. Kawai e Roberto Stramandinoli, atualizada até 2010. Nesta
edição de 2012 a apostila é reformatada e complementada.

A apostila tem como objetivo oferecer ao aluno a teoria de resistência dos materiais de uma forma clara e
completa assim como da aplicação dos seus princípios. Serão explanados o comportamento físico dos materiais
solicitados por cargas e a modelagem matemática desse comportamento. As condições de equilíbrio,
compatibilidade da deformação e comportamento do material serão enfatizados dados a sua importância.

Marco Andre Argenta


Universidade Federal do Paraná
Departamento de Construção Civil
(41) 3361-3444
marco.argenta@ufpr.br
SUMÁRIO

Prefácio ii

Simbologia iii

Capítulo 1 iii

Símbolos base iii

Símbolos Subscritos iii

1 Introdução a Resistência dos materiais 1-1

1.1 Introdução 1-1

1.2 Objetivos 1-1

1.3 Peça ou Elemento Resistente 1-1

1.4 Hipóteses simplificadoras 1-1

1.4.1 Hipóteses relativas ao material 1-2

1.4.2 Hipóteses relativas aos deslocamentos 1-2

1.5 Princípio fundamental 1-2

1.6 Tensão 1-5

1.7 Deformação 1-7

1.8 Propriedades mecânicas dos materiais 1-10

1.8.1 Diagrama tensão-deformação 1-10

1.8.2 Materiais Dúcteis 1-11

1.8.3 Materiais Frágeis 1-12

1.9 Lei de Hooke 1-13

1.10 Coeficiente de Poisson 1-13

1.11 Classificação dos esforços 1-4

2 Esforço normal simples 2-16

2.1 Concentração de tensões: Princípio de Saint-Venant 1-15

2.2 Princípio da superposição dos efeitos 1-14

2.3 Métodos de análise estrutural (estado uniaxial de tensões) 1-15

2.4 Coeficiente de segurança – Tensão admissível – Tensão de serviço 1-15

2.5 Tensões provocadas pelo efeito da temperatura 1-15

3 Carregamento transversal: flexão 3-17

Referências Bibliográficas 3-18


1 INTRODUÇÃO A RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS

1.1 INTRODUÇÃO

A resistência dos materiais é o ramo da mecânica que estuda as relações entre cargas externas aplicadas a um
corpo deformável e a intensidade das forças internas que atuam dentro do corpo, abrangendo também o cálculo
das deformações do corpo e o estudo da sua estabilidade, quando submetido a solicitações externas (HIBBELER,
2004).

Em resumo, é o capítulo da Mecânica dos Corpos Sólidos no qual se estuda o equilíbrio dos referidos corpos,
considerando os efeitos internos, produzidos pela ação das forças externas.

A origem da resistência dos materiais remonta ao início do século XVII, época em que Galileu realizou
experiências para estudar os efeitos de cargas em hastes e vigas feitas de vários materiais. No entanto, para a
compreensão adequada dos fenômenos envolvidos, foi necessário estabelecer descrições experimentais precisas
das propriedades mecânicas de materiais. Os métodos para tais descrições foram consideravelmente melhorados
no início do século XVIII. Na época, estudos foram realizados, principalmente na França, baseados em aplicações
da mecânica a corpos materiais, denominando-se o estudo de Resistência dos Materiais. Atualmente, no entanto,
refere-se a esses estudos como mecânica dos corpos deformáveis ou simplesmente mecânica dos materiais
(HIBBELER, 2004).

Entre os diversos estudiosos e pesquisadores que colaboraram com a formação da Resistência dos Materiais,
destacam-se: Galileo, Saint Venant, Bernouilli, Navier, Hooke, Poisson, Cauchy, Euler, Castigliano, Tresca, Von
Mises, Lamé, entre outros.

1.2 OBJETIVOS

Os objetivos da Resistência dos Materiais são:

 Determinação dos esforços;


 Determinação das tensões e das deformações a que estão sujeitos os corpos sólidos devido à ação dos
esforços atuantes;
 Equilíbrio de um corpo deformável;
 Verificação da segurança;
 Dimensionamento.

1.3 PEÇA OU ELEMENTO RESISTENTE

Peça ou elemento resistente é todo corpo capaz de receber e transmitir forças. O conjunto de elementos
resistentes de uma construção ou máquina denomina-se estrutura.

Para efeito de estudo, podemos classificar os elementos resistentes em:

a) Barras: aqueles que têm uma das dimensões bem superior às demais. Ex. tirantes, escoras, pilares e
vigas;
b) Placas e chapas: aqueles que possuem uma dimensão muito pequena em relação às outras duas. Caso as
cargas atuantes sejam aplicadas perpendicularmente ao seu plano, denomina-se placa. Se as cargas
atuarem em seu próprio plano médio, denomina-se chapa. Ex. laje, viga parede;
c) Cascas: são elementos que possuem pequena espessura em relação à área da superfície média, que é
curva. Ex. cúpula;
d) Blocos: são elementos em que não há uma dimensão predominante em relação às outras.

1.4 HIPÓTESES SIMPLIFICADORAS


1-1
As hipóteses simplificadoras são adotadas, em um nível inicial, para o fácil entendimento e simples
implementação da teoria referente aos tipos de materiais a elas associados.

1.4.1 HIPÓTESES RELATIVAS AO MATERIAL

Apenas materiais com certas características são estudado nessa faze introdutória da resistência dos materiais.
Esses materiais devem satisfazer os seguintes requisitos:

 Isotrópicos: possuem as mesmas respostas mecânicas quando solicitados em qualquer direção;


 Homogêneos: em uma direção, possuem as mesmas propriedades em qualquer ponto;
 Contínuos: a matéria é distribuída continuamente no volume do corpo;
 Coesos: significa que todas as suas partes estão muito bem unidas, sem a presença de trincas, separações
ou falhas;
 Linearidade: possuem solicitações que apenas façam com que o material trabalhe no regime elástico
linear.

De fato são poucos os materiais que apresentam todos os requisitos acima (um exemplo é o aço). No entanto, as
hipóteses simplificadoras podem ser utilizadas em materiais que não se incluem nesses requisitos, utilizando os
conceitos definidos na sequência como aproximações de cálculo (um exemplo é o concreto).

1.4.2 HIPÓTESES RELATIVAS AOS DESLOCAMENTOS

As equações desenvolvidas são válidas para corpos que sofrem pequenos deslocamentos, se comparadas com suas
dimensões.

Figura 1.1: Deslocamentos verticais em uma viga simplesmente apoiada.

No caso da peça mostrada na Figura 1.1, caso os deslocamentos y dos pontos de seu eixo longitudinal forem
grandes, os momentos poderão ser grandes, se comparados com os momentos da carga transversal . Sendo
assim, hipótese de pequenos deslocamentos não é válida.

Considerando a hipótese dos pequenos deslocamentos as equações da Resistência dos Materiais, poderão ser
deduzidas a partir do equilíbrio dos corpos indeformados, ou seja, em suas dimensões e posição anterior à
aplicação das cargas.

1.5 PRINCÍPIO FUNDAMENTAL

“Toda parte de um sólido em equilíbrio, também está em equilíbrio e à qual se aplicam as equações da estática.”

O método das seções é uma consequência desse princípio. Esse método é utilizado para a determinação dos
esforços internos resultantes que atuam sobre a superfície seccionada do corpo.

Através das equações de equilíbrio ∑ e∑ , calculam-se as resultantes dos esforços internos. A variação
dessas ações nessa seção é indeterminada e para se ter uma noção mais precisa, é necessário estudar as peças
deformadas. As equações de equilíbrio devem ser satisfeitas a fim de impedir que o corpo se translade com
movimento acelerado e que tenha rotação, em outras palavras, para que sofra um movimento de corpo rígido.

1-2
O impedimento desse movimento acelerado é feito através de apoios inseridos em certas posições, conectando o
corpo a um elemento externo. Os tipos mais comuns de apoio no plano, ilustrados na Figura 1.2, são apoios
simples, apenas uma incógnita, apoios rotulados, duas incógnitas e o engastamento, três incógnitas. Em um
sistema tridimensional, os mesmos tipos de apoio ocorrem, no entanto, em alguns deles existe o acréscimo de
algumas incógnitas. Por exemplo, o engastamento tridimensional possui seis incógnitas, três forças em x, y e x, e
três momentos, em torno de x, y e z.

Figura 1.2: Apoios no plano.

A maneira mais fácil e usual de se observar os esforços externos aplicados a um corpo e os seus esforços internos
resultantes é através do diagrama de corpo livre.

Figura 1.3: Método das Seções (diagrama de corpo livre ilustrando as tensões internas os esforços internos normais ).

Em um corpo sólido são definidos quatro tipos de diferentes de esforços internos:

 Força Normal – N: força que atua perpendicularmente à área. Sempre aparece quando existam esforços
externos que tendem a empurrar ou puxar o corpo;
a a
N N N N
Tração (+)

b b
a a
N N Compressão (-) N N

b b

 Força de Cisalhamento – V: localiza-se no plano da área e é criada quando esforços externos tendem a
provocar o deslizamento das duas partes do corpo, uma sobre a outra;

1-3
a a
Q

Q Q

b b

 Momento Torçor ou Torque – T: esse efeito é criado quando os esforços externos tendem a torcer uma
parte do corpo em relação à outra;
a
Mt a

Mt Mt

Mt
b
b

 Momento Fletor – M: é provocado pelos esforços externos que tendem a fletir o corpo em relação ao eixo
localizado no plano da área.
a
M M M a M a
a

b
b
b b

Cada um dos esforços internos segue uma convenção de sinais para cada lado da seção.

1.6 CLASSIFICAÇÃO DOS ESFORÇOS

Os esforços são classificados basicamente de acordo com a sua localização no corpo analisado, podendo ser
externos ou internos. Os esforços externos podem ser de dois tipos distintos, ativo que se refere às cargas
aplicadas, e reativo as reações nos apoios. Os internos se subdividem em resultantes e tensões. As tensões são as
forças internas no corpo subdivididas por todo o seu volume e existem apenas quando o corpo está sendo
solicitado por algum esforço externo, seja uma carga ou uma reação.

Figura 1.4: Classificação dos esforços.

As resultantes, como o próprio nome sugere, são representações das tensões internas aplicadas no centro de
gravidade da respectiva área do diagrama de tensões. De uma forma geral, os esforços são classificados de acordo
com a Figura 1.4.

1-4
1.6.1 ESFORÇOS EXTERNOS

Os esforços externos reativos são classificados em função do tipo de apoio utilizado para restringir o movimento
de corpo rígido, sua classificação pode ser feita, de uma forma básica, de acordo com a Figura 1.2.

Os esforços ativos podem ser classificados de acordo com a área onde atuam, podendo ser concentrados ou
distribuídos, o modo como atuam, podendo ser relativos ao tempo ou relativos ao tempo e ao espaço e ainda
quanto a sua origem, podendo ser estáticos, dinâmicos, repetidos ou do material. A Figura 1.5 ilustra uma
classificação dos esforços ativos.

Figura 1.5: Classificação dos esforços ativos.

1.6.2 ESFORÇOS INTERNOS

Os esforços internos desenvolvidos no corpo sólido podem ser simplificados para ações resultantes. Para tal, é
importante a definição de um plano que secciona o corpo, um sistema de coordenadas e uma convenção de sinais
definida de uma forma coerente para determinar os sentidos dos esforços de uma maneira equivalente nas duas
faces da seção do corpo.

Os esforços internos, como já comentado, atuam em determinados pontos da área de seção transversal,
representando os efeitos resultantes da distribuição da força que atua na área seccionada. A determinação dessa
distribuição de forças é de suma importância na resistência dos materiais e, para tal, é necessário se estabelecer
o conceito de tensão.

1.7 TENSÃO

Tensão é uma medida das forças internas de um corpo deformável. Quantitativamente, é a medida da força por
unidade de área em uma superfície do corpo onde existam forças internas.

Considere que a área seccionada seja subdividida em áreas muito pequenas, como por exemplo, a área
mostrada em escuro na Figura 1.6.

Uma força típica finita muito pequena atua sobre essa área . Essa força, como todas as demais, pode ser
decomposta em componentes de acordo com o sistema de referência adotado. No caso, são três componentes nas
direções dos eixos x, y e z, sendo respectivamente , e . As componentes e são tangenciais à área
e a componente é normal. Fazendo-se com que a área tenda a zero, a força e suas componente também
1-5
tenderão a zero. Entretanto, a relação entre a força e a área tende para um limite finito. Essa relação é chamada
de tensão.

Figura 1.6: Forças internas em uma seção qualquer do corpo.

A intensidade da força, ou força por unidade de área, que atua no sentido perpendicular a área , é definida
como tensão normal, . Como a componente é normal à área:

Equação 1.1

Se a força normal puxa o elemento de área, conforme ilustrado na Figura 1.6, ela é denominada tensão de tração.
Se ela empurra o elemento, é denominada tensão de compressão.

As forças por unidade de área que atuam no sentido tangencial à área , são denominadas tensões de
cisalhamento, . As componentes da tensão de cisalhamento são:

Equação 1.2

Observe que um dos índices é utilizado para indicar a direção normal à área e o outro índice indica a direção da
força de cisalhamento. A tensão é sempre uma quantidade vetorial, pois possui intensidade, direção e sentido.

Caso o corpo também seja seccionado por planos paralelos ao plano x-z e y-z, pode-se então extrair um elemento
cúbico do corpo, conforme a Figura 1.7, o qual terá o volume tendendo à zero.

Figura 1.7: Extração do elemento cúbico do corpo.

Esse elemento representa o estado de tensões que atua em torno do ponto de intersecção dos planos cortantes.

1-6
Figura 1.8: Estado de tensões tridimensionais para o elemento cúbico infinitesimal.

Esse estado de tensões, ilustrado pela Figura 1.8, é caracterizado pelas três componentes normais e as seis
componentes de cisalhamento, duas em cada seção, que atuam em cada face do elemento cúbico. Essas
componentes definem o estado de tensões apenas para o elemento cúbico orientado ao longo dos eixos x, y e z.
Caso tivesse sido extraído por planos não paralelos aos planos x-z, x-y e y-z, o estado de tensões seria definido por
meio de um conjunto diferente de componentes.

Após conhecido o conceito de tensão, pode-se retomar a discussão anterior e definir os esforços resultantes das
tensões internas do corpo. Observe que a força na Figura 1.6 foi decomposta em três componentes de força nos
sentidos dos eixos x, y e z, e essas componentes foram utilizadas para calcularmos as tensões normais e as de
cisalhamento para o plano que secciona o corpo sólido em questão. De uma forma inversa, se conhecêssemos o
valor das tensões, poderíamos encontrar os esforços resultantes dessas tensões. No entanto, as resultantes
tensões internas seriam seis, o esforço normal, dois cortantes, dois momentos fletores e o momento torçor. Essas
resultantes são obtidas de acordo com a Equação 1.3.

∫ ∫ ( )

∫ ∫ Equação 1.3

∫ ∫

O esforço normal e os esforços cortantes relacionam-se diretamente com as tensões normal e cisalhante do plano
em questão.

1.8 DEFORMAÇÃO

Quando uma força é aplicada a um corpo, tende a mudar a forma e o tamanho dele. Tais mudanças são
denominadas deformações e poder ser perfeitamente visíveis ou praticamente imperceptíveis sem a utilização de
equipamentos de medições precisas.

As medições de deformação são feitas, na prática, por meio de experimentos e, uma vez obtidos seus valores, é
possível relacioná-los às cargas aplicadas ou às tensões que atuam no interior do corpo. Na teoria, seu conceito
será apresentado por meio de mudanças no comprimentos de segmentos de reta do corpo e mudanças dos ângulos
entre eles. O alongamento ou a contração de um segmento de reta de um corpo por unidade de comprimento é
denominado deformação normal. Considere a reta AB da Figura 1.9, contida no interior do corpo sem
deformação.

1-7
A reta localiza-se ao longo do eixo n e tem comprimento original de . Após a deformação, os pontos A e B são
deslocados para as posições A’ e B’, respectivamente, e a reta torna-se curva, tendo um comprimento de .A
mudança de comprimento da reta, portanto, é .

(a) (b)

Figura 1.9: Corpo sem deformação (a) e corpo deformado (b), deformação normal.

Como a deformação normal média é definida pelo símbolo , então se pode escrever:

Equação 1.4

A posição dos pontos B e A é escolhida de modo que o ponto B escolhido esteja muito próximo de A, fazendo com
que . A consequência disso é que também o ponto B’, após a deformação, esteja muito próximo de A’, de
modo que . No limite, a deformação normal na direção n é:

Equação 1.5

Quando ε é positivo, a reta inicial alonga-se, quando é negativo, a reta contrai-se. Se for conhecida a deformação
é possível se determinar o comprimento da reta deformada através da Equação 1.6.

Equação 1.6

A deformação é uma grandeza adimensional, fato causado por ser a relação entre dois comprimentos. Apesar
disso, é fato comum expressá-la em razão de unidades de comprimento, como por exemplo mm/mm
(milímetro/milímetro).

Sejam agora, dois segmentos de reta AB e AC, com origem no mesmo ponto A e comprimento tendendo a zero,
originalmente perpendiculares entre si, direcionados ao longo dos eixos t e n. A mudança de ângulo ocorrida
entre os dois segmentos após a aplicação de um carregamento é chamada de deformação por cisalhamento.

1-8
(a) (b)

Figura 1.10: Corpo sem deformação (a) e corpo deformado (b), deformação por cisalhamento.

Esse ângulo é designado por  e medido em radianos (rad). Após a deformação, as extremidades das retas são
deslocadas e as próprias retas se tornam curvas, de modo que o ângulo entre elas em A é ’, Figura 1.10.
Portanto, define-se a deformação por cisalhamento no ponto A associado aos eixos n e t como:

Equação 1.7

Observe que, se ’ é menor que /2, a deformação por cisalhamento é positiva, se ’ é maior que /2, a deformação
por cisalhamento é negativa.

Da mesma forma que foi utilizada nas definições de tensão, imagine agora o corpo subdividido em infinitos
pequenos pedaços, conforme a Figura 1.11.

Figura 1.11: Corpo subdividido em infinitos pequenos pedaços, antes da deformação.

Antes da deformação, esse elemento é retangular, possuindo dimensões x, y e z. Como estamos supondo suas
dimensões muito pequenas, após a deformação esse elemento assumirá a forma de um paralelepípedo, conforme
a Figura 1.12, uma vez que segmentos de reta muito pequenos permanecem aproximadamente retos após a
deformação.

O formato deformado é atingido considerando-se primeiro como a deformação normal muda os comprimentos dos
lados do elemento retangular e, depois, como a deformação por cisalhamento muda os ângulos de cada lado.

Figura 1.12: Elemento infinitesimal do corpo após a deformação.

Portanto, usando a Equação 1.6, em relação aos eixos x, y e z, tem-se que os comprimentos aproximados dos lados
do paralelepípedo após a deformação são:

1-9
Equação 1.8

Os ângulos resultantes aproximados entre os lados são:

Equação 1.9

Observe que, as deformações normais provocam mudança de volume do elemento retangular, enquanto
deformações por cisalhamento provocam mudança no seu formato. Naturalmente, ambos os efeitos ocorrem
simultaneamente durante a deformação.

1.9 PROPRIEDADES MECÂNICAS DOS MATERIAIS

A resistência de um material depende da sua capacidade de suportar carga sem deformações excessivas ou
ruptura. Essa propriedade é própria do material e deve ser determinada experimentalmente. O teste mais
importante para a obtenção de propriedades mecânicas do material é o teste de tração ou compressão axial.

Esse teste é utilizado principalmente para a obtenção da relação entre a tensão média e a deformação normal
média. O teste é realizado através da conformação do material selecionado em corpos de prova de dimensões
padronizadas por normas. Uma máquina de teste, especialmente projetada para tal função, é utilizada para
aplicar-se uma carga de compressão ou tração no corpo de prova em teste. Essa carga é aplicada a uma taxa
muito lenta e constante até que o material atinja o ponto de ruptura. Os dados da carga aplicada são registrados
em intervalos frequentes assim como o alongamento ou encurtamento do corpo de prova. O valor desse
alongamento é utilizando então para calcular a deformação do corpo de prova e a carga aplicada, juntamente com
propriedades da seção transversal do corpo de prova, para calcular a tensão, obtendo-se assim, ao final do teste, o
diagrama tensão-deformação para o material ensaiado.

1.9.1 DIAGRAMA TENSÃO-DEFORMAÇÃO

O diagrama tensão-deformação é um gráfico bidimensional no qual se relacionam a tensão , ordenada, com a


deformação , abscissa, obtidos pelo ensaio. Cada ponto do gráfico identifica uma leitura de tensão-deformação
feita pela máquina de testes durante o ensaio. O último ponto caracteriza a ruptura do material.

A partir do diagrama tensão-deformação é possível se obter diversas propriedades do material ensaiado. A


Figura 1.13 ilustra o diagrama tensão-deformação de alguns materiais.

1-10
Figura 1.13: Diagrama tensão-deformação.

Os materiais são classificados como dúcteis e frágeis, dependendo das suas características de tensão e
deformação.

1.9.2 MATERIAIS DÚCTEIS

Materiais dúcteis são aqueles que apresentam grandes deformações antes de se romperem como, por exemplo, o
aço, borracha, alumínio. A madeira pode ser considerada como um material moderadamente dúctil, pois suas
características variam muito de uma espécie para outra.

Figura 1.14: Diagrama tensão-deformação do aço, material dúctil com patamar de escoamento.

Sendo que é a tensão de ruptura do material, é a tensão de resistência do material, que indica o limite de
resistência, é a tensão de escoamento, que indica o final do regime elástico do material, e a tensão de
proporcionalidade, que indica o fim do regime elástico linear do material. A proporcionalidade entre a tensão  e
a deformação  nesse regime é dada pelo módulo de elasticidade E.

O comportamento elástico é caracterizado pelo fato de que uma carga aplicada ao material que não exceda do
valor de , não provoca deformações irreversíveis no material, ou seja, assim que a carga para de ser aplicada, o
material retorna ao seu formato original.

A região de escoamento é caracterizada por uma deformação permanente do material, que se desenvolve sem o
acréscimo da tensão. A partir da tensão de escoamento, o material passa a trabalhar no regime plástico.

1-11
O endurecimento por deformação pode ser entendido como uma sobra de resistência do material. Ocorre após o
termino do escoamento e caracteriza-se por um pequeno aumento residual de resistência do material.

A estricção é um fenômeno que causa a redução da seção transversal do corpo de prova. Ao atingir o limite de
resistência, a área da seção transversal em uma região localizada do corpo de prova, começa a diminuir. Esse
fenômeno é provocado por planos de deslizamento formados no interior do material, e as deformações produzidas
são provocadas por tensão de cisalhamento até levar o corpo de prova à ruptura.

Nem todos os materiais dúcteis apresentam o patamar de escoamento. A maioria dos metais não apresentam
escoamento constante além da faixa de elasticidade, um exemplo disso é o alumínio. A borracha natural é uma
exceção geral a regra, pois nem limite de proporcionalidade tem, uma vez que sua tensão e deformação não se
relacionam linearmente em nenhuma parte do diagrama, apresentando assim um comportamento elástico não
linear.

1.9.3 MATERIAIS FRÁGEIS

Materiais frágeis são aqueles que se rompem bruscamente apresentando pequenas deformações como, por
exemplo, o concreto. Outra característica é que não possuem tensão de ruptura à tração bem definida e sua
resistência a esse esforço normalmente é baixa. Essa indefinição é causada pela existência de imperfeições e
microtrincas no material. A consequência é que o aparecimento de trincas iniciais seja bem aleatório. Essas
imperfeições ou microtrincas são próprias da natureza do material.

As características do diagrama tensão-deformação do concreto, por exemplo, dependem principalmente da


mistura água, areia, brita e cimento, da duração e temperatura da cura (endurecimento do concreto). Um
exemplo típico de um diagrama tensão-deformação do concreto é mostrado na Figura 1.15.

Figura 1.15: Diagrama tensão-deformação do concreto.

Como se observa, a resistência máxima a compressão é muito maior do que a resistência à tração.

