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INSTITUTO PEDAGÓGICO DE MINAS GERAIS – FACIBRA

MARCELO BARONE

IDENTIFICAÇÃO DOS PONTOS CRÍTICOS NA GESTÃO DE


PROCESSOS ADMINISTRATIVOS DO DEPARTAMENTO NACIONAL
DE PRODUÇÃO MINERAL: REGIME DE AUTORIZAÇÃO

BELO HORIZONTE – MG
2016
MARCELO BARONE

IDENTIFICAÇÃO DOS PONTOS CRÍTICOS NA GESTÃO DE


PROCESSOS ADMINISTRATIVOS DO DEPARTAMENTO NACIONAL
DE PRODUÇÃO MINERAL: REGIME DE AUTORIZAÇÃO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao IPEMIG/FACIBRA como requisito para
obtenção do título de Especialista em Gestão
Pública.

BELO HORIZONTE – MG
2016
BARONE, Marcelo. Identificação dos pontos críticos na gestão de processos
administrativos do Departamento Nacional de Produção Mineral: Regime de
Autorização. Belo Horizonte: IPEMIG/FACIBRA. Especialização em Gestão Pública.

RESUMO

Como autarquia responsável pela gestão dos recursos minerais no Brasil, o Departamento
Nacional de Produção Mineral, órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia, possui
diversas atribuições, dentre as quais promover a outorga de títulos minerários que autorizam a
pesquisa e exploração dos recursos minerais. Considerando que os títulos de concessão de
lavra outorgados no ano de 2015 pelo Departamento levaram mais de 13 anos para serem
publicados, o presente artigo buscou identificar, a partir de dados estatísticos disponíveis no
sítio eletrônico da autarquia e de seus aspectos organizacionais, os pontos críticos na
tramitação dos processos administrativos minerários, com foco na etapa de autorização de
pesquisa, que a impede atingir um grau de eficiência adequado à demanda do setor. A partir
da análise desses pontos o trabalho apresenta em suas conclusões propostas de correção e
melhoria dos procedimentos, bem como propõe outros caminhos, que não dependem somente
de ações internas, no intuito de alçar o Departamento a uma condição de eficiência adequada,
nos moldes da administração pública gerencial, considerando os programas governamentais
existentes.

Palavras chave: DNPM, gestão, pesquisa mineral.


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 4

2. OBJETIVO GERAL E METODOLOGIA ......................................................................... 5

2.1. Fluxo dos processos administrativos minerários de acordo com a legislação ............. 6

2.2. Dados estatísticos do DNPM ....................................................................................... 8

2.3. Sistemática de trabalho do DNPM ............................................................................. 11

3. CONCLUSÃO .................................................................................................................. 13

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 16


4

1. INTRODUÇÃO
A exploração dos recursos minerais no Brasil é gerida pelo Departamento Nacional de
Produção Mineral (DNPM), autarquia instituída pela Lei nº 8.876, de 2 de maio de 1994 e
vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME). O DNPM tem como finalidade promover
o planejamento e o fomento da exploração e do aproveitamento dos recursos minerais,
superintender as pesquisas geológicas, minerais e de tecnologia mineral, e ainda assegurar,
controlar e fiscalizar o exercício das atividades de mineração em todo o território nacional, na
forma do que dispõe o Código de Mineração (Decreto-Lei nº 227, de 28 de fevereiro de
1967), o Código de Águas Minerais (Decreto-Lei nº 7.841, de 8 de agosto de 1945), os
respectivos regulamentos e a legislação que os complementa. Dentre suas atribuições estão a
de promover a outorga dos títulos minerários relativos à exploração e ao aproveitamento dos
recursos minerais, e expedir os demais atos referentes à execução da legislação minerária.
Para promover a outorga dos títulos o DNPM toma por base as diretrizes e regras
constantes do Código de Mineração (BRASIL, 1967), que traz os critérios, obrigações e
condicionantes aos interessados1 à obtenção dos títulos requeridos.
Através das estatísticas disponibilizadas pelo DNPM em seu sítio na internet2 verifica-
se que um interessado, para obter a concessão para explorar uma jazida no país, leva um
longo espaço de tempo. As concessões outorgadas no ano de 2015 derivaram de processos
protocolizados no DNPM, em média, há mais de 13 anos. Este intervalo de tempo longo pode
ser creditado a diversos fatores internos ao órgão, mas também à legislação minerária
ultrapassada (data de 1967), que traz em seu arcabouço a necessidade da aplicação de um
modelo de administração burocrática, conforme definido por Hall (1976, apud ALMEIDA,
CUNHA & ROSEMBERG, 2009), para sua execução.
Diante desta questão, e considerando a complexidade da legislação regente à
mineração, o presente trabalho destacará o regime de autorização definido pelo art. 2º, inciso
II do Código de Mineração, que se restringe à pesquisa mineral, etapa na qual se identifica e
delimita as jazidas minerais para posterior aproveitamento pelo regime de concessão definido
no inciso I do mesmo artigo. Ao destacar este regime, pretende-se identificar as possíveis
falhas de gestão na tramitação dos requerimentos dos interessados para propor melhorias que
possibilitem reduzir o prazo de tramitação processual, pois, pelas estatísticas oficiais do
DNPM, ao final de 2015 havia 78.509 procedimentos administrativos ativos nesta etapa,

