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IV - O PROBLEMA DA ÉTICA

Emil Brunner

A pergunta que meus amigos e eu mais freqüentemente temos feito, após termos exposto nossa posição
teológica, é "Que tal ética?" E podemos agradecer a Deus que está pergunta é feita. Uma pessoa não
entende o evangelho da revelação e redenção através de Jesus Cristo se não responder para si mesmo a
questão: "O que farei?" Uma teologia que não exige e fortaleça a atividade ética certamente não é uma
teologia cristã. A questão ética é a questão suprema de ioda vida.

A pergunta é feita porque os homens suspeitam que a fé na palavra de Deus, ou em Jesus Cristo e sua
obra redentora, não é um motivo adequado para uma ética cristã eficiente. Tal suspeita baseia- se num
sério equívoco. É o erro com que Paulo lutou e que foi a base da oposição dos Católicos Romanos a
Lutero e Calvino. Este equívoco está baseado sobre a pressuposição errônea que quando alguém
considera toda boa obra como de Deus e não sua própria, ele não sentirá qualquer responsabilidade
para oferecer esforço de si mesmo. Para contestar este equívoco, eu proponho novamente minha
própria lese: a sola gratia, solafide, soli deo gloria35 da fé cristã, isto é, o conceito Paulino de fé, é o
único fundamento sólido para a ética; e fé na redenção através de Cristo é a única fonte real desta
renovação e energia ética, a qual Paulo se refere quando fala sobre a nova criação cm Cristo. Não há
outra bondade de vontade verdadeira senão aquela i|uc é o fruto da fé na justificação somente pela
graça. Explicarei e procurarei provar esta tese no discurso seguinte.

Não é difícil encontrar a fonte do equívoco falado acima. Quão freqüentemente uma ortodoxia
perfeitamente impecável acompanha

'" NT - Expressões em latim, significam respectivamente: Só a graça, Só a fé, Glória somente a Deus.

esterilidade moral! Quão freqüentemente a Igreja, mesmo em seus dias mais prósperos de ortodoxia
Paulina, assumiu o lado errado quando questões morais estavam em jogo! Quão freqüentemente ela
estava calada quando deveria ter protestado, e protestado quando deveria estar calada. Eu estou
pensando em questões relacio-nadas ao conflito entre capital e trabalho, à oscilação de guerra entre
nações, e outros mais. O que esta atitude hesitante da Igreja prova? Somente isto: que há um substituto
barato para a fé o qual se parece com, mas não é na verdade fé; é assentimento da cabeça à formulas
intelectuais em vez de confiança do coração na palavra de Deus. Corruptio optimi péssima..31 São
sempre as melhores coisas que estão em maior perigo de adulteração e imitação barata. Isto, contudo,
não é prova que elas não são as melhores coisas. E simplesmente um aviso contra a confusão da
ortodoxia e da fé viva, isto é, o isolamento do elemento intelectual na fé da fé3S como um todo. Crença,
algumas vezes, significa uma mera atitude teórica para com a vida; isto não é mais fé, i.e., confiança
numa pessoa, mas apenas a sombra dela. O que, então, indicamos ao dizer que fé em Cristo é a única
base de uma ética vital?

Primeiro, vamos considerar o lado negativo desta afirmação. Á parte do cristianismo qual é o problema
ético? Há muitas respostas. Do mais baixo nível do materialismo rude que proclama o direito do
indivíduo mais forte e do apetite mais forte, de um utilitarismo superficial, um pragmatismo biológico
superficial, que interpreta a vida moral como uma mera adaptação ou ajustamento ao nosso meio
ambiente natural, há muitos passos ascendentes para o ápice da consciência moral onde ouvimos
palavras como dever, imperativo categórico, lei divina de Deus inata, fraternidade do homem,
paternidade de Deus. Eu suponho que podemos assumir, sem discussão, que apenas uma moralidade
A Teologia da Crise - '.'. Emil Brt ni er

que está baseada sobre premissas religiosas - quer elas sejam conscientemente sustentadas pelo
indivíduo ou não - é capaz de cumprir os mais altos ideais
2
" NT - Expressão em latim, significa: corrupção muito detestável ou corrupção de muito má qualidade.
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O grego pistis, em Latim fides, em Alemão Glaube, não pode ser traduzido para o Inglês exceto por
duas palavras: fé e crença. Há a necessidade de uma palavra semelhante a fé-crença.