Limite elástico do concreto é caracterizado pela tensão , no entanto não possui a propriedade da
proporcionalidade, como no caso do aço. No entanto, para se obter uma proporcionalidade aproximada, utiliza-se
a inclinação da reta secante que passa pela origem e pelo ponto final do regime elástico. Em qualquer outro
ponto da curva, pode-se estimar a relação da tensão com a deformação através da reta tangente ao ponto
analisado da curva, inclusive no ponto inicial.

1-12
Alguns autores utilizam aproximações por funções para representar a curva tensão-deformação do concreto,
alimentadas por constantes definidas por ensaios experimentais.

Após o limite elástico o concreto começa a sofrer dano, inclusive às vezes visível através de fissuras, sendo que
mesmo danificado o material ainda possui uma sobra de resistência até atingir a tensão máxima , e então,
após, começa a perder resistência até a total ruptura. Vale ressaltar que a deformação durante todos esses
estágios é muito pequena, sendo praticamente imperceptível, característica essa do material frágil.

1.10 LEI DE HOOKE

Como exposto na seção anterior, a maioria dos materiais possuem uma relação linear, ou seja, uma relação
proporcional ou aproximadamente proporcional entre a tensão  e a deformação . Esse fato, descoberto por
Robert Hooke, em 1676, com o auxílio de molas, é conhecido como lei de Hooke, e é expressa pela seguinte
relação:

Equação 1.10

Sendo E a constante de proporcionalidade, chamada de módulo de elasticidade ou módulo de Young. A Equação


1.10 na verdade representa a porção inicial reta do diagrama tensão-deformação até o limite de
proporcionalidade e o módulo de elasticidade representa a inclinação dessa reta.

Vale ressaltar que até então as propriedades dos materiais aqui discutidas envolvem tensões normais. No
entanto, para as tensões tangenciais também existe, para certos materiais, uma proporcionalidade linear no
início do diagrama de tensão-deformação. No cisalhamento, essa relação é dada entre a tensão de cisalhamento 
e a distorção angular .

Equação 1.11

Sendo G conhecido como módulo de elasticidade transversal. Caso o material em estudo siga as hipóteses
simplificadoras apresentadas na seção 1.4, ou as siga de maneira aproximada, o módulo de elasticidade
transversal pode ser calculado em função do módulo de elasticidade de acordo com a seguinte expressão:

Equação 1.12

Onde o  é conhecido como coeficiente de Poisson.

1.11 COEFICIENTE DE POISSON

Um corpo deformável quando submetido a uma força normal de tração, não só se alonga como também se contrai
lateralmente. Por exemplo, se uma borracha é esticada, observa-se que tanto a espessura quando a largura
diminuem. Da mesma forma, se o corpo está submetido a uma força normal de compressão, lateralmente ele irá
expandir. A Figura 1.16

“As deformações específicas transversais são diretamente proporcionais às deformações específicas


longitudinais.” Essa afirmação é válida desde que o limite de proporcionalidade do material não seja
ultrapassado.

1-13
(a) (b)

Figura 1.16: Deslocamentos laterais e longitudinais: tração(a) e compressão (b).

Quando uma carga F é aplicada a uma barra engastada, como por exemplo, na Figura 1.16, tanto para a tração
Figura 1.16a quanto para a compressão Figura 1.16b é possível calcular a deformação longitudinal e a
deformação transversal , independente se for tração ou compressão, de acordo com a Equação 1.13,
relacionando-se o deslocamento após a aplicação da força com o comprimento total da peça na direção analisada.

Equação 1.13

No início do século XIX, o cientista francês S.D. Poisson percebeu que na faixa de elasticidade do material, a
razão entre as deformações longitudinal e transversal era constante. Essa constante é denominada de coeficiente
de Poisson  e possui valor numérico exclusivo para cada material, desde que o material seja homogêneo e
isotrópico. Materiais que podem ser simplificados para homogêneos e isotrópicos também possuem um valor de
coeficiente de Poisson. Matematicamente, o coeficiente de Poisson é dado por:

Equação 1.14

O sinal negativo é usado pois o alongamento longitudinal, ou encurtamento, provoca uma contração lateral, ou
expansão, e vice-versa. Observe que essa deformação lateral é a mesma em todas as direções laterais.

1.12 PRINCÍPIO DA SUPERPOSIÇÃO DOS EFEITOS

A superposição dos efeitos é geralmente utilizada para determinar a tensão ou deslocamento em determinado
ponto do corpo, quando esse está submetido a um carregamento complexo. O carregamento complexo é
subdividido em carregamentos mais simples, mas que juntos mantem o mesmo efeitos do original, e para se
determinar a tensão ou o deslocamento resultante no ponto, é preciso encontrar primeiro as tensões ou
deslocamentos provocados pelas cargas ou componentes individuais que atuam separadamente sobre o corpo. A
tensão ou deslocamento resultante são, então, determinados somando-se algebricamente as contribuições
provocadas pelas componentes individuais.

1-14
Figura 1.17: Ilustração da Superposição dos efeitos.

A superposição dos efeitos é válida somente se as condições a seguir forem satisfeitas:

 A carga complexa deve ser linearmente relacionada à tensão e ao deslocamento a ser determinado.
 A carga complexa não deve mudar significativamente a geometria ou a configuração original do corpo.

Basicamente, para a aplicação da superposição dos efeitos o material deve se manter no regime elástico linear do
diagrama tensão deformação, ou seja, possuir valores de tensões e deformações abaixo do limite de
proporcionalidade, além de possuírem pequenos deslocamentos, se comparados com as dimensões do corpo.

1.13 PRINCÍPIO DE SAINT-VENANT

O princípio de Saint Venant, observado pela primeira vez pelo cientista francês Barré de Saint-Venant em 1855,
nos diz que a tensão e a deformação produzidas em pontos do corpo suficientemente distantes da região da
aplicação da carga serão as mesmas produzidas por quaisquer cargas aplicadas que tenham a mesma resultante,
estaticamente equivalente, e que sejam aplicadas na mesma região do corpo.

Considere como uma barra retangular deforma elasticamente quando submetida a uma força F aplicada ao longo
de seu eixo geométrico, conforme Figura 1.18. No caso, a barra está fixada rigidamente em uma das
extremidades e a força é aplicada por meio de um furo na outra extremidade.

Figura 1.18: Ilustração do Princípio de Saint Venant.

Devido ao carregamento, a barra deforma-se como indicado pelas distorções das retas horizontais e verticais nela
desenhadas. Observa-se que deformações localizadas ocorrem nas extremidades, diminuindo a medida que se
observa mais o centro da barra até tornarem-se iguais.

Como a deformação está relacionada a tensão no interior da barra, pode-se dizer que a tensão distribui-se mais
uniformemente ao longo da área da seção transversal se o corte for feito longe do ponto em que a carga externa
foi aplicada ou dos apoios (observe as seções a-a, b-b e c-c).

1-15
Como regra geral, que se aplica também a muitos outros casos de carregamento e geometria do corpo, considera-
se que a distância para a homogeneização das tensões seja pelo menos igual à maior dimensão da seção
transversal sob carga. Então, no casso da barra da Figura 1.18, a seção c-c deve estar localizada a uma distância
pelo menos igual à largura da barra.

No entanto, essa regra não se aplica a todo e qualquer tipo de corpo sólido e qualquer carregamento. Por
exemplo, paredes finas quando submetidas a cargas que provoquem grandes deflexões, podem criar tensões e
deformações localizadas que exercem influência a uma considerável distância do ponto de aplicação de carga.

1.14 MÉTODOS BÁSICOS DE ANÁLISE ESTRUTURAL (ESTADO UNIAXIAL DE


TENSÕES)

São métodos simples e clássicos na literatura nos quais baseia-se em um valor limite para uma tensão,
deslocamento ou carga de colapso definida para certo tipo de material, e então verifica-se se todos os pontos da
peça estrutural em análise respeitam esse limite. São métodos utilizados no dimensionamento de elementos
estruturais.

Análise baseado nas tensões:

̅ Equação 1.15

Na qual  é a tensão de serviço (tensão calculada no elemento estrutural) e ̅ é a tensão admissível para o
material do elemento em questão.

Análise baseada nos deslocamentos:

̅ Equação 1.16

Na qual  é o deslocamento do elemento estrutural e ̅ é o deslocamento admissível para o elemento em questão.

Análise baseada na carga de colapso:

Equação 1.17

Na qual F é a carga de serviço no elemento estrutural e é o deslocamento admissível para o elemento em


questão.

Essa metodologia básica é utilizada para verificações rápidas e pequenos dimensionamentos. Na atualidade,
peças estruturais são dimensionadas de acordo com o Estado Limite Último.

1.15 TENSÃO ADMISSÍVEL

A tensão admissível para certo material é determinada em função de uma constante conhecida como fator de
segurança. Esse fator é responsável por reduzir o valor da tensão determinada experimentalmente como tensão
limite para o material em questão. Essa tensão pode ser definida como a tensão do limite de proporcionalidade,
do limite elástico e às vezes até como a tensão de ruptura. Normalmente, as estruturas são calculadas para
trabalhar dentro do regime elástico linear, ou seja, a tensão limite é definida como a tensão do limite de
proporcionalidade.

1-16
O coeficiente de segurança é adotado para englobar fatores externos que possam ocorrer na estrutura e que não
foram preditos no dimensionamento estrutural. Entre esses fatores que influenciam o valor do coeficiente de
segurança, pode-se citar:

 Probabilidades de erros na avaliação de cargas;


 Imperfeições na execução da peça;
 Variação das propriedades mecânicas do material;
 Imperfeições no cálculo devido às hipóteses simplificadoras;
 Tipo de carregamento: carga estática, dinâmica, choque, etc.;
 Número de repetições da aplicação das cargas (fadiga);
 Tipo de ruptura (dúctil ou frágil);
 Importância de determinada peça para a integridade da estrutura.

Sendo s o fator de segurança definido para certa estrutura em análise, a tensão admissível ̅ para o material
dessa estrutura pode ser definida como:

̅ Equação 1.18

Sendo a tensão limite.

Usualmente o fator de segurança para uma estrutura metálica é adotado como 1,15 e para uma estrutura de
concreto de 1,4. O fator de segurança para o concreto é maior que do aço pelas incertezas que o material impõe
dadas as suas características heterogêneas e anisotrópicas.

1.16 TENSÕES PROVOCADAS PELO EFEITO DA TEMPERATURA

Uma mudança de temperatura, tanto no ambiente como externa (fogo), podem provocar alterações nas dimensões
de um elemento estrutural em função do seu material. Em geral, se a temperatura aumenta, o material se
expande, se diminui, contrai. Normalmente, a expansão ou contração está linearmente relacionada ao aumento
ou diminuição da temperatura. Se esse for o caso e o material for homogêneo e isotrópico, ou puder ser
aproximado a essas características, então o deslocamento , expansão ou contração, de um elemento estrutural
de comprimento L é determinada pela seguinte equação:

Equação 1.19

Onde α é uma propriedade do material desse elemento estrutural conhecida como coeficiente linear de dilatação
térmica. Sua unidade de medida é a deformação específica por grau de temperatura (1/ºC), e para o aço, por
exemplo, o seu valor é de aproximadamente 12,0 10−6 (C°)−1. é a variação da temperatura, diferença entre a
temperatura final e a inicial.

Caso a mudança da temperatura varie em todo o comprimento do elemento, ou seja, , ou se α variar


ao longo do comprimento do elemento, então a Equação 1.19 aplica-se a cada segmento infinitesimal do elemento
estrutural dx.

∫ Equação 1.20

A mudança de comprimento em um elemento estrutural estaticamente determinado é calculada prontamente


pela Equação 1.19 ou pela Equação 1.20, uma vez que o elemento possui liberdade para se expandir ou contrair.
1-17
No entanto, em um elemento estaticamente indeterminado, esses deslocamentos térmicos são limitados pelos
apoios, o que produz tensões térmicas que devem ser consideradas no projeto.

1-18
2 ESTADO TRIPLO DE TENSÕES

No ponto genérico de um corpo carregado, para cada plano que o contém, define-se um vetor tensão. Como o
ponto contém uma família de planos, tem-se também uma família de vetores tensão nesse ponto. A esta família
de vetores tensão, dá-se o nome de estado de tensão no ponto.

O estado de tensões no ponto, fica perfeitamente definido, conhecendo-se as tensões em 3 planos que passam pelo
ponto.

2.1 TENSÕES NORMAIS E DEFORMAÇÕES ESPECÍFICAS NO PONTO GENÉRICO

Seja o corpo da Figura 2.1 submetido a um estado de carregamento multiaxial. Extraindo-se desse corpo um
elemento volumétrico infinitesimal e, através da superposição dos efeitos, considerando-se apenas a ação das
tensões normais com a atuação de uma delas por vez, pode-se escrever uma relação entre todas as tensões e
deformações do corpo em função da lei de Hooke e do coeficiente de Poisson.

Figura 2.1: Tensões Volumétricas.

Considerando apenas agindo:

Equação 2.1

Considerando apenas agindo:

Equação 2.2

Considerando apenas agindo:

Equação 2.3

2-19
Aplicando-se o princípio superposição dos efeitos, considerando todos os efeitos conjuntos de todas as tensões
normais, pode-se escrever para as deformações normais:

[ ( )]

[ ] Equação 2.4

[ ( )]

Nas quais, E é o módulo de elasticidade e  é o coeficiente de Poisson.

Dessa forma, calculam-se os efeitos das tensões nas três tensões normais nas três deformações normais.

2.2 TENSÕES TANGENCIAIS E DISTORÇÕES ANGULARES NO PONTO GENÉRICO

Considerando-se, agora, somente as tensões de cisalhamento atuando no elemento infinitesimal, pode-se escrever
em função da lei de Hooke, relações para as todas as tensões de cisalhamento e todas as deformações de
cisalhamento, considerando-se a atuação de uma tensão cisalhante por vez.

Figura 2.2: Tensões de Cisalhamento.

Considerando apenas as tensões tangenciais e agindo no paralelepípedo elementar:

Figura 2.3: Tensões e deformações de cisalhamento no plano XY.

Aplicando a condição de equilíbrio ∑M0 =0, resulta:

2-20
Equação 2.5

E, por analogia:

Equação 2.6

Estas relações são conhecidas como Teorema de Cauchy ou Teorema das Tensões Recíprocas e pode ser
enunciado como:

“As tensões tangenciais sobre dois planos ortogonais são recíprocas”.

Isto é, existindo tensões tangenciais sobre um plano, existirão tensões tangenciais , também no plano
ortogonal ao primeiro, de modo que seus sentidos se aproximam ou se afastam da aresta comum aos dois planos.
Este teorema é consequência das condições de equilíbrio.

A Lei de Hooke aplicada às tensões de cisalhamento e distorções angulares resulta:

, , Equação 2.7

Note que as tensões de cisalhamento e suas respectivas deformações de cisalhamento são independentes das
demais componentes de cisalhamento. Além disso, as deformações normais e tensões normais são independentes
das deformações e tensões cisalhantes.

2.3 LEI DE HOOKE GENERALIZADA

Considerando o princípio da superposição dos efeitos e sabendo-se que nos planos definidos pelos eixos x, y e z,
ocorrem simultaneamente tensões normais e cisalhantes, pode-se escrever uma relação geral entre as tensões e
deformações, combinando-se as tensões em um vetor de tensões , as deformações em um vetor de deformações 
e a relação entre essas grandezas em uma matriz conhecida como matriz constitutiva D. Essas quantidades
vetoriais são escritas de acordo com as equações encontradas anteriormente.

Equação 2.8

{ } { }

[ ]

2-21
Ou, de uma forma compacta:

Equação 2.9

Na Equação 2.9 a relação apresentada, cálculo das deformações em função das tensões, é escrita com a inversa
da matriz constitutiva do material, que é definida em função da lei de Hooke que calcula as tensões em função
das deformações, ou seja:

Equação 2.10

Sendo que a lei de Hooke generalizada é então escrita como:

Equação
2.11

{ } { }
[ ]

Caso o corpo esteja submetido a uma pressão hidrostática p, que resulta em tensões e deformações normais
iguais em todas as direções pode-se relacionar a pressão hidrostática p com a deformação volumétrica do corpo ,
em função do coeficiente de Poisson e do Módulo de Elasticidade, conforme segue.

Equação 2.12

Na qual:

Equação 2.13

2.4 DEFORMAÇÃO NORMAL DO ELEMENTO INFINITAMENTE PEQUENO


(DILATAÇÃO CÚBICA)

O volume do elemento sólido infinitesimal, antes de qualquer solicitação é: V 0 = dxdydz.

Ao ser solicitado por forças de tração normais às faces Nx, Ny e Nz, tem-se:

Equação 2.14

Qualquer que seja o estado de tensões, teremos deformações nas três direções.
2-22
Figura 2.4: Solicitação por forças de tração normais.

Após as deformações, o volume do elemento infinitesimal será (ver Equação 1.6):

( ) Equação 2.15

A variação de volume do elemento infinitesimal é V=V-V0 e, portanto:

( ) Equação 2.16

Sabendo-se que a dilatação cúbica e é a relação entre a variação do volume e o volume inicial, ou seja:

Equação 2.17

Substituindo-se a Equação 2.16 na Equação 2.17, simplificando-se os termos, expandindo a equação e eliminando
os termos de valores não significativos, chega-se a:

Equação 2.18

Essa equação nos diz que:

“A dilatação cúbica é a soma das deformações específicas nas três direções, qualquer que seja o estado elástico”.

A dilatação cúbica também pode ser escrita em função das tensões normais. Da lei de Hooke generalizada tem-se:

[ ( )]

[ ] Equação 2.19

[ ( )]

2-23
Substituindo esses valores de x, y e z, na expressão da dilatação cúbica e rearranjando os termos, Equação 2.18,
teremos:

( ) Equação 2.20

Corpos incompressíveis (líquidos), a variação volumétrica é igual a zero. Assim é possível calcular o coeficiente de
Poisson para esses corpos incompressíveis a partir da Equação 2.20, substituindo-se e=0. Como as tensões, nesse
caso, são sempre não nulas, chega-se a conclusão que:

Equação 2.21

E, portanto:

Equação 2.22

Que é o máximo valor possível para o coeficiente de Poisson.

2.5 TENSÕES PRINCIPAIS

Todo estado de tensões apresenta três planos nos quais as tensões tangenciais são nulas, restando apenas
tensões normais 1, 2 e 3. Estes planos são conhecidos como planos principais e as tensões que lhes
correspondem, denominam-se tensões principais.

Esse estado de tensões é obtido rotacionando-se o elemento infinitesimal em função de certos ângulos a, b e ,
respectivamente, até que na nova posição, o elemento infinitesimal apenas contenha tensões normais a suas
superfícies.

Figura 2.5: Tensões Principais.

2.6 DECOMPOSIÇÃO DO ESTADO DE TENSÃO

Pode-se decompor um estado geral de tensão em dois estados. Um chamado de estado de tensão de mudança de
volume ou “hidrostático” e outro de estado de tensão de mudança de forma. Considerando um estado triplo de
tensão principal 1, 2 e 3 pode-se escrever:

2-24
Equação 2.23

No estado de mudança de forma representado pelas tensões linha (’) a deformação volumétrica é igual à zero,
portanto:

Equação 2.24

Somando membro a membro, as Equação 2.23 e considerando a Equação 2.24, resulta:

Equação 2.25

Substituindo-se a Equação 2.25 nas Equação 2.23 e isolando-se as tensões linha, chega-se a:

Equação 2.26

E dessa forma encontram-se os valores das tensões linha para a decomposição de um estado geral de tensões em
dois estados, um hidrostático e outro de mudança de forma.

2-25
3 ESFORÇO NORMAL SIMPLES

O esforço normal simples ocorre quando na seção transversal do prisma atua uma força normal a ela (resultante)
e aplicada em seu centro de gravidade (CG).

3.1 BARRA CARREGADA AXIALMENTE

Um corpo tridimensional pode ser considerado como barra quando o seu comprimento é muito maior que as
dimensões da seção transversal. Usando a lei de Hooke e as definições de tensão e deformação, será desenvolvida
uma equação para determinar a deformação elástica de um elemento submetido a cargas normais. Considere a
barra da Figura 3.1a, que possui seção transversal variável ao longo do comprimento.

(a) (b)

Figura 3.1: Barra com seção variável(a) e diagrama de corpo livre do elemento infinitesimal (b).

A barra está submetida a cargas concentradas nas suas extremidades e uma carga variável distribuída ao longo
do seu comprimento (por exemplo, peso da barra quando na vertical ou forças de atrito). O objetivo é calcular o
deslocamento  de uma das extremidades da barra em ralação a outra. Considerando o princípio de Saint
Venant, pode-se considerar que a barra, em sua maior parte, deforma-se uniformemente, de modo que a tensão
normal se distribui de maneira uniforme pela seção transversal.

Utilizando-se o método das seções, isola-se um elemento infinitesimal obtido de uma posição qualquer da barra,
de comprimento dx e área A(x). O diagrama de corpo livre do elemento é mostrado na Figura 3.1b. A força axial
interna resultante é representada por F(x), uma vez que o carregamento externo faz com que ela varie no
comprimento da barra. A carga F(x) deformará o elemento infinitesimal, conforme ilustra a Figura 3.1b e,
portanto, o deslocamento de uma extremidade do elemento em relação a outra será d. A tensão e a deformação
do elemento são:

, Equação 3.1

Desde que essas quantidades não excedam o limite de proporcionalidade do material, pode-se relacioná-las
utilizando a lei de Hooke.

Equação 3.2

O cálculo do deslocamento total  é feito com a integração dessa equação em todo o comprimento L da barra.

3-25
∫ Equação 3.3

Caso o carregamento externo fosse constante no comprimento, assim como a área de seção transversal, conforme
mostra a Figura 3.2, e lembrando-se que o material sempre está sendo considerando homogêneo e isotrópico, a
Equação 3.3, resume-se a:

Equação 3.4

Figura 3.2: Barra com área constante e carregamento constante.

Caso a barra esteja submetida a diversas cargas normais ou tipo do material mudar de forma abrupta de uma
região para a outra a Equação 3.4 poderá ser aplicada a cada segmento de barra em que essas quantidades sejam
diferentes e o deslocamento final de toda a barra será a soma dos deslocamentos de cada uma dessas regiões.
Lembrando que para executar tal soma deverá ser aplicado o método das seções em cada uma dessas regiões
para a determinação do esforço normal interno na região.

3.2 BARRA ESTATICAMENTE INDETERMINADA

Quando o número de restrições dos deslocamentos ou reações de apoio em uma barra é maior que o número de
equações da estática, como por exemplo, a barra biengastada da Figura 3.3, a barra é dita estaticamente
indeterminada, pois as relações de equilíbrio não são suficientes para se determinar todas as reações.

O problema somente será solucionado ao estabelecerem-se equações adicionais de tal forma que seja possível
calcular todas as reações. Essas equações adicionais levarão em conta a geometria da deformação.

Figura 3.3: Barra biengastada.

De forma explicita, uma equação que especifique as condições do deslocamento é denominada condição de
compatibilidade. Uma condição de compatibilidade adequada para a barra da Figura 3.3 requer que o
deslocamento entre as extremidades A e B seja nulo. Essa condição pode ser expressa em termos da relação entre
cargas e deslocamentos dada pela Equação 3.4 dependente do comportamento do material, ou seja:

Equação 3.5

Supondo que o módulo de elasticidade e a área de seção transversal sejam constantes no comprimento, pode-se
3-26
escrever que as reações nos apoios são:

Equação 3.6

3.3 TENSÕES NORMAIS E TANGENCIAIS NUMA SEÇÃO OBLIQUA DE UMA BARRA


SOLICITADA AXIALMENTE

Em discussão anterior, 3.1, foi observado que uma barra solicitada axialmente apenas possui tensão normal em
seu interior. No entanto, se tomarmos um plano qualquer aa que secciona a seção transversal de uma barra
axialmente solicitada em um ângulo , observa-se que o esforço axial aplicado (resultante) pode ser decomposto
em duas outras forças nas direções normal e tangencial ao plano aa.

Figura 3.4: Esforço normal em uma seção obliqua

Essas duas resultantes, Fn e Ft irão causar tensões normais e cisalhantes, respectivamente, no plano aa. O
cálculo dessas tensões deve levar tanto a inclinação do plano quando a área Aa resultante do seccionamento
(diferente da área A original da seção transversal), ou seja:

Equação 3.7

Admitindo-se distribuição uniforme de tensão de cisalhamento, provocada pela componente Ft:

Equação 3.8

Observando-se as relações resultantes para n e t é possível identificar um ângulo  onde as tensões normais
serão máximas e um ângulo  onde as tensões cisalhantes serão máximas.

