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Apostila do curso de Liturgia

Professor: Rev. Euler Clayton

Introdução:

O ser humano é religioso por si só, ou seja, há no ser humano algo que lhe motiva
a buscar o transcendente. Desde as culturas mais antigas os seres humanos buscam
contato com a divindade. Há no ser humano um desejo de se relacionar com o divino,
ainda que, muitas vezes não saiba como, ou mesmo, que procura pela divindade. Os
teólogos vão dizer que no ser humanos há o sensus divinatatis, ou seja, uma
predisposição em buscar a divindade.
Culturas tão antigas como os sumérios, hititas, egípcios, maias, astecas, judeus e
outros mais tinham sua forma de lidar com a divindade, com o divino. A maioria de nós,
mesmo nos filmes, já viu sacerdotes lidando com a divindade que serviam. A maneira
como lidavam com seus deuses não era de forma alguma sem critério e preparação.
Todas as religiões têm sua maneira de cultuar. Uma forma de culto que expressa
a maneira como veem seu deus (ou deuses). Nada é feito sem a devida preparação. Os
sacerdotes normalmente formavam uma casta social. Mas, porquê? Simples, o lidar com
a divindade não podia ser feito de qualquer maneira. Havia regras e maneiras para isso.
As pessoas que tinham como função o labor religioso deveriam ser preparadas e
ensinadas a lidar com a fé. A fé é algo sério demais para ser feita de qualquer maneira,
por qualquer pessoa e sem o devido preparo. O culto em qualquer religião da antiguidade
era sempre levado com seriedade e zelo. Se há culto, logo, há liturgia também e com isso,
um cuidado com ela.
Infelizmente, o que vemos hoje em dia em muitos lugares é a total incompreensão
do lugar da liturgia no culto. Muitos acham que ela deve ser abolida, pois, limita o “agir” do
Espírito Santo. Outros julgam coisa de católico romano. Outros ainda são preguiçosos e
não fazem mesmo. O que temos com isso é uma igreja descaracterizada e imersa em
modismos. Uma igreja que não sabe expor suas crenças e que não as clarifica através do
culto. Por outro lado, a falta de zelo com a liturgia, ou mesmo a ausência dela, demonstra
como tem sido rasa a vivência cristã em nossos dias. O culto tem sido voltado para o ser
humano e seus desejos (antropocêntrico), descaracterizando até mesmo a fé cristã.
Quando há zelo no preparo do culto não há espaço para os desejos humanos,
pois, o culto cristão é voltado a Deus somente. A liturgia deve demonstrar isso. Ela deve
2

não somente sublinhar ao fato de o culto ser do Senhor, mas também didaticamente
apontar a maneira como Ele deseja ser cultuado.
Daí a relevância em se estudar liturgia. O culto do Senhor não foi feito de
qualquer maneira. Deus não deseja ser cultuado da maneira que o homem achar melhor.
Ele deixou prescrições bem nítidas para isso.

Conceito e definição do termo liturgia

 Liturgia: É uma palavra tomada do uso burocrático da Antiguidade, na qual,


designa de modo bem geral, o serviço público para a coletividade e,
particularmente o culto prestado por força de ofício. A Septuaginta faz uso dessa
palavra como termo técnico para designar culto1.
 No início da igreja cristã ainda não se usava o termo. Posteriormente a palavra
entrará no uso eclesiástico, sendo, muitas vezes, sinônimo de culto. Sua
ocorrência se faz pela igreja grega que a utiliza para designar a celebração da
Eucaristia. Aparece no meio reformado em 1531. Em 1817 um luterano chamado
Frederico Guilherme III já intitula a ordem do culto principal com o termo liturgia2.
 A chamada ciência litúrgica tem ganho mais notoriedade ultimamente,
principalmente no meio protestante. Infelizmente, os católicos romanos e ortodoxos
parecem ter mais cuidado com a liturgia.
 Os esforços mais determinantes são aqueles que tem conjugado a teologia com a
empiria, a soteriologia e a antropologia.
 Em face da crise do culto levanta-se a pergunta: O ser humano, no futuro, moldará
seu próprio culto? Pervertendo assim, segundo a convicção cristã, sua humanidade.
Ou será que o culto cristão conseguirá tornar-se para o ser humano lugar de
humanidade verdadeira, no qual encontrará salvação e realização, orientação e
direcionamento?

Algumas diretivas para se trabalhar o culto cristão:

 O culto é reunião da comunidade no contexto do tempo e do cotidiano.


 Na liturgia acontece comunicação: um conceito antropológico que se torna um

1 Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2011,


pg.23.
2 Idem.
3

princípio teológico fundamental.


 A comunicação realiza-se em símbolos (ritual, sacramento e mistério)
 A anamnese (judaico-cristã) garante o culto como acontecimento salvífico e
funciona ao mesmo tempo, como controle da referência ao mundo.
 É preciso voltar a tomar consciência da dimensão trinitária do culto.

O culto cristão: Fenômeno e definição do culto cristão.

Para se falar de modo inteligente sobre culto cristão, é preciso decidir primeiro o
que o termo significa exatamente. Não é uma expressão fácil de se definir. Mas, enquanto
não se fizer uma reflexão sobre o que distingue o culto cristão autêntico, é fácil confundir
esse culto com acréscimos irrelevantes de culturas atuais ou passadas em que os
cristãos celebraram culto3.
Como definir a própria palavra culto já é bem complicado. Como distingui-lo de
outras atividades humanas, principalmente aquelas que são repetidas com frequência?
Como diferenciar o culto das atividades humanas, ou mesmo, de atividades piedosas
como os atos caridosos, as reuniões de sociedades, a educação cristã etc.
Também é importante levar em consideração o que queremos dizer com culto,
como vamos determinar o que torna tal culto cristão ou não. Muitas comunidades
adicionaram outras formas e elementos ao culto, será que desfiguraram o culto? Quais
características tornam esse ou aquele culto cristão?
Nenhuma dessas questões é fácil de se responder. É claro que precisam ser
examinadas com atenção para não se cair num criticismo estéril. Mas, quem lida com o
planejamento, ordem e condução do culto precisa ter uma definição bem nítida do que
pode ser ou não um culto cristão.
Uma das melhores maneiras de se entender o culto cristão e a observação. Nela,
podemos esboçar as formas visíveis do culto e imaginar como um observador alheio ao
meio cristão compreenderia o que está acontecendo diante de seus olhos. Se você
pensar que normalmente as estruturas do culto cristão são bem definidas e sólidas e
notavelmente estáveis e permanentes. Ao longo dos séculos não há grandes mudanças
no culto na maioria dos ramos cristãos. Podemos dizer que o culto cristão estrutura-se no
tempo, Temos um dia específico para cultuar com horário e espaço definido.
Falando dos atos do culto temos orações, louvor, leitura e pregação da Palavra
além da administração dos sacramentos. Mas, a marca distintiva do culto é ser

3 White, James F. - Introdução ao Culto Cristão – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2ª edição 2005, pg.11.
4

cristológico. Todo seu esboço traz consigo o evento Cristo. O culto cristão está ligado
diretamente aos eventos da história da salvação. Cada evento nesse culto está vinculado
ao tempo e à história enquanto faz ponte para nosso presente. O núcleo do culto é Deus
agindo para dar sua vida ao ser humano e para levar o ser humano a essa vida. Por isso,
tudo que fazemos como indivíduos ou como igreja é afetado pelo culto. A vida cristã é
uma vida litúrgica4.
O culto cristão é a auto-revelação de Deus em Jesus Cristo e a resposta do ser
humano, ou uma ação dupla: a ação de Deus para com a alma humana em Jesus Cristo e
a ação responsiva do ser humano através de Jesus Cristo5. Por meio de Sua Palavra,
Deus revela e comunica seu próprio ser ao ser humano. Para o professor Paul W. Hoon 6
(1910-2000), as palavras chaves para o culto cristão são: revelação e resposta e no
centro de ambas Cristo.
Para J.J von Allmen 7 (1917-1994), o culto cristão “resume e confirma sempre de
novo a história da salvação cujo ponto culminante se encontra na intervenção encarnada
do Cristo. Nesse resumo e confirmação reiterados, o Cristo continua sua obra salvadora
por meio do Espírito Santo. Tal culto está estreitamente ligado à crônica bíblica dos
eventos salvíficos. Ele proporciona uma síntese renovada do que Deus fez e uma
antecipação do que ainda virá a ser8.”
O culto cristão se caracteriza pela “concepção do cultuante a respeito de Deus”.
Ele se distingue por ser “sempre condicionado pela crença cristã; e particularmente pela
crença sobre a natureza e ação de Deus, resumida nos grandes dogmas da Trindade e
da encarnação”. Outra característica do culto é sua raiz social, ou seja, ele nuca é um
empreendimento solitário9. O culto não é primordialmente iniciativa do ser humano, mas
ato redentor de Deus em Cristo por meio do Espírito Santo. Ser cristão é ter a natureza
essencialmente comunitária, ser cristão significa estar na comunidade, na igreja.
O alvo do culto cristão é o Deus uno, Pai, Filho e Espírito Santo. Este mesmo
Deus é a origem do culto e Ele mesmo capacita os cultuantes para a celebração do
mesmo: Deus chama suas criaturas humanas para o culto e possibilita-lhes cumprir essa
vocação. Tarefa essa que só pode ser cumprida mediante a obra redentora de Jesus e o
poder renovador do Espírito Santo10.

4 Idem, pg. 15.


5 Idem.
6 Paul W. Hoon era pastor Metodista e professor de teologia. Lançou livros sobre liturgia.
7 Jean-Jacques von Allmen, professor de teologia, pastor reformado autor de vários livros um dos tais
sobre o culto cristão – O culto cristão
8 Apud (Culto Cristão -Teologia e Prática, Aste 1968, pg.32) , pg. 16.
9 Passim.
10
Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2011,
5

Essas definições, além de nortear, nos ajudam a entender a seriedade com que se
deve tratar o evento central de nossa vivência cristã, o culto. A reunião solene dos filhos
de Deus em adoração e recapitulação dos eventos salvíficos deve ser transformadora e
desafiadora. Transformadora no sentido em que o culto deve sempre promover
transformação do indivíduo através do relacionamento com Deus; e também desafiadora,
pois, deve nos levar a aceitação do desafio de viver segundo a vontade de Deus.

Diversidade na expressão do culto

Quando pensamos no culto somos impelidos a reconhecer que há uma variedade


de maneiras que são usadas para cultuar o Senhor. Se olharmos para dentro da IPB
veremos quão diversificada ela é. Podemos entrar numa igreja na baixada fluminense e
depois ir a outra igreja na capital do estado e perceber uma grande diferença. Cânticos,
hinos, liturgia tudo pode parecer bem diferente uma das outras. Isso em termos de IPB
imagine se olharmos outras denominações.
Certamente há unidade básica suficiente para afirmarmos, em termos gerais, uma
unidade cultual. Temos de levar em consideração o fator cultural e a singularidade de
cada comunidade. O culto cristão é uma mistura de constância e diversidade.
Basicamente usamos as mesmas estruturas e ofícios por 2 mil anos; entretanto, pessoas
de lugares diferentes praticam as mesmas estruturas de forma diferente. A diversidade
deve ser encarada de maneira positiva.
Na realidade, a diversidade não é nada nova no culto cristão. Mesmo nos
primeiros textos litúrgicos enxergaram-se maneiras diferentes de afirmar as mesmas
coisas. Quer princípios teológicos, quer necessidades humanas. As diferenças são
reflexos da variedade de pessoas e ou grupos.
Logo, lidar com a diversidade não é problema. A questão é se identificamos
práticas que são basilares do culto cristão. Falando novamente da IPB temos uma
estrutura litúrgica que geralmente aparece como espinha dorsal na maioria de nossas
igrejas. Mesmo que haja diferenças na condução, da escolha de hinos e cânticos, nos
textos lidos na liturgia, na harmonização ou não desses textos com o do sermão,
percebemos uma harmonia na forma do culto.
Temos certa dificuldade quando faltam elementos que fazem essa harmonia.

pg.104.
6

Nossa estrutura básica costuma ser: adoração, contrição, dedicação e proclamação da


Palavra. Quando sentimos falta de um desses elementos parece que falta algo. Apesar de
a diversidade ser natural a harmonia também é bem vinda. Uma espinha dorsal básica
traz o benefício de ao entrarmos em qualquer IPB no país e nos sentirmos em “casa”. Daí
um grande sentimento de corpo. Harmonia também expressa identidade.
Como pessoas que lidam com a liturgia devemos ser sensíveis na confecção dela
mesclando características singulares da nossa comunidade com aquilo que é comum em
todas as igrejas presbiterianas do Brasil.