1
Art. 15 do Decreto-Lei nº 227/1967: “A autorização de pesquisa será outorgada pelo DNPM a brasileiros,
pessoa natural, firma individual ou empresas legalmente habilitadas, mediante requerimento do interessado”.
2
http://www.dnpm.gov.br
5

sendo que muitos deles dependem apenas da autarquia para seu encerramento ou
prosseguimento conforme será exposto adiante.
Este elevado passivo processual permite inferir que os dados estatísticos divulgados
pelo DNPM não refletem a demanda do setor mineral, pois muitos dos processos que estão
em tramitação não representam demanda ativa a uma futura atividade de mineração, e sim
demandas internas do Departamento de acordo com o previsto no Código de Mineração. Estas
demandas podem representar entraves a uma futura atividade pois as áreas referentes a estes
procedimentos administrativos pendentes permanecem indisponíveis enquanto o DNPM não
concluir sua análise, impedindo futuros interessados de desenvolverem novas pesquisas
minerais nestas áreas.
Todas estas questões contribuem para a demora na outorga dos títulos previstos na
legislação vigente, depondo diretamente contra o princípio da eficiência do Serviço Público,
obrigação constitucional dada pelo Art. 37 da nossa Carta Magna, o que motivou o presente
trabalho.

2. OBJETIVO GERAL E METODOLOGIA

Norteado pelo princípio básico da eficiência na Administração Pública (Art. 37, caput,
da Constituição Federal de 1988), o presente trabalho tomou por base dados estatísticos do
DNPM referentes aos procedimentos administrativos minerários ativos em tramitação 3. Os
números existentes apontam para a necessidade de apuração dos dados, buscando implantar
melhorias que objetivem o atendimento ao princípio da eficiência por parte do órgão, o que
será apresentado no decorrer do trabalho.
Cardozo (1999, apud CARMO, 2004) define que:
Ser eficiente, portanto, exige primeiro da Administração Pública o
aproveitamento máximo de tudo aquilo que a coletividade possui, em todos
os níveis, ao longo da realização de suas atividades. Significa racionalidade e
aproveitamento máximo das potencialidades existentes. Mas não só. Em seu
sentido jurídico, a expressão, que consideramos correta, também deve
abarcar a ideia de eficácia da prestação, ou de resultados da atividade
realizada. Uma atuação estatal só será juridicamente eficiente quando
seu resultado quantitativo e qualitativo for satisfatório, levando-se em
conta o universo possível de atendimento das necessidades existentes e
os meios disponíveis (grifo nosso).

3
Processo administrativo autuado no DNPM que objetiva a outorga de títulos ao interessado, segundo os
regimes de aproveitamento disciplinados pelo Art. 2º do Código de Mineração (BRASIL, 1967), sendo ativos
aqueles que se encontram em tramitação na autarquia.
6

Este conceito somado às considerações mencionadas na introdução deste trabalho


demonstra que o tempo médio elevado para outorga do título para exploração mineral pelo
DNPM pode ser resultante de fatores inerentes à complexidade da atividade de mineração.

Portanto, para que se possa compreender as regras definidas pelo Código de


Mineração e consequentemente a sistemática de trabalho do DNPM na outorga de títulos
minerários apresentaremos, preliminarmente, o fluxograma de tramitação dos processos
administrativos minerários dentro do Departamento, a partir de suas fases. Conforme citado
na introdução deste trabalho, detalharemos apenas a fase de autorização de pesquisa a fim de
mostrar as possibilidades legais de encaminhamento dos processos de acordo com o previsto
no Código de Mineração, levando em consideração a quantidade de processos pendentes de
análise. Tais números auxiliarão no apontamento dos prováveis pontos críticos que
contribuem para a demora no tempo de tramitação dos processos.