éticos. Pode ser tomado como um truísmo dizer que a mais restrita ética e religião estão relacionadas
uma a outra, ambas são a maior verdade. Somente a religião ética é verdadeiramente religiosa e
somente a ética religiosa é verdadeiramente ética. Mas a questão é,

0 que queremos dizer pelos termos religioso e ético quando os dois estão tão vitalmente
relacionadas?

Hoje, na teologia protestante moderna, o slogan religião ética ou ética religiosa pelo qual o
cristianismo é caracterizado, aplica-se ao, erroneamente, assim chamado cristianismo do qual falamos
nas (rês palestras e que de fato reduz a fé cristã a idealismo religioso estóico. Confunde o evangelho de
Cristo com idéias racionais gerais da fraternidade do homem e da paternidade de Deus que os filósofos
estóicos ensinam; e identifica a mensagem do Novo Testamento do Reino de Deus vindo a terra com a
idéia do processo de ética histórica natural e evolução social.

Se esta interpretação do cristianismo estivesse correta, ele seria reduzido a uma concepção de religião
e moral que existia no mundo pagão muito antes da vinda de Cristo. E eu posso dizer em adição que é
uma concepção que ele nunca ensinou. Não estamos, contudo, preocupados com esta questão histórica.
Falaremos aqui apenas da leoria ética como tal.

Esta teoria está baseada numa lei interior ou ideal, ideal

1 acionai ou lei ética da sociedade humana. É uma ética legal. O termo moderno, valores éticos, é
simplesmente uma outra palavra para a mesma coisa. Eu tenho pessoalmente grande admiração por
estes estóicos antigos e modernos; eu devo muito a homens como Kant e I 'ichte para falar
desdenhosamente deles. Há muita verdade no ideal Kantiano ou Estóico de personalidade e de
sociedade baseado nele. I ',le tem tido espantosa influência sobre o desenvolvimento do mundo
ocidental. Se, a despeito desta apreciação, eu tenho me libertado deste idealismo, é no ponto onde
Paulo libertou-se dos judaizantes, os Reformadores da Igreja Romana. Temos que perguntar se ética
cristã deve estar fundamentada sobre uma lei imanente ou sobre a fé. Não temos sobrevivido a esta
questão do passado; ela é ainda a questão mais vital de nosso tempo.

O Estóico ou o teólogo moderno, que interpreta completamente mal o Sermão do Monte, crendo ser
uma coleção de preceitos éticos, um programa ético que Jesus, como o supremo professor de
moralidade, declarou para todos os tempos, está meramente preocupado com o que é para ser feito. Ele
não pergunta "Quem pode fazer isto?" Ele pensa que a lei ou o ideal é um dínamo suficiente para a
moralidade. Isto é o que eu devo chamar de a errada ideologia do teólogo moderno, sua falta de
realismo, sua falha em entender a situação ética atual. Estóicos, antigos e modernos, estão resolvidos a
elaborar programas éticos, apelos, postulados; mas eles nunca perguntam se há uma vontade para
aceitar c obedecê-los ou não. Eles não vêem o fator principal, a vontade humana, como ela é: amarrada
ao pecado e egoísta. Eles estão cegos para o real inimigo que deve ser combatido. Mais ainda, esta
falha em reconhecer o inimigo é o verdadeiro inimigo, a causa frontal do mal no mundo: dela flui auto-
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segurança, auto-confiança, a ilusão de liberdade e de boa vontade sobre a qual todo o idealismo está
baseado - a inabilidade para compreender a impotente condição do homem.
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Por que os homens não vêem sua própria impotência e necessidade? Porque eles não avaliam o status e
capacidade do homem com o padrão de Deus; eles fixam seus olhos no homem, sua personalidade e
cultura, não em Deus. Eles não chegam realmente na presença de Deus, o Único Todo-poderoso e
Santo, diante de quem o homem pode permanecer apenas como um pecador. Eles conhecem apenas o
Deus que está em seus corações, no fundo de suas próprias almas. O motivo mais convincente de sua
ética é, consequentemente, o amor próprio, e seu primeiro propósito é a auto-realização. Isto é
reforçado pela auto-avaliação otimista da qual falamos em nossas palestras anteriores e que está
baseada na concepção da imanência de Deus no homem, da bondade intrínseca do homem e de sua
autonomia, que não faz distinção entre vontade ou lei de Deus e a vontade ou lei de seu próprio eu.
Deus não é considerado como Senhor mas antes, na frase moderna apropriada, como o "companheiro
ideal".