A linguagem do tempo

Nossa vida civil é toda estruturada dentro do que chamamos calendário civil.
Marcamos nossas festas, nossas obrigações, nossos compromissos todos baseados na
estrutura temporal utilizada, ou seja, o calendário 11 civil. Nos organizamos dentro do
calendário (chamado calendário Gregoriano)12, de Janeiro a Dezembro ocupamos nosso
tempo, seja com estudo, trabalho, lazer ou férias.
Nada melhor para se investigar as estruturas básicas do culto cristão do que
perceber como os cristãos usam o tempo como linguagem para expressar seu culto. A
centralidade do tempo no culto cristão diz muito tanto sobre o próprio cristianismo quanto
sobre o culto cristão. Ela nos diz que o cristianismo leva o tempo a sério. É na história que
Deus se faz conhecido. É no tempo que Ele faz suas intervenções no curso de vida da
humanidade. Sem tempo não há conhecimento do Deus cristão, pois, é por meio de
eventos efetivos acontecidos no tempo histórico que Ele se revela. Deus opta por tornar
conhecidas suas obras dentro do mesmo calendário civil que regula o cotidiano das
pessoas, da vida diária de homens e mulheres comuns, assim, como eu e você. Um
exemplo bem simples de que Deus usa o curso temporal “No ano da morte do rei Uzias,
eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes
enchiam o templo”. Is 6.1; “Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote

11 Calendário: é um sistema para contagem e agrupamento de dias que visa atender, principalmente, às
necessidades civis e religiosas de uma cultura. A palavra deriva do latim calendarium ou livro de registro,
que por sua vez derivou de calendae, que indicava o primeiro dia de um mês romano. As unidades
principais de agrupamento são o mês e o ano. Fonte: Wikipédia
12 calendário gregoriano:é um calendário de origem europeia, utilizado oficialmente pela maioria dos
países. Foi promulgado pelo Papa Gregório XIII1(1502–1585)em 24 de Fevereiro do ano 1582 pela bula
Inter gravíssimas em substituição do calendário juliano implantado pelo líder romano Júlio César (100–
44 a.C.) em 46 a.C. Fonte: Wikipédia
7

chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão e se chamava
Isabel”. Lc 1.5
Falar de salvação para o cristianismo não é falar de algo que ocorreu sabe-se lá
quando, e nem se sabe aonde. O plano redentivo de Deus tem seu lugar histórico bem
demarcado. A atuação de Jesus nesse mundo também foi marcado temporalmente dentro
do se usava como marcação de dias. Jesus participa das festas do calendário judaico, vai
a sinagoga no sábado. Logo, o tempo faz parte do cotidiano da fé também.
Diante disto, podemos enxergar no tempo um poderoso aliado na comunicação da
fé. Normalmente usamos apenas datas como, Natal e Páscoa e nos esquecemos que há
outras datas importantes para a cristandade que podem ser utilizadas para a
comunicação das verdades do Evangelho. Digo Natal e Páscoa, mas há aqueles que não
conseguem enxergar a oportunidade que se abre para a pregação do verdadeiro
significado destas datas e abrem mão delas com argumentos pequenos e desprovidos de
sensibilidade. Dizem alguns que são datas pagãs e comerciais e se esquecem que de
uma forma ou de outra Cristo está sendo pregado e cabe a nós fazê-lo da forma correta.
O tempo deve ser usado pela igreja para a divulgação das verdades bíblicas a todos.
A maneira como usamos nosso tempo diz muito daquilo que temos como
primordial e importante em nossas vidas. Sempre encontramos tempo para nossas
prioridades, datas especiais, eventos de nossa história. Separamos datas para eventos de
nossa vida: aniversário, bodas, passeios etc. Claro, não há nada de errado nisto. Deve
ser assim mesmo. Imagine esquecer o aniversário de casamento, que problema! O tempo
fala daquilo que nos importa. Quando damos nosso tempo a outros dizemos que eles são
importantes para nós. O tempo, então, expõe escancarada e involuntariamente as nossas
prioridades. Ele revela o que mais valorizamos pela forma como administramos esse
recurso limitado.
A mesma coisa se aplica a igreja! A igreja mostra o que mais importa para sua
vida pela forma como observa o tempo. Aqui, mais uma vez, o uso do tempo revela nossa
prioridade de fé e prática. Uma resposta para a pergunta: “Em que acreditam os cristãos?
Repare como administram seu tempo13.

A configuração do Tempo cristão

As partes mais antigas do Novo Testamento estão imbuídas de uma percepção

13 White, James F. - Introdução ao Culto Cristão – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2ª edição 2005, pg.39.
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do tempo como kairós, o tempo presente certo e oportuno em que Deus realizou uma
nova dimensão na realidade: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo;
arrependei-vos e crede no evangelho”. Mc 1.15. Não obstante, percebemos já no NT uma
tendência a olhar para trás, a lembrar o tempo passado no qual coisas tinham acontecido.
A esperança escatológica, isto é, a crença de que o tempo final estava por chegar, parece
desvanecer quando Lucas escreve seu Evangelho e quando inicia a escrita da história da
igreja como livros dos atos dos Apóstolos. A lembrança passa a ser quase tão importante
quanto a antecipação, mesmo antes de terminar o século 114.
As prioridades da fé da igreja antiga são reveladas na maneira como os cristãos
dos séculos 2,3 e 4 organizavam o tempo. Isto não era sistemático ou planeja, a princípio,
mas era simplesmente a resposta espontânea da igreja “aos fatos que entre nós se
realizaram” (Lc 1.1). O mesmo tipo de resposta estimulou a escrita dos Evangelhos para
que outros pudessem seguir “as tradições conforme nos transmitiram os que desde o
princípio foram testemunhas oculares daqueles fatos e ministros da Palavra” (Lc 1.2).
A estruturação do tempo não foi tão sistemática quanto os esforços dos
evangelistas para oferecer “uma exposição em ordem” (Lc 1.3), mas teve uma influência
em moldar as memórias cristãs quanto os Evangelhos escritos. Assim sendo, para os
cristãos a Páscoa é um evento anual tanto quanto uma narrativa escrita. O Natal é muito
mais uma ocorrência anual do que uma história de nascimento 15. A história de como a
igreja antiga observou o tempo pode ajudar-nos a reconsiderar nossas prioridades.
Há indícios no NT de que desde o início os cristãos se reuniam no domingo. O
primeiro plano de organizar o tempo ao redor dos eventos da vida de Cristo surgiram a
partir da semana. A comunidade reunia-se no domingo. Em pelo menos três lugares o NT
indica um tempo especial para seus encontros de culto: Paulo diz aos coríntios para
separar dinheiro para a coleta do primeiro dia da semana 1 Co 16.2; Em Trôade, depois
de falar até a meia-noite de sábado, Paulo reparte o pão (presumivelmente a Eucaristia),
e continuou conversando com os cristãos ali até a madrugada de domingo At 20.7-11.
João nos diz que achava-se em espírito e isso aconteceu no dia do Senhor Ap 1.10. Ao
final do primeiro século o termo “dia do Senhor” se transformará num termo cristão para
designar o primeiro dia da semana. Inácio, bispo de Antioquia escreveu em 115 d.C aos
cristãos em Magnésia, falando daqueles que deixaram de guardar o sábado, mas viviam
segundo o dia do Senhor, no qual nossa vida se levantou por Ele e Sua morte 16 . A
Didaquê, uma ordem escrita em fins do sec.1 ou no início do sec.2, admoesta literalmente:

14 Idem.
15 Idem.
16 Passim.
9

Reuni-vos no dia do Senhor, para a fração do pão e (…) celebrai a Eucaristia. Até mesmo
pagãos perceberam que os cristãos reuniam-se num determinado dia. Plínio, o
administrador romano da Bitínia disse que os cristãos “costumavam reunir-se antes do
raiar do dia”.
O domingo sobressaia sobre todos os dias da semana como o aniversário
semanal da ressurreição do Senhor. Com o passar do tempo o restante dos dias foram
ganhando também alguma importância na vida de fé das comunidades cristãs. A Didaquê
instruía os cristãos a orarem o Pai-Nosso três vezes ao dia. Muito cedo percebeu-se que
o tempo exaltava a Jesus e Sua obra redentora. Então, se o domingo celebrava a Jesus
Cristo e os dias da semana serviam como prelúdio do dia de celebração nada mais
natural do que estender essa ideia para o ano todo. Surge então o chamado ano cristão,
ou calendário litúrgico, ou ainda ano eclesiástico, para se fazer uma estrutura macro para
a celebração da vida de Cristo em todo ao ano. Assim como o domingo era o centro da
semana em relação ao ano a Páscoa era o ponto culminante. A passagem de 1 Co 5.7-8
é o principal indício da observância da Páscoa pelos cristãos já na igreja do NT.

Páscoa

No início do sec. 4 a igreja convencionou que, diferentemente da Páscoa judaica


que podia cair em qualquer dia da semana, a Páscoa cristã deveria ser celebrada num
domingo. A partir daí começou-se a estruturar uma forma de abarcar a vida de Jesus ao
longo do ano. As primeiras datas cristãs estão ligadas à Páscoa, são elas, Domingo de
Ramos/Domingo da Paixão que é o primeiro dia da Semana Santa, depois Quinta-feira
Santa e Sexta-feira Santa, Sábado de Aleluia e o Domingo da Páscoa. Durante esse
período os cristãos andavam pelos locais onde o Evangelho indica que Jesus esteve em
sua última semana e lembram-se desses eventos com cultos e orações. No Domingo de
Ramos eles cantavam “Hosana ao que vem em Nome do Senhor!”, depois passavam pelo
Getsêmani, no Monte das Oliveiras liam o texto que fala da traição de Judas. Na sexta-
feira celebravam cultos no Gólgota e no domingo celebravam a ressurreição.

Quaresma

Com a celebração da Páscoa surgiu também a Quaresma e o Tempo Pascal. A


Quaresma é um período 40 dias (os domingos da Quaresma não são contados), onde os
10

cristãos se voltam para o arrependimento de seus pecados, jejuns, orações e dedicação


maior a Deus através de leitura bíblica e momentos de devoção. Por volta do sec.11 a
Quaresma passa a ter seu início na chamada quarta-feira de cinzas, que é chamada
assim devido ao costume de aplicar cinzas nas testas dos cristãos como sinal de
arrependimento e reconhecimento de não serem nada sem Deus.