2.1. Fluxo dos processos administrativos minerários de acordo com a legislação

Os processos administrativos minerários são autuados a partir do requerimento do


interessado, cuja base legal é disciplinada pelo Código de Mineração, pois o aproveitamento
das jazidas depende de alvará de autorização de pesquisa, do Diretor-Geral do DNPM, e de
concessão de lavra, outorgada pelo Ministro de Estado de Minas e Energia (Art. 7º do Código
de Mineração). Desta forma o fluxo processual obedece as seguintes etapas:
TABELA 1
Fluxo do processo administrativo minerário, de acordo com a base legal
FASE DESCRIÇÃO E BASE LEGAL
Requerimento de Solicitação do interessado para realização da pesquisa mineral (execução dos
autorização de pesquisa trabalhos necessários à definição da jazida, sua avaliação e a determinação da
exequibilidade do seu aproveitamento econômico) – Art. 16 do Código de
Mineração
Autorização de pesquisa A partir do Alvará de Pesquisa, título outorgado ao interessado mediante
requerimento disposto no item acima, com prazo de validade entre 1 e 3 anos,
que resulta na obrigação de apresentação de um relatório dos trabalhos de
pesquisa realizados, configurando ou não uma jazida mineral – Art. 22 do
Código de Mineração
Requerimento de A partir da aprovação do relatório de que trata o item anterior (Art. 30, inciso I,
concessão de lavra do Código de Mineração), cabe ao interessado requerer a concessão de lavra no
prazo legal – Arts. 31 e 38 do Código de Mineração
Concessão de lavra A partir da Portaria de Lavra, título outorgado ao interessado que permite a
exploração da jazida aprovada – Art. 43 do Código de Mineração.
Fonte: elaborado pelo autor com base no Código de Mineração (BRASIL, 1967).
Como se observa na tabela acima, as fases do processo administrativo minerário são
subsequentes, havendo em seu curso a outorga de dois títulos: Alvará de Pesquisa e Portaria
de Lavra. O Alvará de Pesquisa é um título com prazo definido que permite ao interessado
realizar os trabalhos de pesquisa mineral, contendo os estudos geológicos e tecnológicos
7

quantitativos e qualitativos da jazida, e demonstrativos da exequibilidade técnico-econômica


da lavra, sendo obrigatoriamente elaborado por profissional legalmente habilitado. Dentro do
seu prazo de vigência ou de sua renovação, o interessado submete o consequente relatório
técnico da pesquisa ao DNPM. Após análise técnica e vistoria no local pesquisado por
servidores legalmente habilitados, o DNPM julga o relatório de acordo com o Art. 30 do
Código de Mineração. A aprovação do relatório implica no reconhecimento de uma jazida
mineral, a partir da qual o interessado deve requerer ao DNPM a concessão de lavra (fase
seguinte – ver tabela acima).

O requerimento de concessão de lavra deve ser formulado na forma prevista pelo Art.
38 do Código de Mineração, que inclui, dentre outros elementos, a apresentação do projeto
técnico a ser implantado para a exploração da jazida aprovada pelo DNPM. A partir de sua
análise e com o respectivo licenciamento ambiental, a Portaria de Lavra é outorgada, onde o
interessado tem de cumprir com as obrigações legais dispostas no Art. 47 do Código de
Mineração. Em se tratando de um título definitivo, sem prazo definido, o interessado somente
perderá seu direito de explorar a jazida aprovada através de processo de caducidade gerado a
partir de infrações dispostas no Art. 65 do mesmo Código.

Sendo o objeto do presente trabalho, a autorização de pesquisa é uma fase onde, a


partir da outorga do título – Alvará de Pesquisa – existem diversas obrigações legais a serem
cumpridas pelo interessado, dispostas no Código de Mineração. O descumprimento destas
implica em providências por parte do DNPM, que podem ser desde autuações pecuniárias até
a perda do direito à pesquisa por procedimento de nulidade ou caducidade. Devido a essa
complexidade detalhamos a fase através de um fluxograma, apresentado na Figura 1.