Como n é função de cos , o máximo valor de n irá ocorrer quando  = 0, que corresponde a uma seção
3-27
perpendicular a seção transversal da barra, ou seja, max = . No caso de t, a tensão de cisalhamento no plano
inclinada é função de sen 2, portanto o máximo valor de t ocorrerá quando o ângulo  = 45º, ou seja, max = /2.

3.4 BARRA SOB A AÇÃO DO PESO PRÓPRIO

Uma barra ou qualquer outro corpo tridimensional está sempre sujeito a ação do peso próprio, gerada pelo seu
peso específico  em função da força da gravidade. Em certas análises, a resultante representativa do peso
próprio pode ser suprimida, quando seu valor for muito inferior às outras cargas envolvidas na análise.

A resultante representativa do peso próprio sempre estará aplicada no centro de massa do corpo, ou da barra, na
direção vertical com sentido para baixo.

Figura 3.5: Barra submetida a uma ação F e ao peso próprio P.

Seja a barra da Figura 3.5 submetida a uma carga axial F e a carga P(x) representativa do peso da porção x da
barra sobre a seção aa. A tensão nessa seção é calculada como segue, sendo N(x) a carga total (F + P(x)) na seção
aa, a a tensão na seção aa e A a área da seção transversal.

Equação 3.9

O valor máximo da carga resultante do peso próprio é calculado considerando-se a barra como um todo, portanto,
a tensão máxima na barra da Figura 3.5 é:

Equação 3.10

A deformação na barra será calculada considerando-se o deslocamento em uma porção dx localizada entre as
seções aa e bb. De acordo com a Equação 3.3, como o peso próprio está distribuído e agindo em todo o volume do
corpo, ou no caso da barra, ou seja, é uma carga variável com o comprimento, o deslocamento é calculado como:
3-28

Equação 3.11

∫ ∫

Integrando-se a Equação 3.11, chega-se a:

Equação 3.12

Na qual, o segundo termo do lado direito da equação representa a quantidade de deslocamento causada pelo peso
próprio da barra. A direção desse deslocamento é a mesma da direção da resultante do peso próprio e caso a
barra não esteja na vertical não será um deslocamento axial, como será visto mais adiante.

3.5 ENERGIA DE DEFORMAÇÃO

Quando forças externas são aplicadas a corpos os mesmos sofrem certa deformação, conforme já visto. Essa carga
a cada unidade de deslocamento é conhecida como trabalho das forças externas. Esse trabalho é armazenado pelo
corpo na forma de energia potencial de deformação. Seja a barra da Figura 3.6 com um módulo de elasticidade E
e área da seção transversal A constantes.

Figura 3.6: Barra deformando-se em função da carga F.

Considerando a carga F crescendo de um valor zero até um valor F, de forma constante e lenta no tempo, se o
material obedece a lei de Hooke, a relação entre a carga F e a deslocamento  é representada por uma reta,
conforme a Figura 3.7.

Figura 3.7: Relação força deslocamento, Energia de deformação.

3-29
A linearidade da relação entre força e deslocamento, torna possível escrever um deslocamento infinitesimal d,
em função de uma carga infinitesimal dF, ou seja.

Equação 3.13

Da mesma forma que o definido na Equação 3.4.

3.5.1 PRINCÍPIO DA CONSERVAÇÃO DE ENERGIA

De acordo com o exposto inicialmente, pode-se enunciar o princípio da conservação de energia.

“O trabalho realizado é igual à variação na energia”

Corpos inicialmente descarregados, solicitados por um carregamento estático de forma que o material permaneça
trabalhando no regime elástico linear, quando não ocorre troca calorífica e os corpos não apresentam movimento
de corpo rígido, tem-se que:

Equação 3.14

Na qual, Ue é o trabalho das forças externas, calculado com a multiplicação da força pelo deslocamento, e U é a
energia de deformação do corpo.

Como o trabalho das forças externas é dado pelo valor da força a cada unidade de deslocamento, para uma carga
F’ qualquer, representativa de um deslocamento ’, a variação do trabalho das forças externas é:

Equação 3.15

O cálculo do trabalho das forças externas é feito substituindo-se na Equação 3.15 a Equação 3.13 e integrando.


Equação 3.16

A Equação 3.16 nos diz simplesmente que a energia de deformação de um corpo U, ou barra no caso, é igual a
área sobre a reta que relaciona as forças com os deslocamentos desse corpo, ou barra. Sua unidade é
[força].[deslocamento].

Da mesma forma que para a barra com carga axial, um corpo volumétrico tridimensional tem sua energia de
deformação por unidade de volume dada por uma relação entre a tensão e a deformação durante o regime
elástico linear do material, ou mais simplesmente, a área sob o diagrama tensão deformação em seu regime
elástico linear e sua unidade é [força]/[área], ou [força].[deslocamento]/[volume].

3.6 MATERIAIS HOMOGÊNEOS ASSOCIADOS

Imagine agora, uma peça estrutural que seja composta por materiais com diferentes propriedades mecânicas
(módulo de elasticidade, coeficiente de Poisson, tensão limite, etc.). O comportamento dessa peça como um todo

3-30
deve ser avaliado considerando-se a participação de todos os materiais que a compõe. Seja o elemento estrutural
de barra da Figura 3.8 composto de dois materiais, o material 1 e o material 2 que possuem propriedades
mecânicas e geométricas de acordo com a Tabela 3.1.

Figura 3.8: Elemento estrutura de barra composto de dois materiais.

Material 1 Material 2
Módulo de Elasticidade E1 E2
Coeficiente de Poisson 1 2
Tensão Admissível ̅ ̅
Área da seção transversal A1 A2

Tabela 3.1: Propriedades mecânicas e geométricas dos materiais do elemento estrutural de barra.

Desde que a carga F não faça com que ambos os materiais X e Y ultrapassem os limites de proporcionalidade do
material, pode-se relacionar as deformações como:

Equação 3.17

De acordo com a lei de Hooke, a Equação 3.17 pode ser reescrita como:

Equação 3.18

A Equação 3.18 nos diz que a relação entre os módulos de elasticidade dos dois materiais, assim como a relação
entre as tensões é constante (n). Da mesma forma, pode-se escrever uma relação constante para as áreas, onde
A1/A2 = m, sendo m constante.

A resultante ou esforço solicitante F, aplicado no centro geométrico da seção transversal, pode ser escrito como a
soma da resultante do material 1 com a resultante do material 2, ou seja, F = F1 + F2.

3.6.1 DIMENSIONAMENTO

No caso do problema a ser resolvido ser sobre o dimensionamento do elemento estrutural com materiais
associados, necessita-se calcular as áreas desses materiais para que as tensões admissíveis de cada um não
sejam ultrapassadas, em função da carga externa axial aplicada ao conjunto.

Sabendo-se que a força F resultante deve ser a soma das resultantes nas barras dos dois materiais, e ainda que a
força externa resultante em uma das barras pode ser escrita como uma multiplicação das constantes n e m pela
tensão e área da outra barra, ou seja, F1 = nm2A2, ou F2 = nm1A1, e que o cálculo das áreas pode ser feito em
função das tensões limites, sempre verificando para os dois materiais, de acordo com:

Equação 3.19
̅ ̅

Sendo o valor final da área 2 o maior entre os valores calculados acima. A área 1 pode ser calculada com a
3-31
relação entre as áreas através da constante m. A verificação pode ser feita primeiro com a área 1, substituindo-se
os índices adequadamente nas Equação 3.19.

3.7 DEFORMAÇÕES AXIAIS ELASTOPLÁSTICAS - OPCIONAL

Todos os resultados obtidos até esse ponto levavam em consideração a permanência do material em seu regime
elástico linear. Se, por qualquer razão, a tensão de escoamento do material for excedida em qualquer ponto,
ocorrerão deformações plásticas, e a maior parte dos resultados obtidos anteriormente deixam de ser válidos.
Caso isso ocorra, deve se fazer uma análise mais minuciosa do problema, baseada em relações não-lineares entre
tensões e deformações.

Uma aproximação para considerar-se efeitos causados pela plastificação do material é considera-lo como um
material elastoplastico idealizado, para o qual o diagrama tensão deformação é constituído de duas retas,
conforme Figura 3.9, onde a reta inclinada representa o regime elástico linear e a reta horizontal a plastificação
do material.

Figura 3.9: Diagrama tensão deformação idealizado, material elastoplástico.

O diagrama de tensão deformação para o aço doce na região elástica e na zona plástica é parecido com essa
idealização.

Enquanto a tensão  não ultrapassa o valor da tensão de escoamento e o material obedece a lei de Hooke.
Quando o material atinge e começa a deformar-se plasticamente sob carregamento constante. Se o
carregamento é removido, a linha de descarregamento, mostrada na Figura 3.9 em linha tracejada, paralela a
linha que ilustra a região elástica linear, não retorna a origem, indicando que o elemento estrutural sofre uma
deformação permanente εp.

Por exemplo, é possível calcular o deslocamento permanente de uma barra em função da deformação
permanente. Sendo ε a deformação total sofrida pela barra, a deformação permanente será εp = ε – εe, sendo εe a
deformação referente a tensão de escoamento, calculada ainda de acordo com a lei de Hooke. O deslocamento
permanente então é p = εpL, na qual L e o comprimento da barra.

3-32
4 ESFORÇO DE FLEXÃO SIMPLES

O esforço de flexão simples é normalmente resultante da ação de carregamentos transversais que tendem a
curvar o corpo e que geram uma distribuição de tensões aproximadamente lineares no seu interior. Essa
distribuição alterna entre tensões de tração e compressão na mesma seção transversal. Isso ocorre desde que a
seção transversal do corpo seja simétrica em relação ao plano de aplicação do carregamento transversal (plano de
solicitação). A resultante dessa distribuição é um binário de forças de igual intensidade, mas de sentidos opostos,
conhecido como momento fletor, Figura 4.1b.

(a) (b) (c)

Figura 4.1: Flexão simples.

O esforço de flexão simples ocorre em corpos nos quais o sistema de forças externas, ativas e reativas, e o eixo
longitudinal do corpo estejam contidos em um mesmo plano (plano de solicitação), Figura 4.1c. No caso de barras,
dado o seu grande comprimento em relação às dimensões da seção transversal, aliado às hipóteses
simplificadoras, a fibra média possuirá um grande raio de curvatura e, portanto será considerada localmente
como reta. A convenção de sinais adotada considera positivo o momento quando a barra é flexionada de forma
que a concavidade fique voltada para cima, caso contrário, considera negativo, Figura 4.1a.

4.1 FLEXÃO PURA

A flexão pura é um caso particular da flexão simples onde corpos flexionados somente estão solicitados por um
momento fletor, não existindo assim o carregamento transversal. É uma condição considerada idealizada, mas
com a consideração das hipóteses simplificadoras, essa condição pode ser acoplada, posteriormente, aos efeitos
das cargas transversais para se definir a deformada e as tensões na flexão simples.

As condições de equilíbrio requerem que os esforços internos sejam equivalentes às solicitações externas. Como a
solicitação na barra, no caso da flexão pura, é um momento constante M, em qualquer seção da barra a
distribuição de tensões deve ser igual ao momento M. Seja uma seção feita na barra no ponto C da Figura 4.1a
ilustrada na Figura 4.2.

Figura 4.2: Tensões na seção transversal no ponto C durante a flexão.

4-35
Chamando de x a tensão normal em um ponto da seção transversal e xy e xz as componentes da tensão de
cisalhamento é possível expressar o sistema de forças internas equivalentes ao momento M. Como o momento M
consiste de duas forças de igual intensidade, mas sentidos opostos, Figura 4.1b, a soma dessas componentes é
sempre igual a zero. Além disso, o momento fletor M é o mesmo em relação a qualquer eixo perpendicular ao seu
plano e é zero em relação a qualquer eixo contido no seu plano. Aplicando-se as equações da estática, somatório
de forças e somatório de momento, em função das resultantes, função das tensões nos elementos infinitesimais
da seção em C, ilustrados na Figura 4.2, chega-se respectivamente a:

∫ Equação 4.1

Somatório dos momentos em torno do eixo y, e:

∫ Equação 4.2

Somatório dos momentos em torno do eixo z.

As demais componentes normais e de cisalhamento, em uma barra submetida a flexão pura, não precisam ser
consideradas, conforme será visto a seguir.

4.1.1 HIPÓTESE DE BERNOULLI

Em relação às tensões, seja o corpo da Figura 4.1 dividido em um grande número de pequenos elementos
conforme ilustra a Figura 4.3, e considerando-se ainda apenas um momento M aplicado (Flexão Pura).

(a) (b)

Figura 4.3: Divisão em diversos elementos, seção vertical, longitudinal (a) e seção horizontal, longitudinal (b).

A hipótese de Bernoulli nos diz que as seções transversais, após a deformação do de flexão pura do corpo com eixo
de simetria, se mantém planas e ortogonais ao eixo longitudinal deformado.

Aliando a hipótese de Bernoulli com o fato de que o raio de curvatura é grande, todas as seções ilustradas na
Figura 4.3 estarão aproximadamente a 90º umas das outras, ou seja, as deformações angulares e,
portanto, as tensões de cisalhamento . Com a utilização das hipóteses simplificadoras, em especial o
fato de estarmos considerando pequenas deformações e o corpo em estudo possuir características de barra,
4-36
observa-se que nas superfícies as tensões . Sendo assim, na flexão pura de uma barra, ocorre um
estado de tensões uniaxiais, sendo a única tensão existente a tensão normal na direção x, x.

A partir da discussão inicial juntamente com a hipótese de Bernoulli, conclui-se que deve existir uma superfície
paralela às faces superior e inferior da barra fletida, na qual a tensão x e a deformação x sejam iguais à zero.
Essa superfície é conhecida como superfície neutra e a interceptação da linha neutra com o plano de simetria da
seção transversal da barra, Figura 4.4a, é uma linha reta conhecida como linha neutra.

4.1.2 DEFORMAÇÕES NA FLEXÃO PURA

Seja um elemento de barra prismático com seção transversal simétrica em relação ao eixo vertical, submetido a
um momento fletor M, conforme ilustra a Figura 4.4. Esse elemento sofrerá flexão sob a ação do momento M e
permanecerá simétrico em relação ao plano de simetria da seção transversal, além disso, o momento M é igual
em qualquer seção da barra entre A e B.

(a) (b)

Figura 4.4: Elemento de barra com seção transversal simétrica flexionado.

Essa flexão da barra fará com que a linha AB da face superior, que intercepta o plano de simetria, originalmente
reta, tenha uma curvatura constante, assim como a linha A’B’ da face inferior. Nota-se também que, sendo o
momento M aplicado no sentido ilustrado na Figura 4.4, a linha AB sofrerá encurtamento no seu tamanho e a
linha A’B’ sofrerá um alongamento.

Adotando um sistema de coordenadas com origem na linha neutra, definida pelo segmento DE, conforme ilustra
a Figura 4.5a, de modo que qualquer ponto até a superfície neutra será medido por sua coordenada y como, por
exemplo, os pontos da linha tracejada, definida pelo segmento JK, ilustrada na Figura 4.5.

Chamado de  o raio do arco DE e de  o ângulo central correspondente ao arco DE, e observando que o
comprimento do arco DE é aproximadamente igual ao comprimento da barra indeformada 1, L, pode-se escrever
que:

Equação 4.3

Lembrando que o segmento DE é a linha neutra da barra fletida e, portanto não sofre alongamento e nem
encurtamento, pois as tensões e deformações na direção x são zero.

No arco JK, localizado a uma distância y da linha neutra, o comprimento se modifica e não vale mais L.
Chamando de L’ o seu comprimento, esse pode ser escrito como:

1 Isso é válido pois se está considerando pequenas deformações e pequenos deslocamentos.


4-37
Equação 4.4

Como o comprimento original, com a barra indeformada, do segmento JK era L, o seu deslocamento longitudinal
total pode ser escrito como:

Equação 4.5

Substituindo as Equação 4.3 e Equação 4.4 na Equação 4.5, chega-se a:

Equação 4.6

A deformação longitudinal do segmento JK pode ser escrita dividindo-se o seu deslocamento longitudinal total
pelo seu comprimento original.

Equação 4.7

O sinal negativo na deformação vem do fato de supormos que o momento aplicado M seja positivo e que, portanto
a barra fletida terá concavidade voltada para cima.

(a) (b)

Figura 4.5: Linha Neutra, seção longitudinal (a) e transversal (b).

Sabendo-se que a maior deformação possível ocorre nos extremos da seção transversal, e sendo a distância da
linha neutra até um desses extremos de c, pode-se escrever que a deformação máxima é igual a:

Equação 4.8

Por fim, a deformação normal na direção x pode ainda ser escrita em função da deformação máxima.

4-38
Equação 4.9

Da hipótese de Bernoulli vem o fato de que as deformações serão idênticas em todos os planos paralelos ao plano
de simetria. Dessa forma, o valor da deformação dado pela Equação 4.7 ou Equação 4.9 é válido em qualquer
ponto e conclui-se que a deformação normal longitudinal, x varia linearmente com a distância y da linha neutra.

4.1.3 TENSÕES E DEFORMAÇÕES NO REGIME ELÁSTICO

Considere que o momento M aplicado é tal que as tensões desenvolvidas na barra por flexão, Figura 4.1c, não
atinjam em nenhum ponto a tensão limite do material, ou seja, a barra fletida trabalha dentro do seu limite
elástico linear, sendo válida então a lei de Hooke para a tensão uniaxial.

Sendo E o módulo de elasticidade do material, da mesma forma que no esforço normal simples, pode-se escrever
que:

Equação 4.10

Multiplicando-se ambos os membros da Equação 4.9 pelo módulo de elasticidade:

Equação 4.11

Utilizando-se a Equação 4.10 na Equação 4.11:

Equação 4.12

Na qual máx representa o máximo valor absoluto da tensão. A tensão normal também varia linearmente com a
distância em relação a linha neutra, Figura 4.1b.

Utilizando-se o primeiro resultado do equilíbrio na seção, a Equação 4.1, e substituindo nela a Equação 4.11:

∫ ∫ ∫ ∫ Equação 4.13

A Equação 4.13 mostra que o primeiro momento estático da seção transversal em relação à linha neutra deve ser
igual a zero. Isso significa que uma barra submetida a flexão pura, desde que as tensões permaneçam no regime
elástico linear, possui linha neutra passando pelo centro geométrico da seção transversal.

A outra equação de equilíbrio a Equação 4.2, momento em torno do eixo z, o qual deverá ser perpendicular a
linha neutra, nos mostra o equilíbrio do momento M aplicado com as tensões x internas, e substituindo nessa
equação a Equação 4.11, chega-se a:

4-39
∫ ( )

∫ Equação 4.14

Na qual o segundo momento estático da seção transversal é conhecido como momento de inércia, I em torno do
eixo z contido na superfície neutra.

Substituindo-se a Equação 4.11 na Equação 4.14, chega-se ao valor das tensões na direção x em função do
momento fletor aplicado para qualquer altura y.

Equação 4.15

A Equação 4.15 é conhecida como equação da flexão para o regime elástico, e a tensão x é chamada de tensão de
flexão. Observe que se y é positivo, ou seja, acima da linha neutra, o valor das tensões é negativo, ou seja,
compressão. Caso y seja negativo, abaixo da linha neutra, o valor das tensões é positivo indicando tração. Isso é,
considerando-se o momento aplicado como positivo, no qual a concavidade da barra fletida é voltada para cima.

Retornando a Equação 4.14, observa-se que a relação I/c depende somente da geometria da seção transversal.
Essa relação é conhecida como módulo de resistência e é representada por W. Substituindo W na Equação 4.14,
chega-se a:

Equação 4.16

A deformação em uma barra fletida por um momento positivo M é medida pela curvatura da linha neutra. Essa
curvatura é definida como o inverso do raio de curvatura  e pode ser obtida através de:

Equação 4.17

Substituindo-se a Equação 4.10 na Equação 4.17, chega-se a:

Equação 4.18

Ou seja:

Equação 4.19

4-40
4.1.4 DEFORMAÇÕES TRANSVERSAIS NA SEÇÃO TRANSVERSAL

Quando foi comentado que uma seção transversal de uma barra submetida a uma flexão pura, permanece plana
após a deformação, hipótese de Bernoulli, não foi excluída a possibilidade de existirem deformações laterais no
plano da seção. E de fato elas existem, lembrando-se do Item 1.11, Lei de Poisson, corpos submetidos a tensões
normais na direção x, por exemplo, possuem deformações nas direções y e z, mesmo com as tensões em y e z
sendo nulas.

As deformações nas direções y e z dependem do coeficiente de Poisson e podem ser escritas como:

Equação 4.20

Ou então, utilizando-se a Equação 4.7:

Equação 4.21

A Equação 4.21 nos indica que os a parte seção transversal localizada acima da linha neutra, y > 0, se alongará
nas direções y e z, e a parte abaixo da linha neutra, y < 0 se encurtará nas direções y e z.

Observe que como essas deformações não existiriam sem a tensão normal e como a tensão normal é independente
delas, essas simplesmente são calculadas em função do coeficiente de Poisson, sem nenhum efeito tridimensional
ou utilização da lei de Hooke generalizada.

4.1.5 LIMITAÇÕES

As análises apresentadas nessa seção são para flexões puras em vigas prismáticas compostas de materiais
homogêneos e trabalhando dentro do seu limite elástico linear. Além disso, o plano de solicitação do momento
deveria ser coincidente com o plano de simetria da seção transversal. Caso a viga seja submetida a uma flexão
simples, função de um carregamento aplicado gerando momentos fletores e esforços cortantes, a seção
transversal que era plana antes da flexão não o será depois da flexão. O empenamento devido às deformações de
cisalhamento provindas do esforço cortante torna a análise muito mais complexa.

No entanto, uma análise cautelosa revela que as tensões normais calculadas a partir da equação Equação 4.15,
não são significativamente alteradas pela presença das forças cortantes e seu empenamento associado. Portanto,
pode-se aproximadamente utilizar a teoria da flexão pura para calcular as tensões normais em barras
submetidas a flexão simples.

4.2 FLEXÃO DE BARRAS COMPOSTAS DE MATERIAIS HOMOGÊNEOS ASSOCIADOS

As deduções feitas até então consideravam a barra fletida constituída de material único homogêneo com módulo
de elasticidade E. Caso essa barra seja constituída de materiais com diferentes comportamentos mecânicos, ou
seja, com diferentes módulos de elasticidade, a abordagem precisa ser modificada.

Considere uma barra formada por dois materiais conforme Figura 4.6a, material 1 e material 2.

4-41
(a) (b) (c)

Figura 4.6: Seção transversal da barra fletida constituída por dois materiais (a), distribuição da deformação (b) e da tensão (c)
na seção transversal.

Essa barra composta se deformará exatamente da mesma maneira descrita para uma barra homogênea, ou seja,
sua deformação continua variando linearmente com y e vale:

Equação 4.22

Como os módulos de elasticidade dos materiais são diferentes, E 1 e E2, as expressões obtidas para o cálculo das
tensões normais na seção transversal na área de cada material serão diferentes.

Equação 4.23

As equações de tensão para cada material definem uma distribuição de tensões consistindo de dois segmentos de
reta representativos da variação da tensão em cada um dos materiais, conforme ilustra a Figura 4.6c.

Sendo agora um elemento infinitesimal de área localizado no material 1, a força resultante pode ser calculada
como:

Equação 4.24

Da mesma forma, um elemento infinitesimal de área do material 2 terá uma força resultante como sendo:

Equação 4.25

No entanto, a resultante no elemento infinitesimal de área do material 2 pode ser escrita em função da
resultante no material 1. Chamando a relação entre os módulos de elasticidade do material 2 e do material 1, de
n, ou seja:

4-42
Equação 4.26

A resultante de força no elemento infinitesimal de área do material 2 é:

Equação 4.27

Observando-se a Equação 4.27 e a Equação 4.24 nota-se que a mesma força dF2 atuaria em um elemento de área
infinitesimal ndA do material 1. Em outras palavras, a resistência a flexão da barra permaneceria a mesma se
ambas as partes fossem feitas do primeiro material, desde que a largura da porção inferior, originalmente de
material 2, fosse multiplicada por n. Note que esse alargamento, n > 1, ou estreitamento, n < 1, deve ser feito em
uma direção paralela à linha neutra da seção transversal, pois é essencial que a distância y de cada elemento em
relação a linha neutra permaneça a mesma. A nova seção transversal obtida é chamada de seção transformada
da barra e é ilustrada na Figura 4.7.