Tempo Pascal

Posteriormente à Páscoa vem o chamado Tempo Pascal, considerado mais


importante do que a Quaresma, os 50 dias a estender a celebração da Páscoa até o Dia
de Pentecostes, Esse tempo era, no início, bem mais importante que os 40 dias da
Quaresma. Parece que hoje algumas tradições valorizam mais a Quaresma, tempo de
resignação e pesar, em vez da Páscoa, tempo de alegria e regozijo. O Tempo Pascal
garante e centralidade da ressurreição como centro da vida cristã antiga, e deve, claro,
sê-lo também hoje em dia. Nesse tempo sentimos a ressonância da ressurreição não
apenas num domingo, mas durante um tempo mostrando como ela nos transformou.
No final do sec. 4 entrou um terceiro evento no calendário era a Epifania. A
Epifania (manifestação de Deus), significava várias coisas, e todas elas ligadas a
manifestação de Deus através de Jesus Cristo. Esta referia-se ao nascimento de Jesus,
ao batismo de Jesus e ao primeiro milagre “Com este, deu Jesus princípio a seus sinais
em Caná da Galiléia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele . ” Jo 2.11.
Aos poucos surgiu uma nova data o Natal e, com isso, a Epifania passou para apenas um
dia no calendário da igreja.

Natal

No Natal celebra-se a encarnação do Verbo. Neste período a igreja não somente


reconhece o amor de Jesus em deixar os céus em tornar-se homem, mas também toda a
transformação advinda da encarnação. Uma nova maneira de se enxergar Deus surge
com a chegada de Jesus. O Deus altamente transcendente do Antigo Testamento que
sequer podia ser visto sem o risco de morte, agora, revela seu rosto, permite-se não
somente ser visto, mas também ser tocado. O Deus que Moisés tinha de subir ao monte
para se relacionar, desce dos céus para viver como os homens.

Advento
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Anexo ao Natal surge o período do Advento (chegada), onde a igreja se prepara


para a encarnação sentindo a expectativa da dádiva de Cristo no mundo. Nesse período
os cristãos aguardam com grande alegria a celebração do Natal. O Advento é a
expectativa da chegada da Luz ao mundo e o divisor de águas que essa Luz representa.

Teologia a partir do Ano Cristão

Por trás da arrumação do tempo para a igreja há uma didática e uma teologia.
Essas datas não foram simplesmente colocadas aleatoriamente para serem celebradas.
Elas foram pensadas como meio para fixar nos cristãos os eventos da vida de Jesus. Um
elemento fundamental do ano cristão é que tudo já está feito em nosso favor. Tudo que
precisamos fazer é aceitar o que Deus fez. O ano da igreja sublinha a futilidade de nossos
esforços e exalta as ações de Deus na história da humanidade. Eventos que mudaram
nossa própria vida. O calendário litúrgico traz a lembrança constante das dádivas divinas
sobre nós. Todas as ações do Criador em Seu plano redentivo. Ao longo do ano os
diversos dias e períodos trazem para a igreja a recordação da salvação recebida sem
mérito algum e que devemos levar uma vida condizente com tamanha Graça.
Em termos bem diretos, o ano da Graça da igreja opera de modo a manifestar
Cristo até que Ele volte, testemunhando que enquanto isso o Espírito Santo habita a
igreja. O ano litúrgico é tanto proclamação quanto ação de graças. Ano após ano, semana
após semana e dia após dia as ações de Deus são exaltadas e nossa compreensão deles
é aprofundada.
Como o tempo pode nos aproximar de Deus? Se bem entendido o ano cristão é
uma forma de revivermos os eventos e tudo aquilo que é importante na história da
salvação. Ao reviver o passado de nossa salvação os mantemos vivos em seu poder atual
de salvar. Claro, não de maneira mágica, mas com a devida compreensão de quão
significantes eles são. Buscando com piedade verdadeira reconhecer os atos de Deus por
nós e nosso imerecimento por tão grande salvação17.
A teologia por trás do uso do calendário é a soberania de Deus em salvar e a
celebração dos eventos relacionados a essa salvação. Salvação essa que deve ser
comunicada a todo o tempo.
Em uma afirmação que ficou muito conhecida e tornou-se clássica, o Breve
Catecismo de Westminster (1647-8), define o “objetivo principal do ser humano” como

17 White, James F. - Introdução ao Culto Cristão – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2ª edição 2005, pg.54.
12

sendo “glorificar a Deus e alegrar-se (gozá-lo) Nele para sempre”. Esta é a linguagem do
culto: doxologia18 e celebração festiva. Estes elementos estão ligados entre si pelo fato da
humanidade somente encontrar a bem-aventurança na vida no louvor a Deus. Usufruir de
Deus é a fonte da vida verdadeira em consonância participatória com a essência, caráter
e vontade de Deus19.
O culto é uma expressão de amor a Deus e uma resposta humana ao amor de
Deus. O culto expressa também a condição de remissão dos cultuantes. Ele também
baseia-se na mudança ocorrida através do encontro com Cristo. Segundo Paulo, pode-se
compreender a queda no pecado em expressões litúrgicas. Em vez de louvar a Deus e
lhe dar graças, os seres humanos “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e
servindo a criatura, em lugar do Criador” Rm 1.18-25. O serviço a Deus foi pervertido em
serviço a imagens, culto a Deus tornou-se culto a ídolos. Calvino chamou o espírito
humano, depois da queda no pecado, “em todos os tempos (...) uma oficina de ídolos”
(Institutas I, 11,8). Assumir a fé cristã significa converter-se a Deus, deixando os ídolos
pra servi-lo somente, aguardando o seu Filho, a quem ele ressuscitou dentre os mortos,
Jesus, que nos livra da ira vindoura, 1 Ts 1.9s.
O sacramento do batismo, que diga-se, alguns não levam a sério, é um símbolo e
sinal da conversão e da renúncia a Satanás e suas obras. Mas, infelizmente, muitas
vezes o velho homem morre lentamente, pois, permanece encurvado sobre si, toda
idolatria e um pouco autoadoração. Por isso, a confissão de pecados jamais está distante
do culto cristão.
No culto cristão a lembrança da redenção nunca pode ser abandonada. Pois, sem
a redenção como cultuar a Deus? A contrição pode ser no início ou no meio da liturgia,
contudo, ela sempre estará presente.

Funcionamento do Ano Cristão

O ano cristão não é composto apenas de datas, ele se utiliza também de


linguagem não verbal. Na comunicação há símbolos verbais e não verbais. Símbolos
apontam para algo maior do que eles. Há toda uma simbologia envolvida no calendário

18
Forma de louvor a glória de Deus; enunciado de uma opinião comumente admitida. A doxologia não
pode vir desassociada da verdadeira adoração. Ela exige adoração. Na tradição da Igreja, foram-se fixando
desde os primeiros séculos várias fórmulas de doxologia, para uso litúrgico e da devoção popular, de que a
mais divulgada é “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo…”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Doxologia
19 Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2011,
pg.115.
13

litúrgico. Ele se vale de cores, imagens e temáticas para comunicar a salvação.


A linguagem simbólica em nosso país foi colocada completamente de lado.
Exemplo disso é a cruz. Muitas igrejas não a utilizam por verem nela uma estreita ligação
com a ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana), mas esquece-se que a cruz é um
símbolo cristão, ela não é privilégio e nem posse de nenhum ramo do cristianismo. Mas,
como o protestantismo brasileiro lida muito mal com símbolos excluímos a cruz de nossas
igrejas.
Abrimos mão do que a cruz representa e toda a sua comunicação não verbal
incontestável por querermos ser diferentes naquilo que não precisamos.
Se isso acontece com a cruz podemos imaginar com outras coisas. Desta forma
perdemos toda a força da comunicação através dos símbolos. O ano cristão faz uso de
símbolos, por exemplo, estamos na Quaresma, a cor dela é o roxo que por sua vez
simboliza a penitência, o arrependimento, a necessidade de conversão diária. A ideia é
que ao olharmos os paramentos na cor roxa façamos a ligação com o período e assim
apliquemos em nosso cotidiano atitudes vinculadas ao símbolo.
Logo, o funcionamento do ano cristão está ligado à teologia e a comunicação não
verbal.
Abaixo segue uma representação do calendário litúrgico protestante.

As cores são de acordo com o período:


14

Branco: Datas cristológicas


Roxo: Quaresma e Advento
Vermelho: Pentecostes e festas da igreja como aniversário, Reforma, ordenações etc.
Dourado: Ressurreição e Cristo Rei
Verde: Tempo Comum ou Tempo da igreja.
Azul: Na tradição protestante é usado no Advento.
Preto: Ou ausência de cor, ou usado na sexta-feira da Paixão.
Tudo isso deve ser usado de forma didática e de maneira a servir como meio de fixação da
vida de Cristo para a igreja.

Liturgia comparada

1. Culto no contexto ortodoxo

A Igreja Ortodoxa (do grego όρθος, transl. órtos: reto, correto, e δόξα, transl. dóxa:
doutrina, opinião; literalmente, “igreja da opinião correta”) ou Igreja Católica Ortodoxa1 2 é
uma comunhão e igrejas cristãs autocéfalas, herdeiras da cristandade do Império
Bizantino, que reconhece o primado de honra do Patriarcado Ecumênico de
Constantinopla desde que a sede de Roma deixou de comungar com a ortodoxia.
Reivindica ser a continuidade da Igreja fundada por Jesus, considerando seus líderes
como sucessores dos apóstolos.

A Igreja Ortodoxa tem aproximadamente dois mil anos, contando-se a partir da


Igreja Primitiva, e aproximadamente mil anos, contando-se a partir do Cisma do Oriente
ou Grande Cisma, em 1054. Desde então, os ortodoxos não reconhecem a primazia papal,
a cláusula filioque, não aceitam os dogmas proclamados pela Igreja Católica Romana em
séculos recentes, tais como a Imaculada Conceição e a infalibilidade papal. Também não
consideram válidos os sacramentos ministrados por outras confissões cristãs20.

Há multiplicidade de culto na igreja antiga, contudo, aquelas igrejas ortodoxas que


seguem a prática litúrgica Bizantina, cuja configuração foi concebida nos séculos 13/14 da
nossa era. Seguem o conceito de um culto onde não há apenas uma doutrina correta
(orto), mas primordialmente um louvor correto (dóxa). “O culto é a vida genuína da igreja”
- tanto a religiosidade do povo da igreja quanto o trabalho da teologia são sustentados por

20 Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Ortodoxa
15

ele. No culto acontece o ser igreja. O que importa no culto ortodoxo, sobretudo, no
sacramento da Eucaristia, não é tanto a apreensão através do entendimento, mas antes a
atualização do divino como fundamento dum “andar na graça”, do estar em Cristo:
atualização da ação salvífica de Deus desde a criação com a renovação da humanidade
pecaminosa pela encarnação do Filho, pela cruz e ressurreição no Espírito Santo;
experiência da comunhão do corpo de Cristo como comunhão – abrangendo o céu e a
terra, abarcando o tempo e espaço – dos membros do corpo com seu Senhor bem como
dos membros entre si na igreja enquanto comunidade do novo ser voltado para a
consumação futura21.

O culto ortodoxo não é só anúncio da salvação vinda em Cristo, mas, em sua ação
representadora, outorga da salvação para transfigurar, divinizar o ser humano e, junto
com ele, o cosmo todo. Neste contexto, a divinização é entendida principalmente sobre
dois pontos de vista mutuamente relacionados. A afirmação do bispo alexandrino
Atanásio Magno (em 373), de que o Logos de Deus “se tornou ser humano para que nós
fôssemos divinizados”, explicada por ele mesmo “O Verbo tornou-se portador da carne
para que os seres humanos pudessem ser portadores do Espírito”.