O conteúdo denominado “Sanções e nulidades pelo descumprimento da legislação”


(Figura 1) aponta as providências que o DNPM deve tomar no caso do interessado não
cumprir com a disposição legal competente definida no conteúdo denominado “Tramitação do
processo na fase Autorização de Pesquisa” (Figura 1). Por conseguinte nem todos os títulos
outorgados de autorização de pesquisa alcançarão a decisão final prevista pelo Art. 30 do
Código de Mineração pois a desídia do interessado pode provocar a perda do título que lhe foi
outorgado.
8

FIGURA 1
Fluxograma detalhado da fase autorização de pesquisa

Fonte: Elaborado pelo autor com base no Código de Mineração.


2.2. Dados estatísticos do DNPM

Os dados de todos os processos administrativos minerários em tramitação no DNPM


podem ser consultados através de um sistema intitulado “Cadastro Mineiro”4, que traz a
situação de cada processo em curso de acordo com sua fase através de descrição cronológica
denominada de “Eventos”. Com base neste sistema e nos dados estatísticos disponibilizados

4
Disponível em https://sistemas.dnpm.gov.br/SCM/extra/site/admin/Default.aspx
9

pelo DNPM em sua página na internet identificamos o seguinte quadro de processos ativos
em tramitação, com data base de 31 de dezembro de 2015, representados na Tabela 2.
TABELA 2
Quantitativo de processos ativos no DNPM, por fase
FASE Quantidade
Requerimento de autorização de pesquisa 31.577 processos
Autorização de pesquisa 78.509 processos
Requerimento de concessão de lavra 14.552 processos
Concessão de lavra 9.773 processos
Fonte: Pesquisa realizada no Cadastro Mineiro do DNPM, com dados até 31 de dezembro de 2015.
Considerando os últimos 10 anos, a demanda recebida e atendida pelo DNPM para os
processos sob os regimes de autorização e concessão está relacionada na Tabela 3, abaixo.
TABELA 3
Demanda recebida e títulos publicados pelo DNPM, período 2006-2015
Eventos 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 Total
Requerimentos de
17.334 23.561 26.871 16.037 19.855 26.695 20.463 19.106 15.512 14.455 267.954
autorização de pesquisa
Autorização de Pesquisa
12.871 13.901 18.269 15.123 18.299 19.583 8.860 13.562 12.215 17.525 207.202
(Alvarás publicados)
Alvarás de pesquisa
701 731 708 1.079 1.770 1.723 1.388 2.232 2.115 1.225 16.274
prorrogados

Requerimentos de Lavra 999 705 923 946 1.022 1.177 1.479 1.382 1.457 1.187 15.586

Concessões de Lavra 437 324 268 404 204 195 331 177 261 491 4.780
Fonte: Pesquisa realizada no Cadastro Mineiro do DNPM e adaptação de Santana (2015).
Analisando os dados da Tabela 3 verificamos a existência de um dinamismo dos
processos administrativos minerários. Considerando a média anual, observa-se que, a partir de
27 mil requerimentos de autorização de pesquisa, o DNPM emitiu aproximadamente 20 mil
Alvarás, sendo que os demais foram indeferidos nas formas previstas pelos Arts. 17 e 18 do
Código de Mineração. Da mesma forma, nota-se que a partir dos 22 mil Alvarás publicados e
prorrogados, apenas 1,5 mil requerimentos de lavra foram apresentados ao DNPM,
significando que menos de 7% dos processos prosseguem para esta etapa. Os demais
processos necessitam de providências por parte do DNPM para seu encerramento, sendo
algumas delas apontadas na Figura 1.

Comparando-se as informações acima com os dados da Tabela 2, concluímos que o


total de processos ativos na fase de autorização de pesquisa atualmente é elevado. Os Alvarás
possuem prazo máximo de 3 (três) anos para seu encerramento, de forma que o total de
processos nessa fase não poderia ultrapassar 48.874, número este resultante da soma dos
alvarás publicados e prorrogados nos anos de 2013, 2014 e 2015.
10