Quando conhecemos a Deus como Senhor, conhecemos a nós mesmos como pecadores que são
incapazes de fazer o bem. Somente quando confessamos nossa impotência estamos preparados para
aceitar a Deus como Senhor; e somente então é quebrado o poder do vaidoso orgulho, de nossa auto-
suficiência. Até que tal confissão seja feita, a arrogância humana deve ainda prevalecer, a despeito de
toda aspiração moral. O idealismo moral do homem e a atividade moral não removem a fonte do mal, a
arrogante suposição de que a vontade e volição do homem não são dependentes de Deus. O inimigo de
Deus e do bem não foi derrotado, mas tem se retirado e se entrincheirado no centro do ser do homem;
a batalha decisiva, todavia, ainda não foi combatida, a batalha que foi travada entre Jesus e os Fariseus,
entre Paulo e os Judaizantes, entre Lutero e os Romanistas - a batalha entre Deus e a vontade egoísta
do homem, entre a graça c a auto-justiça.

O primeiro passo, então, concernente à verdadeira justiça é a confissão sincera que somos pecadores,
não meramente agora e então mas, até onde nos diz respeito, sempre pecadores, irremediáveis
pecadores. Esta confissão de absoluta impotência e desespero na presença do Santo Deus é difícil para
nós fazermos, como podemos sentir neste próprio momento. Não podemos ajudar mas poderosamente
nos revoltar contra isso. Este sentimento de revolta é evidência clara que estamos nos aproximando do
centro da questão, a verdade (|ue Paulo chamou de um tropeço para o judeu, isto é, para o moralista
religioso. Isto eqüivale a dizer que somente Deus é bom, que a boa vontade não habita em nós, mas
vem somente Dele. A capitulação de nosso orgulhoso Eu na presença do Deus majestoso é a vitória da
verdade divina, da palavra de Deus, sobre nossos próprios corações c vontades, sobre a mentira de
nossa vida, que mantêm-nos todos iMileitiçados e é a raiz de todo mal. É a mentira da auto-confiança,
da iccusa de depender da graça de Deus.

Esta capitulação da fortaleza do Eu somente pode ser realizada, <01110 salientei ontem, pela ação do
próprio Deus quando ele abre c aminho através da mais íntima proteção e leva cativa a vontade
humana, não por força, mas por seu soberano perdão e pela revelação de seu incrível amor. Não
podemos alcançar sua justiça por meio da vontade, mas ele prende-nos por sua graça. Ele nos chama
de seus I i I lios antes que tenhamos feito qualquer coisa para merecê-lo. Ele nos dá o novo padrão de
valores que por natureza não temos nem podemos adquirir. Ele nos marca como sua própria possessão
e nos dá sua santidade. Ele faz isto por sua palavra somente, e estamos na nova vida porque ele diz que
estamos e confiamos em sua garantia. Se vocc crê, você é e tem o que Deus diz. A aceitação do dom
de
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Deus através da fé é a criação do novo homem, o segundo nascimento. Paulo chama este milagre de
justificação pela fé. Cristo é o selo pelo qual somos marcados como possessão própria de Deus.
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Através de sua redenção o homem deixa de ser um ser de nenhum valore torna- se um ser de infinito
valor. Pela cruz ele é adotado como um filho de Deus.

Através do ato da redenção Deus verdadeiramente torna-se Senhor do homem. A barreira entre Deus e
o homem, culpa e vontade própria, é derrubada, e deste modo a vontade de Deus ou a boa vontade é
realizado na vontade do homem. Isto é realizado não pela volição humana mas pelo ato de Deus. É da
maior importância que relembremos que o que aparece por um lado como ato de Deus, é, por outro
lado, decisão do homem. O próprio ato pelo qual Deus revela-se ao homem é o nascimento de uma
nova vontade no homem. Pois a vontade é o fator material da fé. Quando o homem aceita a graça de
Deus, o significado da criação é restaurado, de modo que o relacionamento entre Deus e o homem é de
dependência da graça e não de auto-confiança e independência de Deus. Somente quando alguém vive
pela graça é cumprida a oração "Seja feita tua vontade." Apenas então é a boa vontade, que é o mesmo
que vontade de Deus, realizada no homem. Boa vontade é idêntica a renúncia da vontade própria, um
ato do qual não somos capazes, mas que é feito por Deus por nós e em nós, e que aceitamos em fé
como tendo sido feito.