Como a seção transformada é equivalente a seção transversal de uma barra feita de um material homogêneo com
modulo de elasticidade E1, o método descrito anteriormente na seção 4.1.3 pode ser utilizado para a
determinação da posição da linha neutra e a tensão normal em todos os pontos da seção transversal
transformada.

Figura 4.7: Seção transformada da barra.

A linha neutra será traçada através do centro geométrico da seção transformada e a tensão x em qualquer ponto
da seção transversal pode ser calculada através da Equação 4.15, ou seja:

Equação 4.28

Na qual, IT é o momento de inércia da seção transformada e y a distância a partir da linha neutra ao ponto onde
se deseja calcular a tensão.

A obtenção da tensão original da barra composta no material 1 é feita simplesmente com o cálculo da tensão na
seção transformada. Já a tensão no material 2 é obtida com a tensão calculada com a Equação 4.28 multiplicada
por n, dado pela Equação 4.26.

As deformações de uma barra de material composto podem ser calculadas da mesma maneira, adotando-se a
seção transformada em função do material de módulo de elasticidade E 1. Portanto, a curvatura de uma barra de

4-43
material composto é dada pela Equação 4.19, que pode ser reescrita como:

Equação 4.29

4.2.1 VIGAS DE CONCRETO ARMADO

Um exemplo importante de elementos estruturais constituídos de dois materiais diferentes é encontrado em


vigas de concreto armado.

Essas vigas, quando submetidas a momentos fletores positivos, são reforçadas com barras de aço posicionadas a
uma pequena distância da face inferior (caso os momentos fossem negativos, essas barras estariam próximas da
face superior).

Como a resistência do concreto a tração é muito baixa, a viga sofrerá fissuração na região submetida a tração, ou
seja, todo o esforço de tração será resistido pelas barras de aço, enquanto que o esforço de compressão será
resistido pela região de concreto acima da linha neutra (momento positivo).

A seção transformada de uma viga de concreto armado é obtida substituindo a área total da seção transversal
das barras de aço Ab, por uma área equivalente nAb, em que n é dado pela Equação 4.26. No entanto, como
somente a área de concreto comprimida atua na resistência da viga, apenas parte da seção transversal localizada
acima da linha neutra deverá ser utilizada na seção transversal transformada.

Figura 4.8: Seção transformada de concreto.

A posição da linha neutra é obtida determinando-se a distância x da face superior da viga até o centro geométrico
CG da seção transformada. Chamando de b a largura da viga e de d a distância da face superior até o centro
geométrico das barras de aço, e sabendo que o momento estático da seção transformada com relação a sua linha
neutra deve ser zero, tem-se que:

Equação 4.30

Resolvendo a Equação 4.30, chega-se a posição da linha neutra:

( ) Equação 4.31

4-44
O valor de x também indica a área de concreto que é efetivamente utilizada na resistência da viga. A
determinação das tensões é feita conforme explanado anteriormente.

4.3 DEFORMAÇÕES ELASTOPLÁSTICAS NA FLEXÃO PURA - OPCIONAL

Quando foi deduzia da equação da tensão na seção transversal fletida, Equação 4.15, foi considerado que o
material seguia a lei de Hooke, ou seja, em nenhum ponto o material excedia o seu limite de proporcionalidade.
Caso esse limite seja transposto em algum ponto da seção transversal, ou ainda, caso o material não obedeça a lei
de Hooke, ou seja, possui um comportamento não linear no diagrama tensão - deformação, a Equação 4.15 não é
mais válida.

Considerando-se o caso de uma barra constituída de um material elastoplástico ideal, que possui um diagrama
tensão-deformação conforme ilustrado na Figura 4.9, observa-se que a lei de Hooke é válida até que a tensão
atinja o valor de e.

Essa tensão é conhecida como tensão de escoamento do material. Caso a tensão máxima calculada pela Equação
4.14, função do momento aplicado, seja menor ou igual à tensão de escoamento, a distribuição da tensão na seção
transversal é calculada de acordo com a Equação 4.15.

Figura 4.9: Diagrama tensão-deformação elastoplástico idealizado.

Quando a tensão máxima se equivale a tensão de escoamento, pode-se escrever que:

Equação 4.32

Na qual, c é a distância da linha neutra ao extremo da seção transversal medida no plano de solicitação e Me é
chamado de momento elástico máximo, sendo o seu valor, o máximo valor de momento para o qual a deformação
permanece totalmente elástica.

4-45
Figura 4.10: Plastificação da seção transversal na flexão.

A medida que o momento fletor aumenta, desenvolvem-se regiões plásticas na seção transversal da barra, nas
quais a tensão é uniforme e possui valor igual a -e na parte superior e e na parte inferior (momento positivo).
Entre essas regiões plásticas, ainda existe um núcleo elástico, no qual a tensão varia linearmente com y.

Equação 4.33

Onde ye representa metade da altura do núcleo elástico.

A medida que M continua a aumentar, as regiões plásticas expandem-se até que, no limite, a deformação é
totalmente plástica. Esse processo é ilustrado na Figura 4.10.

O cálculo do momento elástico máximo Me, pode ser feito através da Equação 4.32. Lembrando-se da Equação
4.15, pode-se escrever que:

Equação 4.34

Na qual, W é o módulo de resistência elástico da seção transversal (I/c).

O momento plástico, da mesma forma que o momento elástico máximo, pode ser calculado como:

Equação 4.35

Na qual, Z é conhecido como módulo de resistência plástico da seção transversal. O módulo de resistência plástico
pode ser calculado como:

4-46
Equação 4.36

Onde A é a área da seção transversal e d é a distância entre o centro geométrico da região comprimida e o centro
geométrico da região tracionada. A Figura 4.11 ilustra essa ideia para um momento positivo.

Figura 4.11: Distância d.

Os momentos elástico máximo e plástico podem ser relacionados entre sí, assim como o módulo de resistência
elástico e plástico, obtendo-se assim, uma constante conhecida como fator de forma, k, da seção transversal.

Equação 4.37

4.4 FLEXÃO OBLÍQUA

É o caso da flexão pura em que o plano de solicitação não coincide com nenhum dos eixos de simetria da seção
transversal. Quando foi desenvolvida a equação da tensão axial na flexão pura, foi considerado que a seção
transversal fosse simétrica em relação a um plano e que esse plano necessariamente deveria ser o plano que
contem o momento fletor. As seções transversais que atendem a essa consideração são limitadas, por isso será
definida uma equação para tensão para qualquer seção transversal.

No caso do plano de solicitação não coincidir com algum eixo de simetria da seção transversal, pelo fato da
solicitação estar inclinada em relação ao eixo horizontal ou pelo fato de não existir eixo de simetria na seção
transversal, a linha neutra da seção não coincidirá mais com a direção do momento, conforme Figura 4.12.

Figura 4.12: Eixos de solicitação para diversas seções transversais.

Considerando inicialmente, uma barra com um eixo vertical de simetria, submetida ao momento fletor M
atuando em um plano que forma um ângulo  com a vertical, conforme Figura 4.13.

4-47
Figura 4.13: Seção transversal com um eixo de simetria e momento inclinado.

O momento M, representativo dos esforços de uma seção transversal da barra, estará ao mesmo ângulo  do eixo
horizontal z. Decompondo-se esse momento nas direções y e z escreve-se:

Equação 4.38

Como os eixos y e z são eixos principais de inércia da seção transversal, pode-se utilizar a Equação 4.15 para
determinar as tensões resultantes da aplicação de qualquer um dos momentos representados por M y e Mz. A
componente Mz do momento M gera tensões axiais iguais a:

Equação 4.39

O sinal negativo se deve ao fato de que se tem compressão acima do plano xz (y > 0) e tração abaixo (y < 0). A
componente My do momento M, gera tensões:

Equação 4.40

E o sinal positivo se deve ao fato de que se tem tração à esquerda do plano xy (z > 0) e compressão à direita (z <
0).

As tensões totais provocadas pelo momento M aplicado são obtidas através da superposição dos efeitos, somando-
se as tensões resultantes das componentes My e Mz do momento M.

Equação 4.41

Quando a seção transversal for assimétrica, ou seja, não existem eixos de simetria, a Equação 4.41 também pode
ser utilizada para se determinar as tensões em função dos eixos principais de inércia.

A Equação 4.41 só é válida se forem satisfeitas as condições de aplicabilidade do princípio da superposição dos
efeitos, ou seja, ela não poderá ser empregada se as tensões combinadas excederem o limite de proporcionalidade
do material, ou se as deformações provocadas por um dos momentos componentes afetar de forma considerável a

4-48
distribuições de tensões provocada pelo outro.

A Equação 4.41 mostra que a distribuição de tensões provocada pela flexão obliqua é linear. No entanto,
conforme já comentado, a linha neutra não coincidirá com a direção do momento fletor. Como a tensão normal é
zero em qualquer ponto da linha neutra, a equação que a define pode ser obtida fazendo-se x=0 na Equação 4.41.

Equação 4.42

Resolvendo-se para y e utilizando a Equação 4.38.

( ) Equação 4.43

Que indica uma reta de inclinação m:

Equação 4.44

Portanto, o ângulo  que essa reta forma com o eixo x é definido por:

 Equação 4.45

Na qual  é o ângulo que o momento M forma com o mesmo eixo z. Como Iz e Iy são positivos,  e  têm o mesmo
sinal. Além disso, notamos que  >  quando Iz > Iy. Assim, a linha neutra este sempre localizada entre o vetor
momento fletor M e o eixo principal2 correspondente ao momento mínimo de inércia.

4.5 ENERGIA DE DEFORMAÇÃO

O conceito de energia de deformação já foi exposto no item 3.5. Na flexão pura, o conceito continua o mesmo, no
entanto como a distribuições de tensões na seção transversal não é mais constante seu cálculo se modifica.

Considere a viga da Figura 4.14 submetida ao carregamento q e F ilustrado, adotando uma seção qualquer na
viga a uma distância x da extremidade A, na qual atua um momento fletor M, desprezando-se o efeito da força
cortante, ou seja, somente flexão pura e levando em conta somente tensões normais, substituindo-se a Equação
4.15, tensões normais na flexão, na Equação 3.22, energia de deformação elástica, chega-se a:

2Eixos principais de inércia podem ser obtidos por: ⁄ , sendo Izy o produto de inércia, α o ângulo
que localiza a direção do eixo de máximo momento de inércia em relação ao eixo z e I 1 o máximo momento de
inércia dado por: ( ) √[( ) ] , e por: ⁄ , b o ângulo que localiza a direção
do eixo de mínimo momento de inércia em relação ao eixo z e I 2 o mínimo momento de inércia dado por:
( ) √[( ) ]
4-49
∫ ∫ Equação 4.46

Figura 4.14: Viga simplesmente apoiada.

Fazendo dV = dAdx, em que dA representa um elemento de área da seção transversal e lembrando que M 2/2EI2 é
uma função apenas de x, tem-se:

∫ (∫ ) Equação 4.47

Sabendo-se que a integral dentro dos parênteses representa o momento de inércia I da seção transversal e,
relação a sua linha neutra, pode-se escrever que:

∫ Equação 4.48

Por exemplo, a energia de deformação para a viga da Figura 4.14, para uma solicitação de momento a uma
distância x do ponto A, na região indicada na figura, é dada por:

Equação 4.49

4.6 ESTUDO DA LINHA ELÁSTICA

Na seção 4.1.3 vimos que a curvatura de uma barra fletida pode ser escrita como:

Equação 4.50

Na qual  é o raio de curvatura da barra fletida. Essa equação é válida para qualquer seção transversal de uma
viga submetida a carregamentos transversais, desde que o princípio de Saint-Venant seja aplicável. No entanto,
tanto o momento fletor quanto a curvatura irão variar na barra. Reescrevendo-se a Equação 4.50 com o momento
em função de x, tem-se:

4-50
Equação 4.51

Como exemplo, considere a viga em balanço de comprimento L da Figura 4.15, submetida a uma carga
concentrada P na extremidade livre.

Figura 4.15: Curvatura de uma viga em balanço com carga concentrada.

A variação do momento nessa viga é dada pela expressão:

Equação 4.52

Substituindo-se a Equação 4.52 na Equação 4.51, encontra-se a curvatura da superfície neutra para a viga em
questão:

Equação 4.53

Observa-se que a curvatura varia linearmente com x, desde zero na extremidade (onde o raio de curvatura é
infinito) até –PL/EI na extremidade engastada, na qual ||=EI/PL.

Considere agora a viga biapoiada com um balanço AD da Figura 4.16 que suporta duas forças concentradas. No
diagrama de corpo livre, observa-se que as reações nos apoios são iguais a 1 kN em A e 5 kN em C.

(a) (b)

Figura 4.16: Viga biapoiada com balanço (a) e seu diagrama de corpo livre (b).

Traçando-se o diagrama dos momentos fletores, observa-se que ambos, os momentos fletores e a curvatura da
viga são zero nas extremidades, assim como no ponto E localizado em x = 4 m. Nota-se também que o maior valor
da curvatura (ou menor valor do raio de curvatura) ocorre no apoio C, no qual o momento é máximo.

4-51
(a) (b)

Figura 4.17: O diagrama de momentos fletores (a) e a deformada (b).

Com base nas informações da curvatura, pode-se ter uma boa ideia sobre a forma da deformada da viga. No
entanto, para se obter a deformada em todos os pontos da viga é necessário relacionar-se a deflexão da viga, y,
com a distância x contada de alguma origem fixa. Essa relação será conhecida como equação da linha elástica, e
nada mais é que a equação da curva na qual o eixo da viga é transformado sob determinado carregamento.

4.6.1 EQUAÇÃO DIFERENCIAL DA LINHA ELÁSTICA

A equação diferencial da linha elástica é obtida em função da curvatura de uma superfície, que pode ser escrita
em um ponto Q(x,y) como:

Equação 4.54
[ ( ) ]

Na qual as derivadas no numerador e no denominador são a segunda e a primeira derivada da função y(x),
respectivamente, representada por uma curva. No caso da linha elástica de uma viga, a inclinação definida pela
primeira derivada da função é muito pequena, por estar se considerando pequenos deslocamentos e, portanto,
seu quadrado é desprezível se comparado com a unidade. Pode-se reescrever a Equação 4.54 como:

Equação 4.55

Substituindo-se essa Equação 4.55 na Equação 4.51, tem-se:

Equação 4.56

Que é uma equação diferencial linear de segunda ordem. Essa equação diferencial governa os deslocamentos na
linha elástica e é conhecida como equação diferencial da linha elástica.

O produto EI é conhecido como rigidez à flexão e, caso varie ao longo da viga, como no caso de uma viga com
seção transversal variável (altura ou largura), deve ser expresso também em função de x (no caso o momento de
inércia seria função de x). Caso a rigidez seja constante, por exemplo, seção transversal retangular constante,
pode-se então multiplicar ambos os lados da Equação 4.56 e integrar em x.

4-52
∫ Equação 4.57

Onde C1 é uma constante de integração. Chamando de (x) o ângulo medido em radianos, conforme Figura 4.18,
que a tangente da linha elástica faz com a horizontal em um ponto Q, e lembrando que esse ângulo é muito
pequeno (pela consideração de pequenos deslocamentos), pode-se escrever que:

Equação 4.58

Figura 4.18: Deslocamentos na linha elástica.

Assim, pode-se reescrever a Equação 4.57 em função da rotação.

∫ Equação 4.59

Voltando a Equação 4.57 original e integrando ambos os membros:

∫ ∫ Equação 4.60

Sendo C2 uma segunda constante de integração. Se não fosse pelo fato das constantes indeterminadas até o
momento, a Equação 4.60 definiria a deflexão y da viga em qualquer ponto e a Equação 4.59 definiria de modo
semelhante a inclinação da viga.

As constantes C1 e C2 são determinadas pelas condições de contorno ou, mais precisamente, pelas condições
impostas à viga pelos seus apoios.

(a) (b) (c)

Figura 4.19: Viga biapoiada (a), viga biapoiada com balanço (b) e viga em balanço (c).

No caso de vigas estaticamente determinadas, como por exemplo, viga biapoiada, viga biapoiada com balanço e
viga em balanço, mostradas respectivamente na Figura 4.19, as condições de contorno, considerando-se o
referencial adotado, para os dois primeiros casos são que a deflexão em x = 0 e x = L são zero, ou seja, y = 0.
4-53
Substituindo-se essas duas condições na Equação 4.60, obtêm-se duas equações que fornecerão os valores de C 1 e
C2. Para o último caso, a viga em balanço, as condições de contorno são que o deslocamento e a inclinação ou
rotação em x = 0, dever ser iguais à zero. Substituindo-se essas duas condições nas Equação 4.60 e Equação 4.59
respectivamente, obtêm-se duas equações novamente para o cálculo das constantes C 1 e C2.

4.6.2 ESTUDO DA LINHA ELÁSTICA ATRAVÉS DOS DIAGRAMAS DE MOMENTOS


FLETORES

4-54
5 CISALHAMENTO SIMPLES

Conforme visto anteriormente, sabe-se que um carregamento transversal aplicado em uma viga resulta em
tensões normais e de cisalhamento em qualquer seção transversal dessa viga. As tensões normais tem como
resultante o momento fletor e as tensões de cisalhamento o esforço cortante.

O critério dominante no projeto de uma viga quanto à sua resistência é o máximo valor da tensão normal, ou
seja, do momento fletor. No entanto, as tensões de cisalhamento podem ser importantes, particularmente em
barras de paredes finas e vigas curtas e grossas.

Figura 5.1: Tensões na seção transversal da viga e suas resultantes.

Seis equações podem ser escritas para expressar igualdade das tensões e seus respectivos esforços resultantes.
Três envolvem somente a tensão normal x e já foram discutidas na flexão simples. Dentre as outras três, que
envolvem as tensões de cisalhamento, uma delas expressa que a soma dos momentos das forças de cisalhamento
em relação ao eixo x é zero, e pode ser desconsiderada pela simetria da viga em relação ao plano xy. As outras
duas são as seguintes:

∫ Equação 5.1

∫ Equação 5.2

A primeira equação mostra que devem existir tensões de cisalhamento verticais em uma seção transversal de
uma viga sob carregamento transversal. A segunda indica que a tensão de cisalhamento horizontal média em
qualquer seção é zero (mas isso não significa que xz seja zero em todos os pontos).

Figura 5.2: Elemento infinitesimal da viga extraído no plano vertical de simetria.

Avaliando um elemento infinitesimal da viga, em um ponto no plano vertical de simetria, onde xz é zero,
conforme ilustra a Figura 5.2, observa-se que as tensões x e xy são aplicadas em cada uma das duas faces
perpendiculares ao eixo x. No entanto, de acordo com o Teorema de Cauchy, visto anteriormente, sabe-se que as
5-55
tensões tangenciais sobre dois planos ortogonais são recíprocas, ou seja, também existem tensões de
cisalhamento nas faces horizontais do mesmo elemento. Portanto, também existem tensões de cisalhamento
longitudinais em qualquer elemento submetido a um carregamento transversal. Isso pode ser melhor explicado
considerando-se a viga apresentada na Figura 5.3a.

(a) (b) (c)

Figura 5.3: Viga em balanço constituída de pranchas separadas (a), viga prancha submetida a um carregamento transversal
(b) e viga prancha submetida à flexão pura (c).

Quando um carregamento transversal P é aplicado na extremidade da viga, observa-se que as pranchas deslizam
umas em relação às outras, conforme ilustra a Figura 5.3b. No entanto, se um momento é aplicado à extremidade
da viga, conforme Figura 5.3c, as várias pranchas se flexionarão em arcos de círculos concêntricos e não
deslizarão umas em relação às outras, verificando-se assim o fato de que não existe cisalhamento quando uma
viga está submetida à flexão pura.

Embora o deslizamento não ocorra em vigas de material homogêneo e coesivo como o aço, a tendência de
deslizamento existe, mostrando que ocorrem tensões em planos longitudinais, bem como em planos transversais.
Por exemplo, no caso de vigas de madeira, as quais possuem resistência ao cisalhamento menor entre as fibras, a
falha ocorrerá ao longo do plano horizontal.

5.1 FORÇA CORTANTE NA FACE HORIZONTAL DE UM ELEMENTO DE VIGA

Considere uma viga prismática AB com um plano vertical de simetria que suporta várias forças concentradas e
distribuídas, conforme ilustra a Figura 5.4.

Figura 5.4: Viga com seção transversal prismática (trapezoidal) submetida a diversas cargas.

A uma distância x da extremidade A, foi extraído um elemento CDEF de comprimento x que se estende por sua
largura desde a sua superfície superior até um plano horizontal localizado a uma distância y 1 da linha neutra. As
resultantes atuantes nesse elemento consistem em forças cortante vertical V´C e V´D, uma força constante
horizontal H aplicada na face inferior do elemento, forças elementares horizontais normais C dA e D dA e uma
força w x, conforme ilustra a Figura 5.5. O equilíbrio das forças na direção x é:

∑ ∫ Equação 5.3

5-56
Na qual a integral se estende sobre a área Ae sombreada da seção localizada acima da linha y=y1.

Figura 5.5: Esforços e resultantes no elemento de viga.

Resolvendo a equação para H e usando a equação das tensões de flexão, Equação 4.15 para expressar as tensões
normais em termos dos momentos fletores em C e D, chega-se a:

∫ Equação 5.4

A integral representa o momento estático em relação à linha neutra da parte sombreada de área Ae da seção
transversal da viga que está localizada acima da linha y=y1 e vale ̅ , sendo ̅ a posição do centroide da área
Ae. Utilizando a relação entre momento fletor e esforço cortante (derivada do momento é o cortante), pode-se
reescrever o incremento no momento entre C e D como:

Equação 5.5

Substituindo na Equação 5.4, chega-se a expressão para o esforço cortante horizontal.

̅ Equação 5.6

Lembrando que I é o momento de inércia de toda a seção transversal. Nota-se que o valor do momento estático
̅ , é máximo para y1 = 0, pois os elementos da seção transversal localizados acima da linha neutra contribuem
positivamente para o momento estático, enquanto que os elementos abaixo da linha neutra contribuem
negativamente, em outras palavras, ̅ tem o sinal definido pelo sentido do eixo y.

A força cortante horizontal por unidade de comprimento, representada pela letra f, é obtida dividindo-se ambos
os lados da Equação 5.6 por x:

̅ Equação 5.7

Lembrando que f é sempre calculado em uma posição da seção transversal localizada a uma distância y1 da linha
neutra. A área acima dessa posição (ou abaixo dependendo de y 1) é a área Ae e a posição do seu centroide ̅ . Essa
força horizontal por unidade de comprimento é conhecida como fluxo de cisalhamento.

5.2 DETERMINAÇÃO DAS TENSÕES DE CISALHAMENTO EM UMA VIGA

5-57
Considerando a mesma viga da seção anterior com plano vertical de simetria, submetida a várias forças
concentradas ou distribuídas, um elemento de comprimento x possui em sua face inferior, localizada a uma
distância y1 da linha neutra, uma força cortante horizontal H. A tensão de cisalhamento média med nessa face
do elemento é obtida dividindo-se H pela área A da correspondente face, Figura 5.6. Observando que
A = t x, sendo t a largura do elemento na face em y1, pode-se escrever:

̅ ̅ Equação 5.8

(a) (b)

Figura 5.6: Corte em y1 (a) e distribuições das tensões ao longo da borda D’1D’2 (b).

Observa-se que, como as tensões de cisalhamento xy e yx ocorrem em um plano vertical e horizontal,
respectivamente, as mesmas são iguais e a Equação 5.8 também representará o valor médio de xy ao longo da
linha D’1D’2. Ainda, nas faces superior e inferior da viga, a tensão de cisalhamento xy é igual à zero, pois não há
forcas exercidas nessas faces. A tensão de cisalhamento é maior nos pontos D’1 e D’2 que no ponto D’.

5.3 TENSÕES DE CISALHAMENTO EM VIGAS RETANGULARES

Em casos especiais, a teoria da elasticidade mostra que, para uma viga de seção retangular de largura b e altura
h, e desde que b  h/4, o valor da tensão de cisalhamento nos extremos da superfície neutra na seção transversal,
não excede em mais de 0,8 % o valor médio da tensão calculada ao longo da linha neutra.