Esta situação se agrava ao considerarmos a quantidade de processos ativos na fase de


autorização de pesquisa por ano, sendo ativos os processos que estão em tramitação de acordo
com o fluxograma da Figura 1.
TABELA 4
Processos em tramitação no DNPM, fase Autorização de Pesquisa
2015 2014 2013 2012 2011 2010 2009 2008 2007 2006 2005
Fase autorização
7.081 9.401 11.139 10.551 10.580 6.645 4.123 4.839 3.125 1.756 1.341
de pesquisa
2004 2003 2002 2001 2000 1999 1998 1997 1996 <1996
Fase autorização
1.175 1.111 763 655 430 414 284 139 274 2.683
de pesquisa
Fonte: Pesquisa realizada no Cadastro Mineiro do DNPM, com dados até 31 de dezembro de 2015.
De acordo com a Tabela 4 e considerando o prazo definido na legislação para
encerramento dos Alvarás, temos no máximo 27.621 processos administrativos minerários na
fase de autorização de pesquisa cujos títulos estão vigentes, ou seja, a pesquisa na área
autorizada ainda está em desenvolvimento, não havendo, teoricamente, providências a serem
tomadas pelo DNPM conforme Figura 1. Os demais processos da Tabela 4 – 50.888 processos
referentes à soma dos processos anteriores a 2013 – estão pendentes de providências por parte
do DNPM para sua extinção uma vez que o termo final da autorização encontra-se expirado.

Convertendo, para fins de ilustração, as informações da Tabela 4 em um gráfico por


tempo, temos:

FIGURA 2
Gráfico da divisão dos processos ativos na fase de autorização de pesquisa por período

Quantidade de processos ativos - Fase Autorização de Pesquisa


30.000

25.000

20.000

15.000

10.000

5.000

0
Até 3 anos 3-5 anos 5-10 anos 10-20 anos Mais de 20 anos

Fonte: Elaborado pelo autor a partir dos dados da Tabela 4.


11

O gráfico da figura 2 traduz o mencionado nos parágrafos anteriores, qual seja, a


existência de um elevado passivo processual (processos com mais de três anos de publicação
ou renovação do Alvará de Pesquisa, ilustrados pelas colunas com hachuras diagonais),
apontando, inclusive, a existência de quase 10.000 processos cujos alvarás foram publicados
há mais de 10 anos e que ainda não obtiveram decisão final por parte do DNPM.

2.3. Sistemática de trabalho do DNPM

Não obstante a existência de sistemas informatizados obrigatórios para que o


interessado formule seu requerimento de autorização de pesquisa junto ao DNPM, tais
requerimentos são obrigatoriamente apresentados em meio físico (papel), com a impressão
dos formulários gerados por este sistema. A partir da apresentação desta documentação ao
DNPM, os requerimentos são autuados e numerados, iniciando sua tramitação com o
propósito de outorgar os títulos minerários previstos no Código de Mineração.

A tramitação do processo administrativo minerário em meio físico implica em atrasos


para sua análise em virtude da necessidade de espaço físico para seu armazenamento, da
logística interna necessária às Superintendências do DNPM distribuídas no país e por
impossibilitar que as soluções de pendências inerentes a setores distintos sejam solucionadas
simultaneamente. Usualmente cada Superintendência possui um espaço físico denominado em
geral de “arquivo”, administrado pelo setor de gestão de títulos minerários, onde todos os
processos administrativos minerários ficam armazenados. A partir da demanda de cada setor5
referente às obrigações previstas na legislação, o processo é requisitado para providências,
retornando a esse espaço físico tão logo as demandas estejam concluídas.

No que se refere ao tema em questão, após a outorga do título autorizativo para


pesquisa mineral, denominado de “Alvará de Pesquisa”, os processos administrativos
minerários ingressam no fluxo ilustrado na Figura 1. No entanto cada etapa ali descrita é
operacionalizada por um setor distinto em consequência das competências de cada setor
determinadas pelo Regimento Interno do Departamento Nacional de Produção Mineral,
aprovado pela Portaria do Ministro de Minas e Energia nº 247 (BRASIL, 2011).

Segundo o fluxo da Figura 1, todas as providências que demandam sanções


pecuniárias são realizadas pelo setor de procedimentos arrecadatórios, sendo os demais atos
concernentes ao setor de fiscalização. Já os desdobramentos dos atos de indeferimento, que

5
A denominação de setor foi utilizada para abranger os “serviços” e “divisões”, relacionados à classe de cada
superintendência do DNPM, conforme Art. 3º do Regimento Interno do DNPM. Porém suas atribuições são as
mesmas, não importando a classe.
12

ensejam a colocação da área titulada em procedimento de disponibilidade (Art. 26 do Código


de Mineração) são realizados pelo setor de gestão de títulos minerários. Desta forma observa-
se que um único processo administrativo minerário na fase de autorização de pesquisa perfaz
uma trajetória sinuosa até sua conclusão.