Este é o fundamento da ética no evangelho. Se alguém agarra isto, ele não repetirá novamente a falsa
afirmação, a qual é freqüentemente ouvida, que falta poder ético à doutrina Paulina da graça. De fato é
a única concepção que vai à raiz do problema ético. Pois é a única que não está satisfeita com um mero
ideal e programa ético ou com uma manifestação exterior de uma atitude e disposição moral; ela
penetra à fonte da boa vontade e primariamente não está preocupada com o objeto mas com o sujeito
da moralidade. Pois moralidade é um assunto da vida interior e não do comportamento exterior. Toda
ética não cristã vista deste ponto central é um tipo de behaviorismo (condutivismo), visto que está mais
preocupada com a ação do que com o ator. Para citar novamente a palavra de Lutero: "Não são boas
obras que fazem um homem bom, mas um homem bom que faz boas obras"; isto é, primeiro o homem
e então suas obras; primeiro a posição e o poder e então o salto; primeiro o sangue puro e então o
corpo sadio; primeiro o coração e então os atos. A mudança do coração, que acontece através da fé - eu
repito, através da fé verdadeira e não uma falsificação - é o supremo fato ético sem

0 qual alguém dificilmente pode pensar ou falar de ética, bondade, ou boa vontade.

Eu preferiria explicar isto com a ajuda de duas outras concepções. Para ser boa, uma vontade deve ter
duas propriedades: deve ser pura e deve ser forte. A pureza vem primeiro, pois ela é a

1 nclinação da vontade. A pureza de vontade pode ser obtida apenas ao custo da vontade própria,
que é a vontade inclinada na direção errada; é centrípeta em vez de centrífuga. A direção é mudada
pelo arrependimento e fé. Somente quando a vontade própria abdica, a vontade de Deus pode ser
entronizada. Sua vontade, contudo, é dirigida de cima para baixo, não de baixo para cima. É dirigida
para o inundo, não do mundo. Até onde minha vontade está envolvida, ela está errada. Minha vontade,
embora errada, não cessa de agir quando me torno um cristão; o pecador quando é justificado não
cessa de ser um pecador. Mas a vontade de Deus supera minha vontade própria à medida em que eu,
em fé, dependo do ato de Deus e, à medida em que eu confesso que estou errado e Deus está certo,
limão eu tenho a vontade de servir em vez da vontade de ser servido, lisla é a pureza de coração.

O segundo ponto não é realmente um segundo mas o primeiro vislo de um outro lado. A moralidade à
parte de Cristo, idealismo religioso ético, é uma aspiração pelo ideal, uma tentativa de auto- ícalização,
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um movimento para uma posição certa. A vida moral é icpresentada como uma escada sobre a qual
alguém deve subir para alcançar o degrau mais alto. Neste movimento para cima, a vontade o
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estrábica. Ela parece ser a vontade de Deus, isto é, o ideal; na verdade é a vontade do homem
esforçando-se por auto-realização. ("om todo seu esforço o homem nunca atingirá. Esta é a tragédia da
clica da auto-justiça. Na vida de fé, contudo, esta aspiração não aparece. Como um crente eu não
preciso esforçar-me para chegar a iim lugar, para alcançar um ponto, ou realizar-me a mim mesmo.
IVIa graciosa palavra de Deus em Cristo, eu sou colocado; eu tenho obtido meu "padrão"; meu eu está
realizado. O motivo de minha vontade não é mais um ideal que me fascina, mas um ato de Deus que
me constrange. A vontade não está mais em seu caminho para mas em seu caminho de. O poder do
motor não é mais um ideal que me puxa mas Deus que me empurra. A vontade não está mais dividida
mas unificada. A vontade de Deus não é mais um ideal mas uma realidade. A fé não trabalha para, mas
por causa de; nem para chegar a justiça mas porque chegou a ela. Seu motivo é gratidão pelo que tem
sido dado, não aspiração para o que deve ser. Não é mais uma tentativa de transpor o abismo entre a
idealidade de Deus e a realidade do homem, mas o alegre reconhecimento que o abismo está
transposto pelo próprio Deus em Cristo. Fé é a participação do homem dada por Deus na atividade
divina. Então somente a vontade de Deus é uma realidade na vida e não mais um ideal ou lei. O amor é
o novo motivo de ação que não é conhecido da ética não cristã; amor no sentido do termo no Novo
Testamento, não sentimental, paradoxal, escatológico, o amor que temos porque Ele nos amou
primeiro. O esforço e orgulho da auto-realização dá lugar a humilde e alegre participação na própria
obra de Deus. O coração então, não está mais indisposto com a lei moral, porque Deus tem tomado
posse de toda personalidade, de seu centro.