Figura 5.7: Viga retangular com a variação da tensão de cisalhamento na seção transversal.
5-58
Em aplicações práticas, pode-se utilizar a tensão de cisalhamento média para se determinar a tensão de
cisalhamento em qualquer ponto da seção transversal de vigas retangulares estreitas.

Observando que a distância da linha neutra até o centroide C’ de A é ̅ ⁄ pode-se escrever:

̅ Equação 5.9

Utilizando o momento de inércia de uma seção transversal retangular calculado no eixo z, ⁄ , e que a
variável t da Equação 5.8 é igual a b na viga retangular, chega-se a:

̅ Equação 5.10

Notando, da Figura 5.7, que a área da seção transversal pode ser escrita como A = 2cb e que c = h/2, a Equação
5.10 é reescrita como:

( ) Equação 5.11

A equação acima mostra que a distribuição de tensões de cisalhamento em uma seção transversal de uma barra
retangular é parabólica, Figura 5.7. O valor máximo da tensão de cisalhamento pode ser obtido fazendo-se y = 0
na Equação 5.11.

Equação 5.12

A relação obtida mostra que o valor máximo da tensão de cisalhamento em uma viga de seção transversal
retangular é 50 % maior que o valor V/A que seria obtido considerando-se uma distribuição de tensão uniforme
por toda a seção transversal.

5.4 TENSÕES DE CISALHAMENTO EM SEÇÕES DE PAREDES FINAS

Seções com paredes finas normalmente são encontradas em vigas metálicas, como perfis I, tubos e cantoneiras.
Esses perfis possuem partes dispostas em diversas direções. Na seção anterior foi derivada a equação para o
cálculo da resultante da tensão xy, vertical na seção transversal. Nessa, será derivada a equação para a outra
componente de tensão da seção transversal, xz. Considerando, por exemplo, um segmento de comprimento x de
uma viga perfil I de mesas largas, Figura 5.8, e seja V a força cortante vertical na seção transversal mostrada.

A força cortante longitudinal H que atua no elemento destacado, e é representativa da componente da tensão de
cisalhamento zx, pode ser obtida pela equação:

̅ Equação 5.13

5-59
Dividindo H pela área A = tx do corte, obtém-se a tensão de cisalhamento média que atua na face do
elemento:

̅ Equação 5.14

A mesma equação obtida para a seção retangular. Note que essa tensão média representa uma aproximação da
tensão zx que ocorre na espessura t da mesa.

Figura 5.8: Viga perfil I.

De acordo com o teorema de Cauchy, zx = xz conclui-se que a componente horizontal da tensão de cisalhamento,
xz em qualquer ponto de uma seção transversal de um perfil com paredes finas pode ser obtida com a Equação
5.14, desde que as forças sejam aplicadas em um plano de simetria da seção transversal. Além disso, a seção
onde será calculada a tensão de cisalhamento deve ser perpendicular à superfície da peça estrutural, e fornecerá
a tensão de cisalhamento da direção tangente a essa superfície (a outra componente pode ser considerada igual a
zero devido a pequena espessura t).

Figura 5.9: Variação das tensões de cisalhamento em perfis de paredes finas.

O fluxo de cisalhamento pode ser obtido pela equação:

̅ Equação 5.15

Avaliando-se a seção transversal submetida a um esforço cortante V, em um ponto onde a espessura seja t, as
5-60
variáveis Iz, t e V são constantes, sendo que a resultante de cisalhamento horizontal é apenas função do momento
estático ̅ .
Dessas condições, observa-se que nos perfis I a tensão de cisalhamento xz varia nas mesas da extremidade para o
centro, e a tensão de cisalhamento xy varia na alma. Já no caso de seções tubulares retangulares, observa-se que
a tensão de cisalhamento xz varia do eixo de simetria vertical y para as extremidades nas regiões superior e
inferior, e a tensão de cisalhamento xy varia em ambos os lados até a linha neutra, Figura 5.9.

Até então, foram deduzidas equações para seções transversais com dois planos de simetria e com a força aplicada
em um desses planos de simetria. Quando a seção transversal não possuir plano de simetria, ou possuir apenas
um plano de simetria, e está sujeita a uma força que não está contida no plano de simetria, caso exista, observa-
se que a barra sofre flexão e torção ao mesmo tempo, exceto quando a força é aplicada em um ponto específico
chamado de centro de cisalhamento. Normalmente esse centro de cisalhamento não coincide com o centroide.

5.5 CENTRO DE CISALHAMENTO

5.5.1 SEÇÃO COM UM PLANO DE SIMETRIA

Seja a seção transversal com apenas um plano de simetria mostrada na Figura 5.10. A formulação derivada até
então, é válida para carregamentos aplicados no plano de simetria da seção transversal e, portanto, as tensões de
cisalhamento da viga com seção e carregamento mostrados na Figura 5.10a podem ser calculadas com a Equação
5.15. No entanto, se a seção for rotacionada 90º, Figura 5.10b, a equação já não pode mais ser aplicada para o
cálculo das tensões de cisalhamento, pois com o carregamento aplicado fora do plano de simetria e na direção do
centroide da seção transversal, a viga sofrera flexão e torção ao mesmo tempo, conforme mostra a Figura 5.10c, e
a distribuição dessas tensões será muito diferente da distribuição definida pela Equação 5.15.

Figura 5.10: Seção transversal U com um plano de simetria com a carga P aplicada nesse plano (a), a carga P aplicada
perpendicular a esse plano (b) e a viga flexo-torcida.

A questão que surge é a seguinte: é possível aplicar a força P de tal forma que a viga da Figura 5.10c, com a seção
transversal mostrada na Figura 5.10b, sofra flexão sem torção? Caso isso seja possível, a tensão de cisalhamento
em qualquer ponto da seção transversal pode ser determinada pela Equação 5.15, e a distribuição das tensões
será determinada de acordo com o ilustrado na Figura 5.11.

Figura 5.11: Tensões de cisalhamento na seção transversal de uma viga com a carga aplicada perpendicular ao plano de
simetria, porém sem sofrer torção (a) e o fluxo de cisalhamento (b).
5-61
A força de cisalhamento que atua em um pequeno elemento de área da seção transversal de área dA = t ds é
dF =  dA, ou dF = f ds, sendo f o fluxo de cisalhamento no ponto considerado. Portanto, a resultante das forças de
cisalhamento que atuam nos elementos da mesa superior do perfil U da Figura 5.11 é uma força horizontal F de
intensidade:

∫ Equação 5.16

Como essa seção U possui simetria no plano da linha neutra, a resultante das forças de cisalhamento que atuam
na mesa inferior é uma força F’ da mesma intensidade de F, porém com sentido oposto. Portanto, a resultante
das tensões de cisalhamento na alma deve ser igual ao esforço cortante da seção V:

∫ Equação 5.17

Note que F e F’ formam um binário F.h, sendo h a distância entre as linhas de centro das mesas. Esse momento
pode ser eliminado movendo-se o esforço cortante V em uma direção perpendicular ao seu eixo de atuação, na
direção de atuação do momento, no caso de momento anti-horário, para a esquerda por uma distância e, conforme
ilustra a Figura 5.12.

Figura 5.12: Resultante das cortantes na seção transversal e eliminação do binário com um deslocamento e de V.

E essa distância e pode ser escrita com a relação entre esse binário e o esforço cortante V:

Equação 5.18

Portanto, se a carga P aplicada à viga perpendicularmente ao seu plano de simetria for aplicada a uma distância
e da linha de centro da alma, a viga sofrerá apenas flexão em um plano vertical sem sofrer torção. O ponto O em
que a linha de ação da carga P (e por consequência do esforço cortante V), deslocada de e, intercepta o eixo de
simetria é chamado de centro de cisalhamento.

No caso o carregamento P ser inclinado em relação à direção vertical, a barra também estará livre de qualquer
torção se a força P for aplicada no centro de cisalhamento da seção, sendo decomposta em P z e Py para o cálculo
das tensões de cisalhamento.

5.5.2 SEÇÃO SEM NENHUM PLANO DE SIMETRIA

5-62
Considerando uma cantoneira submetida a uma força vertical P. Se a barra estiver orientada de tal maneira que
a força P seja perpendicular a um dos eixos principais da seção transversal, de mesma direção do eixo z no caso
da Figura 5.13, o momento M causado pela deflexão da barra estará direcionado ao longo desse eixo z, e a linha
neutra coincidirá com esse eixo. Sendo assim, a Equação 4.15 pode ser aplicada para o cálculo das tensões
normais na seção.

Figura 5.13: Cantoneira orientada com um dos eixos principais orientado na direção do eixo z.

O objetivo agora é determinar onde a força P deverá ser aplicada para que se possa utilizar a Equação 5.15 no
cálculo das tensões de cisalhamento da seção, isto é, aplicar a força P de forma que a barra sofra flexão sem
sofrer torção.

Como anteriormente, suponha que as tensões de cisalhamento na seção sejam calculadas com a Equação 5.15. As
forças de cisalhamento elementares aplicadas na seção podem ser expressas como dF = f ds, sendo f o fluxo de
cisalhamento. A resultante das forças de cisalhamento que atuam na parte AO da seção transversal é uma força
F1 direcionada ao longo de AO, e a resultante na outra aba, OB é uma força F 2 ao longo de OB, conforme ilustra a
Figura 5.14.

Figura 5.14: Resultantes de cisalhamento na cantoneira e a cortante resultante na seção.

Como F1 e F2 passam pelo ponto O, no vértice da cantoneira, conclui-se que o esforço cortante V, também deverá
passar pelo ponto O. Portanto, se a linha de ação da força externa aplicada P passar pelo ponto O a barra não
sofrerá torção. Como qualquer força P, indiferente da sua direção, aplicada ao ponto O, pode ser decomposta em
componentes perpendiculares aos eixos principais, conclui-se que a barra não sofrerá torção se a linha de ação de
P, indiferente de sua direção e sentido, passar pelo ponto O, ou seja, o ponto O é o centro de cisalhamento da
cantoneira.

Outro perfil encontrado frequentemente na prática é o perfil Z ilustrado na Figura 5.15. Embora a seção
transversal de um perfil Z não possua qualquer eixo de simetria, ela possui um centro de simetria O. Isso
significa que, para qualquer ponto da seção transversal em z e y positivos, existe um outro ponto em z e y
negativos que podem ser unidos por uma reta que passará por O. O centro de simetria O além de coincidir com o
5-63
centroide da seção transversal, também coincide com o centro de cisalhamento dessa seção transversal.

Figura 5.15: Perfil Z e seu centro de cisalhamento O.

5.6 DISTORÇÕES POR EFEITO CORTANTE

O efeito cortante na viga também provoca deformações na seção transversal na forma de um empenamento, como
mostrado na Figura 5.16, e a distribuição dessas deformações de cisalhamento não são uniformes ao longo da
seção.

Figura 5.16: Empenamento da seção transversal.

No entanto, pode-se adotar uma aproximação constante para a distorção em um elemento infinitesimal de
comprimento da viga. Essa distorção constante pode ser escrita como:

Equação 5.19

Sendo c a distorção de cisalhamento por efeito cortante, dh deslocamento transversal relativo em um elemento
infinitesimal de barra e dx um comprimento infinitesimal de viga.

Com o objetivo de simplificar o cálculo dos deslocamentos por cisalhamento, dh, muitos autores adotam um fator
 (kappa) para a correção da tensão média em função da definição clássica de tensão de cisalhamento em barra.
Sendo assim, a tensão média pode ser escrita como:

Equação 5.20

5-64
Na qual V é o esforço cortante na seção transversal e A a sua área. Portanto, de acordo com a definição de tensão
média de cisalhamento para a flexão de vigas:

̅ Equação 5.21

Sendo A a área de seção transversal, Iz o momento de inércia em relação ao eixo representativo da superfície
neutra na seção transversal, t a espessura da seção transversal onde se está avaliando a tensão de cisalhamento
e̅ o momento estático. O valor de  é sempre obtido para a máxima tensão cisalhante da viga.

Portanto, a distorção em um elemento infinitesimal de comprimento da viga é reescrita como:

Equação 5.22

Que pode ser integrado no comprimento da viga para se calcular o deslocamento total por esforço cortante.

Entretanto, para vigas com comprimento muito maior do que a altura da seção transversal, os deslocamentos
provocados por efeitos cortantes são desprezadas na presença dos deslocamentos provocadas por efeitos de flexão.

5.7 ENERGIA DE DEFORMAÇÃO DE CISALHAMENTO

Uma expressão da energia de deformação semelhante à da tensão normal também pode ser estabelecida para o
material quando ele é submetido à tensão de cisalhamento. Considere o elemento de volume mostrado na Figura
5.17.

Figura 5.17: Deformação por cisalhamento de um elemento infinitesimal.

Nesse caso, a tensão de cisalhamento provoca a deformação do elemento de tal modo que somente a força de
cisalhamento dF =  dxdy que age sobre a face superior do elemento, desloca-se  dz em relação à face inferior. As
faces verticais só giram, portanto, as forças de cisalhamento nessas faces não realizam nenhum trabalho. Por
consequência, a energia de deformação armazenada no elemento é:

Equação 5.23

ou

Equação 5.24

5-65
Onde dV = dxdydz é o volume do elemento.

Integrando sobre todo o volume do corpo para obter sua energia de deformação acumulada, chega-se a:

∫ Equação 5.25

Como no caso da tensão normal, a energia de deformação por cisalhamento é sempre positiva, uma vez que  e 
estão sempre na mesma direção. Se o material é homogêneo e está no regime elástico linear, então, aplicando a
lei de hooke, , pode-se expressar a energia de deformação em termos da tensão de cisalhamento.

∫ Equação 5.26

Supondo uma viga com um eixo de simetria em torno do eixo y, conforme ilustra a Figura 5.1.

Se a resultante do cisalhamento interno na seção é V, a tensão de cisalhamento que atua sobre o elemento de
volume do material, com comprimento dx e área dA, é dada pela Equação 5.20. Substituindo essa equação na
Equação 5.26, a energia de deformação por cisalhamento torna-se:

̅
∫ ( ̅ ) ∫ [∫ ] Equação 5.27

A integral entre colchetes é calculada na área de seção transversal da viga e, para simplificar o cálculo é definido
o fator de forma .

̅
∫ Equação 5.28

Que substituído na equação anterior leva a:

∫ Equação 5.29

Esse fator de forma  é um numero adimensional único para cada área de seção transversal específica. Por
exemplo, se a viga tiver seção retangular (Figura 5.7) de largura b e altura h, então, t = b, A = b.h, Iz = bh3/12, e:

̅ ( ) Equação 5.30

Substituindo na Equação 5.28:

5-66
( ( ))
∫ Equação 5.31

( )

O fator de forma  para outras seções é determinado de maneira similar. Uma vez obtido, esse valor é substituído
na Equação 5.29 e a energia de deformação por cisalhamento transversal é então calculada.

5-67
6 TORÇÃO SIMPLES

Torção simples ocorre quando a resultante na seção for um binário cujo plano de ação é o da própria seção.
Considerando a barra de seção circular AB submetida em A e B a toques iguais e opostos T e T´, cortada em por
um plano perpendicular em algum ponto arbitrário C, conforme

Figura 6.1: Barra circular submetida a torção.

O diagrama de corpo livre da parte BC da barra deve incluir as forças de cisalhamento elementares dF,
perpendiculares ao raio da barra, que a parte AC aplica em BC quando a barra é torcida, conforme

Figura 6.2: Ações elementares de torção dF.

As condições de equilíbrio para BC requerem que o sistema dessas forças elementares seja equivalente a um
torque interno T, igual e oposto a T´. Chamando de  a distância perpendicular da força dF ao eixo da barra, ou
centro de torção, ponto onde as tensões de cisalhamento da torção são iguais a zero, e supondo que a soma dos
momentos das forças de cisalhamento dF em relação ao eixo da barra seja igual em intensidade ao torque T,
pode-se escrever:

∫ Equação 6.1

Ou, uma vez que dF =  dA, com  sendo a tensão de cisalhamento do elementos de área dA,

∫ Equação 6.2

Embora a relação obtida expresse uma importante condição que deve ser satisfeita pelas tensões de cisalhamento
em qualquer seção transversal, ela não nos informa como essas tensões são distribuídas na seção transversal.

Sabe-se que o torque aplicado à barra produz tensões de cisalhamento  nas faces perpendiculares ao eixo
longitudinal da barra. Entretanto, as condições de equilíbrio requerem a existência de tensões iguais nas faces
formadas pelos dois planos que contêm o eixo da barra. Uma visualização de que essas tensões realmente
ocorrem na torção pode ser feita através da consideração de uma barra formada por tiras separadas e fixadas por
6-68
meio de pinos a discos colocados em suas extremidades, conforme ilustra a Figura 6.3.

Figura 6.3: Barra torcida formada por tiras fixadas nas extremidades.

Se forem pintadas marcas em duas tiras adjacentes, observa-se que as tiras deslizam uma em relação a outra,
quando são aplicados torques iguais e opostos nas extremidades. Embora esse deslizamento não ocorra
realmente em uma barra de material coesivo e homogêneo, a tendência ao deslizamento existirá, mostrando
assim que ocorrem tensões em planos longitudinais bem como em planos perpendiculares ao eixo da barra.

6.1 DEFORMAÇÕES POR TORÇÃO EM UMA BARRA DE SEÇÃO CIRCULAR

Considere uma barra de seção circular conectada a um suporte rígido em uma de suas extremidades, conforme
ilustra a Figura 6.4.

Figura 6.4: Barra circular em balanço torcida.

Se um torque T é aplicado à extremidade livre, a barra sofrerá rotação em torno do seu eixo central, com a
extremidade livre girando de um ângulo  chamado de ângulo de torção. Dentro de determinados valores de T, o
ângulo  é proporcional ao T e ao comprimento L da barra.

Uma importante propriedade de uma barra circular de seção cheia quando submetida a torção é que toda a seção
permanece plana e indeformada. Embora várias seções transversais ao longo da barra sofram rotações de
diferentes valores, cada seção transversal gira como um disco rígido (Figura 6.5a). Isso não é valido para seções
circulares vazadas ou prismáticas. Quando uma barra de seção não circular é submetida a torção, suas várias
seções transversais empenam e não permanecem planas (Figura 6.5b).

6-69
Figura 6.5: Seção circular e não circular torcida.

As deduções apresentadas nesse capítulo são fundamentadas na hipótese de barras com extremidades rígidas.

A determinação das deformações de cisalhamento em uma barra circular de comprimento L e raio c, que foi
torcida de um ângulo  (Figura 6.6a), será feita destacando-se da barra um cilindro de raio  e considerando-se
um pequeno elemento quadrado formado por dois círculos adjacentes e duas linhas retas adjacentes traçadas
antes da aplicação de qualquer torque, conforme Figura 6.6b. Quando a barra é torcida, o elemento assume o
formato de um losango (Figura 6.6c).

Figura 6.6: Barra circular de material homogêneo torcida de .

Como a deformação por cisalhamento  em um elemento é medida pela variação dos ângulos formados pelos lados
daquele elemento e, como os círculos que definem dois dos lados do elemento considerado aqui permanecem
inalterados, a deformação de cisalhamento  deve ser igual ao ângulo entre as linhas AB e A´B´ (com  expresso
em radianos). Das hipóteses simplificadoras, ou seja, para pequenos valores de , pode-se expressar o
comprimento do arco AA´ como AA´ = L. Da seção transversal da extremidade tem-se ainda que AA´ = ,
portanto:

Equação 6.3

Sendo  e  expressos em radianos. A equação nos diz que a deformação por cisalhamento na extremidade de uma
barra circular varia linearmente com a distância do eixo da barra. Portanto, a deformação de cisalhamento
máxima é obtida quando  = c.

Equação 6.4

Eliminando  na Equação 6.3, pode-se expressar a deformação de cisalhamento em função da deformação


máxima de cisalhamento.

6-70
Equação 6.5

6.2 TENSÕES POR TORÇÃO EM BARRAS CIRCULARES

Considerando o material homogêneo e trabalhando em seu regime elástico linear, a relação entre tensão e
deformação de cisalhamento pode ser escrita em função do módulo de elasticidade transversal G.

Equação 6.6

Substituindo-se a Equação 6.6 em ambos os lados da Equação 6.5, chega-se a:

Equação 6.7

A equação mostra que a tensão de cisalhamento na barra circular varia linearmente com a distância  do eixo da
barra, conforme mostra a Figura 6.7a para seções cheias e Figura 6.7b para seções anelares.

Figura 6.7: Tensões de cisalhamento em barras circulares.

No caso da seção anelar, verifica-se que:

Equação 6.8

Lembrando-se que a soma dos momentos das forças elementares aplicadas em qualquer seção transversal da
barra circular deve ser igual à intensidade T do torque, substituindo a Equação 6.7 na Equação 6.2:

∫ ∫ Equação 6.9

6-71
A integral no último membro representa o momento polar de inércia J 3 com relação ao seu centro, portanto:

Equação 6.10

Ou, resolvendo para max:

Equação 6.11

Ou ainda, para uma distância  qualquer do eixo da barra, a tensão é calculada como:

Equação 6.12

6.3 ÂNGULO DE TORÇÃO EM BARRAS CIRCULARES

Sendo a barra em balanço da Figura 6.8, de comprimento L e seção transversal cheia de raio c, solicitada por um
momento torçor T em sua extremidade livre.

Figura 6.8: Barra em balanço solicitada por um torque T.

Sabendo que:

Equação 6.13

Igualando o segundo e o quarto termos da equação, o ângulo de torção é escrito como:

Equação 6.14

3 O momento polar de inércia de um círculo de raio c é ⁄ , e de uma seção anelar, ⁄ .


6-72
Sendo  expresso em radianos. A relação obtida mostra que o ângulo de torção é proporcional ao momento torçor
T aplicado na barra.

No caso da barra AB mostrada na Figura 6.9a devem ser consideradas quatro partes diferentes: AC, CD, DE e
EB.

(a) (b)

Figura 6.9: Barra com diferentes diâmetros (a) e com seção variável (b).

O ângulo de torção total da barra , ou seja, o ângulo em que a extremidade A gira em relação a extremidade B, é
obtido com a soma dos ângulos de torção de cada parte.

∑ Equação 6.15

Sendo Ti, Li, Ji e Gi o momento torçor, o comprimento o momento polar de inércia e o módulo de elasticidade
transversal de cada parte.

No caso de uma barra com seção variável, Figura 6.9b, a Equação 6.14 pode ser aplicada a um disco de espessura
dx. O ângulo de torção da barra é, portanto:

∫ Equação 6.16

Na qual o momento polar de inércia é uma função de x, J(x).

6.4 ELEMENTOS ESTATICAMENTE INDETERMINADOS

Uma barra ou tubo circular submetido a um torque pode ser classificado como estaticamente indeterminado,
quando a equação do momento na condição de equilíbrio aplicada em torno de sua linha neutra, não for o
suficiente para determinar os torques desconhecidos que sobre ele atuam. A Figura 6.10 ilustra essa situação,
sendo a barra metade maciça e metade tubular. Como pode-se observar no diagrama de corpo livre, os torques de
reação de apoio TA e TB são desconhecidos, e é requerido que:

Equação 6.17

Como apenas uma equação de equilíbrio é aplicável e há duas incógnitas, o problema é estaticamente

6-73
indeterminado.

Figura 6.10: Barra estaticamente indeterminada submetida a um torque.

A condição de compatibilidade necessária requer que o ângulo de torção de uma extremidade do eixo em relação à
outra seja nulo, portanto:

Equação 6.18

Utilizando a Equação 6.14 e entendendo que o torque interno no segmento AC, T 1 = TA é positivo, e no segmento
CB, T2 = TB é negativo, a equação de compatibilidade é reescrita como:

Equação 6.19

Resolvendo para o torque TB:

Equação 6.20

E para TA:

Equação 6.21

6.5 TORÇÃO EM ELEMENTOS DE SEÇÃO NÃO CIRCULAR

As fórmulas obtidas para as distribuições de deformação e tensão sob um torque aplicam-se somente a elementos
com uma seção transversal circular. As deduções foram fundamentadas na hipótese de que a seção transversal do
elemento permanecia plana e indeformável; e a validade dessa hipótese depende da axissimetria do elemento,
isto é, depende do fato de que sua aparência permaneça a mesma quando ele é visto de uma posição fixa e girado
sobre seu eixo por um ângulo arbitrário.