Detalhando as providências que são de competência do setor de fiscalização, os atos


ali relacionados são executados geralmente por um servidor específico, isto é, mesmo que o
processo seja requisitado por este setor para providências, requer-se um tempo considerável
para que todas as decisões referentes às suas pendências sejam tomadas.

Além do mais existe um procedimento interno nas superintendências do DNPM que


exige um despacho da chefia imediata para que uma determinada pendência processual seja
analisada pelo servidor competente. Alega-se que tal necessidade provém de uma
interpretação do princípio da motivação, previsto na Lei nº 9.784, de 29 de janeiro de 1999, e
que resulta em mais um passo a ser cumprido na tramitação de um processo dentro do DNPM.

Outrossim, soma-se a toda essa sistemática burocrática existente no DNPM a carência


de um sistema informatizado adequado que lhe demonstre com mais clareza as pendências
existentes em cada etapa do processo. O Cadastro Mineiro, base utilizada para o presente
trabalho e utilizada também pelo DNPM como ferramenta de controle de demandas, não
possui filtros apropriados que permitam identificar tais pendências. Sem uma ferramenta
efetiva a identificação de processos pendentes é penosa, visto que se torna necessário avaliar
cada processo individualmente pelo próprio sistema para verificação de pendências, por vezes
incluindo a conferência física dos autos processuais, de forma a fundamentar seus
encaminhamentos.

Além do mais a carência de servidores contribui com este cenário que produz estes
atrasos. O DNPM permaneceu por 28 anos sem o ingresso de novos servidores em seu quadro
funcional. E mesmo os concursos públicos realizados entre 2006 e 2010, trazendo pessoal
mais novo e qualificado para a autarquia, não foram suficientes para atender a demanda, ainda
que tenha havido um aumento de produtividade como pode ser visto pelos dados da Tabela 3.
Como o último certame foi realizado há 6 (seis) anos, a força de trabalho do DNPM vem
reduzindo ao longo do tempo em razão da aposentadoria dos servidores mais antigos.

Salienta-se também que o DNPM possui atribuições bastante específicas


principalmente pelas características do setor mineral e da legislação que o orienta. A execução
de alguns atos previstos no Código de Mineração carece de inspeção no local das áreas
13

outorgadas para conferência das informações e execução de atos de fiscalização, sendo que
muitas dessas áreas são longínquas em relação à localização de cada superintendência
regional do DNPM. Como a atividade principal que é o fundamento de sua existência –
mineração – frequentemente está localizada fora dos grandes centros, principalmente fora das
capitais dos Estados6, os servidores necessitam de um tempo considerável para a realização
das atividades que exigem conferência no local de realização. No caso abordado no presente
trabalho, estas atividades são concernentes às verificações das pesquisas minerais realizadas e
apresentadas nos relatórios. Há casos onde as áreas a serem verificadas pelo DNPM se situam
a mais de 1.000 km de distância da superintendência responsável pelo processo administrativo
minerário.

3. CONCLUSÃO

Não obstante às particularidades do setor mineral, que exigem procedimentos


administrativos específicos por parte do Departamento Nacional de Produção Mineral,
entendemos que o primeiro passo a ser adotado sob o aspecto institucional, considerando ser o
DNPM uma entidade da Administração Pública Indireta, é a aplicação de práticas adotadas
pelo Governo Federal através de programas específicos, como o GESPUBLICA. O
GESPUBLICA atua em um contexto mais amplo de mudança de paradigma administrativo:
da administração burocrática para a administração gerencial (FERREIRA, 2009). Toda a
ordenação de trabalho do DNPM, segundo descrito no presente trabalho, demonstra
visivelmente que a autarquia ainda se encontra sob o perfil da administração burocrática,
caracterizada, segundo Hall (1976, apud ALMEIDA, CUNHA & ROSEMBERG, 2009), por
haver divisão do trabalho baseado na especialização funcional, possuir um sistema de normas
que compreende direitos e deveres dos ocupantes dos cargos, existir um sistema de
procedimentos que ordenam a atuação dos cargos e funções; haver impessoalidade das
relações interpessoais e a promoção segundo a competência técnica.