Eu digo que isto acontece à medida em que a fé é gerada em nós. Esta mudança deve sempre ser
considerada como o milagre que Deus pode operar em nós e como algo que não podemos realizar por
nós mesmos. Esta condição deve ser conservada em mente quando eu for demonstrar que a fé supera a
contradição da ética não cristã. Eu peço que você observe que estou falando de fé, e não do indivíduo
cristão, porque todo assim chamado cristão - e quem não é um assim chamado cristão? - é um homem
que tem fé e não tem fé; que, quando confessa sua fé deve gritar: "Senhor, eu creio, ajuda-me em
minha incredulidade."

Vamos considerar primeiro a contradição que existe entre a realidade concreta e a abstrata. A ética
natural vagueia entre dois polos: por um lado, há um naturalismo complacente, uma tendência a
ajustar-se ao mundo sem muito conflito, e por outro lado, um idealismo abstrato radical que proclama
programas e postulados importantes que são afastados além dos limites do mundo para serem práticos,
mas que agitam a mente com entusiasmo e orgulho.1A ética da fé é tanto absolutamente idealista e
radical por um lado quanto absolutamente concreta e prática por outro. Pois através da fé o homem não
é removido desta presente condição, mas é "chamado" por Deus para fazer sua vontade em sua

"' Este radicalismo freqüentemente é confundido com seriedade cristã, como se fosse uma virtude
especialmente cristã passar por cima da realidade e propor postulados que não são apenas impossíveis, mas
eticamente errados num mundo de homens pecadores. É a falsa absoluticidade da ética Anabatista que,
e.g., não reconhece o poder coercivo do estado por causa de um princípio abstrato de pacifismo. Esta
confusão é o resultado de tomar o Sermão do Montè como um livro de lei ou como um programa social.
Nada além de confusão surge desta manifestamente seriedade super-ética. Ética cristão verdadeira não é
menos "revolucionária", nem menos agressiva, mas sempre realista em sua avaliação da necessidade do
momento presente, em sua clarividênci a com relação à situação próxima.
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situação histórica e psicológica, a vontade de Deus, o Criador e de Deus, o Salvador. Como a vontade
do Criador, ela é a vontade que expressa-se em ato e realidade, em coisas, condições, e homens como
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eles são. É por esta razão que a realidade deve ser considerada com a maior reverência. Mas a vontade
de Deus é também a vontade do Salvador que diz: "Vede, eu faço novas todas as coisas", o mundo,
como originalmente criado, se tornou distorcido. A vontade de Deus, portanto, é tanto conservadora
como revolucionária como nenhuma outra vontade pode ser. Esta união de conservação resoluta e
reconstrução radical é realizada no amor de Cristo. Amar o próximo significa tomá-lo como ele é,
obedecer o chamado divino que vem para você através de sua presente condição, escutar o que ele diz
a você através de seu ser aqui, aceitar o mundo como ele é sem revoltar- se impacientemente por causa
dele. Este amor ativo e prático é o oposto do idealismo abstrato, que mede o mundo pelo que ele deve
ser segundo a razão moral, e torna-se indiferente a, ou perde toda paciência com o mundo como ele
realmente é. Por outro lado, quando o cristão ouve a voz do Criador vindo a ele das coisas e homens
como eles são, ele discerne a distorção da ordem da criação e a desfiguração horrível da imagem do
homem, quando é colocada lado a lado com a imagem de Deus. Em outras palavras, a contradição
clara entre o mundo que é e o mundo por vir é brilhantemente revelada. O homem cristão nada mais
pode fazer exceto dar toda sua vida para a restauração da imagem divina no homem. A este respeito a
fé é mais revolucionária do que qualquer forma de idealismo, o qual nunca está consciente do pleno
significado da contradição na vida do homem. Amar é imitar Deus, o Criador e Deus, o Salvador.

A segunda contradição é aquela do individualismo e coleti- vismo. A fé é um assunto absolutamente