6-74
Uma barra quadrada mantém a mesma aparência somente quando e girada em 90° ou 180°. Seguindo a mesma
linha de raciocínio, pode-se mostrar que as diagonais da seção transversal quadrada da barra e as linhas que
unem os pontos médios dos lados daquela seção permanecem retas, conforme ilustra a Figura 6.11.

Figura 6.11: Barra prismática torcida.

No entanto, por causa da falta de axissimetria da barra, qualquer outra linha traçada em sua seção transversal
se deformara quando a barra for girada, e a própria seção transversal empenará ficando fora de seu plano
original.

Portanto, as equações que definem, respectivamente, as distribuições de deformação e tensão elásticas em um


eixo de seção circular, não podem ser utilizadas para elementos de seção não circulares. Por exemplo, seria errado
supor que a tensão de cisalhamento na seção transversal de uma barra quadrada varie linearmente com a
distância a partir do centro da barra e seja, portanto, maior nos cantos da seção transversal. Como será visto a
tensão de cisalhamento na realidade e zero nesses pontos.

Considere um pequeno elemento cúbico localizado em um dos cantos da seção transversal de uma barra quadrada
submetida a um torque com eixos coordenados paralelos às arestas do elemento, conforme ilustra a Figura 6.12.
Como a face do elemento perpendicular ao eixo y é parte da superfície livre da barra, todas as tensões nessa face
devem ser zero, ou seja, yx = 0, yz = 0, zx = 0 e zy = 0. Portanto, para manter o equilíbrio do elemento chega-se a
conclusão de que xy = 0 e xz = 0.

Figura 6.12: Elemento cúbico obtido em um dos cantos de uma barra prismática submetida a torção.

Assim, ambas as componentes da tensão de cisalhamento na face do elemento perpendicular ao centro da barra
são iguais à zero. Portanto, não há tensão de cisalhamento nos cantos da seção transversal da barra.

Figura 6.13: Tensões máximas em uma barra prismática torcida.


6-75
Ao se torcer um modelo de borracha de uma barra de seção transversal quadrada, pode-se verificar facilmente
que não há deformações e, portanto, não há tensões que ocorrem ao longo das arestas da barra, enquanto as
maiores deformações, ou seja, as maiores tensões ocorrem ao longo do centro de cada uma das faces da barra,
conforme mostra a Figura 6.13.

Figura 6.14: Definição dos parâmetros a, b, T e L para cálculo da tensão máxima e ângulo de torção em barras prismáticas.

A determinação das tensões em barras de seção transversal não circular submetidas a um torque está além do
escopo deste texto. No entanto, os resultados obtidos da teoria da elasticidade para barras retas com uma seção
transversal retangular uniforme serão indicados. Chamando de L o comprimento da barra, por a e b,
respectivamente, o lado maior e o lado menor de sua seção transversal, e por T a intensidade dos torques
aplicados à barra, conforme Figura 6.14, vemos que a tensão de cisalhamento máxima ocorre ao longo da linha de
centro da face maior da barra e é igual a:

Equação 6.22

O ângulo de torção, portanto, pode ser expresso como:

Equação 6.23

Os coeficientes c1 e c2 dependem somente da relação a/b e são dados na. Note que as essas equações são válidas
somente dentro do intervalo elástico."

a/b c1 c2 a/b c1 c2
1,0 0,208 0,1406 3,0 0,267 0,263
1,2 0,219 0,1661 4,0 0,282 0,281
1,5 0,231 0,1958 5,0 0,291 0,291
2,0 0,246 0,229 10,0 0,312 0,312
2,5 0,258 0,249  0,333 0,333

Tabela 6.1: Coeficientes para barras retangulares em torção.

6.6 TORÇÃO EM ELEMENTOS DE PAREDES FINAS ABERTAS

A distribuição de tensões de cisalhamento em um elemento não circular pode ser visualizada mais facilmente
utilizando-se a analogia com uma membrana. Uma membrana elástica e homogênea presa a uma moldura rígida
e submetida a uma pressão uniforme em um dos seus lados constitui um problema análogo ao de uma barra
submetida a um torque, isto é, a determinação da deformação da membrana depende da solução da mesma
equação diferencial parcial da determinação das tensões de cisalhamento na barra. Mais especificamente, se Q é

6-76
um ponto da seção transversal da barra e Q’ o ponto correspondente da membrana, conforme a Figura 6.15, a
tensão de cisalhamento  em Q terá a mesma direção da tangente horizontal à membrana em Q’, e sua
intensidade será proporcional à inclinação máxima da membrana em Q’. Além disso, o torque aplicado será
proporcional ao volume entre a membrana e o plano da moldura rígida. No caso da membrana da Figura 6.15,
que está presa a uma moldura retangular, a curva mais inclinada ocorre no ponto médio N’ do lado maior da
moldura. Assim, verificamos que a tensão de cisalhamento máxima em uma barra de seção transversal
retangular ocorrera no ponto médio N do lado maior daquela seção.

Figura 6.15: Esquema da membrana para a determinação das tensões cisalhantes da torção.

A analogia com uma membrana pode ser utilizada com a mesma eficiência para visualizar as tensões de
cisalhamento em qualquer barra reta de seção transversal não circular, uniforme. Particularmente, pode ser
utilizada também em elementos de paredes finas com seções transversais mostradas na Figura 6.16, que estão
submetidas ao mesmo torque. Utilizando a analogia nota-se que, como o mesmo torque é aplicado a cada
elemento, o mesmo volume estará localizado sob cada membrana, e a inclinação máxima será a mesma em cada
caso. Assim, para um elemento de paredes finas de espessura uniforme e de forma arbitrária, a tensão de
cisalhamento máxima é a mesma que para uma barra retangular com um valor muito grande de a/b, e pode ser
determinada pela Equação 6.22 com c1 = 0,333.

Figura 6.16: Dimensões a e b de barras com paredes finas.

6-77
6.7 TORÇÃO EM ELEMENTOS VAZADOS DE PAREDES FINAS

Considere um elemento vazado cilíndrico de seção não circular submetido a um torque, conforme Figura 6.17.
Embora a espessura t da parede possa variar ao longo da seção transversal, será considerado que permanece
pequena comparada com as outras dimensões do componente. Agora, destacamos do componente uma parte da
parede AB limitada por dois planos transversais por uma distância x uma da outra, e por dois planos
longitudinais perpendiculares a parede. Como a parte AB está em equilíbrio, a soma das forças que atuam sobre
ela na direção longitudinal x deve ser zero. Contudo, as únicas forças envolvidas são as forças de cisalhamento FA
e FB que atuam nas extremidades da parte AB. Portanto:

Equação 6.24

Figura 6.17: Barra vazada cilíndrica de seção não circular submetida a um torque.

A força FA pode ser expressa como o produto da tensão de cisalhamento longitudinal, A, na pequena face em A,
pela área tAx daquela face:

Equação 6.25

Embora a tensão de cisalhamento seja independente da coordenada x do ponto considerado, ela pode variar
através da parede; assim, tA representa o valor médio da tensão calculado através da parede. Expressando FB de
maneira similar e substituindo FA e FB na Equação 6.24:

Equação 6.26

Ou,

Equação 6.27

Como A e B foram escolhidos arbitrariamente, a equação expressa que o produto .t da tensão de cisalhamento
longitudinal  e da espessura t da parede e constante através do elemento, e seu valor é conhecido como fluxo de
cisalhamento na parede da barra de seção vazada.

Destacando um pequeno elemento da parte AB da parede, conforme Figura 6.18. Como as faces superior e
inferior desse elemento são partes da superfície livre do componente vazado, as tensões nessas faces são iguais à
zero. As componentes de tensão indicadas nas outras faces por setas tracejadas também são zero, enquanto que,
aquelas representadas por setas solidas, são iguais. Assim, a tensão de cisalhamento em qualquer ponto de uma
seção transversal de um componente vazado é paralela à parede da superfície e seu valor médio calculado através
6-78
da parede satisfaz a condição .t = cte = f.

Figura 6.18: Seção transversal do elemento vazado não circular.

Considerando um pequeno elemento da seção da parede, de comprimento ds, conforme Figura 6.19a. A área do
elemento é dA = t ds, e a intensidade da força de cisalhamento dF que atua no elemento é:

Equação 6.28

Figura 6.19: Localização de um elemento da seção da parede de uma barra vazada não circular (a), .

Um momento dM0 dessa força em relação a um ponto arbitrário O dentro da cavidade do elemento pode ser obtido
multiplicando-se dF pela distância perpendicular p do ponto O até à linha de ação de dF.

Equação 6.29

Contudo, o produto p ds é igual a duas vezes a área dAINT do triângulo de ds a O na Figura 6.19b. Portanto:

Equação 6.30

Como a integral através da seção da parede do membro esquerdo da Equação 6.30 representa a soma dos
momentos de todas as forças de cisalhamento elementares que atuam sobre a seção da parede, e como essa soma
é igual ao torque T aplicado ao componente vazado:

∮ ∮ Equação 6.31

6-79
Sendo constante o fluxo de cisalhamento f:

Equação 6.32

em que AINT é a área limitada pela linha de centro da parede através da seção, conforme ilustra a Figura 6.20.

Figura 6.20: Definição da área interna da seção transversal da barra vazada não circular.

A tensão de cisalhamento em qualquer ponto da parede pode ser expressa em termos do torque T, substituindo-
se f da Equação 6.25 na Equação 6.32 e resolver para .

Equação 6.33

em que t é a espessura da parede no ponto considerado e A INT a área limitada pela linha de centro. Lembramos
que  representa o valor médio da tensão de cisalhamento através da parede. No entanto, para deformações
elásticas, a distribuição de tensões de um lado a outro da parede pode ser considerada uniforme, e a Equação 6.33
dará o valor real da tensão de cisalhamento em um determinado ponto.

O ângulo de torção de uma barra de seção vazada de parede fina pode ser obtido utilizando-se um método da
energia. Supondo uma deformação elástica, a densidade de energia de deformação pode ser escrita como:

Equação 6.34

E, portanto, a energia de deformação é:

∫ ∮ Equação 6.35

O trabalho de um torque é definido como:

6-80
Equação 6.36

Substituindo a Equação 6.33 na Equação 6.34 e o resultando na Equação 6.35, e igualando ao trabalho do torque,
Equação 6.36, sendo que para se ter equilíbrio, a energia de deformação é igual ao trabalho realizado pelo torque,
chega-se a:

∮ Equação 6.37

em que a integral é calculada ao longo da linha de centro da seção da parede.

6-81
7 FLEXÃO COMPOSTA

Ocorre o esforço de flexão composta quando a resultante das tensões normais pode ser decomposta em uma força
normal e momentos fletores. Quando o plano do momento fletor intercepta a seção segundo um dos eixos
principais de inércia, o esforço é denominado de flexão composta normal, caso contrário, é denominado flexão
composta oblíqua.

7.1 FLEXÃO COMPOSTA NORMAL

A flexão composta normal é caracterizada por apresentar apenas uma resultante de momento na seção
transversal, podendo ser tanto em torno do eixo y, quanto em torno do eixo z (Figura 7.1).

Os momentos fletores podem decorrer da excentricidade, com relação ao eixo do elemento, de força atuando na
direção longitudinal, conforme ilustra a Figura 7.1, desde que a carga sempre se encontre sobre um dos eixos
principais de inércia.

(a) (b)

Figura 7.1: Flexão composta normal em y (a) e em z (b).

Essas excentricidades das cargas aplicadas fora do centro de gravidade resultam os momentos ilustrados na
Figura 7.2.

(a) (b)

Figura 7.2: Momentos causados pelas cargas fora do centroide em y (a) e z (b).

Sendo que, esses momentos podem ser escritos em função da carga F.

7-82
Equação 7.1

7.1.1 EQUAÇÃO DAS TENSÕES

A distribuição das tensões normais na seção transversal é equivalente a sobreposição das tensões normais,
causadas pela carga F quando localizada no centroide da seção, com as tensões de flexão decorrentes dos
momentos My ou Mz, dependendo da excentricidade original da carga F. A Figura 7.3 mostra essa sobreposição
para o momento Mz. A sobreposição para My é idêntica, porém com a flexão ocorrendo no sentido do eixo z e a
linha neutra coincidindo com o eixo y.

Figura 7.3: Sobreposição das tensões normais e de flexão em z.

Portanto, a tensão normal na seção transversal pode ser escrita como:

Equação 7.2

Sabendo-se que a tensão normal causada pela carga F no centroide pode ser escrita como F/A, sendo A a área de
seção transversal, e que a tensão de flexão em z pode ser escrita como M z.y/Iz, sendo Iz o momento de inércia em
relação ao eixo z e ey a excentricidade original da carga F. Portanto, a tensão normal total pode ser reescrita
como:

Equação 7.3

Caso a excentricidade da força F ocorra sobre o eixo z, Figura 7.1b, a tensão normal é calculada como:

Equação 7.4

Os sinais são utilizados avaliando-se as tensões de acordo com a posição da carga excêntrica na seção
transversal, ou desde que sejam adotados os sinais dos momentos, anti-horário positivo e horário negativo, e os
sinais da excentricidade ey (ou ez, conforme o caso), de acordo com os eixos coordenados. Nesse último caso o sinal
na Equação 7.3 é negativo, e na Equação 7.4 positivo. Para a tensão normal, o sinal é dado pelo sentido da
tensão, compressão ou tração. No caso desse exemplo, as tensões normais são de tração, caso fossem de
compressão, o sinal na frente de F seria negativo.

7.1.2 POSIÇÃO DA LINHA NEUTRA


7-83
A determinação da posição da linha neutra é feita baseando-se na sua principal propriedade, as tensões normais
são nulas em todo o seu comprimento. Substituindo-se x = 0 na Equação 7.3, chega-se a:

Equação 7.5

Sendo y0 a posição da linha neutra, Mz/F a excentricidade ey e iz2 o quadrado do raio de giração, dado por Iz/A, a
Equação 7.5 pode ser reescrita isolando-se F/A:

( ) Equação 7.6

Portanto, a posição da linha neutra é dada por:

Equação 7.7

Caso a excentricidade normal ocorra no eixo y, Figura 7.1b, a posição da linha neutra é dada por:

Equação 7.8

Sendo o quadrado do raio de giração dado pela relação I y/A. O sinal negativo em ambas as equações é definido
levando-se em conta que o valor de ey ou de ez será considerado com o sinal relativo aos eixos y e z,
respectivamente.

Na prática, a flexão composta ocorre frequentemente em pilares, em vigas protendidas, em muros de arrimo, etc.
O estudo da flexão composta deve ser feito com todas as cargas reduzidas ao centroide da seção transversal.

7.2 FLEXÃO COMPOSTA OBÍQUA

Figura 7.4: Flexão composta oblíqua (a) e momentos causados pelas cargas fora do centroide em y e z ao mesmo tempo (b).

A flexão composta oblíqua é caracterizada por apresentar resultantes de momento na seção transversal em torno

7-84
do eixo y, quanto em torno do eixo z (Figura 7.4). Assim como na flexão composta normal, os momentos fletores
podem decorrer da excentricidade, com relação ao eixo do elemento, de força atuando na direção longitudinal,
conforme ilustra a Figura 7.4b.

Sendo que, da mesma forma que anteriormente, esses momentos podem ser escritos em função da carga F.

Equação 7.9

7.2.1 EQUAÇÃO DAS TENSÕES

A distribuição das tensões normais na seção transversal é equivalente a sobreposição das tensões normais,
causadas pela carga F quando localizada no centroide da seção, com as tensões de flexão decorrentes dos
momentos My e Mz. A Figura 7.5 mostra essa sobreposição para o momento Mz. A sobreposição para My é
idêntica, porém com a flexão ocorrendo no sentido do eixo z e a linha neutra coincidindo com o eixo y.

Figura 7.5: Sobreposição das tensões normais e de flexão em z.

Portanto, a tensão normal na seção transversal pode ser escrita como:

Equação 7.10

Sabendo-se que a tensão normal causada pela carga F no centroide pode ser escrita como F/A, sendo A a área de
seção transversal, a tensão de flexão em z pode ser escrita como M z.y/Iz, sendo Iz o momento de inércia em relação
ao eixo z e ey a excentricidade original da carga F em relação ao eixo z, e a tensão de flexão em y escrita como
My.z/Iy, sendo Iy o momento de inércia em relação ao eixo y e e z a excentricidade original da carga F em relação ao
eixo y. Portanto, a tensão normal total pode ser reescrita como:

Equação 7.11

7.2.2 POSIÇÃO DA LINHA NEUTRA

A determinação da posição da linha neutra é feita baseando-se na sua principal propriedade, as tensões normais
são nulas em todo o seu comprimento. Substituindo-se x = 0 na Equação 7.11, chega-se a:

7-85
Equação 7.12

Sendo y0 a posição da linha neutra, Mz/F a excentricidade ey e iz2 o quadrado do raio de giração em z, dado por
Iz/A, e z0 a posição da linha neutra, My/F a excentricidade ez e iy2 o quadrado do raio de giração em y, dado por
Iy/A, a Equação 7.5 pode ser reescrita isolando-se F/A:

( ) Equação 7.13

A linha neutra pode ser encontrada, se estiver cortando os eixos y e z, através de dois pontos localizados sobre
esses eixos. Para achar o ponto no eixo y, substitui-se z0 = 0 na Equação 7.13, e para achar o ponto no eixo z,
substitui-se y0 = 0 também na Equação 7.13.

Portanto, a posição da linha neutra no eixo y é dada por:

Equação 7.14

Sendo o quadrado do raio de giração em z dado pela relação I z/A. E a posição da linha neutra no eixo z por:

Equação 7.15

Sendo o quadrado do raio de giração em y dado pela relação Iy/A. Da mesma forma que comentado
anteriormente, os valores de ey e ez devem entrar com o sinal nas equações da posição da linha neutra.

7.3 TENSÕES NORMAIS MÁXIMAS

Os pontos de máximas tensões são encontrados através de retas paralelas à linha neutra posicionadas nos
extremos da seção transversal, conforme ilustra a Figura 7.6.

Figura 7.6: Pontos de tensão máxima na seção transversal.

7-86
7.4 NÚCLEO CENTRAL DE INÉRCIA

O núcleo central de inércia é o lugar geométrico da seção transversal tal que, se nele for aplicada uma carga de
compressão F, toda a seção estará comprimida.

A determinação dessa região pode ser feita através da análise das distribuições das tensões na seção transversal.
Por exemplo, seja a flexão composta normal em torno do eixo z, conforme ilustra a Figura 7.7.

Figura 7.7: Distribuição das tensões normais e de flexão em z.

O objetivo é fazer com que a soma das tensões de tração causadas pela flexão com as tensões normais de
compressão seja igual a zero, para que toda a seção transversal fique comprimida, ou seja:

Equação 7.16

Substituindo as equações das tensões:

Equação 7.17

Sendo que o valor de y é a distância da linha neutra até o ponto onde ocorre a maior tensão de tração de flexão
causada pelo momento Mz.

Como o momento Mz surgiu pela excentricidade do carregamento longitudinal F, pode ser escrito como Fe y.
Substituindo na equação e isolando ey:

Equação 7.18

Fazendo a mesma dedução para a componente My, chega-se a:

Equação 7.19

Sendo que o valor de z é a distância da linha neutra até o ponto onde ocorre a maior tensão de tração de flexão
causada pelo momento My.

Se a seção transversal for retangular, os valores de e y e ez são:

7-87
Equação 7.20

E o núcleo central de inércia é ilustrado na Figura 7.8.

Figura 7.8: Núcleo central de inercia seção retangular.

Portanto, qualquer carga que esteja aplicada dentro do losango ilustrado na Figura 7.8, ou seja, dentro do núcleo
central de inércia, somente existirão tensões de compressão na seção transversal.

A determinação do núcleo central de inércia é útil para identificar possíveis regiões sem resistência em materiais
que não resistem a tração, ou ainda, identificar a região onde o carregamento deve ser aplicado em seções
transversais de tais materiais, para que somente exista compressão na seção transversal e a mesma seja
utilizada em sua totalidade na resistência da peça. Um exemplo clássico são sapatas de fundação.

7-88
8 FLAMBAGEM

É o fenômeno que ocorre quando uma carga axial de compressão, atuando em uma barra, ocasiona uma flexão
lateral, na direção do menor raio de giração de sua seção transversal, rompendo a peça com uma carga menor
que a carga de ruptura a compressão simples.

8.1 ESTABILIDADE DE ESTRUTURAS

Seja a coluna AB de comprimento L para suportar uma dada força P (Figura 8.1). A coluna é articulada em
ambas as extremidades e P é uma força axial centrada, ou seja, aplicada no centroide da seção transversal. Se a
área da seção transversal A da coluna é selecionada de maneira que o valor  = P/A da tensão em uma seção
transversal seja menor do que a tensão admissível adm para o material usado, e se a deformação axial  = PL/AE
estiver dentro das especificações dadas, podemos concluir que a coluna foi projetada corretamente.

No entanto, na medida em que o carregamento é aplicado, a coluna pode flambar, ou seja, em vez de permanecer
reta, ela subitamente se curvará de maneira acentuada (Figura 8.1). Portanto, uma coluna que sofreu flambagem
sob a ação de uma força que ela deveria suportar não foi projetada corretamente.

Figura 8.1: Coluna com carga centrada sofrendo flambagem.

A avaliação desse deslocamento lateral será feita considerando-se um modelo simplificado de duas barras rígidas
AC e BC conectadas em C por um pino e uma mola de torção com constante de rigidez K, conforme ilustra a
Figura 8.2.

Se as duas barras e as duas forças P e P’ estiverem perfeitamente alinhadas, o sistema permanecerá na posição
de equilíbrio mostrada na Figura 8.3a enquanto não for perturbado. Caso C seja movimentado ligeiramente para
a direita, de maneira que cada barra forme agora um pequeno ângulo  com a vertical (Figura 8.3b), o sistema
poderá se afastar ainda mais daquela posição. No primeiro caso, dizemos que o sistema é estável e, no segundo,
que ele é instável.

Para determinar se o sistema constituído de duas barras é estável ou instável, consideram-se os esforços que
atuam na barra AC (Figura 8.3c). Esses esforços consistem em dois momentos, um formado por P e P’ de valor
P(L/2)sen , que tende a afastar a barra da linha vertical, e outro momento M exercido pela mola, que tende a
trazer a barra de volta para sua posição vertical original. Como o ângulo de deflexão da mola é 2, o momento M
é M = K(2 ). Se o segundo momento for maior do que o primeiro, o sistema tende a retornar à sua posição
original de equilíbrio, o sistema nesse caso é estável. Se o primeiro momento for maior do que o do segundo, o
sistema tende a se afastar de sua posição de equilíbrio original sendo, nesse caso, instável. O valor da carga para
o qual os dois momentos se equilibram é chamado de carga crítica e é representado por Pcr.

8-89
Figura 8.2: Modelo simplificado para análise da flambagem.

(a) (b) (c)

Figura 8.3: Modelo simplificado de flambagem. Equilíbrio estável (a), equilíbrio instável (b) e esforços internos na articulação
(c).

O valor de Pcr é calculado igualando-se os dois momentos, ou seja:

( ) Equação 8.1

Como está se considerando pequenas deformações, pode-se admitir que sen   , portanto:

Equação 8.2

O sistema é estável para cargas P < Pcr e é instável para cargas P > Pcr.

Supondo que o sistema seja perturbado a tal ponto que saia do equilíbrio estável, ou seja, a carga P aplicada é
maior que a carga crítica Pcr. Nesse caso o sistema se afastará da vertical e, após algumas oscilações, se

8-90
estabilizará em uma nova posição de equilíbrio, conforme ilustra a Figura 8.4a.

(a) (b)

Figura 8.4: Posição de equilíbrio instável (a) e esforços internos na articulação (b).

Considerando o equilíbrio do corpo livre AC (Figura 8.4b), obtem-se uma equação similar à Equação 8.1, mas
envolvendo o ângulo finito , ou seja:

( ) Equação 8.3

ou

Equação 8.4

O valor de  correspondente à posição de equilíbrio representada na Figura 8.4 é obtido resolvendo a Equação 8.4
por tentativa e erro. Mas observado que, para qualquer valor positivo de , tem-se sen  < , a Equação 8.4
resulta em um valor de  diferente de zero somente quando o membro esquerdo da equação for maior do que 1.
Lembrando-se da Equação 8.2, nota-se que esse é o caso de equilíbrio instável, pois foi assumido que P > Pcr.