Contudo o autor entende que a partir das informações coletadas, trabalhadas e


dispostas neste trabalho há algumas oportunidades de melhoria interna que independem de
mudanças institucionais e que concorrem para a necessidade da busca constante pela
eficiência. Em contrapartida entende também que outras medidas tornam-se impeditivas
devido às restrições impostas pela legislação do setor, que, por ser do ano de 1967, foi

6
As superintendências regionais do DNPM se situam nas capitais dos Estados, à exceção do Estado da Paraíba,
cuja sede se situa no município de Campina Grande, e no caso do Estado do Acre que é atendido pela
superintendência em Rondônia.
14

redigida segundo os preceitos da administração burocrática, pela atual carência de servidores


em seu quadro funcional e pela própria logística que envolve a atividade de pesquisa mineral,
onde, em consequência da localização geográfica das áreas autorizadas, o tempo demandado
para a análise de um relatório de pesquisa torna-se necessariamente extenso.

A eliminação do processo em meio físico (papel) é um obstáculo importante a ser


eliminado. Está em andamento no DNPM a implantação do Sistema Eletrônico de
Informações (SEI), que alterará a forma de apresentação dos requerimentos na autarquia,
transformando os processos administrativos minerários em meio digital. Esta iniciativa, que
tem previsão de entrar em vigor a partir de 2018, proporcionará uma redução no tempo de
análise dos processos por permitir que as demandas existentes nos processos referentes a cada
setor de trabalho do DNPM possam ser trabalhadas concomitantemente, via sistema, e
também por eliminar a necessidade de localização, busca e transporte interno dos processos, o
que ocorre atualmente com os processos em meio físico.

A eliminação da necessidade de despacho interno nos processos para análise por parte
da chefia imediata é outra possibilidade que tende à eficiência na autarquia por reduzir o
tempo de tramitação. A justificativa para esta proposta consiste na diferença entre os termos
motivo e motivação, que são inconfundíveis pois, de acordo com Teixeira (2009), “Motivo é a
situação fática ou jurídica que impulsionou à feitura do ato” e, segundo o mesmo autor,
“Motivação pode ser entendida como a explanação, a fundamentação, a explicitação dos
motivos que conduziram o agente público para a elaboração do ato administrativo”. Assim
sendo, na ocorrência dos fatos relacionados na Figura 1 no campo “Tramitação do processo na
fase Autorização de Pesquisa”, há a ocorrência do motivo necessário para que o processo
administrativo minerário seja analisado, sendo que o ato administrativo a ser elaborado pelo
servidor competente é que deve obrigatoriamente conter o elemento motivação, que em
muitos casos é a própria disposição da lei.

Contudo, a mudança acima, se aplicada prontamente, implicaria na necessidade de


transmitir a cada servidor a responsabilidade de controlar as demandas de acordo com suas
competências.

Identificou-se também a necessidade de melhoria do sistema “Cadastro Mineiro”,


integrando-o aos demais sistemas internos ao DNPM e introduzindo novas ferramentas e
filtros que permitam ao gestor local administrar as demandas existentes de acordo com as
disposições legais apontadas na Figura 1. Estas alterações refletirão no andamento dos
processos em todas suas fases e regimes de aproveitamento pois permitirão identificar as
15

demandas de acordo com as disposições legais existentes. No cenário atual, sendo esse
sistema a única referência para o DNPM administrar e controlar suas demandas, a ausência
das melhorias aqui citadas impedirá que os setores identifiquem tais pendências processuais
pois suas ferramentas permitem apenas a realização de pesquisas generalizadas.

Ainda que as sugestões aqui colocadas objetivem a otimização no andamento


processual, é indispensável a atualização da legislação que rege o setor mineral no país,
evoluindo para uma legislação que reduza a burocracia existente. Tais mudanças
possibilitarão ao DNPM evoluir para um modelo de administração gerencial. Todavia, a
reposição do quadro funcional também tem sua relevância neste processo pois, por melhor
que seja o futuro modelo de administração a ser implantado, sem pessoal qualificado
suficiente não se conseguirá atingir a eficiência necessária e desejada.

Em suma, o Departamento Nacional de Produção Mineral, órgão responsável pela


gestão e administração dos recursos minerais no Brasil, além de carente de estrutura física,
tecnológica e de pessoal, também necessita de urgente evolução administrativa. Boa parcela
do passivo processual apontado neste trabalho é resultado de uma somatória de todos os
pontos críticos nele apontados, mas identificou-se oportunidades de melhoria que podem ser
implantadas em curto espaço de tempo, como já demonstradas, as quais certamente somarão
no processo de busca pela eficiência prevista na Constituição Federal.
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