individual. Você pode ter sugestão em massa ou histeria em massa, mas nunca decisão em massa ou
responsabilidade em massa. De fato, o homem nunca é realmente apontado como exclusivamente um
indivíduo por ele mesmo até que ele é chamado a viver a vida de fé, a tomar a plena responsabilidade
de sua vida sobre si mesmo, e a permanecer olho a olho diante de Deus. Não há nada tão solitário e
pessoal como a chamada de Deus e o "Sim" pessoal cm resposta a ele. Nenhum ser pode dividir com
um homem esta responsabilidade; o último passo decisivo deve ser tomado absolutamente pelo próprio
eu somente. Mas se é verdade que não pode haver cristianismo coletivo, é também verdade que não
pode haver algo semelhante a cristianismo privado e individual.2 Pois é no próprio ato da fé que o
isolamento individualista é rejeitado. Pelo solitário chamado divino e pela resposta do homem a ela, a
comunhão é encontrada, que é a única comunhão verdadeira sobre a terra, a saber, a Igreja. Todas as
outras comunhões são ou naturais ou artificiais. Você ou é nascido dentro delas ou você as faz. A
Igreja não é nem natural nem artificial; você não pode ser nascido dentro dela e você não pode fazê-la;
mas pela graça você deve ser renascido nela. A EKKÀ,r|Gta é a comunhão dos kXt|toi,3 isto é,
daqueles a quem Deus chamou para serem membros do corpo do qual Cristo é a cabeça. É a
comunidade feita por Deus, e portanto, eterna.

É característica da verdadeira fé cristã que une ao mesmo tempo o indivíduo etoda a humanidade com
dois elos indissolúveis: a solidariedade da criação e pecado e a solidariedade da redenção e esperança.

2
Se o que Rauschenbusch disse é verdade, a saber, que o cristianismo moderno perdeu seu senso do
fator social na ética cristã, não é menos verdade que toda atividade cristã, tanto social como privada ou
individual, deve proceder deste ato solitário que a Bíblia chama de regeneração. Esta é a pressuposição da
nova ordem social.
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NT - Termos gregos, que significam respectivamente: assembléia, congregação; chamados.
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Esta solidariedade difere da idéia humanista moderna de democracia e de fraternidade mundial tão
amplamente quanto Jesus Cristo crucificado difere do ideal estóico do filósofo.
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A terceira contradição é aquela da atividade e passividade. Uma vez que a fé é a capitulação do homem
perante Deus, o completo desespero do que alguém é e faz, requer totalmente a atitude de passividade
e receptividade. No fato de crer você nada faz, você meramente recebe algo. Mas o grande paradoxo
da fé é que o que é recebido ou produzido é a decisão da vontade do homem por Deus,

0 primeiro e único ato no qual o homem é realmente livre e o qual é totalmente seu próprio.
Nenhum homem entende como isto pode ser; mas todo verdadeiro crente sabe que é assim. A mesma
coisa deve ser dita acerca do efeito da fé. A fé é primeiro quietude, paz, repouso; o alvoroço da alma é
silenciado; o esforço da luta chegou a um fim, pois como um crente, alguém tem e é. Acima de sua
cabeça paira o brasão de sua nobreza hereditária divina, as credenciais de sua cidadania no céu: "Todo
aquele que crê em mim tem a vida rlerna". Esta quietude e paz, este ter e ser, contudo, não é aquele do
místico que passivamente aprecia o céu sobre a terra. É antes, o chamado do Senhor das hostes que
está recrutando constantemente homens para seu exército, a ecclesia militans.42 Aquele que tomou a
lorlaleza interior de sua alma, i.e., seu Eu, não irá parar ali mas levará você com ele para conquistar o
mundo. A substância escatológica da

1 e exercita-se a si mesma em ação supremamente agressiva no mundo.

É, contudo, necessário distinguir esta atividade agressiva do ladicalismo e ativismo de nossa ética
evolucionária moderna. Permita-me usar, por meio de ilustração, dois tipos: o homem do ()riente e o
homem do Ocidente. O religioso oriental vê o mundo e o processo do tempo como em oposição
estática à eternidade. Uma vez que ele está interessado apenas na eternidade, ele é indiferente para com
a realidade no tempo e espaço. O Ocidental moderno, por outro lado, não está tão mais preocupado
com a eternidade como com o processo do tempo do mundo, o qual ele chama de a vinda do i ri no de
Deus. Ele realmente crê que, através da atividade humana, o reino de Deus está chegando, avançando
sobre a terra, lentamente, pode ser, todavia progressivamente. A fé cristã se opõe a ambos os
1
' NT - Termo em latim, significa: Igreja militante.

conceitos. O cristão não é nem indiferente para com o processo do tempo nem crê na evolução do
reino pelo constante progresso. De fato, a ideia do reino de Deus e aquela da evolução e progresso são
mutuamente antagônicas. O cristão permanece dentro do processo do tempo, toma parte nele com toda
a sua energia como se tivesse que efetuar a salvação do mundo, e como se sua própria salvação
dependesse de seu esforço, mas ele sabe ao mesmo tempo que somente Deus pode salvar e pode trazer
o reino quando lhe agradar. Ele está, terrivelmente, quase tomando à serio sua parte na tarefa
cooperativa na melhoria da humanidade. Mas com toda sua seriedade, ele reconhece que a tarefa deve,
cm última análise, ser consumada somente pelo trabalho do onipotente amor de Deus. Ele toma
seriamente que o homem pode alcançar, mas ele nunca confundirá esta esfera de relativo progresso e
melhoria humana com o reino de Deus. Nem aquilo que os homens fazem quando tentam fazer o bem
é a vinda do reino, mas somente aquilo que Deus pode fazer e está fazendo entre nós através de sua
palavra.