No entanto, se tivesse sido considerado que P < P cr, a segunda posição de equilíbrio mostrada na Figura 8.4 não
existiria e a única posição de equilíbrio possível seria a correspondente a  = 0. Verifica-se então que, para
P < Pcr, a posição  = 0 deve ser estável.

8.2 FÓRMULA DE EULER

Retornando à coluna AB considerada na seção anterior (Figura 8.1), o objetivo é determinar o valor crítico da
força P, isto é, o valor Pcr da força para o qual a posição mostrada na Figura 8.1 deixa de ser estável. Se P > Pcr, o
menor desalinhamento ou perturbação fará a coluna flambar, isto é, a coluna assumirá outra configuração de
equilíbrio como a mostrada na Figura 8.1. Para tal determinação, deve-se definir as condições sob as quais a
configuração da flambagem é possível.

Como a coluna pode ser considerada uma barra colocada em uma posição vertical e submetida a uma força axial,
chamando de x a distância da extremidade A da coluna até um dado ponto Q de sua linha neutra, e de y a
deflexão desse ponto (Figura 8.5). Consequentemente, o eixo x será vertical e orientado para baixo, e o eixo y
8-91
horizontal e orientado para a direita.

(a) (b)

Figura 8.5: Diagrama de corpo livre da coluna (a) e o diagrama de corpo livre no ponto Q (b).

Considerando o equilíbrio do corpo livre AQ (Figura 8.5b), concluí-se que o momento fletor em Q é M = -Py.
Substituindo esse valor de M na equação diferencial da linha neutra, Equação 4.56, chega-se a:

Equação 8.5

Transpondo o último termo e chamando de p2 = -P/EI:

Equação 8.6

Essa é uma equação diferencial linear homogênea de segunda ordem com coeficientes constantes, que é a mesma
equação diferencial para movimento harmônico simples exceto, naturalmente, que a variável independente agora
é a distância x e não o tempo t. A solução geral da equação é:

Equação 8.7

Os coeficientes C1 e C2 da Equação 8.7 são calculados em função das condições de contorno nas extremidades A e
B da coluna. A primeira condição de contorno, de acordo com os eixos da Equação 8.5a, é em x = 0, y = 0.
Substituindo esses valores na Equação 8.7, chega-se a conclusão de que C2 = 0. A segunda condição de contorno é
em x = L, y = 0. Substituindo na Equação 8.7, obtém-se:

8-92
Equação 8.8

Essa equação é satisfeita se C1 = 0, ou se sen(pL) = 0. Se a primeira dessas condições é satisfeita, a Equação 8.7
se reduz a y = 0 e a coluna estará reta. Para que a segunda condição seja satisfeita, devemos ter pL = n, ou
substituindo p = (-P/EI)1/2 e resolvendo para P:

Equação 8.9

O menor dos valores de P é aquele correspondente a n = 1, portanto:

Equação 8.10

A expressão obtida é conhecida como fórmula de Euler, em homenagem ao matemático suíço Leonhard Euler
(1707-1783).

Se P < Pcr, a condição sen(pL) = 0 não pode ser satisfeita, e a solução dada pela Equação 8.8 não existe. Portanto,
C1 = 0, é a única configuração possível para a coluna, sendo a configuração reta. Assim, para P < Pcr, a
configuração reta da é estável.

No caso de uma coluna com seção transversal circular ou quadrada, o momento de inércia I da seção transversal
em relação a qualquer eixo que passa pelo centroide será o mesmo, e a coluna poderá então flambar em qualquer
um dos planos, exceto pelas restrições que poderão ser impostas pelos vínculos nas extremidades. Para outras
formas de seção transversal, a força crítica deve ser calculada fazendo I = I mín na Equação 8.10, Se ocorrer a
flambagem, ela será em um plano perpendicular ao eixo principal de inércia correspondente."

O valor da tensão correspondente à força crítica é chamado de tensão crítica e é representado por cr. Fazendo
I = Ai2, em que A é a área da seção transversal e i o seu raio de giração:

Equação 8.11

ou

Equação 8.12

A relação L/i é chamada de índice de esbeltez da coluna. Claramente o valor mínimo do raio de giração i deverá
ser usado no cálculo do índice de esbeltez e da tensão crítica em uma coluna.

8.3 FÓRMULA DE EULER PARA DIFERENTES APOIOS

8.3.1 COLUNA ENGASTADA NA BASE E LIVRE NO TOPO

No caso de uma coluna com uma extremidade livre A suportando uma força P e uma extremidade engastada B
8-93
(Figura 8.6a), observamos que a coluna se comportará como a metade superior de uma coluna biarticulada
(Figura 8.6b). A força crítica para a coluna da Figura 8.6a é então a mesma da coluna biarticulada da Figura 8.6b
e pode ser obtida por meio da fórmula de Euler, usando um comprimento de coluna igual a duas vezes o
comprimento L real da coluna dada.

(a) (b)

Figura 8.6: Flambagem de um pilar.

Chama-se o comprimento de flambagem Lfl da coluna da Figura 8.6 é igual a 2L. Substituindo na fórmula de
Euler:

Equação 8.13

A tensão crítica é encontrada de uma maneira análoga por meio da equação:

Equação 8.14

A relação Lfl/i é chamada de índice de esbeltez da coluna e, no caso considerado aqui, é igual a 2L/i.

8.3.2 COLUNA ENGASTADA NA BASE E NO TOPO

Considerando em seguida uma coluna com duas extremidades engastadas A e B suportando uma força P (Figura
8.7a). A simetria dos vínculos e do carregamento em relação a um eixo horizontal que passa pelo ponto médio C
requer que a força cortante em C e as componentes horizontais das reações em A e B sejam zero (Figura 8.7b).
Conclui-se que as restrições impostas na metade superior AC da coluna pelo engastamento em A e pela metade
inferior CB são idênticas (Figura 8.7c). A parte AC deve, portanto ser simétrica em relação ao seu ponto médio D,
e esse ponto deve ser um ponto de inflexão, em que o momento fletor é zero.

8-94
(a) (b) (c)

Figura 8.7: Coluna biengastada (a), diagrama de corpo livre (b) e esforços internos em C (c).

(a) (b)

Figura 8.8: Comportamento da coluna biengastada na região central.

Um raciocínio similar mostra que o momento fletor no ponto médio E da metade inferior da coluna também deve
ser zero (Figura 8.8a). Como o momento fletor nas extremidades de uma coluna biarticulada é zero, conclui-se
que a parte DE da coluna da Figura 8.8a deve se comportar como uma coluna biarticulada (Figura 8.8b). Conclui-
se então que o comprimento de flambagem de uma coluna com duas extremidades engastadas é L fl = L/2.

8.3.3 COLUNA COM UMA EXTREMIDADE ENGASTADA E UMA ARTICULADA

No caso de uma coluna com uma extremidade engastada B e uma extremidade articulada A suportando uma
força P (Figura 8.9a), devemos escrever e resolver a equação diferencial da linha neutra para determinar o
comprimento de flambagem da coluna. No diagrama de corpo livre da coluna inteira (Figura 8.9b), observamos
em primeiro lugar que uma força transversal V atua na extremidade A, além da força axial P, e que V é
8-95
estaticamente indeterminada.

(a) (b) (c)

Figura 8.9: Coluna engastada e articulada (a), seu diagrama de corpo livre (b) e os esforços internos em Q (c).

Considerando agora o diagrama de corpo livre de uma parte AQ da coluna (Figura 8.9c), conclui-se que o
momento fletor em Q é M = -Py -Vx.

Substituindo esse valor na equação diferencial da linha neutra:

Equação 8.15

Transpondo o termo em y e fazendo:

Equação 8.16

Escreve-se:

Equação 8.17

Essa é uma equação diferencial linear, não homogênea de segunda ordem com coeficientes constantes.
Observando que os membros esquerdos das Equação 8.6 e Equação 8.18 são idênticos, conclui-se que a solução
geral da Equação 8.18 pode ser obtida adicionando uma solução particular da Equação 8.18 à solução Equação 8.7
obtida da Equação 8.6. Pode-se facilmente ver que uma solução particular como essa é:

8-96
Equação 8.18

Ou, usando a Equação 8.16:

Equação 8.19

Adicionando as soluções da Equação 8.6 e da Equação 8.19, escreve-se a solução geral como:

Equação 8.20

As constantes C1 e C2 e o valor da força transversal desconhecida V são obtidos com base nas condições de
contorno indicadas na Equação 8.9b. Fazendo primeiro x = 0, y = 0 na Equação 8.20, conclui-se que C2 = 0.
Fazendo na sequência, x = L, y = 0, chega-se a:

Equação 8.21

A terceira condição de contorno é que a inclinação da linha neutra na extremidade B é igual a zero, portanto
fazendo x = L e dy/dx = 0:

Equação 8.22

Então:

Equação 8.23

Dividindo a Equação 8.21 pela Equação 8.23, membro a membro, conclui-se que uma solução na forma Equação
8.20 só pode existir se:

Equação 8.24

Resolvendo-se essa equação por tentativa e erro, chega-se que o menor valor de pL que a satisfaz é:

Equação 8.25

Usando a Equação 8.16 e substituindo o valor de p na Equação 8.25, e resolvendo para P, obtem-se o valor da
força crítica para a coluna da Figura 8.9a:
8-97
Equação 8.26

O comprimento de flambagem da coluna é obtido substituindo-se L = Lfl na Equação 8.10 e igualando a Equação
8.26:

Equação 8.27

Resolvendo para Lfl, conclui-se que o comprimento de flambagem de uma coluna com uma extremidade
engastada e outra articulada é Lfl = 0,699 L  0,7 L.

Os comprimentos de flambagem referentes a várias condições de apoios são mostrados na Figura 8.10:
Comprimento de flambagem para colunas com diversas condições de apoio.

Uma extremidade engastada e Biarticulada Uma extremidade Biengastada


outra livre engastada e outra
articulada

Figura 8.10: Comprimento de flambagem para colunas com diversas condições de apoio.

8.4 FÓRMULA DA SECANTE

Observando que a força P aplicada a uma coluna nunca é perfeitamente centrada, e chamando de e a
excentricidade da força, isto é, a distância entre a linha de ação de P e o eixo da coluna (Figura 8.11a), substitui-
se a força excêntrica dada por uma força centrada P e um momento MA = Pe (Figura 8.11b). Não importa o
tamanho da força P e a excentricidade e, o momento MA resultante sempre provocará alguma flexão na coluna
(Figura 8.11c).

À medida que aumenta a força excêntrica, tanto o momento MA quanto a força axial P também aumentam, e
ambos farão a coluna flexionar ainda mais.

Visto dessa maneira, o problema de flambagem não é uma questão de determinar por quanto tempo a coluna
pode permanecer reta e estável sob uma força cada vez maior, mas sim quanto se pode permitir que a coluna
flexionasse sob uma força cada vez maior, sem que a tensão admissível seja ultrapassada e sem que a deflexão

8-98
ymax se torne excessiva.

(a) (b) (c) (d)

Figura 8.11: Coluna com carga axial excêntrica (a), momento relativo a excentricidade da carga P (b), deflexão causada pelo
momento MA (c) e esforços internos no ponto Q (d).

Primeiro escreve-se e resolve-se a equação diferencial da linha neutra, adotando o mesmo procedimento usado
anteriormente. Com o diagrama de corpo livre de uma parte AQ da coluna, de acordo com os eixos de
coordenadas mostrados na Figura 8.11d, conclui-se que o momento fletor em Q é:

Equação 8.28

Substituindo M na equação diferencial da linha neutra:

Equação 8.29

Transpondo o termo em y e utilizando a Equação 8.16:

Equação 8.30

A obtenção da solução dessa equação segue o mesmo procedimento usado para a Equação 8.17 e, portanto, a
solução é dada por:

Equação 8.31

Em que o último termo é a solução particular da equação. As constantes são obtidas com as condições de
contorno. A primeira é x = 0, y = 0, que resulta em:

8-99
Equação 8.32

A segunda é x = L, y = 0, que leva a:

[ ] Equação 8.33

Sabendo-se que:

( ) ( ) Equação 8.34

( ) Equação 8.35

Substituindo na Equação 8.33:

( ) Equação 8.36

Substituindo os valores encontrados de C1 e C2 na Equação 8.31, chega-se a equação da linha neutra:

[ ( ) ] Equação 8.37

O valor da deflexão máxima é obtido fazendo-se x = L/2 na Equação 8.37 e utilizando-se a Equação 8.16.

[ ( √ ) ] Equação 8.38

Observa-se na expressão acima que ymax se torna infinito quando:

√ Equação 8.39

Embora fisicamente a deformação não se torna infinita, torna-se demasiadamente grande e portanto inaceitável.
Portanto, não se pode deixar que o valor da carga P atinja o valor de Pcr, obtido resolvendo-se a Equação 8.39
para P.
8-100
Equação 8.40

Que é o mesmo valor obtido anteriormente para uma coluna com uma força centrada. Resolvendo Equação 8.40
para EI e substituindo na Equação 8.38, pode-se escrever uma equação alternativa para ymax, em função de Pcr.

[ ( √ ) ] Equação 8.41

A tensão máxima max ocorre na seção da coluna em que o momento fletor é máximo, isto é, na seção transversal
onde se localiza o ponto médio C, e pode ser obtida somando-se as tensões normais provocadas, respectivamente,
pela força axial e pelo momento fletor que atuam naquela seção.

Equação 8.42

Figura 8.12: Diagrama de corpo livre da coluna com os esforços no ponto de momento máximo.

Com base no diagrama de corpo livre da parte AC, conclui-se que:

Equação 8.43

Substituindo na Equação 8.42 e recordando que o momento de inércia pode ser escrito em função do raio de
giração, I = Ai2:

[ ] Equação 8.44

E substituindo ymax pelo valor obtido na Equação 8.41.

8-101
[ ( √ )] Equação 8.45

Lembrando que c é a distância da linha neutra até o ponto de maior tensão de flexão na seção transversal. A
equação obtida pode ser usada com qualquer condição de contorno, desde que seja usado o valor apropriado para
a força crítica, seção 8.3.

Nota-se que, como max não varia linearmente com a força P, o principio da superposição não se aplica na
determinação da tensão provocada pela aplicação simultânea de várias forças; deve ser calculada, inicialmente, a
força resultante, e depois pode ser usada a Equação 8.45 para determinar a tensão correspondente. Pela mesma
razão, qualquer coeficiente de segurança dado deve ser aplicado à força, e não à tensão.

Substituindo-se o valor de Pcr dado por Equação 8.40 com L = Lfl e resolvendo para a relação P/A na frente dos
colchetes na Equação 8.45, escreve-se:

Equação 8.46
( √ )

Essa equação é chamada de fórmula da secante, ela define a força por unidade de área, P/A, que provoca
determinada tensão máxima max em uma coluna com determinado índice de esbeltez, Lfl/i, para um dado valor
da relação ec/i2, em que e é a excentricidade da força aplicada. Nota-se que, como P/A aparece em ambos os
membros, é necessário resolver a equação por tentativa e erro para obter o valor de P/A correspondente a uma
dada coluna e condição de carregamento.

A Equação 8.46 foi usada para desenhar as curvas mostradas na Figura 8.13 para uma coluna de aço,
considerando os valores de E e E (tensão de escoamento) mostrados na figura. Essas curvas permitem
determinar a força por unidade de área P/A, que faz a coluna escoar para valores dados das relações Lfl/i e ec/i2."

Figura 8.13: Forca por unidade de área, P/A, provocando escoamento na coluna

8-102
Observa-se que para pequenos valores de Lfl/i, a secante é aproximadamente igual a 1 na Equação 8.46, e a
relação P/A pode ser considerada igual a?

Equação 8.47

8-103
9 ESTADO PLANO DE TENSÕES E DEFORMAÇÕES

As tensões e deformações em um ponto, no interior de um corpo no espaço tridimensional referenciado por um


sistema cartesiano de coordenadas, consistem de três componentes normais e três componentes tangenciais,
caracterizando um estado triplo de tensões e deformações. No entanto, dependendo da geometria do corpo e do
modo como é carregado, é possível simplificar as componentes de tensão e deformação, reduzindo o seu número.
Essas simplificações são conhecidas como estado plano de tensões e estado plano de deformações.

9.1 ESTADO PLANO DE TENSÕES

Se um corpo possui uma espessura pequena e está submetido apenas a forças aplicadas na direção perpendicular
a essa espessura, as tensões, z, zx, zy, são nulas em ambas as faces e no seu interior. Portanto, o estado de
tensões desse corpo pode ser descrito pelo estado de tensões no plano médio a sua espessura quando submetido a
um carregamento contido desse mesmo plano. Essa simplificação é conhecida como estado plano de tensões.

(a) (b)

Figura 9.1: Corpo que pode ser simplificado pelo estado plano de tensões (a), estado de tensões no interior do corpo (b).

O estado plano de tensões é definido pelas componentes de tensão x, y, xy, e pelas componentes de deformação
x, y, z, xy. Embora a tensão z, perpendicular ao plano médio do corpo, seja nula, a deformação não é. Essas
componentes de deformação e tensão se relacionam através da lei de Hooke para o estado plano de tensões.

{ } { } Equação 9.1

[ ]

{ } [ ]{ } Equação 9.2

9-104
9.1.1 TRANSFORMAÇÃO DO ESTADO PLANO DE TENSÕES

Seja um ponto Q no interior de um corpo que pode ser simplificado e analisado pelo estado plano de tensões,
referenciado a um sistema de coordenadas cartesianas xyz com origem em Q, conforme ilustra a Figura 9.2a.

(a) (b)

Figura 9.2: Estado plano de tensões do ponto Q no referencial xyz (a) e no referencial x’y’z’ (b).

Agora, considere que esse mesmo ponto Q esteja referenciado por um novo sistema de coordenadas cartesianas
x’y’z’, também com origem em Q, com os eixos z e z’ coincidentes, mas com uma rotação de  entre os eixos x, x’ e
y, y’, conforme ilustra a Figura 9.2b. As componentes de tensões nesse novo referencial, x’, y’ e x’y’, podem ser
calculadas em função das componentes decompostas em x’, y’ e z’ das tensões x, y, xy, em função do ângulo .

A determinação das componentes da tensão normal x’ e da tensão de cisalhamento x’y’ que atuam na face
perpendicular ao eixo x’, considera-se um elemento prismático com faces respectivamente perpendiculares aos
eixos x, y e x’ (Figura 9.3a). Observamos que, se a área da face oblíqua é representada por A, as áreas das faces
vertical e horizontal são, respectivamente, iguais a A cos  e A sen . Conclui-se que as forças resultantes que
atuam nas três faces são aquelas mostradas na Figura 9.3b, que devem estar em equilíbrio.

(a) (b)

Figura 9.3: Plano para decomposição das componentes de tensão x’ e x’y’ (a) e componentes resultantes (b).

Fazendo o equilíbrio das forças nas direções x’ e y’ e resolvendo-se para x’ e x’y’ chega-se a:

9-105

Equação 9.3


Equação 9.4

Utilizando-se das seguintes relações trigonométricas:

Equação 9.5

Equação 9.6

Pode-se reescrever as Equação 9.3e a Equação 9.4, na forma:

Equação 9.7

Equação 9.8

A expressão para a tensão normal y’ é obtida substituindo-se  na Equação 9.7 por +90º, que é ângulo que o
eixo y’ forma com o eixo x. Como cos(2+180º)=-cos2 e sen(2+180º)=-sen2, chega-se a:

Equação 9.9

Somando-se as Equação 9.7 e Equação 9.9 membro a membro, chega-se a:

Equação 9.10

Ou seja, no caso do estado plano de tensões, a soma das tensões normais que atuam em um elemento do corpo é
independente da orientação desse elemento.

9.1.2 TENSÕES PRINCIPAIS E TENSÃO DE CISALHAMENTO MÁXIMA

As Equação 9.7 e Equação 9.8 obtidas na seção anterior são as equações paramétricas de uma circunferência. Isso
significa que, se for escolhido um sistema de eixos cartesianos ortogonais e representar um ponto M de abscissa
x’ e ordenada x’y’ para um dado valor do parâmetro , todos os pontos assim obtidos pertencerão a uma
9-106
circunferência. Para estabelecer essa propriedade eliminar  dessas equações, primeiro passa-se (x + y)/2 para o
primeiro membro da Equação 9.7 e elevando ao quadrado ambos os membros da equação, depois elevando ao
quadrado ambos os membros da Equação 9.8, somando membro a membro as duas equações obtidas dessa forma
e por fim, definindo:

√( ) Equação 9.11

Pode-se escrever a equação:

Equação 9.12

que é a equação de uma circunferência de raio R centrado no ponto C de abscissa med e ordenada 0 (Figura 9.4a).

(a) (b)

Figura 9.4: Circunferência do estado plano de tensões (a) e circunferência definida para o ponto N (b).

Pode-se observar que, em virtude da simetria da circunferência em relação ao eixo horizontal, o mesmo resultado
teria sido obtido se, em vez de representar o ponto M, tivesse sido representado um ponto N de abscissa x’ e
ordenada -x’y’ (Figura 9.4b).

Os dois pontos A e B em que a circunferência da Figura 9.4a intercepta o eixo horizontal são de especial
interesse. O ponto A corresponde ao valor máximo da tensão normal x’, enquanto o ponto B corresponde a seu
valor mínimo. Além disso, ambos os pontos correspondem a um valor zero de x’y’. Assim, os valores de p do
ângulo  que correspondem aos pontos A e B podem ser obtidos fazendo-se x’y’=0 na Equação 9.8, ou seja:

Equação 9.13

Essa equação define dois valores de 2p que estão defasados de 180º e, portanto, dois valores de p defasados de
9-107
90º, sendo que qualquer um desses dois valores pode ser usado para definir a orientação do elemento
correspondente, conforme mostra a Figura 9.5.

Figura 9.5: Elemento orientado nas direções principais.

Os planos que contêm as faces do elemento obtido dessa maneira são chamados de planos principais de tensão no
ponto Q, e os valores definidos pelas tensões correspondentes max e min das tensões normais que atuam nesses
planos são chamados de tensões principais em Q. Da Figura 9.5 está claro que nenhuma tensão de cisalhamento
atua nos planos principais, ou seja, da Figura 9.4a pode-se escrever que:

Equação 9.14

Substituindo med e R da Equação 9.11:

√( ) Equação 9.15

Observando-se novamente a Figura 9.4a nota-se que os pontos D e E localizados no diâmetro vertical da
circunferência correspondem ao maior valor numérico da tensão de cisalhamento x’y’. Como a abscissa dos pontos
D e E é med = (x + y)/2, os valores de s do parâmetro  correspondentes a esses pontos são obtidos fazendo-se
x’ = (x + y)/2 na Equação 9.7. Conclui-se que a soma dos dois últimos termos naquela equação deve ser zero e,
portanto, chega-se a:

Equação 9.16

Essa equação define dois valores 2s defasados em 180° e, portanto, dois valores s defasados em 90°. Qualquer
um desses valores pode ser utilizado para determinar a orientação do elemento correspondente à tensão de
cisalhamento máxima (Figura 9.6). Observando na Figura 9.4a que o valor máximo da tensão de cisalhamento é
igual ao raio R da circunferência, e lembrando a segunda Equação 9.11, chega-se a:

9-108
√( ) Equação 9.17

O valor dado por essa equação é conhecido como tensão de cisalhamento máxima para o estado plano de tensão.

Figura 9.6: Elemento orientado de acordo com a tensão de cisalhamento máxima.

Conforme observado anteriormente, a tensão normal correspondente a tensão máxima de cisalhamento é:

Equação 9.18

Comparando as Equação 9.13 e Equação 9.16, nota-se que tg 2s é o inverso negativo de tg 2p. Isso significa que
os ângulos 2s e 2p estão defasados em 90° e, portanto, que os ângulos s e p estão defasados em 45°. Concluí-se
então que os planos de tensão de cisalhamento máxima estão defasados em 45° dos planos principais.

A circunferência usada para deduzir algumas das fórmulas básicas relacionadas com a transformação de tensões
no estado plano de tensão foi introduzida inicialmente pelo engenheiro alemão Otto Mohr (1835 -1918) e é
conhecida como círculo de Mohr para o estado plano de tensão.