Existem distintos volumes de textos litúrgicos para a celebração da liturgia, do


culto matutino e vespertino, para a ministração dos sacramentos e os diversos atos de
consagração.

Para os cristãos ortodoxos um culto sem canto é inconcebível. A ortodoxia


cunhada por Bizâncio atém-se à música vocal pura, À Palavra cantada sem
acompanhamento instrumental. O texto litúrgico, a música litúrgica estão sintonizados
entre si. Há vários tipos de liturgia, para as várias ocasiões do ano. Há a liturgia Divina, a
dos Fiéis, a dos catecúmenos, a da Vigília e das ofertas pré-consagradas.

Igreja Ortodoxa adora a Deus com o mesmo espírito com o qual ele é adorado no
Céu (segundo as revelações presentes em Isaías, Ezequiel e no Apocalipse). Isso supõe
a utilização de elementos externos como o incenso, as velas, as vestes litúrgicas, as
prostrações, do momento em que adorar a Deus na terra comporta uma experiência que
envolve também o corpo. A Igreja venera a cruz, os evangelhos, as imagens de Cristo e,
por extensão, todos os ícones dos santos. Prestando-lhes homenagem, o fiel se volta ao
Protótipo por ele representado (Cristo).

Todo ato litúrgico da Igreja Ortodoxa não é, absolutamente, vivido como uma

21 Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS,


2011, pg.187.
16

ostentação triunfalística, pois os sinais servem para convidar o fiel a voltar o próprio
olhar sobre si e não para fora de si. A Liturgia não quer atingir a imaginação nem seu
fim é doutrinar e submeter os fiéis ao poder de outros homens que decidam por eles. A
Igreja e a Liturgia outra coisa não são do que um ambiente no qual saímos de nós
fisicamente e espiritualmente para conseguir sempre mais e sempre melhor voltar o
próprio olhar em si mesmo, lugar no qual Deus se revela. Para tal fim, é indispensável
abrir os olhos do coração, isto é, da própria interioridade.

O primeiro exercício que o fiel deve cumprir é o de afastar-se dos pensamentos e


das fantasias da vida mundana, fazer um profundo silêncio sobre si. Somente assim
os sinais e os símbolos litúrgicos começam a interpelar e a interagir com a
interioridade do homem.

A Liturgia, com os seus gestos e palavras, entra, envolve e “prende” o cristão de


dentro para fora. O resultado é aquele de sentir de maneira clara e sensível a
intervenção de algo novo, de uma força anteriormente desconhecida. Tal força, que se
faz sentir claramente em quem começa a abrir os olhos diante deste tipo de
experiência, tradicionalmente é chamado pela Igreja com o termo “Graça”. É somente
assim que a Igreja, em lugar de ser transformada pelo mundo, transforma o mundo e,
através do culto prestado a Deus, confessa aquilo que crê e que vive, terminando por
irradiar uma realidade que não é humana (“Eu vos dou a paz, minha paz eu vos dou.
Não como o mundo a dá, eu a dou para vós...” Jo 14,27).

Na Liturgia, a beleza não é somente um ícone da glória de Deus porque foi


dedicada a Deus. Por “dedicada” deve-se entender literalmente “oferta a Deus como
oferta sacrifical”. No seio da Liturgia o homem é chamado a render a Deus tudo aquilo
que faz parte de sua vida, tudo o que a torna preciosa, tudo quanto constitui um dom de
Deus e o transforma em ação de graças.

Ora, o sentido do belo é certamente o sinal mais profundo da imagem divina no


homem. Manifestando a beleza litúrgica em todos os seus aspectos, o homem não
oferece a Deus apenas os talentos que Ele lhe deu para multiplicar, mas realiza
também aquela capacidade inestimável de poder maravilhar-se diante da beleza
plasmada pelo homem para ser ícone de Deus 22.

Abaixo uma amostra da liturgia da Igreja Ortodoxa Grega.

A DIVINA LITURGIA DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

22 http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/liturgia/a_liturgia_da_igreja_ortodoxa.html
17

ORAÇÕES DIANTE DO ALTAR

De braços abertos diante do Altar, o Sacerdote pede a assistência do Espírito Santo, dizendo em voz baixa:
PRESB.: Rei celestial, Consolador, Espírito da verdade, tu que estás presente em tudo e enches tudo, Tesouro dos bens
e Doador da vida, vem e habita em nós, purifica-nos de toda a impureza e salva as nossas almas, Tu que és bom!
E, fazendo três reverências diante do Altar, em voz baixa:
PRESB.: Glória a Deus no mais alto dos céus, paz na terra e benevolência aos homens! (2x)
PRESB.: Abre , Senhor, os meus lábios e a minha boca proclamará o teu louvor.
Em seguida, beija o Evangeliário e o Altar e, traçando verticalmente com ele o sinal da Cruz sobre o Antimênsion, canta
em alta voz:
DIAC.: Abençoa, Mestre!

PRESB.: Bendito e glorificado seja o Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos
séculos.

CORO: Amém!

GRANDE LITANIA PELA PAZ

O Sacerdote canta uma série de intercessões da “Grande Súplica da Paz”, também conhecida como “Irinicá”. A cada
pedido todos responde cantando: “Senhor tem piedade”
PRESB.: Em Paz, oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Para que Ele nos conceda a Paz celeste e a salvação das nossas almas, oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Para que reina a Paz no Universo, pela prosperidade das Santas Igrejas de Deus e pela união de todos, oremos
ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Por esta Santa Igreja e por todos os que nela entram com fé, devoção e temor de Deus, oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Pelo nosso santo pai na fé o Primaz do Santo Sínodo de GOC’s da Bulgária, Metropolitano de Sofia e Toda a
Bulgária Sua Beatitude Gervásio, A DIVINA LITURGIA DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO

ORAÇÕES DIANTE DO ALTAR

De braços abertos diante do Altar, o Sacerdote pede a assistência do Espírito Santo, dizendo em voz baixa:
PRESB.: Rei celestial, Consolador, Espírito da verdade, tu que estás presente em tudo e enches tudo, Tesouro dos bens
e Doador da vida, vem e habita em nós, purifica-nos de toda a impureza e salva as nossas almas, Tu que és bom!

E, fazendo três reverências diante do Altar, em voz baixa:


PRESB.: Glória a Deus no mais alto dos céus, paz na terra e benevolência aos homens! (2x)

PRESB.: Abre , Senhor, os meus lábios e a minha boca proclamará o teu louvor.

Em seguida, beija o Evangeliário e o Altar e, traçando verticalmente com ele o sinal da Cruz sobre o Antimênsion,
canta em alta voz:
DIAC.: Abençoa, Mestre!

PRESB.: Bendito e glorificado seja o Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo, agora e sempre e pelos séculos dos sé
culos.

CORO: Amém!
18

AS BEM-AVENTURANÇAS

CORO: No teu reino, lembra-te de nós, Senhor!


Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os obreiros da paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sereis vós, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo gênero de calúnia contra
vós por minha causa; exultai e alegrai-vos, porque será grande
a vossa recompensa no reino dos céus.Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, agora e sempre, pelos séculos dos
sculos. Amém.
No teu reino, lembra-te de nós, Senhor!

PROCISSÃO DA PEQUENA ENTRADA

Enquanto o Coro canta as Bem-Aventuranças, o Sacerdote faz três reverências diante do Altar, toma o Evangeliário e,
precedido pelos ceroferários, cruciferário e turiferário, sai processionalmente do Santuário, passando no meio do povo;
chegando a frente às Portas Santas, faz uma reverência e reza silenciosamente, a oração que segue:

PRESB.: Ó Senhor, nosso Deus, que estabeleceste nos céus as legiões e exércitos de Anjos e Arcanjos para o serviço da
tua glória; concede que, juntamente com a nossa entrada, se realize também a dos teus santos Anjos que conosco
concelebram e glorificam a tua bondade.

E, em voz alta:

PRESB.: Pois a Ti pertence toda a glória, honra e adoração, Pai , Filho e Espírito Santo, agora e sempre, pelos séculos
dos séculos.

TODOS: Amém!

O Sacerdote abençoa a entrada, dizendo silenciosamente:


PRESB.: Bendita seja à entrada dos teus santos, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém!

E, levantando o Evangeliário, traça com ele o sinal da Cruz exortando:

PRESB.: Sabedoria , De pé!

CANTO DA ENTRADA

O Canto da Entrada, em determinadas solenidades, é próprio. Aos domingos e dias da semana, canta-se o seguinte hino:

PRESB.: Vinde, adoremos e prostremo-nos ante o Cristo!

CORO: Salva-nos, ó Filho de Deus, que ressuscitaste dentre os mortos , a nós que a Ti cantamos: Aleluia! [Ou a
invocação própria da Festa do Dia].

CORO: Os Anjos nos Céus, ó Cristo Salvador, cantam a Tua Ressurreição. Concede a nós que estamos na Terra, de Te
glorificar, com um coração puro.

E o Coro repete a segunda parte: “Salva-nos ó Filho de Deus...” Após uma reverência, o Sacerdote entra com o
Evangeliário no Santuário pelas Portas Santas depositando-o sobre o Altar.

TROPÁRIOS

Em seguida o Coro canta os tropários indicados no “Próprio”, depois o tropário do santo titular da igreja e, por fim, o
19

Kondakion. Nos dias comuns, termina com o Hino à Mãe de Deus.

TROPÁRIO DO SANTO PROTETOR SÃO CARALAMPO

CORO: Senhor, espero o teu perdão, concede-me enquanto ainda é tempo dá-me lágrimas para implorar a tua
misericórdia.
Tenho sede das tuas misericórdias sem elas, não posso vir oceano das misericórdias, submerge-me na tua bondade.
O dia declina, eis que as trevas me invadem sê para mim um Sol que me guiará de tarde em meu caminhar que o dia da
minha morte não me encontre fora da tua vinha.
Tu, ó bondade, digna-te acolher-me á hora da minha morte. Passei tempo demais na frivolidade, acolhe-me, no fim dos
meus dias, para que eu seja teu. O Príncipe do erro tentou matar-me, Senhor, és a minha força:
Derrama sobre mim teu remédio e serei curado. Ó Luz tens dissipado as trevas da terra, seja louvado, de manha e a
tarde. Durante o sossego da noite e ao amanhecer, desde o raiar do Sol seja glorificado com o teu Pai e teu Espírito
Santo. Amém!

HINO À SANTA MÃE DE DEUS

CORO: Ó admirável e protetora dos cristãos e nossa medianeira do Criador, não desprezes as súplicas de nenhum de nó
s pecadores, mas apressa-te em auxiliar-nos como Mãe bondosa que és, pois te invocamos com fé: roga por nós, junto
de Deus, tu que defendes sempre aqueles que te veneram.

Aos sábados, o Kondakion final é o seguinte (da festa de todos os santos):

CORO: Senhor, Autor da Criação, o Universo te oferece os mártires revestidos de Deus, como primícias da natureza.
Pelas suas orações, e em consideração à Mãe de Deus, guarda a tua Igreja sempre em paz, ó Bondoso!