Isto nos conduz ao último ponto, sobre o qual eu gostaria de demorar-me um pouco: a contradição do
otimismo e do pessimismo na perspectiva ética. As religiões místicas do Oriente são pessimistas em
relação ao mundo. O mundo é Maya, morte, erro, ruína. Portanto, os homens esperam por libertação do
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mundo. A idéia Ocidental de evolução ética é otimista. Há uma convicção profundamente arraigada de
que o homem no coração é bom, e consequentemente os homens crêem no progresso constante da
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civilização, cultura, religião e moralidade. Enquanto o místico Oriental resolve o problema do mundo
por negar a realidade do mundo pecaminoso, temporal, o homem do Ocidente baseia sua esperança de
libertação de um mundo mal na atividade humana e desenvolvimento histórico. O cristão não é
enganado por qualquer uma destas ilusões. Ele crê em uma salvação, não do mundo, nem no mundo,
mas na salvação do mundo. Ele apenas conhece a Deus como Criador e Salvador, o mundo como
criação e vale de morte. Em Cristo, que tem vencido a morte, ele tem a segurança da ressurreição final,
isto é, a restauração e perfeição de toda criação. Esta é a solução de Deus para o conflito mundial, uma
solução que vai além da oposição entre quietismo pessimista e ativismo otimista.

Mas ambas as tendências, misticismo Oriental e moralismo Ocidental, tem posto em perigo a Igreja
Cristã deste o começo. O misticismo é praticado talvez mais consistentemente no monastério ortodoxo
grego e mal necessita de nossa atenção. Embora a preguiça da carne seja sempre um perigo a ser
evitado na vida cristã, nosso presente perigo é o ativismo do Ocidente, como alguém o encontra, talvez
mais tipicamente representado, na igreja "socializada" da América. A fé cristã é comprometida aqui
pela submersão em mero idealismo ético social e pragmatismo. Isto significa que a reserva espiritual, o
capital de fé que gerações anteriores tem acumulado, é gasta descuidadamente por uma atividade
meramente expansiva. Empenhado em trabalhar, alguém se esquece da fonte de obras. Cheio de boa
vontade para fazer alguma coisa, alguém imediatamente perde o senso perspicaz do que deve ser feito.
A Igreja, que não tem concepção do que significa permanecer somente na palavra de Deus, está em
processo de ser dissolvida no mundo, de início tornando-se uma grande guardiã do bem estar social e
então desaparecendo totalmente. A igreja socializada nesta presente forma é a Igreja no começo de sua
dissolução.43

Eu posso entender muito bem os motivos verdadeiramente cristãos que conduzem a esta evolução.
Christus non est otiosus.AA A lc tem sua base na Palavra mas quer trabalhar. A fé é nascida no segredo
do coração, mas deve manifestar-se em obras de amor. A fé i- uma energia explosiva, ou não é fé. Mas
nem todas as energias explosivas são nascida da fé. Nem toda atividade ética flui da causa frontal da
confiança em Deus. Há sempre o perigo que, em sua ; verdade, a Igreja dependerá de uma dinâmica
natural, do impulso e
1
' l'oile ser útil para o entendimento desta crítica do cristianismo socializado moderno saber i|iie esta
crítica vem de dentro deste movimento que é geralmente chamado de "socialismo u-ligioso". Deve ser
lembrado que a "teologia Bartiana" tem como sua origem o ensino ik- homens como Blumhardt,
Ragaz, e Kutter, os precursores e, alguns deles, os amigos ili' Rauschenbusch. O que separa-nos da
religião socialista de nossos amigos não é nem si'u socialismo nem seu anti-militarismo mas sua crença
que, por tal atividade social, o u ino ile Deus está cada vez mais perto; e que uma tal atividade ético-
social pode ser destacada da pregação do Evangelho, da Igreja e do pensamento teologico. Eles
parecem também confundir um radicalismo abstrato com um verdadeiramente cristão e uma
verdadeiramente sincera aplicação do cristianismo aos problemas sociais do mundo.