9.2 ESTADO PLANO DE DEFORMAÇÕES

Se um corpo é carregado mediante forças perpendiculares a seu eixo longitudinal, que não variam nessa direção
e estão em equilíbrio, pode-se supor que todas as seções transversais do corpo estão em iguais condições. Em
princípio, pode-se imaginar que as seções extremas se encontram entre planos rígidos fixos (Figura 9.7a), de
forma que qualquer deslocamento na direção axial não é possível. Deste modo, as deformações na direção axial
são nulas, resultando apenas as deformações x, y, xy, que definem o estado plano de deformações.

Essa situação também é possível em uma barra de comprimento infinito com seus lados submetidos a forcas
uniformemente distribuídas, pois, em razão da simetria, os elementos localizados em um dado plano transversal
não podem se mover para fora desse plano. Esse modelo idealizado mostra que, no caso real de uma barra longa
submetida a forças transversais uniformemente distribuídas (Figura 9.7b), existe um estado plano de deformação
em qualquer seção transversal desde que essa seção não esteja localizada muito perto de qualquer uma das
extremidades da barra. O estado plano de deformações é definido pelas componentes de tensão x, y, z, xy, e

9-109
pelas componentes de deformação x, y, xy. Embora a deformação z, perpendicular ao plano médio do corpo, seja
nula, a tensão não é.

Figura 9.7: Corpo que pode ser simplificado pelo estado plano de deformações (a), barra longa submetida a forças laterais (b).

Essas componentes de deformação e tensão se relacionam através da lei de Hooke para o estado plano de tensões.

{ } { } Equação 9.19

[ ]

{ } { } Equação 9.20

[ ]

9.2.1 TRANSFORMAÇÃO DO ESTADO PLANO DE DEFORMAÇÕES

(a) (b)

Figura 9.8: Deformação de um quadrado circunscrito a um ponto Q de um corpo submetido ao estado plano de deformações
(a), deformações no quadrado do ponto Q no referencial x’y’ (b).

Supondo que exista um estado plano de deformação no ponto Q (com z = zx = zy = 0), e que seja definido pelas
componentes de deformação x, y e xy associadas com os eixos x e y, pode-se separar um elemento quadrado de
centro Q, com lados de comprimento s respectivamente paralelos aos eixos x e y, que é deformado
transformando-se em um paralelogramo com lados de comprimento respectivamente iguais a s(1 + x) e s (1 +
9-110
y), formando ângulos de /2 + xy entre si (Figura 9.8). O objetivo é determinar em termos de x, y, xy e  as
componentes de tensão x’, y’ e x’y’ associadas com o sistema de referencia x’y’ obtido pela rotação dos eixos x e y
de um ângulo . Como mostra a Figura 9.8b, essas novas componentes de deformação definem o paralelogramo no
qual um quadrado com lados respectivamente paralelos aos eixos x’ e y’ é deformado.

Primeiro deduz-se uma expressão para a deformação específica normal () ao longo de uma linha AB que forma
um ângulo arbitrário  com o eixo x. Para fazer isso, considera-se o triângulo retângulo ABC que tem o lado AB
como hipotenusa (Figura 9.9a), e o triângulo oblíquo A’B’C’ no qual o triângulo ABC é deformado (Figura 9.9b).

(a) (b)

Figura 9.9: Linha AB formando um ângulo qualquer com o eixo x e um triângulo (a) e componentes do triângulo com
deformação de cisalhamento.

Chamando de s o comprimento de AB, expressamos o comprimento de A’B’ como s [1 + ()]. Analogamente,


chamando de x e y os comprimentos dos lados AC e CB, expressamos os comprimentos de A’C’ e C’B’ como x
(1 + x) e y (1 + y), respectivamente. Lembrando-se da Figura 9.8 que o ângulo reto em C na Figura 9.8a se
transforma em um ângulo igual a /2 + xy na Figura 9.8b, e aplicando a lei dos cossenos ao triângulo A’B’C’,
sabendo que x = s cos , y = s sen  e que xy é muito pequeno, lembrando-se da relação cos2 + sen2 = 1 e
desprezando os termos de segunda ordem, chega-se a:

Equação 9.21

A Equação 9.21 permite determinar a deformação específica normal () em qualquer direção AB, em termos das
componentes de deformação x, y, xy e do ângulo  que AB forma com o eixo x. Verificamos que, para  = 0, a
Equação 9.21 fornece (0) = x e que, para  = 90°, ela fornece (90°) = y. No entanto, fazendo  = 45° na Equação
9.21, obtemos a deformação normal na direção da bissetriz OB do ângulo formado pelos eixos x e y. Chamando
essa deformação de OB, pode-se escrever.

( ) Equação 9.22

Resolvendo essa equação para xy:

( ) Equação 9.23

Essa relação permite expressar a deformação de cisalhamento associada a um dado par de eixos retangulares em
termos das deformações normais medidas ao longo desses eixos e de sua bissetriz. Sendo o objetivo expressar as
componentes de deformação associadas ao sistema de referencia x’y’ da Figura 9.8b em termos do ângulo  e das
componentes de deformação x, y e xy associadas aos eixos x e y, observa-se que a deformação normal x’ ao longo

9-111
do eixo x’ é dada pela Equação 9.21. Usando as relações trigonométricas das Equação 9.5 e Equação 9.6,
escrevemos essa equação na forma:

 Equação 9.24

Substituindo  por  + 90°, obtemos a deformação normal ao longo do eixo y’. Como cos (2 + 180°) = -cos 2 e sen
(2 + 180°) = -sen 2:

 Equação 9.25

Somando membro a membro as equações acima, chega-se a:

Equação 9.26

Substituindo agora  por  = 45° na Equação 9.24, obtemos uma expressão para a deformação normal ao longo da
bissetriz OB’ do ângulo formado pelos eixos x’ e y’. Como cos (2 = 90°) = -sen 2 e sen (2 + 90°) = cos 2u,
escrevendo a Equação 9.23 em relação aos eixos x’ e y’, escreve-se a deformação de cisalhamento x’y’ nos termos
das deformações normais medidas ao longo dos eixos x’ e y’ e da bissetriz OB’, e por fim, chega-se a:

Equação 9.27

9.2.2 DEFORMAÇÕES PRINCIPAIS E TENSÃO DE CISALHAMENTO MÁXIMA

Como as equações para a transformação do estado plano de deformação têm a mesma forma das equações para
transformação do estado plano de tensão, o uso do círculo de Mohr pode ser retomado para a análise do estado
plano de deformação.

Definindo as variáveis do círculo como:

√( ) ( ) Equação 9.28

Os pontos A e B em que o círculo de Mohr intercepta o eixo horizontal, que correspondem às deformações
principais max e min são:

Equação 9.29

Assim, os valores de p do ângulo  que correspondem aos pontos A e B podem ser obtidos fazendo-se x’y’=0 na
Equação 9.27, ou seja:

9-112
Equação 9.30

Os eixos correspondentes a e b na Figura 9.10b são os eixos principais de deformação. O ângulo p, que define a
direção do eixo principal Oa na Figura 9.10b correspondendo ao ponto A na Figura 9.10a, é igual à metade do
ângulo XCA medido no círculo de Mohr, e a rotação que faz Ox coincidir com Oa tem o mesmo sentido da rotação
que faz o diâmetro XY do círculo de Mohr coincidir com o diâmetro AB.

(a) (b)

Figura 9.10: Círculo de Mohr para o estado plano de deformações (a), e as deformações principais (b)

A deformação de cisalhamento máxima no estado plano da deformação é definida pelos pontos D e E na Fig.
7.65a. Ela é igual ao diâmetro do círculo de Mohr, portanto:

√( ) Equação 9.31

9-113
10 CRITÉRIOS DE RUPTURA

A avaliação das tensões e deformações sempre é feita em função de certas condições do material. Após o cálculo
dessas variáveis existe a necessidade de confrontar os valores encontrados com certas quantidades limites pré-
estabelecidas para verificar o estado em que o material, após as solicitações que venha a sofrer, se encontra. Em
outras palavras, é necessário se identificar os valores de tensão e deformação que levarão o material a uma falha.
Esses valores são obtidos através de ensaios experimentais para os diversos possíveis esforços presentes nas
estruturas, como tração, compressão, os mais conhecidos e executados, e os de cisalhamento, torção e flexão,
utilizados para finalidades específicas.

Quando a avaliação estrutural é feita em um elemento submetido a um estado uniaxial de tensão, por exemplo,
uma barra submetida à tração, fica simples identificar se a tensão causada pela tração aplicada levará o material
a falhar, basta compará-la com a tensão de escoamento, caso o material seja um material dúctil, ou coma tensão
de ruptura, caso seja um material frágil, ambas obtidas com ensaios de tração dos materiais. Dessa forma,
identificam-se o critério de ruptura para o material dúctil como sendo a tensão de escoamento, e para o material
frágil e tensão de ruptura.

Quando o elemento estrutural está submetido a um estado multiaxial de tensões já não é tão simples assim. Para
aplicar os resultados de um ensaio de tração, ou compressão, ou qualquer que seja para avaliar a falha do
material, é necessário considerar o mecanismo real de falha, ou seja, é necessário identificar qual combinação de
todas as componentes de tensão presentes no elemento estrutural, tração, compressão, cisalhamento, levará o
material a falhar, seja por que a tensão normal máxima atingiu seu valor limite, ou a tensão de cisalhamento
máxima, ou a energia de deformação máxima, ou qualquer outra variável atingiu o seu valor crítico.

Quatro teorias de falha serão estudadas, duas para materiais frágeis e duas para materiais dúcteis. As
componentes das tensões serão expressas em termos das suas componentes principais máximas, média e
mínima.

10.1 MATERIAIS FRÁGEIS

Um material é considerado frágil quando rompe sem aviso prévio. No caso de um ensaio de tração, a superfície de
fratura desse material é plana, o que leva a conclusão que provém diretamente da componente de tensão normal
presente na seção transversal. Por outro lado, caso seja submetido a um teste de torção, ocorre falha por fratura
em planos de máxima tensão de tração, o que se conclui que materiais frágeis são menos resistentes à tração que
ao cisalhamento.

Outra característica dos materiais frágeis é não apresentar patamar de escoamento durante um teste mecânico,
podendo romper abruptamente ainda no regime elástico (Figura 10.1), como o caso, por exemplo, de materiais
compósitos como a fibra de carbono. Outros exemplos de matérias frágeis são o ferro fundido, o vidro, a porcelana
e o concreto.

4
tensão (GPa)

0
0 0,5 1 1,5 2 2,5
deformação (%)

Figura 10.1: Gráfico tensão x deformação para um material frágil.

10-114
10.1.1 TEORIA DA TENSÃO NORMAL MÁXIMA – TEORIA DE RANKINE

A hipótese da teoria da tensão normal máxima considera que um elemento constituído de material frágil falha
quando a tensão principal máxima no material atinge a tensão normal máxima que o material pode suportar em
um teste de tração uniaxial. Esta teoria também admite que falhas em compressão ocorram na mesma tensão
máxima que as falhas em tração.

No caso do estado plano de tensões, o critério da tensão normal máxima é dado pelas equações:

| |
Equação 10.1
| |

Sendo r a tensão de ruptura do material em um teste de tração uniaxial.

Figura 10.2: Superfície de ruptura para o critério da tensão normal máxima.

Plotando-se essas equações em um gráfico com os eixos max e min, obtém-se a superfície de falha para o critério
da tensão normal máxima.

10.1.2 CRITÉRIO DE FALHA DE MOHR

Se a resistência máxima à compressão de um material frágil não é igual a sua resistência máxima a tração, a
teoria da tensão normal máxima não pode ser utilizada. Uma teoria de falha que considera essa característica de
certos materiais frágeis foi proposta por Otto Mohr e é chamada critério de falha de Mohr. A Figura 10.3
apresenta a curva envolvente das circunferências de Mohr das tensões principais máxima max e mínima min dos
estados de tensão que provocam ruptura do material.

Figura 10.3: Envoltória de resistência de Mohr.

A determinação experimental dessa curva é feita aumentando-se proporcionalmente as tensões em um


determinado estado de tensão até que se verifique a ruptura do material. A circunferência de Mohr definida por

10-115
max e min na ruptura é tangente à envolvente. Repetindo-se o procedimento para diversos estados de tensão,
pode-se determinar um número suficiente de circunferências para definir a curva envolvente de Mohr.

Uma vez traçada a envolvente de Mohr para um determinado material, verifica-se facilmente se um dado estado
de tensão provoca ou não a ruptura deste material, traçando-se a circunferência de Mohr das tensões principais
máxima e mínima e verificando se ela intercepta ou não esta curva. Para simplificar a utilização desse método,
Mohr admitiu que a envolvente de todas as circunferências pode ser aproximada com suficiente precisão através
de duas retas, o que possibilita o seu traçado a partir dos resultados de ensaios de tração e compressão uniaxiais
do material conforme apresentado na Figura 10.4.

Figura 10.4: Critério de Ruptura de Mohr.

Na ruptura, o estado de tensão representado pelas tensões extremas max e min é tangente à envoltória. Essas
tensões podem ser relacionadas com as tensões de ruptura do material em tração e compressão uniaxiais, rt e
rc, em valor absoluto. Consideram-se, então, as relações obtidas através da Figura 10.4 (A é o centro do círculo
de compressão, E é o centro do círculo de tração e C é o centro do círculo do estado principal de tensões do ponto
analisado).

̅̅̅̅
Equação 10.2
̅̅̅̅

̅̅̅̅
Equação 10.3

̅̅̅̅

Da mesma figura também se verifica facilmente por semelhança de triângulos, que a circunferência definida
pelas tensões principais max e min do estado de tensão em estudo não ultrapassam a envolvente de resistência,
isto é, o material não rompe, enquanto se verificar a condição:

̅̅̅̅ ̅̅̅̅
Equação 10.4
̅̅̅̅ ̅̅̅̅

Se as tensões principais forem todas de tração, o critério de Mohr fornece resultados diferentes dos observados
10-116
experimentalmente. Isto ocorre porque a envolvente de resistência aproximada por duas retas apresenta o
vértice V que não existe na curva real. Nesses casos, deve-se utilizar o critério da tensão normal máxima, ou seja,
deve se verificar a condição:

Equação 10.5

Como o material não suporta tensões de tração superiores a rt (max ≤ rt) e a Equação 10.4 somente fornece bons
resultados para min < 0, a quantidade rt - max - min sempre resulta em valores positivos. Nestas condições, a
Equação 10.4 é equivalente à condição:

Equação 10.6

Esta expressão traduz o critério de Mohr para a previsão da ruptura de materiais frágeis. Em algumas
aplicações deste critério, especialmente no campo da Mecânica dos Solos e Rochas, utilizam-se como parâmetros
que caracterizam a ruptura o ângulo de atrito  e a coesão c em vez de max e min. O ângulo  indica o acréscimo
de resistência às tensões tangenciais quando atua na face onde exista uma tensão normal de compressão. A
coesão c indica a resistência às tensões tangenciais quando a tensão normal é nula. A expressão do critério de
Mohr em função destes parâmetros pode ser deduzida a partir das relações entre os raios EF = rt/2 e AG = rc/2
e os parâmetros  e c.

Da Figura 10.4, verifica-se facilmente que:

Equação 10.7

Substituindo-se estes valores de rt e rc na Equação 10.6, obtém-se a expressão do critério de Mohr em função de
c e . Assim, segundo este critério, o material não rompe enquanto se verificar a condição:

Equação 10.8

Na Figura 10.5 representa esse critério no plano das tensões principais max e min. O critério de Mohr se reduz
ao critério de Rankine quando rc = rt.

Figura 10.5: Critério de Mohr, caso bidimensional.


10-117
No espaço das tensões principais max, med e min, o critério de Mohr é representado por uma pirâmide de base
hexagonal irregular, Figura 10.6, as quais as faces laterais são definidas pelos planos descritos pelas equações:

Equação 10.9

Figura 10.6: Critério de Mohr, caso tridimensional.

O vértice da pirâmide encontra-se sobre a reta cuja equação é max=med=min, sendo as suas coordenadas dadas
pela expressão:

Equação 10.10

Como se verifica facilmente nas Equação 10.8 e Equação 10.9 fazendo max=med=min=.

10.2 MATERIAIS DÚCTEIS

Material dúctil possui a característica de conservar a sua tensão mecânica para além do seu limite elástico, ao
ser distendido, suportando alterações na forma sem quebrar. Essa deformação chama-se plástica e é irreversível.
Os metais são materiais extremamente dúcteis, podendo ser estriados em fios, ou laminados em finas folhas, sem
quebrarem.

10-118
Essa conservação da tensão é evidenciada quando se atinge o patamar de escoamento durante um teste
mecânico, atingindo a ruptura após sofrer um grande alongamento (Figura 10.7), como o caso, por exemplo, do
aço carbono. Outros exemplos de matérias dúcteis são o cobre, ouro e o alumínio.

Figura 10.7: Gráfico tensão x deformação para um material dúctil.

10.2.1 TEORIA DA TENSÃO CISALHANTE MÁXIMA – TEORIA DE TRESCA

Quando uma chapa de um material dúctil, como aço carbono, é ensaiada à tração, observa-se que o mecanismo
que é realmente responsável pelo escoamento é o deslizamento. Ou seja, cisalhamento ao longo dos planos de
tensão cisalhante máxima, a 45º em relação ao eixo do elemento. O escoamento inicial está associado ao
aparecimento da primeira linha de deslizamento na superfície do corpo de prova e, conforme a deformação
aumenta mais linhas de deslizamento aparecem até que todo o corpo de prova tenha escoado. Se esse
deslizamento for considerado o mecanismo real de falha, então a tensão que melhor caracteriza esta falha é a
tensão cisalhante nos planos de deslizamento.

A Figura 10.8 mostra o círculo de Mohr de tensão para este estado de tensão uniaxial, indicando que a tensão
cisalhante nos planos de deslizamento tem um valor de e/2. Desse modo, se for definido que em um material
dúctil sob qualquer estado de tensão (uniaxial, biaxial ou triaxial) a falha ocorre quando a tensão cisalhante em
qualquer plano atinge o valor de e/2, então o critério de falha para a teoria da tensão cisalhante máxima pode
ser enunciado como:

Equação 10.11

onde e é o limite de escoamento determinado por um ensaio de tração simples.

Figura 10.8: Tensões principais e tensões cisalhantes máximas, ensaio de tração uniaxial.

Sabendo que a equação

Equação 10.12

10-119
Leva a:

Equação 10.13

Sendo max e min as tensões principais no estado plano. O critério de falha da tensão cisalhante máxima pode ser
enunciado em termos dessas tensões principais de acordo com:

| | | | | |
Equação 10.14
| | | | | |

Se max e min tiverem o mesmo sinal, e :

| | Equação 10.15

Se max e min tiverem sinal oposto.

As equações acima podem ser representadas graficamente como:

Figura 10.9: Hexágono de falha para a teoria da tensão cisalhante máxima (estado plano).

Em um elemento sob tensão plana, o estado de tensão em todos os pontos do corpo pode ser representado por um
ponto de tensão (max, min) no plano max - min, como indicado na Figura 10.9. Se o estado de tensão para
qualquer ponto no corpo corresponde a um ponto de tensão que se situe fora do hexágono da figura ou em sua
fronteira, diz-se que ocorreu a falha, de acordo com a teoria da tensão cisalhante máxima.

10.2.2 TEORIA DA ENERGIA DE DISTORÇÃO MÁXIMA – TEORIA DE VON MISES

Embora a teoria da tensão cisalhante máxima forneça uma hipótese razoável para o escoamento em materiais
dúcteis, a teoria da energia de distorção máxima se correlaciona melhor com os dados experimentais e, desse
modo, é geralmente preferida. Nessa teoria, considera-se que o escoamento ocorre quando a energia associada à
mudança de forma de um corpo, submetido a um carregamento multiaxial, for igual à energia de distorção em
um corpo de prova de tração, quando o escoamento ocorre na tensão de escoamento uniaxial, e. Considere a
energia de deformação armazenada em um elemento de volume, como mostrado na Figura 10.10.

10-120
(a) (b) (c)

Figura 10.10: Estado triaxial de tensões (a), variação de volume (b) e distorção angular (c).

A densidade de energia de deformação devida ao carregamento multiaxial é dada pela Equação 10.16, que pode
ser escrita, usando os três eixos principais, na forma,

Equação 10.16

Combinando-se esta equação com a Lei de Hooke, obtém-se,

[ ] Equação 10.17

Uma parcela desta energia de deformação pode estar associada à variação de volume do elemento e o restante da
energia de deformação está associado à variação de forma, ou seja, à distorção.

A variação de volume é produzida pela média das tensões da Equação 10.18, como ilustrado na Figura 10.10b.

[ ] Equação 10.18

As tensões resultantes mostradas na Figura 10.10c produzem distorção sem qualquer variação no volume.
Ensaios mostraram que materiais não escoam quando estão submetidos a pressões hidrostáticas (tensões iguais
em todas as direções – estado de tensão hidrostático - Figura 10.10b) de valores extremamente altos. Assim,
postulou-se que as tensões que realmente causam escoamento são as tensões que produzem distorção. Esta
hipótese constitui o critério de escoamento (de falha) da energia de distorção máxima, que enuncia: “o
escoamento de um material dúctil ocorre quando a energia de distorção por unidade de volume iguala ou excede
a energia de distorção por unidade de volume quando o mesmo material escoa em um ensaio de tração simples”.

Quando as tensões da Figura 10.10c, que causam distorção, são substituídas na Equação 10.17, obtendo-se a
seguinte expressão para a densidade de energia de distorção:

[ ] Equação 10.19

A densidade de energia de distorção em um corpo de prova de tração na tensão limite de escoamento, e, é:

10-121
Equação 10.20

pois max = e, med =  e min = 0. Deste modo, o escoamento ocorre quando a energia de distorção para um
carregamento geral, dado pela Equação 10.19, iguala ou excede o valor de (U d)e Equação 10.20. Assim, o critério
de falha da energia de distorção máxima pode ser enunciado em termos das três tensões principais como:

[ ] Equação 10.21

Em termos das tensões normais e das tensões cisalhantes em três planos arbitrários mutuamente ortogonais,
pode-se mostrar que o critério de falha da energia de distorção máxima tem a seguinte forma

[( ) ( ) ( )] Equação 10.22

No caso de tensão plana, as expressões correspondentes para o critério de falha da energia de distorção máxima
podem ser facilmente obtidas das Equação 10.21 e Equação 10.22, substituindo-se med = z = xz = yz = 0. Em
termos das tensões principais tem-se, então:

Equação 10.23

Essa é a equação de uma elipse no plano max - min, como mostrado na Figura 10.11. Com o propósito de
comparação, o hexágono de falha para a teoria de escoamento da tensão cisalhante máxima também está
mostrado, em linhas tracejadas. Nos seis vértices do hexágono, as duas teorias de falha coincidem, ou seja,
ambas as teorias predizem que o escoamento ocorrerá se o estado de tensão (plano) em um ponto corresponde a
qualquer um destes seis estados de tensão. Por outro lado, a teoria da tensão cisalhante máxima dá uma
estimativa mais conservadora (ou seja, um valor menor) para as tensões necessárias para produzir escoamento,
pois o hexágono se situa sobre ou dentro da elipse.

Figura 10.11: Elipse de falha para a teoria da energia de distorção máxima (estado plano).

Um modo conveniente de aplicar a teoria da energia de distorção máxima é tirar a raiz quadrada dos termos do
lado esquerdo da Equação 10.21 ou Equação 10.22 para obter uma quantidade equivalente de tensão que é
10-122
chamada de tensão equivalente de Von Mises. Qualquer uma das duas equações a seguir pode ser usada para
calcular a tensão equivalente de Von Mises, VM:


[ ] Equação 10.24

Ou

√ Equação 10.25
[( ) ( ) ( )]

Para o caso de tensão plana, as expressões correspondentes para a tensão equivalente de Von Mises podem ser
facilmente obtidas das Equação 10.24 Equação 10.25 colocando-se med = z = xz = yz = 0. Comparando-se o valor
da tensão de Von Mises em qualquer ponto, com o valor da tensão de escoamento em tração, e, pode-se
determinar se o escoamento ocorre de acordo com a teoria de falha da energia de distorção máxima.

10-123

Você também pode gostar