LITURGIA DA PALAVRA

Enquanto o Coro canta o Tropário do Santo Protetor e o Hino à Mãe de Deus, o Sacerdote recita, em voz baixa:
PRESB.: Deus Santo, que habitas entre os santos, Tu que és exaltado pelos Serafins num hino três vezes santo, que és
glorificado pelos Querubins e adorado por todos os Poderes celestes; Tu, que tudo fizeste passar do nada à existência,
criando o ser humano à tua imagem e semelhança, adornando-o com todos os teus dons;
Tu, que dás sabedoria e inteligência a quem pede e não desprezas o pecador, mas estabeleceste a penitência como via
de salvação; Tu, que nos concedeste, a nós teus humildes e indignos servos, a graça de estarmos nesta hora diante do teu
glorioso e santo altar e prestarmos a honra e a adoração que te são devidas: Recebe, Soberano, de nossos lábios, de nós
que somos pecadores, o hino três vezes santo e visita-nos com a tua bondade; perdoa-nos nossas faltas, voluntárias e
involuntárias; santifica nossas almas e nossos corpos e concede-nos a graça de servir-te santamente todos os dias de
nossas vidas. Pelas intercessões da Santa Mãe de Deus e de todos os santos em quem, desde sempre, puseste a tua
divina complacência.

E, em voz alta:

PRESB.: Pois Tu és Santo, ó Deus, e nós te glorificamos, Pai , Filho e Espírito Santo, (e, voltando-se para o povo)
agora e sempre,pelos séculos dos séculos.

CORO: Amém!

TRISAGION

O Sacerdote, fazendo três reverências diante do Altar, recita o Triságion. O Coro, por sua vez, o canta:

CORO: Santo Deus , Santo Forte, Santo Imortal, tem piedade de nós! (3x)

Glória ao Pai , ao Filho e ao Espírito Santo, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

Santo Imortal, tem piedade de nós.

Santo Deus , Santo Forte, Santo Imortal, tem piedade de nós!


20

BÊNÇÃO DA CÁTEDRA

Em seguida, o Sacerdote abençoa a Cátedra colocada atrás do Altar e senta-se e recita-se em voz baixa reza, a seguinte
oração:
PRESB.: Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Tu és bendito no glorioso trono do teu reino, Tu que estás
sentado acima dos Querubins, agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém!

LEITURA DA EPÍSTOLA

DIAC.: Estejamos atentos!

PRESB.: A Paz esteja convosco.

CORO: E com o teu espírito.

DIÁC.: Sapiência!

LEITOR: Leitura da Epístola de N.

DIÁC.: Estejamos atentos!


Voltando-se para o povo, o leitor lê a Epístola.
PRESB.: A paz esteja contigo, leitor!

LEITOR: E com o teu espírito.

Concluída a leitura, o Coro canta o tríplice Aleluia.

CORO: Aleluia, Aleluia, Aleluia!

ORAÇÃO ANTES DO EVANGELHO

Durante o “Aleluia”, o Sacerdote, diante do Altar, em voz baixa, reza:


PRESB.: Ó Senhor, Deus de amor e bondade faze brilhar em nossos corações a luz incorruptível do teu conhecimento;
abre os olhos da nossa inteligência para que possamos compreender a mensagem do teu santo Evangelho.
Inspira, também, o temor aos teus mandamentos, a fim de que, reprimindo os desejos da carne, vivamos segundo o espí
rito, orientando todos os nossos atos de acordo com a tua vontade. Pois Tu és a luz de nossas almas e de nossos corpos,
ó Cristo nosso Deus, e nós te glorificamos, assim como ao teu eterno Pai e ao teu santíssimo, bom e vivificante Espí
rito, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém!

LEITURA DO SANTO EVANGELHO

O Sacerdote, fazendo uma reverência diante do Evangeliário, ergue-o e sai com ele pelas Portas Santas, dirigindo-se ao
ambão.
DIÁC.: Sapiência! De pé, escutemos o Santo Evangelho.
PRESB.: A paz esteja convosco!

CORO: E com o teu espírito.


DIÁC.: Leitura do Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo o Evangelista São N.

CORO: Glória a Ti, Senhor, glória a Ti!

PRESB.: Estejamos atentos!

O Sacerdote proclama o Evangelho do dia e, ao final, o coro responde:

CORO: Glória a Ti, Senhor, glória a Ti! (Eis polla eti Déspota)

Em seguida, o Sacerdote beija o livro santo e traça com ele um sinal da cruz sobre o povo, recolocando-o, agora, de pé
sobre o Altar.
HOMILIA
21

Quando for de costume, a homilia poderá ser feita no final da Liturgia.

LITANIA PELA IGREJA

DIAC.: Digamos com toda a nossa alma e com todo o nosso espírito.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

DIAC.: Senhor Todo Poderoso, Deus dos nossos Pais, nós Te pedimos, escuta-nos e tem piedade de nós.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

DIAC.: Tem piedade de nós, ó Deus, segundo a Tua grande misericórdia; nós Te suplicamos: escuta-nos e tem piedade
de nós.

TODOS: Kyrie, eléison! (3x) (Senhor tem piedade)

DIAC.: Pelo nosso santo pai na fé o Patriarca Filaret, pelo nosso Metropolita Iona, Arcebispo Primaz dos Estados
Unidos e por sua Excelência Reverendíssima Senhor Dom Kyrillos, Arcebispo Primaz do Brasil, pela venerável ordem
dos Presbíteros e Diáconos em Cristo, por todo o Clero e Fiéis ortodoxos, oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (3x) (Senhor tem piedade)

DIAC.: Oremos pela venerável ordem dos Presbíteros e Diáconos em Cristo, pelos Monges e por todos os Fiéis
Ortodoxos.

TODOS: Kyrie, eléison! (3x) (Senhor tem piedade)

DIAC.: Oremos pelos servos de Deus, pelos monges deste santo Mosteiro, os habitantes desta cidade, pedindo ao
Senhor que lhes conceda a misericórdia, a vida, a paz, a saúde, a salvação, a proteção e a remissão dos seus pecados.

TODOS: Kyrie, eléison! (3x) (Senhor tem piedade)

DIAC.: Oremos pelos fundadores desta santa igreja (Mosteiro), pelos nossos pais e irmãos defuntos que aqui repousam
e em toda a parte e por todos aqueles que no mundo inteiro professam a verdadeira fé.

TODOS: Kyrie, eléison! (3x) (Senhor tem piedade)

DIAC.: Oremos ainda por aqueles que oferecem os seus dons e os seus bens a esta santa e venerável igreja, por todos
aqueles que nela desempenham uma função, que nela cantam, e por tudo o povo presente que confia na Tua imensa
misericórdia.

TODOS: Kyrie, eléison! (3x) (Senhor tem piedade)


E, em voz baixa, o Sacerdote reza a oração da Súplica Insistente:
PRESB.:Ó Senhor, nosso Deus, acolhe esta fervorosa súplica, e tem piedade de nós, os teus servos segundo a grandeza
de tua bondade; derrama tua compaixão sobre todo o teu povo, que espera de Ti a infinita misericórdia.

PRESB.: Pois que Tu és um Deus misericordioso e Amigo do homem, nós Te glorificamos, Pai, +Filho e Espírito
Santo, agora e sempre e pelos séculos dos séculos.

TODOS: Amém!
pelo nosso Metropolita Sua Excelência Reverendíssima Senhor Dom Damaskinos, Secretário Geral do Santo Sínodo e
por sua Excelência Reverendíssima Senhor Eparca Kyrillos Alves, Arcebispo Administrador do Brasil, pela venerável
ordem dos Presbíteros e Diáconos em Cristo, por todo o Clero e Fiéis ortodoxos, oremos ao Senhor.
22

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Pela nossa Pátria e por aqueles que a governam, oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Por esta cidade (Santo Mosteiro) e por todas as cidades e países e pelos fiéis que aí vivem na fé, oremos ao
Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Pelos tempos favoráveis, pelos dias de paz e pela abundância dos frutos da terra, oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Por aqueles que viajam por mar, terra e ar, pelos doentes e aflitos, pelos prisioneiros e pela sua salvação,
oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Para que sejamos afastados da aflição, da tristeza, das vinganças do próximo, de todos os perigos, doenças e
necessidades, oremos ao Senhor.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Protege-nos, salva-nos, Senhor, tem piedade de nós e defende-nos pela Tua graça.

TODOS: Kyrie, eléison! (Senhor tem piedade)

PRESB.: Invocando a nossa Toda Santa, Toda Pura, Bendita e Gloriosa Soberana, a Mãe de Deus e sempre Virgem
Maria, assim como todos os Santos, entreguemo-nos todos e cada um de nós, em cada instante da nossa vida a Cristo,
nosso Deus.

TODOS: A Ti, Senhor!

PRESB.: Pois a Ti pertencem toda a Glória, Honra e Adoração, +Pai, Filho e Espírito Santo, agora e sempre e pelos
séculos dos séculos. Amém!

TODOS: Amém!23

2. Culto no contexto católico romano

A questão do culto na igreja católica mudou bastante no século 20. A mudança se


deve ao fato de pela primeira vez a compreensão de culto da Igreja Católica Romana
encontrar registro oficial, a saber, num documento do Concílio Vaticano II24 (1962-65), que
faz parte do grupo de documentos de máxima autoridade: a Constituição sobre a Sagrada
Liturgia Sacrosanctum Concilium. Ela foi aprovada em 1963 por 2147 votos a favor e

23
https://sites.google.com/site/igrejadegocdobrasil/ritos-liturgicos-completos
24
O Concílio Vaticano II (CVII), XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de
Dezembro de 1961, através da bula papal "Humanae salutis", pelo Papa João XXIII. Este
mesmo Papa inaugurou-o, a ritmo extraordinário, no dia 11 de outubro de 1962. O Concílio, realizado em 4
sessões, só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI. Nestas quatro sessões,
mais de 2 000 Prelados convocados de todo o planeta discutiram e regulamentaram vários temas da Igreja
Católica. As suas decisões estão expressas nas 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações elaboradas e
aprovadas pelo Concílio. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlio_Vaticano_II
23

apenas 4 votos contrários. Entre 1964 e 1969, foi realizada uma reforma total da Liturgia
Romana, a qual se fixou em livros litúrgicos publicados por Roma em latim.
Com o Vaticano II as celebrações cultuais ganharam alguma maleabilidade.
Passou-se a pensar na cultura e singularidade de cada local, claro, sem, contudo,
descaracterizar a Sagrada Liturgia que deve ser guia para as celebrações. Com isso a
uniformidade rígida de outrora deu lugar a algumas inovações.
A Missa, ou Celebração Eucarística, é um ato solene com que os católicos celebram
o sacrifício de Jesus Cristo na cruz, recordando a Última Ceia25. Talvez esse seja o aspecto
mais distinto do culto romano. A missa traz consigo uma vinculação com a morte de Jesus
colocando-a em primeiro plano. Podemos perceber isso na transcrição abaixo:
O Santo Sacrifício da Missa

O que é a Missa?
A missa é o sacrifício da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo que se realiza sobre o altar.

Como pode ser a Missa o sacrifício de Jesus se este morreu na Cruz há dois mil
anos?
Pelo rito da Santa Missa, o mesmo sacrifício realizado há dois mil anos torna-se presente
novamente, de um modo novo, um modo sacramental, ritual, incruento, ou seja, sem
derramamento do Sangue, mas verdadeiro e eficaz.

Porque dizemos que a missa é o mesmo sacrifício, presente de modo sacramental?


Por que nela aquele mesmo sacrifício de Jesus se apresenta diante de nós através de
sinais sensíveis que realizam a graça sacramental. Estes sinais, no caso da missa são as
espécies consagradas, o pão e o vinho que, na consagração, se transformam no Corpo e
Sangue de Jesus pelas palavras que o sacerdote pronuncia.

Porque dizemos que a Missa é um sacrifício eficaz?