" NT Expressão em latim, significa: Cristo não é ocioso, desocupado.


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ambição de expansão, e deste modo torne-se uma presa da autoconfiança e do orgulho. A Igreja, como
um vaso voador com as cores falsificadas do reino de Deus, pode orgulhosamente navegar os mares
agitados, pilotada por homens muito humanos e mantida e impelida por ventos e ondas muito naturais.
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É característico do ativismo protestante moderno, que perdeu seu tato pela absoluta contradição, o
abismo escatológico, entre o mundo de Deus e o mundo como ele é. A palavra de Deus é suavizada,
reduzida a literatura religiosa e programas morais, assim como harmonizada com o pensamento e vida
presente . A teologia é mudada em filosofia, história e psicologia da religião. Pois os homens tem
substituído o estudo do significado da revelação bíblica por sociologia, psicologia, pedagogia; tais
ciências parecem trazer resultados imediatos. O estudo do pastor, o antigo quarto no qual um homem
humildemente sujeitava-se à Palavra Eterna, tem se transformado num escritório para numerosas
agências sociais, e o sermão é uma parte da ética popular aplicada como o dia a requer. O direito de
primogenitura do evangelho do reino do céu é vendido pela sopa de lentelhas do sucesso prático e
influência imediata.

O que aconteceu? O espírito do Ocidente, que de modo algum é melhor do que o espírito do Oriente,
tem absorvido a fé cristã. Em vez de permanecer acima do processo do tempo e deste modo realmente
dominá-lo, a Igreja, esquecendo que sua conversação é no céu, tem sido arrastada para baixo no mundo
e está agora quase impelida com seus destroços, e em última análise, se isto continuar, ela mesma se
tornará meros destroços. Neste processo fatal o termo Reino de Deus faz um papel desastroso. Na
teologia e pregação moderna tem sido dado um significado diretamente oposto àquele do Novo
Testamento, pois ali ele é usado num sentido escatológico, dualista, e paradoxalmente não ético; agora é
usado no sentido de imanência, evolucionismo e ativismo otimista. No Novo Testamento ele significa
exatamente aquilo que o homem não pode fazer - o milagre pelo qual Deus põe fim à história e molda
sua criação por meios e formas que estão além da imaginação, além da analogia histórica, e além do
alcance da consecução ética. É um assunto de fé e esperança e não do fazer do homem.

Fé e esperança, sem dúvida, são indicados para ter resultados práticos, efetuar transformação mundial,
social. Mas elas trarão isto apenas em proporção ao grau de sua realidade, isto é, quanto elas procederem
da fé em Dçus e não no homem. Fé no fazer de Deus é o sal da terra que pode preservar o mundo contra
o declínio e morte. Fé no homem, contudo, é o sal que perdeu seu sabor. Ele pode ser produzido em
grandes quantidades pelos métodos da psicologia social e educacional, mas é parte do mundo e,
portanto, não pode preservá- lo. Ninguém negará que devemos ter uma Igreja viva que tenha uma
palavra atual a falar em nossa enlameada condição. Mas qual é a utilidade de uma Igreja que, afim de
ser atual, tem cessado de ser Igreja? Estamos perdendo a loucura do evangelho porque estamos
envergonhados dele; e o estamos substituindo por um programa ético religioso moderno que parece estar
melhor ajustado à nossa geração, mas que, de fato, é apenas a sabedoria do homem, não tem poder
propulsionador, e termina em mero alvoroço.

A questão ética de nosso tempo não é como efetivamente organizaremos nossas atividades, mas como a
tremenda perda da substância da fé, que no fim das contas deve provar ser a perda da energia ética, pode
ser recobrada. Em consideração à atividade ética das igrejas, esta questão deve ser trazida à frente. Uma
Igreja cujo programa requer ajustamento ao mundo tem perdido sua alma, ou, ao menos, está no
caminho de perdê-la.
A Teologia da Crise - '.'. Emil Brt ni er
Não me entenda mal. Eu não advogo que a Igreja abandone sua parte nos movimentos práticos vivos,
mas eu advogo que ela lume conhecimento de sua presente situação e veja o abismo para o qual ela está
se dirigindo. A atividade cristã somente épossível onde há cristãos, e há cristãos apenas onde há fé. A fé,
10 éticos - é pregada
contudo, ocorre apenas onde a palavra de Deus - e não meras idéias religiosas i' ideais
e ensinada, onde homens podem dizer como nossos Reformadores disseram: "Somente a Palavra pode
fazer islo."

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