Por que pela presença real de Jesus nós recebemos não apenas a graça sacramental da
Eucaristia, mas o autor mesmo da graça, Jesus Cristo, nosso Deus, a quem adoramos de
joelhos. A presença real de Jesus é a maior graça que uma alma pode receber nesta
vida26.
Para se entender melhor a missa transcreverei a mesma em sua liturgia mais
comum.
A DIVISÃO DA MISSA

A missa está dividida em 4 partes bem distintas:

1. Ritos Iniciais
Comentário Introdutório à missa do dia, Canto de Abertura, Acolhida, Antífona de Entrada,
Ato Penitencial, Hino de Louvor e Oração Coleta.

2. Rito da palavra

25
http://www.santamissa.com.br/missa_explicada/missa_explicada2.asp
26
http://www.capela.org.br/Missa/manual.htm
24

Primeira Leitura, Salmo Responsorial, Segunda Leitura, Aclamação ao Evangelho,


Proclamação do Evangelho, Homilia, Profissão de Fé e Oração da Comunidade.

3. Rito Sacramental
1ª Parte - Oferendas: Canto/Procissão das Oferendas, Orai Irmãos e Irmãs, e Oração
Sobre as Oferendas;
2ª Parte - Oração Eucarística: Prefácio, Santo, Consagração e Louvor Final;
3ª Parte - Comunhão: Pai Nosso, Abraço da Paz, Cordeiro de Deus, Canto/Distribuição da
Comunhão, Interiorização, Antífona da Comunhão e Oração após a Comunhão.

4. Ritos Finais
Mensagem, Comunicados da Comunidade, Canto de Ação de Graças e Bênção Final27.

3. Culto no contexto luterano

No luteranismo, a abordagem do culto sempre foi marcada pela pronta recepção da


grande tradição litúrgica cristã e, conjugadamente, de igual modo por certas tendências
conservadoras na prática local concreta. Ao mesmo tempo, pertence à abordagem
luterana uma crítica vigilante da tradição e a disposição de reordenar seus elementos, de
descarta-los ou acentuá-los de modo diferente, sempre que a clareza do Evangelho de
Jesus Cristo na celebração comunitária parece exigi-lo. Assim, toda a discussão sobre o
culto luterano deve levar em consideração ambos os elementos, conservação e crítica.
O culto luterano volta-se para uma conciliação de tradições: a substância católica e
o princípio protestante. Os escritos confessionais luteranos tomam um único artigo da fé
católica tradicional – justificação – e recomendam a todas as igrejas que também o
reconheçam como o “artigo com o qual a igreja subsiste ou cai” 28.
A liturgia no luteranismo pode ser vista como atualização desses enunciados. De
fato, para a compreensão luterana da liturgia, a doutrina da justificação é um instrumento
concreto da crítica que constantemente permite perguntar se uma prática recebida da
tradição apoia ou obstaculiza o Evangelho.
A recepção luterana da tradição pode ser reconhecida num simples encontro para
o culto numa igreja luterana. De um modo geral, igrejas luteranas “conservam a missa” e
frequentemente surpreendem outros cristãos quando estes dão conta do quanto, em
formas ocidental-católicas, foi acolhido e continua sendo utilizado até hoje nessas
comunidades protestantes. De forma geral as igrejas luteranas mantém a tradição litúrgica
ocidental. Elas têm o batismo como evento central da comunidade, ordenam presidentes

27
http://www.clerus.org/clerus/dati/2007-11/23-13/MISSA.html
28
Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2011,
pg.220.
25

da liturgia para a proclamação da Palavra e ministração dos sacramentos. Pronunciam o


perdão dos pecados na confissão individual e em ritos comunitários. Conservam o ano
eclesiástico e utilizam o lecionário trienal correspondente. Muitas comunidades utilizam
velas, incenso e vestimentas históricas29.
Segue abaixo uma amostra litúrgica luterana no contexto brasileiro:

A Liturgia tradicional na Igreja Luterana

Em outubro de 2000 foi aprovada a nova ordem do culto pela Igreja Evangélica de
Confissão Luterana no Brasil (IECLB), em seu XXI Concílio da Igreja, sediado em
Chapada dos Guimarães. Como não há uma unidade litúrgica entre os luteranos essa
ordem não deve ser generalizada entre todas as igrejas. A ordem é a seguinte30:

1. Liturgia de abertura

• Acolhida

• Cântico de entrada

• Saudação (apostólica ou trinitária)

• Confissão de pecados (de várias formas)

• Kyrie Eleison (lamento pelas dores do mundo)

• Glória in excelsis (louvor)

• Oração do dia

2. Liturgia da palavra

• Leituras bíblicas (Lecionário)

• Cânticos intermediários

• Pregação (interpretação)

• Confissão de fé

• Comunicações (que implicam a oração da Igreja)

• Oração de intercessão

3. Liturgia da eucaristia

• Preparo da mesa e ofertório (levar elementos da Ceia e recolher as ofertas)

29
Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2011,
pg.222.
30
http://www.luteranos.com.br/conteudo/liturgia-1
26

• Oração do ofertório

• Oração Eucarística

• Pai-Nosso

• Gesto da paz

• Fração

• Cordeiro de Deus

• Comunhão

• Oração pós-comunhão

4. Liturgia de despedida

• Avisos comunitários

• Benção

• Envio

O interessante é que, além de ter semelhanças com a estrutura do culto católico


latino (Reformado ou pré-1969), existem paróquias luteranas (não no Brasil) que mantêm
uma liturgia ainda mais próxima do rito gregoriano (não apenas as estruturas, mas
também as orações, posições, o cântico etc).
Outra igreja luterana no Brasil é a IELB (Igreja Evangélica Luterana do Brasil),
segue uma amostra de sua liturgia.

A ordem do culto é, em geral, assim:

PRIMEIRA PARTE - PREPARAÇÃO

1. Hino de Invocação.
2. Invocação
3. Exortação/Alocução Confessional
4. Confissão e Absolvição

SEGUNDA PARTE - OFÍCIO DA PALAVRA

5. Intróito / Gloria Patri


6. Kyrie
7. Gloria in Excelsis
8. Saudação / Coleta
9. Oração do dia
10. Leitura do Antigo Testamento
11. Leitura da Epístola
27

12. Gradual
13. Leitura do Evangelho
14. Hino do Dia
15. Homilia (Sermão)
16. Confissão de fé - Credo Apostólico, Niceno ou Atanasiano
17. Oração Geral da Igreja
18. Recolhimento das ofertas

TERCEIRA PARTE - CELEBRAÇÃO DA SANTA CEIA

19. Ofertório ou Hino de Santa Ceia


20. Prefácio
21. Sanctus
22. Pater Noster
23. Palavras da instituição
24. Pax domini
25. Agnus Dei
26. Distribuição da Santa Ceia - Hóstia e Vinho (Sim! Bebemos o vinho)
27. Ação de graças
28. Nunc Dimittis
29. Bendicamus
30. Benção / Ite Missa Est

4. Culto no contexto anglicano

A Reforma chegou à Inglaterra em duas etapas, a primeira sob Henrique VIII


(1509-1547), e a segunda sob seu filho Eduardo VI (1547-1553). No reinado da sucessora
de Eduardo, sua meia-irmã Maria (1553-1558), o catolicismo romano voltou m ais uma
vez. Maria morreu antes de poder extinguir todos os vestígios da Reforma em terras
anglo-saxãs, e sua sucessora Elisabete I (1558-1603), outra meia-irmã quase colocou o
país novamente no estado em que estava em 1553. O fato chave do desenvolvimento
eram os soberanos; também na Inglaterra vigorava a regra “cuis régio, eius religio” “a
religião é a do regente” 31.
A causa da separação da Inglaterra sob Henrique VIII foi seu desejo de separar-se
de sua esposa para casar-se com Ana Bolena. O Papa recusou-se a tornar nula sua
união fazendo com que Henrique VIII rompesse com Roma. Ele declarou Cranmer como o
arcebispo de Cantuária que declarou nula sua união possibilitando seu novo matrimônio.
Todas as ligações com Roma forma proibidas pelo parlamento inglês que também tornou
a coroa a cabeça da igreja inglesa32.
O culto da igreja inglesa continuou muito parecido com Roma, extremamente

31
Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2011,
pg.251.
32
Passim.
28

ritualístico com suas celebrações em latim e com pouca participação de leigos. Não
tinham nenhuma ligação com a Reforma. Contudo, Cranmer se movimentava em direção
ao protestantismo.
Muitas alterações foram feitas a partir de dele. O arcebispo Cranmer unia a
autoridade de um membro da liderança da igreja, o entusiasmo de um reformador da
primeira geração e a incomparável capacidade de escrever textos litúrgicos em sua
própria língua, tanto em traduções como em novas proposições.
Os cultos anglicanos também são chamados de missa. Há todo um ritual bem
parecido com o da igreja de Roma, contudo, eles não abrem mão de sua identidade
protestante.
A Reforma Anglicana, iniciada em 1534, foi essencialmente uma reforma litúrgica.
A grande obra da reforma inglesa não foi um tratado de teologia, como entre os
reformadores do continente, mas um livro contendo às cerimônias e ritos da Igreja,
chamado Livro de Oração Comum 30. O primeiro Livro de Oração (1549) foi obra do
arcebispo de Cantuária Thomas Cranmer que tinha três propósitos em mente ao
organizar a liturgia reformada: simplicidade, brevidade e maior uso das Escrituras na
adoração. Desta forma, Cranmer acreditava estar retomando a liturgia da Igreja Primitiva
naquilo que tinha de mais essencial. Desde então, organizar sua fé, sua adoração e sua
vida diária em torno das Sagradas Escrituras e do Livro de Oração Comum tornou-se
características dos cristãos anglicanos33.
A Liturgia Anglicana pode ser divida em quatro partes: (1) os Ritos Iniciais; (2) a
Liturgia da Palavra; (3) a Liturgia Eucarística; e (4) os Ritos Finais. Há partes fixas, que se
repetem a cada celebração, e partes móveis, que permitem outros modos de expressão
diante de Deus.
1) Os Ritos Iniciais: começam com um cântico (ou Salmo) e a procissão de entrada;
o sacerdote ocupa o seu lugar, saúda o povo, pronuncia as palavras de acolhida; conduz
o povo à confissão de pecados e pronuncia a absolvição e a Coleta do Dia.
2) A Liturgia da Palavra: consta das leituras na seguinte ordem: Antigo Testamento,
Salmo (seguido do Glória Patri se este não foi lido ao início da celebração), Novo
Testamento e Evangelho. As leituras são determinadas pelo calendário litúrgico e são
extraídas do Lecionário do LOCb (onde se segue a leitura chamada trienal: ano A, B e C,
uma para cada domingo do mês). Em seguida, vem o sermão, o credo e as orações do
povo.

33
http://www.centroestudosanglicanos.com.br/bancodetextos/liturgia/introducao_a_liturgia.pdf
29

3) A Liturgia Eucarística: no LOCb prescreve várias orações eucarísticas


alternativas, em geral inicia com o ofertório (ofertas voluntárias, em espécie, e oferta dos
elementos: Pão e Vinho, trazidos ao altar), Grande Oração Eucarística, Pai Nosso, Fração
do Pão, Comunhão, Oração Pós Comunhão.
4) Os Ritos Finais: constam da despedida, da bênção e do envio ao mundo em
missão34.
Abaixo uma amostra de liturgia para a quarta-feira de cinzas.

ANÚNCIO DA QUARESMA
A pessoa que preside se dirige à congregação com estas palavras:
Desde os dias primitivos da vida da Igreja,
o povo cristão tem observado com grande devoção
o tempo da Paixão e da Ressurreição de nosso Senhor.
É costume prepararmo-nos para essas celebrações
com penitência e jejum.
Antigamente, o tempo da Quaresma era observado pelas pessoas
que se preparavam para o Batismo na Páscoa
e por aquelas que seriam restauradas à plenitude da vida da Igreja.
Deste modo, recordava-se a mensagem de perdão e absolvição proclamada no
Evangelho,
e a constante necessidade de renovação do arrependimento e da fé.
Convido-vos, em nome da Igreja,
ao exame de consciência e ao arrependimento,
com oração, jejum e renúncia,
bem como pela leitura e meditação da santa Palavra de Deus.
E, para começar, como sinal de nossa natureza mortal,
ajoelhemo-nos agora diante do Senhor nosso Criador e Redentor.
Todo o povo fica de joelhos, ou de pé, se possível.
Guardam-se alguns momentos de silêncio.

IMPOSIÇÃO DAS CINZAS


A pessoa que preside faz a seguinte coleta.
Deus todo-poderoso, tu nos criaste do pó da terra;
concede que estas cinzas sejam para nós
sinal de nossa mortalidade e penitência,
para que nos lembremos de que é só por teu dom bondoso
que nos dás a vida eterna;
por Jesus Cristo nosso Senhor.
Amém.
A pessoa que preside impõe cinzas na testa dos fiéis,
fazendo um sinal da cruz com o polegar e proferindo as seguintes palavras:
Lembra-te de que és pó e de que ao pó voltaras.
É cantado ou lido o Salmo 51.

LITANIA PENITENCIAL
A pessoa que preside e todo o povo ficam de joelhos, se possível.
Todas as pessoas dizem, em conjunto, as partes em negrito.

34
http://www.dar.org.br/categoryblog/2634-a-liturgia-anglicana-ven-arc-rev-carlos-alberto.html
30

Deus santíssimo e misericordioso:


confessamos a ti e uns aos outros,
e a todos os santos no céu e na terra,
que temos pecado, por nossa própria culpa,
por pensamentos, palavras e ações;
pelo que temos feito e pelo que temos deixado de fazer.
Não temos te amado com todo o coração, mente e força,
nem o próximo como a nós mesmos.
Não temos perdoado os outros como nos tens perdoado.
Tem piedade de nós, Senhor.
Temos fechado os ouvidos ao teu chamado
para servir como Cristo nos serviu.
Não temos sido fiéis à mente de Cristo.
Temos entristecido o teu Espírito Santo.
Tem piedade de nós, Senhor.
Confessamos-te, Senhor,
a infidelidade passada, o orgulho,
a hipocrisia e a impaciência.
A ti, Senhor, confessamos.
Nossos apetites e hábitos egoístas
e nossa exploração dos outros,
a ti, Senhor, confessamos.
A irritação por causa de nossas frustrações
e a inveja dos mais afortunados do que nós,
a ti, Senhor, confessamos.
Nossa preocupação desmedida
com os bens e comodidades deste mundo
e nossa falta de dignidade na vida e no trabalho diário,
a ti, Senhor, confessamos.
A negligência na oração e no culto
e no testemunho da fé,
a ti, Senhor, confessamos.
Aceita, Senhor, o arrependimento
pelo mal que temos feito;
pela cegueira diante da necessidade e da dor humana
e por nossa indiferença perante a injustiça e a crueldade.
Aceita, Senhor, nosso arrependimento.
Pelos falsos juízos,
pela falta de caridade com o próximo
e pelos preconceitos e desprezo para com os que diferem de nós,
aceita, Senhor, nosso arrependimento.
Pela poluição e desperdício da tua criação,
e por nossa falta de preocupação pelos que virão depois de nós,
aceita, Senhor, nosso arrependimento.
Restaura-nos, Senhor, e afasta de nós a tua ira.
Escuta-nos com teu favor,
porque grande é a tua misericórdia.
31

Realiza em nós a obra da tua salvação.


A fim de que manifestemos tua glória no mundo.
Pela cruz e paixão de teu Filho nosso Senhor,
leva-nos com teus santos e santas
à alegria de sua ressurreição.

O(a) Bispo(a), quando presente, ou o(a) Presbítero(a), diz:


Deus todo-poderoso, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo,
que não deseja a morte de quem peca,
mas que se converta de suas maldades e viva,
deu poder e ordenou seus ministros e ministras
para declarar e pronunciar, a seu povo arrependido,
a absolvição e a remissão de seus pecados.
Ele perdoa e absolve a todas as pessoas
que verdadeiramente se arrependem e,
com sinceridade de coração, creem em seu santo Evangelho.
Portanto, roguemos-lhe que nos conceda
verdadeiro arrependimento e seu Espírito Santo,
a fim de que as obras que realizamos neste dia
lhe sejam agradáveis,
e que nossas vidas de agora em diante sejam puras e santas,
para que ao fim alcancemos a alegria eterna;
por Jesus Cristo nosso Senhor.
Amém.

SAUDAÇÃO DA PAZ
Todas as pessoas ficam de pé, se possível, e a pessoa que preside proclama:
A paz do Senhor seja sempre convosco.
Seja também contigo.
Todas as pessoas presentes podem cumprimentar-se com a paz de Cristo.
35
Quando houver celebração da Eucaristia, a liturgia continua com o Ofertório .

5. Culto no contexto reformado

A primeira característica do culto reformado a ser destacada é a ordem que


contempla a totalidade do povo de Deus; depois, o tom bíblico que lhe é próprio. Daí
resulta seu caráter de testemunho face a problemas da atualidade. Os reformados
costumam dizer Soli Deo Gloria. Mas. Em tempos mais recentes as comunidades
reformadas tentam dar ao culto um tom maior de adoração sem, contudo, abandonar seu
aspecto didático. Trata-se de culto como doxologia.
O culto reformado é a liturgia do povo. Isso quer dizer de uma celebração da qual
todos os membros da comunidade participam do começo ao fim. O canto vibrante de toda
comunidade é um sinal importante dessa participação. A leitura das Escrituras da língua

35
http://liturgia.ieab.org.br/2015/02/12/liturgia-de-quarta-feira-de-cinzas/
32

do povo e a prédica de orientação predominantemente catequética também são


prioridades do culto reformado. Mais ainda, esse culto, busca ser acessível aos
contemporâneos que se encontram fora da igreja.
O caráter popular do culto reformado resulta de uma intenção teológica. Mas,
também é fruto de um condicionamento histórico. A igreja organizada de forma
presbiteriana é evidentemente uma comunidade na qual a santificação pessoal, com
oração e a obediência cristã vivenciada no cotidiano, desempenha um papel decisivo.
Isso deixa sua marca no culto, cujo propósito é servir de edificação pessoal. No culto
comunitário todos confessam seus pecados e são equipados na fé para seguir a Jesus e
louvar a Deus36.
Do ponto de vista histórico, as igrejas reformadas no século 16 são herdeiras de
uma singular tradição litúrgica popular. Na Idade Média tardia, a prédica na língua do
povo, provida de uma moldura litúrgica simples, desenvolveu-se nas cidades suíças e na
alta Alemanha, vindo a tornar-se um culto próprio. Era uma alternativa a liturgia clerical e
sacramental da igreja católica romana. As cidades chegaram até a criar pastorados
próprios para a realização desse tipo de culto – ainda em época anterior a Reforma37.
O culto de pregação reformado com sua secura litúrgica nada mais é do que a
alternativa chamado pronaus medieval, que se separa da missa. A comunhão celebrada
nesse culto (raramente, apesar das advertências de João Calvino), é do ponto de vista
formal, uma mera distribuição dos elementos da santa ceia sem oração de consagração
ou cânon38. O desenvolvimento da liturgia reformada da ceia tem suas raízes foras da
tradição da missa ocidental. Mais tarde, os reformados transformaram o partir do pão em
uma consagração, dando-lhe, a partir do século 18, uma designação correspondente. Mas,
a herança “paralitúrgica” pode ser sentida até os dias de hoje no culto reformado.
Em termos positivos, o culto reformado busca ser compreensivo a todos e
participativo a toda a comunidade. ‘
A Palavra bíblica encontra, por tradição, no centro do culto reformado. Aspecto que
às vezes tem faltado em nossas comunidades, infelizmente. Inicialmente o louvor era
apenas cântico de salmos e tinham função didática de ensinar a Bíblia aos ouvintes, além,
claro, de adorar a Deus. Hoje vemos uma proeminência dos cânticos em detrimento da
Palavra e mesmo de nosso hinário. Há comunidades que não o usma mais.
Abaixo segue um exemplo de liturgia reformada bem tradicional.

36
Schimidt-Lauber, Hans-Chistoph. Manual de Ciência Litúrgica – Sinodal – São Leopoldo-RS, 2011,
pg.235.
37
Idem.
38
Idem.
33

Modelo de culto para o primeiro domingo após o natal – ano A.


(O = Oficiante C = Congregação T = Todos L = Leitor M = Ministro)
Ritos Iniciais ou Liturgia da Acolhida
SINOS e/ou PRELÚDIO MUSICAL – O Tannenbaum
INTRÓITO CANTADO – hino n° 248 – (248-NO HUMILDE PRESÉPIO) – slides
SAUDAÇÃO INICIAL E AVISOS COMUNITÁRIOS

CANTO DE ENTRADA (PROCESSIONAL) – hino n° 24 – (24-CONVITE AO LOUVOR) – slides


SAUDAÇÃO TRINITÁRIA E VOTO

O = Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

C = Amém.
O = Elevo meus olhos para os montes; de onde me virá o socorro?

C = O nosso socorro está em o nome do Senhor, criador dos céus e da terra.


SENTENÇA BÍBLICA PARA O TEMPO DO NATAL

O = Nisto se manifestou o amor de Deus em nós: em haver Deus enviado o seu Filho como propiciação
pelos nossos pecados.

C = O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. E vimos sua glória, glória
como do Unigênito do Pai.
DOXOLOGIA – hino n° 17 – (17-DEUS SEJA LOUVADO) – slides
COLETA INTRODUTÓRIA (oração em favor do culto)
CHAMADA À CONTRIÇÃO

SUMÁRIO DA LEI

O = Escutai o que diz o nosso Senhor Jesus Cristo: Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda
a tua alma, e de todo o teu entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo,
semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a
Lei e os Profetas.

O = Senhor, tem misericórdia de nós.

C = Cristo, tem misericórdia de nós.


O = Senhor, tem misericórdia de nós.

CANTO DE CONTRIÇÃO – hino n° 70 – (70-DESCANSO EM JESUS) – slides


CONFISSÃO PÚBLICA DE PECADOS

Confessamos a ti, ó Deus Todo-Poderoso, perante vós, nossos irmãos, e toda a companhia dos céus, que
temos pecado excessivamente, contra ti, contra nosso próximo e contra nós mesmos, por nossas ações, por
nossa omissão, em nossas palavras ou em nossos pensamentos; por nossa culpa, nossa própria culpa,
nossa tão grande culpa. Rogamos-te, ó Deus, que nos conceda verdadeiro arrependimento e, por amor do
teu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, perdoa-nos os pecados e dá-nos a graça de te servirmos com alegria,
para a honra e glória do teu santo nome, amém.

CONFISSÃO INDIVIDUAL SILENCIOSA

ABSOLVIÇÃO
34

O = Nosso Deus de bondade e de misericórdia, que entregou o teu Filho para perdão de nossos pecados,
promete-o aos que os confessarem com arrependimento e fé. Assim sendo, que o Senhor tenha
misericórdia de vós, perdoe os vossos pecados e vos conduza para a vida eterna.

C = Amém.
CANTO DE REDENÇÃO – hino n° 249 – (249-NA MANJEDOURA) – slides
Liturgia da Palavra
COLETA DO DIA

O = O Senhor esteja convosco.

C= Seja também contigo.


O = Oremos […]

C = Amém.
PRIMEIRA LEITURA

O ou L = A Palavra do Senhor conforme o Livro do profeta Isaías, capítulo 63, versos 7 ao 9.

(leitura)

O ou L = Palavra do Senhor.

C = Graças a Deus.
SALMO

148 (leitura em uníssono)

GLÓRIA PATRI (hino n° 005) – (05-TRINDADE ADORADA) – slides


SEGUNDA LEITURA

O ou L = A Palavra do Senhor conforme a Epístola aos Hebreus, capítulo 2, versos 10 ao 18.

(leitura)

O ou L = Palavra do Senhor.

C = Graças a Deus
ACLAMAÇÃO DO EVANGELHO – hino n° 244 – (244-A MENSAGEM DOS PASTORES) – slides
O ou L = O Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo relato de São Mateus, evangelista,
capítulo 2, versos 13 ao 23.

C = Glória ao Senhor agora e para sempre!


(Leitura do Evangelho)

O ou L = O Evangelho é o poder de Deus para Salvação.

C = Glória a Ti Senhor!
ORAÇÃO POR ILUMINAÇÃO (ao final desta oração segue-se a Oração Dominical caso não haja
celebração da Ceia ou Batismo)
O = […] em nome de Jesus Cristo que nos ensinou a orar dizendo:

T = Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino, seja feita a tua
vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje. Perdoa as nossas
35

dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação, mas
livra-nos do mal. Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre, amém.
SERMÃO

CANTO PRÓPRIO – hino n° 140 - (140-JORNADA DO CRENTE) – slides


CONFISSÃO DE FÉ

Credo Apostólico

T = Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso Criador do Céu e da Terra.


Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito
Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e
sepultado; desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu e está sentado à
direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja universal; na comunhão dos santos; na remissão dos
pecados; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.
ORAÇÃO DOS FIÉIS – (caso não haja celebração da Ceia do Senhor ou do Santo Batismo, segue-se para
os ritos finais).
Liturgia dos Sacramentos
SAUDAÇÃO DA PAZ

O = A paz do Senhor seja sempre convosco!

C = Seja também contigo.


O = Saudemo-nos com a paz do Senhor.

CONVITE A AÇÃO DE GRAÇAS E OFERTÓRIO – hino n° 61 – (61-AÇÕES DE GRAÇAS) – slides


DIÁLOGO E SURSUM CORDA

M = O Senhor esteja convosco.

C = E também contigo.
M = Elevemos os corações.

C = Ao Senhor os elevamos.
M = Damos graças ao Senhor nosso Deus.

C = Pois fazê-lo é justo e bom.


PREFÁCIO EUCARÍSTICO

M = Pois tu entregaste teu único Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor, para se encarnar por nós; o qual, por
obra do Espírito Santo, tornou-se verdadeiramente homem, nascido da virgem Maria, livre de mácula do
pecado para que nos pudesse livrar do nosso próprio pecado. Portanto, com os Anjos e os Arcanjos, com
os Patriarcas e os Profetas, com os Santos Apóstolos, os Mártires e os Doutores da Igreja, e com teus
eleitos de todas as eras e lugares, unimos nossas vozes ao coro celestial, que não cessa de louvar teu
nome, cantando:

T = Santo, santo, santo é o Senhor, Deus dos exércitos; toda a terra está cheia da tua glória. Ou pode
ser cantado o hino n° 012 – (12-GLÓRIA À DEUS) – slides
M = Hosana nas alturas!

C = Bendito o que vem em nome do Senhor!


T = Hosana nas maiores alturas!
ANAMNESE
36

M = Toda a glória e ação de graças sejam dadas a ti, ó Senhor, Deus Todo-Poderoso, pois tu, em tua terna
misericórdia, enviaste teu único Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor, para sofrer a morte sobre a Cruz para a
nossa redenção, oferecendo, de uma vez por todas, sacrifício perfeito e suficiente para o perdão de
pecados de toda a humanidade. Graças de damos ainda pois, estando à véspera de se entregar para a
nossa salvação, o Senhor instituiu o Sacramento do Pão e do Vinho, para que celebrássemos a comunhão
de seu Corpo e Sangue, em memória de seu sacrifício, o qual agora nos achegamos à tua Santa Mesa para
celebrar.

A INSTITUIÇÃO, A FRAÇÃO DO PÃO E A CONSAGRAÇÃO DO CÁLICE.

M = Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi
traído, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e disse: isto é o meu corpo, que é partido por vós; fazei
isto em memória de mim.

M= Por semelhante modo, depois de haver dado ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a
nova aliança em meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.

A EPÍCLISE

M = Envia sobre nós, Senhor, o teu Santo Espírito, e santifica estas ofertas de pão e vinho, de modo que ao
participarmos da tua Santa Ceia, cumpra-se a tua bendita Palavra, e partilhemos verdadeiramente da
comunhão do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O MISTÉRIO DA FÉ

M = Pois nisto consiste o mistério da nossa fé, o motivo da nossa esperança:

T = Todas as vezes que comemos deste pão e bebemos deste cálice, anunciamos a morte e a
ressurreição do Senhor, até que ele venha.
ORAÇÃO DO SENHOR

M = E confiados nesta fé, nós oramos como nosso Senhor nos ensinou, dizendo:

T = Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino, seja feita a tua
vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje. Perdoa as nossas
dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação, mas
livra-nos do mal. Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre, amém.
DOXOLOGIA FINAL E AMÉM

M = Por Cristo, com Cristo e em Cristo, a ti, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, sejam
dadas toda a honra e toda a glória, agora e para sempre.

C = Tríplice Amém
COMUNHÃO DO PÃO E DO CÁLICE

M = O pão que partimos é a comunhão do Corpo de Cristo.

C = Amém.
M = O cálice que abençoamos é a comunhão do Sangue de Cristo.

CANTOS DA COMUNHÃO E PÓS-COMUNHÃO – hino n° 344 – (344-A CEIA DO SENHOR) – Slides / hino
n° 292 – (292-A VINDA DO SENHOR) – slides
ORAÇÃO DE AÇÃO DE GRAÇAS PELA COMUNHÃO

Ritos Finais ou Liturgia de Despedida e Envio


37

ORAÇÃO PASTORAL DE ENVIO E BÊNÇÃO

M = A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos
vós. E assim abençoe-vos o Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, hoje e por todo o sempre.

C = Tríplice Amém

CANTO DE ENVIO – Cântico de Simeão (Nunc Dimittis) – (Cântico de Simeão – Hinário Episcopal-HE) –
slides
POSLÚDIO E RECESSIONAL – hino n° 128
O = Ide em paz, para serdes testemunhas de Jesus Cristo, e que o Senhor vos abençoe e vos acompanhe.

C= Graças a Deus!
Liturgia extraída do Manual do Culto – Ordem para o Culto Público, Rito 1 (Sociedade Pela Liturgia
Reformada).

Um segundo exemplo mais enxuto e simples.

Liturgia do 1º Domingo da Quaresma


Ano: B Cor: Roxo

Em Cristo fomos perdoados!

Acolhida Pastoral:
Cântico Congregacional: Hino nº 107 “Ao pé da Cruz”
Leitura bíblica: 1 Pedro 3.18-22
Oração de confissão de pecados:
Sentença da Graça: “para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu
gratuitamente no Amado, no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão
dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,” Efésios 1.6-7
Oração em agradecimento pelo perdão:
Chamada das crianças para o culto infantil:

Adoramos a Deus, pois, fez uma aliança conosco!

Leitura bíblica alternada: Gênesis 9.8-17


Cântico Congregacional: Hino nº 52 “Glória e Coroação”
Oração de adoração:

Confiamos em Deus como nosso socorro!

Leitura bíblica alternada: Salmo 25.1-10


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Cântico Congregacional: Hino nº 32 “O Deus Fiel”


Oração Gratulatória:

Dos nossos lábios nasce louvor a Deus!

Equipe de Louvor:

Deus nos revela Sua vontade através da Palavra!

Oração por iluminação:


Leitura bíblica: Marcos 1.12-15
Proclamação da Palavra:
Envio
Bênção Apostólica

Liturgia e Pós-Modernidade

Outro aspecto da liturgia é sua contextualização. A igreja situa-se no mundo,


apesar, de não ser deste. Geralmente a postura da igreja em relação à cultura é apenas
de crítica e denúncia. Aspectos que fazem parte da missão da igreja, contudo, um diálogo
com a cultura também pode ser salutar na comunicação do evangelho.
As culturas são produtos da criação humana. Fazemos cultura e somos
influenciados por ela. Vivemos numa cultura que privilegia a razão. Uma das coisas mais
difíceis no cristianismo é a conciliação da razão com a emoção, com o místico. Temos
expressões que retiram o místico quase que totalmente do culto, outros, porém, fazem do
elemento místico o centro da celebração. Dividimos em dois polos, os racionalistas e os
místicos. Esquecemos que qualquer culto deve conter ambos. A fé, por si só, é elemento
místico. A atuação do Espírito Santo através da pregação da Palavra é mística. Contudo,
o culto também é racional, ou seja, inteligível. Ele deve ser capaz de ser compreendido e
percebido também pela razão. Na época em que vivemos, que é chamada pós-
modernidade, onde cada um tem sua opinião e seu entendimento das coisas. Onde tudo
pode ser questionado e rejeitado sem prévio conhecimento de causa. Um tempo onde o
hedonismo exerce grande influência sobre as decisões humanas, como fazer a liturgia
relevante?
Devemos buscar fazer da liturgia algo extraordinário, no sentido de que seja
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marcante para quem participa. O culto deve ser um momento único em nossa vida. Não
podemos pensar que no próximo domingo teremos “mais do mesmo”. Isso não é uma
tarefa fácil. Estudiosos da liturgia tentam achar esse mecanismo até hoje sem um
sucesso absoluto. O culto na igreja antiga tinha um elemento memorial muito acentuado,
ou seja, eles realizavam o culto como se o que fizessem fosse como Cristo fez com seus
seguidores. Eles buscavam, não apenas repetição, mas sentir o que se sentiu, por
exemplo, na última ceia com Jesus. Buscavam ouvir a pregação como se o próprio Cristo
estivesse pregando. Essa atitude facilitava que o culto fosse um evento único
extraordinário.
Nossa tarefa é fazer e usar meios que sejam veículos para a vivência cristã e para
o culto cristão. Cada comunidade tem suas singularidades, por isso, fórmulas são bem
difíceis de serem encontradas. Deve haver sensibilidade suficiente para entender e julgar
o que serve e o que não serve na liturgia. Uma amostra disso é a decisão do Supremo
Concílio sobre a chamada “dança litúrgica”, ou coreografia. Viu-se que ela não constitui
elemento regular do culto do senhor, por isso, não há lugar na liturgia para ela. Mas, a
dança é pecado? A princípio, não. Entretanto, há ocasião e lugar para ela.
Nessa pós-modernidade onde o ser humano é o centro de todas as coisas e a
medida delas, o culto parece um elemento estranho, pois, não parte do princípio que
agradar o homem é preponderante. Sabemos que o culto é do Senhor e a liturgia é
voltada a Ele. Mas, o paradoxo é de que devemos fazê-la agradável ao ser humano
também, mas de forma que não descaracterize o culto. Quem não gosta de ouvir um bom
solo, ou mesmo o coral, ou mesmo o grupo de louvor tocando músicas que nos fazem
sentir-se no céu?
Devemos conjugar as palavras tradição e contextualização juntas e sem abusar de
nenhuma delas. Tratá-las com equilíbrio para o bem do povo de Deus e Seu culto.